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4. Moderação no Yoga

Neste Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, dá-se ênfase ao sistema de sāṅkhya-yoga, que é o sistema meditativo de aṣṭāṅga-yoga. O jñāna-yoga enfatiza o processo filosófico de análise pelo qual determinamos o que é Brahman e o que não é Brahman. Esse processo é conhecido como o processo neti neti, ou "nem isto, nem aquilo". No princípio do *Vedānta-sūtra*, afirma-se: janmādy asya yataḥ: [SB 1.1.1] "O Brahman Supremo, a Verdade Absoluta, é Aquele de quem tudo emana". Trata-se de uma indicação, e a partir dela devemos tentar compreender a natureza do Brahman Supremo, de quem tudo emana. A natureza dessa Verdade Absoluta é explicada em detalhe no *Śrīmad-Bhāgavatam*.



No primeiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam*, afirma-se:



oṁ namo bhagavate vāsudevāya

janmādy asya yato 'nvayād itarataś cārtheṣv abhijñaḥ svarāṭ

tene brahma hṛdā ya ādi-kavaye muhyanti yat sūrayaḥ

tejo-vāri-mṛdāṁ yathā vinimayo yatra tri-sargo 'mṛṣā

dhāmnā svena sadā nirasta-kuhakaṁ satyaṁ paraṁ dhīmahi



"Ó meu Senhor, Śrī Kṛṣṇa, filho de Vasudeva, ó onipenetrante Personalidade de Deus, ofereço-Lhe minhas respeitosas reverências. Medito no Senhor Śrī Kṛṣṇa porque Ele é a Verdade Absoluta e a causa primordial de todas as causas da criação, manutenção e destruição dos universos manifestados. Ele é direta e indiretamente consciente de todas as manifestações, e é independente porque não há outra causa além Dele. É somente Ele quem primeiro transmitiu o conhecimento Védico ao coração de Brahmājī, o ser vivo original. Por Ele, até mesmo os grandes sábios e semideuses são lançados na ilusão, assim como a pessoa se confunde com as representações ilusórias de água vista no fogo, ou de terra vista na água. Somente graças a Ele os universos materiais, manifestados temporariamente pelas reações dos três modos da natureza, parecem reais, embora sejam irreais. Por isso, medito Nele, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, que existe eternamente na morada transcendental, a qual está para sempre livre das representações ilusórias do mundo material. Medito Nele, pois Ele é a Verdade Absoluta".



Assim, desde o início mesmo do *Śrīmad-Bhāgavatam*, proclama-se que a Verdade Absoluta é cognoscente. Ele não está morto nem é vazio. E qual é a natureza de Sua cognição? Anvayād itarataś cārtheṣu: "Ele é direta e indiretamente cognoscente de todas as manifestações". Em grau limitado, toda e qualquer entidade viva é cognoscente, mas não somos completamente cognoscentes. Posso afirmar: "Esta é minha cabeça", mas, se alguém me perguntar: "Você sabe quantos fios de cabelo tem na cabeça?", não conseguirei responder. Naturalmente, esse tipo de conhecimento não é transcendental, mas no *Śrīmad-Bhāgavatam* se afirma que a Suprema Verdade Absoluta sabe tudo, direta e indiretamente. Posso saber que estou comendo, mas desconheço os detalhes do processo digestivo — como exatamente meu corpo assimila os alimentos, como o sangue corre por minhas veias etc. Estou consciente de que meu corpo funciona, mas não sei como esses processos operam de maneira perfeita e todos a um só tempo. Isso ocorre porque meu conhecimento é limitado.



Por definição, Deus é Aquele que sabe tudo. Ele sabe o que se passa em cada canto de Sua criação; por isso, desde o início mesmo, o *Śrīmad-Bhāgavatam* explica que a Verdade Suprema de quem tudo emana é supremamente cognoscente (abhijñaḥ). Alguém poderia perguntar: "Se a Verdade Absoluta é tão poderosa, sábia e cognoscente, Ela há de ter adquirido esse conhecimento de algum ser semelhante". Não é esse o caso. Se Ele adquirisse Seu conhecimento de outrem, não seria Deus. Svarāṭ. Ele é independente, e Seu conhecimento existe automaticamente.



O *Śrīmad-Bhāgavatam* é a combinação suprema dos sistemas de jñāna-yoga e bhakti-yoga, pois analisa em detalhe a natureza desse Ser Supremo de quem tudo emana. Mediante o sistema de jñāna-yoga, a pessoa tenta compreender a natureza da Verdade Absoluta de maneira filosófica. No sistema de bhakti-yoga, o alvo é o mesmo. A metodologia, contudo, é algo diferente. Enquanto o jñānī tenta concentrar a mente filosoficamente no Supremo, o bhakta simplesmente se ocupa no serviço do Senhor Supremo, e o Senhor Se revela. O método do jñāna chama-se processo ascendente, e o método do bhakti chama-se processo descendente. Se nos encontramos na escuridão da noite, podemos tentar alcançar a luz do sol ascendendo num foguete poderoso. Segundo o processo descendente, porém, simplesmente esperamos o nascer do sol, e então compreendemos de imediato.



Mediante o processo ascendente, tentamos chegar ao Supremo por nosso próprio esforço, através do processo de indução. Por indução, podemos tentar descobrir se o homem é mortal estudando milhares de homens, buscando ver se são mortais ou imortais. Isso, evidentemente, levará muitíssimo tempo. Se, porém, eu aceito de uma autoridade superior o fato de que todos os homens são mortais, meu conhecimento é completo e imediato. Assim, afirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam* (10.14.29): "Meu querido Senhor, a pessoa que recebeu um pouco de Seu favor pode compreendê-Lo muito rapidamente. Mas aqueles que tentam compreendê-Lo pelo processo ascendente podem continuar especulando por milhões de anos e ainda assim jamais compreendê-Lo".



Pela especulação mental, é mais provável que a pessoa apenas chegue a um ponto de frustração e confusão e conclua: "Oh, Deus é zero". Mas, se Deus é zero, como tantas cifras emanam Dele? Como diz o Vedānta (janmādy asya yataḥ [SB 1.1.1]): "Tudo se gera a partir do Supremo". Por conseguinte, o Supremo não pode ser zero. Temos de estudar como tantas formas, tantas entidades vivas infinitas, são geradas a partir do Supremo. Isso também se explica no *Vedānta-sūtra*, que é o estudo do conhecimento último. A palavra veda significa "conhecimento", e anta significa "último". O conhecimento último é o conhecimento do Senhor Supremo.



Então, como é possível compreender a forma de Kṛṣṇa? Se se afirma que Deus não tem olhos, membros nem sentidos como os nossos, como havemos de compreender Seus sentidos transcendentais, Sua forma transcendental? Isso não é possível pela especulação mental. Simplesmente temos de servi-Lo, e então Ele Se revelará a nós. Como o próprio Kṛṣṇa afirma no Décimo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (10.11):



teṣām evānukampārtham

aham ajñāna-jaṁ tamaḥ

nāśayāmy ātma-bhāva-stho

jñāna-dīpena bhāsvatā



"Por compaixão por eles, Eu, que habito em seus corações, destruo com a refulgente lâmpada do conhecimento a escuridão nascida da ignorância". Kṛṣṇa está dentro de nós, e quando O buscamos sinceramente pelo processo devocional, Ele Se revelará.



Novamente, como se afirma no Décimo Oitavo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (18.55):



bhaktyā mām abhijānāti

yāvān yaś cāsmi tattvataḥ

tato māṁ tattvato jñātvā

viśate tad-anantaram



"Pode-se compreender a Suprema Personalidade tal como Ela é unicamente mediante o serviço devocional. E quando, por tal devoção, a pessoa se encontra em plena consciência do Senhor Supremo, pode entrar no reino de Deus". Assim, Deus há de ser compreendido por este processo de bhakti-yoga, que é o processo de śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ [SB 7.5.23] — ouvir e cantar acerca de Viṣṇu. Este é o princípio do processo de bhakti-yoga. Se apenas ouvirmos com sinceridade e submissão, compreenderemos. Kṛṣṇa Se revelará. Śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam arcanaṁ vandanaṁ dāsyam. Há nove processos diferentes no sistema de bhakti-yoga. Mediante vandanam, oferecemos orações, e isso também é bhakti. Śravaṇam é ouvir sobre Kṛṣṇa a partir do *Bhagavad-gītā*, do *Śrīmad-Bhāgavatam* e de outros śāstras. Kīrtanam é cantar Suas glórias, cantar o mantra Hare Kṛṣṇa. Este é o princípio do processo de bhakti-yoga. Śravaṇam kīrtanaṁ viṣṇoḥ [SB 7.5.23]. Tudo é Viṣṇu, e a meditação recai em Viṣṇu. Não é possível haver bhakti sem Viṣṇu. Kṛṣṇa é a forma original de Viṣṇu (kṛṣṇas tu bhagavān svayam: "Kṛṣṇa é a forma original da Suprema Personalidade de Deus"). Se apenas seguirmos este processo de bhakti-yoga, deveremos ser capazes de compreender o Supremo, e todas as dúvidas se dissiparão.



O processo de aṣṭāṅga-yoga é descrito com muita especificidade no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (6.13–14):



samaṁ kāya-śiro-grīvam-

dhārayann acalaṁ sthiraḥ

samprekṣya nāsikāgraṁ svaṁ

diśaś cānavalokayan



praśāntātmā vigata-bhīr

brahmacāri-vrate sthitaḥ

manaḥ saṁyamya mac-citto

yukta āsīta mat-paraḥ



"Deve-se manter o corpo, o pescoço e a cabeça eretos em linha reta e fixar o olhar firmemente na ponta do nariz. Assim, com a mente serena e subjugada, livre de temor e completamente liberta da vida sexual, deve-se meditar em Mim dentro do coração e fazer de Mim a meta última da vida". Yoga não significa ir a alguma aula, pagar algum dinheiro, dedicar-se à ginástica e depois voltar para casa para beber, fumar e ocupar-se em sexo. Tal yoga é praticado por sociedades de trapaceiros e de trapaceados. O sistema autorizado de yoga é aqui descrito pela autoridade suprema, o próprio Śrī Kṛṣṇa. Há porventura yogī melhor que *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*? Antes de tudo, é preciso ir sozinho a um lugar sagrado e sentar-se em linha reta, mantendo o corpo, o pescoço e a cabeça eretos, e fixar o olhar firmemente na ponta do nariz. Por quê? Este é um método para ajudar a concentrar a mente. Isso é tudo. O verdadeiro propósito do yoga, contudo, é manter-se sempre consciente de que o Senhor Kṛṣṇa está dentro de si.



Um dos perigos de sentar-se em meditação e olhar fixamente para a ponta do nariz é a pessoa adormecer. Tenho visto muitos supostos meditadores sentados desse modo e roncando. Tão logo a pessoa fecha os olhos, é natural sentir sonolência; por isso recomenda-se que os olhos fiquem entreabertos. Assim, diz-se que se deve olhar para a ponta do nariz. Com a visão assim concentrada, a mente deve estar subjugada e serena. Na Índia, o yogī muitas vezes vai à selva para praticar tal meditação em solidão. Mas, na selva, o yogī pode pensar: "Talvez venha algum tigre ou alguma serpente. O que é esse ruído?". Dessa maneira, sua mente pode agitar-se; por isso afirma-se especialmente que o yogī deve estar "livre de temor". Recomenda-se especialmente uma pele de cervo como yoga-āsana, pois ela contém uma propriedade química que repele as serpentes; assim, o yogī não será perturbado por elas. Seja como for — serpentes, tigres ou leões —, só se pode estar verdadeiramente livre de temor quando se está estabelecido em consciência de Kṛṣṇa. Devido à memória pervertida, a alma condicionada é naturalmente temerosa. O temor advém de esquecer a relação eterna que se tem com Kṛṣṇa. Segundo o *Śrīmad-Bhāgavatam* (11.2.37): bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syād īśād apetasya viparyayo 'smṛtiḥ. A consciência de Kṛṣṇa fornece a única base verdadeira para a ausência de temor; por conseguinte, a prática perfeita do yoga não é possível para quem não é consciente de Kṛṣṇa.



O yogī também deve estar "completamente liberto da vida sexual". Se a pessoa se entrega ao sexo, não consegue concentrar-se; por isso recomenda-se o brahmacarya, o celibato completo, para tornar a mente firme. Ao praticar o celibato, cultiva-se a determinação. Um exemplo moderno de tal determinação é o de Mahatma Gandhi, que estava decidido a resistir ao poderoso império britânico por meio da não-violência. Naquela época, a Índia dependia dos britânicos, e o povo não tinha armas. Os britânicos, por serem mais poderosos, facilmente debelavam qualquer revolução violenta que o povo tentasse. Por isso, Gandhi recorreu à não-violência, à não-cooperação. "Não lutarei contra os britânicos", declarou ele, "e, ainda que reajam com violência, permanecerei não violento. Dessa forma, o mundo simpatizará conosco". Tal política exigia grande dose de determinação, e a determinação de Gandhi era muito firme porque ele era um brahmacārī. Embora tivesse filhos e esposa, renunciou ao sexo aos trinta e seis anos. Foi essa renúncia sexual que lhe permitiu ser tão determinado a ponto de conseguir dirigir seu país e expulsar os britânicos da Índia.



Assim, abster-se do sexo permite à pessoa ser muito determinada e poderosa. Não é necessário fazer mais nada. Este é um segredo de que as pessoas não se dão conta. Se você quiser realizar algo com determinação, há de abster-se do sexo. Independentemente do processo — seja haṭha-yoga, bhakti-yoga, jñāna-yoga ou qualquer outro —, a gratificação sexual não é permitida. O sexo só é permitido aos chefes de família que desejam gerar bons filhos e criá-los em consciência de Kṛṣṇa. O sexo não se destina ao gozo dos sentidos, embora o prazer esteja aí por natureza. Se não houvesse algum prazer, por que alguém haveria de assumir a responsabilidade de gerar filhos? Esse é o segredo do dom da natureza, mas não devemos tirar proveito dele. Estes são os segredos da vida. Ao tirar proveito e nos entregarmos à vida sexual, estamos simplesmente desperdiçando nosso tempo. Se alguém lhe diz que você pode entregar-se ao sexo quanto quiser e, ao mesmo tempo, tornar-se um yogī, está enganando você. Se algum suposto guru lhe diz que lhe dê dinheiro em troca de algum mantra e que você pode prosseguir entregando-se a toda espécie de disparates, está apenas enganando você. Como queremos algo sublime e, ainda assim, queremo-lo barato, colocamo-nos em posição de sermos enganados. Isso significa que, na verdade, queremos ser enganados. Se queremos algo valioso, devemos pagar por ele. Não podemos esperar entrar numa joalheria e exigir a joia mais valiosa por meros dez centavos. Não, devemos pagar caríssimo. De modo semelhante, se queremos a perfeição no yoga, devemos pagar abstendo-nos do sexo. A perfeição no yoga não é algo pueril, e o *Bhagavad-gītā* nos instrui que, se tentarmos transformar o yoga em algo pueril, seremos enganados. Há muitos trapaceiros à nossa espera, dispostos a tomar nosso dinheiro, sem nada nos dar, e depois ir embora. Mas, segundo a declaração autorizada de Śrī Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*, deve-se estar "completamente liberto da vida sexual". Estando livre do sexo, deve-se "meditar em Mim dentro do coração e fazer de Mim a meta última da vida". Esta é a verdadeira meditação.



Kṛṣṇa não recomenda a meditação no vazio. Ele afirma especificamente: "Medita em Mim". O viṣṇu-mūrti está situado no coração da pessoa, e a meditação Nele é o objeto do yoga. Este é o sistema de sāṅkhya-yoga, tal como foi praticado primeiramente pelo Senhor Kapiladeva, uma encarnação de Deus. Sentando-se ereto, fixando o olhar firmemente na ponta do nariz, subjugando a mente e abstendo-se do sexo, a pessoa pode ser capaz de concentrar a mente no viṣṇu-mūrti situado dentro do coração. Quando nos referimos à forma de Viṣṇu, ou viṣṇu-mūrti, referimo-nos a Śrī Kṛṣṇa.



Neste movimento da consciência de Kṛṣṇa, estamos meditando diretamente em Śrī Kṛṣṇa. Este é um processo de meditação prática. Os membros deste movimento concentram suas mentes em Kṛṣṇa, independentemente de sua ocupação particular. A pessoa pode estar trabalhando no jardim e cavando a terra, mas está pensando: "Estou cultivando belas rosas para oferecer a Kṛṣṇa". A pessoa pode estar cozinhando na cozinha, mas está sempre pensando: "Estou preparando alimentos saborosos para oferecer a Kṛṣṇa". De modo semelhante, cantar e dançar no templo são formas de meditar em Kṛṣṇa. Assim, os rapazes e moças desta Sociedade para a Consciência de Kṛṣṇa são yogīs perfeitos, pois meditam em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia. Estamos ensinando o sistema perfeito de yoga, não conforme nossos caprichos pessoais, mas conforme a autoridade do *Bhagavad-gītā*. Nada é inventado nem fabricado. Os versos do *Bhagavad-gītā* estão aí, à vista de todos. As atividades dos bhakti-yogīs neste movimento são moldadas de tal modo que os praticantes não conseguem deixar de pensar em Kṛṣṇa a todo momento. "Medita em Mim dentro do coração e faze de Mim a meta última da vida", diz Śrī Kṛṣṇa. Este é o sistema perfeito de yoga, e quem o pratica prepara-se para ser transferido a Kṛṣṇaloka.



yuñjann evaṁ sadātmānaṁ

yogī niyata-mānasaḥ

śāntiṁ nirvāṇa-paramāṁ

mat-saṁsthām adhigacchati



"Assim, praticando constante controle do corpo, da mente e das atividades, o transcendentalista místico alcança o reino de Deus [ou a morada de Kṛṣṇa] mediante a cessação da existência material". (Bg. 6.15)



Afirma-se em sânscrito neste verso, śāntiṁ nirvāṇa-paramām; isto é, alcança-se a paz mediante nirvāṇa-paramām, ou a cessação das atividades materiais. Nirvāṇa não se refere ao vazio, mas a pôr fim às atividades materialistas. Enquanto não se lhes puser fim, não há possibilidade de paz. Quando Hiraṇyakaśipu perguntou a seu filho de cinco anos, Prahlāda Mahārāja: "Meu querido filho, qual é a melhor coisa que você aprendeu até agora?", Prahlāda respondeu de imediato, tat sādhu manye 'sura-varya dehināṁ sadā samudvigna-dhiyām asad-grahāt [SB 7.5.5]: "Meu querido pai, ó maior dos demônios, as pessoas materialistas estão sempre cheias de ansiedade porque aceitaram como real aquilo que não é permanente". A palavra asad-grahāt é importante, pois indica que os materialistas estão sempre ávidos por capturar ou possuir algo que não é permanente. A história nos oferece muitos exemplos. O senhor Kennedy era um homem muito rico que desejava tornar-se presidente, e gastou enorme quantia de dinheiro para alcançar essa posição elevada. No entanto, embora tivesse uma boa esposa, filhos e a presidência, tudo se acabou num segundo. No mundo material, as pessoas estão sempre tentando capturar algo que não é permanente. Infelizmente, as pessoas não caem em si nem percebem: "Eu sou permanente. Sou alma espiritual. Por que estou ávido por algo que não é permanente?".



Estamos sempre ocupados em adquirir confortos para este corpo, sem considerar que hoje, amanhã ou daqui a cem anos este corpo terá chegado ao fim. No que toca ao verdadeiro "eu": "Sou alma espiritual. Não tenho nascimento. Não tenho morte. Qual é, então, minha função adequada?". Quando agimos na plataforma material, ocupamo-nos em funções corporais; por isso Prahlāda Mahārāja diz que as pessoas estão ansiosas porque todas as suas atividades têm por alvo capturar e possuir algo não permanente. Todas as entidades vivas — homens, bestas, aves ou o que sejam — estão sempre cheias de ansiedade, e esta é a doença material. Se estamos sempre cheios de ansiedade, como podemos alcançar a paz? As pessoas podem viver numa casa muito bonita, mas à frente colocam placas que dizem: "Cuidado com o cão" ou "Proibida a entrada". Isso significa que, embora vivam confortavelmente, têm a ansiedade de que alguém venha importuná-las. Sentado num escritório e ganhando um ótimo salário, o homem está sempre pensando: "Ah, tomara que eu não perca esta posição". A nação norte-americana é muito rica, mas, por causa disso, tem de manter uma enorme força de defesa. Quem, então, está livre de ansiedade? A conclusão é que, se queremos paz sem ansiedade, devemos chegar à consciência de Kṛṣṇa. Não há alternativa.



A fim de alcançar a paz, devemos meditar em Kṛṣṇa, e, ao meditar em Kṛṣṇa, podemos controlar o corpo. A primeira parte do corpo a controlar é a língua, e a parte seguinte são os genitais. Quando estes são controlados, tudo é controlado. A língua é controlada cantando e comendo kṛṣṇa-prasāda. Tão logo a língua é controlada, o estômago é controlado, e, em seguida, controlam-se os genitais. Na verdade, controlar o corpo e a mente é um processo muito simples. Quando a mente está fixa em Kṛṣṇa e não tem outra ocupação, controla-se automaticamente. As atividades devem estar sempre centradas em trabalhar para Kṛṣṇa — jardinagem, datilografia, culinária, limpeza, o que for. Ao ocupar o corpo, a mente e as atividades no serviço de Kṛṣṇa, alcança-se o nirvāṇa supremo, que reside em Kṛṣṇa. Tudo está em Kṛṣṇa; por isso não podemos encontrar paz fora das atividades em consciência de Kṛṣṇa.



A meta última do yoga é, assim, explicada com toda clareza. O yoga não se destina a obter qualquer espécie de facilidade material; destina-se a possibilitar a cessação de toda a existência material. Enquanto necessitarmos de algumas facilidades materiais, nós as obteremos. Mas essas facilidades não resolverão os problemas da vida. Tenho viajado pelo mundo inteiro, e é minha opinião que os rapazes e moças norte-americanos têm as melhores facilidades materiais, mas isso significa que alcançaram a paz? Pode alguém dizer: "Sim, tenho paz completa"? Se assim é, por que os jovens norte-americanos estão tão frustrados e confusos?



Enquanto praticarmos yoga a fim de obter alguma facilidade material, não haverá possibilidade de paz. O yoga só deve ser praticado para se compreender Kṛṣṇa. O yoga destina-se ao restabelecimento da relação perdida que temos com Kṛṣṇa. Em geral, a pessoa se filia a uma sociedade de yoga para melhorar a saúde, para reduzir a gordura. As pessoas das nações ricas comem mais, engordam e depois pagam preços exorbitantes a supostos instrutores de yoga a fim de emagrecer. As pessoas tentam emagrecer com toda essa ginástica artificial; não compreendem que, se apenas comessem verduras, frutas e cereais, jamais engordariam. As pessoas engordam porque comem vorazmente, porque comem carne. As pessoas que comem vorazmente padecem de diabetes, sobrepeso, ataques cardíacos etc., e as que comem insuficientemente padecem de tuberculose. Por isso, exige-se moderação, e moderação no comer significa que comemos apenas o necessário para manter o corpo e a alma juntos. Se comermos mais do que precisamos, ou menos, adoeceremos. Tudo isso se explica nos versos seguintes:



nāty-aśnatas tu yogo 'sti

na caikāntam anaśnataḥ

na cāti-svapna-śīlasya

jāgrato naiva cārjuna



"Não há possibilidade de a pessoa tornar-se um yogī, ó Arjuna, se come demais ou come muito pouco, dorme demais ou não dorme o suficiente". (Bg. 6.16)



yuktāhāra-vihārasya

yukta-ceṣṭasya karmasu

yukta-svapnāvabodhasya

yogo bhavati duḥkha-hā



"Aquele que é moderado em seus hábitos de comer, dormir, trabalhar e recrear-se pode mitigar todos os sofrimentos materiais praticando o sistema de yoga". (Bg. 6.17) Não se trata de termos de passar fome. O corpo deve manter-se apto para qualquer prática; por isso é necessário comer e, segundo nosso programa, comemos apenas kṛṣṇa-prasāda. Se você consegue comer confortavelmente cinco quilos de alimento por dia, então coma-os, mas, se tentar comer cinco quilos por cobiça ou avareza, sofrerá.



Assim, na prática da consciência de Kṛṣṇa, todas essas atividades estão presentes, mas estão espiritualizadas. A cessação da existência material não significa entrar no "vazio", que não passa de um mito. Não há vazio em parte alguma da criação do Senhor. Eu não sou vazio, mas alma espiritual. Se eu fosse vazio, como ocorreria o desenvolvimento do meu corpo? Onde está esse "vazio"? Se semeamos uma semente no solo, ela cresce até tornar-se uma planta ou uma grande árvore. O pai injeta uma semente no ventre da mãe, e o corpo cresce como uma árvore. Onde há vazio? No Décimo Quarto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (14.4), Śrī Kṛṣṇa afirma:



sarva-yoniṣu kaunteya

mūrtayaḥ sambhavanti yāḥ

tāsāṁ brahma mahad yonir

ahaṁ bīja-pradaḥ pitā



"Deve-se compreender que todas as espécies de vida, ó filho de Kuntī, tornam-se possíveis pelo nascimento nesta natureza material, e que Eu sou o pai que dá a semente". A semente é originalmente dada por Kṛṣṇa, depositada no ventre da natureza material, e assim se geram muitas entidades vivas. Como alguém pode argumentar contra este processo? Se a semente da existência é vazia, como se desenvolveu este corpo?



Nirvāṇa, na verdade, significa não aceitar outro corpo material. Não se trata de tentarmos tornar vazio este corpo. Nirvāṇa significa tornar vazio o corpo miserável, material e condicionado — isto é, converter o corpo material num corpo espiritual. Isso significa entrar no reino de Deus, que se descreve no Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (15.6):



na tad bhāsayate sūryo

sa śaśāṅko na pāvakaḥ

yad gatvā na nivartante

tad dhāma paramaṁ mama



"Essa morada Minha não é iluminada pelo sol ou pela lua, nem pela eletricidade. Quem a alcança jamais regressa a este mundo material".



Logo, não há vazio em parte alguma da criação do Senhor. Todos os planetas do céu espiritual são autoluminosos, como o sol. O reino de Deus está em toda parte, mas o céu espiritual e seus planetas são todos paraṁ dhāma, ou moradas superiores. Como se afirmou, a luz do sol, a luz da lua ou a eletricidade não são necessárias no param-dhāma. Não podemos encontrar tal morada dentro deste universo. Por mais longe que viajemos em nossas naves espaciais, não encontraremos nenhum lugar onde não haja luz solar. A luz do sol é tão extensa que permeia o universo. Por conseguinte, essa morada na qual não há luz solar, luz lunar nem eletricidade está além deste céu material. Além desta natureza material, há uma natureza espiritual. Na verdade, nada sabemos desta natureza material; nem sequer sabemos como ela se formou originalmente. Como, então, podemos saber algo sobre a natureza espiritual que está além? Temos de aprender com Kṛṣṇa, que vive lá; do contrário, permanecemos na ignorância.



Neste *Bhagavad-gītā*, dá-se informação sobre o céu espiritual. Como podemos saber algo sobre aquilo que não conseguimos alcançar? Nossos sentidos são tão imperfeitos; como podemos obter conhecimento? Temos apenas de ouvir e aceitar. Como jamais saberemos quem é nosso pai, a menos que aceitemos a palavra de nossa mãe? Nossa mãe diz: "Este é teu pai", e temos de aceitá-lo. Não podemos determinar quem é nosso pai fazendo indagações aqui e ali ou tentando experimentar. Este conhecimento está além de nossos meios. De modo semelhante, se queremos aprender sobre o céu espiritual, o reino de Deus, temos de ouvir da autoridade, a mãe *Vedas*. Os *Vedas* são chamados veda-mātā, ou mãe *Vedas*, porque o conhecimento neles transmitido é como o conhecimento recebido da mãe. Temos de acreditar a fim de adquirir conhecimento. Não há possibilidade de adquirir este conhecimento transcendental experimentando com nossos sentidos imperfeitos.



Um yogī consumado, perfeito na compreensão do Senhor Kṛṣṇa, como aqui se afirma claramente (śāntiṁ nirvāṇa-paramāṁ mat-saṁsthām adhigacchati) pelo próprio Senhor, pode alcançar a paz verdadeira e, por fim, chegar à morada suprema do Senhor. Essa morada é conhecida como Kṛṣṇaloka, ou Goloka Vṛndāvana. No Brahma-saṁhitā, afirma-se claramente (goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ [Bs. 5.37]) que o Senhor, embora resida sempre em Sua morada chamada Goloka, é também o Brahman onipenetrante e o Paramātmā localizado, em virtude de Suas energias espirituais superiores. Ninguém pode alcançar o céu espiritual nem entrar na morada eterna do Senhor (Vaikuṇṭha, Goloka Vṛndāvana) sem compreender devidamente Kṛṣṇa e Sua expansão plenária Viṣṇu. E, segundo o Brahma-saṁhitā, é necessário aprender com nossa mãe autorizada, a veda-mātā. O Brahma-saṁhitā afirma que o Senhor Supremo vive não apenas em Sua morada, Goloka Vṛndāvana, mas em toda parte: goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ [Bs. 5.37]. Ele é como o sol, que está a milhões de quilômetros de distância e, ainda assim, está presente dentro desta sala.



Em conclusão, a pessoa que trabalha em consciência de Kṛṣṇa é o yogī perfeito, pois sua mente está sempre absorta nas atividades de Kṛṣṇa. Sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ. Nos *Vedas*, também aprendemos, tam eva viditvāti mṛtyum eti: "Pode-se superar o caminho do nascimento e da morte unicamente compreendendo a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa". Assim, a perfeição do yoga é a conquista da liberdade da existência material, e não algum malabarismo mágico ou proeza ginástica para iludir pessoas inocentes.



Neste sistema de yoga, exige-se moderação; por isso se afirma que não devemos comer demais nem muito pouco, dormir demais nem muito pouco, nem trabalhar demais nem muito pouco. Todas essas atividades estão presentes porque temos de executar o sistema de yoga com este corpo material. Em outras palavras, temos de tirar o melhor proveito de um mau negócio. O corpo material é um mau negócio no sentido de que é a fonte de todas as misérias. A alma espiritual não experimenta miséria, e a condição normal da entidade viva é sua vida espiritual saudável. A miséria e a doença ocorrem devido à contaminação material, à enfermidade, à infecção. Logo, em certo sentido, a existência material é uma condição doentia da alma. E qual é essa doença? A resposta não é um grande mistério. A doença é este corpo. Este corpo, na verdade, não foi feito para mim. Pode ser "meu" corpo, mas é um sintoma de minha condição doentia. De todo modo, eu não deveria identificar-me com este corpo mais do que me identifico com minhas roupas. Neste mundo, estamos todos trajados de maneiras diferentes. Estamos trajados como homens vermelhos, homens morenos, homens brancos, homens negros, homens amarelos etc., ou como indianos, norte-americanos, hindus, muçulmanos, cristãos etc. Todas essas designações não são sintomáticas de nossa posição real, mas de nossa condição doentia. O sistema de yoga destina-se a curar esta doença reconectando-nos com o Supremo.



Estamos destinados a estar conectados com o Supremo, assim como nossa mão está destinada a estar conectada ao nosso corpo. Somos partes integrantes do Supremo, assim como a mão é parte integrante do corpo. Quando a mão é separada do corpo, não tem valor algum, mas, quando está unida ao corpo, é inestimável. De modo semelhante, nesta condição material, estamos desconectados de Deus. Na verdade, a palavra "desconectados" não é precisa, pois a conexão está sempre presente. Deus está sempre suprindo todas as nossas necessidades. Visto que nada pode existir sem Kṛṣṇa, não podemos estar desconectados Dele. Antes, é melhor dizer que esquecemos que estamos conectados a Kṛṣṇa. Por causa desse esquecimento, entramos no departamento criminal do universo. O governo continua cuidando de seus criminosos, mas eles estão legalmente desconectados do estado civil. Nossa desconexão é o resultado de nos ocuparmos em tantas atividades absurdas em vez de utilizarmos nossos sentidos no desempenho de nossos deveres em consciência de Kṛṣṇa.



Em vez de pensar: "Sou o servo eterno de Deus, ou Kṛṣṇa", estamos pensando: "Sou o servo de minha sociedade, de meu país, de meu marido, de minha esposa, de meu cão ou do que for". Isso se chama esquecimento. Como isso veio a acontecer? Todas essas concepções errôneas surgiram devido a este corpo. Por ter nascido nos Estados Unidos, penso que sou norte-americano. Cada sociedade ensina seus cidadãos a pensar dessa maneira. Por estar pensando que sou norte-americano, o governo dos Estados Unidos pode dizer-me: "Venha e lute. Dê sua vida por seu país". Tudo isso se deve à concepção corporal; por isso, a pessoa inteligente deve saber que sofre misérias devido a seu corpo e que não deve agir de tal modo que continue aprisionada dentro de um corpo material nascimento após nascimento. Segundo o *Padma Purāṇa*, há 8.400.000 espécies de vida, e todas não passam de diferentes formas de contaminação — quer se tenha um corpo norte-americano, um corpo indiano, um corpo de cão, um corpo de porco ou o que seja. Por conseguinte, a primeira instrução no yoga é: "Eu não sou este corpo".



Alcançar a liberação da contaminação do corpo material é o primeiro ensinamento do *Bhagavad-gītā*. No Segundo Capítulo, depois que Arjuna disse a Śrī Kṛṣṇa: "Não lutarei", o Senhor disse: "Enquanto profere palavras eruditas, você se lamenta por aquilo que não é digno de pesar. Os sábios não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos". (Bg. 2.11) Em outras palavras, Arjuna estava pensando na plataforma corporal. Ele queria abandonar o campo de batalha porque não desejava lutar contra seus parentes. Todas as suas concepções estavam dentro da atmosfera corporal; por isso, depois que Arjuna aceitou Śrī Kṛṣṇa como seu mestre espiritual, o Senhor o repreendeu de imediato, assim como um mestre repreende seu discípulo a fim de ensiná-lo. Em essência, Śrī Kṛṣṇa disse a Arjuna: "Você está falando muito sabiamente, como se soubesse muitas coisas, mas, na verdade, está dizendo tolices, porque está falando a partir da posição corporal". De modo semelhante, pessoas em todo o mundo apresentam-se como muito avançadas em educação, ciência, filosofia, política etc., mas sua posição está na plataforma corporal.



Um abutre pode elevar-se muito alto no céu — sete ou oito milhas — e é maravilhoso vê-lo voar dessa maneira. Ele também tem olhos poderosos, pois consegue avistar uma carcaça a grande distância. No entanto, qual é o objeto de todas essas grandes qualificações? Um corpo morto, uma carcaça putrefata. Sua perfeição consiste apenas em descobrir um pedaço de carne morta e comê-lo. Isso é tudo. De modo semelhante, podemos ter uma educação muito elevada, mas qual é nosso objetivo? A gratificação dos sentidos, o gozo deste corpo material. Podemos elevar-nos muito alto com nossas naves espaciais, mas qual é o propósito? A gratificação dos sentidos, isso é tudo. Isso significa que todo o empenho e toda essa educação elevada estão meramente na plataforma animal.



Por conseguinte, antes de tudo, devemos saber que nossa miserável condição material se deve a este corpo. Ao mesmo tempo, devemos saber que este corpo não é permanente. Embora eu me identifique com meu corpo, minha família, minha sociedade, meu país e tantas outras coisas, quanto tempo esses objetos existirão? Não são permanentes. Asat é uma palavra que significa que deixarão de existir. Asann api kleśada āsa dehaḥ: [SB 5.5.4] "O corpo é simplesmente problemático e impermanente".



Muitas pessoas vêm a nós dizendo: "Swāmījī, minha situação é muito problemática", mas, tão logo lhes sugerimos o remédio, não o aceitam. Isso significa que as pessoas querem fabricar seu próprio remédio. Por que vamos a um médico se queremos tratar a nós mesmos? As pessoas querem aceitar apenas o que consideram agradável.



Embora estejamos sugerindo que este corpo é inútil e é uma forma de contaminação, não estamos recomendando que se abuse dele. Podemos usar um automóvel para que nos leve ao trabalho, mas isso não significa que não devamos cuidar dele. Devemos cuidar do automóvel para que nos transporte de um lado a outro, mas não devemos apegar-nos tanto a ele a ponto de poli-lo todos os dias. Devemos utilizar este corpo material para executar a consciência de Kṛṣṇa e, com esse fim, devemos mantê-lo apto e saudável, mas não devemos apegar-nos demais a ele. Isso se chama yukta-vairāgya. O corpo não deve ser negligenciado. Devemos banhar-nos regularmente, comer regularmente, dormir regularmente, a fim de manter a mente e o corpo saudáveis. Algumas pessoas dizem que o corpo deve ser renunciado e que devemos tomar drogas e abandonar-nos à intoxicação, mas isso não é um processo de yoga. Kṛṣṇa nos deu alimentos saborosos — frutas, cereais, verduras e leite — e podemos preparar centenas e milhares de preparações saborosas e oferecê-las ao Senhor. Nosso processo é comer kṛṣṇa-prasāda e satisfazer a língua desse modo. Mas não devemos ser gulosos e comer dúzias de samosās, doces e rasagullās. Não. Devemos comer e dormir apenas o suficiente para manter o corpo apto, e nada mais. Afirma-se:



yuktāhāra-vihārasya

yukta-ceṣṭasya karmasu

yukta-svapnāvabodhasya

yogo bhavati duḥkha-hā



"Aquele que é moderado em seus hábitos de comer, dormir, trabalhar e recrear-se pode mitigar todos os sofrimentos materiais praticando o sistema de yoga". (Bg. 6.17)



Embora devamos minimizar nosso comer e dormir, não devemos tentá-lo demasiado rapidamente, sob o risco de adoecermos. Como as pessoas estão acostumadas a comer vorazmente, há prescrições para o jejum. Podemos reduzir nosso dormir e comer, mas devemos manter-nos com boa saúde para fins espirituais. Não devemos tentar reduzir o comer e o dormir demasiado rápida ou artificialmente; quando avançarmos, naturalmente não sentiremos dor devido à redução desses processos corporais naturais. A esse respeito, Raghunātha dāsa Gosvāmī oferece um bom exemplo. Embora fosse filho de um homem muito rico, Raghunātha dāsa deixou seu lar para unir-se ao Senhor Caitanya Mahāprabhu. Por ser o único filho, Raghunātha dāsa era muito amado por seu pai. Ao compreender que seu filho havia ido a Jagannātha Purī unir-se ao Senhor Caitanya, o pai enviou quatro servos com dinheiro para atendê-lo. A princípio, Raghunātha aceitou o dinheiro, pensando: "Oh, visto que meu pai enviou todo este dinheiro, vou aceitá-lo e convidar todos os sannyāsīs para um banquete".



Depois de algum tempo, contudo, os banquetes chegaram ao fim. Então, o Senhor Caitanya Mahāprabhu perguntou a Seu secretário, Svarūpa Dāmodara: "Ultimamente, não recebo nenhum convite de Raghunātha. O que aconteceu?".



"Isso ocorre porque Raghunātha deixou de aceitar o dinheiro de seu pai".



"Oh, isso é muito bom", disse Caitanya Mahāprabhu.



"Raghunātha estava pensando: 'Embora eu tenha renunciado a tudo, ainda estou desfrutando do dinheiro de meu pai. Isso é hipócrita'. Por isso, ele disse aos servos que voltassem para casa e recusou o dinheiro".



"E como ele está vivendo?", perguntou Caitanya Mahāprabhu.



"Oh, ele fica de pé nos degraus do templo de Jagannātha e, quando os sacerdotes passam por ele a caminho de casa, oferecem-lhe algum prasāda. Desse modo, ele se satisfaz".



"Isso é muito bom", comentou Caitanya Mahāprabhu.



Indo regularmente ao templo de Jagannātha, o Senhor Caitanya Mahāprabhu costumava ver Raghunātha de pé nos degraus. Depois de alguns dias, contudo, deixou de vê-lo ali. Por isso, o Senhor comentou a Seu secretário: "Já não vejo Raghunātha de pé nos degraus do templo".



"Ele abandonou isso", explicou Svarūpa Dāmodara. "Ele estava pensando: 'Oh, estou aqui de pé como uma prostituta, à espera de que alguém venha e me dê alimento. Não. Não gosto disso de modo algum' ".



"Isso é muito bom", disse Caitanya Mahāprabhu, "mas como ele está comendo?".



"Todos os dias ele recolhe um pouco de arroz rejeitado da cozinha e come isso".



Para encorajar Raghunātha, Caitanya Mahāprabhu visitou-o certo dia. "Raghunātha", disse o Senhor, "ouvi dizer que você está comendo alimento muito saboroso. Por que não Me convida?".



Raghunātha não respondeu, mas o Senhor rapidamente encontrou o lugar onde ele guardava o arroz, e imediatamente tomou um pouco e começou a comê-lo.



"Querido Senhor", implorou Raghunātha, "por favor, não coma isto. Não é apropriado para o Senhor".



"Oh, não? Por que você diz que não é apropriado para Mim? É prasāda do Senhor Jagannātha!".



O Senhor Caitanya Mahāprabhu encenou este passatempo apenas para desencorajar Raghunātha de pensar: "Estou comendo este miserável arroz rejeitado". Mediante o encorajamento do Senhor, Raghunātha dāsa Gosvāmī reduziu sua quantidade diária de alimento até que, por fim, comia apenas uma porção de manteiga a cada dois dias. E todos os dias também se prostrava centenas de vezes e cantava constantemente os santos nomes. Saṅkhyā-pūrvaka-nāma-gāna-natibhiḥ kālāvasānī-kṛtau.



Embora este seja um exemplo excelente de minimizar todas as necessidades materiais, não devemos tentar imitá-lo. Não é possível a um homem comum imitar Raghunātha dāsa Gosvāmī, que foi um dos seis Gosvāmīs, um associado altamente elevado do próprio Senhor Caitanya Mahāprabhu. Cada um dos seis Gosvāmīs exibiu um exemplo único de como se pode avançar em consciência de Kṛṣṇa, mas não é nosso dever imitá-los. Devemos apenas tentar seguir, na medida do possível, seus passos. Se tentarmos de imediato tornar-nos como Raghunātha dāsa Gosvāmī, imitando-o, com certeza fracassaremos, e todo o progresso que tivermos feito será derrotado. Por isso, o Senhor diz (Bg. 6.16) que não há possibilidade de a pessoa tornar-se um yogī se come demais ou muito pouco.



A mesma moderação aplica-se ao sono. Atualmente, posso estar dormindo dez horas por dia, mas, se consigo manter-me apto dormindo cinco horas, por que dormir dez? No que toca ao corpo, há quatro exigências: comer, dormir, acasalar-se e defender-se. O problema da civilização moderna é que ela está tentando aumentar essas exigências, mas, ao contrário, elas deveriam ser diminuídas. Comamos o que precisarmos e durmamos quando precisarmos, e nossa saúde será excelente. Não há motivo para imitação artificial.



E qual é o resultado obtido por aquele que é moderado em seus hábitos?



yadā viniyataṁ cittam

ātmany evāvatiṣṭhate

nispṛhaḥ sarva-kāmebhyo

yukta ity ucyate tadā



"Quando o yogī, pela prática do yoga, disciplina suas atividades mentais e se situa na Transcendência — desprovido de todo desejo material —, diz-se que ele alcançou o yoga". (Bg. 6.18)



A perfeição do yoga significa manter a mente num estado de equilíbrio. Materialmente falando, isso é impossível. Depois de ler um romance mundano uma vez, você não desejará lê-lo de novo, mas pode ler o *Bhagavad-gītā* quatro vezes por dia e ainda assim não se cansar dele. Você pode cantar o nome de alguém por meia hora, ou cantar uma canção mundana três ou quatro vezes, mas em pouco tempo isso se torna tedioso. Hare Kṛṣṇa, contudo, pode ser cantado dia e noite, e a pessoa jamais se cansará disso. Por isso, é somente mediante a vibração transcendental que a mente pode ser mantida num estado de equilíbrio. Quando as atividades mentais da pessoa estão assim estabilizadas, diz-se que ela alcançou o yoga.



A etapa perfeita do yoga foi exibida pelo rei Ambarīṣa, que utilizou todos os seus sentidos no serviço do Senhor. Como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* (9.4.18–20):



sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayor

vacāṁsi vaikuṇṭha-guṇānuvarṇane

karau harer mandira-mārjanādiṣu

śrutiṁ cakārācyuta-sat-kathodaye



mukunda-liṅgālaya-darśane dṛśau

tad-bhṛtya-gātra-sparśe 'ṅga-saṅgamam

ghrāṇaṁ ca tat-pāda-saroja-saurabhe

śrīmat-tulasyā rasanaṁ tad-arpite



pādau hareḥ kṣetra-padānusarpaṇe

śiro hṛṣīkeśa-padābhivandane

kāmaṁ ca dāsye na tu kāma-kāmyayā

yathottamaśloka-janāśrayā ratiḥ



"O rei Ambarīṣa, antes de tudo, ocupou a mente nos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa; depois, uma após outra, ocupou suas palavras em descrever as qualidades transcendentais do Senhor, suas mãos em limpar o templo do Senhor, seus ouvidos em ouvir as atividades do Senhor, seus olhos em ver as formas transcendentais do Senhor, seu corpo em tocar os corpos dos devotos, seu olfato em cheirar as fragrâncias das flores de lótus oferecidas ao Senhor, sua língua em saborear a folha de tulasī oferecida no templo do Senhor, sua cabeça em oferecer reverências ao Senhor e seus desejos em executar a missão do Senhor. Todas essas atividades transcendentais são bastante condizentes com um devoto puro".



Esta é, portanto, a perfeição do yoga, desprovida de todo desejo material. Se todos os nossos desejos são para Kṛṣṇa, não há espaço para o desejo material. Todo desejo material se encerra automaticamente. Não temos de tentar concentrar-nos artificialmente. Toda a perfeição se encontra na consciência de Kṛṣṇa, porque ela está na plataforma espiritual. Por estar na plataforma espiritual, este yoga supremo é eterno, bem-aventurado e pleno de conhecimento. Por isso, não há receios nem impedimentos materiais.
