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V. Praticando Yoga na Era da Discórdia

## Superconsciência


Os objetivos dos modernos entusiastas ocidentais do yoga são empequenecidos pelas realizações dos antigos yogīs da Índia, que, segundo os relatos históricos, podiam tornar-se menores que átomos e mais leves que o ar e podiam viajar, sem auxílio, a qualquer lugar do universo. Contudo, mesmo essas superconquistas, diz Śrīla Prabhupāda, são "apenas um passo adiante". Como o verdadeiro ápice da consciência humana, a superconsciência, é obtenível — aqui e agora — é revelado por Śrīla Prabhupāda na palestra a seguir, proferida em 1967.


A consciência de Kṛṣṇa é a mais elevada execução de yoga por yogīs devocionais treinados. O sistema de yoga, conforme se afirma na fórmula padrão de prática de yoga apresentada pelo Senhor Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*, e como se recomenda na disciplina de yoga de Patañjali, é diferente do haṭha-yoga praticado hoje em dia, tal como geralmente se entende nos países ocidentais.


A verdadeira prática de yoga significa controlar os sentidos e, depois que tal controle se estabelece, concentrar a mente na forma Nārāyaṇa da Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. O Senhor Kṛṣṇa é a Personalidade Absoluta original, o Deus, e todas as outras formas de Viṣṇu — com quatro braços, decoradas com búzio, lótus, maça e disco — são expansões plenárias de Kṛṣṇa.


No *Bhagavad-gītā* recomenda-se que devamos meditar na forma do Senhor. Para praticar a concentração da mente, é preciso sentar-se em um local recluso santificado por uma atmosfera sagrada, e o yogī deve observar as regras e regulações do brahmacarya — viver uma vida de estrito autodomínio e celibato. Ninguém pode praticar yoga numa cidade congestionada, vivendo uma vida de extravagância, incluindo desregrada indulgência sexual e adultério da língua.


Já afirmamos que a prática de yoga significa controlar os sentidos, e o começo do controle dos sentidos é controlar a língua. Não se pode permitir que a língua aceite toda espécie de comidas e bebidas proibidas e, ao mesmo tempo, progredir na prática de yoga. É um fato muito lamentável que muitos supostos yogīs desgarrados e não autorizados venham agora ao Ocidente e explorem a inclinação das pessoas para o yoga. Tais yogīs não autorizados chegam até a dizer publicamente que se pode entregar-se à bebida e, ao mesmo tempo, praticar meditação.


Há cinco mil anos, no diálogo do *Bhagavad-gītā*, o Senhor Kṛṣṇa recomendou a prática de yoga a Seu discípulo Arjuna, mas Arjuna expressou categoricamente sua incapacidade de seguir as rígidas regras e regulações do yoga. É preciso ser prático em todo campo de atividade. Não se deve desperdiçar o valioso tempo simplesmente praticando alguns feitos ginásticos em nome do yoga. O verdadeiro yoga consiste em buscar a Superalma de quatro braços dentro do próprio coração e vê-La perpetuamente em meditação. Essa meditação contínua chama-se samādhi. Se, contudo, alguém quiser meditar em algo vazio ou impessoal, será necessário muitíssimo tempo para alcançar qualquer coisa pela prática de yoga. Não podemos concentrar a mente em algo vazio ou impessoal. A verdadeira prática de yoga consiste em fixar a mente na pessoa do Nārāyaṇa de quatro braços, que habita no coração de todos.


Às vezes se diz que, pela meditação, a pessoa compreenderá que Deus está sempre situado dentro do próprio coração, mesmo quando não o sabe. Deus está situado no coração de todos. Ele não está situado apenas no coração do ser humano, mas está também dentro dos corações dos gatos e cães. O *Bhagavad-gītā* certifica isso com a declaração de que Īśvara, o controlador supremo do mundo, está situado no coração de todos. Ele está presente não apenas no coração de todos, mas também dentro dos átomos. Nenhum lugar está vago; nenhum lugar está sem a presença do Senhor.


O aspecto do Senhor pelo qual Ele está presente em toda parte chama-se Paramātmā. Ātmā significa a alma individual, e Paramātmā significa a Superalma individual. Tanto ātmā quanto Paramātmā são pessoas individuais. A diferença entre eles, contudo, é que o ātmā, ou alma, está presente apenas em um lugar específico, ao passo que o Paramātmā está presente em toda parte.


Nesse sentido, o exemplo do sol é muito bom. Uma pessoa individual pode estar situada em um único lugar, mas o sol, embora seja uma entidade individual específica, está presente sobre a cabeça de cada pessoa individual. No *Bhagavad-gītā* isso se explica muito bem. Portanto, embora as qualidades de todas as entidades, inclusive o Senhor, sejam iguais, a Superalma difere da alma individual quanto à quantidade de expansão. O Senhor, ou Superalma, pode expandir-Se em milhões de formas diferentes, ao passo que a alma individual não pode fazê-lo.


A Superalma, estando situada no coração de todos, pode testemunhar as atividades de cada um — passadas, presentes e futuras. Nos *Upaniṣads*, diz-se que a Superalma está sentada com a alma individual como amigo e testemunha. Como amigo, Ele está sempre ansioso por levar a alma individual de volta ao lar, de volta ao Supremo. Como testemunha, Ele é o outorgante de todas as bênçãos que resultam das ações do indivíduo. A Superalma dá à alma individual toda facilidade para alcançar tudo o que ela possa desejar. Mas Ele instrui Seu amigo, para que este, em última análise, abandone todas as outras ocupações e simplesmente se renda a Deus, em busca de bem-aventurança perpétua e vida eterna, plena de conhecimento. Esta é a última instrução do *Bhagavad-gītā*, o livro mais autorizado e mais lido sobre todas as formas de yoga.


A última palavra do *Bhagavad-gītā*, como se afirmou acima, é a última palavra no que diz respeito a aperfeiçoar o sistema de yoga. Afirma-se ademais no *Bhagavad-gītā* que a pessoa sempre absorta em consciência de Kṛṣṇa é o yogī supremo. O que é essa consciência de Kṛṣṇa?


Assim como a alma individual está presente, por sua consciência, em todo o corpo, da mesma forma a Superalma, ou Paramātmā, está presente em toda a criação por Sua superconsciência. Essa superconsciência não pode ser imitada pela alma individual, que tem percepção limitada: eu posso compreender o que se passa dentro do meu corpo limitado, mas não posso sentir o que se passa no corpo de outrem. Estou presente em todo o meu corpo por minha consciência, mas não estou presente no corpo de nenhum outro por minha consciência. No entanto, a Superalma, ou Paramātmā, estando presente dentro de todos, situada em toda parte, é consciente de toda existência. A teoria de que a alma e a Superalma são uma só não é aceitável, porque a consciência da alma individual não pode atuar em superconsciência. Essa superconsciência só pode ser alcançada acoplando-se a consciência individual com a superconsciência; e esse processo de acoplamento chama-se rendição, ou consciência de Kṛṣṇa.


Pelos ensinamentos do *Bhagavad-gītā*, aprendemos com muita clareza que, no começo, Arjuna não queria lutar com seus parentes, mas, depois de compreender o *Bhagavad-gītā*, quando acoplou sua consciência com a superconsciência de Kṛṣṇa, sua consciência tornou-se consciência de Kṛṣṇa. Uma pessoa em plena consciência de Kṛṣṇa age sob a orientação de Kṛṣṇa, e assim Arjuna concordou em travar a Batalha de Kurukṣetra.


No começo da consciência de Kṛṣṇa, essa orientação do Senhor é recebida através do meio transparente do mestre espiritual. Quando a pessoa está suficientemente treinada e age com fé submissa e amor por Kṛṣṇa, sob a direção do mestre espiritual genuíno, o processo de acoplamento torna-se mais firme e exato. Nesse estágio, Kṛṣṇa orienta a partir de dentro. A partir de fora, o devoto é ajudado pelo mestre espiritual, o representante genuíno de Kṛṣṇa, e a partir de dentro o Senhor ajuda o devoto como caitya-guru, estando situado no coração de todos.


Simplesmente compreender que Deus está situado no coração de todos não é perfeição. É preciso conhecer Deus por dentro e por fora e, assim, agir em consciência de Kṛṣṇa. Este é o estágio mais perfeito para a forma de vida humana, e o estágio supremo em todos os sistemas de yoga.


Para um yogī perfeito, há oito espécies de superconquistas:


1. A pessoa pode tornar-se menor que um átomo.


2. A pessoa pode tornar-se maior que uma montanha.


3. A pessoa pode tornar-se mais leve que o ar.


4. A pessoa pode tornar-se mais pesada que qualquer metal.


5. A pessoa pode alcançar qualquer efeito material que deseje (criar um planeta, por exemplo).


6. A pessoa pode controlar outros como o Senhor pode.


7. A pessoa pode viajar livremente para qualquer lugar dentro do universo (ou além dele).


8. A pessoa pode escolher seu próprio momento e lugar de morte, e renascer onde quer que deseje.


Mas, quando a pessoa se eleva ao estágio perfeito de receber orientação do Senhor, ela está acima do estágio das conquistas materiais acima mencionadas.


O exercício respiratório do sistema de yoga que geralmente se pratica é apenas o começo do sistema. A meditação na Superalma é apenas um passo adiante. A obtenção de um maravilhoso êxito material também é apenas um passo adiante. Mas alcançar contato direto com a Superalma e receber orientação Dele é o estágio mais perfeito.


Os exercícios respiratórios e as práticas meditativas do yoga são muito difíceis nesta era. Eram difíceis até mesmo há cinco mil anos; do contrário, Arjuna não teria rejeitado a proposta de Kṛṣṇa. Esta era de Kali é chamada de era decaída. No momento presente, as pessoas em geral têm vida curta e são muito lentas em compreender a autorrealização, ou a vida espiritual. São, em sua maioria, infortunadas, e, por isso, se alguém se interessa um pouco pela autorrealização, é desencaminhado por inúmeras fraudes. A única maneira efetiva de alcançar a percepção do estágio perfeito de yoga é seguir os princípios do *Bhagavad-gītā* tal como foram praticados pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu. Esta é a mais simples e mais elevada perfeição da prática de yoga.


O Senhor Caitanya demonstrou na prática o yoga da consciência de Kṛṣṇa simplesmente cantando os santos nomes de Kṛṣṇa, tal como são mencionados no Vedānta, no *Śrīmad-Bhāgavatam* e em muitos importantes *Purāṇas*. O maior número de indianos segue esta prática de yoga, e nos Estados Unidos e em outros países ela também cresce gradualmente em muitas cidades. É muito fácil e prática para esta era, especialmente para aqueles que levam a sério o êxito no yoga. Nenhum outro processo pode ter êxito nesta era.


O processo de meditação no devido rigor era possível na Era de Ouro, Satya-yuga, porque as pessoas daquele tempo viviam, em média, cem mil anos.


Na era presente, contudo, se você quiser êxito no yoga prático, adote o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, e sinta por si mesmo como está progredindo. A pessoa deve saber por si mesma quanto está progredindo na prática de yoga.


No *Bhagavad-gītā*, esta prática de consciência de Kṛṣṇa é descrita como rāja-vidyā, o rei de toda erudição; rāja-guhyam, o mais confidencial sistema de percepção espiritual; pavitram, o mais puro de tudo que é puro; susukham, executado com muita felicidade; e avyayam, inexaurível.


Aqueles que adotaram este sublimíssimo sistema de bhakti-yoga, esta prática de serviço devocional em amor transcendental a Kṛṣṇa, podem testemunhar como desfrutam tão belamente de sua execução feliz e fácil. Yoga significa controlar os sentidos, e bhakti-yoga significa purificar os sentidos. Quando os sentidos são purificados, eles também são, automaticamente, controlados. Não se pode deter as atividades dos sentidos por meios artificiais, mas, se a pessoa purifica os sentidos, estes não apenas se mantêm afastados de ocupações imprestáveis, como também ficam positivamente ocupados em serviço transcendental ao Senhor.


A consciência de Kṛṣṇa não é fabricada por nós através de especulação mental. Ela é prescrita no *Bhagavad-gītā*, que diz que, quando pensamos em Kṛṣṇa, cantamos sobre Kṛṣṇa, vivemos em Kṛṣṇa, comemos em Kṛṣṇa, falamos em Kṛṣṇa, esperamos em Kṛṣṇa e nos sustentamos em Kṛṣṇa, retornamos a Kṛṣṇa, sem dúvida alguma. E esta é a essência da consciência de Kṛṣṇa.


## A Encarnação do Amor a Deus


Há apenas quinhentos anos, o Senhor Caitanya Mahāprabhu, um grande santo e místico, profetizou que o mantra Hare Kṛṣṇa ressoaria por toda cidade e aldeia do mundo. Numa época em que o homem ocidental dirigia seu espírito explorador para o estudo do universo físico e a circum-navegação do globo, na Índia Śrī Caitanya inaugurava e dirigia uma revolução voltada para dentro. Seu movimento varreu o subcontinente, conquistou milhões de seguidores e influenciou profundamente o futuro do pensamento religioso e filosófico, tanto na Índia quanto no Ocidente. Na palestra a seguir, apresentada em novembro de 1969 no Conway Hall, em Londres, Śrīla Prabhupāda descreve o divino aparecimento de Śrī Caitanya.


Śrī Caitanya Mahāprabhu, o dourado avatāra, apareceu na Índia há quase quinhentos anos. É costume na Índia que, quando uma criança nasce, se chame um astrólogo. Quando o Senhor *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, apareceu há cinco mil anos, Gargamuni foi chamado por Seu pai, e disse: "Esta criança encarnou anteriormente em três tonalidades, como vermelha e dourada, e agora Ela apareceu em cor enegrecida." A cor de Kṛṣṇa é descrita nas escrituras como enegrecida, tal como a cor de uma nuvem. Entende-se que o Senhor Caitanya é Kṛṣṇa aparecendo em tez dourada.


Há muita evidência na literatura Védica de que Caitanya Mahāprabhu é uma encarnação de Kṛṣṇa, e isso é confirmado por eruditos e devotos. No *Śrīmad-Bhāgavatam* confirma-se que a encarnação de Kṛṣṇa, ou Deus, nesta era presente, Kali-yuga, sempre se ocupará em descrever Kṛṣṇa. Ele é Kṛṣṇa, mas, como devoto de Kṛṣṇa, descreve a Si mesmo. E, nesta era, a tez de Seu corpo não será enegrecida. Isso significa que pode ser branca, pode ser vermelha ou pode ser amarela, porque essas quatro cores — branca, vermelha, amarela e preta — são as cores assumidas pelas encarnações nas diferentes eras. Portanto, visto que as cores vermelha, branca e enegrecida já haviam sido tomadas por encarnações anteriores, a cor restante, dourada, é assumida por Caitanya Mahāprabhu. Sua tez não é enegrecida, mas Ele é Kṛṣṇa.


Outro aspecto deste avatāra é que Ele está sempre acompanhado de Seus associados. No quadro de Caitanya Mahāprabhu, vê-se que Ele é sempre seguido por muitos devotos cantando. Sempre que Deus encarna, Ele tem duas missões, conforme se afirma no *Bhagavad-gītā*. Ali Kṛṣṇa diz: "Sempre que apareço, Minha missão é libertar os devotos piedosos e aniquilar os demônios." Quando Kṛṣṇa apareceu, Ele teve de matar muitos demônios. Se virmos um quadro de Viṣṇu, notaremos que Ele tem um búzio, uma flor de lótus, uma maça e um disco. Estes dois últimos itens destinam-se a matar demônios. Dentro deste mundo, há duas classes de homens — os demônios e os devotos. Os devotos são chamados semideuses; são quase como Deus, porque possuem qualidades divinas. Aqueles que são devotos são chamados de pessoas divinas, e aqueles que são não devotos, ateus, são chamados de demônios. Assim, Kṛṣṇa, ou Deus, vem com duas missões: dar proteção aos devotos e destruir os demônios. Nesta era, a missão de Caitanya Mahāprabhu também é assim: libertar os devotos e aniquilar os não devotos, os demônios. Mas, nesta era, Ele tem uma arma diferente. Essa arma não é uma maça, nem um disco, nem uma arma letal — Sua arma é o movimento de saṅkīrtana. Ele matou a mentalidade demoníaca das pessoas introduzindo o movimento de saṅkīrtana. Esse é o significado específico do Senhor Caitanya. Nesta era, as pessoas já estão se matando. Descobriram armas atômicas com as quais se matar, de modo que não há necessidade de Deus matá-las. Mas Ele apareceu para matar a mentalidade demoníaca delas. Isso é possível por meio deste movimento da consciência de Kṛṣṇa.


Portanto, no *Śrīmad-Bhāgavatam* se diz que esta é a encarnação de Deus nesta era. E quem A adora? O processo é muito simples. Basta manter um quadro do Senhor Caitanya com Seus associados. O Senhor Caitanya está no meio, acompanhado de Seus principais associados — Nityānanda, Advaita, Gadādhara e Śrīvāsa. Basta manter este quadro. Pode-se mantê-lo em qualquer lugar. Não é que se tenha de vir até nós para ver este quadro. Qualquer pessoa pode ter este quadro em casa, cantar este mantra Hare Kṛṣṇa e, assim, adorar o Senhor Caitanya. Esse é o método simples. Mas quem captará este método simples? Aqueles que têm bom juízo. Sem muito incômodo, se a pessoa simplesmente mantiver em casa um quadro de Śrī Caitanya Mahāprabhu e cantar Hare Kṛṣṇa, então perceberá Deus. Qualquer pessoa pode adotar este método simples. Não há despesa, não há imposto, nem há necessidade de construir uma igreja ou um templo muito grande. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode sentar-se na estrada ou debaixo de uma árvore e cantar o mantra Hare Kṛṣṇa e adorar a Deus. Portanto, é uma grande oportunidade. Por exemplo, na vida comercial ou política, às vezes encontra-se uma grande oportunidade. Os políticos inteligentes aproveitam uma boa oportunidade e fazem dela um êxito da primeira vez que ela surge. De modo semelhante, nesta era, aqueles que têm inteligência suficiente adotam este movimento de saṅkīrtana, e avançam muito rapidamente.


O Senhor Caitanya é chamado de "o dourado avatāra". Avatāra significa "descendo, vindo para baixo". Assim como a pessoa pode descer do quinto andar ou do centésimo andar de um edifício, um avatāra desce dos planetas espirituais no céu espiritual. O céu que vemos a olho nu ou com um telescópio é apenas o céu material. Mas, além deste, há outro céu, que não é possível ver com nossos olhos ou instrumentos. Essa informação está no *Bhagavad-gītā*; não é imaginação. Kṛṣṇa diz que, além do céu material, há outro céu, o céu espiritual.


Temos de aceitar a palavra de Kṛṣṇa tal como é. Por exemplo, ensinamos às crianças pequenas que, além da Inglaterra, há outros lugares, chamados Alemanha, Índia, etc., e a criança tem de aprender sobre esses lugares a partir da versão do professor, porque eles estão além de sua esfera. De modo semelhante, além deste céu material, há outro céu. Não se pode experimentar para encontrá-lo, da mesma forma que uma criança pequena não pode experimentar para encontrar a Alemanha ou a Índia. Isso não é possível. Se queremos obter conhecimento, então temos de aceitar a autoridade. De modo semelhante, se queremos saber o que está além do mundo material, então temos de aceitar a autoridade Védica; do contrário, não há possibilidade de conhecimento. Está além do conhecimento material. Não se pode ir aos planetas distantes deste universo, o que dizer então de ir além deste universo. A estimativa é que, para ir ao planeta mais elevado deste universo com a maquinaria moderna, seria preciso viajar por quarenta mil anos-luz. Portanto, não podemos sequer viajar dentro deste céu material. Nossa vida e nossos meios são tão limitados que não podemos ter conhecimento adequado nem mesmo deste mundo material.


No *Bhagavad-gītā*, quando Arjuna perguntou a Kṛṣṇa: "Terias a bondade de explicar até que ponto Tuas energias atuam?", o Senhor Supremo deu-lhe inúmeros exemplos e, ao final, disse: "Meu querido Arjuna, o que devo explicar sobre Minhas energias? Não te é realmente possível compreender. Mas podes simplesmente imaginar a expansão de Minhas energias: este mundo material, que consiste em milhões de universos, é uma exibição de apenas um quarto de Minha criação." Não podemos estimar a posição nem mesmo de um universo, e há milhões de universos. Além disso, há o céu espiritual, e há milhões de planetas espirituais. Toda essa informação está disponível na literatura Védica. Se a pessoa aceita a literatura Védica, então pode obter este conhecimento. Se não a aceita, não há outro meio. Essa é a nossa escolha. Portanto, segundo a civilização Védica, sempre que um ācārya fala, ele imediatamente dá referências da literatura Védica. Então os outros aceitarão: "Sim, está correto." Num tribunal, o advogado dá referências de julgamentos anteriores do tribunal, e, se a sua causa é sólida, o juiz aceita. De modo semelhante, se a pessoa pode dar evidências dos *Vedas*, então entende-se que sua posição é factual.


O avatāra para esta era, o Senhor Caitanya, é descrito na literatura Védica. Não podemos aceitar ninguém como avatāra a menos que tenha os sintomas descritos nas escrituras. Não aceitamos caprichosamente o Senhor Caitanya como avatāra com base em votos. Hoje em dia, tornou-se moda que qualquer homem possa vir e dizer que é Deus ou uma encarnação de Deus, e alguns tolos e canalhas aceitarão isso: "Oh, ele é Deus." Não aceitamos um avatāra dessa maneira. Tomamos evidências dos *Vedas*. Um avatāra deve estar de acordo com as descrições dos *Vedas*. Então o aceitamos; do contrário, não. Para cada avatāra há uma descrição nos *Vedas*: Ele aparecerá em tal e tal lugar, em tal e tal forma, e agirá assim. Essa é a natureza da evidência Védica.


No *Śrīmad-Bhāgavatam* há uma lista dos avatāras, e há menção do nome do Senhor Buda. Este *Śrīmad-Bhāgavatam* foi escrito há cinco mil anos, e menciona diferentes nomes para tempos futuros. Diz que, no futuro, o Senhor apareceria como o Senhor Buda, que o nome de sua mãe seria Añjanā e que ele apareceria em Gayā. Buda apareceu, então, há dois mil e seiscentos anos, e o *Śrīmad-Bhāgavatam*, que foi escrito há cinco mil anos, mencionou que ele apareceria no futuro. De modo semelhante, há menção do Senhor Caitanya, e, igualmente, o último avatāra deste Kali-yuga também é mencionado no *Bhāgavatam*. Menciona-se que a última encarnação nesta era é Kalki. Ele aparecerá como o filho de um brāhmaṇa cujo nome é Viṣṇu-yaśā, num lugar chamado Śambhala. Há um lugar na Índia com esse nome, de modo que talvez seja ali que o Senhor apareça.


Assim, um avatāra deve estar de acordo com as descrições dos *Upaniṣads*, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, do *Mahābhārata* e de outras literaturas Védicas. E, com base na autoridade da literatura Védica e no comentário de grandes e robustos gosvāmīs como Jīva Gosvāmī, que foi o maior erudito e filósofo do mundo, podemos aceitar o Senhor Caitanya como uma encarnação de Kṛṣṇa.


Por que o Senhor Caitanya apareceu? No *Bhagavad-gītā*, o Senhor Kṛṣṇa diz: "Abandona todas as outras ocupações e simplesmente ocupa-te em Meu serviço. Eu te darei proteção contra todos os resultados das ações pecaminosas." Neste mundo material, na vida condicionada, estamos simplesmente criando reações pecaminosas. É só isso. E, por causa das reações pecaminosas, recebemos este corpo. Se nossas reações pecaminosas cessassem, não teríamos de aceitar um corpo material; deveríamos obter um corpo espiritual.


O que é um corpo espiritual? Um corpo espiritual é um corpo livre de morte, nascimento, doença e velhice. É um corpo eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. Diferentes corpos são criados por diferentes desejos. Enquanto tivermos desejos por diferentes espécies de gozo, teremos de aceitar diferentes espécies de corpos materiais. Kṛṣṇa, Deus, é tão bondoso que concede tudo o que quisermos. Se quisermos o corpo de um tigre, com força de tigre e dentes com os quais capturar animais e sugar sangue fresco, então Kṛṣṇa nos dará a oportunidade. E, se quisermos o corpo de uma pessoa santa, um devoto ocupado apenas no serviço ao Senhor, então Ele nos dará esse corpo. Isso se afirma no *Bhagavad-gītā*.


Se uma pessoa ocupada em yoga, o processo de autorrealização, de uma forma ou de outra deixa de completar o processo, ela recebe outra oportunidade; recebe nascimento na família de um brāhmaṇa puro ou de um homem rico. Se a pessoa tem a fortuna de nascer em tal família, recebe todas as facilidades para compreender a importância da autorrealização. Desde o início mesmo da vida, nossas crianças conscientes de Kṛṣṇa recebem a oportunidade de aprender a cantar e a dançar, de modo que, quando crescerem, não mudarão, mas, em vez disso, progredirão automaticamente. São muito afortunadas. Independentemente de ter nascido na América ou na Europa, uma criança avançará se seu pai e sua mãe forem devotos. Ela recebe esta oportunidade. Se uma criança nasce numa família de devotos, isso significa que, em sua última vida, ela já havia adotado o processo de yoga, mas, de uma forma ou de outra, não pôde concluí-lo. Por isso, a criança recebe outra oportunidade de progredir sob os cuidados de um bom pai e de uma boa mãe, para que possa novamente avançar. Dessa maneira, tão logo a pessoa completa o seu desenvolvimento da consciência de Deus, ela não tem mais de nascer neste mundo material, mas retorna ao mundo espiritual.


Kṛṣṇa diz no *Bhagavad-gītā*: "Meu querido Arjuna, se a pessoa compreende Meu aparecimento, Meu desaparecimento e Minhas atividades, simplesmente por causa dessa compreensão recebe a oportunidade de nascer no mundo espiritual após abandonar este corpo." É preciso abandonar este corpo — hoje, amanhã ou talvez depois de amanhã. É preciso. Mas a pessoa que compreendeu Kṛṣṇa não terá de aceitar outro corpo material. Ela vai diretamente ao mundo espiritual e nasce em um dos planetas espirituais. Então Kṛṣṇa diz que, tão logo a pessoa obtém este corpo — não importa se é da Índia, da lua, do sol, de Brahmaloka ou de qualquer lugar dentro deste mundo material —, ela deve saber que isso se deve às suas atividades pecaminosas. Há graus de atividades pecaminosas, de modo que, conforme o grau de pecaminosidade, a pessoa aceita um corpo material. Por isso, o nosso verdadeiro problema não é como comer, dormir, acasalar-se e defender-se — o nosso verdadeiro problema é como obter um corpo que não seja material, mas espiritual. Essa é a solução definitiva para todos os problemas. Assim, Kṛṣṇa garante que, se a pessoa se render a Ele, se a pessoa se tornar plenamente consciente de Kṛṣṇa, então Ele lhe dará proteção contra todas as reações da vida pecaminosa.


Esta garantia foi dada por Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*, mas havia muitos tolos que não conseguiam compreender Kṛṣṇa. No *Bhagavad-gītā*, eles são descritos como mūḍhas. Mūḍha significa "canalha", e Kṛṣṇa diz no *Gītā*: "Eles não sabem o que Eu realmente sou." Assim, muitas pessoas compreenderam mal Kṛṣṇa. Embora Kṛṣṇa nos tenha dado esta mensagem do *Bhagavad-gītā* para que pudéssemos compreendê-Lo, muitas pessoas perderam a oportunidade. Por conseguinte, Kṛṣṇa, por Sua compaixão, veio novamente, como devoto, e nos mostrou como render-se a Kṛṣṇa. O próprio Kṛṣṇa veio ensinar-nos a render-nos. Sua última instrução no *Bhagavad-gītā* é render-se, mas as pessoas — mūḍhas, canalhas — disseram: "Por que eu deveria render-me?" Portanto, embora Caitanya Mahāprabhu seja o próprio Kṛṣṇa, desta vez Ele nos ensina, na prática, como executar a missão do *Bhagavad-gītā*. É só isso. Caitanya Mahāprabhu não ensina nada de extraordinário, nada além do processo de render-se à Suprema Personalidade de Deus, que já fora ensinado no *Bhagavad-gītā*. Não há outro ensinamento, mas o mesmo ensinamento é apresentado de diferentes maneiras, para que diferentes espécies de pessoas possam aceitá-lo e aproveitar a oportunidade de aproximar-se de Deus.


Caitanya Mahāprabhu nos dá a oportunidade de alcançar Deus diretamente. Quando Rūpa Gosvāmī, o principal discípulo do Senhor Caitanya, viu Caitanya Mahāprabhu pela primeira vez, ele era ministro no governo de Bengala, mas queria juntar-se ao movimento de Caitanya Mahāprabhu. Então abandonou seu posto de ministro e, depois de juntar-se, ao render-se, ofereceu uma bela oração ao Senhor Caitanya. Esta oração diz:


namo mahā-vadānyāya

kṛṣṇa-prema-pradāya te

kṛṣṇāya kṛṣṇa-caitanya-

nāmne gaura-tviṣe namaḥ

[Madhya 19.53]


"Meu querido Senhor, Tu és o mais magnânimo de todas as encarnações." Por quê? Kṛṣṇa-prema-pradāya te: "Tu estás diretamente concedendo o amor a Deus. Não tens nenhum outro propósito. Teu processo é tão belo que se pode imediatamente aprender a amar a Deus. Por isso, Tu és o mais magnânimo de todas as encarnações. E não é possível a nenhuma personalidade que não seja o próprio Kṛṣṇa outorgar esta bênção; por isso, eu digo que Tu és Kṛṣṇa." Kṛṣṇāya kṛṣṇa-caitanya-nāmne: "Tu és Kṛṣṇa, mas assumiste o nome Kṛṣṇa Caitanya. Eu me rendo a Ti."


Assim, este é o processo. Caitanya Mahāprabhu é o próprio Kṛṣṇa, e Ele ensina como desenvolver o amor a Deus por um método muito simples. Ele diz simplesmente para cantar Hare Kṛṣṇa.


harer nāma harer nāma

harer nāmaiva kevalam

kalau nāsty eva nāsty eva

nāsty eva gatir anyathā

[Adi 17.21]


"Nesta era, simplesmente continua cantando o mantra Hare Kṛṣṇa. Não há outra alternativa." As pessoas estão embaraçadas por tantos métodos de percepção. Não podem adotar os verdadeiros processos ritualísticos de meditação ou de yoga; não é possível. Portanto, o Senhor Caitanya diz que, se a pessoa adotar este processo de canto, então imediatamente poderá alcançar a plataforma da percepção.


O processo de canto oferecido pelo Senhor Caitanya para alcançar o amor a Deus chama-se saṅkīrtana. Saṅkīrtana é uma palavra sânscrita. Sam significa samyak — "completo". E kīrtana significa "glorificar" ou "descrever". Assim, descrição completa significa glorificação completa do Supremo, ou do Supremo Todo Completo. Não é que se possa descrever qualquer coisa ou glorificar qualquer coisa e que isso seja kīrtana. Do ponto de vista gramatical, isso pode ser kīrtana, mas, segundo o sistema Védico, kīrtana significa descrever a autoridade suprema, a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. Isso é chamado de kīrtana.


Este serviço devocional começa com o método de śravaṇa. Śravaṇa significa "ouvir", e kīrtana significa "descrever". Um deve descrever, e outro deve ouvir. Ou o mesmo homem pode, ele próprio, tanto descrever quanto ouvir. Ele não precisa da ajuda de mais ninguém. Quando cantamos Hare Kṛṣṇa, cantamos e ouvimos. Isso é completo. Este é um método completo. Mas o que é esse cantar e ouvir? É preciso cantar e ouvir sobre Viṣṇu, Kṛṣṇa. Não sobre nenhuma outra coisa. Śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ: [SB 7.5.23] pode-se compreender Viṣṇu, a Verdade Absoluta onipenetrante, a Suprema Personalidade de Deus, pelo método de ouvir.


Temos de ouvir; se a pessoa simplesmente ouve, esse é o começo. Não se precisa de nenhuma educação ou desenvolvimento de conhecimento material. Tal como uma criança: tão logo ouve, imediatamente pode responder e dançar. Assim, por natureza, Deus nos deu estes belos instrumentos — os ouvidos — para que possamos ouvir. Mas devemos ouvir da fonte correta. Isso se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam*. É preciso ouvir daqueles que são devotados à Suprema Personalidade de Deus. Eles são chamados satām. Se a pessoa ouve da fonte correta, de uma alma realizada, então isso atuará. E estas palavras de Deus, ou Kṛṣṇa, são muito saborosas. Se a pessoa é inteligente o bastante, ouvirá o que é falado pela alma realizada. Então, muito em breve, será libertada dos enredamentos materiais.


Esta vida humana destina-se a avançar na senda da liberação. Isso é chamado de apavarga, liberdade do enredamento. Estamos todos enredados. A nossa aceitação deste corpo material significa que já estamos enredados. Mas não devemos progredir no processo de enredamento. Esse processo é chamado de karma. Enquanto a mente estiver absorta no karma, teremos de aceitar um corpo material. No momento da morte, a nossa mente pode estar pensando: "Oh, não pude concluir este trabalho. Oh, estou morrendo! Tenho de fazer isto. Tenho de fazer aquilo." Isso significa que Kṛṣṇa nos dará outra oportunidade de fazê-lo, e assim teremos de aceitar outro corpo. Ele nos dará a oportunidade: "Está bem. Você não pôde fazê-lo. Agora faça-o. Tome este corpo." Por isso, o *Śrīmad-Bhāgavatam* diz: "Estes canalhas tornaram-se loucamente intoxicados; por causa da intoxicação, estão fazendo algo que não deveriam ter feito." O que estão fazendo? Mahārāja Dhṛtarāṣṭra é um exemplo muito bom. Mahārāja Dhṛtarāṣṭra estava astuciosamente planejando matar os Pāṇḍavas a fim de favorecer seus próprios filhos, de modo que Kṛṣṇa enviou Seu tio, Akrūra, para aconselhá-lo a não fazer isso. Dhṛtarāṣṭra compreendeu as instruções de Akrūra, mas disse: "Meu querido Akrūra, o que você está dizendo é bastante correto, mas não se fixa no meu coração, de modo que não posso mudar a minha política. Tenho de seguir esta política e deixar que aconteça o que quer que aconteça."


Assim, quando os homens querem satisfazer seus sentidos, tornam-se loucos, e, nessa loucura, farão qualquer coisa e tudo. Por exemplo, houve muitos casos na vida material em que alguém enlouqueceu por causa de algo e cometeu um ato criminoso, como assassinato. A pessoa não pôde refrear-se. De modo semelhante, estamos acostumados à gratificação dos sentidos. Estamos loucos e, por isso, as nossas mentes estão plenamente absortas no karma. Isso é muito infeliz, porque o nosso corpo, embora temporário, é o reservatório de todos os infortúnios e misérias; está sempre nos causando problemas. Estas matérias devem ser estudadas. Não devemos ser loucos. A vida humana não se destina a isso. O defeito da civilização atual é que as pessoas são loucas por gratificação dos sentidos. É só isso. Elas não conhecem o verdadeiro valor da vida e, por isso, estão negligenciando a mais valiosa forma de vida, esta forma humana.


Quando este corpo termina, não há garantia de que espécie de corpo a pessoa aceitará em seguida. Suponhamos que, em minha próxima vida, por acaso, eu obtenha o corpo de uma árvore. Durante milhares de anos terei de ficar de pé. Mas as pessoas não são muito sérias. Chegam a dizer: "Que importa isso? Mesmo que eu tenha de ficar de pé, esquecerei." As espécies de vida inferiores estão situadas no esquecimento. Se uma árvore não fosse esquecida, ser-lhe-ia impossível viver. Suponhamos que nos dissessem: "Fique de pé aqui por três dias!" Porque não somos esquecidos, enlouqueceríamos. Assim, pela lei da natureza, todas estas espécies de vida inferiores são esquecidas. Sua consciência não é desenvolvida. Uma árvore tem vida, mas, mesmo que alguém a corte, porque sua consciência não é desenvolvida, ela não responde. Assim, devemos ter muito cuidado para utilizar adequadamente esta forma de vida humana. O movimento da consciência de Kṛṣṇa destina-se a alcançar a perfeição na vida. Não é um embuste ou exploração, mas, infelizmente, as pessoas estão acostumadas a ser enganadas. Há um verso de um poeta indiano: "Se a pessoa fala coisas boas, as pessoas brigarão com ela: 'Oh, que disparate você está falando.' Mas, se ele as ilude e as engana, ficarão muito contentes." Assim, se um embusteiro diz: "Apenas faça isto, dê-me meus honorários e, dentro de seis meses, você se tornará Deus", então concordarão: "Sim, tome estes honorários, e eu me tornarei Deus dentro de seis meses." Não. Estes processos enganosos não resolverão o nosso problema. Se a pessoa realmente deseja resolver os problemas da vida nesta era, então tem de adotar este processo de kīrtana. Esse é o processo recomendado.


harer nāma harer nāma

harer nāmaiva kevalam

kalau nāsty eva nāsty eva

nāsty eva gatir anyathā

[Adi 17.21]


Nesta era, Kali-yuga, não se pode executar nenhum processo de autorrealização ou de perfeição da vida que não seja o kīrtana. O kīrtana é essencial nesta era.


Em todas as literaturas Védicas confirma-se que é preciso meditar na Suprema Verdade Absoluta, Viṣṇu, e em nada mais. Mas há diferentes processos de meditação recomendados para diferentes eras. O processo de meditação ióguica mística era possível em Satya-yuga, quando os homens viviam por muitos milhares de anos. Hoje as pessoas não acreditarão nisso, mas, numa era anterior, havia pessoas que viviam por cem mil anos. Essa era era chamada de Satya-yuga, e a meditação do yoga místico era possível naquele tempo. Naquela era, o grande yogī Vālmīki Muni meditou por sessenta mil anos. Esse é, portanto, um processo de longo prazo, que não é possível executar nesta era. Se a pessoa deseja conduzir uma farsa, isso é outra questão. Mas, se a pessoa realmente quer praticar tal meditação, leva um tempo extremamente longo para aperfeiçoá-la. Na era seguinte, Tretā-yuga, o processo de percepção consistia em realizar os vários sacrifícios ritualísticos recomendados nos *Vedas*. Na era seguinte, Dvāpara-yuga, o processo era a adoração no templo. Nesta era presente, o mesmo resultado pode ser alcançado pelo processo de hari-kīrtana, a glorificação de Hari, *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*.


Nenhum outro kīrtana é recomendado. Este hari-kīrtana foi iniciado há quinhentos anos, em Bengala, pelo Senhor Caitanya. Em Bengala há competição entre os vaiṣṇavas e os śāktas. Os śāktas introduziram um certo tipo de kīrtana chamado kālī-kīrtana. Mas, nas escrituras Védicas, não há recomendação de kālī-kīrtana. Kīrtana significa hari-kīrtana. Não se pode dizer: "Oh, você é vaiṣṇava. Você pode realizar hari-kīrtana. Eu realizarei śiva-kīrtana, ou devī-kīrtana, ou gaṇeśa-kīrtana." Não. As escrituras Védicas não autorizam nenhum kīrtana que não seja o hari-kīrtana. Kīrtana significa hari-kīrtana, a glorificação de Kṛṣṇa.


Assim, este processo de hari-kīrtana é muito simples: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Na verdade, há apenas três palavras: Hare, Kṛṣṇa e Rāma. Mas elas estão muito belamente dispostas para o canto, de modo que todos possam aceitar o mantra e cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare. Desde que iniciamos este movimento nos países ocidentais, europeus, americanos, africanos, egípcios e japoneses estão todos cantando. Não há dificuldade. Estão cantando muito alegremente e estão obtendo os resultados. Qual é a dificuldade? Estamos distribuindo este canto gratuitamente, e é muito simples. Simplesmente cantando, a pessoa pode ter autorrealização, percepção de Deus, e, quando há percepção de Deus, então a percepção da natureza também está incluída. Por exemplo, se a pessoa aprende um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e zero, então estudou a totalidade da matemática, porque matemática significa simplesmente mudar de lugar estes dez algarismos. É só isso. De modo semelhante, se a pessoa simplesmente estuda Kṛṣṇa, então todo o seu conhecimento é perfeito. E Kṛṣṇa é facilmente compreendido simplesmente cantando este mantra, Hare Kṛṣṇa. Então, por que não aproveitar esta oportunidade?


Aproveite esta oportunidade que está sendo oferecida à sociedade humana. Ela é muito antiga e científica. Não é uma invenção que durará apenas três ou quatro anos. Não. No *Bhagavad-gītā*, o próprio Kṛṣṇa diz: "Esta filosofia é inexaurível e indestrutível. Nunca se perde nem se destrói." Pode ser encoberta por algum tempo, mas nunca é destruída. Por isso, é chamada de avyayam. Vyaya significa "esgotamento". Por exemplo, a pessoa pode ter cem dólares e, se eles forem gastos um após o outro, no dia seguinte chegará a zero. Isso é vyaya, exaurível. Mas a consciência de Kṛṣṇa não é assim. Se você cultiva este conhecimento da consciência de Kṛṣṇa, então ele aumentará. Isso é certificado pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu. Ānandāmbudhi-vardhanam. Ānanda significa "prazer", "bem-aventurança transcendental", e ambudhi significa "oceano". No mundo material, vemos que o oceano não aumenta. Mas, se a pessoa cultiva a consciência de Kṛṣṇa, então a sua bem-aventurança transcendental simplesmente aumentará. Ānandāmbudhi-vardhanam. E eu sempre lembrarei a todos que o processo é muito simples. Qualquer pessoa pode cantar, em qualquer lugar, sem taxação ou perda, mas o ganho é muito grande.


Śrī Caitanya Mahāprabhu explicou este movimento de kīrtana em Seu Śikṣāṣṭaka. Śikṣā significa "instrução", e aṣṭaka significa "oito". Ele nos deu oito versos para nos ajudar a compreender este movimento da consciência de Kṛṣṇa, e eu explicarei a primeira destas instruções. O Senhor diz, ceto-darpaṇa-mārjanam: [Cc. Antya 20.12] deve-se limpar o coração. Eu expliquei isso várias vezes, mas não se torna monótono. É tal como o canto de Hare Kṛṣṇa; não se torna cansativo. Nossos estudantes podem cantar o mantra Hare Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, e nunca se cansarão. Continuarão a dançar e a cantar. E qualquer pessoa pode experimentá-lo; porque não é material, a pessoa nunca se cansará de cantar Hare Kṛṣṇa. No mundo material, se a pessoa canta qualquer coisa, qualquer nome favorito, três, quatro ou dez vezes, ela se cansará disso. Isso é um fato. Mas, porque Hare Kṛṣṇa não é material, se a pessoa canta este mantra, nunca se cansará. Quanto mais a pessoa canta, mais o seu coração se limpará da sujeira material, e mais os problemas de sua vida dentro deste mundo material se resolverão.


Qual é o problema das nossas vidas? Isso nós não sabemos. A educação moderna nunca dá esclarecimento sobre o verdadeiro problema da vida. Isso está indicado no *Bhagavad-gītā*. Aqueles que são educados e estão avançando em conhecimento deveriam saber qual é o problema da vida. Este problema é declarado no *Bhagavad-gītā*: deve-se sempre observar os inconvenientes do nascimento, da morte, da velhice e da doença. Infelizmente, ninguém presta atenção a estes problemas. Quando um homem está doente, pensa: "Está bem. Deixe-me ir ao médico. Ele me dará algum remédio, e eu ficarei curado." Mas ele não considera o problema muito seriamente. "Eu não queria esta doença. Por que existe doença? Não será possível tornar-se livre da doença?" Ele nunca pensa dessa maneira. Isso ocorre porque sua inteligência é de muito baixa qualidade, tal como a de um animal. Um animal sofre, mas não tem juízo. Se um animal é levado a um matadouro e vê que o animal diante dele está sendo abatido, ainda assim ficará ali contentemente comendo capim. Esta é a vida animal. Ele não sabe que da próxima vez será a sua vez, e ele será abatido. Eu o vi. Num templo de Kālī, eu vi que um bode estava ali, pronto para ser sacrificado, e outro bode comia capim muito alegremente.


De modo semelhante, Mahārāja Yudhiṣṭhira foi questionado por Yamarāja: "Qual é a coisa mais maravilhosa neste mundo? Você pode explicar?" Então Mahārāja Yudhiṣṭhira respondeu: "Sim. A coisa mais maravilhosa é que, a cada momento, a pessoa pode ver que seus amigos, seus pais e seus parentes morreram, mas ela está pensando: 'Viverei para sempre.'" Ela nunca pensa que morrerá, tal como um animal nunca pensa que, no próximo momento, pode ser abatido. Ele está satisfeito com o capim, é só isso. Está satisfeito com a gratificação dos sentidos. Não sabe que também vai morrer.


Meu pai morreu, minha mãe morreu, ele morreu, ela morreu. Então, eu também terei de morrer. E o que há depois da morte? Eu não sei. Este é o problema. As pessoas não levam este problema a sério, mas o *Bhagavad-gītā* indica que essa é a verdadeira educação. A verdadeira educação consiste em perguntar por que, embora não queiramos morrer, a morte vem. Essa é a verdadeira indagação. Não queremos tornar-nos velhos. Por que a velhice vem sobre nós? Temos muitos problemas, mas este é a soma e a essência de todos eles.


A fim de resolver este problema, o Senhor Caitanya Mahāprabhu prescreve o canto de Hare Kṛṣṇa. Tão logo o nosso coração é limpo pelo canto deste mantra Hare Kṛṣṇa, o fogo abrasador da nossa problemática existência material é extinto. Como é extinto? Quando limpamos o nosso coração, perceberemos que não pertencemos a este mundo material. Porque as pessoas estão se identificando com este mundo material, estão pensando: "Sou indiano, sou inglês, sou isto, sou aquilo." Mas, se a pessoa canta o mantra Hare Kṛṣṇa, perceberá que não é este corpo material. "Não pertenço a este corpo material nem a este mundo material. Sou uma alma espiritual, parte integrante do Supremo. Estou eternamente relacionado com Ele, e nada tenho a ver com o mundo material." Isso é chamado de liberação, conhecimento. Se nada tenho a ver com este mundo material, então estou liberado. E esse conhecimento é chamado de brahma-bhūta.


Uma pessoa com esta percepção não tem dever a cumprir. Porque agora estamos identificando a nossa existência com este mundo material, temos tantos deveres. O *Śrīmad-Bhāgavatam* diz que, enquanto não há autorrealização, temos tantos deveres e dívidas. Estamos endividados com os semideuses. Os semideuses não são meramente fictícios. São reais. Há semideuses controlando o sol, a lua e o ar. Assim como há diretores dos departamentos do governo, da mesma forma, para o departamento do calor há o deus-sol, para o departamento do ar há Varuṇa e, de modo semelhante, há outros semideuses departamentais. Nos *Vedas*, eles são descritos como deidades controladoras, de modo que não podemos negligenciá-los. Além disso, há grandes sábios e filósofos que nos deram conhecimento, e estamos endividados com eles. Assim, tão logo nascemos, ficamos endividados com tantas entidades vivas, mas é impossível liquidar todas estas dívidas. Por isso, a literatura Védica recomenda que a pessoa se abrigue nos pés de lótus de Kṛṣṇa. E Kṛṣṇa diz: "Se a pessoa se abriga em Mim, então não tem de abrigar-se em mais ninguém."


Portanto, aqueles que são devotos conscientes de Kṛṣṇa abrigaram-se em Kṛṣṇa, e o começo é ouvir e cantar. Śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ [SB 7.5.23]. Assim, o nosso fervoroso e humilde pedido a todos é que, por favor, aceitem este canto. Este movimento da consciência de Kṛṣṇa foi introduzido pelo Senhor Caitanya há quinhentos anos, em Bengala, e agora, por toda a Índia, e especialmente em Bengala, há milhões de seguidores de Caitanya Mahāprabhu. Agora este movimento está começando nos países ocidentais, então sejam muito sérios em compreendê-lo. Não criticamos nenhuma outra religião. Não tomem isto dessa maneira. Não temos o ofício de criticar nenhum outro processo de religião. A consciência de Kṛṣṇa está dando às pessoas a mais sublime religião — o amor a Deus. É só isso. Estamos ensinando a amar a Deus. Todos já estão amando, mas esse amor está mal colocado. Amamos este menino, ou esta menina, ou este país, ou aquela sociedade, ou mesmo os gatos e cães, mas não estamos satisfeitos. Portanto, devemos colocar o nosso amor em Deus. Se a pessoa coloca o seu amor em Deus, será feliz.


Não pensem que este movimento da consciência de Kṛṣṇa é um novo tipo de religião. Onde está a religião que não reconhece Deus? Pode-se chamar Deus de "Alá", ou "Kṛṣṇa", ou algo mais, mas onde está aquela religião que não reconhece Deus? Estamos ensinando que se deve simplesmente tentar amar a Deus. Somos atraídos por tantas coisas, mas, se o nosso amor é depositado em Deus, então seremos felizes. Não temos de aprender a amar nenhuma outra coisa; tudo o mais está automaticamente incluído. Apenas tentem amar a Deus. Não tentem amar apenas árvores, plantas ou insetos. Isso nunca satisfará. Aprendam a amar a Deus. Essa é a missão de Caitanya Mahāprabhu; essa é a nossa missão.


## Cantando o *Mahā-mantra* Hare Kṛṣṇa


Embora "Hare Kṛṣṇa" tenha se tornado uma palavra familiar, praticamente ninguém sabe o que ela significa. Será apenas um encantamento repetitivo destinado a hipnotizar quem o pratica? Será uma forma de escapismo? Ou será uma genuína meditação capaz de realmente convocar uma percepção mais elevada? Neste breve ensaio, gravado em seu primeiro LP no final de 1966, Śrīla Prabhupāda ilumina o significado interior do mantra Hare Kṛṣṇa.


A vibração transcendental estabelecida pelo canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare é o método sublime para reviver a nossa consciência transcendental. Como almas espirituais vivas, somos todos originalmente entidades conscientes de Kṛṣṇa, mas, devido à nossa associação com a matéria desde tempos imemoriais, a nossa consciência está agora adulterada pela atmosfera material. A atmosfera material em que vivemos agora é chamada de māyā, ou ilusão. Māyā significa "aquilo que não é". E o que é esta ilusão? A ilusão é que estamos todos tentando ser senhores da natureza material, ao passo que, na verdade, estamos sob o domínio de suas leis rigorosas. Quando um servo tenta artificialmente imitar o amo todo-poderoso, diz-se que ele está em ilusão. Estamos tentando explorar os recursos da natureza material, mas, na verdade, estamos ficando cada vez mais enredados em suas complexidades. Por conseguinte, embora estejamos empenhados numa árdua luta para conquistar a natureza, somos cada vez mais dependentes dela. Esta luta ilusória contra a natureza material pode ser interrompida de imediato pela revivificação da nossa eterna consciência de Kṛṣṇa.


Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare é o processo transcendental para reviver esta consciência original e pura. Cantando esta vibração transcendental, podemos eliminar todos os receios de dentro dos nossos corações. O princípio básico de todos esses receios é a falsa consciência de que eu sou o senhor de tudo o que contemplo.


A consciência de Kṛṣṇa não é uma imposição artificial à mente. Esta consciência é a energia original e natural da entidade viva. Quando ouvimos esta vibração transcendental, esta consciência é revivida. Este método simplíssimo de meditação é recomendado para esta era. Também pela experiência prática, a pessoa pode perceber que, cantando este mahā-mantra, ou o Grande Canto para a Libertação, pode imediatamente sentir um êxtase transcendental vindo do estrato espiritual. No conceito material da vida, estamos ocupados na questão da gratificação dos sentidos, como se estivéssemos no estágio inferior, animal. Um pouco elevada deste status de gratificação dos sentidos, a pessoa ocupa-se em especulação mental com o propósito de sair das garras materiais. Um pouco elevada deste status especulativo, quando é inteligente o bastante, a pessoa tenta descobrir a suprema causa de todas as causas — por dentro e por fora. E, quando a pessoa está de fato no plano da compreensão espiritual, ultrapassando os estágios dos sentidos, da mente e da inteligência, ela está então no plano transcendental. Este canto do mantra Hare Kṛṣṇa é realizado a partir da plataforma espiritual e, assim, esta vibração sonora ultrapassa todos os estratos inferiores de consciência — a saber, o sensual, o mental e o intelectual. Por conseguinte, não há necessidade de compreender a língua do mantra, nem há necessidade de especulação mental, nem de qualquer ajuste intelectual para cantar este mahā-mantra. É automático, a partir da plataforma espiritual, e, assim, qualquer pessoa pode tomar parte no canto sem nenhuma qualificação prévia. Num estágio mais avançado, naturalmente, não se espera que a pessoa cometa ofensas, com base na compreensão espiritual.


No começo, pode não haver a presença de todos os êxtases transcendentais, que são oito em número. São estes: (1) ficar paralisado como se mudo, (2) transpiração, (3) arrepio dos pelos do corpo, (4) interrupção da voz, (5) tremor, (6) empalidecimento do corpo, (7) choro em êxtase e (8) transe. Mas não há dúvida de que cantar por algum tempo leva a pessoa imediatamente à plataforma espiritual, e ela manifesta o primeiro sintoma disso no impulso de dançar acompanhando o canto do mantra. Vimos isso na prática. Até uma criança pode tomar parte no canto e na dança. Naturalmente, para alguém que está demasiado enredado na vida material, leva um pouco mais de tempo chegar ao ponto padrão, mas mesmo um homem assim absorto na matéria é elevado à plataforma espiritual muito rapidamente. Quando o mantra é cantado por um devoto puro do Senhor, em amor, ele tem a maior eficácia sobre os ouvintes e, assim, este canto deve ser ouvido dos lábios de um devoto puro do Senhor, para que se possam alcançar efeitos imediatos. Na medida do possível, deve-se evitar o canto a partir dos lábios de não devotos. O leite tocado pelos lábios de uma serpente tem efeitos venenosos.


A palavra Harā é a forma de dirigir-se à energia do Senhor, e as palavras Kṛṣṇa e Rāma são formas de dirigir-se ao próprio Senhor. Tanto Kṛṣṇa quanto Rāma significam "o prazer supremo", e Harā é a energia de prazer suprema do Senhor, mudada para Hare no vocativo. A energia de prazer suprema do Senhor nos ajuda a alcançar o Senhor.


A energia material, chamada de māyā, é também uma das múltiplas energias do Senhor. E nós, as entidades vivas, somos também a energia, a energia marginal, do Senhor. As entidades vivas são descritas como superiores à energia material. Quando a energia superior está em contato com a energia inferior, surge uma situação incompatível; mas, quando a energia marginal superior está em contato com a energia superior, Harā, ela se estabelece em sua condição feliz e normal.


Estas três palavras, a saber, Hare, Kṛṣṇa e Rāma, são as sementes transcendentais do mahā-mantra. O canto é um chamado espiritual ao Senhor e à Sua energia, para dar proteção à alma condicionada. Este canto é exatamente como o choro genuíno de uma criança pela presença de sua mãe. A Mãe Harā ajuda o devoto a alcançar a graça do Senhor Pai, e o Senhor revela-Se ao devoto que canta este mantra sinceramente.


Nenhum outro meio de percepção espiritual é tão eficaz nesta era de disputa e hipocrisia quanto o canto do mahā-mantra: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.


## Consciência de Kṛṣṇa — o Yoga para a Era Moderna


Hoje em dia, encontramos o yoga sendo ensinado em numerosos cursos e propagandeado em livros de grande circulação como um meio de alcançar saúde, perder peso, desenvolver poderes mentais sobre os outros, alcançar êxito em ganhar dinheiro ou aumentar a potência sexual. Mas o verdadeiro yoga é algo inteiramente diferente. Aqui, Śrīla Prabhupāda nos revela alguns segredos antigos sobre a coisa verdadeira.


ceto-darpaṇa-mārjanaṁ bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpaṇaṁ

śreyaḥ-kairava-candrikā-vitaraṇaṁ vidyā-vadhū-jīvanam

ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ

sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam

[Cc. Antya 20.12]


Todas as glórias ao movimento de saṅkīrtana. Paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam. O Senhor Caitanya Mahāprabhu, quando tinha apenas dezesseis anos de idade, introduziu este movimento de saṅkīrtana há quinhentos anos em Navadvīpa, Índia. Não foi que Ele fabricou algum sistema religioso, tal como hoje em dia tantos sistemas religiosos estão sendo fabricados. Na verdade, a religião não pode ser fabricada. Dharmaṁ tu sākṣād bhagavat-praṇītam [SB 6.3.19]. Religião significa os códigos de Deus, as leis de Deus, é só isso. Certamente não podemos viver sem obedecer às leis do estado e, de modo semelhante, não podemos viver sem obedecer às leis de Deus. E, no *Bhagavad-gītā* (4.7), o Senhor diz que, sempre que há discrepâncias na execução das atividades religiosas (yadā yadā hi dharmasya glānir bhavati bhārata) e há predominância de atividades irreligiosas (abhyutthānam adharmasya), nesse momento Eu (Kṛṣṇa) apareço (tadātmānaṁ sṛjāmy aham). E, no mundo material, podemos ver o mesmo princípio demonstrado, pois, sempre que há desobediência às leis do estado, ocorre o advento de algum agente estatal ou policial específico para "pôr as coisas em ordem".


O Senhor Caitanya Mahāprabhu é adorado pelos Gosvāmīs. Houve seis Gosvāmīs: Rūpa Gosvāmī, Sanātana Gosvāmī, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, Jīva Gosvāmī, Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī e Śrī Raghunātha dāsa Gosvāmī. Há três significados de go. Go significa "terra", go significa "vaca" e go significa "sentidos". E svāmī significa "amo". Assim, gosvāmī significa que eles eram amos dos sentidos. Quando a pessoa se torna amo dos sentidos, ou gosvāmī, pode progredir na vida espiritual. Esse é o verdadeiro significado de svāmī. Svāmī significa que a pessoa não é servo dos sentidos, mas amo deles.


Um destes seis Gosvāmīs, Rūpa Gosvāmī, era o líder, e ele compôs um belo verso em honra ao Senhor Caitanya Mahāprabhu. Ele diz:


anarpita-carīṁ cirāt karuṇayāvatīrṇaḥ kalau

samarpayitum unnatojjvala-rasāṁ sva-bhakti-śriyam

hariḥ puraṭa-sundara-dyuti-kadamba-sandīpitaḥ

sadā hṛdaya-kandare sphuratu vaḥ śacī-nandanaḥ

(*Caitanya-caritāmṛta*, Ādi 1.4)



Kalau significa esta era, esta era de Kali, a Idade do Ferro, que é muito contaminada, uma era de disputa e desavença. Rūpa Gosvāmī diz que, nesta era de Kali, em que tudo é desavença e disputa, "Descestes para oferecer o mais elevado amor a Deus". Samarpayitum unnatojjvala-rasām: e não apenas o mais elevado, mas um rasa muito brilhante, ou humor transcendental. Puraṭa-sundara-dyuti: Vossa cor é tal como o ouro, como o lustre do ouro. "Sois tão bondoso que abençoo a todos [os Gosvāmīs podem abençoar porque são senhores dos sentidos] para que esta forma do Senhor, o Senhor Caitanya Mahāprabhu, possa sempre permanecer dançando no coração de todos."



Quando Rūpa Gosvāmī encontrou o Senhor Caitanya Mahāprabhu pela primeira vez em Prayāga, o Senhor Caitanya estava cantando e dançando na rua: "Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa". Nessa ocasião, também Rūpa Gosvāmī ofereceu uma oração. Namo mahā-vadānyāya kṛṣṇa-prema-pradāya te: [Madhya 19.53] "Oh, sois o mais magnânimo de todas as encarnações, pois estais distribuindo o amor a Deus". Kṛṣṇa-prema-pradāya te / kṛṣṇāya kṛṣṇa-caitanya-nāmne gaura-tviṣe namaḥ: "Sois o próprio Kṛṣṇa, pois, se não fôsseis Kṛṣṇa, não poderíeis distribuir kṛṣṇa-premā, ou amor a Deus, visto que o amor a Kṛṣṇa não se adquire tão facilmente. Mas estais distribuindo este amor livremente a todos."



Dessa maneira, o movimento de saṅkīrtana foi inaugurado em Bengala, Índia, em Navadvīpa. Nesse sentido, os bengalis são muito afortunados, pois em seu país este movimento foi inaugurado pelo Senhor Caitanya, que predisse:



pṛthivīte ache yata nagarādi grāma

sarvatra pracāra haibe mora nāma



"Em todas as aldeias e cidades do mundo inteiro, em toda parte, este movimento de saṅkīrtana será pregado." Essa é Sua predição.



Assim, pela graça do Senhor Caitanya, este movimento já está introduzido nos países ocidentais, começando por Nova Iorque. Nosso movimento de saṅkīrtana foi introduzido pela primeira vez em Nova Iorque em 1966. Nessa ocasião, eu vim e comecei a cantar este mantra Hare Kṛṣṇa em Tompkins Square. Cantei ali durante três horas com uma pequena mṛdaṅga (tambor), e estes jovens americanos reuniram-se e gradualmente juntaram-se, e assim o movimento vai crescendo. Em primeiro lugar, começou numa loja em Nova Iorque, no 26 da Segunda Avenida, e depois iniciamos nossas filiais em São Francisco, Montreal, Boston, Los Angeles, Buffalo, Columbus. Agora temos [1970] vinte e quatro filiais, incluindo uma em Londres e uma em Hamburgo. Em Londres, são todos rapazes e moças americanos, e estão pregando. Não são sannyāsīs, nem vedantistas, nem hindus, nem indianos, mas levaram este movimento muito a sério. Mesmo no London Times houve um artigo intitulado "O Canto de Kṛṣṇa Surpreende Londres". Por isso, temos muitos no movimento agora. Todos os meus discípulos, ao menos neste país, são americanos e europeus. Estão cantando, dançando e distribuindo uma revista, De Volta ao Supremo. Já publicamos muitos livros — o *Śrīmad-Bhāgavatam*, o *Bhagavad-gītā Como Ele É*, os *Ensinamentos do Senhor Caitanya* e o *Īśopaniṣad*. Não é que este movimento seja simplesmente um movimento sentimentalista. Não pensem que estes rapazes estão dançando por algum sentimento religioso ou fanatismo. Não. Temos o mais elevado fundamento filosófico e teosófico.



Como ilustração, consideremos Caitanya Mahāprabhu. Enquanto pregava, dirigiu-se a Benares, sede dos sannyāsīs māyāvādīs. Os seguidores de Śaṅkarācārya são vistos principalmente em Benares. Quando Caitanya Mahāprabhu estava lá, cantava e dançava. Algumas das pessoas apreciaram muito isso, e assim Ele rapidamente tornou-se famoso. Um sannyāsī proeminente, Prakāśānanda Sarasvatī, líder de muitos milhares de sannyāsīs māyāvādīs, foi informado: "Oh, de Bengala veio um jovem sannyāsī. Ele está cantando e dançando tão bem". Prakāśānanda Sarasvatī era um grande vedantista, e não gostou da ideia. Disse: "Oh, ele é um pseudossannyāsī. Está cantando e dançando, e essa não é a ocupação de um sannyāsī. Um sannyāsī deve sempre ocupar-se no estudo da filosofia e do Vedānta".



Então, um dos devotos que não gostou das observações de Prakāśānanda Sarasvatī voltou e informou ao Senhor Caitanya que Ele estava sendo criticado. Por isso, o devoto organizou uma reunião de todos os sannyāsīs, e houve uma discussão filosófica sobre o Vedānta entre Prakāśānanda Sarasvatī e o Senhor Caitanya Mahāprabhu. Esses relatos e discussões filosóficas constam de nossos *Ensinamentos do Senhor Caitanya*. É notável que o próprio Prakāśānanda, com todos os seus discípulos, tenha se tornado vaiṣṇava.



De modo semelhante, Caitanya Mahāprabhu teve uma grande discussão com Sārvabhauma Bhaṭṭācārya, o maior lógico da época, que também era māyāvādī, impersonalista, e foi convertido igualmente. Assim, o movimento de Caitanya Mahāprabhu não é mero sentimentalismo. Há um fundamento muito rico, para quem quiser compreender este movimento de saṅkīrtana através da filosofia e da lógica. Há ampla oportunidade, pois este movimento se baseia na ciência e na autoridade dos *Vedas*. Mas está tudo simplificado. Essa é a beleza deste movimento. Quer se seja um grande erudito ou filósofo, quer uma criança, pode-se participar sem qualquer dificuldade. Outros sistemas de autorrealização, o processo de jñāna ou o processo de yoga, também são reconhecidos, mas não é possível praticá-los nesta era. Esse é o veredito dos *Vedas*:



kṛte yad dhyāyato viṣṇuṁ

tretāyāṁ yajato makhaiḥ

dvāpare paricaryāyāṁ

kalau tad dhari-kīrtanāt



(*Śrīmad-Bhāgavatam* 12.3.52)



Em Satya-yuga, a Era de Ouro, era possível executar o processo de meditação. Por exemplo, Vālmīki Muni meditou durante sessenta mil anos para obter a perfeição. Mas onde está nossa longa vida? Além disso, para o processo de meditação, conforme descrito no *Bhagavad-gītā*, é preciso escolher um lugar recluso, é preciso executá-lo sozinho, é preciso sentar-se em postura rígida, é preciso levar uma vida de completo celibato e assim por diante. Há muitas regras e regulações. Dessa forma, a meditação aṣṭāṅga-yoga não é possível. Se alguém se satisfaz por imitar, isso é outra coisa, mas, se alguém quer a perfeição, então tem de executar todos os oito estágios do aṣṭāṅga-yoga. Se isso não for possível, então é um desperdício de tempo.



Qual é o objetivo último do processo de yoga ou da meditação? O contato com o Supremo, a Superalma, o Senhor Supremo, é o alvo e o objeto de todos os processos de yoga. De modo semelhante, a pesquisa filosófica, o processo de jñāna, também visa a compreender o Brahman Supremo. Estes são processos reconhecidos, indubitavelmente, mas, segundo a descrição autorizada, não são práticos nesta Era de Ferro de Kali. Por isso, deve-se abraçar este processo de hari-kīrtana. Qualquer pessoa pode praticá-lo sem pré-qualificação. Não se tem de estudar filosofia ou Vedānta. Esse foi o propósito do encontro do Senhor Caitanya com Prakāśānanda Sarasvatī.



Quando a filosofia Vedānta foi discutida exaustivamente entre o Senhor Caitanya e Prakāśānanda Sarasvatī, Prakāśānanda Sarasvatī primeiro perguntou a Caitanya Mahāprabhu: "Sei que fostes um grande erudito em vossa juventude. [O Senhor Caitanya foi, de fato, um grande erudito. Seu nome era Nimāi Paṇḍita, e, aos dezesseis anos, derrotou um grande erudito da Caxemira, Keśava Kāśmīrī.] E sei que sois um grande erudito em sânscrito, e que especialmente em lógica sois um erudito muito instruído. Também nascestes em uma família brāhmaṇa, e agora sois um sannyāsī. Como é que estais cantando e dançando e não lendo o Vedānta?" Esta foi a primeira pergunta feita por Prakāśānanda Sarasvatī, e o Senhor Caitanya respondeu: "Sim, a razão é que, quando fui iniciado por Meu mestre espiritual, ele disse que sou o tolo número um. 'Não discutas o Vedānta', disse-Me ele. 'Simplesmente desperdiçarás Teu tempo. Apenas dedica-Te a este canto de Hare Kṛṣṇa, e terás êxito.' " Essa foi Sua resposta. É claro que Caitanya Mahāprabhu não era um tolo, e certamente o Vedānta não é para tolos. É preciso uma educação suficiente, e é preciso atingir um certo status antes que se possa compreender o Vedānta. Em cada palavra há volumes de significados, e há muitos comentários de Śaṅkarācārya e Rāmānujācārya, enormes volumes em sânscrito. Mas como podemos compreender o Vedānta? Não é possível. Pode ser possível a uma ou duas pessoas compreender, mas, para a massa do povo, não é possível. Tampouco é possível praticar yoga. Por isso, se alguém abraçar o método de Caitanya Mahāprabhu, cantando Hare Kṛṣṇa, o primeiro ganho será ceto-darpaṇa-mārjanam: [Cc. Antya 20.12] todas as coisas sujas serão limpas do coração simplesmente pelo canto. Cante. Não há despesa nem perda. Se alguém simplesmente cantar durante uma semana, verá o quanto progredirá em conhecimento espiritual.



Estamos atraindo muitos estudantes simplesmente pelo canto, e eles estão compreendendo toda a filosofia e ficando purificados. O movimento desta Sociedade começou há apenas quatro anos, em 1966, e já temos tantas filiais. Os rapazes e moças americanos estão aceitando-o muito a sério, e estão felizes. Perguntem a qualquer um deles. Ceto-darpaṇa-mārjanam. Estão limpando as coisas sujas do coração, simplesmente cantando Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare / Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.



O ponto seguinte é bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpaṇam: assim que o coração é limpo de todas as coisas sujas, então todos os problemas da existência material são imediatamente solucionados. Este mundo é comparado a dāvāgni, que significa um fogo abrasador na floresta. Nesta existência material, ninguém quer infelicidade, mas ela vem à força. Essa é a lei da natureza material. Ninguém quer o fogo, mas, onde quer que vamos numa cidade, o corpo de bombeiros está sempre ativo. Há sempre fogo. De modo semelhante, há muitas coisas que ninguém quer. Ninguém quer a morte — há a morte. Ninguém quer a doença — há a doença. Ninguém quer a velhice — há a velhice. Existem, contra nossa vontade, contra nosso desejo.



Assim, devemos considerar o estado desta existência material. Esta forma humana de vida destina-se à compreensão, e não a desperdiçar uma vida valiosa como os animais, comendo, dormindo, acasalando-se e defendendo-se. Isto não é avanço de civilização. O *Bhāgavatam* diz que este corpo não se destina a trabalhar arduamente simplesmente por gratificação dos sentidos.



nāyaṁ deho deha-bhājāṁ nṛ-loke

kaṣṭān kāmān arhate viḍ-bhujāṁ ye

(Bhāg. 5.5.1)



Trabalhar muito arduamente e satisfazer-se com a gratificação dos sentidos é a ocupação dos porcos, não dos seres humanos. O ser humano deve aprender tapasya. Especialmente na Índia, muitos grandes sábios, muitos grandes reis, e tantos brahmacārīs e sannyāsīs passaram suas vidas em grande tapasya a fim de não recair no sono. O Senhor Buda foi um príncipe que abandonou tudo e ocupou-se em tapasya. Isto é vida. Quando o rei Bhārata, por cujo nome a Índia foi chamada Bhārata-varṣa, tinha vinte e quatro anos, abandonou seu reino, sua jovem esposa e seus filhos pequenos e partiu em busca de tapasya. Quando o Senhor Caitanya Mahāprabhu tinha apenas vinte e quatro anos, abandonou Sua jovem esposa, Sua mãe, tudo. Há muitos, muitos exemplos. A Índia é a terra do tapasya, mas estamos esquecendo isso. Agora estamos fazendo dela a terra da tecnologia. É surpreendente que a Índia agora não mais propague este tapasya, pois a Índia é a terra do dharma: dharma-kṣetre kuru-kṣetre [Bg. 1.1].



Mas não é apenas na Índia; em toda parte, nesta era do ferro, tudo está degradado, degradado neste sentido: prāyeṇālpāyuṣaḥ sabhya kalāv asmin yuge janāḥ (Bhāg. 1.1.10). Nesta era de Kali, a duração da vida está diminuída, e os homens não são movidos a compreender a autorrealização e, se o são, são invariavelmente desencaminhados por tantos líderes enganadores. A era é muito corrupta. Por isso, o processo de Caitanya Mahāprabhu de cantar Hare Kṛṣṇa é o melhor e o mais simples método.



harer nāma harer nāma

harer nāmaiva kevalam

kalau nāsty eva nāsty eva

nāsty eva gatir anyathā

[Adi 17.21]



"Nesta era de Kali não há outra religião senão a glorificação do Senhor pela enunciação de Seu santo nome, e esta é a injunção de todas as escrituras reveladas. Não há outra senda, não há outra senda, não há outra senda." Este verso aparece no Bṛhan-nāradīya Purāṇa. Harer nāma harer nāma harer nāmaiva kevalam. Simplesmente cante Hare Kṛṣṇa. Não há outra alternativa. Kalau nāsty eva nāsty eva nāsty eva gatir anyathā. Nesta era, Kali, não há outra alternativa para a autorrealização. Portanto, temos de aceitá-lo.



Há outro verso semelhante no *Śrīmad-Bhāgavatam*. No Décimo Segundo Canto, Terceiro Capítulo, Parīkṣit Mahārāja foi informado por Śukadeva Gosvāmī das falhas desta era, e agora todos os sintomas da era de Kali são aparentes. Na porção conclusiva, contudo, Śukadeva Gosvāmī disse, kaler doṣa-nidhe rājann asti hy eko mahān guṇaḥ: "Meu querido rei, esta era, Kali, está cheia de coisas defeituosas, mas há uma boa oportunidade." Qual é ela? Kīrtanād eva kṛṣṇasya mukta-saṅgaḥ paraṁ vrajet: "Simplesmente cantando este mantra Hare Kṛṣṇa pode-se ficar liberado e voltar ao Supremo."



Isto é prático e autorizado, e pode-se também testar a si mesmo para ver como se está avançando simplesmente pelo canto. Este movimento da consciência de Kṛṣṇa não é algo novo, algo que tenhamos introduzido ou fabricado. É autorizado pelos princípios Védicos, autorizado por ācāryas como Caitanya Mahāprabhu e outros. E o método é muito simples; não há perda. Não estamos cobrando nada, não estamos pedindo honorários e dando às pessoas algum mantra secreto e prometendo-lhes que dentro de seis meses se tornarão Deus. Não. Isto está aberto a todos — crianças, mulheres, moças, rapazes, idosos — todos podem cantar e ver os resultados.



Para promover este fim, não apenas estamos estabelecendo Nova Vṛndāvana, nosso projeto agrícola na Virgínia Ocidental, como também estamos estabelecendo outras comunidades espirituais, tais como Nova Navadvīpa e Nova Jagannātha Purī. Já começamos Nova Jagannātha Purī em São Francisco, e o festival de Ratha-yātrā está em andamento. Este ano haverá uma grande cerimônia de Ratha-yātrā também em Londres. Haverá três carros, para Jagannātha, Subhadrā e Balarāma, e serão levados ao rio Tâmisa. E a América importou a Nova Inglaterra e Nova Iorque, então por que não a Nova Vṛndāvana? Devemos estabelecer especialmente esta Nova Vṛndāvana, pois o Senhor Caitanya recomendou, ārādhyo bhagavān vrajeśa-tanayas tad-dhāma vṛndāvanam: "Kṛṣṇa, o filho de Nanda Mahārāja, em Vṛndāvana-dhāma de Vrajabhūmi, é a Deidade suprema digna de adoração, e Seu lugar, Vṛndāvana, também é digno de adoração." Os rapazes e moças do Ocidente estão abraçando a consciência de Kṛṣṇa, e devem ter um lugar como Vṛndāvana. Swami Kīrtanānanda, que foi a Vṛndāvana comigo há dois anos, sabe como é Vṛndāvana, por isso o instruí a construir ao menos sete templos. Em Vṛndāvana, há cinco mil templos de Rādhā-Kṛṣṇa, mas os templos mais importantes são sete, estabelecidos pelos Gosvāmīs. Nosso programa é viver em Nova Vṛndāvana, depender da agricultura e das vacas como solução econômica, e pacificamente executar a consciência de Kṛṣṇa, cantar Hare Kṛṣṇa — esse é o esquema de Vṛndāvana. Yuktāhāra-vihārasya... yogo bhavati duḥkha-hā (*Bhagavad-gītā* 6.17). Esta forma humana de vida não se destina a aumentar necessidades artificiais. Devemos estar satisfeitos apenas em manter o corpo e a alma juntos, e o resto do tempo devemos intensificar nossa consciência de Kṛṣṇa, para que, depois de abandonarmos este corpo, não tenhamos de aceitar outro corpo material, mas possamos voltar ao lar, voltar ao Supremo. Esse deve ser o lema da vida humana.



Vida material significa comer, dormir, acasalar-se e defender-se, e vida espiritual significa algo mais do que isso. Esta é também a diferença entre a vida animal e a vida humana. Na vida animal, a fórmula comum é comer, dormir, acasalar-se e defender-se. Um cachorro come, um homem também come. Um homem dorme, e um cachorro também dorme. Um homem tem vida sexual, e o cachorro também tem vida sexual. O cachorro se defende a seu modo, e o homem também se defende a seu modo, talvez com bombas atômicas. Estes quatro princípios são comuns aos seres humanos e aos animais, e o avanço destes quatro princípios não é civilização humana, mas civilização animal. Civilização humana significa athāto brahma jijñāsā. No *Vedānta-sūtra*, o primeiro aforismo é athāto brahma jijñāsā: "Agora é o momento da indagação sobre o Brahman." Isto é vida humana. Enquanto alguém não for espiritualmente inquisitivo, jijñāsuḥ śreya uttamam, é um animal, pois vive conforme estes quatro princípios, só isso. Deve ser inquisitivo para saber o que é e por que é posto nestas misérias do nascimento, da morte, da velhice e da doença. Há algum remédio? Estas questões devem ser indagadas. Isto é vida humana; isto é vida espiritual.



Vida espiritual significa vida humana, e vida material significa vida animal. Só isso. Temos de fazer os ajustes que são recomendados no *Bhagavad-gītā*. Yuktāhāra-vihārasya. Por exemplo, o fato de que vou ser um homem espiritual não significa que abandonarei a alimentação. Antes, minha alimentação deve ser ajustada. O *Bhagavad-gītā* descreve que classe de alimento é de primeira classe, na bondade, e que classe de alimento está na paixão, e a terceira classe, na ignorância. Temos de elevar-nos à plataforma sáttvica (bondade) da civilização humana e, então, reviver nossa consciência transcendental, ou consciência de Kṛṣṇa. Tudo está nos *śāstras*. Infelizmente, não os consultamos.



evaṁ prasanna-manaso

bhagavad-bhakti-yogataḥ

bhagavat-tattva-vijñānaṁ

mukta-saṅgasya jāyate

(Bhāg. 1.2.20)



A menos que alguém esteja libertado das garras destes três modos da natureza material, não pode compreender a Deus. Prasanna-manasaḥ. É preciso ser uma alma realizada em Brahman. Brahma-bhūtaḥ prasannātmā na śocati na kāṅkṣati (Bg. 18.54). Estas injunções estão lá, de modo que se deve tirar proveito destes *śāstras* e pregar. Esta é a responsabilidade dos homens inteligentes. A massa do povo sabe que Deus é grande, mas não sabe quão grande Deus é na verdade. Isso descobriremos na literatura Védica. Esse é nosso dever nesta era de ferro. Isto é hari-kīrtana, paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam: a glorificação do Supremo.





## Meditação e o Eu Interior


Pode a meditação solucionar nossos problemas cotidianos? Há vida após a morte? Podem as drogas ajudar-nos a alcançar a autorrealização? Durante uma visita à África do Sul em 1976, Śrīla Prabhupāda respondeu a estas e outras perguntas para o entrevistador Bill Faill, do Durban Natal Mercury.



Śrīla Prabhupāda: Kṛṣṇa é um nome de Deus que significa "todo-atrativo". A menos que se seja todo-atrativo, não se pode ser Deus. Assim, consciência de Kṛṣṇa significa consciência de Deus. Todos nós somos pequenas partículas de Deus, iguais em qualidade a Ele. Nossa posição como entidades vivas é como a de uma pequena partícula de ouro em relação a uma grande quantidade de ouro.



Sr. Faill: Somos algo como faíscas num fogo?



Śrīla Prabhupāda: Sim. Tanto o fogo como a faísca são fogo, mas um é grande e a outra é muito pequena. Diferentemente da relação entre a faísca e o fogo, no entanto, nossa relação com Deus é eterna, embora, no momento presente, tenhamos esquecido essa relação devido ao contato com a energia material. Estamos enfrentando tantos problemas só por causa deste esquecimento. Se pudermos reviver nossa consciência original de Deus, então ficaremos felizes. Esta é a essência da consciência de Kṛṣṇa. É o melhor processo pelo qual reviver nossa consciência original de Deus. Há diferentes processos de autorrealização, mas, na presente era de Kali, as pessoas estão muito decaídas, e requerem o simples processo da consciência de Kṛṣṇa. Agora elas estão pensando que o suposto avanço material é a solução para seus problemas, mas isso não é um fato. A verdadeira solução é sair completamente da condição material, tornando-se consciente de Kṛṣṇa. Como Deus é eterno, nós também somos eternos, mas na condição material estamos pensando: "Sou este corpo", e, por isso, temos de mudar repetidamente de corpo em corpo. Isso se deve à ignorância. Na verdade, não somos nossos corpos, mas faíscas espirituais, partes integrantes de Deus.



Sr. Faill: Então o corpo é apenas como um veículo para a alma?



Śrīla Prabhupāda: Sim. É justamente como um automóvel. Assim como você vai de um lugar a outro num carro, do mesmo modo, devido à divagação mental na condição material da vida, vamos de uma posição a outra, tentando ficar felizes. Mas nada nos fará felizes a menos que cheguemos à nossa verdadeira posição, que é a de que somos todos partes integrantes de Deus e que nossa verdadeira ocupação é associar-nos com Deus e ajudar todas as entidades vivas cooperando com Ele. A vida humana civilizada é alcançada apenas depois de uma longa evolução através de 8.400.000 espécies de vida. Assim, se não aproveitarmos esta vida humana civilizada para compreender quem é Deus, quem somos nós e qual é nossa relação, mas, ao invés disso, simplesmente desperdiçarmos nossa vida como gatos e cachorros, indo daqui para ali em busca da gratificação dos sentidos, então teremos perdido uma grande oportunidade. O movimento da consciência de Kṛṣṇa destina-se a ensinar as pessoas a aproveitar ao máximo a forma humana de vida, tentando compreender a Deus e nossa relação com Ele.



Sr. Faill: Se não aproveitarmos ao máximo esta vida, teremos uma segunda chance, em outra vida?



Śrīla Prabhupāda: Sim. Segundo seus desejos no momento da morte, você obtém outro corpo. Esse corpo, no entanto, não está garantido para ser um corpo humano. Como já expliquei, há 8.400.000 formas diferentes de vida. Você pode entrar em qualquer uma delas, segundo sua condição mental no momento da morte. Aquilo em que pensamos no momento da morte depende de como agimos durante nossa vida. Enquanto estivermos em consciência material, nossas ações estão sob o controle da natureza material, a qual está sendo conduzida em três modos: bondade, paixão e ignorância. Estes modos são como as três cores básicas — amarelo, vermelho e azul. Assim como se pode misturar vermelho, amarelo e azul para produzir milhões de cores, os modos da natureza estão sendo misturados para produzir muitas variedades de vida. Para deter a repetição do nascimento e da morte em diferentes formas de vida, devemos transcender a cobertura da natureza material e chegar à plataforma da consciência pura. Mas, se não aprendermos a ciência transcendental da consciência de Kṛṣṇa, então, ao morrermos, teremos de transferir-nos para outro corpo, seja melhor ou pior que o atual. Se cultivarmos o modo da bondade, então seremos promovidos ao sistema planetário superior, onde há um padrão de vida melhor. Se cultivarmos o modo da paixão, então permaneceremos no estágio presente. Mas, se por ignorância cometermos atividades pecaminosas e violarmos as leis da natureza, então seremos degradados à vida animal ou vegetal. Em seguida, novamente teremos de evoluir até a forma humana, um processo que pode levar milhões de anos. Por isso, um ser humano deve ser responsável. Deve aproveitar a rara oportunidade da vida humana compreendendo sua relação com Deus e agindo conforme isso. Assim poderá sair do ciclo do nascimento e da morte em diferentes formas de vida e voltar ao lar, voltar ao Supremo.



Sr. Faill: Acha que a meditação transcendental está ajudando as pessoas?



Śrīla Prabhupāda: Elas não sabem o que é a verdadeira meditação. Sua meditação é simplesmente uma farsa — mais um processo enganoso por parte dos supostos svāmīs e yogīs. Você está me perguntando se a meditação está ajudando as pessoas, mas você sabe o que é meditação?



Sr. Faill: Um aquietamento da mente — tentar sentar-se no centro sem oscilar para nenhum dos lados.



Śrīla Prabhupāda: E qual é o centro?



Sr. Faill: Não sei.



Śrīla Prabhupāda: Assim, todos estão falando muito sobre meditação, mas ninguém sabe o que é meditação na verdade. Estes embusteiros usam a palavra "meditação", mas não conhecem o assunto adequado para a meditação. Estão simplesmente fazendo propaganda espúria.



Sr. Faill: Não é a meditação valiosa apenas para fazer as pessoas pensarem corretamente?



Śrīla Prabhupāda: Não. A verdadeira meditação significa alcançar um estado em que a mente está saturada de consciência de Deus. Mas, se você não sabe o que é Deus, como pode meditar? Além disso, nesta era as mentes das pessoas estão tão agitadas que elas não conseguem concentrar-se. Eu já vi esta suposta meditação; elas estão simplesmente dormindo e roncando. Infelizmente, em nome da consciência de Deus ou "autorrealização", muitos embusteiros estão apresentando métodos não-padronizados de meditação sem se referirem aos livros autorizados do conhecimento Védico. Estão simplesmente praticando outro tipo de exploração.



Sr. Faill: E quanto a alguns dos outros mestres, como Ouspensky e Gurdjieff? No passado, eles trouxeram ao Ocidente uma mensagem semelhante à sua.



Śrīla Prabhupāda: Teríamos de estudar os pormenores de seus ensinamentos para saber se atendem ao padrão Védico. A consciência de Deus é uma ciência, justamente como a ciência médica ou qualquer outra ciência. Não pode ser diferente por ser falada por homens diferentes. Dois mais dois é igual a quatro em toda parte, nunca cinco, nem três. Isso é ciência.



Sr. Faill: Sente que outros podem possivelmente ter ensinado o método genuíno da consciência de Deus?



Śrīla Prabhupāda: A menos que eu estude seus ensinamentos em detalhe, seria muito difícil dizer. Há tantos embusteiros.



Sr. Faill: Fazendo isso apenas por dinheiro.



Śrīla Prabhupāda: Só isso. Não têm método padrão. Por isso estamos apresentando o *Bhagavad-gītā* como ele é, sem qualquer interpretação pessoal. Isto é padrão.



Sr. Faill: Sim, se você começa a enfeitar as coisas, inevitavelmente as muda.



Śrīla Prabhupāda: A consciência de Kṛṣṇa não é um processo novo. É muito, muito antiga — e padrão. Não pode ser mudada. Assim que se tenta mudá-la, então a potência se perde. Esta potência é justamente como a eletricidade. Se você quiser gerar eletricidade, tem de seguir as regulações padrão, arranjando todos os pólos negativos e positivos adequadamente. Você não pode construir o gerador caprichosamente e ainda produzir eletricidade. De modo semelhante, há um método padrão de compreender a filosofia consciente de Kṛṣṇa a partir das autoridades adequadas. Se seguirmos suas instruções, então o processo atuará. Infelizmente, uma das doenças perigosas do homem moderno é que todos querem fazer as coisas conforme seus próprios caprichos. Ninguém quer seguir a senda padrão. Por isso todos estão fracassando, tanto espiritual como materialmente.



Sr. Faill: O movimento da consciência de Kṛṣṇa está crescendo?



Śrīla Prabhupāda: Oh, sim, muito. Talvez você fique surpreso ao saber que estamos vendendo livros às dezenas de milhares. Temos cerca de cinquenta livros, e muitos bibliotecários e professores universitários os apreciam muito, pois, até sua publicação, não havia tal literatura existente. É uma nova contribuição ao mundo.



Sr. Faill: A consciência de Kṛṣṇa parece envolver raspar a cabeça e usar vestes açafroadas. Como pode um homem comum, envolvido na vida familiar, praticar a consciência de Kṛṣṇa?



Śrīla Prabhupāda: As vestes açafroadas e a cabeça raspada não são essenciais, embora criem uma boa situação mental, justamente como, quando um militar está adequadamente vestido, obtém energia — sente-se como um militar. Significa isto que, a menos que esteja de uniforme, não pode lutar? Não. Da mesma forma, a consciência de Deus não pode ser obstruída — pode ser revivida em quaisquer circunstâncias —, mas certas condições são úteis. Por isso prescrevemos que você viva de uma certa maneira, vista-se de uma certa maneira, coma de uma certa maneira e assim por diante. Estas coisas são úteis para a prática da consciência de Kṛṣṇa, mas não são essenciais.



Sr. Faill: Então pode-se ser estudante da consciência de Kṛṣṇa enquanto se conduz a vida diária normal?



Śrīla Prabhupāda: Sim.



Sr. Faill: E quanto às drogas? Podem elas ajudar no processo da realização de Deus?



Śrīla Prabhupāda: Se as drogas pudessem ajudar a realização de Deus, então as drogas seriam mais poderosas do que Deus. Como podemos aceitar isso? As drogas são substâncias químicas, que são materiais. Como pode algo material ajudar alguém a realizar a Deus, que é todo-espiritual? É impossível. O que se experimenta ao tomar drogas é simplesmente um tipo de intoxicação ou alucinação; não é realização de Deus.



Sr. Faill: Acha que os grandes místicos através das eras realmente viram a faísca espiritual que mencionou antes?



Śrīla Prabhupāda: O que você quer dizer com "místico"?



Sr. Faill: É apenas um nome dado a pessoas que tiveram uma experiência de outro nível de realidade.



Śrīla Prabhupāda: Não usamos a palavra místico. Nossa realidade é a realização de Deus, que ocorre quando chegamos à plataforma espiritual. Enquanto tivermos um conceito corporal da vida, nossa compreensão é a gratificação dos sentidos, pois o corpo é feito de sentidos. Quando progredimos da plataforma corporal e vemos a mente como o centro da atividade dos sentidos, tomamos a mente como o estágio final da realização. Esta é a plataforma mental. Da plataforma mental podemos chegar à plataforma intelectual, e da plataforma intelectual podemos elevar-nos à plataforma transcendental. Por fim, podemos elevar-nos acima até mesmo da plataforma transcendental e chegar à madura plataforma espiritual. Estes são os estágios da realização de Deus. Entretanto, nesta era, como as pessoas estão muito decaídas, os *śāstras* [escrituras] dão a recomendação especial de que as pessoas venham diretamente à plataforma espiritual cantando os santos nomes de Deus: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare / Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Se cultivarmos esta prática na plataforma espiritual, então imediatamente poderemos compreender nossa identidade espiritual. Então o processo da realização de Deus torna-se bem-sucedido muito rapidamente.



Sr. Faill: Hoje muitas pessoas estão dizendo que devemos olhar para dentro em busca da verdade, em vez de para fora, ao mundo dos sentidos.



Śrīla Prabhupāda: Olhar para dentro significa saber que você é uma alma espiritual. A menos que você compreenda que não é o corpo, mas uma alma, não há possibilidade de olhar para dentro.



Primeiro, temos de estudar: "Sou este corpo ou sou algo dentro deste corpo?" Infelizmente, este assunto não é ensinado em nenhuma escola, faculdade ou universidade. Todos estão pensando: "Sou este corpo." Por exemplo, neste país as pessoas em toda parte estão pensando: "Sou sul-africano, eles são indianos, são gregos", e assim por diante. Na verdade, todos no mundo inteiro estão no conceito corporal da vida. A consciência de Kṛṣṇa começa quando alguém está acima deste conceito corporal.



Sr. Faill: Então o reconhecimento da faísca espiritual vem primeiro?



Śrīla Prabhupāda: Sim. Reconhecer a existência da alma espiritual dentro do corpo é o primeiro passo. A menos que se compreenda este simples fato, não há possibilidade de avanço espiritual.



Sr. Faill: É uma questão de apenas compreendê-lo intelectualmente?



Śrīla Prabhupāda: No começo, sim. Há dois departamentos de conhecimento: teórico e prático. Primeiro, deve-se aprender a ciência espiritual teoricamente; em seguida, trabalhando nesta plataforma espiritual, chega-se ao ponto da realização prática.



Infelizmente, hoje quase todos estão na escuridão do conceito corporal da vida. Por isso este movimento é muito importante, pois pode erguer os homens civilizados dessa escuridão. Enquanto eles estiverem no conceito corporal da vida, não são melhores que os animais. "Sou um cachorro", "sou um gato", "sou uma vaca". Os animais pensam assim. Assim que alguém passa, um cachorro late, pensando: "Sou um cachorro. Fui designado aqui como cão de guarda." De modo semelhante, se eu adotar a mentalidade do cachorro e desafiar os estrangeiros — "Por que vieste a este país? Por que vieste à minha jurisdição?" —, então qual é a diferença entre o cachorro e eu?



Sr. Faill: Não há nenhuma. Para mudar um pouco de assunto, é necessário seguir certos hábitos alimentares para praticar a vida espiritual?



Śrīla Prabhupāda: Sim, todo o processo destina-se a purificar-nos, e o alimento é parte dessa purificação. Creio que vocês têm um ditado: "Você é o que você come", e isso é um fato. Nossa constituição corporal e atmosfera mental são determinadas conforme como e o que comemos. Por isso os *śāstras* recomendam que, para tornar-se consciente de Kṛṣṇa, você deve comer os restos de alimento deixados por Kṛṣṇa. Se um paciente com tuberculose come algo e você come os restos, será contagiado com tuberculose. De modo semelhante, se você come kṛṣṇa-prasādam, então será contagiado com a consciência de Kṛṣṇa. Assim, nosso processo é o de que não comemos nada imediatamente. Primeiro oferecemos o alimento a Kṛṣṇa, em seguida o comemos. Isto nos ajuda a avançar na consciência de Kṛṣṇa.



Sr. Faill: Vocês são todos vegetarianos?



Śrīla Prabhupāda: Sim, porque Kṛṣṇa é vegetariano. Kṛṣṇa pode comer qualquer coisa, pois é Deus, mas no *Bhagavad-gītā* (9.26) Ele diz: "Se alguém Me oferecer com amor e devoção uma folha, uma flor, fruta ou água, Eu aceitarei." Ele nunca diz: "Dá-Me carne e vinho."



Sr. Faill: E quanto à questão do tabaco?



Śrīla Prabhupāda: O tabaco também é um intoxicante. Já estamos intoxicados por estar no conceito corporal da vida, e, se aumentarmos a intoxicação, então estaremos perdidos.



Sr. Faill: Quer dizer que coisas como carne, álcool e tabaco apenas reforçam a consciência corporal?



Śrīla Prabhupāda: Sim. Suponha que você tenha uma doença e queira ser curado. Tem de seguir as instruções de um médico. Se ele disser: "Não coma isto; coma só isto", você tem de seguir sua prescrição. De modo semelhante, também temos uma prescrição para sermos curados do conceito corporal da vida: cantar Hare Kṛṣṇa, ouvir sobre as atividades de Kṛṣṇa e comer kṛṣṇa-prasādam. Este tratamento é o processo da consciência de Kṛṣṇa.
