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1. O yoga como ação

No Sexto e no Oitavo Capítulos do *Bhagavad-gītā*, o Senhor Śrī *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, explica que o sistema óctuplo de yoga é um meio de controlar a mente e os sentidos. Esse método, contudo, é muito difícil de praticar para as pessoas, sobretudo nesta era de Kali, uma era caracterizada pela ignorância e pelo caos.



Embora esse sistema óctuplo de yoga seja particularmente recomendado no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, o Senhor enfatiza que o processo do karma-yoga, a ação em consciência de Kṛṣṇa, é superior. Neste mundo, todos agem para sustentar a própria família, e todos trabalham com vistas a algum interesse próprio, ou seja, à gratificação pessoal dos sentidos, quer concentrada, quer estendida. Mas agir com perfeição é agir em consciência de Kṛṣṇa, e isso significa agir desapegado dos frutos do trabalho.



É nosso dever agir em consciência de Kṛṣṇa, pois somos, por constituição, partes integrantes do Supremo. As partes do corpo trabalham para a satisfação do corpo inteiro, não para a satisfação das partes individuais. A meta é a satisfação do todo completo. De modo semelhante, a entidade viva deve agir para a satisfação do todo supremo, a Suprema Personalidade de Deus, e não para sua própria satisfação pessoal. Aquele que consegue fazê-lo é o sannyāsī perfeito e o yogī perfeito. No primeiro verso do Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, o capítulo que trata do sāṅkhya-yoga, Bhagavān Śrī Kṛṣṇa afirma:



anāśritaḥ karma-phalaṁ

kāryaṁ karma karoti yaḥ

sa sannyāsī ca yogī ca

na niragnir na cākriyaḥ



«Aquele que não está apegado aos frutos de seu trabalho e que trabalha conforme sua obrigação encontra-se na ordem de vida renunciada, e é o verdadeiro místico, e não aquele que não acende fogo nem realiza trabalho algum».



Por vezes, os sannyāsīs (renunciantes) pensam, equivocadamente, que se libertaram de todos os compromissos materiais e que, por isso, já não precisam realizar os agni-hotra yajñas, ou sacrifícios de fogo. Trata-se de um equívoco. Certos yajñas (sacrifícios) devem ser realizados por todos, com vistas à purificação. Como dos sannyāsīs não se exige tradicionalmente que realizem yajñas, eles às vezes julgam que podem alcançar a liberação ao deixarem de realizar os yajñas ritualísticos; mas, na verdade, a menos que se alcance a plataforma da consciência de Kṛṣṇa, não há possibilidade de liberação. Aqueles sannyāsīs que deixam de realizar yajñas, de fato, agem por interesse próprio, pois sua meta é fundir-se com o Brahman impessoal. Essa é a meta última dos impersonalistas (Māyāvādīs), que têm uma exigência fundamental: tornar-se um com o Ser supremo impessoal. Os devotos não têm tais exigências. Estão simplesmente satisfeitos em servir Kṛṣṇa para a satisfação de Kṛṣṇa. Nada querem em troca. Eis a característica da devoção pura.



Foi o Senhor Caitanya Mahāprabhu quem exprimiu essa atitude devocional de modo tão conciso:



na dhanaṁ na janaṁ na sundarīṁ

kavitāṁ vā jagad-īśa kāmaye

mama janmani janmanīśvare

bhavatād bhaktir ahaitukī tvayi



«Ó Senhor Todo-Poderoso, não tenho desejo algum de acumular riqueza, nem de desfrutar de mulheres belas. Tampouco quero qualquer número de seguidores. O que quero é apenas a misericórdia sem causa de Teu serviço devocional em minha vida, nascimento após nascimento». (Śikṣāṣṭaka 4) Em essência, este é o sistema do bhakti-yoga. Há muitos exemplos da atitude devocional pura. Certa vez, o Senhor Nṛsiṁhadeva disse a Prahlāda Mahārāja: «Meu querido menino, sofreste tanto por Mim. Seja lá o que desejares, pede-Me». Por ser um devoto puro, Prahlāda Mahārāja recusou-se a pedir o que quer que fosse. Disse: «Meu querido Senhor, não estou realizando negócios mercantis Contigo. Não aceitarei remuneração alguma por meu serviço». Eis a atitude devocional pura.



Os yogīs e os jñānīs exigem tornar-se um com o Supremo porque têm a amarga experiência de sofrer as aflições materiais. Querem fundir-se com o Senhor porque sofrem na separação. Um devoto puro, contudo, não passa por isso. Embora separado do Senhor, desfruta plenamente do serviço ao Senhor na separação. O desejo de fundir-se com o Brahman impessoal, ou de unir-se a Deus, é certamente maior do que qualquer desejo material, mas não está isento de interesse próprio. Igualmente, o yogī místico que pratica o sistema de yoga com os olhos semicerrados, cessando todas as atividades materiais, deseja alguma satisfação para si próprio. Tais yogīs cobiçam o poder material, e essa é a concepção que têm da perfeição do yoga. Na verdade, isso não é a perfeição do yoga, e sim um processo materialista.



Se a pessoa pratica os princípios reguladores do yoga, pode alcançar oito tipos de perfeição. Pode tornar-se mais leve que um floco de algodão. Pode tornar-se mais pesado que uma grande pedra. Pode obter de imediato o que quer que deseje. Por vezes, pode até criar um planeta. Embora raros, tais yogīs poderosos realmente existem. Viśvāmitra Yogī quis gerar um homem a partir de uma palmeira. Pensava: «Por que um homem há de viver tantos meses dentro do ventre de sua mãe? Por que não pode ser produzido tal como um fruto?». Pensando assim, Viśvāmitra Yogī produziu homens como cocos. Às vezes, os yogīs são tão poderosos que conseguem realizar tais feitos, mas todos esses são poderes materiais. Por fim, tais yogīs acabam vencidos, pois não podem reter esses poderes materiais indefinidamente. Os bhakti-yogīs não se interessam por tais poderes.



O bhakti-yogī, agindo em consciência de Kṛṣṇa, trabalha para a satisfação do todo, sem interesse próprio. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não deseja a satisfação de si própria. Pelo contrário, seu critério de êxito é a satisfação de Kṛṣṇa; por conseguinte, é considerada o sannyāsī perfeito e o yogī perfeito.



Um devoto puro sequer deseja a salvação. Os salvacionistas querem ser salvos do renascimento, e os voidistas, por sua vez, também querem pôr fim a toda a vida material. Caitanya Mahāprabhu, no entanto, suplicou unicamente o serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa, nascimento após nascimento; em outras palavras, Caitanya Mahāprabhu estava disposto a suportar as misérias materiais em um corpo após outro. Qual era, então, o desejo de Caitanya Mahāprabhu? Queria ocupar-se no serviço a Deus, e nada mais, pois nisso consiste a verdadeira perfeição do yoga.



Quer no céu espiritual, quer no céu material, a alma espiritual individual é, por constituição, a mesma. Diz-se que ela é a décima milésima parte da ponta de um fio de cabelo. Isso significa que nossa posição é a de uma partícula diminuta. Mas o espírito pode expandir-se. Assim como desenvolvemos um corpo material no mundo material, desenvolvemos um corpo espiritual no mundo espiritual. No mundo material, a expansão se dá em contato com a matéria. No mundo espiritual, essa expansão é espiritual.



Na verdade, a primeira lição do *Bhagavad-gītā* é esta: «Sou alma espiritual. Sou diferente deste corpo». Sou uma força viva, mas este corpo material não é uma força viva. É matéria inerte, e só se ativa porque a força espiritual está presente. No mundo espiritual, tudo é força viva; não há matéria morta. Ali, o corpo é inteiramente espiritual. Pode-se comparar a alma espiritual ao óleo, e o corpo, à água. Quando o óleo está na água, há uma distinção, e essa distinção sempre permanece. No céu espiritual, não há que se falar em óleo colocado na água. Ali, tudo é espírito.



Os impersonalistas não querem desenvolver um corpo. Desejam simplesmente permanecer como partículas espirituais, e essa é a ideia que têm de felicidade. Mas nós, os bhakti-yogīs (Vaiṣṇavas), queremos servir Kṛṣṇa, e, para isso, precisamos de mãos, pernas e todas as demais partes do corpo. De fato, recebemos esses corpos a fim de servir Kṛṣṇa. Assim como desenvolvemos um corpo material no ventre de nossa mãe, podemos desenvolver, de modo semelhante, um corpo espiritual no mundo espiritual.



O corpo espiritual desenvolve-se mediante a prática da consciência de Kṛṣṇa. Este corpo material é espiritualizado por este processo do bhakti-yoga. Se colocarmos um ferro no fogo, o ferro se aquece a tal ponto que também se torna ígneo. Quando está em brasa, adquire todas as qualidades do fogo. Se tocarmos algo com esse ferro, ele agirá como fogo. De modo semelhante, embora este corpo seja material, pode espiritualizar-se mediante a consciência de Kṛṣṇa e agir como espírito. Embora o cobre seja apenas um metal, assim que entra em contato com a eletricidade, eletrifica-se, e, se a pessoa o tocar, levará um choque elétrico.



Tão logo o corpo se espiritualiza, a atividade material cessa. Atividade material significa agir para a gratificação dos sentidos. À medida que a pessoa se espiritualiza, as exigências materiais minguam até reduzirem-se a nada. Como isso é possível? Para que um ferro aja como fogo, deve permanecer constantemente em contato com o fogo. Para que o corpo material se espiritualize, é preciso permanecer constantemente em consciência de Kṛṣṇa. Quando este corpo material se ocupa plenamente em atividades espirituais, torna-se espiritual.



Segundo o sistema Védico, o corpo de uma personalidade elevada, um sannyāsī, não é cremado, mas enterrado, pois se considera que o corpo de um sannyāsī é espiritual, por ter deixado de ocupar-se em atividades materiais. Se todos neste mundo se ocupassem plenamente em consciência de Kṛṣṇa e deixassem de trabalhar para a gratificação dos sentidos, o mundo inteiro se tornaria espiritual no mesmo instante. Por isso, é necessário aprender a trabalhar para a satisfação de Kṛṣṇa. Isso requer um pouco de tempo para ser compreendido. Se algo é usado para a satisfação de Kṛṣṇa, é espiritual. Visto que usamos microfones, máquinas de escrever etc. para falar e escrever sobre Kṛṣṇa, esses objetos se espiritualizam. Qual é a diferença entre o prasāda e a comida comum? Algumas pessoas dirão: «Que prasāda é esse? Estamos comendo a mesma comida. Por que o chamam de prasāda?». É prasāda porque foi oferecido para a satisfação de Kṛṣṇa e, dessa forma, espiritualizou-se.



Em um sentido mais elevado, a matéria não existe de modo algum. Tudo é espiritual. Visto que Kṛṣṇa é espiritual e a matéria é uma das energias de Kṛṣṇa, a matéria também é espiritual. Kṛṣṇa é inteiramente espiritual, e o espírito provém do espírito. Contudo, como as entidades vivas fazem mau uso dessa energia — isto é, usam-na para algo diferente dos propósitos de Kṛṣṇa —, ela se materializa, e por isso a chamamos de matéria. O propósito deste movimento da consciência de Kṛṣṇa é reespiritualizar essa energia. Nosso propósito é reespiritualizar o mundo inteiro, social e politicamente. Decerto, isso talvez não seja possível, mas é o nosso ideal. Ao menos, se cada um de nós, individualmente, adotar esse processo de reespiritualização, nossa vida se tornará perfeita.



No *Bhagavad-gītā* (9.22), Kṛṣṇa diz que provê para Seus devotos, dando-lhes aquilo de que carecem e preservando aquilo que têm. As pessoas gostam muito de dizer que Deus ajuda quem se ajuda, mas não compreendem que ajudar-se a si mesmo significa colocar-se sob a proteção de Kṛṣṇa. Se alguém pensa: «Ah, posso ajudar-me. Posso proteger-me», está pensando de modo tolo. Enquanto meu dedo estiver ligado ao meu corpo, ele é útil, e posso gastar milhares de dólares para preservá-lo. Mas, se esse dedo for cortado, torna-se inútil e é jogado fora. De modo semelhante, somos partes integrantes de Kṛṣṇa, e ajudar-nos a nós mesmos significa colocar-nos em nossa posição apropriada, como partes integrantes Dele. Caso contrário, prestamo-nos apenas a ser descartados. O dedo só consegue ajudar-se quando situado de modo apropriado na mão e trabalhando em prol do corpo inteiro. Se o dedo pensa: «Vou separar-me deste corpo e simplesmente ajudar a mim mesmo», esse dedo será descartado e morrerá. Tão logo pensemos: «Viverei independentemente de Kṛṣṇa», essa é a nossa morte espiritual, e tão logo nos ocupemos no serviço de Kṛṣṇa, como Suas partes integrantes, essa é a nossa vida espiritual. Portanto, ajudar a si mesmo significa conhecer a própria posição real e agir de acordo com ela. Não é possível ajudar a si mesmo sem conhecer a própria posição.



Servir significa agir, pois, quando servimos alguém, estamos agindo. Quando servimos Kṛṣṇa, estamos pregando a consciência de Kṛṣṇa, ou cozinhando, ou limpando o templo, ou distribuindo livros sobre Kṛṣṇa, ou escrevendo sobre Ele, ou comprando alimentos para oferecer-Lhe. Há tantas maneiras de servir. Ajudar Kṛṣṇa significa agir por Ele, não sentar-se em um único lugar e meditar artificialmente. Consciência de Kṛṣṇa significa atividade. Seja lá quais forem os recursos de que dispomos, devem ser utilizados para Kṛṣṇa. Esse é o processo do bhakti-yoga. Kṛṣṇa nos deu uma mente, e devemos utilizá-la para pensar em Kṛṣṇa. Recebemos estas mãos, e devemos usá-las para lavar o templo ou cozinhar para Kṛṣṇa. Recebemos estas pernas, e devemos usá-las para ir ao templo de Kṛṣṇa. Recebemos um nariz, e devemos usá-lo para sentir o perfume das flores que foram oferecidas a Kṛṣṇa. Mediante o processo do bhakti-yoga, ocupamos todos esses sentidos no serviço de Kṛṣṇa, e, dessa maneira, os sentidos se espiritualizam.



No *Bhagavad-gītā*, Arjuna recusava-se a agir, e Kṛṣṇa o inspirava a ocupar-se em atividade. O *Bhagavad-gītā* inteiro é uma inspiração para trabalhar, para ocupar-se em consciência de Kṛṣṇa, para agir em nome de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa nunca diz a Arjuna: «Meu querido amigo Arjuna, não te preocupes com esta guerra. Simplesmente senta-te e medita em Mim». Essa não é a mensagem do *Bhagavad-gītā*. Não devemos abster-nos de toda atividade, mas apenas daquelas atividades que impedem nossa consciência de Kṛṣṇa. Meditação significa cessar toda atividade absurda. Aqueles que estão avançados em consciência de Kṛṣṇa trabalham constantemente para Kṛṣṇa.



É somente ao filho mau que a mãe diz que se sente e nada faça. Se uma criança nada sabe fazer além de incomodar a mãe, esta lhe diz: «Meu querido filho, senta-te aqui e fica quieto». Mas, se a criança consegue trabalhar com esmero, a mãe diz: «Meu querido filho, poderias ajudar-me a fazer isto? Poderias ir ali e fazer aquilo?». Ficar quieto em um único lugar é apenas para aqueles que não sabem trabalhar com sensatez. Enquanto a criança fica sentada em um lugar, não causa transtornos. Ficar quieto significa negar o que é absurdo; não é atividade positiva. Na negação não há vida. As atividades positivas constituem a vida, e a atividade positiva é a mensagem do *Bhagavad-gītā*. A vida espiritual não é «Não faças isto». A vida espiritual é «Faze isto!». Para agir corretamente, há certas coisas que a pessoa deve saber não fazer; por isso, certas atividades são proibidas. Todo o *Bhagavad-gītā*, contudo, é «faze». Kṛṣṇa diz: «Luta por Mim». No início do *Bhagavad-gītā*, quando Arjuna disse a Kṛṣṇa: «Não lutarei», Śrī Kṛṣṇa disse:



kutas tvā kaśmalam idaṁ

viṣame samupasthitam

anārya-juṣṭam asvargyaṁ

akīrti-karam arjuna



«Meu querido Arjuna, de onde te vieram essas impurezas? Não são de modo algum próprias de um homem que conhece os valores progressivos da vida. Não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia». (Bg. 2.2) Kṛṣṇa diz diretamente a Arjuna que ele está falando como um não Āryan, isto é, como alguém que não conhece os valores espirituais da vida. Assim sendo, consciência de Kṛṣṇa não significa ficar sentado em ociosidade.



O próprio Kṛṣṇa não fica sentado em ociosidade. Todos os Seus passatempos estão repletos de atividade. Quando formos ao mundo espiritual, veremos que Kṛṣṇa está sempre ocupado em dançar, comer e desfrutar. Ele não se senta para meditar. Há algum relato das gopīs meditando? Acaso Caitanya Mahāprabhu sentou-se para meditar? Não; Ele estava sempre dançando e cantando Hare Kṛṣṇa. A alma espiritual é naturalmente ativa. Como poderíamos ficar sentados em silêncio, sem fazer nada? Não é possível. Por isso, depois que Śrī Kṛṣṇa expôs o sistema de sāṅkhya-yoga no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, Arjuna declarou com franqueza:



yo 'yaṁ yogas tvayā proktaḥ

sāmyena madhusūdana

etasyāhaṁ na paśyāmi

cañcalatvāt sthitiṁ sthirām



«Ó Madhusūdana [Kṛṣṇa], o sistema de yoga que resumiste afigura-se-me impraticável e insuportável, pois a mente é inquieta e instável». (Bg. 6.33) Embora Arjuna fosse muito elevado e fosse o amigo íntimo de Kṛṣṇa, recusou-se de imediato a adotar esse sistema de sāṅkhya-yoga. Em essência, disse: «Isso não me é possível». Como poderia ter sido possível? Arjuna era um guerreiro, um chefe de família, e queria um reino. Que tempo tinha ele para meditação? Recusou taxativamente praticar esse tipo de yoga meditativo, dizendo que a mente é tão difícil de controlar quanto o vento (Bg. 6.34). Isso é um fato. Não é possível controlar a mente artificialmente; por conseguinte, devemos ocupar a mente em consciência de Kṛṣṇa. Então ela fica controlada. Se Arjuna achou esse processo mais difícil do que controlar o vento, que dizer de nós? Afinal, Arjuna não era um homem comum. Conversava pessoalmente com o Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa, e proclamou que a mente é como um grande vento. Como podemos controlar o vento? Só podemos controlar a mente fixando-a nos pés de lótus de Kṛṣṇa. Essa é a perfeição da meditação.



Ninguém deseja, de fato, sentar-se para meditar. E por que deveríamos? Fomos feitos para a atividade positiva, para a recreação, para o prazer. Em consciência de Kṛṣṇa, nossa recreação é dançar e cantar, e, quando nos cansamos, tomamos prasāda. Acaso é difícil dançar? Acaso é difícil cantar? Não cobramos nada para dançar no templo. Se a pessoa vai a um salão de baile, tem de pagar a entrada, mas nós não cobramos. É natural desfrutar de música, dança e alimentos saborosos. Essas são as nossas recreações, e este é o nosso método de meditação. De modo que esse sistema de yoga não é nada trabalhoso. É simplesmente recreação, susukham. Afirma-se no Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* (9.2) que este yoga é susukham — muito ditoso. «É eterno, e se pratica com alegria». É natural, automático e espontâneo. É a nossa verdadeira vida no mundo espiritual.



Em Vaikuṇṭha, o mundo espiritual, não há ansiedade. Vaikuṇṭha significa «ausência de ansiedade», e, em Vaikuṇṭha, as almas liberadas estão sempre dançando, cantando e tomando prasāda. Não há fábricas, nem trabalho árduo, nem instituições técnicas. Não há necessidade dessas coisas artificiais. No *Vedānta-sūtra* afirma-se: ānandamayo 'bhyāsāt: Deus é ānandamaya, pleno de bem-aventurança e prazer. Visto que somos partes integrantes de Deus, também possuímos essas mesmas qualidades. Assim, a meta do nosso processo de yoga é unir-nos ao supremo ānandamaya, Śrī Kṛṣṇa, juntar-nos à Sua festa de dança. Só então seremos realmente felizes.



Nesta Terra, tentamos ser felizes artificialmente e, por conseguinte, ficamos frustrados. Uma vez que nos situemos em consciência de Kṛṣṇa, reviveremos nossa posição original e nos tornaremos simplesmente jubilosos. Visto que nossa verdadeira natureza é ānandamaya, bem-aventurada, estamos sempre à procura de felicidade. Nas cidades, somos inundados de anúncios. Restaurantes, bares, clubes noturnos e salões de baile estão sempre anunciando: «Venham, aqui há ānanda. Aqui há prazer». Isso porque todos buscam ānanda, prazer. Nossa sociedade para a consciência de Kṛṣṇa também anuncia: «Aqui há ānanda», mas o nosso padrão de prazer é muito diferente. Em todo caso, a meta — o prazer — é a mesma.



A maioria das pessoas anda à caça de prazer na grosseira plataforma material. As mais avançadas buscam prazer na especulação, na filosofia, na poesia ou na arte. O bhakti-yogī, todavia, busca o prazer na plataforma transcendental, e essa é sua única ocupação. Por que as pessoas trabalham tão arduamente o dia inteiro? Pensam: «Esta noite, hei de desfrutar. Esta noite, encontrar-me-ei com esta moça ou com minha esposa». Assim, as pessoas se dão a tanto trabalho para obter um pouco de prazer. O prazer é a meta última, mas, infelizmente, sob a ilusão, as pessoas não sabem onde se há de encontrar o verdadeiro prazer. O verdadeiro prazer existe eternamente na forma transcendental de Kṛṣṇa.



Talvez já tenhais visto imagens de Kṛṣṇa, e, se assim for, tereis notado que Kṛṣṇa está sempre jovial. Se vos unirdes à Sua companhia, também vos tornareis joviais. Já vistes alguma vez imagens de Kṛṣṇa operando uma máquina? Já vistes alguma vez imagens de Kṛṣṇa fumando? Não; por natureza, Ele é pleno de prazer, e, se vos desabrochardes desse modo, também encontrareis prazer. O prazer não pode ser encontrado artificialmente.



ānanda-cinmaya-rasa-pratibhāvitābhis

tābhir ya eva nija-rūpatayā kalābhiḥ

goloka eva nivasaty akhilātma-bhūto

govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi



«Adoro Govinda, o Senhor primordial, que reside em Sua própria morada, Goloka, com Rādhā, que se assemelha à Sua própria figura espiritual, a personificação da potência extática dotada das sessenta e quatro atividades artísticas, em companhia de Suas confidentes (sakhīs), personificações das extensões de Sua forma corpórea, permeada e vitalizada por Seu sempre bem-aventurado rasa espiritual». (Brahma-saṁhitā 5.37)



A palavra rasa significa «gosto» ou «sabor». Desfrutamos dos doces ou dos caramelos por causa de seu sabor. Todos procuram desfrutar de algum sabor, e queremos desfrutar do sexo porque nele há algum sabor. Esse é o chamado ādi, o sabor original. Os sabores materiais são distintos, porque se experimentam e logo se esgotam. Os sabores materiais duram apenas alguns minutos. A pessoa pode pegar um caramelo, prová-lo e dizer: «Ah, está muito bom», mas precisa provar outro para prosseguir no desfrute. O sabor material não é ilimitado, mas o sabor verdadeiro não tem fim. O sabor espiritual não pode ser esquecido; vai sempre aumentando. Ānandāmbudhi-vardhanam. Caitanya Mahāprabhu diz: «Este sabor está sempre aumentando». O sabor espiritual é como o oceano, no sentido de que é muito vasto. O oceano Pacífico está sempre agitado, mas não aumenta. Por ordem de Deus, o oceano não se estende além de seu limite, e, se o fizesse, haveria uma catástrofe. O Senhor Caitanya Mahāprabhu diz que há outro oceano, um oceano de bem-aventurança transcendental, um oceano que está sempre aumentando. Ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ/ sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam. Ao cantar Hare Kṛṣṇa, nossa potência de prazer aumenta cada vez mais.



Aquele que realizou Śrī Kṛṣṇa vive sempre em Vṛndāvana, Vaikuṇṭha. Embora um devoto possa parecer estar vivendo em algum lugar distante de Vṛndāvana, ele vive sempre em Vṛndāvana, pois sabe que Kṛṣṇa está presente em toda parte, mesmo dentro do átomo. O Senhor Supremo é maior que o maior e menor que o menor. Uma vez que estejamos plenamente realizados e estabelecidos na consciência de Kṛṣṇa, nunca perderemos Kṛṣṇa de vista, e nossa bem-aventurança estará sempre aumentando. Este é o verdadeiro sistema de yoga, o bhakti-yoga, tal como o expôs o próprio Senhor Śrī Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*.
