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85. O Rapto de Subhadrā e a Visita do Senhor Kṛṣṇa a Śrutadeva e Bahulāśva

Após ouvir esse incidente, o rei Parīkṣit ficou ainda mais curioso por ouvir sobre Kṛṣṇa e Seus passatempos, e então perguntou a Śukadeva Gosvāmī como sua avó Subhadrā fora raptada por seu avô Arjuna por instigação do Senhor Kṛṣṇa. O rei Parīkṣit estava muito ansioso por saber como seu avô raptara e desposara sua avó.

Assim, Śukadeva Gosvāmī começou a narrar a história da seguinte maneira: "Certa vez, seu avô Arjuna, o grande herói, visitava vários lugares sagrados de peregrinação e, enquanto viajava dessa maneira por toda parte, aconteceu de chegar a Prabhāsakṣetra. Em Prabhāsakṣetra, ele ouviu a notícia de que o Senhor Balarāma estava negociando o casamento de Subhadrā, a filha do tio materno de Arjuna, Vasudeva. Embora o pai dela, Vasudeva, e o irmão dela, Kṛṣṇa, não estivessem de acordo com Ele, Balarāma era a favor de casar Subhadrā com Duryodhana. Arjuna, contudo, desejava obter a mão de Subhadrā."

Ao pensar em Subhadrā e em sua beleza, Arjuna ficou cada vez mais cativado pela ideia de casar-se com ela e, com um plano em mente, vestiu-se como um *sannyāsī* vaiṣṇava, levando uma *tridaṇḍa* na mão. Os *sannyāsīs* māyāvādīs adotam uma *daṇḍa*, ou uma vara, ao passo que os *sannyāsīs* vaiṣṇavas adotam três *daṇḍas*, ou três varas. As três varas, ou *tridaṇḍa*, indicam que o *sannyāsī* vaiṣṇava faz voto de prestar serviço à Suprema Personalidade de Deus com o corpo, a mente e as palavras. O sistema de *tridaṇḍa-sannyāsa* existe há muito tempo, e os *sannyāsīs* vaiṣṇavas são chamados *tridaṇḍīs* ou, às vezes, *tridaṇḍi-svāmīs* ou *tridaṇḍi-gosvāmīs*.

Em geral, os *sannyāsīs* destinam-se a viajar por todo o país em trabalho de pregação, mas, durante os quatro meses da estação das chuvas na Índia, de setembro a dezembro, eles não viajam; abrigam-se em um lugar e ali permanecem sem se deslocar. Essa imobilidade do *sannyāsī* chama-se *Cāturmāsya-vrata*. Quando um *sannyāsī* permanece em um lugar durante quatro meses, os habitantes locais daquele lugar aproveitam sua presença para avançarem espiritualmente.

Arjuna, com a roupa de um *tridaṇḍi-sannyāsī*, permaneceu na cidade de Dvārakā durante quatro meses, elaborando um plano pelo qual pudesse obter Subhadrā como esposa. Os habitantes de Dvārakā, bem como o Senhor Balarāma, não puderam reconhecer que aquele *sannyāsī* era Arjuna; por isso, todos ofereciam respeito e reverências ao *sannyāsī* sem conhecer a verdadeira situação.

Um dia, o Senhor Balarāma convidou esse *sannyāsī* em particular para almoçar em Sua casa. Balarāmajī ofereceu-lhe muito respeitosamente toda espécie de pratos saborosos, e o suposto *sannyāsī* comia suntuosamente. Enquanto comia na casa de Balarāmajī, Arjuna simplesmente contemplava a bela Subhadrā, que era muito encantadora até mesmo para os grandes heróis e reis. Por amor a ela, os olhos de Arjuna brilharam, e ele começou a vê-la com olhos cintilantes. Arjuna decidiu que, de uma maneira ou de outra, conseguiria Subhadrā como sua esposa, e sua mente ficou agitada por causa desse forte desejo.

Arjuna, o avô de Mahārāja Parīkṣit, era ele próprio extraordinariamente belo, e sua estrutura corporal era muito atrativa para Subhadrā. Subhadrā também decidiu em sua mente que aceitaria apenas Arjuna como esposo. Como moça simples, ela sorria com grande prazer, olhando para Arjuna. Assim, Arjuna também ficava cada vez mais atraído por ela. Dessa maneira, Subhadrā dedicou-se a Arjuna, e ele resolveu casar-se com ela por quaisquer meios. Ele ficou, então, absorto vinte e quatro horas por dia em pensar em como poderia obter Subhadrā como sua esposa. Ele estava aflito com o pensamento de conseguir Subhadrā e não tinha um momento de paz de espírito.

Certa ocasião, Subhadrā, sentada em uma quadriga, saiu da fortaleza do palácio para ver os deuses no templo. Arjuna aproveitou essa oportunidade e, com a permissão de Vasudeva e Devakī, raptou-a. Depois de subir na quadriga de Subhadrā, ele se preparou para a luta. Empunhando seu arco e detendo com suas flechas os soldados que tinham ordem de impedi-lo, Arjuna levou Subhadrā embora. Enquanto Subhadrā era assim raptada por Arjuna, seus parentes e familiares começaram a chorar, mas, mesmo assim, ele a levou, assim como um leão toma sua presa e parte. Quando se revelou ao Senhor Balarāma que o suposto *sannyāsī* era Arjuna, que ele havia planejado semelhante artifício simplesmente para levar embora Subhadrā e que de fato a havia levado, Ele ficou muito irado. Assim como as ondas do oceano se agitam em um dia de lua cheia, o Senhor Balarāma ficou imensamente perturbado.

O Senhor Kṛṣṇa estava a favor de Arjuna; por isso, junto com outros membros da família, Ele tentou apaziguar Balarāma, caindo a Seus pés e suplicando-Lhe que perdoasse Arjuna. O Senhor Balarāma convenceu-se, então, de que Subhadrā estava apegada a Arjuna e ficou satisfeito de saber que ela queria Arjuna como esposo. A questão ficou resolvida e, para agradar o casal recém-casado, o Senhor Balarāma providenciou o envio de um dote que consistia em uma abundância de riquezas, elefantes, quadrigas, cavalos, servos e servas.

Mahārāja Parīkṣit estava muito ansioso por ouvir mais sobre Kṛṣṇa, e assim, depois de terminar a narração do rapto de Subhadrā por Arjuna, Śukadeva Gosvāmī começou a narrar outra história, como segue.

Havia um *brāhmaṇa* chefe de família na cidade de Mithilā, a capital do reino de Videha. Esse *brāhmaṇa*, cujo nome era Śrutadeva, era um grande devoto do Senhor Kṛṣṇa. Por ser plenamente consciente de Kṛṣṇa e estar sempre ocupado no serviço do Senhor, ele tinha a mente completamente pacífica e era desapegado de toda atração material. Era muito erudito e não tinha outro desejo senão o de situar-se plenamente em consciência de Kṛṣṇa. Embora estivesse na ordem de vida familiar, ele nunca se esforçava muito para ganhar algo para seu sustento; satisfazia-se com aquilo que pudesse obter sem muito empenho e, de uma maneira ou de outra, vivia desse modo. Todos os dias, ele obtinha as necessidades da vida apenas na quantidade requerida, e não mais. Esse era o seu destino. O *brāhmaṇa* não tinha desejo de obter mais do que precisava e, dessa forma, executava pacificamente os princípios reguladores da vida de *brāhmaṇa*, como prescrevem as escrituras reveladas.

Felizmente, o rei de Mithilā era um devoto tão bom quanto o *brāhmaṇa*. O nome desse famoso rei era Bahulāśva. Ele estava muito bem estabelecido em sua reputação de bom rei e não tinha ambição alguma de expandir seu reino em troca de gratificação dos sentidos. Assim sendo, tanto o *brāhmaṇa* quanto o rei Bahulāśva permaneciam devotos puros do Senhor Kṛṣṇa em Mithilā.

Como o Senhor Kṛṣṇa era muito misericordioso com esses dois devotos, o rei Bahulāśva e o *brāhmaṇa* Śrutadeva, Ele, certo dia, pediu a Seu condutor, Dāruka, que levasse Sua quadriga à capital de Mithilā. O Senhor Kṛṣṇa estava acompanhado pelos grandes sábios Nārada, Vāmadeva, Atri, Vyāsadeva, Paraśurāma, Asita, Aruṇi, Bṛhaspati, Kaṇva, Maitreya, Cyavana e outros. O Senhor Kṛṣṇa e os sábios passavam por muitas vilas e cidades, e em toda parte os cidadãos os recebiam com grande respeito e lhes ofereciam artigos de adoração. Quando os cidadãos vinham ver o Senhor e todos se reuniam em um só lugar, parecia que o sol estava presente junto com seus vários planetas satélites. Nessa viagem, o Senhor Kṛṣṇa e os sábios atravessaram os reinos de Ānarta, Dhanva, Kuru-jāṅgala, Kaṅka, Matsya, Pāñcāla, Kunti, Madhu, Kekaya, Kośala e Arṇa, e, dessa forma, todos os cidadãos desses lugares, tanto homens quanto mulheres, puderam ver o Senhor Kṛṣṇa face a face. Assim, eles desfrutaram de felicidade celestial, com os corações abertos e plenos de amor e afeição pelo Senhor, e, quando viam o rosto do Senhor, parecia-lhes que bebiam néctar pelos olhos. Quando viam Kṛṣṇa, todas as ignorantes concepções errôneas de suas vidas se dissipavam. Quando o Senhor passava pelos vários países e as pessoas vinham visitá-lO, simplesmente por lançar Seu olhar sobre elas, o Senhor lhes concedia toda a boa fortuna e as libertava de todas as espécies de ignorância. Em alguns lugares, os semideuses também se juntavam aos seres humanos, e sua glorificação ao Senhor limpava todas as direções de todas as coisas inauspiciosas. Dessa maneira, o Senhor Kṛṣṇa, pouco a pouco, chegou ao reino de Videha.

Quando os cidadãos receberam a notícia da chegada do Senhor, todos sentiram felicidade ilimitada e vieram dar-Lhe as boas-vindas, levando presentes nas mãos para oferecer. Logo que viam o Senhor Kṛṣṇa, seus corações imediatamente desabrochavam em bem-aventurança transcendental, assim como a flor de lótus desabrocha ao nascer do sol. Anteriormente, eles tinham apenas ouvido os nomes dos grandes sábios, mas nunca os tinham visto. Agora, pela misericórdia do Senhor Kṛṣṇa, tinham a oportunidade de ver tanto os grandes sábios quanto o próprio Senhor.

O rei Bahulāśva, bem como o *brāhmaṇa* Śrutadeva, sabendo muito bem que o Senhor fora ali apenas para agraciá-los com Seu favor, imediatamente caíram aos pés de lótus do Senhor e ofereceram seus respeitos. De mãos postas, o rei e o *brāhmaṇa*, cada um simultaneamente, convidaram o Senhor Kṛṣṇa e todos os sábios para suas casas. Para agradar a ambos, o Senhor Kṛṣṇa expandiu-Se em dois e foi à casa de cada um deles; no entanto, nem o rei nem o *brāhmaṇa* puderam compreender que o Senhor fora à casa do outro. Ambos pensavam que o Senhor fora apenas à sua própria casa. O fato de Ele e Seus companheiros estarem presentes em ambas as casas, embora tanto o *brāhmaṇa* quanto o rei pensassem que Ele estava presente somente em sua própria casa, é outra opulência da Suprema Personalidade de Deus. Essa opulência é descrita nas escrituras reveladas como *vaibhava-prakāśa*. De modo semelhante, quando o Senhor Kṛṣṇa Se casou com dezesseis mil esposas, Ele também Se expandiu em dezesseis mil formas, cada uma delas tão poderosa quanto Ele mesmo. Igualmente, em Vṛndāvana, quando Brahmā roubou as vacas, os bezerros e os vaqueirinhos de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Se expandiu em muitas novas vacas, novos bezerros e novos vaqueirinhos.

Bahulāśva, o rei de Videha, era muito inteligente e era um perfeito cavalheiro. Ele estava atônito pelo fato de tantos grandes sábios, junto com a Suprema Personalidade de Deus, estarem pessoalmente presentes em sua casa. Ele sabia perfeitamente bem que a alma condicionada, especialmente quando ocupada em afazeres mundanos, não pode ser cem por cento pura, ao passo que a Suprema Personalidade de Deus e Seus devotos puros são sempre transcendentais à contaminação mundana. Por isso, quando percebeu que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e todos os grandes sábios estavam em sua casa, ele ficou atônito e começou a agradecer ao Senhor Kṛṣṇa por Sua misericórdia imotivada.

Sentindo-se muito agradecido e querendo receber seus hóspedes da melhor maneira possível, ele mandou trazer belas cadeiras e almofadas, e o Senhor Kṛṣṇa, junto com todos os sábios, sentou-Se muito confortavelmente. Naquele momento, a mente do rei Bahulāśva estava muito inquieta, não por causa de problemas, mas devido ao grande êxtase de amor e devoção. Seu coração estava cheio de amor e afeição pelo Senhor e Seus associados, e seus olhos estavam cheios de lágrimas de êxtase. Ele providenciou que se lavassem os pés de seus divinos hóspedes e, depois de lavá-los, ele e os membros de sua família aspergiram a água sobre as próprias cabeças. Depois disso, ele ofereceu aos hóspedes belas guirlandas de flores, polpa de sândalo, incenso, roupas novas, ornamentos, lamparinas, vacas e touros. De maneira condizente com sua posição real, ele adorou cada um deles dessa forma. Quando todos haviam sido alimentados suntuosamente e estavam sentados muito confortavelmente, Bahulāśva apresentou-se diante do Senhor Kṛṣṇa e tomou Seus pés de lótus. Colocou-os em seu colo e, enquanto massageava os pés com as mãos, começou a falar sobre as glórias do Senhor com voz doce.

"Meu querido Senhor, Vós sois a Superalma de todas as entidades vivas e, como testemunha dentro do coração, estais ciente das atividades de todos. Assim sendo, por dever, sempre pensamos em Vossos pés de lótus, para que possamos permanecer em uma posição segura, sem nos desviarmos de Vosso serviço eterno. Como resultado de nossa contínua lembrança de Vossos pés de lótus, Vós bondosamente visitastes minha casa em pessoa para me favorecer com Vossa misericórdia imotivada. Ouvimos dizer, meu querido Senhor, que, por meio de Vossas várias declarações, confirmais que Vossos devotos puros Vos são mais queridos do que o Senhor Balarāma ou Vossa serva constante, a deusa da fortuna. Vossos devotos Vos são mais queridos do que Vosso primeiro filho, o Senhor Brahmā, e estou certo de que visitastes tão bondosamente minha casa a fim de provar Vossa divina declaração. Não posso imaginar como as pessoas podem ser ímpias e demoníacas mesmo depois de conhecerem Vossa misericórdia imotivada e Vossa afeição por Vossos devotos, que estão constantemente ocupados em consciência de Kṛṣṇa. Como podem elas se esquecer de Vossos pés de lótus?

"Meu querido Senhor, sabemos que sois tão bondoso e generoso que, quando uma pessoa abandona tudo apenas para ocupar-se em consciência de Kṛṣṇa, Vós, às vezes, Vos dais em troca desse serviço imaculado. Vós aparecestes na dinastia Yadu para cumprir Vossa missão de resgatar todas as almas condicionadas que apodrecem nas atividades pecaminosas da existência material, e esse aparecimento já é famoso no mundo inteiro. Meu querido Senhor, Vós sois o oceano de ilimitada misericórdia, amor e afeição. Vossa forma transcendental é plena de bem-aventurança, conhecimento e eternidade. Podeis atrair o coração de todos por meio de Vossa bela forma de Śyāmasundara, Kṛṣṇa. Vosso conhecimento é ilimitado e, para ensinar a todas as pessoas como executar o serviço devocional, enviastes Vossa encarnação Nara-Nārāyaṇa, que Se ocupa em severas austeridades e penitências em Badarīnārāyaṇa. Por favor, portanto, aceitai minhas humildes reverências a Vossos pés de lótus. Meu querido Senhor, peço-Vos, a Vós e a Vossos companheiros, os grandes sábios e *brāhmaṇas*, que permaneçais em minha casa, para que esta família do famoso rei Nimi possa ser santificada pela poeira de Vossos pés de lótus pelo menos por alguns dias." O Senhor Kṛṣṇa não podia recusar o pedido de Seu devoto e, assim, permaneceu ali por alguns dias junto com os sábios, a fim de santificar a cidade de Mithilā e todos os seus cidadãos.

Enquanto isso, o *brāhmaṇa*, que recebia simultaneamente o Senhor Kṛṣṇa e Seus associados em sua casa, ficou transcendentalmente dominado pela alegria. Depois de oferecer aos hóspedes belos lugares para se sentarem, o *brāhmaṇa* começou a dançar, agitando seu manto ao redor do corpo. Śrutadeva, que não era nada rico, ofereceu apenas colchões, tábuas de madeira, esteiras de palha etc. a seus ilustres hóspedes, o Senhor Kṛṣṇa e os sábios, mas deu-lhes as boas-vindas conforme sua melhor capacidade. Ele começou a falar muito elogiosamente do Senhor e dos sábios, e ele e sua esposa lavaram os pés de cada um deles. Depois disso, ele pegou a água e aspergiu-a sobre todos os membros de sua família, e, embora parecesse que o *brāhmaṇa* era muito pobre, ele era, naquele momento, muito afortunado. Enquanto dava as boas-vindas ao Senhor Kṛṣṇa e a Seus associados, Śrutadeva simplesmente se esqueceu de si mesmo em alegria transcendental. Após dar as boas-vindas ao Senhor e a Seus companheiros, segundo sua capacidade, ele trouxe frutas, incenso, água perfumada, argila perfumada, folhas de *tulasī*, palha *kuśa* e flores de lótus. Não eram artigos muito caros e podiam ser conseguidos com muita facilidade, mas, como foram oferecidos com amor devocional, o Senhor Kṛṣṇa e Seus associados os aceitaram com muito prazer. A esposa do *brāhmaṇa* cozinhou alimentos muito simples, como arroz e dhal, e o Senhor Kṛṣṇa e Seus seguidores ficaram muito satisfeitos em aceitá-los, porque foram oferecidos com amor devocional. Enquanto o Senhor Kṛṣṇa e Seus associados eram alimentados dessa maneira, o *brāhmaṇa* Śrutadeva pensava assim: "Eu caí no poço profundo e escuro da vida familiar e sou a pessoa mais desventurada. Como se tornou possível que o Senhor Kṛṣṇa, que é a Suprema Personalidade de Deus, e Seus associados, os grandes sábios, cuja simples presença torna um lugar tão santificado quanto um local de peregrinação, tenham concordado em vir à minha casa?" Enquanto o *brāhmaṇa* pensava dessa maneira, os hóspedes terminaram o almoço e se sentaram muito confortavelmente. Naquele momento, o *brāhmaṇa* Śrutadeva, com sua esposa, filhos e outros parentes, apresentou-se ali para prestar serviço aos ilustres hóspedes. Enquanto tocava os pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa, o *brāhmaṇa* começou a falar.

"Meu querido Senhor", disse ele, "Vós sois a Pessoa Suprema, Puruṣottama, situada transcendentalmente em relação à criação material manifesta e imanifesta. As atividades deste mundo material e das almas condicionadas nada têm a ver com Vossa posição. Podemos apreciar que não é apenas hoje que me concedeis Vossa audiência. Vós Vos associais com todas as entidades vivas como Paramātmā desde o início da criação."

Essa declaração do *brāhmaṇa* é muito instrutiva. É um fato que o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, em Seu aspecto Paramātmā, entrou na criação deste mundo material como Mahā-Viṣṇu, Garbhodakaśāyī Viṣṇu e Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, e, com uma atitude muito amistosa, o Senhor está sentado junto com a alma condicionada no corpo. Por conseguinte, toda entidade viva tem o Senhor consigo desde o próprio início, mas, devido à sua equivocada consciência de vida, a entidade viva não pode compreender isso. Quando sua consciência, porém, é transformada em consciência de Kṛṣṇa, ela pode compreender imediatamente como Kṛṣṇa está tentando ajudar as almas condicionadas a saírem do enredamento material.

Śrutadeva continuou: "Meu querido Senhor, Vós entrastes neste mundo material como se estivésseis em estado de sono. A alma condicionada, enquanto dorme, cria mundos falsos ou temporários em sua mente; ela se ocupa em muitas atividades ilusórias — às vezes tornando-se rei, às vezes sendo assassinada ou, às vezes, indo a uma cidade desconhecida —, e tudo isso são apenas assuntos temporários. De modo semelhante, Vossa Onipotência, aparentemente também em estado de sono, entra neste mundo material para criar uma manifestação temporária, não para Vossas necessidades pessoais, mas para a alma condicionada que quer imitar Vossa Onipotência como desfrutador. O desfrute da alma condicionada no mundo material é temporário e ilusório. E, no entanto, a alma condicionada é, por si mesma, incapaz de criar semelhante situação temporária para seu desfrute ilusório. Para satisfazer os desejos dela, embora sejam temporários e ilusórios, Vós entrais nesta manifestação temporária para ajudá-la. Assim, desde o início da entrada da alma condicionada no mundo material, Vós sois seu companheiro constante. Por isso, quando a alma condicionada entra em contato com um devoto puro e adota o serviço devocional, começando pelo processo de ouvir Vossos passatempos transcendentais, glorificar Vossas atividades transcendentais, adorar Vossa forma eterna no templo, oferecer-Vos orações e participar de conversas para compreender Vossa posição transcendental, ela gradualmente se livra da contaminação da existência material. Seu coração se limpa de toda a poeira material e, dessa forma, gradualmente Vos tornais visível no coração do devoto. Embora estejais constantemente com a alma condicionada, é apenas quando ela se purifica pelo serviço devocional que Vos revelais a ela. Outros, que estão confundidos pelas atividades fruitivas, seja por preceito Védico, seja por costumes habituais, e que não adotam o serviço devocional, ficam cativados pela felicidade externa do conceito corporal da vida. Vós não Vos revelais a tais pessoas. Ao contrário, permaneceis muito, muito longe delas. Mas, para aquele que, ocupado em Vosso serviço devocional, purificou o coração pelo canto constante de Vosso santo nome, Vós Vos tornais muito facilmente compreendido como seu eterno companheiro constante.

"Diz-se que Vossa Onipotência, sentada no coração do devoto, dá a ele a orientação pela qual ele pode muito rapidamente voltar ao lar, voltar a Vós. Esse ditame direto que dais revela Vossa existência dentro do coração do devoto. Somente o devoto pode apreciar imediatamente Vossa existência dentro de seu coração, ao passo que, para uma pessoa que tem apenas a concepção corporal da vida e se ocupa em gratificação dos sentidos, Vós permaneceis sempre coberto pela cortina de *yogamāyā*. Semelhante pessoa não pode compreender que estais muito perto, sentado dentro de seu coração. Para o não devoto, sois apreciado apenas como a morte final. A diferença é como a que existe entre a gata que carrega seus filhotes na boca e a gata que carrega um rato na boca. Na boca da gata, o rato sente sua morte, ao passo que os filhotes, na boca da gata, sentem afeição materna. De modo semelhante, Vós estais presente para todos, mas o não devoto Vos sente como a cruel morte final, ao passo que, para o devoto, sois o instrutor e filósofo supremo. O ateu, portanto, compreende a presença de Deus como a morte, mas o devoto compreende que a presença de Deus está sempre dentro de seu coração, recebe Vossos ditames e vive transcendentalmente, sem ser afetado pela contaminação do mundo material.

"Vós sois o controlador supremo e o superintendente das atividades da natureza material. A classe de homens ateístas simplesmente observa as atividades da natureza material, mas não pode encontrar-Vos como o fundamento original. O devoto, porém, pode ver imediatamente Vossa mão em cada movimento da natureza material. A cortina de *yogamāyā* não pode cobrir os olhos do devoto de Vossa Onipotência, mas pode cobrir os olhos do não devoto. O não devoto é incapaz de ver-Vos face a face, assim como uma pessoa cujos olhos estão impedidos pela cobertura de uma nuvem não pode ver o sol, embora as pessoas que voam acima da nuvem possam ver o brilho do sol em todo o seu esplendor, como ele é. Meu querido Senhor, ofereço-Vos minhas respeitosas reverências. Meu querido Senhor autorrefulgente, sou Vosso servo eterno. Portanto, por favor, ordenai-me — que posso fazer por Vós? A alma condicionada sente as dores da contaminação material sob a forma das três espécies de misérias enquanto não sois visível para ela. E, logo que Vos tornais visível pelo desenvolvimento da consciência de Kṛṣṇa, todas as misérias da existência material são simultaneamente aniquiladas."

A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é naturalmente muito afetuoso com Seus devotos. Quando ouviu as orações de pura devoção de Śrutadeva, Ele ficou muito satisfeito e imediatamente tomou as mãos dele e começou a dirigir-se a ele desta maneira: "Meu querido Śrutadeva, todos esses grandes sábios e pessoas santas foram muito bondosos com você, vindo pessoalmente até aqui para vê-lo. Você deve considerar esta oportunidade uma grande fortuna para você. Eles são tão bondosos que estão viajando em Minha companhia, e, aonde quer que vão, eles imediatamente tornam toda a atmosfera tão pura quanto a transcendência, pelo simples toque da poeira de seus pés. As pessoas estão acostumadas a ir aos templos de Deus. Elas também visitam lugares sagrados de peregrinação e, depois de prolongada associação com tais atividades, durante muitos dias, pelo toque e pela adoração, elas gradualmente se purificam. A influência dos grandes sábios e das pessoas santas, porém, é tão grande que, por vê-los, a pessoa imediatamente se purifica por completo.

"Além disso, a própria potência purificadora das peregrinações ou da adoração aos diferentes semideuses também se alcança pela graça das pessoas santas. Um local de peregrinação torna-se um lugar sagrado devido à presença das pessoas santas ali. Meu querido Śrutadeva, quando uma pessoa nasce como *brāhmaṇa*, ela imediatamente se torna o melhor dos seres humanos. E se tal *brāhmaṇa*, permanecendo autossatisfeito, pratica austeridades, estuda os *Vedas* e se ocupa em Meu serviço devocional, como é dever do *brāhmaṇa* — ou, em outras palavras, se o *brāhmaṇa* se torna um vaiṣṇava —, quão maravilhosa é sua grandeza! Meu aspecto de Nārāyaṇa de quatro braços não Me é tão agradável ou querido como o é o *brāhmaṇa* vaiṣṇava. *Brāhmaṇa* significa 'aquele que conhece bem o conhecimento Védico'; o *brāhmaṇa* é a insígnia do conhecimento perfeito, e Eu sou a manifestação plena de todos os deuses. Os homens da classe menos inteligente não Me compreendem como o conhecimento mais elevado, nem compreendem a influência do *brāhmaṇa* vaiṣṇava. Eles são influenciados pelos três modos da natureza material e, assim, ousam criticar a Mim e a Meus devotos puros. O *brāhmaṇa* vaiṣṇava, ou o devoto que já está na plataforma bramânica, pode compreender-Me dentro de seu coração e, por isso, conclui definitivamente que toda a manifestação cósmica e seus diferentes aspectos são efeitos das diferentes energias do Senhor. Assim, ele tem uma concepção clara de toda a natureza material e da energia material total, e, em cada ação, semelhante devoto vê apenas a Mim, e nada mais.

"Meu querido Śrutadeva, você pode, portanto, aceitar todas essas grandes pessoas santas, *brāhmaṇas* e sábios como Meus representantes genuínos. Adorando-os fielmente, você estará Me adorando com mais diligência. Eu considero a adoração a Meus devotos melhor do que a adoração direta a Mim. Se alguém tenta adorar-Me diretamente sem adorar Meus devotos, não aceito tal adoração, mesmo que seja apresentada com grande opulência."

Dessa maneira, tanto o *brāhmaṇa* Śrutadeva quanto o rei de Mithilā, sob a direção do Senhor, adoraram tanto Kṛṣṇa quanto Seus seguidores, os grandes sábios e os santos *brāhmaṇas*, em um mesmo nível de importância espiritual. Tanto o *brāhmaṇa* quanto o rei alcançaram, por fim, a meta suprema de serem transferidos para o mundo espiritual. O devoto não conhece ninguém exceto o Senhor Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa é muito afetuoso com Seu devoto. O Senhor Kṛṣṇa permaneceu em Mithilā tanto na casa do *brāhmaṇa* Śrutadeva quanto no palácio do rei Bahulāśva. E, depois de favorecê-los profusamente com Suas instruções transcendentais, Ele voltou à Sua capital, Dvārakā.

A instrução que recebemos deste incidente é que o rei Bahulāśva e o *brāhmaṇa* Śrutadeva foram aceitos pelo Senhor no mesmo nível porque ambos eram devotos puros. Esta é a verdadeira qualificação para ser reconhecido pela Suprema Personalidade de Deus. Como se tornou moda nesta era a pessoa orgulhar-se falsamente de ter nascido em família de *kṣatriya* ou de *brāhmaṇa*, vemos pessoas sem nenhuma qualificação além do nascimento alegarem ser *brāhmaṇas*, *kṣatriyas* ou *vaiśyas*. Mas, como se afirma nas escrituras, *kalau śūdra-sambhava*: "Nesta era de Kali, todos são *śūdras*." Isso ocorre porque não há a realização dos processos purificatórios conhecidos como *saṁskāras*, que começam desde a gravidez da mãe e continuam até o momento da morte do indivíduo. Ninguém pode ser classificado como membro de uma determinada casta, especialmente de uma casta superior — *brāhmaṇa*, *kṣatriya* ou *vaiśya* —, pelo simples direito de nascimento. Se a pessoa não é purificada pelo processo da cerimônia de concepção, ou *Garbhādhāna-saṁskāra*, ela é imediatamente classificada entre os *śūdras*, porque somente os *śūdras* não se submetem a esse processo purificatório. A vida sexual sem o processo purificatório da consciência de Kṛṣṇa é meramente o processo de dar semente dos *śūdras* ou dos animais. A consciência de Kṛṣṇa, porém, é a perfeição máxima, pela qual todos podem chegar à plataforma de vaiṣṇava. Isso inclui possuir todas as qualificações de um *brāhmaṇa*. Os vaiṣṇavas são treinados para se livrarem das quatro espécies de atividades pecaminosas — sexo ilícito, uso de substâncias intoxicantes, jogos de azar e o comer de alimentos de origem animal. Ninguém pode estar na plataforma bramânica sem ter essas qualificações preliminares, e, sem se tornar um *brāhmaṇa* qualificado, ninguém pode tornar-se um devoto puro.

*Assim termina o significado Bhaktivedanta do Octogésimo Sexto Capítulo de* Kṛṣṇa, *"O Rapto de Subhadrā e a Visita do Senhor Kṛṣṇa a Śrutadeva e Bahulāśva".*
