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8. Ação no Conhecimento de Kṛṣṇa

na māṁ karmāṇi limpanti

na me karma-phale spṛhā

iti māṁ yo 'bhijānāti

karmabhir na sa badhyate



"Não há trabalho que Me afete; nem aspiro pelos frutos da ação. Aquele que compreende esta verdade a Meu respeito também não fica enredado nas reações fruitivas do trabalho." (Bg. 4.14)



O mundo inteiro está atado pelo karma. Todos sabemos da existência de micróbios ou germes, que existem aos milhões dentro da medida de um milímetro. No Brahma-saṁhitā, afirma-se que, começando pelo micróbio, chamado indragopa, até Indra, o rei dos planetas celestiais, todos estão atados pelo karma, a reação do trabalho. Todos nós temos de sofrer ou desfrutar as reações de nosso trabalho, sejam elas boas ou más. Enquanto tivermos de sofrer ou desfrutar essas reações, estaremos atados a estes corpos materiais.



Pela disposição da natureza, o corpo material é dado à entidade viva para seu sofrimento ou desfrute. Diferentes tipos de corpos são adquiridos para diferentes propósitos. O corpo de um tigre é feito para matar e comer carne crua. De modo semelhante, os porcos são feitos de tal maneira que podem comer excremento. E, como seres humanos, nossos dentes são feitos para comer vegetais e frutas. Todos estes corpos são feitos segundo o trabalho realizado pela entidade viva em vidas passadas. Nossos próximos corpos estão sendo preparados segundo o trabalho que estamos fazendo agora; mas, no verso anteriormente citado, Śrī Kṛṣṇa indica que aquele que conhece a natureza transcendental de Suas atividades torna-se livre das reações das atividades. Nossas atividades devem ser tais que não nos enredemos novamente neste mundo material. Isso torna-se possível se nos tornarmos conscientes de Kṛṣṇa estudando Kṛṣṇa, aprendendo a respeito da natureza transcendental de Suas atividades e compreendendo como Ele Se comporta neste mundo material e no mundo espiritual.



Quando Kṛṣṇa vem a esta terra, não é como nós; Ele é totalmente transcendental. Nós desejamos os frutos de nossas atividades, mas Kṛṣṇa não deseja fruto algum, nem há quaisquer reações às Suas ações. Tampouco Ele tem qualquer desejo de atividade fruitiva (na me karma-phale spṛhā). Quando entramos num negócio, esperamos lucro e, com esse lucro, esperamos comprar coisas que tornarão nossa vida prazerosa. Sempre que as almas condicionadas fazem algo, há, por trás disso, desejo de desfrute. Mas Kṛṣṇa nada tem a desejar. Ele é a Suprema Personalidade de Deus, e é pleno em tudo. Quando Kṛṣṇa veio a esta terra, teve muitas namoradas e mais de 16.000 esposas, e algumas pessoas pensam que Ele era muito sensual. Mas este não era o fato.



Devemos compreender o significado das relações com Kṛṣṇa. Neste mundo material, temos muitas relações, como pai, mãe, esposa ou marido. Qualquer relação que aqui encontremos é apenas um reflexo pervertido da relação que temos com o Senhor Supremo. Tudo o que encontramos neste mundo material nasce da Verdade Absoluta, mas aqui é refletido pervertidamente no tempo. Qualquer relação que tenhamos com Kṛṣṇa prossegue. Se temos uma relação de amizade, essa amizade é eterna e continua de vida em vida. No mundo material, uma amizade existe por alguns anos e depois se rompe; por isso, é chamada pervertida, temporária ou irreal. Se firmarmos nossa amizade com Kṛṣṇa, ela jamais se romperá. Se fizermos de Kṛṣṇa nosso amo, jamais seremos enganados. Se amarmos Kṛṣṇa como nosso filho, Ele jamais morrerá. Se amarmos Kṛṣṇa como nosso amado, Ele será o melhor de todos, e não haverá separação. Porque Kṛṣṇa é o Senhor Supremo, Ele é ilimitado e tem um número ilimitado de devotos. Alguns estão tentando amá-Lo como amado ou marido, e por isso Kṛṣṇa aceita este papel. De qualquer maneira que abordemos Kṛṣṇa, Ele nos aceitará, como Ele afirma no *Bhagavad-gītā*.



ye yathā māṁ prapadyante

tāṁs tathaiva bhajāmy aham

mama vartmānuvartante

manuṣyāḥ pārtha sarvaśaḥ



"A todos eles — conforme se rendem a Mim — Eu recompenso de acordo. Todos seguem Meu caminho em todos os aspectos, ó filho de Pṛthā." (Bg. 4.11)



As gopīs, ou namoradas vaqueirinhas de Kṛṣṇa, submeteram-se a tremendas penitências em suas vidas passadas para obter Kṛṣṇa como seu marido. De modo semelhante, no *Śrīmad-Bhāgavatam*, Śukadeva Gosvāmī diz que aqueles meninos que brincavam com Kṛṣṇa haviam se submetido a grandes penitências e austeridades em suas vidas passadas a fim de obter Kṛṣṇa como companheiro de brincadeiras. Assim, os companheiros de brincadeira, os associados e as esposas de Kṛṣṇa não são entidades vivas comuns. Como não temos ideia da consciência de Kṛṣṇa, tomamos Suas atividades por insignificâncias, mas, na verdade, elas são sublimes. Toda a perfeição de nossos desejos está ali; quaisquer desejos que tenhamos constitucionalmente serão perfeitamente satisfeitos quando estivermos em consciência de Kṛṣṇa.



Kṛṣṇa não precisava de amigo algum para brincar com Ele, nem desejava uma única esposa. Nós tomamos uma esposa porque temos algum desejo a satisfazer, mas Kṛṣṇa é completo em Si mesmo (pūrṇam). Um homem pobre pode desejar ter mil dólares no banco, mas um homem rico que possui milhões não tem tal desejo. Se Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, por que haveria de ter desejos? Antes, Ele satisfaz os desejos dos outros. O homem propõe, e Deus dispõe. Se Kṛṣṇa tivesse algum desejo, seria imperfeito, pois Lhe estaria faltando algo. Por isso, Ele diz que não tem desejo algum a satisfazer. Como Yogeśvara, ou como amo de todos os yogīs, tudo o que Ele deseja é imediatamente realizado. Não há possibilidade de desejo. Ele Se torna marido, amado ou amigo apenas para satisfazer os desejos de Seus devotos. Se aceitamos Kṛṣṇa como amigo, amo, filho ou amado, jamais nos frustraremos. Toda entidade viva tem uma relação específica com Kṛṣṇa, mas, no presente, esta relação está coberta. À medida que avançarmos em consciência de Kṛṣṇa, ela será revelada.



Embora o Senhor Supremo seja pleno e nada tenha a fazer, Ele trabalha a fim de dar o exemplo. Ele não está atado às Suas atividades no mundo material, e aquele que sabe disto também se torna livre das atividades reacionais.



evaṁ jñātvā kṛtaṁ karma

pūrvair api mumukṣubhiḥ

kuru karmaiva tasmāt tvaṁ

pūrvaiḥ pūrvataraṁ kṛtam



"Todas as almas liberadas dos tempos antigos agiram com esta compreensão e, assim, alcançaram a liberação. Portanto, à semelhança dos antigos, deves executar teu dever nesta consciência divina." (Bg. 4.15)



O processo da consciência de Kṛṣṇa exige que sigamos os passos dos grandes ācāryas que alcançaram o êxito na vida espiritual. Se a pessoa age seguindo os exemplos dados pelos grandes ācāryas, sábios, devotos e reis iluminados que realizaram karma-yoga em suas vidas, também ela se tornará livre.



No campo de batalha de Kurukṣetra, Arjuna estava muito receoso de enredar-se em suas atividades ao engajar-se na guerra. Kṛṣṇa, portanto, garantiu-lhe que, se lutasse em prol Dele, não haveria possibilidade de enredamento.



kiṁ karma kim akarmeti

kavayo 'py atra mohitāḥ

tat te karma pravakṣyāmi

yaj jñātvā mokṣyase 'śubhāt



"Mesmo os inteligentes ficam confusos ao determinar o que é ação e o que é inação. Agora explicarei a ti o que é ação, conhecendo a qual serás liberado de todos os pecados." (Bg. 4.16)



As pessoas estão, de fato, confusas quanto ao que é trabalho (karma) e ao que não é trabalho (akarma). Kṛṣṇa indica aqui que mesmo grandes eruditos (kavayaḥ) ficam desnorteados quanto à natureza do trabalho. É necessário saber quais atividades são genuínas e quais não, quais são fidedignas e quais não, quais são proibidas e quais não. Se compreendemos o princípio do trabalho, podemos libertar-nos do cativeiro material. É, por conseguinte, necessário saber como conduzir o trabalho de modo que, quando deixarmos o corpo material, não sejamos mais forçados a tomar outro, mas estejamos livres para entrar no céu espiritual. O princípio do trabalho apropriado é claramente afirmado por Śrī Kṛṣṇa no último verso do Décimo Primeiro Capítulo:



mat-karma-kṛn mat-paramo

mad-bhaktaḥ saṅga-varjitaḥ

nirvairaḥ sarva-bhūteṣu

yaḥ sa mām eti pāṇḍava



"Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre da contaminação de atividades anteriores e da especulação mental, que é amigo de toda entidade viva, certamente vem a Mim." (Bg. 11.55)



Este único verso é suficiente para compreender a essência do *Bhagavad-gītā*. Deve-se estar ocupado em "Meu trabalho". E qual é este trabalho? Ele é indicado na última instrução do *Bhagavad-gītā*, na qual Kṛṣṇa diz a Arjuna que se renda a Ele (Bg. 18.66).



Pelo exemplo de Arjuna, devemos aprender que devemos realizar somente o trabalho sancionado por Kṛṣṇa. Esta é a missão da vida humana, mas não a conhecemos. Por causa de nossa ignorância, ocupamo-nos em tanto trabalho que está ligado à concepção corporal ou material da vida. Kṛṣṇa queria que Arjuna lutasse e, embora Arjuna não quisesse lutar, ele lutou porque Kṛṣṇa o desejou. Temos de aprender a seguir este exemplo.



Naturalmente, Kṛṣṇa estava presente para dizer a Arjuna qual era o seu trabalho, mas e quanto a nós? Śrī Kṛṣṇa dirigia pessoalmente Arjuna a agir de tal e tal maneira; mas, só porque Kṛṣṇa não está pessoalmente presente diante de nós, não devemos supor que não haja direção. De fato, há direção. No último capítulo do *Bhagavad-gītā* é dado o trabalho apropriado que devemos realizar.



ya idaṁ paramaṁ guhyaṁ

mad-bhakteṣv abhidhāsyati

bhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā

mām evaiṣyaty asaṁśayaḥ



na ca tasmān manuṣyeṣu

kaścin me priya-kṛttamaḥ

bhavitā na ca me tasmād

anyaḥ priyataro bhuvi



"Para aquele que explica o segredo supremo aos devotos, o serviço devocional está garantido, e, ao final, ele voltará a Mim. Não há servo neste mundo mais querido para Mim do que ele, nem jamais haverá outro mais querido." (Bg. 18.68–69)



É, portanto, incumbência nossa pregar o método do *Bhagavad-gītā* e tornar as pessoas conscientes de Kṛṣṇa. As pessoas estão de fato sofrendo por falta da consciência de Kṛṣṇa. Devemos todos ocupar-nos em difundir a ciência de Kṛṣṇa para o benefício do mundo inteiro. O Senhor Caitanya Mahāprabhu veio com esta missão de ensinar a consciência de Kṛṣṇa, e disse que, independentemente da posição da pessoa, se ela ensina a consciência de Kṛṣṇa, deve ser considerada um mestre espiritual. Tanto o *Bhagavad-gītā* quanto o *Śrīmad-Bhāgavatam* estão repletos de informações sobre como tornar-se consciente de Kṛṣṇa. O Senhor Caitanya Mahāprabhu selecionou esses dois livros e pediu que as pessoas em todos os cantos do mundo difundissem esta ciência de Kṛṣṇa em cada cidade e vila. O Senhor Caitanya Mahāprabhu era o próprio Kṛṣṇa, e devemos tomar isto como a indicação de Kṛṣṇa quanto ao nosso trabalho apropriado. Mas devemos ter o cuidado de apresentar o *Bhagavad-gītā* como ele é, sem interpretação ou motivação pessoal. Algumas pessoas apresentam interpretações do *Bhagavad-gītā*, mas devemos apresentar as palavras como são faladas por Śrī Kṛṣṇa.



Aquele que trabalha para Kṛṣṇa pode parecer estar trabalhando como qualquer outro no mundo material, mas este não é o caso. Arjuna pode ter lutado como um militar comum, mas, porque lutou em consciência de Kṛṣṇa, ficou livre do enredamento de suas atividades. Dessa maneira, seu trabalho, embora parecesse material, não era material de modo algum. Qualquer ação sancionada por Kṛṣṇa — independentemente do que seja — não tem reação. Lutar pode não ser coisa muito boa, mas, às vezes, como no caso da Batalha de Kurukṣetra, é uma necessidade absoluta. Por outro lado, podemos realizar trabalho que seja, na opinião do mundo, muito altruísta ou humanitário, e ainda assim estarmos atados à atividade material. Assim, não é a ação em si que é importante, mas a consciência na qual a ação é executada.



karmaṇo hy api boddhavyaṁ

boddhavyaṁ ca vikarmaṇaḥ

akarmaṇaś ca boddhavyaṁ

gahanā karmaṇo gatiḥ



"As complexidades da ação são muito difíceis de compreender. Por isso, deve-se conhecer apropriadamente o que é ação, o que é ação proibida e o que é inação." (Bg. 4.17)



A senda do karma é muito intrincada; por isso, devemos compreender as distinções entre karma, akarma e vikarma. Se simplesmente nos ocuparmos em consciência de Kṛṣṇa, tudo se torna claro. De outro modo, teremos de fazer distinções entre o que devemos fazer e o que não devemos fazer, a fim de não nos enredarmos. No curso ordinário da vida, sem o saber, quebramos alguma lei e temos de sofrer as consequências. De modo semelhante, as leis da natureza são muito estritas e rigorosas, e não aceitam desculpa. É lei da natureza que o fogo queima e, mesmo que uma criança o toque, será queimada, apesar de sua ignorância e inocência. Assim, temos de escolher nosso curso de ação com muito cuidado, para que as leis rigorosas da natureza não reajam de modo a atar-nos ao sofrimento. É, por isso, necessário compreender qual trabalho fazer e qual trabalho evitar.



A palavra karma refere-se aos deveres prescritos. A palavra vikarma refere-se a atividades que são contrárias aos deveres prescritos da pessoa. E a palavra akarma refere-se a atividades que não têm reação alguma. Na execução de atividades akármicas, pode parecer haver algumas reações, mas, na realidade, não há. Quando trabalhamos sob a direção de Kṛṣṇa, este é de fato o caso — não há reações. Se tomamos para nós a iniciativa de matar alguém, ficamos sujeitos à pena capital pelo governo do estado. Nossas ações são então chamadas vikarma, pois são contrárias às ações prescritas. Se, contudo, o governo nos convoca para o exército, e nos engajamos em batalha e matamos alguém, não sofremos as reações, e isto se chama akarma. Num caso, agimos segundo nossos próprios caprichos; e, no outro, agimos sob a direção do governo. De modo semelhante, quando agimos sob a direção de Kṛṣṇa, nossas ações realizadas são chamadas akarma, pois esse tipo de atividade não tem reação.



karmaṇy akarma yaḥ paśyed

akarmaṇi ca karma yaḥ

sa buddhimān manuṣyeṣu

sa yuktaḥ kṛtsna-karma-kṛt



"Aquele que vê inação na ação, e ação na inação, é inteligente entre os homens, e está na posição transcendental, embora ocupado em todos os tipos de atividades." (Bg. 4.18)



Aquele que pode de fato perceber que, apesar das atividades, não há reações kármicas — que compreende a natureza do akarma — vê realmente as coisas como elas são. A palavra akarmaṇi refere-se a quem está procurando evitar as reações do karma. Ao ajustar suas atividades à consciência de Kṛṣṇa, embora possa realizar todos os tipos de atividades, a pessoa permanece livre. No Campo de Batalha de Kurukṣetra, Arjuna empenhou-se em lutar, e os do lado de Duryodhana também se empenharam em lutar. Devemos compreender como é que Arjuna fica livre de reação, ao passo que Duryodhana não. Externamente, vemos que ambas as partes se ocupam em combater, mas devemos compreender que Arjuna não está atado às reações, porque luta sob a ordem de Kṛṣṇa. Assim, quando vemos alguém trabalhando em consciência de Kṛṣṇa, devemos compreender que seu trabalho não acarreta reação alguma. Quem consegue ver tal trabalho e compreendê-lo deve ser considerado muito inteligente (sa buddhimān). A técnica não está tanto em ver o que uma pessoa está fazendo, mas em compreender por que ela o faz.



Na verdade, Arjuna estava empenhado em atividade muito desagradável no campo de batalha, mas, por estar em consciência de Kṛṣṇa, não sofreu reação alguma. Podemos realizar alguma ação que consideremos um trabalho muito bom, porém, se não a realizamos em consciência de Kṛṣṇa, temos de sofrer as reações. Do ponto de vista material, a decisão inicial de Arjuna de não lutar foi acertada, mas, do ponto de vista espiritual, não foi. Quando fazemos trabalho piedoso, obtemos certos resultados. Podemos nascer numa família muito boa, na família de um brāhmaṇa ou de um homem abastado; podemos tornar-nos muito ricos ou muito eruditos, ou podemos tornar-nos muito belos. Por outro lado, se fazemos trabalho ímpio, podemos ter de nascer numa família de classe baixa ou numa família animal, ou tornar-nos analfabetos ou tolos, ou muito feios. Ainda que nos ocupemos em trabalho muito piedoso e tenhamos um bom nascimento, continuaremos sujeitos às rigorosas leis de ação e reação. Nosso objetivo principal deve ser escapar das leis deste mundo material. Se não compreendermos isto, seremos atraídos por famílias aristocráticas, pela riqueza, por uma boa educação ou por um belo corpo. Devemos chegar a compreender que, apesar de dispormos de todas essas facilidades para a vida material, não estamos livres do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Para nos advertir disto, Śrī Kṛṣṇa nos previne no *Bhagavad-gītā*:



ābrahma-bhuvanāl lokāḥ

punar āvartino 'rjuna

mām upetya tu kaunteya

punar janma na vidyate



"Desde o planeta mais elevado no mundo material até o mais baixo, todos são lugares de miséria onde ocorre o repetido nascimento e morte." (Bg. 8.16)



Mesmo em Brahmaloka, o planeta mais elevado no universo material, também está presente a repetição de nascimento e morte. Temos de ir ao planeta de Kṛṣṇa para nos libertarmos disto. Pode ser muito agradável ser um homem rico ou um homem belo, mas por quanto tempo permaneceremos assim? Não é essa a nossa vida permanente. Podemos permanecer eruditos, ricos e belos por cinquenta, sessenta ou, no máximo, cem anos, mas a vida verdadeira não dura cinquenta nem cem anos, nem mil anos, nem mesmo um milhão de anos. Somos eternos, e temos de alcançar nossa vida eterna. Todo o nosso problema é não a termos alcançado. Esse problema pode ser solucionado quando estamos conscientes de Kṛṣṇa.



Se deixarmos este corpo material em consciência de Kṛṣṇa, não mais teremos de retornar ao mundo material. A questão é evitar por completo esta existência material. Não se trata de melhorar nossa condição no mundo material. Na prisão, um homem pode desejar melhorar sua condição para tornar-se prisioneiro de primeira classe, e o governo pode conceder-lhe status A, mas nenhum homem ajuizado se satisfará por tornar-se prisioneiro de classe A. Ele deve desejar sair inteiramente da prisão. No mundo material, alguns de nós somos prisioneiros de classe A, classe B ou classe C, mas, em todo caso, somos todos prisioneiros. O verdadeiro conhecimento não consiste simplesmente em obter um mestrado ou um doutorado, mas em compreender estes problemas fundamentais da existência.



yasya sarve samārambhāḥ

kāma-saṅkalpa-varjitāḥ

jñānāgni-dagdha-karmāṇaṁ

tam āhuḥ paṇḍitaṁ budhaḥ



"Compreende-se que está em pleno conhecimento aquele cujos atos são todos desprovidos de desejo de gratificação dos sentidos. Os sábios dizem que ele é um trabalhador cuja ação fruitiva foi consumida pelo fogo do conhecimento perfeito." (Bg. 4.19)



A palavra paṇḍitam significa erudito, e budhāḥ significa bem-versado. No Décimo Capítulo, encontramos também a palavra budhāḥ no verso budhā bhāva-samanvitāḥ (Bg. 10.8). Segundo o *Bhagavad-gītā*, alguém pode não ser um homem erudito apenas por ter recebido muita instrução de uma universidade. O *Bhagavad-gītā* diz que homem erudito é aquele capaz de ver tudo em nível igual.



vidyā-vinaya-sampanne

brāhmaṇe gavi hastini

śuni caiva śva-pāke ca

paṇḍitāḥ sama-darśinaḥ



"O sábio humilde, em virtude do verdadeiro conhecimento, vê com visão igual um brāhmaṇa erudito e gentil, uma vaca, um elefante, um cão e um comedor de cães (pária)." (Bg. 5.18)



Na Índia, segundo a civilização Védica, um brāhmaṇa erudito é considerado o homem mais elevado na sociedade humana. O paṇḍita, que é erudito e gentil, vê tal brāhmaṇa no mesmo nível de um cão ou de um pária que come cães. Em outras palavras, não vê distinção entre o mais elevado e o mais baixo. Será que isto quer dizer que ser um brāhmaṇa erudito não é melhor do que ser um cão? Não, não é assim. Mas o paṇḍita os vê como iguais porque não vê a pele, e sim o espírito. Aquele que aprendeu a arte de ver a mesma alma espiritual dentro de cada ser vivo é considerado paṇḍita, pois, na realidade, cada ser vivo é uma centelha espiritual, parte integrante do completo todo espiritual. A centelha espiritual é a mesma em todos, mas está coberta por diferentes vestes. Um homem honrado pode apresentar-se com uma veste muito surrada, e nem por isso deve ser desonrado. No *Bhagavad-gītā*, estes corpos materiais são comparados a vestes usadas pela alma espiritual.



vāsāṁsi jīrṇāni yathā vihāya

navāni gṛhṇāti naro parāṇi

tathā śarīrāṇi vihāya jīrṇāny

anyāni saṁyāti navāni dehī



"Assim como uma pessoa veste roupas novas, abandonando as velhas, de modo semelhante a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis." (Bg. 2.22)



Sempre que virmos qualquer entidade viva, devemos pensar: "Aqui está uma alma espiritual." Quem quer que possa compreender tal visão espiritual da vida é paṇḍita. Cāṇakya Paṇḍita estabelece desta maneira o padrão para a educação, ou a qualificação para um paṇḍita: "O homem erudito vê todas as mulheres, com exceção de sua esposa, como sua mãe; vê todas as posses materiais como lixo na rua, e olha para os sofrimentos dos outros como olharia para os seus próprios." O Senhor Buda ensinou que não devemos ferir nem mesmo os animais, por palavra ou ato. Esta é a qualificação para um paṇḍita, e este deve ser o padrão de vida. Compreende-se, portanto, que a pessoa deve ser considerada instruída de acordo com sua visão de vida e com sua atividade em conformidade com essa visão, e não por seus diplomas acadêmicos. Esta é a compreensão da palavra paṇḍita segundo o *Bhagavad-gītā*. De modo semelhante, a palavra budhāḥ refere-se especificamente a quem é bem-versado no estudo das escrituras. Os resultados de tal percepção e aprendizado escritural são assim descritos no *Bhagavad-gītā*:



ahaṁ sarvasya prabhavo

mattaḥ sarvaṁ pravartate

iti matvā bhajante māṁ

budhā bhāva-samanvitāḥ



"Eu sou a fonte de todos os mundos espirituais e materiais. Tudo emana de Mim. Os sábios que sabem isto perfeitamente ocupam-se em Meu serviço devocional e Me adoram de todo o coração." (Bg. 10.8)



A pessoa bem-versada, ou budhāḥ, é aquela que compreendeu que Kṛṣṇa é a origem de todas as emanações. Tudo o que vemos não é senão uma emanação de Kṛṣṇa. Por milhões e milhões de anos, a luz do sol emana do sol, e ainda assim o sol permanece como é. De modo semelhante, todas as energias materiais e espirituais provêm de Kṛṣṇa. Como resultado de saber isto, a pessoa torna-se devota de Kṛṣṇa.



Assim, aquele que sabe que deve trabalhar em consciência de Kṛṣṇa, que não mais deseja desfrutar este mundo material, é de fato erudito. Todos trabalham no mundo material movidos pela luxúria (kāma), mas o homem sábio está livre dos ditames dessa luxúria (kāma-saṅkalpa-varjitāḥ). Como isto é possível? Jñānāgni-dagdha-karmāṇam: o fogo do conhecimento consome todas as reações das atividades pecaminosas. É o mais potente dos purificadores. Nossas vidas só têm sentido e direção na medida em que nos esforçamos por alcançar este conhecimento transcendental da consciência de Kṛṣṇa, a rāja-vidyā, que é o rei de todo conhecimento.
