{"ref": "bg/1/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/1/", "verse_text": "dhṛtarāṣṭra uvāca\n\ndharma-kṣetre kuru-kṣetre\n\nsamavetā yuyutsavaḥ\n\nmāmakāḥ pāṇḍavāś caiva\n\nkim akurvata sañjaya", "devanagari": "> धृतराष्ट्र उवाच ।\n> धर्मक्षेत्रे कुरुक्षेत्रे समवेता युयुत्सवः ।\n> मामकाः पाण्डवाश्चैव किमकुर्वत सञ्जय ॥१॥", "synonyms": "*dhṛtarāṣṭraḥ*—o rei Dhṛtarāṣṭra; *uvāca*—disse; *dharma-kṣetre*—no lugar de peregrinação; *kuru-kṣetre*—no lugar chamado Kurukṣetra; *samavetāḥ*—reunidos; *yuyatsavaḥ*—desejosos de lutar; *māmakāḥ*—meu partido (filhos); *pāṇḍavāḥ*—os filhos de Pāṇḍu; *ca*—e; *eva*—certamente; *kim*—o que; *akurvata*—fizeram eles; *sañjaya*—ó Sañjaya.", "translation": "**Dhṛtarāṣṭra disse: Ó Sañjaya, depois de se reunirem no lugar de peregrinação de Kurukṣetra, desejosos de lutar, o que fizeram meus filhos e os filhos de Pāṇḍu?**", "purport": "O *Bhagavad-gītā* é a amplamente lida ciência teísta resumida no *Gītā-māhātmya* (Glorificação do *Gītā*). Ali se diz que se deve ler o *Bhagavad-gītā* com muito escrutínio, com a ajuda de uma pessoa que seja devota de Śrī Kṛṣṇa, e tentar compreendê-lo sem interpretações motivadas pessoalmente. O exemplo de compreensão clara está presente no próprio *Bhagavad-gītā*, na maneira como Arjuna, que ouviu o *Gītā* diretamente do Senhor, compreendeu o ensinamento. Se alguém tiver a fortuna suficiente para compreender o *Bhagavad-gītā* nessa linha de sucessão discipular, sem interpretação motivada, então ultrapassa todos os estudos da sabedoria Védica e todas as escrituras do mundo. O leitor encontrará no *Bhagavad-gītā* tudo o que se contém em outras escrituras, mas também encontrará coisas que não se acham em nenhum outro lugar. Esse é o critério específico do *Gītā*. Trata-se da ciência teísta perfeita porque a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, a fala diretamente.\n\n\n\nOs tópicos discutidos por Dhṛtarāṣṭra e Sañjaya, conforme descritos no *Mahābhārata*, formam o princípio básico desta grande filosofia. Sabe-se que esta filosofia evoluiu no Campo de Batalha de Kurukṣetra, que é um sagrado lugar de peregrinação desde o tempo imemorial da era Védica. Foi falada pelo Senhor quando Ele esteve presente pessoalmente neste planeta para a orientação da humanidade.\n\n\n\nA palavra dharma-kṣetra (lugar onde se realizam rituais religiosos) é significativa porque, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, a Suprema Personalidade de Deus estava presente do lado de Arjuna. Dhṛtarāṣṭra, o pai dos Kurus, tinha muitas dúvidas sobre a possibilidade da vitória final de seus filhos. Em sua dúvida, indagou de seu secretário Sañjaya: «O que fizeram meus filhos e os filhos de Pāṇḍu?». Estava confiante de que tanto seus filhos quanto os filhos de seu irmão mais novo, Pāṇḍu, haviam-se reunido naquele Campo de Kurukṣetra para um decidido engajamento na guerra. Ainda assim, sua indagação é significativa. Não desejava nenhuma conciliação entre os primos e irmãos, e queria estar seguro do destino de seus filhos no campo de batalha. Como a batalha fora arranjada para se travar em Kurukṣetra, mencionado em outros lugares dos *Vedas* como um local de adoração — inclusive para os habitantes do céu —, Dhṛtarāṣṭra ficou muito temeroso da influência do lugar sagrado sobre o desfecho da batalha. Ele sabia muito bem que isso influenciaria favoravelmente Arjuna e os filhos de Pāṇḍu, porque por natureza eram todos virtuosos. Sañjaya era discípulo de Vyāsa e, por conseguinte, pela misericórdia de Vyāsa, podia visualizar o Campo de Batalha de Kurukṣetra mesmo estando no aposento de Dhṛtarāṣṭra. E foi assim que Dhṛtarāṣṭra lhe perguntou sobre a situação no campo de batalha.\n\n\n\nTanto os Pāṇḍavas como os filhos de Dhṛtarāṣṭra pertenciam à mesma família, mas aqui se revela a mente de Dhṛtarāṣṭra. Ele deliberadamente reivindicou apenas seus filhos como Kurus e separou os filhos de Pāṇḍu da herança familiar. Pode-se assim compreender a posição específica de Dhṛtarāṣṭra em sua relação com os sobrinhos, os filhos de Pāṇḍu. Tal como no arrozal se arrancam as plantas desnecessárias, espera-se desde o princípio destes tópicos que, no campo religioso de Kurukṣetra, onde o pai da religião, Śrī Kṛṣṇa, estava presente, as plantas indesejadas — como o filho de Dhṛtarāṣṭra, Duryodhana, e outros — fossem extirpadas, e as pessoas plenamente religiosas, encabeçadas por Yudhiṣṭhira, fossem estabelecidas pelo Senhor. Esse é o significado das palavras dharma-kṣetre e kuru-kṣetre, à parte de sua importância histórica e Védica."}
{"ref": "bg/1/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/2/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\ndṛṣṭvā tu pāṇḍavānīkaṁ\n\nvyūḍhaṁ duryodhanas tadā\n\nācāryam upasaṅgamya\n\nrājā vacanam abravīt", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> दृष्ट्वा तु पाण्डवानीकं व्यूढं दुर्योधनस्तदा ।\n> आचार्यमुपसंगम्य राजा वचनमब्रवीत् ॥२॥", "synonyms": "*sañjayaḥ*—Sañjaya; *uvāca*—disse; *dṛṣṭvā*—depois de ver; *tu*—mas; *pāṇḍava-anīkam*—os soldados dos Pāṇḍavas; *vyūḍham*—dispostos em falange militar; *duryodhanaḥ*—o rei Duryodhana; *tadā*—naquele momento; *ācāryam*—o mestre; *upasaṅgamya*—aproximando-se; *rājā*—o rei; *vacanam*—palavras; *abravīt*—falou.", "translation": "**Sañjaya disse: Ó rei, após observar o exército reunido pelos filhos de Pāṇḍu, o rei Duryodhana dirigiu-se a seu mestre e proferiu as seguintes palavras:**", "purport": "Dhṛtarāṣṭra era cego de nascença. Infelizmente, também estava privado de visão espiritual. Ele sabia muito bem que seus filhos eram igualmente cegos em matéria de religião, e tinha certeza de que jamais poderiam chegar a um entendimento com os Pāṇḍavas, todos piedosos desde o nascimento. Ainda assim, tinha dúvidas sobre a influência do lugar de peregrinação, e Sañjaya pôde compreender o motivo de suas indagações sobre a situação no campo de batalha. Quis, portanto, animar o abatido rei e, dessa forma, advertiu-o de que seus filhos não fariam nenhum tipo de concessão sob a influência do lugar sagrado. Sañjaya, assim sendo, informou ao rei que seu filho, Duryodhana, depois de ver a força militar dos Pāṇḍavas, foi de imediato ao comandante-em-chefe, Droṇācārya, para informá-lo da real situação. Embora Duryodhana seja mencionado como rei, ainda assim teve que ir até o comandante por causa da gravidade da situação. Era, por isso, bastante apto para ser um político. Mas a aparência diplomática de Duryodhana não pôde disfarçar o medo que sentiu ao ver a disposição militar dos Pāṇḍavas."}
{"ref": "bg/1/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/3/", "verse_text": "paśyaitāṁ pāṇḍu-putrāṇām\n\nācārya mahatīṁ camūm\n\nvyūḍhāṁ drupada-putreṇa\n\ntava śiṣyeṇa dhīmatā", "devanagari": "> पश्यैतां पाण्डुपुत्राणामाचार्य महतीं चमूम् ।\n> व्यूढां द्रुपदपुत्रेण तव शिष्येण धीमता ॥३॥", "synonyms": "*paśya*—contempla; *etām*—este; *pāṇḍu-putrāṇām*—dos filhos de Pāṇḍu; *ācārya*—ó mestre; *mahatīm*—grande; *camūm*—força militar; *vyuḍham*—disposta; *drupada-putreṇa*—pelo filho de Drupada; *tava*—teu; *śiṣyeṇa*—discípulo; *dhīmatā*—muito inteligente.", "translation": "**Ó meu mestre, contempla o grande exército dos filhos de Pāṇḍu, tão habilmente disposto por teu inteligente discípulo, o filho de Drupada.**", "purport": "Duryodhana, grande diplomata, queria apontar as deficiências de Droṇācārya, o grande *brāhmaṇa* comandante-em-chefe. Droṇācārya tivera certa contenda política com o rei Drupada, pai de Draupadī, esposa de Arjuna. Como resultado dessa disputa, Drupada realizou um grande sacrifício, pelo qual recebeu a bênção de ter um filho que seria capaz de matar Droṇācārya. Droṇācārya sabia disso perfeitamente bem e, contudo, como *brāhmaṇa* generoso, não hesitou em transmitir todos os seus segredos militares quando o filho de Drupada, Dhṛṣṭadyumna, lhe foi confiado para a educação militar. Ora, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, Dhṛṣṭadyumna tomou o partido dos Pāṇḍavas, e foi ele quem dispôs sua falange militar, depois de ter aprendido a arte com Droṇācārya. Duryodhana apontou esse erro de Droṇācārya para que pudesse estar alerta e sem concessões na luta. Com isso, queria também indicar que ele não devia ser igualmente indulgente em batalha contra os Pāṇḍavas, que também eram alunos afetuosos de Droṇācārya. Arjuna, em especial, era seu aluno mais afetuoso e brilhante. Duryodhana advertiu, ainda, que tal indulgência no combate levaria à derrota."}
{"ref": "bg/1/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/4/", "verse_text": "atra śūrā maheṣv-āsā\n\nbhīmārjuna-samā yudhi\n\nyuyudhāno virāṭaś ca\n\ndrupadaś ca mahā-rathaḥ", "devanagari": "> अत्र शूरा महेष्वासा भीमार्जुनसमा युधि ।\n> युयुधानो विराटश्च द्रुपदश्च महारथः ॥४॥", "synonyms": "*atra*—aqui; *śūrāḥ*—heróis; *maheṣvāsāḥ*—arqueiros poderosos; *bhīma-arjuna*—Bhīma e Arjuna; *samāḥ*—iguais; *yudhi*—na luta; *yuyudhānaḥ*—Yuyudhāna; *virāṭaḥ*—Virāṭa; *ca*—também; *drupadaḥ*—Drupada; *ca*—também; *mahārathaḥ*—grande lutador.", "translation": "**Aqui neste exército há muitos arqueiros heroicos iguais em combate a Bhīma e Arjuna; há também grandes lutadores como Yuyudhāna, Virāṭa e Drupada.**", "purport": "Embora Dhṛṣṭadyumna não fosse um obstáculo muito importante diante do grande poder de Droṇācārya na arte militar, havia muitos outros que eram causa de temor. Duryodhana os menciona como grandes empecilhos na senda da vitória, porque cada um deles era tão formidável quanto Bhīma e Arjuna. Conhecia a força de Bhīma e Arjuna e, por isso, comparou os outros a eles."}
{"ref": "bg/1/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/5/", "verse_text": "dhṛṣṭaketuś cekitānaḥ\n\nkāśirājaś ca vīryavān\n\npurujit kuntibhojaś ca\n\nśaibyaś ca nara-puṅgavaḥ", "devanagari": "> धृष्टकेतुश्चेकितानः काशिराजश्च वीर्यवान् ।\n> पुरुजित्कुन्तिभोजश्च शैब्यश्च नरपुंगवः ॥५॥", "synonyms": "*dhṛṣṭaketuḥ*—Dhṛṣṭaketu; *cekitānaḥ*—Cekitāna; *kāśirājaḥ*—Kaśirāja; *ca*—também; *vīryavān*—muito poderoso; *purujit*—Purujit; *kuntibhojaḥ*—Kuntibhoja; *ca*—e; *śaibyaḥ*—Śaibya; *ca*—e; *nara-puṅgavaḥ*—heróis na sociedade humana.", "translation": "**Há também grandes, heroicos e poderosos lutadores como Dhṛṣṭaketu, Cekitāna, Kāśirāja, Purujit, Kuntibhoja e Śaibya.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/1/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/6/", "verse_text": "yudhāmanyuś ca vikrānta\n\nuttamaujāś ca vīryavān\n\nsaubhadro draupadeyāś ca\n\nsarva eva mahā-rathāḥ", "devanagari": "> युधामन्युश्च विक्रान्त उत्तमौजाश्च वीर्यवान् ।\n> सौभद्रो द्रौपदेयाश्च सर्व एव महारथाः ॥६॥", "synonyms": "*yudhāmanyuḥ*—Yudhāmanyu; *ca*—e; *vikrāntaḥ*—poderoso; *uttamaujāḥ*—Uttamaujā; *ca*—e; *vīryavān*—muito poderoso; *saubhadraḥ*—o filho de Subhadrā; *draupadeyāḥ*—os filhos de Draupadī; *ca*—e; *sarve*—todos; *eva*—certamente; *mahā-rathāḥ*—grandes guerreiros em quadrigas.", "translation": "**Estão presentes o poderoso Yudhāmanyu, o muito potente Uttamaujā, o filho de Subhadrā e os filhos de Draupadī. Todos esses guerreiros são grandes combatentes em quadrigas.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/1/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/7/", "verse_text": "asmākaṁ tu viśiṣṭā ye\n\ntān nibodha dvijottama\n\nnāyakā mama sainyasya\n\nsaṁjñārthaṁ tān bravīmi te", "devanagari": "> अस्माकं तु विशिष्टा ये तान्निबोध द्विजोत्तम ।\n> नायका मम सैन्यस्य संज्ञार्थं तान्ब्रवीमि ते ॥७॥", "synonyms": "*asmākam*—nosso; *tu*—mas; *viśiṣṭāḥ*—especialmente poderosos; *ye*—aqueles; *tān*—a eles; *nibodha*—toma nota, fica informado; *dvijottama*—o melhor dos *brāhmaṇas*; *nāyakāḥ*—capitães; *mama*—meus; *sainyasya*—dos soldados; *saṁjñā-artham*—para informação; *tān*—a eles; *bravīmi*—estou falando; *te*—a ti.", "translation": "**Ó melhor dos *brāhmaṇas*, para tua informação, deixa-me falar-te sobre os capitães especialmente qualificados para liderar minha força militar.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/1/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/8/", "verse_text": "bhavān bhīṣmaś ca karṇaś ca\n\nkṛpaś ca samitiṁ-jayaḥ\n\naśvatthāmā vikarṇaś ca\n\nsaumadattis tathaiva ca", "devanagari": "> भवान्भीष्मश्च कर्णश्च कृपश्च समितिञ्जयः ।\n> अश्वत्थामा विकर्णश्च सौमदत्तिस्तथैव च ॥८॥", "synonyms": "*bhavān*—tu mesmo; *bhīṣmaḥ*—o avô Bhīṣma; *ca*—também; *karṇaḥ*—Karṇa; *ca*—e; *kṛpaḥ*—Kṛpa; *ca*—e; *samitiñjayaḥ*—sempre vitorioso em batalha; *aśvatthāmā*—Aśvatthāmā; *vikarṇaḥ*—Vikarṇa; *ca*—bem como; *saumadattiḥ*—o filho de Somadatta; *tathā*—e como; *eva*—certamente; *ca*—e.", "translation": "**Há personalidades como tu mesmo, Bhīṣma, Karṇa, Kṛpa, Aśvatthāmā, Vikarṇa e o filho de Somadatta chamado Bhuriśravā, que são sempre vitoriosos em batalha.**", "purport": "Duryodhana mencionou os heróis excepcionais na batalha, todos sempre vitoriosos. Vikarṇa é irmão de Duryodhana, Aśvatthāmā é filho de Droṇācārya, e Saumadatti, ou Bhūriśravā, é filho do rei dos Bāhlīkas. Karṇa é meio-irmão de Arjuna, pois nasceu de Kuntī antes de seu casamento com o rei Pāṇḍu. Kṛpācārya casou-se com a irmã gêmea de Droṇācārya."}
{"ref": "bg/1/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/9/", "verse_text": "anye ca bahavaḥ śūrā\n\nmad-arthe tyakta-jīvitāḥ\n\nnānā-śastra-praharaṇāḥ\n\nsarve yuddha-viśāradāḥ", "devanagari": "> अन्ये च बहवः शूरा मदर्थे त्यक्तजीविताः ।\n> नानाशस्त्रप्रहरणाः सर्वे युद्धविशारदाः ॥९॥", "synonyms": "*anye*—muitos outros; *ca*—também; *bahavaḥ*—em grande número; *śūrāḥ*—heróis; *mad-arthe*—em meu favor; *tyakta-jīvitāḥ*—prontos a arriscar a vida; *nānā*—muitas; *śastra*—armas; *praharaṇāḥ*—munidos de; *sarve*—todos eles; *yuddha*—batalha; *viśāradāḥ*—experimentados na ciência militar.", "translation": "**Há muitos outros heróis dispostos a entregar a vida em meu favor. Todos eles estão muito bem munidos de variadas espécies de armas, e todos têm experiência na ciência militar.**", "purport": "Quanto aos demais — como Jayadratha, Kṛtavarmā, Śalya, etc. —, todos estão decididos a entregar a vida em favor de Duryodhana. Em outras palavras, já se conclui que todos eles morreriam na Batalha de Kurukṣetra por se unirem ao partido do pecaminoso Duryodhana. Duryodhana, por certo, estava confiante em sua vitória, em razão da força conjunta de seus amigos, mencionada acima."}
{"ref": "bg/1/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/10/", "verse_text": "aparyāptaṁ tad asmākaṁ\n\nbalaṁ bhīṣmābhirakṣitam\n\nparyāptaṁ tv idam eteṣāṁ\n\nbalaṁ bhīmābhirakṣitam", "devanagari": "> अपर्याप्तं तदस्माकं बलं भीष्माभिरक्षितम् ।\n> पर्याप्तं त्विदमेतेषां बलं भीमाभिरक्षितम् ॥१०॥", "synonyms": "*aparyāptam*—incomensurável; *tat*—essa; *asmākam*—nossa; *balam*—força; *bhīṣma*—pelo avô Bhīṣma; *abhirakṣitam*—perfeitamente protegida; *paryāptam*—limitada; *tu*—mas; *idam*—toda esta; *eteṣām*—dos Pāṇḍavas; *balam*—força; *bhīma*—por Bhīma; *abhirakṣitam*—cuidadosamente protegida.", "translation": "**Nossa força é incomensurável, e estamos perfeitamente protegidos pelo avô Bhīṣma, ao passo que a força dos Pāṇḍavas, cuidadosamente protegida por Bhīma, é limitada.**", "purport": "Aqui Duryodhana faz uma estimativa da força comparativa. Pensa que a força de suas forças armadas é incomensurável, sendo especialmente protegida pelo mais experiente general, o avô Bhīṣma. Por outro lado, as forças dos Pāṇḍavas são limitadas, protegidas por um general menos experiente, Bhīma, que é como um figo na presença de Bhīṣma. Duryodhana sempre foi invejoso de Bhīma, pois sabia muito bem que, se algum dia viesse a morrer, só poderia ser morto por Bhīma. Mas, ao mesmo tempo, estava confiante em sua vitória por causa da presença de Bhīṣma, general muito superior. Sua conclusão de que sairia vitorioso da batalha era bem-assegurada."}
{"ref": "bg/1/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/11/", "verse_text": "ayaneṣu ca sarveṣu\n\nyathā-bhāgam avasthitāḥ\n\nbhīṣmam evābhirakṣantu\n\nbhavantaḥ sarva eva hi", "devanagari": "> अयनेषु च सर्वेषु यथाभागमवस्थिताः ।\n> भीष्ममेवाभिरक्षन्तु भवन्तः सर्व एव हि ॥११॥", "synonyms": "*ayaneṣu*—nos pontos estratégicos; *ca*—também; *sarveṣu*—em toda parte; *yathābhāgam*—conforme dispostos diferentemente; *avasthitāḥ*—situados; *bhīṣmam*—ao avô Bhīṣma; *eva*—certamente; *abhirakṣantu*—dê-se apoio; *bhavantaḥ*—todos vós; *sarve*—respectivamente; *eva*—certamente; *hi*—e exatamente.", "translation": "**Agora todos vós deveis prestar pleno apoio ao avô Bhīṣma, postados em vossos respectivos pontos estratégicos na falange do exército.**", "purport": "Duryodhana, depois de louvar a destreza de Bhīṣma, considerou também que outros poderiam julgar-se menos importantes, e por isso, em sua habitual maneira diplomática, tentou ajustar a situação com as palavras acima. Enfatizou que Bhīṣmadeva era, sem dúvida, o maior herói, mas tratava-se de um homem idoso, de modo que todos deveriam pensar especialmente em sua proteção por todos os lados. Ele poderia engajar-se no combate, e o inimigo poderia tirar vantagem de sua plena ocupação em um único flanco. Por conseguinte, era importante que os outros heróis não abandonassem suas posições estratégicas e permitissem ao inimigo romper a falange. Duryodhana sentia claramente que a vitória dos Kurus dependia da presença de Bhīṣmadeva. Estava confiante no pleno apoio de Bhīṣmadeva e Droṇācārya na batalha porque sabia muito bem que eles sequer haviam pronunciado uma palavra quando a esposa de Arjuna, Draupadī, em sua condição de desamparo, lhes havia apelado por justiça enquanto era forçada a desnudar-se na presença de todos os grandes generais na assembleia. Embora soubesse que os dois generais nutriam certa afeição pelos Pāṇḍavas, esperava que toda essa afeição fosse agora completamente abandonada por eles, como era costume durante as sessões de jogo de azar."}
{"ref": "bg/1/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/12/", "verse_text": "tasya sañjanayan harṣaṁ\n\nkuru-vṛddhaḥ pitāmahaḥ\n\nsiṁha-nādaṁ vinadyoccaiḥ\n\nśaṅkhaṁ dadhmau pratāpavān", "devanagari": "> तस्य सञ्जनयन्हर्षं कुरुवृद्धः पितामहः ।\n> सिंहनादं विनद्योच्चैः शङ्खं दध्मौ प्रतापवान् ॥१२॥", "synonyms": "*tasya*—sua; *sañjanayan*—aumentando; *harṣam*—alegria; *kuru-vṛddhaḥ*—o ancestral da dinastia Kuru (Bhīṣma); *pitāmahaḥ*—o avô; *siṁha-nādam*—som rugidor, semelhante ao do leão; *vinadya*—vibrando; *uccaiḥ*—muito alto; *śaṅkham*—búzio; *dadhmau*—soprou; *pratāpavān*—o valente.", "translation": "**Então Bhīṣma, o grande e valente ancestral da dinastia Kuru, o avô dos lutadores, soprou seu búzio bem alto, com som semelhante ao do leão, dando alegria a Duryodhana.**", "purport": "O ancestral da dinastia Kuru pôde compreender o sentido íntimo do coração de seu neto Duryodhana, e por sua compaixão natural por ele, tentou alegrá-lo soprando seu búzio bem alto, condizente com sua posição de leão. Indiretamente, pelo simbolismo do búzio, informou ao deprimido neto Duryodhana que não havia possibilidade de vitória na batalha, porque o Senhor Supremo Kṛṣṇa estava do outro lado. Mas, ainda assim, era seu dever conduzir o combate, e nenhum esforço seria poupado nesse sentido."}
{"ref": "bg/1/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/13/", "verse_text": "tataḥ śaṅkhāś ca bheryaś ca\n\npaṇavānaka-gomukhāḥ\n\nsahasaivābhyahanyanta\n\nsa śabdas tumulo 'bhavat", "devanagari": "> ततः शङ्खाश्च भेर्यश्च पणवानकगोमुखाः ।\n> सहसैवाभ्यहन्यन्त स शब्दस्तुमुलोऽभवत् ॥१३॥", "synonyms": "*tataḥ*—depois disso; *śaṅkhāḥ*—búzios; *ca*—também; *bheryaḥ*—clarins; *ca*—e; *paṇava-ānaka*—trombetas e tambores; *go-mukhāḥ*—cornetas; *sahasā*—de repente; *eva*—certamente; *abhyahanyanta*—sendo simultaneamente tocados; *saḥ*—esse; *śabdaḥ*—som combinado; *tumulaḥ*—tumultuoso; *abhavat*—tornou-se.", "translation": "**Em seguida, os búzios, os clarins, as trombetas, os tambores e as cornetas soaram todos de súbito, e o som combinado foi tumultuoso.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/1/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/14/", "verse_text": "tataḥ śvetair hayair yukte\n\nmahati syandane sthitau\n\nmādhavaḥ pāṇḍavaś caiva\n\ndivyau śaṅkhau pradadhmatuḥ", "devanagari": "> ततः श्वेतैर्हयैर्युक्ते महति स्यन्दने स्थितौ ।\n> माधवः पाण्डवश्चैव दिव्यौ शङ्खौ प्रदध्मतुः ॥१४॥", "synonyms": "*tataḥ*—depois disso; *śvetaiḥ*—por brancos; *hayaiḥ*—cavalos; *yukte*—sendo atrelados a; *mahati*—na grande; *syandane*—quadriga; *sthitau*—assim situados; *mādhavaḥ*—Kṛṣṇa (o esposo da deusa da fortuna); *pāṇḍavaḥ*—Arjuna (o filho de Pāṇḍu); *ca*—também; *eva*—certamente; *divyau*—transcendentais; *śaṅkhau*—búzios; *pradadhmatuḥ*—soaram.", "translation": "**Do outro lado, tanto o Senhor Kṛṣṇa quanto Arjuna, postados numa grande quadriga puxada por cavalos brancos, fizeram soar seus búzios transcendentais.**", "purport": "Em contraste com o búzio soprado por Bhīṣmadeva, os búzios nas mãos de Kṛṣṇa e de Arjuna são descritos como transcendentais. O soar dos búzios transcendentais indicava que não havia esperança de vitória para o outro lado, pois Kṛṣṇa estava do lado dos Pāṇḍavas. Jayas tu pāṇḍu-putrāṇāṁ yeṣāṁ pakṣe janārdanaḥ. A vitória está sempre com pessoas como os filhos de Pāṇḍu, porque o Senhor Kṛṣṇa está associado a eles. E sempre que e onde quer que o Senhor esteja presente, ali também está a deusa da fortuna, pois a deusa da fortuna jamais vive sozinha, sem seu esposo. Por isso, vitória e fortuna aguardavam Arjuna, como indicava o som transcendental produzido pelo búzio de Viṣṇu, ou o Senhor Kṛṣṇa. Além disso, a quadriga em que os dois amigos se encontravam fora doada por Agni (o deus do fogo) a Arjuna, e isso indicava que essa quadriga era capaz de conquistar todos os flancos, por onde quer que fosse conduzida pelos três mundos."}
{"ref": "bg/1/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/15/", "verse_text": "pāñcajanyaṁ hṛṣīkeśo\n\ndevadattaṁ dhanañjayaḥ\n\npauṇḍraṁ dadhmau mahā-śaṅkhaṁ\n\nbhīma-karmā vṛkodaraḥ", "devanagari": "> पाञ्चजन्यं हृषीकेशो देवदत्तं धनञ्जयः ।\n> पौण्ड्रं दध्मौ महाशङ्खं भीमकर्मा वृकोदरः ॥१५॥", "synonyms": "*pāñcajanyam*—o búzio chamado Pāñcajanya; *hṛṣīkeśaḥ*—Hṛṣīkeśa (Kṛṣṇa, o Senhor que dirige os sentidos dos devotos); *devadattam*—o búzio chamado Devadatta; *dhanañjayaḥ*—Dhanañjaya (Arjuna, o conquistador de riquezas); *pauṇḍram*—o búzio chamado Pauṇḍram; *dadhmau*—soprou; *mahā-śaṅkham*—o terrífico búzio; *bhīma-karmā*—aquele que executa tarefas hercúleas; *vṛkodaraḥ*—o comedor voraz (Bhīma).", "translation": "**Então, o Senhor Kṛṣṇa soprou Seu búzio, chamado Pāñcajanya; Arjuna soprou o seu, o Devadatta; e Bhīma, o comedor voraz e executor de tarefas hercúleas, soprou seu terrífico búzio chamado Pauṇḍram.**", "purport": "Neste verso, o Senhor Kṛṣṇa é referido como Hṛṣīkeśa porque é o senhor de todos os sentidos. As entidades vivas são partes integrantes Dele e, por isso, os sentidos das entidades vivas também são partes integrantes de Seus sentidos. Os impersonalistas não conseguem explicar os sentidos das entidades vivas e, por conseguinte, vivem ansiosos por descrever todas as entidades vivas como destituídas de sentidos, ou impessoais. O Senhor, situado nos corações de todas as entidades vivas, dirige seus sentidos. Mas Ele dirige conforme a entrega da entidade viva, e no caso de um devoto puro, Ele controla diretamente os sentidos. Aqui, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, o Senhor controla diretamente os sentidos transcendentais de Arjuna, daí Seu nome particular de Hṛṣīkeśa. O Senhor tem nomes diferentes conforme Suas diferentes atividades. Por exemplo, Seu nome é Madhusūdana porque matou o demônio chamado Madhu; Seu nome é Govinda porque dá prazer às vacas e aos sentidos; Seu nome é Vāsudeva porque apareceu como filho de Vasudeva; Seu nome é Devakī-nandana porque aceitou Devakī como Sua mãe; Seu nome é Yaśodā-nandana porque outorgou Seus passatempos infantis a Yaśodā em Vṛndāvana; Seu nome é Pārtha-sārathi porque atuou como quadrigário de Seu amigo Arjuna. De modo semelhante, Seu nome é Hṛṣīkeśa porque deu orientação a Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra.\n\n\n\nArjuna é referido neste verso como Dhanañjaya porque ajudou seu irmão mais velho a obter riquezas quando o rei delas necessitava para realizar gastos com diversos sacrifícios. De modo semelhante, Bhīma é conhecido como Vṛkodara, pois podia comer tão vorazmente quanto podia executar tarefas hercúleas, como matar o demônio Hiḍimba. Assim, os tipos particulares de búzio soprados pelas diferentes personalidades do lado dos Pāṇḍavas, começando com o do Senhor, eram todos muito encorajadores para os soldados em combate. Do outro lado, não havia tais créditos, nem a presença do Senhor Kṛṣṇa, o diretor supremo, nem a da deusa da fortuna. Estavam, portanto, predestinados a perder a batalha — e essa foi a mensagem anunciada pelos sons dos búzios."}
{"ref": "bg/1/16-18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/16-18/", "verse_text": "anantavijayaṁ rājā\n\nkuntī-putro yudhiṣṭhiraḥ\n\nnakulaḥ sahadevaś ca\n\nsughoṣa-maṇipuṣpakau\n\nkāśyaś ca parameṣv-āsaḥ\n\n\n\nśikhaṇḍī ca mahā-rathaḥ\n\ndhṛṣṭadyumno virāṭaś ca\n\nsātyakiś cāparājitaḥ\n\ndrupado draupadeyāś ca\n\n\n\nsarvaśaḥ pṛthivī-pate\n\nsaubhadraś ca mahā-bāhuḥ\n\nśaṅkhān dadhmuḥ pṛthak pṛthak", "devanagari": "> अनन्तविजयं राजा कुन्तीपुत्रो युधिष्ठिरः ।\n> नकुलः सहदेवश्च सुघोषमणिपुष्पकौ ॥१६॥\n> काश्यश्च परमेष्वासः शिखण्डी च महारथः ।\n> धृष्टद्युम्नो विराटश्च सात्यकिश्चापराजितः ॥१७॥\n> द्रुपदो द्रौपदेयाश्च सर्वशः पृथिवीपते ।\n> सौभद्रश्च महाबाहुः शङ्खान्दध्मुः पृथक्पृथक् ॥१८॥", "synonyms": "*ananta-vijayam*—o búzio chamado Ananta-vijaya; *rājā*—o rei; *kuntī-putraḥ*—o filho de Kuntī; *yudhiṣṭhiraḥ*—Yudhiṣṭhira; *nakulaḥ*—Nakula; *sahadevaḥ*—Sahadeva; *ca*—e; *sughoṣa-maṇipuṣpakau*—os búzios chamados Sughoṣa e Maṇipuṣpaka; *kāśyaḥ*—o rei de Kāśī (Vārāṇasī); *ca*—e; *parama-iṣu-āsaḥ*—o grande arqueiro; *śikhaṇḍī*—Śikhaṇḍī; *ca*—também; *mahā-rathaḥ*—aquele que pode lutar sozinho contra milhares; *dhṛṣṭadyumnaḥ*—Dhṛṣṭadyumna (filho do rei Drupada); *virāṭaḥ*—Virāṭa (o príncipe que abrigou os Pāṇḍavas enquanto estavam disfarçados); *ca*—também; *sātyakiḥ*—Sātyaki (o mesmo que Yuyudhāna, o quadrigário do Senhor Kṛṣṇa); *ca*—e; *aparājitaḥ*—que jamais fora vencido; *drupadaḥ*—Drupada, o rei de Pāñcāla; *draupadeyāḥ*—os filhos de Draupadī; *ca*—também; *sarvaśaḥ*—todos; *pṛthivī-pate*—ó rei; *saubhadraḥ*—o filho de Subhadrā (Abhimanyu); *ca*—também; *mahā-bāhuḥ*—de braços poderosos; *śaṅkhān*—búzios; *dadhmuḥ*—sopraram; *pṛthak pṛthak*—cada um separadamente.", "translation": "**O rei Yudhiṣṭhira, o filho de Kuntī, soprou seu búzio, o Anantavijaya, e Nakula e Sahadeva sopraram o Sughoṣa e o Maṇipuṣpaka. Aquele grande arqueiro, o rei de Kāśī, o grande lutador Śikhaṇḍī, Dhṛṣṭadyumna, Virāṭa e o invencível Sātyaki, Drupada, os filhos de Draupadī, e os demais, ó rei, como o filho de Subhadrā, de braços poderosos, todos sopraram seus respectivos búzios.**", "purport": "Sañjaya informou ao rei Dhṛtarāṣṭra, com muito tato, que sua imprudente política de enganar os filhos de Pāṇḍu e de empenhar-se em entronizar seus próprios filhos no trono do reino não era nada louvável. Os sinais já indicavam claramente que toda a dinastia Kuru seria morta naquela grande batalha. Desde o ancestral, Bhīṣma, até os netos como Abhimanyu e outros — incluindo reis de muitos estados do mundo —, todos estavam ali presentes, e todos estavam fadados à perdição. A catástrofe inteira devia-se ao rei Dhṛtarāṣṭra, pois ele estimulou a política seguida por seus filhos."}
{"ref": "bg/1/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/19/", "verse_text": "sa ghoṣo dhārtarāṣṭrāṇāṁ\n\nhṛdayāni vyadārayat\n\nnabhaś ca pṛthivīṁ caiva\n\ntumulo 'bhyanunādayan", "devanagari": "> स घोषो धार्तराष्ट्राणां हृदयानि व्यदारयत् ।\n> नभश्च पृथिवीं चैव तुमुलोऽभ्यनुनादयन् ॥१९॥", "synonyms": "*saḥ*—essa; *ghoṣaḥ*—vibração; *dhārtarāṣṭrāṇām*—dos filhos de Dhṛtarāṣṭra; *hṛdayāni*—corações; *vyadārayat*—despedaçou; *nabhaḥ*—o céu; *ca*—também; *pṛthivīm*—a superfície da terra; *ca*—também; *eva*—certamente; *tumulaḥ*—estrondoso; *abhyanunādayan*—ao ressoar.", "translation": "**O soar desses diferentes búzios tornou-se estrondoso e, vibrando tanto no céu como na terra, despedaçou os corações dos filhos de Dhṛtarāṣṭra.**", "purport": "Quando Bhīṣma e os outros do lado de Duryodhana sopraram seus respectivos búzios, não houve dilaceração de corações por parte dos Pāṇḍavas. Tais ocorrências não são mencionadas, mas neste verso em particular se menciona que os corações dos filhos de Dhṛtarāṣṭra foram despedaçados pelos sons vibrados pelo partido dos Pāṇḍavas. Isso se deve aos Pāṇḍavas e à sua confiança no Senhor Kṛṣṇa. Quem se abriga no Senhor Supremo nada tem a temer, mesmo em meio à maior calamidade."}
{"ref": "bg/1/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/20/", "verse_text": "atha vyavasthitān dṛṣṭvā\n\ndhārtarāṣṭrān kapi-dhvajaḥ\n\npravṛtte śastra-sampāte\n\ndhanur udyamya pāṇḍavaḥ\n\nhṛṣīkeśaṁ tadā vākyam\n\nidam āha mahī-pate", "devanagari": "> अथ व्यवस्थितान्दृष्ट्वा धार्तराष्ट्रान् कपिध्वजः ।\n> प्रवृत्ते शस्त्रसम्पाते धनुरुद्यम्य पाण्डवः ।\n> हृषीकेशं तदा वाक्यमिदमाह महीपते ॥२०॥", "synonyms": "*atha*—em seguida; *vyavasthitān*—situados; *dṛṣṭvā*—olhando para; *dhārtarāṣṭrān*—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; *kapi-dhvajaḥ*—aquele cuja bandeira está marcada com Hanumān; *pravṛtte*—enquanto estava prestes a engajar-se; *śastra-sampāte*—as flechas disparadas; *dhanuḥ*—arco; *udyamya*—depois de empunhar; *pāṇḍavaḥ*—o filho de Pāṇḍu (Arjuna); *hṛṣīkeśam*—ao Senhor Kṛṣṇa; *tadā*—naquele momento; *vākyam*—palavras; *idam*—estas; *āha*—disse; *mahī-pate*—ó rei.", "translation": "**Ó rei, naquele momento Arjuna, o filho de Pāṇḍu, sentado em sua quadriga, com a bandeira marcada com Hanumān, empunhou seu arco e preparou-se para disparar suas flechas, olhando para os filhos de Dhṛtarāṣṭra. Ó rei, Arjuna então disse a Hṛṣīkeśa [Kṛṣṇa] estas palavras:**", "purport": "A batalha estava prestes a começar. Compreende-se da declaração acima que os filhos de Dhṛtarāṣṭra estavam mais ou menos desalentados pela inesperada disposição da força militar dos Pāṇḍavas, que eram guiados pelas instruções diretas do Senhor Kṛṣṇa no campo de batalha. O emblema de Hanumān na bandeira de Arjuna é outro sinal de vitória, pois Hanumān cooperou com o Senhor Rāma na batalha entre Rāma e Rāvaṇa, e o Senhor Rāma saiu vitorioso. Ora, tanto Rāma como Hanumān estavam presentes na quadriga de Arjuna para ajudá-lo. O Senhor Kṛṣṇa é o próprio Rāma, e onde quer que esteja o Senhor Rāma, ali estão presentes Seu eterno servidor Hanumān e Sua eterna consorte Sītā, a deusa da fortuna. Por isso, Arjuna não tinha motivo para temer inimigo algum. E acima de tudo, o Senhor dos sentidos, o Senhor Kṛṣṇa, estava pessoalmente presente para dar-lhe orientação. Assim, todo bom conselho estava à disposição de Arjuna na questão de executar a batalha. Em condições tão auspiciosas, dispostas pelo Senhor para Seu eterno devoto, residiam os sinais de vitória assegurada."}
{"ref": "bg/1/21-22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/21-22/", "verse_text": "<1>arjuna uvāca\n\n<1>senayor ubhayor madhye\n\n<1>rathaṁ sthāpaya me 'cyuta\n\n<1>yāvad etān nirīkṣe 'haṁ\n\n<1>yoddhu-kāmān avasthitān\n\n<1>kair mayā saha yoddhavyam\n\n<1>asmin raṇa-samudyame", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> सेनयोरुभयोर्मध्ये रथं स्थापय मेऽच्युत ॥२१॥\n> यावदेतान्निरीक्षेऽहं योद्धुकामानवस्थितान् ।\n> कैर्मया सह योद्धव्यमस्मिन् रणसमुद्यमे ॥२२॥", "synonyms": "*arjunaḥ*—Arjuna; *uvāca*—disse; *senayoḥ*—dos exércitos; *ubhayoḥ*—de ambos os partidos; *madhye*—no meio deles; *ratham*—a quadriga; *sthāpaya*—por favor, mantém; *me*—minha; *acyuta*—ó infalível; *yāvat*—enquanto; *etān*—todos estes; *nirīkṣe*—possa olhar; *aham*—eu; *yoddhu-kāmān*—desejosos de lutar; *avasthitān*—postados no campo de batalha; *kaiḥ*—com quem; *mayā*—por mim; *saha*—com; *yoddhavyam*—lutar; *asmin*—nesta; *raṇa*—contenda; *samudyame*—na tentativa.", "translation": "**Arjuna disse: Ó infalível, por favor, conduze minha quadriga entre os dois exércitos para que eu possa ver quem se acha aqui presente, quem deseja lutar e com quem devo contender nesta grande tentativa de combate.**", "purport": "Embora o Senhor Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade de Deus, por Sua misericórdia imotivada Ele se ocupava no serviço de Seu amigo. Ele jamais falha em Sua afeição por Seus devotos, e por isso é aqui chamado de infalível. Como quadrigário, tinha de cumprir as ordens de Arjuna e, visto que não hesitou em fazê-lo, é chamado de infalível. Embora houvesse aceitado a posição de quadrigário de Seu devoto, Sua posição suprema não foi posta em xeque. Em todas as circunstâncias, Ele é a Suprema Personalidade de Deus, Hṛṣīkeśa, o Senhor de todos os sentidos. A relação entre o Senhor e Seu servidor é muito doce e transcendental. O servidor está sempre pronto a prestar serviço ao Senhor e, de modo semelhante, o Senhor está sempre buscando uma oportunidade para prestar algum serviço ao devoto. Ele tem maior prazer quando Seu devoto puro assume a vantajosa posição de dar-Lhe ordens do que quando é Ele próprio quem dá ordens. Como mestre, todos estão sob Suas ordens, e ninguém está acima Dele para dar-Lhe ordens. Mas, quando descobre que um devoto puro Lhe dá ordens, obtém prazer transcendental, embora seja o infalível mestre de todas as circunstâncias.\n\n\n\nComo devoto puro do Senhor, Arjuna não tinha desejo de lutar com seus primos e irmãos, mas foi forçado a vir ao campo de batalha pela obstinação de Duryodhana, que jamais concordava com qualquer negociação pacífica. Por conseguinte, estava muito ansioso por ver quem eram as principais pessoas presentes no campo de batalha. Embora não houvesse possibilidade de uma tentativa de pacificação no campo de batalha, queria vê-las novamente e ver até que ponto estavam decididas a exigir uma guerra indesejada."}
{"ref": "bg/1/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/23/", "verse_text": "yotsyamānān avekṣe 'haṁ\n\nya ete 'tra samāgatāḥ\n\ndhārtarāṣṭrasya durbuddher\n\nyuddhe priya-cikīrṣavaḥ", "devanagari": "> योत्स्यमानानवेक्षेऽहं य एतेऽत्र समागताः ।\n> धार्तराष्ट्रस्य दुर्बुद्धेर्युद्धे प्रियचिकीर्षवः ॥२३॥", "synonyms": "*yotsyamānān*—aqueles que lutarão; *avekṣe*—deixa-me ver; *aham*—eu; *ye*—que; *ete*—aqueles; *atra*—aqui; *samāgatāḥ*—reunidos; *dhārtarāṣṭrasya*—do filho de Dhṛtarāṣṭra; *durbuddheḥ*—de mente perversa; *yuddhe*—no combate; *priya*—bem; *cikīrṣavaḥ*—desejando.", "translation": "**Deixa-me ver aqueles que vieram aqui combater, desejando agradar ao perverso filho de Dhṛtarāṣṭra.**", "purport": "Era um segredo aberto que Duryodhana queria usurpar o reino dos Pāṇḍavas mediante planos perversos, em colaboração com seu pai, Dhṛtarāṣṭra. Por isso, todas as pessoas que se haviam unido ao lado de Duryodhana deviam ser aves do mesmo bando. Arjuna queria vê-las no campo de batalha antes que o combate começasse, apenas para saber quem eram, mas não tinha intenção de propor-lhes negociações de paz. Era também fato que queria vê-las para fazer uma estimativa da força que teria de enfrentar, embora estivesse bastante confiante na vitória, pois Kṛṣṇa achava-se sentado a seu lado."}
{"ref": "bg/1/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/24/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\nevam ukto hṛṣīkeśo\n\nguḍākeśena bhārata\n\nsenayor ubhayor madhye\n\nsthāpayitvā rathottamam", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> एवमुक्तो हृषीकेशो गुडाकेशेन भारत ।\n> सेनयोरुभयोर्मध्ये स्थापयित्वा रथोत्तमम् ॥२४॥", "synonyms": "*sañjayaḥ*—Sañjaya; *uvāca*—disse; *evam*—assim; *uktaḥ*—interpelado; *hṛṣīkeśaḥ*—o Senhor Kṛṣṇa; *guḍākeśena*—por Arjuna; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *senayoḥ*—dos exércitos; *ubhayoḥ*—de ambos; *madhye*—no meio de; *sthāpayitvā*—ao colocar; *rathottamam*—a melhor quadriga.", "translation": "**Sañjaya disse: Ó descendente de Bharata, sendo assim interpelado por Arjuna, o Senhor Kṛṣṇa conduziu a esplêndida quadriga ao meio dos exércitos de ambos os partidos.**", "purport": "Neste verso, Arjuna é chamado de Guḍākeśa. Guḍāka significa sono, e quem conquista o sono chama-se guḍākeśa. Sono significa também ignorância. Assim, Arjuna conquistou tanto o sono quanto a ignorância em virtude de sua amizade com Kṛṣṇa. Como grande devoto de Kṛṣṇa, ele não podia esquecer-se de Kṛṣṇa nem por um instante, pois essa é a natureza do devoto. Quer desperto, quer adormecido, o devoto do Senhor jamais consegue libertar-se de pensar no nome, na forma, na qualidade e nos passatempos de Kṛṣṇa. Dessa forma, o devoto de Kṛṣṇa pode conquistar tanto o sono como a ignorância simplesmente pensando em Kṛṣṇa constantemente. Isto se chama consciência de Kṛṣṇa, ou *samādhi*. Como Hṛṣīkeśa, ou diretor dos sentidos e da mente de toda entidade viva, Kṛṣṇa pôde compreender o propósito de Arjuna ao colocar a quadriga no meio dos exércitos. Foi o que fez, e falou da seguinte forma."}
{"ref": "bg/1/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/25/", "verse_text": "bhīṣma-droṇa-pramukhataḥ\n\nsarveṣāṁ ca mahī-kṣitām\n\nuvāca pārtha paśyaitān\n\nsamavetān kurūn iti", "devanagari": "> भीष्मद्रोणप्रमुखतः सर्वेषां च महीक्षिताम् ।\n> उवाच पार्थ पश्यैतान्समवेतान्कुरूनिति ॥२५॥", "synonyms": "*bhīṣma*—o avô Bhīṣma; *droṇa*—o mestre Droṇa; *pramukhataḥ*—em frente a; *sarveṣām*—todos; *ca*—também; *mahīkṣitām*—chefes do mundo; *uvāca*—disse; *pārtha*—ó Pārtha (filho de Pṛthā); *paśya*—contempla; *etān*—todos eles; *samavetān*—reunidos; *kurūn*—todos os membros da dinastia Kuru; *iti*—assim.", "translation": "**Na presença de Bhīṣma, Droṇa e de todos os outros chefes do mundo, Hṛṣīkeśa, o Senhor, disse: Contempla apenas, Pārtha, todos os Kurus aqui reunidos.**", "purport": "Como a Superalma de todas as entidades vivas, o Senhor Kṛṣṇa pôde compreender o que se passava na mente de Arjuna. O uso da palavra Hṛṣīkeśa nesta passagem indica que Ele sabia tudo. E a palavra Pārtha, ou filho de Kuntī ou de Pṛthā, é igualmente significativa em referência a Arjuna. Como amigo, queria informar a Arjuna que, por ser ele filho de Pṛthā, irmã de Seu próprio pai, Vasudeva, havia concordado em ser quadrigário de Arjuna. Ora, o que quis dizer Kṛṣṇa quando disse a Arjuna para «contemplar os Kurus»? Acaso Arjuna queria parar ali e não combater? Kṛṣṇa jamais esperaria tais coisas do filho de Sua tia Pṛthā. A mente de Arjuna foi assim antecipada pelo Senhor numa brincadeira amigável."}
{"ref": "bg/1/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/26/", "verse_text": "tatrāpaśyat sthitān pārthaḥ\n\npitṝn atha pitāmahān\n\nācāryān mātulān bhrātṝn\n\nputrān pautrān sakhīṁs tathā\n\nśvaśurān suhṛdaś caiva\n\nsenayor ubhayor api", "devanagari": "> तत्रापश्यत्स्थितान्पार्थः पितॄनथ पितामहान् ।\n> आचार्यान्मातुलान्भ्रातॄन्पुत्रान्पौत्रान्सखींस्तथा ।\n> श्वशुरान्सुहृदश्चैव सेनयोरुभयोरपि ॥२६॥", "synonyms": "*tatra*—ali; *apaśyat*—pôde ver; *sthitān*—postados; *pārthaḥ*—Arjuna; *pitṝn*—pais; *atha*—também; *pitāmahān*—avôs; *ācāryān*—mestres; *mātulān*—tios maternos; *bhrātṝn*—irmãos; *putrān*—filhos; *pautrān*—netos; *sakhīn*—amigos; *tathā*—também, śvaśurān–sogros; *suhṛdaḥ*—benquerentes; *ca*—também; *eva*—certamente; *senayoḥ*—dos exércitos; *ubhayoḥ*—de ambos os partidos; *api*—incluindo.", "translation": "**Ali, no meio dos exércitos de ambos os partidos, Arjuna pôde ver seus pais, avôs, mestres, tios maternos, irmãos, filhos, netos, amigos e também seu sogro e benquerentes — todos ali presentes.**", "purport": "No campo de batalha, Arjuna pôde ver toda espécie de parentes. Pôde ver pessoas como Bhūriśravā, contemporâneos de seu pai, os avôs Bhīṣma e Somadatta, mestres como Droṇācārya e Kṛpācārya, tios maternos como Śalya e Śakuni, irmãos como Duryodhana, filhos como Lakṣmaṇa, amigos como Aśvatthāmā, benquerentes como Kṛtavarmā, etc. Pôde ver também os exércitos, que continham muitos de seus amigos."}
{"ref": "bg/1/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/27/", "verse_text": "tān samīkṣya sa kaunteyaḥ\n\nsarvān bandhūn avasthitān\n\nkṛpayā parayāviṣṭo\n\nviṣīdann idam abravīt", "devanagari": "> तान्समीक्ष्य स कौन्तेयः सर्वान्बन्धूनवस्थितान् ।\n> कृपया परयाविष्टो विषीदन्निदमब्रवीत् ॥२७॥", "synonyms": "*tān*—todos eles; *samīkṣya*—depois de ver; *saḥ*—ele; *kaunteyaḥ*—o filho de Kuntī; *sarvān*—toda espécie de; *bandhūn*—parentes; *avasthitān*—postados; *kṛpayā*—pela compaixão; *parayā*—de alto grau; *āviṣṭaḥ*—dominado pela; *viṣīdan*—enquanto se lamentava; *idam*—assim; *abravīt*—falou.", "translation": "**Ao ver todos esses graus diversos de amigos e parentes, o filho de Kuntī, Arjuna, ficou dominado pela compaixão e falou assim:**", "purport": ""}
{"ref": "bg/1/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/28/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\ndṛṣṭvemaṁ sva-janaṁ kṛṣṇa\n\nyuyutsuṁ samupasthitam\n\nsīdanti mama gātrāṇi\n\nmukhaṁ ca pariśuṣyati", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> दृष्ट्वेमं स्वजनं कृष्ण युयुत्सुं समुपस्थितम् ।\n> सीदन्ति मम गात्राणि मुखं च परिशुष्यति ॥२८॥", "synonyms": "*arjunaḥ*—Arjuna; *uvāca*—disse; *dṛṣṭvā*—depois de ver; *imam*—todos estes; *svajanam*—parentes; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *yuyutsum*—todos com espírito de luta; *samupasthitam*—todos presentes; *sīdanti*—trêmulos; *mama*—meus; *gātrāṇi*—membros do corpo; *mukham*—boca; *ca*—também; *pariśuṣyati*—secando.", "translation": "**Arjuna disse: Meu querido Kṛṣṇa, ao ver meus amigos e parentes diante de mim em tal espírito de luta, sinto os membros de meu corpo trêmulos e minha boca secando.**", "purport": "Todo homem que tenha devoção genuína ao Senhor possui todas as boas qualidades que se encontram nas pessoas piedosas ou nos semideuses, ao passo que o não devoto, por mais avançado que seja em qualificações materiais por educação e cultura, carece de qualidades piedosas. Sendo assim, Arjuna, logo após ver seus parentes, amigos e familiares no campo de batalha, foi imediatamente dominado pela compaixão por aqueles que assim haviam decidido lutar entre si. No tocante a seus soldados, era solidário desde o princípio, mas sentiu compaixão até pelos soldados do partido oposto, prevendo a morte iminente deles. E, pensando dessa forma, os membros de seu corpo começaram a tremer e sua boca ficou seca. Estava mais ou menos atônito ao ver-lhes o espírito de luta. Praticamente toda a comunidade, todos parentes consanguíneos de Arjuna, tinha vindo lutar com ele. Isso dominou um devoto bondoso como Arjuna. Embora não esteja mencionado aqui, ainda assim pode-se imaginar facilmente que não somente os membros corporais de Arjuna estavam trêmulos e sua boca secando, mas que ele também chorava por compaixão. Tais sintomas em Arjuna não se deviam à fraqueza, mas à sua ternura de coração, característica de um devoto puro do Senhor. Por isso se diz:\n\n\n\nyasyāsti bhaktir bhagavaty akiñcanā\n\nsarvair guṇais tatra samāsate surāḥ\n\nharāv abhaktasya kuto mahad-guṇā\n\nmano-rathenāsati dhāvato bahiḥ\n\n\n\n«Quem possui devoção inabalável pela Personalidade de Deus possui todas as boas qualidades dos semideuses. Mas quem não é devoto do Senhor possui apenas qualificações materiais, de pouco valor. Isso ocorre porque vive pairando no plano mental e fatalmente é atraído pela deslumbrante energia material.» (Bhāg. 5.18.12)"}
{"ref": "bg/1/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/29/", "verse_text": "vepathuś ca śarīre me\n\nroma-harṣaś ca jāyate\n\ngāṇḍīvaṁ sraṁsate hastāt\n\ntvak caiva paridahyate", "devanagari": "> वेपथुश्च शरीरे मे रोमहर्षश्च जायते ।\n> गाण्डीवं स्रंसते हस्तात्त्वक्चैव परिदह्यते ॥२९॥", "synonyms": "*vepathuḥ*—tremor do corpo; *ca*—também; *śarīre*—no corpo; *me*—meu; *roma-harṣaḥ*—arrepiamento dos cabelos; *ca*—também; *jāyate*—está ocorrendo; *gāṇḍīvam*—o arco de Arjuna; *sraṁsate*—está escorregando; *hastāt*—das mãos; *tvak*—pele; *ca*—também; *eva*—certamente; *paridahyate*—ardendo.", "translation": "**Meu corpo inteiro está tremendo, e meus cabelos estão arrepiados. Meu arco Gāṇḍīva está escorregando-me da mão, e minha pele arde.**", "purport": "Há dois tipos de tremor do corpo e dois tipos de arrepiamento dos cabelos. Tais fenômenos ocorrem ou em grande êxtase espiritual, ou por grande temor sob condições materiais. Não há temor na compreensão transcendental. Os sintomas de Arjuna nesta situação devem-se ao temor material — a saber, perda de vida. Isso é evidente também pelos demais sintomas: ele tornou-se tão impaciente que seu famoso arco Gāṇḍīva escorregava-lhe das mãos, e, como o coração lhe ardia por dentro, sentia uma sensação de ardor na pele. Tudo isso se deve a uma concepção material da vida."}
{"ref": "bg/1/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/30/", "verse_text": "na ca śaknomy avasthātuṁ\n\nbhramatīva ca me manaḥ\n\nnimittāni ca paśyāmi\n\nviparītāni keśava", "devanagari": "> न च शक्नोम्यवस्थातुं भ्रमतीव च मे मनः ।\n> निमित्तानि च पश्यामि विपरीतानि केशव ॥३०॥", "synonyms": "*na*—nem; *ca*—também; *śaknomi*—consigo; *avasthātum*—permanecer; *bhramati*—esquecendo; *iva*—como; *ca*—e; *me*—minha; *manaḥ*—mente; *nimittāni*—causas; *ca*—também; *paśyāmi*—prevejo; *viparītāni*—justo o oposto; *keśava*—ó matador do demônio Keśī (Kṛṣṇa).", "translation": "**Já não sou capaz de permanecer aqui por mais tempo. Estou esquecendo-me de mim mesmo, e minha mente vacila. Prevejo apenas o mal, ó matador do demônio Keśī.**", "purport": "Devido à sua impaciência, Arjuna não conseguia manter-se no campo de batalha, e estava esquecendo-se de si mesmo por causa da fraqueza de sua mente. O excessivo apego a coisas materiais coloca o homem numa desconcertante condição de existência. Bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ: tal temor e perda de equilíbrio mental ocorrem em pessoas que se acham excessivamente afetadas pelas condições materiais. Arjuna vislumbrava apenas infelicidade no campo de batalha — não seria feliz nem mesmo obtendo a vitória sobre o inimigo. A palavra nimitta é significativa. Quando o homem vê apenas frustração em suas expectativas, pensa: «Por que estou aqui?». Todos se interessam por si mesmos e por seu próprio bem-estar. Ninguém se interessa pelo Eu Supremo. Espera-se que Arjuna mostre desinteresse por interesse próprio rendendo-se à vontade de Kṛṣṇa, que é o verdadeiro interesse próprio de todos. A alma condicionada esquece-se disso e, por conseguinte, sofre dores materiais. Arjuna pensava que sua vitória na batalha seria apenas causa de lamentação para ele."}
{"ref": "bg/1/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/31/", "verse_text": "na ca śreyo 'nupaśyāmi\n\nhatvā sva-janam āhave\n\nna kāṅkṣe vijayaṁ kṛṣṇa\n\nna ca rājyaṁ sukhāni ca", "devanagari": "> न च श्रेयोऽनुपश्यामि हत्वा स्वजनमाहवे ।\n> न काङ्क्षे विजयं कृष्ण न च राज्यं सुखानि च ॥३१॥", "synonyms": "*na*—nem; *ca*—também; *śreyaḥ*—bem; *anupaśyāmi*—prevejo; *hatvā*—ao matar; *svajanam*—próprios parentes; *āhave*—no combate; *na*—nem; *kānkṣe*—desejo; *vijayam*—vitória; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *na*—nem; *ca*—também; *rājyam*—reino; *sukhāni*—felicidade dele decorrente; *ca*—também.", "translation": "**Não vejo como possa advir bem algum de matar meus próprios parentes nesta batalha, e tampouco posso, meu querido Kṛṣṇa, desejar qualquer subsequente vitória, reino ou felicidade.**", "purport": "Sem saber que o próprio interesse está em Viṣṇu (ou Kṛṣṇa), as almas condicionadas se sentem atraídas por relações corporais, esperando ser felizes em tais situações. Sob ilusão, esquecem-se de que Kṛṣṇa também é a causa da felicidade material. Arjuna parece ter esquecido até os códigos morais para um *kṣatriya*. Diz-se que duas espécies de homens, a saber, o *kṣatriya* que morre diretamente em frente do campo de batalha sob as ordens pessoais de Kṛṣṇa, e a pessoa na ordem renunciada de vida que é absolutamente devotada à cultura espiritual, são elegíveis para entrar no globo solar, que é tão poderoso e deslumbrante. Arjuna está relutante mesmo em matar seus inimigos, quanto mais seus parentes. Pensava que matando seus parentes não haveria felicidade em sua vida e, por isso, não estava disposto a lutar, assim como uma pessoa que não sente fome não se inclina a cozinhar. Decidira agora ir para a floresta e viver uma vida isolada em frustração. Mas, como *kṣatriya*, ele requeria um reino para sua subsistência, pois os *kṣatriyas* não podem ocupar-se em nenhuma outra atividade. Mas Arjuna não tinha reino. Sua única oportunidade de obter um reino consistia em lutar contra seus primos e irmãos e reaver o reino herdado de seu pai, coisa que não lhe agradava fazer. Por conseguinte, julgava-se apto a ir para a floresta viver uma vida isolada de frustração."}
{"ref": "bg/1/32-35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/32-35/", "verse_text": "kiṁ no rājyena govinda\n\nkiṁ bhogair jīvitena vā\n\nyeṣām arthe kāṅkṣitaṁ no\n\nrājyaṁ bhogāḥ sukhāni ca\n\nta ime 'vasthitā yuddhe\n\n\n\nprāṇāṁs tyaktvā dhanāni ca\n\nācāryāḥ pitaraḥ putrās\n\ntathaiva ca pitāmahāḥ\n\nmātulāḥ śvaśurāḥ pautrāḥ\n\n\n\nśyālāḥ sambandhinas tathā\n\netān na hantum icchāmi\n\nghnato 'pi madhusūdana\n\napi trailokya-rājyasya\n\n\n\nhetoḥ kiṁ nu mahī-kṛte\n\nnihatya dhārtarāṣṭrān naḥ\n\nkā prītiḥ syāj janārdana", "devanagari": "> किं नो राज्येन गोविन्द किं भोगैर्जीवितेन वा ।\n> येषामर्थे काङ्क्षितं नो राज्यं भोगाः सुखानि च ॥३२॥\n> त इमेऽवस्थिता युद्धे प्राणांस्त्यक्त्वा धनानि च ।\n> आचार्याः पितरः पुत्रास्तथैव च पितामहाः ॥३३॥\n> मातुलाः श्वशुराः पौत्राः श्यालाः सम्बन्धिनस्तथा ।\n> एतान्न हन्तुमिच्छामि घ्नतोऽपि मधुसूदन ॥३४॥\n> अपि त्रैलोक्यराज्यस्य हेतोः किं नु महीकृते ।\n> निहत्य धार्तराष्ट्रान्नः का प्रीतिः स्याज्जनार्दन ॥३५॥", "synonyms": "*kim*—de que serve; *naḥ*—para nós; *rājyena*—é o reino; *govinda*—ó Kṛṣṇa; *kim*—que; *bhogaiḥ*—desfrute; *jīvitena*—pelo viver; *vā*—ou; *yeṣām*—por quem; *arthe*—em prol de; *kāṅkṣitam*—desejado; *naḥ*—nosso; *rājyam*—reino; *bhogāḥ*—desfrute material; *sukhāni*—toda felicidade; *ca*—também; *te*—todos eles; *ime*—estes; *avasthitāḥ*—postados; *yuddhe*—neste campo de batalha; *prāṇān*—vidas; *tyaktvā*—entregando; *dhanāni*—riquezas; *ca*—também; *ācāryāḥ*—mestres; *pitaraḥ*—pais; *putrāḥ*—filhos; *tathā*—bem como; *eva*—certamente; *ca*—também; *pitāmahāḥ*—avôs; *mātulāḥ*—tios maternos; *śvaśurāḥ*—sogros; *pautrāḥ*—netos; *śyālāḥ*—cunhados; *sambandhinaḥ*—parentes; *tathā*—bem como; *etān*—todos estes; *na*—nunca; *hantum*—matar; *icchāmi*—desejo; *ghnataḥ*—sendo mortos; *api*—mesmo; *madhusūdana*—ó matador do demônio Madhu (Kṛṣṇa); *api*—mesmo que; *trailokya*—dos três mundos; *rājyasya*—dos reinos; *hetoḥ*—em troca; *kim*—o que dizer de; *nu*—apenas; *mahī-kṛte*—em troca da terra; *nihatya*—matando; *dhārtarāṣṭrān*—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; *naḥ*—nosso; *kā*—que; *prītiḥ*—prazer; *syāt*—haveria; *janārdana*—ó mantenedor de todas as entidades vivas.", "translation": "**Ó Govinda, de que nos servem reinos, felicidade ou mesmo a própria vida, quando todos aqueles para quem podemos desejá-los acham-se agora postados neste campo de batalha? Ó Madhusūdana, quando mestres, pais, filhos, avôs, tios maternos, sogros, netos, cunhados e todos os parentes estão prontos a entregar suas vidas e propriedades, postados diante de mim, por que haveria eu de desejar matá-los, ainda que eu próprio sobrevivesse? Ó mantenedor de todas as criaturas, não estou disposto a lutar com eles nem mesmo em troca dos três mundos, quanto menos desta terra.**", "purport": "Arjuna dirigiu-se ao Senhor Kṛṣṇa como Govinda porque Kṛṣṇa é o objeto de todos os prazeres para as vacas e os sentidos. Ao usar essa palavra significativa, Arjuna indica o que satisfará seus sentidos. Embora Govinda não se destine a satisfazer nossos sentidos, se tentarmos satisfazer os sentidos de Govinda, então automaticamente nossos próprios sentidos serão satisfeitos. Materialmente, todos querem satisfazer seus sentidos, e querem que Deus seja o fornecedor para tal satisfação. O Senhor satisfará os sentidos das entidades vivas conforme estas merecerem, mas não na medida em que cobicem. Mas, quando se segue o caminho oposto — a saber, quando se tenta satisfazer os sentidos de Govinda sem desejar a satisfação dos próprios sentidos —, então, pela graça de Govinda, todos os desejos da entidade viva são satisfeitos. A profunda afeição de Arjuna por sua comunidade e familiares é aqui exibida em parte devido à sua compaixão natural por eles. Ele, por isso, não está disposto a lutar. Todos querem mostrar sua opulência a amigos e parentes, mas Arjuna teme que todos os seus parentes e amigos sejam mortos no campo de batalha, e que ele seja incapaz de partilhar sua opulência após a vitória. Esse é um cálculo típico da vida material. A vida transcendental, contudo, é diferente. Visto que o devoto deseja satisfazer os desejos do Senhor, ele pode, querendo o Senhor, aceitar toda espécie de opulência para o serviço do Senhor, e se o Senhor não quiser, não deve aceitar nem um centavo. Arjuna não queria matar seus parentes, e se houvesse necessidade de matá-los, desejava que Kṛṣṇa o fizesse pessoalmente. Neste ponto, ele ainda não sabia que Kṛṣṇa já os havia matado antes mesmo que viessem ao campo de batalha, e que ele apenas se tornaria um instrumento para Kṛṣṇa. Esse fato é revelado nos capítulos seguintes. Como devoto natural do Senhor, Arjuna não desejava retaliar contra seus malfeitores primos e irmãos, mas era plano do Senhor que todos eles fossem mortos. O devoto do Senhor não retalia contra o malfeitor, mas o Senhor não tolera nenhuma travessura feita ao devoto pelos malfeitores. O Senhor pode desculpar uma pessoa por Sua própria conta, mas não desculpa ninguém que tenha causado dano a Seus devotos. Por conseguinte, o Senhor estava decidido a matar os malfeitores, embora Arjuna quisesse desculpá-los."}
{"ref": "bg/1/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/36/", "verse_text": "pāpam evāśrayed asmān\n\nhatvaitān ātatāyinaḥ\n\ntasmān nārhā vayaṁ hantuṁ\n\ndhārtarāṣṭrān sa-bāndhavān\n\nsva-janaṁ hi kathaṁ hatvā\n\nsukhinaḥ syāma mādhava", "devanagari": "> पापमेवाश्रयेदस्मान्हत्वैतानाततायिनः ।\n> तस्मान्नार्हा वयं हन्तुं धार्तराष्ट्रान्स्वबान्धवान् ।\n> स्वजनं हि कथं हत्वा सुखिनः स्याम माधव ॥३६॥", "synonyms": "*pāpam*—vícios; *eva*—certamente; *āśrayet*—devem recair sobre; *asmān*—nós; *hatvā*—ao matar; *etān*—todos estes; *ātatāyinaḥ*—agressores; *tasmāt*—portanto; *na*—nunca; *arhāḥ*—mereceríamos; *vayam*—nós; *hantum*—matar; *dhārtarāṣṭrān*—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; *svabāndhavān*—junto com amigos; *svajanam*—parentes; *hi*—certamente; *katham*—como; *hatvā*—ao matar; *sukhinaḥ*—felizes; *syāma*—tornar-nos-íamos; *mādhava*—ó Kṛṣṇa, esposo da deusa da fortuna.", "translation": "**O pecado nos dominará se matarmos tais agressores. Por isso, não nos cabe matar os filhos de Dhṛtarāṣṭra e nossos amigos. O que ganharíamos, ó Kṛṣṇa, esposo da deusa da fortuna, e como poderíamos ser felizes matando nossos próprios parentes?**", "purport": "Segundo as injunções Védicas, há seis tipos de agressores: 1) aquele que ministra veneno, 2) aquele que põe fogo na casa, 3) aquele que ataca com armas mortais, 4) aquele que saqueia riquezas, 5) aquele que ocupa a terra alheia e 6) aquele que rapta a esposa. Tais agressores devem ser mortos imediatamente, e nenhum pecado se incorre ao matar tais agressores. Esse extermínio de agressores é bastante adequado a qualquer homem comum, mas Arjuna não era uma pessoa comum. Era santo de caráter e, portanto, queria tratá-los com santidade. Esse tipo de santidade, contudo, não é para um *kṣatriya*. Embora se exija que um homem responsável pela administração de um Estado seja santo, ele não deve ser covarde. Por exemplo, o Senhor Rāma era tão santo que as pessoas ansiavam por viver em Seu reino (Rāma-rājya), mas o Senhor Rāma jamais demonstrou covardia. Rāvaṇa foi um agressor contra Rāma, pois raptou a esposa de Rāma, Sītā, mas o Senhor Rāma deu-lhe lições suficientes, sem paralelo na história do mundo. No caso de Arjuna, contudo, deve-se considerar o tipo especial de agressores, a saber, seu próprio avô, seu próprio mestre, amigos, filhos, netos, etc. Por causa deles, Arjuna pensou que não devia tomar as severas medidas necessárias contra agressores comuns. Além disso, aconselha-se às pessoas santas que perdoem. Tais injunções para pessoas santas são mais importantes do que qualquer emergência política. Arjuna considerou que, em vez de matar seus próprios parentes por motivos políticos, seria melhor perdoá-los por razões de religião e comportamento santo. Não considerava, por isso, esse extermínio rentável apenas em prol de uma temporária felicidade corporal. Afinal, reinos e prazeres deles derivados não são permanentes; então, por que arriscaria sua vida e salvação eterna matando seus próprios parentes? O fato de Arjuna dirigir-se a Kṛṣṇa como «Mādhava», ou esposo da deusa da fortuna, é também significativo a esse respeito. Queria assinalar a Kṛṣṇa que, como esposo da deusa da fortuna, Ele não deveria induzir Arjuna a empreender uma questão que afinal traria infortúnio. Kṛṣṇa, contudo, jamais traz infortúnio a ninguém, quanto mais a Seus devotos."}
{"ref": "bg/1/37-38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/37-38/", "verse_text": "yady apy ete na paśyanti\n\nlobhopahata-cetasaḥ\n\nkula-kṣaya-kṛtaṁ doṣaṁ\n\nmitra-drohe ca pātakam\n\nkathaṁ na jñeyam asmābhiḥ\n\n\n\npāpād asmān nivartitum\n\nkula-kṣaya-kṛtaṁ doṣaṁ\n\nprapaśyadbhir janārdana", "devanagari": "> यद्यप्येते न पश्यन्ति लोभोपहतचेतसः ।\n> कुलक्षयकृतं दोषं मित्रद्रोहे च पातकम् ॥३७॥\n> कथं न ज्ञेयमस्माभिः पापादस्मान्निवर्तितुम् ।\n> कुलक्षयकृतं दोषं प्रपश्यद्भिर्जनार्दन ॥३८॥", "synonyms": "*yadi*—se; *api*—certamente; *ete*—eles; *na*—não; *paśyanti*—veem; *lobha*—ganância; *upahata*—dominados; *cetasaḥ*—os corações; *kula-kṣaya*—no extermínio da família; *kṛtam*—feita; *doṣam*—falta; *mitra-drohe*—em disputar com amigos; *ca*—também; *pātakam*—reações pecaminosas; *katham*—por que; *na*—não; *jñeyam*—saber isso; *asmābhiḥ*—por nós; *pāpāt*—de pecados; *asmāt*—nós mesmos; *nivartitum*—cessar; *kula-kṣaya*—a destruição de uma dinastia; *kṛtam*—por assim fazer; *doṣam*—crime; *prapaśyadbhiḥ*—por aqueles que podem ver; *janārdana*—ó Kṛṣṇa.", "translation": "**Ó Janārdana, embora estes homens, dominados pela ganância, não vejam falta alguma em matar a própria família ou em disputar com amigos, por que haveríamos nós, com conhecimento do pecado, de envolver-nos nestes atos?**", "purport": "Não se espera que um *kṣatriya* recuse batalhar ou jogar quando assim convidado por algum partido rival. Sob essa obrigação, Arjuna não podia recusar-se a lutar, pois fora desafiado pelo partido de Duryodhana. A esse respeito, Arjuna considerou que o outro partido podia estar cego para os efeitos de tal desafio. Arjuna, todavia, podia ver as consequências nefastas e não podia aceitar o desafio. A obrigação somente é, de fato, vinculante quando o efeito é bom; mas, quando o efeito é o contrário, ninguém pode estar obrigado. Considerando todos esses prós e contras, Arjuna decidiu não lutar."}
{"ref": "bg/1/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/39/", "verse_text": "kula-kṣaye praṇaśyanti\n\nkula-dharmāḥ sanātanāḥ\n\ndharme naṣṭe kulaṁ kṛtsnam\n\nadharmo 'bhibhavaty uta", "devanagari": "> कुलक्षये प्रणश्यन्ति कुलधर्माः सनातनाः ।\n> धर्मे नष्टे कुलं कृत्स्नमधर्मोऽभिभवत्युत ॥३९॥", "synonyms": "*kula-kṣaye*—em destruir a família; *praṇaśyanti*—são vencidas; *kula-dharmāḥ*—as tradições familiares; *sanātanāḥ*—eternas; *dharme*—em religião; *naṣṭe*—sendo destruída; *kulam*—família; *kṛtsnam*—integralmente; *adharmaḥ*—irreligião; *abhibhavati*—transforma-se em; *uta*—dito está.", "translation": "**Com a destruição da dinastia, a eterna tradição familiar é vencida e, dessa forma, o resto da família envolve-se em prática irreligiosa.**", "purport": "No sistema da instituição varṇāśrama, há muitos princípios de tradições religiosas que ajudam os membros da família a crescer adequadamente e a alcançar valores espirituais. Os membros mais velhos são responsáveis por tais processos purificadores na família, do nascimento à morte. Mas com a morte dos membros mais velhos, tais tradições familiares de purificação podem cessar, e os membros mais jovens restantes podem desenvolver hábitos irreligiosos e, com isso, perder sua oportunidade de salvação espiritual. Por essa razão, em hipótese alguma se devem matar os membros mais velhos da família."}
{"ref": "bg/1/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/40/", "verse_text": "adharmābhibhavāt kṛṣṇa\n\npraduṣyanti kula-striyaḥ\n\nstrīṣu duṣṭāsu vārṣṇeya\n\njāyate varṇa-saṅkaraḥ", "devanagari": "> अधर्माभिभवात्कृष्ण प्रदुष्यन्ति कुलस्त्रियः ।\n> स्त्रीषु दुष्टासु वार्ष्णेय जायते वर्णसङ्करः ॥४०॥", "synonyms": "*adharma*—irreligião; *abhibhavāt*—tendo predominado; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *praduṣyanti*—contaminam-se; *kula-striyaḥ*—senhoras da família; *strīṣu*—das mulheres; *duṣṭāsu*—assim contaminadas; *vārṣṇeya*—ó descendente de Vṛṣṇi; *jāyate*—assim sucede; *varṇa-saṅkaraḥ*—prole indesejada.", "translation": "**Quando a irreligião predomina na família, ó Kṛṣṇa, as mulheres da família contaminam-se, e da degradação das mulheres, ó descendente de Vṛṣṇi, surge a prole indesejada.**", "purport": "Boa população na sociedade humana é o princípio básico para a paz, prosperidade e progresso espiritual da vida. Os princípios da religião varṇāśrama foram concebidos de tal modo que a boa população prevalecesse na sociedade para o progresso espiritual geral do Estado e da comunidade. Tal população depende da castidade e fidelidade das mulheres. Assim como as crianças são muito propensas a ser desencaminhadas, as mulheres são igualmente muito propensas à degradação. Por isso, tanto crianças como mulheres requerem proteção dos membros mais velhos da família. Ocupando-se em diversas práticas religiosas, as mulheres não serão induzidas ao adultério. Segundo Cāṇakya Paṇḍita, as mulheres geralmente não são muito inteligentes e, por isso, não são confiáveis. Assim sendo, as diferentes tradições familiares de atividades religiosas devem sempre mantê-las ocupadas, e assim sua castidade e devoção darão à luz uma boa população, elegível para participar do sistema varṇāśrama. Na falência de tal varṇāśrama-dharma, as mulheres naturalmente ficam livres para agir e misturar-se com homens, e assim o adultério se pratica ao risco de uma população indesejada. Homens irresponsáveis também provocam o adultério na sociedade, e assim crianças indesejadas inundam a raça humana ao risco de guerra e pestilência."}
{"ref": "bg/1/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/41/", "verse_text": "saṅkaro narakāyaiva\n\nkula-ghnānāṁ kulasya ca\n\npatanti pitaro hy eṣāṁ\n\nlupta-piṇḍodaka-kriyāḥ", "devanagari": "> सङ्करो नरकायैव कुलघ्नानां कुलस्य च ।\n> पतन्ति पितरो ह्येषां लुप्तपिण्डोदकक्रियाः ॥४१॥", "synonyms": "*saṅkaraḥ*—tais filhos indesejados; *narakāya*—para a vida infernal; *eva*—certamente; *kula-ghnānām*—daqueles que são exterminadores da família; *kulasya*—da família; *ca*—também; *patanti*—caem; *pitaraḥ*—antepassados; *hi*—certamente; *eṣām*—deles; *lupta*—suspensas; *piṇḍa*—oferendas; *udaka*—água; *kriyāḥ*—realização.", "translation": "**Quando há aumento da população indesejada, cria-se uma situação infernal tanto para a família quanto para os que destroem a tradição familiar. Em tais famílias corruptas, não há oferenda de oblações de comida e água aos ancestrais.**", "purport": "Conforme as regras e regulações das atividades fruitivas, há a necessidade de se oferecer periodicamente comida e água aos antepassados da família. Essa oferenda se faz pela adoração a Viṣṇu, pois comer os restos do alimento oferecido a Viṣṇu pode livrar a pessoa de toda espécie de ações pecaminosas. Por vezes, os antepassados podem estar sofrendo diversos tipos de reações pecaminosas, e por vezes alguns deles sequer podem adquirir um corpo material grosseiro e são forçados a permanecer em corpos sutis como fantasmas. Assim, quando os restos do alimento *prasādam* são oferecidos aos antepassados pelos descendentes, os antepassados libertam-se da vida fantasmagórica ou de outros tipos de vida miserável. Tal auxílio prestado aos antepassados é uma tradição familiar, e aqueles que não vivem na vida devocional são obrigados a executar tais rituais. Quem se ocupa na vida devocional não é obrigado a executar tais ações. Simplesmente realizando o serviço devocional, pode-se libertar centenas e milhares de antepassados de toda espécie de miséria. No *Bhāgavatam* afirma-se:\n\n\n\ndevarṣi-bhūtāpta-nṛnāṁ pitṝṇāṁ\n\nna kiṅkaro nāyamṛṇī ca rājan\n\nsarvātmanā yaḥ śaraṇaṁ śaraṇyaṁ\n\ngato mukundaṁ parihṛtya kartam\n\n\n\n«Quem quer que se tenha abrigado nos pés de lótus de Mukunda, o doador da liberação, abandonando todas as obrigações, e tenha empreendido a senda com toda a seriedade, não deve deveres nem obrigações aos semideuses, sábios, entidades vivas em geral, membros da família, humanidade ou antepassados.» (Bhāg. 11.5.41) Tais obrigações cumprem-se automaticamente pela realização do serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/1/42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/42/", "verse_text": "doṣair etaiḥ kula-ghnānāṁ\n\nvarṇa-saṅkara-kārakaiḥ\n\nutsādyante jāti-dharmāḥ\n\nkula-dharmāś ca śāśvatāḥ", "devanagari": "> दोषैरेतैः कुलघ्नानां वर्णसङ्करकारकैः ।\n> उत्साद्यन्ते जातिधर्माः कुलधर्माश्च शाश्वताः ॥४२॥", "synonyms": "*doṣaiḥ*—por tais defeitos; *etaiḥ*—todos estes; *kula-ghnānām*—do destruidor de uma família; *varṇa-saṅkara*—filhos indesejados; *kārakaiḥ*—pelos executores; *utsādyante*—causa devastação; *jāti-dharmāḥ*—projeto comunitário; *kula-dharmāḥ*—tradição familiar; *ca*—também; *śāśvatāḥ*—eterna.", "translation": "**Devido às más obras dos destruidores da tradição familiar, toda espécie de projetos comunitários e atividades de bem-estar familiar são devastadas.**", "purport": "As quatro ordens da sociedade humana, combinadas com as atividades de bem-estar familiar tal como estabelecidas pela instituição do sanātana-dharma ou varṇāśrama-dharma, foram concebidas para capacitar o ser humano a alcançar a salvação última. Por conseguinte, o rompimento da tradição do sanātana-dharma por líderes irresponsáveis da sociedade traz o caos a essa sociedade, e em consequência as pessoas se esquecem do objetivo da vida — Viṣṇu. Tais líderes são chamados de cegos, e as pessoas que seguem tais líderes certamente serão conduzidas ao caos."}
{"ref": "bg/1/43", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/43/", "verse_text": "utsanna-kula-dharmāṇāṁ\n\nmanuṣyāṇāṁ janārdana\n\nnarake niyataṁ vāso\n\nbhavatīty anuśuśruma", "devanagari": "> उत्सन्नकुलधर्माणां मनुष्याणां जनार्दन ।\n> नरके नियतं वासो भवतीत्यनुशुश्रुम ॥४३॥", "synonyms": "*utsanna*—arruinadas; *kula-dharmāṇām*—daqueles que têm as tradições familiares; *manuṣyāṇām*—de tais homens; *janārdana*—ó Kṛṣṇa; *narake*—no inferno; *niyatam*—sempre; *vāsaḥ*—residência; *bhavati*—sucede; *iti*—assim; *anuśuśruma*—ouvi pela sucessão discipular.", "translation": "**Ó Kṛṣṇa, mantenedor das pessoas, ouvi pela sucessão discipular que aqueles que destroem as tradições familiares habitam para sempre no inferno.**", "purport": "Arjuna baseia seu argumento não em sua própria experiência pessoal, mas no que ouviu das autoridades. Esse é o caminho para receber o verdadeiro conhecimento. Não se pode atingir o verdadeiro ponto do conhecimento factual sem ser auxiliado pela pessoa correta que já se acha estabelecida nesse conhecimento. Há um sistema na instituição varṇāśrama pelo qual a pessoa tem de submeter-se ao processo de ablução antes da morte por suas atividades pecaminosas. Quem está sempre ocupado em atividades pecaminosas deve utilizar-se do processo de ablução chamado prāyaścitta. Sem fazê-lo, a pessoa será certamente transferida a planetas infernais para sofrer vidas miseráveis como resultado das atividades pecaminosas."}
{"ref": "bg/1/44", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/44/", "verse_text": "aho bata mahat pāpaṁ\n\nkartuṁ vyavasitā vayam\n\nyad rājya-sukha-lobhena\n\nhantuṁ sva-janam udyatāḥ", "devanagari": "> अहो बत महत्पापं कर्तुं व्यवसिता वयम् ।\n> यद्राज्यसुखलोभेन हन्तुं स्वजनमुद्यताः ॥४४॥", "synonyms": "*ahaḥ*—ai; *bata*—quão estranho é; *mahat*—grandes; *pāpam*—pecados; *kartum*—realizar; *vyavasitāḥ*—decididos; *vayam*—nós; *yat*—de modo que; *rājya*—reino; *sukha-lobhena*—levados pela cobiça da felicidade real; *hantum*—matar; *svajanam*—parentes; *udyatāḥ*—procurando.", "translation": "**Ai! Quão estranho é estarmos preparando-nos para cometer atos altamente pecaminosos, levados pelo desejo de desfrutar da felicidade real.**", "purport": "Levado por motivos egoístas, o homem pode inclinar-se a atos pecaminosos como matar o próprio irmão, pai ou mãe. Há muitos casos assim na história do mundo. Mas Arjuna, por ser um santo devoto do Senhor, é sempre consciente dos princípios morais e, por isso, toma o cuidado de evitar tais atividades."}
{"ref": "bg/1/45", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/45/", "verse_text": "yadi mām apratīkāram\n\naśastraṁ śastra-pāṇayaḥ\n\ndhārtarāṣṭrā raṇe hanyus\n\ntan me kṣemataraṁ bhavet", "devanagari": "> यदि मामप्रतीकारमशस्त्रं शस्त्रपाणयः ।\n> धार्तराष्ट्रा रणे हन्युस्तन्मे क्षेमतरं भवेत् ॥४५॥", "synonyms": "*yadi*—mesmo que; *mām*—a mim; *apratīkāram*—sem oferecer resistência; *aśastram*—sem estar plenamente armado; *śastra-pāṇayaḥ*—aqueles com armas em punho; *dhārtarāṣṭrāḥ*—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; *raṇe*—no campo de batalha; *hanyuḥ*—possam matar; *tat*—isso; *me*—para mim; *kṣemataram*—melhor; *bhavet*—seria.", "translation": "**Eu consideraria melhor que os filhos de Dhṛtarāṣṭra me matassem desarmado e sem oferecer resistência do que combater contra eles.**", "purport": "É costume — segundo os princípios de combate dos *kṣatriyas* — que um inimigo desarmado e sem disposição para a luta não seja atacado. Arjuna, contudo, em tal posição enigmática, decidiu que não lutaria, ainda que fosse atacado pelo inimigo. Não considerou o quanto o outro partido estava disposto a lutar. Todos esses sintomas se devem à ternura de coração resultante de ele ser um grande devoto do Senhor."}
{"ref": "bg/1/46", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/1/46/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\nevam uktvārjunaḥ saṅkhye\n\nrathopastha upāviśat\n\nvisṛjya sa-śaraṁ cāpaṁ\n\nśoka-saṁvigna-mānasaḥ", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> एवमुक्त्वार्जुनः सङ्ख्ये रथोपस्थ उपाविशत् ।\n> विसृज्य सशरं चापं शोकसंविग्नमानसः ॥४६॥", "synonyms": "*sañjayaḥ*—Sañjaya; *uvāca*—disse; *evam*—assim; *uktvā*—dizendo; *arjunaḥ*—Arjuna; *saṅkhye*—no campo de batalha; *ratha*—quadriga; *upasthaḥ*—situado em; *upāviśat*—sentou-se novamente; *visṛjya*—pondo de lado; *sa-śaram*—junto com as flechas; *cāpam*—o arco; *śoka*—lamentação; *saṁvigna*—angustiada; *mānasaḥ*—dentro da mente.", "translation": "**Sañjaya disse: Tendo Arjuna falado dessa forma no campo de batalha, pôs de lado seu arco e flechas e sentou-se na quadriga, com a mente dominada pela tristeza.**", "purport": "Enquanto observava a situação de seu inimigo, Arjuna ficou de pé na quadriga, mas estava tão aflito pela lamentação que voltou a sentar-se, pondo de lado seu arco e flechas. Tal pessoa bondosa e de coração terno, no serviço devocional do Senhor, é apta a receber o conhecimento do eu.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Primeiro Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā*, em que se observam os Exércitos no Campo de Batalha de Kurukṣetra."}
{"ref": "bg/2/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/1/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\ntaṁ tathā kṛpayāviṣṭam\n\naśru-pūrṇākulekṣaṇam\n\nviṣīdantam idaṁ vākyam\n\nuvāca madhusūdanaḥ", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> तं तथा कृपयाविष्टमश्रुपूर्णाकुलेक्षणम् ।\n> विषीदन्तमिदं वाक्यमुवाच मधुसूदनः ॥१॥", "synonyms": "*sañjayaḥ uvāca*—Sañjaya disse; *tam*—a Arjuna; *tathā*—assim; *kṛpayā*—pela compaixão; *āviṣṭam*—dominado; *aśru-pūrṇa*—cheios de lágrimas; *ākula*—abatidos; *īkṣaṇam*—olhos; *viṣīdantam*—lamentando-se; *idam*—estas; *vākyam*—palavras; *uvāca*—disse; *madhusūdanaḥ*—o matador de Madhu.", "translation": "**Sañjaya disse: Vendo Arjuna pleno de compaixão e muito pesaroso, com os olhos rasos de lágrimas, Madhusūdana, Kṛṣṇa, proferiu as seguintes palavras.**", "purport": "A compaixão material, a lamentação e as lágrimas são todos sinais de ignorância acerca do verdadeiro eu. Compaixão pela alma eterna é autorrealização. A palavra \"Madhusūdana\" é significativa neste verso. O Senhor Kṛṣṇa matou o demônio Madhu, e agora Arjuna desejava que Kṛṣṇa matasse o demônio do equívoco que se apoderara dele no cumprimento de seu dever. Ninguém sabe onde a compaixão deve ser aplicada. Compaixão pela roupa de um homem que se afoga é insensata. Um homem caído no oceano da ignorância não pode ser salvo apenas resgatando-lhe a roupa exterior—o corpo material grosseiro. Aquele que não sabe disso e se lamenta pela roupa exterior chama-se śūdra, ou aquele que se lamenta desnecessariamente. Arjuna era um kṣatriya, e essa conduta não se esperava dele. O Senhor Kṛṣṇa, contudo, pode dissipar a lamentação do homem ignorante, e foi com esse propósito que Ele cantou o *Bhagavad-gītā*. Este capítulo nos instrui na autorrealização mediante um estudo analítico do corpo material e da alma espiritual, conforme explicado pela autoridade suprema, o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Tal compreensão torna-se possível ao trabalharmos com o ser fruitivo situado na concepção fixa do verdadeiro eu."}
{"ref": "bg/2/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/2/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nkutas tvā kaśmalam idaṁ\n\nviṣame samupasthitam\n\nanārya-juṣṭam asvargyam\n\nakīrti-karam arjuna", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> कुतस्त्वा कश्मलमिदं विषमे समुपस्थितम् ।\n> अनार्यजुष्टमस्वर्ग्यमकीर्तिकरमर्जुन ॥२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *kutaḥ*—de onde; *tvā*—a você; *kaśmalam*—imundície; *idam*—esta lamentação; *viṣame*—nesta hora de crise; *samupasthitam*—chegou; *anārya*—pessoas que não conhecem o valor da vida; *juṣṭam*—praticada por; *asvargyam*—aquilo que não conduz aos planetas superiores; *akīrti*—infâmia; *karam*—a causa de; *arjuna*—ó Arjuna.", "translation": "**A Pessoa Suprema [Bhagavān] disse: Meu querido Arjuna, como vieram a você essas impurezas? Elas em nada condizem com um homem que conhece os valores progressivos da vida. Não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia.**", "purport": "Kṛṣṇa e a Suprema Personalidade de Deus são idênticos. Por isso, o Senhor Kṛṣṇa é referido como \"Bhagavān\" ao longo de todo o *Gītā*. O Bhagavān é o estágio último da Verdade Absoluta. A Verdade Absoluta percebe-se em três fases de compreensão, a saber: o Brahman, ou o espírito impessoal e onipenetrante; o Paramātmā, ou o aspecto localizado do Supremo dentro do coração de todas as entidades vivas; e o Bhagavān, ou a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Kṛṣṇa. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, esta concepção da Verdade Absoluta é explicada da seguinte maneira:\n\n\n\nvadanti tat tattva-vidas tattvaṁ yaj jñānam advayam\n\nbrahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate.\n\n\n\n\"A Verdade Absoluta é percebida em três fases de compreensão pelo conhecedor da Verdade Absoluta, e todas elas são idênticas. Tais fases da Verdade Absoluta exprimem-se como Brahman, Paramātmā e Bhagavān.\" (Bhāg. 1.2.11) Estes três aspectos divinos podem ser explicados pelo exemplo do sol, que também tem três aspectos diferentes, a saber: a luz solar, a superfície do sol e o próprio planeta Sol. Aquele que estuda apenas a luz solar é o estudante preliminar. Aquele que compreende a superfície do sol está mais adiantado. E aquele que pode entrar no planeta Sol é o mais elevado. Os estudantes comuns que se satisfazem em compreender apenas a luz solar—sua difusão universal e a refulgência ofuscante de sua natureza impessoal—podem ser comparados àqueles que conseguem perceber apenas o aspecto Brahman da Verdade Absoluta. O estudante mais avançado pode conhecer o disco solar, o que se compara ao conhecimento do aspecto Paramātmā da Verdade Absoluta. E o estudante que pode adentrar o coração do planeta Sol compara-se aos que percebem os aspectos pessoais da Suprema Verdade Absoluta. Por conseguinte, os bhaktas, ou os transcendentalistas que perceberam o aspecto Bhagavān da Verdade Absoluta, são os transcendentalistas mais elevados, embora todos os estudantes que se ocupam no estudo da Verdade Absoluta se ocupem do mesmo tema. A luz solar, o disco solar e os assuntos internos do planeta Sol não podem ser separados uns dos outros, e, no entanto, os estudantes das três diferentes fases não estão na mesma categoria.\n\n\n\nA palavra sânscrita Bhagavān é explicada pela grande autoridade Parāśara Muni, pai de Vyāsadeva. A Personalidade Suprema que possui todas as riquezas, toda a força, toda a fama, toda a beleza, todo o conhecimento e toda a renúncia chama-se Bhagavān. Há muitas pessoas muito ricas, muito poderosas, muito belas, muito famosas, muito eruditas e muito desapegadas, mas ninguém pode afirmar que possui todas as riquezas, toda a força, etc., em sua plenitude. Apenas Kṛṣṇa pode reivindicar isso, pois Ele é a Suprema Personalidade de Deus. Nenhuma entidade viva, nem Brahmā, nem o Senhor Śiva, nem Nārāyaṇa, pode possuir as opulências tão plenamente como Kṛṣṇa. Por isso, conclui-se na Brahma-saṁhitā, pelo próprio Senhor Brahmā, que o Senhor Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Ninguém é igual ou superior a Ele. Ele é o Senhor primordial, ou Bhagavān, conhecido como Govinda, e é a causa suprema de todas as causas.\n\n\n\nīśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ\n\nanādir ādir govindaḥ sarua-kāraṇa-kāraṇam\n\n\n\n\"Há muitas personalidades que possuem as qualidades de Bhagavān, mas Kṛṣṇa é o supremo porque ninguém pode superá-lO. Ele é a Pessoa Suprema, e Seu corpo é eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. Ele é o Senhor primordial Govinda e a causa de todas as causas.\" (Brahma-saṁhitā 5.1)\n\n\n\nNo *Bhāgavatam* também há uma lista de muitas encarnações da Suprema Personalidade de Deus, mas Kṛṣṇa é descrito como a Personalidade de Deus original, de quem se expandem muitas e muitas encarnações e Personalidades de Deus:\n\n\n\nete cāṁśa-kalāḥ puṁsaḥ kṛṣṇas tu bhagavān svayam\n\nindrāri-vyākulaṁ lokaṁ mṛḍayanti yuge yuge\n\n\n\n\"Todas as listas de encarnações de Deus aqui apresentadas são expansões plenárias ou partes das expansões plenárias da Divindade Suprema, mas Kṛṣṇa é a própria Suprema Personalidade de Deus.\" (Bhāg. 1.3.28)\n\n\n\nPortanto, Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus original, a Verdade Absoluta, fonte tanto da Superalma quanto do Brahman impessoal.\n\n\n\nNa presença da Suprema Personalidade de Deus, a lamentação de Arjuna por seus parentes é, certamente, indigna; por isso, Kṛṣṇa exprimiu Sua surpresa com a palavra kutas, \"de onde\". Tais sentimentos pouco viris jamais se esperariam de uma pessoa pertencente à classe civilizada de homens conhecidos como árias. A palavra ārya aplica-se às pessoas que conhecem o valor da vida e possuem uma civilização baseada na percepção espiritual. As pessoas guiadas pela concepção material da vida não sabem que o objetivo da vida é a percepção da Verdade Absoluta, Viṣṇu, ou Bhagavān, e deixam-se cativar pelos aspectos externos do mundo material; por isso, não sabem o que é a liberação. Aquelas que não têm conhecimento da liberação do cativeiro material chamam-se não-árias. Embora Arjuna fosse um kṣatriya, ele se desviava de seus deveres prescritos ao recusar-se a lutar. Tal ato de covardia é descrito como próprio dos não-árias. Esse desvio do dever não auxilia a pessoa no progresso da vida espiritual nem lhe oferece sequer a oportunidade de tornar-se famosa neste mundo. O Senhor Kṛṣṇa não aprovou a suposta compaixão de Arjuna por seus parentes."}
{"ref": "bg/2/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/3/", "verse_text": "klaibyaṁ mā sma gamaḥ pārtha\n\nnaitat tvayy upapadyate\n\nkṣudraṁ hṛdaya-daurbalyaṁ\n\ntyaktvottiṣṭha parantapa", "devanagari": "> क्लैब्यं मा स्म गमः पार्थ नैतत्त्वय्युपपद्यते ।\n> क्षुद्रं हृदयदौर्बल्यं त्यक्त्वोत्तिष्ठ परन्तप ॥३॥", "synonyms": "*klaibyam*—impotência; *mā*—não; *sma*—considere; *gamaḥ*—entregue-se a; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *na*—jamais; *etat*—desse modo; *tvayi*—a você; *upapadyate*—é digno; *kṣudram*—insignificante; *hṛdaya*—coração; *daurbalyam*—fraqueza; *tyaktvā*—abandonando; *uttiṣṭha*—levante-se; *parantapa*—ó castigador dos inimigos.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, não ceda a esta degradante impotência. Ela não condiz com você. Abandone tal mesquinha fraqueza de coração e levante-se, ó castigador do inimigo.**", "purport": "Arjuna foi tratado por \"filho de Pṛthā\", que era irmã de Vasudeva, pai de Kṛṣṇa. Por isso, Arjuna tinha laços de sangue com Kṛṣṇa. Se o filho de um kṣatriya recusa-se a lutar, é kṣatriya apenas no nome, e se o filho de um brāhmaṇa age impiamente, é brāhmaṇa apenas no nome. Tais kṣatriyas e brāhmaṇas são filhos indignos de seus pais; por conseguinte, Kṛṣṇa não queria que Arjuna se tornasse um filho indigno de um kṣatriya. Arjuna era o amigo mais íntimo de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa o guiava diretamente do quadriga; mas, apesar de todas essas credenciais, se Arjuna abandonasse a batalha, cometeria um ato infame. Por isso, Kṛṣṇa disse que tal atitude em Arjuna não condizia com sua personalidade. Arjuna poderia argumentar que abandonaria a batalha em virtude de sua atitude magnânima para com o veneradíssimo Bhīṣma e seus parentes, mas Kṛṣṇa considerou que esse tipo de magnanimidade não era aprovado pela autoridade. Logo, tal magnanimidade ou suposta não-violência deve ser abandonada por pessoas como Arjuna sob a direção pessoal de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/4/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nkathaṁ bhīṣmam ahaṁ saṅkhye\n\ndroṇaṁ ca madhusūdana\n\niṣubhiḥ pratiyotsyāmi\n\npūjārhāv ari-sūdana", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> कथं भीष्ममहं सङ्ख्ये द्रोणं च मधुसूदन ।\n> इषुभिः प्रतियोत्स्यामि पूजार्हावरिसूदन ॥४॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *katham*—como; *bhīṣmam*—a Bhīṣma; *aham*—eu; *saṅkhye*—na luta; *droṇam*—a Droṇa; *ca*—também; *madhusūdana*—ó matador de Madhu; *iṣubhiḥ*—com flechas; *pratiyotsyāmi*—contra-atacarei; *pūjā-arhau*—aqueles que são adoráveis; *arisūdana*—ó matador dos inimigos.", "translation": "**Arjuna disse: Ó matador de Madhu [Kṛṣṇa], como posso, em batalha, contra-atacar com flechas homens como Bhīṣma e Droṇa, que são dignos de minha adoração?**", "purport": "Superiores respeitáveis como o avô Bhīṣma e o mestre Droṇācārya são sempre adoráveis. Mesmo que ataquem, não devem ser contra-atacados. É etiqueta geral que aos superiores não se deve oferecer sequer um combate verbal. Mesmo que se mostrem por vezes ásperos, não devem receber tratamento áspero. Sendo assim, como seria possível Arjuna contra-atacá-los? Acaso Kṛṣṇa atacaria Seu próprio avô, Ugrasena, ou Seu mestre, Sāndīpani Muni? Tais foram alguns dos argumentos apresentados por Arjuna a Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/5/", "verse_text": "gurūn ahatvā hi mahānubhāvān\n\nśreyo bhoktuṁ bhaikṣyam apīha loke\n\nhatvārtha-kāmāṁs tu gurūn ihaiva\n\nbhuñjīya bhogān rudhira-pradigdhān", "devanagari": "> गुरूनहत्वा हि महानुभावान्\n> श्रेयो भोक्तुं भैक्ष्यमपीह लोके ।\n> हत्वार्थकामांस्तु गुरूनिहैव\n> भुञ्जीय भोगान् रुधिरप्रदिग्धान् ॥५॥", "synonyms": "*gurūn*—os superiores; *ahatvā*—por matar; *hi*—certamente; *mahā-anubhāvān*—grandes almas; *śreyaḥ*—é melhor; *bhoktum*—desfrutar a vida; *bhaikṣyam*—mendigando; *api*—mesmo; *iha*—nesta vida; *loke*—neste mundo; *hatvā*—matando; *artha*—ganho; *kāmān*—assim desejando; *tu*—mas; *gurūn*—superiores; *iha*—neste mundo; *eva*—certamente; *bhuñjīya*—tem que desfrutar; *bhogān*—coisas desfrutáveis; *rudhira*—sangue; *pradigdhān*—manchadas com.", "translation": "**Seria melhor viver neste mundo mendigando do que viver à custa da vida das grandes almas que são meus mestres. Mesmo que sejam ávidos por ganho, ainda assim são superiores. Se forem mortos, nossos despojos estarão manchados de sangue.**", "purport": "Segundo os códigos das escrituras, um mestre que se entrega a uma ação abominável e perdeu seu senso de discriminação merece ser abandonado. Bhīṣma e Droṇa viram-se obrigados a tomar o partido de Duryodhana por causa de seu auxílio financeiro, embora não devessem ter aceitado tal posição apenas por considerações financeiras. Em tais circunstâncias, perderam a respeitabilidade de mestres. Mas Arjuna pensa que, ainda assim, eles continuam sendo seus superiores; logo, desfrutar de lucros materiais após matá-los significaria desfrutar despojos manchados de sangue."}
{"ref": "bg/2/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/6/", "verse_text": "na caitad vidmaḥ kataran no garīyo\n\nyad vā jayema yadi vā no jayeyuḥ\n\nyān eva hatvā na jijīviṣāmas\n\nte 'vasthitāḥ pramukhe dhārtarāṣṭrāḥ", "devanagari": "> न चैतद्विद्मः कतरन्नो गरीयो\n> यद्वा जयेम यदि वा नो जयेयुः ।\n> यानेव हत्वा न जिजीविषामस्-\n> तेऽवस्थिताः प्रमुखे धार्तराष्ट्राः ॥६॥", "synonyms": "*na*—nem; *ca*—também; *etat*—isto; *vidmaḥ*—sabemos; *katarat*—qual; *naḥ*—nos; *garīyaḥ*—melhor; *yat*—o que; *vā*—ou; *jayema*—conquistemos; *yadi*—se; *vā*—ou; *naḥ*—nos; *jayeyuḥ*—conquistem; *yān*—aqueles; *eva*—certamente; *hatvā*—matando; *na*—jamais; *jijīviṣāmaḥ*—quereríamos viver; *te*—todos eles; *avasthitāḥ*—estão postados; *pramukhe*—à frente; *dhārtarāṣṭrāḥ*—os filhos de Dhṛtarāṣṭra.", "translation": "**Tampouco sabemos o que é melhor—conquistá-los ou ser conquistados por eles. Os filhos de Dhṛtarāṣṭra, sem os quais não nos importaríamos de viver, encontram-se agora diante de nós neste campo de batalha.**", "purport": "Arjuna não sabia se devia lutar e arriscar uma violência desnecessária, embora lutar fosse o dever dos kṣatriyas, ou se devia abster-se e viver de mendicância. Caso não vencesse o inimigo, mendigar seria seu único meio de subsistência. Tampouco havia certeza da vitória, pois qualquer dos lados poderia sair vencedor. Mesmo que a vitória os aguardasse (e sua causa fosse justa), ainda assim, se os filhos de Dhṛtarāṣṭra morressem em batalha, seria muito difícil viver na ausência deles. Em tais circunstâncias, isto seria outra espécie de derrota para eles. Todas estas considerações de Arjuna provam definitivamente que ele não só era um grande devoto do Senhor, mas também era altamente esclarecido e tinha completo controle sobre a mente e os sentidos. Seu desejo de viver mendigando, embora tivesse nascido em um lar real, é mais um sinal de desapego. Ele era verdadeiramente virtuoso, como indicam estas qualidades, somadas a sua fé nas palavras de instrução de Śrī Kṛṣṇa (seu mestre espiritual). Conclui-se que Arjuna estava plenamente apto para a liberação. Salvo se os sentidos estiverem controlados, não há possibilidade de elevar-se ao plano do conhecimento, e, sem conhecimento e devoção, não há possibilidade de liberação. Arjuna era competente em todos esses atributos, além de seus enormes atributos em suas relações materiais."}
{"ref": "bg/2/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/7/", "verse_text": "kārpaṇya-doṣopahata-svabhāvaḥ\n\npṛcchāmi tvāṁ dharma-sammūḍha-cetāḥ\n\nyac chreyaḥ syān niścitaṁ brūhi tan me\n\nśiṣyas te 'haṁ śādhi māṁ tvāṁ prapannam", "devanagari": "> कार्पण्यदोषोपहतस्वभावः\n> पृच्छामि त्वां धर्मसम्मूढचेताः ।\n> यच्छ्रेयः स्यान्निश्चितं ब्रूहि तन्मे\n> शिष्यस्तेऽहं शाधि मां त्वां प्रपन्नम् ॥७॥", "synonyms": "*kārpaṇya*—mesquinha; *doṣa*—fraqueza; *upahata*—afligido por; *svabhāvaḥ*—características; *pṛcchāmi*—estou perguntando; *tvām*—a Você; *dharma*—religião; *saṁmūḍha*—confuso; *cetāḥ*—no coração; *yat*—o que; *śreyaḥ*—todo o bem; *syāt*—possa ser; *niścitam*—com confiança; *brūhi*—diga; *tat*—isso; *me*—a mim; *śiṣyaḥ*—discípulo; *te*—Seu; *aham*—eu sou; *śādhi*—simplesmente instrua; *mām*—a mim; *tvām*—a Você; *prapannam*—rendido.", "translation": "**Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a compostura por causa de minha fraqueza. Nesta condição, peço-Lhe que me diga claramente o que é melhor para mim. Sou agora Seu discípulo, e uma alma rendida a Você. Por favor, instrua-me.**", "purport": "Pela própria via da natureza, o sistema completo das atividades materiais é fonte de perplexidade para todos. A cada passo há perplexidade, e, por isso, cabe à pessoa procurar um mestre espiritual genuíno que lhe possa dar a orientação adequada para cumprir o propósito da vida. Toda a literatura Védica nos aconselha a procurar um mestre espiritual genuíno para que nos libertemos das perplexidades da vida que ocorrem sem o nosso desejo. Elas são como um incêndio florestal que, de algum modo, irrompe sem ter sido provocado por ninguém. De modo semelhante, a situação do mundo é tal que as perplexidades da vida surgem automaticamente, sem que desejemos tal confusão. Ninguém quer fogo, e, no entanto, ele acontece, e ficamos perplexos. A sabedoria Védica, portanto, aconselha que, a fim de resolver as perplexidades da vida e compreender a ciência da solução, é preciso procurar um mestre espiritual que esteja na sucessão discipular. Supõe-se que uma pessoa que tem um mestre espiritual genuíno saiba tudo. Não se deve, portanto, permanecer em perplexidades materiais; deve-se procurar um mestre espiritual. Este é o significado deste verso.\n\n\n\nQuem é o homem em perplexidades materiais? É aquele que não compreende os problemas da vida. No Garga Upaniṣad, o homem perplexo é descrito assim:\n\n\n\nyo vā etad akṣaraṁ gārgy aviditvāsmāl lokāt praiti sa kṛpaṇaḥ\n\n\n\n\"É um homem mesquinho aquele que não resolve os problemas da vida como ser humano e que, assim, deixa este mundo como os cães e os gatos, sem compreender a ciência da autorrealização.\" Esta forma humana de vida é o bem mais valioso para a entidade viva, que pode utilizá-la para resolver os problemas da vida; logo, aquele que não aproveita essa oportunidade adequadamente é um avaro. Por outro lado, há o brāhmaṇa, ou aquele que é suficientemente inteligente para utilizar este corpo para resolver todos os problemas da vida.\n\n\n\nOs kṛpaṇas, ou pessoas mesquinhas, desperdiçam seu tempo afeiçoando-se em demasia à família, à sociedade, ao país, etc., na concepção material da vida. Em geral, a pessoa apega-se à vida familiar, isto é, à esposa, aos filhos e a outros membros, com base em uma \"doença de pele\". O kṛpaṇa pensa que é capaz de proteger seus familiares da morte; ou então pensa que sua família ou sociedade pode salvá-lo do limiar da morte. Tal apego familiar pode ser encontrado mesmo nos animais inferiores, que também cuidam dos filhotes. Sendo inteligente, Arjuna podia compreender que sua afeição pelos familiares e seu desejo de protegê-los da morte eram as causas de sua perplexidade. Embora compreendesse que seu dever de lutar o aguardava, ainda assim, em razão de uma fraqueza mesquinha, não podia cumprir os deveres. Por isso, está pedindo ao Senhor Kṛṣṇa, o supremo mestre espiritual, uma solução definitiva. Oferece-se a Kṛṣṇa como discípulo. Quer pôr fim às conversas amistosas. As conversas entre o mestre e o discípulo são sérias, e agora Arjuna deseja falar com toda seriedade diante do reconhecido mestre espiritual. Assim sendo, Kṛṣṇa é o mestre espiritual original da ciência do *Bhagavad-gītā*, e Arjuna é o primeiro discípulo a compreender o *Gītā*. Como Arjuna compreende o *Bhagavad-gītā* está descrito no próprio *Gītā*. E, no entanto, eruditos mundanos tolos explicam que não é preciso submeter-se a Kṛṣṇa como pessoa, mas ao \"não-nascido dentro de Kṛṣṇa\". Não há diferença entre o interior e o exterior de Kṛṣṇa. E quem não tem o discernimento dessa compreensão é o maior dos tolos ao tentar compreender o *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "bg/2/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/8/", "verse_text": "na hi prapaśyāmi mamāpanudyād\n\nyac chokam ucchoṣaṇam indriyāṇām\n\navāpya bhūmāv asapatnam ṛddhaṁ\n\nrājyaṁ surāṇām api cādhipatyam", "devanagari": "> न हि प्रपश्यामि ममापनुद्याद्\n> यच्छोकमुच्छोषणमिन्द्रियाणाम् ।\n> अवाप्य भूमावसपत्नमृद्धं\n> राज्यं सुराणामपि चाधिपत्यम् ॥८॥", "synonyms": "*na*—não; *hi*—certamente; *prapaśyāmi*—vejo; *mama*—minha; *apanudyāt*—possam afastar; *yat*—aquela; *śokam*—lamentação; *ucchoṣaṇam*—secando; *indriyāṇām*—dos sentidos; *avāpya*—alcançando; *bhūmau*—na terra; *asapatnam*—sem rival; *ṛddham*—próspero; *rājyam*—reino; *surāṇām*—dos semideuses; *api*—mesmo; *ca*—também; *ādhipatyam*—supremacia.", "translation": "**Não consigo encontrar meio algum de afastar este pesar que está secando meus sentidos. Não conseguirei destruí-lo nem mesmo se conquistar na terra um reino sem rival, com soberania semelhante à dos semideuses no céu.**", "purport": "Embora Arjuna apresentasse tantos argumentos baseados no conhecimento dos princípios da religião e dos códigos morais, parece que era incapaz de resolver seu verdadeiro problema sem a ajuda do mestre espiritual, o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Pôde compreender que seu suposto conhecimento era inútil para afastar seus problemas, que estavam secando toda a sua existência; e era-lhe impossível resolver tais perplexidades sem o auxílio de um mestre espiritual como o Senhor Kṛṣṇa. O conhecimento acadêmico, a erudição, uma alta posição, etc., são todos inúteis para resolver os problemas da vida; o auxílio só pode ser dado por um mestre espiritual como Kṛṣṇa. Por conseguinte, a conclusão é que um mestre espiritual cem por cento consciente de Kṛṣṇa é o mestre espiritual genuíno, pois pode resolver os problemas da vida. O Senhor Caitanya disse que aquele que é mestre na ciência da consciência de Kṛṣṇa, qualquer que seja sua posição social, é o verdadeiro mestre espiritual.\n\n\n\nkibāvipra, kibā nyāsī, śūdra kene naya\n\nyei kṛṣṇa-tattva-vettā, sei 'guru' haya.\n\n\n\n(*Caitanya-caritāmṛta*, Madhya 8.127)\n\n\n\n\"Não importa se uma pessoa é vipra [erudito na sabedoria Védica] ou se nasceu em uma família inferior, ou se está na ordem renunciada de vida—se for mestre na ciência de Kṛṣṇa, é o mestre espiritual perfeito e genuíno.\" Logo, sem ser mestre na ciência da consciência de Kṛṣṇa, ninguém é um mestre espiritual genuíno. Diz-se também na literatura Védica:\n\n\n\nṣaṭ-karma-nipuṇo vipro mantra-tantra-viśāradaḥ\n\navaiṣṇavo gurur na syād vaiṣṇavaḥ śvapaco guruḥ\n\n\n\n\"Um brāhmaṇa erudito, perito em todos os assuntos do conhecimento Védico, é inapto para tornar-se mestre espiritual sem ser vaiṣṇava, ou perito na ciência da consciência de Kṛṣṇa. Mas uma pessoa nascida em uma família de casta inferior pode tornar-se mestre espiritual se for vaiṣṇava, ou consciente de Kṛṣṇa.\"\n\n\n\nOs problemas da existência material—nascimento, velhice, doença e morte—não podem ser combatidos com o acúmulo de riqueza nem com o desenvolvimento econômico. Em muitas partes do mundo há Estados repletos de todas as facilidades de vida, plenos de riqueza e desenvolvidos economicamente, e, no entanto, os problemas da existência material continuam presentes. Eles buscam paz de várias maneiras, mas só podem alcançar a verdadeira felicidade se consultarem Kṛṣṇa, ou o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam*—que constituem a ciência de Kṛṣṇa—ou o representante genuíno de Kṛṣṇa, o homem em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nSe o desenvolvimento econômico e os confortos materiais pudessem afastar as lamentações da pessoa por embriaguezes familiares, sociais, nacionais ou internacionais, então Arjuna não teria dito que nem mesmo um reino sem rival na terra ou uma supremacia semelhante à dos semideuses nos planetas celestiais seriam capazes de afastar suas lamentações. Por isso, ele buscou refúgio na consciência de Kṛṣṇa, e esse é o caminho correto para a paz e a harmonia. O desenvolvimento econômico ou a supremacia sobre o mundo podem ser destruídos a qualquer momento pelos cataclismos da natureza material. Até mesmo a elevação a uma situação planetária superior, como agora os homens buscam um lugar no planeta Lua, também pode ser arruinada de um só golpe. O *Bhagavad-gītā* o confirma: kṣīṇe puṇye martyalokaṁ viśanti—\"Quando os resultados das atividades piedosas se esgotam, a pessoa cai novamente do auge da felicidade ao mais baixo status de vida.\" Muitos políticos do mundo caíram dessa maneira. Tais quedas constituem apenas mais causas de lamentação.\n\n\n\nPor conseguinte, se desejamos cessar a lamentação de vez, então temos que tomar refúgio em Kṛṣṇa, como Arjuna está procurando fazer. Arjuna, pois, pediu a Kṛṣṇa que resolvesse seu problema definitivamente, e essa é a senda da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/9/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\nevam uktvā hṛṣīkeśaṁ\n\nguḍākeśaḥ parantapaḥ\n\nna yotsya iti govindam\n\nuktvā tūṣṇīṁ babhūva ha", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> एवमुक्त्वा हृषीकेशं गुडाकेशः परन्तप ।\n> न योत्स्य इति गोविन्दमुक्त्वा तूष्णीं बभूव ह ॥९॥", "synonyms": "*sañjayaḥ uvāca*—Sañjaya disse; *evam*—assim; *uktvā*—falando; *hṛṣīkeśam*—a Kṛṣṇa, o mestre dos sentidos; *guḍākeśaḥ*—Arjuna, o mestre em refrear a ignorância; *parantapaḥ*—o castigador dos inimigos; *na yotsye*—não lutarei; *iti*—assim; *govindam*—a Kṛṣṇa, o doador de prazer; *uktvā*—dizendo; *tūṣṇīm*—em silêncio; *babhūva*—ficou; *ha*—certamente.", "translation": "**Sañjaya disse: Tendo falado assim, Arjuna, castigador dos inimigos, disse a Kṛṣṇa: \"Govinda, não lutarei\", e calou-se.**", "purport": "Dhṛtarāṣṭra deve ter ficado muito contente ao saber que Arjuna não iria lutar e estava, em vez disso, deixando o campo de batalha pela profissão de mendigo. Mas Sañjaya o decepcionou novamente ao relatar que Arjuna era competente para matar seus inimigos (parantapaḥ). Embora Arjuna estivesse, naquele momento, dominado por falsa tristeza devido à afeição familiar, rendeu-se a Kṛṣṇa, o supremo mestre espiritual, como discípulo. Isso indicava que em breve estaria livre da falsa lamentação resultante da afeição familiar e seria iluminado com o conhecimento perfeito da autorrealização, ou consciência de Kṛṣṇa, e então certamente lutaria. Assim, a alegria de Dhṛtarāṣṭra seria frustrada, pois Arjuna seria iluminado por Kṛṣṇa e lutaria até o fim."}
{"ref": "bg/2/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/10/", "verse_text": "tam uvāca hṛṣīkeśaḥ\n\nprahasann iva bhārata\n\nsenayor ubhayor madhye\n\nviṣīdantam idaṁ vacaḥ", "devanagari": "> तमुवाच हृषीकेशः प्रहसन्निव भारत ।\n> सेनयोरुभयोर्मध्ये विषीदन्तमिदं वचः ॥१०॥", "synonyms": "*tam*—a ele; *uvāca*—disse; *hṛṣīkeśaḥ*—o mestre dos sentidos, Kṛṣṇa; *prahasan*—sorrindo; *iva*—desse modo; *bhārata*—ó Dhṛtarāṣṭra, descendente de Bharata; *senayoḥ*—dos exércitos; *ubhayoḥ*—de ambas as partes; *madhye*—entre; *viṣīdantam*—ao lamuriento; *idam*—as seguintes; *vacaḥ*—palavras.", "translation": "**Ó descendente de Bharata, naquele momento Kṛṣṇa, sorrindo, no meio dos dois exércitos, dirigiu as seguintes palavras ao pesaroso Arjuna.**", "purport": "A conversa transcorria entre amigos íntimos, a saber, Hṛṣīkeśa e Guḍākeśa. Como amigos, ambos estavam no mesmo nível, mas um deles voluntariamente se tornou aluno do outro. Kṛṣṇa sorria porque um amigo escolhera tornar-se discípulo. Sendo Senhor de tudo, Ele Se encontra sempre na posição superior como mestre de todos, e, no entanto, o Senhor aceita aquele que deseja ser amigo, filho, amante ou devoto, ou que O queira em tal papel. Mas, quando foi aceito como o mestre, imediatamente assumiu o papel e falou com o discípulo como o mestre—com gravidade, como se exige. Parece que a conversa entre o mestre e o discípulo foi trocada abertamente na presença de ambos os exércitos, de modo que todos se beneficiassem. Logo, as conversas do *Bhagavad-gītā* não se destinam a uma pessoa, sociedade ou comunidade em particular, mas a todos, e amigos ou inimigos têm igual direito de ouvi-las."}
{"ref": "bg/2/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/11/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\naśocyān anvaśocas tvaṁ\n\nprajñā-vādāṁś ca bhāṣase\n\ngatāsūn agatāsūṁś ca\n\nnānuśocanti paṇḍitāḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> अशोच्यानन्वशोचस्त्वं प्रज्ञावादांश्च भाषसे ।\n> गतासूनगतासूंश्च नानुशोचन्ति पण्डिताः ॥११॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *aśocyān*—aquilo que não é digno de lamentação; *anvaśocaḥ*—você está se lamentando; *tvam*—você; *prajñā-vādāḥ*—conversas eruditas; *ca*—também; *bhāṣase*—falando; *gata*—perdida; *asūn*—vida; *agata*—não passada; *asūn*—vida; *ca*—também; *na*—jamais; *anuśocanti*—lamentam-se; *paṇḍitāḥ*—os eruditos.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Embora fale palavras eruditas, você lamenta o que não é digno de pesar. Aqueles que são sábios não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos.**", "purport": "O Senhor de imediato assumiu a posição de mestre e admoestou o aluno, chamando-o, indiretamente, de tolo. O Senhor disse: você fala como um homem erudito, mas não sabe que aquele que é erudito—aquele que sabe o que é o corpo e o que é a alma—não se lamenta por nenhum estágio do corpo, nem na condição viva nem na condição morta. Como será explicado em capítulos posteriores, ficará claro que conhecimento significa conhecer a matéria, o espírito e o controlador de ambos. Arjuna alegava que os princípios religiosos deveriam receber maior importância do que a política ou a sociologia, mas não sabia que o conhecimento da matéria, da alma e do Supremo é ainda mais importante do que as fórmulas religiosas. E, por carecer desse conhecimento, ele não deveria ter-se apresentado como um homem muitíssimo erudito. Como não era de fato um homem muitíssimo erudito, lamentava-se, em consequência, por algo que não era digno de lamentação. O corpo nasce e está fadado a perecer hoje ou amanhã; portanto, o corpo não é tão importante quanto a alma. Aquele que sabe disso é, na verdade, erudito, e, para ele, não há motivo para lamentação, qualquer que seja a condição do corpo material."}
{"ref": "bg/2/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/12/", "verse_text": "na tv evāhaṁ jātu nāsaṁ\n\nna tvaṁ neme janādhipāḥ\n\nna caiva na bhaviṣyāmaḥ\n\nsarve vayam ataḥ param", "devanagari": "> न त्वेवाहं जातु नासं न त्वं नेमे जनाधिपाः ।\n> न चैव न भविष्यामः सर्वे वयमतः परम् ॥१२॥", "synonyms": "*na*—jamais; *tu*—mas; *eva*—certamente; *aham*—eu; *jātu*—tornar-se; *na*—jamais; *āsam*—existi; *na*—não é assim; *tvam*—você mesmo; *na*—nem; *ime*—todos estes; *janādhipāḥ*—reis; *na*—jamais; *ca*—também; *eva*—certamente; *na*—não desse modo; *bhaviṣyāmaḥ*—existiremos; *sarve*—todos nós; *vayam*—nós; *ataḥ param*—daqui em diante.", "translation": "**Jamais houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos estes reis; e tampouco no futuro algum de nós deixará de existir.**", "purport": "Nos *Vedas*, no Kaṭha Upaniṣad e também no Śvetāśvatara Upaniṣad, afirma-se que a Suprema Personalidade de Deus é o mantenedor de inumeráveis entidades vivas, conforme suas diferentes situações segundo o trabalho individual e a reação do trabalho. Essa Suprema Personalidade de Deus está também, mediante Suas porções plenárias, viva no coração de cada entidade viva. Apenas as pessoas santas que podem ver, dentro e fora, o mesmo Senhor Supremo, conseguem realmente alcançar a paz perfeita e eterna.\n\n\n\nnityo nityānāṁ cetanaś cetanānām\n\neko bahūnāṁ yo vidadhāti kāmān\n\ntam ātmasthaṁ ye 'nupaśyanti dhīrās\n\nteṣāṁ śāntiḥ śāśvatī netareṣām.\n\n\n\n(Kaṭha 2.2.13)\n\n\n\nA mesma verdade Védica dada a Arjuna é dada a todas as pessoas no mundo que se apresentam como muitíssimo eruditas, mas que, de fato, possuem apenas um pobre fundo de conhecimento. O Senhor diz claramente que Ele próprio, Arjuna e todos os reis reunidos no campo de batalha são eternamente seres individuais, e que o Senhor é eternamente o mantenedor das entidades vivas individuais, tanto em suas situações condicionadas quanto em suas situações liberadas. A Suprema Personalidade de Deus é a pessoa individual suprema, e Arjuna, o associado eterno do Senhor, e todos os reis ali reunidos são pessoas individuais e eternas. Não é que não tenham existido como indivíduos no passado, e não é que não permaneçam como pessoas eternas. A individualidade deles existiu no passado, e a individualidade deles continuará no futuro, sem interrupção. Portanto, não há motivo de lamentação para ninguém.\n\n\n\nA teoria māyāvādī, segundo a qual após a liberação a alma individual, separada pela cobertura de māyā ou ilusão, fundir-se-á no Brahman impessoal e perderá sua existência individual, não é apoiada aqui pelo Senhor Kṛṣṇa, a autoridade suprema. Tampouco se apoia aqui a teoria de que apenas pensamos em individualidade no estado condicionado. Kṛṣṇa diz claramente aqui que, também no futuro, a individualidade do Senhor e dos demais, como se confirma nos *Upaniṣads*, continuará eternamente. Esta declaração de Kṛṣṇa é autoritativa, pois Kṛṣṇa não pode estar sujeito à ilusão. Se a individualidade não fosse um fato, então Kṛṣṇa não a teria enfatizado tanto—mesmo para o futuro. O māyāvādī pode argumentar que a individualidade de que Kṛṣṇa fala não é espiritual, mas material. Mesmo aceitando o argumento de que a individualidade é material, então como se pode distinguir a individualidade de Kṛṣṇa? Kṛṣṇa afirma Sua individualidade no passado e confirma Sua individualidade também no futuro. Ele tem confirmado Sua individualidade de muitas maneiras, e o Brahman impessoal foi declarado subordinado a Ele. Kṛṣṇa manteve a individualidade espiritual o tempo todo; se for aceito como uma alma condicionada comum em consciência individual, então Seu *Bhagavad-gītā* não tem valor como escritura autoritativa. Um homem comum, com todos os quatro defeitos da fragilidade humana, é incapaz de ensinar aquilo que vale a pena ouvir. O *Gītā* está acima de tal literatura. Nenhum livro mundano se compara ao *Bhagavad-gītā*. Quando se aceita Kṛṣṇa como um homem comum, o *Gītā* perde toda a importância. O māyāvādī argumenta que a pluralidade mencionada neste verso é convencional e que se refere ao corpo. Mas, antes deste verso, tal concepção corporal já foi condenada. Após condenar a concepção corporal das entidades vivas, como teria sido possível Kṛṣṇa colocar novamente uma proposição convencional sobre o corpo? Por isso, a individualidade mantém-se em fundamentos espirituais e é, dessa forma, confirmada por grandes ācāryas como Śrī Rāmānuja e outros. Está claramente mencionado em muitos lugares no *Gītā* que esta individualidade espiritual é compreendida por aqueles que são devotos do Senhor. Aqueles que invejam Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus não têm acesso genuíno à grande literatura. A abordagem que o não-devoto faz dos ensinamentos do *Gītā* é algo como abelhas lambendo um frasco de mel. Não se pode ter o sabor do mel sem abrir o frasco. De modo semelhante, o misticismo do *Bhagavad-gītā* só pode ser compreendido pelos devotos, e ninguém mais pode prová-lo, como se afirma no Quarto Capítulo do livro. Tampouco o *Gītā* pode ser tocado por pessoas que invejam a própria existência do Senhor. Por conseguinte, a explicação māyāvādī do *Gītā* é uma das apresentações mais enganosas de toda a verdade. O Senhor Caitanya nos proibiu de ler comentários feitos pelos māyāvādīs e adverte que aquele que se entrega a tal compreensão da filosofia māyāvādī perde todo o poder de compreender o verdadeiro mistério do *Gītā*. Se a individualidade se referisse ao universo empírico, então não haveria necessidade de ensinamento por parte do Senhor. A pluralidade da alma individual e do Senhor é um fato eterno, e isso é confirmado pelos *Vedas*, como acima mencionado."}
{"ref": "bg/2/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/13/", "verse_text": "dehino 'smin yathā dehe\n\nkaumāraṁ yauvanaṁ jarā\n\ntathā dehāntara-prāptir\n\ndhīras tatra na muhyati", "devanagari": "> देहिनोऽस्मिन्यथा देहे कौमारं यौवनं जरा ।\n> तथा देहान्तरप्राप्तिर्धीरस्तत्र न मुह्यति ॥१३॥", "synonyms": "*dehinaḥ*—do incorporado; *asmin*—neste; *yathā*—como; *dehe*—no corpo; *kaumāram*—meninice; *yauvanam*—juventude; *jarā*—velhice; *tathā*—de modo semelhante; *dehāntara*—transferência do corpo; *prāptiḥ*—obtenção; *dhīraḥ*—o sóbrio; *tatra*—quanto a isso; *na*—jamais; *muhyati*—iludido.", "translation": "**Assim como a alma incorporada passa continuamente, neste corpo, da meninice à juventude e à velhice, de modo semelhante a alma passa para outro corpo na hora da morte. A alma autorrealizada não se confunde com tal mudança.**", "purport": "Visto que toda entidade viva é uma alma individual, cada uma muda seu corpo a cada instante, manifestando-se ora como criança, ora como jovem, ora como ancião. No entanto, a mesma alma espiritual está ali e não sofre nenhuma mudança. Esta alma individual, finalmente, muda de corpo na hora da morte e transmigra para outro corpo; e, uma vez que terá certamente outro corpo no próximo nascimento—seja material ou espiritual—, não havia razão para Arjuna lamentar-se em razão da morte, nem por Bhīṣma nem por Droṇa, com quem tanto se preocupava. Antes, deveria regozijar-se pelo fato de seus corpos estarem mudando de velhos para novos, rejuvenescendo-lhes a energia. Tais mudanças de corpo respondem pelas variedades de gozo ou sofrimento, conforme o trabalho de cada um na vida. Logo, Bhīṣma e Droṇa, por serem almas nobres, certamente teriam corpos espirituais em sua próxima vida, ou ao menos vida em corpos celestiais para gozo superior da existência material. Assim sendo, em qualquer dos casos, não havia motivo de lamentação.\n\n\n\nQualquer homem que tenha conhecimento perfeito da constituição da alma individual, da Superalma e da natureza—tanto material quanto espiritual—chama-se dhīra, ou homem dos mais sóbrios. Tal homem jamais se confunde com a mudança de corpos. A teoria māyāvādī da unidade da alma espiritual não pode ser admitida sob a alegação de que a alma espiritual não pode ser cortada em pedaços como uma porção fragmentária. Tal corte em diferentes almas individuais tornaria o Supremo divisível ou mutável, contra o princípio de que a Alma Suprema é imutável.\n\n\n\nComo se confirma no *Gītā*, as porções fragmentárias do Supremo existem eternamente (sanātana) e chamam-se kṣara; isto é, têm uma tendência a cair na natureza material. Estas porções fragmentárias são eternamente assim, e mesmo após a liberação a alma individual permanece a mesma—fragmentária. Mas, uma vez liberada, vive vida eterna em bem-aventurança e conhecimento com a Personalidade de Deus. A teoria do reflexo pode aplicar-se à Superalma, que está presente em cada corpo individual e é conhecida como o Paramātmā, o qual é diferente da entidade viva individual. Quando o céu se reflete na água, os reflexos representam tanto o sol como a lua e também as estrelas. As estrelas podem ser comparadas às entidades vivas, e o sol ou a lua, ao Senhor Supremo. A alma espiritual fragmentária individual é representada por Arjuna, e a Alma Suprema é a Personalidade de Deus Śrī Kṛṣṇa. Eles não estão no mesmo nível, como ficará evidente no início do Quarto Capítulo. Se Arjuna estivesse no mesmo nível de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa não fosse superior a Arjuna, então a relação de instrutor e instruído entre eles tornar-se-ia sem sentido. Se ambos estivessem iludidos pela energia ilusória (māyā), então não haveria necessidade de um ser o instrutor e o outro o instruído. Tal instrução seria inútil, pois, nas garras de māyā, ninguém pode ser um instrutor autoritativo. Em tais circunstâncias, admite-se que o Senhor Kṛṣṇa é o Senhor Supremo, superior em posição à entidade viva, Arjuna, que é uma alma esquecida iludida por māyā."}
{"ref": "bg/2/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/14/", "verse_text": "mātrā-sparśās tu kaunteya\n\nśītoṣṇa-sukha-duḥkha-dāḥ\n\nāgamāpāyino 'nityās\n\ntāṁs titikṣasva bhārata", "devanagari": "> मात्रास्पर्शास्तु कौन्तेय शीतोष्णसुखदुःखदाः ।\n> आगमापायिनोऽनित्यास्तांस्तितिक्षस्व भारत ॥१४॥", "synonyms": "*mātrā*—sensorial; *sparśāḥ*—percepção; *tu*—apenas; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *śīta*—inverno; *uṣṇa*—verão; *sukha*—felicidade; *duḥkha-daḥ*—causando dor; *āgama*—aparecendo; *apāyinaḥ*—desaparecendo; *anityāḥ*—não permanentes; *tān*—todos eles; *titikṣasva*—simplesmente procure tolerar; *bhārata*—ó descendente da dinastia Bhārata.", "translation": "**Ó filho de Kuntī, o aparecimento não permanente da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecer e desaparecer das estações de inverno e de verão. Surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e é preciso aprender a tolerá-los sem se perturbar.**", "purport": "No correto cumprimento do dever, é preciso aprender a tolerar os aparecimentos e desaparecimentos não permanentes da felicidade e da aflição. Conforme o preceito Védico, é preciso tomar banho de manhã cedo, mesmo durante o mês de Māgha (janeiro–fevereiro). Faz muito frio nessa época, mas, apesar disso, o homem que se submete aos princípios religiosos não hesita em tomar seu banho. De modo semelhante, a mulher não hesita em cozinhar na cozinha nos meses de maio e junho, a parte mais quente da estação de verão. É preciso executar o dever apesar das incômodas condições climáticas. Da mesma forma, lutar é o princípio religioso dos kṣatriyas e, embora se tenha de lutar com algum amigo ou parente, não se deve desviar do dever prescrito. É preciso seguir as regras e regulamentos prescritos dos princípios religiosos a fim de elevar-se ao plano do conhecimento, pois somente pelo conhecimento e pela devoção é que a pessoa pode libertar-se das garras de māyā (a ilusão).\n\n\n\nOs dois nomes pelos quais Arjuna é tratado também são significativos. Tratá-lo por Kaunteya denota suas grandes relações de sangue por parte da mãe; e tratá-lo por Bhārata denota sua grandeza por parte do pai. De ambos os lados supõe-se que ele tenha uma grande herança. Uma grande herança traz responsabilidade no tocante ao adequado cumprimento dos deveres; portanto, ele não pode esquivar-se de lutar."}
{"ref": "bg/2/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/15/", "verse_text": "yaṁ hi na vyathayanty ete\n\npuruṣaṁ puruṣarṣabha\n\nsama-duḥkha-sukhaṁ dhīraṁ\n\nso 'mṛtatvāya kalpate", "devanagari": "> यं हि न व्यथयन्त्येते पुरुषं पुरुषर्षभ ।\n> समदुःखसुखं धीरं सोऽमृतत्वाय कल्पते ॥१५॥", "synonyms": "*yam*—aquele que; *hi*—certamente; *na*—jamais; *vyathayanti*—são causa de aflição; *ete*—todos estes; *puruṣam*—a uma pessoa; *puruṣarṣabha*—o melhor entre os homens; *sama*—inalterado; *duḥkha*—aflição; *sukham*—felicidade; *dhīram*—paciente; *saḥ*—ele; *amṛtatvāya*—para a liberação; *kalpate*—é considerado elegível.", "translation": "**Ó melhor entre os homens [Arjuna], a pessoa que não se perturba pela felicidade e pela aflição e permanece firme em ambas é, sem dúvida, elegível para a liberação.**", "purport": "Quem quer que esteja firme em sua determinação para o estágio avançado da percepção espiritual e seja capaz de tolerar igualmente os embates da aflição e da felicidade é, certamente, uma pessoa elegível para a liberação. Na instituição varṇāśrama, o quarto estágio da vida, a saber, a ordem renunciada (sannyāsa), é uma situação penosa. Mas aquele que leva a sério a tarefa de tornar perfeita a sua vida certamente adota a ordem de sannyāsa, apesar de todas as dificuldades. As dificuldades em geral surgem por ter que se romperem os laços familiares e por ter que se abandonar o vínculo com a esposa e os filhos. Mas, se alguém for capaz de tolerar tais dificuldades, sua senda rumo à percepção espiritual estará certamente completa. De modo semelhante, no cumprimento dos deveres de Arjuna como kṣatriya, aconselha-se que ele persevere, mesmo que seja difícil lutar com seus familiares ou pessoas igualmente queridas. O Senhor Caitanya tomou sannyāsa aos vinte e quatro anos, e Seus dependentes—a esposa jovem e a mãe idosa—não tinham mais ninguém para cuidar deles. Ainda assim, por uma causa superior, Ele tomou sannyāsa e foi firme no cumprimento de deveres mais elevados. Esse é o caminho de alcançar a liberação do cativeiro material."}
{"ref": "bg/2/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/16/", "verse_text": "nāsato vidyate bhāvo\n\nnābhāvo vidyate sataḥ\n\nubhayor api dṛṣṭo 'ntas\n\ntv anayos tattva-darśibhiḥ", "devanagari": "> नासतो विद्यते भावो नाभावो विद्यते सतः ।\n> उभयोरपि दृष्टोऽन्तस्त्वनयोस्तत्त्वदर्शिभिः ॥१६॥", "synonyms": "*na*—jamais; *asataḥ*—do não existente; *vidyate*—há; *bhāvaḥ*—permanência; *na*—jamais; *abhāvaḥ*—qualidade mutável; *vidyate*—há; *sataḥ*—do eterno; *ubhayoḥ*—dos dois; *api*—na verdade; *dṛṣṭaḥ*—observada; *antaḥ*—conclusão; *tu*—mas; *anayoḥ*—deles; *tattva*—verdade; *darśibhiḥ*—pelos videntes.", "translation": "**Aqueles que são videntes da verdade concluíram que do não existente não há permanência, e do existente não há cessação. Os videntes chegaram a esta conclusão estudando a natureza de ambos.**", "purport": "Não há permanência do corpo mutável. Que o corpo está mudando a cada instante pelas ações e reações das diferentes células é admitido pela ciência médica moderna; e assim ocorrem o crescimento e a velhice no corpo. Mas a alma espiritual existe permanentemente, permanecendo a mesma apesar de todas as mudanças do corpo e da mente. Essa é a diferença entre matéria e espírito. Por natureza, o corpo está sempre mudando, e a alma é eterna. Esta conclusão é estabelecida por todas as classes de videntes da verdade, tanto impersonalistas quanto personalistas. No *Viṣṇu Purāṇa* afirma-se que Viṣṇu e Suas moradas têm existência espiritual autoluminosa: \"Jyotīṁṣi viṣṇur bhavanāni viṣṇuḥ.\" As palavras existente e não existente referem-se apenas ao espírito e à matéria. Esta é a versão de todos os videntes da verdade.\n\n\n\nEste é o início da instrução do Senhor às entidades vivas que estão confusas pela influência da ignorância. A remoção da ignorância envolve o restabelecimento da relação eterna entre o adorador e o adorável e a consequente compreensão da diferença entre as entidades vivas, partes integrantes, e a Suprema Personalidade de Deus. Pode-se compreender a natureza do Supremo mediante o estudo minucioso de si mesmo, sendo a diferença entre si mesmo e o Supremo entendida como a relação entre a parte e o todo. Nos Vedānta-sūtras, bem como no *Śrīmad-Bhāgavatam*, o Supremo é aceito como a origem de todas as emanações. Tais emanações são experimentadas em sequências naturais superior e inferior. As entidades vivas pertencem à natureza superior, como será revelado no Sétimo Capítulo. Embora não haja diferença entre a energia e o energético, o energético é aceito como o Supremo, e a energia ou natureza é aceita como subordinada. As entidades vivas, portanto, estão sempre subordinadas ao Senhor Supremo, como no caso do mestre e do servo, ou do mestre e do aluno. Tal conhecimento claro é impossível de compreender sob o feitiço da ignorância, e, para afastar tal ignorância, o Senhor ensina o *Bhagavad-gītā* para a iluminação de todas as entidades vivas em todos os tempos."}
{"ref": "bg/2/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/17/", "verse_text": "avināśi tu tad viddhi\n\nyena sarvam idaṁ tatam\n\nvināśam avyayasyāsya\n\nna kaścit kartum arhati", "devanagari": "> अविनाशि तु तद्विद्धि येन सर्वमिदं ततम् ।\n> विनाशमव्ययस्यास्य न कश्चित्कर्तुमर्हति ॥१७॥", "synonyms": "*avināśi*—imperecível; *tu*—mas; *tat*—aquilo; *viddhi*—saiba; *yena*—pelo qual; *sarvam*—todo o corpo; *idam*—este; *tatam*—penetrado; *vināśam*—destruição; *avyayasya*—do imperecível; *asya*—dele; *na kaścit*—ninguém; *kartum*—fazer; *arhati*—capaz.", "translation": "**Saiba que aquilo que penetra todo o corpo é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível.**", "purport": "Este verso explica mais claramente a verdadeira natureza da alma, que se difunde por todo o corpo. Qualquer pessoa pode entender o que se difunde por todo o corpo: é a consciência. Todos têm consciência das dores e dos prazeres do corpo, em parte ou no todo. Esta difusão da consciência limita-se ao próprio corpo. As dores e os prazeres de um corpo são desconhecidos a outro. Por conseguinte, todo e qualquer corpo é a corporificação de uma alma individual, e o sintoma da presença da alma é percebido como consciência individual. Esta alma é descrita como tendo o tamanho da décima milésima parte da extremidade superior de um fio de cabelo. O Śvetāśvatara Upaniṣad confirma:\n\n\n\nbālāgra-śata-bhāgasya śatadhā kalpitasya ca\n\nbhāgo jīvaḥ sa vijñeyaḥ sa cānantyāya kalpate.\n\n\n\n\"Quando a extremidade superior de um fio de cabelo é dividida em cem partes, e cada uma dessas partes é novamente dividida em cem partes, cada uma dessas partes é a medida da dimensão da alma espiritual.\" (Śvet. 5.9) De modo semelhante, no *Bhāgavatam* afirma-se a mesma versão:\n\n\n\nkeśāgra-śata-bhāgasya śatāṁśaḥ sādṛśātmakaḥ\n\njīvaḥ sūkṣma-svarupo 'yaṁ saṅkhyātīto hi cit-kaṇaḥ\n\n\n\n\"Há inumeráveis partículas de átomos espirituais, que são medidas como a décima milésima parte da extremidade superior de um fio de cabelo.\"\n\n\n\nPortanto, a partícula individual da alma espiritual é um átomo espiritual menor que os átomos materiais, e tais átomos são inumeráveis. Esta diminutíssima centelha espiritual é o princípio básico do corpo material, e a influência dessa centelha espiritual difunde-se por todo o corpo, assim como a influência do princípio ativo de algum medicamento se difunde por todo o corpo. Esta corrente da alma espiritual sente-se por todo o corpo como consciência, e essa é a prova da presença da alma. Qualquer leigo pode compreender que o corpo material sem consciência é um corpo morto, e essa consciência não pode ser reanimada no corpo por nenhum meio de administração material. Logo, a consciência não se deve a nenhuma quantidade de combinação material, mas à alma espiritual. No Muṇḍaka Upaniṣad, a medida da alma espiritual atômica é explicada com mais detalhes:\n\n\n\neṣo 'ṇurātmā cetasā veditavyo\n\nyasmin prāṇaḥ pañcadhā saṁviveśa\n\nprāṇaiś cittaṁ sarvam otam prajānāṁ\n\nyasmin viśuddhe vibhavaty eṣa ātmā.\n\n\n\n\"A alma é atômica em tamanho e pode ser percebida pela inteligência perfeita. Esta alma atômica flutua nos cinco tipos de ar [prāṇa, apāna, vyāna, samāna e udāna], situa-se dentro do coração e difunde sua influência por todo o corpo das entidades vivas incorporadas. Quando a alma é purificada da contaminação dos cinco tipos de ar material, sua influência espiritual se manifesta.\" (Muṇḍ. 3.1.9)\n\n\n\nO sistema de haṭha-yoga destina-se a controlar os cinco tipos de ar que envolvem a alma pura por meio de diferentes posturas sentadas—não para qualquer ganho material, mas para a liberação da diminuta alma do enredamento da atmosfera material.\n\n\n\nLogo, a constituição da alma atômica é admitida em toda a literatura Védica, e também é, de fato, sentida na experiência prática de qualquer homem são. Apenas o homem insano pode pensar nesta alma atômica como o onipenetrante Viṣṇu-tattva.\n\n\n\nA influência da alma atômica pode difundir-se por todo um determinado corpo. Conforme o Muṇḍaka Upaniṣad, esta alma atômica situa-se no coração de cada entidade viva, e, como a medida da alma atômica está além do poder de apreciação dos cientistas materiais, alguns deles afirmam tolamente que não há alma. A alma atômica individual está, definitivamente, ali no coração junto com a Superalma, e, assim, todas as energias do movimento corporal emanam dessa parte do corpo. Os corpúsculos que transportam o oxigênio dos pulmões obtêm energia da alma. Quando a alma se afasta dessa posição, a atividade do sangue, gerando fusão, cessa. A ciência médica aceita a importância dos corpúsculos vermelhos, mas não pode constatar que a fonte da energia é a alma. A ciência médica, contudo, admite que o coração é a sede de todas as energias do corpo.\n\n\n\nTais partículas atômicas do todo espiritual são comparadas às moléculas da luz solar. Na luz solar há inumeráveis moléculas radiantes. De modo semelhante, as partes fragmentárias do Senhor Supremo são centelhas atômicas dos raios do Senhor Supremo, chamadas pelo nome de prabhā, ou energia superior. Nem o conhecimento Védico nem a ciência moderna negam a existência da alma espiritual no corpo, e a ciência da alma é descrita explicitamente no *Bhagavad-gītā* pela própria Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/2/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/18/", "verse_text": "antavanta ime dehā\n\nnityasyoktāḥ śarīriṇaḥ\n\nanāśino 'prameyasya\n\ntasmād yudhyasva bhārata", "devanagari": "> अन्तवन्त इमे देहा नित्यस्योक्ताः शरीरिणः ।\n> अनाशिनोऽप्रमेयस्य तस्माद्युध्यस्व भारत ॥१८॥", "synonyms": "*antavantaḥ*—perecíveis; *ime*—todos estes; *dehāḥ*—corpos materiais; *nityasya*—eterna em existência; *uktāḥ*—assim se diz; *sarīriṇaḥ*—das almas incorporadas; *anāśinaḥ*—jamais a serem destruídas; *aprameyasya*—imensurável; *tasmāt*—portanto; *yudhyasva*—lute; *bhārata*—ó descendente de Bharata.", "translation": "**Apenas o corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável e eterna está sujeito à destruição; portanto, lute, ó descendente de Bharata.**", "purport": "O corpo material é, por natureza, perecível. Pode perecer imediatamente, ou pode fazê-lo após cem anos. É apenas uma questão de tempo. Não há possibilidade de mantê-lo indefinidamente. Mas a alma espiritual é tão diminuta que não pode ser sequer vista por um inimigo, quanto mais ser morta. Como mencionado no verso anterior, ela é tão pequena que ninguém pode ter ideia de como medir sua dimensão. Logo, de ambos os pontos de vista, não há motivo de lamentação, pois a entidade viva, tal como é, não pode ser morta, nem o corpo material, que não pode ser preservado por muito tempo, pode ser permanentemente protegido. A diminuta partícula do todo espiritual obtém este corpo material conforme seu trabalho, e, por isso, deve-se utilizar a observância dos princípios religiosos. Nos Vedānta-sūtras, a entidade viva é qualificada como luz porque é parte integrante da luz suprema. Assim como a luz solar mantém todo o universo, a luz da alma mantém este corpo material. Tão logo a alma espiritual sai deste corpo material, o corpo começa a decompor-se; portanto, é a alma espiritual que mantém este corpo. O corpo em si não tem importância. Aconselhou-se Arjuna a lutar e sacrificar o corpo material pela causa da religião."}
{"ref": "bg/2/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/19/", "verse_text": "ya enaṁ vetti hantāraṁ\n\nyaś cainaṁ manyate hatam\n\nubhau tau na vijānīto\n\nnāyaṁ hanti na hanyate", "devanagari": "> य एनं वेत्ति हन्तारं यश्चैनं मन्यते हतम् ।\n> उभौ तौ न विजानीतो नायं हन्ति न हन्यते ॥१९॥", "synonyms": "*yaḥ*—qualquer um; *enam*—este; *vetti*—conhece; *hantāram*—o matador; *yaḥ*—qualquer um; *ca*—também; *enam*—este; *manyate*—pensa; *hatam*—morto; *ubhau*—ambos; *tau*—eles; *na*—jamais; *vijānītaḥ*—em conhecimento; *na*—jamais; *ayam*—este; *hanti*—mata; *na*—nem; *hanyate*—é morto.", "translation": "**Aquele que pensa que a entidade viva é a matadora ou que ela é morta não compreende. Aquele que está em conhecimento sabe que o eu não mata nem é morto.**", "purport": "Quando uma entidade viva incorporada é ferida por armas fatais, deve-se saber que a entidade viva dentro do corpo não é morta. A alma espiritual é tão pequena que é impossível matá-la com qualquer arma material, como fica evidente nos versos anteriores. Tampouco a entidade viva é matável devido a sua constituição espiritual. O que é morto, ou supostamente morto, é apenas o corpo. Isto, contudo, não estimula em absoluto a matança do corpo. O preceito Védico é: \"māhiṁsyāt sarva-bhūtāni\"—jamais cometa violência contra ninguém. Tampouco a compreensão de que a entidade viva não é morta encoraja a matança de animais. Matar o corpo de quem quer que seja sem autorização é abominável e é punível tanto pela lei do estado como pela lei do Senhor. Arjuna, contudo, está sendo ocupado em matar pelo princípio da religião, e não por capricho."}
{"ref": "bg/2/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/20/", "verse_text": "na jāyate mriyate vā kadācin\n\nnāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ\n\najo nityaḥ śāśvato 'yaṁ purāṇo\n\nna hanyate hanyamāne śarīre", "devanagari": "> न जायते म्रियते वा कदाचिन्\n> नायं भूत्वा भविता वा न भूयः ।\n> अजो नित्यः शाश्वतोऽयं पुराणो\n> न हन्यते हन्यमाने शरीरे ॥२०॥", "synonyms": "*na*—jamais; *jāyate*—nasce; *mriyate*—morre; *vā*—ou; *kadācit*—em momento algum (passado, presente ou futuro); *na*—jamais; *ayam*—esta; *bhūtvā*—passou a existir; *bhavitā*—passará a ser; *vā*—ou; *na*—não; *bhūyaḥ*—ou passou a ser; *ajaḥ*—não nascida; *nityaḥ*—eterna; *śāśvataḥ*—permanente; *ayam*—esta; *purāṇaḥ*—a mais antiga; *na*—jamais; *hanyate*—é morta; *hanyamāne*—quando se mata; *śarīre*—o corpo.", "translation": "**Para a alma jamais há nascimento ou morte. Tampouco, tendo existido uma vez, deixa de existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente, imortal e primordial. Ela não é morta quando se mata o corpo.**", "purport": "Qualitativamente, a pequena parte fragmentária atômica do Espírito Supremo é una com o Supremo. Não passa por mudanças como o corpo. Às vezes, a alma é chamada de fixa, ou kūṭastha. O corpo está sujeito a seis tipos de transformações. Toma seu nascimento no útero do corpo da mãe, permanece por algum tempo, cresce, produz alguns efeitos, gradualmente declina e, por fim, desvanece-se no esquecimento. A alma, contudo, não passa por tais mudanças. A alma não nasce, mas, por aceitar um corpo material, o corpo toma seu nascimento. A alma não nasce ali, e a alma não morre. Tudo o que tem nascimento também tem morte. E, como a alma não tem nascimento, não tem, por conseguinte, passado, presente nem futuro. Ela é eterna, sempre existente e primordial—isto é, não há na história traço algum de seu vir a existir. Sob a impressão do corpo, buscamos a história do nascimento, etc., da alma. A alma em momento algum envelhece, como o corpo. O suposto ancião, portanto, sente-se com o mesmo espírito que tinha em sua infância ou juventude. As mudanças do corpo não afetam a alma. A alma não se deteriora como uma árvore, nem como nada material. Tampouco a alma tem subprodutos. Os subprodutos do corpo, a saber, os filhos, são também almas individuais distintas; e, por causa do corpo, parecem filhos de um determinado homem. O corpo se desenvolve por causa da presença da alma, mas a alma não tem ramificações nem mudança. Por conseguinte, a alma está livre das seis mudanças do corpo.\n\n\n\nNo Kaṭha Upaniṣad encontramos também uma passagem semelhante, que diz:\n\n\n\nna jāyate mriyate vā vipaścin\n\nnāyaṁ kutaścin na vibhūva kaścit\n\najo nityaḥ śāśvato 'yaṁ purāṇo\n\nna hanyate hanyamāne śarīre.\n\n\n\n(Kaṭha 1.2.18)\n\n\n\nO sentido e o significado deste verso são os mesmos do *Bhagavad-gītā*, mas aqui, neste verso, há uma palavra especial, vipaścit, que significa erudito ou em conhecimento.\n\n\n\nA alma é plena de conhecimento, ou plena, sempre, de consciência. Por conseguinte, a consciência é o sintoma da alma. Mesmo que não se encontre a alma dentro do coração, onde ela se situa, ainda assim pode-se compreender a presença da alma simplesmente pela presença da consciência. Às vezes não vemos o sol no céu por causa das nuvens, ou por algum outro motivo, mas a luz do sol está sempre ali, e estamos convictos de que, por isso, é dia. Tão logo há um pouco de luz no céu, no início da manhã, podemos compreender que o sol está no céu. De modo semelhante, visto que há alguma consciência em todos os corpos—seja humano ou animal—, podemos compreender a presença da alma. Esta consciência da alma é, contudo, diferente da consciência do Supremo, pois a consciência suprema é todo-conhecimento—do passado, presente e futuro. A consciência da alma individual tende a ser esquecidiça. Quando se esquece de sua verdadeira natureza, recebe educação e iluminação a partir das lições superiores de Kṛṣṇa. Mas Kṛṣṇa não é como a alma esquecidiça. Se fosse, os ensinamentos do *Bhagavad-gītā* dados por Kṛṣṇa seriam inúteis.\n\n\n\nHá dois tipos de almas—a saber, a alma partícula diminuta (aṇu-ātmā) e a Superalma (a vibhu-ātmā). Isso também é confirmado no Kaṭha Upaniṣad da seguinte maneira:\n\n\n\naṇor aṇīyān mahato mahīyān\n\nātmāsya jantor nihito guhāyām\n\ntam akratuḥ paśyati vīta-śoko\n\ndhātuḥ prasādān mahimānam ātmanaḥ\n\n\n\n(Kaṭha 1.2.20)\n\n\n\n\"Tanto a Superalma [Paramātmā] como a alma atômica [jīvātmā] estão situadas na mesma árvore do corpo, dentro do mesmo coração do ser vivo, e somente aquele que se libertou de todos os desejos materiais bem como das lamentações pode, pela graça do Supremo, compreender as glórias da alma.\" Kṛṣṇa é também a fonte da Superalma, como será revelado nos capítulos seguintes, e Arjuna é a alma atômica, esquecida de sua verdadeira natureza; por isso, requer ser iluminado por Kṛṣṇa, ou por Seu representante genuíno (o mestre espiritual)."}
{"ref": "bg/2/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/21/", "verse_text": "vedāvināśinaṁ nityaṁ\n\nya enam ajam avyayam\n\nkathaṁ sa puruṣaḥ pārtha\n\nkaṁ ghātayati hanti kam", "devanagari": "> वेदाविनाशिनं नित्यं य एनमजमव्ययम् ।\n> कथं स पुरुषः पार्थ कं घातयति हन्ति कम् ॥२१॥", "synonyms": "*veda*—em conhecimento; *avināśinam*—indestrutível; *nityam*—sempre; *yaḥ*—aquele que; *enam*—esta (alma); *ajam*—não nascida; *avyayam*—imutável; *katham*—como; *saḥ*—ele; *puruṣaḥ*—pessoa; *pārtha*—ó Pārtha (Arjuna); *kam*—a quem; *ghātayati*—faz matar; *hanti*—mata; *kam*—a quem.", "translation": "**Ó Pārtha, como pode uma pessoa que sabe que a alma é indestrutível, não nascida, eterna e imutável matar alguém ou fazer com que alguém mate?**", "purport": "Tudo tem sua devida utilidade, e o homem que se situa em pleno conhecimento sabe como e onde aplicar uma coisa para sua devida utilidade. De modo semelhante, a violência também tem sua utilidade, e como aplicá-la cabe à pessoa em conhecimento. Embora o juiz de paz aplique pena capital a uma pessoa condenada por homicídio, não se pode culpar o juiz, pois ele ordena a violência contra outra pessoa segundo os códigos da justiça. No Manu-saṁhitā, livro de leis para a humanidade, sustenta-se que um assassino deve ser condenado à morte para que, em sua próxima vida, não tenha de sofrer pelo grande pecado que cometeu. Por isso, a punição do rei de enforcar um assassino é, na verdade, benéfica. De modo semelhante, quando Kṛṣṇa ordena a luta, deve-se concluir que a violência é em prol da justiça suprema; assim sendo, Arjuna deve seguir a instrução, sabendo bem que tal violência, cometida no ato de lutar por Kṛṣṇa, não é violência alguma, pois, em todo caso, o homem, ou melhor, a alma, não pode ser morta; logo, para a administração da justiça, permite-se a chamada violência. Uma operação cirúrgica não se destina a matar o paciente, mas a curá-lo. Por conseguinte, a luta a ser executada por Arjuna sob a instrução de Kṛṣṇa é com pleno conhecimento; logo, não há possibilidade alguma de reação pecaminosa."}
{"ref": "bg/2/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/22/", "verse_text": "vāsāṁsi jīrṇāni yathā vihāya\n\nnavāni gṛhṇāti naro 'parāṇi\n\ntathā śarīrāṇi vihāya jīrṇāny\n\nanyāni saṁyāti navāni dehī", "devanagari": "> वासांसि जीर्णानि यथा विहाय\n> नवानि गृह्णाति नरोऽपराणि ।\n> तथा शरीराणि विहाय जीर्णा-\n> न्यन्यानि संयाति नवानि देही ॥२२॥", "synonyms": "*vāsāṁsi*—roupas; *jīrṇāni*—velhas e gastas; *yathā*—assim como; *vihāya*—abandonando; *navāni*—roupas novas; *gṛhṇāti*—aceita; *naraḥ*—um homem; *aparāṇi*—outras; *tathā*—da mesma maneira; *śarīrāṇi*—corpos; *vihāya*—abandonando; *jīrṇāni*—velhos e inúteis; *anyāni*—diferentes; *saṁyāti*—na verdade aceita; *navāni*—conjuntos novos; *dehī*—o incorporado.", "translation": "**Assim como uma pessoa veste roupas novas, abandonando as velhas, de modo semelhante, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis.**", "purport": "A mudança de corpo pela alma individual atômica é um fato aceito. Mesmo alguns dos cientistas modernos que não creem na existência da alma, mas que, ao mesmo tempo, não conseguem explicar a fonte de energia do coração, têm de aceitar as contínuas mudanças do corpo, que aparecem da infância para a meninice e da meninice para a juventude e, novamente, da juventude para a velhice. Da velhice, a mudança transfere-se para outro corpo. Isso já foi explicado no verso anterior.\n\n\n\nA transferência da alma individual atômica para outro corpo torna-se possível pela graça da Superalma. A Superalma satisfaz o desejo da alma atômica como um amigo satisfaz o desejo de outro. Os *Vedas*, como o Muṇḍaka Upaniṣad, bem como o Śvetāśvatara Upaniṣad, comparam a alma e a Superalma a duas aves amigas pousadas na mesma árvore. Uma das aves (a alma individual atômica) está comendo o fruto da árvore, e a outra ave (Kṛṣṇa) simplesmente observa Seu amigo. Destas duas aves—embora sejam iguais em qualidade—uma está cativada pelos frutos da árvore material, enquanto a outra está apenas testemunhando as atividades de Seu amigo. Kṛṣṇa é a ave que testemunha, e Arjuna é a ave que come. Embora sejam amigos, um ainda é o mestre e o outro o servo. O esquecimento dessa relação por parte da alma atômica é a causa de ela mudar de posição de uma árvore para outra ou de um corpo para outro. A alma jīva está lutando muito intensamente sobre a árvore do corpo material, mas, tão logo concorda em aceitar a outra ave como o supremo mestre espiritual—como Arjuna concordou em fazer ao render-se voluntariamente a Kṛṣṇa para receber instrução—, a ave subordinada imediatamente se livra de todas as lamentações. Tanto o Kaṭha Upaniṣad quanto o Śvetāśvatara Upaniṣad confirmam isso:\n\n\n\nsamāne vṛkṣe puruṣo nimagno\n\n'nīśayā śocati muhyamānaḥ\n\njuṣṭaṁ yadā paśyaty anyam īśam asya\n\nmahimānam iti vīta-śokaḥ\n\n\n\n\"Embora as duas aves estejam na mesma árvore, a ave que come está plenamente absorta em ansiedade e tristeza como desfrutadora dos frutos da árvore. Mas, se de algum modo voltar o rosto para seu amigo, que é o Senhor, e conhecer Suas glórias—imediatamente a ave sofredora liberta-se de todas as ansiedades.\" Arjuna agora voltou o rosto para seu amigo eterno, Kṛṣṇa, e está compreendendo dEle o *Bhagavad-gītā*. E, assim, ouvindo de Kṛṣṇa, pode compreender as glórias supremas do Senhor e libertar-se da lamentação.\n\n\n\nAqui, o Senhor aconselha Arjuna a não se lamentar pela mudança corporal de seu velho avô e de seu mestre. Antes, deveria ficar feliz por matar-lhes os corpos no combate justo, para que se purificassem de imediato de todas as reações de várias atividades corporais. Aquele que entrega sua vida no altar do sacrifício, ou no devido campo de batalha, é imediatamente purificado das reações corporais e promovido a um status superior de vida. Logo, não havia motivo para a lamentação de Arjuna."}
{"ref": "bg/2/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/23/", "verse_text": "nainaṁ chindanti śastrāṇi\n\nnainaṁ dahati pāvakaḥ\n\nna cainaṁ kledayanty āpo\n\nna śoṣayati mārutaḥ", "devanagari": "> नैनं छिन्दन्ति शस्त्राणि नैनं दहति पावकः ।\n> न चैनं क्लेदयन्त्यापो न शोषयति मारुतः ॥२३॥", "synonyms": "*na*—jamais; *enam*—a esta alma; *chindanti*—podem cortar em pedaços; *śastrāṇi*—todas as armas; *na*—jamais; *enam*—a esta alma; *dahati*—queima; *pāvakaḥ*—fogo; *na*—jamais; *ca*—também; *enam*—a esta alma; *kledayanti*—molham; *āpaḥ*—água; *na*—jamais; *śoṣayati*—seca; *mārutaḥ*—vento.", "translation": "**A alma jamais pode ser cortada em pedaços por arma alguma, nem queimada pelo fogo, nem molhada pela água, nem seca pelo vento.**", "purport": "Todos os tipos de armas, espadas, chamas, chuvas, tornados, etc., são incapazes de matar a alma espiritual. Parece que havia muitos tipos de armas feitas de terra, água, ar, éter, etc., além das modernas armas de fogo. Mesmo as armas nucleares da era moderna classificam-se como armas de fogo, mas, antigamente, havia outras armas feitas de todos os diferentes tipos de elementos materiais. As armas de fogo eram neutralizadas por armas de água, agora desconhecidas da ciência moderna. Tampouco os cientistas modernos têm conhecimento das armas de tornado. Não obstante, a alma jamais pode ser cortada em pedaços nem aniquilada por nenhum número de armas, qualquer que seja o engenho científico.\n\n\n\nTampouco foi alguma vez possível separar as almas individuais da Alma original. O māyāvādī, contudo, não pode descrever como a alma individual evoluiu da ignorância e, em consequência, foi coberta pela energia ilusória. Por serem almas individuais atômicas (sanātana) eternamente, elas tendem a ser cobertas pela energia ilusória, e, assim, separam-se da associação do Senhor Supremo, assim como as centelhas do fogo, embora unas em qualidade com o fogo, tendem a se extinguir quando saem do fogo. No Varāha Purāṇa, as entidades vivas são descritas como partes integrantes separadas do Supremo. São eternamente assim, segundo o *Bhagavad-gītā* também. Logo, mesmo após libertar-se da ilusão, a entidade viva permanece com identidade separada, como fica evidente nos ensinamentos do Senhor a Arjuna. Arjuna libertou-se pelo conhecimento recebido de Kṛṣṇa, mas jamais se tornou uno com Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/24/", "verse_text": "acchedyo 'yam adāhyo 'yam\n\nakledyo 'śoṣya eva ca\n\nnityaḥ sarva-gataḥ sthāṇur\n\nacalo 'yaṁ sanātanaḥ", "devanagari": "> अच्छेद्योऽयमदाह्योऽयमक्लेद्योऽशोष्य एव च ।\n> नित्यः सर्वगतः स्थाणुरचलोऽयं सनातनः ॥२४॥", "synonyms": "*acchedyaḥ*—inquebrantável; *ayam*—esta alma; *adāhyaḥ*—não pode ser queimada; *ayam*—esta alma; *akledyaḥ*—insolúvel; *aśoṣyaḥ*—não pode ser seca; *eva*—certamente; *ca*—e; *nityaḥ*—perpétua; *sarva-gataḥ*—onipenetrante; *sthāṇuḥ*—imutável; *acalaḥ*—imóvel; *ayam*—esta alma; *sanātanaḥ*—eternamente a mesma.", "translation": "**Esta alma individual é inquebrantável e insolúvel, e não pode ser nem queimada nem seca. Ela é perpétua, onipenetrante, imutável, imóvel e eternamente a mesma.**", "purport": "Todas estas qualificações da alma atômica provam, sem dúvida, que a alma individual é eternamente a partícula atômica do todo espiritual, e ela permanece o mesmo átomo eternamente, sem mudança. A teoria do monismo é muito difícil de aplicar neste caso, pois jamais se espera que a alma individual se torne una de modo homogêneo. Após a liberação da contaminação material, a alma atômica pode preferir permanecer como centelha espiritual nos raios refulgentes da Suprema Personalidade de Deus, mas as almas inteligentes ingressam nos planetas espirituais para se associar com a Personalidade de Deus.\n\n\n\nA palavra sarva-gataḥ (onipenetrante) é significativa, pois não há dúvida de que as entidades vivas estão por toda a criação de Deus. Vivem em terra, na água, no ar, dentro da terra e mesmo no fogo. A crença de que são esterilizadas no fogo é inaceitável, pois aqui se afirma claramente que a alma não pode ser queimada pelo fogo. Por conseguinte, não há dúvida de que há entidades vivas também no planeta Sol com corpos adequados para viver lá. Se o globo solar fosse desabitado, então a palavra sarva-gataḥ—que vivem em toda parte—tornar-se-ia sem sentido."}
{"ref": "bg/2/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/25/", "verse_text": "avyakto 'yam acintyo 'yam\n\navikāryo 'yam ucyate\n\ntasmād evaṁ viditvainaṁ\n\nnānuśocitum arhasi", "devanagari": "> अव्यक्तोऽयमचिन्त्योऽयमविकार्योऽयमुच्यते ।\n> तस्मादेवं विदित्वैनं नानुशोचितुमर्हसि ॥२५॥", "synonyms": "*avyaktaḥ*—invisível; *ayam*—esta alma; *acintyaḥ*—inconcebível; *ayam*—esta alma; *avikāryaḥ*—imutável; *ayam*—esta alma; *ucyate*—diz-se; *tasmāt*—portanto; *evam*—assim; *viditvā*—sabendo-o bem; *enam*—esta alma; *na*—não; *anuśocitum*—lamentar-se de; *arhasi*—merece.", "translation": "**Diz-se que a alma é invisível, inconcebível, imutável e imutável. Sabendo disso, você não deve lamentar-se pelo corpo.**", "purport": "Como descrito anteriormente, a magnitude da alma é tão pequena para nosso cálculo material que ela não pode ser vista nem mesmo pelo mais potente microscópio; portanto, é invisível. No que diz respeito à existência da alma, ninguém pode estabelecer sua existência experimentalmente além da prova da śruti, ou sabedoria Védica. Temos de aceitar esta verdade, pois não há outra fonte para compreender a existência da alma, embora ela seja um fato pela percepção. Há muitas coisas que temos de aceitar apenas com base em autoridade superior. Ninguém pode negar a existência de seu pai, com base na autoridade da mãe. Não há outra fonte para compreender a identidade do pai senão pela autoridade da mãe. De modo semelhante, não há outra fonte para compreender a alma senão pelo estudo dos *Vedas*. Em outras palavras, a alma é inconcebível pelo conhecimento experimental humano. A alma é consciência e consciente—essa também é a afirmação dos *Vedas*, e temos de aceitá-la. Diferentemente das mudanças corporais, não há mudança alguma na alma. Sendo eternamente imutável, a alma permanece atômica em comparação à infinita Alma Suprema. A Alma Suprema é infinita, e a alma atômica é infinitesimal. Por conseguinte, a alma infinitesimal, sendo imutável, jamais pode tornar-se igual à alma infinita, ou Suprema Personalidade de Deus. Esta concepção é repetida nos *Vedas* de diferentes maneiras justamente para confirmar a estabilidade da concepção da alma. A repetição de algo é necessária a fim de que entendamos o assunto inteiramente, sem erro."}
{"ref": "bg/2/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/26/", "verse_text": "atha cainaṁ nitya-jātaṁ\n\nnityaṁ vā manyase mṛtam\n\ntathāpi tvaṁ mahā-bāho\n\nnainaṁ śocitum arhasi", "devanagari": "> अथ चैनं नित्यजातं नित्यं वा मन्यसे मृतम् ।\n> तथापि त्वं महाबाहो नैवं शोचितुमर्हसि ॥२६॥", "synonyms": "*atha*—se, contudo; *ca*—também; *enam*—esta alma; *nitya-jātam*—sempre nascida; *nityam*—perpetuamente; *vā*—ou; *manyase*—assim pensa; *mṛtam*—morta; *tathāpi*—ainda assim; *tvam*—você; *mahā-bāho*—ó poderoso de braços; *na*—jamais; *enam*—pela alma; *śocitum*—lamentar-se; *arhasi*—merece.", "translation": "**Se, contudo, você pensa que a alma nasce perpetuamente e sempre morre, ainda assim você não tem motivo para lamentar-se, ó poderoso de braços.**", "purport": "Há sempre uma classe de filósofos, quase semelhantes aos budistas, que não creem na existência separada da alma além do corpo. Quando o Senhor Kṛṣṇa proferiu o *Bhagavad-gītā*, parece que tais filósofos existiam, e eram conhecidos como os Lokāyatikas e os Vaibhāṣikas. Esses filósofos sustentavam que os sintomas vitais, ou alma, surgem em uma certa condição madura de combinação material. O cientista materialista moderno e os filósofos materialistas pensam de modo semelhante. Segundo eles, o corpo é uma combinação de elementos físicos, e em certo estágio os sintomas vitais desenvolvem-se pela interação dos elementos físicos e químicos. A ciência da antropologia baseia-se nesta filosofia. Atualmente, muitas pseudo-religiões—que estão se tornando moda na América—aderem também a esta filosofia, bem como às seitas budistas niilistas e não devocionais.\n\n\n\nMesmo que Arjuna não acreditasse na existência da alma—como na filosofia Vaibhāṣika—, ainda assim não haveria motivo para lamentação. Ninguém se lamenta pela perda de certa quantidade de produtos químicos e deixa de cumprir o seu dever prescrito. Por outro lado, na ciência moderna e na guerra científica, tantas toneladas de produtos químicos são desperdiçadas para conquistar a vitória sobre o inimigo. Segundo a filosofia Vaibhāṣika, a suposta alma, ou ātmā, desvanece-se com a deterioração do corpo. Logo, em qualquer caso, quer Arjuna aceitasse a conclusão Védica de que existe uma alma atômica, quer não acreditasse na existência da alma, ele não tinha motivo para lamentar-se. Segundo essa teoria, visto que tantas entidades vivas surgem da matéria a cada momento e tantas são destruídas a cada momento, não há necessidade de afligir-se com tal incidência. Contudo, como ele não estava arriscando o renascimento da alma, Arjuna não tinha motivo de temer ser afetado por reações pecaminosas devido a matar seu avô e seu mestre. Mas, ao mesmo tempo, Kṛṣṇa, sarcasticamente, dirigiu-se a Arjuna como mahā-bāhu, poderoso de braços, pois Ele, ao menos, não aceitava a teoria dos Vaibhāṣikas, que põe de lado a sabedoria Védica. Como kṣatriya, Arjuna pertencia à cultura Védica, e cabia a ele continuar a seguir os princípios dela."}
{"ref": "bg/2/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/27/", "verse_text": "jātasya hi dhruvo mṛtyur\n\ndhruvaṁ janma mṛtasya ca\n\ntasmād aparihārye 'rthe\n\nna tvaṁ śocitum arhasi", "devanagari": "> जातस्य हि ध्रुवो मृत्युर्ध्रुवं जन्म मृतस्य च ।\n> तस्मादपरिहार्येऽर्थे न त्वं शोचितुमर्हसि ॥२७॥", "synonyms": "*jātasya*—daquele que nasceu; *hi*—certamente; *dhruvaḥ*—um fato; *mṛtyuḥ*—morte; *dhruvam*—também é um fato; *janma*—nascimento; *mṛtasya*—do morto; *ca*—também; *tasmāt*—portanto; *aparihārye*—do que é inevitável; *arthe*—no que diz respeito a; *na*—não; *tvam*—você; *śocitum*—lamentar-se; *arhasi*—merece.", "translation": "**Para aquele que nasceu, a morte é certa; e para aquele que está morto, o nascimento é certo. Portanto, no inevitável cumprimento de seu dever, você não deve lamentar-se.**", "purport": "É preciso nascer conforme as próprias atividades de vida. E, depois de concluído um período de atividades, é preciso morrer para nascer para o seguinte. Dessa maneira, o ciclo de nascimento e morte gira, um após o outro, sem liberação. Este ciclo de nascimento e morte, contudo, não apoia o assassinato, a matança e a guerra desnecessários. Mas, ao mesmo tempo, a violência e a guerra são fatores inevitáveis na sociedade humana para manter a lei e a ordem.\n\n\n\nA Batalha de Kurukṣetra, sendo a vontade do Supremo, foi um evento inevitável, e lutar pela causa correta é o dever de um kṣatriya. Por que deveria ele temer ou afligir-se com a morte de seus parentes, visto que estava cumprindo seu devido dever? Não merecia infringir a lei, ficando assim sujeito às reações de atos pecaminosos, dos quais tanto temia. Ao evitar o cumprimento de seu devido dever, não conseguiria impedir a morte de seus parentes, e, em consequência da escolha do caminho errado de ação, ele se degradaria."}
{"ref": "bg/2/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/28/", "verse_text": "avyaktādīni bhūtāni\n\nvyakta-madhyāni bhārata\n\navyakta-nidhanāny eva\n\ntatra kā paridevanā", "devanagari": "> अव्यक्तादीनि भूतानि व्यक्तमध्यानि भारत ।\n> अव्यक्तनिधनान्येव तत्र का परिदेवना ॥२८॥", "synonyms": "*avyaktādīni*—no princípio não manifestos; *bhūtāni*—todos os que são criados; *vyakta*—manifestos; *madhyāni*—no meio; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *avyakta*—não manifestos; *nidhanāni*—todos os que são aniquilados; *eva*—assim é tudo; *tatra*—portanto; *kā*—que; *paridevanā*—lamentação.", "translation": "**Todos os seres criados são imanifestos em seu princípio, manifestos em seu estado intermediário e novamente imanifestos quando são aniquilados. Que necessidade há, pois, de lamentação?**", "purport": "Aceitando que há duas classes de filósofos—uma que crê na existência da alma e outra que não crê na existência da alma—, não há motivo de lamentação em qualquer dos casos. Os incrédulos quanto à existência da alma são chamados ateístas pelos seguidores da sabedoria Védica. No entanto, mesmo que, em prol do argumento, aceitemos a teoria ateística, ainda assim não há motivo de lamentação. À parte a existência separada da alma, os elementos materiais permanecem imanifestos antes da criação. Deste estado sutil de imanifestação surge a manifestação, assim como do éter se gera o ar; do ar, gera-se o fogo; do fogo, gera-se a água; e da água a terra se manifesta. Da terra, ocorrem muitas variedades de manifestações. Considere, por exemplo, um grande arranha-céu manifestado a partir da terra. Quando é desmontado, a manifestação volta a ser imanifesta e, no estágio último, permanece como átomos. A lei da conservação de energia permanece, mas, com o tempo, as coisas se manifestam e desmanifestam—essa é a diferença. Que motivo há, então, para lamentação, seja no estágio da manifestação, seja no da imanifestação? De um modo ou de outro, mesmo no estágio imanifesto, as coisas não se perdem. Tanto no princípio quanto no fim, todos os elementos permanecem imanifestos, e somente no meio é que se manifestam, e isso não faz nenhuma diferença material real.\n\n\n\nE, se aceitarmos a conclusão Védica, conforme se afirma no *Bhagavad-gītā* (antavanta ime dehāḥ), de que estes corpos materiais são perecíveis no devido tempo (nityasyoktāḥ śarīriṇaḥ), mas que a alma é eterna, então devemos sempre lembrar que o corpo é como uma roupa; logo, por que lamentar a troca de uma roupa? O corpo material não tem existência factual em relação à alma eterna. É algo como um sonho. Em um sonho, podemos pensar que voamos no céu, ou que estamos sentados em uma quadriga como rei, mas, ao acordar, vemos que não estamos no céu nem sentados na quadriga. A sabedoria Védica encoraja a autorrealização com base na inexistência do corpo material. Por conseguinte, em qualquer dos casos, quer se creia na existência da alma, quer não se creia na existência da alma, não há motivo de lamentação pela perda do corpo."}
{"ref": "bg/2/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/29/", "verse_text": "āścarya-vat paśyati kaścid enam\n\nāścarya-vad vadati tathaiva cānyaḥ\n\nāścarya-vac cainam anyaḥ śṛṇoti\n\nśrutvāpy enaṁ veda na caiva kaścit", "devanagari": "> आश्चर्यवत्पश्यति कश्चिदेन-\n> माश्चर्यवद्वदति तथैव चान्यः ।\n> आश्चर्यवच्चैनमन्यः शृणोति\n> श्रुत्वाप्येनं वेद न चैव कश्चित् ॥२९॥", "synonyms": "*āścaryavat*—assombrosa; *paśyati*—vê; *kaścit*—alguns; *enam*—esta alma; *āścaryavat*—assombrosa; *vadati*—falam; *tathā*—lá; *eva*—certamente; *ca*—também; *anyaḥ*—outros; *āścaryavat*—igualmente assombrosa; *ca*—também; *enam*—esta alma; *anyaḥ*—outros; *śṛṇoti*—ouvem; *śrutvā*—tendo ouvido; *api*—mesmo; *enam*—esta alma; *veda*—conhecem; *na*—jamais; *ca*—e; *eva*—certamente; *kaścit*—alguém.", "translation": "**Alguns olham para a alma como assombrosa, alguns descrevem-na como assombrosa, e alguns ouvem dela como assombrosa, ao passo que outros, mesmo após ouvir a respeito dela, não conseguem compreendê-la em absoluto.**", "purport": "Visto que o Gītopaniṣad baseia-se em grande parte nos princípios dos *Upaniṣads*, não é surpreendente encontrar também esta passagem no Kaṭha Upaniṣad.\n\n\n\nśravaṇāyāpi bahubhir yo na labhyaḥ\n\nśṛṇvanto 'pi bahavo yaḥ na vidyuḥ\n\nāścaryo vaktā kuśalo 'sya labdhā\n\nāścaryo jñātā kuśalānuśiṣṭaḥ.\n\n\n\nO fato de a alma atômica estar dentro do corpo de um animal gigantesco, no corpo de uma gigantesca figueira-de-bengala e também nos micróbios microbianos, milhões e bilhões dos quais ocupam apenas uma polegada de espaço, é, sem dúvida, muito assombroso. Os homens com um pobre fundo de conhecimento e os homens que não são austeros não conseguem compreender as maravilhas da centelha atômica individual do espírito, ainda que isto seja explicado pela maior autoridade do conhecimento, que ministrou lições mesmo a Brahmā, o primeiro ser vivo no universo. Devido a uma concepção material grosseira das coisas, a maioria dos homens nesta era não pode imaginar como uma partícula tão pequena pode tornar-se ao mesmo tempo tão grande e tão pequena. Logo, os homens olham para a alma propriamente dita como maravilhosa, seja por sua constituição, seja por sua descrição. Iludidas pela energia material, as pessoas estão tão absortas em assuntos para a gratificação dos sentidos que têm muito pouco tempo para compreender a questão da autocompreensão, embora seja um fato que, sem essa autocompreensão, todas as atividades resultam em última derrota na luta pela existência. Talvez não se tenha ideia de que é preciso pensar na alma e também encontrar uma solução para as misérias materiais.\n\n\n\nAlgumas pessoas inclinadas a ouvir sobre a alma podem assistir a palestras, em boa companhia, mas, às vezes, em razão da ignorância, são desorientadas pela aceitação da Superalma e da alma atômica como uma só, sem distinção de magnitude. É muito difícil encontrar um homem que compreenda perfeitamente a posição da alma, da Superalma, da alma atômica, suas respectivas funções, relações e todos os demais detalhes maiores e menores. E é ainda mais difícil encontrar um homem que tenha realmente obtido pleno proveito do conhecimento da alma e que seja capaz de descrever a posição da alma em diferentes aspectos. Mas, se de algum modo a pessoa for capaz de compreender o tema da alma, então sua vida será bem-sucedida. O processo mais fácil para compreender o tema do eu, contudo, é aceitar as afirmações do *Bhagavad-gītā* proferidas pela maior autoridade, o Senhor Kṛṣṇa, sem se desviar por outras teorias. Mas isso também requer uma grande quantidade de penitência e sacrifício, seja nesta vida, seja em vidas anteriores, antes de a pessoa ser capaz de aceitar Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Kṛṣṇa pode, contudo, ser conhecido como tal pela misericórdia imotivada do devoto puro, e por nenhum outro caminho."}
{"ref": "bg/2/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/30/", "verse_text": "dehī nityam avadhyo 'yaṁ\n\ndehe sarvasya bhārata\n\ntasmāt sarvāṇi bhūtāni\n\nna tvaṁ śocitum arhasi", "devanagari": "> देही नित्यमवध्योऽयं देहे सर्वस्य भारत ।\n> तस्मात्सर्वाणि भूतानि न त्वं शोचितुमर्हसि ॥३०॥", "synonyms": "*dehī*—o dono do corpo material; *nityam*—eternamente; *avadhyaḥ*—não pode ser morto; *ayam*—esta alma; *dehe*—no corpo; *sarvasya*—de todos; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *tasmāt*—portanto; *sarvāṇi*—todas; *bhūtāni*—as entidades vivas (que nascem); *na*—jamais; *tvam*—você; *śocitum*—lamentar-se; *arhasi*—merece.", "translation": "**Ó descendente de Bharata, aquele que habita no corpo é eterno e jamais pode ser morto. Por isso, você não precisa afligir-se por nenhuma criatura.**", "purport": "O Senhor agora conclui o capítulo de instrução sobre a imutável alma espiritual. Ao descrever a alma imortal de várias maneiras, o Senhor Kṛṣṇa estabelece que a alma é imortal e o corpo é temporário. Por isso, Arjuna, como kṣatriya, não deve abandonar seu dever por temer que seu avô e seu mestre—Bhīṣma e Droṇa—morram na batalha. Pela autoridade de Śrī Kṛṣṇa, é preciso crer que existe uma alma diferente do corpo material, e não que não exista tal coisa como alma, ou que os sintomas vitais se desenvolvam em certo estágio de maturidade material resultante da interação dos produtos químicos. Embora a alma seja imortal, a violência não é encorajada, mas em tempo de guerra ela não é desencorajada quando há real necessidade dela. Essa necessidade deve justificar-se nos termos da sanção do Senhor, e não caprichosamente."}
{"ref": "bg/2/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/31/", "verse_text": "sva-dharmam api cāvekṣya\n\nna vikampitum arhasi\n\ndharmyād dhi yuddhāc chreyo 'nyat\n\nkṣatriyasya na vidyate", "devanagari": "> स्वधर्ममपि चावेक्ष्य न विकम्पितुमर्हसि ।\n> धर्म्याद्धि युद्धाच्छ्रेयोऽन्यत्क्षत्रियस्य न विद्यते ॥३१॥", "synonyms": "*svadharmam*—os próprios princípios religiosos; *api*—também; *ca*—realmente; *avekṣya*—considerando; *na*—jamais; *vikampitum*—hesitar; *arhasi*—merece; *dharmyāt*—dos princípios religiosos; *hi*—realmente; *yuddhāt*—do que lutar; *śreyaḥ*—melhores ocupações; *anyat*—qualquer outra coisa; *kṣatriyasya*—do kṣatriya; *na*—não; *vidyate*—existe.", "translation": "**Considerando seu dever específico como kṣatriya, você deve saber que não há ocupação melhor para você do que lutar segundo os princípios religiosos; logo, não há necessidade de hesitação.**", "purport": "Das quatro ordens da administração social, a segunda ordem, no que respeita à boa administração, chama-se kṣatriya. Kṣat significa ferida. Aquele que dá proteção contra o dano chama-se kṣatriya (trayate–dar proteção). Os kṣatriyas são treinados para matar na floresta. Um kṣatriya iria à floresta e desafiaria um tigre face a face e lutaria com o tigre com sua espada. Quando o tigre fosse morto, ofereceriam a ele a ordem real de cremação. Esse sistema é seguido até os dias atuais pelos reis kṣatriyas do estado de Jaipur. Os kṣatriyas são especialmente treinados para desafiar e matar, pois a violência religiosa é, por vezes, fator necessário. Logo, os kṣatriyas jamais se destinam a aceitar diretamente a ordem de sannyāsa, ou renúncia. A não-violência na política pode ser uma diplomacia, mas jamais é um fator ou princípio. Nos livros das leis religiosas afirma-se:\n\n\n\nāhaveṣu mitho 'nyonyaṁ jighāṁsanto mahīkṣitaḥ\n\nyuddhamānāḥ paraṁ śaktyā svargaṁ yānty aparāṅmukhāḥ\n\nyajñeṣu paśavo brahman hanyante satataṁ dvijaiḥ\n\nsaṁskṛtāḥ kila mantraiś ca te 'pi svargam avāpnuvan.\n\n\n\n\"No campo de batalha, um rei ou kṣatriya, ao lutar com outro rei que tenha inveja dele, é elegível para alcançar os planetas celestiais após a morte, assim como os brāhmaṇas também alcançam os planetas celestiais ao sacrificar animais no fogo de sacrifício.\" Por conseguinte, matar na batalha pelo princípio religioso e matar animais no fogo de sacrifício não são em absoluto considerados atos de violência, pois todos se beneficiam dos princípios religiosos envolvidos. O animal sacrificado obtém imediatamente uma vida humana sem passar pelo gradual processo evolutivo de uma forma a outra, e os kṣatriyas mortos no campo de batalha também alcançam os planetas celestiais, assim como os brāhmaṇas, que os alcançam oferecendo sacrifício.\n\n\n\nHá dois tipos de svadharmas, deveres específicos. Enquanto a pessoa não estiver liberada, ela tem de cumprir os deveres daquele corpo em particular conforme os princípios religiosos para alcançar a liberação. Quando se está liberado, o svadharma—o dever específico—torna-se espiritual e não está na concepção corporal material. Na concepção corporal da vida, há deveres específicos para os brāhmaṇas e kṣatriyas, respectivamente, e tais deveres são inevitáveis. O svadharma é ordenado pelo Senhor, e isso será esclarecido no Quarto Capítulo. No plano corporal, o svadharma chama-se varṇāśrama-dharma, ou degrau do homem para a compreensão espiritual. A civilização humana começa a partir do estágio do varṇāśrama-dharma, ou deveres específicos em termos dos modos específicos da natureza do corpo obtido. O cumprimento do dever específico em qualquer campo de ação, conforme o varṇāśrama-dharma, serve para elevar a pessoa a um status superior de vida."}
{"ref": "bg/2/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/32/", "verse_text": "yadṛcchayā copapannaṁ\n\nsvarga-dvāram apāvṛtam\n\nsukhinaḥ kṣatriyāḥ pārtha\n\nlabhante yuddham īdṛśam", "devanagari": "> यदृच्छया चोपपन्नं स्वर्गद्वारमपावृतम् ।\n> सुखिनः क्षत्रियाः पार्थ लभन्ते युद्धमीदृशम् ॥३२॥", "synonyms": "*yadṛcchayā*—por si só; *ca*—também; *upapannam*—chegado; *svarga*—planeta celestial; *dvāram*—porta; *apāvṛtam*—escancarada; *sukhinaḥ*—muito felizes; *kṣatriyāḥ*—os membros da ordem real; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *labhante*—alcançam; *yuddham*—guerra; *īdṛśam*—como esta.", "translation": "**Ó Pārtha, felizes são os kṣatriyas a quem tais oportunidades de luta chegam sem serem buscadas, abrindo-lhes as portas dos planetas celestiais.**", "purport": "Como mestre supremo do mundo, o Senhor Kṛṣṇa condena a atitude de Arjuna, que disse: \"Não vejo nada de bom nesta luta. Ela causará habitação perpétua no inferno.\" Tais afirmações de Arjuna se deviam apenas à ignorância. Ele queria tornar-se não-violento no cumprimento de seu dever específico. Para um kṣatriya estar no campo de batalha e tornar-se não-violento é a filosofia dos tolos. No Parāśara-smṛti, ou códigos religiosos compostos por Parāśara, o grande sábio e pai de Vyāsadeva, afirma-se:\n\n\n\nkṣatriyo hi prajā rakṣan śastra-pāṇiḥ pradaṇḍayan\n\nnirjitya parasainyādi kṣitiṁ dharmeṇa pālayet.\n\n\n\n\"O dever do kṣatriya é proteger os cidadãos contra todo tipo de dificuldade, e, por essa razão, ele tem de aplicar violência em casos adequados em prol da lei e da ordem. Logo, deve conquistar os soldados de reis inimigos e, assim, com princípios religiosos, governar o mundo.\"\n\n\n\nConsiderando todos os aspectos, Arjuna não tinha motivo para abster-se de lutar. Se conquistasse seus inimigos, desfrutaria do reino; e se morresse na batalha, seria elevado aos planetas celestiais, cujas portas estavam escancaradas para ele. A luta seria, em qualquer dos casos, em seu benefício."}
{"ref": "bg/2/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/33/", "verse_text": "atha cet tvam imaṁ dharmyaṁ\n\nsaṅgrāmaṁ na kariṣyasi\n\ntataḥ sva-dharmaṁ kīrtiṁ ca\n\nhitvā pāpam avāpsyasi", "devanagari": "> अथ चेत्त्वमिमं धर्म्यं संग्रामं न करिष्यसि ।\n> ततः स्वधर्मं कीर्तिं च हित्वा पापमवाप्स्यसि ॥३३॥", "synonyms": "*atha*—portanto; *cet*—se; *tvam*—você; *imam*—esta; *dharmyam*—dever religioso; *saṅgrāmam*—luta; *na*—não; *kariṣyasi*—executar; *tataḥ*—então; *svadharmam*—seu dever religioso; *kīrtim*—reputação; *ca*—também; *hitvā*—perdendo; *pāpam*—reação pecaminosa; *avāpsyasi*—ganha.", "translation": "**Se, contudo, você não lutar nesta guerra religiosa, então certamente incorrerá em pecados por negligenciar seus deveres e, assim, perderá sua reputação como guerreiro.**", "purport": "Arjuna era um guerreiro famoso, e alcançou fama lutando com muitos grandes semideuses, incluindo até mesmo o Senhor Śiva. Após lutar e derrotar o Senhor Śiva sob a aparência de um caçador, Arjuna agradou ao Senhor e recebeu como recompensa uma arma chamada pāśupata-astra. Todos sabiam que ele era um grande guerreiro. Até Droṇācārya lhe deu sua bênção e lhe outorgou a arma especial com a qual ele poderia matar até mesmo o seu mestre. Logo, ele estava acreditado com tantos certificados militares de muitas autoridades, incluindo seu pai adotivo Indra, o rei celestial. Mas, se abandonasse a batalha, não só negligenciaria seu dever específico como kṣatriya, mas também perderia toda a sua fama e bom nome, preparando assim sua estrada real para o inferno. Em outras palavras, iria para o inferno não por lutar, mas por retirar-se da batalha."}
{"ref": "bg/2/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/34/", "verse_text": "akīrtiṁ cāpi bhūtāni\n\nkathayiṣyanti te 'vyayām\n\nsambhāvitasya cākīrtir\n\nmaraṇād atiricyate", "devanagari": "> अकीर्तिं चापि भूतानि कथयिष्यन्ति तेऽव्ययाम् ।\n> सम्भावितस्य चाकीर्तिर्मरणादतिरिच्यते ॥३४॥", "synonyms": "*akīrtim*—infâmia; *ca*—também; *api*—acima de tudo; *bhūtāni*—todas as pessoas; *kathayiṣyanti*—falarão; *te*—de você; *avyayām*—para sempre; *sambhāvitasya*—para um homem respeitável; *ca*—também; *akīrtiḥ*—má fama; *maraṇāt*—do que a morte; *atiricyate*—é mais que.", "translation": "**As pessoas falarão sempre de sua infâmia, e, para alguém que foi honrado, a desonra é pior do que a morte.**", "purport": "Como amigo e filósofo de Arjuna, o Senhor Kṛṣṇa agora dá Seu juízo final acerca da recusa de Arjuna em lutar. O Senhor diz: \"Arjuna, se você deixar o campo de batalha, as pessoas o chamarão de covarde antes mesmo de sua fuga real. E, se pensa que as pessoas podem chamá-lo de nomes ruins, mas que você salvará sua vida fugindo do campo de batalha, então Meu conselho é que seria melhor você morrer na batalha. Para um homem respeitável como você, a má fama é pior do que a morte. Logo, você não deve fugir por medo de sua vida; é melhor morrer na batalha. Isso o salvará da má fama de ter abusado de Minha amizade e de perder seu prestígio na sociedade.\"\n\n\n\nLogo, o juízo final do Senhor foi que Arjuna morresse na batalha e não se retirasse."}
{"ref": "bg/2/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/35/", "verse_text": "bhayād raṇād uparataṁ\n\nmaṁsyante tvāṁ mahā-rathāḥ\n\nyeṣāṁ ca tvaṁ bahu-mato\n\nbhūtvā yāsyasi lāghavam", "devanagari": "> भयाद्रणादुपरतं मंस्यन्ते त्वां महारथाः ।\n> येषां च त्वं बहुमतो भूत्वा यास्यसि लाघवम् ॥३५॥", "synonyms": "*bhayāt*—por medo; *raṇāt*—do campo de batalha; *uparatam*—retirado; *maṁsyante*—considerarão; *tvām*—você; *mahā-rathāḥ*—os grandes generais; *yeṣām*—daqueles que; *ca*—também; *tvam*—você; *bahu-mataḥ*—em grande estima; *bhūtvā*—tendo sido; *yāsyasi*—irá; *lāghavam*—decrescido em valor.", "translation": "**Os grandes generais que tinham seu nome e fama em alta estima pensarão que você abandonou o campo de batalha apenas por medo, e, assim, o considerarão um covarde.**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa continuou a dar Seu veredito a Arjuna: \"Não pense que os grandes generais como Duryodhana, Karṇa e outros contemporâneos pensarão que você deixou o campo de batalha por compaixão de seus irmãos e avô. Pensarão que você o deixou por medo de sua vida. E, assim, sua alta estima por sua personalidade irá para o inferno.\""}
{"ref": "bg/2/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/36/", "verse_text": "avācya-vādāṁś ca bahūn\n\nvadiṣyanti tavāhitāḥ\n\nnindantas tava sāmarthyaṁ\n\ntato duḥkhataraṁ nu kim", "devanagari": "> अवाच्यवादांश्च बहून्वदिष्यन्ति तवाहिताः ।\n> निन्दन्तस्तव सामर्थ्यं ततो दुःखतरं नु किम् ॥३६॥", "synonyms": "*avācya*—descortês; *vādān*—palavras inventadas; *ca*—também; *bahūn*—muitas; *vadiṣyanti*—dirão; *tava*—seus; *ahitāḥ*—inimigos; *nindantaḥ*—enquanto difamam; *tava*—sua; *sāmarthyam*—capacidade; *tataḥ*—depois disso; *duḥkhataram*—mais doloroso; *nu*—claro; *kim*—o que há.", "translation": "**Seus inimigos descreverão você com muitas palavras descorteses e zombarão de sua capacidade. Que poderia ser mais doloroso para você?**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa ficou assombrado, no princípio, com o pedido descabido de compaixão de Arjuna, e descreveu sua compaixão como própria dos não-árias. Agora, em tantas palavras, Ele provou Suas afirmações contra a suposta compaixão de Arjuna."}
{"ref": "bg/2/37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/37/", "verse_text": "hato vā prāpsyasi svargaṁ\n\njitvā vā bhokṣyase mahīm\n\ntasmād uttiṣṭha kaunteya\n\nyuddhāya kṛta-niścayaḥ", "devanagari": "> हतो वा प्राप्स्यसि स्वर्गं जित्वा वा भोक्ष्यसे महीम् ।\n> तस्मादुत्तिष्ठ कौन्तेय युद्धाय कृतनिश्चयः ॥३७॥", "synonyms": "*hataḥ*—sendo morto; *vā*—ou; *prāpsyasi*—você ganha; *svargam*—o reino celestial; *jitvā*—conquistando; *vā*—ou; *bhokṣyase*—você desfruta; *mahīm*—o mundo; *tasmāt*—portanto; *uttiṣṭha*—levante-se; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *yuddhāya*—para lutar; *kṛta*—determinação; *niścayaḥ*—incerteza.", "translation": "**Ó filho de Kuntī, ou você será morto no campo de batalha e alcançará os planetas celestiais, ou conquistará e desfrutará o reino terreno. Por isso, levante-se e lute com determinação.**", "purport": "Embora não houvesse certeza de vitória para o lado de Arjuna, ainda assim ele tinha de lutar; pois, mesmo sendo morto ali, ele poderia ser elevado aos planetas celestiais."}
{"ref": "bg/2/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/38/", "verse_text": "sukha-duḥkhe same kṛtvā\n\nlābhālābhau jayājayau\n\ntato yuddhāya yujyasva\n\nnaivaṁ pāpam avāpsyasi", "devanagari": "> सुखदुःखे समे कृत्वा लाभालाभौ जयाजयौ ।\n> ततो युद्धाय युज्यस्व नैवं पापमवाप्स्यसि ॥३८॥", "synonyms": "*sukha*—felicidade; *duḥkhe*—em aflição; *same*—com equanimidade; *kṛtvā*—assim fazendo; *lābhālābhau*—tanto na perda quanto no ganho; *jayājayau*—tanto na derrota quanto na vitória; *tataḥ*—depois disso; *yuddhāya*—em prol da luta; *yujyasva*—lute; *na*—jamais; *evam*—dessa maneira; *pāpam*—reação pecaminosa; *avāpsyasi*—você ganhará.", "translation": "**Lute pelo bem da luta, sem considerar a felicidade ou a aflição, a perda ou o ganho, a vitória ou a derrota—e, ao agir assim, jamais incorrerá em pecado.**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa diz agora diretamente que Arjuna deve lutar pelo bem da luta, pois Ele deseja a batalha. Não há consideração de felicidade ou aflição, de lucro ou ganho, de vitória ou derrota nas atividades da consciência de Kṛṣṇa. Que tudo seja realizado pelo bem de Kṛṣṇa é consciência transcendental; logo, não há reação às atividades materiais. Aquele que age para sua própria gratificação dos sentidos, seja na bondade, seja na paixão, está sujeito à reação, boa ou má. Mas aquele que se rendeu por completo nas atividades da consciência de Kṛṣṇa não está mais obrigado a ninguém, nem é devedor a ninguém, como se está no curso ordinário das atividades. Diz-se:\n\n\n\ndevarṣi-bhutāpta-nṛṇāṁ pitṝṇāṁ\n\nna kiṅkaro nāyamṛṇī ca rājan\n\nsarvātmanā yaḥ śaraṇaṁ śaraṇyaṁ\n\ngato mukundaṁ parihṛtya kartam\n\n\n\n(Bhāg. 11.5.41)\n\n\n\n\"Quem quer que se tenha rendido por completo a Kṛṣṇa, Mukunda, abandonando todos os outros deveres, não é mais devedor nem está mais obrigado a ninguém—nem aos semideuses, nem aos sábios, nem às pessoas em geral, nem aos parentes, nem à humanidade, nem aos antepassados.\" Essa é a indicação indireta dada por Kṛṣṇa a Arjuna neste verso, e o assunto será explicado mais claramente nos versos seguintes."}
{"ref": "bg/2/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/39/", "verse_text": "eṣā te 'bhihitā sāṅkhye\n\nbuddhir yoge tv imāṁ śṛṇu\n\nbuddhyā yukto yayā pārtha\n\nkarma-bandhaṁ prahāsyasi", "devanagari": "> एषा तेऽभिहिता साङ्ख्ये बुद्धिर्योगे त्विमां शृणु ।\n> बुद्ध्या युक्तो यया पार्थ कर्मबन्धं प्रहास्यसि ॥३९॥", "synonyms": "*eṣā*—todos esses; *te*—a você; *abhihitā*—descritos; *śāṅkhye*—pelo estudo analítico; *buddhiḥ*—inteligência; *yoge*—trabalho sem resultado fruitivo; *tu*—mas; *imām*—isto; *śṛṇu*—simplesmente ouça; *buddhyā*—pela inteligência; *yuktaḥ*—acoplado; *yayā*—pela qual; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *karma-bandham*—cativeiro da reação; *prahāsyasi*—você pode libertar-se.", "translation": "**Até aqui, Eu lhe declarei o conhecimento analítico da filosofia sāṅkhya. Agora, ouça o conhecimento do yoga, mediante o qual se trabalha sem resultado fruitivo. Ó filho de Pṛthā, quando agir por tal inteligência, você poderá libertar-se do cativeiro das obras.**", "purport": "Conforme o Nirukti, ou o dicionário Védico, saṅkhya significa aquilo que descreve os fenômenos em detalhe, e saṅkhya refere-se àquela filosofia que descreve a verdadeira natureza da alma. E o yoga implica controlar os sentidos. A proposta de Arjuna de não lutar baseava-se na gratificação dos sentidos. Esquecendo-se de seu dever primordial, ele queria deixar de lutar, pois pensava que, ao não matar seus parentes e familiares, seria mais feliz do que ao desfrutar o reino conquistando seus primos e irmãos, os filhos de Dhṛtarāṣṭra. Em ambos os casos, os princípios básicos eram para a gratificação dos sentidos. A felicidade derivada de conquistá-los e a felicidade derivada de ver os parentes vivos ambas se baseiam na gratificação pessoal dos sentidos, pois há um sacrifício da sabedoria e do dever. Por isso, Kṛṣṇa quis explicar a Arjuna que, ao matar o corpo de seu avô, ele não estaria matando a alma propriamente dita, e explicou que todas as pessoas individuais, inclusive o próprio Senhor, são indivíduos eternos; foram indivíduos no passado, são indivíduos no presente e continuarão a permanecer indivíduos no futuro, pois todos nós somos almas individuais eternamente, e simplesmente trocamos nossa veste corporal de diferentes maneiras. Mas, na verdade, mantemos nossa individualidade mesmo após a liberação do cativeiro da veste material. Um estudo analítico da alma e do corpo foi explicado de modo muito gráfico pelo Senhor Kṛṣṇa. E este conhecimento descritivo da alma e do corpo, sob diferentes ângulos de visão, foi descrito aqui como sāṅkhya, em termos do dicionário Nirukti. Este sāṅkhya nada tem a ver com a filosofia sāṅkhya do ateu Kapila. Muito antes do sāṅkhya do impostor Kapila, a filosofia sāṅkhya foi exposta no *Śrīmad-Bhāgavatam* pelo verdadeiro Senhor Kapila, a encarnação do Senhor Kṛṣṇa, que a explicou a Sua mãe, Devahūti. Ele explica claramente que o Puruṣa, ou o Senhor Supremo, é ativo e que Ele cria ao olhar para a prakṛti. Isto é aceito nos *Vedas* e no *Gītā*. A descrição nos *Vedas* indica que o Senhor olhou para a prakṛti, ou natureza, e a fecundou com almas individuais atômicas. Todos esses indivíduos estão trabalhando no mundo material em prol da gratificação dos sentidos, e, sob o feitiço da energia material, julgam-se desfrutadores. Esta mentalidade arrasta-se até o último ponto da liberação, quando a entidade viva quer tornar-se una com o Senhor. Esta é a última armadilha de māyā, ou da ilusão da gratificação dos sentidos, e somente após muitos e muitos nascimentos de tais atividades de gratificação dos sentidos é que uma grande alma se rende a Vāsudeva, o Senhor Kṛṣṇa, cumprindo, assim, a busca pela verdade última.\n\n\n\nArjuna já aceitou Kṛṣṇa como seu mestre espiritual ao render-se a Ele: śiṣyas te 'haṁ śādhi māṁ tvāṁ prapannam. Em consequência, Kṛṣṇa agora lhe falará sobre o processo de trabalho em buddhi-yoga, ou karma-yoga, ou, em outras palavras, a prática do serviço devocional apenas para a gratificação dos sentidos do Senhor. Este buddhi-yoga é claramente explicado no Capítulo Dez, verso dez, como sendo a comunhão direta com o Senhor, que está sentado como Paramātmā no coração de cada um. Mas tal comunhão não ocorre sem o serviço devocional. Aquele que, portanto, está situado em serviço devocional, ou serviço transcendental amoroso, ao Senhor, ou, em outras palavras, em consciência de Kṛṣṇa, alcança este estágio de buddhi-yoga pela graça especial do Senhor. O Senhor diz, portanto, que somente àqueles que estão sempre ocupados em serviço devocional por amor transcendental Ele outorga o conhecimento puro da devoção em amor. Dessa maneira, o devoto pode alcançá-lO facilmente no reino sempre bem-aventurado de Deus.\n\n\n\nLogo, o buddhi-yoga mencionado neste verso é o serviço devocional ao Senhor, e a palavra sāṅkhya aqui mencionada nada tem a ver com o ateístico sāṅkhya-yoga enunciado pelo impostor Kapila. Não se deve, portanto, malentender que o sāṅkhya-yoga aqui mencionado tenha alguma conexão com o ateístico sāṅkhya. Tampouco essa filosofia tinha qualquer influência naquela época; nem o Senhor Kṛṣṇa Se daria ao trabalho de mencionar tais especulações filosóficas ímpias. A verdadeira filosofia sāṅkhya é descrita pelo Senhor Kapila no *Śrīmad-Bhāgavatam*, mas mesmo esse sāṅkhya nada tem a ver com os tópicos atuais. Aqui, sāṅkhya significa descrição analítica do corpo e da alma. O Senhor Kṛṣṇa fez uma descrição analítica da alma apenas para levar Arjuna ao ponto do buddhi-yoga, ou bhakti-yoga. Logo, o sāṅkhya do Senhor Kṛṣṇa e o sāṅkhya do Senhor Kapila, conforme descrito no *Bhāgavatam*, são uma e a mesma coisa. Ambos são bhakti-yoga. Ele disse, portanto, que apenas a classe menos inteligente de homens faz distinção entre sāṅkhya-yoga e bhakti-yoga.\n\n\n\nNaturalmente, o ateístico sāṅkhya-yoga nada tem a ver com o bhakti-yoga, e, no entanto, os pouco inteligentes alegam que o ateístico sāṅkhya-yoga é referido no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nDeve-se, pois, compreender que buddhi-yoga significa trabalhar em consciência de Kṛṣṇa, na plena bem-aventurança e conhecimento do serviço devocional. Aquele que trabalha apenas pela satisfação do Senhor, por mais difícil que tal trabalho possa ser, está trabalhando sob os princípios do buddhi-yoga e encontra-se sempre em bem-aventurança transcendental. Por tal ocupação transcendental, alcança-se automaticamente todas as qualidades transcendentais, pela graça do Senhor; assim, sua liberação está completa em si mesma, sem que se façam esforços externos para adquirir conhecimento. Há muita diferença entre o trabalho em consciência de Kṛṣṇa e o trabalho por resultados fruitivos, sobretudo no que concerne à gratificação dos sentidos para alcançar resultados em termos de família ou de felicidade material. O buddhi-yoga é, portanto, a qualidade transcendental do trabalho que executamos."}
{"ref": "bg/2/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/40/", "verse_text": "nehābhikrama-nāśo 'sti\n\npratyavāyo na vidyate\n\nsv-alpam apy asya dharmasya\n\ntrāyate mahato bhayāt", "devanagari": "> नेहाभिक्रमनाशोऽस्ति प्रत्यवायो न विद्यते ।\n> स्वल्पमप्यस्य धर्मस्य त्रायते महतो भयात् ॥४०॥", "synonyms": "*na*—não há; *iha*—neste mundo; *abhikrama*—esforço; *nāśaḥ*—perda; *asti*—há; *pratyavāyaḥ*—diminuição; *na*—jamais; *vidyate*—há; *svalpam*—pouco; *api*—embora; *asya*—desta; *dharmasya*—desta ocupação; *trāyate*—libera; *mahataḥ*—de muito grande; *bhayāt*—do perigo.", "translation": "**Neste empreendimento não há perda nem diminuição, e um pequeno avanço nesta senda pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo.**", "purport": "A atividade em consciência de Kṛṣṇa, ou agir em benefício de Kṛṣṇa sem esperar gratificação dos sentidos, é a mais elevada qualidade transcendental do trabalho. Mesmo um pequeno início de tal atividade não encontra impedimento, nem esse pequeno início pode ser perdido em qualquer estágio. Qualquer trabalho começado no plano material tem de ser concluído, do contrário toda a tentativa torna-se um fracasso. Mas qualquer trabalho começado em consciência de Kṛṣṇa tem efeito permanente, embora não terminado. O executor de tal trabalho, portanto, não fica em desvantagem mesmo que seu trabalho em consciência de Kṛṣṇa esteja incompleto. Um por cento feito em consciência de Kṛṣṇa traz resultados permanentes, de modo que o próximo começo é a partir do ponto de dois por cento; ao passo que, na atividade material, sem cem por cento de êxito, não há lucro. Ajāmila cumpriu seu dever em alguma porcentagem de consciência de Kṛṣṇa, mas o resultado que desfrutou ao fim foi de cem por cento, pela graça do Senhor. Há um belo verso a este respeito no *Śrīmad-Bhāgavatam*:\n\n\n\ntyaktvā sva-dharmaṁ caraṇāmbujaṁ harer\n\nbhajan na pakko 'tha patet tato yadi\n\nyatra kva vābhadram abhūd amuṣya kiṁ\n\nko vārtha āpto 'bhajatāṁ sva-dharmataḥ\n\n\n\n\"Se alguém abandonar as buscas autogratificantes e trabalhar em consciência de Kṛṣṇa e depois cair por não concluir seu trabalho, que perda há de sua parte? E o que se pode ganhar se a pessoa executar suas atividades materiais perfeitamente?\" (Bhāg. 1.5.17) Ou, como dizem os cristãos: \"De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a sofrer a perda de sua alma eterna?\"\n\n\n\nAs atividades materiais e seus resultados terminam com o corpo. Mas o trabalho em consciência de Kṛṣṇa leva a pessoa novamente à consciência de Kṛṣṇa, mesmo após a perda do corpo. Pelo menos é certo ter uma chance, na próxima vida, de nascer novamente como ser humano, seja na família de um grande brāhmaṇa culto, seja em uma família rica e aristocrática que lhe dará uma nova chance de elevação. Essa é a qualidade ímpar do trabalho feito em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/41/", "verse_text": "vyavasāyātmikā buddhir\n\nekeha kuru-nandana\n\nbahu-śākhā hy anantāś ca\n\nbuddhayo 'vyavasāyinām", "devanagari": "> व्यवसायात्मिका बुद्धिरेकेह कुरुनन्दन ।\n> बहुशाखा ह्यनन्ताश्च बुद्धयोऽव्यवसायिनाम् ॥४१॥", "synonyms": "*vyavasāyātmikā*—consciência de Kṛṣṇa resoluta; *buddhiḥ*—inteligência; *ekā*—apenas uma; *iha*—neste mundo; *kuru-nandana*—ó amado filho dos Kurus; *bahu-śākhāḥ*—vários ramos; *hi*—realmente; *anantāḥ*—ilimitada; *ca*—também; *buddhayaḥ*—inteligência; *avyavasāyinām*—daqueles que não estão em consciência de Kṛṣṇa.", "translation": "**Aqueles que estão nesta senda são resolutos no propósito, e seu objetivo é único. Ó amado filho dos Kurus, a inteligência daqueles que são irresolutos é em muitos ramos.**", "purport": "Uma forte fé em consciência de Kṛṣṇa de que a pessoa deve elevar-se à mais alta perfeição da vida chama-se inteligência vyavasāyātmikā. O *Caitanya-caritāmṛta* afirma:\n\n\n\n'śraddhā'-śabde viśvāsa kahe sudṛḍha niścaya\n\nkṛṣṇe bhakti kaile sarva-karma kṛta haya\n\n\n\nFé significa confiança inabalável em algo sublime. Quando a pessoa está ocupada nos deveres da consciência de Kṛṣṇa, não precisa agir em relação ao mundo material com obrigações para com tradições familiares, humanidade ou nacionalidade. As atividades fruitivas são as ocupações resultantes das reações dos atos bons ou maus do passado. Quando se desperta na consciência de Kṛṣṇa, não é mais preciso esforçar-se por bons resultados em suas atividades. Quando se está situado em consciência de Kṛṣṇa, todas as atividades estão no plano absoluto, pois já não estão sujeitas a dualidades como o bem e o mal. A perfeição mais elevada da consciência de Kṛṣṇa é a renúncia à concepção material da vida. Este estado é alcançado automaticamente pela consciência de Kṛṣṇa progressiva. O propósito resoluto de uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa baseia-se no conhecimento (\"Vāsudevaḥ sarvam iti sa mahātmā sudurlabhaḥ\"), pelo qual a pessoa passa a saber perfeitamente que Vāsudeva, ou Kṛṣṇa, é a raiz de todas as causas manifestadas. Assim como a água na raiz de uma árvore distribui-se automaticamente pelas folhas e galhos, em consciência de Kṛṣṇa pode-se prestar o mais elevado serviço a todos—ou seja, a si mesmo, à família, à sociedade, ao país, à humanidade, etc. Se Kṛṣṇa estiver satisfeito com nossas ações, então todos estarão satisfeitos.\n\n\n\nO serviço em consciência de Kṛṣṇa, contudo, é mais bem praticado sob a hábil orientação de um mestre espiritual que seja um representante genuíno de Kṛṣṇa, que conheça a natureza do aluno e que possa guiá-lo a agir em consciência de Kṛṣṇa. Como tal, para ser bem versado em consciência de Kṛṣṇa, é preciso agir com firmeza e obedecer ao representante de Kṛṣṇa, e deve-se aceitar a instrução do mestre espiritual genuíno como a missão da própria vida. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura instrui-nos, em suas famosas orações ao mestre espiritual, da seguinte maneira:\n\n\n\nyasya prasādād bhagavat-prasādo\n\nyasyāprasādānna gatiḥ kuto 'pi\n\ndhyāyaṁ stuvaṁs tasya yaśas tri-sandhyaṁ\n\nvande guroḥ śrī-caraṇāravindam.\n\n\n\n\"Pela satisfação do mestre espiritual, a Suprema Personalidade de Deus fica satisfeita. E, por não satisfazer o mestre espiritual, não há possibilidade de promover-se ao plano da consciência de Kṛṣṇa. Devo, portanto, meditar e orar por sua misericórdia três vezes ao dia, e oferecer minhas respeitosas reverências a ele, meu mestre espiritual.\"\n\n\n\nTodo o processo, contudo, depende do conhecimento perfeito da alma além da concepção do corpo—não teoricamente, mas praticamente, quando já não há possibilidade da gratificação dos sentidos manifestada nas atividades fruitivas. Aquele que não está firmemente fixo na mente é desviado por vários tipos de atos fruitivos."}
{"ref": "bg/2/42-43", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/42-43/", "verse_text": "yām imāṁ puṣpitāṁ vācaṁ\n\npravadanty avipaścitaḥ\n\nveda-vāda-ratāḥ pārtha\n\nnānyad astīti vādinaḥ\n\nkāmātmānaḥ svarga-parā\n\n\n\njanma-karma-phala-pradām\n\nkriyā-viśeṣa-bahulāṁ\n\nbhogaiśvarya-gatiṁ prati", "devanagari": "> यामिमां पुष्पितां वाचं प्रवदन्त्यविपश्चितः ।\n> वेदवादरताः पार्थ नान्यदस्तीति वादिनः ॥४२॥\n> कामात्मानः स्वर्गपरा जन्मकर्मफलप्रदाम् ।\n> क्रियाविशेषबहुलां भोगैश्वर्यगतिं प्रति ॥४३॥", "synonyms": "*yām imām*—todas estas; *puṣpitām*—floridas; *vācam*—palavras; *pravadanti*—dizem; *avipaścitaḥ*—homens com pobre fundo de conhecimento; *veda-vāda-ratāḥ*—supostos seguidores dos *Vedas*; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *na*—jamais; *anyat*—nada mais; *asti*—há; *iti*—isto; *vādinaḥ*—defensores; *kāma-ātmānaḥ*—desejosos de gratificação dos sentidos; *svarga-parāḥ*—visando alcançar planetas celestiais; *janma-karma-phala-pradām*—resultando em ação fruitiva, bom nascimento, etc.; *kriyā-viśeṣa*—cerimônias pomposas; *bahulām*—várias; *bhoga*—gozo dos sentidos; *aiśvarya*—opulência; *gatim*—progresso; *prati*—em direção a.", "translation": "**Os homens de pouco conhecimento estão muito apegados às palavras floridas dos *Vedas*, que recomendam várias atividades fruitivas para a elevação aos planetas celestiais, ao consequente bom nascimento, ao poder e assim por diante. Sendo desejosos da gratificação dos sentidos e de uma vida opulenta, dizem que não há nada além disso.**", "purport": "Em geral, as pessoas não são muito inteligentes e, devido à sua ignorância, estão extremamente apegadas às atividades fruitivas recomendadas nas seções karma-kāṇḍa dos *Vedas*. Não querem nada além de propostas de gratificação dos sentidos para desfrutar a vida no céu, onde se encontram vinho e mulheres e onde a opulência material é muito comum. Nos *Vedas*, recomendam-se muitos sacrifícios para a elevação aos planetas celestiais, sobretudo os sacrifícios jyotiṣṭoma. De fato, afirma-se que qualquer pessoa que deseje a elevação aos planetas celestiais deve realizar esses sacrifícios, e os homens com pobre fundo de conhecimento pensam que esse é todo o propósito da sabedoria Védica. É muito difícil para tais pessoas inexperientes situar-se na ação determinada da consciência de Kṛṣṇa. Assim como os tolos se apegam às flores das árvores venenosas sem conhecer os resultados de tais atrações, de modo semelhante os homens não iluminados são atraídos por tal opulência celestial e o gozo dos sentidos dela.\n\n\n\nNa seção karma-kāṇḍa dos *Vedas*, diz-se que aqueles que executam as quatro penitências mensais tornam-se elegíveis para beber as bebidas somarasa para se tornarem imortais e felizes para sempre. Mesmo nesta terra, alguns são muito ávidos por ter somarasa para se tornarem fortes e aptos para desfrutar das gratificações dos sentidos. Tais pessoas não têm fé na liberação do cativeiro material e estão muito apegadas às pomposas cerimônias dos sacrifícios Védicos. Em geral, são sensuais e não querem nada além dos prazeres celestiais da vida. Entende-se que existem jardins chamados nandana-kānana, nos quais há boa oportunidade para a associação com mulheres angélicas e belas e abundante provisão de vinho somarasa. Tal felicidade corporal é, sem dúvida, sensual; logo, há aqueles que estão puramente apegados à felicidade material e temporária, como senhores do mundo material."}
{"ref": "bg/2/44", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/44/", "verse_text": "bhogaiśvarya-prasaktānāṁ\n\ntayāpahṛta-cetasām\n\nvyavasāyātmikā buddhiḥ\n\nsamādhau na vidhīyate", "devanagari": "> भोगैश्वर्यप्रसक्तानां तयापहृतचेतसाम् ।\n> व्यवसायात्मिका बुद्धिः समाधौ न विधीयते ॥४४॥", "synonyms": "*bhoga*—gozo material; *aiśvarya*—opulência; *prasaktānām*—daqueles que estão tão apegados; *tayā*—por tais coisas; *apahṛta-cetasām*—desnorteados na mente; *vyavasāyātmikā*—firme determinação; *buddhiḥ*—serviço devocional ao Senhor; *samādhau*—na mente controlada; *na*—jamais; *vidhīyate*—ocorre.", "translation": "**Nas mentes daqueles que estão demasiadamente apegados ao gozo dos sentidos e à opulência material, e que são desnorteados por tais coisas, não ocorre a determinação resoluta do serviço devocional ao Senhor Supremo.**", "purport": "Samādhi significa \"mente fixa\". O dicionário Védico, o Nirukti, diz: samyag ādhīyate 'sminn ātmatattva-yāthātmyam: \"Quando a mente está fixa para compreender o eu, isto se chama samādhi.\" Samādhi jamais é possível para pessoas interessadas no gozo dos sentidos materiais, nem para aquelas que estão desnorteadas por tais coisas temporárias. Estão mais ou menos condenadas pelo processo da energia material."}
{"ref": "bg/2/45", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/45/", "verse_text": "trai-guṇya-viṣayā vedā\n\nnistrai-guṇyo bhavārjuna\n\nnirdvandvo nitya-sattva-stho\n\nniryoga-kṣema ātmavān", "devanagari": "> त्रैगुण्यविषया वेदा निस्त्रैगुण्यो भवार्जुन ।\n> निर्द्वन्द्वो नित्यसत्त्वस्थो निर्योगक्षेम आत्मवान् ॥४५॥", "synonyms": "*traiguṇya*—referente aos três modos da natureza material; *viṣayāḥ*—sobre o tema; *vedāḥ*—as literaturas Védicas; *nistraiguṇyaḥ*—em estado puro de existência espiritual; *bhava*—seja; *arjuna*—ó Arjuna; *nirdvandvaḥ*—livre das dores dos opostos; *nitya-sattva-sthaḥ*—permanecendo sempre em sattva (bondade); *niryoga-kṣemaḥ*—livre (do pensamento) de aquisição e preservação; *ātmavān*—estabelecido no Eu.", "translation": "**Os *Vedas* tratam principalmente do assunto dos três modos da natureza material. Eleve-se acima desses modos, ó Arjuna. Seja transcendental a todos eles. Liberte-se de todas as dualidades e de todas as ansiedades por ganho e segurança, e estabeleça-se no Eu.**", "purport": "Todas as atividades materiais envolvem ações e reações nos três modos da natureza material. Destinam-se a resultados fruitivos, que causam cativeiro no mundo material. Os *Vedas* tratam principalmente de atividades fruitivas para gradualmente elevar o público em geral do campo da gratificação dos sentidos para uma posição no plano transcendental. Aconselha-se a Arjuna, como aluno e amigo do Senhor Kṛṣṇa, que se eleve à posição transcendental da filosofia Vedānta, onde, no princípio, há brahma-jijñāsā, ou perguntas sobre a Suprema Transcendência. Todas as entidades vivas que estão no mundo material lutam intensamente pela existência. Para elas, o Senhor, após a criação do mundo material, deu a sabedoria Védica, aconselhando como viver e livrar-se do enredamento material. Quando se concluem as atividades para a gratificação dos sentidos, ou seja, o capítulo karma-kāṇḍa, então a oportunidade para a percepção espiritual é oferecida na forma dos *Upaniṣads*, que são parte de diferentes *Vedas*, assim como o *Bhagavad-gītā* é parte do quinto Veda, a saber, o *Mahābhārata*. Os *Upaniṣads* marcam o início da vida transcendental.\n\n\n\nEnquanto o corpo material existir, há ações e reações nos modos materiais. É preciso aprender a tolerância diante das dualidades, como felicidade e aflição, ou frio e calor, e, ao tolerar tais dualidades, libertar-se das ansiedades quanto a ganho e perda. Esta posição transcendental alcança-se em plena consciência de Kṛṣṇa, quando se está plenamente dependente da boa vontade de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/46", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/46/", "verse_text": "yāvān artha udapāne\n\nsarvataḥ samplutodake\n\ntāvān sarveṣu vedeṣu\n\nbrāhmaṇasya vijānataḥ", "devanagari": "> यावानर्थ उदपाने सर्वतः सम्प्लुतोदके ।\n> तावान्सर्वेषु वेदेषु ब्राह्मणस्य विजानतः ॥४६॥", "synonyms": "*yāvān*—tudo isso; *arthaḥ*—destina-se; *udapāne*—num poço de água; *sarvataḥ*—em todos os aspectos; *sampluta-udake*—em um grande reservatório de água; *tāvān*—de modo semelhante; *sarveṣu*—em todas; *vedeṣu*—as literaturas Védicas; *brāhmaṇasya*—do homem que conhece o Brahman Supremo; *vijānataḥ*—daquele que está em pleno conhecimento.", "translation": "**Todos os propósitos cumpridos pelo pequeno açude podem, de imediato, ser cumpridos pelos grandes reservatórios de água. De modo semelhante, todos os propósitos dos *Vedas* podem ser cumpridos para aquele que conhece o propósito por trás deles.**", "purport": "Os ritos e sacrifícios mencionados na divisão karma-kāṇḍa da literatura Védica destinam-se a estimular o desenvolvimento gradual da autorrealização. E o propósito da autorrealização é claramente declarado no Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (15.15): o propósito de estudar os *Vedas* é conhecer o Senhor Kṛṣṇa, a causa primordial de tudo. Logo, autorrealização significa compreender Kṛṣṇa e a relação eterna que se tem com Ele. A relação das entidades vivas com Kṛṣṇa também é mencionada no Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā*. As entidades vivas são partes integrantes de Kṛṣṇa; portanto, o despertar da consciência de Kṛṣṇa pela entidade viva individual é o mais alto estágio de perfeição do conhecimento Védico. Isso é confirmado no *Śrīmad-Bhāgavatam* (3.33.7) da seguinte maneira:\n\n\n\naho bata śvapaco'to garīyān\n\nyaj-jihvāgre vartate nāma tubhyam\n\ntepus tapas te juhuvuḥ sasnur āryā\n\nbrahmānūcur nāma gṛṇanti ye te.\n\n\n\n\"Ó meu Senhor, uma pessoa que esteja cantando Seu santo nome, embora nascida de uma família baixa como a de um cāṇḍāla [comedor de cães], situa-se no mais elevado plano da autorrealização. Tal pessoa deve ter executado todo tipo de penitências e sacrifícios conforme os rituais Védicos, e estudado as literaturas Védicas muitas e muitas vezes, depois de banhar-se em todos os santos lugares de peregrinação. Tal pessoa é considerada a melhor da família ariana.\" É preciso, pois, ser inteligente o bastante para compreender o propósito dos *Vedas*, sem se apegar apenas aos rituais, e não se deve desejar ser elevado aos reinos celestiais para uma melhor qualidade de gratificação dos sentidos. Não é possível ao homem comum nesta era seguir todas as regras e regulamentos dos rituais Védicos e os preceitos dos Vedāntas e dos *Upaniṣads*. Requer muito tempo, energia, conhecimento e recursos para executar os propósitos dos *Vedas*. Isso dificilmente é possível nesta era. O melhor propósito da cultura Védica, contudo, cumpre-se cantando o santo nome do Senhor, como recomendado pelo Senhor Caitanya, o libertador de todas as almas caídas. Quando o Senhor Caitanya foi indagado por um grande erudito Védico, Prakāśānanda Sarasvatī, sobre por que Ele, o Senhor, cantava o santo nome do Senhor como um sentimentalista em vez de estudar a filosofia Vedānta, o Senhor respondeu que Seu mestre espiritual O considerou um grande tolo, e, por isso, lhe pediu que cantasse o santo nome do Senhor Kṛṣṇa. Ele assim o fez e ficou extasiado como um louco. Nesta era de Kali, a maior parte da população é tola e não está adequadamente educada para compreender a filosofia Vedānta; o melhor propósito da filosofia Vedānta cumpre-se cantando, sem ofensas, o santo nome do Senhor. Vedānta é a última palavra na sabedoria Védica, e o autor e conhecedor da filosofia Vedānta é o Senhor Kṛṣṇa; e o mais elevado vedantista é a grande alma que se compraz em cantar o santo nome do Senhor. Esse é o propósito último de todo o misticismo Védico."}
{"ref": "bg/2/47", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/47/", "verse_text": "karmaṇy evādhikāras te\n\nmā phaleṣu kadācana\n\nmā karma-phala-hetur bhūr\n\nmā te saṅgo 'stv akarmaṇi", "devanagari": "> कर्मण्येवाधिकारस्ते मा फलेषु कदाचन ।\n> मा कर्मफलहेतुर्भूर्मा ते सङ्गोऽस्त्वकर्मणि ॥४७॥", "synonyms": "*karmaṇi*—deveres prescritos; *eva*—certamente; *adhikāraḥ*—direito; *te*—de você; *mā*—jamais; *phaleṣu*—nos frutos; *kadācana*—em momento algum; *mā*—jamais; *karma-phala*—no resultado do trabalho; *hetuḥ*—causa; *bhūḥ*—torne-se; *mā*—jamais; *te*—de você; *saṅgaḥ*—apego; *astu*—haja; *akarmaṇi*—ao não fazer.", "translation": "**Você tem o direito de executar seu dever prescrito, mas não tem direito aos frutos da ação. Jamais se considere a causa dos resultados de suas atividades, e jamais se apegue a não cumprir seu dever.**", "purport": "Há três considerações aqui: deveres prescritos, trabalho caprichoso e inação. Os deveres prescritos referem-se às atividades executadas enquanto a pessoa está nos modos da natureza material. O trabalho caprichoso significa ações sem a sanção da autoridade, e inação significa não cumprir os próprios deveres prescritos. O Senhor aconselhou que Arjuna não fosse inativo, mas que executasse seu dever prescrito sem se apegar ao resultado. Aquele que se apega ao resultado de seu trabalho é também a causa da ação. Logo, é o desfrutador ou o sofredor do resultado de tais ações.\n\n\n\nNo que se refere aos deveres prescritos, eles podem ser enquadrados em três subdivisões, a saber: trabalho rotineiro, trabalho de emergência e atividades desejadas. O trabalho rotineiro, em termos dos preceitos das escrituras, é feito sem desejo de resultados. Como é preciso fazê-lo, o trabalho obrigatório é ação no modo da bondade. O trabalho com resultados torna-se causa de cativeiro; logo, tal trabalho não é auspicioso. Cada um tem seu direito de propriedade no que respeita aos deveres prescritos, mas deve agir sem apego ao resultado; tais deveres obrigatórios desinteressados conduzem, sem dúvida, à senda da liberação.\n\n\n\nAconselhou-se Arjuna, portanto, pelo Senhor a lutar como questão de dever, sem apego ao resultado. Sua não-participação na batalha é outro lado do apego. Tal apego jamais conduz à senda da salvação. Qualquer apego, positivo ou negativo, é causa de cativeiro. A inação é pecaminosa. Por isso, lutar como questão de dever era a única senda auspiciosa de salvação para Arjuna."}
{"ref": "bg/2/48", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/48/", "verse_text": "yoga-sthaḥ kuru karmāṇi\n\nsaṅgaṁ tyaktvā dhanañjaya\n\nsiddhy-asiddhyoḥ samo bhūtvā\n\nsamatvaṁ yoga ucyate", "devanagari": "> योगस्थः कुरु कर्माणि सङ्गं त्यक्त्वा धनञ्जय ।\n> सिद्ध्यसिद्ध्योः समो भूत्वा समत्वं योग उच्यते ॥४८॥", "synonyms": "*yoga-sthaḥ*—firme em yoga; *kuru*—execute; *karmāṇi*—seu dever; *saṅgam*—apego; *tyaktvā*—tendo abandonado; *dhanañjaya*—ó Dhanañjaya; *siddhi-asiddhyoḥ*—no sucesso e no fracasso; *samaḥ*—o mesmo; *bhūtvā*—tendo-se tornado; *samatvam*—equanimidade da mente; *yogaḥ*—yoga; *ucyate*—chama-se.", "translation": "**Seja firme em yoga, ó Arjuna. Execute seu dever e abandone todo apego ao sucesso ou ao fracasso. Tal equanimidade de mente chama-se yoga.**", "purport": "Kṛṣṇa diz a Arjuna que ele deve agir em yoga. E o que é esse yoga? Yoga significa concentrar a mente no Supremo controlando os sentidos sempre perturbadores. E quem é o Supremo? O Supremo é o Senhor. E, como Ele mesmo está dizendo a Arjuna que lute, Arjuna nada tem a ver com os resultados da luta. Ganho ou vitória são preocupação de Kṛṣṇa; aconselha-se a Arjuna simplesmente a agir conforme o ditado de Kṛṣṇa. O seguir do ditado de Kṛṣṇa é o verdadeiro yoga, e isto se pratica no processo chamado consciência de Kṛṣṇa. Somente pela consciência de Kṛṣṇa pode-se renunciar ao senso de propriedade. É preciso tornar-se servo de Kṛṣṇa, ou servo do servo de Kṛṣṇa. Esse é o caminho correto para cumprir o dever em consciência de Kṛṣṇa, o que sozinho pode ajudar a pessoa a agir em yoga.\n\n\n\nArjuna é um kṣatriya e, como tal, participa da instituição varṇāśrama-dharma. Diz-se no Viṣṇu Purāṇa que, no varṇāśrama-dharma, o objetivo todo é satisfazer Viṣṇu. Ninguém deve satisfazer-se a si mesmo, como é a regra no mundo material, mas deve-se satisfazer Kṛṣṇa. Logo, salvo se a pessoa satisfizer Kṛṣṇa, não pode observar corretamente os princípios do varṇāśrama-dharma. Indiretamente, aconselhou-se Arjuna a agir conforme Kṛṣṇa lhe disse."}
{"ref": "bg/2/49", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/49/", "verse_text": "dūreṇa hy avaraṁ karma\n\nbuddhi-yogād dhanañjaya\n\nbuddhau śaraṇam anviccha\n\nkṛpaṇāḥ phala-hetavaḥ", "devanagari": "> दूरेण ह्यवरं कर्म बुद्धियोगाद्धनञ्जय ।\n> बुद्धौ शरणमन्विच्छ कृपणाः फलहेतवः ॥४९॥", "synonyms": "*dūreṇa*—descartando-o à grande distância; *hi*—certamente; *avaram*—abominável; *karma*—atividades; *buddhi-yogāt*—com base na consciência de Kṛṣṇa; *dhanañjaya*—ó conquistador de riquezas; *buddhau*—em tal consciência; *śaraṇam*—rendição plena; *anviccha*—deseje; *kṛpaṇāḥ*—os mesquinhos; *phala-hetavaḥ*—aqueles que desejam a ação fruitiva.", "translation": "**Ó Dhanañjaya, livre-se de todas as atividades fruitivas pelo serviço devocional, e renda-se plenamente a essa consciência. Aqueles que querem desfrutar dos frutos de seu trabalho são mesquinhos.**", "purport": "Aquele que de fato veio a compreender sua posição constitucional como servo eterno do Senhor abandona todas as ocupações, exceto trabalhar em consciência de Kṛṣṇa. Como já foi explicado, buddhi-yoga significa o serviço transcendental amoroso ao Senhor. Tal serviço devocional é o curso correto de ação para a entidade viva. Apenas os mesquinhos desejam desfrutar do fruto de seu próprio trabalho, justamente para enredarem-se mais no cativeiro material. Excetuando-se o trabalho em consciência de Kṛṣṇa, todas as atividades são abomináveis, pois prendem continuamente o trabalhador ao ciclo de nascimento e morte. Por isso, jamais se deve desejar ser a causa do trabalho. Tudo deve ser feito em consciência de Kṛṣṇa, para a satisfação de Kṛṣṇa. Os mesquinhos não sabem como utilizar os bens das riquezas que adquirem por boa fortuna ou por trabalho árduo. Deve-se gastar todas as energias trabalhando em consciência de Kṛṣṇa, e isso tornará a vida bem-sucedida. Como os mesquinhos, as pessoas infelizes não empregam sua energia humana no serviço ao Senhor."}
{"ref": "bg/2/50", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/50/", "verse_text": "buddhi-yukto jahātīha\n\nubhe sukṛta-duṣkṛte\n\ntasmād yogāya yujyasva\n\nyogaḥ karmasu kauśalam", "devanagari": "> बुद्धियुक्तो जहातीह उभे सुकृतदुष्कृते ।\n> तस्माद्योगाय युज्यस्व योगः कर्मसु कौशलम् ॥५०॥", "synonyms": "*buddhi-yuktaḥ*—aquele que está ocupado em serviço devocional; *jahāti*—pode livrar-se; *iha*—nesta vida; *ubhe*—em ambos; *sukṛta-duṣkṛte*—em bons e maus resultados; *tasmāt*—portanto; *yogāya*—em prol do serviço devocional; *yujyasva*—assim ocupe-se; *yogaḥ*—consciência de Kṛṣṇa; *karmasu*—em todas as atividades; *kauśalam*—arte.", "translation": "**Um homem ocupado em serviço devocional livra-se das ações boas e más ainda nesta vida. Por isso, esforce-se pelo yoga, ó Arjuna, que é a arte de todo trabalho.**", "purport": "Desde tempos imemoriais, cada entidade viva tem acumulado as várias reações de seu trabalho bom e mau. Como tal, está continuamente ignorante de sua verdadeira posição constitucional. A ignorância da pessoa pode ser removida pela instrução do *Bhagavad-gītā*, que ensina a render-se ao Senhor Śrī Kṛṣṇa em todos os aspectos e libertar-se da vitimização acorrentada de ação e reação, nascimento após nascimento. Por isso, aconselha-se Arjuna a agir em consciência de Kṛṣṇa, o processo purificador da ação resultante."}
{"ref": "bg/2/51", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/51/", "verse_text": "karma-jaṁ buddhi-yuktā hi\n\nphalaṁ tyaktvā manīṣiṇaḥ\n\njanma-bandha-vinirmuktāḥ\n\npadaṁ gacchanty anāmayam", "devanagari": "> कर्मजं बुद्धियुक्ता हि फलं त्यक्त्वा मनीषिणः ।\n> जन्मबन्धविनिर्मुक्ताः पदं गच्छन्त्यनामयम् ॥५१॥", "synonyms": "*karma-jam*—em virtude de atividades fruitivas; *buddhi-yuktāḥ*—executadas em serviço devocional; *hi*—certamente; *phalam*—resultados; *tyaktvā*—abandonando; *manīṣiṇaḥ*—devotos que são grandes sábios; *janma-bandha*—do cativeiro de nascimento e morte; *vinirmuktāḥ*—almas liberadas; *padam*—posição; *gacchanti*—alcançam; *anāmayam*—sem misérias.", "translation": "**Os sábios, ocupados em serviço devocional, refugiam-se no Senhor e libertam-se do ciclo de nascimento e morte renunciando aos frutos da ação no mundo material. Dessa maneira, podem alcançar aquele estado além de todas as misérias.**", "purport": "As entidades vivas liberadas buscam aquele lugar onde não há misérias materiais. O *Bhāgavatam* diz:\n\n\n\nsamāśritā ye padapallava-plavaṁ\n\nmahat-padaṁ puṇya-yaśo murāreḥ\n\nbhāvambudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ\n\nparaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām\n\n\n\n(Bhāg. 10.14.58)\n\n\n\n\"Para aquele que aceitou o barco dos pés de lótus do Senhor, que é o refúgio da manifestação cósmica e é famoso como Mukunda, ou o doador de mukti, o oceano do mundo material é como a água contida na pegada do casco de um bezerro. Param padam, ou o lugar onde não há misérias materiais, ou Vaikuṇṭha, é seu objetivo, e não o lugar onde há perigo a cada passo da vida.\"\n\n\n\nDevido à ignorância, a pessoa não sabe que este mundo material é um lugar miserável onde há perigos a cada passo. Somente por ignorância, as pessoas menos inteligentes tentam adaptar-se à situação por meio de atividades fruitivas, pensando que as ações resultantes as farão felizes. Não sabem que nenhum tipo de corpo material em parte alguma do universo pode dar vida sem misérias. As misérias da vida, a saber, nascimento, morte, velhice e doenças, estão presentes em toda parte no mundo material. Mas aquele que compreende sua verdadeira posição constitucional como servo eterno do Senhor, e assim conhece a posição da Personalidade de Deus, ocupa-se no serviço transcendental amoroso ao Senhor. Em consequência, qualifica-se para ingressar nos planetas Vaikuṇṭha, onde não há nem vida miserável material nem influência do tempo e da morte. Conhecer a própria posição constitucional significa também conhecer a sublime posição do Senhor. Aquele que erroneamente pensa que a posição da entidade viva e a posição do Senhor estão no mesmo nível deve ser entendido como estando na escuridão e, por isso, incapaz de ocupar-se no serviço devocional ao Senhor. Torna-se ele próprio um senhor, e, assim, prepara o caminho para a repetição de nascimento e morte. Mas aquele que, compreendendo que sua posição é servir, transfere-se para o serviço do Senhor, imediatamente torna-se elegível para Vaikuṇṭhaloka. O serviço pela causa do Senhor chama-se karma-yoga ou buddhi-yoga, ou, em palavras simples, serviço devocional ao Senhor."}
{"ref": "bg/2/52", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/52/", "verse_text": "yadā te moha-kalilaṁ\n\nbuddhir vyatitariṣyati\n\ntadā gantāsi nirvedaṁ\n\nśrotavyasya śrutasya ca", "devanagari": "> यदा ते मोहकलिलं बुद्धिर्व्यतितरिष्यति ।\n> तदा गन्तासि निर्वेदं श्रोतव्यस्य श्रुतस्य च ॥५२॥", "synonyms": "*yadā*—quando; *te*—sua; *moha*—ilusória; *kalilam*—floresta densa; *buddhiḥ*—serviço transcendental com inteligência; *vyatitariṣyati*—supera; *tadā*—nessa altura; *gantāsi*—você irá; *nirvedam*—indiferença; *śrotavyasya*—de tudo o que se há de ouvir; *śrutasya*—de tudo o que já se ouviu; *ca*—também.", "translation": "**Quando sua inteligência houver atravessado a densa floresta da ilusão, você se tornará indiferente a tudo o que já se ouviu e a tudo o que ainda se há de ouvir.**", "purport": "Há muitos bons exemplos nas vidas dos grandes devotos do Senhor de pessoas que se tornaram indiferentes aos rituais dos *Vedas* simplesmente pelo serviço devocional ao Senhor. Quando uma pessoa de fato compreende Kṛṣṇa e sua relação com Kṛṣṇa, naturalmente torna-se completamente indiferente aos rituais das atividades fruitivas, embora seja um brāhmaṇa experiente. Śrī Mādhavendra Purī, um grande devoto e ācārya na linha dos devotos, diz:\n\n\n\nsandhyā-vandana bhadram astu bhavato bhoḥ snāna tubhyaṁ namo\n\nbho devāḥ pitaraś ca tarpaṇa-vidhau nāhaṁ kṣamaḥ kṣamyatām\n\nyatra kvāpi niṣadya yādava-kulottamasya kaṁsa-dviṣaḥ\n\nsmāraṁ smāram aghaṁ harāmi tad alaṁ manye kim anyena me.\n\n\n\n\"Ó Senhor, em minhas orações três vezes ao dia, todas as glórias a Ti. Ao banhar-me, ofereço-Te minhas reverências. Ó semideuses! Ó antepassados! Por favor, desculpem-me pela minha incapacidade de oferecer-lhes meus respeitos. Agora, onde quer que eu me sente, posso lembrar-me do grande descendente da dinastia Yadu [Kṛṣṇa], o inimigo de Kaṁsa, e, com isso, posso libertar-me de todo cativeiro pecaminoso. Penso que isso é suficiente para mim.\"\n\n\n\nOs ritos e rituais Védicos são imperativos para os neófitos: compreender todo tipo de oração três vezes ao dia, tomar banho de manhã cedo, oferecer respeitos aos antepassados, etc. Mas, quando se está plenamente em consciência de Kṛṣṇa e ocupado em Seu serviço transcendental amoroso, a pessoa torna-se indiferente a todos esses princípios reguladores, pois já alcançou a perfeição. Se a pessoa pode atingir o plano de compreensão pelo serviço ao Senhor Supremo Kṛṣṇa, não tem mais que executar diferentes tipos de penitências e sacrifícios como recomendado nas escrituras reveladas. E, de modo semelhante, se a pessoa não compreendeu que o propósito dos *Vedas* é alcançar Kṛṣṇa e simplesmente se ocupa nos rituais, etc., então está perdendo tempo inutilmente em tais ocupações. As pessoas em consciência de Kṛṣṇa transcendem o limite de śabda-brahma, ou o âmbito dos *Vedas* e dos *Upaniṣads*."}
{"ref": "bg/2/53", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/53/", "verse_text": "śruti-vipratipannā te\n\nyadā sthāsyati niścalā\n\nsamādhāv acalā buddhis\n\ntadā yogam avāpsyasi", "devanagari": "> श्रुतिविप्रतिपन्ना ते यदा स्थास्यति निश्चला ।\n> समाधावचला बुद्धिस्तदा योगमवाप्स्यसि ॥५३॥", "synonyms": "*śruti*—revelação Védica; *vipratipannā*—sem ser influenciada pelos resultados fruitivos dos *Vedas*; *te*—sua; *yadā*—quando; *sthāsyati*—permanecer; *niścalā*—imóvel; *samādhau*—em consciência transcendental, ou consciência de Kṛṣṇa; *acalā*—inabalável; *buddhiḥ*—inteligência; *tadā*—nessa altura; *yogam*—autorrealização; *avāpsyasi*—você alcançará.", "translation": "**Quando sua mente já não for perturbada pela linguagem florida dos *Vedas* e quando permanecer fixa no transe da autorrealização, então você terá alcançado a consciência Divina.**", "purport": "Dizer que a pessoa está em samādhi é dizer que ela percebeu plenamente a consciência de Kṛṣṇa; isto é, aquele que está em pleno samādhi percebeu o Brahman, o Paramātmā e o Bhagavān. A mais elevada perfeição da autorrealização é compreender que a pessoa é eternamente o servo de Kṛṣṇa e que sua única ocupação é cumprir seus deveres em consciência de Kṛṣṇa. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, ou devoto inabalável do Senhor, não deve ser perturbada pela linguagem florida dos *Vedas*, nem se ocupar em atividades fruitivas para a promoção ao reino celestial. Em consciência de Kṛṣṇa, a pessoa entra diretamente em comunhão com Kṛṣṇa, e, assim, todas as orientações de Kṛṣṇa podem ser compreendidas naquele estado transcendental. Tal pessoa certamente alcançará resultados por tais atividades e atingirá conhecimento conclusivo. Basta cumprir as ordens de Kṛṣṇa ou de Seu representante, o mestre espiritual."}
{"ref": "bg/2/54", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/54/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nsthita-prajñasya kā bhāṣā\n\nsamādhi-sthasya keśava\n\nsthita-dhīḥ kiṁ prabhāṣeta\n\nkim āsīta vrajeta kim", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> स्थितप्रज्ञस्य का भाषा समाधिस्थस्य केशव ।\n> स्थितधीः किं प्रभाषेत किमासीत व्रजेत किम् ॥५४॥", "synonyms": "*arjuna uvāca*—Arjuna disse; *sthita-prajñasya*—daquele que se situa em fixa consciência de Kṛṣṇa; *kā*—qual; *bhāṣā*—linguagem; *samādhi-sthasya*—de quem se situa em transe; *keśava*—ó Kṛṣṇa; *sthita-dhīḥ*—aquele que está fixo em consciência de Kṛṣṇa; *kim*—o que; *prabhāṣeta*—fala; *kim*—como; *āsīta*—permanece; *vrajeta*—anda; *kim*—como.", "translation": "**Arjuna disse: Quais são os sintomas daquele cuja consciência está assim fundida na Transcendência? Como ele fala, e qual é a sua linguagem? Como ele se senta, e como ele anda?**", "purport": "Assim como existem sintomas para todo e qualquer homem, em termos de sua particular situação, de modo semelhante aquele que é consciente de Kṛṣṇa tem sua natureza particular—falar, andar, pensar, sentir, etc. Assim como o homem rico tem seus sintomas pelos quais é conhecido como homem rico, como o doente tem seus sintomas pelos quais é conhecido como doente, ou como o erudito tem seus sintomas, assim também o homem em consciência transcendental de Kṛṣṇa tem sintomas específicos em vários tratos. Pode-se conhecer seus sintomas específicos a partir do *Bhagavad-gītā*. O mais importante é como o homem em consciência de Kṛṣṇa fala, pois a fala é a qualidade mais importante de qualquer homem. Diz-se que um tolo não é descoberto enquanto não fala, e, sem dúvida, um tolo bem vestido não pode ser identificado a menos que fale, mas, tão logo fala, ele se revela imediatamente. O sintoma imediato de um homem consciente de Kṛṣṇa é que ele só fala de Kṛṣṇa e de assuntos relacionados a Ele. Outros sintomas seguem-se automaticamente, conforme se afirma a seguir."}
{"ref": "bg/2/55", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/55/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nprajahāti yadā kāmān\n\nsarvān pārtha mano-gatān\n\nātmany evātmanā tuṣṭaḥ\n\nsthita-prajñas tadocyate", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> प्रजहाति यदा कामान्सर्वान्पार्थ मनोगतान् ।\n> आत्मन्येवात्मना तुष्टः स्थितप्रज्ञस्तदोच्यते ॥५५॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *prajahāti*—abandona; *yadā*—quando; *kāmān*—desejos de gratificação dos sentidos; *sarvān*—de todas as variedades; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *manaḥ-gatān*—de invenção mental; *ātmani*—no estado puro da alma; *eva*—certamente; *ātmanā*—pela mente purificada; *tuṣṭaḥ*—satisfeito; *sthita-prajñaḥ*—transcendentalmente situado; *tadā*—nessa altura; *ucyate*—diz-se.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Ó Pārtha, quando um homem abandona todas as variedades de desejos sensoriais que surgem da invenção mental, e quando sua mente encontra satisfação somente no eu, diz-se então que ele está em pura consciência transcendental.**", "purport": "O *Bhāgavatam* afirma que qualquer pessoa que esteja plenamente em consciência de Kṛṣṇa, ou em serviço devocional ao Senhor, possui todas as boas qualidades dos grandes sábios, ao passo que uma pessoa que não esteja assim transcendentalmente situada não tem boas qualificações, pois certamente refugiar-se-á em suas próprias invenções mentais. Em consequência, afirma-se aqui, com razão, que se devem abandonar todos os tipos de desejos sensoriais fabricados por invenção mental. Artificialmente, tais desejos sensoriais não podem ser detidos. Mas, se a pessoa estiver ocupada em consciência de Kṛṣṇa, então, automaticamente, os desejos sensoriais cessam sem esforços externos. Por conseguinte, é preciso ocupar-se em consciência de Kṛṣṇa sem hesitação, pois esse serviço devocional ajudará instantaneamente a pessoa a chegar ao plano da consciência transcendental. A alma altamente desenvolvida permanece sempre satisfeita em si mesma ao perceber-se como o servo eterno do Senhor Supremo. Tal pessoa transcendentalmente situada não tem desejos sensoriais resultantes do mesquinho materialismo; antes, permanece sempre feliz em sua posição natural de servir eternamente ao Senhor Supremo."}
{"ref": "bg/2/56", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/56/", "verse_text": "duḥkheṣv anudvigna-manāḥ\n\nsukheṣu vigata-spṛhaḥ\n\nvīta-rāga-bhaya-krodhaḥ\n\nsthita-dhīr munir ucyate", "devanagari": "> दुःखेष्वनुद्विग्नमनाः सुखेषु विगतस्पृहः ।\n> वीतरागभयक्रोधः स्थितधीर्मुनिरुच्यते ॥५६॥", "synonyms": "*duḥkheṣu*—nas três espécies de misérias; *anudvigna-manāḥ*—sem ter a mente agitada; *sukheṣu*—na felicidade; *vigata-spṛhaḥ*—sem estar muito interessado; *vīta*—livre de; *rāga*—apego; *bhaya*—medo; *krodhaḥ*—ira; *sthita-dhīḥ*—aquele que é firme; *muniḥ*—sábio; *ucyate*—chama-se.", "translation": "**Aquele que não se perturba apesar das três espécies de misérias, que não se exalta quando há felicidade, e que está livre do apego, do medo e da ira, chama-se um sábio de mente firme.**", "purport": "A palavra muni significa aquele que pode agitar sua mente de várias maneiras para a especulação mental sem chegar a uma conclusão factual. Diz-se que cada muni tem um ângulo de visão diferente e, salvo se um muni diferir de outros munis, não pode ser chamado muni no sentido estrito do termo. Nāsau munir yasya mataṁ na binnam. Mas um sthita-dhī-muni, como é mencionado aqui pelo Senhor, é diferente de um muni comum. O sthita-dhī-muni está sempre em consciência de Kṛṣṇa, pois esgotou toda a sua atividade de especulação criativa. Ele superou o estágio das especulações mentais e chegou à conclusão de que o Senhor Śrī Kṛṣṇa, ou Vāsudeva, é tudo. Ele é chamado de muni de mente fixa. Tal pessoa plenamente consciente de Kṛṣṇa não é em absoluto perturbada pelos embates das três espécies de misérias, pois aceita todas as misérias como a misericórdia do Senhor, considerando-se merecedora apenas de mais aflição devido a seus malfeitos passados; e vê que suas misérias, pela graça do Senhor, são minimizadas ao extremo. De modo semelhante, quando ele é feliz, atribui o crédito ao Senhor, considerando-se indigno da felicidade; percebe que é apenas pela graça do Senhor que se encontra em tal condição confortável e capaz de prestar melhor serviço ao Senhor. E, pelo serviço ao Senhor, ele é sempre destemido e ativo e não é influenciado nem por apego nem por aversão. Apego significa aceitar coisas para a própria gratificação dos sentidos, e desapego é a ausência de tal apego sensorial. Mas aquele que está fixo em consciência de Kṛṣṇa não tem nem apego nem desapego, pois sua vida é dedicada ao serviço do Senhor. Em consequência, não fica em absoluto irado, mesmo quando suas tentativas são malsucedidas. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa é sempre firme em sua determinação."}
{"ref": "bg/2/57", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/57/", "verse_text": "yaḥ sarvatrānabhisnehas\n\ntat tat prāpya śubhāśubham\n\nnābhinandati na dveṣṭi\n\ntasya prajñā pratiṣṭhitā", "devanagari": "> यः सर्वत्रानभिस्नेहस्तत्तत्प्राप्य शुभाशुभम् ।\n> नाभिनन्दति न द्वेष्टि तस्य प्रज्ञा प्रतिष्ठिता ॥५७॥", "synonyms": "*yaḥ*—aquele que; *sarvatra*—em toda parte; *anabhisnehaḥ*—sem afeição; *tat*—aquilo; *tat*—aquilo; *prāpya*—obtendo; *śubha*—bem; *aśubham*—mal; *na*—jamais; *abhinandati*—roga; *na*—jamais; *dveṣṭi*—inveja; *tasya*—seu; *prajñā*—conhecimento perfeito; *pratiṣṭhita*—firme.", "translation": "**Aquele que está livre do apego, que não se rejubila ao obter o bem nem se lamenta ao obter o mal, está firmemente fixo em conhecimento perfeito.**", "purport": "Há sempre alguma agitação no mundo material, que pode ser boa ou má. Aquele que não se agita por tais agitações materiais, que não é afetado pelo bem e pelo mal, deve ser entendido como fixo em consciência de Kṛṣṇa. Enquanto a pessoa estiver no mundo material, há sempre a possibilidade de bem e mal, pois este mundo é cheio de dualidade. Mas aquele que está fixo em consciência de Kṛṣṇa não é afetado pelo bem e pelo mal, pois está simplesmente preocupado com Kṛṣṇa, que é todo bondade absoluta. Tal consciência em Kṛṣṇa situa a pessoa em uma posição transcendental perfeita, chamada, tecnicamente, samādhi."}
{"ref": "bg/2/58", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/58/", "verse_text": "yadā saṁharate cāyaṁ\n\nkūrmo 'ṅgānīva sarvaśaḥ\n\nindriyāṇīndriyārthebhyas\n\ntasya prajñā pratiṣṭhitā", "devanagari": "> यदा संहरते चायं कूर्मोऽङ्गानीव सर्वशः ।\n> इन्द्रियाणीन्द्रियार्थेभ्यस्तस्य प्रज्ञा प्रतिष्ठिता ॥५८॥", "synonyms": "*yadā*—quando; *saṁharate*—recolhe; *ca*—também; *ayam*—todos esses; *kūrmaḥ*—tartaruga; *aṅgāni*—membros; *iva*—como; *sarvaśaḥ*—todos juntos; *indriyāni*—sentidos; *indriya-arthebhyaḥ*—dos objetos dos sentidos; *tasya*—sua; *prajñā*—consciência; *pratiṣṭhitā*—firme.", "translation": "**Aquele que é capaz de retirar seus sentidos dos objetos dos sentidos, assim como a tartaruga recolhe seus membros para dentro do casco, deve ser compreendido como verdadeiramente situado em conhecimento.**", "purport": "A prova de um yogī, devoto ou alma autorrealizada é que ele é capaz de controlar os sentidos conforme seu plano. A maioria das pessoas, contudo, é serva dos sentidos e, assim, é dirigida pelo ditado dos sentidos. Essa é a resposta à pergunta sobre como o yogī se situa. Os sentidos são comparados a serpentes peçonhentas. Querem agir muito soltos e sem restrição. O yogī, ou o devoto, deve ser muito forte para controlar as serpentes—como um encantador de serpentes. Jamais lhes permite agir independentemente. Há muitos preceitos nas escrituras reveladas; alguns deles são proibições, e outros são prescrições. Salvo se a pessoa for capaz de seguir as prescrições e proibições, restringindo-se do gozo dos sentidos, não é possível estar firmemente fixo em consciência de Kṛṣṇa. O melhor exemplo apresentado aqui é o da tartaruga. A tartaruga pode, a qualquer momento, recolher seus sentidos e exibi-los novamente, a qualquer momento, para fins particulares. De modo semelhante, os sentidos das pessoas conscientes de Kṛṣṇa só são usados para algum fim específico no serviço ao Senhor, e do contrário são recolhidos. Manter os sentidos sempre no serviço ao Senhor é o exemplo dado pela analogia da tartaruga, que mantém os sentidos recolhidos."}
{"ref": "bg/2/59", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/59/", "verse_text": "viṣayā vinivartante\n\nnirāhārasya dehinaḥ\n\nrasa-varjaṁ raso 'py asya\n\nparaṁ dṛṣṭvā nivartate", "devanagari": "> विषया विनिवर्तन्ते निराहारस्य देहिनः ।\n> रसवर्जं रसोऽप्यस्य परं दृष्ट्वा निवर्तते ॥५९॥", "synonyms": "*viṣayāḥ*—objetos para o gozo dos sentidos; *vinivartante*—são praticados para serem evitados; *nirāhārasya*—por restrições negativas; *dehinaḥ*—do incorporado; *rasa-varjam*—abandonando o sabor; *rasaḥ*—sentido de gozo; *api*—embora haja; *asya*—seu; *param*—coisas muito superiores; *dṛṣṭvā*—experimentando; *nivartate*—cessa.", "translation": "**A alma incorporada pode ser restringida do gozo dos sentidos, embora o sabor pelos objetos dos sentidos permaneça. Mas, ao cessar tais ocupações por experimentar um sabor superior, ela está fixa em consciência.**", "purport": "Salvo se a pessoa estiver transcendentalmente situada, não é possível cessar o gozo dos sentidos. O processo de restrição do gozo dos sentidos por meio de regras e regulamentos é algo como restringir uma pessoa doente de certos tipos de comestíveis. O paciente, contudo, nem gosta de tais restrições nem perde seu gosto pelos comestíveis. De modo semelhante, a restrição dos sentidos por algum processo espiritual como o aṣṭāṅga-yoga, no que se refere a yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dharaṇā, dhyāna, etc., é recomendada para pessoas menos inteligentes que não têm conhecimento melhor. Mas aquele que provou da beleza do Supremo Senhor Kṛṣṇa, no curso de seu avanço em consciência de Kṛṣṇa, já não tem gosto pelas coisas materiais mortas. Por isso, há restrições para os neófitos menos inteligentes no avanço espiritual da vida, mas tais restrições só são boas se a pessoa de fato tiver gosto pela consciência de Kṛṣṇa. Quando se está realmente consciente de Kṛṣṇa, perde-se automaticamente o gosto pelas coisas insípidas."}
{"ref": "bg/2/60", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/60/", "verse_text": "yatato hy api kaunteya\n\npuruṣasya vipaścitaḥ\n\nindriyāṇi pramāthīni\n\nharanti prasabhaṁ manaḥ", "devanagari": "> यततो ह्यपि कौन्तेय पुरुषस्य विपश्चितः ।\n> इन्द्रियाणि प्रमाथीनि हरन्ति प्रसभं मनः ॥६०॥", "synonyms": "*yatataḥ*—enquanto se esforça; *hi*—certamente; *api*—apesar de; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *puruṣasya*—do homem; *vipaścitaḥ*—pleno de conhecimento discriminador; *indriyāṇi*—os sentidos; *pramāthīni*—estimulados; *haranti*—arrastam violentamente; *prasabhaṁ*—à força; *manaḥ*—a mente.", "translation": "**Os sentidos são tão fortes e impetuosos, ó Arjuna, que arrastam à força a mente até mesmo de um homem de discriminação que se esforça por controlá-los.**", "purport": "Há muitos sábios eruditos, filósofos e transcendentalistas que tentam conquistar os sentidos, mas, apesar de seus esforços, mesmo o maior deles às vezes cai vítima do gozo material dos sentidos devido à mente agitada. Mesmo Viśvāmitra, um grande sábio e yogī perfeito, foi seduzido por Menakā ao gozo sexual, embora o yogī se esforçasse pelo controle dos sentidos com severos tipos de penitência e prática de yoga. E, naturalmente, há tantas instâncias semelhantes na história do mundo. Logo, é muito difícil controlar a mente e os sentidos sem estar plenamente consciente de Kṛṣṇa. Sem ocupar a mente em Kṛṣṇa, não se pode cessar tais ocupações materiais. Um exemplo prático é dado por Śrī Yāmunācārya, um grande santo e devoto, que diz: \"Visto que minha mente foi ocupada no serviço aos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa, e venho desfrutando de um humor transcendental sempre novo, sempre que penso em vida sexual com uma mulher, meu rosto imediatamente se afasta dela, e cuspo ante o pensamento.\"\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é uma coisa transcendentalmente tão agradável que automaticamente o gozo material se torna desagradável. É como se um homem faminto houvesse satisfeito sua fome com uma quantidade suficiente de comestíveis nutritivos. Mahārāja Ambarīṣa também conquistou um grande yogī, Durvāsā Muni, simplesmente porque sua mente estava ocupada em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/61", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/61/", "verse_text": "tāni sarvāṇi saṁyamya\n\nyukta āsīta mat-paraḥ\n\nvaśe hi yasyendriyāṇi\n\ntasya prajñā pratiṣṭhitā", "devanagari": "> तानि सर्वाणि संयम्य युक्त आसीत मत्परः ।\n> वशे हि यस्येन्द्रियाणि तस्य प्रज्ञा प्रतिष्ठिता ॥६१॥", "synonyms": "*tāni*—aqueles sentidos; *sarvāṇi*—todos; *saṁyamya*—mantendo sob controle; *yuktaḥ*—estando ocupado; *āsīta*—estando assim situado; *mat-paraḥ*—em relação a Mim; *vaśe*—em pleno domínio; *hi*—certamente; *yasya*—de quem; *indriyāṇi*—sentidos; *tasya*—seu; *prajñā*—consciência; *pratiṣṭhitā*—firme.", "translation": "**Aquele que refreia seus sentidos e fixa sua consciência em Mim é conhecido como homem de inteligência firme.**", "purport": "Que a mais elevada concepção de perfeição em yoga é a consciência de Kṛṣṇa explica-se claramente neste verso. E, salvo se a pessoa for consciente de Kṛṣṇa, não é em absoluto possível controlar os sentidos. Como acima citado, o grande sábio Durvāsā Muni provocou uma briga com Mahārāja Ambarīṣa, e Durvāsā Muni desnecessariamente se irou por orgulho e, portanto, não conseguiu refrear seus sentidos. Por outro lado, o rei, embora não tão poderoso yogī como o sábio, mas um devoto do Senhor, silenciosamente tolerou todas as injustiças do sábio e, assim, saiu vitorioso. O rei foi capaz de controlar seus sentidos por causa das seguintes qualificações, mencionadas no *Śrīmad-Bhāgavatam*:\n\n\n\nsa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayor\n\nvacāṁsi vaikuṇṭha-guṇānavarṇane\n\nkarau harer mandira-mārjanādiṣu\n\nśrutiṁ cakārācyuta-sat-kathodaye\n\n\n\nmukunda-liṅgālaya-darśane dṛśau\n\ntad-bhṛtya-gātra-sparśe'ṅga-saṅgamam\n\nghrāṇaṁ ca tat-pāda-saroja-saurabhe\n\nśrīmat-tulasyā rasanāṁ tad-arpite\n\n\n\npādau hareḥ kṣetra-padānusarpaṇe\n\nśiro hṛṣīkeśa-padābhivandane\n\nkāmaṁ ca dāsye na tu kāma-kāmyayā\n\nyathottamaśloka-janāśrayā ratiḥ\n\n\n\n\"O rei Ambarīṣa fixou sua mente nos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa, ocupou suas palavras em descrever a morada do Senhor, suas mãos em limpar o templo do Senhor, seus ouvidos em ouvir os passatempos do Senhor, seus olhos em ver a forma do Senhor, seu corpo em tocar o corpo do devoto, suas narinas em sentir o aroma das flores oferecidas aos pés de lótus do Senhor, sua língua em saborear as folhas de tulasī oferecidas a Ele, suas pernas em viajar para o lugar santo onde Seu templo se situa, sua cabeça em oferecer reverências ao Senhor, e seus desejos em cumprir os desejos do Senhor... e todas essas qualificações o tornaram apto a tornar-se um devoto mat-paraḥ do Senhor.\" (Bhāg. 9.4.18-20)\n\n\n\nA palavra mat-paraḥ é muitíssimo significativa nesta conexão. Como se pode tornar-se um mat-paraḥ é descrito na vida de Mahārāja Ambarīṣa. Śrīla Baladeva Vidyābhūṣaṇa, um grande erudito e ācārya na linha dos mat-paraḥ, observa: \"mad-bhakti-prabhāvena sarvendriya-vijaya-pūrvikā svātma dṛṣṭiḥ sulabheti bhāvaḥ.\" \"Os sentidos só podem ser plenamente controlados pela força do serviço devocional a Kṛṣṇa.\" Também o exemplo do fogo é, por vezes, dado: \"Assim como as pequenas chamas internas queimam tudo dentro do quarto, de modo semelhante o Senhor Viṣṇu, situado no coração do yogī, queima todo tipo de impurezas.\" O Yoga-sūtra também prescreve a meditação em Viṣṇu, e não a meditação no vazio. Os supostos yogīs que meditam em algo que não é a forma de Viṣṇu simplesmente perdem seu tempo em uma busca vã por alguma fantasmagoria. Temos de ser conscientes de Kṛṣṇa—devotados à Personalidade de Deus. Esse é o objetivo do verdadeiro yoga."}
{"ref": "bg/2/62", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/62/", "verse_text": "dhyāyato viṣayān puṁsaḥ\n\nsaṅgas teṣūpajāyate\n\nsaṅgāt sañjāyate kāmaḥ\n\nkāmāt krodho 'bhijāyate", "devanagari": "> ध्यायतो विषयान्पुंसः सङ्गस्तेषूपजायते ।\n> सङ्गात्सञ्जायते कामः कामात्क्रोधोऽभिजायते ॥६२॥", "synonyms": "*dhyayataḥ*—enquanto contempla; *viṣayān*—objetos dos sentidos; *puṁsaḥ*—da pessoa; *saṅgaḥ*—apego; *teṣu*—nos objetos dos sentidos; *upajāyate*—desenvolve-se; *saṅgāt*—do apego; *sañjāyate*—desenvolve-se; *kāmaḥ*—desejo; *kāmāt*—do desejo; *krodhaḥ*—ira; *abhijāyate*—manifesta-se.", "translation": "**Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego a eles, e desse apego desenvolve-se a luxúria, e da luxúria surge a ira.**", "purport": "Aquele que não é consciente de Kṛṣṇa está sujeito a desejos materiais ao contemplar os objetos dos sentidos. Os sentidos requerem ocupações reais, e, se não forem ocupados no serviço transcendental amoroso ao Senhor, certamente buscarão ocupação no serviço ao materialismo. No mundo material, todos, incluindo o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā—para não falar dos outros semideuses nos planetas celestiais—, estão sujeitos à influência dos objetos dos sentidos, e o único método de sair deste enigma da existência material é tornar-se consciente de Kṛṣṇa. O Senhor Śiva estava em profunda meditação, mas quando Pārvatī o agitou para o prazer dos sentidos, ele concordou com a proposta, e, em consequência, Kārtikeya nasceu. Quando Haridāsa Ṭhākura era um jovem devoto do Senhor, ele foi de modo semelhante seduzido pela encarnação de Māyā Devī, mas Haridāsa passou facilmente no teste em razão de sua devoção pura ao Senhor Kṛṣṇa. Como ilustrado no verso acima mencionado de Śrī Yāmunācārya, um devoto sincero do Senhor evita todo gozo material dos sentidos por causa de seu sabor superior pelo gozo espiritual na associação com o Senhor. Esse é o segredo do êxito. Aquele que, portanto, não está em consciência de Kṛṣṇa, por mais poderoso que possa ser no controle dos sentidos por repressão artificial, certamente fracassará no fim, pois o menor pensamento de prazer dos sentidos o agitará a satisfazer seus desejos."}
{"ref": "bg/2/63", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/63/", "verse_text": "krodhād bhavati sammohaḥ\n\nsammohāt smṛti-vibhramaḥ\n\nsmṛti-bhraṁśād buddhi-nāśo\n\nbuddhi-nāśāt praṇaśyati", "devanagari": "> क्रोधाद्भवति सम्मोहः सम्मोहात्स्मृतिविभ्रमः ।\n> स्मृतिभ्रंशाद् बुद्धिनाशो बुद्धिनाशात्प्रणश्यति ॥६३॥", "synonyms": "*krodhāt*—da ira; *bhavati*—ocorre; *saṁmohaḥ*—ilusão perfeita; *saṁmohāt*—da ilusão; *smṛti*—da memória; *vibhramaḥ*—confusão; *smṛti-bhraṁśāt*—após a confusão da memória; *buddhi-nāśaḥ*—perda da inteligência; *buddhi-nāśāt*—e da perda da inteligência; *praṇaśyati*—cai.", "translation": "**Da ira surge a ilusão, e da ilusão a confusão da memória. Quando a memória se confunde, perde-se a inteligência, e quando a inteligência se perde, cai-se novamente no charco material.**", "purport": "Pelo desenvolvimento da consciência de Kṛṣṇa, pode-se saber que tudo tem seu uso no serviço ao Senhor. Aqueles que estão sem o conhecimento da consciência de Kṛṣṇa tentam artificialmente evitar os objetos materiais e, em consequência, embora desejem a liberação do cativeiro material, não atingem o estágio perfeito de renúncia. Por outro lado, uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa sabe como usar tudo no serviço ao Senhor; logo, não se torna vítima da consciência material. Por exemplo, para o impersonalista, o Senhor, ou o Absoluto, sendo impessoal, não pode comer. Enquanto o impersonalista tenta evitar bons comestíveis, o devoto sabe que Kṛṣṇa é o supremo desfrutador e que Ele come tudo o que Lhe é oferecido em devoção. Logo, depois de oferecer bons comestíveis ao Senhor, o devoto toma os restos, chamados prasādam. Assim, tudo se espiritualiza e não há perigo de queda. O devoto toma prasādam em consciência de Kṛṣṇa, ao passo que o não-devoto rejeita-o como material. O impersonalista, por isso, não pode desfrutar a vida em razão de sua renúncia artificial; e, por essa razão, uma leve agitação da mente o puxa novamente para o charco da existência material. Diz-se que tal alma, embora se eleve até o ponto da liberação, cai novamente em razão de não ter apoio no serviço devocional."}
{"ref": "bg/2/64", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/64/", "verse_text": "rāga-dveṣa-vimuktais tu\n\nviṣayān indriyaiś caran\n\nātma-vaśyair vidheyātmā\n\nprasādam adhigacchati", "devanagari": "> रागद्वेषविमुक्तैस्तु विषयानिन्द्रियैश्चरन् ।\n> आत्मवश्यैर्विधेयात्मा प्रसादमधिगच्छति ॥६४॥", "synonyms": "*rāga*—apego; *dveṣa*—desapego; *vimuktaiḥ*—por aquele que se libertou de tais coisas; *tu*—mas; *viṣayān*—objetos dos sentidos; *indriyaiḥ*—pelos sentidos; *caran*—agindo; *ātma-vaśyaiḥ*—aquele que tem controle sobre; *vidheyātmā*—aquele que segue a liberdade regulada; *prasādam*—a misericórdia do Senhor; *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**Aquele que pode controlar seus sentidos praticando os princípios regulados de liberdade pode obter a misericórdia plena do Senhor e, assim, libertar-se de todo apego e aversão.**", "purport": "Já está explicado que se podem controlar externamente os sentidos por algum processo artificial, mas, salvo se os sentidos forem ocupados no serviço transcendental ao Senhor, há toda a possibilidade de queda. Embora a pessoa em plena consciência de Kṛṣṇa possa estar aparentemente no plano sensual, por estar consciente de Kṛṣṇa, ela não tem apego às atividades sensuais. A pessoa consciente de Kṛṣṇa preocupa-se apenas com a satisfação de Kṛṣṇa, e nada mais. Por isso, é transcendental a todo apego. Se Kṛṣṇa quiser, o devoto pode fazer qualquer coisa que normalmente seria indesejável; e, se Kṛṣṇa não quiser, ele não fará aquilo que normalmente teria feito para sua própria satisfação. Logo, agir ou não agir está sob seu controle, pois ele só age sob a direção de Kṛṣṇa. Esta consciência é a misericórdia imotivada do Senhor, que o devoto pode alcançar apesar de estar apegado ao plano sensual."}
{"ref": "bg/2/65", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/65/", "verse_text": "prasāde sarva-duḥkhānāṁ\n\nhānir asyopajāyate\n\nprasanna-cetaso hy āśu\n\nbuddhiḥ paryavatiṣṭhate", "devanagari": "> प्रसादे सर्वदुःखानां हानिरस्योपजायते ।\n> प्रसन्नचेतसो ह्याशु बुद्धिः पर्यवतिष्ठते ॥६५॥", "synonyms": "*prasāde*—ao alcançar a misericórdia imotivada do Senhor; *sarva*—todas; *duḥkhānām*—misérias materiais; *hāniḥ*—destruição; *asya*—sua; *upajāyate*—ocorre; *prasanna-cetasaḥ*—do que tem mente feliz; *hi*—certamente; *āśu*—muito em breve; *buddhiḥ*—inteligência; *pari*—suficientemente; *avatiṣṭhate*—estabelecida.", "translation": "**Para aquele que assim se situa em consciência Divina, as três espécies de misérias da existência material já não existem; em tal estado feliz, a inteligência logo se torna firme.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/2/66", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/66/", "verse_text": "nāsti buddhir ayuktasya\n\nna cāyuktasya bhāvanā\n\nna cābhāvayataḥ śāntir\n\naśāntasya kutaḥ sukham", "devanagari": "> नास्ति बुद्धिरयुक्तस्य न चायुक्तस्य भावना ।\n> न चाभावयतः शान्तिरशान्तस्य कुतः सुखम् ॥६६॥", "synonyms": "*na asti*—não pode haver; *buddhiḥ*—inteligência transcendental; *ayuktasya*—de quem não está conectado (em consciência de Kṛṣṇa); *na*—nem; *ca*—e; *ayuktasya*—de quem não tem consciência de Kṛṣṇa; *bhāvanā*—mente fixa em felicidade; *na*—nem; *ca*—e; *abhāvayataḥ*—de quem não está fixo; *śāntiḥ*—paz; *aśāntasya*—do que não está em paz; *kutaḥ*—onde está; *sukham*—felicidade.", "translation": "**Aquele que não está em consciência transcendental não pode ter mente controlada nem inteligência firme, sem as quais não há possibilidade de paz. E como pode haver felicidade alguma sem paz?**", "purport": "Salvo se a pessoa estiver em consciência de Kṛṣṇa, não há possibilidade de paz. Logo, confirma-se no Quinto Capítulo (5.29) que, quando a pessoa compreende que Kṛṣṇa é o único desfrutador de todos os bons resultados de sacrifício e penitência, e que Ele é o proprietário de todas as manifestações universais, que Ele é o verdadeiro amigo de todas as entidades vivas, então e somente então pode ter verdadeira paz. Logo, se a pessoa não está em consciência de Kṛṣṇa, não pode haver objetivo final para a mente. A perturbação se deve à falta de um objetivo último, e quando se está certo de que Kṛṣṇa é o desfrutador, proprietário e amigo de todos e de tudo, então pode-se, com mente firme, instaurar a paz. Por isso, aquele que está ocupado sem uma relação com Kṛṣṇa certamente está sempre em aflição e sem paz, por mais que faça uma exibição de paz e avanço espiritual na vida. A consciência de Kṛṣṇa é uma condição pacífica autoevidente que só pode ser alcançada em relação com Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/2/67", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/67/", "verse_text": "indriyāṇāṁ hi caratāṁ\n\nyan mano 'nuvidhīyate\n\ntad asya harati prajñāṁ\n\nvāyur nāvam ivāmbhasi", "devanagari": "> इन्द्रियाणां हि चरतां यन्मनोऽनुविधीयते ।\n> तदस्य हरति प्रज्ञां वायुर्नावमिवाम्भसि ॥६७॥", "synonyms": "*indriyāṇām*—dos sentidos; *hi*—certamente; *caratām*—pastoreando; *yat*—aquele; *manaḥ*—mente; *anuvidhīyate*—ocupa-se constantemente; *tat*—aquele; *asya*—sua; *harati*—leva embora; *prajñām*—inteligência; *vāyuḥ*—vento; *nāvam*—um barco; *iva*—como; *ambhasi*—na água.", "translation": "**Assim como um barco na água é levado por um vento forte, mesmo um dos sentidos no qual a mente se concentra pode levar embora a inteligência do homem.**", "purport": "Salvo se todos os sentidos estiverem ocupados no serviço ao Senhor, mesmo um deles ocupado na gratificação dos sentidos pode desviar o devoto da senda do avanço transcendental. Como mencionado na vida de Mahārāja Ambarīṣa, todos os sentidos devem estar ocupados em consciência de Kṛṣṇa, pois essa é a técnica correta para controlar a mente."}
{"ref": "bg/2/68", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/68/", "verse_text": "tasmād yasya mahā-bāho\n\nnigṛhītāni sarvaśaḥ\n\nindriyāṇīndriyārthebhyas\n\ntasya prajñā pratiṣṭhitā", "devanagari": "> तस्माद्यस्य महाबाहो निगृहीतानि सर्वशः ।\n> इन्द्रियाणीन्द्रियार्थेभ्यस्तस्य प्रज्ञा प्रतिष्ठिता ॥६८॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *yasya*—de uma; *mahā-bāho*—ó poderoso de braços; *nigṛhītāni*—assim refreados; *sarvaśaḥ*—em toda parte; *indriyāṇi*—os sentidos; *indriya-arthebhyaḥ*—em prol dos objetos dos sentidos; *tasya*—sua; *prajñā*—inteligência; *pratiṣṭhitā*—firme.", "translation": "**Por isso, ó poderoso de braços, aquele cujos sentidos estão refreados de seus objetos é, sem dúvida, de inteligência firme.**", "purport": "Assim como os inimigos são refreados por força superior, de modo semelhante os sentidos podem ser refreados não por nenhum esforço humano, mas apenas por mantê-los ocupados no serviço ao Senhor. Aquele que compreendeu isso—que somente pela consciência de Kṛṣṇa é que se está realmente estabelecido em inteligência e que se deve praticar essa arte sob a orientação de um mestre espiritual genuíno—chama-se sādhaka, ou um candidato adequado para a liberação."}
{"ref": "bg/2/69", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/69/", "verse_text": "yā niśā sarva-bhūtānāṁ\n\ntasyāṁ jāgarti saṁyamī\n\nyasyāṁ jāgrati bhūtāni\n\nsā niśā paśyato muneḥ", "devanagari": "> या निशा सर्वभूतानां तस्यां जागर्ति संयमी ।\n> यस्यां जाग्रति भूतानि सा निशा पश्यतो मुनेः ॥६९॥", "synonyms": "*yā*—o que; *niśā*—é noite; *sarva*—de todas; *bhūtānām*—as entidades vivas; *tasyām*—nesse; *jāgarti*—desperto; *saṁyamī*—o autocontrolado; *yasyām*—no qual; *jāgrati*—acordados; *bhūtāni*—todos os seres; *sā*—isso é; *niśā*—noite; *paśyataḥ*—para o introspectivo; *muneḥ*—sábio.", "translation": "**O que é noite para todos os seres é o tempo de despertar para o autocontrolado; e o tempo de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo.**", "purport": "Há duas classes de homens inteligentes. Uma é inteligente nas atividades materiais para a gratificação dos sentidos, e a outra é introspectiva e desperta para o cultivo da autorrealização. As atividades do sábio introspectivo, ou homem reflexivo, são noite para as pessoas materialmente absortas. As pessoas materialistas permanecem adormecidas em tal noite em razão de sua ignorância acerca da autorrealização. O sábio introspectivo permanece alerta na \"noite\" dos homens materialistas. O sábio sente prazer transcendental no avanço gradual da cultura espiritual, ao passo que o homem em atividades materialistas, estando adormecido para a autorrealização, sonha com variedades de prazer dos sentidos, sentindo-se ora feliz, ora aflito em sua condição adormecida. O homem introspectivo permanece sempre indiferente à felicidade e à aflição materialistas. Continua com suas atividades de autorrealização sem ser perturbado pela reação material."}
{"ref": "bg/2/70", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/70/", "verse_text": "āpūryamāṇam acala-pratiṣṭhaṁ\n\nsamudram āpaḥ praviśanti yadvat\n\ntadvat kāmā yaṁ praviśanti sarve\n\nsa śāntim āpnoti na kāma-kāmī", "devanagari": "> आपूर्यमाणमचलप्रतिष्ठं\n> समुद्रमापः प्रविशन्ति यद्वत् ।\n> तद्वत्कामा यं प्रविशन्ति सर्वे\n> स शान्तिमाप्नोति न कामकामी ॥७०॥", "synonyms": "*āpūryamāṇam*—sempre cheio; *acala-pratiṣṭham*—firmemente situado; *samudram*—o oceano; *āpaḥ*—água; *praviśanti*—entram; *yadvat*—assim como; *tadvat*—assim; *kāmāḥ*—desejos; *yam*—em alguém; *praviśanti*—entram; *sarve*—todos; *saḥ*—essa pessoa; *śāntim*—paz; *āpnoti*—alcança; *na*—não; *kāma-kāmī*—aquele que deseja satisfazer desejos.", "translation": "**Aquele que não se perturba pelo incessante fluir dos desejos—que entram como rios no oceano que está sempre sendo enchido, mas permanece sempre sereno—pode, somente ele, alcançar a paz, e não o homem que se esforça por satisfazer tais desejos.**", "purport": "Embora o vasto oceano esteja sempre cheio de água, está sempre, sobretudo durante a estação chuvosa, sendo enchido com muito mais água. Mas o oceano permanece o mesmo—firme; não se agita, nem ultrapassa os limites de sua margem. Assim também é uma pessoa fixa em consciência de Kṛṣṇa. Enquanto se tem o corpo material, as exigências do corpo pela gratificação dos sentidos continuarão. O devoto, contudo, não se perturba por tais desejos, em razão de sua plenitude. Um homem consciente de Kṛṣṇa não tem necessidade de nada, pois o Senhor satisfaz todas as suas necessidades materiais. Por isso, ele é como o oceano—sempre pleno em si mesmo. Os desejos podem chegar a ele como as águas dos rios que correm para o oceano, mas ele é firme em suas atividades, e nem mesmo levemente é perturbado por desejos de gratificação dos sentidos. Essa é a prova de um homem consciente de Kṛṣṇa—aquele que perdeu todas as inclinações para a gratificação material dos sentidos, embora os desejos estejam presentes. Como permanece satisfeito no serviço transcendental amoroso ao Senhor, pode permanecer firme, como o oceano, e, por isso, desfrutar de plena paz. Outros, porém, que satisfazem desejos até o limite da liberação, sem falar do êxito material, jamais alcançam a paz. Os trabalhadores fruitivos, os salvacionistas e também os yogīs que buscam poderes místicos são todos infelizes em razão de desejos não cumpridos. Mas a pessoa em consciência de Kṛṣṇa é feliz no serviço ao Senhor, e não tem desejos a serem cumpridos. De fato, ela nem mesmo deseja a liberação do suposto cativeiro material. Os devotos de Kṛṣṇa não têm desejos materiais e, por isso, estão em paz perfeita."}
{"ref": "bg/2/71", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/71/", "verse_text": "vihāya kāmān yaḥ sarvān\n\npumāṁś carati niḥspṛhaḥ\n\nnirmamo nirahaṅkāraḥ\n\nsa śāntim adhigacchati", "devanagari": "> विहाय कामान्यः सर्वान्पुमांश्चरति निःस्पृहः ।\n> निर्ममो निरहङ्कारः स शान्तिमधिगच्छति ॥७१॥", "synonyms": "*vihāya*—depois de abandonar; *kāmān*—todos os desejos materiais por gratificação dos sentidos; *yaḥ*—a pessoa; *sarvān*—todos; *pumān*—uma pessoa; *carati*—vive; *nihṣpṛhaḥ*—sem desejos; *nirmamaḥ*—sem senso de propriedade; *nirahaṅkāraḥ*—sem ego falso; *saḥ*—todos; *śāntim*—paz perfeita; *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**A pessoa que abandonou todos os desejos pela gratificação dos sentidos, que vive livre de desejos, que abandonou todo senso de propriedade e está desprovida de ego falso—só ela pode alcançar a verdadeira paz.**", "purport": "Tornar-se sem desejos significa não desejar nada para a gratificação dos sentidos. Em outras palavras, o desejo de tornar-se consciente de Kṛṣṇa é, na verdade, ausência de desejos. Compreender a posição real da pessoa como servo eterno de Kṛṣṇa, sem falsamente alegar que este corpo material é o eu e sem falsamente reivindicar a propriedade de qualquer coisa no mundo, é o estágio perfeito da consciência de Kṛṣṇa. Aquele que está situado neste estágio perfeito sabe que, como Kṛṣṇa é o proprietário de tudo, tudo deve, portanto, ser usado para a satisfação de Kṛṣṇa. Arjuna não queria lutar para sua própria satisfação dos sentidos, mas, quando se tornou plenamente consciente de Kṛṣṇa, lutou porque Kṛṣṇa queria que ele lutasse. Para si mesmo, não havia desejo de lutar, mas, por Kṛṣṇa, o mesmo Arjuna lutou com toda a sua capacidade. O desejo pela satisfação de Kṛṣṇa é, na verdade, ausência de desejos; não é uma tentativa artificial de abolir os desejos. A entidade viva não pode ficar sem desejos ou sem sentidos, mas tem de mudar a qualidade dos desejos. Uma pessoa materialmente sem desejos certamente sabe que tudo pertence a Kṛṣṇa (īśāvāsyam idaṁ sarvam) e, por isso, não reivindica falsamente a propriedade de coisa alguma. Este conhecimento transcendental baseia-se na autorrealização—a saber, em saber perfeitamente que cada entidade viva é a parte integrante eterna de Kṛṣṇa em identidade espiritual. Por isso, a posição eterna da entidade viva jamais está no nível de Kṛṣṇa nem é maior do que Ele. Esta compreensão da consciência de Kṛṣṇa é o princípio básico da verdadeira paz."}
{"ref": "bg/2/72", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/2/72/", "verse_text": "eṣā brāhmī sthitiḥ pārtha\n\nnaināṁ prāpya vimuhyati\n\nsthitvāsyām anta-kāle 'pi\n\nbrahma-nirvāṇam ṛcchati", "devanagari": "> एषा ब्राह्मी स्थितिः पार्थ नैनां प्राप्य विमुह्यति ।\n> स्थित्वास्यामन्तकालेऽपि ब्रह्मनिर्वाणमृच्छति ॥७२॥", "synonyms": "*eṣā*—esta; *brāhmī*—espiritual; *sthitiḥ*—situação; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *na*—jamais; *enām*—esta; *prāpya*—alcançando; *vimuhyati*—confunde; *sthitvā*—estando assim situado; *asyām*—estando assim; *anta-kāle*—no fim da vida; *api*—também; *brahma-nirvāṇam*—espiritual (reino de Deus); *ṛcchati*—alcança.", "translation": "**Esse é o caminho da vida espiritual e divina, após alcançar a qual o homem não se confunde. Estando assim situado, mesmo na hora da morte, pode-se entrar no reino de Deus.**", "purport": "Pode-se alcançar a consciência de Kṛṣṇa, ou a vida divina, imediatamente, em um segundo—ou pode-se não alcançar tal estado de vida nem mesmo após milhões de nascimentos. É apenas uma questão de compreender e aceitar o fato. Khaṭvāṅga Mahārāja alcançou esse estado de vida apenas alguns minutos antes de sua morte, ao render-se a Kṛṣṇa. Nirvāṇa significa pôr fim ao processo da vida materialista. Conforme a filosofia budista, há apenas vazio após a conclusão desta vida material, mas o *Bhagavad-gītā* ensina diferentemente. A vida real começa após a conclusão desta vida material. Para o materialista grosseiro, basta saber que se tem de pôr fim a este modo de vida materialista, mas, para as pessoas que estão espiritualmente avançadas, há outra vida após esta vida materialista. Antes de pôr fim a esta vida, se a pessoa, por boa fortuna, se tornar consciente de Kṛṣṇa, ela imediatamente alcança o estágio de Brahma-nirvāṇa. Não há diferença entre o reino de Deus e o serviço devocional ao Senhor. Visto que ambos estão no plano absoluto, ocupar-se no serviço transcendental amoroso ao Senhor é ter alcançado o reino espiritual. No mundo material, há atividades de gratificação dos sentidos, ao passo que no mundo espiritual há atividades da consciência de Kṛṣṇa. Alcançar a consciência de Kṛṣṇa mesmo nesta vida é o alcance imediato do Brahman, e aquele que está situado em consciência de Kṛṣṇa certamente já entrou no reino de Deus.\n\n\n\nO Brahman é justamente o oposto da matéria. Por isso, brāhmī sthitiḥ significa \"não no plano das atividades materiais\". O serviço devocional ao Senhor é aceito no *Bhagavad-gītā* como o estágio liberado. Por isso, brāhmī-sthitiḥ é a liberação do cativeiro material.\n\n\n\nŚrīla Bhaktivinoda Ṭhākura resumiu este Segundo Capítulo do *Bhagavad-gītā* como sendo o conteúdo de todo o texto. No *Bhagavad-gītā*, os assuntos são karma-yoga, jñāna-yoga e bhakti-yoga. No Segundo Capítulo, foram claramente discutidos karma-yoga e jñāna-yoga, e um vislumbre de bhakti-yoga também foi dado, como o conteúdo do texto completo.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Segundo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* no que diz respeito a seu Conteúdo."}
{"ref": "bg/3/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\njyāyasī cet karmaṇas te\n\nmatā buddhir janārdana\n\ntat kiṁ karmaṇi ghore māṁ\n\nniyojayasi keśava", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> ज्यायसी चेत्कर्मणस्ते मता बुद्धिर्जनार्दन ।\n> तत्किं कर्मणि घोरे मां नियोजयसि केशव ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ*—Arjuna; *uvāca*—disse; *jyāyasī*—falando muito altamente; *cet*—embora; *karmaṇaḥ*—do que a ação fruitiva; *te*—Tua; *matā*—opinião; *buddhiḥ*—inteligência; *janārdana*—ó Kṛṣṇa; *tat*—portanto; *kim*—por que; *karmaṇi*—em ação; *ghore*—medonha; *mām*—a mim; *niyojayasi*—ocupando-me; *keśava*—ó Kṛṣṇa.", "translation": "**Arjuna disse: Ó Janārdana, ó Keśava, por que desejas ocupar-me nesta guerra medonha, se consideras que a inteligência é melhor do que o trabalho fruitivo?**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, descreveu muito minuciosamente a constituição da alma no capítulo anterior, com o intuito de libertar Seu amigo íntimo Arjuna do oceano da aflição material. E recomendou-se a senda da realização: o buddhi-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa. Por vezes, a consciência de Kṛṣṇa é mal compreendida como inércia, e quem assim a entende equivocadamente costuma retirar-se a um lugar isolado para tornar-se plenamente consciente de Kṛṣṇa cantando o santo nome do Senhor Kṛṣṇa. No entanto, sem ter sido instruído na filosofia da consciência de Kṛṣṇa, não é aconselhável cantar o santo nome de Kṛṣṇa em um local isolado, onde se pode obter apenas a admiração barata do público inocente. Arjuna também concebia a consciência de Kṛṣṇa, ou buddhi-yoga, ou seja, a inteligência no avanço espiritual do conhecimento, como algo semelhante ao retiro da vida ativa e à prática de penitência e austeridade em um lugar isolado. Em outras palavras, ele queria habilmente esquivar-se do combate, usando a consciência de Kṛṣṇa como pretexto. Porém, como aluno sincero, expôs a questão a seu mestre e perguntou a Kṛṣṇa qual seria seu melhor curso de ação. Em resposta, o Senhor Kṛṣṇa explicou minuciosamente o karma-yoga, ou trabalho em consciência de Kṛṣṇa, neste Terceiro Capítulo."}
{"ref": "bg/3/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/2/", "verse_text": "vyāmiśreṇeva vākyena\n\nbuddhiṁ mohayasīva me\n\ntad ekaṁ vada niścitya\n\nyena śreyo 'ham āpnuyām", "devanagari": "> व्यामिश्रेणेव वाक्येन बुद्धिं मोहयसीव मे ।\n> तदेकं वद निश्चित्य येन श्रेयोऽहमाप्नुयाम् ॥२॥", "synonyms": "*vyāmiśreṇa*—por equívocas; *iva*—como; *vākyena*—palavras; *buddhim*—inteligência; *mohayasi*—confundindo; *iva*—como; *me*—minha; *tat*—portanto; *ekam*—somente uma; *vada*—por favor, dize; *niścitya*—averiguando; *yena*—pelo qual; *śreyaḥ*—o verdadeiro benefício; *aham*—eu; *āpnuyām*—possa obtê-lo.", "translation": "**Minha inteligência está confundida por Tuas instruções equívocas. Por isso, peço-Te que me digas decisivamente o que me é mais benéfico.**", "purport": "No capítulo anterior, como prelúdio do *Bhagavad-gītā*, foram explicadas muitas sendas distintas, tais como o sāṅkhya-yoga, o buddhi-yoga, o controle dos sentidos pela inteligência, o trabalho sem desejo fruitivo e a posição do neófito. Tudo isso foi apresentado de modo assistemático. Far-se-ia necessário um esboço mais organizado da senda para a ação e a compreensão. Arjuna, portanto, queria esclarecer essas questões aparentemente confusas, a fim de que qualquer homem comum pudesse aceitá-las sem má interpretação. Embora Kṛṣṇa não tivesse a intenção de confundir Arjuna por meio de qualquer malabarismo de palavras, Arjuna não conseguia seguir o processo da consciência de Kṛṣṇa — nem pela inércia nem pelo serviço ativo. Em outras palavras, com suas perguntas, ele desbrava a senda da consciência de Kṛṣṇa para todos os alunos que sinceramente desejam compreender o mistério do *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "bg/3/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/3/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nloke 'smin dvi-vidhā niṣṭhā\n\npurā proktā mayānagha\n\njñāna-yogena sāṅkhyānāṁ\n\nkarma-yogena yoginām", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> लोकेऽस्मिन् द्विविधा निष्ठा पुरा प्रोक्ता मयानघ ।\n> ज्ञानयोगेन साङ्ख्यानां कर्मयोगेन योगिनाम् ॥३॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *loke*—no mundo; *asmin*—este; *dvi-vidhā*—de duas espécies; *niṣṭhā*—fé; *purā*—anteriormente; *proktā*—foi dito; *mayā*—por Mim; *anagha*—ó imaculado; *jñāna-yogena*—pelo processo de vinculação do conhecimento; *sāṅkhyānām*—dos filósofos empíricos; *karma-yogena*—pelo processo de vinculação da devoção; *yoginām*—dos devotos.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Ó imaculado Arjuna, já expliquei que há duas classes de homens que percebem o Eu. Alguns inclinam-se a compreendê-lO por meio de especulação empírica e filosófica, e outros inclinam-se a conhecê-lO mediante o trabalho devocional.**", "purport": "No Segundo Capítulo, verso 39, o Senhor explicou dois tipos de procedimentos — a saber, sāṅkhya-yoga e karma-yoga, ou buddhi-yoga. Neste verso, o Senhor explica o mesmo de modo mais claro. O sāṅkhya-yoga, ou o estudo analítico da natureza do espírito e da matéria, é a matéria reservada às pessoas que se inclinam a especular e a compreender as coisas pelo conhecimento experimental e pela filosofia. A outra classe de homens trabalha em consciência de Kṛṣṇa, conforme se explica no 61º verso do Segundo Capítulo. O Senhor explicou também, no 39º verso, que, ao trabalhar segundo os princípios do buddhi-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa, a pessoa pode aliviar-se dos grilhões da ação; e, além disso, não há falha alguma no processo. O mesmo princípio é explicado mais claramente no 61º verso — a saber, que este buddhi-yoga consiste em depender inteiramente do Supremo (ou, mais especificamente, de Kṛṣṇa), e dessa maneira todos os sentidos podem ser dominados com muita facilidade. Por conseguinte, ambos os yogas são interdependentes, como religião e filosofia. Religião sem filosofia é sentimentalismo, ou às vezes fanatismo, ao passo que filosofia sem religião é especulação mental. A meta última é Kṛṣṇa, pois os filósofos que também buscam sinceramente a Verdade Absoluta chegam, ao fim, à consciência de Kṛṣṇa. Isso também é declarado no *Bhagavad-gītā*. Todo o processo consiste em compreender a verdadeira posição do eu em relação ao Supereu. O processo indireto é a especulação filosófica, pela qual, gradualmente, pode-se chegar ao ponto da consciência de Kṛṣṇa; e o outro processo consiste em conectar-se diretamente com tudo em consciência de Kṛṣṇa. Destes dois, a senda da consciência de Kṛṣṇa é melhor, pois não depende de purificar os sentidos por meio de um processo filosófico. A consciência de Kṛṣṇa é, em si mesma, o processo purificador, e, pelo método direto do serviço devocional, ela é simultaneamente fácil e sublime."}
{"ref": "bg/3/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/4/", "verse_text": "na karmaṇām anārambhān\n\nnaiṣkarmyaṁ puruṣo 'śnute\n\nna ca sannyasanād eva\n\nsiddhiṁ samadhigacchati", "devanagari": "> न कर्मणामनारम्भान्नैष्कर्म्यं पुरुषोऽश्नुते ।\n> न च संन्यसनादेव सिद्धिं समधिगच्छति ॥४॥", "synonyms": "*na*—sem; *karmaṇām*—dos deveres prescritos; *anārambhāt*—a não execução; *naiṣkarmyam*—a libertação das reações; *puruṣah*—homem; *aśnute*—alcança; *na*—nem; *ca*—também; *sannyasanāt*—pela renúncia; *eva*—simplesmente; *siddhim*—o êxito; *samadhigacchati*—atinge.", "translation": "**Não é por simplesmente abster-se do trabalho que se pode alcançar a libertação das reações, nem só pela renúncia se pode atingir a perfeição.**", "purport": "A ordem renunciada de vida pode ser aceita após haver-se purificado pelo desempenho da forma prescrita de deveres, instituídos justamente para purificar o coração dos homens materialistas. Sem purificação, ninguém pode alcançar êxito adotando abruptamente a quarta ordem da vida (sannyāsa). Segundo os filósofos empíricos, basta adotar o sannyāsa, ou retirar-se das atividades fruitivas, para que de imediato a pessoa se torne tão boa quanto Nārāyaṇa. Mas o Senhor Kṛṣṇa não aprova esse princípio. Sem purificação do coração, o sannyāsa é simplesmente uma perturbação à ordem social. Por outro lado, se alguém se dedica ao serviço transcendental do Senhor, mesmo sem cumprir seus deveres prescritos, qualquer avanço que consiga obter na causa é aceito pelo Senhor (buddhi-yoga). Svalpam apy asya dharmasya trāyate mahato bhayāt. Mesmo um pequeno desempenho de tal princípio capacita a pessoa a superar grandes dificuldades."}
{"ref": "bg/3/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/5/", "verse_text": "na hi kaścit kṣaṇam api\n\njātu tiṣṭhaty akarma-kṛt\n\nkāryate hy avaśaḥ karma\n\nsarvaḥ prakṛti-jair guṇaiḥ", "devanagari": "> न हि कश्चित्क्षणमपि जातु तिष्ठत्यकर्मकृत् ।\n> कार्यते ह्यवशः कर्म सर्वः प्रकृतिजैर्गुणैः ॥५॥", "synonyms": "*na*—nem; *hi*—certamente; *kaścit*—ninguém; *kṣaṇam*—nem mesmo um instante; *api*—também; *jātu*—jamais; *tiṣṭhati*—permanece; *akarma-kṛt*—sem fazer algo; *kāryate*—é forçado a fazer; *hi*—certamente; *avaśaḥ*—desamparadamente; *karma*—trabalho; *sarvaḥ*—todos; *prakṛti-jaiḥ*—nascidos dos modos da natureza material; *guṇaiḥ*—pelas qualidades.", "translation": "**Todos os homens são forçados a agir desamparadamente, segundo os impulsos nascidos dos modos da natureza material; portanto, ninguém pode abster-se de fazer algo, nem sequer por um instante.**", "purport": "Não se trata de uma questão da vida corporificada, mas é da natureza da alma estar sempre ativa. Sem a presença da alma espiritual, o corpo material não pode mover-se. O corpo é apenas um veículo morto, posto em ação pela alma espiritual, que está sempre ativa e não pode deter-se nem por um instante. Sendo assim, a alma espiritual deve ocupar-se na boa atividade da consciência de Kṛṣṇa; do contrário, ocupar-se-á em afazeres ditados pela energia ilusória. Em contato com a energia material, a alma espiritual adquire os modos materiais, e, para purificar a alma de tais afinidades, é necessário ocupar-se nos deveres prescritos consagrados pelos *śāstras*. Mas, se a alma se ocupa em sua função natural de consciência de Kṛṣṇa, tudo o que ela for capaz de fazer ser-lhe-á benéfico. O *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma isso:\n\n\n\ntyaktvā sva-dharmaṁ caraṇāmbujaṁ harer\n\nbhajann apakvo 'tha patet tato yadi\n\nyatra kva vābhadram abhūd amuṣya kiṁ\n\nko vārtha āpto 'bhajatāṁ sva-dharmataḥ.\n\n\n\n\"Se alguém adota a consciência de Kṛṣṇa, ainda que não siga os deveres prescritos nos *śāstras* nem execute o serviço devocional adequadamente, e mesmo que decaia do padrão, não há perda nem mal para ele. Mas, se cumpre todas as injunções de purificação dos *śāstras*, de que lhe vale, se não é consciente de Kṛṣṇa?\" (Bhāg. 1.5.17) Assim, o processo purificador é necessário para se atingir esse ponto da consciência de Kṛṣṇa. Por conseguinte, o sannyāsa, ou qualquer processo purificador, destina-se a auxiliar a alcançar a meta última de tornar-se consciente de Kṛṣṇa, sem a qual tudo é considerado um fracasso."}
{"ref": "bg/3/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/6/", "verse_text": "karmendriyāṇi saṁyamya\n\nya āste manasā smaran\n\nindriyārthān vimūḍhātmā\n\nmithyācāraḥ sa ucyate", "devanagari": "> कर्मेन्द्रियाणि संयम्य य आस्ते मनसा स्मरन् ।\n> इन्द्रियार्थान्विमूढात्मा मिथ्याचारः स उच्यते ॥६॥", "synonyms": "*karma-indriyāṇi*—os cinco órgãos ativos dos sentidos; *saṁyamya*—controlando; *yaḥ*—todo aquele que; *āste*—permanece; *manasā*—pela mente; *smaran*—pensando; *indriya-arthān*—nos objetos dos sentidos; *vimūḍha*—tolo; *ātmā*—alma; *mithyā-ācāraḥ*—embusteiro; *saḥ*—ele; *ucyate*—é chamado.", "translation": "**Aquele que refreia os sentidos e os órgãos de ação, mas cuja mente se demora nos objetos dos sentidos, certamente engana a si mesmo e é chamado de embusteiro.**", "purport": "Há muitos embusteiros que se recusam a trabalhar em consciência de Kṛṣṇa e fazem ostentação de meditação, enquanto, na verdade, deleitam-se mentalmente no gozo dos sentidos. Tais embusteiros podem também discorrer sobre filosofia árida a fim de iludir seguidores sofisticados, mas, segundo este verso, esses são os maiores trapaceiros. Em busca do gozo dos sentidos, a pessoa pode atuar em qualquer função da ordem social; contudo, se segue as regras e regulações de seu status particular, pode progredir gradualmente na purificação de sua existência. Mas aquele que faz ostentação de ser yogī, enquanto na verdade busca os objetos da gratificação dos sentidos, deve ser chamado de o maior trapaceiro, ainda que às vezes fale de filosofia. Seu conhecimento não tem valor algum, pois os efeitos do conhecimento de tal homem pecaminoso são levados pela energia ilusória do Senhor. A mente desse embusteiro está sempre impura, e, dessa forma, sua exibição de meditação ióguica não tem valor algum."}
{"ref": "bg/3/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/7/", "verse_text": "yas tv indriyāṇi manasā\n\nniyamyārabhate 'rjuna\n\nkarmendriyaiḥ karma-yogam\n\nasaktaḥ sa viśiṣyate", "devanagari": "> यस्त्विन्द्रियाणि मनसा नियम्यारभतेऽर्जुन ।\n> कर्मेन्द्रियैः कर्मयोगमसक्तः स विशिष्यते ॥७॥", "synonyms": "*yaḥ*—aquele que; *tu*—mas; *indriyāṇi*—os sentidos; *manasā*—pela mente; *niyamya*—regulando; *ārabhate*—começa; *arjuna*—ó Arjuna; *karma-indriyaiḥ*—pelos órgãos ativos dos sentidos; *karma-yogam*—devoção; *asaktaḥ*—sem apego; *saḥ*—ele; *viśiṣyate*—é em muito superior.", "translation": "**Por outro lado, aquele que controla os sentidos pela mente e ocupa seus órgãos ativos em obras de devoção, sem apego, é em muito superior.**", "purport": "Em vez de tornar-se um pseudotranscendentalista em prol de uma vida desregrada e do gozo dos sentidos, é muito melhor permanecer em sua própria ocupação e cumprir o propósito da vida, que consiste em libertar-se do cativeiro material e ingressar no reino de Deus. O principal svārtha-gati, ou meta do interesse próprio, é alcançar Viṣṇu. Toda a instituição de varṇa e āśrama foi concebida para nos ajudar a alcançar essa meta da vida. Um chefe de família também pode atingir esse destino mediante o serviço regulado em consciência de Kṛṣṇa. Para a autorrealização, a pessoa pode levar uma vida controlada, conforme prescrito nos *śāstras*, e continuar a executar seus afazeres sem apego, e, dessa forma, progredir. Tal pessoa sincera, que segue este método, está muito melhor situada do que o falso embusteiro que adota um espiritualismo de fachada para enganar o público inocente. Um sincero varredor de rua é em muito superior ao charlatão meditador que medita apenas para ganhar a vida."}
{"ref": "bg/3/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/8/", "verse_text": "niyataṁ kuru karma tvaṁ\n\nkarma jyāyo hy akarmaṇaḥ\n\nśarīra-yātrāpi ca te\n\nna prasiddhyed akarmaṇaḥ", "devanagari": "> नियतं कुरु कर्म त्वं कर्म ज्यायो ह्यकर्मणः ।\n> शरीरयात्रापि च ते न प्रसिद्ध्येदकर्मणः ॥८॥", "synonyms": "*niyatam*—prescritos; *kuru*—faze; *karma*—deveres; *tvam*—tu; *karma*—trabalho; *jyāyaḥ*—melhor; *hi*—do que; *akarmaṇaḥ*—sem trabalho; *śarīra*—corporal; *yātrā*—manutenção; *api*—mesmo; *ca*—também; *te*—tua; *na*—nunca; *prasiddhyet*—efetuar-se-á; *akarmaṇaḥ*—sem trabalho.", "translation": "**Cumpre teu dever prescrito, pois a ação é melhor do que a inação. Um homem não pode sequer manter seu corpo físico sem trabalho.**", "purport": "Há muitos pseudomeditadores que se apresentam falsamente como pertencentes a alta linhagem, e grandes homens profissionais que falsamente fingem ter sacrificado tudo em prol do avanço na vida espiritual. O Senhor Kṛṣṇa não desejava que Arjuna se tornasse um embusteiro, mas sim que cumprisse os deveres prescritos, tais como estabelecidos para os *kṣatriyas*. Arjuna era chefe de família e general militar, e, portanto, era melhor que permanecesse como tal e desempenhasse seus deveres religiosos prescritos para o *kṣatriya* chefe de família. Tais atividades gradualmente purificam o coração de um homem mundano e o libertam da contaminação material. A suposta renúncia para fins de subsistência jamais é aprovada pelo Senhor, nem por nenhuma escritura religiosa. Afinal, é preciso manter unidos corpo e alma por meio de algum trabalho. O trabalho não deve ser abandonado caprichosamente, sem que se tenham purificado as propensões materialistas. Quem quer que esteja no mundo material certamente possui a propensão impura de assenhorear-se da natureza material, ou, em outras palavras, de buscar a gratificação dos sentidos. Tais propensões poluídas devem ser eliminadas. Sem fazê-lo por meio dos deveres prescritos, jamais se deve tentar tornar-se um suposto transcendentalista, renunciando ao trabalho e vivendo às custas dos outros."}
{"ref": "bg/3/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/9/", "verse_text": "yajñārthāt karmaṇo 'nyatra\n\nloko 'yaṁ karma-bandhanaḥ\n\ntad-arthaṁ karma kaunteya\n\nmukta-saṅgaḥ samācara", "devanagari": "> यज्ञार्थात्कर्मणोऽन्यत्र लोकोऽयं कर्मबन्धनः ।\n> तदर्थं कर्म कौन्तेय मुक्तसङ्गः समाचर ॥९॥", "synonyms": "*yajña-arthāt*—unicamente em prol de Yajña, ou Viṣṇu; *karmaṇaḥ*—trabalho realizado; *anyatra*—de outra forma; *lokaḥ*—este mundo; *ayam*—este; *karma-bandhanaḥ*—cativeiro pelo trabalho; *tat*—dEle; *artham*—em prol; *karma*—trabalho; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *mukta-saṅgaḥ*—liberado da associação; *samācara*—executa-o perfeitamente.", "translation": "**O trabalho feito como sacrifício para Viṣṇu deve ser executado; do contrário, o trabalho prende a pessoa a este mundo material. Portanto, ó filho de Kuntī, executa teus deveres prescritos para Sua satisfação, e dessa maneira permanecerás sempre desapegado e livre do cativeiro.**", "purport": "Visto que se tem de trabalhar mesmo para a simples manutenção do corpo, os deveres prescritos para uma posição social e qualidade particulares são feitos de tal modo que esse propósito possa cumprir-se. Yajña significa o Senhor Viṣṇu, ou execuções de sacrifício. Todas as execuções de sacrifício também se destinam à satisfação do Senhor Viṣṇu. Os *Vedas* prescrevem: yajño vai viṣṇuḥ. Em outras palavras, o mesmo propósito é servido tanto se a pessoa executa os yajñas prescritos quanto se serve diretamente ao Senhor Viṣṇu. A consciência de Kṛṣṇa é, portanto, a execução de yajña, conforme prescrito neste verso. A instituição varṇāśrama também visa a isso, satisfazer ao Senhor Viṣṇu. \"Varṇāśramācāra-vatā puruṣeṇa paraḥ pumān/viṣṇur ārādhyate...\" (*Viṣṇu Purāṇa* 3.8.8) Por conseguinte, é preciso trabalhar para a satisfação de Viṣṇu. Qualquer outro trabalho realizado neste mundo material será causa de cativeiro, pois tanto o trabalho bom como o ruim têm suas reações, e qualquer reação prende seu executor. Portanto, é preciso trabalhar em consciência de Kṛṣṇa para satisfazer Kṛṣṇa (ou Viṣṇu); e, ao executar tais atividades, encontra-se em estado liberado. Esta é a grande arte de trabalhar e, no início, este processo requer orientação muito hábil. Por isso, deve-se agir com muita diligência, sob a orientação experiente de um devoto do Senhor Kṛṣṇa, ou sob a instrução direta do próprio Senhor Kṛṣṇa (sob quem Arjuna teve a oportunidade de trabalhar). Nada deve ser executado para a gratificação dos sentidos, mas tudo deve ser feito para a satisfação de Kṛṣṇa. Esta prática não só salvará a pessoa da reação do trabalho, como também a elevará gradualmente ao serviço amoroso transcendental ao Senhor, único meio de erguer-se ao reino de Deus."}
{"ref": "bg/3/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/10/", "verse_text": "saha-yajñāḥ prajāḥ sṛṣṭvā\n\npurovāca prajāpatiḥ\n\nanena prasaviṣyadhvam\n\neṣa vo 'stv iṣṭa-kāma-dhuk", "devanagari": "> सहयज्ञाः प्रजाः सृष्ट्वा पुरोवाच प्रजापतिः ।\n> अनेन प्रसविष्यध्वमेष वोऽस्त्विष्टकामधुक् ॥१०॥", "synonyms": "*saha*—junto com; *yajñāḥ*—sacrifícios; *prajāḥ*—gerações; *sṛṣṭvā*—ao criar; *purā*—antigamente; *uvāca*—disse; *prajā-patiḥ*—o Senhor das criaturas; *anena*—por isto; *prasaviṣyadhvam*—sede cada vez mais prósperos; *eṣaḥ*—certamente; *vaḥ*—vosso; *astu*—que seja; *iṣṭa*—todas as coisas desejáveis; *kāma-dhuk*—outorgador.", "translation": "**No princípio da criação, o Senhor de todas as criaturas enviou gerações de homens e semideuses, juntamente com sacrifícios para Viṣṇu, e abençoou-os, dizendo: \"Sede felizes por meio deste yajña [sacrifício], pois a sua execução vos concederá todas as coisas desejáveis.\"**", "purport": "A criação material por parte do Senhor das criaturas (Viṣṇu) é uma chance oferecida às almas condicionadas para que voltem ao lar — voltem ao Supremo. Todas as entidades vivas dentro da criação material estão condicionadas pela natureza material por causa de seu esquecimento de sua relação com *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*. Os princípios védicos destinam-se a auxiliar-nos a compreender essa relação eterna, conforme se afirma no *Bhagavad-gītā*: vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ. O Senhor diz que o propósito dos *Vedas* é compreendê-lO. Nos hinos Védicos, diz-se: patiṁ viśvasyātmeśvaram. Por conseguinte, o Senhor das entidades vivas é a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, igualmente, Śrīla Śukadeva Gosvāmī descreve o Senhor como pati de muitas maneiras:\n\n\n\nśriyaḥ-patir yajña-patiḥ prajā-patir\n\ndhiyāṁ patir loka-patir dharā-patiḥ\n\npatir gatiś cāndhaka-vṛṣṇi-sātvatāṁ\n\nprasīdatāṁ me bhagavān satāṁ patiḥ\n\n\n\n(Bhāg. 2.4.20)\n\n\n\nO prajā-pati é o Senhor Viṣṇu, e Ele é o Senhor de todas as criaturas vivas, de todos os mundos e de todas as belezas, e o protetor de todos. O Senhor criou este mundo material para que as almas condicionadas aprendessem a executar yajñas (sacrifício) para a satisfação de Viṣṇu, de modo que, enquanto estivessem no mundo material, pudessem viver muito confortavelmente, sem ansiedade. Então, depois de terminar o atual corpo material, poderiam ingressar no reino de Deus. Esse é todo o programa para a alma condicionada. Pela execução de yajña, as almas condicionadas tornam-se gradualmente conscientes de Kṛṣṇa e tornam-se piedosas em todos os aspectos. Nesta era de Kali, o saṅkīrtana-yajña (o canto dos nomes de Deus) é recomendado pelas escrituras Védicas, e este sistema transcendental foi introduzido pelo Senhor Caitanya para a libertação de todos os homens nesta era. O saṅkīrtana-yajña e a consciência de Kṛṣṇa combinam-se muito bem. O Senhor Kṛṣṇa, em Sua forma devocional (como o Senhor Caitanya), é mencionado no *Śrīmad-Bhāgavatam* da seguinte forma, com referência especial ao saṅkīrtana-yajña:\n\n\n\nkṛṣṇa-varṇaṁ tviṣākṛṣṇāṁ sāṅgopāṅgāstra-pārṣadam\n\nyajñaiḥ saṅkīrtana-prāyair yajanti hi su-medhasaḥ\n\n\n\n\"Nesta era de Kali, as pessoas dotadas de inteligência suficiente adorarão o Senhor, que é acompanhado por Seus associados, mediante a execução de saṅkīrtana-yajña.\" (Bhāg. 11.5.29) Outros yajñas prescritos nas literaturas Védicas não são fáceis de executar nesta era de Kali, mas o saṅkīrtana-yajña é fácil e sublime para todos os fins."}
{"ref": "bg/3/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/11/", "verse_text": "devān bhāvayatānena\n\nte devā bhāvayantu vaḥ\n\nparasparaṁ bhāvayantaḥ\n\nśreyaḥ param avāpsyatha", "devanagari": "> देवान्भावयतानेन ते देवा भावयन्तु वः ।\n> परस्परं भावयन्तः श्रेयः परमवाप्स्यथ ॥११॥", "synonyms": "*devān*—semideuses; *bhāvayata*—tendo sido satisfeitos; *anena*—por este sacrifício; *te*—aqueles; *devāḥ*—os semideuses; *bhāvayantu*—satisfarão; *vaḥ*—a vós; *parasparam*—mútuo; *bhāvayantaḥ*—satisfazendo uns aos outros; *sreyaḥ*—benção; *param*—a suprema; *avāpsyatha*—alcançareis.", "translation": "**Os semideuses, satisfeitos pelos sacrifícios, também vos satisfarão; assim, nutrindo uns aos outros, reinará prosperidade geral para todos.**", "purport": "Os semideuses são administradores investidos de poder dos assuntos materiais. O suprimento de ar, luz, água e todas as outras bênçãos para a manutenção do corpo e da alma de cada entidade viva é confiado aos semideuses, que são incontáveis assistentes em diferentes partes do corpo da Suprema Personalidade de Deus. Seus contentamentos e descontentamentos dependem da execução de yajñas pelo ser humano. Alguns dos yajñas destinam-se a satisfazer determinados semideuses; mas, ainda assim, em todos os yajñas, o Senhor Viṣṇu é adorado como o principal beneficiário. No *Bhagavad-gītā* também se afirma que o próprio Kṛṣṇa é o beneficiário de toda espécie de yajñas: bhoktāraṁ yajña-tapasām. Logo, a satisfação última do yajñapati é o propósito principal de todos os yajñas. Quando esses yajñas são perfeitamente executados, naturalmente os semideuses encarregados dos diferentes departamentos de suprimento ficam satisfeitos, e não há escassez no fornecimento dos produtos naturais.\n\n\n\nA execução de yajñas tem muitos benefícios secundários, conduzindo, em última análise, à liberação do cativeiro material. Pela execução de yajñas, todas as atividades tornam-se purificadas, conforme se afirma nos *Vedas*:\n\n\n\nāhāra-śuddhau sattva-śuddhiḥ sattva-śuddhau\n\ndhruvā smṛtiḥ smṛti-lambhe sarva-granthīnāṁ vipra-mokṣaḥ\n\n\n\nComo será explicado no verso seguinte, pela execução de yajña, os alimentos da pessoa são santificados, e, ao comer-se alimentos santificados, a própria existência se purifica; pela purificação da existência, os tecidos mais finos da memória tornam-se santificados, e, quando a memória se santifica, pode-se pensar na senda da liberação, e tudo isso, combinado, conduz à consciência de Kṛṣṇa, a grande necessidade da sociedade atual."}
{"ref": "bg/3/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/12/", "verse_text": "iṣṭān bhogān hi vo devā\n\ndāsyante yajña-bhāvitāḥ\n\ntair dattān apradāyaibhyo\n\nyo bhuṅkte stena eva saḥ", "devanagari": "> इष्टान्भोगान्हि वो देवा दास्यन्ते यज्ञभाविताः ।\n> तैर्दत्तानप्रदायैभ्यो यो भुङ्क्ते स्तेन एव सः ॥१२॥", "synonyms": "*iṣṭān*—desejadas; *bhogān*—necessidades da vida; *hi*—certamente; *vaḥ*—a vós; *devāḥ*—os semideuses; *dāsyante*—outorgam; *yajña-bhāvitāḥ*—estando satisfeitos pela execução de sacrifícios; *taiḥ*—por eles; *dattān*—coisas dadas; *apradāya*—sem oferecer; *ebhyaḥ*—aos semideuses; *yaḥ*—aquele que; *bhuṅkte*—desfruta; *stenaḥ*—ladrão; *eva*—certamente; *saḥ*—é ele.", "translation": "**Encarregados das diversas necessidades da vida, os semideuses, satisfeitos pela execução de yajña [sacrifício], suprem todas as necessidades ao homem. Mas aquele que desfruta destas dádivas sem oferecê-las em retribuição aos semideuses é certamente um ladrão.**", "purport": "Os semideuses são agentes autorizados em nome da Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu. Por isso, devem ser satisfeitos pela execução dos yajñas prescritos. Nos *Vedas*, há diferentes tipos de yajñas prescritos para diferentes tipos de semideuses, mas todos são, em última análise, oferecidos à Suprema Personalidade de Deus. Para quem não consegue compreender o que é a Personalidade de Deus, recomenda-se o sacrifício aos semideuses. De acordo com as diferentes qualidades materiais das pessoas envolvidas, recomendam-se nos *Vedas* diferentes tipos de yajñas. A adoração aos diferentes semideuses também se faz na mesma base — a saber, conforme as diferentes qualidades. Por exemplo, aos comedores de carne, recomenda-se que adorem a deusa Kālī, a forma medonha da natureza material, e, perante a deusa, recomenda-se o sacrifício de animais. Mas, para aqueles que estão no modo da bondade, recomenda-se a adoração transcendental a Viṣṇu. Em última análise, porém, todos os yajñas destinam-se à promoção gradual à posição transcendental. Para os homens comuns, são necessários ao menos cinco yajñas, conhecidos como pañca-mahāyajña.\n\n\n\nDeve-se saber, contudo, que todas as necessidades da vida que a sociedade humana requer são supridas pelos agentes-semideuses do Senhor. Ninguém pode fabricar coisa alguma. Tomemos, por exemplo, todos os comestíveis da sociedade humana. Esses comestíveis incluem grãos, frutas, vegetais, leite, açúcar, etc., para as pessoas no modo da bondade, e também comestíveis para os não vegetarianos, como carne etc., nenhum dos quais pode ser fabricado pelos homens. Tomemos novamente, por exemplo, calor, luz, água, ar etc., que são também necessidades da vida — nenhum deles pode ser fabricado pela sociedade humana. Sem o Senhor Supremo, não pode haver luz solar profusa, luar, chuva, brisa etc., sem os quais ninguém pode viver. Obviamente, nossa vida depende dos suprimentos do Senhor. Mesmo para nossos empreendimentos manufatureiros, requeremos muitas matérias-primas, como metal, enxofre, mercúrio, manganês e tantos outros itens essenciais — todos os quais são supridos pelos agentes do Senhor, com o propósito de que façamos uso adequado deles para manter-nos aptos e saudáveis para o fim da autorrealização, que conduz à meta última da vida, a saber, a libertação da luta material pela existência. Esta meta da vida é alcançada pela execução de yajñas. Se esquecemos o propósito da vida humana e simplesmente recebemos suprimentos dos agentes do Senhor para a gratificação dos sentidos, e nos enredamos cada vez mais na existência material — o que não é o propósito da criação —, então certamente nos tornamos ladrões e, portanto, somos punidos pelas leis da natureza material. Uma sociedade de ladrões nunca pode ser feliz, pois não tem objetivo na vida. Os grosseiros ladrões materialistas não têm meta última na vida. Estão simplesmente direcionados à gratificação dos sentidos; tampouco têm conhecimento de como executar yajñas. O Senhor Caitanya, contudo, inaugurou a mais fácil execução de yajña, a saber, o saṅkīrtana-yajña, que pode ser executado por qualquer pessoa no mundo que aceite os princípios da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/13/", "verse_text": "yajña-śiṣṭāśinaḥ santo\n\nmucyante sarva-kilbiṣaiḥ\n\nbhuñjate te tv aghaṁ pāpā\n\nye pacanty ātma-kāraṇāt", "devanagari": "> यज्ञशिष्टाशिनः सन्तो मुच्यन्ते सर्वकिल्बिषैः ।\n> भुञ्जते ते त्वघं पापा ये पचन्त्यात्मकारणात् ॥१३॥", "synonyms": "*yajña-śiṣṭa*—alimento tomado após a execução de yajña; *aśinaḥ*—comedores; *santaḥ*—os devotos; *mucyante*—libertam-se de; *sarva*—toda espécie de; *kilbiṣaiḥ*—pecados; *bhuñjate*—desfrutam; *te*—eles; *tu*—mas; *agham*—graves pecados; *pāpāḥ*—pecadores; *ye*—aqueles; *pacanti*—preparam comida; *ātma-kāraṇāt*—para o gozo dos sentidos.", "translation": "**Os devotos do Senhor liberam-se de toda espécie de pecados, pois comem alimento que é primeiramente oferecido em sacrifício. Outros, que preparam comida para o gozo pessoal dos sentidos, comem, na verdade, somente pecado.**", "purport": "Os devotos do Senhor Supremo, ou aquelas pessoas que estão em consciência de Kṛṣṇa, são chamados santas, e estão sempre apaixonados pelo Senhor, conforme se descreve no Brahma-saṁhitā: premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti. Os santas, estando sempre num pacto de amor com a Suprema Personalidade de Deus, Govinda (o doador de todos os prazeres), ou Mukunda (o doador da liberação), ou Kṛṣṇa (a pessoa pan-atrativa), não podem aceitar coisa alguma sem antes oferecê-la à Pessoa Suprema. Por isso, tais devotos sempre executam yajñas em diferentes modalidades de serviço devocional, tais como śravaṇam, kīrtanam, smaraṇam, arcanam, etc., e essas execuções de yajñas mantêm-nos sempre afastados de toda espécie de contaminação proveniente de associações pecaminosas no mundo material. Outros, que preparam comida para o próprio eu ou para a gratificação dos sentidos, não são apenas ladrões, mas também comedores de toda espécie de pecados. Como pode uma pessoa ser feliz, sendo simultaneamente ladra e pecaminosa? Não é possível. Por isso, para que as pessoas se tornem felizes em todos os aspectos, devem ser ensinadas a executar o fácil processo do saṅkīrtana-yajña, em plena consciência de Kṛṣṇa. Caso contrário, não pode haver paz nem felicidade no mundo."}
{"ref": "bg/3/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/14/", "verse_text": "annād bhavanti bhūtāni\n\nparjanyād anna-sambhavaḥ\n\nyajñād bhavati parjanyo\n\nyajñaḥ karma-samudbhavaḥ", "devanagari": "> अन्नाद्भवन्ति भूतानि पर्जन्यादन्नसम्भवः ।\n> यज्ञाद्भवति पर्जन्यो यज्ञः कर्मसमुद्भवः ॥१४॥", "synonyms": "*annāt*—dos grãos; *bhavanti*—crescem; *bhūtāni*—os corpos materiais; *parjanyāt*—das chuvas; *anna*—grãos alimentícios; *sambhavaḥ*—são possíveis; *yajñāt*—pela execução de sacrifício; *bhavati*—torna-se possível; *parjanyaḥ*—chuvas; *yajñaḥ*—execução de yajña; *karma*—deveres prescritos; *samudbhavaḥ*—nascido de.", "translation": "**Todos os corpos vivos subsistem dos grãos alimentícios, que são produzidos pela chuva. As chuvas são produzidas pela execução de yajña [sacrifício], e o yajña nasce dos deveres prescritos.**", "purport": "Śrīla Baladeva Vidyābhūṣaṇa, um grande comentador do *Bhagavad-gītā*, escreve o seguinte: ye indrādy-aṅga-tayāvasthitaṁ yajñaṁ sarveśvaraṁ viṣṇum abhyarccya taccheṣam aśnanti tena taddeha-yāntrāṁ sampādayanti te santaḥ sarveśvarasya bhaktāḥ sarva-kilviṣair anādi-kāla-vivṛddhair ātmānubhava-pratibandhakair nikhilaiḥ pāpair vimucyante. O Senhor Supremo, que é conhecido como yajña-puruṣaḥ, ou o beneficiário pessoal de todos os sacrifícios, é o senhor de todos os semideuses que O servem, assim como os diferentes membros do corpo servem ao todo. Semideuses como Indra, Candra, Varuṇa etc. são oficiais designados que administram os assuntos materiais, e os *Vedas* prescrevem sacrifícios para satisfazer estes semideuses, de modo que se mostrem dispostos a fornecer ar, luz e água em quantidade suficiente para produzir grãos alimentícios. Quando o Senhor Kṛṣṇa é adorado, os semideuses, que são diferentes membros do Senhor, também são adorados automaticamente; portanto, não há necessidade separada de adorar os semideuses. Por essa razão, os devotos do Senhor, que estão em consciência de Kṛṣṇa, oferecem comida a Kṛṣṇa e depois comem — processo que nutre o corpo espiritualmente. Por tal ato, não só as reações pecaminosas passadas no corpo são vencidas, como também o corpo se torna imunizado a toda contaminação da natureza material. Quando há uma doença epidêmica, uma vacina antisséptica protege a pessoa do ataque de tal epidemia. De modo semelhante, o alimento oferecido ao Senhor Viṣṇu e em seguida ingerido por nós nos torna suficientemente resistentes à afeição material, e aquele que se acostuma a esta prática é chamado devoto do Senhor. Por conseguinte, uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa, que come somente comida oferecida a Kṛṣṇa, pode neutralizar todas as reações de infecções materiais passadas, que são impedimentos ao progresso da autorrealização. Por outro lado, aquele que não age assim continua a aumentar o volume de ações pecaminosas, e isso prepara o próximo corpo para assemelhar-se ao de porcos e cães, a fim de sofrer as reações resultantes de todos os pecados. O mundo material está repleto de contaminações, e quem se imuniza aceitando o prasādam do Senhor (alimento oferecido a Viṣṇu) é salvo do ataque, ao passo que aquele que assim não procede fica sujeito à contaminação.\n\n\n\nOs grãos alimentícios ou vegetais são, de fato, comestíveis. O ser humano come diferentes tipos de grãos alimentícios, vegetais, frutas etc., e os animais comem o resto dos grãos alimentícios e vegetais, capim, plantas etc. Os seres humanos que estão acostumados a comer carne e carniça também devem depender da produção de vegetação para comer os animais. Portanto, em última análise, temos de depender da produção do campo e não da produção das grandes fábricas. A produção do campo deve-se à chuva suficiente vinda do céu, e tais chuvas são controladas por semideuses como Indra, sol, lua etc., e todos eles são servos do Senhor. O Senhor pode ser satisfeito por sacrifícios; portanto, aquele que não os pode executar ver-se-á em escassez — esta é a lei da natureza. O yajña, especificamente o saṅkīrtana-yajña prescrito para esta era, deve, pois, ser executado para nos salvar pelo menos da escassez de suprimentos alimentares."}
{"ref": "bg/3/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/15/", "verse_text": "karma brahmodbhavaṁ viddhi\n\nbrahmākṣara-samudbhavam\n\ntasmāt sarva-gataṁ brahma\n\nnityaṁ yajñe pratiṣṭhitam", "devanagari": "> कर्म ब्रह्मोद्भवं विद्धि ब्रह्माक्षरसमुद्भवम् ।\n> तस्मात्सर्वगतं ब्रह्म नित्यं यज्ञे प्रतिष्ठितम् ॥१५॥", "synonyms": "*karma*—trabalho; *brahma*—Vedas; *udbhavam*—produzido a partir de; *viddhi*—deve-se saber; *brahma*—os Vedas; *akṣara*—o Brahman Supremo (Personalidade de Deus); samudbhavam; manifestado diretamente; *tasmāt*—portanto; *sarva-gatam*—onipenetrante; *brahma*—Transcendência; *nityam*—eternamente; *yajñe*—em sacrifício; *pratiṣṭhitam*—situada.", "translation": "**As atividades regulamentadas estão prescritas nos *Vedas*, e os *Vedas* manifestam-se diretamente a partir da Suprema Personalidade de Deus. Por conseguinte, a Transcendência onipenetrante está eternamente situada nos atos de sacrifício.**", "purport": "Yajñārtha karma, ou a necessidade do trabalho unicamente para a satisfação de Kṛṣṇa, é declarada de modo mais expresso neste verso. Se devemos trabalhar para a satisfação do yajña-puruṣa, Viṣṇu, então temos de descobrir a direção do trabalho no Brahman, isto é, nos *Vedas* transcendentais. Os *Vedas* são, pois, códigos de instruções para o trabalho. Tudo o que se realiza sem a direção dos *Vedas* é chamado vikarma, ou trabalho desautorizado ou pecaminoso. Por isso, deve-se sempre receber direção dos *Vedas* para salvar-se da reação do trabalho. Assim como, na vida ordinária, é preciso trabalhar sob a direção do Estado, de modo semelhante, deve-se trabalhar sob a direção do Estado supremo, o Senhor. Tais direções nos *Vedas* manifestam-se diretamente a partir da respiração da Suprema Personalidade de Deus. Diz-se: asya mahato bhūtasya naśvasitam etad yad ṛg-vedo yajur-vedaḥ sāma-vedo 'tharvāṅ girasaḥ. \"Os quatro *Vedas* — a saber, o Ṛg-veda, o Yajur-veda, o Sāma-veda e o Atharva-veda — são todos emanações da respiração da grandiosa Personalidade de Deus.\" O Senhor, sendo onipotente, pode falar respirando ar, conforme se confirma no Brahma-saṁhitā, pois o Senhor tem a onipotência de executar, por meio de cada um de Seus sentidos, as ações de todos os outros sentidos. Em outras palavras, o Senhor pode falar por meio de Sua respiração e pode fecundar com Seus olhos. De fato, diz-se que Ele lançou Seu olhar sobre a natureza material e, assim, gerou todas as entidades vivas. Após criar ou fecundar as almas condicionadas no ventre da natureza material, Ele lhes deu Suas direções na sabedoria Védica sobre como tais almas condicionadas podem voltar ao lar, voltar ao Supremo. Devemos sempre lembrar que as almas condicionadas na natureza material estão todas ávidas pelo gozo material. Mas as direções Védicas são feitas de tal modo que se possa satisfazer os desejos pervertidos e, em seguida, retornar ao Supremo, tendo terminado seu suposto gozo. É uma chance para que as almas condicionadas alcancem a liberação; por isso, as almas condicionadas devem tentar seguir o processo de yajña tornando-se conscientes de Kṛṣṇa. Mesmo aqueles que não podem seguir as injunções Védicas podem adotar os princípios da consciência de Kṛṣṇa, e isso ocupará o lugar da execução dos yajñas Védicos, ou karmas."}
{"ref": "bg/3/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/16/", "verse_text": "evaṁ pravartitaṁ cakraṁ\n\nnānuvartayatīha yaḥ\n\naghāyur indriyārāmo\n\nmoghaṁ pārtha sa jīvati", "devanagari": "> एवं प्रवर्तितं चक्रं नानुवर्तयतीह यः ।\n> अघायुरिन्द्रियारामो मोघं पार्थ स जीवति ॥१६॥", "synonyms": "*evam*—assim prescrito; *pravartitam*—estabelecido pelos Vedas; *cakram*—ciclo; *na*—não; *anuvartayati*—adota; *iha*—nesta vida; *yaḥ*—aquele que; *aghāyuḥ*—vida cheia de pecados; *indriya-ārāmaḥ*—satisfeito na gratificação dos sentidos; *mogham*—inútil; *pārtha*—ó filho de Pṛthā (Arjuna); *saḥ*—aquele que assim age; *jīvati*—vive.", "translation": "**Meu querido Arjuna, o homem que não segue este sistema Védico de sacrifício prescrito leva, com certeza, uma vida de pecado, pois quem se deleita apenas nos sentidos vive em vão.**", "purport": "A filosofia mamonista de trabalhar muito e desfrutar da gratificação dos sentidos é aqui condenada pelo Senhor. Por conseguinte, para aqueles que desejam desfrutar deste mundo material, o ciclo acima mencionado de execuções de yajñas é absolutamente necessário. Aquele que não segue tais regulamentos vive uma vida muito arriscada, sendo cada vez mais condenado. Pela lei da natureza, esta forma humana de vida destina-se especificamente à autorrealização, segundo qualquer um dos três caminhos — a saber, o karma-yoga, o jñāna-yoga ou o bhakti-yoga. Não há necessidade de seguir rigidamente as execuções dos yajñas prescritos para os transcendentalistas que estão acima do vício e da virtude; mas aqueles que se ocupam na gratificação dos sentidos requerem purificação por meio do ciclo acima mencionado de execuções de yajña. Há diferentes tipos de atividades. Aqueles que não são conscientes de Kṛṣṇa estão certamente ocupados na consciência sensorial; por isso, precisam executar trabalho piedoso. O sistema de yajña foi planejado de tal forma que as pessoas conscientes do sensório possam satisfazer seus desejos sem se enredarem na reação do trabalho destinado à gratificação dos sentidos. A prosperidade do mundo não depende de nossos próprios esforços, mas do arranjo dos bastidores feito pelo Senhor Supremo, executado diretamente pelos semideuses. Logo, os yajñas dirigem-se diretamente ao semideus específico mencionado nos *Vedas*. Indiretamente, isso é a prática da consciência de Kṛṣṇa, pois, quando alguém domina a execução de yajñas, é certo que se tornará consciente de Kṛṣṇa. Mas, se alguém, executando yajñas, não se torna consciente de Kṛṣṇa, tais princípios contam apenas como códigos morais. Por isso, não se deve limitar o progresso somente ao ponto dos códigos morais, mas transcendê-los, a fim de alcançar a consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/17/", "verse_text": "yas tv ātma-ratir eva syād\n\nātma-tṛptaś ca mānavaḥ\n\nātmany eva ca santuṣṭas\n\ntasya kāryaṁ na vidyate", "devanagari": "> यस्त्वात्मरतिरेव स्यादात्मतृप्तश्च मानवः ।\n> आत्मन्येव च सन्तुष्टस्तस्य कार्यं न विद्यते ॥१७॥", "synonyms": "*yaḥ*—aquele que; *tu*—mas; *ātma-ratiḥ*—compraz-se; *eva*—certamente; *syāt*—permanece; *ātma-tṛptaḥ*—autoiluminado; *ca*—e; *mānavaḥ*—um homem; *ātmani*—em si mesmo; *eva*—somente; *ca*—e; *santuṣṭaḥ*—perfeitamente saciado; *tasya*—seu; *kāryam*—dever; *na*—não; *vidyate*—existe.", "translation": "**Aquele, contudo, que se compraz no eu, que está iluminado no eu, que se rejubila no eu e que se contenta apenas com o eu, plenamente saciado — para ele não há dever algum.**", "purport": "Uma pessoa que é plenamente consciente de Kṛṣṇa, e está plenamente satisfeita com seus atos em consciência de Kṛṣṇa, já não tem dever algum a executar. Por estar consciente de Kṛṣṇa, toda a impiedade interior é instantaneamente lavada, efeito de muitos e muitos milhares de execuções de yajña. Por meio dessa purificação da consciência, a pessoa torna-se plenamente confiante de sua posição eterna em relação ao Supremo. Seu dever, assim, torna-se autoiluminado pela graça do Senhor, e, por conseguinte, ela já não tem obrigações para com as injunções Védicas. Tal pessoa consciente de Kṛṣṇa já não se interessa por atividades materiais e já não se compraz em arranjos materiais como vinho, mulheres e infatuações semelhantes."}
{"ref": "bg/3/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/18/", "verse_text": "naiva tasya kṛtenārtho\n\nnākṛteneha kaścana\n\nna cāsya sarva-bhūteṣu\n\nkaścid artha-vyapāśrayaḥ", "devanagari": "> नैव तस्य कृतेनार्थो नाकृतेनेह कश्चन ।\n> न चास्य सर्वभूतेषु कश्चिदर्थव्यपाश्रयः ॥१८॥", "synonyms": "*na*—nunca; *eva*—certamente; *tasya*—seu; *kṛtena*—pelo cumprimento do dever; *arthaḥ*—propósito; *na*—nem; *akṛtena*—sem cumprimento do dever; *iha*—neste mundo; *kaścana*—qualquer; *na*—nunca; *ca*—e; *asya*—dele; *sarva-bhūteṣu*—em todos os seres vivos; *kaścit*—qualquer; *artha*—propósito; *vyapa-āśrayaḥ*—tomar refúgio em.", "translation": "**Um homem autorrealizado não tem propósito a cumprir no desempenho de seus deveres prescritos, nem tem razão alguma para não executar tal trabalho. Tampouco tem necessidade de depender de qualquer outro ser vivo.**", "purport": "Um homem autorrealizado já não está obrigado a executar nenhum dever prescrito, salvo as atividades em consciência de Kṛṣṇa. Tampouco a consciência de Kṛṣṇa é inatividade, conforme se explicará nos versos seguintes. Um homem consciente de Kṛṣṇa não toma refúgio em pessoa alguma — homem ou semideus. Tudo o que faz em consciência de Kṛṣṇa é suficiente para o cumprimento de sua obrigação."}
{"ref": "bg/3/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/19/", "verse_text": "tasmād asaktaḥ satataṁ\n\nkāryaṁ karma samācara\n\nasakto hy ācaran karma\n\nparam āpnoti pūruṣaḥ", "devanagari": "> तस्मादसक्तः सततं कार्यं कर्म समाचर ।\n> असक्तो ह्याचरन्कर्म परमाप्नोति पूरुषः ॥१९॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *asaktaḥ*—sem apego; *satatam*—constantemente; *kāryam*—como dever; *karma*—trabalho; *samācara*—executa; *asaktaḥ*—desapego; *hi*—certamente; *ācaran*—executando; *karma*—trabalho; *param*—o Supremo; *āpnoti*—alcança; *pūruṣaḥ*—um homem.", "translation": "**Portanto, sem apegar-se aos frutos das atividades, deve-se agir como um dever; pois, ao trabalhar sem apego, alcança-se o Supremo.**", "purport": "O Supremo é a Personalidade de Deus para os devotos, e a liberação para o impersonalista. Por conseguinte, uma pessoa que age para Kṛṣṇa, ou em consciência de Kṛṣṇa, sob orientação adequada e sem apego ao resultado do trabalho, está com certeza progredindo rumo à meta suprema da vida. Diz-se a Arjuna que ele deve lutar na Batalha de Kurukṣetra pelo interesse de Kṛṣṇa, pois Kṛṣṇa queria que ele lutasse. Ser bom homem ou homem não-violento é um apego pessoal, mas agir em nome do Supremo é agir sem apego ao resultado. Esta é a ação perfeita do mais elevado grau, recomendada pela Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Os rituais Védicos, como os sacrifícios prescritos, são executados para a purificação das atividades ímpias praticadas no campo da gratificação dos sentidos. Mas a ação em consciência de Kṛṣṇa é transcendental às reações do trabalho bom ou mau. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não tem apego ao resultado, mas age unicamente em nome de Kṛṣṇa. Ela ocupa-se em toda espécie de atividades, mas é completamente desapegada."}
{"ref": "bg/3/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/20/", "verse_text": "karmaṇaiva hi saṁsiddhim\n\nāsthitā janakādayaḥ\n\nloka-saṅgraham evāpi\n\nsampaśyan kartum arhasi", "devanagari": "> कर्मणैव हि संसिद्धिमास्थिता जनकादयः ।\n> लोकसंग्रहमेवापि सम्पश्यन्कर्तुमर्हसि ॥२०॥", "synonyms": "*karmaṇā*—pelo trabalho; *eva*—mesmo; *hi*—certamente; *saṁsiddhim*—perfeição; *āsthitāḥ*—situados; *janaka-ādayaḥ*—reis como Janaka e outros; *loka-saṅgraham*—educar as pessoas em geral; *eva*—também; *api*—em prol de; *sampaśyan*—considerando; *kartum*—agir; *arhasi*—mereces.", "translation": "**Mesmo reis como Janaka e outros alcançaram a fase perfeccional pela execução de deveres prescritos. Portanto, somente para educar as pessoas em geral, deves executar teu trabalho.**", "purport": "Reis como Janaka e outros eram todos almas autorrealizadas; em consequência, não tinham obrigação de executar os deveres prescritos nos *Vedas*. Não obstante, executavam todas as atividades prescritas apenas para dar exemplo às pessoas em geral. Janaka era o pai de Sītā e sogro do Senhor Śrī Rāma. Sendo grande devoto do Senhor, ele estava transcendentalmente situado, mas, por ser o rei de Mithila (uma subdivisão da província de Behar, na Índia), tinha de ensinar a seus súditos como lutar com retidão na batalha. Ele e seus súditos lutavam para ensinar às pessoas em geral que a violência também é necessária em uma situação em que os bons argumentos falham. Antes da Batalha de Kurukṣetra, fez-se todo esforço para evitar a guerra, inclusive pela Suprema Personalidade de Deus, mas a outra parte estava determinada a lutar. Assim, em prol de uma causa tão justa, há necessidade de lutar. Embora aquele que está situado em consciência de Kṛṣṇa possa não ter interesse algum no mundo, ele ainda assim trabalha para ensinar ao público como viver e como agir. Pessoas experientes em consciência de Kṛṣṇa podem agir de tal maneira que outros os seguirão, e isso se explica no verso seguinte."}
{"ref": "bg/3/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/21/", "verse_text": "yad yad ācarati śreṣṭhas\n\ntat tad evetaro janaḥ\n\nsa yat pramāṇaṁ kurute\n\nlokas tad anuvartate", "devanagari": "> यद्यदाचरति श्रेष्ठस्तत्तदेवेतरो जनः ।\n> स यत्प्रमाणं कुरुते लोकस्तदनुवर्तते ॥२१॥", "synonyms": "*yat*—tudo o que; *yat*—e qualquer que; *ācarati*—faz ele; *śreṣṭhaḥ*—líder respeitável; *tat*—isso; *tat*—e isso somente; *eva*—certamente; *itaraḥ*—comum; *janaḥ*—pessoa; *saḥ*—ele; *yat*—qualquer que; *pramāṇam*—evidência; *kurute*—executa; *lokaḥ*—todo o mundo; *tat*—isso; *anuvartate*—segue os passos.", "translation": "**Toda ação que um grande homem executa, os homens comuns seguem em seus passos. E quaisquer padrões que ele estabeleça por atos exemplares, todo o mundo persegue.**", "purport": "As pessoas em geral sempre necessitam de um líder que possa ensinar ao público pelo comportamento prático. Um líder não pode ensinar ao público a parar de fumar se ele mesmo fuma. O Senhor Caitanya disse que um mestre deve comportar-se adequadamente antes mesmo de começar a ensinar. Aquele que ensina dessa maneira é chamado *ācārya*, ou o mestre ideal. Por conseguinte, um mestre deve seguir os princípios do *śāstra* (escritura) para alcançar o homem comum. O mestre não pode fabricar regras contrárias aos princípios das escrituras reveladas. As escrituras reveladas, como o Manu-saṁhitā e outras semelhantes, são consideradas os livros de critério a serem seguidos pela sociedade humana. Assim, o ensinamento do líder deve basear-se nos princípios das regras de critério, tais como praticadas pelos grandes mestres. O *Śrīmad-Bhāgavatam* também afirma que se devem seguir os passos dos grandes devotos, e este é o caminho do progresso na senda da realização espiritual. O rei ou o chefe executivo de um Estado, o pai e o professor da escola são todos considerados líderes naturais das pessoas inocentes em geral. Todos esses líderes naturais têm grande responsabilidade para com seus dependentes; logo, devem ser versados em livros de critério dos códigos morais e espirituais."}
{"ref": "bg/3/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/22/", "verse_text": "na me pārthāsti kartavyaṁ\n\ntriṣu lokeṣu kiñcana\n\nnānavāptam avāptavyaṁ\n\nvarta eva ca karmaṇi", "devanagari": "> न मे पार्थास्ति कर्तव्यं त्रिषु लोकेषु किञ्चन ।\n> नानवाप्तमवाप्तव्यं वर्त एव च कर्मणि ॥२२॥", "synonyms": "*na*—nenhum; *me*—Meu; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *asti*—há; *kartavyam*—qualquer dever prescrito; *triṣu*—nos três; *lokeṣu*—sistemas planetários; *kiñcana*—qualquer coisa; *na*—nada; *anavāptam*—em falta; *avāptavyam*—a ser obtido; *varte*—ocupado; *eva*—certamente; *ca*—também; *karmaṇi*—no dever prescrito.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, não há nenhum trabalho prescrito para Mim em todos os três sistemas planetários. Tampouco Me falta coisa alguma, nem tenho necessidade de obter coisa alguma — e, ainda assim, ocupo-Me em trabalho.**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus é descrita nas literaturas Védicas da seguinte forma:\n\n\n\ntam īśvarāṇāṁ paramaṁ maheśvaraṁ\n\ntaṁ devatānāṁ paramaṁ ca daivatam\n\npatiṁ patīnāṁ paramaṁ parastād\n\nvidāma devaṁ bhuvaneśam īḍyam\n\n\n\nna tasya kāryaṁ karaṇaṁ ca vidyate\n\nna tat-samaś cābhyadhikaś ca dṛśyate\n\nparāsya śaktir vividhaiva śrūyate\n\nsvā-bhāvikī jñāna-bala-kriyā ca.\n\n\n\n\"O Senhor Supremo é o controlador de todos os outros controladores, e Ele é o maior de todos os diversos líderes planetários. Todos estão sob Seu controle. Todas as entidades são investidas de poder específico apenas pelo Senhor Supremo; elas não são supremas por si mesmas. Ele também é digno de adoração por todos os semideuses e é o supremo diretor de todos os diretores. Por isso, Ele é transcendental a toda espécie de líderes e controladores materiais, e é digno de adoração por todos. Não há ninguém maior do que Ele, e Ele é a causa suprema de todas as causas.\n\n\n\n\"Ele não possui forma corpórea como a de uma entidade viva ordinária. Não há diferença entre Seu corpo e Sua alma. Ele é absoluto. Todos os Seus sentidos são transcendentais. Qualquer um de Seus sentidos pode executar a ação de qualquer outro sentido. Por conseguinte, ninguém é maior do que Ele ou igual a Ele. Suas potências são multifárias, e, dessa forma, Seus feitos são executados automaticamente como uma sequência natural.\" (Śvetāśvatara Upaniṣad 6.7-8)\n\n\n\nVisto que tudo está em plena opulência na Personalidade de Deus, e existe em plena verdade, não há dever algum para que a Suprema Personalidade de Deus o execute. Aquele que deve receber os resultados do trabalho tem algum dever designado, mas aquele que nada tem a alcançar dentro dos três sistemas planetários certamente não tem dever algum. E, no entanto, o Senhor Kṛṣṇa ocupa-Se no Campo de Batalha de Kurukṣetra como líder dos *kṣatriyas*, pois os *kṣatriyas* têm o dever de dar proteção aos aflitos. Embora esteja acima de todos os regulamentos das escrituras reveladas, Ele não faz nada que viole as escrituras reveladas."}
{"ref": "bg/3/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/23/", "verse_text": "yadi hy ahaṁ na varteyaṁ\n\njātu karmaṇy atandritaḥ\n\nmama vartmānuvartante\n\nmanuṣyāḥ pārtha sarvaśaḥ", "devanagari": "> यदि ह्यहं न वर्तेयं जातु कर्मण्यतन्द्रितः ।\n> मम वर्त्मानुवर्तन्ते मनुष्याः पार्थ सर्वशः ॥२३॥", "synonyms": "*yadi*—se; *hi*—certamente; *aham*—Eu; *na*—não; *varteyam*—assim Me ocupasse; *jātu*—jamais; *karmaṇi*—na execução de deveres prescritos; *atandritaḥ*—com grande cuidado; *mama*—Meu; *vartma*—caminho; *anuvartante*—seguiriam; *manuṣyāḥ*—todos os homens; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *sarvaśaḥ*—em todos os aspectos.", "translation": "**Pois, se Eu não Me ocupasse no trabalho, ó Pārtha, certamente todos os homens seguiriam Meu caminho.**", "purport": "A fim de manter o equilíbrio da tranquilidade social para o progresso na vida espiritual, há usos familiares tradicionais destinados a todo homem civilizado. Embora tais regras e regulamentos sejam para as almas condicionadas, e não para o Senhor Kṛṣṇa, dado que Ele desceu para estabelecer os princípios da religião, Ele seguiu as regras prescritas. De outra maneira, os homens comuns seguiriam Seus passos, pois Ele é a maior autoridade. Pelo *Śrīmad-Bhāgavatam* compreende-se que o Senhor Kṛṣṇa cumpria todos os deveres religiosos em casa e fora dela, conforme se requer de um chefe de família."}
{"ref": "bg/3/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/24/", "verse_text": "utsīdeyur ime lokā\n\nna kuryāṁ karma ced aham\n\nsaṅkarasya ca kartā syām\n\nupahanyām imāḥ prajāḥ", "devanagari": "> उत्सीदेयुरिमे लोका न कुर्यां कर्म चेदहम् ।\n> सङ्करस्य च कर्ता स्यामुपहन्यामिमाः प्रजाः ॥२४॥", "synonyms": "*utsīdeyuḥ*—lançar à ruína; *ime*—todos estes; *lokāḥ*—mundos; *na*—não; *kuryām*—executar; *karma*—deveres prescritos; *cet*—se; *aham*—Eu; *saṅkarasya*—de população indesejada; *ca*—e; *kartā*—criador; *syām*—serei; *upahanyām*—destruir; *imāḥ*—todas estas; *prajāḥ*—entidades vivas.", "translation": "**Se Eu deixasse de trabalhar, então todos estes mundos seriam lançados à ruína. Eu também seria a causa da criação de população indesejada, e, dessa forma, destruiria a paz de todos os seres sencientes.**", "purport": "Varṇa-saṅkara é população indesejada que perturba a paz da sociedade em geral. A fim de conter essa perturbação social, há regras e regulamentos prescritos pelos quais a população pode automaticamente tornar-se pacífica e organizada para o progresso espiritual na vida. Quando o Senhor Kṛṣṇa desce, naturalmente Ele lida com tais regras e regulamentos a fim de manter o prestígio e a necessidade de tais importantes execuções. O Senhor é o pai de todas as entidades vivas, e, se as entidades vivas são desencaminhadas, indiretamente a responsabilidade recai sobre o Senhor. Por isso, sempre que há um desrespeito geral aos princípios reguladores, o Senhor mesmo desce e corrige a sociedade. Devemos, contudo, observar atentamente que, embora tenhamos de seguir os passos do Senhor, devemos também lembrar que não podemos imitá-lO. Seguir e imitar não estão no mesmo nível. Não podemos imitar o Senhor erguendo a Colina de Govardhana, como o Senhor fez em Sua infância. É impossível para qualquer ser humano. Devemos seguir Suas instruções, mas não podemos imitá-lO em momento algum. O *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma:\n\n\n\nnaitat samācarej jātu manasāpi hy anīśvaraḥ\n\nvinaśyaty ācaran mauḍhyād yathā 'rudro 'bdhijaṁ viṣam\n\n\n\nīśvarāṇāṁ vacaḥ satyaṁ tathaivācaritaṁ kvacit\n\nteṣāṁ yat sva-vaco yuktaṁ buddhimāṁs tat samācaret\n\n\n\n\"Deve-se simplesmente seguir as instruções do Senhor e de Seus servos investidos de poder. Suas instruções são todas boas para nós, e qualquer pessoa inteligente as executará tal como instruído. Contudo, deve-se acautelar contra a tentativa de imitar suas ações. Não se deve tentar beber o oceano de veneno em imitação ao Senhor Śiva.\" (Bhāg. 10.33.30)\n\n\n\nDevemos sempre considerar superior a posição dos *īśvaras*, ou daqueles que de fato podem controlar os movimentos do sol e da lua. Sem tal poder, ninguém pode imitar os *īśvaras*, que são superpoderosos. O Senhor Śiva bebeu veneno a ponto de tragar um oceano, mas, se qualquer homem comum tentar beber até mesmo um fragmento de tal veneno, será morto. Há muitos pseudodevotos do Senhor Śiva que querem entregar-se a fumar gāñjā (maconha) e drogas intoxicantes semelhantes, esquecendo-se de que, ao imitarem assim os atos do Senhor Śiva, estão chamando a morte para muito perto. De modo semelhante, há alguns pseudodevotos do Senhor Kṛṣṇa que preferem imitar o Senhor em Sua rāsa-līlā, ou dança do amor, esquecendo-se de sua incapacidade de erguer a Colina de Govardhana. É melhor, portanto, que ninguém tente imitar os poderosos, mas simplesmente siga suas instruções; tampouco se deve tentar ocupar seus postos sem qualificação. Há tantas \"encarnações\" de Deus desprovidas do poder do Supremo Deus."}
{"ref": "bg/3/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/25/", "verse_text": "saktāḥ karmaṇy avidvāṁso\n\nyathā kurvanti bhārata\n\nkuryād vidvāṁs tathāsaktaś\n\ncikīrṣur loka-saṅgraham", "devanagari": "> सक्ताः कर्मण्यविद्वांसो यथा कुर्वन्ति भारत ।\n> कुर्याद्विद्वांस्तथासक्तश्चिकीर्षुर्लोकसंग्रहम् ॥२५॥", "synonyms": "*saktāḥ*—estando apegados; *karmaṇi*—deveres prescritos; *avidvāṁsaḥ*—os ignorantes; *yathā*—tanto quanto; *kurvanti*—fazem; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *kuryāt*—deve fazer; *vidvān*—o erudito; *tathā*—assim; *asaktaḥ*—sem apego; *cikīrṣuḥ*—desejando; *loka-saṅgraham*—conduzir as pessoas em geral.", "translation": "**Assim como os ignorantes executam seus deveres com apego aos resultados, igualmente o erudito também pode agir, mas sem apego, em prol de conduzir as pessoas pelo caminho correto.**", "purport": "Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa e uma pessoa que não está em consciência de Kṛṣṇa diferenciam-se por desejos distintos. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não faz coisa alguma que não seja propícia ao desenvolvimento da consciência de Kṛṣṇa. Ela pode até agir exatamente como a pessoa ignorante, demasiadamente apegada às atividades materiais, mas uma se ocupa em tais atividades para a satisfação de sua gratificação dos sentidos, ao passo que a outra se ocupa para a satisfação de Kṛṣṇa. Por isso, a pessoa consciente de Kṛṣṇa precisa mostrar às pessoas como agir e como aplicar os resultados da ação para o propósito da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/26/", "verse_text": "na buddhi-bhedaṁ janayed\n\najñānāṁ karma-saṅginām\n\njoṣayet sarva-karmāṇi\n\nvidvān yuktaḥ samācaran", "devanagari": "> न बुद्धिभेदं जनयेदज्ञानां कर्मसङ्गिनाम् ।\n> जोषयेत्सर्वकर्माणि विद्वान्युक्तः समाचरन् ॥२६॥", "synonyms": "*na*—não; *buddhi-bhedam*—perturbar a inteligência; *janayet*—faça; *ajñānām*—dos tolos; *karma-saṅginām*—apegados ao trabalho fruitivo; *joṣayet*—conjugado; *sarva*—todo; *karmāṇi*—trabalho; *vidvān*—erudito; *yuktaḥ*—todo ocupado; *samācaran*—praticando.", "translation": "**Que o sábio não perturbe a mente dos ignorantes que estão apegados à ação fruitiva. Eles não devem ser encorajados a abster-se do trabalho, mas a ocupar-se no trabalho com espírito de devoção.**", "purport": "Vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ: este é o fim de todos os rituais Védicos. Todos os rituais, todas as execuções de sacrifícios e tudo o que está consignado nos *Vedas*, inclusive todas as direções para atividades materiais, destinam-se a compreender Kṛṣṇa, que é a meta última da vida. Mas, como as almas condicionadas nada conhecem além da gratificação dos sentidos, estudam os *Vedas* com esse fim. Por meio das regulações dos sentidos, contudo, a pessoa é gradualmente elevada à consciência de Kṛṣṇa. Por isso, uma alma realizada em consciência de Kṛṣṇa não deve perturbar os outros em suas atividades ou compreensão, mas deve agir mostrando como os resultados de todo trabalho podem ser dedicados ao serviço de Kṛṣṇa. A pessoa erudita e consciente de Kṛṣṇa pode agir de tal maneira que a pessoa ignorante que trabalha pela gratificação dos sentidos possa aprender como agir e como comportar-se. Embora o homem ignorante não deva ser perturbado em suas atividades, ainda assim, uma pessoa um pouco desenvolvida em consciência de Kṛṣṇa pode dedicar-se diretamente ao serviço do Senhor sem esperar por outras fórmulas Védicas. Para esse homem afortunado, não há necessidade de seguir os rituais Védicos, pois, na consciência direta de Kṛṣṇa, pode-se obter todos os resultados simplesmente ao seguir os deveres prescritos para uma pessoa em particular."}
{"ref": "bg/3/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/27/", "verse_text": "prakṛteḥ kriyamāṇāni\n\nguṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ\n\nahaṅkāra-vimūḍhātmā\n\nkartāham iti manyate", "devanagari": "> प्रकृतेः क्रियमाणानि गुणैः कर्माणि सर्वशः ।\n> अहङ्कारविमूढात्मा कर्ताहमिति मन्यते ॥२७॥", "synonyms": "*prakṛteḥ*—da natureza material; *kriyamāṇāni*—todas sendo feitas; *guṇaiḥ*—pelos modos; *karmāṇi*—atividades; *sarvaśaḥ*—toda espécie de; *ahaṅkāra-vimūḍha*—confundida pelo ego falso; *ātmā*—a alma espiritual; *kartā*—executora; *aham*—eu; *iti*—assim; *manyate*—pensa.", "translation": "**A alma espiritual confundida, sob a influência dos três modos da natureza material, julga-se a executora de atividades que, na realidade, são executadas pela natureza.**", "purport": "Duas pessoas — uma em consciência de Kṛṣṇa e outra em consciência material — trabalhando no mesmo nível, podem parecer estar trabalhando na mesma plataforma, mas há um grande abismo de diferença em suas respectivas posições. A pessoa em consciência material está convencida pelo ego falso de que é a executora de tudo. Ela não sabe que o mecanismo do corpo é produzido pela natureza material, que opera sob a supervisão do Senhor Supremo. A pessoa materialista não tem conhecimento de que, em última análise, está sob o controle de Kṛṣṇa. A pessoa em ego falso atribui a si todo o crédito de fazer tudo independentemente, e este é o sintoma de sua ignorância. Ela não sabe que este corpo grosseiro e sutil é a criação da natureza material, sob a ordem da Suprema Personalidade de Deus, e, como tal, suas atividades corporais e mentais devem ocupar-se no serviço de Kṛṣṇa, em consciência de Kṛṣṇa. O homem ignorante esquece que a Suprema Personalidade de Deus é conhecida como Hṛṣīkeśa, ou o senhor dos sentidos do corpo material, pois, devido a seu longo mau uso dos sentidos na gratificação dos sentidos, está, de fato, confundido pelo ego falso, que o faz esquecer-se de sua relação eterna com Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/28/", "verse_text": "tattva-vit tu mahā-bāho\n\nguṇa-karma-vibhāgayoḥ\n\nguṇā guṇeṣu vartanta\n\niti matvā na sajjate", "devanagari": "> तत्त्ववित्तु महाबाहो गुणकर्मविभागयोः ।\n> गुणा गुणेषु वर्तन्त इति मत्वा न सज्जते ॥२८॥", "synonyms": "*tattvavit*—o conhecedor da Verdade Absoluta; *tu*—mas; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *guṇa-karma*—trabalha sob influência material; *vibhāgayoḥ*—diferenças; *guṇāḥ*—sentidos; *guṇeṣu*—na gratificação dos sentidos; *vartante*—estando ocupado; *iti*—assim; *matvā*—pensando; *na*—nunca; *sajjate*—torna-se apegado.", "translation": "**Aquele que tem conhecimento da Verdade Absoluta, ó pessoa de braços poderosos, não se ocupa nos sentidos e na gratificação dos sentidos, conhecendo bem as diferenças entre o trabalho em devoção e o trabalho para resultados fruitivos.**", "purport": "O conhecedor da Verdade Absoluta está convencido de sua posição embaraçosa em associação material. Ele sabe que é parte integrante da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e que sua posição não deveria ser na criação material. Ele conhece sua verdadeira identidade como parte integrante do Supremo, que é eterna bem-aventurança e conhecimento, e percebe que, de uma maneira ou de outra, está enredado na concepção material da vida. Em seu estado puro de existência, está destinado a conjugar suas atividades no serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Ele, por isso, ocupa-se nas atividades da consciência de Kṛṣṇa e torna-se naturalmente desapegado das atividades dos sentidos materiais, que são todas circunstanciais e temporárias. Ele sabe que sua condição material de vida está sob o controle supremo do Senhor; em consequência, não se perturba com toda espécie de reações materiais, que considera ser a misericórdia do Senhor. Segundo o *Śrīmad-Bhāgavatam*, aquele que conhece a Verdade Absoluta em três aspectos diferentes — a saber, Brahman, Paramātmā e a Suprema Personalidade de Deus — é chamado tattvavit, pois conhece também sua própria posição factual em relação ao Supremo."}
{"ref": "bg/3/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/29/", "verse_text": "prakṛter guṇa-sammūḍhāḥ\n\nsajjante guṇa-karmasu\n\ntān akṛtsna-vido mandān\n\nkṛtsna-vin na vicālayet", "devanagari": "> प्रकृतेर्गुणसम्मूढाः सज्जन्ते गुणकर्मसु ।\n> तानकृत्स्नविदो मन्दान्कृत्स्नविन्न विचालयेत् ॥२९॥", "synonyms": "*prakṛteḥ*—impulsionados pelos modos materiais; *guṇa-saṁmūḍhāḥ*—enganados pela identificação material; *sajjante*—ocupam-se; *guṇa-karmasu*—em atividades materiais; *tān*—todos esses; *akṛtsna-vidaḥ*—pessoas com escasso fundo de conhecimento; *mandān*—preguiçosos para compreender a autorrealização; *kṛtsna-vit*—aquele que está em conhecimento factual; *na*—não; *vicālayet*—tente agitar.", "translation": "**Confundidos pelos modos da natureza material, os ignorantes ocupam-se plenamente em atividades materiais e tornam-se apegados. Mas o sábio não deve perturbá-los, embora esses deveres sejam inferiores devido à falta de conhecimento dos seus executores.**", "purport": "Pessoas desprovidas de conhecimento identificam-se falsamente com a consciência material grosseira e estão repletas de designações materiais. Este corpo é uma dádiva da natureza material, e aquele que está demasiadamente apegado à consciência corporal é chamado mandān, ou pessoa preguiçosa, sem compreensão da alma espiritual. Os homens ignorantes pensam no corpo como o eu; as conexões corporais com os outros são aceitas como parentesco; a terra na qual o corpo é obtido é o objeto de adoração; e as formalidades dos rituais religiosos são consideradas fins em si mesmos. O trabalho social, o nacionalismo e o altruísmo são algumas das atividades para tais pessoas materialmente designadas. Sob o feitiço de tais designações, estão sempre ocupadas no campo material; para elas, a realização espiritual é um mito e, por isso, não se interessam. Tais pessoas confundidas podem até ocupar-se em princípios morais primários da vida, como a não-violência e atos materialmente benevolentes semelhantes. Aqueles que, contudo, são iluminados na vida espiritual, não devem tentar agitar tais pessoas materialmente absorvidas. Melhor é prosseguir silenciosamente com as próprias atividades espirituais.\n\n\n\nOs homens que são ignorantes não podem apreciar as atividades em consciência de Kṛṣṇa, e, por isso, o Senhor Kṛṣṇa nos aconselha a não perturbá-los e simplesmente desperdiçar tempo precioso. Mas os devotos do Senhor são mais bondosos do que o Senhor, pois compreendem o propósito do Senhor. Em consequência, eles assumem toda espécie de riscos, ao ponto mesmo de aproximar-se de homens ignorantes para tentar ocupá-los nos atos da consciência de Kṛṣṇa, que são absolutamente necessários para o ser humano."}
{"ref": "bg/3/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/30/", "verse_text": "mayi sarvāṇi karmāṇi\n\nsannyasyādhyātma-cetasā\n\nnirāśīr nirmamo bhūtvā\n\nyudhyasva vigata-jvaraḥ", "devanagari": "> मयि सर्वाणि कर्माणि संन्यस्याध्यात्मचेतसा ।\n> निराशीर्निर्ममो भूत्वा युध्यस्व विगतज्वरः ॥३०॥", "synonyms": "*mayi*—a Mim; *sarvāṇi*—toda espécie de; *karmāṇi*—atividades; *sannyasya*—abandonando completamente; *adhyātma*—com pleno conhecimento do eu; *cetasā*—consciência; *nirāśīḥ*—sem desejo de lucro; *nirmamaḥ*—sem propriedade; *bhūtvā*—assim sendo; *yudhyasva*—luta; *vigata-jvaraḥ*—sem letargia.", "translation": "**Portanto, ó Arjuna, rendendo todos os teus trabalhos a Mim, com a mente fixa em Mim, sem desejo de lucro e livre do egoísmo e da letargia, luta.**", "purport": "Este verso indica claramente o propósito do *Bhagavad-gītā*. O Senhor instrui que se deve tornar-se plenamente consciente de Kṛṣṇa para cumprir os deveres, como se fosse em disciplina militar. Tal injunção pode tornar as coisas um tanto difíceis; não obstante, os deveres devem ser executados, com dependência em Kṛṣṇa, pois esta é a posição constitucional da entidade viva. A entidade viva não pode ser feliz independentemente da cooperação do Senhor Supremo, pois a posição constitucional eterna da entidade viva é tornar-se subordinada aos desejos do Senhor. Arjuna foi, portanto, ordenado por Śrī Kṛṣṇa a lutar como se o Senhor fosse seu comandante militar. É preciso sacrificar tudo para a benevolência do Senhor Supremo, e, ao mesmo tempo, cumprir os deveres prescritos sem reivindicar a posse. Arjuna não tinha de considerar a ordem do Senhor; tinha apenas de executar Sua ordem. O Senhor Supremo é a Alma de todas as almas; logo, aquele que depende única e inteiramente da Alma Suprema, sem consideração pessoal, ou, em outras palavras, aquele que é plenamente consciente de Kṛṣṇa, é chamado adhyātma-cetasā. Nirāśīḥ significa que se deve agir segundo a ordem do mestre. Tampouco se devem esperar resultados fruitivos. O caixa pode contar milhões de dólares para seu empregador, mas não reivindica um centavo para si mesmo. De modo semelhante, é preciso compreender que nada no mundo pertence a qualquer pessoa individual, mas que tudo pertence ao Senhor Supremo. Esse é o verdadeiro significado de mayi, ou a Mim. E, quando alguém age em tal consciência de Kṛṣṇa, certamente não reivindica a posse de coisa alguma. Esta consciência é chamada nirmama, ou nada é meu. E, se há alguma relutância em executar tal ordem severa, que não considera os supostos parentes na relação corporal, essa relutância deve ser lançada fora; dessa maneira, pode-se tornar vigata-jvara, ou sem mentalidade febril ou letargia. Cada um, conforme sua qualidade e posição, tem um tipo particular de trabalho a cumprir, e todos esses deveres podem ser cumpridos em consciência de Kṛṣṇa, conforme descrito acima. Isso conduzirá a pessoa à senda da liberação."}
{"ref": "bg/3/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/31/", "verse_text": "ye me matam idaṁ nityam\n\nanutiṣṭhanti mānavāḥ\n\nśraddhāvanto 'nasūyanto\n\nmucyante te 'pi karmabhiḥ", "devanagari": "> ये मे मतमिदं नित्यमनुतिष्ठन्ति मानवाः ।\n> श्रद्धावन्तोऽनसूयन्तो मुच्यन्ते तेऽपि कर्मभिः ॥३१॥", "synonyms": "*ye*—aqueles; *me*—Minhas; *matam*—injunções; *idam*—esta; *nityam*—função eterna; *anutiṣṭhanti*—executam regularmente; *mānavāḥ*—humanidade; *śraddhāvantaḥ*—com fé e devoção; *anasūyantaḥ*—sem inveja; *mucyante*—libertam-se; *te*—todos eles; *api*—mesmo; *karmabhiḥ*—do cativeiro da lei da ação fruitiva.", "translation": "**Aquele que executa seus deveres conforme Minhas injunções e que segue este ensinamento fielmente, sem inveja, liberta-se do cativeiro das ações fruitivas.**", "purport": "A injunção da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a essência de toda a sabedoria Védica e, por isso, é eternamente verdadeira sem exceção. Assim como os *Vedas* são eternos, igualmente esta verdade da consciência de Kṛṣṇa também é eterna. Deve-se ter fé firme nesta injunção, sem invejar o Senhor. Há muitos filósofos que escrevem comentários sobre o *Bhagavad-gītā*, mas não têm fé em Kṛṣṇa. Eles jamais serão libertos do cativeiro da ação fruitiva. Mas um homem comum, com fé firme nas injunções eternas do Senhor, ainda que incapaz de executar tais ordens, torna-se liberto do cativeiro da lei do karma. No início da consciência de Kṛṣṇa, pode ser que não se cumpram plenamente as injunções do Senhor, mas, como a pessoa não se ressente desse princípio e trabalha sinceramente sem consideração pela derrota e pela desesperança, certamente será promovida ao estágio da pura consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/32/", "verse_text": "ye tv etad abhyasūyanto\n\nnānutiṣṭhanti me matam\n\nsarva-jñāna-vimūḍhāṁs tān\n\nviddhi naṣṭān acetasaḥ", "devanagari": "> ये त्वेतदभ्यसूयन्तो नानुतिष्ठन्ति मे मतम् ।\n> सर्वज्ञानविमूढांस्तान्विद्धि नष्टानचेतसः ॥३२॥", "synonyms": "*ye*—aqueles; *tu*—contudo; *etat*—este; *abhyasūyantaḥ*—por inveja; *na*—não; *anutiṣṭhanti*—executam regularmente; *me*—Minha; *matam*—injunção; *sarva-jñāna*—toda espécie de conhecimento; *vimūḍhān*—perfeitamente enganados; *tān*—são eles; *viddhi*—saiba bem; *naṣṭān*—todos arruinados; *acetasaḥ*—sem consciência de Kṛṣṇa.", "translation": "**Mas aqueles que, por inveja, desconsideram estes ensinamentos e não os praticam regularmente devem ser considerados desprovidos de todo o conhecimento, enganados e condenados à ignorância e ao cativeiro.**", "purport": "A falha de não ser consciente de Kṛṣṇa é aqui claramente declarada. Assim como há punição pela desobediência à ordem do supremo chefe executivo, igualmente há, sem dúvida, punição pela desobediência à ordem da Suprema Personalidade de Deus. Uma pessoa desobediente, por maior que seja, é ignorante de seu próprio eu, do Brahman Supremo, e do Paramātmā e da Personalidade de Deus, devido a um coração vazio. Por isso, não há esperança de perfeição da vida para ela."}
{"ref": "bg/3/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/33/", "verse_text": "sadṛśaṁ ceṣṭate svasyāḥ\n\nprakṛter jñānavān api\n\nprakṛtiṁ yānti bhūtāni\n\nnigrahaḥ kiṁ kariṣyati", "devanagari": "> सदृशं चेष्टते स्वस्याः प्रकृतेर्ज्ञानवानपि ।\n> प्रकृतिं यान्ति भूतानि निग्रहः किं करिष्यति ॥३३॥", "synonyms": "*sadṛśam*—de acordo; *ceṣṭate*—tenta; *svasyāḥ*—em sua própria natureza; *prakṛteḥ*—modos; *jñānavān*—o erudito; *api*—embora; *prakṛtim*—natureza; *yānti*—submetem-se; *bhūtāni*—todas as entidades vivas; *nigrahaḥ*—repressão; *kim*—o que; *kariṣyati*—pode fazer.", "translation": "**Mesmo um homem de conhecimento age conforme sua própria natureza, pois cada um segue sua natureza. O que pode a repressão realizar?**", "purport": "A menos que se esteja situado na plataforma transcendental da consciência de Kṛṣṇa, não se pode libertar da influência dos modos da natureza material, conforme confirma o Senhor no Sétimo Capítulo (7.14). Por isso, mesmo para a pessoa mais altamente educada no plano mundano, é impossível sair do enredamento de *māyā* simplesmente pelo conhecimento teórico, ou separando a alma do corpo. Há muitos supostos espiritualistas que externamente posam de avançados na ciência, mas, internamente ou em particular, estão completamente sob os modos particulares da natureza, que são incapazes de superar. Academicamente, a pessoa pode ser muito erudita, mas, por causa de sua longa associação com a natureza material, está em cativeiro. A consciência de Kṛṣṇa ajuda a sair do enredamento material, ainda que se esteja ocupado em seus deveres prescritos. Por isso, sem estar plenamente em consciência de Kṛṣṇa, ninguém deve abandonar repentinamente seus deveres prescritos e tornar-se artificialmente um suposto yogī ou transcendentalista. É melhor situar-se em sua posição e tentar atingir a consciência de Kṛṣṇa sob treinamento superior. Assim, pode-se libertar das garras de *māyā*."}
{"ref": "bg/3/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/34/", "verse_text": "indriyasyendriyasyārthe\n\nrāga-dveṣau vyavasthitau\n\ntayor na vaśam āgacchet\n\ntau hy asya paripanthinau", "devanagari": "> इन्द्रियस्येन्द्रियस्यार्थे रागद्वेषौ व्यवस्थितौ ।\n> तयोर्न वशमागच्छेत्तौ ह्यस्य परिपन्थिनौ ॥३४॥", "synonyms": "*indriyasya*—dos sentidos; *indriyasya arthe*—nos objetos dos sentidos; *rāga*—apego; *dveṣau*—também no desapego; *vyavasthitau*—postos sob regulações; *tayoḥ*—deles; *na*—nunca; *vaśam*—controle; *āgacchet*—deve-se cair; *tau*—aqueles; *hi*—certamente são; *asya*—seus; *paripanthinau*—pedras de tropeço.", "translation": "**A atração e a repulsão pelos objetos dos sentidos são sentidas pelos seres corporificados, mas a pessoa não deve cair sob o controle dos sentidos e dos objetos dos sentidos, pois eles são pedras de tropeço na senda da autorrealização.**", "purport": "Aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa naturalmente relutam em ocupar-se em gratificações materiais dos sentidos. Mas aqueles que não estão em tal consciência devem seguir as regras e regulações das escrituras reveladas. O gozo irrestrito dos sentidos é a causa do enclausuramento material, mas aquele que segue as regras e regulações das escrituras reveladas não se enreda nos objetos dos sentidos. Por exemplo, o gozo sexual é uma necessidade para a alma condicionada, e o gozo sexual é permitido sob a licença dos laços do casamento. Por exemplo, segundo as injunções escriturais, é proibido envolver-se em relações sexuais com qualquer mulher que não seja a própria esposa. Todas as outras mulheres devem ser consideradas como mãe. Mas, apesar de tais injunções, o homem ainda se inclina a ter relações sexuais com outras mulheres. Estas propensões devem ser refreadas; do contrário, serão pedras de tropeço na senda da autorrealização. Enquanto houver corpo material, as necessidades do corpo material são permitidas, mas sob regras e regulações. E, no entanto, não devemos confiar no controle de tais permissões. É preciso seguir essas regras e regulações, sem se apegar a elas, pois a prática das gratificações dos sentidos sob regulações também pode levar a pessoa a desviar-se — assim como sempre há a possibilidade de um acidente, mesmo nas estradas reais. Embora possam ser muito cuidadosamente mantidas, ninguém pode garantir que não haverá perigo nem mesmo na estrada mais segura. O espírito de gozo dos sentidos vigora há muito, muito tempo, devido à associação material. Por isso, apesar do gozo regulado dos sentidos, há toda a possibilidade de queda; logo, qualquer apego ao gozo regulado dos sentidos também deve ser evitado por todos os meios. Mas a ação no serviço amoroso a Kṛṣṇa desapega a pessoa de toda espécie de atividades sensoriais. Por conseguinte, ninguém deve tentar desapegar-se da consciência de Kṛṣṇa em estágio algum da vida. Todo o propósito do desapego de toda espécie de apego sensorial é, em última análise, situar-se na plataforma da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/35/", "verse_text": "śreyān sva-dharmo viguṇaḥ\n\npara-dharmāt sv-anuṣṭhitāt\n\nsva-dharme nidhanaṁ śreyaḥ\n\npara-dharmo bhayāvahaḥ", "devanagari": "> श्रेयान्स्वधर्मो विगुणः परधर्मात्स्वनुष्ठितात् ।\n> स्वधर्मे निधनं श्रेयः परधर्मो भयावहः ॥३५॥", "synonyms": "*śreyān*—em muito melhor; *sva-dharmaḥ*—os deveres prescritos da pessoa; *viguṇaḥ*—mesmo defeituosos; *para-dharmāt*—do que os deveres mencionados para outros; *svanuṣthitāt*—do que perfeitamente feitos; *sva-dharme*—nos deveres prescritos da pessoa; *nidhanam*—destruição; *śreyaḥ*—melhor; *para-dharmaḥ*—deveres prescritos para outros; *bhaya-āvahaḥ*—perigosos.", "translation": "**É em muito melhor cumprir os próprios deveres prescritos, ainda que defeituosos, do que os deveres alheios. A destruição no curso da execução do próprio dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho de outrem é perigoso.**", "purport": "Deve-se, portanto, cumprir os próprios deveres prescritos em plena consciência de Kṛṣṇa, em vez dos prescritos para outros. Os deveres prescritos complementam a condição psicofísica da pessoa, sob o feitiço dos modos da natureza material. Os deveres espirituais são tais como ordenados pelo mestre espiritual, para o serviço transcendental a Kṛṣṇa. Mas, tanto material quanto espiritualmente, deve-se aderir aos deveres prescritos até mesmo até a morte, em vez de imitar os deveres prescritos alheios. Os deveres na plataforma espiritual e os deveres na plataforma material podem ser diferentes, mas o princípio de seguir a direção autorizada é sempre bom para o executor. Quando se está sob o feitiço dos modos da natureza material, deve-se seguir as regras prescritas para situações particulares e não se devem imitar os outros. Por exemplo, um *brāhmaṇa*, que está no modo da bondade, é não-violento, ao passo que a um *kṣatriya*, que está no modo da paixão, é permitido ser violento. Sendo assim, é melhor para um *kṣatriya* ser vencido seguindo as regras da violência do que imitar um *brāhmaṇa* que segue os princípios da não-violência. Cada um deve purificar seu coração por um processo gradual, não abruptamente. Contudo, quando alguém transcende os modos da natureza material e está plenamente situado em consciência de Kṛṣṇa, pode executar qualquer coisa e tudo sob a direção do mestre espiritual genuíno. Nesse estágio completo de consciência de Kṛṣṇa, o *kṣatriya* pode agir como *brāhmaṇa*, ou um *brāhmaṇa* pode agir como *kṣatriya*. No estágio transcendental, as distinções do mundo material não se aplicam. Por exemplo, Viśvāmitra era originalmente um *kṣatriya*, mas, mais tarde, agiu como *brāhmaṇa*, ao passo que Paraśurāma era um *brāhmaṇa*, mas, mais tarde, agiu como *kṣatriya*. Estando transcendentalmente situados, eles podiam fazê-lo; mas, enquanto se está na plataforma material, deve-se executar os deveres conforme os modos da natureza material. Ao mesmo tempo, deve-se ter pleno senso de consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/3/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/36/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\natha kena prayukto 'yaṁ\n\npāpaṁ carati pūruṣaḥ\n\nanicchann api vārṣṇeya\n\nbalād iva niyojitaḥ", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> अथ केन प्रयुक्तोऽयं पापं चरति पूरुषः ।\n> अनिच्छन्नपि वार्ष्णेय बलादिव नियोजितः ॥३६॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *atha*—doravante; *kena*—por que; *prayuktaḥ*—impulsionado; *ayam*—um; *pāpam*—pecados; *carati*—age; *pūruṣaḥ*—um homem; *anicchan*—sem desejar; *api*—embora; *vārṣṇeya*—ó descendente de Vṛṣṇi; *balāt*—à força; *iva*—como se; *niyojitaḥ*—ocupado.", "translation": "**Arjuna disse: Ó descendente de Vṛṣṇi, pelo que é alguém impulsionado a atos pecaminosos, mesmo involuntariamente, como se ocupado à força?**", "purport": "Uma entidade viva, como parte integrante do Supremo, é originalmente espiritual, pura e livre de toda contaminação material. Por isso, por natureza, não está sujeita aos pecados do mundo material. Mas, quando está em contato com a natureza material, age de muitas maneiras pecaminosas sem hesitação, e, às vezes, até mesmo contra sua vontade. Assim, a pergunta de Arjuna a Kṛṣṇa é muito pertinente quanto à natureza pervertida das entidades vivas. Embora a entidade viva às vezes não queira agir em pecado, ainda assim é forçada a agir. As ações pecaminosas, contudo, não são impulsionadas pela Superalma interior, mas devem-se a outra causa, conforme o Senhor explica no verso seguinte."}
{"ref": "bg/3/37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/37/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nkāma eṣa krodha eṣa\n\nrajo-guṇa-samudbhavaḥ\n\nmahāśano mahā-pāpmā\n\nviddhy enam iha vairiṇam", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> काम एष क्रोध एष रजोगुणसमुद्भवः ।\n> महाशनो महापाप्मा विद्ध्येनमिह वैरिणम् ॥३७॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Personalidade de Deus disse; *kāmaḥ*—luxúria; *eṣaḥ*—toda essa; *krodhaḥ*—ira; *eṣaḥ*—toda essa; *rajo-guṇa*—o modo da paixão; *samudbhavaḥ*—nascida de; *mahā-śanaḥ*—devoradora total; *mahā-pāpmā*—grandemente pecaminosa; *viddhi*—saiba; *enam*—este; *iha*—no mundo material; *vairiṇam*—maior inimigo.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: É somente a luxúria, Arjuna, nascida do contato com o modo material da paixão e mais tarde transformada em ira, que é a inimiga devoradora e pecaminosa deste mundo.**", "purport": "Quando uma entidade viva entra em contato com a criação material, seu amor eterno por Kṛṣṇa transforma-se em luxúria, em associação com o modo da paixão. Ou, em outras palavras, o senso de amor a Deus transforma-se em luxúria, assim como o leite, em contato com o tamarindo azedo, transforma-se em iogurte. Então, novamente, quando a luxúria não é satisfeita, ela se converte em ira; a ira transforma-se em ilusão, e a ilusão dá continuidade à existência material. Por conseguinte, a luxúria é a maior inimiga da entidade viva, e é unicamente a luxúria que induz a pura entidade viva a permanecer enredada no mundo material. A ira é a manifestação do modo da ignorância; estes modos exibem-se como ira e outros corolários. Se, por isso, os modos da paixão, em vez de serem rebaixados aos modos da ignorância, forem elevados aos modos da bondade pelo método prescrito de viver e agir, então a pessoa pode salvar-se da degradação da ira pelo apego espiritual.\n\n\n\nA Suprema Personalidade de Deus expandiu-Se em muitos para Sua bem-aventurança espiritual sempre crescente, e as entidades vivas são partes integrantes desta bem-aventurança espiritual. Elas também têm independência parcial, mas, pelo mau uso de sua independência, quando a atitude de serviço se transforma na propensão para o gozo dos sentidos, elas caem sob o domínio da luxúria. Esta criação material é criada pelo Senhor para dar uma facilidade às almas condicionadas a fim de cumprirem essas propensões luxuriosas, e, quando estão completamente frustradas pelas atividades luxuriosas prolongadas, as entidades vivas começam a indagar sobre sua verdadeira posição.\n\n\n\nEsta indagação é o início do Vedānta-sūtra, em que se diz: athāto brahma-jijñāsā: deve-se indagar sobre o Supremo. E o Supremo é definido no *Śrīmad-Bhāgavatam* como janmādyasya yato 'nvayād itarataś ca, ou: \"A origem de tudo é o Brahman Supremo.\" Por conseguinte, a origem da luxúria também está no Supremo. Se, pois, a luxúria for transformada em amor pelo Supremo, ou transformada em consciência de Kṛṣṇa — ou, em outras palavras, desejar tudo para Kṛṣṇa —, então tanto a luxúria como a ira podem ser espiritualizadas. Hanumān, o grande servo do Senhor Rama, ocupou sua ira contra seus inimigos para a satisfação do Senhor. Por conseguinte, a luxúria e a ira, quando empregadas em consciência de Kṛṣṇa, tornam-se nossas amigas, em vez de nossas inimigas."}
{"ref": "bg/3/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/38/", "verse_text": "dhūmenāvriyate vahnir\n\nyathādarśo malena ca\n\nyatholbenāvṛto garbhas\n\ntathā tenedam āvṛtam", "devanagari": "> धूमेनाव्रियते वह्निर्यथादर्शो मलेन च ।\n> यथोल्बेनावृतो गर्भस्तथा तेनेदमावृतम् ॥३८॥", "synonyms": "*dhūmena*—pela fumaça; *āvriyate*—coberto; *vahniḥ*—fogo; *yathā*—assim como; *ādarśaḥ*—espelho; *malena*—pela poeira; *ca*—também; *yathā*—assim como; *ulbena*—pelo ventre; *āvṛtaḥ*—é coberto; *garbhaḥ*—embrião; *tathā*—assim; *tena*—por essa luxúria; *idam*—esta; *āvṛtam*—é coberta.", "translation": "**Assim como o fogo é coberto pela fumaça, assim como o espelho é coberto pela poeira, ou assim como o embrião é coberto pelo ventre, igualmente, a entidade viva é coberta por diferentes graus desta luxúria.**", "purport": "Há três graus de cobertura da entidade viva pelos quais sua pura consciência é obscurecida. Esta cobertura nada mais é do que a luxúria sob diferentes manifestações, como a fumaça no fogo, a poeira no espelho e o ventre em torno do embrião. Quando a luxúria é comparada à fumaça, entende-se que o fogo da centelha viva pode ser percebido um pouco. Em outras palavras, quando a entidade viva exibe ligeiramente sua consciência de Kṛṣṇa, pode ser comparada ao fogo coberto pela fumaça. Embora o fogo seja necessário onde há fumaça, não há manifestação ostensiva do fogo na fase inicial. Esta fase é como o início da consciência de Kṛṣṇa. A poeira no espelho refere-se a um processo de limpeza do espelho da mente por tantos métodos espirituais. O melhor processo é cantar os santos nomes do Senhor. O embrião coberto pelo ventre é uma analogia que ilustra uma posição desamparada, pois a criança no ventre está tão desamparada que não pode sequer mover-se. Esta fase de condição vital pode ser comparada à das árvores. As árvores também são entidades vivas, mas foram postas em tal condição de vida por uma exibição tão grande de luxúria que estão quase desprovidas de toda consciência. O espelho coberto é comparado às aves e aos animais, e o fogo coberto pela fumaça é comparado ao ser humano. Na forma de ser humano, a entidade viva pode reviver um pouco a consciência de Kṛṣṇa e, se faz desenvolvimento adicional, o fogo da vida espiritual pode ser aceso na forma humana de vida. Pelo manuseio cuidadoso da fumaça no fogo, pode-se fazer com que o fogo arda. Por conseguinte, a forma humana de vida é uma chance para a entidade viva escapar do enredamento da existência material. Na forma humana de vida, pode-se conquistar o inimigo, a luxúria, pelo cultivo da consciência de Kṛṣṇa sob orientação capaz."}
{"ref": "bg/3/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/39/", "verse_text": "āvṛtaṁ jñānam etena\n\njñānino nitya-vairiṇā\n\nkāma-rūpeṇa kaunteya\n\nduṣpūreṇānalena ca", "devanagari": "> आवृतं ज्ञानमेतेन ज्ञानिनो नित्यवैरिणा ।\n> कामरूपेण कौन्तेय दुष्पूरेणानलेन च ॥३९॥", "synonyms": "*āvṛtam*—coberta; *jñānam*—pura consciência; *etena*—por isto; *jñāninaḥ*—do conhecedor; *nitya-vairiṇā*—inimigo eterno; *kāma-rūpeṇa*—na forma de luxúria; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *duṣpūreṇa*—jamais a ser satisfeita; *analena*—pelo fogo; *ca*—também.", "translation": "**Assim, a pura consciência do homem é coberta por seu eterno inimigo na forma da luxúria, que jamais se satisfaz e que arde como o fogo.**", "purport": "Diz-se no Manu-smṛti que a luxúria não pode ser satisfeita por qualquer quantidade de gozo dos sentidos, assim como o fogo nunca se extingue por um suprimento constante de combustível. No mundo material, o centro de todas as atividades é o sexo, e, por isso, este mundo material é chamado maithuṇya-āgāra, ou os grilhões da vida sexual. Na prisão comum, os criminosos são mantidos atrás das grades; igualmente, os criminosos que são desobedientes às leis do Senhor estão acorrentados pela vida sexual. O avanço da civilização material com base na gratificação dos sentidos significa aumentar a duração da existência material de uma entidade viva. Por conseguinte, esta luxúria é o símbolo da ignorância pela qual a entidade viva é mantida dentro do mundo material. Enquanto se desfruta da gratificação dos sentidos, pode ser que haja alguma sensação de felicidade, mas, na verdade, essa suposta sensação de felicidade é a inimiga última do gozador dos sentidos."}
{"ref": "bg/3/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/40/", "verse_text": "indriyāṇi mano buddhir\n\nasyādhiṣṭhānam ucyate\n\netair vimohayaty eṣa\n\njñānam āvṛtya dehinam", "devanagari": "> इन्द्रियाणि मनो बुद्धिरस्याधिष्ठानमुच्यते ।\n> एतैर्विमोहयत्येष ज्ञानमावृत्य देहिनम् ॥४०॥", "synonyms": "*indriyāṇi*—os sentidos; *manaḥ*—a mente; *buddhiḥ*—a inteligência; *asya*—da luxúria; *adhiṣṭhānam*—assento; *ucyate*—chamado; *etaiḥ*—por todos esses; *vimohayati*—confunde; *eṣaḥ*—desta; *jñānam*—conhecimento; *āvṛtya*—cobrindo; *dehinam*—o corporificado.", "translation": "**Os sentidos, a mente e a inteligência são os assentos desta luxúria, que vela o verdadeiro conhecimento da entidade viva e a confunde.**", "purport": "O inimigo capturou diferentes posições estratégicas no corpo da alma condicionada, e, por isso, o Senhor Kṛṣṇa dá indicações desses lugares, para que aquele que quer conquistar o inimigo saiba onde poderá encontrá-lo. A mente é o centro de todas as atividades dos sentidos e, assim, a mente é o reservatório de todas as ideias de gratificação dos sentidos; e, em consequência, a mente e os sentidos tornam-se os depositários da luxúria. Em seguida, o departamento da inteligência torna-se a capital de tais propensões luxuriosas. A inteligência é o vizinho imediato da alma espiritual. A inteligência luxuriosa influencia a alma espiritual a adquirir o ego falso e a identificar-se com a matéria, e, assim, com a mente e os sentidos. A alma espiritual torna-se viciada em desfrutar dos sentidos materiais e confunde isso com a verdadeira felicidade. Esta falsa identificação da alma espiritual é muito bem explicada no *Śrīmad-Bhāgavatam*:\n\n\n\nyasyātma-buddhiḥ kuṇāpe tri-dhātuke\n\nsva-dhīḥ kalatrādiṣu bhauma idyadhīḥ\n\nyat-tīrtha-buddhiḥ salite na karhicij\n\njaneṣv abhijñeṣu sa eva gokharaḥ.\n\n\n\n\"Um ser humano que identifica este corpo feito de três elementos com seu eu, que considera os subprodutos do corpo como seus parentes, que considera a terra de nascimento como digna de adoração e que vai ao lugar de peregrinação simplesmente para tomar banho, em vez de ali encontrar homens de conhecimento transcendental, deve ser considerado um asno ou uma vaca.\""}
{"ref": "bg/3/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/41/", "verse_text": "tasmāt tvam indriyāṇy ādau\n\nniyamya bharatarṣabha\n\npāpmānaṁ prajahi hy enaṁ\n\njñāna-vijñāna-nāśanam", "devanagari": "> तस्मात्त्वमिन्द्रियाण्यादौ नियम्य भरतर्षभ ।\n> पाप्मानं प्रजहि ह्येनं ज्ञानविज्ञाननाशनम् ॥४१॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *tvam*—tu; *indriyāṇi*—sentidos; *ādau*—no princípio; *niyamya*—regulando; *bharatarṣabha*—ó chefe entre os descendentes de Bharata; *pāpmānam*—o grande símbolo do pecado; *prajahi*—refreia; *hi*—certamente; *enam*—este; *jñāna*—conhecimento; *vijñāna*—conhecimento científico da alma pura; *nāśanam*—destruidor.", "translation": "**Portanto, ó Arjuna, melhor dos Bhāratas, logo no início, refreia este grande símbolo do pecado [a luxúria] regulando os sentidos, e mata este destruidor do conhecimento e da autorrealização.**", "purport": "O Senhor aconselhou Arjuna a regular os sentidos desde o início, para que pudesse refrear o maior inimigo pecaminoso, a luxúria, que destrói o anseio pela autorrealização e, especificamente, o conhecimento do eu. Jñānam refere-se ao conhecimento do eu, distinto do não-eu, ou, em outras palavras, o conhecimento de que a alma espiritual não é o corpo. Vijñānam refere-se ao conhecimento específico da alma espiritual e ao conhecimento da posição constitucional da pessoa e de sua relação com a Alma Suprema. Isso é explicado assim no *Śrīmad-Bhāgavatam*: jñānaṁ parama-guhyaṁ me yad-vijñāna-samanvitam / sarahasyaṁ tad-aṅgaṁ ca gṛhāna gaditaṁ mayā: \"O conhecimento do eu e do Eu Supremo é muito confidencial e misterioso, sendo velado por *māyā*, mas tal conhecimento e a percepção específica podem ser compreendidos se forem explicados pelo próprio Senhor.\" O *Bhagavad-gītā* nos dá esse conhecimento, especificamente o conhecimento do eu. As entidades vivas são partes integrantes do Senhor e, portanto, simplesmente se destinam a servir ao Senhor. Esta consciência é chamada consciência de Kṛṣṇa. Assim, desde o início da vida, é preciso aprender esta consciência de Kṛṣṇa, e, dessa forma, pode-se tornar plenamente consciente de Kṛṣṇa e agir de acordo.\n\n\n\nA luxúria é apenas o reflexo pervertido do amor a Deus, que é natural a toda entidade viva. Mas, se alguém é educado em consciência de Kṛṣṇa desde o início, esse amor natural a Deus não pode deteriorar-se em luxúria. Quando o amor a Deus se deteriora em luxúria, é muito difícil retornar à condição normal. Não obstante, a consciência de Kṛṣṇa é tão poderosa que mesmo quem começa tarde pode tornar-se um amante de Deus seguindo os princípios reguladores do serviço devocional. Assim, em qualquer estágio da vida, ou a partir do momento em que se compreende sua urgência, pode-se começar a regular os sentidos em consciência de Kṛṣṇa, no serviço devocional ao Senhor, e converter a luxúria em amor a Deus — o mais elevado estágio perfeccional da vida humana."}
{"ref": "bg/3/42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/42/", "verse_text": "indriyāṇi parāṇy āhur\n\nindriyebhyaḥ paraṁ manaḥ\n\nmanasas tu parā buddhir\n\nyo buddheḥ paratas tu saḥ", "devanagari": "> इन्द्रियाणि पराण्याहुरिन्द्रियेभ्यः परं मनः ।\n> मनसस्तु परा बुद्धिर्यो बुद्धेः परतस्तु सः ॥४२॥", "synonyms": "*indriyāṇī*—sentidos; *parāṇi*—superiores; *āhuḥ*—diz-se; *indriyebhyaḥ*—mais do que os sentidos; *param*—superior; *manaḥ*—a mente; *manasaḥ*—mais do que a mente; *tu*—também; *parā*—superior; *buddhiḥ*—inteligência; *yaḥ*—aquela que; *buddheḥ*—mais do que a inteligência; *parataḥ*—superior; *tu*—mas; *saḥ*—ele.", "translation": "**Os sentidos ativos são superiores à matéria embotada; a mente é mais elevada do que os sentidos; a inteligência é ainda mais elevada do que a mente; e ela [a alma] é ainda mais elevada do que a inteligência.**", "purport": "Os sentidos são diferentes saídas para as atividades da luxúria. A luxúria está reservada dentro do corpo, mas é dado vazão a ela pelos sentidos. Por conseguinte, os sentidos são superiores ao corpo como um todo. Estas saídas não estão em uso quando há consciência superior, ou consciência de Kṛṣṇa. Em consciência de Kṛṣṇa, a alma faz conexão direta com a Suprema Personalidade de Deus; logo, as funções corporais, conforme aqui descritas, terminam, em última análise, na Alma Suprema. Ação corporal significa as funções dos sentidos, e parar os sentidos significa parar todas as ações corporais. Mas, como a mente está ativa, então, ainda que o corpo possa estar silencioso e em repouso, a mente agirá — como o faz durante o sonho. Mas, acima da mente, há a determinação da inteligência, e, acima da inteligência, está a alma propriamente dita. Se, portanto, a alma estiver diretamente ocupada com o Supremo, naturalmente todos os outros subordinados, a saber, a inteligência, a mente e os sentidos, ocupar-se-ão automaticamente. No Kaṭha Upaniṣad, há uma passagem na qual se afirma que os objetos da gratificação dos sentidos são superiores aos sentidos, e a mente é superior aos objetos dos sentidos. Se, portanto, a mente está diretamente ocupada no serviço ao Senhor, constantemente, então não há possibilidade de os sentidos se ocuparem de outras maneiras. Esta atitude mental já foi explicada. Se a mente está ocupada no serviço transcendental ao Senhor, não há possibilidade de ela se ocupar nas propensões inferiores. No Kaṭha Upaniṣad, a alma foi descrita como mahān, o grande. Por conseguinte, a alma está acima de tudo — a saber, dos objetos dos sentidos, dos sentidos, da mente e da inteligência. Por isso, compreender diretamente a posição constitucional da alma é a solução de todo o problema.\n\n\n\nCom a inteligência, é preciso buscar a posição constitucional da alma e, então, ocupar a mente sempre em consciência de Kṛṣṇa. Isso resolve todo o problema. A um espiritualista neófito, geralmente se aconselha manter-se afastado dos objetos dos sentidos. É preciso fortalecer a mente pelo uso da inteligência. Se, pela inteligência, a pessoa ocupa sua mente em consciência de Kṛṣṇa, pela rendição completa à Suprema Personalidade de Deus, então, automaticamente, a mente torna-se mais forte, e, ainda que os sentidos sejam muito fortes, como serpentes, não serão mais eficazes do que serpentes com presas quebradas. Mas, embora a alma seja a senhora da inteligência e da mente, e também dos sentidos, ainda assim, a menos que seja fortalecida pela associação com Kṛṣṇa em consciência de Kṛṣṇa, há toda possibilidade de cair, devido à mente agitada."}
{"ref": "bg/3/43", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/3/43/", "verse_text": "evaṁ buddheḥ paraṁ buddhvā\n\nsaṁstabhyātmānam ātmanā\n\njahi śatruṁ mahā-bāho\n\nkāma-rūpaṁ durāsadam", "devanagari": "> एवं बुद्धेः परं बुद्ध्वा संस्तभ्यात्मानमात्मना ।\n> जहि शत्रुं महाबाहो कामरूपं दुरासदम् ॥४३॥", "synonyms": "*evam*—assim; *buddheḥ*—da inteligência; *param*—superior; *buddhvā*—assim sabendo; *saṁstabhya*—firmando; *ātmānam*—a mente; *ātmanā*—pela inteligência deliberada; *jahi*—conquista; *śatrum*—o inimigo; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *kāma-rūpam*—a forma da luxúria; *durāsadam*—formidável.", "translation": "**Assim, sabendo-se transcendental aos sentidos, à mente e à inteligência materiais, deve-se controlar o eu inferior pelo eu superior e, dessa forma — pela força espiritual — conquistar este inimigo insaciável conhecido como luxúria.**", "purport": "Este Terceiro Capítulo do *Bhagavad-gītā* é conclusivamente diretivo à consciência de Kṛṣṇa, sabendo-se que se é o servo eterno da Suprema Personalidade de Deus, sem considerar o vazio impessoal como o fim último. Na existência material da vida, a pessoa é certamente influenciada pelas propensões para a luxúria e pelo desejo de dominar os recursos da natureza material. O desejo de assenhorear-se e a gratificação dos sentidos são os maiores inimigos da alma condicionada; mas, pela força da consciência de Kṛṣṇa, pode-se controlar os sentidos materiais, a mente e a inteligência. Não se devem abandonar de uma só vez o trabalho e os deveres prescritos; mas, ao desenvolver gradualmente a consciência de Kṛṣṇa, pode-se situar-se em uma posição transcendental, sem ser influenciado pelos sentidos materiais e pela mente — por inteligência firme dirigida à pura identidade da pessoa. Esta é a soma total deste capítulo. No estágio imaturo da existência material, as especulações filosóficas e as tentativas artificiais de controlar os sentidos pela suposta prática das posturas ióguicas jamais podem ajudar um homem rumo à vida espiritual. Ele deve ser treinado em consciência de Kṛṣṇa pela inteligência superior.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Terceiro Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* no que se refere ao Karma-yoga, ou ao Cumprimento do Próprio Dever Prescrito em Consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/4/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nimaṁ vivasvate yogaṁ\n\nproktavān aham avyayam\n\nvivasvān manave prāha\n\nmanur ikṣvākave 'bravīt", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> इमं विवस्वते योगं प्रोक्तवानहमव्ययम् ।\n> विवस्वान्मनवे प्राह मनुरिक्ष्वाकवेऽब्रवीत् ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *imam*—esta; *vivasvate*—ao deus do sol; *yogam*—a ciência da relação da pessoa com o Supremo; *proktavān*—instruí; *aham*—Eu; *avyayam*—imperecível; *vivasvān*—Vivasvān (nome do deus do sol); *manave*—ao pai da humanidade (chamado Vaivasvata); *prāha*—disse; *manuḥ*—o pai da humanidade; *ikṣvākave*—ao rei Ikṣvāku; *abravīt*—disse.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Instruí esta imperecível ciência do *yoga* ao deus do sol, Vivasvān, Vivasvān a instruiu a Manu, o pai da humanidade, e Manu, por sua vez, instruiu-a a Ikṣvāku.**", "purport": "Aqui encontramos a história do *Bhagavad-gītā* desde uma época remota em que ele foi entregue à ordem real, aos reis de todos os planetas. Esta ciência destina-se especialmente à proteção dos habitantes, e, por isso, a ordem real deve compreendê-la para poder governar os cidadãos e protegê-los do cativeiro material da luxúria. A vida humana destina-se ao cultivo do conhecimento espiritual, em relação eterna com a Suprema Personalidade de Deus, e os chefes executivos de todos os Estados e de todos os planetas têm a obrigação de transmitir essa lição aos cidadãos por meio da educação, da cultura e da devoção. Em outras palavras, os chefes executivos de todos os Estados destinam-se a difundir a ciência da consciência de Kṛṣṇa, a fim de que o povo possa beneficiar-se desta grande ciência e seguir uma senda exitosa, aproveitando a oportunidade da forma humana de vida.\n\n\n\nNeste milênio, o deus do sol é conhecido como Vivasvān, o rei do sol, que é a origem de todos os planetas dentro do sistema solar. No Brahma-saṁhitā, afirma-se:\n\n\n\nyac-cakṣur eṣa savitā sakala-grahāṇāṁ\n\nrājā samasta-sura-mūrttir aśeṣa-tejāḥ\n\nyasyājñayā bhramati sambhṛta-kālacakro\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n\"Que eu adore\", disse o Senhor Brahmā, \"a Suprema Personalidade de Deus, Govinda [Kṛṣṇa], que é a pessoa original e sob cuja ordem o sol, que é o rei de todos os planetas, assume imensa potência e calor. O sol representa o olho do Senhor e percorre sua órbita em obediência à Sua ordem.\"\n\n\n\nO sol é o rei dos planetas, e o deus do sol (atualmente de nome Vivasvān) governa o planeta solar, que controla todos os demais planetas, suprindo-lhes calor e luz. Ele gira sob a ordem de Kṛṣṇa, e o Senhor Kṛṣṇa originalmente fez de Vivasvān Seu primeiro discípulo, para que compreendesse a ciência do *Bhagavad-gītā*. O *Gītā* não é, portanto, um tratado especulativo para o erudito mundano insignificante, mas um livro padrão de conhecimento que descende desde tempos imemoriais. No *Mahābhārata* (Śānti-parva 348.51-52), podemos rastrear a história do *Gītā* da seguinte maneira:\n\n\n\ntretā-yugādau ca tato vivasvān manave dadau\n\nmanuś ca loka-bhṛty-arthaṁ sutāyekṣvākave dadau\n\nikṣvākuṇā ca kathito vyāpya lokān avasthitāḥ\n\n\n\n\"No início do Tretā-yuga [milênio], Vivasvān entregou esta ciência da relação com o Supremo a Manu. Manu, por ser o pai da humanidade, deu-a a seu filho Mahārāja Ikṣvāku, o rei deste planeta Terra e antepassado da dinastia Raghu, na qual o Senhor Rāmacandra apareceu. Por conseguinte, o *Bhagavad-gītā* existiu na sociedade humana desde a época de Mahārāja Ikṣvāku.\"\n\n\n\nNo momento atual, acabamos de transcorrer cinco mil anos do Kali-yuga, que dura 432.000 anos. Antes deste, houve o Dvāpara-yuga (800.000 anos), e antes deste, houve o Tretā-yuga (1.200.000 anos). Assim, há cerca de 2.005.000 anos, Manu falou o *Bhagavad-gītā* a seu discípulo e filho Mahārāja Ikṣvāku, o rei deste planeta Terra. Calcula-se que a era do Manu atual durará uns 305.300.000 anos, dos quais já se passaram 120.400.000. Aceitando-se que, antes do nascimento de Manu, o *Gītā* foi falado pelo Senhor a Seu discípulo, o deus do sol Vivasvān, uma estimativa aproximada é a de que o *Gītā* foi falado há pelo menos 120.400.000 anos; e na sociedade humana ele subsiste há dois milhões de anos. Foi falado novamente pelo Senhor a Arjuna há cerca de cinco mil anos. Essa é a estimativa aproximada da história do *Gītā*, segundo o próprio *Gītā* e segundo a versão do orador, o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Ele foi falado ao deus do sol Vivasvān porque este também é um *kṣatriya* e é o pai de todos os *kṣatriyas* descendentes do deus do sol, ou seja, dos *sūrya-vaṁśa kṣatriyas*. Visto que o *Bhagavad-gītā* é tão valioso quanto os *Vedas*, por ser falado pela Suprema Personalidade de Deus, este conhecimento é *apauruṣeya*, sobre-humano. Como as instruções Védicas são aceitas tal como são, sem interpretação humana, o *Gītā* deve, por conseguinte, ser aceito sem interpretação mundana. Os disputantes mundanos podem especular sobre o *Gītā* a seu próprio modo, mas isso não é o *Bhagavad-gītā* tal como ele é. Por isso, o *Bhagavad-gītā* tem de ser aceito tal como é, a partir da sucessão discipular, e descreve-se aqui que o Senhor falou ao deus do sol, o deus do sol falou a seu filho Manu, e Manu falou a seu filho Ikṣvāku."}
{"ref": "bg/4/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/2/", "verse_text": "evaṁ paramparā-prāptam\n\nimaṁ rājarṣayo viduḥ\n\nsa kāleneha mahatā\n\nyogo naṣṭaḥ parantapa", "devanagari": "> एवं परम्पराप्राप्तमिमं राजर्षयो विदुः ।\n> स कालेनेह महता योगो नष्टः परन्तप ॥२॥", "synonyms": "*evam*—assim; *paramparā*—sucessão discipular; *prāptam*—recebida; *imam*—esta ciência; *rājarṣayaḥ*—os reis santos; *viduḥ*—compreenderam; *saḥ*—esse conhecimento; *kālena*—no curso do tempo; *iha*—neste mundo; *mahatā*—pelo grande; *yogaḥ*—a ciência da relação da pessoa com o Supremo; *naṣṭaḥ*—dispersa; *parantapa*—ó Arjuna, subjugador dos inimigos.", "translation": "**Esta ciência suprema foi assim recebida por meio da cadeia de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na desse modo. Mas, no curso do tempo, a sucessão se interrompeu, e, por isso, a ciência tal como é parece estar perdida.**", "purport": "Afirma-se claramente que o *Gītā* destinava-se especialmente aos reis santos, porque cabia a eles executar seu propósito ao governar os cidadãos. Certamente o *Bhagavad-gītā* nunca se destinou às pessoas demoníacas, que dissipariam seu valor sem benefício para ninguém e elaborariam toda sorte de interpretações segundo seus caprichos pessoais. Tão logo o propósito original foi dispersado pelos motivos dos comentaristas inescrupulosos, surgiu a necessidade de restabelecer a sucessão discipular. Há cinco mil anos, o próprio Senhor detectou que a sucessão discipular se interrompera, e, por isso, declarou que o propósito do *Gītā* parecia perdido. Da mesma forma, no momento atual também há tantas edições do *Gītā* (especialmente em inglês), mas quase todas elas não estão de acordo com a sucessão discipular autorizada. Há inúmeras interpretações elaboradas por diferentes eruditos mundanos, mas quase nenhuma delas aceita a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, embora façam um bom negócio com as palavras de Śrī Kṛṣṇa. Esse espírito é demoníaco, pois os demônios não creem em Deus, mas simplesmente desfrutam da propriedade do Supremo. Como há grande necessidade de uma edição do *Gītā* em inglês, tal como ela é recebida pelo sistema da *paramparā* (sucessão discipular), faz-se aqui uma tentativa de suprir essa grande carência. O *Bhagavad-gītā* — aceito tal como é — é uma grande dádiva para a humanidade; mas, se for aceito como um tratado de especulações filosóficas, é simplesmente perda de tempo."}
{"ref": "bg/4/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/3/", "verse_text": "sa evāyaṁ mayā te 'dya\n\nyogaḥ proktaḥ purātanaḥ\n\nbhakto 'si me sakhā ceti\n\nrahasyaṁ hy etad uttamam", "devanagari": "> स एवायं मया तेऽद्य योगः प्रोक्तः पुरातनः ।\n> भक्तोऽसि मे सखा चेति रहस्यं ह्येतदुत्तमम् ॥३॥", "synonyms": "*saḥ*—a mesma antiga; *eva*—certamente; *ayam*—esta; *mayā*—por Mim; *te*—a você; *adya*—hoje; *yogaḥ*—a ciência do *yoga*; *proktaḥ*—falada; *purātanaḥ*—muito antiga; *bhaktaḥ*—devoto; *asi*—você é; *me*—Meu; *sakhā*—amigo; *ca*—também; *iti*—portanto; *rahasyam*—mistério; *hi*—certamente; *etat*—este; *uttamam*—transcendental.", "translation": "**Essa antiquíssima ciência da relação com o Supremo é hoje falada por Mim a você, porque você é Meu devoto e Meu amigo; por isso, você pode compreender o mistério transcendental desta ciência.**", "purport": "Há duas classes de homens, a saber, o devoto e o demônio. O Senhor escolheu Arjuna como receptor desta grande ciência por ele ter-se tornado devoto do Senhor, mas, para o demônio, não é possível compreender esta grande ciência misteriosa. Há diversas edições deste grande livro de conhecimento, e algumas têm comentários dos devotos, e outras têm comentários dos demônios. Os comentários dos devotos são reais, ao passo que os dos demônios são inúteis. Arjuna aceita Śrī Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, e qualquer comentário sobre o *Gītā* que siga os passos de Arjuna é um verdadeiro serviço devocional à causa desta grande ciência. Os demoníacos, contudo, inventam algo a respeito de Kṛṣṇa e desviam o público e os leitores em geral da senda das instruções de Kṛṣṇa. A pessoa deve procurar seguir a sucessão discipular a partir de Arjuna, e assim beneficiar-se."}
{"ref": "bg/4/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/4/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\naparaṁ bhavato janma\n\nparaṁ janma vivasvataḥ\n\nkatham etad vijānīyāṁ\n\ntvam ādau proktavān iti", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> अपरं भवतो जन्म परं जन्म विवस्वतः ।\n> कथमेतद्विजानीयां त्वमादौ प्रोक्तवानिति ॥४॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *aparam*—posterior; *bhavataḥ*—Seu; *janma*—nascimento; *param*—anterior; *janma*—nascimento; *vivasvataḥ*—do deus do sol; *katham*—como; *etat*—isto; *vijānīyām*—compreenderei; *tvam*—Você; *ādau*—no princípio; *proktavān*—instruiu; *iti*—assim.", "translation": "**Arjuna disse: O deus do sol Vivasvān é mais antigo de nascimento do que Você. Como hei de compreender que, no princípio, foi a ele que Você instruiu esta ciência?**", "purport": "Arjuna é um reconhecido devoto do Senhor; portanto, como poderia não acreditar nas palavras de Kṛṣṇa? O fato é que Arjuna não indaga por si mesmo, mas em favor daqueles que não creem na Suprema Personalidade de Deus ou em favor dos demônios que não gostam da ideia de Kṛṣṇa ser aceito como a Suprema Personalidade de Deus; é apenas por eles que Arjuna indaga sobre este ponto, como se ele próprio não soubesse a respeito da Personalidade de Deus, ou Kṛṣṇa. Como ficará evidente no Décimo Capítulo, Arjuna sabia perfeitamente bem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, a fonte de tudo e a última palavra em Transcendência. É claro que Kṛṣṇa também apareceu como o filho de Devakī nesta Terra. Como Kṛṣṇa permaneceu a mesma Suprema Personalidade de Deus, a pessoa eterna e original, é muito difícil para um homem comum compreender. Por isso, para esclarecer este ponto, Arjuna apresentou esta pergunta diante de Kṛṣṇa, a fim de que Ele próprio pudesse falar autoritativamente. Que Kṛṣṇa é a autoridade suprema é aceito pelo mundo inteiro, não somente no presente, mas desde tempos imemoriais, e somente os demônios O rejeitam. De qualquer modo, visto que Kṛṣṇa é a autoridade aceita por todos, Arjuna apresentou-Lhe esta pergunta para que Kṛṣṇa Se descrevesse, sem ser retratado pelos demônios que sempre tentam distorcê-Lo de uma maneira compreensível para eles e para seus seguidores. É necessário que todos, em seu próprio interesse, conheçam a ciência de Kṛṣṇa. Por isso, quando o próprio Kṛṣṇa fala de Si mesmo, isso é auspicioso para todos os mundos. Para os demônios, tais explicações dadas pelo próprio Kṛṣṇa podem parecer estranhas, pois os demônios sempre estudam Kṛṣṇa segundo seu próprio ponto de vista, mas aqueles que são devotos acolhem cordialmente as afirmações de Kṛṣṇa quando proferidas pelo próprio Kṛṣṇa. Os devotos sempre adorarão tais afirmações autoritativas de Kṛṣṇa, porque estão sempre ávidos por saber cada vez mais a respeito Dele. Os ateus, que consideram Kṛṣṇa um homem comum, podem dessa maneira ficar sabendo que Kṛṣṇa é sobre-humano, que Ele é *sac-cid-ānanda-vigraha* — a forma eterna de bem-aventurança e conhecimento —, que Ele é transcendental, e que Ele está acima do domínio dos modos da natureza material e acima da influência do tempo e do espaço. Um devoto de Kṛṣṇa, como Arjuna, está, sem dúvida, acima de qualquer mal-entendido a respeito da posição transcendental de Kṛṣṇa. O fato de Arjuna apresentar esta pergunta ao Senhor é simplesmente uma tentativa do devoto de desafiar a atitude ateísta das pessoas que consideram Kṛṣṇa um ser humano comum, sujeito aos modos da natureza material."}
{"ref": "bg/4/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/5/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nbahūni me vyatītāni\n\njanmāni tava cārjuna\n\ntāny ahaṁ veda sarvāṇi\n\nna tvaṁ vettha parantapa", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> बहूनि मे व्यतीतानि जन्मानि तव चार्जुन ।\n> तान्यहं वेद सर्वाणि न त्वं वेत्थ परन्तप ॥५॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Personalidade de Deus disse; *bahūni*—muitos; *me*—Meus; *vyatītāni*—transcorreram; *janmāni*—nascimentos; *tava*—dos seus; *ca*—e também; *arjuna*—ó Arjuna; *tāni*—todos esses; *aham*—Eu; *veda*—conheço; *sarvāṇi*—todos; *na*—não; *tvam*—você mesmo; *vettha*—conhece; *parantapa*—ó subjugador do inimigo.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Muitos e muitos nascimentos transcorreram, tanto para você quanto para Mim. Eu posso lembrar-Me de todos eles, mas você não pode, ó subjugador do inimigo!**", "purport": "No Brahma-saṁhitā, temos informação de muitas e muitas encarnações do Senhor. Ali se afirma:\n\n\n\nadvaitam acyutam anādim ananta-rūpam\n\nādyaṁ purāṇa-puruṣaṁ nava-yauvanaṁ ca\n\nvedeṣu durllabham adurllabham ātma-bhaktau\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi.\n\n\n\n(Bs. 5.33)\n\n\n\n\"Eu adoro a Suprema Personalidade de Deus, Govinda [Kṛṣṇa], que é a pessoa original — absoluto, infalível, sem começo, embora expandido em formas ilimitadas, ainda o mesmo original, o mais antigo, e a pessoa que sempre se apresenta como um jovem viçoso. Tais formas eternas, bem-aventuradas e oniscientes do Senhor são geralmente compreendidas pelos melhores eruditos Védicos, mas estão sempre manifestas para os devotos puros e imaculados.\" Também se afirma no Brahma-saṁhitā:\n\n\n\nrāmādi mūrttiṣu kalā-niyamena tiṣṭhan\n\nnānāvatāram akarod bhuvaneṣu kintu\n\nkṛṣṇaḥ svayaṁ samabhavat paramaḥ pumān yo\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n(Bs. 5.39)\n\n\n\n\"Eu adoro a Suprema Personalidade de Deus, Govinda [Kṛṣṇa], que sempre Se situa em várias encarnações, tais como Rāma, Nṛsiṁha e muitas subencarnações, mas que é a Personalidade de Deus original conhecida como Kṛṣṇa, e que também encarna pessoalmente.\"\n\n\n\nNos *Vedas* também se diz que o Senhor, embora seja um sem segundo, manifesta-Se, no entanto, em incontáveis formas. Ele é como a pedra *vaidūrya*, que muda de cor mas permanece a mesma. Todas essas múltiplas formas são compreendidas pelos devotos puros e imaculados, mas não por meio de um simples estudo dos *Vedas*: *vedeṣu durllabham adurllabham ātma-bhaktau*. Devotos como Arjuna são companheiros constantes do Senhor, e sempre que o Senhor encarna, os devotos associados também encarnam para servir o Senhor em diferentes capacidades. Arjuna é um desses devotos, e neste verso entende-se que, há alguns milhões de anos, quando o Senhor Kṛṣṇa falou o *Bhagavad-gītā* ao deus do sol Vivasvān, Arjuna, em uma capacidade diferente, também estava presente. Mas a diferença entre o Senhor e Arjuna é que o Senhor lembrou-Se do incidente, ao passo que Arjuna não pôde recordar-se. Essa é a diferença entre a entidade viva, parte integrante, e o Senhor Supremo. Embora aqui Arjuna seja tratado como o poderoso herói que podia subjugar os inimigos, ele é incapaz de recordar o que sucedeu em seus vários nascimentos passados. Por isso, uma entidade viva, por maior que seja segundo a estimativa material, jamais poderá igualar-se ao Senhor Supremo. Quem quer que seja um companheiro constante do Senhor é, sem dúvida, uma pessoa liberada, mas não pode ser igual ao Senhor. O Senhor é descrito no Brahma-saṁhitā como infalível (*acyuta*), o que significa que Ele jamais Se esquece de Si mesmo, mesmo quando está em contato com a matéria. Por conseguinte, o Senhor e a entidade viva nunca podem ser iguais em todos os aspectos, ainda que a entidade viva seja tão liberada quanto Arjuna. Embora Arjuna seja um devoto do Senhor, às vezes ele esquece a natureza do Senhor, mas pela graça divina o devoto pode imediatamente compreender a condição infalível do Senhor, ao passo que um não-devoto ou um demônio não pode compreender essa natureza transcendental. Em consequência, estas descrições do *Gītā* não podem ser compreendidas por cérebros demoníacos. Kṛṣṇa lembrou-Se de atos por Ele realizados milhões de anos antes, mas Arjuna não pôde, apesar do fato de que tanto Kṛṣṇa quanto Arjuna são eternos por natureza. Podemos também notar aqui que uma entidade viva esquece tudo devido à mudança de corpo, mas o Senhor recorda-Se porque Ele não muda Seu corpo *sac-cid-ānanda*. Ele é *advaita*, o que significa que não há distinção entre Seu corpo e Ele próprio. Tudo em relação a Ele é espírito — ao passo que a alma condicionada é diferente de seu corpo material. E, como o corpo e o ser do Senhor são idênticos, Sua posição é sempre diferente da entidade viva comum, mesmo quando Ele desce ao plano material. Os demônios não podem ajustar-se a essa natureza transcendental do Senhor, como o Senhor explica no verso seguinte."}
{"ref": "bg/4/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/6/", "verse_text": "ajo 'pi sann avyayātmā\n\nbhūtānām īśvaro 'pi san\n\nprakṛtiṁ svām adhiṣṭhāya\n\nsambhavāmy ātma-māyayā", "devanagari": "> अजोऽपि सन्नव्ययात्मा भूतानामीश्वरोऽपि सन् ।\n> प्रकृतिं स्वामधिष्ठाय सम्भवाम्यात्ममायया ॥६॥", "synonyms": "*ajaḥ*—não nascido; *api*—embora; *san*—sendo assim; *avyaya*—sem deterioração; *ātmā*—corpo; *bhūtānām*—de todos os que nascem; *īśvaraḥ*—o Senhor Supremo; *api*—embora; *san*—sendo assim; *prakṛtim*—forma transcendental; *svām*—de Mim mesmo; *adhiṣṭhāya*—estando assim situado; *sambhavāmi*—Eu encarno; *ātma-māyayā*—por Minha energia interna.", "translation": "**Embora Eu seja não nascido e Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todos os seres sencientes, ainda assim Eu apareço em cada milênio em Minha forma transcendental original.**", "purport": "O Senhor falou sobre a peculiaridade de Seu nascimento: embora possa parecer uma pessoa comum, Ele Se lembra de tudo a respeito de Seus muitos e muitos \"nascimentos\" passados, ao passo que um homem comum não pode recordar nem o que fez algumas horas antes. Se se perguntasse a alguém o que ele estava fazendo exatamente à mesma hora um dia antes, seria muito difícil para um homem comum responder de imediato. Ele certamente teria de vasculhar a memória para recordar o que estava fazendo exatamente à mesma hora no dia anterior. E, no entanto, os homens muitas vezes ousam afirmar serem Deus, ou Kṛṣṇa. Não se deve deixar enganar por tais alegações desprovidas de sentido. Em seguida, o Senhor explica Sua *prakṛti*, ou Sua forma. *Prakṛti* significa tanto natureza quanto *svarūpa*, ou seja, a forma própria de cada um. O Senhor diz que aparece em Seu próprio corpo. Ele não muda Seu corpo, como a entidade viva comum muda de um corpo para outro. A alma condicionada pode ter um tipo de corpo no nascimento atual, mas tem um corpo diferente no próximo nascimento. No mundo material, a entidade viva não tem corpo fixo, mas transmigra de um corpo para outro. O Senhor, contudo, não age assim. Sempre que aparece, fá-lo no mesmo corpo original, por Sua potência interna. Em outras palavras, Kṛṣṇa aparece neste mundo material em Sua forma eterna original, com duas mãos, segurando uma flauta. Ele aparece exatamente em Seu corpo eterno, incontaminado por este mundo material. Embora apareça no mesmo corpo transcendental e seja o Senhor do universo, ainda assim parece que Ele nasce como uma entidade viva comum. Apesar do fato de o Senhor Kṛṣṇa crescer da infância à meninice e da meninice à juventude, surpreendentemente Ele jamais envelhece além da juventude. Na época da Batalha de Kurukṣetra, Ele tinha muitos netos em casa; ou seja, em outras palavras, Ele já havia envelhecido suficientemente segundo os cálculos materiais. Ainda assim, Ele parecia um jovem de vinte ou vinte e cinco anos. Nunca vemos uma imagem de Kṛṣṇa na velhice, porque Ele nunca envelhece como nós, embora seja a pessoa mais antiga em toda a criação — passada, presente e futura. Nem Seu corpo nem Sua inteligência jamais se deterioram ou mudam. Por conseguinte, é claro que, apesar de estar no mundo material, Ele é a mesma forma não nascida e eterna de bem-aventurança e conhecimento, imutável em Seu corpo e inteligência transcendentais. Na verdade, Seu aparecimento e desaparecimento são como o nascer do sol, que se move diante de nós e depois desaparece de nossa vista. Quando o sol está fora de vista, pensamos que se pôs, e, quando o sol está diante de nossos olhos, pensamos que está no horizonte. Na verdade, o sol está sempre em sua posição fixa, mas, devido a nossos sentidos defeituosos e insuficientes, calculamos o aparecimento e o desaparecimento do sol no céu. E, como Seu aparecimento e desaparecimento são completamente diferentes dos de qualquer entidade viva comum, é evidente que Ele é conhecimento eterno e bem-aventurado por Sua potência interna — e jamais é contaminado pela natureza material. Os *Vedas* também confirmam que a Suprema Personalidade de Deus é não nascido, mas, ainda assim, parece tomar nascimento em multimanifestações. As literaturas Védicas suplementares também confirmam que, mesmo parecendo nascer, o Senhor não muda de corpo. No *Bhāgavatam*, Ele aparece diante de Sua mãe como Nārāyaṇa, com quatro mãos e os adornos das seis espécies de plenas opulências. Seu aparecimento em Sua forma eterna original é Sua misericórdia imotivada, segundo o dicionário Viśvakośa. O Senhor está consciente de todos os Seus aparecimentos e desaparecimentos anteriores, mas uma entidade viva comum esquece tudo a respeito de seu corpo passado tão logo recebe outro corpo. Ele é o Senhor de todas as entidades vivas porque executa atividades maravilhosas e sobre-humanas enquanto está nesta Terra. Por conseguinte, o Senhor é sempre a mesma Verdade Absoluta e não há diferenciação entre Sua forma e Seu ser, ou entre Sua qualidade e Seu corpo. Pode-se agora levantar a questão de por que o Senhor aparece e desaparece neste mundo. Isso é explicado no próximo verso."}
{"ref": "bg/4/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/7/", "verse_text": "yadā yadā hi dharmasya\n\nglānir bhavati bhārata\n\nabhyutthānam adharmasya\n\ntadātmānaṁ sṛjāmy aham", "devanagari": "> यदा यदा हि धर्मस्य ग्लानिर्भवति भारत ।\n> अभ्युत्थानमधर्मस्य तदात्मानं सृजाम्यहम् ॥७॥", "synonyms": "*yadā*—sempre que; *yadā*—onde quer que; *hi*—certamente; *dharmasya*—da religião; *glāniḥ*—discrepâncias; *bhavati*—manifestam-se, tornam-se; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *abhyutthānam*—predominância; *adharmasya*—da irreligião; *tadā*—nesse momento; *ātmānam*—ser; *sṛjāmi*—manifesto; *aham*—Eu.", "translation": "**Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante da irreligião — nesse momento, Eu próprio descendo.**", "purport": "A palavra *sṛjāmi* é significativa aqui. *Sṛjāmi* não pode ser empregada no sentido de criação, porque, segundo o verso anterior, não há criação da forma ou do corpo do Senhor, visto que todas as formas existem eternamente. Por isso, *sṛjāmi* significa que o Senhor manifesta-Se tal como é. Embora o Senhor apareça em datas determinadas — a saber, ao final do Dvāpara-yuga do vigésimo oitavo milênio do oitavo Manu, em um dia de Brahmā —, mesmo assim Ele não tem obrigação de aderir a tais regras e regulamentos, pois é completamente livre para agir de muitas maneiras conforme Sua vontade. Ele aparece, portanto, por Sua própria vontade, sempre que há predominância de irreligiosidade e desaparecimento da verdadeira religião. Os princípios da religião estão estabelecidos nos *Vedas*, e qualquer discrepância na execução adequada das regras dos *Vedas* torna a pessoa irreligiosa. No *Bhāgavatam*, afirma-se que tais princípios são as leis do Senhor. Somente o Senhor pode elaborar um sistema de religião. Os *Vedas* também são aceitos como originalmente falados pelo próprio Senhor a Brahmā, de dentro de seu coração. Por conseguinte, os princípios do *dharma*, ou da religião, são as ordens diretas da Suprema Personalidade de Deus (*dharmaṁ tu sākṣāt-bhagavat-praṇītam*). Esses princípios estão claramente indicados em todo o *Bhagavad-gītā*. O propósito dos *Vedas* é estabelecer tais princípios sob a ordem do Senhor Supremo, e o Senhor ordena diretamente, ao final do *Gītā*, que o mais elevado princípio da religião é render-se unicamente a Ele, e nada mais. Os princípios Védicos impelem a pessoa à completa rendição a Ele; e, sempre que tais princípios são perturbados pelos demoníacos, o Senhor aparece. Pelo *Bhāgavatam* compreendemos que o Senhor Buddha é a encarnação de Kṛṣṇa que apareceu quando o materialismo grassava e os materialistas se valiam do pretexto da autoridade dos *Vedas*. Embora haja certas regras e regulamentos restritivos a respeito do sacrifício de animais para fins específicos nos *Vedas*, pessoas de tendência demoníaca dedicaram-se ao sacrifício de animais sem referência aos princípios Védicos. O Senhor Buddha apareceu para deter este disparate e estabelecer os princípios Védicos da não-violência. Por isso, cada *avatāra*, ou encarnação do Senhor, tem uma missão particular, e todos eles são descritos nas escrituras reveladas. Ninguém deve ser aceito como *avatāra* a menos que seja referido pelas escrituras. Não é fato que o Senhor apareça apenas em solo indiano. Ele pode advir em qualquer lugar e a qualquer tempo, sempre que deseje aparecer. Em cada encarnação, Ele fala tanto sobre a religião quanto pode ser compreendido pelas pessoas particulares sob suas circunstâncias particulares. Mas a missão é a mesma — conduzir as pessoas à consciência de Deus e à obediência aos princípios da religião. Às vezes, Ele desce pessoalmente, e, às vezes, envia Seu representante genuíno na forma de Seu filho, ou servo, ou Ele próprio sob alguma forma disfarçada.\n\n\n\nOs princípios do *Bhagavad-gītā* foram falados a Arjuna e, por extensão, a outras pessoas altamente elevadas, porque ele estava muito avançado em comparação com as pessoas comuns de outras partes do mundo. Dois mais dois é igual a quatro é um princípio matemático que é verdadeiro tanto na aula de aritmética para iniciantes quanto na aula avançada. Ainda assim, há matemática superior e inferior. Em todas as encarnações do Senhor, portanto, ensinam-se os mesmos princípios, mas eles parecem ser superiores ou inferiores em circunstâncias variadas. Os princípios superiores da religião começam com a aceitação das quatro ordens e dos quatro estados da vida social, como será explicado mais adiante. Todo o propósito da missão das encarnações é despertar a consciência de Kṛṣṇa em toda parte. Tal consciência é manifesta e não-manifesta apenas sob diferentes circunstâncias."}
{"ref": "bg/4/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/8/", "verse_text": "paritrāṇāya sādhūnāṁ\n\nvināśāya ca duṣkṛtām\n\ndharma-saṁsthāpanārthāya\n\nsambhavāmi yuge yuge", "devanagari": "> परित्राणाय साधूनां विनाशाय च दुष्कृताम् ।\n> धर्मसंस्थापनार्थाय सम्भवामि युगे युगे ॥८॥", "synonyms": "*paritrāṇāya*—para a libertação; *sādhūnām*—dos devotos; *vināśāya*—para o aniquilamento; *ca*—também; *duṣkṛtām*—dos malfeitores; *dharma*—princípios da religião; *saṁsthāpana-arthāya*—para restabelecer; *sambhavāmi*—Eu apareço; *yuge*—milênio; *yuge*—após milênio.", "translation": "**A fim de libertar os piedosos e aniquilar os malfeitores, bem como restabelecer os princípios da religião, Eu próprio venho ao mundo, milênio após milênio.**", "purport": "Segundo o *Bhagavad-gītā*, um *sādhu* (homem santo) é um homem em consciência de Kṛṣṇa. Uma pessoa pode parecer irreligiosa, mas, se possui as qualificações de consciência de Kṛṣṇa plena e integralmente, deve ser entendida como um *sādhu*. E *duṣkṛtam* aplica-se àquele que não se importa com a consciência de Kṛṣṇa. Tais malfeitores, ou *duṣkṛtam*, são descritos como tolos e os mais baixos da humanidade, ainda que possam estar adornados com educação mundana; ao passo que outra pessoa, que esteja cem por cento ocupada em consciência de Kṛṣṇa, é aceita como *sādhu*, mesmo que tal pessoa não seja erudita nem bem cultivada. Quanto aos ateus, não é necessário que o Senhor Supremo apareça tal como é para destruí-los, como fez com os demônios Rāvaṇa e Kaṁsa. O Senhor tem muitos agentes que são bastante competentes para vencer demônios. Mas o Senhor desce especialmente para aplacar Seus devotos imaculados, que são sempre atormentados pelos demoníacos. O demônio atormenta o devoto, ainda que este venha a ser seu parente. Embora Prahlāda Mahārāja fosse filho de Hiraṇyakaśipu, ele foi, no entanto, perseguido por seu pai; embora Devakī, a mãe de Kṛṣṇa, fosse irmã de Kaṁsa, ela e seu marido Vasudeva foram perseguidos somente porque Kṛṣṇa nasceria deles. Assim, o Senhor Kṛṣṇa apareceu primariamente para libertar Devakī, e não tanto para matar Kaṁsa, mas ambas as coisas foram realizadas simultaneamente. Por isso, diz-se aqui que, para libertar o devoto e vencer os malfeitores demoníacos, o Senhor aparece em diferentes encarnações.\n\n\n\nNo *Caitanya-caritāmṛta* de Kṛṣṇadāsa Kavirāja, os seguintes versos resumem estes princípios da encarnação:\n\n\n\nsṛṣṭi-hetu yei mūrti prapañce avatare\n\nsei īśvara-mūrti 'avatāra' nāma dhare\n\nmāyātita paravyome savāra avasthāna\n\nviśve 'avatāri' dhare 'avatāra' nāma.\n\n\n\n\"O *avatāra*, ou encarnação de Deus, desce do reino de Deus para a manifestação material. E a forma particular da Personalidade de Deus que assim desce é chamada de encarnação, ou *avatāra*. Tais encarnações situam-se no mundo espiritual, o reino de Deus. Quando descem para a criação material, recebem o nome de *avatāra*.\"\n\n\n\nHá vários tipos de *avatāras*, tais como *puruṣāvatāras*, *guṇāvatāras*, *līlāvatāras*, *śaktyāveśa avatāras*, *manvantara-avatāras* e *yugāvatāras* — todos aparecendo em datas determinadas em todo o universo. Mas o Senhor Kṛṣṇa é o Senhor primordial, a fonte de todos os *avatāras*. O Senhor Śrī Kṛṣṇa desce com os propósitos específicos de mitigar as ansiedades dos devotos puros, que estão muito ansiosos por vê-Lo em Seus passatempos originais de Vṛndāvana. Por conseguinte, o propósito primordial do *avatāra* Kṛṣṇa é satisfazer Seus devotos imaculados.\n\n\n\nO Senhor diz que Ele encarna em cada milênio. Isso indica que Ele encarna também na era de Kali. Como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam*, a encarnação na era de Kali é o Senhor Caitanya Mahāprabhu, que difundiu a adoração a Kṛṣṇa por meio do movimento do *saṅkīrtana* (canto congregacional dos santos nomes), e difundiu a consciência de Kṛṣṇa por toda a Índia. Ele predisse que essa cultura do *saṅkīrtana* seria propagada por todo o mundo, de cidade em cidade e de aldeia em aldeia. O Senhor Caitanya, como encarnação de Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, é descrito secretamente, mas não diretamente, nas partes confidenciais das escrituras reveladas, tais como os *Upaniṣads*, o *Mahābhārata*, o *Bhāgavatam*, etc. Os devotos do Senhor Kṛṣṇa sentem-se muito atraídos pelo movimento do *saṅkīrtana* do Senhor Caitanya. Este *avatāra* do Senhor não mata os malfeitores, mas liberta-os pela misericórdia imotivada do Senhor."}
{"ref": "bg/4/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/9/", "verse_text": "janma karma ca me divyam\n\nevaṁ yo vetti tattvataḥ\n\ntyaktvā dehaṁ punar janma\n\nnaiti mām eti so 'rjuna", "devanagari": "> जन्म कर्म च मे दिव्यमेवं यो वेत्ति तत्त्वतः ।\n> त्यक्त्वा देहं पुनर्जन्म नैति मामेति सोऽर्जुन ॥९॥", "synonyms": "*janma*—nascimento; *karma*—trabalho; *ca*—também; *me*—de Mim; *divyam*—transcendental; *evam*—assim; *yaḥ*—quem quer que; *vetti*—conheça; *tattvataḥ*—na realidade; *tyaktvā*—deixando; *deham*—este corpo; *punaḥ*—novamente; *janma*—nascimento; *na*—nunca; *eti*—alcança; *mām*—a Mim; *eti*—alcança; *saḥ*—ele; *arjuna*—ó Arjuna.", "translation": "**Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades não nasce, ao deixar o corpo, novamente neste mundo material, mas alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.**", "purport": "A descida do Senhor a partir de Sua morada transcendental já foi explicada no sexto verso. Aquele que pode compreender a verdade do aparecimento da Personalidade de Deus já está liberado do cativeiro material e, por isso, retorna ao reino de Deus imediatamente após deixar este corpo material atual. Tal liberação da entidade viva do cativeiro material não é, de modo algum, fácil. Os impersonalistas e os *yogīs* alcançam a liberação somente após muita dificuldade e muitos e muitos nascimentos. Mesmo assim, a liberação que alcançam — fundir-se no *brahmajyoti* impessoal do Senhor — é apenas parcial, e há o risco de retornar novamente a este mundo material. Mas o devoto, simplesmente por compreender a natureza transcendental do corpo e das atividades do Senhor, alcança a morada do Senhor após findar este corpo, e não corre o risco de retornar novamente a este mundo material. No Brahma-saṁhitā, afirma-se que o Senhor tem muitas e muitas formas e encarnações: *advaitam acyutam anādim ananta-rūpam*. Embora haja muitas formas transcendentais do Senhor, todas são uma única e mesma Suprema Personalidade de Deus. Deve-se compreender este fato com convicção, embora seja incompreensível para os eruditos mundanos e os filósofos empíricos. Como se afirma nos *Vedas*:\n\n\n\neko devo nitya-līlānurakto bhakta-vyāpī hṛdy antarātmā.\n\n\n\n\"A única Suprema Personalidade de Deus está eternamente ocupada em muitas e muitas formas transcendentais em relacionamentos com Seus devotos imaculados.\" Esta versão Védica é confirmada neste verso do *Gītā* pessoalmente pelo Senhor. Aquele que aceita esta verdade com base na autoridade dos *Vedas* e da Suprema Personalidade de Deus, e que não desperdiça tempo em especulações filosóficas, alcança a fase mais elevada e perfeita da liberação. Simplesmente aceitando esta verdade pela fé, pode-se, sem dúvida, alcançar a liberação. A versão Védica *tattvamasi* aplica-se realmente neste caso. Quem quer que compreenda o Senhor Kṛṣṇa como o Supremo, ou que diga ao Senhor: \"Você é o mesmo Brahman Supremo, a Personalidade de Deus\", está, certamente, liberado instantaneamente, e, em consequência, sua entrada na associação transcendental do Senhor está garantida. Em outras palavras, tal devoto fiel do Senhor alcança a perfeição, e isso é confirmado pela seguinte asserção Védica:\n\n\n\ntam eva viditvātimṛtyumeti nānyaḥ panthā vidyate ayanāya.\n\n\n\nPode-se alcançar a fase perfeita de liberação do nascimento e da morte simplesmente por conhecer o Senhor, a Suprema Personalidade de Deus. Não há alternativa, pois quem quer que não compreenda o Senhor Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus está, com certeza, no modo da ignorância. Em consequência, ele não alcançará a salvação simplesmente, por assim dizer, lambendo a superfície externa do frasco de mel, ou interpretando o *Bhagavad-gītā* segundo a erudição mundana. Tais filósofos empíricos podem assumir papéis muito importantes no mundo material, mas não estão necessariamente aptos para a liberação. Tais eruditos mundanos convencidos têm de aguardar a misericórdia imotivada do devoto do Senhor. Por conseguinte, deve-se cultivar a consciência de Kṛṣṇa com fé e conhecimento, e, dessa maneira, alcançar a perfeição."}
{"ref": "bg/4/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/10/", "verse_text": "vīta-rāga-bhaya-krodhā\n\nman-mayā mām upāśritāḥ\n\nbahavo jñāna-tapasā\n\npūtā mad-bhāvam āgatāḥ", "devanagari": "> वीतरागभयक्रोधा मन्मया मामुपाश्रिताः ।\n> बहवो ज्ञानतपसा पूता मद्भावमागताः ॥१०॥", "synonyms": "*vīta*—libertos de; *rāga*—apego; *bhaya*—medo; *krodhāḥ*—ira; *mat-mayā*—plenamente em Mim; *mām*—em Mim; *upāśritāḥ*—estando plenamente situados; *bahavaḥ*—muitos; *jñāna*—conhecimento; *tapasā*—pela penitência; *pūtāḥ*—sendo purificados; *mat-bhāvam*—amor transcendental por Mim; *āgatāḥ*—alcançaram.", "translation": "**Estando libertas do apego, do medo e da ira, estando plenamente absortas em Mim e refugiando-se em Mim, muitas e muitas pessoas no passado purificaram-se pelo conhecimento a Meu respeito — e assim todas elas alcançaram amor transcendental por Mim.**", "purport": "Como se descreveu acima, é muito difícil para uma pessoa demasiadamente afetada pela matéria compreender a natureza pessoal da Suprema Verdade Absoluta. Em geral, as pessoas apegadas ao conceito corporal da vida estão tão absortas no materialismo que se torna quase impossível para elas compreender que existe um corpo transcendental imperecível, pleno de conhecimento e eternamente bem-aventurado. No conceito materialista, o corpo é perecível, pleno de ignorância e completamente miserável. Por isso, as pessoas em geral mantêm em mente essa mesma ideia corporal quando são informadas a respeito da forma pessoal do Senhor. Para tais homens materialistas, a forma da gigantesca manifestação material é suprema. Em consequência, consideram o Supremo como impessoal. E, por estarem demasiadamente absortos na matéria, a concepção de reter a personalidade após a liberação da matéria os assusta. Quando são informados de que a vida espiritual também é individual e pessoal, têm medo de tornar-se pessoas novamente, e, assim, naturalmente preferem uma espécie de fusão no vazio impessoal. Em geral, comparam as entidades vivas às bolhas do oceano, que se fundem no oceano. Essa é a mais alta perfeição da existência espiritual atingível sem personalidade individual. Esta é uma espécie de fase temerosa da vida, desprovida do conhecimento perfeito da existência espiritual. Além disso, há muitas pessoas que não conseguem compreender em absoluto a existência espiritual. Sentindo-se confusas por tantas teorias e por contradições de vários tipos de especulação filosófica, ficam enojadas ou iradas e tolamente concluem que não há causa suprema e que tudo é, em última análise, vazio. Tais pessoas estão em uma condição doentia de vida. Algumas pessoas são demasiadamente apegadas à matéria e, por isso, não dão atenção à vida espiritual; algumas delas desejam fundir-se na suprema causa espiritual, e algumas delas descreem de tudo, irritando-se contra todo tipo de especulação espiritual por desespero. Esta última classe de homens refugia-se em alguma espécie de intoxicação, e suas alucinações afetivas são, por vezes, aceitas como visão espiritual. É preciso livrar-se de todas as três fases de apego ao mundo material: a negligência da vida espiritual, o medo de uma identidade pessoal espiritual e a concepção de vazio que subjaz à frustração da vida. Para libertar-se dessas três fases do conceito material da vida, deve-se tomar refúgio completo no Senhor, guiado pelo mestre espiritual genuíno, e seguir as disciplinas e princípios reguladores da vida devocional. A última fase da vida devocional chama-se *bhāva*, ou amor transcendental a Deus.\n\n\n\nSegundo o *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*, a ciência do serviço devocional:\n\n\n\nādau śraddhā tataḥ sādhu-saṅgo 'tha bhajana-kriyā\n\ntato 'nartha-nivṛttiḥ syāt tato niṣṭhā rucis tataḥ\n\nathāsaktis tato bhāvas tataḥ premābhyudañcati\n\nsādhakānām ayaṁ premṇaḥ prādurbhāve bhavet kramaḥ.\n\n\n\n\"No princípio, a pessoa deve ter um desejo preliminar de autorrealização. Isso a levará à fase de tentar associar-se com pessoas que sejam espiritualmente elevadas. Na fase seguinte, ela é iniciada por um mestre espiritual elevado e, sob suas instruções, o devoto neófito começa o processo do serviço devocional. Pela execução do serviço devocional sob a orientação do mestre espiritual, a pessoa fica livre de todo apego material, alcança firmeza na autorrealização, e adquire um gosto por ouvir sobre a Personalidade Absoluta de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Esse gosto a leva mais adiante ao apego pela consciência de Kṛṣṇa, que amadurece em *bhāva*, ou a fase preliminar do amor transcendental a Deus. O verdadeiro amor a Deus chama-se *premā*, a mais alta fase perfectiva da vida.\" Na fase de *premā*, há ocupação constante no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Assim, pelo lento processo do serviço devocional, sob a orientação do mestre espiritual genuíno, pode-se alcançar a fase mais elevada, ficando livre de todo apego material, da temeridade ante a própria personalidade espiritual individual, e das frustrações decorrentes da filosofia do vazio. Então, a pessoa pode finalmente alcançar a morada do Senhor Supremo."}
{"ref": "bg/4/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/11/", "verse_text": "ye yathā māṁ prapadyante\n\ntāṁs tathaiva bhajāmy aham\n\nmama vartmānuvartante\n\nmanuṣyāḥ pārtha sarvaśaḥ", "devanagari": "> ये यथा मां प्रपद्यन्ते तांस्तथैव भजाम्यहम् ।\n> मम वर्त्मानुवर्तन्ते मनुष्याः पार्थ सर्वशः ॥११॥", "synonyms": "*ye*—todos eles; *yathā*—conforme; *mām*—a Mim; *prapadyante*—rendem-se; *tān*—a eles; *tathā*—assim; *eva*—certamente; *bhajāmi*—recompenso; *aham*—Eu; *mama*—Minha; *vartma*—senda; *anuvartante*—seguem; *manuṣyāḥ*—todos os homens; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *sarvaśaḥ*—em todos os aspectos.", "translation": "**A todos eles — conforme se rendem a Mim — Eu recompenso de acordo. Todos seguem Minha senda em todos os aspectos, ó filho de Pṛthā.**", "purport": "Todos buscam Kṛṣṇa nos diferentes aspectos de Suas manifestações. *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, é parcialmente percebido em Sua refulgência impessoal *brahmajyoti* e como a Superalma onipenetrante que reside em tudo, inclusive nas partículas dos átomos. Mas Kṛṣṇa só é plenamente percebido por Seus devotos puros. Em consequência, Kṛṣṇa é o objeto da percepção de todos, e, assim, qualquer pessoa fica satisfeita conforme seu desejo de tê-Lo. No mundo transcendental também, Kṛṣṇa retribui com Seus devotos puros na atitude transcendental, exatamente conforme o devoto O quer. Um devoto pode querer Kṛṣṇa como amo supremo, outro como seu amigo pessoal, outro como seu filho, e ainda outro como seu amante. Kṛṣṇa recompensa todos os devotos igualmente, segundo as diferentes intensidades de seu amor por Ele. No mundo material, encontram-se as mesmas reciprocações de sentimentos, e elas são igualmente trocadas pelo Senhor com os diferentes tipos de adoradores. Os devotos puros, tanto aqui quanto na morada transcendental, associam-se com Ele em pessoa e podem prestar serviço pessoal ao Senhor, derivando, dessa maneira, bem-aventurança transcendental em Seu serviço amoroso. Quanto àqueles que são impersonalistas e que querem cometer suicídio espiritual, aniquilando a existência individual da entidade viva, Kṛṣṇa também os ajuda, absorvendo-os em Sua refulgência. Tais impersonalistas não concordam em aceitar a eterna e bem-aventurada Personalidade de Deus; em consequência, não podem saborear a bem-aventurança do transcendental serviço pessoal ao Senhor, tendo extinguido sua individualidade. Alguns deles, que nem sequer estão situados na existência impessoal, voltam a este campo material para exibir seus desejos latentes de atividades. Não são admitidos nos planetas espirituais, mas recebem novamente a oportunidade de agir nos planetas materiais. Para aqueles que são trabalhadores fruitivos, o Senhor outorga os resultados desejados de seus deveres prescritos, como o *yajñeśvara*; e aqueles que são *yogīs* em busca de poderes místicos recebem tais poderes. Em outras palavras, todos dependem unicamente de Sua misericórdia para o êxito, e todos os tipos de processos espirituais são apenas diferentes graus de êxito na mesma senda. A menos, portanto, que se chegue à mais alta perfeição da consciência de Kṛṣṇa, todas as tentativas permanecem imperfeitas, como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam*:\n\n\n\nakāmaḥ sarva-kāmo vā mokṣa-kāma udāradhīḥ\n\ntīvreṇa bhakti-yogena yajeta puruṣaṁ param\n\n\n\n\"Quer se esteja sem desejos [a condição dos devotos], quer se esteja desejoso de todos os resultados fruitivos, quer se busque a liberação, deve-se, com todos os esforços, tentar adorar a Suprema Personalidade de Deus para a perfeição completa, culminando em consciência de Kṛṣṇa.\" (Bhāg. 2.3.10)"}
{"ref": "bg/4/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/12/", "verse_text": "kāṅkṣantaḥ karmaṇāṁ siddhiṁ\n\nyajanta iha devatāḥ\n\nkṣipraṁ hi mānuṣe loke\n\nsiddhir bhavati karma-jā", "devanagari": "> काङ्क्षन्तः कर्मणां सिद्धिं यजन्त इह देवताः ।\n> क्षिप्रं हि मानुषे लोके सिद्धिर्भवति कर्मजा ॥१२॥", "synonyms": "*kāṅkṣantaḥ*—desejando; *karmaṇām*—de atividades fruitivas; *siddhim*—perfeição; *yajante*—adoram por meio de sacrifícios; *iha*—no mundo material; *devatāḥ*—os semideuses; *kṣipram*—rapidamente; *hi*—certamente; *mānuṣe*—na sociedade humana; *loke*—neste mundo; *siddhiḥ bhavati*—torna-se exitoso; *karmajā*—o trabalhador fruitivo.", "translation": "**Os homens deste mundo desejam êxito nas atividades fruitivas, e, por isso, adoram os semideuses. Naturalmente, os homens obtêm rápidos resultados do trabalho fruitivo neste mundo.**", "purport": "Há um grande equívoco a respeito dos deuses ou semideuses deste mundo material, e os homens menos inteligentes, embora se passem por grandes eruditos, tomam esses semideuses como diversas formas do Senhor Supremo. Na verdade, os semideuses não são diferentes formas de Deus, mas Suas diferentes partes integrantes. Deus é único, e as partes integrantes são muitas. Os *Vedas* dizem: *nityo nityānām* — Deus é único. *Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ*. O Deus Supremo é único — Kṛṣṇa — e os semideuses recebem poderes delegados para administrar este mundo material. Esses semideuses são todos entidades vivas (*nityānām*) com diferentes graus de poder material. Não podem ser iguais ao Deus Supremo — Nārāyaṇa, Viṣṇu, ou Kṛṣṇa. Quem quer que pense que Deus e os semideuses estão no mesmo nível é chamado de ateu, ou *pāṣaṇḍī*. Mesmo os grandes semideuses, como Brahmā e Śiva, não podem ser comparados ao Senhor Supremo. De fato, o Senhor é adorado por semideuses como Brahmā e Śiva (*śiva-viriñci-nutam*). Curiosamente, no entanto, há muitos líderes humanos que são adorados por homens tolos, sob o equívoco do antropomorfismo ou do zoomorfismo. *Iha devatāḥ* denota um homem ou semideus poderoso deste mundo material. Mas Nārāyaṇa, Viṣṇu ou *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, não pertence a este mundo. Ele está acima da criação material, ou seja, é transcendental a ela. Mesmo Śrīpāda Śaṅkarācārya, o líder dos impersonalistas, sustenta que Nārāyaṇa, ou Kṛṣṇa, está além desta criação material. No entanto, as pessoas tolas (*hṛt-añjana*) adoram os semideuses porque querem resultados imediatos. Obtêm os resultados, mas não sabem que tais resultados são temporários e destinam-se às pessoas menos inteligentes. A pessoa inteligente está em consciência de Kṛṣṇa, e não tem necessidade de adorar os insignificantes semideuses por algum benefício imediato e temporário. Os semideuses deste mundo material, bem como seus adoradores, desaparecerão com o aniquilamento deste mundo material. As bênçãos dos semideuses são materiais e temporárias. Tanto os mundos materiais quanto seus habitantes, incluindo os semideuses e seus adoradores, são bolhas no oceano cósmico. Neste mundo, contudo, a sociedade humana está louca por coisas temporárias, tais como a opulência material de possuir terra, família e parafernália para o desfrute. Para alcançar tais coisas temporárias, adoram os semideuses ou homens poderosos da sociedade humana. Se um homem obtém algum cargo de ministro no governo adorando um líder político, considera que conquistou uma grande bênção. Por isso, todos eles fazem reverências aos supostos líderes ou \"figurões\", a fim de alcançar bênçãos temporárias, e, de fato, alcançam tais coisas. Tais homens tolos não se interessam pela consciência de Kṛṣṇa para a solução permanente das dificuldades da existência material. Todos eles buscam o gozo dos sentidos, e, para obter um pouco de facilidade para o gozo dos sentidos, sentem-se atraídos a adorar entidades vivas dotadas de poder, conhecidas como semideuses. Este verso indica que as pessoas raramente se interessam pela consciência de Kṛṣṇa. A maioria interessa-se pelo gozo material, e, por isso, adoram alguma entidade viva poderosa."}
{"ref": "bg/4/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/13/", "verse_text": "cātur-varṇyaṁ mayā sṛṣṭaṁ\n\nguṇa-karma-vibhāgaśaḥ\n\ntasya kartāram api māṁ\n\nviddhy akartāram avyayam", "devanagari": "> चातुर्वर्ण्यं मया सृष्टं गुणकर्मविभागशः ।\n> तस्य कर्तारमपि मां विद्ध्यकर्तारमव्ययम् ॥१३॥", "synonyms": "*cātur-varṇyam*—as quatro divisões da sociedade humana; *mayā*—por Mim; *sṛṣṭam*—criadas; *guṇa*—qualidade; *karma*—trabalho; *vibhāgaśaḥ*—em termos de divisão; *tasya*—disso; *kartāram*—o pai; *api*—embora; *mām*—a Mim; *viddhi*—saiba; *akartāram*—como o não-executor; *avyayam*—sendo imutável.", "translation": "**Segundo os três modos da natureza material e o trabalho a eles atribuído, as quatro divisões da sociedade humana foram criadas por Mim. E, embora Eu seja o criador deste sistema, você deve saber que ainda assim Eu sou o não-executor, sendo imutável.**", "purport": "O Senhor é o criador de tudo. Tudo nasce Dele, tudo é mantido por Ele e tudo, após o aniquilamento, repousa Nele. Ele é, portanto, o criador das quatro divisões da ordem social, começando com a classe inteligente dos homens, tecnicamente chamados *brāhmaṇas* por estarem situados no modo da bondade. A seguir, vem a classe administrativa, tecnicamente chamada de *kṣatriyas*, por estarem situados no modo da paixão. Os homens mercantis, chamados *vaiśyas*, situam-se nos modos mistos da paixão e da ignorância, e os *śūdras*, ou classe trabalhadora, situam-se no modo ignorante da natureza material. Apesar de criar as quatro divisões da sociedade humana, o Senhor Kṛṣṇa não pertence a nenhuma dessas divisões, porque Ele não é uma das almas condicionadas, das quais uma parte forma a sociedade humana. A sociedade humana é semelhante a qualquer outra sociedade animal, mas, para elevar os homens da condição animal, as divisões acima mencionadas foram criadas pelo Senhor para o desenvolvimento sistemático da consciência de Kṛṣṇa. A tendência de um homem em particular para o trabalho é determinada pelos modos da natureza material que ele adquiriu. Tais sintomas de vida, segundo os diferentes modos da natureza material, são descritos no Décimo Oitavo Capítulo deste livro. Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa, no entanto, está acima até dos *brāhmaṇas*, porque, pelas suas qualidades, supõe-se que um *brāhmaṇa* conheça o Brahman, a Suprema Verdade Absoluta. A maioria deles aborda a manifestação Brahman impessoal do Senhor Kṛṣṇa, mas somente um homem que transcende o conhecimento limitado de um *brāhmaṇa* e atinge o conhecimento da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, torna-se uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa — ou, em outras palavras, um *vaiṣṇava*. A consciência de Kṛṣṇa inclui o conhecimento de todas as diferentes expansões plenárias de Kṛṣṇa, a saber, Rāma, Nṛsiṁha, Varāha, etc. Contudo, assim como Kṛṣṇa é transcendental a este sistema das quatro divisões da sociedade humana, uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa também é transcendental a todas as divisões da sociedade humana, quer consideremos as divisões de comunidade, nação ou espécie."}
{"ref": "bg/4/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/14/", "verse_text": "na māṁ karmāṇi limpanti\n\nna me karma-phale spṛhā\n\niti māṁ yo 'bhijānāti\n\nkarmabhir na sa badhyate", "devanagari": "> न मां कर्माणि लिम्पन्ति न मे कर्मफले स्पृहा ।\n> इति मां योऽभिजानाति कर्मभिर्न स बध्यते ॥१४॥", "synonyms": "*na*—nunca; *mām*—a Mim; *karmāṇi*—todos os tipos de trabalho; *limpanti*—afetam; *na*—nem; *me*—Minha; *karma-phale*—em ação fruitiva; *spṛhā*—aspiração; *iti*—assim; *mām*—a Mim; *yaḥ*—aquele que; *abhijānāti*—conhece; *karmabhiḥ*—pela reação de tal trabalho; *na*—nunca; *saḥ*—ele; *badhyate*—enreda-se.", "translation": "**Não há trabalho que Me afete; tampouco aspiro aos frutos da ação. Aquele que compreende esta verdade a Meu respeito também não se enreda nas reações fruitivas do trabalho.**", "purport": "Assim como há leis constitucionais no mundo material que estabelecem que o rei não pode errar, ou que o rei não está sujeito às leis do Estado, da mesma forma o Senhor, embora seja o criador deste mundo material, não é afetado pelas atividades do mundo material. Ele cria e permanece à parte da criação, ao passo que as entidades vivas estão enredadas nos resultados fruitivos das atividades materiais devido à sua propensão a assenhorear-se dos recursos materiais. O proprietário de um estabelecimento não é responsável pelas atividades certas e erradas dos trabalhadores, mas os próprios trabalhadores é que são responsáveis. As entidades vivas estão ocupadas em suas respectivas atividades de gratificação dos sentidos, e tais atividades não são ordenadas pelo Senhor. Para o avanço da gratificação dos sentidos, as entidades vivas dedicam-se ao trabalho deste mundo, e aspiram à felicidade celestial após a morte. O Senhor, sendo pleno em Si mesmo, não tem atração pela suposta felicidade celestial. Os semideuses celestiais são apenas Seus servos ocupados. O proprietário jamais deseja a felicidade de baixo grau que os trabalhadores possam desejar. Ele está à parte das ações e reações materiais. Por exemplo, as chuvas não são responsáveis pelos diferentes tipos de vegetação que aparecem na terra, embora, sem tais chuvas, não haja possibilidade de crescimento vegetativo. O *smṛti* Védico confirma esse fato como segue:\n\n\n\nnimitta-mātram evāsau sṛjyānāṁ sarga-karmaṇi\n\npradhāna-kāraṇī-bhūtā yato vai sṛjya-śaktayaḥ.\n\n\n\nNas criações materiais, o Senhor é apenas a causa suprema. A causa imediata é a natureza material, pela qual a manifestação cósmica se torna visível. Os seres criados são de muitas variedades, tais como os semideuses, os seres humanos e os animais inferiores, e todos estão sujeitos às reações de suas atividades passadas, boas ou más. O Senhor apenas lhes dá as facilidades adequadas para tais atividades e os regulamentos dos modos da natureza, mas Ele jamais é responsável pelas atividades passadas e presentes deles. Nos *Vedānta-sūtras* confirma-se que o Senhor jamais é parcial com nenhuma entidade viva. A entidade viva é responsável por seus próprios atos. O Senhor apenas lhe concede facilidades, por intermédio da natureza material, a energia externa. Quem quer que esteja plenamente familiarizado com todas as complexidades desta lei do *karma*, ou das atividades fruitivas, não é afetado pelos resultados de suas atividades. Em outras palavras, a pessoa que compreende essa natureza transcendental do Senhor é um homem experiente em consciência de Kṛṣṇa e, assim, jamais está sujeita às leis do *karma*. Aquele que não conhece a natureza transcendental do Senhor e que pensa que as atividades do Senhor visam a resultados fruitivos, como ocorre com as atividades das entidades vivas comuns, certamente se enreda nas reações fruitivas. Mas aquele que conhece a Verdade Suprema é uma alma liberada, fixa em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/4/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/15/", "verse_text": "evaṁ jñātvā kṛtaṁ karma\n\npūrvair api mumukṣubhiḥ\n\nkuru karmaiva tasmāt tvaṁ\n\npūrvaiḥ pūrvataraṁ kṛtam", "devanagari": "> एवं ज्ञात्वा कृतं कर्म पूर्वैरपि मुमुक्षुभिः ।\n> कुरु कर्मैव तस्मात्त्वं पूर्वैः पूर्वतरं कृतम् ॥१५॥", "synonyms": "*evam*—assim; *jñātvā*—sabendo bem; *kṛtam*—executado; *karma*—trabalho; *pūrvaiḥ*—pelas autoridades passadas; *api*—embora; *mumukṣubhiḥ*—que alcançaram a liberação; *kuru*—simplesmente execute; *karma*—dever prescrito; *eva*—certamente; *tasmāt*—portanto; *tvam*—você; *pūrvaiḥ*—pelos predecessores; *pūrvataram*—antigos predecessores; *kṛtam*—conforme executado.", "translation": "**Todas as almas liberadas dos tempos antigos agiram com este entendimento e assim alcançaram a liberação. Por conseguinte, à semelhança dos antigos, você deve cumprir seu dever nesta consciência divina.**", "purport": "Há duas classes de homens. Alguns deles têm o coração repleto de coisas materiais poluídas, e alguns deles estão materialmente livres. A consciência de Kṛṣṇa é igualmente benéfica para essas duas classes de pessoas. Aqueles que estão repletos de coisas impuras podem dedicar-se à linha da consciência de Kṛṣṇa para um processo gradual de purificação, seguindo os princípios reguladores do serviço devocional. Aqueles que já estão purificados das impurezas podem continuar a agir na mesma consciência de Kṛṣṇa, para que outros possam seguir suas atividades exemplares e, dessa forma, ser beneficiados. As pessoas tolas ou neófitas em consciência de Kṛṣṇa muitas vezes querem retirar-se das atividades sem ter conhecimento da consciência de Kṛṣṇa. O desejo de Arjuna de retirar-se das atividades no campo de batalha não foi aprovado pelo Senhor. É preciso apenas saber como agir. Retirar-se das atividades da consciência de Kṛṣṇa e sentar-se isolado, fazendo um espetáculo de consciência de Kṛṣṇa, é menos importante do que efetivamente ocupar-se no campo das atividades em prol de Kṛṣṇa. Aconselha-se aqui Arjuna a agir em consciência de Kṛṣṇa, seguindo os passos dos discípulos anteriores do Senhor, tais como o deus do sol Vivasvān, conforme mencionado anteriormente. O Senhor Supremo conhece todas as Suas atividades passadas, bem como as das pessoas que agiram em consciência de Kṛṣṇa no passado. Por isso, Ele recomenda os atos do deus do sol, que aprendeu esta arte com o Senhor há alguns milhões de anos. Todos esses estudantes do Senhor Kṛṣṇa são mencionados aqui como pessoas liberadas do passado, ocupadas no cumprimento dos deveres designados por Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/4/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/16/", "verse_text": "kiṁ karma kim akarmeti\n\nkavayo 'py atra mohitāḥ\n\ntat te karma pravakṣyāmi\n\nyaj jñātvā mokṣyase 'śubhāt", "devanagari": "> किं कर्म किमकर्मेति कवयोऽप्यत्र मोहिताः ।\n> तत्ते कर्म प्रवक्ष्यामि यज्ज्ञात्वा मोक्ष्यसेऽशुभात् ॥१६॥", "synonyms": "*kim*—o que é; *karma*—ação; *kim*—o que é; *akarma*—inação; *iti*—assim; *kavayaḥ*—os inteligentes; *api*—também; *atra*—nesta matéria; *mohitāḥ*—confundidos; *tat*—isso; *te*—a você; *karma*—trabalho; *pravakṣyāmi*—Eu explicarei; *yat*—o qual; *jñātvā*—conhecendo; *mokṣyase*—será liberto; *aśubhāt*—do infortúnio.", "translation": "**Mesmo os inteligentes ficam confundidos ao determinar o que é ação e o que é inação. Agora Eu explicarei a você o que é a ação, sabendo o que você ficará livre de todos os pecados.**", "purport": "A ação em consciência de Kṛṣṇa tem de ser executada conforme os exemplos dos devotos genuínos anteriores. Isso é recomendado no 15º verso. Por que tal ação não deve ser independente, será explicado no texto que segue.\n\n\n\nPara agir em consciência de Kṛṣṇa, é preciso seguir a liderança de pessoas autorizadas que estão em uma linha de sucessão discipular, conforme se explicou no início deste capítulo. O sistema da consciência de Kṛṣṇa foi narrado pela primeira vez ao deus do sol; o deus do sol o explicou a seu filho Manu; Manu o explicou a seu filho Ikṣvāku, e o sistema é corrente nesta Terra desde aquela época muito remota. Por isso, deve-se seguir os passos das autoridades anteriores na linha de sucessão discipular. Caso contrário, mesmo os homens mais inteligentes se confundirão a respeito das ações padrão da consciência de Kṛṣṇa. Por essa razão, o Senhor decidiu instruir Arjuna em consciência de Kṛṣṇa diretamente. Em virtude da instrução direta do Senhor a Arjuna, quem quer que siga os passos de Arjuna certamente não se confunde.\n\n\n\nDiz-se que não se podem averiguar os caminhos da religião simplesmente por conhecimento experimental imperfeito. Na verdade, os princípios da religião só podem ser estabelecidos pelo próprio Senhor. *Dharmaṁ hi sākṣāt-bhagavat-praṇītam*. Ninguém pode fabricar um princípio religioso por especulação imperfeita. Deve-se seguir os passos de grandes autoridades como Brahmā, Śiva, Nārada, Manu, Kumāra, Kapila, Prahlāda, Bhīṣma, Śukadeva Gosvāmī, Yamarāja, Janaka, etc. Pela especulação mental, não se pode averiguar o que é religião ou autorrealização. Por conseguinte, por misericórdia imotivada para com Seus devotos, o Senhor explica diretamente a Arjuna o que é a ação e o que é a inação. Somente a ação executada em consciência de Kṛṣṇa pode libertar uma pessoa do enredamento da existência material."}
{"ref": "bg/4/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/17/", "verse_text": "karmaṇo hy api boddhavyaṁ\n\nboddhavyaṁ ca vikarmaṇaḥ\n\nakarmaṇaś ca boddhavyaṁ\n\ngahanā karmaṇo gatiḥ", "devanagari": "> कर्मणो ह्यपि बोद्धव्यं बोद्धव्यं च विकर्मणः ।\n> अकर्मणश्च बोद्धव्यं गहना कर्मणो गतिः ॥१७॥", "synonyms": "*karmaṇaḥ*—ordem de trabalho; *hi*—certamente; *api*—também; *boddhavyam*—deve ser compreendido; *boddhavyam*—a ser compreendido; *ca*—também; *vikarmaṇaḥ*—trabalho proibido; *akarmaṇaḥ*—inação; *ca*—também; *boddhavyam*—deve ser compreendido; *gahanā*—muito difícil; *karmaṇaḥ*—ordem de trabalho; *gatiḥ*—entrar.", "translation": "**As complexidades da ação são muito difíceis de compreender. Por conseguinte, deve-se conhecer adequadamente o que é a ação, o que é a ação proibida e o que é a inação.**", "purport": "Se a pessoa leva a sério a libertação do cativeiro material, tem de compreender as distinções entre a ação, a inação e as ações não autorizadas. Deve-se aplicar a tal análise da ação, da reação e das ações pervertidas, porque é uma matéria muito difícil. Para compreender a consciência de Kṛṣṇa e a ação segundo os modos, deve-se aprender qual é a relação da pessoa com o Supremo; isto é, aquele que aprendeu perfeitamente sabe que toda entidade viva é o servidor eterno do Senhor e que, em consequência, deve agir em consciência de Kṛṣṇa. Todo o *Bhagavad-gītā* dirige-se a esta conclusão. Quaisquer outras conclusões, contrárias a esta consciência e suas reações concomitantes, são *vikarmas*, ou ações proibitivas. Para compreender tudo isso, deve-se associar com autoridades em consciência de Kṛṣṇa e aprender o segredo com elas; isso é tão bom quanto aprender diretamente com o Senhor. De outro modo, mesmo a pessoa mais inteligente ficará confundida."}
{"ref": "bg/4/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/18/", "verse_text": "karmaṇy akarma yaḥ paśyed\n\nakarmaṇi ca karma yaḥ\n\nsa buddhimān manuṣyeṣu\n\nsa yuktaḥ kṛtsna-karma-kṛt", "devanagari": "> कर्मण्यकर्म यः पश्येदकर्मणि च कर्म यः ।\n> स बुद्धिमान्मनुष्येषु स युक्तः कृत्स्नकर्मकृत् ॥१८॥", "synonyms": "*karmaṇi*—em ação; *akarma*—inação; *yaḥ*—aquele que; *paśyet*—observa; *akarmaṇi*—em inação; *ca*—também; *karma*—ação fruitiva; *yaḥ*—aquele que; *saḥ*—ele; *buddhimān*—é inteligente; *manuṣyeṣu*—na sociedade humana; *saḥ*—ele; *yuktaḥ*—está na posição transcendental; *kṛtsna-karma-kṛt*—embora ocupado em todas as atividades.", "translation": "**Aquele que vê inação na ação e ação na inação é inteligente entre os homens, e está na posição transcendental, embora ocupado em todo tipo de atividades.**", "purport": "Uma pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa está naturalmente livre dos laços do *karma*. Suas atividades são todas executadas para Kṛṣṇa; por isso, ela não desfruta nem sofre nenhum dos efeitos do trabalho. Em consequência, é inteligente na sociedade humana, mesmo estando ocupada em todo tipo de atividades para Kṛṣṇa. *Akarma* significa sem reação ao trabalho. O impersonalista cessa as atividades fruitivas por temor, para que a ação resultante não seja um obstáculo na senda da autorrealização, mas o personalista conhece corretamente sua posição como o servidor eterno da Suprema Personalidade de Deus. Por isso, ele se ocupa nas atividades da consciência de Kṛṣṇa. Visto que tudo é feito para Kṛṣṇa, ele desfruta apenas felicidade transcendental no desempenho deste serviço. Sabe-se que aqueles que se dedicam a este processo estão sem desejo de gratificação pessoal dos sentidos. O sentido de servidão eterna a Kṛṣṇa torna a pessoa imune a todo tipo de elementos reativos do trabalho."}
{"ref": "bg/4/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/19/", "verse_text": "yasya sarve samārambhāḥ\n\nkāma-saṅkalpa-varjitāḥ\n\njñānāgni-dagdha-karmāṇaṁ\n\ntam āhuḥ paṇḍitaṁ budhāḥ", "devanagari": "> यस्य सर्वे समारम्भाः कामसङ्कल्पवर्जिताः ।\n> ज्ञानाग्निदग्धकर्माणं तमाहुः पण्डितं बुधाः ॥१९॥", "synonyms": "*yasya*—aquele cujas; *sarve*—todas as espécies de; *samārambhāḥ*—em todas as tentativas; *kāma*—desejo de gratificação dos sentidos; *saṅkalpa*—determinação; *varjitāḥ*—são desprovidas de; *jñāna*—de conhecimento perfeito; *āgni*—fogo; *dagdha*—sendo queimado por; *karmāṇam*—o executor; *tam*—a ele; *āhuḥ*—declaram; *paṇḍitam*—erudito; *budhāḥ*—aqueles que sabem.", "translation": "**Compreende-se que está em pleno conhecimento aquele cujo todo ato é desprovido de desejo de gratificação dos sentidos. Os sábios afirmam que ele é um trabalhador cuja ação fruitiva foi consumida pelo fogo do conhecimento perfeito.**", "purport": "Apenas uma pessoa em pleno conhecimento pode compreender as atividades de uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa. Visto que a pessoa em consciência de Kṛṣṇa é desprovida de todo tipo de propensões para a gratificação dos sentidos, deve-se compreender que ela consumiu as reações de seu trabalho pelo conhecimento perfeito de sua posição constitucional como o servidor eterno da Suprema Personalidade de Deus. Realmente erudito é aquele que alcançou tal perfeição do conhecimento. O desenvolvimento desse conhecimento da servidão eterna ao Senhor é comparado ao fogo. Tal fogo, uma vez aceso, pode consumir todo tipo de reações ao trabalho."}
{"ref": "bg/4/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/20/", "verse_text": "tyaktvā karma-phalāsaṅgaṁ\n\nnitya-tṛpto nirāśrayaḥ\n\nkarmaṇy abhipravṛtto 'pi\n\nnaiva kiñcit karoti saḥ", "devanagari": "> त्यक्त्वा कर्मफलासङ्गं नित्यतृप्तो निराश्रयः ।\n> कर्मण्यभिप्रवृत्तोऽपि नैव किञ्चित्करोति सः ॥२०॥", "synonyms": "*tyaktvā*—tendo abandonado; *karma-phala-āsaṅgam*—apego aos resultados fruitivos; *nitya*—sempre; *tṛptaḥ*—satisfeito; *nirāśrayaḥ*—sem nenhum centro; *karmaṇi*—em atividade; *abhipravṛttaḥ*—estando plenamente ocupado; *api*—apesar de; *na*—não; *eva*—certamente; *kiñcit*—coisa alguma; *karoti*—faz; *saḥ*—ele.", "translation": "**Abandonando todo apego aos resultados de suas atividades, sempre satisfeito e independente, ele não executa nenhuma ação fruitiva, embora esteja ocupado em toda espécie de empreendimentos.**", "purport": "Esta liberdade do cativeiro das ações só é possível em consciência de Kṛṣṇa, quando se está fazendo tudo para Kṛṣṇa. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa age por puro amor à Suprema Personalidade de Deus e, por isso, não sente atração pelos resultados da ação. Ela não está sequer apegada à sua manutenção pessoal, pois tudo é deixado a cargo de Kṛṣṇa. Tampouco se preocupa em obter coisas, nem em proteger as coisas já em sua posse. Cumpre seu dever no melhor de sua capacidade e deixa tudo a cargo de Kṛṣṇa. Tal pessoa desapegada está sempre livre das reações resultantes do bem e do mal; é como se ela não estivesse fazendo nada. Este é o sinal de *akarma*, ou ações sem reações fruitivas. Qualquer outra ação, portanto, desprovida de consciência de Kṛṣṇa, é vinculante para o trabalhador, e esse é o verdadeiro aspecto de *vikarma*, conforme se explicou anteriormente."}
{"ref": "bg/4/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/21/", "verse_text": "nirāśīr yata-cittātmā\n\ntyakta-sarva-parigrahaḥ\n\nśārīraṁ kevalaṁ karma\n\nkurvan nāpnoti kilbiṣam", "devanagari": "> निराशीर्यतचित्तात्मा त्यक्तसर्वपरिग्रहः ।\n> शारीरं केवलं कर्म कुर्वन्नाप्नोति किल्बिषम् ॥२१॥", "synonyms": "*nirāśīḥ*—sem desejo dos resultados; *yata*—controlados; *citta-ātmā*—mente e inteligência; *tyakta*—abandonando; *sarva*—todo; *parigrahaḥ*—senso de proprietariedade sobre todas as posses; *śārīram*—em manter o corpo e a alma juntos; *kevalam*—apenas; *karma*—trabalho; *kurvan*—assim fazendo; *na*—nunca; *āpnoti*—adquire; *kilbiṣam*—reações pecaminosas.", "translation": "**Tal homem de entendimento age com a mente e a inteligência perfeitamente controladas, abandona todo senso de proprietariedade sobre suas posses e age apenas para as necessidades básicas da vida. Trabalhando assim, não é afetado por reações pecaminosas.**", "purport": "Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não espera bons ou maus resultados em suas atividades. Sua mente e inteligência estão plenamente controladas. Ela sabe que é parte integrante do Supremo e, por conseguinte, o papel desempenhado por ela, como parte integrante do todo, não é por sua escolha, mas escolhido por ela pelo Supremo, e é executado apenas por intermédio Dele. Quando a mão se move, ela não se move por conta própria, mas pelo esforço de todo o corpo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa está sempre acoplada ao desejo supremo, pois não tem desejo de gratificação pessoal dos sentidos. Move-se exatamente como uma peça de uma máquina. Assim como uma peça de máquina requer lubrificação e limpeza para sua manutenção, de modo semelhante, um homem consciente de Kṛṣṇa mantém-se com seu trabalho apenas para permanecer apto à ação no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Por isso, está imune a todas as reações de seus esforços. Como um animal, ele não tem proprietariedade nem mesmo sobre seu próprio corpo. Um proprietário cruel de um animal às vezes mata o animal que possui, mas o animal não protesta. Tampouco tem qualquer independência real. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, plenamente ocupada em autorrealização, tem muito pouco tempo para falsamente possuir qualquer objeto material. Para manter o corpo e a alma juntos, não requer meios desonestos para acumular dinheiro. Por isso, não fica contaminada por tais pecados materiais. Está livre de todas as reações de suas ações."}
{"ref": "bg/4/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/22/", "verse_text": "yadṛcchā-lābha-santuṣṭo\n\ndvandvātīto vimatsaraḥ\n\nsamaḥ siddhāv asiddhau ca\n\nkṛtvāpi na nibadhyate", "devanagari": "> यदृच्छालाभसन्तुष्टो द्वन्द्वातीतो विमत्सरः ।\n> समः सिद्धावसिद्धौ च कृत्वापि न निबध्यते ॥२२॥", "synonyms": "*yadṛcchā*—por conta própria; *lābha*—ganho; *santuṣṭaḥ*—satisfeito; *dvandva*—dualidade; *atītaḥ*—superada; *vimatsaraḥ*—livre de inveja; *samaḥ*—firme; *siddhau*—no êxito; *asiddhau*—no fracasso; *ca*—também; *kṛtvā*—fazendo; *api*—embora; *na*—nunca; *nibadhyate*—é afetado.", "translation": "**Aquele que se satisfaz com o ganho que vem por conta própria, que está livre da dualidade e não inveja, que é firme tanto no êxito quanto no fracasso, jamais se enreda, embora execute ações.**", "purport": "Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não faz muito esforço sequer para manter o corpo. Satisfaz-se com os ganhos obtidos por conta própria. Não mendiga nem toma emprestado, mas labuta honestamente até onde está em seu poder, e satisfaz-se com tudo o que se obtém de seu próprio trabalho honesto. Por isso, é independente em sua subsistência. Não permite que o serviço a ninguém estorve seu próprio serviço em consciência de Kṛṣṇa. Contudo, para o serviço do Senhor, pode participar de qualquer tipo de ação sem ser perturbada pela dualidade do mundo material. A dualidade do mundo material sente-se em termos de calor e frio, ou de miséria e felicidade. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa está acima da dualidade porque não hesita em agir de qualquer maneira para a satisfação de Kṛṣṇa. Por conseguinte, é firme tanto no êxito quanto no fracasso. Esses sinais são visíveis quando alguém se encontra plenamente em conhecimento transcendental."}
{"ref": "bg/4/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/23/", "verse_text": "gata-saṅgasya muktasya\n\njñānāvasthita-cetasaḥ\n\nyajñāyācarataḥ karma\n\nsamagraṁ pravilīyate", "devanagari": "> गतसङ्गस्य मुक्तस्य ज्ञानावस्थितचेतसः ।\n> यज्ञायाचरतः कर्म समग्रं प्रविलीयते ॥२३॥", "synonyms": "*gata-saṅgasya*—desapegado dos modos da natureza material; *muktasya*—do liberado; *jñāna-avasthita*—situado em transcendência; *cetasaḥ*—de tal sabedoria; *yajñāya*—em prol de Yajña (Kṛṣṇa); *ācarataḥ*—assim agindo; *karma*—trabalho; *samagram*—no total; *pravilīyate*—funde-se inteiramente.", "translation": "**O trabalho de um homem que está desapegado dos modos da natureza material e que está plenamente situado em conhecimento transcendental funde-se inteiramente em transcendência.**", "purport": "Tornando-se plenamente consciente de Kṛṣṇa, a pessoa fica livre de todas as dualidades e, assim, livre das contaminações dos modos materiais. Pode tornar-se liberada porque conhece sua posição constitucional em relação a Kṛṣṇa; e, assim, sua mente não pode ser desviada da consciência de Kṛṣṇa. Em consequência, faça o que fizer, ela o faz para Kṛṣṇa, que é o Viṣṇu primordial. Portanto, todos os seus trabalhos são tecnicamente sacrifícios, pois o sacrifício envolve satisfazer a Pessoa Suprema, Kṛṣṇa. As reações resultantes de todos esses trabalhos certamente se fundem em transcendência, e a pessoa não sofre efeitos materiais."}
{"ref": "bg/4/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/24/", "verse_text": "brahmārpaṇaṁ brahma havir\n\nbrahmāgnau brahmaṇā hutam\n\nbrahmaiva tena gantavyaṁ\n\nbrahma-karma-samādhinā", "devanagari": "> ब्रह्मार्पणं ब्रह्म हविर्ब्रह्माग्नौ ब्रह्मणा हुतम् ।\n> ब्रह्मैव तेन गन्तव्यं ब्रह्मकर्मसमाधिना ॥२४॥", "synonyms": "*brahma*—natureza espiritual; *arpaṇam*—contribuição; *brahma*—o Supremo; *haviḥ*—manteiga; *brahma*—espiritual; *agnau*—no fogo da consumação; *brāhmaṇā*—pela alma espiritual; *hutam*—oferecido; *brahma*—reino espiritual; *eva*—certamente; *tena*—por ele; *gantavyam*—a ser alcançado; *brahma*—espiritual; *karma*—atividades; *samādhinā*—pela completa absorção.", "translation": "**Uma pessoa que está plenamente absorta em consciência de Kṛṣṇa certamente alcançará o reino espiritual devido à sua plena contribuição às atividades espirituais, nas quais a consumação é absoluta e aquilo que é oferecido é da mesma natureza espiritual.**", "purport": "Como as atividades em consciência de Kṛṣṇa podem conduzir a pessoa, em última análise, à meta espiritual, descreve-se aqui. Há várias atividades em consciência de Kṛṣṇa, e todas elas serão descritas nos versos seguintes. Mas, por ora, descreve-se apenas o princípio da consciência de Kṛṣṇa. Uma alma condicionada, enredada na contaminação material, certamente agirá na atmosfera material, e, no entanto, terá de sair de tal ambiente. O processo pelo qual a alma condicionada pode sair da atmosfera material é a consciência de Kṛṣṇa. Por exemplo, um paciente que sofre de um distúrbio dos intestinos devido a excesso de consumo de produtos lácteos é curado por outro produto lácteo, a saber, a coalhada. A alma condicionada absorta na matéria pode ser curada pela consciência de Kṛṣṇa, conforme estabelecido aqui no *Gītā*. Este processo é geralmente conhecido como *yajña*, ou atividades (sacrifícios) destinadas simplesmente à satisfação de Viṣṇu ou Kṛṣṇa. Quanto mais as atividades do mundo material são executadas em consciência de Kṛṣṇa, ou somente para Viṣṇu, tanto mais a atmosfera se espiritualiza pela completa absorção. *Brahman* significa espiritual. O Senhor é espiritual, e os raios de Seu corpo transcendental são chamados de *brahmajyoti*, Sua refulgência espiritual. Tudo o que existe está situado nesse *brahmajyoti*, mas, quando o *jyoti* é coberto pela ilusão (*māyā*) ou pela gratificação dos sentidos, é chamado de material. Este véu material pode ser removido de imediato pela consciência de Kṛṣṇa; assim, a oferenda em prol da consciência de Kṛṣṇa, o agente consumidor de tal oferenda ou contribuição, o processo de consumação, o contribuinte, e o resultado — todos juntos — são Brahman, ou a Verdade Absoluta. A Verdade Absoluta coberta pela *māyā* é chamada de matéria. A matéria acoplada à causa da Verdade Absoluta recupera sua qualidade espiritual. A consciência de Kṛṣṇa é o processo de converter a consciência ilusória em Brahman, ou o Supremo. Quando a mente está plenamente absorta em consciência de Kṛṣṇa, diz-se que está em *samādhi*, ou transe. Tudo o que é feito em tal consciência transcendental é chamado de *yajña*, ou sacrifício para o Absoluto. Nessa condição de consciência espiritual, o contribuinte, a contribuição, a consumação, o executor ou líder da execução, e o resultado ou ganho final — tudo — torna-se um no Absoluto, o Brahman Supremo. Esse é o método da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/4/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/25/", "verse_text": "daivam evāpare yajñaṁ\n\nyoginaḥ paryupāsate\n\nbrahmāgnāv apare yajñaṁ\n\nyajñenaivopajuhvati", "devanagari": "> दैवमेवापरे यज्ञं योगिनः पर्युपासते ।\n> ब्रह्माग्नावपरे यज्ञं यज्ञेनैवोपजुह्वति ॥२५॥", "synonyms": "*daivam*—em adorar os semideuses; *eva*—assim; *apare*—alguns; *yajñam*—sacrifícios; *yoginaḥ*—os místicos; *paryupāsate*—adoram perfeitamente; *brahma*—a Verdade Absoluta; *agnau*—no fogo de; *apare*—outros; *yajñam*—sacrifício; *yajñena*—pelo sacrifício; *eva*—assim; *upajuhvati*—adoram.", "translation": "**Alguns *yogīs* adoram perfeitamente os semideuses oferecendo-lhes diferentes sacrifícios, e alguns deles oferecem sacrifícios no fogo do Brahman Supremo.**", "purport": "Como descrito acima, uma pessoa ocupada no cumprimento dos deveres em consciência de Kṛṣṇa também é chamada de *yogī* perfeito ou místico de primeira classe. Mas há também outros, que executam sacrifícios semelhantes na adoração aos semideuses, e ainda outros que sacrificam ao Brahman Supremo, ou aspecto impessoal do Senhor Supremo. Há, portanto, diferentes tipos de sacrifícios em termos de diferentes categorias. Tais diferentes categorias de sacrifício, executadas por diferentes tipos de executores, demarcam apenas superficialmente as variedades de sacrifício. Sacrifício efetivo significa satisfazer o Senhor Supremo, Viṣṇu, que também é conhecido como Yajña. Todas as diferentes variedades de sacrifício podem ser colocadas dentro de duas divisões primárias, a saber: sacrifício de posses mundanas e sacrifício em busca do conhecimento transcendental. Aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa sacrificam todas as posses materiais para a satisfação do Senhor Supremo, ao passo que outros, que desejam alguma felicidade material temporária, sacrificam suas posses materiais para satisfazer semideuses como Indra, o deus do sol, etc. E outros, que são impersonalistas, sacrificam sua identidade fundindo-se na existência do Brahman impessoal. Os semideuses são poderosas entidades vivas designadas pelo Senhor Supremo para a manutenção e supervisão de todas as funções materiais, como o aquecimento, a irrigação e a iluminação do universo. Aqueles que se interessam por benefícios materiais adoram os semideuses por meio de vários sacrifícios segundo os rituais Védicos. São chamados de *bahv-īśvara-vādī*, ou crentes em muitos deuses. Mas outros, que adoram o aspecto impessoal da Verdade Absoluta e consideram as formas dos semideuses como temporárias, sacrificam seus seres individuais no fogo supremo, encerrando, assim, suas existências individuais ao fundir-se na existência do Supremo. Tais impersonalistas passam o tempo em especulação filosófica para compreender a natureza transcendental do Supremo. Em outras palavras, os trabalhadores fruitivos sacrificam suas posses materiais em busca do desfrute material, ao passo que o impersonalista sacrifica suas designações materiais com vistas a fundir-se na existência do Supremo. Para o impersonalista, o altar de fogo do sacrifício é o Brahman Supremo, e a oferenda é o ser sendo consumido pelo fogo do Brahman. A pessoa consciente de Kṛṣṇa, como Arjuna, contudo, sacrifica tudo para a satisfação de Kṛṣṇa, e, assim, todas as suas posses materiais bem como o seu próprio ser — tudo — é sacrificado para Kṛṣṇa. Assim, ele é o *yogī* de primeira classe; mas não perde sua existência individual."}
{"ref": "bg/4/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/26/", "verse_text": "śrotrādīnīndriyāṇy anye\n\nsaṁyamāgniṣu juhvati\n\nśabdādīn viṣayān anya\n\nindriyāgniṣu juhvati", "devanagari": "> श्रोत्रादीनीन्द्रियाण्यन्ये संयमाग्निषु जुह्वति ।\n> शब्दादीन्विषयानन्य इन्द्रियाग्निषु जुह्वति ॥२६॥", "synonyms": "*śrotra ādīni*—processo da audição; *indriyāṇi*—sentidos; *anye*—outros; *saṁyama*—de restrição; *agniṣu*—no fogo; *juhvati*—oferecem; *śabda-ādīn*—vibração sonora, etc.; *viṣayān*—objetos da gratificação dos sentidos; *anye-others: indriya*—dos órgãos dos sentidos; *agniṣu*—no fogo; *juhvati*—sacrificam.", "translation": "**Alguns deles sacrificam o processo da audição e os sentidos no fogo da mente controlada, e outros sacrificam os objetos dos sentidos, tais como o som, no fogo do sacrifício.**", "purport": "As quatro divisões da vida humana, a saber, o *brahmacārī*, o *gṛhastha*, o *vānaprastha* e o *sannyāsī*, destinam-se todas a ajudar os homens a se tornarem *yogīs* ou transcendentalistas perfeitos. Visto que a vida humana não se destina ao desfrute da gratificação dos sentidos como ocorre com os animais, as quatro ordens da vida humana são organizadas de modo que se possa tornar perfeito na vida espiritual. Os *brahmacārīs*, ou estudantes sob os cuidados de um mestre espiritual genuíno, controlam a mente abstendo-se da gratificação dos sentidos. A eles se faz referência neste verso como sacrificando o processo da audição e os sentidos no fogo da mente controlada. Um *brahmacārī* ouve apenas palavras concernentes à consciência de Kṛṣṇa; ouvir é o princípio básico para a compreensão e, por isso, o *brahmacārī* puro ocupa-se plenamente em *harer nāmānukīrtanam* — cantar e ouvir as glórias do Senhor. Restringe-se das vibrações sonoras materiais, e sua audição ocupa-se na vibração sonora transcendental de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa. De modo semelhante, os chefes de família, que têm certa licença para a gratificação dos sentidos, executam tais atos com grande contenção. A vida sexual, a intoxicação e o consumo de carne são tendências gerais da sociedade humana, mas um chefe de família regulado não se entrega à vida sexual irrestrita e a outras gratificações dos sentidos. Por isso, o casamento sob princípios de vida religiosa é corrente em toda sociedade humana civilizada, pois esse é o caminho para a vida sexual restrita. Esta vida sexual restrita e desapegada também é uma espécie de *yajña*, pois o chefe de família regulado sacrifica sua tendência geral à gratificação dos sentidos em prol da vida transcendental superior."}
{"ref": "bg/4/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/27/", "verse_text": "sarvāṇīndriya-karmāṇi\n\nprāṇa-karmāṇi cāpare\n\nātma-saṁyama-yogāgnau\n\njuhvati jñāna-dīpite", "devanagari": "> सर्वाणीन्द्रियकर्माणि प्राणकर्माणि चापरे ।\n> आत्मसंयमयोगाग्नौ जुह्वति ज्ञानदीपिते ॥२७॥", "synonyms": "*sarvāṇi*—todas; *indriya*—sentidos; *karmāṇi*—funções; *prāṇa-karmāṇi*—funções da respiração vital; *ca*—também; *apare*—outros; *ātma-saṁyama*—controlando a mente; *yoga*—processo de ligação; *agnau*—no fogo de; *juhvati*—oferecem; *jñāna-dīpite*—devido ao impulso pela autorrealização.", "translation": "**Aqueles que se interessam pela autorrealização, em termos de controle da mente e dos sentidos, oferecem as funções de todos os sentidos, bem como a força vital [respiração], como oblações no fogo da mente controlada.**", "purport": "Refere-se aqui ao sistema de *yoga* concebido por Patañjali. No *Yoga-sūtra* de Patañjali, a alma é chamada de *pratyag-ātmā* e *parag-ātmā*. Enquanto a alma estiver apegada ao desfrute dos sentidos, é chamada de *parag-ātmā*. A alma está sujeita às funções de dez tipos de ar atuantes dentro do corpo, e isso é percebido por meio do sistema respiratório. O sistema *Pātañjala* de *yoga* instrui sobre como controlar as funções do ar no corpo de maneira técnica, para que, em última análise, todas as funções do ar interno se tornem favoráveis para purificar a alma do apego material. Segundo este sistema de *yoga*, *pratyag ātmā* é a meta final. Esse *pratyag ātmā* é uma retração das atividades na matéria. Os sentidos interagem com os objetos dos sentidos, como o ouvido para ouvir, os olhos para ver, o nariz para cheirar, a língua para saborear, a mão para tocar, e todos eles ocupam-se, assim, em atividades fora do ser. São chamados de funções do *prāṇa-vāyu*. O *apāna-vāyu* desce, o *vyāna-vāyu* atua para contrair e expandir, o *samāna-vāyu* ajusta o equilíbrio, o *udāna-vāyu* sobe — e, quando se está iluminado, ocupam-se todos eles na busca pela autorrealização."}
{"ref": "bg/4/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/28/", "verse_text": "dravya-yajñās tapo-yajñā\n\nyoga-yajñās tathāpare\n\nsvādhyāya-jñāna-yajñāś ca\n\nyatayaḥ saṁśita-vratāḥ", "devanagari": "> द्रव्ययज्ञास्तपोयज्ञा योगयज्ञास्तथापरे ।\n> स्वाध्यायज्ञानयज्ञाश्च यतयः संशितव्रताः ॥२८॥", "synonyms": "*dravya-yajñāḥ*—sacrificando as próprias posses; *tapo-yajñāḥ*—sacrifício em austeridades; *yoga-yajñāḥ*—sacrifício no misticismo óctuplo; *tathā*—assim; *apare*—outros; *svādhyāya*—sacrifício no estudo dos Vedas; *jñāna-yajñāḥ*—sacrifício no avanço do conhecimento transcendental; *ca*—também; *yatayaḥ*—iluminados; *saṁśita*—assumidos com rigor; *vratāḥ*—votos.", "translation": "**Há outros que, iluminados pelo sacrifício de suas posses materiais em severas austeridades, fazem votos rigorosos e praticam o *yoga* do misticismo óctuplo, e outros estudam os *Vedas* para o avanço do conhecimento transcendental.**", "purport": "Esses sacrifícios podem encaixar-se em várias divisões. Há pessoas que sacrificam suas posses sob a forma de várias modalidades de caridade. Na Índia, a rica comunidade mercantil ou as ordens principescas abrem várias modalidades de instituições beneficentes, tais como *dharmaśālā*, *anna-kṣetra*, *atithi-śālā*, *anathalaya*, *vidyāpīṭha*, etc. Em outros países, também há muitos hospitais, asilos para idosos e fundações beneficentes semelhantes destinadas a distribuir alimento, educação e tratamento médico gratuitamente aos pobres. Todas essas atividades beneficentes são chamadas de *dravyamaya-yajña*. Há outros que, para uma elevação superior na vida ou para a promoção a planetas superiores no universo, aceitam voluntariamente muitas espécies de austeridades, tais como *candrāyaṇa* e *cāturmāsya*. Esses processos implicam votos severos para conduzir a vida sob certas regras rígidas. Por exemplo, sob o voto *cāturmāsya*, o candidato não se barbeia durante quatro meses do ano (julho a outubro), não come certos alimentos, não come duas vezes por dia e não sai de casa. Tal sacrifício dos confortos da vida chama-se *tapomaya-yajña*. Ainda há outros que se ocupam em diferentes modalidades de *yogas* místicos, como o sistema de Patañjali (para fundir-se na existência do Absoluto), ou *haṭha-yoga* ou *aṣṭāṅga-yoga* (para perfeições particulares). E alguns viajam a todos os locais santificados de peregrinação. Todas essas práticas chamam-se *yoga-yajña*, sacrifício para um certo tipo de perfeição no mundo material. Há outros que se ocupam nos estudos de diferentes literaturas Védicas, especificamente os *Upaniṣads* e os *Vedānta-sūtras*, ou a filosofia *sāṅkhya*. Todos esses são chamados de *svādhyāya-yajña*, ou ocupação no sacrifício dos estudos. Todos esses *yogīs* estão fielmente ocupados em diferentes tipos de sacrifício e buscam um status superior de vida. A consciência de Kṛṣṇa, contudo, é diferente desses, porque é o serviço direto ao Senhor Supremo. A consciência de Kṛṣṇa não pode ser alcançada por nenhum dos tipos acima mencionados de sacrifício, mas só pode ser alcançada pela misericórdia do Senhor e de Seu devoto genuíno. Por conseguinte, a consciência de Kṛṣṇa é transcendental."}
{"ref": "bg/4/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/29/", "verse_text": "apāne juhvati prāṇaṁ\n\nprāṇe 'pānaṁ tathāpare\n\nprāṇāpāna-gatī ruddhvā\n\nprāṇāyāma-parāyaṇāḥ\n\napare niyatāhārāḥ\n\nprāṇān prāṇeṣu juhvati", "devanagari": "> अपाने जुह्वति प्राणं प्राणेऽपानं तथापरे ।\n> प्राणापानगती रुद्ध्वा प्राणायामपरायणाः ।\n> अपरे नियताहाराः प्राणान्प्राणेषु जुह्वति ॥२९॥", "synonyms": "*apāne*—ar que age para baixo; *juhvati*—oferece; *prāṇam*—ar que age para fora; *prāṇe*—no ar que sai; *apānam*—ar que vai para baixo; *tathā*—assim como; *apare*—outros; *prāṇa*—ar que sai; *apāna*—ar que desce; *gatī*—movimento; *ruddhvā*—contendo; *prāṇāyāma*—transe induzido pela suspensão de toda a respiração; *parāyaṇāḥ*—assim inclinados; *apare*—outros; *niyata*—controlado; *āhārāḥ*—comer; *prāṇān*—ar que sai; *prāṇeṣu*—no ar que sai; *juhvati*—sacrificam.", "translation": "**E há ainda outros que estão inclinados ao processo de restrição da respiração para permanecer em transe, e praticam suspender o movimento da respiração que sai para a que entra, e da respiração que entra para a que sai, permanecendo assim, por fim, em transe, suspendendo toda a respiração. Alguns deles, restringindo o processo de comer, oferecem a respiração que sai a si mesma, como sacrifício.**", "purport": "Este sistema de *yoga* para o controle do processo respiratório chama-se *prāṇāyāma*, e, no princípio, é praticado no sistema de *haṭha-yoga* por meio de diferentes posturas sentadas. Todos esses processos são recomendados para o controle dos sentidos e para o avanço na realização espiritual. Esta prática envolve o controle do ar dentro do corpo a fim de permitir a passagem simultânea em direções opostas. O ar *apāna* desce e o ar *prāṇa* sobe. O *yogī* do *prāṇāyāma* pratica a respiração no sentido oposto até que as correntes se neutralizem em *pūraka*, equilíbrio. De modo semelhante, quando a respiração exalada é oferecida à respiração inalada, isso se chama *recaka*. Quando ambas as correntes de ar são totalmente suspensas, chama-se *kumbhaka-yoga*. Pela prática do *kumbhaka-yoga*, os *yogīs* aumentam a duração da vida em muitos e muitos anos. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, no entanto, por estar sempre situada no transcendental serviço amoroso ao Senhor, torna-se automaticamente o controlador dos sentidos. Seus sentidos, por estarem sempre ocupados no serviço a Kṛṣṇa, não têm chance de ocupar-se de outra maneira. Assim, ao final da vida, ele é naturalmente transferido para o plano transcendental do Senhor Kṛṣṇa; em consequência, não faz nenhuma tentativa de aumentar sua longevidade. É, de imediato, elevado ao plano da liberação. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa começa a partir da fase transcendental, e está constantemente nessa consciência. Por isso, não há queda, e, em última análise, ele entra na morada do Senhor sem demora. A prática de comer reduzido faz-se automaticamente quando se come apenas Kṛṣṇa *prasādam*, ou alimento que é oferecido primeiro ao Senhor. Reduzir o processo de comer é muito útil quanto ao controle dos sentidos. E, sem o controle dos sentidos, não há possibilidade de sair do enredamento material."}
{"ref": "bg/4/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/30/", "verse_text": "sarve 'py ete yajña-vido\n\nyajña-kṣapita-kalmaṣāḥ\n\nyajña-śiṣṭāmṛta-bhujo\n\nyānti brahma sanātanam", "devanagari": "> सर्वेऽप्येते यज्ञविदो यज्ञक्षपितकल्मषाः ।\n> यज्ञशिष्टामृत भुजो यान्ति ब्रह्मा सनातनम् ॥३०॥", "synonyms": "*sarve*—todos; *api*—embora aparentemente diferentes; *ete*—todos esses; *yajña-vidaḥ*—familiarizados com o propósito da execução; *yajña*—sacrifícios; *kṣapita*—sendo purificados do resultado de tais execuções; *kalmaṣāḥ*—reações pecaminosas; *yajña-śiṣṭa*—como resultado de tais execuções de *yajña*; *amṛta-bhujaḥ*—aqueles que provaram tal néctar; *yānti*—aproximam-se; *brahma*—o supremo; *sanātanam*—atmosfera eterna.", "translation": "**Todos esses executores que conhecem o significado do sacrifício purificam-se das reações pecaminosas e, tendo provado o néctar dos restos de tal sacrifício, vão para a suprema atmosfera eterna.**", "purport": "Pela explicação anterior dos diferentes tipos de sacrifício (a saber, o sacrifício das próprias posses, o estudo dos *Vedas* ou de doutrinas filosóficas, e a execução do sistema de *yoga*), constata-se que o objetivo comum de todos é controlar os sentidos. A gratificação dos sentidos é a causa raiz da existência material; por conseguinte, a menos que se esteja situado em um plano apartado da gratificação dos sentidos, não há chance de se ser elevado ao plano eterno de pleno conhecimento, plena bem-aventurança e plena vida. Esse plano está na atmosfera eterna, ou atmosfera de Brahman. Todos os sacrifícios acima mencionados ajudam a pessoa a purificar-se das reações pecaminosas da existência material. Por esse avanço na vida, a pessoa não apenas se torna feliz e opulenta nesta vida, mas, ao final, também entra no reino eterno de Deus, fundindo-se no Brahman impessoal ou associando-se com a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/4/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/31/", "verse_text": "nāyaṁ loko 'sty ayajñasya\n\nkuto 'nyaḥ kuru-sattama", "devanagari": "> नायं लोकोऽस्त्ययज्ञस्य कुतोऽन्यः कुरुसत्तम ॥३१॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ayam*—este; *lokaḥ*—planeta; *asti*—há; *ayajñasya*—do tolo; *kutaḥ*—onde está; *anyaḥ*—o outro; *kuru-sattama*—ó melhor entre os Kurus.", "translation": "**Ó melhor da dinastia Kuru, sem sacrifício, jamais se pode viver feliz neste planeta ou nesta vida: que dirá da próxima?**", "purport": "Qualquer que seja a forma de existência material em que a pessoa se encontre, ela é invariavelmente ignorante de sua verdadeira situação. Em outras palavras, a existência no mundo material deve-se às múltiplas reações de nossas vidas pecaminosas. A ignorância é a causa da vida pecaminosa, e a vida pecaminosa é a causa de a pessoa arrastar-se na existência material. A forma humana de vida é a única brecha pela qual se pode sair desse enredamento. Os *Vedas*, por isso, dão-nos uma chance de escapar, indicando as sendas da religião, do conforto econômico, da gratificação dos sentidos regulada e, por fim, os meios para sair inteiramente da condição miserável. A senda da religião, ou das diferentes modalidades de sacrifício recomendadas acima, resolve automaticamente nossos problemas econômicos. Pela execução do *yajña*, podemos ter alimento suficiente, leite suficiente, etc. — mesmo que haja um suposto aumento da população. Quando o corpo está plenamente abastecido, naturalmente a fase seguinte é satisfazer os sentidos. Os *Vedas*, portanto, prescrevem o casamento sagrado para a gratificação dos sentidos regulada. Dessa maneira, a pessoa é gradualmente elevada ao plano da libertação do cativeiro material, e a perfeição mais elevada da vida liberada é associar-se com o Senhor Supremo. A perfeição alcança-se pela execução do *yajña* (sacrifício), conforme se descreveu acima. Ora, se uma pessoa não está inclinada a executar o *yajña* segundo os *Vedas*, como pode esperar uma vida feliz? Há diferentes graus de confortos materiais em diferentes planetas celestiais e, em todos os casos, há imensa felicidade para as pessoas ocupadas em diferentes modalidades de *yajña*. Mas o tipo mais elevado de felicidade que um homem pode alcançar é ser promovido aos planetas espirituais pela prática da consciência de Kṛṣṇa. Uma vida de consciência de Kṛṣṇa é, por isso, a solução para todos os problemas da existência material."}
{"ref": "bg/4/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/32/", "verse_text": "evaṁ bahu-vidhā yajñā\n\nvitatā brahmaṇo mukhe\n\nkarma-jān viddhi tān sarvān\n\nevaṁ jñātvā vimokṣyase", "devanagari": "> एवं बहुविधा यज्ञा वितता ब्रह्मणो मुखे ।\n> कर्मजान्विद्धि तान्सर्वानेवं ज्ञात्वा विमोक्ष्यसे ॥३२॥", "synonyms": "*evam*—assim; *bahu-vidhāḥ*—várias modalidades de; *yajñāḥ*—sacrifícios; *vitatāḥ*—difundidos; *brahmaṇaḥ*—dos Vedas; *mukhe*—na face de; *karma-jān*—nascidos do trabalho; *viddhi*—saiba; *tān*—eles; *sarvān*—todos; *evam*—assim; *jñātvā*—sabendo; *vimokṣyase*—será liberto.", "translation": "**Todos esses diferentes tipos de sacrifício são aprovados pelos *Vedas*, e todos eles nascem de diferentes tipos de trabalho. Conhecendo-os assim, você se tornará liberto.**", "purport": "Diferentes tipos de sacrifício, conforme discutido acima, são mencionados nos *Vedas* para se adequar aos diferentes tipos de trabalhador. Visto que os homens estão tão profundamente absortos no conceito corporal, esses sacrifícios são organizados de modo que se pode trabalhar com o corpo, com a mente ou com a inteligência. Mas todos eles são recomendados para, em última análise, levar à libertação do corpo. Isso é confirmado pelo Senhor aqui, de Sua própria boca."}
{"ref": "bg/4/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/33/", "verse_text": "śreyān dravya-mayād yajñāj\n\njñāna-yajñaḥ parantapa\n\nsarvaṁ karmākhilaṁ pārtha\n\njñāne parisamāpyate", "devanagari": "> श्रेयान्द्रव्यमयाद्यज्ञाज्ज्ञानयज्ञः परन्तप ।\n> सर्वं कर्माखिलं पार्थ ज्ञाने परिसमाप्यते ॥३३॥", "synonyms": "*śreyān*—maior; *dravyamayāt*—do que o sacrifício de posses materiais; *yajñāt*—conhecimento; *jñāna-yajñaḥ*—sacrifício em conhecimento; *parantapa*—ó castigador do inimigo; *sarvam*—todas; *karma*—atividades; *akhilam*—na totalidade; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *jñāne*—em conhecimento; *parisamāpyate*—termina em.", "translation": "**Ó castigador do inimigo, o sacrifício do conhecimento é maior do que o sacrifício das posses materiais. Ó filho de Pṛthā, afinal, o sacrifício do trabalho culmina em conhecimento transcendental.**", "purport": "O propósito de todos os sacrifícios é chegar ao status de conhecimento completo, depois obter a libertação das misérias materiais e, em última análise, ocupar-se no transcendental serviço amoroso ao Senhor Supremo (consciência de Kṛṣṇa). Não obstante, há um mistério em torno de todas estas diferentes atividades de sacrifício, e deve-se conhecer este mistério. Os sacrifícios às vezes assumem diferentes formas segundo a fé particular do executor. Quando a fé alcança a fase do conhecimento transcendental, o executor de sacrifícios deve ser considerado mais avançado do que aqueles que simplesmente sacrificam posses materiais sem tal conhecimento, pois, sem o alcance do conhecimento, os sacrifícios permanecem no plano material e não conferem benefício espiritual. O verdadeiro conhecimento culmina em consciência de Kṛṣṇa, a fase mais elevada do conhecimento transcendental. Sem a elevação do conhecimento, os sacrifícios são simplesmente atividades materiais. Quando, contudo, são elevados ao nível do conhecimento transcendental, todas essas atividades entram no plano espiritual. Dependendo das diferenças na consciência, as atividades sacrificiais às vezes são chamadas de *karma-kāṇḍa*, atividades fruitivas, e às vezes de *jñāna-kāṇḍa*, conhecimento na busca da verdade. É melhor quando o fim é o conhecimento."}
{"ref": "bg/4/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/34/", "verse_text": "tad viddhi praṇipātena\n\nparipraśnena sevayā\n\nupadekṣyanti te jñānaṁ\n\njñāninas tattva-darśinaḥ", "devanagari": "> तद्विद्धि प्रणिपातेन परिप्रश्नेन सेवया ।\n> उपदेक्ष्यन्ति ते ज्ञानं ज्ञानिनस्तत्त्वदर्शिनः ॥३४॥", "synonyms": "*tat*—esse conhecimento dos diferentes sacrifícios; *viddhi*—procure compreender; *praṇipātena*—aproximando-se de um mestre espiritual; *paripraśnena*—por indagações submissas; *sevayā*—pela prestação de serviço; *upadekṣyanti*—iniciem; *te*—a você; *jñānam*—conhecimento; *jñāninaḥ*—os autorrealizados; *tattva*—verdade; *darśinaḥ*—os videntes.", "translation": "**Procure aprender a verdade aproximando-se de um mestre espiritual. Indague-lhe submissamente e preste-lhe serviço. A alma autorrealizada pode transmitir conhecimento a você porque viu a verdade.**", "purport": "A senda da realização espiritual é, sem dúvida, difícil. O Senhor, por isso, aconselha-nos a abordar um mestre espiritual genuíno, que esteja na linha de sucessão discipular a partir do próprio Senhor. Ninguém pode ser um mestre espiritual genuíno sem seguir este princípio da sucessão discipular. O Senhor é o mestre espiritual original, e uma pessoa na sucessão discipular pode transmitir a mensagem do Senhor tal como é a seu discípulo. Ninguém pode realizar-se espiritualmente fabricando seu próprio processo, como é o costume dos tolos pretendentes. O *Bhāgavatam* diz: *dharmaṁ hi sākṣād-bhagavat-praṇītam* — a senda da religião é diretamente enunciada pelo Senhor. Por isso, a especulação mental ou os argumentos áridos não podem ajudar a pessoa a progredir na vida espiritual. É preciso aproximar-se de um mestre espiritual genuíno para receber o conhecimento. Tal mestre espiritual deve ser aceito em plena rendição, e deve-se servir o mestre espiritual como um servo humilde, sem falso prestígio. A satisfação do mestre espiritual autorrealizado é o segredo do avanço na vida espiritual. As indagações e a submissão constituem a combinação adequada para a compreensão espiritual. A menos que haja submissão e serviço, as indagações ao mestre espiritual erudito não serão eficazes. Deve-se ser capaz de passar pelo teste do mestre espiritual e, quando ele vir o desejo genuíno do discípulo, automaticamente abençoará o discípulo com a compreensão espiritual genuína. Neste verso, tanto o seguir cego quanto as indagações absurdas são condenados. Não se deve apenas ouvir submissamente do mestre espiritual; é preciso também obter dele uma compreensão clara, em submissão, serviço e indagações. Um mestre espiritual genuíno é, por natureza, muito bondoso para com o discípulo. Por isso, quando o aluno é submisso e está sempre pronto a prestar serviço, a reciprocação de conhecimento e indagações torna-se perfeita."}
{"ref": "bg/4/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/35/", "verse_text": "yaj jñātvā na punar moham\n\nevaṁ yāsyasi pāṇḍava\n\nyena bhūtāny aśeṣāṇi\n\ndrakṣyasy ātmany atho mayi", "devanagari": "> यज्ज्ञात्वा न पुनर्मोहमेवं यास्यसि पाण्डव ।\n> येन भूतान्यशेषेण द्रक्ष्यस्यात्मन्यथो मयि ॥३५॥", "synonyms": "*yat*—o qual; *jñātvā*—conhecendo; *na*—nunca; *punaḥ*—novamente; *moham*—ilusão; *evam*—assim; *yāsyasi*—você irá; *pāṇḍava*—ó filho de Pāṇḍu; *yena*—pelo qual; *bhūtāni*—todas as entidades vivas; *aśesāṇi*—totalmente; *drakṣyasi*—você verá; *ātmani*—na Alma Suprema; *atho*—ou em outras palavras; *mayi*—em Mim.", "translation": "**E quando você assim tiver aprendido a verdade, saberá que todos os seres vivos são apenas parte de Mim — e que estão em Mim, e são Meus.**", "purport": "O resultado de receber conhecimento de uma alma autorrealizada, ou daquele que conhece as coisas tal como são, é aprender que todos os seres vivos são partes integrantes da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa. O sentido de uma existência separada de Kṛṣṇa chama-se *māyā* (*mā*–não, *yā*–isto). Alguns pensam que nada temos a ver com Kṛṣṇa, que Kṛṣṇa é apenas uma grande personalidade histórica e que o Absoluto é o Brahman impessoal. Na verdade, como se afirma no *Bhagavad-gītā*, este Brahman impessoal é a refulgência pessoal de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, como a Suprema Personalidade de Deus, é a causa de tudo. No Brahma-saṁhitā, afirma-se claramente que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas. Mesmo os milhões de encarnações são apenas Suas diferentes expansões. De modo semelhante, as entidades vivas também são expansões de Kṛṣṇa. Os filósofos *māyāvādīs* pensam erroneamente que Kṛṣṇa perde Sua própria existência separada em Suas muitas expansões. Esse pensamento é material por natureza. Temos experiência no mundo material de que uma coisa, quando distribuída fragmentariamente, perde sua identidade original. Mas os filósofos *māyāvādīs* deixam de compreender que Absoluto significa que um mais um é igual a um, e que um menos um também é igual a um. Esse é o caso no mundo absoluto.\n\n\n\nPor falta de conhecimento suficiente na ciência absoluta, agora estamos cobertos pela ilusão e, por isso, pensamos que somos separados de Kṛṣṇa. Embora sejamos partes separadas de Kṛṣṇa, não somos, contudo, diferentes Dele. A diferença corporal das entidades vivas é *māyā*, ou não é fato real. Todos nós nos destinamos a satisfazer Kṛṣṇa. Foi somente por *māyā* que Arjuna pensou que a relação corporal temporária com seus parentes era mais importante do que sua relação espiritual eterna com Kṛṣṇa. Todo o ensinamento do *Gītā* visa a este fim: que um ser vivo, como Seu servidor eterno, não pode ser separado de Kṛṣṇa, e seu sentido de ser uma identidade separada de Kṛṣṇa chama-se *māyā*. As entidades vivas, como partes integrantes separadas do Supremo, têm um propósito a cumprir. Tendo esquecido esse propósito, desde tempos imemoriais elas se situam em diferentes corpos, como homens, animais, semideuses, etc. Tais diferenças corporais surgem do esquecimento do serviço transcendental ao Senhor. Mas, quando se está ocupado no serviço transcendental por meio da consciência de Kṛṣṇa, fica-se de imediato livre desta ilusão. Tal conhecimento puro só pode ser adquirido com o mestre espiritual genuíno e, dessa forma, evitar o engano de que a entidade viva é igual a Kṛṣṇa. O conhecimento perfeito é que a Alma Suprema, Kṛṣṇa, é o refúgio supremo para todas as entidades vivas e que, abandonando tal refúgio, as entidades vivas são iludidas pela energia material, imaginando ter uma identidade separada. Assim, sob diferentes padrões de identidade material, tornam-se esquecidas de Kṛṣṇa. Quando, no entanto, tais entidades vivas iludidas se situam em consciência de Kṛṣṇa, deve-se compreender que estão na senda da liberação, como se confirma no *Bhāgavatam*: *muktir hitvānyathā rūpaṁ svarūpeṇa vyavasthitiḥ*. Liberação significa estar situado na própria posição constitucional como o servidor eterno de Kṛṣṇa (consciência de Kṛṣṇa)."}
{"ref": "bg/4/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/36/", "verse_text": "api ced asi pāpebhyaḥ\n\nsarvebhyaḥ pāpa-kṛt-tamaḥ\n\nsarvaṁ jñāna-plavenaiva\n\nvṛjinaṁ santariṣyasi", "devanagari": "> अपि चेदसि पापेभ्यः सर्वेभ्यः पापकृत्तमः ।\n> सर्वं ज्ञानप्लवेनैव वृजिनं सन्तरिष्यसि ॥३६॥", "synonyms": "*api*—mesmo; *cet*—se; *asi*—você é; *pāpebhyaḥ*—dos pecadores; *sarvebhyaḥ*—de todos; *pāpa-kṛttamaḥ*—o maior pecador; *sarvam*—todas essas ações pecaminosas; *jñāna-plavena*—pelo barco do conhecimento transcendental; *eva*—certamente; *vṛjinam*—o oceano das misérias; *santariṣyasi*—você atravessará completamente.", "translation": "**Mesmo que você seja considerado o mais pecador de todos os pecadores, quando estiver situado no barco do conhecimento transcendental, será capaz de atravessar o oceano das misérias.**", "purport": "A correta compreensão da própria posição constitucional em relação a Kṛṣṇa é tão maravilhosa que pode, de imediato, erguer a pessoa da luta pela existência que se trava no oceano da nesciência. Este mundo material às vezes é considerado um oceano de nesciência e, às vezes, uma floresta em chamas. No oceano, por mais perito nadador que se seja, a luta pela existência é muito severa. Se alguém vem em socorro e ergue do oceano o nadador em luta, é o maior salvador. O conhecimento perfeito, recebido da Suprema Personalidade de Deus, é a senda da liberação. O barco da consciência de Kṛṣṇa é muito simples, mas, ao mesmo tempo, o mais sublime."}
{"ref": "bg/4/37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/37/", "verse_text": "yathaidhāṁsi samiddho 'gnir\n\nbhasma-sāt kurute 'rjuna\n\njñānāgniḥ sarva-karmāṇi\n\nbhasma-sāt kurute tathā", "devanagari": "> यथैधांसि समिद्धोऽग्निर्भस्मसात्कुरुतेऽर्जुन ।\n> ज्ञानाग्निः सर्वकर्माणि भस्मसात्कुरुते तथा ॥३७॥", "synonyms": "*yathā*—assim como; *edhāṁsi*—lenha; *samiddhaḥ*—em chamas; *agniḥ*—fogo; *bhasmasāt*—transforma em cinzas; *kurute*—assim faz; *arjuna*—ó Arjuna; *jñāna-agniḥ*—o fogo do conhecimento; *sarva-karmāṇi*—todas as reações às atividades materiais; *bhasmasāt*—em cinzas; *kurute*—assim faz; *tathā*—de modo semelhante.", "translation": "**Assim como o fogo em chamas transforma a lenha em cinzas, ó Arjuna, da mesma forma o fogo do conhecimento queima até as cinzas todas as reações às atividades materiais.**", "purport": "O conhecimento perfeito do eu e do Supereu, e da relação entre ambos, é aqui comparado ao fogo. Este fogo não apenas queima todas as reações às atividades ímpias, mas também todas as reações às atividades pias, transformando-as em cinzas. Há muitas fases de reação: reação em formação, reação frutificando, reação já alcançada e reação a priori. Mas o conhecimento da posição constitucional da entidade viva queima tudo até as cinzas. Quando se está em pleno conhecimento, todas as reações, tanto a priori quanto a posteriori, são consumidas. Nos *Vedas*, afirma-se: *ubhe uhaivaiṣa ete taraty amṛtaḥ sādhv-asādhūnī*: \"A pessoa supera tanto as interações pias quanto as ímpias do trabalho.\""}
{"ref": "bg/4/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/38/", "verse_text": "na hi jñānena sadṛśaṁ\n\npavitram iha vidyate\n\ntat svayaṁ yoga-saṁsiddhaḥ\n\nkālenātmani vindati", "devanagari": "> न हि ज्ञानेन सदृशं पवित्रमिह विद्यते ।\n> तत्स्वयं योगसंसिद्धः कालेनात्मनि विन्दति ॥३८॥", "synonyms": "*na*—nunca; *hi*—certamente; *jñānena*—com o conhecimento; *sadṛśam*—em comparação; *pavitram*—santificado; *iha*—neste mundo; *vidyate*—existe; *tat*—isso; *svayam*—em si mesmo; *yoga*—devoção; *saṁsiddhaḥ*—amadurecida; *kālena*—no curso do tempo; *ātmani*—em si mesmo; *vindati*—desfruta.", "translation": "**Neste mundo, não há nada tão sublime e puro quanto o conhecimento transcendental. Tal conhecimento é o fruto maduro de todo misticismo. E aquele que o alcançou desfruta o ser dentro de si mesmo no devido curso do tempo.**", "purport": "Quando falamos de conhecimento transcendental, fazemo-lo em termos de compreensão espiritual. Como tal, não há nada tão sublime e puro quanto o conhecimento transcendental. A ignorância é a causa de nosso cativeiro, e o conhecimento é a causa de nossa liberação. Este conhecimento é o fruto maduro do serviço devocional e, quando se está situado em conhecimento transcendental, não é preciso buscar a paz em outro lugar, pois desfruta-se da paz dentro de si mesmo. Em outras palavras, este conhecimento e esta paz culminam em consciência de Kṛṣṇa. Esta é a última palavra do *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "bg/4/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/39/", "verse_text": "śraddhāvāl labhate jñānaṁ\n\ntat-paraḥ saṁyatendriyaḥ\n\njñānaṁ labdhvā parāṁ śāntim\n\nacireṇādhigacchati", "devanagari": "> श्रद्धावाँल्लभते ज्ञानं तत्परः संयतेन्द्रियः ।\n> ज्ञानं लब्ध्वा परां शान्तिमचिरेणाधिगच्छति ॥३९॥", "synonyms": "*śraddhāvān*—um homem fiel; *labhate*—alcança; *jñānam*—conhecimento; *tat-paraḥ*—muito apegado a ele; *saṁyata*—controlados; *indriyaḥ*—sentidos; *jñanam*—conhecimento; *labdhvā*—tendo alcançado; *parām*—transcendental; *śāntim*—paz; *acireṇa*—muito em breve; *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**Um homem fiel que está absorto em conhecimento transcendental e que subjuga seus sentidos alcança rapidamente a suprema paz espiritual.**", "purport": "Tal conhecimento em consciência de Kṛṣṇa pode ser alcançado por uma pessoa fiel que crê firmemente em Kṛṣṇa. Chama-se de homem fiel aquele que pensa que, simplesmente agindo em consciência de Kṛṣṇa, pode alcançar a mais alta perfeição. Esta fé alcança-se pela execução do serviço devocional e pelo canto de \"Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare\", que purifica o coração de toda sujeira material. Acima e além disso, deve-se controlar os sentidos. Uma pessoa que é fiel a Kṛṣṇa e que controla os sentidos pode facilmente alcançar a perfeição no conhecimento da consciência de Kṛṣṇa, sem demora."}
{"ref": "bg/4/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/40/", "verse_text": "ajñaś cāśraddadhānaś ca\n\nsaṁśayātmā vinaśyati\n\nnāyaṁ loko 'sti na paro\n\nna sukhaṁ saṁśayātmanaḥ", "devanagari": "> अज्ञश्चाश्रद्दधानश्च संशयात्मा विनश्यति ।\n> नायं लोकोऽस्ति न परो न सुखं संशयात्मनः ॥४०॥", "synonyms": "*ajñaḥ*—tolos que não têm conhecimento das escrituras padrão; *ca*—e; *aśraddadhānaḥ*—sem fé nas escrituras reveladas; *ca*—também; *saṁśaya*—dúvidas; *ātmā*—pessoa; *vinaśyati*—retrocede; *na*—nunca; *ayam*—este; *lokaḥ*—mundo; *asti*—há; *na*—nem; *paraḥ*—próxima vida; *na*—não; *sukham*—felicidade; *saṁśaya*—duvidoso; *ātmanaḥ*—da pessoa.", "translation": "**Mas as pessoas ignorantes e sem fé que duvidam das escrituras reveladas não alcançam a consciência de Deus. Para a alma duvidosa, não há felicidade nem neste mundo nem no próximo.**", "purport": "De muitas escrituras reveladas, padrão e autoritativas, o *Bhagavad-gītā* é a melhor. As pessoas que são quase como animais não têm fé nem conhecimento das escrituras reveladas padrão; e algumas, embora tenham conhecimento ou possam citar passagens das escrituras reveladas, não têm, na verdade, fé nestas palavras. E, mesmo que outras tenham fé em escrituras como o *Bhagavad-gītā*, não creem na Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, nem A adoram. Tais pessoas não podem ter qualquer posição em consciência de Kṛṣṇa. Elas caem. Dentre todas as pessoas acima mencionadas, aquelas que não têm fé e estão sempre duvidosas não fazem progresso algum. Os homens sem fé em Deus e em Sua palavra revelada não encontram nada de bom neste mundo, nem no próximo. Para eles não há felicidade alguma. Por conseguinte, deve-se seguir os princípios das escrituras reveladas com fé e, dessa forma, ser elevado ao plano do conhecimento. Somente este conhecimento ajudará a pessoa a ser promovida ao plano transcendental da compreensão espiritual. Em outras palavras, as pessoas duvidosas não têm posição alguma na emancipação espiritual. Por isso, deve-se seguir os passos dos grandes *ācāryas* que estão na sucessão discipular e, dessa forma, alcançar o êxito."}
{"ref": "bg/4/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/41/", "verse_text": "yoga-sannyasta-karmāṇaṁ\n\njñāna-sañchinna-saṁśayam\n\nātmavantaṁ na karmāṇi\n\nnibadhnanti dhanañjaya", "devanagari": "> योगसंन्यस्तकर्माणं ज्ञानसञ्छिन्नसंशयम् ।\n> आत्मवन्तं न कर्माणि निबध्नन्ति धनञ्जय ॥४१॥", "synonyms": "*yoga*—serviço devocional em *karma-yoga*; *sannyasta*—renunciados; *karmāṇam*—dos executores; *jñāna*—conhecimento; *sañchinna*—cortadas pelo avanço do conhecimento; *saṁśayam*—dúvidas; *ātma-vantam*—situado no eu; *na*—nunca; *karmāṇi*—trabalho; *nibadhnanti*—prendem; *dhanañjaya*—ó conquistador de riquezas.", "translation": "**Por isso, aquele que renunciou aos frutos de sua ação, cujas dúvidas são destruídas pelo conhecimento transcendental, e que está firmemente situado no eu, não é preso pelos trabalhos, ó conquistador de riquezas.**", "purport": "Aquele que segue a instrução do *Gītā*, tal como ela é transmitida pelo Senhor, a própria Personalidade de Deus, fica livre de todas as dúvidas pela graça do conhecimento transcendental. Ele, como parte integrante do Senhor, em plena consciência de Kṛṣṇa, já está estabelecido no autoconhecimento. Como tal, está sem dúvida acima do cativeiro à ação."}
{"ref": "bg/4/42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/4/42/", "verse_text": "tasmād ajñāna-sambhūtaṁ\n\nhṛt-sthaṁ jñānāsinātmanaḥ\n\nchittvainaṁ saṁśayaṁ yogam\n\nātiṣṭhottiṣṭha bhārata", "devanagari": "> तस्मादज्ञानसम्भूतं हृत्स्थं ज्ञानासिनात्मनः ।\n> छित्त्वैनं संशयं योगमातिष्ठोत्तिष्ठ भारत ॥४२॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *ajñāna-sambhūtam*—resultado da ignorância; *hṛt-stham*—situadas no coração; *jñāna*—conhecimento; *asinā*—pela arma do; *ātmanaḥ*—do eu; *chittvā*—cortando; *enam*—esta; *saṁśayam*—dúvida; *yogam*—em *yoga*; *ātiṣṭha*—situe-se; *uttiṣṭha*—levante-se para lutar; *bhārata*—ó descendente de Bharata.", "translation": "**Portanto, as dúvidas que surgiram em seu coração por ignorância devem ser cortadas pela arma do conhecimento. Armado com o *yoga*, ó Bhārata, levante-se e lute.**", "purport": "O sistema de *yoga* instruído neste capítulo chama-se *sanātana-yoga*, ou atividades eternas executadas pela entidade viva. Este *yoga* tem duas divisões de ações sacrificiais: uma é chamada de sacrifício das próprias posses materiais, e a outra é chamada de conhecimento do eu, que é atividade espiritual pura. Se o sacrifício das próprias posses materiais não for acoplado para a realização espiritual, tal sacrifício torna-se material. Mas aquele que executa tais sacrifícios com um objetivo espiritual, ou em serviço devocional, faz um sacrifício perfeito. Quando chegamos às atividades espirituais, descobrimos que estas também se dividem em duas: a saber, a compreensão do próprio eu (ou da própria posição constitucional) e a verdade a respeito da Suprema Personalidade de Deus. Aquele que segue a senda do *Gītā* tal como ele é, pode compreender muito facilmente estas duas importantes divisões do conhecimento espiritual. Para ele, não há dificuldade em obter conhecimento perfeito do eu como parte integrante do Senhor. E tal compreensão é benéfica para essa pessoa, que facilmente compreende as atividades transcendentais do Senhor. No início deste capítulo, as atividades transcendentais do Senhor foram discutidas pelo próprio Senhor Supremo. Aquele que não compreende as instruções do *Gītā* é desprovido de fé, e deve ser considerado como alguém que faz mau uso da independência fragmentária a ele concedida pelo Senhor. Apesar de tais instruções, aquele que não compreende a verdadeira natureza do Senhor como a Personalidade de Deus eterna, bem-aventurada e onisciente é, certamente, o tolo número um. A ignorância pode ser removida pela aceitação gradual dos princípios da consciência de Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa é despertada por diferentes tipos de sacrifícios aos semideuses, sacrifício a Brahman, sacrifício no celibato, na vida familiar, no controle dos sentidos, na prática do *yoga* místico, na penitência, no abandono das posses materiais, no estudo dos *Vedas* e na participação na instituição social chamada *varṇāśrama-dharma*. Todos esses são conhecidos como sacrifício, e todos eles se baseiam na ação regulada. Mas, dentro de todas essas atividades, o fator importante é a autorrealização. Aquele que busca esse objetivo é o verdadeiro estudante do *Bhagavad-gītā*, mas aquele que duvida da autoridade de Kṛṣṇa retrocede. Por conseguinte, aconselha-se a estudar o *Bhagavad-gītā*, ou qualquer outra escritura, sob a orientação de um mestre espiritual genuíno, com serviço e rendição. Um mestre espiritual genuíno está na sucessão discipular desde tempos eternos, e ele não se desvia em nada das instruções do Senhor Supremo, tal como foram transmitidas há milhões de anos ao deus do sol, de quem as instruções do *Bhagavad-gītā* desceram ao reino terreno. Deve-se, por isso, seguir a senda do *Bhagavad-gītā* tal como expressa no próprio *Gītā* e cuidar-se das pessoas interessadas em si mesmas, em busca de engrandecimento pessoal, que desviam outras da verdadeira senda. O Senhor é, sem dúvida, a pessoa suprema, e Suas atividades são transcendentais. Aquele que compreende isso é uma pessoa liberada desde o próprio início de seu estudo do *Gītā*.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Quarto Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā*, no que se refere ao Conhecimento Transcendental."}
{"ref": "bg/5/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nsannyāsaṁ karmaṇāṁ kṛṣṇa\n\npunar yogaṁ ca śaṁsasi\n\nyac chreya etayor ekaṁ\n\ntan me brūhi su-niścitam", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> संन्यासं कर्मणां कृष्ण पुनर्योगं च शंससि ।\n> यच्छ्रेय एतयोरेकं तन्मे ब्रूहि सुनिश्चितम् ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *sannyāsam*—renúncia; *karmaṇām*—de todas as atividades; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *punaḥ*—novamente; *yogam*—serviço devocional; *ca*—também; *śaṁsasi*—estás louvando; *yat*—o qual; *śreyaḥ*—é benéfico; *etayoḥ*—destes dois; *ekam*—um; *tat*—aquele; *me*—a mim; *brūhi*—por favor, dize; *suniścitam*—definitivamente.", "translation": "**Arjuna disse: Ó Kṛṣṇa, primeiro me pedes que renuncie ao trabalho, e depois recomendas novamente o trabalho com devoção. Agora, terias a bondade de me dizer definitivamente qual destes dois é mais benéfico?**", "purport": "Neste Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, o Senhor diz que o trabalho em serviço devocional é melhor do que a árida especulação mental. O serviço devocional é mais fácil que esta última porque, sendo de natureza transcendental, livra a pessoa das reações. No Segundo Capítulo, explicou-se o conhecimento preliminar sobre a alma e seu enredamento no corpo material. Também ali se explicou como sair desse cativeiro material por meio do buddhi-yoga, ou serviço devocional. No Terceiro Capítulo, explicou-se que a pessoa situada na plataforma do conhecimento já não tem deveres a cumprir. E, no Quarto Capítulo, o Senhor disse a Arjuna que todas as espécies de trabalho sacrificial culminam em conhecimento. Contudo, ao final do Quarto Capítulo, o Senhor aconselhou Arjuna a despertar e lutar, situado em conhecimento perfeito. Assim sendo, ao acentuar simultaneamente a importância tanto do trabalho em devoção quanto da inação em conhecimento, Kṛṣṇa deixou Arjuna perplexo e abalou sua determinação. Arjuna compreende que a renúncia em conhecimento implica a cessação de todas as espécies de trabalho realizadas como atividades sensoriais. Mas se a pessoa executa trabalho em serviço devocional, então como se interrompe o trabalho? Em outras palavras, ele pensa que sannyāsam, ou renúncia em conhecimento, deveria estar inteiramente livre de todas as espécies de atividade, pois trabalho e renúncia lhe parecem incompatíveis. Aparentemente, ele não compreendeu que o trabalho em pleno conhecimento não produz reações e, portanto, equivale à inação. Por isso, ele indaga se deve cessar o trabalho por completo ou trabalhar com pleno conhecimento."}
{"ref": "bg/5/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/2/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nsannyāsaḥ karma-yogaś ca\n\nniḥśreyasa-karāv ubhau\n\ntayos tu karma-sannyāsāt\n\nkarma-yogo viśiṣyate", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> संन्यासः कर्मयोगश्च निःश्रेयसकरावुभौ ।\n> तयोस्तु कर्मसंन्यासात्कर्मयोगो विशिष्यते ॥२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Personalidade de Deus disse; *sannyāsaḥ*—renúncia ao trabalho; *karma-yogaḥ*—trabalho em devoção; *ca*—também; *niḥśreyasa-karau*—ambos conduzindo ao caminho da liberação; *ubhau*—ambos; *tayoḥ*—dos dois; *tu*—porém; *karma-sannyāsāt*—em comparação à renúncia ao trabalho fruitivo; *karma-yogaḥ*—trabalho em devoção; *viśiṣyate*—é melhor.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: A renúncia ao trabalho e o trabalho em devoção são ambos bons para a liberação. Mas, dos dois, o trabalho em serviço devocional é melhor do que a renúncia aos trabalhos.**", "purport": "As atividades fruitivas (em busca da gratificação dos sentidos) são causa de cativeiro material. Enquanto a pessoa estiver ocupada em atividades destinadas a melhorar o padrão do conforto corporal, certamente transmigrará por diferentes tipos de corpos, perpetuando assim o cativeiro material. O *Śrīmad-Bhāgavatam* confirma isto da seguinte maneira:\n\n\n\nnūnaṁ pramattaḥ kurute vikarma yad indriya-prītaya āpṛṇoti\n\nna sādhu manye yata ātmano 'yam asann api kleśada āsa dehaḥ\n\n\n\nparābhavas tāvad abodha-jāto yāvanna jijñāsata ātma-tattvam\n\nyāvat kriyās tāvad idaṁ mano vai karmātmakaṁ yena śarīra-bandhaḥ\n\n\n\nevaṁ manaḥ karma-vaśaṁ prayuṅkte avidyayātmany upadhīyamāne\n\nprītir na yāvan mayi vāsudeve na mucyate deha-yogena tāvat\n\n\n\n\"As pessoas estão loucas pela gratificação dos sentidos e não sabem que este corpo atual, que está repleto de misérias, é resultado de suas atividades fruitivas no passado. Embora este corpo seja temporário, está sempre lhes causando problemas de muitas maneiras. Portanto, agir em prol da gratificação dos sentidos não é bom. Considera-se um fracassado na vida quem não faz nenhuma indagação sobre a natureza do trabalho com vistas aos resultados fruitivos, pois enquanto se estiver absorto na consciência da gratificação dos sentidos, terá de transmigrar de um corpo a outro. Embora a mente possa estar absorta em atividades fruitivas e influenciada pela ignorância, é preciso desenvolver amor pelo serviço devocional a Vāsudeva. Só então se terá a oportunidade de sair do cativeiro da existência material.\" (Bhāg. 5.5.4-6)\n\n\n\nPor conseguinte, jñāna (ou o conhecimento de que não se é este corpo material, mas alma espiritual) não basta para a liberação. É preciso agir na condição de alma espiritual; do contrário, não há escapatória do cativeiro material. A ação em consciência de Kṛṣṇa, contudo, não é ação na plataforma fruitiva. As atividades realizadas em pleno conhecimento fortalecem o avanço da pessoa no conhecimento real. Sem consciência de Kṛṣṇa, a mera renúncia às atividades fruitivas não purifica de fato o coração de uma alma condicionada. Enquanto o coração não estiver purificado, a pessoa terá de trabalhar na plataforma fruitiva. Mas a ação em consciência de Kṛṣṇa ajuda automaticamente a pessoa a escapar do resultado da ação fruitiva, de modo que ela não precise descer à plataforma material. Por isso, a ação em consciência de Kṛṣṇa é sempre superior à renúncia, que sempre comporta o risco de queda. A renúncia sem consciência de Kṛṣṇa é incompleta, como o confirma Śrīla Rūpa Gosvāmī em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu.\n\n\n\nprāpañcikatayā buddhyā hari-sambandhi-vastunaḥ\n\nmumukṣubhiḥ parityāgo vairāgyaṁ phalgu kathyate.\n\n\n\n\"A renúncia, por parte de pessoas ávidas por alcançar a liberação, de coisas relacionadas com a Suprema Personalidade de Deus, embora sejam materiais, chama-se renúncia incompleta.\" A renúncia é completa quando se sabe que tudo o que existe pertence ao Senhor e que ninguém deve reivindicar a propriedade de coisa alguma. Deve-se compreender que, de fato, nada pertence a ninguém. Onde está, então, a questão da renúncia? Aquele que sabe que tudo é propriedade de Kṛṣṇa está sempre situado em renúncia. Visto que tudo pertence a Kṛṣṇa, tudo deve ser empregado no serviço de Kṛṣṇa. Esta forma perfeita de ação em consciência de Kṛṣṇa é muito superior a qualquer renúncia artificial por parte de um sannyāsī da escola māyāvādī."}
{"ref": "bg/5/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/3/", "verse_text": "jñeyaḥ sa nitya-sannyāsī\n\nyo na dveṣṭi na kāṅkṣati\n\nnirdvandvo hi mahā-bāho\n\nsukhaṁ bandhāt pramucyate", "devanagari": "> ज्ञेयः स नित्यसंन्यासी यो न द्वेष्टि न काङ्क्षति ।\n> निर्द्वन्द्वो हि महाबाहो सुखं बन्धात्प्रमुच्यते ॥३॥", "synonyms": "*jñeyaḥ*—deve ser conhecido; *saḥ*—ele; *nitya*—sempre; *sannyāsī*—renunciante; *yaḥ*—quem; *na*—nunca; *dveṣṭi*—detesta; *na*—nem; *kāṅkṣati*—deseja; *nirdvandvaḥ*—livre de todas as dualidades; *hi*—certamente; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *sukham*—felizmente; *bandhāt*—do cativeiro; *pramucyate*—completamente liberado.", "translation": "**Aquele que não odeia nem deseja os frutos de suas atividades é conhecido como sempre renunciado. Tal pessoa, liberada de todas as dualidades, supera facilmente o cativeiro material e está completamente liberada, ó Arjuna de braços poderosos.**", "purport": "Quem está plenamente em consciência de Kṛṣṇa é sempre um renunciante, pois não sente nem ódio nem desejo pelos resultados de suas ações. Tal renunciante, dedicado ao transcendental serviço amoroso ao Senhor, é plenamente qualificado em conhecimento, pois conhece sua posição constitucional em sua relação com Kṛṣṇa. Ele sabe muito bem que Kṛṣṇa é o todo e que ele é parte integrante de Kṛṣṇa. Tal conhecimento é perfeito porque é qualitativa e quantitativamente correto. A concepção de unidade com Kṛṣṇa é incorreta, pois a parte não pode ser igual ao todo. O conhecimento de que se é um em qualidade, mas diferente em quantidade, é o conhecimento transcendental correto, que conduz a pessoa a tornar-se plena em si mesma, sem nada a aspirar nem a lamentar. Não há dualidade em sua mente, pois tudo o que faz, faz por Kṛṣṇa. Estando assim livre da plataforma das dualidades, ele está liberado — mesmo neste mundo material."}
{"ref": "bg/5/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/4/", "verse_text": "sāṅkhya-yogau pṛthag bālāḥ\n\npravadanti na paṇḍitāḥ\n\nekam apy āsthitaḥ samyag\n\nubhayor vindate phalam", "devanagari": "> साङ्ख्ययोगौ पृथग्बालाः प्रवदन्ति न पण्डिताः ।\n> एकमप्यास्थितः सम्यगुभयोर्विन्दते फलम् ॥४॥", "synonyms": "*sāṅkhya*—estudo analítico do mundo material; *yogau*—trabalho em serviço devocional; *pṛthak*—diferentes; *bālāḥ*—menos inteligentes; *pravadanti*—dizem; *na*—nunca; *paṇḍitāḥ*—os eruditos; *ekam*—em um; *api*—embora; *āsthitaḥ*—estando situado; *samyak*—completo; *ubhayoḥ*—de ambos; *vindate*—desfruta; *phalam*—resultado.", "translation": "**Apenas os ignorantes falam do karma-yoga e do serviço devocional como sendo diferentes do estudo analítico do mundo material [sāṅkhya]. Os que são realmente eruditos dizem que aquele que se aplica bem a um destes caminhos alcança os resultados de ambos.**", "purport": "O objetivo do estudo analítico do mundo material é encontrar a alma da existência. A alma do mundo material é Viṣṇu, ou a Superalma. O serviço devocional ao Senhor implica servir à Superalma. Um processo consiste em encontrar a raiz da árvore, e em seguida regar a raiz. O verdadeiro estudante da filosofia sāṅkhya encontra a raiz do mundo material, Viṣṇu, e então, em conhecimento perfeito, ocupa-se no serviço ao Senhor. Em essência, portanto, não há diferença entre os dois, pois o objetivo de ambos é Viṣṇu. Aqueles que não conhecem o fim último dizem que os propósitos do sāṅkhya e do karma-yoga não são os mesmos, mas quem é erudito conhece o objetivo unificador destes diferentes processos."}
{"ref": "bg/5/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/5/", "verse_text": "yat sāṅkhyaiḥ prāpyate sthānaṁ\n\ntad yogair api gamyate\n\nekaṁ sāṅkhyaṁ ca yogaṁ ca\n\nyaḥ paśyati sa paśyati", "devanagari": "> यत्साङ्ख्यैः प्राप्यते स्थानं तद्योगैरपि गम्यते ।\n> एकं साङ्ख्यं च योगं च यः पश्यति स पश्यति ॥५॥", "synonyms": "*yat*—o que; *sāṅkhyaiḥ*—por meio da filosofia sāṅkhya; *prāpyate*—é alcançado; *sthānam*—lugar; *tat*—aquele; *yogaiḥ*—por meio do serviço devocional; *api*—também; *gamyate*—pode-se atingir; *ekam*—um; *sāṅkhyam*—estudo analítico; *ca*—e; *yogam*—ação em devoção; *ca*—e; *yaḥ*—aquele que; *paśyati*—vê; *saḥ*—ele; *paśyati*—realmente vê.", "translation": "**Aquele que sabe que a posição alcançada por meio da renúncia também pode ser atingida por trabalhos em serviço devocional, e que portanto vê que o caminho dos trabalhos e o caminho da renúncia são um só, vê as coisas como são.**", "purport": "O verdadeiro propósito da pesquisa filosófica é encontrar o objetivo último da vida. Visto que o objetivo último da vida é a autorrealização, não há diferença entre as conclusões alcançadas pelos dois processos. Pela pesquisa filosófica sāṅkhya, chega-se à conclusão de que a entidade viva não é parte integrante do mundo material, mas do todo espiritual supremo. Por conseguinte, a alma espiritual nada tem a ver com o mundo material; suas ações devem manter alguma relação com o Supremo. Quando age em consciência de Kṛṣṇa, ela está realmente em sua posição constitucional. No primeiro processo, o do sāṅkhya, é preciso desapegar-se da matéria, e no processo do yoga devocional é preciso apegar-se ao trabalho de Kṛṣṇa. De fato, ambos os processos são o mesmo, embora superficialmente um pareça envolver desapego e o outro pareça envolver apego. Contudo, o desapego da matéria e o apego a Kṛṣṇa são uma e a mesma coisa. Quem pode ver isso vê as coisas como são."}
{"ref": "bg/5/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/6/", "verse_text": "sannyāsas tu mahā-bāho\n\nduḥkham āptum ayogataḥ\n\nyoga-yukto munir brahma\n\nna cireṇādhigacchati", "devanagari": "> संन्यासस्तु महाबाहो दुःखमाप्तुमयोगतः ।\n> योगयुक्तो मुनिर्ब्रह्म नचिरेणाधिगच्छति ॥६॥", "synonyms": "*sannyāsaḥ*—a ordem de vida renunciada; *tu*—porém; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *duḥkham*—aflição; *āptum*—ser afligido por; *ayogataḥ*—sem serviço devocional; *yoga-yuktaḥ*—quem está ocupado em serviço devocional; *muniḥ*—pensador; *brahma*—Supremo; *na*—sem; *cireṇa*—demora; *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**A menos que se esteja ocupado no serviço devocional ao Senhor, a mera renúncia às atividades não pode tornar a pessoa feliz. Os sábios, purificados pelos trabalhos em devoção, alcançam o Supremo sem demora.**", "purport": "Há duas classes de sannyāsīs, ou pessoas na ordem de vida renunciada. Os sannyāsīs māyāvādīs ocupam-se no estudo da filosofia sāṅkhya, ao passo que os sannyāsīs vaiṣṇavas ocupam-se no estudo da filosofia do *Bhāgavatam*, que oferece o comentário adequado aos Vedānta-sūtras. Os sannyāsīs māyāvādīs também estudam os Vedānta-sūtras, mas utilizam seu próprio comentário, chamado Śārīraka-bhāṣya, escrito por Śaṅkarācārya. Os estudantes da escola Bhāgavata ocupam-se no serviço devocional ao Senhor, segundo as regulações pāñcarātrikīs, e por isso os sannyāsīs vaiṣṇavas têm múltiplas ocupações no serviço transcendental ao Senhor. Os sannyāsīs vaiṣṇavas nada têm a ver com atividades materiais, e contudo executam diversas atividades em seu serviço devocional ao Senhor. Mas os sannyāsīs māyāvādīs, ocupados nos estudos do sāṅkhya e do Vedānta e na especulação, não conseguem saborear o serviço transcendental ao Senhor. Como seus estudos se tornam muito tediosos, às vezes se cansam da especulação sobre o Brahman, e então se abrigam no *Bhāgavatam* sem o devido entendimento. Em consequência, seu estudo do *Śrīmad-Bhāgavatam* torna-se penoso. As áridas especulações e as interpretações impessoais por meios artificiais são todas inúteis para os sannyāsīs māyāvādīs. Os sannyāsīs vaiṣṇavas, que se ocupam em serviço devocional, são felizes no desempenho de seus deveres transcendentais, e têm a garantia de entrar finalmente no reino de Deus. Os sannyāsīs māyāvādīs por vezes caem do caminho da autorrealização e voltam a entrar em atividades materiais de natureza filantrópica e altruísta, que não passam de ocupações materiais. Conclui-se, portanto, que os que se ocupam em consciência de Kṛṣṇa estão mais bem situados do que os sannyāsīs ocupados em mera especulação sobre o Brahman, embora estes também cheguem à consciência de Kṛṣṇa, depois de muitos nascimentos."}
{"ref": "bg/5/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/7/", "verse_text": "yoga-yukto viśuddhātmā\n\nvijitātmā jitendriyaḥ\n\nsarva-bhūtātma-bhūtātmā\n\nkurvann api na lipyate", "devanagari": "> योगयुक्तो विशुद्धात्मा विजितात्मा जितेन्द्रियः ।\n> सर्वभूतात्मभूतात्मा कुर्वन्नपि न लिप्यते ॥७॥", "synonyms": "*yoga-yuktaḥ*—ocupado em serviço devocional; *viśuddha-ātmā*—uma alma purificada; *vijita-ātmā*—autocontrolado; *jita-indriyaḥ*—tendo conquistado os sentidos; *sarvabhuta-ātmabhūta-ātmā*—compassivo para com todas as entidades vivas; *kurvan api*—embora ocupado em trabalho; *na*—nunca; *lipyate*—enreda-se.", "translation": "**Aquele que trabalha em devoção, que é uma alma pura e que controla a mente e os sentidos, é querido por todos, e todos são queridos por ele. Embora sempre trabalhe, tal homem nunca se enreda.**", "purport": "Aquele que está no caminho da liberação por meio da consciência de Kṛṣṇa é muito querido por todo ser vivo, e todo ser vivo lhe é querido. Isto se deve à sua consciência de Kṛṣṇa. Tal pessoa não pode pensar em nenhum ser vivo como separado de Kṛṣṇa, assim como as folhas e os ramos de uma árvore não estão separados da árvore. Ela sabe muito bem que, ao se regar a raiz da árvore, a água será distribuída a todas as folhas e ramos, ou que, ao se fornecer alimento ao estômago, a energia se distribui automaticamente por todo o corpo. Como aquele que trabalha em consciência de Kṛṣṇa é servo de todos, é muito querido por todos. E, como todos ficam satisfeitos com seu trabalho, ele é puro em consciência. Por ser puro em consciência, sua mente está completamente controlada. E, como sua mente está controlada, seus sentidos também estão controlados. Como sua mente está sempre fixa em Kṛṣṇa, não há possibilidade de ele se desviar de Kṛṣṇa. Tampouco há possibilidade de ele ocupar seus sentidos em assuntos que não sejam o serviço ao Senhor. Ele não gosta de ouvir nada exceto tópicos referentes a Kṛṣṇa; não gosta de comer nada que não tenha sido oferecido a Kṛṣṇa; e não deseja ir a lugar algum onde Kṛṣṇa não esteja envolvido. Por isso, seus sentidos estão controlados. Um homem de sentidos controlados não pode ser ofensivo a ninguém. Pode-se perguntar: \"Por que então Arjuna foi ofensivo (em batalha) para com outros? Não estaria ele em consciência de Kṛṣṇa?\" Arjuna foi ofensivo apenas superficialmente, pois (como já se explicou no Segundo Capítulo) todas as pessoas reunidas no campo de batalha continuariam a viver individualmente, já que a alma não pode ser morta. Assim, espiritualmente, ninguém foi morto no Campo de Batalha de Kurukṣetra. Apenas suas vestes foram trocadas por ordem de Kṛṣṇa, que estava pessoalmente presente. Por conseguinte, Arjuna, ao lutar no Campo de Batalha de Kurukṣetra, não estava realmente lutando; estava simplesmente cumprindo as ordens de Kṛṣṇa em plena consciência de Kṛṣṇa. Tal pessoa nunca se enreda nas reações do trabalho."}
{"ref": "bg/5/8-9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/8-9/", "verse_text": "naiva kiñcit karomīti\n\nyukto manyeta tattva-vit\n\npaśyañ śṛṇvan spṛśañ jighrann\n\naśnan gacchan svapan śvasan\n\npralapan visṛjan gṛhṇann\n\nunmiṣan nimiṣann api\n\nindriyāṇīndriyārtheṣu\n\nvartanta iti dhārayan", "devanagari": "> नैव किञ्चित्करोमीति युक्तो मन्येत तत्त्ववित् ।\n> पश्यञ्शृण्वन्स्पृशञ्जिघ्रन्नश्नन्गच्छन्स्वपञ्श्वसन् ॥८॥\n> प्रलपन्विसृजन्गृह्णन्नुन्मिषन्निमिषन्नपि ।\n> इन्द्रियाणीन्द्रियार्थेषु वर्तन्त इति धारयन् ॥९॥", "synonyms": "*na*—nunca; *eva*—certamente; *kiñcit*—coisa alguma; *karomi*—faço; *iti*—assim; *yuktaḥ*—ocupado na consciência divina; *manyeta*—pensa; *tattvavit*—aquele que conhece a verdade; *paśyan*—vendo; *śṛṇvan*—ouvindo; *spṛśan*—tocando; *jighran*—cheirando; *aśnan*—comendo; *gacchan*—indo; *svapan*—sonhando; *śvasan*—respirando; *pralapan*—falando; *visṛjan*—abandonando; *gṛhṇan*—aceitando; *unmiṣan*—abrindo; *nimiṣan*—fechando; *api*—apesar de; *indriyāṇi*—os sentidos; *indriya-artheṣu*—na gratificação dos sentidos; *vartante*—que se ocupem assim; *iti*—assim; *dhārayan*—considerando.", "translation": "**Uma pessoa em consciência divina, embora ocupada em ver, ouvir, tocar, cheirar, comer, locomover-se, dormir e respirar, sempre sabe interiormente que de fato nada faz. Pois enquanto fala, evacua, recebe, abre ou fecha os olhos, sempre sabe que apenas os sentidos materiais é que estão ocupados com seus objetos e que ela está afastada deles.**", "purport": "Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa é pura em sua existência e, em consequência, nada tem a ver com qualquer trabalho que dependa de cinco causas imediatas e remotas: o agente, o trabalho, a situação, o esforço e a fortuna. Isso ocorre porque ela está ocupada no transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa. Embora pareça estar agindo com seu corpo e seus sentidos, sempre está consciente de sua posição real, que é a ocupação espiritual. Na consciência material, os sentidos ocupam-se na gratificação dos sentidos, mas na consciência de Kṛṣṇa os sentidos ocupam-se na satisfação dos sentidos de Kṛṣṇa. Por isso, a pessoa consciente de Kṛṣṇa está sempre livre, ainda que pareça ocupada em coisas dos sentidos. Atividades como ver, ouvir, falar, evacuar, etc., são ações dos sentidos destinadas ao trabalho. A pessoa consciente de Kṛṣṇa nunca é afetada pelas ações dos sentidos. Ela não pode realizar nenhum ato senão em serviço ao Senhor, pois sabe que é o servo eterno do Senhor."}
{"ref": "bg/5/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/10/", "verse_text": "brahmaṇy ādhāya karmāṇi\n\nsaṅgaṁ tyaktvā karoti yaḥ\n\nlipyate na sa pāpena\n\npadma-patram ivāmbhasā", "devanagari": "> ब्रह्मण्याधाय कर्माणि सङ्गं त्यक्त्वा करोति यः ।\n> लिप्यते न स पापेन पद्मपत्रमिवाम्भसा ॥१०॥", "synonyms": "*brahmaṇi*—à Suprema Personalidade de Deus; *ādhāya*—entregando; *karmāṇi*—todos os trabalhos; *saṅgam*—apego; *tyaktvā*—abandonando; *karoti*—executa; *yaḥ*—quem; *lipyate*—é afetado; *na*—nunca; *saḥ*—ele; *pāpena*—pelo pecado; *padma-patram*—folha de lótus; *iva*—como; *ambhasā*—na água.", "translation": "**Aquele que executa seu dever sem apego, entregando os resultados ao Deus Supremo, não é afetado pela ação pecaminosa, assim como a folha de lótus permanece intocada pela água.**", "purport": "Aqui brahmaṇi significa em consciência de Kṛṣṇa. O mundo material é uma soma total da manifestação dos três modos da natureza material, tecnicamente chamada pradhāna. Os hinos Védicos sarvam etad brahma, tasmād etad brahma nāma-rūpam annaṁ ca jāyate, e, no *Bhagavad-gītā*, mama yonir mahad brahma, indicam que tudo no mundo material é manifestação do Brahman; e, embora os efeitos se manifestem de modo distinto, não são diferentes da causa. No *Īśopaniṣad* afirma-se que tudo está relacionado com o Brahman Supremo, ou Kṛṣṇa, e que portanto tudo pertence somente a Ele. Aquele que sabe perfeitamente bem que tudo pertence a Kṛṣṇa, que Ele é o proprietário de tudo e que, por isso, tudo se ocupa no serviço ao Senhor, naturalmente nada tem a ver com os resultados de suas atividades, sejam virtuosos ou pecaminosos. Mesmo o corpo material da pessoa, sendo um dom do Senhor para a execução de determinado tipo de ação, pode ser empregado em consciência de Kṛṣṇa. Está além da contaminação por reações pecaminosas, exatamente como a folha de lótus, embora permaneça na água, não se molha. O Senhor também diz no *Gītā*: mayi sarvāṇi karmāṇi sannyasya: \"Renuncia a todos os trabalhos a Mim [Kṛṣṇa].\" A conclusão é que a pessoa sem consciência de Kṛṣṇa age conforme a concepção do corpo e dos sentidos materiais, mas a pessoa em consciência de Kṛṣṇa age conforme o conhecimento de que o corpo é propriedade de Kṛṣṇa e deve, portanto, ser empregado no serviço de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/5/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/11/", "verse_text": "kāyena manasā buddhyā\n\nkevalair indriyair api\n\nyoginaḥ karma kurvanti\n\nsaṅgaṁ tyaktvātma-śuddhaye", "devanagari": "> कायेन मनसा बुद्ध्या केवलैरिन्द्रियैरपि ।\n> योगिनः कर्म कुर्वन्ति सङ्गं त्यक्त्वात्मशुद्धये ॥११॥", "synonyms": "*kāyena*—com o corpo; *manasā*—com a mente; *buddhyā*—com a inteligência; *kevalaiḥ*—purificados; *indriyaiḥ*—com os sentidos; *api*—mesmo com; *yoginaḥ*—as pessoas conscientes de Kṛṣṇa; *karma*—ações; *kurvanti*—elas agem; *saṅgam*—apego; *tyaktvā*—abandonando; *ātma*—do eu; *śuddhaye*—com o propósito de purificação.", "translation": "**Os yogīs, abandonando o apego, agem com o corpo, a mente, a inteligência e mesmo com os sentidos, somente com o propósito de purificação.**", "purport": "Ao agir-se em consciência de Kṛṣṇa para a satisfação dos sentidos de Kṛṣṇa, qualquer ação, seja do corpo, da mente, da inteligência ou mesmo dos sentidos, purifica-se da contaminação material. Não há reações materiais resultantes das atividades de uma pessoa consciente de Kṛṣṇa. Por conseguinte, as atividades purificadas, geralmente chamadas sadācāra, podem ser facilmente executadas ao se agir em consciência de Kṛṣṇa. Śrī Rūpa Gosvāmī, em seu *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*, descreve isto da seguinte maneira:\n\n\n\nīhā yasya harer dāsye karmaṇā manasā girā\n\nnikhilāsv apy avasthāsu jīvanmuktaḥ sa ucyate\n\n\n\nUma pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa (ou, em outras palavras, em serviço a Kṛṣṇa) com seu corpo, sua mente, sua inteligência e suas palavras é uma pessoa liberada mesmo dentro do mundo material, embora possa estar ocupada em muitas atividades supostamente materiais. Não tem ego falso, nem acredita ser este corpo material, nem que possua o corpo. Sabe que não é este corpo e que este corpo não lhe pertence. Ele próprio pertence a Kṛṣṇa, e o corpo também pertence a Kṛṣṇa. Quando emprega tudo o que se produz do corpo, da mente, da inteligência, das palavras, da vida, da riqueza, etc. — tudo o que possa ter em sua posse — no serviço de Kṛṣṇa, imediatamente se acopla com Kṛṣṇa. Está em unidade com Kṛṣṇa e está desprovido do ego falso que leva a pessoa a crer que é o corpo, etc. Esta é a etapa perfeita da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/5/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/12/", "verse_text": "yuktaḥ karma-phalaṁ tyaktvā\n\nśāntim āpnoti naiṣṭhikīm\n\nayuktaḥ kāma-kāreṇa\n\nphale sakto nibadhyate", "devanagari": "> युक्तः कर्मफलं त्यक्त्वा शान्तिमाप्नोति नैष्ठिकीम् ।\n> अयुक्तः कामकारेण फले सक्तो निबध्यते ॥१२॥", "synonyms": "*yuktaḥ*—aquele que está ocupado em serviço devocional; *karma-phalam*—os resultados de todas as atividades; *tyaktvā*—abandonando; *śāntim*—paz perfeita; *āpnoti*—alcança; *naiṣṭhikīm*—inabalável; *ayuktaḥ*—aquele que não está em consciência de Kṛṣṇa; *kāma-kāreṇa*—por desfrutar do resultado do trabalho; *phale*—no resultado; *saktaḥ*—apegado; *nibadhyate*—enreda-se.", "translation": "**A alma firmemente devotada alcança paz imaculada porque oferece a Mim o resultado de todas as atividades; ao passo que a pessoa que não está em união com o Divino, que cobiça os frutos de seu labor, enreda-se.**", "purport": "A diferença entre a pessoa em consciência de Kṛṣṇa e a pessoa em consciência corporal é que a primeira está apegada a Kṛṣṇa, ao passo que a segunda está apegada aos resultados de suas atividades. A pessoa que está apegada a Kṛṣṇa e trabalha somente para Ele é certamente uma pessoa liberada, e não está ansiosa por recompensas fruitivas. No *Bhāgavatam*, explica-se que a causa da ansiedade pelo resultado de uma atividade está em a pessoa funcionar na concepção da dualidade, ou seja, sem conhecimento da Verdade Absoluta. Kṛṣṇa é a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus. Em consciência de Kṛṣṇa, não há dualidade. Tudo o que existe é produto da energia de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa é todo bondade. Por isso, as atividades em consciência de Kṛṣṇa estão no plano absoluto; são transcendentais e não têm efeito material. A pessoa, portanto, fica plena de paz em consciência de Kṛṣṇa. Aquele que está, contudo, enredado no cálculo de lucro para a gratificação dos sentidos não pode ter essa paz. Este é o segredo da consciência de Kṛṣṇa: a percepção de que não há existência além de Kṛṣṇa é a plataforma da paz e do destemor."}
{"ref": "bg/5/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/13/", "verse_text": "sarva-karmāṇi manasā\n\nsannyasyāste sukhaṁ vaśī\n\nnava-dvāre pure dehī\n\nnaiva kurvan na kārayan", "devanagari": "> सर्वकर्माणि मनसा संन्यस्यास्ते सुखं वशी ।\n> नवद्वारे पुरे देही नैव कुर्वन्न कारयन् ॥१३॥", "synonyms": "*sarva*—todas; *karmāṇi*—atividades; *manasā*—pela mente; *sannyasya*—abandonando; *āste*—permanece; *sukham*—em felicidade; *vaśī*—aquele que é controlado; *nava-dvāre*—no lugar onde há nove portas; *pure*—na cidade; *dehī*—a alma corporificada; *na*—nunca; *eva*—certamente; *kurvan*—fazendo coisa alguma; *na*—não; *kārayan*—causando que se faça.", "translation": "**Quando o ser vivo corporificado controla sua natureza e mentalmente renuncia a todas as ações, reside felizmente na cidade das nove portas [o corpo material], não trabalhando nem causando que o trabalho seja feito.**", "purport": "A alma corporificada vive na cidade das nove portas. As atividades do corpo, ou da figurativa cidade do corpo, são conduzidas automaticamente pelos modos particulares da natureza. A alma, embora se sujeite às condições do corpo, pode estar acima dessas condições, se assim o desejar. Apenas devido ao esquecimento de sua natureza superior, ela se identifica com o corpo material, e por isso sofre. Pela consciência de Kṛṣṇa, pode reaviver sua posição real e assim sair de sua corporificação. Por conseguinte, quando alguém adota a consciência de Kṛṣṇa, fica imediatamente afastado por completo das atividades corporais. Em tal vida controlada, na qual suas deliberações são transformadas, vive felizmente dentro da cidade das nove portas. As nove portas são descritas da seguinte maneira:\n\n\n\nnava-dvāre pure dehī haṁso lelāyate bahiḥ\n\nvaśī sarvasya lokasya sthāvarasya carasya ca.\n\n\n\n\"A Suprema Personalidade de Deus, que vive dentro do corpo de uma entidade viva, é o controlador de todas as entidades vivas em todo o universo. O corpo consta de nove portas: dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, uma boca, o ânus e o órgão genital. A entidade viva em sua etapa condicionada identifica-se com o corpo, mas, quando se identifica com o Senhor dentro de si mesma, torna-se tão livre quanto o Senhor, mesmo enquanto está no corpo.\" (Śvet. 3.18)\n\n\n\nPor conseguinte, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa está livre tanto das atividades externas como das internas do corpo material."}
{"ref": "bg/5/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/14/", "verse_text": "na kartṛtvaṁ na karmāṇi\n\nlokasya sṛjati prabhuḥ\n\nna karma-phala-saṁyogaṁ\n\nsvabhāvas tu pravartate", "devanagari": "> न कर्तृत्वं न कर्माणि लोकस्य सृजति प्रभुः ।\n> न कर्मफलसंयोगं स्वभावस्तु प्रवर्तते ॥१४॥", "synonyms": "*na*—nunca; *kartṛtvam*—propriedade; *na*—nem; *karmāṇi*—atividades; *lokasya*—das pessoas; *sṛjati*—cria; *prabhuḥ*—o senhor da cidade do corpo; *na*—nem; *karma-phala*—resultados das atividades; *saṁyogam*—conexão; *svabhāvaḥ*—modos da natureza material; *tu*—porém; *pravartate*—age.", "translation": "**O espírito corporificado, senhor da cidade de seu corpo, não cria atividades, nem induz as pessoas a agir, nem cria os frutos da ação. Tudo isso é encenado pelos modos da natureza material.**", "purport": "A entidade viva, como se explicará no Sétimo Capítulo, é una em natureza com o Senhor Supremo, distinta da matéria, que é outra natureza — chamada inferior — do Senhor. De algum modo, a natureza superior, a entidade viva, está em contato com a natureza material desde tempos imemoriais. O corpo temporário ou morada material que ela obtém é a causa de variedades de atividades e de suas reações resultantes. Vivendo em tal atmosfera condicional, ela sofre os resultados das atividades do corpo ao identificar-se (na ignorância) com o corpo. É a ignorância adquirida desde tempos imemoriais que é a causa do sofrimento e da aflição corporais. Tão logo a entidade viva se afasta das atividades do corpo, fica também livre das reações. Enquanto estiver na cidade do corpo, parece ser o senhor dela, mas na verdade não é nem seu proprietário nem o controlador de suas ações e reações. Está simplesmente no meio do oceano material, lutando pela existência. As ondas do oceano a sacodem, e ela não tem controle sobre elas. Sua melhor solução é sair da água por meio da transcendental consciência de Kṛṣṇa. Apenas isso a salvará de toda a turbulência."}
{"ref": "bg/5/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/15/", "verse_text": "nādatte kasyacit pāpaṁ\n\nna caiva sukṛtaṁ vibhuḥ\n\najñānenāvṛtaṁ jñānaṁ\n\ntena muhyanti jantavaḥ", "devanagari": "> नादत्ते कस्यचित्पापं न चैव सुकृतं विभुः ।\n> अज्ञानेनावृतं ज्ञानं तेन मुह्यन्ति जन्तवः ॥१५॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ādatte*—aceita; *kasyacit*—de ninguém; *pāpam*—pecado; *na*—nem; *ca*—também; *eva*—certamente; *sukṛtam*—atividades piedosas; *vibhuḥ*—o Senhor Supremo; *ajñānena*—pela ignorância; *āvṛtam*—coberto; *jñānam*—conhecimento; *tena*—por isso; *muhyanti*—confundidas; *jantavaḥ*—as entidades vivas.", "translation": "**Tampouco o Espírito Supremo assume as atividades pecaminosas ou piedosas de quem quer que seja. Os seres corporificados, contudo, ficam confundidos por causa da ignorância que cobre seu conhecimento real.**", "purport": "A palavra sânscrita vibhuḥ designa o Senhor Supremo, que é pleno de conhecimento, riqueza, força, fama, beleza e renúncia ilimitados. Ele está sempre satisfeito em Si mesmo, imperturbado pelas atividades pecaminosas ou piedosas. Ele não cria uma situação particular para nenhuma entidade viva, mas a entidade viva, confundida pela ignorância, deseja ser colocada em certas condições de vida, e com isso começa sua cadeia de ação e reação. Uma entidade viva, por sua natureza superior, é plena de conhecimento. Ainda assim, é propensa a ser influenciada pela ignorância devido a seu poder limitado. O Senhor é onipotente, mas a entidade viva não. O Senhor é vibhu, ou onisciente, mas a entidade viva é aṇu, ou atômica. Por ser uma alma viva, tem a capacidade de desejar por seu livre-arbítrio. Tal desejo só se cumpre pelo Senhor onipotente. E assim, quando a entidade viva fica confundida em seus desejos, o Senhor lhe permite cumprir esses desejos, mas o Senhor jamais é responsável pelas ações e reações da situação particular que se possa desejar. Estando, portanto, em condição de confusão, a alma corporificada identifica-se com o corpo material circunstancial e fica sujeita à miséria e felicidade temporárias da vida. O Senhor é o companheiro constante da entidade viva como Paramātmā, ou a Superalma, e por isso pode compreender os desejos da alma individual, assim como se pode sentir a fragrância de uma flor estando junto a ela. O desejo é uma forma sutil de condicionamento da entidade viva. O Senhor satisfaz seu desejo conforme ela merece: o homem propõe e Deus dispõe. O indivíduo não é, portanto, onipotente para cumprir seus desejos. O Senhor, contudo, pode cumprir todos os desejos, e o Senhor, sendo neutro para com todos, não interfere nos desejos das diminutas entidades vivas independentes. Entretanto, quando alguém deseja Kṛṣṇa, o Senhor cuida dele especialmente e o estimula a desejar de tal maneira que possa alcançá-Lo e ser eternamente feliz. O hino Védico declara, portanto:\n\n\n\neṣa u hy eva sādhu karma kārayati taṁ yamebhyo lokebhya unninīṣate\n\neṣa u evāsādhu karma kārayati yamadho ninīṣate.\n\n\n\najño jantur anīso 'yam ātmanaḥ sukha-duḥkhayoḥ\n\nīśvara-prerito gacchet svargaṁ vāśvabhram eva ca.\n\n\n\n\"O Senhor ocupa a entidade viva em atividades piedosas para que ela possa elevar-se. O Senhor ocupa-a em atividades ímpias para que ela possa ir ao inferno. A entidade viva é completamente dependente em sua aflição e felicidade. Pela vontade do Supremo, pode ir ao céu ou ao inferno, assim como uma nuvem é impelida pelo ar.\"\n\n\n\nPor conseguinte, a alma corporificada, por seu desejo imemorial de evitar a consciência de Kṛṣṇa, causa sua própria confusão. Em consequência, embora seja constitucionalmente eterna, bem-aventurada e cônscia, devido à pequenez de sua existência ela esquece sua posição constitucional de serviço ao Senhor e fica assim aprisionada pela ignorância. E, sob o feitiço da ignorância, a entidade viva afirma que o Senhor é responsável por sua existência condicional. Os Vedānta-sūtras também o confirmam:\n\n\n\nvaiṣamya-nairghṛṇye na sāpekṣatvāt tathā hi darśayati.\n\n\n\n\"O Senhor não odeia nem favorece ninguém, embora pareça fazê-lo.\""}
{"ref": "bg/5/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/16/", "verse_text": "jñānena tu tad ajñānaṁ\n\nyeṣāṁ nāśitam ātmanaḥ\n\nteṣām āditya-vaj jñānaṁ\n\nprakāśayati tat param", "devanagari": "> ज्ञानेन तु तदज्ञानं येषां नाशितमात्मनः ।\n> तेषामादित्यवज्ज्ञानं प्रकाशयति तत्परम् ॥१६॥", "synonyms": "*jñānena*—pelo conhecimento; *tu*—mas; *tat*—aquela; *ajñānam*—ignorância; *yeṣām*—daqueles; *nāśitam*—é destruída; *ātmanaḥ*—da entidade viva; *teṣām*—deles; *ādityavat*—como o sol nascente; *jñānam*—conhecimento; *prakāśayati*—revela; *tat param*—em consciência de Kṛṣṇa.", "translation": "**Quando, contudo, a pessoa é iluminada com o conhecimento pelo qual se destrói a ignorância, então seu conhecimento revela tudo, assim como o sol ilumina tudo durante o dia.**", "purport": "Aqueles que esqueceram Kṛṣṇa devem certamente estar confundidos, mas os que estão em consciência de Kṛṣṇa não estão confundidos de modo algum. Afirma-se no *Bhagavad-gītā*: \"sarvaṁ jñāna-plavena\", \"jñānāgniḥ sarva-karmāṇi\" e \"na hi jñānena sadṛśam\". O conhecimento é sempre altamente estimado. E qual é esse conhecimento? O conhecimento perfeito é alcançado quando a pessoa se rende a Kṛṣṇa, como se diz no Sétimo Capítulo, verso 19: bahūnāṁ janmanām ante jñānavān māṁ prapadyate. Após passar por muitos e muitos nascimentos, quando alguém perfeito em conhecimento se rende a Kṛṣṇa, ou quando alcança a consciência de Kṛṣṇa, então tudo lhe é revelado, assim como o sol revela tudo durante o dia. A entidade viva é confundida de tantas maneiras. Por exemplo, quando se considera Deus, sem cerimônia, cai de fato no último laço da ignorância. Se a entidade viva é Deus, como pode então ficar confundida pela ignorância? Será que Deus se confunde pela ignorância? Em caso afirmativo, então a ignorância, ou Satã, é maior do que Deus. O conhecimento real pode obter-se de uma pessoa que esteja em perfeita consciência de Kṛṣṇa. Por isso, é preciso buscar tal mestre espiritual genuíno e, sob sua orientação, aprender o que é a consciência de Kṛṣṇa. O mestre espiritual pode afastar toda a ignorância, assim como o sol afasta a escuridão. Mesmo que uma pessoa esteja em pleno conhecimento de que não é este corpo, mas que é transcendental ao corpo, pode ainda assim não ser capaz de discriminar entre a alma e a Superalma. Contudo, pode saber tudo perfeitamente bem se tiver o cuidado de abrigar-se no perfeito e genuíno mestre espiritual consciente de Kṛṣṇa. Pode-se conhecer Deus e a relação que se tem com Deus somente quando se encontra de fato um representante de Deus. Um representante de Deus jamais alega ser Deus, embora receba todo o respeito ordinariamente prestado a Deus, pois possui conhecimento de Deus. É preciso aprender a distinção entre Deus e a entidade viva. O Senhor Śrī Kṛṣṇa, portanto, afirmou no Segundo Capítulo (2.12) que todo ser vivo é individual e que o Senhor também é individual. Todos eles eram indivíduos no passado, são indivíduos no presente e continuarão a ser indivíduos no futuro, mesmo após a liberação. À noite, vemos tudo como um só na escuridão, mas durante o dia, quando o sol está alto, vemos tudo em sua identidade real. Identidade com individualidade na vida espiritual é o conhecimento real."}
{"ref": "bg/5/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/17/", "verse_text": "tad-buddhayas tad-ātmānas\n\ntan-niṣṭhās tat-parāyaṇāḥ\n\ngacchanty apunar-āvṛttiṁ\n\njñāna-nirdhūta-kalmaṣāḥ", "devanagari": "> तद्बुद्धयस्तदात्मानस्तन्निष्ठास्तत्परायणाः ।\n> गच्छन्त्यपुनरावृत्तिं ज्ञाननिर्धूतकल्मषाः ॥१७॥", "synonyms": "*tad-buddhayaḥ*—aquele cuja inteligência está sempre no Supremo; *tad-ātmānaḥ*—aquele cuja mente está sempre no Supremo; *tat-niṣṭhāḥ*—cuja mente está destinada apenas ao Supremo; *tat-parāyaṇāḥ*—quem se abrigou completamente Nele; *gacchanti*—vai; *apunaḥ-āvṛttim*—liberação; *jñāna*—conhecimento; *nirdhūta*—limpa; *kalmaṣāḥ*—dúvidas.", "translation": "**Quando a inteligência, a mente, a fé e o refúgio de uma pessoa estão todos fixos no Supremo, ela então fica plenamente livre das dúvidas por meio do conhecimento completo, e assim segue diretamente pelo caminho da liberação.**", "purport": "A Suprema Verdade Transcendental é o Senhor Kṛṣṇa. Todo o *Bhagavad-gītā* gira em torno da declaração de Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Esta é a versão de toda a literatura Védica. Paratattva significa a Realidade Suprema, que é compreendida pelos conhecedores do Supremo como Brahman, Paramātmā e Bhagavān. O Bhagavān, ou a Suprema Personalidade de Deus, é a última palavra no Absoluto. Não há nada mais do que isso. O Senhor diz: mattaḥ parataraṁ nānyat kiñcit asti dhanañjaya. O Brahman impessoal também é sustentado por Kṛṣṇa: brahmaṇo pratiṣṭhāham. Por conseguinte, em todos os aspectos Kṛṣṇa é a Realidade Suprema. Aquele cuja mente, inteligência, fé e refúgio estão sempre em Kṛṣṇa, ou, em outras palavras, quem está plenamente em consciência de Kṛṣṇa, é indubitavelmente lavado de todas as dúvidas e está em conhecimento perfeito em tudo o que se refere à transcendência. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa pode compreender a fundo que há dualidade (identidade e individualidade simultâneas) em Kṛṣṇa, e, equipada com tal conhecimento transcendental, pode fazer progresso constante no caminho da liberação."}
{"ref": "bg/5/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/18/", "verse_text": "vidyā-vinaya-sampanne\n\nbrāhmaṇe gavi hastini\n\nśuni caiva śva-pāke ca\n\npaṇḍitāḥ sama-darśinaḥ", "devanagari": "> विद्याविनयसम्पन्ने ब्राह्मणे गवि हस्तिनि ।\n> शुनि चैव श्वपाके च पण्डिताः समदर्शिनः ॥१८॥", "synonyms": "*vidyā*—educação; *vinaya*—gentileza; *sampanne*—plenamente dotado; *brāhmaṇe*—no brāhmaṇa; *gavi*—na vaca; *hastini*—no elefante; *śuni*—no cão; *ca*—e; *eva*—certamente; *śvapāke*—no comedor de cães (o pária); *ca*—respectivamente; *paṇḍitāḥ*—aqueles que são assim sábios; *sama-darśinaḥ*—veem com visão equânime.", "translation": "**O sábio humilde, em virtude do verdadeiro conhecimento, vê com visão equânime um *brāhmaṇa* erudito e gentil, uma vaca, um elefante, um cão e um comedor de cães [pária].**", "purport": "Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não faz nenhuma distinção entre espécies ou castas. O *brāhmaṇa* e o pária podem ser diferentes do ponto de vista social, ou um cão, uma vaca ou um elefante podem ser diferentes do ponto de vista da espécie, mas estas diferenças de corpo não têm sentido do ponto de vista de um transcendentalista erudito. Isto se deve à relação que mantêm com o Supremo, pois o Senhor Supremo, por Sua porção plenária como Paramātmā, está presente no coração de todos. Tal compreensão do Supremo é o conhecimento real. No que diz respeito aos corpos em diferentes castas ou diferentes espécies de vida, o Senhor é igualmente bondoso para com todos, pois trata cada ser vivo como amigo e, contudo, mantém-Se como Paramātmā independentemente das circunstâncias das entidades vivas. O Senhor, como Paramātmā, está presente tanto no pária como no *brāhmaṇa*, embora o corpo do *brāhmaṇa* e o do pária não sejam o mesmo. Os corpos são produções materiais dos diferentes modos da natureza material, mas a alma e a Superalma dentro do corpo são da mesma qualidade espiritual. A semelhança na qualidade da alma e da Superalma, contudo, não as torna iguais em quantidade, pois a alma individual está presente apenas naquele corpo particular, ao passo que o Paramātmā está presente em todo e qualquer corpo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa tem pleno conhecimento disso e, por isso, é verdadeiramente erudita e tem visão equânime. As características semelhantes da alma e da Superalma são que ambas são conscientes, eternas e bem-aventuradas. Mas a diferença é que a alma individual é consciente dentro da limitada jurisdição do corpo, ao passo que a Superalma é consciente de todos os corpos. A Superalma está presente em todos os corpos sem distinção."}
{"ref": "bg/5/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/19/", "verse_text": "ihaiva tair jitaḥ sargo\n\nyeṣāṁ sāmye sthitaṁ manaḥ\n\nnirdoṣaṁ hi samaṁ brahma\n\ntasmād brahmaṇi te sthitāḥ", "devanagari": "> इहैव तैर्जितः सर्गो येषां साम्ये स्थितं मनः ।\n> निर्दोषं हि समं ब्रह्म तस्माद् ब्रह्मणि ते स्थिताः ॥१९॥", "synonyms": "*iha*—nesta vida; *eva*—certamente; *taiḥ*—por eles; *jitaḥ*—conquistado; *sargaḥ*—nascimento e morte; *yeṣām*—daqueles; *sāmye*—em equanimidade; *sthitam*—assim situada; *manaḥ*—mente; *nirdoṣam*—imaculado; *hi*—certamente; *samam*—em equanimidade; *brahma*—o Supremo; *tasmāt*—portanto; *brahmaṇi*—no Supremo; *te*—eles; *sthitāḥ*—estão situados.", "translation": "**Aqueles cujas mentes estão estabelecidas em mesmidade e equanimidade já conquistaram as condições de nascimento e morte. São imaculados como o Brahman, e assim já estão situados no Brahman.**", "purport": "A equanimidade da mente, como se mencionou acima, é o sinal da autorrealização. Aqueles que de fato alcançaram tal etapa devem ser considerados como tendo conquistado as condições materiais, especificamente o nascimento e a morte. Enquanto a pessoa se identificar com este corpo, será considerada uma alma condicionada, mas, tão logo se eleve à etapa da equanimidade pela percepção do eu, fica liberada da vida condicional. Em outras palavras, ela já não está sujeita a nascer no mundo material, mas pode entrar no céu espiritual após sua morte. O Senhor é imaculado, pois está sem atração nem ódio. De modo semelhante, quando uma entidade viva está sem atração nem ódio, também se torna imaculada e elegível para entrar no céu espiritual. Tais pessoas devem ser consideradas já liberadas, e seus sintomas são descritos a seguir."}
{"ref": "bg/5/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/20/", "verse_text": "na prahṛṣyet priyaṁ prāpya\n\nnodvijet prāpya cāpriyam\n\nsthira-buddhir asammūḍho\n\nbrahma-vid brahmaṇi sthitaḥ", "devanagari": "> न प्रहृष्येत्प्रियं प्राप्य नोद्विजेत्प्राप्य चाप्रियम् ।\n> स्थिरबुद्धिरसम्मूढो ब्रह्मविद् ब्रह्मणि स्थितः ॥२०॥", "synonyms": "*na*—nunca; *prahṛṣyet*—regozijar-se; *priyam*—agradável; *prāpya*—alcançando; *na*—não; *udvijet*—agitado; *prāpya*—obtendo; *ca*—também; *apriyam*—desagradável; *sthira-buddhiḥ*—dotado de inteligência própria; *asammūḍhaḥ*—não confundido; *brahmavit*—quem conhece o Supremo perfeitamente; *brahmaṇi*—na Transcendência; *sthitaḥ*—situado.", "translation": "**Uma pessoa que não se regozija ao alcançar algo agradável nem se lamenta ao obter algo desagradável, que é dotada de inteligência própria, não se confunde, e conhece a ciência de Deus, deve ser entendida como já situada na Transcendência.**", "purport": "Os sintomas da pessoa autorrealizada são apresentados aqui. O primeiro sintoma é que ela não se ilude pela falsa identificação do corpo com seu verdadeiro eu. Sabe perfeitamente bem que não é este corpo, mas a porção fragmentária da Suprema Personalidade de Deus. Por isso, não se alegra ao alcançar algo, nem se lamenta ao perder algo que esteja relacionado com seu corpo. Esta firmeza de mente chama-se sthira-buddhi, ou inteligência própria. Por isso, jamais se confunde tomando o corpo grosseiro pela alma, nem aceita o corpo como permanente desconsiderando a existência da alma. Este conhecimento eleva-a à condição de conhecer a ciência completa da Verdade Absoluta, a saber, Brahman, Paramātmā e Bhagavān. Conhece, assim, perfeitamente bem sua posição constitucional, sem tentar falsamente tornar-se uma com o Supremo em todos os aspectos. Isto se chama compreensão do Brahman, ou autorrealização. Tal consciência firme chama-se consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/5/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/21/", "verse_text": "bāhya-sparśeṣv asaktātmā\n\nvindaty ātmani yat sukham\n\nsa brahma-yoga-yuktātmā\n\nsukham akṣayam aśnute", "devanagari": "> बाह्यस्पर्शेष्वसक्तात्मा विन्दत्यात्मनि यत्सुखम् ।\n> स ब्रह्मयोगयुक्तात्मा सुखमक्षयमश्नुते ॥२१॥", "synonyms": "*bāhya-sparśeṣu*—no prazer externo dos sentidos; *asakta-ātmā*—quem não está apegado; *vindati*—desfruta; *ātmani*—no eu; *yat*—aquilo que; *sukham*—felicidade; *saḥ*—essa; *brahma-yoga*—concentrado no Brahman; *yukta-ātmā*—conectado com o eu; *sukham*—felicidade; *akṣayam*—ilimitada; *aśnute*—desfruta.", "translation": "**Tal pessoa liberada não se sente atraída pelo prazer material dos sentidos nem por objetos externos, mas está sempre em transe, desfrutando do prazer interior. Dessa maneira, a pessoa autorrealizada desfruta felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo.**", "purport": "Śrī Yāmunācārya, um grande devoto em consciência de Kṛṣṇa, disse:\n\n\n\nyadāvadhi mama cetaḥ kṛṣṇa-padāravinde\n\nnava-nava-rasa-dhāmanudyata rantum āsīt\n\ntadāvadhi bata nārī-saṅgame smaryamāne\n\nbhavati mukha-vikāraḥ suṣṭu niṣṭhīvanaṁ ca\n\n\n\n\"Desde que me ocupo no transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa, percebendo Nele um prazer sempre novo, sempre que penso no prazer sexual cuspo ao pensamento, e meus lábios se contraem de aversão.\" Uma pessoa em brahma-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa, está tão absorta no serviço amoroso ao Senhor que perde por completo o gosto pelo prazer material dos sentidos. O prazer mais elevado em termos de matéria é o prazer sexual. O mundo inteiro move-se sob seu feitiço, e um materialista nem sequer consegue trabalhar sem essa motivação. Mas uma pessoa ocupada em consciência de Kṛṣṇa pode trabalhar com maior vigor sem o prazer sexual, que evita. Esse é o teste na percepção espiritual. Percepção espiritual e prazer sexual não combinam. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não se sente atraída por nenhuma espécie de prazer sensorial, por ser uma alma liberada."}
{"ref": "bg/5/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/22/", "verse_text": "ye hi saṁsparśa-jā bhogā\n\nduḥkha-yonaya eva te\n\nādy-antavantaḥ kaunteya\n\nna teṣu ramate budhaḥ", "devanagari": "> ये हि संस्पर्शजा भोगा दुःखयोनय एव ते ।\n> आद्यन्तवन्तः कौन्तेय न तेषु रमते बुधः ॥२२॥", "synonyms": "*ye*—aqueles; *hi*—certamente; *saṁsparśajāḥ*—pelo contato com os sentidos materiais; *bhogāḥ*—desfrute; *duḥkha*—aflição; *yonayaḥ*—fontes de; *eva*—certamente; *te*—eles são; *ādi*—no princípio; *antavantaḥ*—sujeitos a; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *na*—nunca; *teṣu*—neles; *ramate*—deleita-se; *budhaḥ*—o inteligente.", "translation": "**Uma pessoa inteligente não toma parte nas fontes de miséria, que se devem ao contato com os sentidos materiais. Ó filho de Kuntī, tais prazeres têm um começo e um fim, e por isso o sábio não se deleita neles.**", "purport": "Os prazeres materiais dos sentidos devem-se ao contato dos sentidos materiais, todos os quais são temporários, pois o próprio corpo é temporário. Uma alma liberada não se interessa por nada que seja temporário. Conhecendo bem as alegrias dos prazeres transcendentais, como poderia uma alma liberada concordar em desfrutar do prazer falso? No *Padma Purāṇa* afirma-se:\n\n\n\nramante yogino 'nante satyānanda-cid-ātmani\n\niti rāma-padenāsau paraṁ brahmābhidhīyate\n\n\n\n\"Os místicos derivam prazeres transcendentais ilimitados da Verdade Absoluta, e por isso a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, é também conhecida como Rāma.\"\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam* também se afirma:\n\n\n\nnāyaṁ deho deha-bhājāṁ nṛ-loke\n\nkaṣṭān kāmān arhate viḍ-bhajāṁ ye\n\ntapo divyaṁ putrakā yena sattvaṁ\n\nśuddhyed yasmād brahma-saukhyaṁ tv anantam.\n\n\n\n\"Meus queridos filhos, não há razão para labutar arduamente em busca do prazer dos sentidos enquanto se está nesta forma humana de vida; tais prazeres estão disponíveis aos comedores de excremento [porcos]. Em vez disso, deveis submeter-vos a penitências nesta vida pelas quais vossa existência será purificada e, em consequência, podereis desfrutar de bem-aventurança transcendental ilimitada.\" (Bhāg. 5.5.1)\n\n\n\nPor conseguinte, aqueles que são verdadeiros yogīs ou transcendentalistas eruditos não se sentem atraídos pelos prazeres dos sentidos, que são as causas da existência material contínua. Quanto mais alguém se entrega aos prazeres materiais, mais fica preso pelas misérias materiais."}
{"ref": "bg/5/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/23/", "verse_text": "śaknotīhaiva yaḥ soḍhuṁ\n\nprāk śarīra-vimokṣaṇāt\n\nkāma-krodhodbhavaṁ vegaṁ\n\nsa yuktaḥ sa sukhī naraḥ", "devanagari": "> शक्नोतीहैव यः सोढुं प्राक्शरीरविमोक्षणात् ।\n> कामक्रोधोद्भवं वेगं स युक्तः स सुखी नरः ॥२३॥", "synonyms": "*śaknoti*—capaz de fazer; *iha eva*—no corpo atual; *yaḥ*—aquele que; *soḍhum*—tolerar; *prāk*—antes; *śarīra*—corpo; *vimokṣaṇāt*—de abandonar; *kāma*—desejo; *krodha*—ira; *udbhavam*—gerado de; *vegam*—impulso; *saḥ*—ele; *yuktaḥ*—em transe; *saḥ*—ele; *sukhī*—feliz; *naraḥ*—ser humano.", "translation": "**Antes de abandonar este corpo atual, se a pessoa for capaz de tolerar os impulsos dos sentidos materiais e refrear a força do desejo e da ira, será um yogī e será feliz neste mundo.**", "purport": "Se alguém quiser fazer progresso constante no caminho da autorrealização, deve tentar controlar as forças dos sentidos materiais. Há as forças da fala, as forças da ira, as forças da mente, as forças do estômago, as forças dos órgãos genitais e as forças da língua. Aquele que é capaz de controlar as forças de todos estes diferentes sentidos, e a mente, é chamado gosvāmī, ou svāmī. Tais gosvāmīs vivem vidas estritamente controladas e renunciam por completo às forças dos sentidos. Os desejos materiais, quando insatisfeitos, geram ira, e assim a mente, os olhos e o peito ficam agitados. Por isso, deve-se praticar para controlá-los antes de abandonar este corpo material. Quem pode fazer isso é entendido como autorrealizado e está, dessa forma, feliz no estado de autorrealização. É dever do transcendentalista esforçar-se arduamente por controlar o desejo e a ira."}
{"ref": "bg/5/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/24/", "verse_text": "yo 'ntaḥ-sukho 'ntar-ārāmas\n\ntathāntar-jyotir eva yaḥ\n\nsa yogī brahma-nirvāṇaṁ\n\nbrahma-bhūto 'dhigacchati", "devanagari": "> योऽन्तःसुखोऽन्तरारामस्तथान्तर्ज्योतिरेव यः ।\n> स योगी ब्रह्मनिर्वाणं ब्रह्मभूतोऽधिगच्छति ॥२४॥", "synonyms": "*yaḥ*—aquele que; *antaḥ-sukhaḥ*—feliz por dentro; *antaḥ-ārāmaḥ*—ativo por dentro; *tathā*—assim como; *antaḥ-jyotiḥ*—visando dentro; *eva*—certamente; *yaḥ*—quem quer que; *saḥ*—ele; *yogī*—místico; *brahma-nirvāṇam*—liberado no Supremo; *brahma-bhūtaḥ*—autorrealizado; *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**Aquele cuja felicidade está dentro, que é ativo dentro, que se regozija dentro e está iluminado por dentro, é, de fato, o místico perfeito. Está liberado no Supremo, e finalmente alcança o Supremo.**", "purport": "A menos que se possa saborear a felicidade interior, como pode alguém retirar-se das ocupações externas destinadas a obter felicidade superficial? Uma pessoa liberada desfruta da felicidade por experiência factual. Pode, portanto, sentar-se silenciosamente em qualquer lugar e desfrutar das atividades da vida por dentro. Tal pessoa liberada já não deseja a felicidade material externa. Este estado chama-se brahma-bhūta, ao alcançar o qual se tem garantido o retorno a Deus, o retorno ao lar."}
{"ref": "bg/5/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/25/", "verse_text": "labhante brahma-nirvāṇam\n\nṛṣayaḥ kṣīṇa-kalmaṣāḥ\n\nchinna-dvaidhā yatātmānaḥ\n\nsarva-bhūta-hite ratāḥ", "devanagari": "> लभन्ते ब्रह्मनिर्वाणमृषयः क्षीणकल्मषाः ।\n> छिन्नद्वैधा यतात्मानः सर्वभूतहिते रताः ॥२५॥", "synonyms": "*labhante*—alcançam; *brahma-nirvāṇam*—liberação no Supremo; *ṛṣayaḥ*—aqueles que são ativos por dentro; *kṣīṇa-kalmaṣāḥ*—que estão livres de todos os pecados; *chinna*—rasgada; *dvaidhāḥ*—dualidade; *yata-ātmānaḥ*—ocupados em autorrealização; *sarva-bhūta*—em todas as entidades vivas; *hite*—em trabalho de bem-estar; *ratāḥ*—ocupados.", "translation": "**Aquele que está além da dualidade e da dúvida, cuja mente está ocupada por dentro, que está sempre atarefado trabalhando pelo bem-estar de todos os seres senscientes, e que está livre de todos os pecados, alcança a liberação no Supremo.**", "purport": "Apenas uma pessoa que esteja plenamente em consciência de Kṛṣṇa pode dizer-se ocupada no trabalho de bem-estar para todas as entidades vivas. Quando uma pessoa está realmente no conhecimento de que Kṛṣṇa é a fonte de tudo, então, ao agir nesse espírito, age por todos. Os sofrimentos da humanidade devem-se ao esquecimento de Kṛṣṇa como o desfrutador supremo, o proprietário supremo e o amigo supremo. Por isso, agir para reavivar essa consciência em toda a sociedade humana é o mais elevado trabalho de bem-estar. Não se pode estar ocupado em trabalho de bem-estar de primeira classe sem estar liberado no Supremo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não tem dúvida sobre a supremacia de Kṛṣṇa. Não tem dúvida porque está completamente livre de todos os pecados. Este é o estado do amor divino.\n\n\n\nUma pessoa ocupada apenas em prover o bem-estar físico da sociedade humana não pode, de fato, ajudar ninguém. O alívio temporário do corpo externo e da mente não é satisfatório. A causa real das dificuldades de alguém na árdua luta pela vida pode ser encontrada em seu esquecimento de sua relação com o Senhor Supremo. Quando um homem está plenamente cônscio de sua relação com Kṛṣṇa, é de fato uma alma liberada, embora possa estar no tabernáculo material."}
{"ref": "bg/5/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/26/", "verse_text": "kāma-krodha-vimuktānāṁ\n\nyatīnāṁ yata-cetasām\n\nabhito brahma-nirvāṇaṁ\n\nvartate viditātmanām", "devanagari": "> कामक्रोधवियुक्तानां यतीनां यतचेतसाम् ।\n> अभितो ब्रह्मनिर्वाणं वर्तते विदितात्मनाम् ॥२६॥", "synonyms": "*kāma*—desejos; *krodha*—ira; *vimuktānām*—daqueles que estão assim liberados; *yatīnām*—das pessoas santas; *yata-cetasām*—de pessoas que têm pleno controle sobre a mente; *abhitaḥ*—assegurada num futuro próximo; *brahma-nirvāṇam*—liberação no Supremo; *vartate*—está aí; *vidita-ātmanām*—dos que são autorrealizados.", "translation": "**Aqueles que estão livres da ira e de todos os desejos materiais, que são autorrealizados, autodisciplinados e constantemente se esforçam pela perfeição, têm assegurada a liberação no Supremo num futuro muito próximo.**", "purport": "Das pessoas santas que estão constantemente engajadas no esforço pela salvação, aquela que está em consciência de Kṛṣṇa é a melhor de todas. O *Bhāgavatam* confirma este fato da seguinte maneira:\n\n\n\nyat-pāda-paṅkaja-palāśa-vilāsa-bhaktyā\n\nkarmāśayaṁ grathitam udgrathayanti santaḥ\n\ntadvan na rikta-matayo yatayo 'pi ruddha-\n\nsrotogaṇās tam araṇaṁ bhaja vāsudevam.\n\n\n\n\"Tenta apenas adorar, em serviço devocional, Vāsudeva, a Suprema Personalidade de Deus. Mesmo grandes sábios não conseguem controlar as forças dos sentidos com a eficácia daqueles que estão ocupados em bem-aventurança transcendental servindo aos pés de lótus do Senhor, arrancando o desejo profundamente arraigado pelas atividades fruitivas.\" (Bhāg. 4.22.39)\n\n\n\nNa alma condicionada, o desejo de desfrutar dos resultados fruitivos do trabalho está tão profundamente arraigado que é muito difícil até para os grandes sábios controlar tais desejos, apesar de grandes esforços. Um devoto do Senhor, constantemente ocupado em serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa, perfeito em autorrealização, alcança muito rapidamente a liberação no Supremo. Devido a seu conhecimento completo em autorrealização, permanece sempre em transe. Para citar um exemplo análogo disto:\n\n\n\ndarśana-dhyāna-saṁsparśair matsya-kūrma-vihaṅgamāḥ\n\nsvānya patyāni puṣṇanti tathāham api padmaja.\n\n\n\n\"Pela visão, pela meditação e pelo toque apenas, o peixe, a tartaruga e os pássaros mantêm sua prole. De modo semelhante, também faço Eu, ó Padmaja!\"\n\n\n\nO peixe cria sua prole simplesmente olhando para ela. A tartaruga cria sua prole simplesmente pela meditação. Os ovos da tartaruga são postos em terra, e a tartaruga medita sobre os ovos enquanto está na água. De modo semelhante, um devoto em consciência de Kṛṣṇa, embora longe da morada do Senhor, pode elevar-se a essa morada simplesmente pensando Nele constantemente — pela ocupação em consciência de Kṛṣṇa. Ele não sente as dores das misérias materiais; este estado de vida chama-se brahma-nirvāṇa, ou a ausência das misérias materiais por estar constantemente imerso no Supremo."}
{"ref": "bg/5/27-28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/27-28/", "verse_text": "sparśān kṛtvā bahir bāhyāṁś\n\ncakṣuś caivāntare bhruvoḥ\n\nprāṇāpānau samau kṛtvā\n\nnāsābhyantara-cāriṇau\n\nyatendriya-mano-buddhir\n\nmunir mokṣa-parāyaṇaḥ\n\nvigatecchā-bhaya-krodho\n\nyaḥ sadā mukta eva saḥ", "devanagari": "> स्पर्शान्कृत्वा बहिर्बाह्यांश्चक्षुश्चैवान्तरे भ्रुवोः ।\n> प्राणापानौ समौ कृत्वा नासाभ्यन्तरचारिणौ ॥२७॥\n> यतेन्द्रियमनोबुद्धिर्मुनिर्मोक्षपरायणः ।\n> विगतेच्छाभयक्रोधो यः सदा मुक्त एव सः ॥२८॥", "synonyms": "*sparśān*—objetos sensoriais externos, como o som, etc.; *kṛtvā*—fazendo isso; *bahiḥ*—externo; *bāhyān*—desnecessários; *cakṣuḥ*—olhos; *ca*—também; *eva*—certamente; *antare*—dentro; *bhruvoḥ*—das sobrancelhas; *prāṇa-apānau*—ar que se move para cima e para baixo; *samau*—em suspensão; *kṛtvā*—fazendo isso; *nāsā-abhyantara*—dentro das narinas; *cāriṇau*—soprando; *yata*—controlados; *indriya*—sentidos; *manaḥ*—mente; *buddhiḥ*—inteligência; *muniḥ*—o transcendentalista; *mokṣa*—liberação; *parāyaṇaḥ*—destinado a; *vigata*—descartados; *icchā*—desejos; *bhaya*—medo; *krodhaḥ*—ira; *yaḥ*—aquele que; *sadā*—sempre; *muktaḥ*—liberado; *eva*—certamente; *saḥ*—ele é.", "translation": "**Excluindo todos os objetos sensoriais externos, mantendo os olhos e a visão concentrados entre as duas sobrancelhas, suspendendo as respirações de entrada e saída dentro das narinas — controlando assim a mente, os sentidos e a inteligência, o transcendentalista fica livre do desejo, do medo e da ira. Quem está sempre nesse estado certamente está liberado.**", "purport": "Estando ocupado em consciência de Kṛṣṇa, a pessoa pode imediatamente compreender sua identidade espiritual, e então pode compreender o Senhor Supremo por meio do serviço devocional. Quando está bem situada em serviço devocional, alcança a posição transcendental, qualificada para sentir a presença do Senhor na esfera de sua atividade. Esta posição particular chama-se liberação no Supremo.\n\n\n\nApós explicar os princípios acima da liberação no Supremo, o Senhor instrui Arjuna sobre como se pode chegar a essa posição pela prática do misticismo, ou yoga, conhecida como aṣṭāṅga-yoga, que é divisível num procedimento óctuplo chamado yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. No Sexto Capítulo, o tema do yoga é detalhado explicitamente, e ao final do Quinto é apenas explicado preliminarmente. Tem-se de afastar os objetos sensoriais como som, tato, forma, sabor e cheiro pelo processo de pratyāhāra (respiração) no yoga, e então manter a visão dos olhos entre as duas sobrancelhas e concentrar-se na ponta do nariz com as pálpebras semicerradas. Não há benefício em fechar os olhos por completo, pois então há toda probabilidade de adormecer. Tampouco há benefício em abrir os olhos por completo, pois então há o risco de ser atraído pelos objetos sensoriais. O movimento da respiração é restringido dentro das narinas neutralizando-se o ar que se move para cima e para baixo dentro do corpo. Pela prática de tal yoga, a pessoa é capaz de obter controle sobre os sentidos, abster-se dos objetos sensoriais externos e, assim, preparar-se para a liberação no Supremo.\n\n\n\nEste processo de yoga ajuda alguém a libertar-se de toda espécie de medo e ira e, assim, sentir a presença da Superalma na situação transcendental. Em outras palavras, a consciência de Kṛṣṇa é o processo mais fácil de executar os princípios do yoga. Isto será explicado a fundo no próximo capítulo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, contudo, estando sempre ocupada em serviço devocional, não corre o risco de perder seus sentidos para alguma outra ocupação. Esta é uma maneira melhor de controlar os sentidos do que pela aṣṭāṅga-yoga."}
{"ref": "bg/5/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/5/29/", "verse_text": "bhoktāraṁ yajña-tapasāṁ\n\nsarva-loka-maheśvaram\n\nsuhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ\n\njñātvā māṁ śāntim ṛcchati", "devanagari": "> भोक्तारं यज्ञतपसां सर्वलोकमहेश्वरम् ।\n> सुहृदं सर्वभूतानां ज्ञात्वा मां शान्तिमृच्छति ॥२९॥", "synonyms": "*bhoktāram*—beneficiário; *yajña*—sacrifícios; *tapasām*—de penitências e austeridades; *sarva-loka*—todos os planetas e os semideuses dos mesmos; *maheśvaram*—o Senhor Supremo; *suhṛdam*—benfeitor; *sarva*—todas; *bhūtānām*—das entidades vivas; *jñātvā*—sabendo assim; *mām*—a Mim (o Senhor Kṛṣṇa); *śāntim*—alívio das dores materiais; *ṛcchati*—alcança.", "translation": "**Os sábios, conhecendo-Me como o propósito último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses, e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, alcançam paz das dores das misérias materiais.**", "purport": "As almas condicionadas, sob as garras da energia ilusória, estão todas ansiosas por alcançar paz no mundo material. Mas elas não conhecem a fórmula da paz, que se explica nesta parte do *Bhagavad-gītā*. A maior fórmula da paz é simplesmente esta: o Senhor Kṛṣṇa é o beneficiário em todas as atividades humanas. Os homens devem oferecer tudo ao serviço transcendental ao Senhor, pois Ele é o proprietário de todos os planetas e dos semideuses neles. Ninguém é maior do que Ele. É maior do que o maior dos semideuses, o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā. Nos *Vedas*, o Senhor Supremo é descrito como tam īśvarāṇāṁ paramaṁ maheśvaram. Sob o feitiço da ilusão, as entidades vivas tentam ser senhoras de tudo o que vislumbram, mas, de fato, são dominadas pela energia material do Senhor. O Senhor é o mestre da natureza material, e as almas condicionadas estão sob as estritas regras da natureza material. A menos que se compreendam esses fatos cruciais, não é possível alcançar paz no mundo, nem individual nem coletivamente. Este é o sentido da consciência de Kṛṣṇa: o Senhor Kṛṣṇa é o predominador supremo, e todas as entidades vivas, incluindo os grandes semideuses, são Seus subordinados. Pode-se alcançar paz perfeita somente em consciência de Kṛṣṇa completa.\n\n\n\nEste Quinto Capítulo é uma explicação prática da consciência de Kṛṣṇa, geralmente conhecida como karma-yoga. A questão da especulação mental sobre como o karma-yoga pode dar a liberação é aqui respondida. Trabalhar em consciência de Kṛṣṇa é trabalhar com pleno conhecimento do Senhor como o predominador. Tal trabalho não é diferente do conhecimento transcendental. A consciência de Kṛṣṇa direta é o bhakti-yoga, e o jñāna-yoga é um caminho que leva ao bhakti-yoga. Consciência de Kṛṣṇa significa trabalhar em pleno conhecimento da relação que se tem com o Absoluto Supremo, e a perfeição desta consciência é o pleno conhecimento de Kṛṣṇa, ou da Suprema Personalidade de Deus. Uma alma pura é o servo eterno de Deus, como Sua parte integrante fragmentária. Ela entra em contato com a māyā (ilusão) devido ao desejo de assenhorear-se da māyā, e essa é a causa de seus muitos sofrimentos. Enquanto está em contato com a matéria, tem de executar trabalho em termos de necessidades materiais. A consciência de Kṛṣṇa, contudo, traz a pessoa à vida espiritual mesmo enquanto se está dentro da jurisdição da matéria, pois é um despertar da existência espiritual pela prática no mundo material. Quanto mais avançada está a pessoa, mais livre fica das garras da matéria. O Senhor não é parcial para com ninguém. Tudo depende do desempenho prático que se tem dos deveres num esforço por controlar os sentidos e conquistar a influência do desejo e da ira. E, ao se alcançar a consciência de Kṛṣṇa controlando as paixões mencionadas, a pessoa permanece de fato na etapa transcendental, ou brahman-nirvāṇa. O misticismo do yoga óctuplo é praticado automaticamente em consciência de Kṛṣṇa, pois o propósito último é atendido. Há um processo gradual de elevação na prática de yama, niyama, āsana, pratyāhāra, dhyāna, dhāraṇā, prāṇāyāma e samādhi. Mas estes apenas prefaciam a perfeição pelo serviço devocional, que é o único que pode conceder paz ao ser humano. Esta é a mais elevada perfeição da vida.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Quinto Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* sobre o tema do Karma-yoga, ou a Ação em Consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nanāśritaḥ karma-phalaṁ\n\nkāryaṁ karma karoti yaḥ\n\nsa sannyāsī ca yogī ca\n\nna niragnir na cākriyaḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> अनाश्रितः कर्मफलं कार्यं कर्म करोति यः ।\n> स संन्यासी च योगी च न निरग्निर्न चाक्रियः ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—o Senhor disse; *anāśritaḥ*—sem refúgio; *karma-phalam*—o resultado do trabalho; *kāryam*—obrigatório; *karma*—trabalho; *karoti*—executa; *yaḥ*—aquele que; *saḥ*—ele; *sannyāsī*—na ordem renunciada; *ca*—também; *yogī*—místico; *ca*—também; *na*—não; *nir*—sem; *agniḥ*—fogo; *na*—nem; *ca*—também; *akriyaḥ*—sem dever.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Aquele que não está apegado aos frutos de seu trabalho e que trabalha conforme está obrigado encontra-se na ordem renunciada da vida, e ele é o verdadeiro místico — não aquele que não acende fogo algum nem realiza trabalho algum.**", "purport": "Neste capítulo, o Senhor explica que o processo do sistema óctuplo de yoga é um meio de controlar a mente e os sentidos. No entanto, isso é muito difícil de realizar para a maioria das pessoas, especialmente na era de Kali. Embora o sistema óctuplo de yoga seja recomendado neste capítulo, o Senhor enfatiza que o processo de karma-yoga, ou seja, agir em consciência de Kṛṣṇa, é melhor. Todos agem neste mundo para manter sua família e seus pertences, mas ninguém trabalha sem algum interesse próprio, alguma gratificação pessoal, seja ela concentrada ou estendida. O critério da perfeição consiste em agir em consciência de Kṛṣṇa, e não com vistas a desfrutar dos frutos do trabalho. Agir em consciência de Kṛṣṇa é o dever de toda entidade viva, porque todos são constitucionalmente partes integrantes do Supremo. As partes do corpo trabalham para a satisfação do corpo inteiro. Os membros do corpo não agem para satisfação própria, mas para a satisfação do todo completo. De modo semelhante, a entidade viva que age para satisfação do todo supremo, e não para satisfação pessoal, é o sannyāsī perfeito, o yogī perfeito.\n\n\n\nOs sannyāsīs às vezes pensam artificialmente que se libertaram de todos os deveres materiais, e por isso deixam de realizar agnihotra yajñas (sacrifícios de fogo); na verdade, contudo, eles agem em interesse próprio, pois sua meta é tornar-se um com o Brahman impessoal. Tal desejo é maior do que qualquer desejo material, mas não é desprovido de interesse próprio. De modo semelhante, o yogī místico que pratica o sistema de yoga com os olhos semicerrados, cessando todas as atividades materiais, deseja alguma satisfação para seu eu pessoal. Mas a pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa trabalha para a satisfação do todo, sem interesse próprio. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não tem desejo de autossatisfação. Seu critério de êxito é a satisfação de Kṛṣṇa, e assim ela é o sannyāsī perfeito, ou yogī perfeito. O Senhor Caitanya, o mais elevado símbolo perfecional da renúncia, ora desta maneira:\n\n\n\nna dhanaṁ na janaṁ na sundarīṁ kavitāṁ vā jagadīśa kāmaye.\n\nmama janmani janmanīśvare bhavatād bhaktir ahaitukī tvayi.\n\n\n\n\"Ó Senhor Todo-poderoso, não desejo acumular riqueza, nem desfrutar de mulheres belas. Tampouco quero qualquer número de seguidores. O que desejo apenas é a misericórdia imotivada de Seu serviço devocional em minha vida, nascimento após nascimento.\""}
{"ref": "bg/6/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/2/", "verse_text": "yaṁ sannyāsam iti prāhur\n\nyogaṁ taṁ viddhi pāṇḍava\n\nna hy asannyasta-saṅkalpo\n\nyogī bhavati kaścana", "devanagari": "> यं संन्यासमिति प्राहुर्योगं तं विद्धि पाण्डव ।\n> न ह्यसंन्यस्तसङ्कल्पो योगी भवति कश्चन ॥२॥", "synonyms": "*yam*—o que; *sannyāsam*—renúncia; *iti*—assim; *prāhuḥ*—dizem; *yogam*—vincular-se ao Supremo; *tam*—isso; *viddhi*—deves saber; *pāṇḍava*—ó filho de Pāṇḍu; *na*—nunca; *hi*—certamente; *asannyasta*—sem abandonar; *saṅkalpaḥ*—autossatisfação; *yogī*—um transcendentalista místico; *bhavati*—torna-se; *kaścana*—alguém.", "translation": "**Aquilo que se chama renúncia é o mesmo que yoga, ou vincular-se ao Supremo, pois ninguém pode tornar-se yogī a menos que renuncie ao desejo de gratificação dos sentidos.**", "purport": "O verdadeiro sannyāsa-yoga, ou bhakti, significa que se deve conhecer a posição constitucional como entidade viva e agir em conformidade. A entidade viva não tem identidade independente separada. Ela é a energia marginal do Supremo. Quando se vê aprisionada pela energia material, encontra-se condicionada; e quando é consciente de Kṛṣṇa, ou consciente da energia espiritual, então está em seu estado de vida real e natural. Portanto, quando alguém possui pleno conhecimento, cessa toda gratificação material dos sentidos, ou renuncia a todos os tipos de atividades para gratificação dos sentidos. Isso é praticado pelos yogīs, que refreiam os sentidos do apego material. Mas a pessoa em consciência de Kṛṣṇa não tem oportunidade de ocupar seus sentidos em qualquer coisa que não tenha como propósito Kṛṣṇa. Por conseguinte, a pessoa consciente de Kṛṣṇa é simultaneamente um sannyāsī e um yogī. O propósito do conhecimento e da contenção dos sentidos, conforme prescrito nos processos de jñāna e yoga, é automaticamente atendido na consciência de Kṛṣṇa. Se alguém é incapaz de abandonar as atividades de sua natureza egoísta, então o jñāna e o yoga não servem para nada. O verdadeiro objetivo da entidade viva é abandonar toda satisfação egoísta e estar pronta para satisfazer o Supremo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não tem desejo de qualquer espécie de autodesfrute. Ela está sempre ocupada para o desfrute do Supremo. Aquele que não tem informação alguma sobre o Supremo deve, portanto, ocupar-se em autossatisfação, pois ninguém pode permanecer na plataforma da inatividade. Todos esses propósitos são perfeitamente atendidos pela prática da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/3/", "verse_text": "ārurukṣor muner yogaṁ\n\nkarma kāraṇam ucyate\n\nyogārūḍhasya tasyaiva\n\nśamaḥ kāraṇam ucyate", "devanagari": "> आरुरुक्षोर्मुनेर्योगं कर्म कारणमुच्यते ।\n> योगारूढस्य तस्यैव शमः कारणमुच्यते ॥३॥", "synonyms": "*ārurukṣoḥ*—daquele que apenas começou o yoga; *muneḥ*—do sábio; *yogam*—o sistema óctuplo de yoga; *karma*—trabalho; *kāraṇam*—a causa; *ucyate*—diz-se ser; *yoga*—yoga óctuplo; *ārūḍhasya*—de quem alcançou; *tasya*—dele; *eva*—certamente; *śamaḥ*—cessação de todas as atividades materiais; *kāraṇam*—a causa; *ucyate*—diz-se ser.", "translation": "**Para aquele que é neófito no sistema óctuplo de yoga, diz-se que o trabalho é o meio; e para aquele que já alcançou o yoga, diz-se que o meio é a cessação de todas as atividades materiais.**", "purport": "O processo de vincular-se ao Supremo chama-se yoga, que pode ser comparado a uma escada para alcançar a mais elevada compreensão espiritual. Essa escada começa na condição material mais baixa da entidade viva e ascende até a perfeita autorrealização na vida espiritual pura. De acordo com várias elevações, partes diferentes da escada são conhecidas por nomes diferentes. Em última análise, contudo, a escada completa chama-se yoga e pode dividir-se em três partes, a saber: jñāna-yoga, dhyāna-yoga e bhakti-yoga. O início da escada chama-se estágio yogārurukṣa, e o degrau mais alto chama-se yogārūḍha.\n\n\n\nQuanto ao sistema óctuplo de yoga, as tentativas iniciais de entrar em meditação por meio de princípios reguladores da vida e da prática de diferentes posturas sentadas (que são, mais ou menos, exercícios corporais) são consideradas atividades materiais fruitivas. Todas essas atividades conduzem a alcançar perfeito equilíbrio mental para controlar os sentidos. Quando alguém se aprimora na prática da meditação, cessa todas as atividades mentais perturbadoras.\n\n\n\nUma pessoa consciente de Kṛṣṇa, contudo, situa-se desde o início na plataforma da meditação, porque sempre pensa em Kṛṣṇa. E, estando constantemente ocupada no serviço de Kṛṣṇa, considera-se que cessou todas as atividades materiais."}
{"ref": "bg/6/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/4/", "verse_text": "yadā hi nendriyārtheṣu\n\nna karmasv anuṣajjate\n\nsarva-saṅkalpa-sannyāsī\n\nyogārūḍhas tadocyate", "devanagari": "> यदा हि नेन्द्रियार्थेषु न कर्मस्वनुषज्जते ।\n> सर्वसङ्कल्पसंन्यासी योगारूढस्तदोच्यते ॥४॥", "synonyms": "*yadā*—quando; *hi*—certamente; *na*—não; *indriya-artheṣu*—em gratificação dos sentidos; *na*—nunca; *karmasu*—em atividades fruitivas; *anuṣajjate*—ocupa-se necessariamente; *sarva-saṅkalpa*—todos os desejos materiais; *sannyāsī*—renunciante; *yoga-ārūḍhaḥ*—elevado em yoga; *tadā*—nesse momento; *ucyate*—diz-se ser.", "translation": "**Diz-se que uma pessoa alcançou o yoga quando, tendo renunciado a todos os desejos materiais, não age para gratificação dos sentidos nem se ocupa em atividades fruitivas.**", "purport": "Quando uma pessoa está plenamente ocupada no transcendental serviço amoroso ao Senhor, sente-se contente em si mesma, e assim já não se ocupa em gratificação dos sentidos nem em atividades fruitivas. Caso contrário, é forçoso ocupar-se em gratificação dos sentidos, visto que ninguém pode viver sem ocupação. Sem consciência de Kṛṣṇa, é preciso buscar sempre atividades centradas em si próprio ou em interesses egoístas estendidos. Mas uma pessoa consciente de Kṛṣṇa pode fazer tudo para a satisfação de Kṛṣṇa e, assim, estar perfeitamente desapegada da gratificação dos sentidos. Aquele que não tem essa percepção precisa tentar mecanicamente escapar dos desejos materiais antes de ser elevado ao degrau mais alto da escada do yoga."}
{"ref": "bg/6/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/5/", "verse_text": "uddhared ātmanātmānaṁ\n\nnātmānam avasādayet\n\nātmaiva hy ātmano bandhur\n\nātmaiva ripur ātmanaḥ", "devanagari": "> उद्धरेदात्मनात्मानं नात्मानमवसादयेत् ।\n> आत्मैव ह्यात्मनो बन्धुरात्मैव रिपुरात्मनः ॥५॥", "synonyms": "*uddharet*—a pessoa deve libertar; *ātmanā*—pela mente; *ātmānam*—a alma condicionada; *na*—nunca; *ātmānam*—a alma condicionada; *avasādayet*—pôr em degradação; *ātmā*—mente; *eva*—certamente; *hi*—de fato; *ātmanaḥ*—da alma condicionada; *bandhuḥ*—amigo; *ātmā*—mente; *eva*—certamente; *ripuḥ*—inimigo; *ātmanaḥ*—da alma condicionada.", "translation": "**O homem deve elevar-se por sua própria mente, e não degradar-se. A mente é a amiga da alma condicionada, e também sua inimiga.**", "purport": "A palavra ātmā denota corpo, mente e alma — dependendo das diferentes circunstâncias. No sistema de yoga, a mente e a alma condicionada são especialmente importantes. Visto que a mente é o ponto central da prática do yoga, ātmā refere-se aqui à mente. O propósito do sistema de yoga é controlar a mente e afastá-la do apego aos objetos dos sentidos. Enfatiza-se aqui que a mente deve ser tão treinada que possa libertar a alma condicionada do lamaçal da ignorância. Na existência material, a pessoa fica sujeita à influência da mente e dos sentidos. De fato, a alma pura está enredada no mundo material por causa do ego da mente, que deseja assenhorar-se da natureza material. Por conseguinte, a mente deve ser treinada para que não seja atraída pelo brilho da natureza material e, dessa maneira, a alma condicionada possa ser salva. Não se deve degradar pela atração aos objetos dos sentidos. Quanto mais a pessoa é atraída pelos objetos dos sentidos, mais se enreda na existência material. A melhor forma de desenredar-se é ocupar sempre a mente em consciência de Kṛṣṇa. A palavra hi é usada para enfatizar este ponto, isto é, que assim se deve fazer. Também se diz:\n\n\n\nmana eva manuṣyāṇāṁ kāraṇaṁ bandha-mokṣayoḥ\n\nbandhāya viṣayāsaṅgo muktyai nirviṣayaṁ manaḥ.\n\n\n\n\"Para o homem, a mente é a causa do cativeiro e a mente é a causa da liberação. A mente absorta nos objetos dos sentidos é a causa do cativeiro, e a mente desapegada dos objetos dos sentidos é a causa da liberação.\" Por conseguinte, a mente que está sempre ocupada em consciência de Kṛṣṇa é a causa da liberação suprema."}
{"ref": "bg/6/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/6/", "verse_text": "bandhur ātmātmanas tasya\n\nyenātmaivātmanā jitaḥ\n\nanātmanas tu śatrutve\n\nvartetātmaiva śatru-vat", "devanagari": "> बन्धुरात्मात्मनस्तस्य येनात्मैवात्मना जितः ।\n> अनात्मनस्तु शत्रुत्वे वर्तेतात्मैव शत्रुवत् ॥६॥", "synonyms": "*bandhuḥ*—amigo; *ātmā*—mente; *ātmanaḥ*—da entidade viva; *tasya*—dele; *yena*—por quem; *ātmā*—mente; *eva*—certamente; *ātmanā*—pela entidade viva; *jitaḥ*—conquistada; *anātmanaḥ*—de quem não conseguiu controlar a mente; *tu*—mas; *śatrutve*—por inimizade; *varteta*—permanece; *ātmā eva*—a própria mente; *śatruvat*—como inimiga.", "translation": "**Para aquele que conquistou a mente, a mente é o melhor dos amigos; mas para aquele que não conseguiu fazê-lo, sua própria mente será o maior inimigo.**", "purport": "O propósito de praticar o yoga óctuplo é controlar a mente a fim de torná-la amiga no cumprimento da missão humana. A menos que a mente seja controlada, a prática do yoga (para exibição) é simplesmente perda de tempo. Aquele que não consegue controlar sua mente vive sempre com o maior inimigo, e assim sua vida e sua missão são arruinadas. A posição constitucional da entidade viva é executar a ordem do superior. Enquanto a mente permanecer como inimigo não conquistado, há que servir aos ditames da luxúria, da ira, da avareza, da ilusão, etc. Mas quando a mente é conquistada, a pessoa concorda voluntariamente em submeter-se ao ditame da Personalidade de Deus, que está situado no coração de todos como Paramātmā. A verdadeira prática do yoga implica encontrar o Paramātmā dentro do coração e, então, seguir Seu ditame. Para aquele que adota diretamente a consciência de Kṛṣṇa, a perfeita rendição ao ditame do Senhor segue automaticamente."}
{"ref": "bg/6/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/7/", "verse_text": "jitātmanaḥ praśāntasya\n\nparamātmā samāhitaḥ\n\nśītoṣṇa-sukha-duḥkheṣu\n\ntathā mānāpamānayoḥ", "devanagari": "> जितात्मनः प्रशान्तस्य परमात्मा समाहितः ।\n> शीतोष्णसुखदुःखेषु तथा मानापमानयोः ॥७॥", "synonyms": "*jita-ātmanaḥ*—de quem conquistou sua mente; *praśāntasya*—de quem alcançou tranquilidade por tal controle sobre a mente; *paramātmā*—a Superalma; *samāhitaḥ*—aproximada por completo; *śīta*—frio; *uṣṇa*—calor; *sukha*—em felicidade; *duḥkheṣu*—em aflição; *tathā*—também; *māna*—honra; *apamānayoḥ*—em desonra.", "translation": "**Para aquele que conquistou a mente, a Superalma já é alcançada, pois ele atingiu a tranquilidade. Para tal homem, felicidade e aflição, calor e frio, honra e desonra são todos a mesma coisa.**", "purport": "Na verdade, toda entidade viva está destinada a submeter-se ao ditame da Suprema Personalidade de Deus, que se encontra no coração de cada um como Paramātmā. Quando a mente se vê desencaminhada pela energia ilusória externa, a pessoa torna-se enredada nas atividades materiais. Por isso, assim que a mente é controlada por meio de um dos sistemas de yoga, deve-se considerar que já se alcançou o destino. É preciso submeter-se ao ditame superior. Quando a mente está fixa na natureza superior, não há outra alternativa senão seguir o ditame do Supremo. A mente deve admitir algum ditame superior e segui-lo. O efeito de controlar a mente é que a pessoa segue automaticamente o ditame do Paramātmā ou Superalma. Visto que essa posição transcendental é alcançada de imediato por aquele que está em consciência de Kṛṣṇa, o devoto do Senhor não é afetado pelas dualidades da existência material, isto é, aflição e felicidade, frio e calor, etc. Esse estado é o samādhi prático, ou absorção no Supremo."}
{"ref": "bg/6/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/8/", "verse_text": "jñāna-vijñāna-tṛptātmā\n\nkūṭa-stho vijitendriyaḥ\n\nyukta ity ucyate yogī\n\nsama-loṣṭrāśma-kāñcanaḥ", "devanagari": "> ज्ञानविज्ञानतृप्तात्मा कूटस्थो विजितेन्द्रियः ।\n> युक्त इत्युच्यते योगी समलोष्टाश्मकाञ्चनः ॥८॥", "synonyms": "*jñāna*—conhecimento adquirido; *vijñāna*—conhecimento percebido; *tṛpta*—satisfeita; *ātmā*—entidade viva; *kūṭasthaḥ*—situada espiritualmente; *vijita-indriyaḥ*—com os sentidos controlados; *yuktaḥ*—competente para a autorrealização; *iti*—assim; *ucyate*—diz-se; *yogī*—o místico; *sama*—equânime; *loṣṭra*—seixos; *aśma*—pedra; *kāñcanaḥ*—ouro.", "translation": "**Diz-se que uma pessoa está estabelecida em autorrealização e chama-se yogī [ou místico] quando está plenamente satisfeita em virtude do conhecimento adquirido e da percepção realizada. Tal pessoa está situada em transcendência e é autocontrolada. Vê tudo — sejam seixos, pedras ou ouro — como sendo a mesma coisa.**", "purport": "O conhecimento livresco sem a percepção da Verdade Suprema é inútil. Isso se afirma da seguinte maneira:\n\n\n\nataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyaiḥ\n\nsevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ.\n\n\n\n\"Ninguém pode compreender a natureza transcendental do nome, da forma, da qualidade e dos passatempos de Śrī Kṛṣṇa por meio de seus sentidos materialmente contaminados. Somente quando alguém se torna espiritualmente saturado pelo serviço transcendental ao Senhor é que o nome, a forma, a qualidade e os passatempos transcendentais do Senhor lhe são revelados.\" (*Padma Purāṇa*)\n\n\n\nEste *Bhagavad-gītā* é a ciência da consciência de Kṛṣṇa. Ninguém pode tornar-se consciente de Kṛṣṇa simplesmente por meio de erudição mundana. É preciso ser-se afortunado o suficiente para associar-se com uma pessoa que esteja em consciência pura. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa possui conhecimento percebido, pela graça de Kṛṣṇa, porque está satisfeita com o serviço devocional puro. Pelo conhecimento percebido, torna-se perfeita. Pelo conhecimento transcendental, pode permanecer firme em suas convicções, mas pelo mero conhecimento acadêmico pode ser facilmente iludida e confundida por aparentes contradições. É a alma realizada que de fato é autocontrolada, porque está rendida a Kṛṣṇa. Ela é transcendental porque nada tem a ver com a erudição mundana. Para ela, a erudição mundana e a especulação mental, que para outros podem ser tão valiosas quanto ouro, não têm valor maior do que seixos ou pedras."}
{"ref": "bg/6/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/9/", "verse_text": "suhṛn-mitrāry-udāsīna-\n\nmadhyastha-dveṣya-bandhuṣu\n\nsādhuṣv api ca pāpeṣu\n\nsama-buddhir viśiṣyate", "devanagari": "> सुहृन्मित्रार्युदासीनमध्यस्थद्वेष्यबन्धुषु ।\n> साधुष्वपि च पापेषु समबुद्धिर्विशिष्यते ॥९॥", "synonyms": "*suhṛt*—benquerente por natureza; *mitra*—benfeitor com afeto; *ari*—inimigo; *udāsīna*—neutro entre os beligerantes; *madhyastha*—mediador entre os beligerantes; *dveṣya*—invejoso; *bandhuṣu*—entre os parentes ou benquerentes; *sādhuṣu*—aos piedosos; *api*—assim como; *ca*—e; *pāpeṣu*—aos pecadores; *sama-buddhiḥ*—com inteligência equânime; *viśiṣyate*—está muito avançado.", "translation": "**Diz-se que uma pessoa está ainda mais avançada quando considera a todos — o benquerente honesto, os amigos e os inimigos, o invejoso, o piedoso, o pecador e os que são indiferentes e imparciais — com mente equânime.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/6/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/10/", "verse_text": "yogī yuñjīta satatam\n\nātmānaṁ rahasi sthitaḥ\n\nekākī yata-cittātmā\n\nnirāśīr aparigrahaḥ", "devanagari": "> योगी युञ्जीत सततमात्मानं रहसि स्थितः ।\n> एकाकी यतचित्तात्मा निराशीरपरिग्रहः ॥१०॥", "synonyms": "*yogī*—um transcendentalista; *yuñjīta*—deve concentrar-se em consciência de Kṛṣṇa; *satatam*—constantemente; *ātmānam*—a si mesmo (pelo corpo, mente e eu); *rahasi*—em lugar isolado; *sthitaḥ*—assim situado; *ekākī*—sozinho; *yata-cittātmā*—sempre cuidadoso na mente; *nirāśīḥ*—sem ser atraído por qualquer outra coisa; *aparigrahaḥ*—livre do sentimento de posse.", "translation": "**Um transcendentalista deve sempre tentar concentrar a mente no Eu Supremo; deve viver sozinho num lugar isolado e deve sempre controlar cuidadosamente a mente. Deve estar livre de desejos e de sentimentos de posse.**", "purport": "Kṛṣṇa é compreendido em diferentes graus como Brahman, Paramātmā e a Suprema Personalidade de Deus. Consciência de Kṛṣṇa significa, concisamente, estar sempre ocupado no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Mas aqueles que estão apegados ao Brahman impessoal ou à Superalma localizada também são parcialmente conscientes de Kṛṣṇa, pois o Brahman impessoal é o raio espiritual de Kṛṣṇa e a Superalma é a expansão parcial onipenetrante de Kṛṣṇa. Assim, o impersonalista e o meditador são também indiretamente conscientes de Kṛṣṇa. Uma pessoa diretamente consciente de Kṛṣṇa é o transcendentalista mais elevado, pois tal devoto sabe o que se entende por Brahman ou Paramātmā. Seu conhecimento da Verdade Absoluta é perfeito, ao passo que o impersonalista e o yogī meditativo são imperfeitamente conscientes de Kṛṣṇa.\n\n\n\nNão obstante, todos eles são instruídos aqui a estarem constantemente ocupados em suas atividades específicas, para que mais cedo ou mais tarde alcancem a perfeição máxima. A primeira tarefa de um transcendentalista é manter sempre a mente em Kṛṣṇa. Deve-se sempre pensar em Kṛṣṇa e não esquecê-Lo nem por um momento. A concentração da mente no Supremo chama-se samādhi, ou transe. A fim de concentrar a mente, deve-se permanecer sempre em isolamento e evitar ser perturbado por objetos externos. Deve-se ter muito cuidado em aceitar condições favoráveis e rejeitar condições desfavoráveis que afetem sua percepção. E, em perfeita determinação, não se deve almejar coisas materiais desnecessárias que enredam a pessoa por sentimentos de posse.\n\n\n\nTodas essas perfeições e precauções são perfeitamente executadas quando a pessoa está diretamente em consciência de Kṛṣṇa, pois a consciência direta de Kṛṣṇa significa abnegação, na qual há muito pouca chance de posse material. Śrīla Rūpa Gosvāmī caracteriza a consciência de Kṛṣṇa desta maneira:\n\n\n\nanāsaktasya viṣayān yathārham upayuñjataḥ\n\nnirbandhaḥ kṛṣṇa-sambandhe yuktaṁ vairāgyam ucyate\n\nprāpañcikatayā buddhyā hari-sambandhi-vastunaḥ\n\nmumukṣubhiḥ parityāgo vairāgyaṁ phalgu kathyate.\n\n\n\n(*Bhakti-rasāmṛta-sindhu* 2.255-256)\n\n\n\n\"Quando alguém não está apegado a nada, mas ao mesmo tempo aceita tudo em relação a Kṛṣṇa, está corretamente situado acima da posse. Por outro lado, aquele que rejeita tudo sem conhecimento de sua relação com Kṛṣṇa não está tão completo em sua renúncia.\"\n\n\n\nUma pessoa consciente de Kṛṣṇa sabe muito bem que tudo pertence a Kṛṣṇa, e assim está sempre livre de sentimentos de posse pessoal. Como tal, não anseia nada por sua própria conta pessoal. Sabe como aceitar coisas em favor da consciência de Kṛṣṇa e como rejeitar coisas desfavoráveis à consciência de Kṛṣṇa. Está sempre afastada das coisas materiais, pois é sempre transcendental, e está sempre só, nada tendo a ver com pessoas que não estão em consciência de Kṛṣṇa. Por isso, uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa é o yogī perfeito."}
{"ref": "bg/6/11-12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/11-12/", "verse_text": "śucau deśe pratiṣṭhāpya\n\nsthiram āsanam ātmanaḥ\n\nnāty-ucchritaṁ nāti-nīcaṁ\n\ncailājina-kuśottaram\n\ntatraikāgraṁ manaḥ kṛtvā\n\nyata-cittendriya-kriyaḥ\n\nupaviśyāsane yuñjyād\n\nyogam ātma-viśuddhaye", "devanagari": "> शुचौ देशे प्रतिष्ठाप्य स्थिरमासनमात्मनः ।\n> नात्युच्छ्रितं नातिनीचं चैलाजिनकुशोत्तरम् ॥११॥\n> तत्रैकाग्रं मनः कृत्वा यतचित्तेन्द्रियक्रियः ।\n> उपविश्यासने युञ्ज्याद्योगमात्मविशुद्धये ॥१२॥", "synonyms": "*śucau*—em santificada; *deśe*—na terra; *pratiṣṭhāpya*—colocando; *sthiram*—firme; *āsanam*—assento; *ātmanaḥ*—autônomo; *na*—não; *ati*—demasiado; *ucchritam*—alto; *na*—nem; *ati*—demasiado; *nīcam*—baixo; *caila-ajina*—pano macio e pele de veado; *kuśottaram*—grama kuśa; *tatra*—sobre eles; *ekāgram*—uma só atenção; *manaḥ*—mente; *kṛtvā*—fazendo assim; *yata-citta*—controlando a mente; *indriya*—sentidos; *kriyaḥ*—atividades; *upaviśya*—sentando-se; *āsane*—no assento; *yuñjyāt*—executar; *yogam*—prática de yoga; *ātma*—coração; *viśuddhaye*—para purificar.", "translation": "**Para praticar yoga, deve-se ir a um lugar isolado, estender grama kuśa no chão e cobri-la com uma pele de veado e um pano macio. O assento não deve ser demasiado alto nem demasiado baixo, e deve estar situado num lugar sagrado. O yogī deve então sentar-se sobre ele muito firmemente e praticar yoga, controlando a mente e os sentidos, purificando o coração e fixando a mente num só ponto.**", "purport": "\"Lugar sagrado\" refere-se aos lugares de peregrinação. Na Índia, os yogīs, os transcendentalistas ou os devotos, todos deixam o lar e residem em lugares sagrados como Prayāg, Mathurā, Vṛndāvana, Hṛṣīkeśa e Hardwar e, em solidão, praticam yoga onde correm os rios sagrados como o Yamunā e o Ganges. Mas amiúde isso não é possível, especialmente para os ocidentais. As supostas sociedades de yoga nas grandes cidades podem ter êxito em conseguir benefício material, mas não são, em absoluto, adequadas para a verdadeira prática do yoga. Aquele que não é autocontrolado e cuja mente não está imperturbada não pode praticar a meditação. Por isso, no Bṛhan-Nāradīya Purāṇa afirma-se que, no Kali-yuga (a presente yuga ou era), quando as pessoas em geral são de vida curta, lentas em compreensão espiritual e sempre perturbadas por várias ansiedades, o melhor meio de compreensão espiritual é cantar o santo nome do Senhor.\n\n\n\nharer nāma harer nāma harer nāmaiva kevalam\n\nkalau nāsty eva nāsty eva nāsty eva gatir anyathā.\n\n\n\n\"Nesta era de disputa e hipocrisia, o único meio de libertação é cantar o santo nome do Senhor. Não há outra maneira. Não há outra maneira. Não há outra maneira.\""}
{"ref": "bg/6/13-14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/13-14/", "verse_text": "samaṁ kāya-śiro-grīvaṁ\n\ndhārayann acalaṁ sthiraḥ\n\nsamprekṣya nāsikāgraṁ svaṁ\n\ndiśaś cānavalokayan\n\npraśāntātmā vigata-bhīr\n\nbrahmacāri-vrate sthitaḥ\n\nmanaḥ saṁyamya mac-citto\n\nyukta āsīta mat-paraḥ", "devanagari": "> समं कायशिरोग्रीवं धारयन्नचलं स्थिरः ।\n> सम्प्रेक्ष्य नासिकाग्रं स्वं दिशश्चानवलोकयन् ॥१३॥\n> प्रशान्तात्मा विगतभीर्ब्रह्मचारिव्रते स्थितः ।\n> मनः संयम्य मच्चित्तो युक्त आसीत मत्परः ॥१४॥", "synonyms": "*samam*—reto; *kāya-śiraḥ*—corpo e cabeça; *grīvam*—pescoço; *dhārayan*—mantendo; *acalam*—imóvel; *sthiraḥ*—quieto; *samprekṣya*—olhando; *nāsikā*—nariz; *agram*—ponta; *svam*—própria; *diśaḥ*—todos os lados; *ca*—também; *anavalokayan*—não vendo; *praśānta*—inalterada; *ātmā*—mente; *vigata-bhīḥ*—desprovida de medo; *brahmacāri-vrate*—no voto de celibato; *sthitaḥ*—situado; *manaḥ*—mente; *saṁyamya*—completamente subjugada; *mat*—em Mim (Kṛṣṇa); *cittaḥ*—concentrada; *yuktaḥ*—verdadeiro yogī; *āsīta*—estando assim; *mat*—em Mim; *paraḥ*—meta última.", "translation": "**Deve-se manter o corpo, o pescoço e a cabeça eretos em linha reta e fixar o olhar firmemente na ponta do nariz. Assim, com a mente inalterada e subjugada, desprovida de medo, completamente livre da vida sexual, deve-se meditar em Mim dentro do coração e fazer de Mim a meta última da vida.**", "purport": "A meta da vida é conhecer Kṛṣṇa, que está situado no coração de todo ser vivo como Paramātmā, a forma de Viṣṇu de quatro braços. O processo do yoga é praticado a fim de descobrir e ver essa forma localizada de Viṣṇu, e não para qualquer outro propósito. O Viṣṇu-mūrti localizado é a representação plenária de Kṛṣṇa que reside no coração da pessoa. Aquele que não possui programa para perceber esse Viṣṇu-mūrti está inutilmente ocupado numa prática de yoga simulada e certamente desperdiça seu tempo. Kṛṣṇa é a meta última da vida, e o Viṣṇu-mūrti situado no coração é o objeto da prática de yoga. Para perceber esse Viṣṇu-mūrti dentro do coração, deve-se observar abstinência completa da vida sexual; portanto, há que deixar o lar e viver sozinho num lugar isolado, permanecendo sentado conforme mencionado acima. Não se pode desfrutar da vida sexual diariamente em casa ou em outro lugar e frequentar uma suposta aula de yoga e assim tornar-se yogī. Há que praticar o controle da mente e evitar todas as espécies de gratificação dos sentidos, das quais a vida sexual é a principal. Nas regras de celibato escritas pelo grande sábio Yājñavalkya afirma-se:\n\n\n\nkarmaṇā manasā vācā sarvāvasthāsu sarvadā\n\nsarvatra maithuṇa-tyāgo brahmacaryaṁ pracakṣate.\n\n\n\n\"O voto de brahmacarya destina-se a auxiliar a pessoa a abster-se completamente da indulgência sexual em obras, palavras e mente — em todos os tempos, sob todas as circunstâncias e em todos os lugares.\" Ninguém pode realizar a prática correta do yoga por meio da indulgência sexual. Por isso, o brahmacarya é ensinado desde a infância, quando ainda não se tem conhecimento da vida sexual. Aos cinco anos de idade, as crianças são enviadas para o guru-kula, ou o lugar do mestre espiritual, e o mestre treina os meninos na rigorosa disciplina de tornarem-se brahmacārīs. Sem tal prática, ninguém pode avançar em qualquer yoga, seja dhyāna, jñāna ou bhakti. Aquele que, contudo, segue as regras e regulações da vida matrimonial, tendo relação sexual apenas com sua esposa (e isso também sob regulamento), também é chamado brahmacārī. Tal chefe de família brahmacārī contido pode ser aceito na escola do bhakti, mas as escolas do jñāna e do dhyāna não admitem nem mesmo chefes de família brahmacārīs. Eles exigem abstinência completa, sem concessões. Na escola do bhakti, permite-se a um chefe de família brahmacārī uma vida sexual controlada, pois o culto do bhakti-yoga é tão poderoso que se perde automaticamente a atração sexual, por estar ocupado no serviço superior ao Senhor. No *Bhagavad-gītā* se afirma:\n\n\n\nviṣayā vinivartante nirāhārasya dehinaḥ\n\nrasa-varjaṁ raso 'py asya paraṁ dṛṣṭvā nivartate\n\n\n\nEnquanto outros são forçados a refrear-se da gratificação dos sentidos, um devoto do Senhor refreia-se automaticamente devido a um gosto superior. Salvo o devoto, ninguém tem informação alguma desse gosto superior.\n\n\n\nVigatabhīḥ. Não se pode ser destemido a menos que se esteja plenamente em consciência de Kṛṣṇa. Uma alma condicionada é temerosa devido à sua memória pervertida, ao esquecimento de sua eterna relação com Kṛṣṇa. O *Bhāgavatam* diz: bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syād īśād apetasya viparyayo 'smṛtiḥ — a consciência de Kṛṣṇa é a única base para a destemidez. Por conseguinte, a prática perfeita só é possível para uma pessoa consciente de Kṛṣṇa. E como a meta última da prática do yoga é ver o Senhor por dentro, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa já é o melhor de todos os yogīs. Os princípios do sistema de yoga aqui mencionados diferem dos das populares e supostas sociedades de yoga."}
{"ref": "bg/6/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/15/", "verse_text": "yuñjann evaṁ sadātmānaṁ\n\nyogī niyata-mānasaḥ\n\nśāntiṁ nirvāṇa-paramāṁ\n\nmat-saṁsthām adhigacchati", "devanagari": "> युञ्जन्नेवं सदात्मानं योगी नियतमानसः ।\n> शान्तिं निर्वाणपरमां मत्संस्थामधिगच्छति ॥१५॥", "synonyms": "*yuñjan*—praticando assim; *evam*—conforme mencionado acima; *sadā*—constantemente; *ātmānam*—corpo, mente e alma; *yogī*—o transcendentalista místico; *niyata-mānasaḥ*—mente regulada; *śāntim*—paz; *nirvāṇa-paramām*—cessação da existência material; *mat-saṁsthām*—no céu espiritual (o reino de Deus); *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**Praticando assim o controle do corpo, da mente e das atividades, o transcendentalista místico alcança o reino de Deus [ou a morada de Kṛṣṇa] pela cessação da existência material.**", "purport": "A meta última da prática do yoga agora é claramente explicada. A prática do yoga não se destina a alcançar qualquer espécie de comodidade material; destina-se a possibilitar a cessação de toda existência material. Aquele que busca uma melhoria de saúde ou aspira à perfeição material não é yogī, segundo o *Bhagavad-gītā*. Tampouco a cessação da existência material implica entrar no \"vazio\", o qual é apenas um mito. Não há vazio em parte alguma da criação do Senhor. Pelo contrário, a cessação da existência material possibilita à pessoa entrar no céu espiritual, a morada do Senhor. A morada do Senhor também é claramente descrita no *Bhagavad-gītā* como o lugar onde não há necessidade de sol, lua ou eletricidade. Todos os planetas no reino espiritual são autoluminosos, como o sol no céu material. O reino de Deus está em toda parte, mas o céu espiritual e seus planetas chamam-se paraṁ dhāma, ou moradas superiores.\n\n\n\nUm yogī consumado, perfeito na compreensão do Senhor Kṛṣṇa, conforme aqui afirmado claramente (mat-cittaḥ, mat-paraḥ, mat-sthānam) pelo próprio Senhor, pode alcançar a verdadeira paz e, em última análise, atingir Sua morada suprema, a Kṛṣṇa-loka conhecida como Goloka Vṛndāvana. Na Brahma-saṁhitā afirma-se claramente (goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ) que o Senhor, embora resida sempre em Sua morada chamada Goloka, é também o Brahman onipenetrante e o Paramātmā localizado, em virtude de Suas energias espirituais superiores. Ninguém pode alcançar o céu espiritual ou entrar na morada eterna (Vaikuṇṭha Goloka Vṛndāvana) do Senhor sem a compreensão adequada de Kṛṣṇa e de Sua expansão plenária Viṣṇu. Por isso, uma pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa é o yogī perfeito, pois sua mente está sempre absorta nas atividades de Kṛṣṇa. Sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ. Nos *Vedas* também aprendemos: tam eva viditvātimṛtyum eti — \"Pode-se superar o caminho do nascimento e da morte somente compreendendo a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa.\" Em outras palavras, a perfeição do sistema de yoga é a obtenção da liberdade da existência material, e não algum truque mágico ou proeza ginástica para enganar pessoas inocentes."}
{"ref": "bg/6/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/16/", "verse_text": "nāty-aśnatas 'tu yogo 'sti\n\nna caikāntam anaśnataḥ\n\nna cāti-svapna-śīlasya\n\njāgrato naiva cārjuna", "devanagari": "> नात्यश्नतस्तु योगोऽस्ति न चैकान्तमनश्नतः ।\n> न चातिस्वप्नशीलस्य जाग्रतो नैव चार्जुन ॥१६॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ati*—demasiado; *aśnataḥ*—de quem come assim; *tu*—mas; *yogaḥ*—vincular-se ao Supremo; *asti*—há; *na*—nem; *ca*—também; *ekāntam*—demasiado pouco; *anaśnataḥ*—abstendo-se de comer; *na*—nem; *ca*—também; *ati*—demasiado; *svapna-śīlasya*—de quem dorme demais; *jāgrataḥ*—ou de quem vela demais à noite; *na*—não; *eva*—jamais; *ca*—e; *arjuna*—ó Arjuna.", "translation": "**Não há possibilidade de alguém tornar-se yogī, ó Arjuna, se comer demais, ou comer muito pouco, se dormir demais ou se não dormir o suficiente.**", "purport": "Aqui se recomenda a regulação da dieta e do sono para os yogīs. Comer demais significa comer mais do que é necessário para manter unidos o corpo e a alma. Não há necessidade de o homem comer animais, pois há um amplo suprimento de grãos, vegetais, frutas e leite. Tais alimentos simples são considerados, segundo o *Bhagavad-gītā*, no modo da bondade. O alimento animal destina-se aos que estão no modo da ignorância. Por isso, aqueles que se entregam ao alimento animal, à bebida, ao fumo e a comer alimentos que primeiro não foram oferecidos a Kṛṣṇa sofrerão reações pecaminosas, por comerem apenas coisas poluídas. Bhuñjate te tv aghaṁ papa ye pacanty ātma-kāraṇāt. Quem quer que coma para o prazer dos sentidos, ou cozinhe para si mesmo, sem oferecer seu alimento a Kṛṣṇa, come apenas pecado. Aquele que come pecado e come mais do que lhe é destinado não pode executar o yoga perfeito. O melhor é comer apenas os restos do alimento oferecido a Kṛṣṇa. Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa não come nada que não tenha sido primeiro oferecido a Kṛṣṇa. Por conseguinte, somente a pessoa consciente de Kṛṣṇa pode alcançar a perfeição na prática do yoga. Tampouco aquele que se abstém artificialmente de comer, fabricando seu próprio processo pessoal de jejum, pode praticar yoga. A pessoa consciente de Kṛṣṇa observa o jejum tal como é recomendado nas escrituras. Não jejua nem come mais do que o necessário, e assim é competente para realizar a prática do yoga. Aquele que come mais do que o necessário sonhará muito enquanto dorme e, em consequência, deverá dormir mais do que o necessário. Não se deve dormir mais de seis horas diárias. Aquele que dorme mais de seis horas em vinte e quatro está, sem dúvida, influenciado pelo modo da ignorância. A pessoa no modo da ignorância é preguiçosa e propensa a dormir demais. Tal pessoa não pode realizar o yoga."}
{"ref": "bg/6/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/17/", "verse_text": "yuktāhāra-vihārasya\n\nyukta-ceṣṭasya karmasu\n\nyukta-svapnāvabodhasya\n\nyogo bhavati duḥkha-hā", "devanagari": "> युक्ताहारविहारस्य  युक्तचेष्टस्य कर्मसु ।\n> युक्तस्वप्नावबोधस्य योगो भवति दुःखहा ॥१७॥", "synonyms": "*yukta*—regulado; *āhāra*—comer; *vihārasya*—recreação; *yukta*—regulado; *ceṣṭasya*—de quem trabalha para a manutenção; *karmasu*—no cumprimento dos deveres; *yukta*—regulado; *svapna-avabodhasya*—sono e vigília regulados; *yogaḥ*—prática de yoga; *bhavati*—torna-se; *duḥkha-hā*—diminuindo as dores.", "translation": "**Aquele que é moderado em seus hábitos de comer, dormir, trabalhar e recrear-se pode mitigar todas as dores materiais praticando o sistema de yoga.**", "purport": "A extravagância no que diz respeito a comer, dormir, defender-se e acasalar-se — que são exigências do corpo — pode bloquear o avanço na prática do yoga. No tocante a comer, isso só pode regular-se quando a pessoa é treinada a tomar e aceitar prasādam, alimento santificado. Ao Senhor Kṛṣṇa oferecem-se, segundo o *Bhagavad-gītā* (Bg. 9.26), vegetais, flores, frutas, grãos, leite, etc. Dessa forma, uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa torna-se automaticamente treinada a não aceitar alimento que não se destine ao consumo humano, ou que não esteja na categoria da bondade. Quanto ao dormir, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa está sempre alerta no cumprimento de seus deveres em consciência de Kṛṣṇa, e por isso qualquer tempo desnecessário gasto dormindo é considerado uma grande perda. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não suporta passar um minuto de sua vida sem ocupar-se no serviço ao Senhor. Por conseguinte, seu sono é mantido ao mínimo. Seu ideal a esse respeito é Śrīla Rūpa Gosvāmī, que estava sempre ocupado no serviço de Kṛṣṇa e não conseguia dormir mais de duas horas por dia, e por vezes nem mesmo isso. Ṭhākura Haridāsa não aceitava nem mesmo prasādam nem dormia por um momento sem terminar sua rotina diária de cantar com seu rosário trezentos mil nomes. Quanto ao trabalho, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não faz nada que não esteja relacionado com o interesse de Kṛṣṇa, e assim seu trabalho é sempre regulado e isento de gratificação dos sentidos. Visto que não há possibilidade de gratificação dos sentidos, não há lazer material para uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa. E porque ela é regulada em todo o seu trabalho, fala, sono, vigília e em todas as outras atividades corpóreas, não há miséria material para ela."}
{"ref": "bg/6/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/18/", "verse_text": "yadā viniyataṁ cittam\n\nātmany evāvatiṣṭhate\n\nnispṛhaḥ sarva-kāmebhyo\n\nyukta ity ucyate tadā", "devanagari": "> यदा विनियतं चित्तमात्मन्येवावतिष्ठते ।\n> निःस्पृहः सर्वकामेभ्यो युक्त इत्युच्यते तदा ॥१८॥", "synonyms": "*yadā*—quando; *viniyatam*—particularmente disciplinada; *cittam*—a mente e suas atividades; *ātmani*—na Transcendência; *eva*—certamente; *avatiṣṭhate*—situa-se; *nispṛhaḥ*—desprovido de; *sarva*—todos os tipos de; *kāmebhyaḥ*—desejos materiais; *yuktaḥ*—bem situado em yoga; *iti*—assim; *ucyate*—diz-se; *tadā*—nesse momento.", "translation": "**Quando o yogī, pela prática do yoga, disciplina suas atividades mentais e situa-se na Transcendência — desprovido de todos os desejos materiais —, diz-se que ele alcançou o yoga.**", "purport": "As atividades do yogī distinguem-se das de uma pessoa comum por sua característica cessação de todas as espécies de desejos materiais — dos quais o sexo é o principal. Um yogī perfeito é tão bem disciplinado nas atividades da mente que já não pode ser perturbado por qualquer espécie de desejo material. Esse estágio perfeccional pode ser automaticamente alcançado por pessoas em consciência de Kṛṣṇa, conforme se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* (9.4.18-20):\n\n\n\nsa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayor vacāṁsi vaikuṇṭha-guṇānavarṇane\n\nkarau harer mandira-mārjanādiṣu śrutiṁ cakārācyuta-sat-kathodaye\n\nmukunda-liṅgālaya-darśane dṛśau tad-bhṛtyagātra-sparśe 'ṅga-saṅgamam\n\nghrāṇaṁ ca tat-pāda-saroja-saurabhe śrīmat tulasyā rasanāṁ tad-arpite\n\npādau hareḥ kṣetra-padānusarpaṇe śiro hṛṣīkeśa-padābhivandane\n\nkāmaṁ ca dāsye na tu kāma-kāmyayā yathottama-śloka-janāśrayā ratiḥ\n\n\n\n\"O Rei Ambarīṣa, em primeiro lugar, ocupou sua mente nos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa; depois, uma após outra, ocupou suas palavras em descrever as qualidades transcendentais do Senhor, suas mãos em limpar o templo do Senhor, seus ouvidos em ouvir as atividades do Senhor, seus olhos em ver as formas transcendentais do Senhor, seu corpo em tocar os corpos dos devotos, seu olfato em cheirar os aromas das flores de lótus oferecidas ao Senhor, sua língua em saborear a folha de tulasī oferecida aos pés de lótus do Senhor, suas pernas em ir aos lugares de peregrinação e ao templo do Senhor, sua cabeça em prestar reverências ao Senhor e seus desejos em executar a missão do Senhor. Todas essas atividades transcendentais são plenamente condizentes com um devoto puro.\"\n\n\n\nEsse estágio transcendental pode ser inexprimível subjetivamente para os seguidores da senda impersonalista, mas torna-se muito fácil e prático para uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa, conforme é evidente na descrição acima das ocupações de Mahārāja Ambarīṣa. A menos que a mente esteja fixa nos pés de lótus do Senhor pela lembrança constante, tais ocupações transcendentais não são práticas. No serviço devocional ao Senhor, portanto, essas atividades prescritas chamam-se arcanā, ou seja, ocupar todos os sentidos no serviço ao Senhor. Os sentidos e a mente requerem ocupações. A simples abnegação não é prática. Por conseguinte, para as pessoas em geral — especialmente aquelas que não estão na ordem renunciada da vida — a ocupação transcendental dos sentidos e da mente como acima descrita é o processo perfeito para a conquista transcendental, que é chamada yukta no *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "bg/6/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/19/", "verse_text": "yathā dīpo nivāta-stho\n\nneṅgate sopamā smṛtā\n\nyogino yata-cittasya\n\nyuñjato yogam ātmanaḥ", "devanagari": "> यथा दीपो निवातस्थो नेङ्गते सोपमा स्मृता ।\n> योगिनो यतचित्तस्य युञ्जतो योगमात्मनः ॥१९॥", "synonyms": "*yathā*—assim como; *dīpaḥ*—uma lâmpada; *nivātasthaḥ*—num lugar sem vento; *na*—não; *iṅgate*—vacila; *sā upamā*—comparada a isso; *smṛtā*—assemelhada; *yoginaḥ*—do yogī; *yata-cittasya*—cuja mente está controlada; *yuñjataḥ*—constantemente ocupada em; *yogam*—meditação; *ātmanaḥ*—na Transcendência.", "translation": "**Assim como uma lâmpada num lugar sem vento não vacila, da mesma forma o transcendentalista, cuja mente está controlada, permanece sempre firme em sua meditação no Eu transcendente.**", "purport": "Uma pessoa verdadeiramente consciente de Kṛṣṇa, sempre absorta na Transcendência, em meditação constante e imperturbada em seu adorável Senhor, é tão firme quanto uma lâmpada num lugar sem vento."}
{"ref": "bg/6/20-23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/20-23/", "verse_text": "yatroparamate cittaṁ\n\nniruddhaṁ yoga-sevayā\n\nyatra caivātmanātmānaṁ\n\npaśyann ātmani tuṣyati\n\nsukham ātyantikaṁ yat tad\n\nbuddhi-grāhyam atīndriyam\n\nvetti yatra na caivāyaṁ\n\nsthitaś calati tattvataḥ\n\nyaṁ labdhvā cāparaṁ lābhaṁ\n\nmanyate nādhikaṁ tataḥ\n\nyasmin sthito na duḥkhena\n\nguruṇāpi vicālyate\n\ntaṁ vidyād duḥkha-saṁyoga-\n\nviyogaṁ yoga-saṁjñitam", "devanagari": "> यत्रोपरमते चित्तं निरुद्धं योगसेवया ।\n> यत्र चैवात्मनात्मानं पश्यन्नात्मनि तुष्यति ॥२०॥\n> सुखमात्यन्तिकं यत्तद् बुद्धिग्राह्यमतीन्द्रियम् ।\n> वेत्ति यत्र न चैवायं स्थितश्चलति तत्त्वतः ॥२१॥\n> यं लब्ध्वा चापरं लाभं मन्यते नाधिकं ततः ।\n> यस्मिन्स्थितो न दुःखेन गुरुणापि विचाल्यते ॥२२॥\n> तं विद्याद् दुःखसंयोगवियोगं योगसंज्ञितम् ॥२३॥", "synonyms": "*yatra*—nesse estado de coisas; *uparamate*—quando a pessoa sente felicidade transcendental; *cittam*—atividades mentais; *niruddham*—refreadas da matéria; *yoga-sevayā*—pela execução do yoga; *yatra*—nesse; *ca*—também; *eva*—certamente; *ātmanā*—pela mente pura; *ātmānam*—o eu; *paśyan*—percebendo a posição; *ātmani*—no eu; *tuṣyati*—torna-se satisfeito; *sukham*—felicidade; *ātyantikam*—suprema; *yat*—na qual; *tat*—essa; *buddhi*—inteligência; *grāhyam*—aceitável; *atīndriyam*—transcendental; *vetti*—conhece; *yatra*—em que; *na*—nunca; *ca*—também; *eva*—certamente; *ayam*—neste; *sthitaḥ*—situado; *calati*—move-se; *tattvataḥ*—da verdade; *yam*—aquilo que; *labdhvā*—pelo alcance; *ca*—também; *aparam*—qualquer outro; *lābham*—ganho; *manyate*—não considera; *na*—nunca; *adhikam*—maior do que isso; *tataḥ*—disso; *yasmin*—no qual; *sthitaḥ*—situado; *na*—nunca; *duḥkhena*—pelas misérias; *guruṇāpi*—embora muito difícil; *vicālyate*—torna-se abalado; *tam*—isso; *vidyāt*—deves saber; *duḥkha-saṁyoga*—misérias do contato material; *viyogam*—extermínio; *yoga-samjñitam*—transe em yoga.", "translation": "**O estágio da perfeição chama-se transe, ou samādhi, quando a mente está completamente refreada das atividades mentais materiais pela prática do yoga. Isso se caracteriza pela capacidade de ver o eu pela mente pura e de saborear e regozijar-se no eu. Nesse estado jubiloso, a pessoa está situada em ilimitada felicidade transcendental e desfruta-se através de sentidos transcendentais. Assim estabelecida, jamais se afasta da verdade e, ao alcançá-la, considera que não há ganho maior. Estando situada em tal posição, jamais se abala, nem mesmo em meio à maior dificuldade. Esta é, de fato, a real liberdade de todas as misérias provenientes do contato material.**", "purport": "Pela prática do yoga, a pessoa torna-se gradualmente desapegada dos conceitos materiais. Esta é a característica primária do princípio do yoga. E depois disso, situa-se em transe, ou samādhi, o que significa que o yogī percebe a Superalma através da mente e da inteligência transcendentais, sem qualquer dos receios de identificar o eu com o Eu Supremo. A prática do yoga baseia-se mais ou menos nos princípios do sistema de Patañjali. Alguns comentadores não autorizados tentam identificar a alma individual com a Superalma, e os monistas pensam que isso é a liberação, mas eles não compreendem o verdadeiro propósito do sistema de yoga de Patañjali. Há uma aceitação do prazer transcendental no sistema de Patañjali, mas os monistas não aceitam esse prazer transcendental por temor de comprometer a teoria da unicidade. A dualidade do conhecimento e do conhecedor não é aceita pelo não dualista, mas neste verso aceita-se o prazer transcendental — percebido através de sentidos transcendentais. E isso é corroborado por Patañjali Muni, o famoso expositor do sistema de yoga. O grande sábio declara em seus Yoga-sūtras: puruṣārtha-śūnyānāṁ guṇānāṁ pratiprasavaḥ kaivalyaṁ svarūpa-pratiṣṭhā vā citi-śaktir iti.\n\n\n\nEssa citi-śakti, ou potência interna, é transcendental. Puruṣārtha significa religiosidade material, desenvolvimento econômico, gratificação dos sentidos e, ao final, a tentativa de tornar-se um com o Supremo. Essa \"unicidade com o Supremo\" é chamada kaivalyam pelo monista. Mas, segundo Patañjali, essa kaivalyam é uma potência interna, ou transcendental, pela qual a entidade viva torna-se ciente de sua posição constitucional. Nas palavras do Senhor Caitanya, esse estado de coisas chama-se ceto-darpaṇa-mārjanam, ou limpeza do espelho impuro da mente. Essa \"limpeza\" é, na verdade, a liberação, ou bhava-mahādāvāgni-nirvāpaṇam. A teoria do nirvāṇa — também preliminar — corresponde a este princípio. No *Bhāgavatam*, isso é chamado svarūpeṇa vyavasthitiḥ. O *Bhagavad-gītā* também confirma essa situação neste verso.\n\n\n\nApós o nirvāṇa, ou cessação material, há a manifestação de atividades espirituais, ou serviço devocional ao Senhor, conhecido como consciência de Kṛṣṇa. Nas palavras do *Bhāgavatam*, svarūpeṇa vyavasthitiḥ — esta é a \"verdadeira vida da entidade viva\". Māyā, ou ilusão, é a condição da vida espiritual contaminada pela infecção material. A liberação dessa infecção material não significa a destruição da posição eterna original da entidade viva. Patañjali também aceita isso através de suas palavras kaivalyam svarūpa-pratiṣṭhā vā citi-śaktir iti. Essa citi-śakti, ou prazer transcendental, é a vida real. Isso é confirmado nos Vedānta-sūtras como ānandamayo 'bhyāsāt. Esse prazer transcendental natural é a meta última do yoga e é facilmente alcançado pela execução do serviço devocional, ou bhakti-yoga. O bhakti-yoga será descrito vivamente no Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nNo sistema de yoga, conforme descrito neste capítulo, há dois tipos de samādhi, chamados samprajñāta-samādhi e asamprajñāta-samādhi. Quando a pessoa se situa na posição transcendental por meio de várias pesquisas filosóficas, isso se chama samprajñāta-samādhi. No asamprajñāta-samādhi não há mais qualquer conexão com o prazer mundano, pois então a pessoa é transcendental a todas as espécies de felicidade derivadas dos sentidos. Quando o yogī se situa uma vez nessa posição transcendental, jamais é abalado dela. A menos que o yogī seja capaz de alcançar essa posição, ele é malsucedido. A suposta prática de yoga de hoje em dia, que envolve vários prazeres dos sentidos, é contraditória. Um yogī que se entrega ao sexo e à intoxicação é uma zombaria. Mesmo aqueles yogīs atraídos pelos siddhis (perfeições) no processo do yoga não estão perfeitamente situados. Se os yogīs forem atraídos pelos subprodutos do yoga, então não poderão alcançar o estágio da perfeição, conforme se afirma neste verso. Por isso, as pessoas que se entregam à prática ostentatória de proezas ginásticas ou siddhis devem saber que dessa forma se perde o objetivo do yoga.\n\n\n\nA melhor prática de yoga nesta era é a consciência de Kṛṣṇa, que não é desconcertante. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa é tão feliz em sua ocupação que não aspira a qualquer outra felicidade. Há muitos impedimentos, especialmente nesta era de hipocrisia, para praticar haṭha-yoga, dhyāna-yoga e jñāna-yoga, mas não existe tal problema na execução do karma-yoga ou do bhakti-yoga.\n\n\n\nEnquanto o corpo material existir, a pessoa terá que atender às exigências do corpo, isto é, comer, dormir, defender-se e acasalar-se. Mas uma pessoa que está em bhakti-yoga puro, ou em consciência de Kṛṣṇa, não excita os sentidos ao satisfazer as exigências do corpo. Em vez disso, aceita as necessidades estritas da vida, fazendo o melhor uso de uma má barganha, e desfruta de felicidade transcendental em consciência de Kṛṣṇa. Mostra-se indiferente a ocorrências circunstanciais — como acidentes, doenças, escassez e mesmo a morte de um parente queridíssimo —, mas está sempre alerta para executar seus deveres em consciência de Kṛṣṇa ou bhakti-yoga. Os acidentes jamais o desviam de seu dever. Conforme se afirma no *Bhagavad-gītā*, āgamāpāyino 'nityās tāṁs titikṣasva bhārata. Ele suporta todas essas ocorrências circunstanciais porque sabe que vêm e vão e não afetam seus deveres. Dessa forma, alcança a perfeição mais elevada na prática do yoga."}
{"ref": "bg/6/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/24/", "verse_text": "sa niścayena yoktavyo\n\nyogo 'nirviṇṇa-cetasā\n\nsaṅkalpa-prabhavān kāmāṁs\n\ntyaktvā sarvān aśeṣataḥ\n\nmanasaivendriya-grāmaṁ\n\nviniyamya samantataḥ", "devanagari": "> स निश्चयेन योक्तव्यो योगोऽनिर्विण्णचेतसा ।\n> सङ्कल्पप्रभवान्कामांस्त्यक्त्वा सर्वानशेषतः ।\n> मनसैवेन्द्रियग्रामं विनियम्य समन्ततः ॥२४॥", "synonyms": "*saḥ*—esse sistema de yoga; *niścayena*—com firme determinação; *yoktavyaḥ*—deve ser praticado; *yogaḥ*—em tal prática; *anirviṇṇa-cetasā*—sem desvio; *saṅkalpa*—desejos materiais; *prabhavān*—nascidos de; *kāmān*—gratificação dos sentidos; *tyaktvā*—abandonando; *sarvān*—todos; *aśeṣatah*—completamente; *manasā*—pela mente; *eva*—certamente; *indriya-grāmam*—o conjunto completo dos sentidos; *viniyamya*—regulando; *samantataḥ*—de todos os lados.", "translation": "**É preciso ocupar-se na prática do yoga com determinação e fé inabaláveis. Deve-se abandonar, sem exceção, todos os desejos materiais nascidos do ego falso e, assim, controlar todos os sentidos por todos os lados pela mente.**", "purport": "O praticante do yoga deve ser determinado e deve, com paciência, prosseguir na prática sem desvios. É preciso ter certeza do êxito ao final e seguir esse curso com grande perseverança, sem desanimar caso haja qualquer demora na conquista do êxito. O êxito é certo para o praticante rigoroso. Quanto ao bhakti-yoga, Rūpa Gosvāmī diz:\n\n\n\nutsāhān niścayād dhairyāt tat tat karma-pravartanāt\n\nsaṅga-tyāgāt satovṛtteḥ ṣaḍbhir bhaktiḥ prasidhyati\n\n\n\n\"O processo do bhakti-yoga pode ser executado com êxito mediante entusiasmo de todo o coração, perseverança e determinação, seguindo os deveres prescritos na associação dos devotos e ocupando-se completamente em atividades de bondade.\"\n\n\n\nQuanto à determinação, deve-se seguir o exemplo do pardal que perdeu seus ovos nas ondas do oceano. Um pardal pôs seus ovos na praia do oceano, mas o grande oceano levou os ovos em suas ondas. O pardal ficou muito perturbado e pediu ao oceano que devolvesse seus ovos. O oceano sequer considerou o seu apelo. Então o pardal decidiu secar o oceano. Começou a retirar a água com seu pequeno bico, e todos riram dele por sua determinação impossível. A notícia de sua atividade espalhou-se e, por fim, Garuḍa, a gigantesca ave portadora do Senhor Viṣṇu, tomou conhecimento dela. Ele compadeceu-se de sua pequena irmã ave e, assim, foi ver o pardal. Garuḍa ficou muito satisfeito com a determinação do pequeno pardal e prometeu ajudá-lo. Dessa maneira, Garuḍa imediatamente pediu ao oceano que devolvesse os ovos, sob pena de ele próprio assumir a tarefa do pardal. O oceano amedrontou-se com isso e devolveu os ovos. Assim, o pardal ficou feliz pela graça de Garuḍa.\n\n\n\nDe modo semelhante, a prática do yoga, especialmente o bhakti-yoga em consciência de Kṛṣṇa, pode parecer uma tarefa muito difícil. Mas, se alguém seguir os princípios com grande determinação, o Senhor seguramente o ajudará, pois Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmos."}
{"ref": "bg/6/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/25/", "verse_text": "śanaiḥ śanair uparamed\n\nbuddhyā dhṛti-gṛhītayā\n\nātma-saṁsthaṁ manaḥ kṛtvā\n\nna kiñcid api cintayet", "devanagari": "> शनैः शनैरुपरमेद् बुद्ध्या धृतिगृहीतया ।\n> आत्मसंस्थं मनः कृत्वा न किञ्चिदपि चिन्तयेत् ॥२५॥", "synonyms": "*śanaiḥ*—gradualmente; *śanaiḥ*—passo a passo; *uparamet*—detinha-se; *buddhyā*—pela inteligência; *dhṛti-gṛhītayā*—trazendo a convicção; *ātma-saṁstham*—situada em transcendência; *manaḥ*—mente; *kṛtvā*—fazendo assim; *na*—nada; *kiñcit*—qualquer outra coisa; *api*—mesmo; *cintayet*—pensar em.", "translation": "**Gradualmente, passo a passo, com plena convicção, deve-se situar-se em transe por meio da inteligência, e assim a mente deve fixar-se somente no Eu e não pensar em mais nada.**", "purport": "Pela convicção e inteligência adequadas, deve-se cessar gradualmente as atividades dos sentidos. Isso se chama pratyāhāra. A mente, sendo controlada pela convicção, meditação e cessação dos sentidos, deve situar-se em transe, ou samādhi. Nesse momento, já não há perigo algum de ocupar-se na concepção material da vida. Em outras palavras, embora se esteja envolvido com a matéria enquanto o corpo material existir, não se deve pensar em gratificação dos sentidos. Não se deve pensar em nenhum prazer além do prazer do Eu Supremo. Esse estado é facilmente alcançado pela prática direta da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/26/", "verse_text": "yato yato niścalati\n\nmanaś cañcalam asthiram\n\ntatas tato niyamyaitad\n\nātmany eva vaśaṁ nayet", "devanagari": "> यतो यतो निश्चरति मनश्चञ्चलमस्थिरम् ।\n> ततस्ततो नियम्यैतदात्मन्येव वशं नयेत् ॥२६॥", "synonyms": "*yataḥ*—o que quer que; *yataḥ*—onde quer que; *niścalati*—verdadeiramente agitada; *manaḥ*—a mente; *cañcalam*—oscilante; *asthiram*—instável; *tataḥ*—dali; *tataḥ*—e depois; *niyamya*—regulando; *etat*—isto; *ātmani*—no eu; *eva*—certamente; *vaśam*—controle; *nayet*—deve trazer.", "translation": "**De qualquer coisa e de qualquer lugar para onde a mente vagueie devido à sua natureza oscilante e instável, é preciso certamente retraí-la e trazê-la de volta sob o controle do Eu.**", "purport": "A natureza da mente é oscilante e instável. Mas um yogī autorrealizado tem que controlar a mente; a mente não deve controlá-lo. Aquele que controla a mente (e, portanto, também os sentidos) chama-se gosvāmī, ou svāmī, e aquele que é controlado pela mente chama-se godāsa, ou o servo dos sentidos. Um gosvāmī conhece o padrão da felicidade dos sentidos. Na felicidade transcendental dos sentidos, os sentidos estão ocupados no serviço a Hṛṣīkeśa, ou seja, ao supremo proprietário dos sentidos — Kṛṣṇa. Servir a Kṛṣṇa com sentidos purificados chama-se consciência de Kṛṣṇa. Esse é o modo de trazer os sentidos sob completo controle. Mais ainda, essa é a perfeição mais elevada da prática do yoga."}
{"ref": "bg/6/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/27/", "verse_text": "praśānta-manasaṁ hy enaṁ\n\nyoginaṁ sukham uttamam\n\nupaiti śānta-rajasaṁ\n\nbrahma-bhūtam akalmaṣam", "devanagari": "> प्रशान्तमनसं ह्येनं योगिनं सुखमुत्तमम् ।\n> उपैति शान्तरजसं ब्रह्मभूतमकल्मषम् ॥२७॥", "synonyms": "*praśānta*—mente fixa nos pés de lótus de Kṛṣṇa; *manasam*—de quem tem a mente assim fixa; *hi*—certamente; *enam*—este; *yoginam*—o yogī; *sukham*—felicidade; *uttamam*—a mais elevada; *upaiti*—alcança; *śānta-rajasam*—paixão pacificada; *brahma-bhūtam*—liberado pela identificação com o Absoluto; *akalmaṣam*—libertado de todas as reações pecaminosas passadas.", "translation": "**O yogī cuja mente está fixa em Mim alcança verdadeiramente a felicidade mais elevada. Em virtude de sua identidade com o Brahman, ele está liberado; sua mente está em paz, suas paixões estão aquietadas, e ele está livre do pecado.**", "purport": "Brahma-bhūta é o estado de estar livre da contaminação material e situado no transcendental serviço ao Senhor. Mad-bhaktim labhate parām (Bg. 18.54). Não se pode permanecer na qualidade de Brahman, o Absoluto, até que a mente se fixe nos pés de lótus do Senhor. Sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ. Estar sempre ocupado no transcendental serviço amoroso ao Senhor, ou permanecer em consciência de Kṛṣṇa, é estar de fato liberado do modo da paixão e de toda contaminação material."}
{"ref": "bg/6/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/28/", "verse_text": "yuñjann evaṁ sadātmānaṁ\n\nyogī vigata-kalmaṣaḥ\n\nsukhena brahma-saṁsparśam\n\natyantaṁ sukham aśnute", "devanagari": "> युञ्जन्नेवं सदात्मानं योगी विगतकल्मषः ।\n> सुखेन ब्रह्मसंस्पर्शमत्यन्तं सुखमश्नुते ॥२८॥", "synonyms": "*yuñjan*—assim ocupado na prática do yoga; *evam*—assim; *sadā*—sempre; *ātmānam*—eu; *yogī*—aquele que está em contato com o Eu Supremo; *vigata*—está livre de; *kalmaṣaḥ*—toda contaminação material; *sukhena*—em felicidade transcendental; *brahma-saṁsparśam*—estando em contato constante com o Supremo; *atyantam*—mais elevada; *sukham*—felicidade; *aśnute*—alcança.", "translation": "**Estável no Eu, livre de toda contaminação material, o yogī alcança o estágio perfeccional mais elevado de felicidade em contato com a Consciência Suprema.**", "purport": "Autorrealização significa conhecer a posição constitucional da pessoa em relação ao Supremo. A alma individual é parte integrante do Supremo, e sua posição é prestar serviço transcendental ao Senhor. Esse contato transcendental com o Supremo chama-se brahma-saṁsparśa."}
{"ref": "bg/6/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/29/", "verse_text": "sarva-bhūta-stham ātmānaṁ\n\nsarva-bhūtāni cātmani\n\nīkṣate yoga-yuktātmā\n\nsarvatra sama-darśanaḥ", "devanagari": "> सर्वभूतस्थमात्मानं सर्वभूतानि चात्मनि ।\n> ईक्षते योगयुक्तात्मा सर्वत्र समदर्शनः ॥२९॥", "synonyms": "*sarva-bhūta-stham*—situada em todos os seres; *ātmānam*—a Superalma; *sarva*—todas; *bhūtāni*—entidades; *ca*—também; *ātmani*—no Eu; *īkṣate*—vê; *yoga-yukta-ātmā*—aquele que está acoplado em consciência de Kṛṣṇa; *sarvatra*—em toda parte; *sama-darśanaḥ*—vendo igualmente.", "translation": "**Um verdadeiro yogī observa-Me em todos os seres, e também vê todo ser em Mim. Na verdade, o homem autorrealizado vê-Me em toda parte.**", "purport": "Um yogī consciente de Kṛṣṇa é o vidente perfeito, pois vê Kṛṣṇa, o Supremo, situado no coração de todos como Superalma (Paramātmā). Īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe 'rjuna tiṣṭhati. O Senhor, em Seu aspecto Paramātmā, está situado tanto no coração do cão quanto no de um *brāhmaṇa*. O yogī perfeito sabe que o Senhor é eternamente transcendental e não é materialmente afetado por Sua presença, seja num cão, seja num *brāhmaṇa*. Essa é a neutralidade suprema do Senhor. A alma individual também está situada no coração individual, mas ela não está presente em todos os corações. Essa é a distinção entre a alma individual e a Superalma. Aquele que de fato não está na prática do yoga não pode ver tão claramente. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa pode ver Kṛṣṇa no coração tanto do crente quanto do não crente. Na smṛti, isso é confirmado da seguinte maneira: ātatatvāc ca mātṛtvād ātmā hi paramo hariḥ.\n\n\n\nO Senhor, sendo a fonte de todos os seres, é como a mãe e o mantenedor. Assim como a mãe é neutra para com todos os diferentes tipos de filhos, o Pai (ou Mãe) Supremo também o é. Em consequência, a Superalma está sempre em todo ser vivo. Externamente, também, todo ser vivo está situado na energia do Senhor. Como será explicado no Sétimo Capítulo, o Senhor tem, primariamente, duas energias — a espiritual (ou superior) e a material (ou inferior). A entidade viva, embora seja parte da energia superior, está condicionada pela energia inferior; a entidade viva está sempre na energia do Senhor. Toda entidade viva está situada Nele de uma maneira ou de outra. O yogī vê com equanimidade porque vê que todas as entidades vivas, embora em diferentes situações segundo os resultados do trabalho fruitivo, em todas as circunstâncias permanecem como servas de Deus. Enquanto está na energia material, a entidade viva serve aos sentidos materiais; e enquanto está na energia espiritual, serve diretamente ao Senhor Supremo. Em qualquer caso, a entidade viva é serva de Deus. Essa visão de igualdade é perfeita numa pessoa em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/30/", "verse_text": "yo māṁ paśyati sarvatra\n\nsarvaṁ ca mayi paśyati\n\ntasyāhaṁ na praṇaśyāmi\n\nsa ca me na praṇaśyati", "devanagari": "> यो मां पश्यति सर्वत्र सर्वं च मयि पश्यति ।\n> तस्याहं न प्रणश्यामि स च मे न प्रणश्यति ॥३०॥", "synonyms": "*yaḥ*—quem quer que; *mām*—a Mim; *paśyati*—vê; *sarvatra*—em toda parte; *sarvam*—tudo; *ca*—e; *mayi*—em Mim; *paśyati*—ele vê; *tasya*—dele; *aham*—Eu; *na*—não; *praṇaśyāmi*—estou perdido; *saḥ*—ele; *ca*—também; *me*—para Mim; *na*—nem; *praṇaśyati*—está perdido.", "translation": "**Para aquele que Me vê em toda parte e vê tudo em Mim, jamais estou perdido, nem ele jamais está perdido para Mim.**", "purport": "Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa certamente vê o Senhor Kṛṣṇa em toda parte, e vê tudo em Kṛṣṇa. Tal pessoa pode parecer ver todas as manifestações separadas da natureza material, mas em cada caso está consciente de Kṛṣṇa, sabendo que tudo é a manifestação da energia de Kṛṣṇa. Nada pode existir sem Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa é o Senhor de tudo — este é o princípio básico da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é o desenvolvimento do amor a Kṛṣṇa — uma posição transcendental até mesmo à liberação material. É o estágio que está além da autorrealização, no qual o devoto torna-se um com Kṛṣṇa no sentido de que Kṛṣṇa torna-se tudo para o devoto, e o devoto torna-se pleno em amar Kṛṣṇa. Existe então uma relação íntima entre o Senhor e o devoto. Nesse estágio, a entidade viva alcança sua imortalidade. Tampouco a Personalidade de Deus está jamais fora da vista do devoto. Imergir em Kṛṣṇa é aniquilação espiritual. Um devoto não corre tal risco. Afirma-se na Brahma-saṁhitā:\n\n\n\npremāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena\n\nsantaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti\n\nyaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n\"Adoro o Senhor primordial, Govinda, que é sempre visto pelo devoto cujos olhos estão untados com a polpa do amor. Ele é visto em Sua forma eterna de Śyāmasundara, situado dentro do coração do devoto.\" (Bs. 5.38)\n\n\n\nNesse estágio, o Senhor Kṛṣṇa jamais desaparece da vista do devoto, nem o devoto jamais perde de vista o Senhor. No caso do yogī que vê o Senhor como Paramātmā dentro do coração, o mesmo se aplica. Tal yogī transforma-se num devoto puro e não suporta viver por um momento sem ver o Senhor dentro de si."}
{"ref": "bg/6/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/31/", "verse_text": "sarva-bhūta-sthitaṁ yo māṁ\n\nbhajaty ekatvam āsthitaḥ\n\nsarvathā vartamāno 'pi\n\nsa yogī mayi vartate", "devanagari": "> सर्वभूतस्थितं यो मां भजत्येकत्वमास्थितः ।\n> सर्वथा वर्तमानोऽपि स योगी मयि वर्तते ॥३१॥", "synonyms": "*sarva-bhūta-sthitam*—situado no coração de todos; *yaḥ*—aquele que; *mām*—a Mim; *bhajati*—serve em serviço devocional; *ekatvam*—unicidade; *āsthitaḥ*—assim situado; *sarvathā*—em todos os aspectos; *vartamānaḥ*—estando situado; *api*—apesar de; *saḥ*—ele; *yogī*—transcendentalista; *mayi*—em Mim; *vartate*—permanece.", "translation": "**O yogī que sabe que Eu e a Superalma dentro de todas as criaturas somos um adora-Me e permanece sempre em Mim em todas as circunstâncias.**", "purport": "Um yogī que pratica meditação na Superalma vê dentro de si a porção plenária de Kṛṣṇa como Viṣṇu — com quatro mãos, segurando búzio, disco, maça e flor de lótus. O yogī deve saber que Viṣṇu não é diferente de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, nesta forma de Superalma, está situado no coração de todos. Ademais, não há diferença entre as inúmeras Superalmas presentes nos inúmeros corações das entidades vivas. Tampouco há diferença entre uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, sempre ocupada no transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa, e um yogī perfeito ocupado em meditação na Superalma. O yogī em consciência de Kṛṣṇa — embora possa estar ocupado em várias atividades enquanto se encontra na existência material — permanece sempre situado em Kṛṣṇa. Isso é confirmado no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* de Śrīla Rūpa Gosvāmī: nikhileṣu avasthāsu jīvanmukta sa ucyate. Um devoto do Senhor, sempre agindo em consciência de Kṛṣṇa, está automaticamente liberado. No Nārada-pañcarātra, isso é confirmado desta maneira:\n\n\n\ndik-kālādy-anavacchinne kṛṣṇe ceto vidhāya ca\n\ntanmayo bhavati kṣipraṁ jīvo brahmaṇi yojayet.\n\n\n\n\"Concentrando a atenção na forma transcendental de Kṛṣṇa, que é onipenetrante e está além do tempo e do espaço, a pessoa torna-se absorta em pensar em Kṛṣṇa e, então, alcança o estado feliz da associação transcendental com Ele.\"\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é o mais elevado estágio do transe na prática do yoga. Esta mesma compreensão de que Kṛṣṇa está presente como Paramātmā no coração de todos torna o yogī isento de falhas. Os *Vedas* confirmam essa potência inconcebível do Senhor da seguinte forma:\n\n\n\neko 'pi san bahudhā yo 'vabhāti\n\naiśvaryād rūpam ekaṁ ca sūryavad bahudheyate.\n\n\n\n\"Viṣṇu é um, e contudo é certamente onipenetrante. Por Sua potência inconcebível, apesar de Sua forma única, Ele está presente em toda parte. Como o sol, aparece em muitos lugares ao mesmo tempo.\""}
{"ref": "bg/6/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/32/", "verse_text": "ātmaupamyena sarvatra\n\nsamaṁ paśyati yo 'rjuna\n\nsukhaṁ vā yadi vā duḥkhaṁ\n\nsa yogī paramo mataḥ", "devanagari": "> आत्मौपम्येन सर्वत्र समं पश्यति योऽर्जुन ।\n> सुखं वा यदि वा दुःखं स योगी परमो मतः ॥३२॥", "synonyms": "*ātma*—eu; *aupamyena*—por comparação; *sarvatra*—em toda parte; *samam*—igualdade; *paśyati*—vê; *yaḥ*—aquele que; *arjuna*—ó Arjuna; *sukham*—felicidade; *vā*—ou; *yadi*—se; *vā*—ou; *duḥkham*—aflição; *saḥ*—tal; *yogī*—transcendentalista; *paramaḥ*—perfeito; *mataḥ*—considerado.", "translation": "**É um yogī perfeito aquele que, por comparação a seu próprio eu, vê a verdadeira igualdade de todos os seres, tanto em sua felicidade quanto em sua aflição, ó Arjuna!**", "purport": "Aquele que é consciente de Kṛṣṇa é um yogī perfeito; tem ciência da felicidade e aflição de todos em virtude de sua própria experiência pessoal. A causa da aflição de uma entidade viva é o esquecimento de sua relação com Deus. E a causa da felicidade é saber que Kṛṣṇa é o desfrutador supremo de todas as atividades do ser humano. Kṛṣṇa é o proprietário de todas as terras e planetas. O yogī perfeito é o mais sincero amigo de todas as entidades vivas. Sabe que o ser vivo, condicionado pelos modos da natureza material, está sujeito às três espécies de misérias materiais devido ao esquecimento de sua relação com Kṛṣṇa. Como aquele que está em consciência de Kṛṣṇa é feliz, tenta distribuir o conhecimento de Kṛṣṇa em toda parte. Visto que o yogī perfeito tenta divulgar a importância de tornar-se consciente de Kṛṣṇa, ele é o melhor filantropo do mundo, e é o servidor mais querido do Senhor. Na tasmāt kaścid me priyakṛt tamaḥ. Em outras palavras, um devoto do Senhor sempre busca o bem-estar de todas as entidades vivas, e dessa forma é, de fato, amigo de todos. É o melhor yogī, pois não deseja a perfeição em yoga para seu benefício pessoal, mas tenta também pelos outros. Não inveja seus semelhantes seres vivos. Eis aqui um contraste entre um devoto puro do Senhor e um yogī interessado apenas em sua elevação pessoal. O yogī que se retirou para um lugar isolado a fim de meditar perfeitamente pode não ser tão perfeito quanto um devoto que se esforça ao máximo para voltar todo homem à consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/33/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nyo 'yaṁ yogas tvayā proktaḥ\n\nsāmyena madhusūdana\n\netasyāhaṁ na paśyāmi\n\ncañcalatvāt sthitiṁ sthirām", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> योऽयं योगस्त्वया प्रोक्तः साम्येन मधुसूदन ।\n> एतस्याहं न पश्यामि चञ्चलत्वात्स्थितिं स्थिराम् ॥३३॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *yaḥ*—o sistema; *ayam*—este; *yogaḥ*—misticismo; *tvayā*—por Ti; *proktaḥ*—descrito; *sāmyena*—geralmente; *madhusūdana*—ó matador do demônio Madhu; *etasya*—deste; *aham*—eu; *na*—não; *paśyāmi*—vejo; *cañcalatvāt*—devido a estar inquieta; *sthitim*—situação; *sthirām*—estável.", "translation": "**Arjuna disse: Ó Madhusūdana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e insuportável, pois a mente é inquieta e instável.**", "purport": "O sistema de misticismo descrito pelo Senhor Kṛṣṇa a Arjuna, começando com as palavras śucau deśe e terminando com yogī paramaḥ, é aqui rejeitado por Arjuna em razão de um sentimento de incapacidade. Não é possível para um homem comum deixar o lar e ir a um lugar isolado nas montanhas ou selvas para praticar yoga nesta era de Kali. A presente era se caracteriza por uma luta amarga por uma vida de curta duração. As pessoas não são sérias quanto à autorrealização, nem mesmo por meios simples e práticos, e o que dizer deste difícil sistema de yoga, que regula o modo de viver, a maneira de sentar-se, a seleção de lugar e o desapego da mente das ocupações materiais. Como homem prático, Arjuna pensou que era impossível seguir este sistema de yoga, embora estivesse favoravelmente dotado de muitas maneiras. Pertencia à família real e era altamente elevado em termos de numerosas qualidades; era um grande guerreiro, possuía grande longevidade e, acima de tudo, era o amigo mais íntimo do Senhor *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*. Há cinco mil anos, Arjuna dispunha de muito melhores facilidades do que nós dispomos agora, e contudo recusou aceitar este sistema de yoga. De fato, não encontramos qualquer registro na história de que ele o tenha praticado em algum momento. Por conseguinte, este sistema deve ser considerado geralmente impossível nesta era de Kali. É claro que pode ser possível para alguns muito poucos e raros homens, mas para as pessoas em geral é uma proposta impossível. Se isso era assim há cinco mil anos, então o que dizer dos dias atuais? Aqueles que estão imitando este sistema de yoga em diferentes supostas escolas e sociedades, embora complacentes, certamente desperdiçam seu tempo. Estão completamente na ignorância da meta desejada."}
{"ref": "bg/6/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/34/", "verse_text": "cañcalaṁ hi manaḥ kṛṣṇa\n\npramāthi balavad dṛḍham\n\ntasyāhaṁ nigrahaṁ manye\n\nvāyor iva su-duṣkaram", "devanagari": "> चञ्चलं हि मनः कृष्ण प्रमाथि बलवद् दृढम् ।\n> तस्याहं निग्रहं मन्ये वायोरिव सुदुष्करम् ॥३४॥", "synonyms": "*cañcalam*—oscilante; *hi*—certamente; *manaḥ*—mente; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *pramāthi*—agitadora; *balavat*—forte; *dṛḍham*—obstinada; *tasya*—sua; *aham*—eu; *nigraham*—subjugar; *manye*—penso; *vāyoḥ*—do vento; *iva*—como; *suduṣkaram*—difícil.", "translation": "**Pois a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, ó Kṛṣṇa, e subjugá-la parece-me mais difícil do que controlar o vento.**", "purport": "A mente é tão forte e obstinada que às vezes domina a inteligência, embora se suponha que a mente seja subserviente à inteligência. Para um homem no mundo prático, que tem de combater tantos elementos contrários, é certamente muito difícil controlar a mente. Artificialmente, pode-se estabelecer um equilíbrio mental tanto para com o amigo como para com o inimigo, mas, em última análise, nenhum homem mundano pode fazê-lo, pois isso é mais difícil do que controlar o vento impetuoso. Na literatura Védica afirma-se:\n\n\n\nātmānaṁ rathinaṁ viddhi śarīraṁ ratham eva ca\n\nbuddhintu sārathiṁ viddhi manaḥ pragraham eva ca\n\nindriyāṇi hayānāhur viṣayāṁs teṣu gocarān\n\nātmendriya-mano-yukto bhoktety āhur manīṣiṇaḥ.\n\n\n\n\"O indivíduo é o passageiro na quadriga do corpo material, e a inteligência é o cocheiro. A mente é o instrumento de condução, e os sentidos são os cavalos. O eu é, assim, o desfrutador ou o sofredor na associação da mente e dos sentidos. Assim entendem os grandes pensadores.\" Supõe-se que a inteligência dirija a mente, mas a mente é tão forte e obstinada que amiúde domina até mesmo a própria inteligência. Tal mente forte deve ser controlada pela prática do yoga, mas tal prática nunca é prática para uma pessoa mundana como Arjuna. E o que dizer do homem moderno? A símile aqui empregada é apropriada: ninguém pode capturar o vento que sopra. E é ainda mais difícil capturar a mente turbulenta. A maneira mais fácil de controlar a mente, conforme sugerido pelo Senhor Caitanya, é cantar \"Hare Kṛṣṇa\", o grande mantra para a libertação, em toda a humildade. O método prescrito é sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ — deve-se ocupar a mente plenamente em Kṛṣṇa. Só então não restarão outras ocupações para agitar a mente."}
{"ref": "bg/6/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/35/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nasaṁśayaṁ mahā-bāho\n\nmano durnigrahaṁ calam\n\nabhyāsena tu kaunteya\n\nvairāgyeṇa ca gṛhyate", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> असंशयं महाबाहो मनो दुर्निग्रहं चलम् ।\n> अभ्यासेन तु कौन्तेय वैराग्येण च गृह्यते ॥३५॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Personalidade de Deus disse; *asaṁśayam*—indubitavelmente; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *manaḥ*—mente; *durnigraham*—difícil de refrear; *calam*—oscilante; *abhyāsena*—pela prática; *tu*—mas; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *vairāgyeṇa*—pelo desapego; *ca*—também; *gṛhyate*—pode ser assim controlada.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Ó filho de Kuntī de braços poderosos, é, sem dúvida, muito difícil refrear a mente inquieta, mas isso é possível pela prática constante e pelo desapego.**", "purport": "A dificuldade de controlar a mente obstinada, expressa por Arjuna, é aceita pela Personalidade de Deus. Mas, ao mesmo tempo, Ele sugere que pela prática e pelo desapego isso é possível. Que prática é essa? Na presente era, ninguém pode observar regras e regulações estritas, tais como colocar-se num lugar sagrado, fixar a mente na Superalma, refrear os sentidos e a mente, observar o celibato, permanecer só, etc. Pela prática da consciência de Kṛṣṇa, contudo, a pessoa ocupa-se em nove tipos de serviço devocional ao Senhor. A primeira e mais importante de tais ocupações devocionais é ouvir sobre Kṛṣṇa. Este é um método transcendental muito poderoso para purgar a mente de todos os receios. Quanto mais alguém ouve sobre Kṛṣṇa, mais se torna iluminado e desapegado de tudo o que afasta a mente de Kṛṣṇa. Desapegando a mente de atividades não devotadas ao Senhor, pode-se aprender vairāgya muito facilmente. Vairāgya significa desapego da matéria e ocupação da mente no espírito. O desapego espiritual impessoal é mais difícil do que apegar a mente às atividades de Kṛṣṇa. Isso é prático, pois ouvindo sobre Kṛṣṇa a pessoa torna-se automaticamente apegada ao Espírito Supremo. Esse apego chama-se pareśānubhūti, satisfação espiritual. É exatamente como a sensação de satisfação que um homem faminto tem por cada bocado de alimento que come. De modo semelhante, pelo desempenho do serviço devocional, sente-se satisfação transcendental à medida que a mente se desapega dos objetivos materiais. É algo como curar uma doença por meio de tratamento perito e dieta apropriada. Ouvir sobre as atividades transcendentais do Senhor Kṛṣṇa é, portanto, o tratamento perito para a mente enlouquecida, e comer o alimento oferecido a Kṛṣṇa é a dieta apropriada para o paciente em sofrimento. Esse tratamento é o processo da consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/36/", "verse_text": "asaṁyatātmanā yogo\n\nduṣprāpa iti me matiḥ\n\nvaśyātmanā tu yatatā\n\nśakyo 'vāptum upāyataḥ", "devanagari": "> असंयतात्मना योगो दुष्प्राप इति मे मतिः ।\n> वश्यात्मना तु यतता शक्योऽवाप्तुमुपायतः ॥३६॥", "synonyms": "*asaṁyata*—desenfreada; *ātmanā*—pela mente; *yogaḥ*—autorrealização; *duṣprāpaḥ*—difícil de obter; *iti*—assim; *me*—Minha; *matiḥ*—opinião; *vaśya*—controlada; *ātmanā*—pela mente; *tu*—mas; *yatatā*—ao esforçar-se; *śakyaḥ*—prática; *avāptum*—de alcançar; *upāyataḥ*—meios apropriados.", "translation": "**Para aquele cuja mente é desenfreada, a autorrealização é tarefa difícil. Mas aquele cuja mente está controlada e que se esforça por meios corretos tem o êxito assegurado. Esta é Minha opinião.**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus declara que aquele que não aceita o tratamento adequado para desapegar a mente da ocupação material dificilmente pode alcançar êxito na autorrealização. Tentar praticar yoga ocupando a mente em desfrute material é como tentar acender um fogo derramando-lhe água. De modo semelhante, a prática do yoga sem o controle mental é perda de tempo. Tal exibição de prática de yoga pode ser materialmente lucrativa, mas é inútil no que diz respeito à compreensão espiritual. Por conseguinte, a mente deve ser controlada ocupando-a constantemente no transcendental serviço amoroso ao Senhor. A menos que a pessoa esteja ocupada em consciência de Kṛṣṇa, não pode controlar a mente firmemente. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa alcança facilmente o resultado da prática do yoga sem esforço separado, mas um praticante de yoga não pode alcançar êxito sem tornar-se consciente de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/37/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nayatiḥ śraddhayopeto\n\nyogāc calita-mānasaḥ\n\naprāpya yoga-saṁsiddhiṁ\n\nkāṁ gatiṁ kṛṣṇa gacchati", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> अयतिः श्रद्धयोपेतो योगाच्चलितमानसः ।\n> अप्राप्य योगसंसिद्धिं कां गतिं कृष्ण गच्छति ॥३७॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *ayatiḥ*—transcendentalista malsucedido; *śraddhayā*—com fé; *upetaḥ*—ocupado; *yogāt*—do vínculo místico; *calita*—desviada; *mānasaḥ*—de quem tem tal mente; *aprāpya*—falhando; *yoga-saṁsiddhim*—perfeição mais elevada no misticismo; *kām*—qual; *gatim*—destino; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *gacchati*—alcança.", "translation": "**Arjuna disse: Qual é o destino do homem de fé que não persevera, que no início adota o processo de autorrealização, mas que mais tarde desiste devido à mundanidade e assim não alcança a perfeição no misticismo?**", "purport": "A senda da autorrealização ou do misticismo é descrita no *Bhagavad-gītā*. O princípio básico da autorrealização é o conhecimento de que a entidade viva não é este corpo material, mas é diferente dele, e de que sua felicidade está na vida eterna, na bem-aventurança e no conhecimento. Estes são transcendentais, além tanto do corpo quanto da mente. A autorrealização é buscada pela senda do conhecimento, pela prática do sistema óctuplo ou pelo bhakti-yoga. Em cada um desses processos, há que perceber a posição constitucional da entidade viva, sua relação com Deus e as atividades pelas quais ela pode restabelecer o vínculo perdido e alcançar o estágio perfeccional mais elevado da consciência de Kṛṣṇa. Seguindo qualquer dos três métodos acima mencionados, está-se certo de alcançar a meta suprema mais cedo ou mais tarde. Isso foi afirmado pelo Senhor no Segundo Capítulo: mesmo um pequeno esforço na senda transcendental oferece grande esperança de libertação. Dentre esses três métodos, a senda do bhakti-yoga é especialmente adequada para esta era, porque é o método mais direto de compreensão de Deus. Para estar duplamente seguro, Arjuna pede ao Senhor Kṛṣṇa que confirme Sua afirmação anterior. A pessoa pode aceitar sinceramente a senda da autorrealização, mas o processo de cultivo de conhecimento e a prática do sistema óctuplo de yoga são geralmente muito difíceis para esta era. Por conseguinte, apesar do esforço constante, pode-se falhar por muitas razões. Em primeiro lugar, talvez a pessoa não esteja seguindo o processo. Seguir a senda transcendental equivale, mais ou menos, a declarar guerra à energia ilusória. Em consequência, sempre que uma pessoa tenta escapar das garras da energia ilusória, esta tenta derrotar o praticante por meio de várias seduções. Uma alma condicionada já está seduzida pelos modos da energia material, e há toda a possibilidade de ser seduzida novamente, mesmo enquanto realiza disciplinas transcendentais. Isso é chamado yogāt calita-mānasaḥ — desvio da senda transcendental. Arjuna está curioso em saber os resultados do desvio da senda da autorrealização."}
{"ref": "bg/6/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/38/", "verse_text": "kaccin nobhaya-vibhraṣṭaś\n\nchinnābhram iva naśyati\n\napratiṣṭho mahā-bāho\n\nvimūḍho brahmaṇaḥ pathi", "devanagari": "> कच्चिन्नोभयविभ्रष्टश्छिन्नाभ्रमिव नश्यति ।\n> अप्रतिष्ठो महाबाहो विमूढो ब्रह्मणः पथि ॥३८॥", "synonyms": "*kaccit*—acaso; *na*—não; *ubhaya*—ambos; *vibhraṣṭaḥ*—desviado de; *chinna*—rasgada; *abhram*—nuvem; *iva*—assemelhado; *naśyati*—perece; *apratiṣṭhaḥ*—sem qualquer posição; *mahā-bāho*—ó Kṛṣṇa de braços poderosos; *vimūḍhaḥ*—desorientado; *brahmaṇaḥ*—da Transcendência; *pathi*—na senda.", "translation": "**Ó Kṛṣṇa de braços poderosos, acaso tal homem, desviado da senda da Transcendência, não perece como uma nuvem rasgada, sem posição em esfera alguma?**", "purport": "Há duas maneiras de progredir. Aqueles que são materialistas não têm interesse na Transcendência; por conseguinte, estão mais interessados no avanço material por meio do desenvolvimento econômico, ou na promoção aos planetas superiores por trabalho apropriado. Quando se adota a senda da Transcendência, há que cessar todas as atividades materiais e sacrificar todas as formas de suposta felicidade material. Se o transcendentalista aspirante falha, então aparentemente perde de ambos os lados; em outras palavras, não pode desfrutar nem da felicidade material nem do êxito espiritual. Não tem posição alguma; é como uma nuvem rasgada. Uma nuvem no céu às vezes se desvia de uma pequena nuvem e une-se a uma grande. Mas, se não conseguir unir-se a uma grande, é levada pelo vento e torna-se uma não entidade no vasto céu. O brahmaṇaḥ pathi é a senda da percepção transcendental, conhecendo-se como espiritual em essência, parte integrante do Senhor Supremo, que se manifesta como Brahman, Paramātmā e Bhagavān. O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a manifestação mais plena da Suprema Verdade Absoluta, e por isso aquele que está rendido à Pessoa Suprema é um transcendentalista bem-sucedido. Alcançar essa meta da vida por meio da percepção do Brahman e do Paramātmā leva muitos e muitos nascimentos: Bahūnāṁ janmanām ante. Por conseguinte, a mais elevada percepção transcendental é o bhakti-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa, o método direto."}
{"ref": "bg/6/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/39/", "verse_text": "etan me saṁśayaṁ kṛṣṇa\n\nchettum arhasy aśeṣataḥ\n\ntvad-anyaḥ saṁśayasyāsya\n\nchettā na hy upapadyate", "devanagari": "> एतन्मे संशयं कृष्ण छेत्तुमर्हस्यशेषतः ।\n> त्वदन्यः संशयस्यास्य छेत्ता न ह्युपपद्यते ॥३९॥", "synonyms": "*etat*—esta é; *me*—minha; *saṁśayam*—dúvida; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *chettum*—dissipar; *arhasi*—solicitado a fazer; *aśeṣataḥ*—completamente; *tvat*—Tu mesmo; *anyaḥ*—sem; *saṁśayāsya*—da dúvida; *asya*—desta; *chettā*—removedor; *na*—nunca; *hi*—certamente; *upapadyate*—ser encontrado.", "translation": "**Esta é minha dúvida, ó Kṛṣṇa, e Te peço que a dissipes completamente. Salvo Tu mesmo, não há quem possa destruir esta dúvida.**", "purport": "Kṛṣṇa é o conhecedor perfeito do passado, presente e futuro. No início do *Bhagavad-gītā*, o Senhor disse que todas as entidades vivas existiam individualmente no passado, que existem agora no presente e que continuam a reter a identidade individual no futuro, mesmo após a libertação do enredamento material. Assim, Ele já esclareceu a questão do futuro da entidade viva individual. Ora, Arjuna deseja saber do futuro do transcendentalista malsucedido. Ninguém é igual ou superior a Kṛṣṇa, e certamente os supostos grandes sábios e filósofos que estão à mercê da natureza material não podem igualar-se a Ele. Por conseguinte, o veredito de Kṛṣṇa é a resposta final e completa a todas as dúvidas, pois Ele conhece o passado, o presente e o futuro perfeitamente — mas ninguém O conhece. Somente Kṛṣṇa e os devotos conscientes de Kṛṣṇa podem saber o que é o que."}
{"ref": "bg/6/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/40/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\npārtha naiveha nāmutra\n\nvināśas tasya vidyate\n\nna hi kalyāṇa-kṛt kaścid\n\ndurgatiṁ tāta gacchati", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> पार्थ नैवेह नामुत्र विनाशस्तस्य विद्यते ।\n> न हि कल्याणकृत्कश्चिद् दुर्गतिं तात गच्छति ॥४०॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *na eva*—nunca é assim; *iha*—neste mundo material; *na*—nunca; *amutra*—na próxima vida; *vināśaḥ*—destruição; *tasya*—dele; *vidyate*—existe; *na*—nunca; *hi*—certamente; *kalyāṇa-kṛt*—aquele que se ocupa em atividades auspiciosas; *kaścit*—alguém; *durgatim*—degradação; *tāta*—posteriormente; *gacchati*—indo.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Filho de Pṛthā, um transcendentalista ocupado em atividades auspiciosas não encontra destruição nem neste mundo nem no mundo espiritual; aquele que faz o bem, Meu amigo, jamais é vencido pelo mal.**", "purport": "No *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.5.17), Śrī Nārada Muni instrui a Vyāsadeva da seguinte maneira:\n\n\n\ntyaktvā sva-dharmaṁ caraṇāmbujaṁ harer\n\nbhajann apakko 'tha patet tato yadi\n\nyatra kva vābhadram abhūd amuṣya kiṁ\n\nko vārtha āpto 'bhajatāṁ sva-dharmataḥ\n\n\n\n\"Se alguém abandona todas as perspectivas materiais e toma completo refúgio na Suprema Personalidade de Deus, não há perda nem degradação de modo algum. Por outro lado, um não devoto pode ocupar-se plenamente em seus deveres ocupacionais e ainda assim não ganhar coisa alguma.\" Para perspectivas materiais, há muitas atividades, tanto escriturais quanto consuetudinárias. Supõe-se que um transcendentalista renuncie a todas as atividades materiais em prol do avanço espiritual na vida, a consciência de Kṛṣṇa. Pode-se argumentar que pela consciência de Kṛṣṇa atinge-se a perfeição mais elevada, se for completada, mas se não se alcança tal estágio perfeccional, então perde-se tanto material quanto espiritualmente. Está prescrito nas escrituras que se há de sofrer a reação de não executar os deveres prescritos; portanto, aquele que falha em desempenhar adequadamente as atividades transcendentais fica sujeito a essas reações. O *Bhāgavatam* assegura ao transcendentalista malsucedido que não há motivo de preocupação. Embora possa estar sujeito à reação de não executar perfeitamente os deveres prescritos, ainda assim ele não é perdedor, pois a auspiciosa consciência de Kṛṣṇa nunca é esquecida, e quem assim se ocupar continuará a ocupar-se nela mesmo se nascer em família humilde na próxima vida. Por outro lado, aquele que simplesmente segue estritamente os deveres prescritos não necessariamente alcança resultados auspiciosos se for desprovido de consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nO significado pode entender-se da seguinte maneira: a humanidade pode dividir-se em duas seções, isto é, a regulada e a não regulada. Aqueles que se ocupam simplesmente em gratificações dos sentidos bestiais sem conhecimento de sua próxima vida ou da salvação espiritual pertencem à seção não regulada. E aqueles que seguem os princípios dos deveres prescritos nas escrituras classificam-se entre a seção regulada. A seção não regulada, tanto civilizada quanto não civilizada, instruída e não instruída, forte e fraca, está cheia de propensões animais. Suas atividades nunca são auspiciosas porque, desfrutando das propensões animais de comer, dormir, defender-se e acasalar-se, permanecem perpetuamente na existência material, que é sempre miserável. Por outro lado, aqueles que são regulados pelas injunções escriturais e assim ascendem gradualmente à consciência de Kṛṣṇa certamente progridem na vida.\n\n\n\nAqueles que seguem a senda da auspiciosidade podem dividir-se em três seções, isto é: 1) os seguidores das regras e regulações escriturais que estão desfrutando da prosperidade material, 2) aqueles que tentam descobrir a libertação última da existência material e 3) aqueles que são devotos em consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que seguem as regras e regulações das escrituras em busca de felicidade material podem ainda dividir-se em duas classes: aqueles que são trabalhadores fruitivos e aqueles que não desejam fruto algum para gratificação dos sentidos. Aqueles que buscam resultados fruitivos para gratificação dos sentidos podem ser elevados a um padrão de vida superior — mesmo aos planetas superiores; mas, ainda assim, por não estarem livres da existência material, não estão seguindo a senda verdadeiramente auspiciosa. As únicas atividades auspiciosas são aquelas que conduzem à libertação. Qualquer atividade que não tenha como meta a autorrealização última ou a libertação do conceito corporal material da vida não é, em absoluto, auspiciosa. A atividade em consciência de Kṛṣṇa é a única atividade auspiciosa, e qualquer um que aceite voluntariamente todos os desconfortos corporais em prol de progredir na senda da consciência de Kṛṣṇa pode ser chamado um transcendentalista perfeito sob severa austeridade. E como o sistema óctuplo de yoga está dirigido para a percepção última da consciência de Kṛṣṇa, tal prática também é auspiciosa, e ninguém que esteja se esforçando ao máximo nesse aspecto precisa temer a degradação."}
{"ref": "bg/6/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/41/", "verse_text": "prāpya puṇya-kṛtāṁ lokān\n\nuṣitvā śāśvatīḥ samāḥ\n\nśucīnāṁ śrīmatāṁ gehe\n\nyoga-bhraṣṭo 'bhijāyate", "devanagari": "> प्राप्य पुण्यकृतां लोकानुषित्वा शाश्वतीः समाः ।\n> शुचीनां श्रीमतां गेहे योगभ्रष्टोऽभिजायते ॥४१॥", "synonyms": "*prāpya*—depois de alcançar; *puṇya-kṛtām*—dos que realizaram atividades piedosas; *lokān*—planetas; *uṣitvā*—depois de habitar; *śāśvatīḥ*—muitos; *samāḥ*—anos; *śucīnām*—dos piedosos; *śrīmatām*—dos prósperos; *gehe*—na casa de; *yoga-bhraṣṭaḥ*—aquele que caiu da senda da autorrealização; *abhijāyate*—nasce.", "translation": "**O yogī malsucedido, após muitos e muitos anos de desfrute nos planetas das entidades vivas piedosas, nasce numa família de pessoas justas, ou numa família da rica aristocracia.**", "purport": "Os yogīs malsucedidos dividem-se em duas classes: um cai depois de muito pouco progresso, e outro cai depois de longa prática de yoga. O yogī que cai após um curto período de prática vai aos planetas superiores, onde se permite às entidades vivas piedosas entrar. Após uma vida prolongada lá, é enviado de volta a este planeta, para nascer na família de um justo *brāhmaṇa* vaiṣṇava ou de comerciantes aristocráticos.\n\n\n\nO verdadeiro propósito da prática do yoga é alcançar a perfeição mais elevada da consciência de Kṛṣṇa. Mas aqueles que não perseveram a tal ponto e falham devido às seduções materiais recebem permissão, pela graça do Senhor, de fazer pleno uso de suas propensões materiais. E depois disso, recebem oportunidades de viver vidas prósperas em famílias justas ou aristocráticas. Aqueles que nascem em tais famílias podem aproveitar-se das facilidades e tentar elevar-se à plena consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/42/", "verse_text": "atha vā yoginām eva\n\nkule bhavati dhīmatām\n\netad dhi durlabhataraṁ\n\nloke janma yad īdṛśam", "devanagari": "> अथवा योगिनामेव कुले भवति धीमताम् ।\n> एतद्धि दुर्लभतरं लोके जन्म यदीदृशम् ॥४२॥", "synonyms": "*athavā*—ou; *yoginām*—de transcendentalistas eruditos; *eva*—certamente; *kule*—na família de; *bhavati*—nasce; *dhīmatām*—daqueles que estão dotados de grande sabedoria; *etat*—este; *hi*—certamente; *durlabhataram*—muito raro; *loke*—neste mundo; *janma*—nascimento; *yat*—o que; *īdṛśam*—assim.", "translation": "**Ou ele nasce numa família de transcendentalistas que certamente possuem grande sabedoria. Em verdade, tal nascimento é raro neste mundo.**", "purport": "O nascimento numa família de yogīs ou transcendentalistas — aqueles dotados de grande sabedoria — é aqui louvado, pois a criança nascida em tal família recebe ímpeto espiritual desde o início mesmo de sua vida. É especialmente o caso nas famílias de ācāryas ou gosvāmīs. Tais famílias são muito eruditas e devotadas por tradição e treinamento, e assim tornam-se mestres espirituais. Na Índia, há muitas dessas famílias de ācāryas, mas elas agora se degeneraram devido à educação e ao treinamento insuficientes. Pela graça do Senhor, ainda há famílias que fomentam transcendentalistas geração após geração. É certamente muito afortunado nascer em tais famílias. Felizmente, tanto nosso mestre espiritual, Oṁ Viṣṇupāda Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja, quanto nós próprios, em nossa humildade, tivemos a oportunidade de nascer em tais famílias, pela graça do Senhor, e ambos fomos treinados no serviço devocional ao Senhor desde o início de nossas vidas. Mais tarde, nos encontramos por ordem do sistema transcendental."}
{"ref": "bg/6/43", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/43/", "verse_text": "tatra taṁ buddhi-saṁyogaṁ\n\nlabhate paurva-dehikam\n\nyatate ca tato bhūyaḥ\n\nsaṁsiddhau kuru-nandana", "devanagari": "> तत्र तं बुद्धिसंयोगं लभते पौर्वदेहिकम् ।\n> यतते च ततो भूयः संसिद्धौ कुरुनन्दन ॥४३॥", "synonyms": "*tatra*—então; *tam*—essa; *buddhi-saṁyogam*—revivescimento dessa consciência; *labhate*—readquire; *paurva*—prévia; *dehikam*—consciência corpórea; *yatate*—esforça-se; *ca*—também; *tataḥ*—depois; *bhūyaḥ*—novamente; *saṁsiddhau*—pela perfeição; *kuru-nandana*—ó filho de Kuru.", "translation": "**Ao receber tal nascimento, ele revive novamente a consciência divina de sua vida anterior, e tenta progredir ainda mais a fim de alcançar o êxito completo, ó filho de Kuru.**", "purport": "O Rei Bharata, que recebeu seu terceiro nascimento na família de um bom *brāhmaṇa*, é um exemplo de bom nascimento para o revivescimento da consciência transcendental anterior. O Rei Bharata foi o Imperador do mundo, e desde seu tempo este planeta é conhecido entre os semideuses como Bhāratavarṣa. Anteriormente, era conhecido como Ilāvartavarṣa. O Imperador, em tenra idade, retirou-se para a perfeição espiritual, mas falhou em alcançar o êxito. Em sua próxima vida, nasceu na família de um bom *brāhmaṇa* e foi conhecido como Jaḍabharata, pois sempre permanecia isolado e não falava com ninguém. E mais tarde, foi descoberto como o maior transcendentalista pelo Rei Rahūgaṇa. De sua vida se entende que os esforços transcendentais, ou a prática do yoga, jamais são em vão. Pela graça do Senhor, o transcendentalista recebe oportunidades repetidas para a perfeição completa em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/44", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/44/", "verse_text": "pūrvābhyāsena tenaiva\n\nhriyate hy avaśo 'pi saḥ\n\njijñāsur api yogasya\n\nśabda-brahmātivartate", "devanagari": "> पूर्वाभ्यासेन तेनैव ह्रियते ह्यवशोऽपि सः ।\n> जिज्ञासुरपि योगस्य शब्दब्रह्मातिवर्तते ॥४४॥", "synonyms": "*pūrva*—prévia; *abhyāsena*—prática; *tena*—pela influência dela; *eva*—certamente; *hriyate*—é atraído; *hi*—seguramente; *avaśaḥ*—desamparado; *api*—também; *saḥ*—ele; *jijñāsuḥ*—desejoso de saber; *api*—assim; *yogasya*—do yoga; *śabda-brahma*—princípios ritualísticos da escritura; *ativartate*—transcende.", "translation": "**Em virtude da consciência divina de sua vida anterior, ele se sente automaticamente atraído pelos princípios yóguicos — sem mesmo procurá-los. Tal transcendentalista inquisitivo, esforçando-se pelo yoga, situa-se sempre acima dos princípios ritualísticos das escrituras.**", "purport": "Os yogīs avançados não estão muito atraídos pelos rituais das escrituras, mas atraem-se automaticamente pelos princípios do yoga, que podem elevá-los à plena consciência de Kṛṣṇa, a perfeição mais elevada do yoga. No *Śrīmad-Bhāgavatam* (3.33.8), tal desconsideração dos rituais Védicos pelos transcendentalistas avançados é explicada da seguinte maneira:\n\n\n\naho bata śvapaco 'to garīyān\n\nyajjihvāgre vartate nāma tubhyam\n\ntepus tapas te juhuvuḥ sasnur āryā\n\nbrahmānūcur nāma gṛṇanti ye te.\n\n\n\n\"Ó meu Senhor! As pessoas que cantam os santos nomes de Vossa Senhoria estão muito, muito avançadas na vida espiritual, mesmo que tenham nascido em famílias de comedores de cães. Esses cantores indubitavelmente realizaram todas as espécies de austeridades e sacrifícios, banharam-se em todos os lugares sagrados e concluíram todos os estudos das escrituras.\"\n\n\n\nO famoso exemplo disso foi apresentado pelo Senhor Caitanya, que aceitou Ṭhākur Haridāsa como um de Seus discípulos mais importantes. Embora Ṭhākur Haridāsa tenha nascido numa família muçulmana, foi elevado ao posto de nāmācārya pelo Senhor Caitanya devido a seu princípio rigorosamente cumprido de cantar trezentos mil santos nomes do Senhor diariamente: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. E porque ele cantava o santo nome do Senhor constantemente, entende-se que em sua vida anterior deve ter passado por todos os métodos ritualísticos dos *Vedas*, conhecidos como śabda-brahman. A menos, portanto, que se purifique, não se pode adotar o princípio da consciência de Kṛṣṇa nem ocupar-se em cantar o santo nome do Senhor, Hare Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/6/45", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/45/", "verse_text": "prayatnād yatamānas tu\n\nyogī saṁśuddha-kilbiṣaḥ\n\naneka-janma-saṁsiddhas\n\ntato yāti parāṁ gatim", "devanagari": "> प्रयत्नाद्यतमानस्तु योगी संशुद्धकिल्बिषः ।\n> अनेकजन्मसंसिद्धस्ततो याति परां गतिम् ॥४५॥", "synonyms": "*prayatnāt*—pela prática rigorosa; *yatamānaḥ*—quem se esforça; *tu*—mas; *yogī*—tal transcendentalista; *saṁśuddha*—lavado; *kilbiṣaḥ*—todas as espécies de pecados; *aneka*—muitos e muitos; *janma*—nascimentos; *saṁsiddhaḥ*—assim alcançada a perfeição; *tataḥ*—depois; *yāti*—alcança; *parām*—suprema; *gatim*—destino.", "translation": "**Mas quando o yogī se ocupa com sincero esforço em fazer mais progresso, sendo lavado de todas as contaminações, então finalmente, após muitos e muitos nascimentos de prática, alcança a meta suprema.**", "purport": "Uma pessoa nascida numa família particularmente justa, aristocrática ou sagrada torna-se ciente de sua condição favorável para executar a prática do yoga. Com determinação, portanto, começa sua tarefa inacabada e, assim, purifica-se completamente de todas as contaminações materiais. Quando, finalmente, está livre de todas as contaminações, alcança a perfeição suprema — a consciência de Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa é o estágio perfeito de estar livre de todas as contaminações. Isso se confirma no *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nyeṣāṁ tvanta-gataṁ pāpaṁ janānāṁ puṇya-karmaṇām\n\nte dvandva-moha-nirmuktā bhajante māṁ dṛḍha-vratāḥ\n\n\n\n\"Após muitos e muitos nascimentos de execução de atividades piedosas, quando se está completamente livre de todas as contaminações e de todas as dualidades ilusórias, então a pessoa se ocupa no transcendental serviço amoroso ao Senhor.\""}
{"ref": "bg/6/46", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/46/", "verse_text": "tapasvibhyo 'dhiko yogī\n\njñānibhyo 'pi mato 'dhikaḥ\n\nkarmibhyaś cādhiko yogī\n\ntasmād yogī bhavārjuna", "devanagari": "> तपस्विभ्योऽधिको योगी ज्ञानिभ्योऽपि मतोऽधिकः ।\n> कर्मिभ्यश्चाधिको योगी तस्माद्योगी भवार्जुन ॥४६॥", "synonyms": "*tapasvibhyaḥ*—do que o asceta; *adhikaḥ*—maior; *yogī*—o yogī; *jñānibhyaḥ*—do que o sábio; *api*—também; *mataḥ*—considerado; *adhikaḥ*—maior do que; *karmibhyaḥ*—do que o trabalhador fruitivo; *ca*—também; *adhikaḥ*—maior do que; *yogī*—o yogī; *tasmāt*—portanto; *yogī*—um transcendentalista; *bhava*—simplesmente torna-te; *arjuna*—ó Arjuna.", "translation": "**Um yogī é maior do que o asceta, maior do que o empirista e maior do que o trabalhador fruitivo. Portanto, ó Arjuna, em todas as circunstâncias, sê um yogī.**", "purport": "Quando falamos de yoga, referimo-nos a vincular nossa consciência à Suprema Verdade Absoluta. Tal processo recebe nomes diferentes pelos diversos praticantes em razão do método particular adotado. Quando o processo de vinculação é predominantemente em atividades fruitivas, chama-se karma-yoga; quando é predominantemente empírico, chama-se jñāna-yoga; e quando é predominantemente em uma relação devocional com o Senhor Supremo, chama-se bhakti-yoga. O bhakti-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa, é a perfeição última de todos os yogas, conforme será explicado no próximo verso. O Senhor confirmou aqui a superioridade do yoga, mas não mencionou que este seja melhor do que o bhakti-yoga. O bhakti-yoga é pleno conhecimento espiritual e, como tal, nada pode superá-lo. O ascetismo sem o autoconhecimento é imperfeito. O conhecimento empírico sem rendição ao Senhor Supremo também é imperfeito. E o trabalho fruitivo sem consciência de Kṛṣṇa é perda de tempo. Por conseguinte, a forma mais elogiada de execução do yoga aqui mencionada é o bhakti-yoga, e isso se explica ainda mais claramente no próximo verso."}
{"ref": "bg/6/47", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/6/47/", "verse_text": "yoginām api sarveṣāṁ\n\nmad-gatenāntar-ātmanā\n\nśraddhāvān bhajate yo māṁ\n\nsa me yuktatamo mataḥ", "devanagari": "> योगिनामपि सर्वेषां मद्गतेनान्तरात्मना ।\n> श्रद्धावान्भजते यो मां स मे युक्ततमो मतः ॥४७॥", "synonyms": "*yoginām*—de todos os yogīs; *api*—também; *sarveṣām*—todos os tipos de; *mat-gatena*—residindo em Mim; *antaḥ-ātmanā*—sempre pensando em Mim por dentro; *śraddhāvān*—em plena fé; *bhajate*—presta transcendental serviço amoroso; *yaḥ*—aquele que; *mām*—a Mim (o Senhor Supremo); *saḥ*—ele; *me*—Meu; *yuktatamaḥ*—o maior yogī; *mataḥ*—é considerado.", "translation": "**E de todos os yogīs, aquele que sempre reside em Mim com grande fé, adorando-Me em transcendental serviço amoroso, está mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos.**", "purport": "A palavra bhajate é significativa aqui. Bhajate tem sua raiz no verbo bhaj, que se emprega quando há necessidade de serviço. A palavra inglesa \"worship\" não pode ser usada no mesmo sentido que bhaja. Adorar significa venerar, ou mostrar respeito e honra ao digno. Mas o serviço com amor e fé destina-se especialmente à Suprema Personalidade de Deus. Pode-se evitar adorar um homem respeitável ou um semideus, e ser-se chamado descortês, mas não se pode evitar servir ao Senhor Supremo sem ser-se completamente condenado. Toda entidade viva é parte integrante da Suprema Personalidade de Deus, e assim toda entidade viva está destinada, por sua própria constituição, a servir ao Senhor Supremo. Falhando em fazer isso, ela cai. O *Bhāgavatam* confirma isso da seguinte maneira:\n\n\n\nya eṣāṁ puruṣaṁ sākṣād ātma-prabhavam īśvaram\n\nna bhajanty avajānanti sthānād bhraṣṭā patanty adhaḥ.\n\n\n\n\"Quem quer que não preste serviço e negligencie seu dever para com o Senhor Primordial, que é a fonte de todas as entidades vivas, certamente cairá de sua posição constitucional.\"\n\n\n\nTambém neste verso é usada a palavra bhajanti. Por conseguinte, bhajanti aplica-se somente ao Senhor Supremo, ao passo que a palavra \"adoração\" pode ser aplicada a semideuses ou a qualquer outra entidade viva comum. A palavra avajānanti, usada neste verso do *Śrīmad-Bhāgavatam*, encontra-se também no *Bhagavad-gītā*: avajānanti māṁ mūḍhāḥ — \"Somente os tolos e canalhas escarnecem da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Kṛṣṇa.\" Tais tolos atrevem-se a escrever comentários sobre o *Bhagavad-gītā* sem uma atitude de serviço ao Senhor. Em consequência, não conseguem distinguir adequadamente entre a palavra bhajanti e a palavra \"adoração\".\n\n\n\nA culminação de todas as espécies de práticas de yoga reside no bhakti-yoga. Todos os outros yogas não passam de meios para chegar ao ponto do bhakti no bhakti-yoga. Yoga, na verdade, significa bhakti-yoga; todos os outros yogas são progressões em direção ao destino do bhakti-yoga. Do início do karma-yoga ao fim do bhakti-yoga há um longo caminho até a autorrealização. O karma-yoga, sem resultados fruitivos, é o início desta senda. Quando o karma-yoga aumenta em conhecimento e renúncia, o estágio chama-se jñāna-yoga. Quando o jñāna-yoga aumenta na meditação na Superalma por diferentes processos físicos, e a mente está Nele, chama-se aṣṭāṅga-yoga. E, quando alguém ultrapassa o aṣṭāṅga-yoga e chega ao ponto da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, chama-se bhakti-yoga, a culminação. Factualmente, o bhakti-yoga é a meta última, mas para analisar o bhakti-yoga minuciosamente é preciso compreender esses outros yogas. Por conseguinte, o yogī que progride está na verdadeira senda da boa fortuna eterna. Aquele que se atém a um ponto particular e não faz mais progresso é chamado por aquele nome particular: karma-yogī, jñāna-yogī ou dhyāna-yogī, rāja-yogī, haṭha-yogī, etc. Se alguém é afortunado o suficiente para chegar ao ponto do bhakti-yoga, deve-se entender que ele ultrapassou todos os outros yogas. Por conseguinte, tornar-se consciente de Kṛṣṇa é o estágio mais elevado do yoga, assim como, quando falamos do Himalaia, referimo-nos às montanhas mais elevadas do mundo, das quais o pico mais alto, o Monte Everest, é considerado a culminação.\n\n\n\nÉ por grande fortuna que a pessoa chega à consciência de Kṛṣṇa na senda do bhakti-yoga, para situar-se bem segundo a orientação Védica. O yogī ideal concentra sua atenção em Kṛṣṇa, que é chamado Śyāmasundara, que possui cor tão belamente matizada quanto uma nuvem, cuja face semelhante ao lótus é tão fulgurante quanto o sol, cuja vestimenta é brilhante de joias e cujo corpo está enguirlandado de flores. Iluminando todos os lados está Seu deslumbrante esplendor, que se chama brahmajyoti. Ele encarna em diferentes formas, tais como Rāma, Nṛsiṁha, Varāha e *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, e desce como um ser humano, na qualidade de filho da Mãe Yaśodā, e é conhecido como Kṛṣṇa, Govinda e Vāsudeva. Ele é o filho, esposo, amigo e mestre perfeito, e é pleno de todas as opulências e qualidades transcendentais. Se alguém permanece plenamente consciente desses traços do Senhor, é chamado o yogī mais elevado.\n\n\n\nEsse estágio de perfeição mais elevada em yoga só pode ser alcançado pelo bhakti-yoga, conforme se confirma em toda a literatura Védica:\n\n\n\nyasya deve parā bhaktir yathā deve tathā gurau.\n\ntasyaite kathitā hy arthāḥ prakāśante mahātmanaḥ.\n\n\n\n\"Somente àquelas grandes almas que têm fé implícita tanto no Senhor quanto no mestre espiritual é que se revelam automaticamente todos os significados do conhecimento Védico.\"\n\n\n\nBhaktir asya bhajanaṁ tadihāmutropādhi nairāsyenāmuṣmin manaḥ kalpanam; etad eva naiṣkarmyam. \"Bhakti significa serviço devocional ao Senhor que está livre do desejo de lucro material, seja nesta vida, seja na próxima. Despida de tais inclinações, a pessoa deve absorver plenamente a mente no Supremo. Esse é o propósito do naiṣkarmya.\"\n\n\n\nEstes são alguns dos meios para a execução do bhakti, ou consciência de Kṛṣṇa, o estágio perfeccional mais elevado do sistema de yoga.\n\n\n\nAssim terminam os significados Bhaktivedanta do Sexto Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* a respeito de Sāṅkhya-yoga Brahma-vidyā."}
{"ref": "bg/7/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nmayy āsakta-manāḥ pārtha\n\nyogaṁ yuñjan mad-āśrayaḥ\n\nasaṁśayaṁ samagraṁ māṁ\n\nyathā jñāsyasi tac chṛṇu", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> मय्यासक्तमनाः पार्थ योगं युञ्जन्मदाश्रयः ।\n> असंशयं समग्रं मां यथा ज्ञास्यसि तच्छृणु ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—o Senhor Supremo disse; *mayi*—em Mim; *āsakta-manāḥ*—com a mente apegada; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *yogam*—autorrealização; *yuñjan*—praticando assim; *mat-āśrayaḥ*—em consciência de Mim (consciência de Kṛṣṇa); *asaṁśayam*—sem dúvida; *samagram*—completamente; *mām*—a Mim; *yathā*—tanto quanto; *jñāsyasi*—podes conhecer; *tat*—isso; *śṛṇu*—procura ouvir.", "translation": "**Agora ouve, ó filho de Pṛthā [Arjuna], como, praticando o yoga em plena consciência de Mim, com a mente a Mim apegada, podes conhecer-Me em plenitude, livre de toda dúvida.**", "purport": "Neste Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā*, descreve-se plenamente a natureza da consciência de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é pleno em todas as opulências, e aqui se descreve como Ele manifesta tais opulências. Também se descrevem neste capítulo quatro tipos de pessoas afortunadas que se apegam a Kṛṣṇa e quatro tipos de pessoas desafortunadas que jamais se voltam para Ele.\n\n\n\nNos primeiros seis capítulos do *Bhagavad-gītā*, a entidade viva foi descrita como alma espiritual não material, capaz de elevar-se à autorrealização por diferentes tipos de yogas. Ao final do Sexto Capítulo, afirmou-se claramente que a concentração estável da mente em Kṛṣṇa — em outras palavras, a consciência de Kṛṣṇa — é a forma mais elevada de todo yoga. Concentrando a mente em Kṛṣṇa, a pessoa pode conhecer plenamente a Verdade Absoluta, mas não de outro modo. A compreensão do brahmajyoti impessoal ou do Paramātmā localizado não é conhecimento perfeito da Verdade Absoluta, pois é parcial. O conhecimento pleno e científico é Kṛṣṇa, e tudo se revela à pessoa em consciência de Kṛṣṇa. Em plena consciência de Kṛṣṇa, sabe-se que Kṛṣṇa é o conhecimento último, além de toda dúvida. Os diferentes tipos de yoga são apenas degraus na senda da consciência de Kṛṣṇa. Aquele que se dedica diretamente à consciência de Kṛṣṇa conhece automaticamente o brahmajyoti e o Paramātmā em plenitude. Pela prática do yoga da consciência de Kṛṣṇa, pode-se conhecer tudo plenamente — a saber, a Verdade Absoluta, as entidades vivas, a natureza material e suas manifestações com toda a parafernália.\n\n\n\nPor conseguinte, deve-se iniciar a prática do yoga conforme orientado no último verso do Sexto Capítulo. A concentração da mente em Kṛṣṇa, o Supremo, torna-se possível mediante o serviço devocional prescrito em nove formas diferentes, das quais *śravaṇam* é a primeira e mais importante. Por isso, o Senhor diz a Arjuna: \"*tat śṛṇu*\", ou \"ouve de Mim\". Ninguém pode ser autoridade maior que Kṛṣṇa, e por isso, ouvindo dEle, recebe-se a maior oportunidade para o progresso na consciência de Kṛṣṇa. É preciso, portanto, aprender diretamente de Kṛṣṇa ou de um devoto puro de Kṛṣṇa — e não de algum arrivista não devoto, inchado de educação acadêmica.\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam*, este processo de compreender *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, a Verdade Absoluta, é descrito no Segundo Capítulo do Primeiro Canto da seguinte forma:\n\n\n\nśṛṇvatāṁ sva-kathāṁ kṛṣṇaḥ puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ\n\nhṛdyantaḥstho hy abhadrāṇi vidbunoti suhṛt satām.\n\n\n\nnaṣṭa-prāyeṣv abhadreṣu nityaṁ bhāgavata-sevayā\n\nbhagavaty uttama-śloke bhaktir bhavati naiṣṭhikī.\n\n\n\ntadā rajas-tamo-bhāvāḥ kāma-lobhadayaś ca ye\n\nceta etair anāviddhaṁ sthitaṁ sattve prasīdati.\n\n\n\nevam prasanna-manaso bhagavad-bhakti-yogataḥ\n\nbhagavat-tattva-vijñānaṁ mukta-saṅgasya jāyate.\n\n\n\nbhidyate hṛdaya-granthiś chidyante sarva-saṁśayāḥ\n\nkṣīyante cāsya karmāṇi dṛṣṭa evātmanīśvare.\n\n\n\n\"Ouvir sobre Kṛṣṇa nas literaturas Védicas, ou ouvir dEle diretamente através do *Bhagavad-gītā*, é em si mesmo uma atividade piedosa. E para aquele que ouve sobre Kṛṣṇa, o Senhor Kṛṣṇa, que mora no coração de todos, atua como o melhor amigo benquerente e purifica o devoto que constantemente se ocupa em ouvir falar dEle. Dessa maneira, o devoto naturalmente desenvolve seu conhecimento transcendental adormecido. À medida que ouve mais sobre Kṛṣṇa do *Bhāgavatam* e dos devotos, fixa-se no serviço devocional ao Senhor. Pelo desenvolvimento do serviço devocional, a pessoa libera-se dos modos da paixão e da ignorância, e assim se diminuem os desejos materiais e a avareza. Quando essas impurezas se dissipam, o candidato permanece firme em sua posição de bondade pura, é animado pelo serviço devocional e compreende perfeitamente a ciência de Deus. Assim, o bhakti-yoga corta o nó duro da afeição material e capacita a pessoa a alcançar de imediato a etapa de '*asaṁśayaṁ samagram*', a compreensão da Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus.\" (Bhāg. 1.2.17-21)\n\n\n\nLogo, somente ouvindo de Kṛṣṇa ou de Seu devoto em consciência de Kṛṣṇa pode-se compreender a ciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/7/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/2/", "verse_text": "jñānaṁ te 'haṁ sa-vijñānam\n\nidaṁ vakṣyāmy aśeṣataḥ\n\nyaj jñātvā neha bhūyo 'nyaj\n\njñātavyam avaśiṣyate", "devanagari": "> ज्ञानं तेऽहं सविज्ञानमिदं वक्ष्याम्यशेषतः ।\n> यज्ज्ञात्वा नेह भूयोऽन्यज्ज्ञातव्यमवशिष्यते ॥२॥", "synonyms": "*jñānam*—conhecimento fenomenal; *te*—a ti; *aham*—Eu; *sa*—com; *vijñānam*—conhecimento numenal; *idam*—este; *vakṣyāmi*—exporei; *aśeṣataḥ*—em plenitude; *yat*—o qual; *jñātvā*—conhecendo; *na*—não; *iha*—neste mundo; *bhūyaḥ*—mais adiante; *anyat*—nenhuma outra coisa; *jñātavyam*—cognoscível; *avaśiṣyate*—resta por conhecer.", "translation": "**Agora vou declarar-te em plenitude este conhecimento, tanto fenomenal quanto numenal, conhecendo o qual nada mais restará por ser conhecido.**", "purport": "O conhecimento completo inclui o conhecimento do mundo fenomenal e do espírito que o sustenta. A fonte de ambos é o conhecimento transcendental. O Senhor deseja explicar o sistema de conhecimento acima mencionado porque Arjuna é Seu devoto íntimo e amigo. No início do Quarto Capítulo, o Senhor já dera essa explicação, e aqui isso se confirma novamente: o conhecimento completo só pode ser alcançado pelo devoto do Senhor, diretamente do Senhor, na sucessão discipular. Por isso, é preciso ser inteligente o bastante para reconhecer a fonte de todo conhecimento, que é a causa de todas as causas e o único objeto de meditação em todos os tipos de prática de yoga. Quando a causa de todas as causas se torna conhecida, então tudo o que é cognoscível torna-se conhecido, e nada permanece desconhecido. Os *Vedas* afirmam: \"*yasmin vijñāte sarvam eva vijñatam bhavanti*.\""}
{"ref": "bg/7/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/3/", "verse_text": "manuṣyāṇāṁ sahasreṣu\n\nkaścid yatati siddhaye\n\nyatatām api siddhānāṁ\n\nkaścin māṁ vetti tattvataḥ", "devanagari": "> मनुष्याणां सहस्रेषु कश्चिद्यतति सिद्धये ।\n> यततामपि सिद्धानां कश्चिन्मां वेत्ति तत्त्वतः ॥३॥", "synonyms": "*manuṣyāṇām*—dos homens; *sahasreṣu*—dentre muitos milhares; *kaścit*—alguém; *yatati*—esforça-se; *siddhaye*—pela perfeição; *yatatām*—dos que assim se esforçam; *api*—de fato; *siddhānām*—dos que alcançaram a perfeição; *kaścit*—alguém; *mām*—a Mim; *vetti*—conhece de fato; *tattvataḥ*—realmente.", "translation": "**Dentre muitos milhares de homens, talvez um se esforce pela perfeição, e dentre os que alcançaram a perfeição, dificilmente um Me conhece em verdade.**", "purport": "Há diversos graus de homens, e dentre muitos milhares talvez um se interesse o suficiente pela compreensão transcendental para tentar saber o que é o eu, o que é o corpo e o que é a Verdade Absoluta. Em geral, a humanidade ocupa-se simplesmente em propensões animais — comer, dormir, defender-se e acasalar-se —, e dificilmente alguém se interessa pelo conhecimento transcendental. Os primeiros seis capítulos do *Gītā* destinam-se àqueles que se interessam pelo conhecimento transcendental, em compreender o eu, o Supereu e o processo de compreensão por meio do jñāna-yoga, do dhyāna-yoga e da discriminação entre o eu e a matéria. Contudo, Kṛṣṇa só pode ser conhecido por pessoas em consciência de Kṛṣṇa. Outros transcendentalistas talvez alcancem a compreensão do Brahman impessoal, pois isso é mais fácil do que compreender Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é a Pessoa Suprema, mas, ao mesmo tempo, está além do conhecimento do Brahman e do Paramātmā. Os yogīs e jñānīs ficam confusos em suas tentativas de compreender Kṛṣṇa, embora o maior dos impersonalistas, Śrīpāda Śaṅkarācārya, tenha admitido em seu comentário ao *Gītā* que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Seus seguidores, porém, não O aceitam como tal, pois é muito difícil conhecer Kṛṣṇa, ainda que se tenha a compreensão transcendental do Brahman impessoal.\n\n\n\nKṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas, o primordial Senhor Govinda. *Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ anādir ādir govindaḥ sarva-kāraṇa-kāraṇam.* É muito difícil para os não devotos conhecê-lO. Embora os não devotos declarem que a senda do bhakti, ou serviço devocional, é muito fácil, eles não conseguem praticá-la. Se a senda do bhakti é tão fácil, como proclama essa classe de homens não devotos, então por que tomam o caminho difícil? De fato, a senda do bhakti não é fácil. A suposta senda do bhakti praticada por pessoas não autorizadas, sem o conhecimento do bhakti, talvez seja fácil, mas, quando praticada de modo verdadeiro, segundo as regras e regulações, os eruditos especulativos e os filósofos abandonam-na. Śrīla Rūpa Gosvāmī escreve em seu *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*:\n\n\n\nśruti-smṛti-purāṇādi-pañcarātra-vidhiṁ vinā\n\naikāntikī harer bhaktir utpātāyaiva kalpate.\n\n\n\n\"O serviço devocional ao Senhor que ignora as literaturas Védicas autorizadas, como os *Upaniṣads*, os *Purāṇas*, o Nārada-pañcarātra etc., é simplesmente uma perturbação desnecessária na sociedade.\"\n\n\n\nNão é possível ao impersonalista que compreendeu o Brahman, nem ao yogī que compreendeu o Paramātmā, entender *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, como o filho de mãe Yaśodā ou como o quadrigário de Arjuna. Mesmo os grandes semideuses por vezes ficam confusos quanto a Kṛṣṇa: \"*muhyanti yat sūrayaḥ*\", \"*māṁ tu veda na kaścana*\". \"Ninguém Me conhece como sou\", diz o Senhor. E se alguém de fato O conhece, então \"*sa mahātmā sudurlabhaḥ*\". \"Tal grande alma é muito rara.\" Por isso, a menos que se pratique o serviço devocional ao Senhor, não se pode conhecer Kṛṣṇa como Ele é (*tattvataḥ*), ainda que se seja grande erudito ou filósofo. Apenas os devotos puros podem conhecer algo das inconcebíveis qualidades transcendentais de Kṛṣṇa, da causa de todas as causas, de Sua onipotência e opulência, e de Sua riqueza, fama, força, beleza, conhecimento e renúncia, pois Kṛṣṇa é benevolentemente inclinado a Seus devotos. Ele é a última palavra na compreensão do Brahman, e somente os devotos podem percebê-lO como Ele é. Por isso se diz:\n\n\n\nataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyāiḥ\n\nsevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ\n\n\n\n\"Ninguém pode compreender Kṛṣṇa como Ele é por meio dos sentidos materiais embotados. Mas Ele Se revela aos devotos, sentindo-Se satisfeito com eles por seu transcendental serviço amoroso a Ele.\" (*Padma Purāṇa*)"}
{"ref": "bg/7/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/4/", "verse_text": "bhūmir āpo 'nalo vāyuḥ\n\nkhaṁ mano buddhir eva ca\n\nahaṅkāra itīyaṁ me\n\nbhinnā prakṛtir aṣṭadhā", "devanagari": "> भूमिरापोऽनलो वायुः खं मनो बुद्धिरेव च ।\n> अहंकार इतीयं मे भिन्ना प्रकृतिरष्टधा ॥४॥", "synonyms": "*bhūmiḥ*—terra; *āpaḥ*—água; *analaḥ*—fogo; *vāyuḥ*—ar; *kham*—éter; *manaḥ*—mente; *buddhiḥ*—inteligência; *eva*—certamente; *ca*—e; *ahaṅkāraḥ*—ego falso; *iti*—assim; *iyam*—todas estas; *me*—Minhas; *bhinnā*—separadas; *prakṛtiḥ*—energias; *aṣṭadhā*—oito ao todo.", "translation": "**Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego falso — estas oito energias, no conjunto, constituem Minhas energias materiais separadas.**", "purport": "A ciência de Deus analisa a posição constitucional de Deus e Suas diversas energias. A natureza material chama-se *prakṛti*, ou a energia do Senhor em Suas diferentes encarnações *puruṣa* (expansões), conforme se descreve no *Svatvata Tantra*:\n\n\n\nviṣṇos tu trīṇi rūpāṇi puruṣākhyāny atho viduḥ\n\nekantu mahataḥ sraṣṭṛ dvitīyaṁ tv aṇḍa-saṁsthitam\n\ntṛtīyaṁ sarvabhūta-sthaṁ tāni jñātvā vimucyate\n\n\n\n\"Para a criação material, a expansão plenária do Senhor Kṛṣṇa assume três Viṣṇus. O primeiro, Mahā-Viṣṇu, cria a totalidade da energia material, conhecida como *mahat-tattva*. O segundo, Garbhodakaśāyī Viṣṇu, entra em todos os universos para criar diversidades em cada um deles. O terceiro, Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, difunde-Se como a Superalma onipenetrante em todos os universos e é conhecido como Paramātmā, que está presente até mesmo dentro dos átomos. Quem conhece estes três Viṣṇus pode liberar-se do enredamento material.\"\n\n\n\nEste mundo material é uma manifestação temporária de uma das energias do Senhor. Todas as atividades do mundo material são dirigidas por essas três expansões Viṣṇu do Senhor Kṛṣṇa. Esses *Puruṣas* são chamados encarnações. Em geral, quem não conhece a ciência de Deus (Kṛṣṇa) supõe que este mundo material existe para o gozo das entidades vivas e que as entidades vivas são as causas (*Puruṣas*), os controladores e os desfrutadores da energia material. Segundo o *Bhagavad-gītā*, essa conclusão ateísta é falsa. No verso em discussão, afirma-se que Kṛṣṇa é a causa original da manifestação material. O *Śrīmad-Bhāgavatam* também o confirma. Os ingredientes da manifestação material são energias separadas do Senhor. Inclusive o brahmajyoti, que é a meta última dos impersonalistas, é uma energia espiritual manifesta no céu espiritual. Não há diversidades espirituais no brahmajyoti como há nos Vaikuṇṭhalokas, e o impersonalista aceita esse brahmajyoti como a meta eterna última. A manifestação Paramātmā também é um aspecto onipenetrante e temporário de Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu. A manifestação Paramātmā não é eterna no mundo espiritual. Logo, a verdadeira Verdade Absoluta é a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Ele é a pessoa energética completa, e possui diferentes energias separadas e internas.\n\n\n\nNa energia material, as principais manifestações são oito, conforme acima mencionado. Destas, as cinco primeiras manifestações — terra, água, fogo, ar e éter — chamam-se as cinco criações gigantescas, ou criações grosseiras, dentro das quais se incluem os cinco objetos dos sentidos. São elas as manifestações de som, tato, forma, sabor e olfato físicos. A ciência material compreende esses dez itens e nada mais. Os outros três itens, porém, a saber, mente, inteligência e ego falso, são negligenciados pelos materialistas. Os filósofos que tratam das atividades mentais também não são perfeitos no conhecimento, pois desconhecem a fonte última, Kṛṣṇa. O ego falso — \"eu sou\", e \"isto é meu\", que constituem o princípio básico da existência material — inclui dez órgãos dos sentidos para as atividades materiais. A inteligência refere-se à criação material total, chamada *mahat-tattva*. Assim, das oito energias separadas do Senhor manifestam-se os vinte e quatro elementos do mundo material, que são o tema da filosofia ateísta sāṅkhya; eles são, originalmente, ramificações das energias de Kṛṣṇa e estão separados dEle, mas os filósofos sāṅkhya ateístas, com seu pobre cabedal de conhecimento, não reconhecem Kṛṣṇa como a causa de todas as causas. O tema de discussão na filosofia sāṅkhya é apenas a manifestação da energia externa de Kṛṣṇa, conforme se descreve no *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "bg/7/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/5/", "verse_text": "apareyam itas tv anyāṁ\n\nprakṛtiṁ viddhi me parām\n\njīva-bhūtāṁ mahā-bāho\n\nyayedaṁ dhāryate jagat", "devanagari": "> अपरेयमितस्त्वन्यां प्रकृतिं विद्धि मे पराम् ।\n> जीवभूतां महाबाहो ययेदं धार्यते जगत् ॥५॥", "synonyms": "*aparā*—inferior; *iyam*—esta; *itaḥ*—além desta; *tu*—mas; *anyām*—outra; *prakṛtim*—energia; *viddhi*—procura compreender; *me*—Minha; *parām*—superior; *jīva-bhūtām*—as entidades vivas; *mahā-bāho*—ó Arjuna de braços poderosos; *yayā*—pela qual; *idam*—este; *dhāryate*—é utilizado ou explorado; *jagat*—o mundo material.", "translation": "**Além desta natureza inferior, ó Arjuna de braços poderosos, há uma outra energia superior Minha, que são todas as entidades vivas que lutam com a natureza material e sustentam o universo.**", "purport": "Aqui se menciona claramente que as entidades vivas pertencem à natureza (ou energia) superior do Senhor Supremo. A energia inferior é a matéria manifesta em diferentes elementos, a saber, terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego falso. Ambas as formas da natureza material — a grosseira (terra etc.) e a sutil (mente etc.) — são produtos da energia inferior. As entidades vivas, que exploram essas energias inferiores para diferentes propósitos, são a energia superior do Senhor Supremo, e é graças a essa energia que todo o mundo material funciona. A manifestação cósmica não tem poder de agir, a menos que seja movida pela energia superior, a entidade viva. As energias estão sempre controladas pelo energético, e por isso as entidades vivas são sempre controladas pelo Senhor — não têm existência independente. Jamais são igualmente poderosas, como pensam os homens não inteligentes. A distinção entre as entidades vivas e o Senhor é descrita no *Śrīmad-Bhāgavatam* da seguinte forma (10.87.30):\n\n\n\naparimitā dhruvās tanubhṛto yadi sarva-gatās\n\ntarhiṁ na śāsyateti niyamo dhruva netarathā\n\najani ca yanmayaṁ tad avimucya niyantṛ\n\nbhavet samam anujānatāṁ yad-amataṁ mata-duṣṭatayā\n\n\n\n\"Ó Eterno Supremo! Se as entidades vivas corporificadas fossem eternas e onipenetrantes como Tu, então não estariam sob Teu controle. Mas, se as entidades vivas são aceitas como minúsculas energias de Tua Senhoria, então estão de imediato sujeitas a Teu controle supremo. Por conseguinte, a verdadeira liberação implica a entrega das entidades vivas a Teu controle, e essa entrega as fará felizes. Apenas nessa posição constitucional poderão ser controladoras. Logo, os homens de conhecimento limitado, que defendem a teoria monista de que Deus e as entidades vivas são iguais sob todos os aspectos, na verdade enganam a si mesmos e aos outros.\"\n\n\n\nO Supremo Senhor Kṛṣṇa é o único controlador, e todas as entidades vivas são por Ele controladas. Tais entidades vivas são Sua energia superior, pois a qualidade da existência delas é uma e a mesma do Supremo, mas jamais são iguais ao Senhor em quantidade de poder. Enquanto explora a energia inferior grosseira e sutil (a matéria), a energia superior (a entidade viva) esquece sua verdadeira mente e inteligência espirituais. Esse esquecimento se deve à influência da matéria sobre a entidade viva. No entanto, quando a entidade viva se liberta da influência da energia material ilusória, alcança a etapa chamada *mukti*, ou liberação. O ego falso, sob a influência da ilusão material, pensa: \"Eu sou matéria, e as aquisições materiais são minhas.\" Sua posição real torna-se compreendida quando ele se liberta de todas as ideias materiais, incluindo a concepção de tornar-se uno em todos os aspectos com Deus. Pode-se concluir, pois, que o *Gītā* confirma que a entidade viva é apenas uma das múltiplas energias de Kṛṣṇa; e quando essa energia se livra da contaminação material, torna-se plenamente consciente de Kṛṣṇa, ou liberada."}
{"ref": "bg/7/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/6/", "verse_text": "etad-yonīni bhūtāni\n\nsarvāṇīty upadhāraya\n\nahaṁ kṛtsnasya jagataḥ\n\nprabhavaḥ pralayas tathā", "devanagari": "> एतद्योनीनि भूतानि सर्वाणीत्युपधारय ।\n> अहं कृत्स्नस्य जगतः प्रभवः प्रलयस्तथा ॥६॥", "synonyms": "*etat*—estas duas naturezas; *yonīni*—fonte do nascimento; *bhūtāni*—tudo o que é criado; *sarvāṇi*—todos; *iti*—assim; *upadhāraya*—sabe; *aham*—Eu; *kṛtsnasya*—que tudo abrange; *jagataḥ*—do mundo; *prabhavaḥ*—fonte da manifestação; *pralayaḥ*—aniquilação; *tathā*—assim como.", "translation": "**De tudo o que é material e de tudo o que é espiritual neste mundo, sabe com certeza que Eu sou tanto a origem quanto a dissolução.**", "purport": "Tudo o que existe é produto da matéria e do espírito. O espírito é o campo básico da criação, e a matéria é criada pelo espírito. O espírito não é criado em determinada etapa do desenvolvimento material. Antes, este mundo material só se manifesta com base na energia espiritual. Este corpo material desenvolve-se porque o espírito está presente dentro da matéria; uma criança cresce gradualmente até a infância e depois até a idade adulta porque essa energia superior, a alma espiritual, está presente. De modo semelhante, toda a manifestação cósmica do gigantesco universo desenvolve-se em virtude da presença da Superalma, Viṣṇu. Logo, espírito e matéria, que se combinam para manifestar esta gigantesca forma universal, são originalmente duas energias do Senhor, e por conseguinte o Senhor é a causa original de tudo. A parte e parcela fragmentária do Senhor, a saber, a entidade viva, pode, pela manipulação da energia material, construir um arranha-céu, uma fábrica ou uma cidade, mas não pode criar matéria a partir do nada, e certamente não pode construir um planeta ou um universo. A causa do universo é a Superalma, Kṛṣṇa, o supremo criador de todas as almas individuais e a causa original de todas as causas, como confirma o *Kaṭha Upaniṣad*: *nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām*."}
{"ref": "bg/7/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/7/", "verse_text": "mattaḥ parataraṁ nānyat\n\nkiñcid asti dhanañjaya\n\nmayi sarvam idaṁ protaṁ\n\nsūtre maṇi-gaṇā iva", "devanagari": "> मत्तः परतरं नान्यत्किञ्चिदस्ति धनञ्जय ।\n> मयि सर्वमिदं प्रोतं सूत्रे मणिगणा इव ॥७॥", "synonyms": "*mattaḥ*—além de Mim; *parataram*—superior; *na*—não; *anyat*—nenhuma outra coisa; *kiñcit*—algo; *asti*—há; *dhanañjaya*—ó conquistador de riquezas; *mayi*—em Mim; *sarvam*—tudo o que existe; *idam*—que vemos; *protam*—enfiado; *sūtre*—num fio; *maṇi-gaṇāḥ*—pérolas; *iva*—assim como.", "translation": "**Ó conquistador de riquezas [Arjuna], não há Verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, assim como pérolas estão enfiadas num fio.**", "purport": "Há uma controvérsia comum sobre se a Suprema Verdade Absoluta é pessoal ou impessoal. No que tange ao *Bhagavad-gītā*, a Verdade Absoluta é a Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, e isso se confirma a cada passo. Neste verso, em particular, enfatiza-se que a Verdade Absoluta é uma pessoa. Que a Personalidade de Deus é a Suprema Verdade Absoluta também é a afirmação da *Brahma-saṁhitā*: *īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ*; isto é, a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, é o Senhor Kṛṣṇa, que é o Senhor primordial, o reservatório de todo prazer, Govinda, e a forma eterna de bem-aventurança e conhecimento completos. Essas autoridades não deixam dúvida de que a Verdade Absoluta é a Pessoa Suprema, a causa de todas as causas. O impersonalista, contudo, argumenta com base na versão Védica dada no *Śvetāśvatara Upaniṣad*: *tato yad uttarataraṁ tad arūpam anāmayaṁ ya etad vidur amṛtās te bhavanti athetare duḥkham evāpi yanti*. \"No mundo material, Brahmā, a entidade viva primordial dentro do universo, é tido como o supremo entre os semideuses, os seres humanos e os animais inferiores. Mas além de Brahmā há a Transcendência, que não tem forma material e é livre de toda contaminação material. Quem puder conhecê-lO também se torna transcendental, mas aqueles que não O conhecem sofrem as misérias do mundo material.\"\n\n\n\nO impersonalista enfatiza mais a palavra *arūpam*. Mas esse *arūpam* não é impessoal. Indica a forma transcendental de eternidade, bem-aventurança e conhecimento, conforme descrita na *Brahma-saṁhitā* citada acima. Outros versos do *Śvetāśvatara Upaniṣad* o corroboram da seguinte forma:\n\n\n\nvedāham etaṁ puruṣaṁ mahāntam āditya-varṇaṁ tamasaḥ parastāt\n\ntam eva vidvān amṛta iha bhavati nānyaḥ panthā vidyate ayanāya\n\nyasmāt paraṁ nāparam asti kiñcid yasmānnāṇīyo na jyāyo 'sti kiñcit\n\n\n\n\"Eu conheço aquela Suprema Personalidade de Deus que é transcendental a todas as concepções materiais de escuridão. Apenas quem O conhece pode transcender os laços do nascimento e da morte. Não há outra senda para a liberação senão este conhecimento daquela Pessoa Suprema.\n\n\n\n\"Não há verdade superior àquela Pessoa Suprema, pois Ele é o supremo entre os supremos. É menor que o menor e é maior que o maior. Está situado como uma árvore silenciosa, e ilumina o céu transcendental, e, assim como uma árvore espalha suas raízes, Ele estende Suas vastas energias.\"\n\n\n\nDesses versos conclui-se que a Suprema Verdade Absoluta é a Suprema Personalidade de Deus, que é onipenetrante por Suas múltiplas energias, tanto materiais quanto espirituais."}
{"ref": "bg/7/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/8/", "verse_text": "raso 'ham apsu kaunteya\n\nprabhāsmi śaśi-sūryayoḥ\n\npraṇavaḥ sarva-vedeṣu\n\nśabdaḥ khe pauruṣaṁ nṛṣu", "devanagari": "> रसोऽहमप्सु कौन्तेय प्रभास्मि शशिसूर्ययोः ।\n> प्रणवः सर्ववेदेषु शब्दः खे पौरुषं नृषु ॥८॥", "synonyms": "*rasaḥ*—sabor; *aham*—Eu; *apsu*—na água; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *prabhā asmi*—Eu sou a luz; *śaśi-sūryayoḥ*—no sol e na lua; *praṇavaḥ*—as três letras A.U.M.; *sarva*—em todos; *vedeṣu*—nos Vedas; *śabdaḥ*—vibração sonora; *khe*—no éter; *pauruṣam*—capacidade; *nṛṣu*—no homem.", "translation": "**Ó filho de Kuntī [Arjuna], Eu sou o sabor da água, a luz do sol e da lua, a sílaba *om* nos *mantras* Védicos; Eu sou o som no éter e a capacidade no homem.**", "purport": "Este verso explica como o Senhor é onipenetrante por meio de Suas diversas energias materiais e espirituais. O Senhor Supremo pode ser preliminarmente percebido por Suas diferentes energias, e dessa maneira é compreendido impessoalmente. Assim como o semideus do sol é uma pessoa percebida por sua energia onipenetrante, o brilho solar, de modo semelhante, o Senhor, embora em Sua morada eterna, é percebido por Suas energias onipenetrantes e difusivas. O sabor da água é o princípio ativo da água. Ninguém gosta de beber água do mar, pois o sabor puro da água está misturado com o sal. A atração pela água depende da pureza do sabor, e esse sabor puro é uma das energias do Senhor. O impersonalista percebe a presença do Senhor na água por seu sabor, e o personalista também glorifica o Senhor por gentilmente fornecer água para saciar a sede do homem. Esse é o modo de perceber o Supremo. Na prática, não há conflito entre personalismo e impersonalismo. Aquele que conhece a Deus sabe que a concepção impessoal e a concepção pessoal estão simultaneamente presentes em tudo e que não há contradição. Por isso, o Senhor Caitanya estabeleceu Sua sublime doutrina: *acintya-bheda* e *abheda-tattvam* — simultaneamente uno e diferente.\n\n\n\nA luz do sol e da lua também emana originalmente do brahmajyoti, que é a refulgência impessoal do Senhor. De modo semelhante, *praṇava*, ou o *omkāra*, o som transcendental usado no início de cada hino Védico para invocar o Senhor Supremo, também emana dEle. Como os impersonalistas têm muito medo de invocar o Supremo Senhor Kṛṣṇa por Seus inumeráveis nomes, preferem vibrar o som transcendental *omkāra*. Mas não percebem que o *omkāra* é a representação sonora de Kṛṣṇa. A jurisdição da consciência de Kṛṣṇa estende-se a toda parte, e quem conhece a consciência de Kṛṣṇa é abençoado. Os que não conhecem Kṛṣṇa estão em ilusão; logo, o conhecimento de Kṛṣṇa é liberação, e a ignorância dEle é cativeiro."}
{"ref": "bg/7/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/9/", "verse_text": "puṇyo gandhaḥ pṛthivyāṁ ca\n\ntejaś cāsmi vibhāvasau\n\njīvanaṁ sarva-bhūteṣu\n\ntapaś cāsmi tapasviṣu", "devanagari": "> पुण्यो गन्धः पृथिव्यां च तेजश्चास्मि विभावसौ ।\n> जीवनं सर्वभूतेषु तपश्चास्मि तपस्विषु ॥९॥", "synonyms": "*puṇyaḥ*—original; *gandhaḥ*—fragrância; *pṛthivyām*—na terra; *ca*—também; *tejaḥ*—temperatura; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *vibhāvasau*—no fogo; *jīvanam*—vida; *sarva*—todas; *bhūteṣu*—as entidades vivas; *tapaḥ*—penitência; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *tapasviṣu*—nos que praticam penitência.", "translation": "**Eu sou a fragrância original da terra, e Eu sou o calor no fogo. Eu sou a vida de tudo o que vive, e Eu sou as penitências de todos os ascetas.**", "purport": "*Puṇya* significa o que não se decompõe; *puṇya* é original. Tudo no mundo material tem um certo aroma ou fragrância, como o aroma e a fragrância em uma flor, ou na terra, na água, no fogo, no ar etc. O aroma incontaminado, o aroma original, que permeia tudo, é Kṛṣṇa. De modo semelhante, tudo tem um sabor original específico, e este sabor pode ser alterado pela mistura de produtos químicos. Assim, tudo o que é original tem algum cheiro, alguma fragrância e algum sabor. *Vibhāva* significa fogo. Sem fogo não podemos manter fábricas, não podemos cozinhar etc., e esse fogo é Kṛṣṇa. O calor do fogo é Kṛṣṇa. Segundo a medicina Védica, a indigestão deve-se a uma baixa temperatura no ventre. Logo, mesmo para a digestão é necessário fogo. Em consciência de Kṛṣṇa, tornamo-nos conscientes de que terra, água, fogo, ar e todo princípio ativo, todos os produtos químicos e todos os elementos materiais devem-se a Kṛṣṇa. A duração da vida do homem também se deve a Kṛṣṇa. Assim, pela graça de Kṛṣṇa, o homem pode prolongar sua vida ou diminuí-la. Por isso, a consciência de Kṛṣṇa é ativa em toda esfera."}
{"ref": "bg/7/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/10/", "verse_text": "bījaṁ māṁ sarva-bhūtānāṁ\n\nviddhi pārtha sanātanam\n\nbuddhir buddhimatām asmi\n\ntejas tejasvinām aham", "devanagari": "> बीजं मां सर्वभूतानां विद्धि पार्थ सनातनम् ।\n> बुद्धिर्बुद्धिमतामस्मि तेजस्तेजस्विनामहम् ॥१०॥", "synonyms": "*bījam*—semente; *mām*—a Mim; *sarva-bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *viddhi*—procura compreender; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *sanātanam*—original, eterno; *buddhiḥ*—inteligência; *buddhimatām*—dos inteligentes; *asmi*—Eu sou; *tejaḥ*—proeza; *tejasvinām*—dos poderosos; *aham*—Eu sou.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, sabe que Eu sou a semente original de todas as existências, a inteligência dos inteligentes e a proeza de todos os homens poderosos.**", "purport": "*Bījam* significa semente; Kṛṣṇa é a semente de tudo. Em contato com a natureza material, a semente frutifica em diversas entidades vivas, móveis e inertes. Aves, feras, homens e muitas outras criaturas vivas são entidades vivas móveis; árvores e plantas, contudo, são inertes — não podem mover-se, mas apenas permanecer paradas. Toda entidade está contida no âmbito das 8.400.000 espécies de vida; algumas delas se movem e outras são inertes. Em todos os casos, porém, a semente da vida delas é Kṛṣṇa. Conforme se afirma na literatura Védica, o Brahman, ou a Suprema Verdade Absoluta, é aquilo de que tudo emana. Kṛṣṇa é Parabrahman, o Espírito Supremo. O Brahman é impessoal e o Parabrahman é pessoal. O Brahman impessoal está situado no aspecto pessoal — isto se afirma no *Bhagavad-gītā*. Por conseguinte, originalmente, Kṛṣṇa é a fonte de tudo. Ele é a raiz. Assim como a raiz de uma árvore mantém toda a árvore, Kṛṣṇa, sendo a raiz original de todas as coisas, mantém tudo nesta manifestação material. Isto também se confirma na literatura Védica. *Yato vā imāni bhūtāni jāyante*. \"A Suprema Verdade Absoluta é aquilo de que tudo nasce.\" Ele é o eterno primordial entre todos os eternos. É a entidade viva suprema de todas as entidades vivas, e somente Ele mantém toda a vida. Kṛṣṇa também diz que é a raiz de toda inteligência. A menos que a pessoa seja inteligente, não pode compreender a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/7/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/11/", "verse_text": "balaṁ balavatāṁ cāhaṁ\n\nkāma-rāga-vivarjitam\n\ndharmāviruddho bhūteṣu\n\nkāmo 'smi bharatarṣabha", "devanagari": "> बलं बलवतां चाहं कामरागविवर्जितम् ।\n> धर्माविरुद्धो भूतेषु कामोऽस्मि भरतर्षभ ॥११॥", "synonyms": "*balam*—força; *balavatām*—dos fortes; *ca*—e; *aham*—Eu sou; *kāma*—paixão; *rāga*—apego; *vivarjitam*—desprovida de; *dharma-aviruddha*—não contrária aos princípios religiosos; *bhūteṣu*—em todos os seres; *kāmaḥ*—vida sexual; *asmi*—Eu sou; *bharatarṣabha*—ó senhor dos Bhāratas.", "translation": "**Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e de desejo. Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó Senhor dos Bhāratas [Arjuna].**", "purport": "A força do homem forte deve ser empregada na proteção dos fracos, não em agressão pessoal. De modo semelhante, a vida sexual, segundo os princípios religiosos (*dharma*), deve destinar-se à procriação de filhos, e não a outra finalidade. A responsabilidade dos pais é, então, tornar seus descendentes conscientes de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/7/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/12/", "verse_text": "ye caiva sāttvikā bhāvā\n\nrājasās tāmasāś ca ye\n\nmatta eveti tān viddhi\n\nna tv ahaṁ teṣu te mayi", "devanagari": "> ये चैव सात्त्विका भावा राजसास्तामसाश्च ये ।\n> मत्त एवेति तान्विद्धि न त्वहं तेषु ते मयि ॥१२॥", "synonyms": "*ye*—todos esses; *ca*—e; *eva*—certamente; *sāttvikāḥ*—na bondade; *bhāvāḥ*—estados de ser; *rājasāḥ*—modo da paixão; *tāmasāḥ*—modo da ignorância; *ca*—também; *ye*—embora; *mattaḥ*—de Mim; *eva*—certamente; *iti*—assim; *tān*—esses; *viddhi*—procura conhecer; *na*—não; *tu*—mas; *aham*—Eu; *teṣu*—neles; *te*—eles; *mayi*—em Mim.", "translation": "**Todos os estados de ser — sejam eles de bondade, paixão ou ignorância — são manifestados por Minha energia. Em certo sentido, Eu sou tudo, mas sou independente. Não estou sob os modos desta natureza material.**", "purport": "Todas as atividades materiais no mundo conduzem-se sob os três modos da natureza material. Embora esses modos materiais da natureza sejam emanações do Senhor Supremo, Kṛṣṇa, Ele não está sujeito a eles. Por exemplo, sob as leis do estado, alguém pode ser punido, mas o rei, o legislador, não está sujeito a essa lei. De modo semelhante, todos os modos da natureza material — bondade, paixão e ignorância — são emanações do Supremo Senhor Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa não está sujeito à natureza material. Por isso Ele é *nirguṇa*, o que significa que esses *guṇas*, ou modos, embora dEle provenham, não O afetam. Esta é uma das características especiais do Bhagavān, ou da Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/7/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/13/", "verse_text": "tribhir guṇa-mayair bhāvair\n\nebhiḥ sarvam idaṁ jagat\n\nmohitaṁ nābhijānāti\n\nmām ebhyaḥ param avyayam", "devanagari": "> त्रिभिर्गुणमयैर्भावैरेभिः सर्वमिदं जगत् ।\n> मोहितं नाभिजानाति मामेभ्यः परमव्ययम् ॥१३॥", "synonyms": "*tribhiḥ*—três; *guṇamayaiḥ*—pelos três *guṇas*; *bhāvaiḥ*—estado de ser; *ebhiḥ*—todos estes; *sarvam*—o mundo inteiro; *idam*—neste mundo; *jagat*—universo; *mohitam*—iludido; *na abhijānāti*—não conhece; *mām*—a Mim; *ebhyaḥ*—acima destes; *param*—o Supremo; *avyayam*—inesgotável.", "translation": "**Iludido pelos três modos [bondade, paixão e ignorância], o mundo inteiro não Me conhece, a Mim, que estou acima dos modos e sou inesgotável.**", "purport": "O mundo inteiro está enfeitiçado pelos três modos da natureza material. Aqueles que são confundidos por esses três modos não conseguem compreender que, transcendental a esta natureza material, está o Senhor Supremo, Kṛṣṇa. Neste mundo material, todos estão sob a influência destes três *guṇas* e, dessa maneira, se confundem.\n\n\n\nPor natureza, as entidades vivas têm tipos particulares de corpo e correspondentes tipos particulares de atividades psíquicas e biológicas. Há quatro classes de homens funcionando nos três modos materiais da natureza. Aqueles que estão puramente no modo da bondade são chamados *brāhmaṇas*. Aqueles que estão puramente no modo da paixão são chamados *kṣatriyas*. Aqueles que estão nos modos da paixão e da ignorância simultaneamente são chamados *vaiśyas*. Aqueles que estão completamente na ignorância são chamados *śūdras*. E aqueles que estão abaixo disso são animais ou possuem vida animal. No entanto, essas designações não são permanentes. Eu posso ser *brāhmaṇa*, *kṣatriya*, *vaiśya* ou o que quer que seja — em qualquer caso, esta vida é temporária. Mas, embora a vida seja temporária e não saibamos o que seremos na próxima vida, ainda assim, pelo encanto desta energia ilusória, consideramo-nos sob a luz desta concepção corporal da vida e, dessa maneira, pensamos que somos americanos, indianos, russos, ou *brāhmaṇas*, hindus, muçulmanos etc. E, se nos enredamos com os modos da natureza material, esquecemo-nos da Suprema Personalidade de Deus, que está por trás de todos esses modos. Por isso, o Senhor Kṛṣṇa diz que os homens, iludidos por estes três modos da natureza, não compreendem que, por trás do plano de fundo material, está a Suprema Divindade.\n\n\n\nHá muitos tipos diferentes de entidades vivas — seres humanos, semideuses, animais etc. —, e cada uma delas está sob a influência da natureza material, e todas se esqueceram da Personalidade de Deus transcendente. Aqueles que estão nos modos da paixão e da ignorância, e mesmo aqueles que estão no modo da bondade, não podem ir além da concepção do Brahman impessoal a respeito da Verdade Absoluta. Confundem-se diante do Senhor Supremo em Seu aspecto pessoal, que possui toda a beleza, opulência, conhecimento, força, fama e renúncia. Quando até mesmo aqueles que estão na bondade não conseguem compreender, que esperança há para os que estão na paixão e na ignorância? A consciência de Kṛṣṇa é transcendental a todos estes três modos da natureza material, e aqueles que se acham verdadeiramente estabelecidos em consciência de Kṛṣṇa estão de fato liberados."}
{"ref": "bg/7/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/14/", "verse_text": "daivī hy eṣā guṇa-mayī\n\nmama māyā duratyayā\n\nmām eva ye prapadyante\n\nmāyām etāṁ taranti te", "devanagari": "> दैवी ह्येषा गुणमयी मम माया दुरत्यया ।\n> मामेव ये प्रपद्यन्ते मायामेतां तरन्ति ते ॥१४॥", "synonyms": "*daivī*—transcendental; *hi*—certamente; *eṣā*—esta; *guṇamayī*—constituída pelos três modos da natureza material; *mama*—Minha; *māyā*—energia; *duratyayā*—muito difícil de superar; *mām*—a Mim; *eva*—certamente; *ye*—aqueles que; *prapadyante*—rendem-se; *māyām etām*—esta energia ilusória; *taranti*—superam; *te*—eles.", "translation": "**Esta Minha energia divina, constituída pelos três modos da natureza material, é difícil de superar. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente ultrapassá-la.**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus possui inumeráveis energias, e todas essas energias são divinas. Embora as entidades vivas sejam parte de Suas energias e, portanto, sejam divinas, devido ao contato com a energia material, seu poder superior original fica encoberto. Coberta dessa maneira pela energia material, a pessoa não pode, de modo algum, superar sua influência. Como já foi afirmado, tanto a natureza material quanto a espiritual, sendo emanações da Suprema Personalidade de Deus, são eternas. As entidades vivas pertencem à eterna natureza superior do Senhor, mas, devido à contaminação pela natureza inferior, a matéria, sua ilusão também é eterna. A alma condicionada, por isso, chama-se *nitya-baddha*, ou eternamente condicionada. Ninguém consegue rastrear a história de seu condicionamento numa data definida da história material. Em consequência, sua libertação das garras da natureza material é muito difícil, ainda que essa natureza material seja uma energia inferior, pois a energia material é em última análise conduzida pela vontade suprema, que a entidade viva não consegue superar. A natureza material inferior é aqui definida como natureza divina, em virtude de sua conexão divina e do movimento pela vontade divina. Conduzida pela vontade divina, a natureza material, embora inferior, atua de modo tão maravilhoso na construção e destruição da manifestação cósmica. Os *Vedas* o confirmam da seguinte forma:\n\n\n\nmāyāṁ tu prakṛtiṁ vidyān māyinaṁ tu maheśvaram.\n\n\n\n\"Embora a *māyā* [ilusão] seja falsa ou temporária, o pano de fundo da *māyā* é o supremo mágico, a Personalidade de Deus, que é Maheśvara, o controlador supremo.\"\n\n\n\nOutro significado de *guṇa* é corda; deve-se entender que a alma condicionada está fortemente atada pelas cordas da ilusão. Um homem amarrado de mãos e pés não pode libertar-se — precisa ser ajudado por uma pessoa que esteja desatada. Como o atado não pode ajudar o atado, o socorredor deve estar liberado. Por isso, somente o Senhor Kṛṣṇa, ou Seu representante genuíno, o mestre espiritual, pode liberar a alma condicionada. Sem essa ajuda superior, ninguém pode libertar-se do cativeiro da natureza material. O serviço devocional, ou a consciência de Kṛṣṇa, pode ajudar a pessoa a obter essa libertação. Kṛṣṇa, sendo o Senhor da energia ilusória, pode ordenar a essa energia inexpugnável que liberte a alma condicionada. Ele ordena essa libertação por Sua misericórdia imotivada para com a alma rendida e por Sua afeição paternal pela entidade viva, que é, originalmente, um amado filho do Senhor. Por isso, render-se aos pés de lótus do Senhor é o único meio de libertar-se das garras da rigorosa natureza material.\n\n\n\nAs palavras *mām eva* também são significativas. *Mām* significa unicamente a Kṛṣṇa (Viṣṇu), e não a Brahmā ou Śiva. Embora Brahmā e Śiva sejam grandemente elevados e estejam quase no nível de Viṣṇu, não é possível a tais encarnações de *rājo-guṇa* (paixão) e *tamo-guṇa* (ignorância) liberar a alma condicionada das garras de *māyā*. Em outras palavras, tanto Brahmā quanto Śiva também estão sob a influência de *māyā*. Somente Viṣṇu é o senhor de *māyā*; por isso, somente Ele pode dar a libertação à alma condicionada. Os *Vedas* o confirmam na frase *tvam eva viditvā*, ou \"A liberação só é possível compreendendo-se Kṛṣṇa\". Mesmo o Senhor Śiva afirma que a liberação só pode ser alcançada pela misericórdia de Viṣṇu. O Senhor Śiva diz:\n\n\n\nmukti-pradātā sarveṣāṁ viṣṇur eva na saṁśayaḥ.\n\n\n\n\"Não há dúvida de que Viṣṇu é o concedente da liberação para todos.\""}
{"ref": "bg/7/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/15/", "verse_text": "na māṁ duṣkṛtino mūḍhāḥ\n\nprapadyante narādhamāḥ\n\nmāyayāpahṛta-jñānā\n\nāsuraṁ bhāvam āśritāḥ", "devanagari": "> न मां दुष्कृतिनो मूढाः प्रपद्यन्ते नराधमाः ।\n> माययापहृतज्ञाना आसुरं भावमाश्रिताः ॥१५॥", "synonyms": "*na*—não; *mām*—a Mim; *duṣkṛtinaḥ*—malfeitores; *mūḍhāḥ*—tolos; *prapadyante*—rendem-se; *narādhamāḥ*—os mais baixos da humanidade; *māyayā*—pela energia ilusória; *apahṛta*—roubado pela ilusão; *jñānāḥ*—conhecimento; *asuram*—demoníaca; *bhāvam*—natureza; *āśritāḥ*—aceitando.", "translation": "**Esses malfeitores que são grosseiramente tolos, os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão, e que partilham da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.**", "purport": "Diz-se no *Bhagavad-gītā* que, simplesmente rendendo-se aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, pode-se superar as rigorosas leis da natureza material. Aqui surge uma pergunta: como é que filósofos educados, cientistas, homens de negócios, administradores e todos os líderes dos homens comuns não se rendem aos pés de lótus de Śrī Kṛṣṇa, a todo-poderosa Personalidade de Deus? *Mukti*, ou liberação das leis da natureza material, é buscada pelos líderes da humanidade de diferentes maneiras e com grandes planos e perseverança por muitos anos e nascimentos. Mas, se essa liberação é possível simplesmente rendendo-se aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, então por que esses líderes inteligentes e laboriosos não adotam este método simples?\n\n\n\nO *Gītā* responde a esta pergunta com toda franqueza. Aqueles líderes da sociedade verdadeiramente eruditos, tais como Brahmā, Śiva, Kapila, os Kumāras, Manu, Vyāsa, Devala, Asita, Janaka, Prahlāda, Bali, e, mais tarde, Madhvācārya, Rāmānujācārya, Śrī Caitanya e muitos outros — que são fiéis filósofos, políticos, educadores, cientistas etc. —, rendem-se aos pés de lótus da Pessoa Suprema, a autoridade todo-poderosa. Aqueles que não são, na verdade, filósofos, cientistas, educadores, administradores etc., mas se fazem passar por tais para obter ganho material, não aceitam o plano nem a senda do Senhor Supremo. Não fazem ideia de Deus; simplesmente fabricam seus próprios planos mundanos e, em consequência, complicam os problemas da existência material em suas vãs tentativas de resolvê-los. Por ser a energia material (a natureza) tão poderosa, ela pode resistir aos planos não autorizados dos ateus e frustrar o conhecimento das \"comissões de planejamento\".\n\n\n\nOs planejadores ateístas são aqui descritos pela palavra *duṣkṛtina*, ou \"malfeitores\". *Kṛtina* significa quem realizou trabalho meritório. O planejador ateísta às vezes é também muito inteligente e meritório, pois qualquer plano gigantesco, bom ou mau, requer inteligência para ser executado. No entanto, como o cérebro do ateu é mal utilizado em opor-se ao plano do Senhor Supremo, o planejador ateísta é chamado *duṣkṛtina*, o que indica que sua inteligência e seus esforços estão mal direcionados.\n\n\n\nNo *Gītā* menciona-se claramente que a energia material atua plenamente sob a direção do Senhor Supremo. Não tem autoridade independente. Atua como a sombra se move, em conformidade com os movimentos do objeto. Mesmo assim, a energia material é muito poderosa, e o ateu, devido a seu temperamento sem-Deus, não pode saber como ela funciona; tampouco pode conhecer o plano do Senhor Supremo. Sob a influência da ilusão e dos modos da paixão e da ignorância, todos os seus planos são frustrados, como no caso de Hiraṇyakaśipu e Rāvaṇa, cujos planos foram reduzidos a pó, embora ambos fossem materialmente eruditos como cientistas, filósofos, administradores e educadores. Esses *duṣkṛtinas*, ou malfeitores, são de quatro tipos diferentes, conforme se delineia abaixo:\n\n\n\n(1) Os *mūḍhas* são aqueles que são grosseiramente tolos, semelhantes às laboriosas bestas de carga. Querem desfrutar por si mesmos os frutos de seu trabalho e, por isso, não desejam compartilhá-los com o Supremo. O exemplo típico da besta de carga é o asno. Esse animal humilde é levado a trabalhar muito pelo seu amo. O asno não sabe verdadeiramente para quem trabalha tanto, dia e noite. Permanece satisfeito enchendo o estômago com um feixe de capim, dormindo um pouco com medo de apanhar do amo, e satisfazendo seu apetite sexual com o risco de receber repetidos coices da parte oposta. O asno por vezes canta poesia e filosofia, mas esse zurro só perturba os outros. Esta é a posição do tolo trabalhador fruitivo, que não sabe para quem deveria trabalhar. Não sabe que o *karma* (a ação) destina-se ao *yajña* (sacrifício).\n\n\n\nNa maioria das vezes, aqueles que trabalham muito dia e noite para se livrar do peso de deveres autocriados dizem que não têm tempo para ouvir falar da imortalidade do ser vivo. Para tais *mūḍhas*, os ganhos materiais, que são destrutíveis, são tudo na vida — apesar do fato de que os *mūḍhas* desfrutam apenas de uma fração muito pequena do fruto do trabalho. Por vezes passam dias e noites em claro pelo ganho fruitivo, e, embora possam ter úlceras ou indigestão, satisfazem-se praticamente sem comida; estão simplesmente absortos em trabalhar arduamente dia e noite em proveito de mestres ilusórios. Ignorantes de seu verdadeiro mestre, os tolos trabalhadores desperdiçam seu tempo precioso servindo a Mamom. Infelizmente, jamais se rendem ao mestre supremo de todos os mestres, nem reservam tempo para ouvir falar dEle das fontes adequadas. Os porcos que comem o solo não se importam em aceitar doces feitos de açúcar e *ghee*. De modo semelhante, o tolo trabalhador continuará incansavelmente a ouvir as notícias agradáveis aos sentidos, oferecidas pela inconstante força mundana que move o mundo material.\n\n\n\n(2) Outra classe de *duṣkṛtina*, ou malfeitor, chama-se *narādhama*, ou o mais baixo da humanidade. *Nara* significa ser humano, e *adhama* significa o mais baixo. Das 8.400.000 diferentes espécies de seres vivos, há 400.000 espécies humanas. Dentre estas, há numerosas formas inferiores de vida humana, em sua maioria não civilizadas. Os seres humanos civilizados são aqueles que possuem princípios regulados de vida social, política e religiosa. Aqueles que são desenvolvidos social e politicamente, mas não têm princípios religiosos, devem ser considerados *narādhamas*. Tampouco a religião sem Deus é religião, pois o propósito de seguir os princípios religiosos é conhecer a Verdade Suprema e a relação do homem com Ela. No *Gītā*, a Personalidade de Deus declara claramente que não há autoridade acima dEle e que Ele é a Verdade Suprema. A forma civilizada de vida humana destina-se a que o homem reavive a consciência perdida de sua eterna relação com a Verdade Suprema, a Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, que é todo-poderoso. Quem perde essa oportunidade é classificado como *narādhama*. Pelas escrituras reveladas, somos informados de que, quando o bebê está no útero materno (situação extremamente desconfortável), ele ora a Deus por libertação e promete adorá-lO somente assim que sair. Orar a Deus quando se está em dificuldade é um instinto natural em todo ser vivo, pois ele está eternamente relacionado com Deus. Mas, após sua libertação, a criança esquece as dificuldades do nascimento e também esquece seu libertador, sendo influenciada por *māyā*, a energia ilusória.\n\n\n\nÉ dever dos guardiões das crianças reavivar a consciência divina nelas adormecida. Os dez processos de cerimônias purificatórias, conforme prescritos no *Manu-smṛti*, que é o guia dos princípios religiosos, destinam-se a reavivar a consciência de Deus no sistema de *varṇāśrama*. Contudo, nenhum processo é estritamente seguido em qualquer parte do mundo atualmente, e por isso 99,9 % da população é constituída de *narādhamas*.\n\n\n\nQuando toda a população se torna *narādhama*, naturalmente toda a sua suposta educação é tornada nula e sem efeito pela todo-poderosa energia da natureza física. Segundo o critério do *Gītā*, homem erudito é aquele que vê em condições iguais o *brāhmaṇa* erudito, o cão, a vaca, o elefante e o comedor de cães. Esta é a visão de um verdadeiro devoto. Śrī Nityānanda Prabhu, que é a encarnação da Divindade como mestre divino, libertou os típicos *narādhamas*, os irmãos Jagāi e Mādhāi, e mostrou como a misericórdia de um verdadeiro devoto é concedida aos mais baixos da humanidade. Assim, o *narādhama* condenado pela Personalidade de Deus pode reavivar sua consciência espiritual somente pela misericórdia de um devoto.\n\n\n\nŚrī Caitanya Mahāprabhu, ao propagar o *bhāgavata-dharma*, ou as atividades dos devotos, recomendou que as pessoas ouvissem submissamente a mensagem da Personalidade de Deus. A essência dessa mensagem é o *Bhagavad-gītā*. Os mais baixos entre os seres humanos podem ser libertados unicamente por este processo de ouvir submisso, mas, infelizmente, eles negam-se até mesmo a dar atenção auditiva a estas mensagens — que dizer de render-se à vontade do Senhor Supremo? Os *narādhamas*, ou os mais baixos da humanidade, deliberadamente negligenciam o dever primordial do ser humano.\n\n\n\n(3) A próxima classe de *duṣkṛtina* chama-se *māyayāpahṛta-jñāna*, ou aquelas pessoas cujo conhecimento erudito foi anulado pela influência da energia material ilusória. São, em sua maioria, sujeitos muito eruditos — grandes filósofos, poetas, literatos, cientistas etc. —, mas a energia ilusória os desorienta e, por isso, desobedecem ao Senhor Supremo.\n\n\n\nHá grande número de *māyayāpahṛta-jñānas* no momento atual, mesmo entre os eruditos do *Gītā*. No *Gītā*, em linguagem clara e simples, afirma-se que Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Não há ninguém igual ou superior a Ele. Ele é mencionado como o pai de Brahmā, o pai original de todos os seres humanos. De fato, diz-se que Śrī Kṛṣṇa é não apenas o pai de Brahmā, mas também o pai de todas as espécies de vida. Ele é a raiz do Brahman impessoal e do Paramātmā; a Superalma em cada entidade é Sua porção plenária. Ele é a fonte de tudo, e a todos se aconselha render-se a Seus pés de lótus. Apesar de todas estas declarações claras, os *māyayāpahṛta-jñānas* zombam da Personalidade do Senhor Supremo e O consideram apenas mais um ser humano. Não sabem que a abençoada forma de vida humana foi modelada conforme o aspecto eterno e transcendental do Senhor Supremo.\n\n\n\nTodas as interpretações não autorizadas do *Gītā* feitas pela classe dos *māyayāpahṛta-jñāna*, fora do âmbito do sistema *paramparā*, são outros tantos obstáculos na senda da compreensão espiritual. Os intérpretes iludidos não se rendem aos pés de lótus de Śrī Kṛṣṇa, nem ensinam outros a seguir este princípio.\n\n\n\n(4) A última classe de *duṣkṛtina* chama-se *āsuraṁ bhāvam āśrita*, ou aqueles de princípios demoníacos. Esta classe é abertamente ateísta. Alguns deles argumentam que o Senhor Supremo jamais pode descer a este mundo material, mas são incapazes de apresentar quaisquer razões tangíveis sobre o porquê. Há outros que O fazem subordinado ao aspecto impessoal, embora o oposto seja declarado no *Gītā*. Invejoso da Suprema Personalidade de Deus, o ateu apresentará uma série de encarnações ilícitas fabricadas na fábrica de seu cérebro. Tais pessoas, cujo próprio princípio de vida é difamar a Personalidade de Deus, não podem render-se aos pés de lótus de Śrī Kṛṣṇa.\n\n\n\nŚrī Yāmunācārya Albandru, do sul da Índia, disse: \"Ó meu Senhor! És incognoscível às pessoas envolvidas com princípios ateístas, apesar de Tuas qualidades, aspectos e atividades incomuns, e apesar de Tua personalidade ser confirmada por todas as escrituras reveladas na qualidade da bondade, e apesar de seres reconhecido pelas famosas autoridades, renomadas pela profundidade de seu conhecimento na ciência transcendental e situadas nas qualidades divinas.\"\n\n\n\nPor conseguinte, (1) as pessoas grosseiramente tolas, (2) os mais baixos da humanidade, (3) os especuladores iludidos e (4) os ateus declarados, conforme acima mencionados, jamais se rendem aos pés de lótus da Personalidade de Deus, apesar de todos os conselhos das escrituras e das autoridades."}
{"ref": "bg/7/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/16/", "verse_text": "catur-vidhā bhajante māṁ\n\njanāḥ sukṛtino 'rjuna\n\nārto jijñāsur arthārthī\n\njñānī ca bharatarṣabha", "devanagari": "> चतुर्विधा भजन्ते मां जनाः सुकृतिनोऽर्जुन ।\n> आर्तो जिज्ञासुरर्थार्थी ज्ञानी च भरतर्षभ ॥१६॥", "synonyms": "*catur-vidhāḥ*—quatro tipos de; *bhajante*—prestam serviços; *mām*—a Mim; *janāḥ*—pessoas; *sukṛtinaḥ*—aquelas que são piedosas; *arjuna*—ó Arjuna; *ārtaḥ*—o aflito; *jijñāsuḥ*—o inquisitivo; *artha-arthī*—aquele que deseja ganho material; *jñānī*—aquele que conhece as coisas como elas são; *ca*—também; *bharatarṣabha*—ó grandioso entre os descendentes de Bharata.", "translation": "**Ó melhor entre os Bhāratas [Arjuna], quatro tipos de homens piedosos prestam serviço devocional a Mim — o aflito, aquele que deseja riqueza, o inquisitivo e aquele que busca o conhecimento do Absoluto.**", "purport": "Ao contrário dos malfeitores, estes são adeptos dos princípios reguladores das escrituras, e são chamados *sukṛtinas*, ou seja, aqueles que obedecem às regras e regulações das escrituras, às leis morais e sociais, e são, mais ou menos, devotados ao Senhor Supremo. Dentre estes, há quatro classes de homens — aqueles que por vezes estão aflitos, aqueles que estão necessitados de dinheiro, aqueles que por vezes são inquisitivos, e aqueles que por vezes buscam o conhecimento da Verdade Absoluta. Tais pessoas vêm ao Senhor Supremo para o serviço devocional sob diferentes condições. Não são devotos puros, pois têm alguma aspiração a ser satisfeita em troca do serviço devocional. O serviço devocional puro é desprovido de aspiração e de desejo de lucro material. O *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* assim define a devoção pura:\n\n\n\nanyābhilāṣitāśūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam\n\nānukūlyena kṛṣṇānuśīlanaṁ bhaktir uttamā.\n\n\n\n\"Deve-se prestar serviço amoroso transcendental ao Supremo Senhor Kṛṣṇa de modo favorável e sem desejo de lucro ou ganho material por meio de atividades fruitivas ou de especulação filosófica. Isso se chama serviço devocional puro.\"\n\n\n\nQuando estes quatro tipos de pessoas vêm ao Senhor Supremo para o serviço devocional e são completamente purificadas pela associação com um devoto puro, elas também se tornam devotos puros. Quanto aos malfeitores, para eles o serviço devocional é muito difícil, pois suas vidas são egoístas, irregulares e sem metas espirituais. Mesmo assim, alguns deles, por acaso, ao entrar em contato com um devoto puro, também se tornam devotos puros.\n\n\n\nAqueles que estão sempre ocupados em atividades fruitivas vêm ao Senhor em aflição material e, naquele momento, associam-se com devotos puros e tornam-se, em sua aflição, devotos do Senhor. Aqueles que estão simplesmente frustrados também por vezes vêm associar-se com os devotos puros e ficam inquisitivos para conhecer a respeito de Deus. De modo semelhante, quando os filósofos áridos se frustram em todo campo do conhecimento, por vezes querem aprender sobre Deus, e vêm ao Senhor Supremo para prestar serviço devocional e assim transcender o conhecimento do Brahman impessoal e do Paramātmā localizado, chegando à concepção pessoal da Divindade pela graça do Senhor Supremo ou de Seu devoto puro. Em resumo, quando o aflito, o inquisitivo, os buscadores de conhecimento e aqueles que estão necessitados de dinheiro estão livres de todos os desejos materiais, e quando compreendem plenamente que a remuneração material nada tem a ver com o aprimoramento espiritual, tornam-se devotos puros. Enquanto não se atinge essa etapa purificada, os devotos em serviço transcendental ao Senhor estão maculados pelas atividades fruitivas, e buscam o conhecimento mundano etc. Logo, é preciso transcender tudo isso antes de chegar à etapa do serviço devocional puro."}
{"ref": "bg/7/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/17/", "verse_text": "teṣāṁ jñānī nitya-yukta\n\neka-bhaktir viśiṣyate\n\npriyo hi jñānino 'tyartham\n\nahaṁ sa ca mama priyaḥ", "devanagari": "> तेषां ज्ञानी नित्ययुक्त एकभक्तिर्विशिष्यते ।\n> प्रियो हि ज्ञानिनोऽत्यर्थमहं स च मम प्रियः ॥१७॥", "synonyms": "*teṣām*—dentre eles; *jñānī*—aquele em pleno conhecimento; *nitya-yuktaḥ*—sempre ocupado; *eka*—unicamente; *bhaktiḥ*—serviço devocional; *viśiṣyate*—especialmente; *priyaḥ*—muito querido; *hi*—certamente; *jñāninaḥ*—pessoa em conhecimento; *atyartham*—altamente; *aham*—Eu sou; *saḥ*—ele; *ca*—também; *mama*—Meu; *priyaḥ*—querido.", "translation": "**Dentre estes, o sábio que se acha em pleno conhecimento, em união Comigo por meio do serviço devocional puro, é o melhor. Pois Eu lhe sou muito querido, e ele Me é querido.**", "purport": "Livres de toda contaminação dos desejos materiais, o aflito, o inquisitivo, o destituído de bens e o buscador do conhecimento supremo podem todos tornar-se devotos puros. Mas, dentre eles, aquele que está em conhecimento da Verdade Absoluta e livre de todos os desejos materiais torna-se realmente um devoto puro do Senhor. E, das quatro ordens, o devoto que se acha em pleno conhecimento e, ao mesmo tempo, ocupado em serviço devocional é, segundo o Senhor diz, o melhor. Buscando o conhecimento, a pessoa percebe que seu eu é diferente de seu corpo material, e, mais avançada, chega ao conhecimento do Brahman impessoal e do Paramātmā. Quando a pessoa está plenamente purificada, percebe que sua posição constitucional é ser eternamente serva de Deus. Assim, pela associação com devotos puros, o inquisitivo, o aflito, o que busca melhoria material e o homem em conhecimento todos se tornam puros eles mesmos. Na etapa preparatória, porém, o homem que está em pleno conhecimento do Senhor Supremo e, ao mesmo tempo, executa o serviço devocional é muito querido pelo Senhor. Aquele que se acha situado em puro conhecimento da transcendência da Suprema Personalidade de Deus está tão protegido no serviço devocional, que as contaminações materiais não podem tocá-lo."}
{"ref": "bg/7/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/18/", "verse_text": "udārāḥ sarva evaite\n\njñānī tv ātmaiva me matam\n\nāsthitaḥ sa hi yuktātmā\n\nmām evānuttamāṁ gatim", "devanagari": "> उदाराः सर्व एवैते ज्ञानी त्वात्मैव मे मतम् ।\n> आस्थितः स हि युक्तात्मा मामेवानुत्तमां गतिम् ॥१८॥", "synonyms": "*udārāḥ*—magnânimas; *sarve*—todas; *eva*—certamente; *ete*—estas; *jñānī*—aquele que está em conhecimento; *tu*—mas; *ātmā eva*—tal como Eu próprio; *me*—Minha; *matam*—opinião; *āsthitaḥ*—situado; *saḥ*—ele; *hi*—certamente; *yukta-ātmā*—ocupado em serviço devocional; *mām*—em Mim; *eva*—certamente; *anuttamām*—a meta mais elevada; *gatim*—destino.", "translation": "**Todos esses devotos são, sem dúvida, almas magnânimas, mas aquele que se acha em conhecimento de Mim, considero verdadeiramente que mora em Mim. Ocupando-se em Meu serviço transcendental, ele Me alcança.**", "purport": "Não se deve pensar que os outros devotos, menos completos em conhecimento, não sejam queridos pelo Senhor. O Senhor diz que todos são magnânimos, pois quem quer que venha ao Senhor por qualquer propósito é chamado *mahātmā*, ou grande alma. Os devotos que querem algum benefício do serviço devocional são aceitos pelo Senhor, pois há um intercâmbio de afeição. Por afeição, eles pedem ao Senhor algum benefício material e, quando o obtêm, ficam tão satisfeitos que também avançam no serviço devocional. Mas o devoto em pleno conhecimento é considerado muito querido pelo Senhor, pois seu único propósito é servir o Senhor Supremo com amor e devoção. Tal devoto não pode viver um segundo sem entrar em contato com o Senhor Supremo ou servi-lO. De modo semelhante, o Senhor Supremo é muito afeiçoado a Seu devoto e não pode separar-se dele.\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam* (9.4.57), o Senhor diz:\n\n\n\nahaṁ bhakta-parādhīno hy asvatantra iva dvija\n\nsādhubhir grasta-hṛdayo bhaktair bhakta-jana-priyaḥ\n\n\n\n\"Os devotos estão sempre em Meu coração, e Eu estou sempre no coração dos devotos. O devoto não conhece nada além de Mim, e Eu também não posso esquecer o devoto. Há uma relação muito íntima entre Mim e os devotos puros. Devotos puros em pleno conhecimento jamais perdem o contato espiritual e, por isso, são-Me muito queridos.\""}
{"ref": "bg/7/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/19/", "verse_text": "bahūnāṁ janmanām ante\n\njñānavān māṁ prapadyate\n\nvāsudevaḥ sarvam iti\n\nsa mahātmā su-durlabhaḥ", "devanagari": "> बहूनां जन्मनामन्ते ज्ञानवान्मां प्रपद्यते ।\n> वासुदेवः सर्वमिति स महात्मा सुदुर्लभः ॥१९॥", "synonyms": "*bahūnām*—de muitos; *janmanām*—nascimentos; *ante*—depois; *jñānavān*—aquele que possui conhecimento; *mām*—a Mim; *prapadyate*—rende-se; *vāsudevaḥ*—causa de todas as causas; *sarvam*—tudo; *iti*—assim; *saḥ*—tal; *mahātmā*—grande alma; *sudurlabhaḥ*—muito raro.", "translation": "**Após muitos nascimentos e mortes, aquele que está realmente em conhecimento rende-se a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e tudo o que existe. Tal grande alma é muito rara.**", "purport": "A entidade viva, ao executar o serviço devocional ou os rituais transcendentais após muitíssimos nascimentos, pode realmente situar-se em conhecimento puro transcendental, sabendo que a Suprema Personalidade de Deus é a meta última da realização espiritual. No início da realização espiritual, enquanto tenta abandonar seu apego ao materialismo, há certa inclinação ao impersonalismo, mas, quando se está mais avançado, pode-se compreender que há atividades na vida espiritual e que estas atividades constituem o serviço devocional. Percebendo isso, a pessoa torna-se apegada à Suprema Personalidade de Deus e rende-se a Ele. Nesse momento, pode-se compreender que a misericórdia do Senhor Śrī Kṛṣṇa é tudo, que Ele é a causa de todas as causas e que esta manifestação material não é independente dEle. Percebe que o mundo material é um reflexo pervertido da variedade espiritual e percebe que em tudo há uma relação com o Supremo Senhor Kṛṣṇa. Assim, pensa em tudo em relação a Vāsudeva, ou Śrī Kṛṣṇa. Tal visão universal de Vāsudeva precipita a plena rendição da pessoa ao Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa, como a meta mais elevada. Tais grandes almas rendidas são muito raras.\n\n\n\nEste verso é muito bem explicado no Terceiro Capítulo do *Śvetāśvatara Upaniṣad*: \"Neste corpo há os poderes de falar, de ver, de ouvir, das atividades mentais etc. Mas estes não são importantes se não estiverem relacionados com o Senhor Supremo. E, como Vāsudeva é onipenetrante e tudo é Vāsudeva, o devoto se rende em pleno conhecimento.\" (Cf. *Bhagavad-gītā* 7.17 e 11.40)"}
{"ref": "bg/7/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/20/", "verse_text": "kāmais tais tair hṛta-jñānāḥ\n\nprapadyante 'nya-devatāḥ\n\ntaṁ taṁ niyamam āsthāya\n\nprakṛtyā niyatāḥ svayā", "devanagari": "> कामैस्तैस्तैर्हृतज्ञानाः प्रपद्यन्तेऽन्यदेवताः ।\n> तं तं नियममास्थाय प्रकृत्या नियताः स्वया ॥२०॥", "synonyms": "*kamaiḥ*—pelos desejos; *taiḥ*—por aqueles; *taiḥ*—por aqueles; *hṛta*—distorcido; *jñānāḥ*—conhecimento; *prapadyante*—rendem-se; *anya*—outros; *devatāḥ*—semideuses; *tam*—aquela; *tam*—aquela; *niyamam*—regras; *āsthāya*—seguindo; *prakṛtyā*—pela natureza; *niyatāḥ*—controlados; *svayā*—pela sua própria.", "translation": "**Aqueles cujas mentes estão distorcidas pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e seguem as regras e regulações específicas de adoração, conforme suas próprias naturezas.**", "purport": "Aqueles que estão livres de todas as contaminações materiais rendem-se ao Senhor Supremo e ocupam-se em Seu serviço devocional. Enquanto a contaminação material não for completamente lavada, eles são, por natureza, não devotos. Mas, mesmo aqueles que têm desejos materiais e que recorrem ao Senhor Supremo, não são tão atraídos pela natureza externa; por se aproximarem da meta correta, logo se libertam de toda luxúria material. No *Śrīmad-Bhāgavatam* recomenda-se que, esteja a pessoa livre de todos os desejos materiais, ou cheia de desejos materiais, ou desejosa de liberação da contaminação material, ou seja um devoto puro sem desejo de gratificação material dos sentidos, em todos os casos deve render-se a Vāsudeva e adorá-lO.\n\n\n\nDiz-se no *Bhāgavatam* que as pessoas menos inteligentes que perderam seu sentido espiritual abrigam-se nos semideuses para a satisfação imediata de desejos materiais. Em geral, tais pessoas não vão à Suprema Personalidade de Deus, pois estão em modos particulares da natureza (ignorância e paixão) e, por isso, adoram vários semideuses. Seguindo as regras e regulações de adoração, ficam satisfeitas. Os adoradores dos semideuses são motivados por pequenos desejos e não sabem como alcançar a meta suprema, mas o devoto do Senhor Supremo não é desorientado. Como na literatura Védica há recomendações para adorar diferentes deuses para diferentes propósitos (por exemplo, recomenda-se que um homem doente adore o sol), aqueles que não são devotos do Senhor pensam que, para certos propósitos, os semideuses são melhores do que o Senhor Supremo. Mas o devoto puro sabe que o Supremo Senhor Kṛṣṇa é o senhor de todos. No *Caitanya-caritāmṛta* afirma-se que apenas a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é senhor, e todos os demais são servos. Por conseguinte, o devoto puro jamais vai aos semideuses para a satisfação de suas necessidades materiais. Depende do Senhor Supremo. E o devoto puro fica satisfeito com o que quer que Ele lhe dê."}
{"ref": "bg/7/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/21/", "verse_text": "yo yo yāṁ yāṁ tanuṁ bhaktaḥ\n\nśraddhayārcitum icchati\n\ntasya tasyācalāṁ śraddhāṁ\n\ntām eva vidadhāmy aham", "devanagari": "> यो यो यां यां तनुं भक्तः श्रद्धयार्चितुमिच्छति ।\n> तस्य तस्याचलां श्रद्धां तामेव विदधाम्यहम् ॥२१॥", "synonyms": "*yaḥ*—aquele; *yaḥ*—aquele; *yām*—qual; *yām*—qual; *tanum*—forma dos semideuses; *bhaktaḥ*—devoto; *śraddhayā*—com fé; *arcitum*—adorar; *icchati*—deseja; *tasya*—desse; *tasya*—desse; *acalām*—firme; *śraddhām*—fé; *tam*—a ele; *eva*—certamente; *vidadhāmi*—dou; *aham*—Eu.", "translation": "**Estou no coração de todos como a Superalma. Assim que alguém deseja adorar os semideuses, torno firme sua fé para que possa devotar-se a alguma deidade em particular.**", "purport": "Deus deu independência a todos; portanto, se uma pessoa deseja ter desfrute material e quer muito sinceramente obter tais facilidades dos semideuses materiais, o Senhor Supremo, como Superalma no coração de todos, compreende e concede facilidades a tais pessoas. Como pai supremo de todas as entidades vivas, Ele não interfere em sua independência, mas concede todas as facilidades para que possam realizar seus desejos materiais. Alguns talvez perguntem por que Deus, sendo todo-poderoso, dá facilidades às entidades vivas para desfrutar deste mundo material e, assim, deixa-as cair na armadilha da energia ilusória. A resposta é que, se o Senhor Supremo, como Superalma, não desse tais facilidades, então não haveria sentido em haver independência. Por isso, Ele concede a todos plena independência — o que cada um quiser —, mas Sua instrução última encontramos no *Bhagavad-gītā*: o homem deve abandonar todas as outras ocupações e render-se plenamente a Ele. Isso fará o homem feliz.\n\n\n\nTanto a entidade viva quanto os semideuses estão subordinados à vontade da Suprema Personalidade de Deus; logo, a entidade viva não pode adorar o semideus por seu próprio desejo, nem pode o semideus conceder qualquer bênção sem a vontade suprema. Como se diz, nem uma folha de relva se move sem a vontade da Suprema Personalidade de Deus. Em geral, as pessoas que se acham aflitas no mundo material vão aos semideuses, conforme se aconselha na literatura Védica. Quem queira algo em particular pode adorar este ou aquele semideus. Por exemplo, recomenda-se que a pessoa enferma adore o deus do sol; quem queira instrução pode adorar a deusa da erudição, Sarasvatī; e aquele que queira uma esposa bela pode adorar a deusa Umā, esposa do Senhor Śiva. Dessa maneira, há recomendações nos *śāstras* (escrituras Védicas) para diferentes modos de adoração de diferentes semideuses. E, como determinada entidade viva quer desfrutar de certa facilidade material, o Senhor inspira-lhe um forte desejo de obter aquela bênção daquele semideus em particular, e, assim, ela recebe a bênção com êxito. O modo particular da atitude devocional da entidade viva para com determinado tipo de semideus também é arranjado pelo Senhor Supremo. Os semideuses não podem infundir nas entidades vivas tal afinidade, mas, por ser Ele o Senhor Supremo ou a Superalma presente no coração de todas as entidades vivas, Kṛṣṇa dá ao homem o impulso para adorar certos semideuses. Os semideuses são, na verdade, partes diferentes do corpo universal do Senhor Supremo; logo, não têm independência. Na literatura Védica (*Taittirīya Upaniṣad*, Primeiro Anuvāka), afirma-se: \"A Suprema Personalidade de Deus, como Superalma, está também presente no coração do semideus; por isso, Ele providencia, por meio do semideus, a satisfação do desejo da entidade viva. Mas tanto o semideus quanto a entidade viva dependem da vontade suprema. Não são independentes.\""}
{"ref": "bg/7/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/22/", "verse_text": "sa tayā śraddhayā yuktas\n\ntasyārādhanam īhate\n\nlabhate ca tataḥ kāmān\n\nmayaiva vihitān hi tān", "devanagari": "> स तया श्रद्धया युक्तस्तस्याराधनमीहते ।\n> लभते च ततः कामान्मयैव विहितान्हि तान् ॥२२॥", "synonyms": "*saḥ*—ele; *tayā*—com aquela; *śraddhayā*—com fé; *yuktaḥ*—dotado; *tasya*—sua; *ārādhanam*—adoração; *īhate*—busca; *labhate*—obtém; *ca*—e; *tataḥ*—do qual; *kāmān*—desejos; *mayā*—por Mim; *eva*—unicamente; *vihitān*—regulados; *hi*—pois; *tān*—aqueles.", "translation": "**Dotado de tal fé, ele busca os favores de determinado semideus e obtém o que deseja. Mas, na realidade, esses benefícios são concedidos somente por Mim.**", "purport": "Os semideuses não podem outorgar bênçãos aos devotos sem a permissão do Senhor Supremo. A entidade viva pode esquecer-se de que tudo é propriedade do Senhor Supremo, mas os semideuses não se esquecem. Assim, a adoração aos semideuses e a obtenção dos resultados desejados não se devem aos semideuses, mas à Suprema Personalidade de Deus, por arranjo Seu. A entidade viva menos inteligente desconhece isso e, por isso, tolamente vai aos semideuses em busca de algum benefício. Mas o devoto puro, quando precisa de algo, ora apenas ao Senhor Supremo. Pedir benefício material, contudo, não é sinal de devoto puro. Em geral, a entidade viva vai aos semideuses porque está louca para satisfazer sua luxúria. Isso ocorre quando a entidade viva deseja algo indevido, e o próprio Senhor não satisfaz o desejo. No *Caitanya-caritāmṛta* afirma-se que aquele que adora o Senhor Supremo e ao mesmo tempo deseja desfrute material é contraditório em seus desejos. O serviço devocional ao Senhor Supremo e a adoração a um semideus não podem estar no mesmo plano, pois a adoração a um semideus é material, e o serviço devocional ao Senhor Supremo é completamente espiritual.\n\n\n\nPara a entidade viva que deseja voltar à Divindade, os desejos materiais são impedimentos. Por isso, ao devoto puro do Senhor não se concedem os benefícios materiais desejados pelas entidades vivas menos inteligentes que preferem adorar os semideuses do mundo material a ocupar-se no serviço devocional ao Senhor Supremo."}
{"ref": "bg/7/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/23/", "verse_text": "antavat tu phalaṁ teṣāṁ\n\ntad bhavaty alpa-medhasām\n\ndevān deva-yajo yānti\n\nmad-bhaktā yānti mām api", "devanagari": "> अन्तवत्तु फलं तेषां तद्भवत्यल्पमेधसाम् ।\n> देवान्देवयजो यान्ति मद्भक्ता यान्ति मामपि ॥२३॥", "synonyms": "*antavat tu*—limitado e temporário; *phalam*—frutos; *teṣām*—seus; *tat*—aquele; *bhavati*—torna-se; *alpa-medhasām*—dos pouco inteligentes; *devān*—planetas dos semideuses; *deva-yajaḥ*—adoradores dos semideuses; *yānti*—alcançam; *mat*—Meus; *bhaktāḥ*—devotos; *yānti*—alcançam; *mām*—a Mim; *api*—certamente.", "translation": "**Os homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão aos planetas dos semideuses, mas Meus devotos finalmente alcançam Meu planeta supremo.**", "purport": "Alguns comentadores do *Gītā* dizem que aquele que adora um semideus pode alcançar o Senhor Supremo, mas aqui se afirma claramente que os adoradores dos semideuses vão aos diferentes sistemas planetários onde se encontram os vários semideuses, assim como o adorador do sol alcança o sol, ou o adorador do semideus da lua alcança a lua. De modo semelhante, se alguém quer adorar um semideus como Indra, pode alcançar o planeta daquele deus em particular. Não é que todos, independentemente de qual semideus seja adorado, alcançarão a Suprema Personalidade de Deus. Isso é negado aqui, pois se afirma claramente que os adoradores dos semideuses vão a diferentes planetas no mundo material, mas o devoto do Senhor Supremo vai diretamente ao planeta supremo da Personalidade de Deus.\n\n\n\nAqui se pode levantar a objeção: se os semideuses são partes diferentes do corpo do Senhor Supremo, então o mesmo fim deveria ser alcançado adorando-os. Contudo, os adoradores dos semideuses são pouco inteligentes, pois não sabem a que parte do corpo deve ser fornecido o alimento. Alguns deles são tão tolos, que afirmam haver muitas partes e muitas maneiras de fornecer alimento. Isso não é muito sensato. Pode alguém fornecer alimento ao corpo pelos ouvidos ou pelos olhos? Não sabem que esses semideuses são diferentes partes do corpo universal do Senhor Supremo, e, em sua ignorância, acreditam que cada semideus é um Deus separado e um competidor do Senhor Supremo.\n\n\n\nNão somente os semideuses são partes do Senhor Supremo, mas também as entidades vivas comuns o são. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que os *brāhmaṇas* são a cabeça do Senhor Supremo, os *kṣatriyas* são os braços etc., e que todos cumprem diferentes funções. Independentemente da situação, se a pessoa sabe que tanto os semideuses quanto ela mesma são partes integrantes do Senhor Supremo, seu conhecimento é perfeito. Mas, se não compreende isso, alcança diferentes planetas onde residem os semideuses. Esse não é o mesmo destino que alcança o devoto.\n\n\n\nOs resultados alcançados pelas bênçãos dos semideuses são perecíveis, pois, dentro deste mundo material, os planetas, os semideuses e seus adoradores são todos perecíveis. Por isso se afirma claramente neste verso que todos os resultados alcançados pela adoração aos semideuses são perecíveis, e, dessa maneira, tal adoração é praticada pela entidade viva pouco inteligente. Como o devoto puro ocupado em consciência de Kṛṣṇa, no serviço devocional ao Senhor Supremo, alcança a existência eterna e bem-aventurada cheia de conhecimento, suas conquistas e as do adorador comum dos semideuses são diferentes. O Senhor Supremo é ilimitado; Seu favor é ilimitado; Sua misericórdia é ilimitada. Logo, a misericórdia do Senhor Supremo para com Seus devotos puros é ilimitada."}
{"ref": "bg/7/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/24/", "verse_text": "avyaktaṁ vyaktim āpannaṁ\n\nmanyante mām abuddhayaḥ\n\nparaṁ bhāvam ajānanto\n\nmamāvyayam anuttamam", "devanagari": "> अव्यक्तं व्यक्तिमापन्नं मन्यन्ते मामबुद्धयः ।\n> परं भावमजानन्तो ममाव्ययमनुत्तमम् ॥२४॥", "synonyms": "*avyaktam*—não manifesto; *vyaktim*—personalidade; *āpannam*—assumida; *manyante*—pensam; *mām*—de Mim; *abuddhayaḥ*—pessoas pouco inteligentes; *param*—suprema; *bhāvam*—estado de ser; *ajānantaḥ*—desconhecendo; *mama*—Minha; *avyayam*—imperecível; *anuttamam*—a mais excelente.", "translation": "**Os homens não inteligentes, que não Me conhecem, pensam que assumi esta forma e personalidade. Por seu pouco conhecimento, não conhecem Minha natureza superior, que é imutável e suprema.**", "purport": "Os adoradores dos semideuses foram descritos como pessoas pouco inteligentes, e aqui os impersonalistas são descritos de modo semelhante. O Senhor Kṛṣṇa, em Sua forma pessoal, está aqui falando diante de Arjuna, e, ainda assim, por ignorância, os impersonalistas argumentam que o Senhor Supremo, em última análise, não tem forma. Yāmunācārya, grande devoto do Senhor na sucessão discipular vinda de Rāmānujācārya, escreveu dois versos muitíssimo apropriados a este respeito. Diz ele: \"Meu querido Senhor, devotos como Vyāsadeva e Nārada sabem que és a Personalidade de Deus. Compreendendo as diferentes literaturas Védicas, pode-se conhecer Tuas características, Tua forma e Tuas atividades, e, dessa maneira, pode-se entender que és a Suprema Personalidade de Deus. Mas aqueles que estão nos modos da paixão e da ignorância, os demônios, os não devotos, não podem compreender-Te. São incapazes de entender-Te. Por mais hábeis que tais não devotos possam ser em discutir o Vedānta, os *Upaniṣads* e outras literaturas Védicas, não lhes é possível compreender a Personalidade de Deus.\"\n\n\n\nNa *Brahma-saṁhitā* afirma-se que a Personalidade de Deus não pode ser compreendida simplesmente pelo estudo da literatura Vedānta. Apenas pela misericórdia do Senhor Supremo pode-se conhecer a Personalidade do Supremo. Por isso, neste verso afirma-se claramente que não somente os adoradores dos semideuses são pouco inteligentes, mas também aqueles não devotos ocupados no Vedānta e na especulação sobre a literatura Védica, sem qualquer toque de verdadeira consciência de Kṛṣṇa, são igualmente pouco inteligentes; para eles, não é possível compreender a natureza pessoal de Deus. As pessoas que têm a impressão de que a Verdade Absoluta é impessoal são descritas como *asuras*, ou seja, aqueles que não conhecem o aspecto último da Verdade Absoluta. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que a compreensão suprema começa do Brahman impessoal e depois se eleva à Superalma localizada — mas a última palavra na Verdade Absoluta é a Personalidade de Deus. Os impersonalistas modernos são ainda menos inteligentes, pois sequer seguem seu grande predecessor, Śaṅkarācārya, que declarou especificamente que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Os impersonalistas, por isso, sem conhecer a Verdade Suprema, pensam que Kṛṣṇa é apenas o filho de Devakī e Vasudeva, ou um príncipe, ou uma poderosa entidade viva. Isso também é condenado no *Bhagavad-gītā*: \"Apenas os tolos consideram-Me uma pessoa comum.\" O fato é que ninguém pode compreender Kṛṣṇa sem prestar serviço devocional e sem desenvolver a consciência de Kṛṣṇa. O *Gītā* o confirma.\n\n\n\nNão se pode compreender a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, ou Sua forma, qualidade ou nome, simplesmente por especulação mental ou por discutir a literatura Védica. É preciso compreendê-lO pelo serviço devocional. Quando a pessoa está plenamente ocupada em consciência de Kṛṣṇa, começando pelo cantar do *mahā-mantra* — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare —, somente então pode compreender a Suprema Personalidade de Deus. Os impersonalistas não devotos pensam que Kṛṣṇa tem um corpo feito desta natureza material e que todas as Suas atividades, Sua forma e tudo o mais são *māyā*. Esses impersonalistas são conhecidos como Māyāvādīs. Não conhecem a verdade última.\n\n\n\nO vigésimo verso afirma claramente: \"Aqueles que estão cegos por desejos luxuriosos rendem-se aos diversos semideuses.\" Aceita-se que, além da Suprema Personalidade de Deus, há semideuses que possuem seus diferentes planetas (Bg. 7.23), e o Senhor também possui um planeta. Afirma-se também que os adoradores dos semideuses vão aos diferentes planetas dos semideuses, e que aqueles que são devotos do Senhor Kṛṣṇa vão ao planeta Kṛṣṇaloka. Embora isso esteja claramente afirmado, os tolos impersonalistas ainda sustentam que o Senhor é destituído de forma e que essas formas são imposições. Do estudo do *Gītā*, parece que os semideuses e suas moradas sejam impessoais? Claramente, nem os semideuses nem *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, são impessoais. Todos são pessoas; o Senhor Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e Ele tem Seu próprio planeta, e os semideuses têm os seus.\n\n\n\nPor conseguinte, a alegação monista de que a verdade última é destituída de forma e que a forma é imposta não se sustenta. Aqui se afirma claramente que ela não é imposta. Do *Gītā* podemos compreender claramente que as formas dos semideuses e a forma do Senhor Supremo coexistem simultaneamente e que o Senhor Kṛṣṇa é *sac-cid-ānanda*, conhecimento e bem-aventurança eternos. Os *Vedas* também confirmam que a Suprema Verdade Absoluta é *ānandamaya*, ou plena de prazer bem-aventurado, e que Ele é *abhyāsāt*, por natureza o reservatório de ilimitadas qualidades auspiciosas. E, no *Gītā*, o Senhor diz que, embora seja *aja* (não nascido), ainda assim aparece. Estes são os fatos que devemos compreender do *Gītā*. Não podemos compreender como a Suprema Personalidade de Deus possa ser impessoal; a teoria da imposição do monista impersonalista é falsa no que tange às afirmações do *Gītā*. Aqui fica claro que a Suprema Verdade Absoluta, o Senhor Kṛṣṇa, possui tanto forma quanto personalidade."}
{"ref": "bg/7/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/25/", "verse_text": "nāhaṁ prakāśaḥ sarvasya\n\nyoga-māyā-samāvṛtaḥ\n\nmūḍho 'yaṁ nābhijānāti\n\nloko mām ajam avyayam", "devanagari": "> नाहं प्रकाशः सर्वस्य योगमायासमावृतः ।\n> मूढोऽयं नाभिजानाति लोको मामजमव्ययम् ॥२५॥", "synonyms": "*na*—nem; *aham*—Eu; *prakāśaḥ*—manifesto; *sarvasya*—a todos; *yoga-māyā*—potência interna; *samāvṛtaḥ*—coberto; *mūḍhaḥ*—tolo; *ayam*—este; *na*—não; *abhijānāti*—pode compreender; *lokaḥ*—essas pessoas pouco inteligentes; *mām*—a Mim; *ajam*—não nascido; *avyayam*—inesgotável.", "translation": "**Nunca Me manifesto aos tolos e não inteligentes. Para eles estou coberto por Minha eterna potência criativa [*yoga-māyā*]; e por isso o mundo iludido não Me conhece, a Mim, que sou não nascido e infalível.**", "purport": "Pode-se argumentar que, uma vez que Kṛṣṇa esteve presente nesta terra e era visível a todos, então por que agora não Se manifesta a todos? Mas, na verdade, Ele não estava manifesto a todos. Quando Kṛṣṇa esteve presente, havia apenas algumas pessoas que podiam compreender que Ele era a Suprema Personalidade de Deus. Na assembleia dos Kurus, quando Śiśupāla falou contra a eleição de Kṛṣṇa para presidir a assembleia, Bhīṣma O apoiou e proclamou-O como o Deus Supremo. De modo semelhante, os Pāṇḍavas e alguns outros sabiam que Ele era o Supremo, mas nem todos. Ele não Se revelava aos não devotos nem ao homem comum. Por isso, no *Gītā*, Kṛṣṇa diz que, com exceção de Seus devotos puros, todos os homens O consideram igual a si mesmos. Ele Se manifestava apenas a Seus devotos como o reservatório de todo prazer. Mas, para os outros, para os não devotos não inteligentes, Ele estava coberto por Sua potência eterna.\n\n\n\nNas orações de Kuntī, no *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.8.18), diz-se que o Senhor está coberto pela cortina da *yoga-māyā*, e por isso as pessoas comuns não podem compreendê-lO. Kuntī ora: \"Ó meu Senhor, Tu és o mantenedor de todo o universo, e o serviço devocional a Ti é o mais elevado princípio religioso. Por isso, peço que também me mantenhas. Tua forma transcendental está coberta pela *yoga-māyā*. O brahmajyoti é a cobertura da potência interna. Que tenhas a bondade de remover essa refulgência resplandecente, que impede que eu veja Tua *sac-cid-ānanda-vigraha*, Tua forma eterna de bem-aventurança e conhecimento.\"\n\n\n\nEsta cortina da *yoga-māyā* também é mencionada no Décimo Quinto Capítulo do *Gītā*. A Suprema Personalidade de Deus, em Sua forma transcendental de bem-aventurança e conhecimento, está coberta pela potência eterna do brahmajyoti, e os impersonalistas pouco inteligentes não conseguem ver o Supremo por essa razão. Também no *Śrīmad-Bhāgavatam* (10.14.7) há esta oração de Brahmā: \"Ó Suprema Personalidade de Deus, ó Superalma, ó senhor de todo mistério, quem pode calcular Tua potência e Teus passatempos neste mundo? Estás sempre expandindo Tua potência eterna, e por isso ninguém pode compreender-Te. Cientistas eruditos e estudiosos eruditos podem examinar a constituição atômica do mundo material, ou mesmo dos planetas, mas, ainda assim, não conseguem calcular Tua energia e Tua potência, embora estejas presente diante deles.\" A Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Kṛṣṇa, não somente é não nascido como também é *avyaya*, inesgotável. Sua forma eterna é bem-aventurança e conhecimento, e Suas energias são todas inesgotáveis."}
{"ref": "bg/7/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/26/", "verse_text": "vedāhaṁ samatītāni\n\nvartamānāni cārjuna\n\nbhaviṣyāṇi ca bhūtāni\n\nmāṁ tu veda na kaścana", "devanagari": "> वेदाहं समतीतानि वर्तमानानि चार्जुन ।\n> भविष्याणि च भूतानि मां तु वेद न कश्चन ॥२६॥", "synonyms": "*veda*—conheço; *aham*—Eu; *sama*—igualmente; *atītāni*—passado; *vartamānāni*—presente; *ca*—e; *arjuna*—ó Arjuna; *bhaviṣyāṇi*—futuro; *ca*—também; *bhūtāni*—entidades vivas; *mām*—a Mim; *tu*—mas; *veda*—conhece; *na*—não; *kaścana*—ninguém.", "translation": "**Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, conheço tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está acontecendo no presente e tudo o que ainda está por vir. Conheço também todas as entidades vivas; mas a Mim ninguém conhece.**", "purport": "Aqui se expõe claramente a questão da personalidade e da impessoalidade. Se Kṛṣṇa, a forma da Suprema Personalidade de Deus, fosse considerado pelos impersonalistas como *māyā*, como material, então Ele, à semelhança da entidade viva, mudaria Seu corpo e esqueceria tudo de Sua vida passada. Quem possui um corpo material não pode lembrar-se de sua vida passada, nem pode prever sua vida futura, nem pode predizer o desfecho de sua vida presente; logo, não pode saber o que está acontecendo no passado, no presente e no futuro. A menos que se esteja liberado da contaminação material, não se pode conhecer o passado, o presente e o futuro.\n\n\n\nDiferentemente do ser humano comum, o Senhor Kṛṣṇa diz claramente que conhece completamente o que aconteceu no passado, o que está acontecendo no presente e o que acontecerá no futuro. No Quarto Capítulo, vimos que o Senhor Kṛṣṇa lembra-Se de ter instruído Vivasvān, o deus do sol, há milhões de anos. Kṛṣṇa conhece toda entidade viva porque está situado no coração de todo ser vivo como a Alma Suprema. Mas, apesar de Sua presença em toda entidade viva como Superalma e de Sua presença além do céu material, como a Suprema Personalidade de Deus, os pouco inteligentes não conseguem percebê-lO como a Pessoa Suprema. Certamente o corpo transcendental de Śrī Kṛṣṇa não é perecível. Ele é como o sol, e *māyā* é como a nuvem. No mundo material podemos ver que há o sol e que há nuvens, e diferentes estrelas e planetas. As nuvens podem cobrir tudo isso no céu temporariamente, mas essa cobertura é apenas aparente para nossa visão limitada. O sol, a lua e as estrelas não estão de fato cobertos. De modo semelhante, *māyā* não pode cobrir o Senhor Supremo. Por Sua potência interna, Ele não Se manifesta à classe de homens menos inteligentes. Como se afirma no terceiro verso deste capítulo, dentre milhões e milhões de homens, alguns tentam tornar-se perfeitos nesta forma humana de vida, e dentre milhares e milhares de tais homens aperfeiçoados, dificilmente um pode compreender quem é o Senhor Kṛṣṇa. Mesmo que alguém seja aperfeiçoado pela compreensão do Brahman impessoal ou do Paramātmā localizado, não pode, de modo algum, compreender a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, sem estar em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/7/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/27/", "verse_text": "icchā-dveṣa-samutthena\n\ndvandva-mohena bhārata\n\nsarva-bhūtāni sammohaṁ\n\nsarge yānti parantapa", "devanagari": "> इच्छाद्वेषसमुत्थेन द्वन्द्वमोहेन भारत ।\n> सर्वभूतानि सम्मोहं सर्गे यान्ति परन्तप ॥२७॥", "synonyms": "*icchā*—desejo; *dveṣa*—ódio; *samutthena*—nascido; *dvandva*—dualidade; *mohena*—vencido; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *sarva*—todas; *bhūtāni*—entidades vivas; *sammoham*—na ilusão; *sarge*—na criação; *yānti*—vão; *parantapa*—ó conquistador dos inimigos.", "translation": "**Ó descendente de Bharata [Arjuna], ó conquistador do inimigo, todas as entidades vivas nascem na ilusão, vencidas pelas dualidades do desejo e do ódio.**", "purport": "A verdadeira posição constitucional da entidade viva é a de subordinação ao Senhor Supremo, que é conhecimento puro. Quando ela se ilude, separando-se desse conhecimento puro, fica controlada pela energia ilusória e não consegue compreender a Suprema Personalidade de Deus. A energia ilusória se manifesta na dualidade do desejo e do ódio. Devido ao desejo e ao ódio, a pessoa ignorante deseja tornar-se una com o Senhor Supremo e inveja Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Os devotos puros, que não são tão iludidos nem contaminados pelo desejo e pelo ódio, podem compreender que o Senhor Śrī Kṛṣṇa Se manifesta por Suas potências internas, mas aqueles que estão iludidos pela dualidade e pela nesciência pensam que a Suprema Personalidade de Deus é criada pelas energias materiais. Esta é sua desventura. Tais pessoas iludidas, sintomaticamente, vivem em dualidades de desonra e honra, miséria e felicidade, mulher e homem, bom e mau, prazer e dor etc., pensando: \"Esta é minha esposa; esta é minha casa; sou o senhor desta casa; sou o marido desta esposa.\" Estas são as dualidades da ilusão. Aqueles que se acham assim iludidos pelas dualidades são completamente tolos e, por isso, não podem compreender a Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/7/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/28/", "verse_text": "yeṣāṁ tv anta-gataṁ pāpaṁ\n\njanānāṁ puṇya-karmaṇām\n\nte dvandva-moha-nirmuktā\n\nbhajante māṁ dṛḍha-vratāḥ", "devanagari": "> येषां त्वन्तगतं पापं जनानां पुण्यकर्मणाम् ।\n> ते द्वन्द्वमोहनिर्मुक्ता भजन्ते मां दृढव्रताः ॥२८॥", "synonyms": "*yeṣām*—cujos; *tu*—mas; *anta-gatam*—completamente erradicados; *pāpam*—pecado; *janānām*—das pessoas; *puṇya*—piedosas; *karmaṇām*—atividades anteriores; *te*—elas; *dvandva*—dualidade; *moha*—ilusão; *nirmuktāḥ*—livres da; *bhajante*—adoram; *mām*—a Mim; *dṛḍha-vratāḥ*—com determinação.", "translation": "**As pessoas que agiram piedosamente em vidas passadas e nesta vida, cujas ações pecaminosas estão completamente erradicadas e que se libertaram da dualidade da ilusão, ocupam-se em Meu serviço com determinação.**", "purport": "Aqueles que são elegíveis à elevação à posição transcendental são mencionados neste verso. Para os que são pecaminosos, ateístas, tolos e enganadores, é muito difícil transcender a dualidade do desejo e do ódio. Apenas aqueles que passaram a vida praticando os princípios reguladores da religião, que agiram piedosamente e venceram as reações pecaminosas, podem aceitar o serviço devocional e gradualmente elevar-se ao puro conhecimento da Suprema Personalidade de Deus. Depois, gradualmente, podem meditar em transe na Suprema Personalidade de Deus. Esse é o processo de situar-se no plano espiritual. Tal elevação é possível em consciência de Kṛṣṇa, na associação dos devotos puros, que podem livrar a pessoa da ilusão.\n\n\n\nAfirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam* que, se alguém realmente quer libertar-se, deve prestar serviço aos devotos; mas aquele que se associa com pessoas materialistas está na senda que conduz à mais escura região da existência. Todos os devotos do Senhor percorrem esta terra apenas para resgatar as almas condicionadas de sua ilusão. Os impersonalistas não sabem que esquecer sua posição constitucional como subordinados ao Senhor Supremo é a maior violação da lei de Deus. A menos que a pessoa seja reconduzida a sua própria posição constitucional, não é possível compreender a Personalidade Suprema, nem ocupar-se plenamente em Seu serviço amoroso transcendental com determinação."}
{"ref": "bg/7/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/29/", "verse_text": "jarā-maraṇa-mokṣāya\n\nmām āśritya yatanti ye\n\nte brahma tad viduḥ kṛtsnam\n\nadhyātmaṁ karma cākhilam", "devanagari": "> जरामरणमोक्षाय मामाश्रित्य यतन्ति ये ।\n> ते ब्रह्म तद्विदुः कृत्स्नमध्यात्मं कर्म चाखिलम् ॥२९॥", "synonyms": "*jarā*—velhice; *maraṇa*—morte; *mokṣāya*—com o propósito de liberação; *mām*—em Mim; *āśritya*—abrigando-se; *yatanti*—esforçam-se; *ye*—todos esses; *te*—tais pessoas; *brahma*—Brahman; *tat*—de fato isso; *viduḥ*—elas conhecem; *kṛtsnam*—tudo; *adhyātmam*—transcendental; *karma*—atividades fruitivas; *ca*—também; *akhilam*—inteiramente.", "translation": "**As pessoas inteligentes que se esforçam pela liberação da velhice e da morte refugiam-se em Mim no serviço devocional. São, na verdade, Brahman, pois conhecem inteiramente tudo a respeito das atividades transcendentais e fruitivas.**", "purport": "O nascimento, a morte, a velhice e as doenças afetam este corpo material, mas não o corpo espiritual. Não há nascimento, morte, velhice nem doença para o corpo espiritual; logo, aquele que alcança um corpo espiritual, torna-se um dos companheiros eternos da Suprema Personalidade de Deus e ocupa-se em eterno serviço devocional, está realmente liberado. *Ahaṁ brahmāsmi*: eu sou espírito. Diz-se que se deve compreender que se é Brahman, alma espiritual. Esta concepção brahmânica da vida está também no serviço devocional, conforme se descreve neste verso. Os devotos puros estão transcendentalmente situados no plano Brahman, e conhecem tudo a respeito das atividades transcendentais e materiais.\n\n\n\nOs quatro tipos de devotos impuros que se ocupam no serviço transcendental do Senhor alcançam suas respectivas metas, e, pela graça do Senhor Supremo, quando estão plenamente conscientes de Kṛṣṇa, desfrutam realmente da associação espiritual com o Senhor Supremo. Mas aqueles que são adoradores dos semideuses jamais chegam ao Senhor Supremo em Seu planeta supremo. Mesmo as pessoas pouco inteligentes que perceberam o Brahman não podem alcançar o planeta supremo de Kṛṣṇa, conhecido como Goloka Vṛndāvana. Apenas as pessoas que executam atividades em consciência de Kṛṣṇa (*mām āśritya*) têm direito de ser chamadas Brahman, pois realmente se esforçam por alcançar o planeta de Kṛṣṇa. Tais pessoas não têm dúvidas a respeito de Kṛṣṇa, e por isso são, de fato, Brahman.\n\n\n\nAqueles que se ocupam em adorar a forma, ou *arcā*, do Senhor, ou que se ocupam em meditar no Senhor simplesmente para a libertação do cativeiro material, também conhecem, pela graça do Senhor, os significados de Brahman, *adhibhūta* etc., conforme explicados pelo Senhor no próximo capítulo."}
{"ref": "bg/7/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/7/30/", "verse_text": "sādhibhūtādhidaivaṁ māṁ\n\nsādhiyajñaṁ ca ye viduḥ\n\nprayāṇa-kāle 'pi ca māṁ\n\nte vidur yukta-cetasaḥ", "devanagari": "> साधिभूताधिदैवं मां साधियज्ञं च ये विदुः ।\n> प्रयाणकालेऽपि च मां ते विदुर्युक्तचेतसः ॥३०॥", "synonyms": "*sa-adhibhūta*—o princípio governante da manifestação material; *adhidaivam*—subjacente a todos os semideuses; *mām*—a Mim; *sa-adhiyajñam*—sustentando todos os sacrifícios; *ca*—e; *ye*—aqueles que; *viduḥ*—conhecem; *prayāṇa*—da morte; *kāle*—no momento; *api*—mesmo; *ca*—e; *mām*—a Mim; *te*—eles; *viduḥ*—conhecem; *yukta-cetasaḥ*—com mente firme.", "translation": "**Aqueles que Me conhecem como o Senhor Supremo, como o princípio governante da manifestação material, que Me conhecem como aquele que está subjacente a todos os semideuses e como aquele que sustenta todos os sacrifícios, podem, com mente firme, compreender e conhecer-Me mesmo no momento da morte.**", "purport": "As pessoas que agem em consciência de Kṛṣṇa jamais se desviam inteiramente da senda da compreensão da Suprema Personalidade de Deus. Na transcendental associação da consciência de Kṛṣṇa, pode-se compreender como o Senhor Supremo é o princípio governante da manifestação material e até mesmo dos semideuses. Gradualmente, por tal associação transcendental, a pessoa convence-se da própria Suprema Personalidade de Deus, e, no momento da morte, tal pessoa consciente de Kṛṣṇa jamais pode esquecer-se de Kṛṣṇa. Naturalmente, dessa maneira, é promovida ao planeta do Senhor Supremo, Goloka Vṛndāvana.\n\n\n\nEste Sétimo Capítulo explica em particular como uma pessoa pode tornar-se plenamente consciente de Kṛṣṇa. O início da consciência de Kṛṣṇa é a associação com pessoas conscientes de Kṛṣṇa. Tal associação é espiritual e põe a pessoa diretamente em contato com o Senhor Supremo, e, por Sua graça, pode-se compreender que Kṛṣṇa é o Deus Supremo. Ao mesmo tempo, pode-se compreender realmente a posição constitucional da entidade viva e como a entidade viva esquece Kṛṣṇa e enreda-se em atividades materiais. Pelo desenvolvimento gradual da consciência de Kṛṣṇa em boa associação, a entidade viva pode compreender que, devido ao esquecimento de Kṛṣṇa, tornou-se condicionada pelas leis da natureza material. Pode também compreender que esta forma humana de vida é uma oportunidade para reconquistar a consciência de Kṛṣṇa e que deve ser plenamente utilizada para alcançar a misericórdia imotivada do Senhor Supremo.\n\n\n\nMuitos assuntos foram discutidos neste capítulo: o homem em aflição, o homem inquisitivo, o homem necessitado das necessidades materiais, o conhecimento do Brahman, o conhecimento do Paramātmā, a liberação do nascimento, da morte e das doenças, e a adoração ao Senhor Supremo. Todavia, aquele que está realmente elevado em consciência de Kṛṣṇa não se preocupa com os diferentes processos. Ocupa-se simplesmente, de modo direto, em atividades de consciência de Kṛṣṇa e, dessa maneira, alcança de fato sua posição constitucional como eterno servo do Senhor Kṛṣṇa. Em tal situação, sente prazer em ouvir e glorificar o Senhor Supremo no serviço devocional puro. Está convencido de que, agindo assim, todos os seus objetivos serão satisfeitos. Esta fé determinada chama-se *dṛḍha-vrata*, e é o início do *bhakti-yoga*, ou serviço amoroso transcendental. Esse é o veredito de todas as escrituras. Este Sétimo Capítulo do *Gītā* é a essência dessa convicção.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Sétimo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* a respeito do Conhecimento do Absoluto."}
{"ref": "bg/8/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nkiṁ tad brahma kim adhyātmaṁ\n\nkiṁ karma puruṣottama\n\nadhibhūtaṁ ca kiṁ proktam\n\nadhidaivaṁ kim ucyate", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> किं तद् ब्रह्म किमध्यात्मं किं कर्म पुरुषोत्तम ।\n> अधिभूतं च किं प्रोक्तमधिदैवं किमुच्यते ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *kim*—o que; *tat*—esse; *brahma*—Brahman; *kim*—o que; *adhyātmam*—o eu; *kim*—o que; *karma*—atividades fruitivas; *puruṣottama*—ó Pessoa Suprema; *adhibhūtam*—a manifestação material; *ca*—e; *kim*—o que; *proktam*—chama-se; *adhidaivam*—os semideuses; *kim*—o que; *ucyate*—chama-se.", "translation": "**Arjuna perguntou: Ó meu Senhor, ó Pessoa Suprema, o que é o Brahman? O que é o eu? O que são atividades fruitivas? O que é esta manifestação material? E quais são os semideuses? Por favor, explica-me isto.**", "purport": "Neste capítulo, o Senhor Kṛṣṇa responde a estas diferentes perguntas de Arjuna, começando por: \"O que é o Brahman?\". O Senhor também explica o karma, as atividades fruitivas, o serviço devocional, os princípios do yoga, e o serviço devocional em sua forma pura. O *Śrīmad-Bhāgavatam* explica que a Suprema Verdade Absoluta é conhecida como Brahman, Paramātmā e Bhagavān. Ademais, a entidade viva, a alma individual, também é chamada de Brahman. Arjuna também indaga sobre o ātmā, que se refere ao corpo, à alma e à mente. Segundo o dicionário Védico, o ātmā refere-se também à mente, à alma, ao corpo e aos sentidos.\n\n\n\nArjuna dirigiu-se ao Senhor Supremo como Puruṣottama, Pessoa Suprema, o que significa que ele formulava estas perguntas não simplesmente a um amigo, mas à Pessoa Suprema, sabendo que Ele era a autoridade suprema, capaz de oferecer respostas definitivas."}
{"ref": "bg/8/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/2/", "verse_text": "adhiyajñaḥ kathaṁ ko 'tra\n\ndehe 'smin madhusūdana\n\nprayāṇa-kāle ca kathaṁ\n\njñeyo 'si niyatātmabhiḥ", "devanagari": "> अधियज्ञः कथं कोऽत्र देहेऽस्मिन्मधुसूदन ।\n> प्रयाणकाले च कथं ज्ञेयोऽसि नियतात्मभिः ॥२॥", "synonyms": "*adhiyajñaḥ*—o Senhor do sacrifício; *katham*—como; *kaḥ*—quem; *atra*—aqui; *dehe*—no corpo; *asmin*—neste; *madhusūdana*—ó Madhusūdana; *prayāṇa-kāle*—no momento da morte; *ca*—e; *katham*—como; *jñeyaḥ*—ser conhecido; *asi*—podes ser; *niyata-ātmabhiḥ*—pelos autocontrolados.", "translation": "**Como vive este Senhor do sacrifício no corpo, e em que parte Ele vive, ó Madhusūdana? E como podem aqueles ocupados em serviço devocional conhecer-Te no momento da morte?**", "purport": "O Senhor do sacrifício refere-se a Indra e a Viṣṇu. Viṣṇu é o principal entre os semideuses primordiais, incluindo Brahmā e Śiva, e Indra é o principal entre os semideuses administradores. Tanto Indra como Viṣṇu são adorados pela execução de yajñas. Mas, aqui, Arjuna pergunta quem é, de fato, o Senhor do yajña (sacrifício) e como reside o Senhor dentro do corpo da entidade viva.\n\n\n\nArjuna dirige-se ao Senhor como Madhusūdana porque Kṛṣṇa, certa vez, matou um demônio chamado Madhu. Na verdade, estas perguntas, que são da natureza de dúvidas, não deveriam ter surgido na mente de Arjuna, pois Arjuna é um devoto consciente de Kṛṣṇa. Por isso, tais dúvidas são como demônios. Visto que Kṛṣṇa é tão hábil em matar demônios, Arjuna aqui se dirige a Ele como Madhusūdana para que Kṛṣṇa pudesse matar as dúvidas demoníacas que surgiam na mente de Arjuna.\n\n\n\nOra, a palavra *prayāṇa-kāle* neste verso é muito significativa, pois tudo o que fazemos na vida será posto à prova no momento da morte. Arjuna teme que, no momento da morte, aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa esqueçam o Senhor Supremo, porque, em tal momento, as funções corporais se desorganizam e a mente pode estar em estado de pânico. Por isso, Mahārāja Kulaśekhara, um grande devoto, ora: \"Meu querido Senhor, que eu morra agora mesmo, enquanto estou saudável, para que o cisne de minha mente possa entrar no caule de Teus pés de lótus\". Esta metáfora é empregada porque o cisne frequentemente se delicia em entrar no caule da flor de lótus — de modo semelhante, a mente do devoto puro é atraída aos pés de lótus do Senhor. Mahārāja Kulaśekhara teme que, no momento da morte, sua garganta esteja tão sufocada que ele não consiga cantar os santos nomes; sendo assim, é melhor \"morrer imediatamente\". Arjuna pergunta como pode a mente de alguém permanecer fixa nos pés de lótus de Kṛṣṇa em tais momentos."}
{"ref": "bg/8/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/3/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nakṣaraṁ brahma paramaṁ\n\nsvabhāvo 'dhyātmam ucyate\n\nbhūta-bhāvodbhava-karo\n\nvisargaḥ karma-saṁjñitaḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> अक्षरं ब्रह्म परमं स्वभावोऽध्यात्ममुच्यते ।\n> भूतभावोद्भवकरो विसर्गः कर्मसंज्ञितः ॥३॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *akṣaram*—indestrutível; *brahma*—Brahman; *paramam*—transcendental; *svabhāvaḥ*—natureza eterna; *adhyātmam*—o eu; *ucyate*—chama-se; *bhūta-bhāva-udbhava-karaḥ*—ação que produz os corpos materiais das entidades vivas; *visargaḥ*—criação; *karma*—atividades fruitivas; *saṁjñitaḥ*—chama-se.", "translation": "**O Senhor Supremo disse: A entidade viva indestrutível e transcendental é chamada Brahman, e sua natureza eterna chama-se o eu. A ação concernente ao desenvolvimento destes corpos materiais chama-se karma, ou atividades fruitivas.**", "purport": "O Brahman é indestrutível e eternamente existente, e sua constituição não se altera em momento algum. Mas, além do Brahman, há o Parabrahman. Brahman refere-se à entidade viva, e Parabrahman refere-se à Suprema Personalidade de Deus. A posição constitucional da entidade viva difere da posição que ela assume no mundo material. Em consciência material, sua natureza é tentar ser o senhor da matéria, mas, em consciência espiritual (de Kṛṣṇa), sua posição é servir ao Supremo. Quando a entidade viva está em consciência material, ela tem de assumir vários corpos no mundo material. Isso é chamado karma, ou criação variada pela força da consciência material.\n\n\n\nNa literatura Védica, a entidade viva é chamada *jīvātmā* e Brahman, mas nunca é chamada Parabrahman. A entidade viva (*jīvātmā*) assume diferentes posições — às vezes funde-se na escura natureza material e identifica-se com a matéria, e, outras vezes, identifica-se com a natureza espiritual superior. Por isso, ela é chamada de energia marginal do Senhor Supremo. Conforme sua identificação com a natureza material ou espiritual, recebe um corpo material ou espiritual. Na natureza material, pode assumir um corpo dentre as 8.400.000 espécies de vida, mas, na natureza espiritual, possui apenas um corpo. Na natureza material, manifesta-se às vezes como homem, semideus, animal, fera, ave etc., conforme seu karma. Para alcançar planetas celestiais materiais e desfrutar de suas facilidades, executa, por vezes, sacrifícios (*yajña*); contudo, quando seu mérito se esgota, retorna novamente à Terra na forma de um homem.\n\n\n\nNo processo de sacrifício, a entidade viva realiza sacrifícios específicos para alcançar planetas celestiais específicos e, em consequência, chega a eles. Quando o mérito do sacrifício se esgota, a entidade viva desce à Terra na forma de chuva, depois assume a forma de grãos, e estes grãos são comidos pelo homem e transformados em sêmen, que fecunda uma mulher; assim, a entidade viva, mais uma vez, alcança a forma humana para realizar sacrifícios e repetir o mesmo ciclo. Dessa maneira, a entidade viva vai e vem perpetuamente pelo caminho material. A pessoa consciente de Kṛṣṇa, no entanto, evita tais sacrifícios. Adota diretamente a consciência de Kṛṣṇa e, com isso, prepara-se para retornar a Deus.\n\n\n\nOs comentaristas impersonalistas do *Gītā* presumem irrazoavelmente que o Brahman assume a forma de *jīva* no mundo material, e, para fundamentarem essa ideia, referem-se ao Capítulo Quinze, verso 7, do *Gītā*. Mas este verso também fala da entidade viva como \"um fragmento eterno de Mim mesmo\". O fragmento de Deus, a entidade viva, pode cair no mundo material, mas o Senhor Supremo (Acyuta) jamais cai. Portanto, esta suposição de que o Brahman Supremo assume a forma de *jīva* não é aceitável. É importante lembrar que, na literatura Védica, o Brahman (a entidade viva) é distinguido do Parabrahman (o Senhor Supremo)."}
{"ref": "bg/8/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/4/", "verse_text": "adhibhūtaṁ kṣaro bhāvaḥ\n\npuruṣaś cādhidaivatam\n\nadhiyajño 'ham evātra\n\ndehe deha-bhṛtāṁ vara", "devanagari": "> अधिभूतं क्षरो भावः पुरुषश्चाधिदैवतम् ।\n> अधियज्ञोऽहमेवात्र देहे देहभृतां वर ॥४॥", "synonyms": "*adhibhūtam*—a manifestação física; *kṣaraḥ*—em constante mutação; *bhāvaḥ*—natureza; *puruṣaḥ*—a forma universal; *ca*—e; *adhidaivatam*—incluindo todos os semideuses, como o sol e a lua; *adhiyajñaḥ*—a Superalma; *aham*—Eu (Kṛṣṇa); *eva*—certamente; *atra*—neste; *dehe*—corpo; *deha-bhṛtām*—do encarnado; *vara*—o Supremo.", "translation": "**Sabe-se que a natureza física é incessantemente mutável. O universo é a forma cósmica do Senhor Supremo, e Eu sou esse Senhor representado como a Superalma, residindo no coração de cada ser encarnado.**", "purport": "A natureza física se altera constantemente. Os corpos materiais geralmente passam por seis etapas: nascem, crescem, permanecem por algum tempo, produzem alguns subprodutos, definham e, por fim, desaparecem. Esta natureza física chama-se *adhibhūtam*. Por ser criada em determinado ponto e estar destinada a ser aniquilada em determinado ponto, a concepção da forma universal do Senhor Supremo, que inclui todos os semideuses e seus diversos planetas, chama-se *adhidaivatam*. A alma individual (*jīva*) acompanha o corpo. A Superalma, uma representação plenária do Senhor Kṛṣṇa, chama-se Paramātmā ou *adhiyajña* e está situada no coração. A palavra *eva* é particularmente importante no contexto deste verso, pois, com ela, o Senhor enfatiza que o Paramātmā não é diferente Dele. A Superalma, a Suprema Personalidade de Deus, sentada ao lado da alma individual, é a testemunha das atividades da alma individual e é a fonte da consciência. A Superalma dá à *jīva* a oportunidade de agir livremente, e Ele testemunha suas atividades. As funções de todas estas diferentes manifestações do Senhor Supremo tornam-se automaticamente claras para o devoto puro, consciente de Kṛṣṇa, ocupado no serviço transcendental ao Senhor. A gigantesca forma universal do Senhor, chamada *adhidaivatam*, é contemplada pelo neófito que não pode aproximar-se do Senhor Supremo em Sua manifestação como Superalma. Aconselha-se ao neófito que contemple a forma universal cujas pernas são consideradas os planetas inferiores, cujos olhos são considerados o sol e a lua, e cuja cabeça é considerada o sistema planetário superior."}
{"ref": "bg/8/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/5/", "verse_text": "anta-kāle ca mām eva\n\nsmaran muktvā kalevaram\n\nyaḥ prayāti sa mad-bhāvaṁ\n\nyāti nāsty atra saṁśayaḥ", "devanagari": "> अन्तकाले च मामेव स्मरन्मुक्त्वा कलेवरम् ।\n> यः प्रयाति स मद्भावं याति नास्त्यत्र संशयः ॥५॥", "synonyms": "*anta-kāle*—no fim da vida; *ca*—também; *mām*—a Mim; *eva*—certamente; *smaran*—lembrando-se; *muktvā*—abandonando; *kalevaram*—o corpo; *yaḥ*—aquele que; *prayāti*—vai; *saḥ*—ele; *mad-bhāvam*—Minha natureza; *yāti*—alcança; *na*—não; *asti*—há; *atra*—aqui; *saṁśayaḥ*—dúvida.", "translation": "**E quem quer que, no momento da morte, abandone seu corpo lembrando-se somente de Mim, alcança imediatamente Minha natureza. Disto não há dúvida.**", "purport": "Neste verso, salienta-se a importância da consciência de Kṛṣṇa. Qualquer pessoa que abandone seu corpo em consciência de Kṛṣṇa é imediatamente transferida para a morada transcendental do Senhor Supremo. A palavra *smaran* (lembrando-se) é importante. A lembrança de Kṛṣṇa não é possível para a alma impura que não praticou a consciência de Kṛṣṇa em serviço devocional. Para lembrar-se de Kṛṣṇa, a pessoa deve cantar incessantemente o *mahā-mantra*, Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, seguindo os passos do Senhor Caitanya, sendo mais tolerante que a árvore, mais humilde que a grama e oferecendo todo o respeito aos outros sem exigir respeito em troca. Dessa maneira, ela poderá partir do corpo lembrando-se de Kṛṣṇa com êxito e, assim, alcançar a meta suprema."}
{"ref": "bg/8/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/6/", "verse_text": "yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ\n\ntyajaty ante kalevaram\n\ntaṁ tam evaiti kaunteya\n\nsadā tad-bhāva-bhāvitaḥ", "devanagari": "> यं यं वापि स्मरन्भावं त्यजत्यन्ते कलेवरम् ।\n> तं तमेवैति कौन्तेय सदा तद्भावभावितः ॥६॥", "synonyms": "*yam yam*—qualquer que; *vā*—ou; *api*—também; *smaran*—lembrando-se; *bhāvam*—natureza; *tyajati*—abandona; *ante*—no fim; *kalevaram*—este corpo; *tam tam*—semelhante; *eva*—certamente; *eti*—obtém; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *sadā*—sempre; *tat*—aquele; *bhāva*—estado de ser; *bhāvitaḥ*—lembrando.", "translation": "**Qualquer estado de ser de que alguém se lembre ao abandonar seu corpo, esse estado ele alcançará sem falha.**", "purport": "Aqui se explica o processo de mudar a natureza no momento crítico da morte. Como pode alguém morrer no estado mental adequado? Mahārāja Bharata pensou em um cervo no momento da morte e, por isso, foi transferido para essa forma de vida. Não obstante, como cervo, Mahārāja Bharata podia lembrar-se de suas atividades passadas. Naturalmente, o efeito cumulativo dos pensamentos e ações da vida da pessoa influencia seus pensamentos no momento da morte; sendo assim, as ações desta vida determinam o estado de ser futuro. Se a pessoa estiver transcendentalmente absorta no serviço de Kṛṣṇa, então seu próximo corpo será transcendental (espiritual), não físico. Por isso, o cantar de Hare Kṛṣṇa é o melhor processo para mudar com êxito o próprio estado de ser para a vida transcendental."}
{"ref": "bg/8/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/7/", "verse_text": "tasmāt sarveṣu kāleṣu\n\nmām anusmara yudhya ca\n\nmayy arpita-mano-buddhir\n\nmām evaiṣyasy asaṁśayaḥ", "devanagari": "> तस्मात्सर्वेषु कालेषु मामनुस्मर युध्य च ।\n> मय्यर्पितमनोबुद्धिर्मामेवैष्यस्यसंशयः ॥७॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *sarveṣu*—sempre; *kāleṣu*—tempo; *mām*—em Mim; *anusmara*—continua a lembrar-te; *yudhya*—luta; *ca*—também; *mayi*—em Mim; *arpita*—rendido; *manaḥ*—mente; *buddhiḥ*—intelecto; *mām*—a Mim; *eva*—com certeza; *eṣyasi*—alcançarás; *asaṁśayaḥ*—sem dúvida.", "translation": "**Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim na forma de Kṛṣṇa e, ao mesmo tempo, executar teu dever prescrito de lutar. Com tuas atividades dedicadas a Mim e tua mente e inteligência fixas em Mim, alcançar-Me-ás sem dúvida.**", "purport": "Esta instrução a Arjuna é muito importante para todos os homens ocupados em atividades materiais. O Senhor não diz que se devam abandonar os deveres ou ocupações prescritos. A pessoa pode continuá-los e, ao mesmo tempo, pensar em Kṛṣṇa cantando Hare Kṛṣṇa. Isso a libertará da contaminação material e ocupará sua mente e inteligência em Kṛṣṇa. Cantando os nomes de Kṛṣṇa, ela será transferida ao planeta supremo, Kṛṣṇaloka, sem dúvida."}
{"ref": "bg/8/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/8/", "verse_text": "abhyāsa-yoga-yuktena\n\ncetasā nānya-gāminā\n\nparamaṁ puruṣaṁ divyaṁ\n\nyāti pārthānucintayan", "devanagari": "> अभ्यासयोगयुक्तेन चेतसा नान्यगामिना ।\n> परमं पुरुषं दिव्यं याति पार्थानुचिन्तयन् ॥८॥", "synonyms": "*abhyāsa*—prática; *yoga-yuktena*—estando ocupado em meditação; *cetasā*—pela mente e inteligência; *na anya-gāminā*—sem se desviar; *paramam*—o Supremo; *puruṣam*—Personalidade de Deus; *divyam*—transcendental; *yāti*—alcança; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *anucintayan*—constantemente pensando em.", "translation": "**Aquele que medita na Suprema Personalidade de Deus, com sua mente constantemente ocupada em lembrar-se de Mim, sem se desviar do caminho — esse, ó Pārtha [Arjuna], certamente Me alcançará.**", "purport": "Neste verso, o Senhor Kṛṣṇa enfatiza a importância de lembrar-se Dele. A lembrança de Kṛṣṇa é revivida ao se cantar o *mahā-mantra*, Hare Kṛṣṇa. Por meio desta prática de cantar e ouvir a vibração sonora do Senhor Supremo, ocupam-se o ouvido, a língua e a mente. Esta meditação mística é muito fácil de praticar e auxilia a pessoa a alcançar o Senhor Supremo. *Puruṣam* significa desfrutador. Embora as entidades vivas pertençam à energia marginal do Senhor Supremo, elas se encontram em contaminação material. Consideram-se desfrutadoras, mas não são o desfrutador supremo. Aqui se afirma claramente que o desfrutador supremo é a Suprema Personalidade de Deus em Suas diferentes manifestações e expansões plenárias, como Nārāyaṇa, Vāsudeva etc.\n\n\n\nOs devotos podem pensar constantemente no objeto de adoração, o Senhor Supremo, em qualquer de Seus aspectos — Nārāyaṇa, Kṛṣṇa, Rāma etc. — cantando Hare Kṛṣṇa. Esta prática o purificará e, no fim de sua vida, em virtude de seu canto constante, ele será transferido ao reino de Deus. A prática do yoga é a meditação na Superalma interior; de modo semelhante, ao cantar Hare Kṛṣṇa, fixa-se a mente sempre no Senhor Supremo. A mente é volúvel, e, por isso, é necessário ocupá-la à força em pensar em Kṛṣṇa. Um exemplo frequentemente dado é o da lagarta que pensa em tornar-se borboleta e, assim, transforma-se em borboleta na mesma vida. De modo semelhante, se pensarmos constantemente em Kṛṣṇa, é certo que, no fim de nossa vida, teremos a mesma constituição corpórea de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/8/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/9/", "verse_text": "kaviṁ purāṇam anuśāsitāram\n\naṇor aṇīyāṁsam anusmared yaḥ\n\nsarvasya dhātāram acintya-rūpam\n\nāditya-varṇaṁ tamasaḥ parastāt", "devanagari": "> कविं पुराणमनुशासितार-\n> मणोरणीयंसमनुस्मरेद्यः ।\n> सर्वस्य धातारमचिन्त्यरूप-\n> मादित्यवर्णं तमसः परस्तात् ॥९॥", "synonyms": "*kavim*—aquele que tudo sabe; *purāṇam*—o mais antigo; *anuśāsitāram*—o controlador; *aṇoḥ*—do átomo; *aṇīyāṁsam*—menor que; *anusmaret*—sempre pensando; *yaḥ*—aquele que; *sarvasya*—de tudo; *dhātāram*—mantenedor; *acintya*—inconcebível; *rūpam*—forma; *āditya-varṇam*—iluminado como o sol; *tamasaḥ*—da escuridão; *parastāt*—transcendental.", "translation": "**Deve-se meditar na Pessoa Suprema como Aquele que tudo sabe, como Aquele que é o mais antigo, que é o controlador, que é menor do que o menor, que é o mantenedor de tudo, que está além de toda concepção material, que é inconcebível e que é sempre uma pessoa. Ele é luminoso como o sol e, sendo transcendental, está além desta natureza material.**", "purport": "Neste verso menciona-se o processo de pensar no Supremo. O ponto principal é que Ele não é impessoal nem vazio. Não se pode meditar em algo impessoal ou vazio. Isso é muito difícil. O processo de pensar em Kṛṣṇa, no entanto, é muito fácil e está, de fato, exposto aqui. Em primeiro lugar, Ele é *puruṣa*, espiritual, Rāma e Kṛṣṇa, e é descrito aqui como *kavim*; ou seja, conhece o passado, o presente e o futuro e, portanto, sabe tudo. Ele é a mais antiga das personalidades porque é a origem de tudo; tudo nasce Dele. Ele é também o controlador supremo do universo, mantenedor e instrutor da humanidade. Ele é menor do que o menor. A entidade viva é a 10.000ª parte da ponta de um fio de cabelo, mas o Senhor é tão inconcebivelmente pequeno que entra no coração desta partícula. Por isso, Ele é chamado de menor do que o menor. Como Supremo, Ele pode entrar no átomo e no coração do menor e controlá-lo como Superalma. Embora tão pequeno, Ele é, ainda assim, onipenetrante e mantém tudo. Por Ele se sustentam todos estes sistemas planetários. Frequentemente nos perguntamos como estes grandes planetas flutuam no ar. Aqui se afirma que o Senhor Supremo, por Sua energia inconcebível, sustenta todos estes grandes planetas e sistemas de galáxias. A palavra *acintya* (inconcebível) é muito significativa neste contexto. A energia de Deus está além de nossa concepção, além da jurisdição de nosso pensamento, e, por isso, é chamada inconcebível (*acintya*). Quem pode argumentar contra esse ponto? Ele permeia este mundo material e, contudo, está além dele. Não podemos sequer compreender este mundo material, que é insignificante em comparação com o mundo espiritual — então, como poderíamos compreender o que está além? *Acintya* significa aquilo que está além deste mundo material, aquilo que nossa argumentação, lógica e especulação filosófica não podem alcançar, aquilo que é inconcebível. Por isso, as pessoas inteligentes, evitando argumentação e especulação inúteis, devem aceitar o que se afirma em escrituras como os *Vedas*, o *Gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam* e seguir os princípios neles estabelecidos. Isso conduzirá a pessoa à compreensão."}
{"ref": "bg/8/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/10/", "verse_text": "prayāṇa-kāle manasācalena\n\nbhaktyā yukto yoga-balena caiva\n\nbhruvor madhye prāṇam āveśya samyak\n\nsa taṁ paraṁ puruṣam upaiti divyam", "devanagari": "> प्रयाणकाले मनसाऽचलेन\n> भक्त्या युक्तो योगबलेन चैव ।\n> भ्रुवोर्मध्ये प्राणमावेश्य सम्यक्\n> स तं परं पुरुषमुपैति दिव्यम् ॥१०॥", "synonyms": "*prayāṇa-kāle*—no momento da morte; *manasā*—pela mente; *acalena*—sem se desviar; *bhaktyā*—em plena devoção; *yuktaḥ*—ocupado; *yoga-balena*—pelo poder do yoga místico; *ca*—também; *eva*—certamente; *bhruvoḥ*—entre as duas sobrancelhas; *madhye*—em; *prāṇam*—o ar vital; *āveśya*—estabelecendo; *samyak*—completamente; *saḥ*—ele; *tam*—essa; *param*—transcendental; *puruṣam*—Personalidade de Deus; *upaiti*—alcança; *divyam*—no reino espiritual.", "translation": "**Aquele que, no momento da morte, fixa o ar vital entre as sobrancelhas e, em plena devoção, ocupa-se em lembrar-se do Senhor Supremo, certamente alcançará a Suprema Personalidade de Deus.**", "purport": "Neste verso afirma-se claramente que, no momento da morte, a mente deve fixar-se em devoção ao Deus Supremo. Para os praticantes de yoga, recomenda-se que elevem a força vital até o ponto entre as sobrancelhas; mas, para um devoto puro que não pratica tal yoga, a mente deve estar sempre ocupada em consciência de Kṛṣṇa, para que, ao morrer, ele possa lembrar-se do Supremo por Sua graça. Isto é explicado no verso quatorze.\n\n\n\nO uso particular da palavra *yoga-balena* é significativo neste verso, pois, sem a prática do yoga, ninguém pode chegar a este estado transcendental de ser no momento da morte. Não se pode lembrar-se subitamente do Senhor Supremo na hora da morte, a menos que se esteja praticado em algum sistema de yoga, especialmente o sistema de *bhakti-yoga*. Visto que a mente, no momento da morte, está muito perturbada, deve-se praticar a transcendência por meio do yoga durante a vida."}
{"ref": "bg/8/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/11/", "verse_text": "yad akṣaraṁ veda-vido vadanti\n\nviśanti yad yatayo vīta-rāgāḥ\n\nyad icchanto brahmacaryaṁ caranti\n\ntat te padaṁ saṅgraheṇa pravakṣye", "devanagari": "> यदक्षरं वेदविदो वदन्ति\n> विशन्ति यद्यतयो वीतरागाः ।\n> यदिच्छन्तो ब्रह्मचर्यं चरन्ति\n> तत्ते पदं संग्रहेण प्रवक्ष्ये ॥११॥", "synonyms": "*yat*—aquilo que; *akṣaram*—inesgotável; *veda-vidaḥ*—uma pessoa versada nos Vedas; *vadanti*—dizem; *viśanti*—entram; *yat*—no qual; *yatayaḥ*—grandes sábios; *vīta-rāgāḥ*—na ordem renunciada de vida; *yat*—aquilo que; *icchantaḥ*—desejando; *brahmacaryam*—celibato; *caranti*—praticam; *tat*—aquela; *te*—a ti; *padam*—situação; *saṅgraheṇa*—em resumo; *pravakṣye*—explicarei.", "translation": "**As pessoas versadas nos *Vedas*, que pronunciam o *oṁkāra* e que são grandes sábios na ordem renunciada, entram no Brahman. Desejando tal perfeição, pratica-se o celibato. Explicar-te-ei agora este processo pelo qual se pode alcançar a salvação.**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa explica que o Brahman, embora único e sem segundo, tem diferentes manifestações e aspectos. Para os impersonalistas, a sílaba *oṁ* é idêntica ao Brahman. Kṛṣṇa explica aqui o Brahman impessoal no qual entram os sábios da ordem renunciada.\n\n\n\nNo sistema Védico de conhecimento, ensina-se aos estudantes, desde o princípio, a vibrar *oṁ* e a aprender sobre o Brahman impessoal último, vivendo com o mestre espiritual em pleno celibato. Dessa forma, percebem dois dos aspectos do Brahman. Esta prática é essencial para o avanço do estudante na vida espiritual; mas, no momento, tal vida de *brahmacārī* (celibatário não casado) não é, de modo algum, possível. A construção social do mundo mudou tanto que não há possibilidade de se praticar o celibato desde o início da vida estudantil. Em todo o mundo, há muitas instituições para diferentes ramos de conhecimento, mas não há nenhuma instituição reconhecida onde se possam educar os estudantes nos princípios *brahmacārī*. A menos que se pratique o celibato, o avanço na vida espiritual é muito difícil. Por isso, o Senhor Caitanya anunciou, conforme as injunções escriturais para esta era de Kali, que nenhum processo de compreensão do Supremo é possível, exceto o canto do santo nome do Senhor Kṛṣṇa: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare, Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare."}
{"ref": "bg/8/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/12/", "verse_text": "sarva-dvārāṇi saṁyamya\n\nmano hṛdi nirudhya ca\n\nmūrdhny ādhāyātmanaḥ prāṇam\n\nāsthito yoga-dhāraṇām", "devanagari": "> सर्वद्वाराणि संयम्य मनो हृदि निरुध्य च ।\n> मूध्न्या।र्धायात्मनः प्राणमास्थितो योगधारणाम् ॥१२॥", "synonyms": "*sarva-dvārāṇi*—todas as portas do corpo; *saṁyamya*—controlando; *manaḥ*—mente; *hṛdi*—no coração; *nirudhya*—confinada; *ca*—também; *mūrdhni*—na cabeça; *ādhāya*—fixo; *ātmanaḥ*—alma; *prāṇam*—o ar vital; *āsthitaḥ*—situado; *yoga-dhāraṇām*—a situação iogue.", "translation": "**A situação iogue consiste no desapego de todas as ocupações sensuais. Fechando todas as portas dos sentidos e fixando a mente no coração e o ar vital no topo da cabeça, a pessoa estabelece-se em yoga.**", "purport": "Para praticar o yoga, conforme se sugere aqui, a pessoa deve, primeiramente, fechar a porta de todo o gozo dos sentidos. Esta prática chama-se *pratyāhāra*, ou retirar os sentidos dos objetos dos sentidos. Os órgãos dos sentidos para a aquisição de conhecimento, como os olhos, ouvidos, nariz, língua e tato, devem ser plenamente controlados, e não se lhes deve permitir ocupar-se em autogratificação. Dessa maneira, a mente focaliza-se na Superalma no coração, e a força vital eleva-se ao topo da cabeça. No Sexto Capítulo, este processo é descrito em detalhe. Mas, como já se mencionou, esta prática não é praticável nesta era. O melhor processo é a consciência de Kṛṣṇa. Se a pessoa for sempre capaz de fixar a mente em Kṛṣṇa em serviço devocional, ser-lhe-á muito fácil permanecer em transe transcendental imperturbado, ou em *samādhi*."}
{"ref": "bg/8/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/13/", "verse_text": "oṁ ity ekākṣaraṁ brahma\n\nvyāharan mām anusmaran\n\nyaḥ prayāti tyajan dehaṁ\n\nsa yāti paramāṁ gatim", "devanagari": "> ओमित्येकाक्षरं ब्रह्म व्याहरन्मामनुस्मरन् ।\n> यः प्रयाति त्यजन्देहं स याति परमां गतिम् ॥१३॥", "synonyms": "*om*—a combinação de letras, *oṁkāra*; *iti*—assim; *eka-akṣaram*—supremo, indestrutível; *brahma*—absoluto; *vyāharan*—vibrando; *mām*—em Mim (Kṛṣṇa); *anusmaran*—lembrando-se; *yaḥ*—qualquer um; *prayāti*—parte; *tyajan*—abandonando; *deham*—este corpo; *saḥ*—ele; *yāti*—alcança; *paramām*—suprema; *gatim*—destino.", "translation": "**Após situar-se nesta prática de yoga e vibrar a sílaba sagrada *oṁ*, a suprema combinação de letras, se pensar na Suprema Personalidade de Deus e abandonar seu corpo, a pessoa certamente alcançará os planetas espirituais.**", "purport": "Aqui se afirma claramente que *oṁ*, o Brahman e o Senhor Kṛṣṇa não são diferentes. O som impessoal de Kṛṣṇa é *oṁ*, mas o som Hare Kṛṣṇa contém *oṁ*. Recomenda-se claramente, nesta era, que, se a pessoa abandonar seu corpo no fim desta vida cantando o *mahā-mantra*, Hare Kṛṣṇa, alcançará os planetas espirituais. De modo semelhante, aqueles que são devotos de Kṛṣṇa entram no planeta de Kṛṣṇa, ou Goloka Vṛndāvana, ao passo que os impersonalistas permanecem no *brahmajyoti*. Os personalistas também entram em muitos inumeráveis planetas no céu espiritual, conhecidos como Vaikuṇṭhas."}
{"ref": "bg/8/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/14/", "verse_text": "ananya-cetāḥ satataṁ\n\nyo māṁ smarati nityaśaḥ\n\ntasyāhaṁ sulabhaḥ pārtha\n\nnitya-yuktasya yoginaḥ", "devanagari": "> अनन्यचेताः सततं यो मां स्मरति नित्यशः ।\n> तस्याहं सुलभः पार्थ नित्ययुक्तस्य योगिनः ॥१४॥", "synonyms": "*ananya-cetāḥ*—sem desvio; *satatam*—sempre; *yaḥ*—qualquer um; *mām*—em Mim (Kṛṣṇa); *smarati*—lembra-se; *nityaśaḥ*—regularmente; *tasya*—para ele; *aham*—Eu sou; *sulabhaḥ*—muito fácil de alcançar; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *nitya*—regularmente; *yuktasya*—ocupado; *yoginaḥ*—do devoto.", "translation": "**Para aquele que se lembra de Mim sem desvio, Eu sou fácil de obter, ó filho de Pṛthā, devido à sua constante ocupação no serviço devocional.**", "purport": "Neste verso descreve-se o *bhakti-yoga* dos devotos imaculados do Deus Supremo. Os versos precedentes mencionam quatro diferentes tipos de devotos — os aflitos, os curiosos, os que buscam ganho material e os filósofos especuladores. Diversos processos de liberação do enredamento material também foram descritos: *karma-yoga*, *jñāna-yoga* e *haṭha-yoga*. Aqui, porém, menciona-se o *bhakti-yoga* sem mistura alguma. No *bhakti-yoga*, os devotos não desejam nada além de Kṛṣṇa. O devoto puro de *bhakti* não deseja ser promovido aos planetas celestiais, nem busca a salvação ou a liberação do enredamento material. O devoto puro nada deseja. No *Caitanya-caritāmṛta*, o devoto puro é chamado *niṣkāma*, o que significa que ele não tem desejo de interesse próprio. A paz perfeita pertence somente a ele, não àqueles que se esforçam pelo ganho pessoal. O devoto puro deseja apenas agradar ao Senhor Supremo; sendo assim, o Senhor diz que, para qualquer pessoa que Lhe seja inabalavelmente devotada, Ele é fácil de alcançar. O devoto pode prestar serviço a qualquer das formas transcendentais do Senhor Supremo, e não enfrenta nenhum dos problemas que afligem os praticantes de outros yogas. O *bhakti-yoga* é muito simples, puro e fácil de executar. Pode-se começar simplesmente cantando Hare Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é muito misericordioso para com aqueles que se ocupam em Seu serviço, e Ele auxilia, de várias maneiras, aquele devoto que está plenamente rendido a Ele, a fim de que ele possa compreendê-Lo como Ele é. O Senhor concede a tal devoto inteligência suficiente para que, em última análise, o devoto possa alcançá-Lo em Seu reino espiritual.\n\n\n\nA qualificação especial do devoto puro é que ele está sempre pensando em Kṛṣṇa, sem considerar tempo ou lugar. Não deve haver impedimentos. Ele deve ser capaz de executar seu serviço em qualquer lugar e a qualquer hora. Alguns dizem que o devoto deve permanecer em lugares sagrados como Vṛndāvana ou em alguma cidade santa onde o Senhor viveu, mas um devoto puro pode viver em qualquer parte e criar a atmosfera de Vṛndāvana por meio de seu serviço devocional. Foi Śrī Advaita quem disse ao Senhor Caitanya: \"Onde quer que estejas, ó Senhor — ali está Vṛndāvana\".\n\n\n\nUm devoto puro lembra-se constantemente de Kṛṣṇa e medita Nele. Estas são as qualificações do devoto puro, para quem o Senhor é mais facilmente alcançável. O *bhakti-yoga* é o sistema que o *Gītā* recomenda acima de todos os outros. Geralmente, os *bhakti-yogīs* ocupam-se de cinco maneiras diferentes: 1) *śānta-bhakta*, ocupado em serviço devocional em neutralidade; 2) *dāsya-bhakta*, ocupado em serviço devocional como servo; 3) *sākhya-bhakta*, ocupado como amigo; 4) *vātsalya-bhakta*, ocupado como pai ou mãe; e 5) *mādhurya-bhakta*, ocupado como amante conjugal do Senhor Supremo. De qualquer destas maneiras, o devoto puro está sempre, constantemente, ocupado no transcendental serviço amoroso ao Senhor Supremo e não pode esquecer-se do Senhor Supremo; assim, para ele, o Senhor é facilmente alcançável. Um devoto puro não pode esquecer-se do Senhor Supremo nem por um instante; de modo semelhante, o Senhor Supremo não pode esquecer-se de Seu devoto puro nem por um instante. Esta é a grande bênção do processo consciente de Kṛṣṇa de cantar o *mahā-mantra*, Hare Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/8/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/15/", "verse_text": "mām upetya punar janma\n\nduḥkhālayam aśāśvatam\n\nnāpnuvanti mahātmānaḥ\n\nsaṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ", "devanagari": "> मामुपेत्य पुनर्जन्म दुःखालयमशाश्वतम् ।\n> नाप्नुवन्ति महात्मानः संसिद्धिं परमां गताः ॥१५॥", "synonyms": "*mām*—a Mim; *upetya*—alcançando; *punaḥ*—novamente; *janma*—nascimento; *duḥkha-ālayam*—lugar de misérias; *aśāśvatam*—temporário; *na*—nunca; *āpnuvanti*—alcançam; *mahātmānaḥ*—as grandes almas; *saṁsiddhim*—perfeição; *paramām*—última; *gatāḥ*—alcançada.", "translation": "**Após Me alcançarem, as grandes almas, que são *yogīs* em devoção, jamais retornam a este mundo temporário, que é cheio de misérias, pois alcançaram a mais elevada perfeição.**", "purport": "Visto que este mundo material temporário está cheio das misérias do nascimento, da velhice, das doenças e da morte, naturalmente aquele que alcança a mais elevada perfeição e atinge o planeta supremo, Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana, não deseja retornar. O planeta supremo é descrito na literatura Védica como estando além de nossa visão material, e é considerado a meta máxima. Os *mahātmās* (grandes almas) recebem mensagens transcendentais dos devotos realizados e, assim, desenvolvem gradualmente o serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa, ficando tão absortos no serviço transcendental que não desejam mais a elevação a qualquer dos planetas materiais, nem mesmo desejam ser transferidos a qualquer planeta espiritual. Querem apenas a associação de Kṛṣṇa, e nada mais. Tais grandes almas, em consciência de Kṛṣṇa, alcançam a mais elevada perfeição da vida. Em outras palavras, são as almas supremas."}
{"ref": "bg/8/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/16/", "verse_text": "ā-brahma-bhuvanāl lokāḥ\n\npunar āvartino 'rjuna\n\nmām upetya tu kaunteya\n\npunar janma na vidyate", "devanagari": "> आब्रह्मभुवनाल्लोकाः पुनरावर्तिनोऽर्जुन ।\n> मामुपेत्य तु कौन्तेय पुनर्जन्म न विद्यते ॥१६॥", "synonyms": "*ā-brahma*—até o planeta Brahmaloka; *bhuvanāt*—dos sistemas planetários; *lokāḥ*—planetas; *punaḥ*—novamente; *āvartinaḥ*—retornando; *arjuna*—ó Arjuna; *mām*—a Mim; *upetya*—chegando; *tu*—mas; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *punaḥ janma*—renascimento; *na*—jamais; *vidyate*—ocorre.", "translation": "**Desde o planeta mais elevado do mundo material até o mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas aquele que alcança Minha morada, ó filho de Kuntī, jamais nasce de novo.**", "purport": "Todos os tipos de *yogīs* — *karma*, *jñāna*, *haṭha* etc. — devem, finalmente, alcançar a perfeição devocional no *bhakti-yoga*, ou consciência de Kṛṣṇa, antes de poderem ir à morada transcendental de Kṛṣṇa e jamais regressar. Aqueles que alcançam os mais elevados planetas materiais, ou os planetas dos semideuses, ficam novamente sujeitos a repetidos nascimentos e mortes. Assim como as pessoas da Terra são elevadas a planetas superiores, as pessoas de planetas superiores, como Brahmaloka, Candraloka e Indraloka, caem à Terra. A prática do sacrifício chamado *pañcāgni-vidyā*, recomendada no *Kaṭha Upaniṣad*, possibilita à pessoa alcançar Brahmaloka; mas, se em Brahmaloka, ela não cultivar a consciência de Kṛṣṇa, então deve retornar à Terra. Aqueles que progridem em consciência de Kṛṣṇa nos planetas superiores são gradualmente elevados a planetas cada vez mais elevados e, no momento da devastação universal, são transferidos ao reino espiritual eterno. Quando ocorre a devastação deste universo material, Brahmā e seus devotos, que estão constantemente ocupados em consciência de Kṛṣṇa, são todos transferidos ao universo espiritual e a planetas espirituais específicos, conforme seus desejos."}
{"ref": "bg/8/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/17/", "verse_text": "sahasra-yuga-paryantam\n\nahar yad brahmaṇo viduḥ\n\nrātriṁ yuga-sahasrāntāṁ\n\nte 'ho-rātra-vido janāḥ", "devanagari": "> सहस्रयुगपर्यन्तमहर्यद् ब्रह्मणो विदुः ।\n> रात्रिं युगसहस्रान्तां तेऽहोरात्रविदो जनाः ॥१७॥", "synonyms": "*sahasra*—mil; *yuga*—milênios; *paryantam*—incluindo; *ahaḥ*—dia; *yat*—aquele; *brahmaṇaḥ*—de Brahmā; *viduḥ*—conhecem-no; *rātrim*—noite; *yuga*—milênios; *sahasra-antām*—de modo semelhante, ao final de mil; *te*—essas; *ahaḥ-rātra*—dia e noite; *vidaḥ*—compreendem; *janāḥ*—pessoas.", "translation": "**Pelo cálculo humano, o conjunto de mil eras é a duração de um dia de Brahmā. E essa também é a duração de sua noite.**", "purport": "A duração do universo material é limitada. Ele se manifesta em ciclos de *kalpas*. Um *kalpa* é um dia de Brahmā, e um dia de Brahmā consiste em mil ciclos de quatro *yugas*, ou eras: Satya, Tretā, Dvāpara e Kali. O ciclo de Satya caracteriza-se pela virtude, sabedoria e religião, não havendo praticamente ignorância nem vício, e o *yuga* dura 1.728.000 anos. No Tretā-yuga introduz-se o vício, e este *yuga* dura 1.296.000 anos. No Dvāpara-yuga há um declínio ainda maior na virtude e na religião, com aumento do vício, e este *yuga* dura 864.000 anos. E, finalmente, no Kali-yuga (o *yuga* que estamos vivenciando há mais de 5.000 anos) há abundância de discórdia, ignorância, irreligião e vício, sendo praticamente inexistente a verdadeira virtude, e este *yuga* dura 432.000 anos. No Kali-yuga, o vício aumenta a tal ponto que, ao término do *yuga*, o próprio Senhor Supremo aparece como o avatāra Kalki, vence os demônios, salva Seus devotos e dá início a outro Satya-yuga. Então, o processo se põe em movimento outra vez. Esses quatro *yugas*, repetidos mil vezes, compõem um dia de Brahmā, o deus criador, e o mesmo número compõe uma noite. Brahmā vive cem desses \"anos\" e, depois, morre. Esses \"cem anos\", pelos cálculos terrestres, totalizam 311 trilhões e 40 milhões de anos terrestres. Por estes cálculos, a vida de Brahmā parece fantástica e interminável, mas, do ponto de vista da eternidade, é tão breve quanto um relâmpago. No oceano causal, há inumeráveis Brahmās que surgem e desaparecem como bolhas no Atlântico. Brahmā e sua criação são todos parte do universo material; sendo assim, estão em fluxo constante.\n\n\n\nNo universo material, nem mesmo Brahmā está livre do processo de nascimento, velhice, doença e morte. Brahmā, no entanto, está diretamente ocupado no serviço ao Senhor Supremo, na administração deste universo — por isso, ele alcança imediatamente a liberação. *Sannyāsīs* elevados são promovidos ao planeta particular de Brahmā, Brahmaloka, que é o planeta mais elevado do universo material e que sobrevive a todos os planetas celestiais nos estratos superiores do sistema planetário; mas, no devido tempo, Brahmā e todos os habitantes de Brahmaloka estão sujeitos à morte, conforme a lei da natureza material."}
{"ref": "bg/8/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/18/", "verse_text": "avyaktād vyaktayaḥ sarvāḥ\n\nprabhavanty ahar-āgame\n\nrātry-āgame pralīyante\n\ntatraivāvyakta-saṁjñake", "devanagari": "> अव्यक्ताद् व्यक्तयः सर्वाः प्रभवन्त्यहरागमे ।\n> रात्र्यागमे प्रलीयन्ते तत्रैवाव्यक्तसंज्ञके ॥१८॥", "synonyms": "*avyaktāt*—do imanifesto; *vyaktayaḥ*—entidades vivas; *sarvāḥ*—todas; *prabhavanti*—passam a existir; *ahaḥ-āgame*—no início do dia; *rātri-āgame*—ao cair da noite; *pralīyante*—são aniquiladas; *tatra*—ali; *eva*—certamente; *avyakta*—o imanifesto; *saṁjñake*—chamado.", "translation": "**Quando o dia de Brahmā se manifesta, esta multidão de entidades vivas passa a existir, e, com a chegada da noite de Brahmā, todas elas são aniquiladas.**", "purport": "As *jīvas* menos inteligentes tentam permanecer dentro deste mundo material e, em consequência, são elevadas e degradadas nos diversos sistemas planetários. Durante o dia de Brahmā, exibem suas atividades, e, com a chegada da noite de Brahmā, são aniquiladas. Durante o dia, recebem vários corpos para atividades materiais, e, à noite, esses corpos perecem. As *jīvas* (almas individuais) permanecem compactas no corpo de Viṣṇu e, repetidamente, manifestam-se com a chegada do dia de Brahmā. Quando, finalmente, a vida de Brahmā termina, todas elas são aniquiladas e permanecem imanifestas por milhões e milhões de anos. Por fim, quando Brahmā nasce novamente em outro milênio, elas se manifestam outra vez. Dessa maneira, as *jīvas* ficam cativas pelo mundo material. Contudo, aqueles seres inteligentes que adotam a consciência de Kṛṣṇa e cantam Hare Kṛṣṇa, Hare Rāma em serviço devocional, transferem-se, ainda nesta vida, ao planeta espiritual de Kṛṣṇa, e ali tornam-se eternamente bem-aventurados, não estando sujeitos a tais renascimentos."}
{"ref": "bg/8/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/19/", "verse_text": "bhūta-grāmaḥ sa evāyaṁ\n\nbhūtvā bhūtvā pralīyate\n\nrātry-āgame 'vaśaḥ pārtha\n\nprabhavaty ahar-āgame", "devanagari": "> भूतग्रामः स एवायं भूत्वा भूत्वा प्रलीयते ।\n> रात्र्यागमेऽवशः पार्थ प्रभवत्यहरागमे ॥१९॥", "synonyms": "*bhūta-grāmaḥ*—o conjunto de todas as entidades vivas; *saḥ*—elas; *eva*—certamente; *ayam*—este; *bhūtvā bhūtvā*—nascendo; *pralīyate*—aniquilam-se; *rātri*—noite; *āgame*—ao chegar; *avaśaḥ*—automaticamente; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *prabhavanti*—manifestam-se; *ahaḥ*—durante o dia; *āgame*—ao chegar.", "translation": "**Repetidamente, vem o dia, e esta multidão de seres está ativa; e, novamente, cai a noite, ó Pārtha, e elas são desfeitas, indefesas.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/8/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/20/", "verse_text": "paras tasmāt tu bhāvo 'nyo\n\n'vyakto 'vyaktāt sanātanaḥ\n\nyaḥ sa sarveṣu bhūteṣu\n\nnaśyatsu na vinaśyati", "devanagari": "> परस्तस्मात्तु भावोऽन्योऽव्यक्तोऽव्यक्तात्सनातनः ।\n> यः स सर्वेषु भूतेषु नश्यत्सु न विनश्यति ॥२०॥", "synonyms": "*paraḥ*—transcendental; *tasmāt*—disso; *tu*—mas; *bhāvaḥ*—natureza; *anyaḥ*—outra; *avyaktaḥ*—imanifesta; *avyaktāt*—do imanifesto; *sanātanaḥ*—eterna; *yaḥ*—essa; *saḥ*—que; *sarveṣu*—toda; *bhūteṣu*—manifestação; *naśyatsu*—sendo aniquilada; *na*—nunca; *vinaśyati*—aniquilada.", "translation": "**Existe, contudo, outra natureza, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e imanifesta. Ela é suprema e jamais é aniquilada. Quando tudo neste mundo é aniquilado, essa parte permanece tal como é.**", "purport": "A energia espiritual superior de Kṛṣṇa é transcendental e eterna. Está além de todas as mudanças da natureza material, que se manifesta e é aniquilada durante os dias e noites de Brahmā. A energia superior de Kṛṣṇa é completamente oposta, em qualidade, à natureza material. A natureza superior e a inferior são explicadas no Sétimo Capítulo."}
{"ref": "bg/8/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/21/", "verse_text": "avyakto 'kṣara ity uktas\n\ntam āhuḥ paramāṁ gatim\n\nyaṁ prāpya na nivartante\n\ntad dhāma paramaṁ mama", "devanagari": "> अव्यक्तोऽक्षर इत्युक्तस्तमाहुः परमां गतिम् ।\n> यं प्राप्य न निवर्तन्ते तद्धाम परमं मम ॥२१॥", "synonyms": "*avyaktaḥ*—imanifesto; *akṣaraḥ*—infalível; *iti*—assim; *uktaḥ*—dito; *tam*—aquele que; *āhuḥ*—é conhecido; *paramām*—último; *gatim*—destino; *yam*—aquele que; *prāpya*—alcançando; *na*—nunca; *nivartante*—retorna; *tat-dhāma*—essa morada; *paramam*—suprema; *mama*—Minha.", "translation": "**Essa morada suprema chama-se imanifesta e infalível, e é o destino supremo. Quando se vai a ela, jamais se retorna. Essa é Minha morada suprema.**", "purport": "A morada suprema da Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é descrita na *Brahma-saṁhitā* como *cintāmaṇi-dhāma*, um lugar onde todos os desejos são satisfeitos. A morada suprema do Senhor Kṛṣṇa, conhecida como Goloka Vṛndāvana, é repleta de palácios feitos de pedra-de-toque. Há também árvores chamadas \"árvores dos desejos\", que fornecem qualquer tipo de comestível sob demanda, e há vacas conhecidas como vacas *surabhi*, que fornecem um suprimento ilimitado de leite. Nesta morada, o Senhor é servido por centenas de milhares de deusas da fortuna (*Lakṣmīs*), e Ele é chamado Govinda, o Senhor primordial e a causa de todas as causas. O Senhor está acostumado a tocar Sua flauta (*venum kvanantam*). Sua forma transcendental é a mais atrativa de todos os mundos — Seus olhos são como pétalas de lótus, e a cor de Seu corpo é como nuvens. Ele é tão atrativo que Sua beleza supera a de milhares de cupidos. Veste roupa cor de açafrão, uma guirlanda em volta do pescoço e uma pena de pavão nos cabelos. No *Gītā*, o Senhor Kṛṣṇa dá apenas uma pequena indicação de Sua morada pessoal (Goloka Vṛndāvana), que é o planeta supremíssimo do reino espiritual. Uma descrição vívida é dada na *Brahma-saṁhitā*. A literatura Védica afirma que não há nada superior à morada do Deus Supremo, e que essa morada é o destino último. Quando se a alcança, jamais se retorna ao mundo material. A morada suprema de Kṛṣṇa e o próprio Kṛṣṇa não são diferentes, sendo da mesma qualidade. Nesta Terra, Vṛndāvana, a 145 quilômetros a sudeste de Delhi, é uma réplica daquela suprema Goloka Vṛndāvana situada no céu espiritual. Quando Kṛṣṇa desceu a esta Terra, Ele divertiu-Se naquela faixa específica de terra conhecida como Vṛndāvana, no distrito de Mathurā, na Índia."}
{"ref": "bg/8/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/22/", "verse_text": "puruṣaḥ sa paraḥ pārtha\n\nbhaktyā labhyas tv ananyayā\n\nyasyāntaḥ-sthāni bhūtāni\n\nyena sarvam idaṁ tatam", "devanagari": "> पुरुषः स परः पार्थ भक्त्या लभ्यस्त्वनन्यया ।\n> यस्यान्तःस्थानि भूतानि येन सर्वमिदं ततम् ॥२२॥", "synonyms": "*puruṣaḥ*—a Personalidade Suprema; *saḥ*—Ele; *paraḥ*—o Supremo, do que ninguém é maior; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *bhaktyā*—pelo serviço devocional; *labhyaḥ*—pode ser alcançado; *tu*—mas; *ananyayā*—devoção imaculada, sem desvio; *yasya*—Sua; *antaḥ-sthāni*—dentro; *bhūtāni*—toda esta manifestação material; *yena*—por quem; *sarvam*—tudo; *idam*—tudo o que podemos ver; *tatam*—distribuído.", "translation": "**A Suprema Personalidade de Deus, que é maior do que todos, é alcançável pela devoção imaculada. Embora esteja presente em Sua morada, Ele é onipenetrante, e tudo está situado Nele.**", "purport": "Aqui se afirma claramente que o destino supremo, do qual não há retorno, é a morada de Kṛṣṇa, a Pessoa Suprema. A *Brahma-saṁhitā* descreve essa morada suprema como *ānanda-cinmaya-rasa*, um lugar onde tudo está repleto de bem-aventurança espiritual. Toda a variedade ali manifesta é da qualidade da bem-aventurança espiritual — não há nada material. Toda a variedade expande-se como a expansão espiritual do próprio Deus Supremo, pois a manifestação ali é totalmente da energia espiritual, como se explica no Capítulo Sete. No que diz respeito a este mundo material, embora o Senhor esteja sempre em Sua morada suprema, Ele é, não obstante, onipenetrante por meio de Sua energia material. Assim, por Suas energias espiritual e material, Ele está presente em toda parte — tanto nos universos materiais como nos espirituais. *Yasyāntaḥsthāni* significa que tudo é sustentado por Ele, seja energia espiritual ou material.\n\n\n\nAqui se afirma claramente que somente pelo *bhakti*, ou serviço devocional, pode-se entrar no sistema planetário Vaikuṇṭha (espiritual). Em todos os Vaikuṇṭhas há somente um Deus Supremo, Kṛṣṇa, que Se expandiu em milhões e milhões de expansões plenárias. Estas expansões plenárias têm quatro braços e presidem os inumeráveis planetas espirituais. São conhecidas por uma diversidade de nomes — Puruṣottama, Trivikrama, Keśava, Mādhava, Aniruddha, Hṛṣīkeśa, Saṅkarṣaṇa, Pradyumna, Śrīdhara, Vāsudeva, Dāmodara, Janārdana, Nārāyaṇa, Vāmana, Padmanābha etc. Estas expansões plenárias são comparadas às folhas de uma árvore, e a árvore principal é comparada a Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, residindo em Goloka Vṛndāvana, Sua morada suprema, conduz sistematicamente todos os assuntos de ambos os universos (material e espiritual) sem falha, pelo poder de Sua onipresença."}
{"ref": "bg/8/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/23/", "verse_text": "yatra kāle tv anāvṛttim\n\nāvṛttiṁ caiva yoginaḥ\n\nprayātā yānti taṁ kālaṁ\n\nvakṣyāmi bharatarṣabha", "devanagari": "> यत्र काले त्वनावृत्तिमावृत्तिं चैव योगिनः ।\n> प्रयाता यान्ति तं कालं वक्ष्यामि भरतर्षभ ॥२३॥", "synonyms": "*yatra*—em que; *kāle*—tempo; *tu*—mas; *anāvṛttim*—sem retorno; *āvṛttim*—retorno; *ca*—também; *eva*—certamente; *yoginaḥ*—de diferentes tipos de místicos; *prayātāḥ*—aquele que parte; *yānti*—parte; *tam*—esse; *kālam*—tempo; *vakṣyāmi*—descrevendo; *bharatarṣabha*—ó melhor dos Bhāratas.", "translation": "**Ó melhor dos Bhāratas, agora te explicarei os diferentes momentos em que, ao deixar este mundo, a pessoa retorna ou não.**", "purport": "Os devotos imaculados do Senhor Supremo, que são almas totalmente rendidas, não se preocupam quando deixam seus corpos, nem por qual método. Deixam tudo nas mãos de Kṛṣṇa e, assim, retornam fácil e alegremente a Deus. Mas aqueles que não são devotos imaculados, e que dependem, em vez disso, de métodos de compreensão espiritual como *karma-yoga*, *jñāna-yoga*, *haṭha-yoga* etc., devem deixar o corpo em um momento adequado e, dessa forma, ter assegurado se retornarão ou não ao mundo do nascimento e da morte.\n\n\n\nSe o *yogī* for perfeito, pode escolher o tempo e o lugar para deixar este mundo material; mas, se não for tão perfeito, então tem de partir conforme a vontade da natureza. O momento mais adequado para deixar o corpo e não retornar é explicado pelo Senhor nestes versos. Conforme Ācārya Baladeva Vidyābhūṣaṇa, a palavra sânscrita *kāla*, aqui empregada, refere-se à deidade que preside o tempo."}
{"ref": "bg/8/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/24/", "verse_text": "agnir jyotir ahaḥ śuklaḥ\n\nṣaṇ-māsā uttarāyaṇam\n\ntatra prayātā gacchanti\n\nbrahma brahma-vido janāḥ", "devanagari": "> अग्निर्ज्योतिरहः शुक्लः षण्मासा उत्तरायणम् ।\n> तत्र प्रयाता गच्छन्ति ब्रह्म ब्रह्मविदो जनाः ॥२४॥", "synonyms": "*agniḥ*—fogo; *jyotiḥ*—luz; *ahaḥ*—dia; *śuklaḥ*—branco; *ṣaṭ-māsāḥ*—seis meses; *uttarāyaṇam*—quando o sol passa pelo lado norte; *tatra*—ali; *prayātāḥ*—aquele que parte; *gacchanti*—parte; *brahma*—o Absoluto; *brahma-vidaḥ*—aquele que conhece o Absoluto; *janāḥ*—pessoa.", "translation": "**Aqueles que conhecem o Brahman Supremo deixam este mundo durante a influência do deus do fogo, na luz, em um momento auspicioso, durante a quinzena da lua e os seis meses em que o sol viaja para o norte.**", "purport": "Quando se mencionam o fogo, a luz, o dia e a lua, deve-se entender que sobre todos eles há diversas deidades que presidem e fazem os preparativos para a passagem da alma. No momento da morte, a *jīva* põe-se a caminho de uma nova vida. Se a pessoa deixar o corpo no momento acima designado, seja por acidente, seja por arranjo, é-lhe possível alcançar o impessoal *brahmajyoti*. Os místicos avançados na prática do yoga podem dispor o tempo e o lugar para deixar o corpo. Outros não têm controle — se, por acaso, partirem em um momento auspicioso, então não retornarão ao ciclo de nascimento e morte; mas, em caso contrário, há toda a possibilidade de que tenham de retornar. Não obstante, para o devoto puro em consciência de Kṛṣṇa, não há temor de retorno, quer ele deixe o corpo em momento auspicioso ou inauspicioso, por acaso ou por arranjo."}
{"ref": "bg/8/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/25/", "verse_text": "dhūmo rātris tathā kṛṣṇaḥ\n\nṣaṇ-māsā dakṣiṇāyanam\n\ntatra cāndramasaṁ jyotir\n\nyogī prāpya nivartate", "devanagari": "> धूमो रात्रिस्तथा कृष्णः षण्मासा दक्षिणायनम् ।\n> तत्र चान्द्रमसं ज्योतिर्योगी प्राप्य निवर्तते ॥२५॥", "synonyms": "*dhūmaḥ*—fumaça; *rātriḥ*—noite; *tathā*—também; *kṛṣṇaḥ*—a quinzena da lua escura; *ṣaṭ-māsāḥ*—os seis meses; *dakṣiṇa-ayanam*—quando o sol passa pelo lado sul; *tatra*—ali; *cāndramasam*—o planeta lua; *jyotiḥ*—luz; *yogī*—o místico; *prāpya*—alcança; *nivartate*—retorna.", "translation": "**O místico que parte deste mundo durante a fumaça, a noite, a quinzena da lua nova ou nos seis meses em que o sol passa para o sul, ou que alcança o planeta lua, retorna novamente.**", "purport": "No Terceiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, somos informados de que aqueles que são especialistas em atividades fruitivas e métodos sacrificiais na Terra alcançam a lua na hora da morte. Estas almas elevadas vivem na lua por cerca de 10.000 anos (em cálculo dos semideuses) e desfrutam da vida bebendo *soma-rasa*. Por fim, retornam à Terra. Isso significa que, na lua, há classes superiores de seres vivos, embora possam não ser percebidos pelos sentidos grosseiros."}
{"ref": "bg/8/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/26/", "verse_text": "śukla-kṛṣṇe gatī hy ete\n\njagataḥ śāśvate mate\n\nekayā yāty anāvṛttim\n\nanyayāvartate punaḥ", "devanagari": "> शुक्लकृष्णे गती ह्येते जगतः शाश्वते मते ।\n> एकया यात्यनावृत्तिमन्ययावर्तते पुनः ॥२६॥", "synonyms": "*śukla*—luz; *kṛṣṇe*—escuridão; *gatī*—partidas; *hi*—certamente; *ete*—todas estas; *jagataḥ*—do mundo material; *śāśvate*—dos Vedas; *mate*—na opinião; *ekayā*—por uma; *yāti*—vai; *anāvṛttim*—sem retorno; *anyayā*—pela outra; *āvartate*—retorna; *punaḥ*—novamente.", "translation": "**Conforme os *Vedas*, há duas maneiras de partir deste mundo — uma na luz e outra na escuridão. Quando alguém parte na luz, não retorna; mas, quando parte na escuridão, retorna.**", "purport": "A mesma descrição da partida e do retorno é citada por Ācārya Baladeva Vidyābhūṣaṇa do *Chāndogya Upaniṣad*. Dessa forma, aqueles que são trabalhadores fruitivos e especuladores filosóficos, desde tempos imemoriais, vão e vêm constantemente. Na verdade, não alcançam a salvação última, pois não se rendem a Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/8/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/27/", "verse_text": "naite sṛtī pārtha jānan\n\nyogī muhyati kaścana\n\ntasmāt sarveṣu kāleṣu\n\nyoga-yukto bhavārjuna", "devanagari": "> नैते सृती पार्थ जानन्योगी मुह्यति कश्चन ।\n> तस्मात्सर्वेषु कालेषु योगयुक्तो भवार्जुन ॥२७॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ete*—todas estas; *sṛtī*—diferentes sendas; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *jānan*—mesmo se as conhecem; *yogī*—os devotos do Senhor; *muhyati*—confundido; *kaścana*—qualquer um; *tasmāt*—portanto; *sarveṣu kāleṣu*—sempre; *yoga-yuktaḥ*—estando ocupado em consciência de Kṛṣṇa; *bhava*—torna-te; *arjuna*—ó Arjuna.", "translation": "**Os devotos que conhecem estas duas sendas, ó Arjuna, jamais se confundem. Portanto, mantém-te sempre fixo em devoção.**", "purport": "Aqui Kṛṣṇa aconselha Arjuna a não se perturbar com as diferentes sendas que a alma pode tomar ao deixar o mundo material. O devoto do Senhor Supremo não deve preocupar-se se partirá por arranjo ou por acaso. O devoto deve estar firmemente estabelecido em consciência de Kṛṣṇa e cantar Hare Kṛṣṇa. Deve saber que a preocupação com qualquer destas duas sendas é problemática. A melhor maneira de absorver-se em consciência de Kṛṣṇa é estar sempre acoplado a Seu serviço, e isso tornará a senda da pessoa para o reino espiritual segura, certa e direta. A palavra *yoga-yukta* é especialmente significativa neste verso. Aquele que é firme em yoga está constantemente ocupado em consciência de Kṛṣṇa em todas as suas atividades. Śrī Rūpa Gosvāmī aconselha que se deva estar desapegado no mundo material e que todos os afazeres estejam impregnados de consciência de Kṛṣṇa. Dessa maneira, alcança-se a perfeição. Por isso, o devoto não se perturba com estas descrições, pois sabe que sua passagem à morada suprema é garantida pelo serviço devocional."}
{"ref": "bg/8/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/8/28/", "verse_text": "vedeṣu yajñeṣu tapaḥsu caiva\n\ndāneṣu yat puṇya-phalaṁ pradiṣṭam\n\natyeti tat sarvam idaṁ viditvā\n\nyogī paraṁ sthānam upaiti cādyam", "devanagari": "> वेदेषु यज्ञेषु तपःसु चैव\n> दानेषु यत्पुण्यफलं प्रदिष्टम् ।\n> अत्येति तत्सर्वमिदं विदित्वा\n> योगी परं स्थानमुपैति चाद्यम् ॥२८॥", "synonyms": "*vedeṣu*—no estudo dos Vedas; *yajñeṣu*—nas execuções de *yajña*, sacrifício; *tapaḥsu*—submetendo-se a diferentes tipos de austeridades; *ca*—também; *eva*—certamente; *dāneṣu*—em dar caridade; *yat*—aquele que; *puṇya-phalam*—o resultado do trabalho piedoso; *pradiṣṭam*—dirigido; *atyeti*—supera; *tat*—todos esses; *sarvam idam*—todos os descritos acima; *viditvā*—conhecendo; *yogī*—o devoto; *param*—suprema; *sthānam*—morada; *upaiti*—alcançou paz; *ca*—também; *ādyam*—original.", "translation": "**A pessoa que aceita a senda do serviço devocional não fica privada dos resultados obtidos pelo estudo dos *Vedas*, pela execução de austeros sacrifícios, pela caridade ou pela busca de atividades filosóficas e fruitivas. No fim, ela alcança a morada suprema.**", "purport": "Este verso é a sumação dos Capítulos Sétimo e Oitavo, particularmente naquilo que estes capítulos tratam da consciência de Kṛṣṇa e do serviço devocional. A pessoa deve estudar os *Vedas* sob a orientação do mestre espiritual e submeter-se a muitas austeridades e penitências enquanto vive sob seus cuidados. Um *brahmacārī* deve viver na casa do mestre espiritual como um servo, e deve mendigar esmolas de porta em porta e levá-las ao mestre espiritual. Toma alimento somente sob a ordem do mestre, e, se o mestre se esquecer de chamá-lo para comer naquele dia, o estudante jejua. Estes são alguns dos princípios Védicos para a observância do *brahmacarya*.\n\n\n\nApós o estudante estudar os *Vedas* sob o mestre por um período de cinco a vinte anos, ele pode tornar-se um homem de caráter perfeito. O estudo dos *Vedas* não se destina à recreação de especuladores de poltrona, mas à formação do caráter. Após este treinamento, permite-se ao *brahmacārī* ingressar na vida familiar e casar-se. Como chefe de família, ele também deve realizar muitos sacrifícios e esforçar-se por mais iluminação. Então, depois de retirar-se da vida familiar, ao aceitar a ordem de *vānaprastha*, submete-se a severas penitências, como viver em florestas, vestir-se com cascas de árvore, não barbear-se etc. Cumprindo as ordens de *brahmacārī*, chefe de família, *vānaprastha* e, finalmente, *sannyāsa*, a pessoa eleva-se à etapa perfeita da vida. Alguns são, então, elevados aos reinos celestiais, e, quando se tornam ainda mais avançados, são liberados no céu espiritual, seja no impessoal *brahmajyoti*, seja nos planetas Vaikuṇṭha, ou em Kṛṣṇaloka. Este é o caminho delineado pela literatura Védica.\n\n\n\nA beleza da consciência de Kṛṣṇa, no entanto, é que, de um só golpe, ao ocupar-se em serviço devocional, pode-se superar todos os rituais das diferentes ordens de vida.\n\n\n\nDeve-se tentar compreender os Capítulos Sétimo e Oitavo do *Gītā* não pela erudição ou especulação mental, mas ouvindo-os em associação com devotos puros. Os Capítulos Sexto a Décimo Segundo são a essência do *Gītā*. Se a pessoa for afortunada e compreender o *Gītā* — especialmente estes seis capítulos centrais — em associação com devotos, então sua vida é, imediatamente, glorificada além de todas as penitências, sacrifícios, caridades, especulações etc. Deve-se ouvir o *Gītā* do devoto, pois, no início do Quarto Capítulo, afirma-se que o *Gītā* só pode ser perfeitamente compreendido por devotos. Ouvir o *Gītā* dos devotos, e não dos especuladores mentais, chama-se fé. Por meio da associação com devotos, a pessoa é colocada em serviço devocional, e, por este serviço, as atividades, a forma, os passatempos, o nome de Kṛṣṇa etc. tornam-se claros, e todas as apreensões se dissipam. Então, uma vez removidas as dúvidas, o estudo do *Gītā* torna-se extremamente prazeroso, e a pessoa desenvolve um gosto e um sentimento pela consciência de Kṛṣṇa. Na etapa avançada, apaixona-se completamente por Kṛṣṇa, e esse é o início da mais elevada etapa perfeita da vida, que prepara a transferência do devoto à morada de Kṛṣṇa no céu espiritual, Goloka Vṛndāvana, onde o devoto entra em felicidade eterna.\n\n\n\nAssim terminam os significados Bhaktivedanta do Oitavo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* referente a Alcançando o Supremo."}
{"ref": "bg/9/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nidaṁ tu te guhyatamaṁ\n\npravakṣyāmy anasūyave\n\njñānaṁ vijñāna-sahitaṁ\n\nyaj jñātvā mokṣyase 'śubhāt", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> इदं तु ते गुह्यतमं प्रवक्ष्याम्यनसूयवे ।\n> ज्ञानं विज्ञानसहितं यज्ज्ञात्वा मोक्ष्यसेऽशुभात् ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavan uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *idam*—este; *tu*—mas; *te*—a você; *guhyatamam*—o mais confidencial; *pravakṣyāmi*—estou falando; *anasūyave*—ao não invejoso; *jñānam*—conhecimento; *vijñāna*—conhecimento percebido; *sahitam*—com; *yat*—o qual; *jñātvā*—conhecendo; *mokṣyase*—serás liberado; *aśubhāt*—desta miserável existência material.", "translation": "**O Senhor Supremo disse: Meu querido Arjuna, porque você nunca tem inveja de Mim, transmitir-lhe-ei esta sapiência mais secreta, ao conhecer a qual você se libertará das misérias da existência material.**", "purport": "À medida que o devoto ouve cada vez mais sobre o Senhor Supremo, ele se torna iluminado. Esse processo de ouvir é recomendado no *Śrīmad-Bhāgavatam*: \"As mensagens da Suprema Personalidade de Deus estão repletas de potências, e essas potências podem ser percebidas se temas referentes ao Supremo forem discutidos entre devotos. Isso não pode ser alcançado pela associação com especuladores mentais ou eruditos acadêmicos, pois trata-se de conhecimento percebido.\"\n\n\n\nOs devotos ocupam-se constantemente no serviço do Senhor Supremo. O Senhor compreende a mentalidade e a sinceridade da entidade viva específica que se ocupa em consciência de Kṛṣṇa, e dá-lhe a inteligência necessária para compreender a ciência de Kṛṣṇa em companhia dos devotos. A discussão sobre Kṛṣṇa é muito potente, e se uma pessoa afortunada tiver tal associação e tentar assimilar o conhecimento, certamente progredirá rumo à compreensão espiritual. O Senhor Kṛṣṇa, a fim de animar Arjuna a elevar-se cada vez mais em Seu potente serviço, descreve neste Nono Capítulo assuntos mais confidenciais do que quaisquer outros que já tenha revelado.\n\n\n\nO início mesmo do *Bhagavad-gītā*, o Primeiro Capítulo, é mais ou menos uma introdução ao restante do livro; e no Segundo e no Terceiro Capítulos, o conhecimento espiritual descrito é chamado confidencial. Os temas tratados no Sétimo e no Oitavo Capítulos relacionam-se especificamente ao serviço devocional, e, por trazerem iluminação em consciência de Kṛṣṇa, são chamados mais confidenciais. Mas os assuntos descritos no Nono Capítulo tratam da devoção pura e imaculada. Por isso, este é chamado o mais confidencial. Aquele que se situa no mais confidencial conhecimento de Kṛṣṇa é naturalmente transcendental; portanto, não tem dores materiais, embora se encontre no mundo material. No *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* afirma-se que, embora alguém com sincero desejo de prestar serviço amoroso ao Senhor Supremo se ache no estado condicional da existência material, deve ser considerado liberado. De modo semelhante, encontraremos no *Bhagavad-gītā*, Décimo Capítulo, que qualquer pessoa que se ocupe dessa maneira é uma pessoa liberada.\n\n\n\nOra, este primeiro verso tem significado específico. Conhecimento (idaṁ jñānam) refere-se ao serviço devocional puro, que consiste em nove atividades distintas: ouvir, cantar, recordar, servir, adorar, orar, obedecer, manter amizade e entregar tudo. Pela prática desses nove elementos do serviço devocional, eleva-se a pessoa à consciência espiritual, à consciência de Kṛṣṇa. Quando o coração se purifica da contaminação material, pode-se compreender esta ciência de Kṛṣṇa. Compreender simplesmente que a entidade viva não é matéria não basta. Isso pode ser o início da compreensão espiritual, mas a pessoa deve reconhecer a diferença entre as atividades do corpo e as atividades espirituais pelas quais entende que não é o corpo.\n\n\n\nNo Sétimo Capítulo, já discutimos a opulenta potência da Suprema Personalidade de Deus, Suas diferentes energias, as naturezas inferior e superior, e toda esta manifestação material. Ora, nos Capítulos Nono e Décimo, as glórias do Senhor serão delineadas.\n\n\n\nA palavra sânscrita anasūyave neste verso também é muito significativa. Em geral, os comentadores, mesmo os mais eruditos, têm inveja de *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*. Mesmo os mais eruditos estudiosos escrevem sobre o *Bhagavad-gītā* de modo muito impreciso. Por terem inveja de Kṛṣṇa, seus comentários são inúteis. Os comentários feitos por devotos do Senhor são genuínos. Ninguém pode explicar o *Bhagavad-gītā*, nem oferecer conhecimento perfeito sobre Kṛṣṇa, se for invejoso. Quem critica o caráter de Kṛṣṇa sem conhecê-Lo é um tolo. Por conseguinte, devem-se evitar com muito cuidado tais comentários. Para quem compreender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, a Personalidade pura e transcendental, estes capítulos serão muito proveitosos."}
{"ref": "bg/9/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/2/", "verse_text": "rāja-vidyā rāja-guhyaṁ\n\npavitram idam uttamam\n\npratyakṣāvagamaṁ dharmyaṁ\n\nsu-sukhaṁ kartum avyayam", "devanagari": "> राजविद्या राजगुह्यं पवित्रमिदमुत्तमम् ।\n> प्रत्यक्षावगमं धर्म्यं सुसुखं कर्तुमव्ययम् ॥२॥", "synonyms": "*rāja-vidyā*—o rei da educação; *rāja-guhyam*—o rei do conhecimento confidencial; *pavitram*—o mais puro; *idam*—este; *uttamam*—transcendental; *pratyakṣa*—diretamente experimentado; *avagamam*—compreendido; *dharmyam*—o princípio da religião; *susukham*—muito feliz; *kartum*—executar; *avyayam*—eterno.", "translation": "**Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro, e por dar percepção direta do eu pela compreensão, é a perfeição da religião. É eterno e se realiza com alegria.**", "purport": "Este capítulo do *Bhagavad-gītā* é chamado o rei da educação porque é a essência de todas as doutrinas e filosofias antes explicadas. Há sete principais filósofos na Índia: Gautama, Kaṇāda, Kapila, Yājñavalkya, Śāṇḍilya, Vaiśvānara e, finalmente, Vyāsadeva, autor do *Vedānta-sūtra*. Não há, pois, escassez de conhecimento no campo da filosofia ou do conhecimento transcendental. Agora, o Senhor diz que este Nono Capítulo é o rei de todo esse conhecimento, a essência de todo conhecimento que se possa derivar do estudo dos *Vedas* e das diferentes filosofias. É o mais confidencial porque o conhecimento confidencial ou transcendental envolve compreender a diferença entre a alma e o corpo. E o rei de todo conhecimento confidencial culmina no serviço devocional.\n\n\n\nEm geral, as pessoas não são educadas neste conhecimento confidencial; são educadas em conhecimento externo. No que se refere à educação comum, as pessoas se envolvem em muitos departamentos: política, sociologia, física, química, matemática, astronomia, engenharia, etc. Há tantos departamentos do conhecimento por todo o mundo e muitas universidades enormes, mas, infelizmente, não há universidade nem instituição educacional onde se ensine a ciência da alma espiritual. No entanto, a alma é a parte mais importante deste corpo; sem a presença da alma, o corpo não tem valor. Ainda assim, as pessoas dão grande ênfase às necessidades corporais da vida, sem se importar com a vital alma.\n\n\n\nO *Bhagavad-gītā*, especialmente a partir do Segundo Capítulo, ressalta a importância da alma. No princípio mesmo, o Senhor diz que este corpo é perecível e que a alma não é perecível. Esta é uma parte confidencial do conhecimento: simplesmente saber que a alma espiritual é diferente deste corpo e que sua natureza é imutável, indestrutível e eterna. Mas isso não fornece informação positiva sobre a alma. Às vezes, as pessoas têm a impressão de que a alma é diferente do corpo e que, quando o corpo termina, ou quando alguém se liberta do corpo, a alma permanece num vazio e se torna impessoal. Mas, na verdade, esse não é o fato. Como pode a alma, que é tão ativa dentro deste corpo, ser inativa após libertar-se do corpo? Ela é sempre ativa. Se é eterna, então é eternamente ativa, e suas atividades no reino espiritual são a parte mais confidencial do conhecimento espiritual. Por isso, essas atividades da alma espiritual são aqui indicadas como constituindo o rei de todo conhecimento, a parte mais confidencial de todo conhecimento.\n\n\n\nEste conhecimento é a forma mais pura de todas as atividades, como se explica na literatura Védica. No *Padma Purāṇa*, as atividades pecaminosas do homem foram analisadas e mostram-se como resultados de pecado após pecado. Aqueles que se ocupam em atividades fruitivas estão enredados em diferentes estágios e formas de reações pecaminosas. Por exemplo, quando se semeia a semente de determinada árvore, ela não cresce de imediato; leva algum tempo. É primeiro uma plantinha que brota, depois assume a forma de árvore, então floresce, dá frutos e, quando completa, suas flores e frutos são desfrutados pelas pessoas que semearam a semente da árvore. De modo semelhante, o homem comete um ato pecaminoso e, como uma semente, leva tempo para frutificar. Há diferentes estágios. A ação pecaminosa pode já ter cessado no indivíduo, mas os resultados ou frutos dessa ação ainda são desfrutados. Há pecados que ainda estão em forma de semente, e há outros já frutificados, dando-nos frutos que desfrutamos como aflição e dor, conforme se explica no vigésimo verso do Sétimo Capítulo.\n\n\n\nA pessoa que pôs fim por completo às reações de todas as atividades pecaminosas, e que se ocupa plenamente em atividades piedosas, libertando-se da dualidade deste mundo material, ocupa-se em serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Em outras palavras, aqueles que de fato se ocupam no serviço devocional ao Senhor Supremo já se libertaram de todas as reações. Para os que se ocupam no serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, todas as reações pecaminosas — frutificadas, em estoque ou em forma de semente — desaparecem gradualmente. Por isso, a potência purificadora do serviço devocional é muito poderosa, e é chamada pavitram uttamam, a mais pura. Uttamam significa transcendental. Tamas significa este mundo material ou escuridão, e uttamam significa aquilo que é transcendental às atividades materiais. As atividades devocionais nunca devem ser consideradas materiais, embora às vezes pareça que os devotos se ocupam como homens comuns. Quem pode ver e está familiarizado com o serviço devocional, contudo, saberá que essas não são atividades materiais. Todas elas são espirituais e devocionais, livres da contaminação dos modos materiais da natureza.\n\n\n\nDiz-se que a execução do serviço devocional é tão perfeita que se podem perceber os resultados diretamente. Esse resultado direto é de fato percebido, e temos experiência prática de que qualquer pessoa que cante os santos nomes de Kṛṣṇa (Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare) com o passar do tempo sente certo prazer transcendental e muito rapidamente se purifica de toda contaminação material. Isso de fato se vê. Ademais, se alguém se ocupa não apenas em ouvir, mas também em tentar difundir a mensagem das atividades devocionais, ou se se ocupa em ajudar nas atividades missionárias da consciência de Kṛṣṇa, sente gradualmente progresso espiritual. Esse avanço na vida espiritual não depende de qualquer educação ou qualificação prévia. O método em si é tão puro que, simplesmente ocupando-se nele, a pessoa se torna pura.\n\n\n\nNo *Vedānta-sūtra*, isso também se descreve nas seguintes palavras: prakāśaś ca karmaṇy abhyāsāt. \"O serviço devocional é tão potente que, simplesmente ocupando-se nas atividades do serviço devocional, a pessoa se torna iluminada sem dúvida alguma.\" Nārada, que era filho de uma criada, não tinha educação nem nascera em uma família elevada. Mas quando sua mãe se ocupava em servir grandes devotos, Nārada também se ocupou, e às vezes, na ausência de sua mãe, ele mesmo servia aos grandes devotos. Nārada diz pessoalmente: \"Apenas uma vez, com sua permissão, tomei os restos de seu alimento, e, ao fazê-lo, todos os meus pecados foram imediatamente erradicados. Assim ocupado, purifiquei-me de coração, e nesse momento a própria natureza do transcendentalista tornou-se atrativa para mim.\" (Bhāg. 1.5.25) Nārada conta a seu discípulo Vyāsadeva que em uma vida anterior se ocupava como menino servo de devotos purificados durante quatro meses de sua estadia, e que se associava intimamente com eles. Às vezes, esses sábios deixavam restos de alimento em seus pratos, e o menino, que lhes lavava os pratos, queria provar os restos. Por isso, perguntou aos grandes devotos se podia comê-los, e eles deram sua permissão. Nārada então comeu aqueles restos e, em consequência, ficou livre de todas as reações pecaminosas. Conforme continuou a comer, foi tornando-se de coração tão puro quanto os sábios, e foi desenvolvendo o mesmo gosto. Os grandes devotos saboreavam o gosto do incessante serviço devocional ao Senhor — ouvir, cantar, etc. — e, ao desenvolver o mesmo gosto, Nārada também quis ouvir e cantar as glórias do Senhor. Assim, associando-se com os sábios, desenvolveu um grande desejo pelo serviço devocional. Por isso, ele cita do *Vedānta-sūtra* (prakāśaś ca karmaṇy abhyāsāt): se alguém se ocupar simplesmente nos atos do serviço devocional, tudo lhe é revelado automaticamente, e ele pode compreender. Isso se chama prakāśaḥ, diretamente percebido.\n\n\n\nNārada era de fato filho de uma criada. Não teve oportunidade de ir à escola. Apenas auxiliava sua mãe e, felizmente, sua mãe prestou algum serviço aos devotos. A criança Nārada também teve a oportunidade e, simplesmente pela associação, alcançou o mais elevado objetivo de todas as religiões: o serviço devocional. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, afirma-se que pessoas religiosas em geral não sabem que a mais alta perfeição da religião é alcançar o estágio de serviço devocional. Em geral, exige-se conhecimento Védico para a compreensão da senda da autorrealização. Mas aqui, embora não fosse educado no princípio Védico, Nārada adquiriu os mais elevados resultados do estudo Védico. Esse processo é tão potente que, mesmo sem realizar regularmente o processo religioso, pode-se ser elevado à mais alta perfeição. Como isso é possível? Isso também se confirma na literatura Védica: ācāryavān puruṣo veda. Aquele que se associa com grandes ācāryas, ainda que não seja educado nem tenha estudado os *Vedas*, pode familiarizar-se com todo o conhecimento necessário à compreensão.\n\n\n\nO processo do serviço devocional é muito feliz. Por quê? O serviço devocional consiste em śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ; logo, basta ouvir o canto das glórias do Senhor ou assistir a palestras filosóficas sobre conhecimento transcendental ministradas por ācāryas autorizados. Simplesmente sentando-se, pode-se aprender; em seguida, pode-se comer os restos do alimento oferecido a Deus, pratos saborosos. Em qualquer estado, o serviço devocional é alegre. Pode-se executar o serviço devocional mesmo na condição mais miserável de pobreza. O Senhor diz: patraṁ puṣpaṁ phalam: Ele está pronto a aceitar do devoto qualquer tipo de oferenda, não importa qual. Mesmo uma folha, uma flor, um pedacinho de fruta ou um pouco de água — todos disponíveis em toda parte do mundo — podem ser oferecidos por qualquer pessoa, independentemente de sua posição social, e serão aceitos se oferecidos com amor. Há muitos exemplos na história. Simplesmente por provar as folhas de tulasī oferecidas aos pés de lótus do Senhor, grandes sábios como Sanatkumāra tornaram-se grandes devotos. Assim sendo, o processo devocional é muito agradável e pode ser executado em ânimo feliz. Deus aceita somente o amor com que as coisas Lhe são oferecidas.\n\n\n\nAqui se diz que este serviço devocional existe eternamente. Não é como pretendem os filósofos māyāvādīs. Eles às vezes adotam um suposto serviço devocional, e enquanto não estão liberados, prosseguem seu serviço devocional, mas, ao final, quando se liberam, \"tornam-se um com Deus\". Tal serviço devocional temporário e oportunista não é aceito como serviço devocional puro. O verdadeiro serviço devocional continua mesmo após a liberação. Quando o devoto vai ao planeta espiritual, no reino de Deus, ali também ele se ocupa em servir ao Senhor Supremo. Não tenta tornar-se um com o Senhor Supremo.\n\n\n\nComo se verá, o verdadeiro serviço devocional começa após a liberação. Por isso, no *Bhagavad-gītā* afirma-se: brahma-bhūta. Após libertar-se, ou ao situar-se na posição Brahman, começa o serviço devocional. Ao executar o serviço devocional, pode-se compreender o Senhor Supremo. Ninguém pode compreender a Suprema Personalidade de Deus pela execução de karma-yoga, jñāna ou aṣṭāṅga-yoga, ou de qualquer outro yoga independentemente. Sem chegar ao estágio do serviço devocional, não se pode compreender o que é a Personalidade de Deus. No *Śrīmad-Bhāgavatam* também se confirma que, quando alguém se purifica pela execução do processo de serviço devocional, especialmente ouvindo o *Śrīmad-Bhāgavatam* ou o *Bhagavad-gītā* de almas realizadas, então pode compreender a ciência de Kṛṣṇa, a ciência de Deus. Evaṁ prasanna-manaso bhagavad-bhakti-yogataḥ. Quando o coração se purifica de toda tolice, então se pode compreender o que é Deus. Assim, o processo do serviço devocional, da consciência de Kṛṣṇa, é o rei de toda educação e o rei de todo conhecimento confidencial. É a mais pura forma de religião e pode ser executado com alegria, sem dificuldade. Por isso, deve-se adotá-lo."}
{"ref": "bg/9/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/3/", "verse_text": "aśraddadhānāḥ puruṣā\n\ndharmasyāsya parantapa\n\naprāpya māṁ nivartante\n\nmṛtyu-saṁsāra-vartmani", "devanagari": "> अश्रद्दधानाः पुरुषा धर्मस्यास्य परन्तप ।\n> अप्राप्य मां निवर्तन्ते मृत्युसंसारवर्त्मनि ॥३॥", "synonyms": "*aśraddadhānāḥ*—aqueles que não têm fé; *puruṣāḥ*—tais pessoas; *dharmasya*—deste processo de religião; *asya*—dele; *parantapa*—ó subjugador dos inimigos; *aprāpya*—sem obter; *mām*—a Mim; *nivartante*—retornam; *mṛtyu*—morte; *saṁsāra*—existência material; *vartmani*—na senda de.", "translation": "**Aqueles que não têm fé na senda do serviço devocional não podem alcançar-Me, ó conquistador dos inimigos, mas retornam ao nascimento e à morte neste mundo material.**", "purport": "Os infiéis não podem realizar este processo de serviço devocional; este é o significado deste verso. A fé se cria pela associação com os devotos. As pessoas desafortunadas, mesmo após ouvirem todas as evidências da literatura Védica de grandes personalidades, ainda assim não têm fé em Deus. São hesitantes e não conseguem manter-se fixas no serviço devocional ao Senhor. Portanto, a fé é o fator mais importante para o progresso na consciência de Kṛṣṇa. No *Caitanya-caritāmṛta*, afirma-se que se deve ter completa convicção de que, simplesmente servindo o Senhor Supremo Śrī Kṛṣṇa, pode-se alcançar toda perfeição. Isso se chama fé verdadeira. No *Śrīmad-Bhāgavatam* (3.4.12) afirma-se que, ao dar-se água à raiz de uma árvore, seus ramos, galhos e folhas ficam satisfeitos, e, ao fornecer-se alimento ao estômago, todos os sentidos do corpo ficam satisfeitos; de modo semelhante, pelo engajamento no serviço transcendental ao Senhor Supremo, todos os semideuses e todas as entidades vivas ficam automaticamente satisfeitos.\n\n\n\nApós ler o *Bhagavad-gītā*, deve-se prontamente chegar à conclusão do *Bhagavad-gītā*: deve-se abandonar toda outra ocupação e adotar o serviço ao Senhor Supremo, Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. Se alguém estiver convencido desta filosofia de vida, isto é fé. Ora, o desenvolvimento dessa fé é o processo da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nHá três divisões de homens conscientes de Kṛṣṇa. Na terceira classe estão os que não têm fé. Se se ocupam no serviço devocional oficialmente, com algum propósito ulterior, não podem alcançar o estágio mais elevado de perfeição. Provavelmente escorregarão depois de algum tempo. Podem ocupar-se, mas, por não terem completa convicção e fé, é-lhes muito difícil continuar em consciência de Kṛṣṇa. Temos experiência prática, no exercício de nossa atividade missionária, de que algumas pessoas vêm e se aplicam à consciência de Kṛṣṇa com algum motivo oculto, e tão logo se acham um pouco bem situadas economicamente, abandonam este processo e voltam aos seus velhos hábitos. É somente pela fé que se pode avançar na consciência de Kṛṣṇa. No que tange ao desenvolvimento da fé, aquele que é versado nas escrituras do serviço devocional e atingiu o estágio de fé firme é chamado pessoa de primeira classe em consciência de Kṛṣṇa. Na segunda classe estão aqueles que não são muito avançados na compreensão das escrituras devocionais, mas que automaticamente têm fé firme de que Kṛṣṇa bhakti, ou serviço a Kṛṣṇa, é o melhor caminho, e por isso, em boa fé, o adotaram. São, pois, superiores aos da terceira classe, que não têm conhecimento perfeito das escrituras nem boa fé, mas, por associação e simplicidade, tentam seguir. A pessoa de terceira classe em consciência de Kṛṣṇa pode cair, mas quando se está na segunda ou primeira classe, não se cai. Aquele que está na primeira classe certamente progredirá e alcançará o resultado ao final. Quanto à pessoa de terceira classe em consciência de Kṛṣṇa, embora tenha fé na convicção de que o serviço devocional a Kṛṣṇa é muito bom, não tem conhecimento sobre Kṛṣṇa por meio das escrituras, como o *Śrīmad-Bhāgavatam* e o *Bhagavad-gītā*. Às vezes essas pessoas de terceira classe em consciência de Kṛṣṇa têm certa tendência ao karma-yoga e ao jñāna-yoga, e às vezes se perturbam, mas, tão logo a infecção do karma-yoga ou do jñāna-yoga é vencida, tornam-se pessoas de segunda ou primeira classe em consciência de Kṛṣṇa. A fé em Kṛṣṇa também se divide em três estágios e descreve-se no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Apego de primeira classe, apego de segunda classe e apego de terceira classe também se explicam no *Śrīmad-Bhāgavatam*, no Décimo Primeiro Canto. Aqueles que não têm fé mesmo após ouvirem sobre Kṛṣṇa e a excelência do serviço devocional, e que acham ser isso mero elogio, encontram a senda muito difícil, ainda que supostamente se ocupem em serviço devocional. Para eles há muito pouca esperança de alcançar a perfeição. Assim sendo, a fé é muito importante na execução do serviço devocional."}
{"ref": "bg/9/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/4/", "verse_text": "mayā tatam idaṁ sarvaṁ\n\njagad avyakta-mūrtinā\n\nmat-sthāni sarva-bhūtāni\n\nna cāhaṁ teṣv avasthitaḥ", "devanagari": "> मया ततमिदं सर्वं जगदव्यक्तमूर्तिना ।\n> मत्स्थानि सर्वभूतानि न चाहं तेष्ववस्थितः ॥४॥", "synonyms": "*mayā*—por Mim; *tatam*—permeado; *idam*—todas estas manifestações; *sarvam*—toda; *jagat*—manifestação cósmica; *avyakta-mūrtinā*—forma imanifesta; *mat-sthāni*—em Mim; *sarva-bhūtāni*—todas as entidades vivas; *na*—não; *ca*—também; *aham*—Eu; *teṣu*—neles; *avasthitaḥ*—situado.", "translation": "**Por Mim, em Minha forma imanifesta, todo este universo é permeado. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus não é perceptível pelos grosseiros sentidos materiais. Diz-se que o nome, fama, passatempos, etc., do Senhor Śrī Kṛṣṇa não podem ser compreendidos pelos sentidos materiais. Apenas a quem se ocupa em serviço devocional puro sob orientação adequada Ele é revelado. Na Brahma-saṁhitā afirma-se: premāñjana-cchurita... Pode-se ver a Suprema Personalidade de Deus, Govinda, sempre dentro e fora de si mesmo, se a pessoa tiver desenvolvido a atitude transcendental amorosa para com Ele. Assim, para as pessoas em geral, Ele não é visível. Aqui se diz que, embora seja onipenetrante, presente em toda parte, Ele todavia não é concebível pelos sentidos materiais. Mas, na verdade, embora não possamos vê-Lo, tudo repousa Nele. Como discutimos no Sétimo Capítulo, toda a manifestação cósmica material é apenas uma combinação de Suas duas energias diferentes: a energia espiritual superior e a energia material inferior. Assim como a luz do Sol se espalha por todo o universo, a energia do Senhor se espalha por toda a criação, e tudo repousa nessa energia.\n\n\n\nContudo, não se deve concluir que, por estar espalhado por toda parte, Ele tenha perdido Sua existência pessoal. Para refutar tal argumento, o Senhor diz: \"Estou em toda parte, e tudo está em Mim, mas, ainda assim, mantenho-Me à parte\". Por exemplo, um rei chefia um governo que nada mais é que a manifestação da energia do rei; os diferentes departamentos governamentais nada mais são que as energias do rei, e cada departamento repousa no poder do rei. Ainda assim, não se pode esperar que o rei esteja presente pessoalmente em cada departamento. Esse é um exemplo grosseiro. De modo semelhante, todas as manifestações que vemos, e tudo o que existe tanto neste mundo material quanto no mundo espiritual, repousam na energia da Suprema Personalidade de Deus. A criação ocorre pela difusão de Suas diferentes energias, e, como se afirma no *Bhagavad-gītā*, Ele está presente em toda parte por Sua representação pessoal, a difusão de Suas diferentes energias."}
{"ref": "bg/9/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/5/", "verse_text": "na ca mat-sthāni bhūtāni\n\npaśya me yogam aiśvaram\n\nbhūta-bhṛn na ca bhūta-stho\n\nmamātmā bhūta-bhāvanaḥ", "devanagari": "> न च मत्स्थानि भूतानि पश्य मे योगमैश्वरम् ।\n> भूतभृन्न च भूतस्थो ममात्मा भूतभावनः ॥५॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ca*—também; *mat-sthāni*—situadas em Mim; *bhūtāni*—toda a criação; *paśya*—vê só; *me*—Minha; *yogam aiśvaram*—inconcebível poder místico; *bhūta-bhṛt*—mantenedor de todas as entidades vivas; *na*—nunca; *ca*—também; *bhūta-sthaḥ*—na manifestação cósmica; *mama*—Meu; *ātmā*—Eu; *bhūta-bhāvanaḥ*—é a fonte de todas as manifestações.", "translation": "**E, contudo, tudo o que é criado não repousa em Mim. Contempla Minha opulência mística! Embora Eu seja o mantenedor de todas as entidades vivas, e embora esteja em toda parte, ainda assim Meu Eu é a própria fonte da criação.**", "purport": "O Senhor diz que tudo repousa Nele. Isto não deve ser mal compreendido. O Senhor não está diretamente envolvido na manutenção e sustento desta manifestação material. Às vezes vemos um quadro de Atlas segurando o globo sobre os ombros; ele parece muito cansado, sustentando este grande planeta terrestre. Tal imagem não deve ser cultivada em conexão com a sustentação que Kṛṣṇa faz deste universo criado. Ele diz que, embora tudo repouse Nele, mantém-Se ainda à parte. Os sistemas planetários flutuam no espaço, e este espaço é a energia do Senhor Supremo. Mas Ele é diferente do espaço. Está situado de modo distinto. Por isso, o Senhor diz: \"Embora estejam situados em Minha inconcebível energia, Eu, como Suprema Personalidade de Deus, mantenho-Me à parte deles\". Esta é a inconcebível opulência do Senhor.\n\n\n\nNo dicionário Védico afirma-se: \"O Senhor Supremo está realizando passatempos inconcebivelmente maravilhosos, exibindo Sua energia. Sua pessoa está repleta de diferentes energias potentes, e Sua determinação em si mesma é fato real. Desta forma, deve-se compreender a Personalidade de Deus.\" Podemos pensar em fazer algo, mas há tantos impedimentos, e às vezes não é possível fazer como desejaríamos. Mas quando Kṛṣṇa quer fazer algo, simplesmente por Sua vontade, tudo se realiza com tal perfeição que ninguém pode imaginar como está sendo feito. O Senhor explica este fato: embora seja o mantenedor e sustentador de toda manifestação material, Ele não toca nesta manifestação material. Simplesmente por Sua suprema vontade, tudo é criado, tudo é sustentado, tudo é mantido e tudo é aniquilado. Não há diferença entre Sua mente e Ele mesmo (como há diferença entre nós mesmos e nossa mente material atual), porque Ele é espírito absoluto. Simultaneamente, o Senhor está presente em tudo; contudo, o homem comum não pode compreender como Ele também está presente pessoalmente. Ele é diferente desta manifestação material, e, todavia, tudo repousa Nele. Isto se explica aqui como yogam aiśvaram, o poder místico da Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/9/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/6/", "verse_text": "yathākāśa-sthito nityaṁ\n\nvāyuḥ sarvatra-go mahān\n\ntathā sarvāṇi bhūtāni\n\nmat-sthānīty upadhāraya", "devanagari": "> यथाकाशस्थितो नित्यं वायुः सर्वत्रगो महान् ।\n> तथा सर्वाणि भूतानि मत्स्थानीत्युपधारय ॥६॥", "synonyms": "*yathā*—tanto quanto; *ākāśa-sthitaḥ*—situado no espaço; *nityam*—sempre; *vāyuḥ*—vento; *sarvatra-gaḥ*—soprando por toda parte; *mahān*—grande; *tathā*—de modo semelhante; *sarvāṇi*—todos, bhūtāni–seres criados; *mat-sthāni*—situados em Mim; *iti*—assim; *upadhāraya*—procura compreender.", "translation": "**Assim como o poderoso vento, soprando por toda parte, sempre repousa no espaço etéreo, sabe que, da mesma forma, todos os seres repousam em Mim.**", "purport": "Para a pessoa comum, é quase inconcebível como a enorme criação material repousa Nele. Mas o Senhor está dando um exemplo que pode ajudar-nos a compreender. O espaço é a maior manifestação que podemos conceber. A manifestação cósmica repousa no espaço. O espaço permite o movimento até dos átomos, indo até os maiores planetas, o sol e a lua. Embora o céu (ou vento, ou ar) seja grande, ainda assim está situado dentro do espaço. O espaço não está além do céu.\n\n\n\nDe modo semelhante, todas as maravilhosas manifestações cósmicas existem pela suprema vontade de Deus, e todas elas estão subordinadas a essa suprema vontade. Como geralmente dizemos, nenhuma folha de capim se move sem a vontade da Suprema Personalidade de Deus. Assim, tudo se move sob Sua vontade: por Sua vontade tudo é criado, tudo é mantido e tudo é aniquilado. Ainda assim, Ele Se mantém à parte de tudo, como o espaço sempre se mantém à parte das atividades da atmosfera. Nos *Upaniṣads*, afirma-se: \"É por temor ao Senhor Supremo que o vento sopra.\" No Garga Upaniṣad também se afirma: \"Pela ordem suprema, sob a superintendência da Suprema Personalidade de Deus, a lua, o sol e os grandes planetas se movem.\" Na Brahma-saṁhitā isto também se afirma. Há também uma descrição do movimento do sol, e diz-se que o sol é considerado um dos olhos do Senhor Supremo e que tem imensa potência para difundir calor e luz. Ainda assim, ele se move em sua órbita prescrita pela ordem e pela suprema vontade de Govinda. Assim, da literatura Védica podemos encontrar evidência de que esta manifestação material, que nos parece muito maravilhosa e grande, está sob o controle completo da Suprema Personalidade de Deus. Isto será mais explicado nos versos posteriores deste capítulo."}
{"ref": "bg/9/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/7/", "verse_text": "sarva-bhūtāni kaunteya\n\nprakṛtiṁ yānti māmikām\n\nkalpa-kṣaye punas tāni\n\nkalpādau visṛjāmy aham", "devanagari": "> सर्वभूतानि कौन्तेय प्रकृतिं यान्ति मामिकाम् ।\n> कल्पक्षये पुनस्तानि कल्पादौ विसृजाम्यहम् ॥७॥", "synonyms": "*sarva-bhūtāni*—todas as entidades criadas; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *prakṛtim*—natureza; *yānti*—entram; *māmikām*—em Minha; *kalpa-kṣaye*—no fim do milênio; *punaḥ*—novamente; *tāni*—todas elas; *kalpa-ādau*—no início do milênio; *visṛjāmi*—crio; *aham*—Eu.", "translation": "**Ó filho de Kuntī, no fim do milênio, toda manifestação material entra em Minha natureza, e no início de outro milênio, por Minha potência, Eu novamente crio.**", "purport": "A criação, manutenção e aniquilação desta manifestação cósmica material dependem completamente da suprema vontade da Personalidade de Deus. \"No fim do milênio\" significa na morte de Brahmā. Brahmā vive cem anos, e um de seus dias se calcula em 4.300.000.000 dos nossos anos terrestres. Sua noite tem a mesma duração. Seu mês consiste em trinta dessas noites e dias, e seu ano em doze meses. Após cem desses anos, quando Brahmā morre, ocorre a devastação ou aniquilação; isto significa que a energia manifestada pelo Senhor Supremo é novamente recolhida em Si Mesmo. Então, novamente, quando há necessidade de manifestar o mundo cósmico, isso é feito por Sua vontade: \"Embora Eu seja um, tornar-Me-ei muitos.\" Este é o aforismo Védico. Ele Se expande nesta energia material, e toda a manifestação cósmica novamente ocorre."}
{"ref": "bg/9/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/8/", "verse_text": "prakṛtiṁ svām avaṣṭabhya\n\nvisṛjāmi punaḥ punaḥ\n\nbhūta-grāmam imaṁ kṛtsnam\n\navaśaṁ prakṛter vaśāt", "devanagari": "> प्रकृतिं स्वामवष्टभ्य विसृजामि पुनः पुनः ।\n> भूतग्राममिमं कृत्स्नमवशं प्रकृतेर्वशात् ॥८॥", "synonyms": "*prakṛtim*—natureza material; *svām*—de Meu próprio Eu; *avaṣṭabhya*—entrando; *visṛjāmi*—crio; *punaḥ punaḥ*—novamente, novamente; *bhūta-grāmam*—todas estas manifestações cósmicas; *imam*—esta; *kṛtsnam*—total; *avaśam*—automaticamente; *prakṛteḥ*—pela força da natureza; *vaśāt*—sob obrigação.", "translation": "**Toda a ordem cósmica está sob Mim. Por Minha vontade, ela é manifestada repetidas vezes, e, por Minha vontade, é aniquilada no fim.**", "purport": "Esta matéria é a manifestação da energia inferior da Suprema Personalidade de Deus. Isto já foi explicado várias vezes. Na criação, a energia material é solta como mahat-tattva, na qual o Senhor, como Sua primeira encarnação Puruṣa, Mahā-Viṣṇu, entra. Ele Se deita dentro do Oceano Causal e exala inumeráveis universos, e em cada universo o Senhor entra novamente como Garbhodakaśāyī Viṣṇu. Cada universo é desse modo criado. Ainda mais, Ele Se manifesta como Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, e esse Viṣṇu entra em tudo — até no minúsculo átomo. Este fato se explica aqui. Ele entra em tudo.\n\n\n\nOra, no que se refere às entidades vivas, elas são impregnadas nesta natureza material, e, em consequência de seus atos passados, assumem diferentes posições. Assim começam as atividades deste mundo material. As atividades das diferentes espécies de seres vivos começam desde o exato momento da criação. Não é que tudo evolui. As diferentes espécies de vida são criadas imediatamente junto com o universo. Homens, animais, feras, aves — tudo é criado simultaneamente, porque quaisquer desejos que as entidades vivas tinham na última aniquilação são novamente manifestados. Aqui se afirma claramente que as entidades vivas nada têm a ver com este processo. O estado de seu ser na vida passada, na criação passada, é simplesmente manifestado novamente, e tudo isto é feito simplesmente por Sua vontade. Esta é a inconcebível potência da Suprema Personalidade de Deus. E, depois de criar diferentes espécies de vida, Ele não tem conexão com elas. A criação se dá para acomodar as inclinações das diversas entidades vivas, e por isso o Senhor não Se envolve com ela."}
{"ref": "bg/9/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/9/", "verse_text": "na ca māṁ tāni karmāṇi\n\nnibadhnanti dhanañjaya\n\nudāsīna-vad āsīnam\n\nasaktaṁ teṣu karmasu", "devanagari": "> न च मां तानि कर्माणि निबध्नन्ति धनञ्जय ।\n> उदासीनवदासीनमसक्तं तेषु कर्मसु ॥९॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ca*—também; *mām*—a Mim; *tāni*—todas estas; *karmāṇi*—atividades; *nibadhnanti*—prendem; *dhanañjaya*—ó conquistador de riquezas; *udāsīnavat*—como neutro; *āsīnam*—situado; *asaktam*—sem atração; *teṣu*—nelas; *karmasu*—nas atividades.", "translation": "**Ó Dhanañjaya, todo este trabalho não pode prender-Me. Sou sempre desapegado, sentado como se fosse neutro.**", "purport": "Não se deve pensar, neste contexto, que a Suprema Personalidade de Deus não tenha ocupação. Em Seu mundo espiritual, Ele está sempre ocupado. Na Brahma-saṁhitā, afirma-se: \"Ele está sempre envolvido em Suas eternas, bem-aventuradas e espirituais atividades, mas nada tem a ver com estas atividades materiais.\" As atividades materiais estão sendo conduzidas por Suas diferentes potências. O Senhor é sempre neutro nas atividades materiais do mundo criado. Esta neutralidade se explica aqui. Embora tenha controle sobre cada mínimo detalhe da matéria, Ele Se senta como se fosse neutro. Pode-se dar o exemplo de um juiz de tribunal superior sentado em sua bancada. Por sua ordem, muitas coisas estão acontecendo: alguém está sendo enforcado, alguém está sendo posto na prisão, alguém recebe uma quantia enorme de riqueza — mas, ainda assim, ele é neutro. Nada tem a ver com todo esse ganho e perda. De modo semelhante, o Senhor é sempre neutro, embora tenha Sua mão em cada esfera de atividade. No *Vedānta-sūtra*, afirma-se que Ele não está situado nas dualidades deste mundo material. Ele é transcendental a estas dualidades. Tampouco está apegado à criação e à aniquilação deste mundo material. As entidades vivas assumem suas diferentes formas nas várias espécies de vida segundo seus atos passados, e o Senhor não interfere nelas."}
{"ref": "bg/9/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/10/", "verse_text": "mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ\n\nsūyate sa-carācaram\n\nhetunānena kaunteya\n\njagad viparivartate", "devanagari": "> मयाध्यक्षेण प्रकृतिः सूयते सचराचरम् ।\n> हेतुनानेन कौन्तेय जगद्विपरिवर्तते ॥१०॥", "synonyms": "*mayā*—por Mim; *adhyakṣeṇa*—pela superintendência; *prakṛtiḥ*—natureza material; *sūyate*—manifesta; *sa*—com; *carācaram*—móvel e imóvel; *hetunā*—por esta razão; *anena*—esta; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *jagat*—a manifestação cósmica; *viparivartate*—está funcionando.", "translation": "**Esta natureza material está funcionando sob Minha direção, ó filho de Kuntī, e está produzindo todos os seres móveis e imóveis. Por seu domínio, esta manifestação é criada e aniquilada repetidas vezes.**", "purport": "Aqui se afirma claramente que o Senhor Supremo, embora afastado de todas as atividades do mundo material, permanece o supremo diretor. O Senhor Supremo é a vontade suprema e o substrato desta manifestação material, mas a administração é conduzida pela natureza material. Kṛṣṇa também afirma no *Bhagavad-gītā* que de todas as entidades vivas em diferentes formas e espécies, \"Eu sou o Pai\". O pai dá sementes ao ventre da mãe para o filho, e, de modo semelhante, o Senhor Supremo, por Seu mero olhar, injeta todas as entidades vivas no ventre da natureza material, e elas saem em suas diferentes formas e espécies, segundo seus últimos desejos e atividades. Todas essas entidades vivas, embora nascidas sob o olhar do Senhor Supremo, ainda assim assumem seus diferentes corpos segundo seus atos e desejos passados. Assim, o Senhor não está diretamente apegado a esta criação material. Ele apenas lança o olhar sobre a natureza material; a natureza material assim se ativa, e tudo é criado imediatamente. Por lançar o olhar sobre a natureza material, há, sem dúvida, atividade da parte do Senhor Supremo, mas Ele nada tem a ver diretamente com a manifestação do mundo material. Este exemplo é dado no smṛti: quando há uma flor perfumada diante de alguém, o aroma é tocado pelo poder olfativo da pessoa, mas o olfato e a flor estão separados um do outro. Há conexão semelhante entre o mundo material e a Suprema Personalidade de Deus; na verdade, Ele nada tem a ver com este mundo material, mas cria por Seu olhar e ordena. Em resumo, a natureza material, sem a superintendência da Suprema Personalidade de Deus, nada pode fazer. Contudo, a Suprema Personalidade está desapegada de todas as atividades materiais."}
{"ref": "bg/9/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/11/", "verse_text": "avajānanti māṁ mūḍhā\n\nmānuṣīṁ tanum āśritam\n\nparaṁ bhāvam ajānanto\n\nmama bhūta-maheśvaram", "devanagari": "> अवजानन्ति मां मूढा मानुषीं तनुमाश्रितम् ।\n> परं भावमजानन्तो मम भूतमहेश्वरम् ॥११॥", "synonyms": "*avajānanti*—zombam; *mām*—de Mim; *mūḍhāḥ*—homens tolos; *mānuṣīm*—em forma humana; *tanum*—corpo; *āśritam*—assumindo; *param*—transcendental; *bhāvam*—natureza; *ajānantaḥ*—não conhecendo; *mama*—Meu; *bhūta*—tudo o que existe; *maheśvaram*—supremo proprietário.", "translation": "**Os tolos zombam de Mim quando desço sob a forma humana. Eles não conhecem Minha natureza transcendental nem Meu domínio supremo sobre tudo o que existe.**", "purport": "Pelas outras explicações dos versos anteriores deste capítulo, está claro que a Suprema Personalidade de Deus, embora apareça como um ser humano, não é um homem comum. A Personalidade de Deus, que conduz a criação, manutenção e aniquilação da completa manifestação cósmica, não pode ser um ser humano. Ainda assim, há muitos homens tolos que consideram Kṛṣṇa apenas um homem poderoso e nada mais. De fato, Ele é a Suprema Personalidade original, como se confirma na Brahma-saṁhitā (iśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ); Ele é o Senhor Supremo.\n\n\n\nHá muitos īśvaras, controladores, e um aparece maior que o outro. No comum gerenciamento dos assuntos do mundo material, encontramos algum funcionário ou diretor, e acima dele há um secretário, e acima dele um ministro, e acima dele um presidente. Cada um deles é um controlador, mas um é controlado pelo outro. Na Brahma-saṁhitā diz-se que Kṛṣṇa é o supremo controlador; há, indubitavelmente, muitos controladores tanto no mundo material como no espiritual, mas Kṛṣṇa é o supremo controlador (īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ), e Seu corpo é sac-cid-ānanda, não material.\n\n\n\nOs corpos materiais não podem realizar os atos maravilhosos descritos nos versos anteriores. Seu corpo é eterno, bem-aventurado e pleno de conhecimento. Embora Ele não seja um homem comum, os tolos zombam Dele e consideram-No um homem. Seu corpo é aqui chamado mānuṣīm porque Ele age tal como um homem, um amigo de Arjuna, um político envolvido na Batalha de Kurukṣetra. De muitas maneiras, Ele age tal como um homem comum, mas, na verdade, Seu corpo é sac-cid-ānanda-vigraha — eterna bem-aventurança e conhecimento absoluto. Isto se confirma também na linguagem Védica (sac-cid-ānanda-rūpāya kṛṣṇāya): \"Ofereço minhas reverências à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, que é a forma eterna e bem-aventurada do conhecimento.\" Há outras descrições na linguagem Védica também. Tam ekaṁ govindam: \"Tu és Govinda, o prazer dos sentidos e das vacas.\" Sac-cid-ānanda-vigraham: \"E Tua forma é transcendental, plena de conhecimento, bem-aventurança e eternidade.\"\n\n\n\nApesar das qualidades transcendentais do corpo do Senhor Kṛṣṇa, sua plena bem-aventurança e conhecimento, há muitos supostos eruditos e comentadores do *Bhagavad-gītā* que zombam de Kṛṣṇa como um homem comum. O erudito pode ter nascido um homem extraordinário devido a seu bom trabalho anterior, mas esta concepção de Śrī Kṛṣṇa se deve a um pobre fundo de conhecimento. Por isso, ele é chamado mūḍha, pois apenas pessoas tolas consideram Kṛṣṇa um ser humano comum, porque não conhecem as atividades confidenciais do Senhor Supremo nem Suas diferentes energias. Não sabem que o corpo de Kṛṣṇa é símbolo de completo conhecimento e bem-aventurança, que Ele é o proprietário de tudo o que existe e que pode conceder liberação a qualquer um. Por não saberem que Kṛṣṇa tem tantas qualificações transcendentais, zombam Dele.\n\n\n\nTampouco sabem que o aparecimento da Suprema Personalidade de Deus neste mundo material é uma manifestação de Sua energia interna. Ele é o senhor da energia material. Como se explicou em várias passagens (mama māyā duratyayā), Ele afirma que a energia material, embora muito poderosa, está sob Seu controle, e quem se render a Ele pode escapar do controle desta energia material. Se uma alma rendida a Kṛṣṇa pode escapar da influência da energia material, então como pode o Senhor Supremo, que conduz a criação, manutenção e aniquilação de toda a natureza cósmica, ter um corpo material como o nosso? Por isso, esta concepção de Kṛṣṇa é completa tolice. As pessoas tolas, contudo, não podem conceber que a Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, aparecendo tal como um homem comum, possa ser o controlador de todos os átomos e da gigantesca manifestação da forma universal. O maior e o mais minúsculo estão além de sua concepção, de modo que não podem imaginar que uma forma como a de um ser humano possa simultaneamente controlar o infinito e o minúsculo. Na verdade, embora controle o infinito e o finito, Ele está à parte de toda esta manifestação. Afirma-se claramente, a respeito de Seu yogam aiśvaram, Sua inconcebível energia transcendental, que Ele pode controlar o infinito e o finito simultaneamente e que pode manter-Se à parte deles. Embora os tolos não possam imaginar como Kṛṣṇa, que aparece tal como um ser humano, possa controlar o infinito e o finito, aqueles que são devotos puros aceitam isto, pois sabem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Por isso, rendem-se completamente a Ele e ocupam-se em consciência de Kṛṣṇa, em serviço devocional ao Senhor.\n\n\n\nHá muitas controvérsias entre os impersonalistas e os personalistas acerca do aparecimento do Senhor como ser humano. Mas, se consultarmos o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam*, os textos autorizados para se compreender a ciência de Kṛṣṇa, então poderemos compreender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Ele não é um homem comum, embora apareça nesta terra como um ser humano comum. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, Primeiro Canto, Primeiro Capítulo, quando os sábios perguntam sobre as atividades de Kṛṣṇa, afirma-se que Seu aparecimento como homem desconcerta os tolos. Nenhum ser humano poderia realizar os atos maravilhosos que Kṛṣṇa realizou enquanto esteve presente nesta terra. Quando Kṛṣṇa apareceu diante de Seu pai e Sua mãe, Vasudeva e Devakī, Ele apareceu com quatro mãos, mas, após as orações dos pais, transformou-Se numa criança comum. Seu aparecimento como ser humano comum é um dos traços de Seu corpo transcendental. No Décimo Primeiro Capítulo do *Gītā* também se afirma, tenaiva rūpeṇa etc. Arjuna orou para ver novamente aquela forma de quatro mãos, e quando Kṛṣṇa foi assim solicitado por Arjuna, novamente assumiu Sua forma original. Todos esses diferentes traços do Senhor Supremo certamente não são os de um ser humano comum.\n\n\n\nAlguns daqueles que zombam de Kṛṣṇa, infectados pela filosofia māyāvādī, citam o seguinte verso do *Śrīmad-Bhāgavatam* para provar que Kṛṣṇa é apenas um homem comum: ahaṁ sarveṣu bhūteṣu bhūtātmāvasthitaḥ sadā: \"O Supremo está presente em cada entidade viva.\" (Bhāg. 3.29.21) Faríamos melhor em tomar nota deste verso particular dos vaiṣṇava ācāryas, como Jīva Gosvāmī, em vez de seguirmos a interpretação de pessoas não autorizadas que zombam de Kṛṣṇa. Jīva Gosvāmī, comentando este verso, diz que Kṛṣṇa, em Sua expansão plenária como Paramātmā, está situado nas entidades móveis e imóveis como a Superalma; portanto, qualquer devoto neófito que apenas dê atenção à arca-mūrti, a forma do Senhor Supremo no templo, e não respeite as outras entidades vivas, está adorando inutilmente a forma do Senhor no templo. Há três classes de devotos do Senhor, e o neófito está no estágio mais baixo. O devoto neófito dá mais atenção à Deidade no templo do que aos outros devotos; assim sendo, Jīva Gosvāmī adverte que esse tipo de mentalidade deve ser corrigido. O devoto deve ver que Kṛṣṇa está presente no coração de todos como Paramātmā; portanto, todo corpo é a personificação ou o templo do Senhor Supremo, e, como tal, assim como se oferece respeito ao templo do Senhor, deve-se igualmente respeitar adequadamente todo e qualquer corpo no qual o Paramātmā habita. Todos, portanto, devem receber o respeito devido e não devem ser negligenciados.\n\n\n\nHá também muitos impersonalistas que zombam da adoração no templo. Dizem que, visto que Deus está em toda parte, por que se restringir à adoração no templo? Mas, se Deus está em toda parte, não está Ele no templo ou na Deidade? Embora o personalista e o impersonalista lutem entre si perpetuamente, um devoto perfeito em consciência de Kṛṣṇa sabe que, embora Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade, Ele é onipenetrante, como se confirma na Brahma-saṁhitā. Embora Sua morada pessoal seja Goloka Vṛndāvana e Ele esteja sempre lá, ainda assim, por Suas diferentes manifestações de energia e por Sua expansão plenária, Ele está presente em toda parte, em todas as partes da criação material e espiritual."}
{"ref": "bg/9/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/12/", "verse_text": "moghāśā mogha-karmāṇo\n\nmogha-jñānā vicetasaḥ\n\nrākṣasīm āsurīṁ caiva\n\nprakṛtiṁ mohinīṁ śritāḥ", "devanagari": "> मोघाशा मोघकर्माणो मोघज्ञाना विचेतसः ।\n> राक्षसीमासुरीं चैव प्रकृतिं मोहिनीं श्रिताः ॥१२॥", "synonyms": "*moghāśāḥ*—esperanças frustradas; *mogha-karmāṇaḥ*—frustrados em atividades fruitivas; *mogha-jñānāḥ*—frustrados em conhecimento; *vicetasaḥ*—desconcertados; *rākṣasīm*—demoníaca; *āsurīm*—ateísta; *ca*—e; *eva*—certamente; *prakṛtim*—natureza; *mohinīm*—desconcertante; *śritāḥ*—refugiando-se em.", "translation": "**Aqueles que assim se acham desconcertados são atraídos por concepções demoníacas e ateístas. Em tal condição iludida, suas esperanças de liberação, suas atividades fruitivas e seu cultivo de conhecimento ficam todos derrotados.**", "purport": "Há muitos devotos que se supõem em consciência de Kṛṣṇa e em serviço devocional, mas que, no íntimo, não aceitam a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, como a Verdade Absoluta. Para eles, o fruto do serviço devocional — voltar ao Supremo — nunca será saboreado. De modo semelhante, aqueles que se ocupam em atividades fruitivas e piedosas, e que em última análise esperam libertar-se deste enredamento material, jamais terão êxito tampouco, pois zombam da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Em outras palavras, devem-se compreender como demoníacas ou ateístas as pessoas que zombam de Kṛṣṇa. Como se descreve no Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā*, tais malfeitores demoníacos jamais se rendem a Kṛṣṇa. Por isso, suas especulações mentais para chegar à Verdade Absoluta levam-nos à falsa conclusão de que a entidade viva comum e Kṛṣṇa são idênticos. Com tal falsa convicção, eles pensam que o corpo de qualquer ser humano se acha agora apenas coberto pela natureza material, e que, tão logo a pessoa se liberte deste corpo material, não há diferença entre Deus e ela mesma. Esta tentativa de tornar-se um com Kṛṣṇa será frustrada por causa da ilusão. Tal cultivo ateísta e demoníaco de conhecimento espiritual é sempre fútil. Esta é a indicação deste verso. Para tais pessoas, o cultivo do conhecimento na literatura Védica, como o *Vedānta-sūtra* e os *Upaniṣads*, é sempre frustrado.\n\n\n\nÉ, portanto, uma grande ofensa considerar *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, um homem comum. Aqueles que assim agem certamente estão iludidos, pois não podem compreender a forma eterna de Kṛṣṇa. No Bṛhad-vaiṣṇava mantra afirma-se claramente que aquele que considera o corpo de Kṛṣṇa material deve ser expulso de todos os rituais e atividades do śruti. E, se acaso vir-lhe o rosto, deve banhar-se imediatamente no Ganges para livrar-se da infecção. As pessoas zombam de Kṛṣṇa porque têm inveja da Suprema Personalidade de Deus. Seu destino é certamente nascer vida após vida nas espécies de vida ateísta e demoníaca. Perpetuamente, seu verdadeiro conhecimento permanecerá sob ilusão e, gradualmente, regredirão à mais escura região da criação."}
{"ref": "bg/9/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/13/", "verse_text": "mahātmānas tu māṁ pārtha\n\ndaivīṁ prakṛtim āśritāḥ\n\nbhajanty ananya-manaso\n\njñātvā bhūtādim avyayam", "devanagari": "> महात्मानस्तु मां पार्थ दैवीं प्रकृतिमाश्रिताः ।\n> भजन्त्यनन्यमनसो ज्ञात्वा भूतादिमव्ययम् ॥१३॥", "synonyms": "*mahātmānaḥ*—as grandes almas; *tu*—mas; *mām*—a Mim; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *daivīm*—divina; *prakṛtim*—natureza; *āśritāḥ*—refugiando-se em; *bhajanti*—prestam serviço; *ananya-manasaḥ*—sem desvio da mente; *jñātvā*—conhecendo; *bhūta*—criação; *ādim*—origem; *avyayam*—inesgotável.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, aqueles que não estão iludidos, as grandes almas, encontram-se sob a proteção da natureza divina. Eles ocupam-se plenamente em serviço devocional, pois Me conhecem como a Suprema Personalidade de Deus, original e inesgotável.**", "purport": "Neste verso, dá-se claramente a descrição do mahātmā. O primeiro sinal do mahātmā é que ele já se encontra situado na natureza divina. Não está sob o controle da natureza material. E como isso se efetua? Isso se explica no Sétimo Capítulo: aquele que se rende à Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, imediatamente fica livre do controle da natureza material. Esta é a qualificação. Pode-se ficar livre do controle da natureza material tão logo se entregue a alma à Suprema Personalidade de Deus. Esta é a fórmula preliminar. Sendo potência marginal, tão logo a entidade viva se liberta do controle da natureza material, é colocada sob a orientação da natureza espiritual. A orientação da natureza espiritual chama-se daivīṁ prakṛtim, natureza divina. Assim, quando alguém é promovido dessa maneira — rendendo-se à Suprema Personalidade de Deus —, alcança o estágio de grande alma, mahātmā.\n\n\n\nO mahātmā não desvia sua atenção para nada que esteja fora de Kṛṣṇa, pois sabe perfeitamente que Kṛṣṇa é a Pessoa Suprema original, a causa de todas as causas. Não há dúvida quanto a isso. Tal mahātmā, ou grande alma, desenvolve-se pela associação com outros mahātmās, devotos puros. Os devotos puros não se sentem atraídos sequer pelos outros traços de Kṛṣṇa, como o de Mahā-Viṣṇu de quatro braços. Eles se sentem atraídos apenas pela forma de Kṛṣṇa de duas mãos. Visto que não se sentem atraídos por outros traços de Kṛṣṇa (sem mencionar os semideuses), não se preocupam com qualquer forma de semideus ou de ser humano. Apenas meditam em Kṛṣṇa, em consciência de Kṛṣṇa. Estão sempre ocupados no inabalável serviço ao Senhor, em consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/9/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/14/", "verse_text": "satataṁ kīrtayanto māṁ\n\nyatantaś ca dṛḍha-vratāḥ\n\nnamasyantaś ca māṁ bhaktyā\n\nnitya-yuktā upāsate", "devanagari": "> सततं कीर्तयन्तो मां यतन्तश्च दृढव्रताः ।\n> नमस्यन्तश्च मां भक्त्या नित्ययुक्ता उपासते ॥१४॥", "synonyms": "*satatam*—sempre; *kīrtayantaḥ*—cantando; *mām*—a Mim; *yatantaḥ ca*—esforçando-se também plenamente; *dṛḍha-vratāḥ*—com determinação; *namasyantaḥ ca*—oferecendo reverências; *mām*—a Mim; *bhaktyā*—em devoção; *nitya-yuktāḥ*—perpetuamente ocupados; *upāsate*—adoram.", "translation": "**Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com grande determinação, prostrando-se diante de Mim, essas grandes almas Me adoram perpetuamente com devoção.**", "purport": "Não se pode fabricar um mahātmā carimbando um homem comum. Seus sintomas são aqui descritos: o mahātmā ocupa-se sempre em cantar as glórias do Senhor Supremo Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. Ele não tem outra ocupação. Está sempre ocupado na glorificação do Senhor. Em outras palavras, ele não é impersonalista. Quando se trata de glorificação, deve-se glorificar o Senhor Supremo, louvando Seu santo nome, Sua forma eterna, Suas qualidades transcendentais e Seus passatempos incomuns. Deve-se glorificar todas essas coisas; portanto, o mahātmā é apegado à Suprema Personalidade de Deus.\n\n\n\nAquele que está apegado ao aspecto impessoal do Senhor Supremo, o brahmajyoti, não é descrito como mahātmā no *Bhagavad-gītā*. Ele é descrito de modo diverso no próximo verso. O mahātmā ocupa-se sempre em diferentes atividades de serviço devocional, como se descreve no *Śrīmad-Bhāgavatam*: ouvindo e cantando sobre Viṣṇu, e não sobre um semideus ou ser humano. Isto é devoção: śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ, smaraṇam, e a recordação Dele. Tal mahātmā tem firme determinação de alcançar, no fim último, a associação do Senhor Supremo em qualquer um dos cinco rasas transcendentais. Para alcançar tal êxito, ele ocupa todas as atividades — mentais, corporais e vocais, tudo — no serviço ao Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa. Isto se chama plena consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nNo serviço devocional, há certas atividades que se chamam determinadas, tais como jejuar em certos dias, como o décimo primeiro dia da lua, Ekādaśī, e no dia do aparecimento do Senhor, etc. Todas essas regras e regulações são oferecidas pelos grandes ācāryas para os que de fato estão interessados em obter admissão na associação da Suprema Personalidade de Deus no mundo transcendental. Os mahātmās, grandes almas, observam estritamente todas essas regras e regulações, e por isso é certo que alcancem o resultado desejado.\n\n\n\nComo se descreve no segundo verso deste capítulo, este serviço devocional não é apenas fácil, mas pode ser realizado em ânimo feliz. Não é preciso passar por penitência e austeridade severas. A pessoa pode viver esta vida em serviço devocional, guiada por um mestre espiritual experiente, e em qualquer posição — seja como chefe de família, sannyāsī ou brahmacārī. Em qualquer posição e em qualquer parte do mundo, pode-se realizar este serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus e assim tornar-se realmente um mahātmā, uma grande alma."}
{"ref": "bg/9/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/15/", "verse_text": "jñāna-yajñena cāpy anye\n\nyajanto mām upāsate\n\nekatvena pṛthaktvena\n\nbahudhā viśvato-mukham", "devanagari": "> ज्ञानयज्ञेन चाप्यन्ये यजन्तो मामुपासते ।\n> एकत्वेन पृथक्त्वेन बहुधा विश्वतोमुखम् ॥१५॥", "synonyms": "*jñāna-yajñena*—pelo cultivo de conhecimento; *ca*—também; *api*—certamente; *anye*—outros; *yajantaḥ*—adorando; *mām*—a Mim; *upāsate*—adoram; *ekatvena*—em unidade; *pṛthaktvena*—em dualidade; *bahudhā*—diversidade; *viśvataḥ-mukham*—na forma universal.", "translation": "**Outros, que se ocupam no cultivo do conhecimento, adoram o Senhor Supremo como o uno sem segundo, como o diverso em muitos e na forma universal.**", "purport": "Este verso é o resumo dos versos anteriores. O Senhor diz a Arjuna que aqueles que estão puramente em consciência de Kṛṣṇa e nada mais conhecem além de Kṛṣṇa são chamados mahātmā; contudo, há outras pessoas que não estão exatamente na posição de mahātmā, mas que também adoram Kṛṣṇa, de diferentes maneiras. Algumas delas já foram descritas como os aflitos, os financeiramente destituídos, os curiosos e os que se ocupam no cultivo do conhecimento. Mas há outros ainda mais inferiores, e estes se dividem em três: 1) Aquele que adora a si mesmo como sendo um com o Senhor Supremo; 2) aquele que inventa alguma forma do Senhor Supremo e a adora; e 3) aquele que aceita a forma universal, o viśvarūpa da Suprema Personalidade de Deus, e a adora. Dos três acima, os mais predominantes são os mais inferiores: aqueles que adoram a si mesmos como o Senhor Supremo, considerando-se monistas. Tais pessoas pensam ser elas próprias o Senhor Supremo, e nessa mentalidade adoram a si mesmas. Esta também é uma espécie de adoração a Deus, pois podem compreender que não são o corpo material, mas, na verdade, alma espiritual; ao menos, este senso é proeminente. Em geral, os impersonalistas adoram o Senhor Supremo dessa forma. A segunda classe inclui os adoradores dos semideuses, aqueles que, por imaginação, consideram qualquer forma como sendo a forma do Senhor Supremo. E a terceira classe inclui aqueles que não podem conceber nada além da manifestação deste universo material. Eles consideram o universo o supremo organismo ou entidade e o adoram. O universo também é uma forma do Senhor."}
{"ref": "bg/9/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/16/", "verse_text": "ahaṁ kratur ahaṁ yajñaḥ\n\nsvadhāham aham auṣadham\n\nmantro 'ham aham evājyam\n\naham agnir ahaṁ hutam", "devanagari": "> अहं क्रतुरहं यज्ञः स्वधाहमहमौषधम् ।\n> मन्त्रोऽहमहमेवाज्यमहमग्निरहं हुतम् ॥१६॥", "synonyms": "*aham*—Eu; *kratuḥ*—ritual; *aham*—Eu; *yajñaḥ*—sacrifício; *svadhā*—oblação; *aham*—Eu; *aham*—Eu; *auṣadham*—erva curativa; *mantraḥ*—canto transcendental; *aham*—Eu; *aham*—Eu; *eva*—certamente; *ajyam*—manteiga derretida; *aham*—Eu; *agniḥ*—fogo; *aham*—Eu; *hutam*—oferenda.", "translation": "**Mas Eu sou o ritual, Eu sou o sacrifício, a oferenda aos antepassados, a erva curativa, o canto transcendental. Eu sou a manteiga, o fogo e a oferenda.**", "purport": "O sacrifício conhecido como jyotiṣṭoma também é Kṛṣṇa, e Ele é também o mahā-yajña. As oblações oferecidas ao Pitṛloka, ou o sacrifício realizado para satisfazer o Pitṛloka, considerado uma espécie de droga sob a forma de manteiga clarificada, também é Kṛṣṇa. Os mantras cantados nesse contexto também são Kṛṣṇa. E muitos outros artigos feitos com produtos lácteos para oferecimento nos sacrifícios também são Kṛṣṇa. O fogo também é Kṛṣṇa, pois o fogo é um dos cinco elementos materiais e, por conseguinte, declara-se ser a energia separada de Kṛṣṇa. Em outras palavras, os sacrifícios Védicos recomendados na divisão karma-kāṇḍa dos *Vedas* são, em sua totalidade, também Kṛṣṇa. Ou, em outras palavras, deve-se entender que aqueles que se ocupam em prestar serviço devocional a Kṛṣṇa realizaram todos os sacrifícios recomendados nos *Vedas*."}
{"ref": "bg/9/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/17/", "verse_text": "pitāham asya jagato\n\nmātā dhātā pitāmahaḥ\n\nvedyaṁ pavitram oṁkāra\n\nṛk sāma yajur eva ca", "devanagari": "> पिताहमस्य जगतो माता धाता पितामहः ।\n> वेद्यं पवित्रमोंकार ऋक्साम यजुरेव च ॥१७॥", "synonyms": "*pitā*—pai; *aham*—Eu; *asya*—deste; *jagataḥ*—do universo; *mātā*—mãe; *dhātā*—sustentador; *pitāmahaḥ*—avô; *vedyam*—o que se há de conhecer; *pavitram*—aquilo que purifica; *omkāraḥ*—a sílaba om; *ṛk*—o Ṛg-veda; *sāma*—o Sāma-veda; *yajuḥ*—o Yajur-veda; *eva*—certamente; *ca*—e.", "translation": "**Eu sou o pai deste universo, a mãe, o sustento e o avô. Sou o objeto do conhecimento, o purificador e a sílaba om. Sou também o Ṛk, o Sāma e o Yajur [*Vedas*].**", "purport": "As inteiras manifestações cósmicas, móveis e imóveis, manifestam-se por diferentes atividades da energia de Kṛṣṇa. Na existência material, criamos diferentes relacionamentos com diferentes entidades vivas, que nada mais são que a energia marginal de Kṛṣṇa; mas, sob a criação de prakṛti, algumas delas aparecem como nosso pai, mãe, avô, criador, etc., quando, na verdade, são partes integrantes de Kṛṣṇa. Como tais, essas entidades vivas que aparecem como nosso pai, mãe, etc., nada mais são que Kṛṣṇa. Neste verso, a palavra dhātā significa criador. Não apenas nosso pai e nossa mãe são partes integrantes de Kṛṣṇa, mas também o criador, a avó, o avô, etc., são também Kṛṣṇa. Na verdade, qualquer entidade viva, sendo parte integrante de Kṛṣṇa, é Kṛṣṇa. Todos os *Vedas*, portanto, visam unicamente a Kṛṣṇa. Tudo o que queiramos saber por meio dos *Vedas* é apenas um passo progressivo para compreender Kṛṣṇa. O assunto que nos ajuda a purificar nossa posição constitucional é especialmente Kṛṣṇa. De modo semelhante, a entidade viva curiosa para compreender todos os princípios Védicos também é parte integrante de Kṛṣṇa e, como tal, também é Kṛṣṇa. Em todos os mantras Védicos, a palavra om, chamada praṇava, é uma vibração sonora transcendental e também é Kṛṣṇa. E porque, em todos os hinos dos quatro *Vedas* — Sāma, Yajur, Ṛg e Atharva —, o praṇava ou omkāra é muito proeminente, entende-se que ele é Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/9/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/18/", "verse_text": "gatir bhartā prabhuḥ sākṣī\n\nnivāsaḥ śaraṇaṁ suhṛt\n\nprabhavaḥ pralayaḥ sthānaṁ\n\nnidhānaṁ bījam avyayam", "devanagari": "> गतिर्भर्ता प्रभुः साक्षी निवासः शरणं सुहृत् ।\n> प्रभवः प्रलयः स्थानं निधानं बीजमव्ययम् ॥१८॥", "synonyms": "*gatiḥ*—meta; *bhartā*—sustentador; *prabhuḥ*—Senhor; *sākṣī*—testemunha; *nivāsaḥ*—morada; *śaraṇam*—refúgio; *suhṛt*—amigo mais íntimo; *prabhavaḥ*—criação; *pralayaḥ*—dissolução; *sthānam*—base; *nidhānam*—lugar de descanso; *bījam*—semente; *avyayam*—imperecível.", "translation": "**Eu sou a meta, o sustentador, o senhor, a testemunha, a morada, o refúgio e o mais querido amigo. Sou a criação e a aniquilação, a base de tudo, o lugar de descanso e a semente eterna.**", "purport": "Gati significa o destino para onde queremos ir. Mas a meta última é Kṛṣṇa, embora as pessoas não o saibam. Quem não conhece Kṛṣṇa está desviado, e sua suposta marcha progressiva é parcial ou alucinatória. Há muitos que fazem como destino diferentes semideuses e, pela rigorosa execução dos respectivos métodos, atingem diferentes planetas conhecidos como Candraloka, Sūryaloka, Indraloka, Maharloka, etc. Mas todos esses lokas ou planetas, sendo criações de Kṛṣṇa, são simultaneamente Kṛṣṇa e não Kṛṣṇa. Na verdade, tais planetas, sendo as manifestações da energia de Kṛṣṇa, também são Kṛṣṇa, mas, na verdade, servem apenas como um passo à frente para a compreensão de Kṛṣṇa. Aproximar-se das diferentes energias de Kṛṣṇa é aproximar-se de Kṛṣṇa indiretamente. Deve-se aproximar-se diretamente de Kṛṣṇa, pois isso poupará tempo e energia. Por exemplo, se há a possibilidade de subir ao topo de um edifício pelo elevador, por que ir pela escada, degrau por degrau? Tudo repousa na energia de Kṛṣṇa; portanto, sem o abrigo de Kṛṣṇa, nada pode existir. Kṛṣṇa é o supremo governante porque tudo Lhe pertence e tudo existe em Sua energia. Kṛṣṇa, estando situado no coração de todos, é a suprema testemunha. As residências, os países ou os planetas em que vivemos também são Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é a meta última de refúgio, e como tal deve-se tomar refúgio em Kṛṣṇa, seja para proteção, seja para a aniquilação da condição aflitiva. E, sempre que tivermos de tomar proteção, devemos saber que nossa proteção há de ser uma força viva. Assim, Kṛṣṇa é a entidade viva suprema. Visto que Kṛṣṇa é a fonte de nossa geração, ou o pai supremo, ninguém pode ser melhor amigo que Kṛṣṇa, nem ninguém pode ser melhor benquerente. Kṛṣṇa é a fonte original da criação e o derradeiro descanso após a aniquilação. Kṛṣṇa é, portanto, a causa eterna de todas as causas."}
{"ref": "bg/9/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/19/", "verse_text": "tapāmy aham ahaṁ varṣaṁ\n\nnigṛhṇāmy utsṛjāmi ca\n\namṛtaṁ caiva mṛtyuś ca\n\nsad asac cāham arjuna", "devanagari": "> तपाम्यहमहं वर्षं निगृह्णाम्युत्सृजामि च ।\n> अमृतं चैव मृत्युश्च सदसच्चाहमर्जुन ॥१९॥", "synonyms": "*tapāmi*—dou calor; *aham*—Eu; *aham*—Eu; *varṣam*—chuva; *nigṛhṇāmi*—retenho; *utsṛjāmi*—envio; *ca*—e; *amṛtam*—imortalidade; *ca*—e; *eva*—certamente; *mṛtyuḥ*—morte; *ca*—e; *sat*—ser; *asat*—não-ser; *ca*—e; *aham*—Eu; *arjuna*—ó Arjuna.", "translation": "**Ó Arjuna, Eu controlo o calor, a chuva e a seca. Eu sou a imortalidade, e sou também a morte personificada. Tanto o ser quanto o não-ser estão em Mim.**", "purport": "Kṛṣṇa, por Suas diferentes energias, difunde calor e luz por meio da agência da eletricidade e do sol. Durante o verão, é Kṛṣṇa quem impede que a chuva caia do céu, e então, durante a estação chuvosa, dá incessantes torrentes de chuva. A energia que nos sustém prolongando a duração de nossa vida é Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa nos encontra ao final como morte. Analisando todas essas diferentes energias de Kṛṣṇa, pode-se determinar que, para Kṛṣṇa, não há distinção entre matéria e espírito; ou, em outras palavras, Ele é tanto matéria quanto espírito. No estágio avançado da consciência de Kṛṣṇa, portanto, não se fazem tais distinções. Vê-se Kṛṣṇa apenas em tudo.\n\n\n\nVisto que Kṛṣṇa é tanto matéria quanto espírito, a gigantesca forma universal, que abrange todas as manifestações materiais, também é Kṛṣṇa, e Seus passatempos em Vṛndāvana, como Śyāmasundara de duas mãos, tocando flauta, são os da Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/9/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/20/", "verse_text": "trai-vidyā māṁ soma-pāḥ pūta-pāpā\n\nyajñair iṣṭvā svar-gatiṁ prārthayante\n\nte puṇyam āsādya surendra-lokam\n\naśnanti divyān divi deva-bhogān", "devanagari": "> त्रैविद्या मां सोमपाः पूतपापा\n> यज्ञैरिष्ट्वा स्वर्गतिं प्रार्थयन्ते ।\n> ते पुण्यमासाद्य सुरेन्द्रलोक-\n> मश्नन्ति दिव्यान्दिवि देवभोगान् ॥२०॥", "synonyms": "*trai-vidyāḥ*—os conhecedores dos três Vedas; *mām*—a Mim; *soma-pāḥ*—bebedores de suco soma; *pūta*—purificados; *pāpāḥ*—pecados; *yajñaiḥ*—com sacrifícios; *iṣṭvā*—após adorar; *svargatim*—passagem ao céu; *prārthayante*—oram; *te*—eles; *puṇyam*—virtude; *āsādya*—desfrutando; *surendra*—de Indra; *lokam*—mundo; *aśnanti*—desfrutam; *divyān*—celestiais; *divi*—no céu; *deva-bhogān*—prazeres dos deuses.", "translation": "**Aqueles que estudam os *Vedas* e bebem o suco soma, buscando os planetas celestiais, adoram-Me indiretamente. Nascem no planeta de Indra, onde desfrutam dos deleites divinos.**", "purport": "A palavra trai-vidyāḥ refere-se aos três *Vedas*: Sāma, Yajur e Ṛg. Um brāhmaṇa que tenha estudado esses três *Vedas* é chamado tri-vedī. Quem é muito apegado ao conhecimento derivado desses três *Vedas* é respeitado na sociedade. Infelizmente, há muitos grandes eruditos dos *Vedas* que não conhecem o propósito último de seu estudo. Por isso, Kṛṣṇa aqui Se declara a meta última para os tri-vedīs. Os verdadeiros tri-vedīs refugiam-se sob os pés de lótus de Kṛṣṇa e ocupam-se em puro serviço devocional para satisfazer o Senhor. O serviço devocional começa com o canto do mantra Hare Kṛṣṇa e, paralelamente, com a tentativa de compreender Kṛṣṇa em verdade. Infelizmente, aqueles que são apenas estudantes oficiais dos *Vedas* interessam-se mais por oferecer sacrifícios aos diferentes semideuses, como Indra, Candra, etc. Por tal esforço, os adoradores de diferentes semideuses certamente se purificam da contaminação das qualidades inferiores da natureza e, com isso, são elevados ao sistema planetário superior, ou planetas celestiais conhecidos como Maharloka, Janaloka, Tapoloka, etc. Uma vez situados nesses sistemas planetários superiores, pode-se satisfazer os sentidos centenas de milhares de vezes melhor do que neste planeta."}
{"ref": "bg/9/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/21/", "verse_text": "te taṁ bhuktvā svarga-lokaṁ viśālaṁ\n\nkṣīṇe puṇye martya-lokaṁ viśanti\n\nevaṁ trayī-dharmam anuprapannā\n\ngatāgataṁ kāma-kāmā labhante", "devanagari": "> ते तं भुक्त्वा स्वर्गलोकं विशालं\n> क्षीणे पुण्ये मर्त्यलोकं विशन्ति ।\n> एवं त्रयीधर्ममनुप्रपन्ना\n> गतागतं कामकामा लभन्ते ॥२१॥", "synonyms": "*te*—eles; *tam*—aquele; *bhuktvā*—desfrutando; *svarga-lokam*—céu; *viśālam*—vasto; *kṣīṇe*—estando exauridos; *puṇye*—méritos; *martya-lokam*—terra mortal; *viśanti*—caem; *evam*—assim; *trayī*—três Vedas; *dharmam*—doutrinas; *anuprapannāḥ*—seguindo; *gata-agatam*—morte e nascimento; *kāma-kāmāḥ*—desejando gozos sensoriais; *labhante*—alcançam.", "translation": "**Quando assim desfrutaram do prazer celestial dos sentidos, regressam de novo a este planeta mortal. Assim, mediante os princípios Védicos, alcançam apenas felicidade efêmera.**", "purport": "Aquele que é promovido a esses sistemas planetários superiores desfruta de uma duração de vida mais longa e de melhores facilidades para o gozo dos sentidos; contudo, não se lhe permite ali permanecer para sempre. Volta-se a enviá-lo a este planeta terrestre ao terminarem-se os frutos resultantes das atividades piedosas. Aquele que não atingiu a perfeição do conhecimento, conforme indicado no *Vedānta-sūtra* (janmādy asya yataḥ), ou, em outras palavras, aquele que não compreende Kṛṣṇa, a causa de todas as causas, fica frustrado em alcançar a meta última da vida e, assim, fica sujeito à rotina de ser promovido aos planetas superiores e depois descer novamente, como se estivesse situado numa roda-gigante que ora sobe, ora desce. O significado é que, em vez de ser elevada ao mundo espiritual, onde já não há possibilidade de descer, a pessoa apenas gira no ciclo de nascimento e morte em sistemas planetários superiores e inferiores. Faríamos melhor em adotar o mundo espiritual para desfrutarmos da vida eterna, plena de bem-aventurança e conhecimento, e nunca regressarmos a esta miserável existência material."}
{"ref": "bg/9/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/22/", "verse_text": "ananyāś cintayanto māṁ\n\nye janāḥ paryupāsate\n\nteṣāṁ nityābhiyuktānāṁ\n\nyoga-kṣemaṁ vahāmy aham", "devanagari": "> अनन्याश्चिन्तयन्तो मां ये जनाः पर्युपासते ।\n> तेषां नित्याभियुक्तानां योगक्षेमं वहाम्यहम् ॥२२॥", "synonyms": "*ananyāḥ*—nenhum outro; *cintayantaḥ*—concentrando-se; *mām*—em Mim; *ye*—que; *janāḥ*—pessoas; *paryupāsate*—adoram apropriadamente; *teṣām*—suas; *nitya*—sempre abhiyuktānām–fixos em devoção; *yoga-kṣemam*—necessidades; *vahāmi*—levo; *aham*—Eu.", "translation": "**Mas àqueles que sempre Me adoram com devoção, meditando em Minha forma transcendental, levo o que lhes falta e preservo o que têm.**", "purport": "Aquele que é incapaz de viver por um momento sem a consciência de Kṛṣṇa não pode deixar de pensar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, ocupando-se em serviço devocional, ouvindo, cantando, recordando, oferecendo orações, adorando, servindo aos pés de lótus do Senhor, prestando outros serviços, cultivando amizade e rendendo-se plenamente ao Senhor. Tais atividades são todas auspiciosas e plenas de potências espirituais; com efeito, tornam o devoto perfeito em autorrealização. Então, seu único desejo é alcançar a associação da Suprema Personalidade de Deus. Isto se chama yoga. Pela misericórdia do Senhor, tal devoto nunca volta a esta condição material de vida. Kṣema refere-se à misericordiosa proteção do Senhor. O Senhor ajuda o devoto a alcançar a consciência de Kṛṣṇa pelo yoga, e, quando ele se torna plenamente consciente de Kṛṣṇa, o Senhor o protege de cair para uma vida condicionada miserável."}
{"ref": "bg/9/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/23/", "verse_text": "ye 'py anya-devatā-bhaktā\n\nyajante śraddhayānvitāḥ\n\nte 'pi mām eva kaunteya\n\nyajanty avidhi-pūrvakam", "devanagari": "> येऽप्यन्यदेवता भक्ता यजन्ते श्रद्धयान्विताः ।\n> तेऽपि मामेव कौन्तेय यजन्त्यविधिपूर्वकम् ॥२३॥", "synonyms": "*ye*—aqueles; *api*—também; *anya*—outros; *devatā*—semideuses; *bhaktāḥ*—devotos; *yajante*—adoram; *śraddhaya-anvitāḥ*—com fé; *te*—eles; *api*—também; *mām*—a Mim; *eva*—mesmo; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *yajanti*—sacrificam; *avidhi-pūrvakam*—de modo errôneo.", "translation": "**O que quer que um homem sacrifique a outros deuses, ó filho de Kuntī, é, na verdade, destinado apenas a Mim, mas é oferecido sem verdadeira compreensão.**", "purport": "\"As pessoas que se ocupam na adoração aos semideuses não são muito inteligentes, embora tal adoração seja feita a Mim indiretamente\", diz Kṛṣṇa. Por exemplo, quando um homem despeja água sobre as folhas e galhos de uma árvore sem despejar água sobre a raiz, ele o faz sem conhecimento suficiente ou sem observar princípios reguladores. De modo semelhante, o processo de prestar serviço a diferentes partes do corpo é fornecer alimento ao estômago. Os semideuses, por assim dizer, são diferentes funcionários e diretores no governo do Senhor Supremo. É preciso seguir as leis feitas pelo governo, não pelos funcionários ou diretores. De modo semelhante, todos devem oferecer sua adoração apenas ao Senhor Supremo. Isso satisfará automaticamente os diferentes funcionários e diretores do Senhor. Os funcionários e diretores estão ocupados como representantes do governo, e oferecer suborno aos funcionários e diretores é ilegal. Isto se afirma aqui como avidhi-pūrvakam. Em outras palavras, Kṛṣṇa não aprova a desnecessária adoração aos semideuses."}
{"ref": "bg/9/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/24/", "verse_text": "ahaṁ hi sarva-yajñānāṁ\n\nbhoktā ca prabhur eva ca\n\nna tu mām abhijānanti\n\ntattvenātaś cyavanti te", "devanagari": "> अहं हि सर्वयज्ञानां भोक्ता च प्रभुरेव च ।\n> न तु मामभिजानन्ति तत्त्वेनातश्च्यवन्ति ते ॥२४॥", "synonyms": "*aham*—Eu; *hi*—certamente; *sarva*—de todos; *yajñānām*—sacrifícios; *bhoktā*—desfrutador; *ca*—e; *prabhuḥ*—Senhor; *eva*—também; *ca*—e; *na*—não; *tu*—mas; *mām*—a Mim; *abhijānanti*—conhecem; *tattvena*—em verdade; *ataḥ*—portanto; *cyavanti*—caem; *te*—eles.", "translation": "**Eu sou o único desfrutador e o único objeto do sacrifício. Aqueles que não reconhecem Minha verdadeira natureza transcendental caem.**", "purport": "Aqui se afirma claramente que há muitos tipos de execuções de yajña recomendados nas literaturas Védicas, mas, na verdade, todos eles destinam-se a satisfazer o Senhor Supremo. Yajña significa Viṣṇu. No Segundo Capítulo do *Bhagavad-gītā*, afirma-se claramente que se deve trabalhar apenas para satisfazer Yajña ou Viṣṇu. A forma perfeita de civilização humana, conhecida como varṇāśrama-dharma, destina-se especificamente a satisfazer Viṣṇu. Por conseguinte, Kṛṣṇa diz neste verso: \"Eu sou o desfrutador de todos os sacrifícios, pois sou o senhor supremo.\" Contudo, as pessoas menos inteligentes, sem conhecer este fato, adoram os semideuses para benefícios temporários. Por isso, caem na existência material e não alcançam a meta desejada da vida. Se, todavia, alguém tiver algum desejo material a ser realizado, será melhor que ore por isso ao Senhor Supremo (embora isto não seja devoção pura), e assim alcançará o resultado desejado."}
{"ref": "bg/9/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/25/", "verse_text": "yānti deva-vratā devān\n\npitṝn yānti pitṛ-vratāḥ\n\nbhūtāni yānti bhūtejyā\n\nyānti mad-yājino 'pi mām", "devanagari": "> यान्ति देवव्रता देवान्पितॄन्यान्ति पितृव्रताः ।\n> भूतानि यान्ति भूतेज्या यान्ति मद्याजिनोऽपि माम् ॥२५॥", "synonyms": "*yānti*—alcançam; *deva-vratāḥ*—adoradores dos semideuses; *devān*—aos semideuses; *pitṝn*—aos antepassados; *yānti*—vão; *pitṛ-vratāḥ*—adoradores dos antepassados; *bhūtāni*—a fantasmas e espíritos; *yānti*—vão; *bhūtejyāḥ*—adoradores de fantasmas e espíritos; *yānti*—vão; *mat*—Meus; *yājinaḥ*—devotos; *api*—também; *mām*—a Mim.", "translation": "**Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses; aqueles que adoram fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres; aqueles que adoram os antepassados vão aos antepassados; e aqueles que Me adoram viverão Comigo.**", "purport": "Se alguém tiver desejo de ir à lua, ao sol ou a qualquer outro planeta, pode alcançar o destino desejado seguindo princípios Védicos específicos recomendados para tal propósito. Estes são vivamente descritos na porção das atividades fruitivas dos *Vedas*, tecnicamente conhecida como darśa-paurṇamāsī, que recomenda uma adoração específica aos semideuses situados em diferentes planetas celestiais. De modo semelhante, pode-se alcançar os planetas pitā realizando-se um yajña específico. De modo semelhante, pode-se ir a muitos planetas fantasmagóricos e tornar-se um yakṣa, rakṣa ou piśāca. A adoração piśāca chama-se \"artes negras\" ou \"magia negra\". Há muitos homens que praticam essa arte negra e pensam que isso é espiritualismo, mas tais atividades são completamente materialistas. De modo semelhante, um devoto puro, que adora apenas a Suprema Personalidade de Deus, alcança os planetas de Vaikuṇṭha e Kṛṣṇaloka, sem dúvida. É muito fácil compreender por meio deste importante verso que, se simplesmente adorando os semideuses pode-se alcançar os planetas celestiais, ou adorando o pitā alcançar os planetas pitā, ou praticando as artes negras alcançar os planetas fantasmagóricos, por que não pode o devoto puro alcançar o planeta de Kṛṣṇa ou Viṣṇu? Infelizmente, muitas pessoas não têm informação sobre esses planetas sublimes onde Kṛṣṇa e Viṣṇu vivem, e por não os conhecerem, caem. Mesmo os impersonalistas caem do brahmajyoti. Portanto, este movimento da consciência de Kṛṣṇa está distribuindo informação sublime a toda a sociedade humana de que, simplesmente cantando o mantra Hare Kṛṣṇa, pode-se tornar perfeito nesta vida e voltar ao lar, voltar ao Supremo."}
{"ref": "bg/9/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/26/", "verse_text": "patraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ\n\nyo me bhaktyā prayacchati\n\ntad ahaṁ bhakty-upahṛtam\n\naśnāmi prayatātmanaḥ", "devanagari": "> पत्रं पुष्पं फलं तोयं यो मे भक्त्या प्रयच्छति ।\n> तदहं भक्त्युपहृतमश्नामि प्रयतात्मनः ॥२६॥", "synonyms": "*patram*—uma folha; *puṣpam*—uma flor; *phalam*—uma fruta; *toyam*—água; *yaḥ*—quem quer que; *me*—a Mim; *bhaktyā*—com devoção; *prayacchati*—oferece; *tat*—isso; *aham*—Eu; *bhakti-upahṛtam*—oferecido em devoção; *aśnāmi*—aceito; *prayata-ātmanaḥ*—de quem está em consciência pura.", "translation": "**Se alguém Me oferecer com amor e devoção uma folha, uma flor, uma fruta, água, Eu a aceitarei.**", "purport": "Aqui o Senhor Kṛṣṇa, tendo estabelecido que Ele é o único desfrutador, o Senhor primordial e o verdadeiro objeto de todas as oferendas sacrificiais, revela quais tipos de sacrifícios Ele deseja que Lhe sejam oferecidos. Se alguém deseja ocupar-se em serviço devocional ao Supremo, a fim de purificar-se e alcançar a meta da vida — o transcendental serviço amoroso a Deus —, então deve descobrir o que o Senhor deseja dele. Quem ama Kṛṣṇa Lhe dará tudo o que Ele desejar, e evita oferecer qualquer coisa que seja indesejável ou não pedida. Assim, carne, peixe e ovos não devem ser oferecidos a Kṛṣṇa. Se Ele desejasse tais coisas como oferendas, tê-lo-ia dito. Em vez disso, Ele claramente solicita que se Lhe deem uma folha, fruta, flores e água, e diz desta oferenda: \"Eu a aceitarei.\" Por isso, devemos compreender que Ele não aceitará carne, peixe e ovos. Vegetais, grãos, frutas, leite e água são os alimentos próprios para os seres humanos e são prescritos pelo próprio Senhor Kṛṣṇa. O que mais comermos não pode ser oferecido a Ele, pois Ele não o aceitará. Assim, não podemos estar agindo no nível da devoção amorosa se oferecermos tais alimentos.\n\n\n\nNo Terceiro Capítulo, verso treze, Śrī Kṛṣṇa explica que somente os restos de sacrifício são purificados e adequados para consumo por aqueles que buscam o avanço na vida e a libertação das garras do enredamento material. Aqueles que não fazem oferenda de sua comida, diz Ele no mesmo verso, dizem comer apenas pecado. Em outras palavras, cada bocado deles apenas aprofunda seu envolvimento nas complexidades da natureza material. Mas preparar pratos vegetarianos saborosos e simples, oferecê-los diante do quadro ou da Deidade do Senhor Kṛṣṇa e prostrar-se, orando para que Ele aceite tal humilde oferenda, capacita-nos a avançar firmemente na vida, a purificar o corpo e a criar finos tecidos cerebrais que conduzirão ao pensamento claro. Acima de tudo, a oferenda deve ser feita com atitude de amor. Kṛṣṇa não tem necessidade de alimento, pois já possui tudo o que existe; contudo, aceitará a oferenda de quem desejar agradá-Lo dessa maneira. O elemento importante, no preparo, no servir e no oferecer, é agir com amor a Kṛṣṇa.\n\n\n\nOs filósofos impersonalistas, que desejam manter que a Verdade Absoluta não tem sentidos, não podem compreender este verso do *Bhagavad-gītā*. Para eles, é uma metáfora ou prova do caráter mundano de Kṛṣṇa, o orador do *Gītā*. Mas, na realidade, Kṛṣṇa, o Supremo Deus, possui sentidos, e afirma-se que Seus sentidos são intercambiáveis; em outras palavras, um sentido pode realizar a função de qualquer outro. Isto é o que significa dizer que Kṛṣṇa é absoluto. Sem sentidos, dificilmente poderia ser considerado pleno em todas as opulências. No Sétimo Capítulo, Kṛṣṇa explicou que Ele impregna as entidades vivas na natureza material. Isto se faz ao Ele lançar o olhar sobre a natureza material. E, neste caso, o ouvir, por parte de Kṛṣṇa, das palavras de amor do devoto ao oferecer alimentos é totalmente idêntico a Seu comer e realmente saborear. Este ponto deve ser enfatizado: por causa de Sua posição absoluta, Seu ouvir é totalmente idêntico a Seu comer e saborear. Apenas o devoto, que aceita Kṛṣṇa como Ele Se descreve a Si mesmo, sem interpretação, pode compreender que a Suprema Verdade Absoluta pode comer alimento e desfrutá-lo."}
{"ref": "bg/9/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/27/", "verse_text": "yat karoṣi yad aśnāsi\n\nyaj juhoṣi dadāsi yat\n\nyat tapasyasi kaunteya\n\ntat kuruṣva mad-arpaṇam", "devanagari": "> यत्करोषि यदश्नासि यज्जुहोषि ददासि यत् ।\n> यत्तपस्यसि कौन्तेय तत्कुरुष्व मदर्पणम् ॥२७॥", "synonyms": "*yat*—o que; *karoṣi*—fazes; *yat*—o que quer que; *aśnāsi*—comes; *yat*—o que quer que; *juhoṣi*—ofereces; *dadāsi*—dás; *yat*—o que quer que; *yat*—quaisquer; *tapasyasi*—austeridades que realizes; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *tat*—isso; *kuruṣva*—faze; *mat*—a Mim; *arpaṇam*—oferenda.", "translation": "**Ó filho de Kuntī, tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres e deres, bem como todas as austeridades que possas realizar, deves fazê-lo como uma oferenda a Mim.**", "purport": "Assim, é dever de todos moldar a vida de tal modo que não esqueçam Kṛṣṇa em nenhuma circunstância. Todos têm de trabalhar para a manutenção do corpo e da alma juntos, e Kṛṣṇa recomenda aqui que se trabalhe para Ele. Todos têm de comer algo para viver; portanto, devem aceitar os restos dos alimentos oferecidos a Kṛṣṇa. Qualquer homem civilizado tem de realizar algumas cerimônias rituais religiosas; por isso, Kṛṣṇa recomenda: \"Faze-o por Mim\", e isto se chama arcanā. Todos têm a tendência de dar algo em caridade; Kṛṣṇa diz: \"Dá a Mim\", e isto significa que todo o dinheiro excedente acumulado deve ser utilizado para promover o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Hoje em dia, as pessoas estão muito inclinadas ao processo da meditação, que não é prático nesta era; mas, se alguém praticar meditar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, cantando o mantra Hare Kṛṣṇa em suas contas, certamente é o maior yogī, como o confirma o Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "bg/9/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/28/", "verse_text": "śubhāśubha-phalair evaṁ\n\nmokṣyase karma-bandhanaiḥ\n\nsannyāsa-yoga-yuktātmā\n\nvimukto mām upaiṣyasi", "devanagari": "> शुभाशुभफलैरेवं मोक्ष्यसे कर्मबन्धनैः ।\n> संन्यासयोगयुक्तात्मा विमुक्तो मामुपैष्यसि ॥२८॥", "synonyms": "*śubha*—bem; *aśubha*—mal; *phalaiḥ*—resultados; *evam*—assim; *mokṣyase*—libertarás; *karma*—ação; *bandhanaiḥ*—cativeiro; *sannyāsa*—de renúncia; *yoga*—o yoga; *yukta-ātmā*—com a mente firmemente fixada em; *vimuktaḥ*—liberado; *mām*—a Mim; *upaiṣyasi*—alcançarás.", "translation": "**Desta forma, libertar-te-ás de todas as reações de atos bons e maus, e, por este princípio de renúncia, serás liberado e virás a Mim.**", "purport": "Aquele que age em consciência de Kṛṣṇa sob direção superior é chamado yukta. O termo técnico é yukta-vairāgya. Isto é mais explicado por Rūpa Gosvāmī como segue.\n\n\n\nRūpa Gosvāmī diz que, enquanto estivermos neste mundo material, teremos de agir; não podemos cessar de agir. Por isso, se as ações forem realizadas e os frutos dados a Kṛṣṇa, isso se chama yukta-vairāgya. De fato situadas em renúncia, tais atividades limpam o espelho da mente, e, à medida que o agente progride gradualmente na compreensão espiritual, torna-se completamente rendido à Suprema Personalidade de Deus. Assim, ao final, ele se torna liberado, e esta liberação também é especificada. Por esta liberação, ele não se torna um com o brahmajyoti, mas, antes, entra no planeta do Senhor Supremo. É claramente mencionado aqui: mām upaiṣyasi, \"ele vem a Mim\", de volta ao lar, de volta ao Supremo. Há cinco diferentes estágios de liberação, e aqui se especifica que o devoto, que sempre viveu sua vida aqui sob a direção do Senhor Supremo, conforme dito, evoluiu até o ponto em que pode, após deixar este corpo, voltar ao Supremo e ocupar-se diretamente na associação do Senhor Supremo.\n\n\n\nQuem não tiver outro interesse senão dedicar a vida ao serviço do Senhor é, na verdade, um sannyāsī. Tal pessoa sempre se considera servo eterno, dependente da suprema vontade do Senhor. Como tal, tudo o que faz, faz para o benefício do Senhor. Qualquer ação que realize, ele a realiza como serviço ao Senhor. Não dá atenção séria às atividades fruitivas ou aos deveres prescritos mencionados nos *Vedas*. Para as pessoas comuns, é obrigatório executar os deveres prescritos mencionados nos *Vedas*; mas, embora um devoto puro, completamente ocupado no serviço ao Senhor, possa às vezes parecer ir contra os deveres Védicos prescritos, na verdade não é assim.\n\n\n\nPor isso, dizem as autoridades vaiṣṇavas que mesmo a pessoa mais inteligente não pode compreender os planos e as atividades de um devoto puro. As palavras exatas são vaiṣṇavera kriyā mudrā vijñe nā bujhayā. Uma pessoa que está sempre ocupada no serviço ao Senhor ou que está sempre pensando e planejando como servir ao Senhor deve ser considerada completamente liberada no presente e no futuro. Sua volta ao lar, de volta ao Supremo, está garantida. Ela está acima de toda crítica materialista, assim como Kṛṣṇa está acima de toda crítica."}
{"ref": "bg/9/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/29/", "verse_text": "samo 'haṁ sarva-bhūteṣu\n\nna me dveṣyo 'sti na priyaḥ\n\nye bhajanti tu māṁ bhaktyā\n\nmayi te teṣu cāpy aham", "devanagari": "> समोऽहं सर्वभूतेषु न मे द्वेष्योऽस्ति न प्रियः ।\n> ये भजन्ति तु मां भक्त्या मयि ते तेषु चाप्यहम् ॥२९॥", "synonyms": "*samaḥ*—igualmente disposto; *aham*—Eu; *sarva-bhūteṣu*—para com todas as entidades vivas; *na*—ninguém; *me*—Meu; *dveṣyaḥ*—odiável; *asti*—é; *na*—nem; *priyaḥ*—querido; *ye*—aqueles; *bhajanti*—prestam serviço transcendental; *tu*—contudo; *mām*—a Mim; *bhaktyā*—em devoção; *mayi*—em Mim; *te*—tais pessoas; *teṣu*—nelas; *ca*—também; *api*—certamente; *aham*—Eu.", "translation": "**Não invejo ninguém, nem sou parcial com ninguém. Sou igual para com todos. Mas todo aquele que Me presta serviço com devoção é um amigo, está em Mim, e Eu também sou amigo dele.**", "purport": "Pode-se questionar aqui que, se Kṛṣṇa é igual para com todos, e ninguém é Seu amigo especial, então por que Ele tem um interesse especial pelos devotos que estão sempre ocupados em Seu serviço transcendental? Mas isto não é discriminação; é natural. Qualquer homem neste mundo material pode ser muito caridosamente disposto, mas tem um interesse especial em seus próprios filhos. O Senhor afirma que toda entidade viva — em qualquer forma — é Seu filho e, como tal, Ele provê a todos com generoso suprimento das necessidades da vida. Ele é como uma nuvem que derrama chuva por toda parte, sem se importar se cai sobre rocha, terra ou água. Mas, para com Seus devotos, Ele dá atenção específica. Tais devotos são aqui mencionados: estão sempre em consciência de Kṛṣṇa e, por conseguinte, estão sempre transcendentalmente situados em Kṛṣṇa. A própria expressão \"consciência de Kṛṣṇa\" sugere que aqueles que estão em tal consciência são transcendentalistas vivos, situados Nele. O Senhor diz aqui distintamente \"mayi te\", \"em Mim\". Naturalmente, em consequência, o Senhor também está neles. Isto é recíproco. Isto também explica as palavras: asti na priyaḥ/ye bhajanti: \"Quem se render a Mim, proporcionalmente, dele cuido.\" Esta reciprocidade transcendental existe porque tanto o Senhor quanto o devoto são conscientes. Quando um diamante é engastado num anel de ouro, fica muito bonito. O ouro é glorificado e, ao mesmo tempo, o diamante é glorificado. O Senhor e a entidade viva eternamente brilham, e quando uma entidade viva se inclina ao serviço do Senhor Supremo, ela parece ouro. O Senhor é um diamante, e essa combinação fica muito bonita. As entidades vivas em estado puro chamam-se devotos. O Senhor Supremo torna-se devoto de Seus devotos. Se não houver relação recíproca entre o devoto e o Senhor, não há filosofia personalista. Na filosofia impessoal, não há reciprocidade entre o Supremo e a entidade viva, mas na filosofia personalista, sim.\n\n\n\nO exemplo é frequentemente dado de que o Senhor é como uma árvore-dos-desejos, e tudo o que se quer dessa árvore-dos-desejos, o Senhor o supre. Mas aqui a explicação é mais completa. Diz-se aqui que o Senhor é parcial para com os devotos. Esta é a manifestação da especial misericórdia do Senhor para com os devotos. A reciprocação do Senhor não deve ser considerada sob a lei do karma. Pertence à situação transcendental em que o Senhor e Seus devotos atuam. O serviço devocional ao Senhor não é uma atividade deste mundo material; é parte do mundo espiritual, onde predominam a eternidade, a bem-aventurança e o conhecimento."}
{"ref": "bg/9/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/30/", "verse_text": "api cet su-durācāro\n\nbhajate mām ananya-bhāk\n\nsādhur eva sa mantavyaḥ\n\nsamyag vyavasito hi saḥ", "devanagari": "> अपि चेत्सुदुराचारो भजते मामनन्यभाक् ।\n> साधुरेव स मन्तव्यः सम्यग्व्यवसितो हि सः ॥३०॥", "synonyms": "*api*—apesar de; *cet*—embora; *sudurācāraḥ*—quem comete as ações mais abomináveis; *bhajate*—ocupa-se em serviço devocional; *mām*—a Mim; *ananya-bhāk*—sem desvio; *sādhuḥ*—santo; *eva*—certamente; *saḥ*—ele; *mantavyaḥ*—de ser considerado; *samyak*—completamente; *vyavasitaḥ*—situado; *hi*—certamente; *saḥ*—ele.", "translation": "**Mesmo que alguém cometa as ações mais abomináveis, se estiver ocupado em serviço devocional, deve ser considerado santo, porque está corretamente situado.**", "purport": "A palavra sudurācāro usada neste verso é muito significativa, e devemos compreendê-la corretamente. Quando uma entidade viva está condicionada, ela tem dois tipos de atividades: uma é condicional, e a outra é constitucional. Quanto a proteger o corpo ou cumprir as regras da sociedade e do Estado, há certamente diferentes atividades, mesmo para os devotos, em conexão com a vida condicional, e tais atividades chamam-se condicionais. Além destas, a entidade viva que está plenamente consciente de sua natureza espiritual e ocupada em consciência de Kṛṣṇa, ou no serviço devocional ao Senhor, tem atividades que se chamam transcendentais. Tais atividades são realizadas em sua posição constitucional, e tecnicamente chamam-se serviço devocional. Ora, no estado condicionado, às vezes o serviço devocional e o serviço condicional em relação ao corpo correm paralelos um ao outro. Mas, então, novamente, às vezes essas atividades se opõem uma à outra. Tanto quanto possível, o devoto é muito cauteloso para não fazer nada que possa romper sua condição saudável. Sabe que a perfeição em suas atividades depende de sua progressiva compreensão da consciência de Kṛṣṇa. Às vezes, contudo, pode-se ver que uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa comete algum ato que se possa tomar como o mais abominável social ou politicamente. Mas tal queda temporária não a desqualifica. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que, se uma pessoa cair, mas estiver ocupada de todo o coração no serviço transcendental ao Senhor Supremo, o Senhor, situado dentro de seu coração, embeleza-a e a desculpa daquela abominação. A contaminação material é tão forte que mesmo um yogī plenamente ocupado no serviço ao Senhor às vezes se enreda; mas a consciência de Kṛṣṇa é tão forte que tal queda ocasional é imediatamente corrigida. Por isso, o processo do serviço devocional é sempre um êxito. Ninguém deve zombar de um devoto por alguma queda acidental do caminho ideal, pois, como se explica no próximo verso, tais quedas ocasionais cessarão no devido tempo, tão logo o devoto esteja completamente situado em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nPor conseguinte, uma pessoa que está situada em consciência de Kṛṣṇa e que se ocupa com determinação no processo de cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, deve ser considerada na posição transcendental, mesmo que, por acaso ou acidente, se descubra que caiu. As palavras sādhur eva, \"ele é santo\", são muito enfáticas. São uma advertência aos não devotos de que, por causa de uma queda acidental, um devoto não deve ser ridicularizado; ainda deve ser considerado santo, mesmo que tenha caído acidentalmente. E a palavra mantavyaḥ é ainda mais enfática. Se alguém não seguir esta regra, e zombar de um devoto por sua queda acidental, está desobedecendo à ordem do Senhor Supremo. A única qualificação de um devoto é estar inabalável e exclusivamente ocupado em serviço devocional.\n\n\n\nA marca da mancha que se possa ver na lua não se torna impedimento para o luar. De modo semelhante, a queda acidental de um devoto da senda do caráter santo não o torna abominável. Por outro lado, não se deve mal interpretar que um devoto em transcendental serviço devocional possa agir de toda sorte de maneiras abomináveis; este verso refere-se apenas a um acidente devido ao forte poder das conexões materiais. O serviço devocional é, mais ou menos, uma declaração de guerra contra a energia ilusória. Enquanto não se for forte o bastante para combater a energia ilusória, pode haver quedas acidentais. Mas quando se for forte o bastante, já não estará sujeito a tais quedas, como se explicou anteriormente. Ninguém deve aproveitar-se deste verso para cometer disparates e pensar que ainda é um devoto. Se ele não melhorar em seu caráter pelo serviço devocional, então deve-se entender que não é um devoto elevado."}
{"ref": "bg/9/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/31/", "verse_text": "kṣipraṁ bhavati dharmātmā\n\nśaśvac-chāntiṁ nigacchati\n\nkaunteya pratijānīhi\n\nna me bhaktaḥ praṇaśyati", "devanagari": "> क्षिप्रं भवति धर्मात्मा शश्वच्छान्तिं निगच्छति ।\n> कौन्तेय प्रतिजानीहि न मे भक्तः प्रणश्यति ॥३१॥", "synonyms": "*kṣipram*—muito em breve; *bhavati*—torna-se; *dharma-ātmā*—virtuoso; *śaśvat-śāntim*—paz duradoura; *nigacchati*—alcança; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *pratijānīhi*—declara com justiça; *na*—nunca; *me*—Meu; *bhaktaḥ*—devoto; *praṇaśyati*—perece.", "translation": "**Ele rapidamente se torna virtuoso e alcança paz duradoura. Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto nunca perece.**", "purport": "Isto não deve ser mal compreendido. No Sétimo Capítulo, o Senhor diz que aquele que se ocupa em atividades maliciosas não pode tornar-se devoto do Senhor. Aquele que não é devoto do Senhor não tem boas qualificações em absoluto. Resta, então, a pergunta: como pode uma pessoa ocupada em atividades abomináveis — seja por acidente ou intenção — ser um devoto puro? Esta pergunta pode ser justamente levantada. Os malfeitores, como se afirma no Sétimo Capítulo, que jamais aceitam o serviço devocional ao Senhor, não têm boas qualificações, como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Em geral, um devoto que se ocupa nos nove tipos de atividades devocionais ocupa-se no processo de limpar toda contaminação material do coração. Coloca a Suprema Personalidade de Deus dentro do seu coração, e todas as contaminações pecaminosas são naturalmente lavadas. Pensar continuamente no Senhor Supremo torna-o puro por natureza. Segundo os *Vedas*, há certa regulação de que, se alguém cair de sua posição elevada, terá de submeter-se a certos processos ritualísticos para purificar-se. Mas aqui não há tal condição, porque o processo purificador já está presente no coração do devoto, devido a sua constante recordação da Suprema Personalidade de Deus. Por isso, o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare deve ser continuado sem interrupção. Isto protegerá o devoto de todas as quedas acidentais. Assim ele permanecerá perpetuamente livre de todas as contaminações materiais."}
{"ref": "bg/9/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/32/", "verse_text": "māṁ hi pārtha vyapāśritya\n\nye 'pi syuḥ pāpa-yonayaḥ\n\nstriyo vaiśyās tathā śūdrās\n\nte 'pi yānti parāṁ gatim", "devanagari": "> मां हि पार्थ व्यपाश्रित्य येऽपि स्युः पापयोनयः ।\n> स्त्रियो वैश्यास्तथा शूद्रास्तेऽपि यान्ति परां गतिम् ॥३२॥", "synonyms": "*mām*—a Mim; *hi*—certamente; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *vyapāśrītya*—particularmente refugiando-se; *ye*—quem quer que; *api*—também; *syuḥ*—torne-se; *pāpa-yonayaḥ*—nascido de família inferior; *striyaḥ*—mulheres; *vaiśyāḥ*—pessoas mercantis; *tathā*—também; *śūdrāḥ*—homens de classe inferior; *te api*—mesmo eles; *yānti*—vão; *parām*—suprema; *gatim*—destino.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, aqueles que se refugiam em Mim, embora sejam de nascimento inferior — mulheres, vaiśyas [comerciantes], assim como śūdras [trabalhadores] —, podem aproximar-se do destino supremo.**", "purport": "Aqui o Senhor Supremo declara claramente que, no serviço devocional, não há distinção entre as classes inferiores ou superiores de pessoas. Na concepção material da vida, há tais divisões, mas, para uma pessoa ocupada no transcendental serviço devocional ao Senhor, não há. Todos são elegíveis para o destino supremo. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que mesmo os mais baixos, que se chamam caṇḍālas (comedores de cães), podem ser elevados pela associação com um devoto puro. Por conseguinte, o serviço devocional e a orientação de um devoto puro são tão poderosos que não há discriminação entre as classes inferiores e superiores de homens; qualquer um pode adotá-lo. O homem mais simples que se refugia em um devoto puro pode ser purificado mediante orientação adequada. De acordo com os diferentes modos da natureza material, os homens são classificados no modo da bondade (brāhmaṇas), no modo da paixão (kṣatriyas, ou administradores), nos modos mistos da paixão e da ignorância (vaiśyas, ou comerciantes) e no modo da ignorância (śūdras, ou trabalhadores). Os inferiores a estes chamam-se caṇḍālas, e nascem em famílias pecaminosas. Em geral, os que nascem em famílias pecaminosas não são aceitos pelas classes superiores. Mas o processo do serviço devocional e o devoto puro do Deus Supremo são tão poderosos que todas as classes inferiores podem alcançar a mais alta perfeição da vida. Isto é possível somente quando alguém se refugia em Kṛṣṇa. É preciso refugiar-se completamente em Kṛṣṇa. Então pode-se tornar muito maior do que grandes jñānīs e yogīs."}
{"ref": "bg/9/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/33/", "verse_text": "kiṁ punar brāhmaṇāḥ puṇyā\n\nbhaktā rājarṣayas tathā\n\nanityam asukhaṁ lokam\n\nimaṁ prāpya bhajasva mām", "devanagari": "> किं पुनर्ब्राह्मणाः पुण्या भक्ता राजर्षयस्तथा ।\n> अनित्यमसुखं लोकमिमं प्राप्य भजस्व माम् ॥३३॥", "synonyms": "*kim*—quanto; *punaḥ*—novamente; *brāhmaṇāḥ*—brāhmaṇas; *puṇyāḥ*—virtuosos; *bhaktāḥ*—devotos; *rājarṣayaḥ*—reis santos; *tathā*—também; *anityam*—temporário; *asukham*—pesaroso; *lokam*—planetas; *imam*—este; *prāpya*—obtendo; *bhajasva*—estão ocupados em serviço amoroso; *mām*—a Mim.", "translation": "**Quão maiores, então, são os brāhmaṇas, os virtuosos, os devotos e os reis santos que, neste temporário e miserável mundo, ocupam-se em serviço amoroso a Mim.**", "purport": "Neste mundo material, há classificações de pessoas, mas, afinal, este mundo não é um lugar feliz para ninguém. Aqui se afirma claramente, anityam asukhaṁ lokam: este mundo é temporário e cheio de misérias, não habitável para qualquer cavalheiro são. Este mundo é declarado pela Suprema Personalidade de Deus como temporário e cheio de misérias. Alguns dos filósofos, especialmente os filósofos menores, dizem que este mundo é falso, mas podemos compreender pelo *Bhagavad-gītā* que o mundo não é falso; é temporário. Há diferença entre temporário e falso. Este mundo é temporário, mas há outro mundo que é eterno. Este mundo é miserável, mas o outro mundo é eterno e bem-aventurado.\n\n\n\nArjuna nasceu numa santa família real. A ele também o Senhor diz: \"Adota Meu serviço devocional e volta logo ao Supremo, ao lar.\" Ninguém deve permanecer neste mundo temporário, repleto, como está, de misérias. Todos devem apegar-se ao seio da Suprema Personalidade de Deus, para que possam ser eternamente felizes. O serviço devocional ao Senhor Supremo é o único processo pelo qual todos os problemas de todas as classes de homens podem ser resolvidos. Por isso, todos devem adotar a consciência de Kṛṣṇa e tornar suas vidas perfeitas."}
{"ref": "bg/9/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/9/34/", "verse_text": "man-manā bhava mad-bhakto\n\nmad-yājī māṁ namaskuru\n\nmām evaiṣyasi yuktvaivam\n\nātmānaṁ mat-parāyaṇaḥ", "devanagari": "> मन्मना भव मद्भक्तो मद्याजी मां नमस्कुरु ।\n> मामेवैष्यसि युक्त्वैवमात्मानं मत्परायणः ॥३४॥", "synonyms": "*mat-manāḥ*—sempre pensando em Mim; *bhava*—torna-te; *mat*—Meu; *bhaktaḥ*—devoto; *mat*—Meu; *yājī*—adorador; *mām*—a Mim; *namaskuru*—oferece reverências; *mām*—a Mim; *eva*—completamente; *eṣyasi*—virás; *yuktvā evam*—estando absorto; *ātmānam*—tua alma; *mat-parāyaṇaḥ*—devotada a Mim.", "translation": "**Ocupa tua mente sempre em pensar em Mim, oferece-Me reverências e adora-Me. Estando completamente absorto em Mim, certamente virás a Mim.**", "purport": "Neste verso, indica-se claramente que a consciência de Kṛṣṇa é o único meio de libertar-se das garras deste contaminado mundo material. Às vezes, comentadores inescrupulosos distorcem o sentido daquilo que aqui claramente se afirma: que todo o serviço devocional deve ser oferecido à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Infelizmente, comentadores inescrupulosos desviam a mente do leitor para algo que não é em absoluto factível. Tais comentadores não sabem que não há diferença entre a mente de Kṛṣṇa e Kṛṣṇa. Kṛṣṇa não é um ser humano comum; Ele é a Verdade Absoluta. Seu corpo, Sua mente e Ele Mesmo são um e absoluto. Afirma-se no Kūrma Purāṇa. Conforme cita Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī em seus comentários Anubhāṣya sobre o Caitanya-caritāmṛta, Quinto Capítulo, *Ādi-līlā*, versos 41-48: \"deha-dehi-vibhedo 'yaṁ neśvare vidyate kvacit\", que significa que não há diferença, em Kṛṣṇa, o Senhor Supremo, entre Ele Mesmo e Seu corpo. Mas, por não conhecerem esta ciência de Kṛṣṇa, os comentadores escondem Kṛṣṇa e separam Sua personalidade de Sua mente ou de Seu corpo. Embora isto seja pura ignorância da ciência de Kṛṣṇa, alguns homens lucram desencaminhando o povo.\n\n\n\nHá alguns que são demoníacos; eles também pensam em Kṛṣṇa, mas com inveja, tal como o rei Kaṁsa, tio de Kṛṣṇa. Ele também pensava sempre em Kṛṣṇa, mas pensava em Kṛṣṇa como seu inimigo. Estava sempre em ansiedade, indagando-se quando Kṛṣṇa viria matá-lo. Esse tipo de pensamento não nos ajudará. Deve-se pensar em Kṛṣṇa em amor devocional. Isso é bhakti. Deve-se cultivar continuamente o conhecimento sobre Kṛṣṇa. Que cultivo favorável é esse? É aprender com um mestre genuíno. Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e várias vezes explicamos que Seu corpo não é material, mas é eterno conhecimento bem-aventurado. Esse tipo de conversa sobre Kṛṣṇa ajudará a pessoa a tornar-se devota. De outro modo, compreender Kṛṣṇa pela fonte errada provará ser infrutífero.\n\n\n\nDeve-se, portanto, ocupar a mente na forma eterna, a forma primordial de Kṛṣṇa; com convicção no coração de que Kṛṣṇa é o Supremo, deve-se ocupar em adoração. Há centenas de milhares de templos na Índia para a adoração a Kṛṣṇa, e ali se pratica o serviço devocional. Quando se faz tal prática, deve-se oferecer reverências a Kṛṣṇa. Deve-se baixar a cabeça diante da Deidade e ocupar a mente, o corpo, as atividades — tudo. Isto fará com que a pessoa fique plenamente absorta em Kṛṣṇa, sem desvio. Isto a ajudará a transferir-se ao Kṛṣṇaloka. Não se deve ser desviado por comentadores inescrupulosos. Deve-se ocupar nos nove diferentes processos do serviço devocional, começando por ouvir e cantar sobre Kṛṣṇa. O serviço devocional puro é a mais alta realização da sociedade humana.\n\n\n\nNo Sétimo e no Oitavo Capítulos do *Bhagavad-gītā*, o serviço devocional puro ao Senhor foi explicado, à parte do yoga do conhecimento e do yoga místico ou das atividades fruitivas. Aqueles que não estão puramente santificados podem ser atraídos por diferentes traços do Senhor, como o Brahman impessoal e o Paramātmā localizado, mas o devoto puro adota diretamente o serviço ao Senhor Supremo.\n\n\n\nHá um belo poema sobre Kṛṣṇa em que se afirma claramente que qualquer pessoa que se ocupe na adoração aos semideuses é a mais não inteligente e jamais pode alcançar o supremo galardão de Kṛṣṇa. O devoto, no início, pode às vezes cair do critério, mas, ainda assim, deve ser considerado superior a todos os outros filósofos e yogīs. Aquele que sempre se ocupa em consciência de Kṛṣṇa deve ser entendido como a pessoa santa perfeita. Suas atividades não devocionais acidentais diminuirão, e em breve estará situado, sem dúvida alguma, em completa perfeição. O devoto puro não tem realmente possibilidade de cair, pois o Supremo Deus pessoalmente cuida de Seus devotos puros. Por isso, a pessoa inteligente deve adotar diretamente este processo da consciência de Kṛṣṇa e viver feliz neste mundo material. Em última análise, receberá o supremo galardão de Kṛṣṇa.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Nono Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* sobre o tema do Conhecimento Mais Confidencial."}
{"ref": "bg/10/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nbhūya eva mahā-bāho\n\nśṛṇu me paramaṁ vacaḥ\n\nyat te 'haṁ prīyamāṇāya\n\nvakṣyāmi hita-kāmyayā", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> भूय एव महाबाहो शृणु मे परमं वचः ।\n> यत्तेऽहं प्रीयमाणाय वक्ष्यामि हितकाम्यया ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *bhūyaḥ*—novamente; *eva*—certamente; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *śṛṇu*—simplesmente ouve; *me*—Minha; *paramaṁ*—suprema; *vacaḥ*—instrução; *yat*—aquilo que; *te*—a ti; *aham*—Eu; *prīyamāṇāya*—considerando-te querido a Mim; *vakṣyāmi*—digo; *hita-kāmyayā*—para teu benefício.", "translation": "**O Senhor Supremo disse: Meu querido amigo, Arjuna de braços poderosos, ouve novamente Minha palavra suprema, que te transmitirei para teu benefício e que te trará grande alegria.**", "purport": "A palavra paramam é assim explicada por Parāśara Muni: aquele que possui plenamente as seis opulências, ou seja, plena força, plena fama, riqueza, conhecimento, beleza e renúncia, é paramam, ou a Suprema Personalidade de Deus. Enquanto Kṛṣṇa esteve presente nesta Terra, manifestou todas as seis opulências. Por isso, grandes sábios como Parāśara Muni todos aceitaram Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Agora Kṛṣṇa instrui Arjuna em conhecimento ainda mais confidencial sobre Suas opulências e Suas atividades. Anteriormente, a partir do Sétimo Capítulo, o Senhor já explicou Suas diferentes energias e como elas atuam. Neste capítulo, Ele explica a Arjuna Suas opulências específicas. No capítulo anterior, Ele explicou claramente Suas diferentes energias com o intuito de estabelecer a devoção em firme convicção. Mais uma vez, neste capítulo, Ele fala a Arjuna sobre Suas manifestações e várias opulências.\n\n\n\nQuanto mais se ouve falar do Deus Supremo, mais firme se torna a pessoa no serviço devocional. Deve-se sempre ouvir falar do Senhor em companhia de devotos; isso intensificará o serviço devocional. Os debates na sociedade dos devotos só podem ocorrer entre aqueles que verdadeiramente anseiam por estar em consciência de Kṛṣṇa. Os outros não podem participar de tais debates. O Senhor diz claramente a Arjuna que, por ser-Lhe muito querido, é para benefício dele que tais debates se realizam."}
{"ref": "bg/10/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/2/", "verse_text": "na me viduḥ sura-gaṇāḥ\n\nprabhavaṁ na maharṣayaḥ\n\naham ādir hi devānāṁ\n\nmaharṣīṇāṁ ca sarvaśaḥ", "devanagari": "> न मे विदुः सुरगणाः प्रभवं न महर्षयः ।\n> अहमादिर्हि देवानां महर्षीणां च सर्वशः ॥२॥", "synonyms": "*na*—nunca; *me*—Minha; *viduḥ*—conhece; *sura-gaṇāḥ*—semideuses; *prabhavam*—opulências; *na*—nunca; *maharṣayaḥ*—grandes sábios; *aham*—Eu sou; *ādiḥ*—a origem; *hi*—certamente; *devānām*—dos semideuses; *maharṣīṇām*—dos grandes sábios; *ca*—também; *sarvaśaḥ*—em todos os aspectos.", "translation": "**Nem as hostes de semideuses nem os grandes sábios conhecem Minha origem, pois, em todos os aspectos, sou a fonte dos semideuses e dos sábios.**", "purport": "Como se afirma no Brahma-saṁhitā, o Senhor Kṛṣṇa é o Senhor Supremo. Ninguém é maior do que Ele; Ele é a causa de todas as causas. Aqui, o próprio Senhor também declara pessoalmente que é a causa de todos os semideuses e sábios. Nem mesmo os semideuses e os grandes sábios conseguem compreender Kṛṣṇa; não conseguem compreender nem Seu nome nem Sua personalidade. Qual é, então, a posição dos supostos eruditos deste minúsculo planeta? Ninguém pode compreender por que este Deus Supremo vem à Terra como um ser humano comum e executa atividades tão corriqueiras e, ao mesmo tempo, maravilhosas. Deve-se saber, pois, que a erudição não é a qualificação necessária para compreender Kṛṣṇa. Nem mesmo os semideuses e os grandes sábios, por meio de sua especulação mental, conseguiram compreender Kṛṣṇa, e fracassaram em sua tentativa. No *Śrīmad-Bhāgavatam* também se diz claramente que nem mesmo os grandes semideuses conseguem compreender a Suprema Personalidade de Deus. Eles podem especular até os limites de seus sentidos imperfeitos e chegar à conclusão oposta, a do impersonalismo, de algo não manifestado pelas três qualidades da natureza material, ou podem imaginar algo por meio de especulação mental, mas não é possível compreender Kṛṣṇa por meio de tal especulação tola.\n\n\n\nAqui, o Senhor afirma indiretamente que, se alguém deseja conhecer a Verdade Absoluta, \"Aqui estou Eu, presente como a Suprema Personalidade de Deus. Eu sou o Supremo.\" Deve-se saber isso. Embora não se possa compreender o Senhor inconcebível, que está pessoalmente presente, mesmo assim Ele existe. Podemos, na verdade, compreender Kṛṣṇa, que é eterno, pleno de bem-aventurança e conhecimento, simplesmente estudando Suas palavras no *Bhagavad-gītā* e no *Śrīmad-Bhāgavatam*. O Brahman impessoal pode ser concebido por pessoas que já se encontram na energia inferior do Senhor, mas a Personalidade de Deus não pode ser concebida a menos que a pessoa se situe na posição transcendental.\n\n\n\nComo a maioria dos homens não consegue compreender Kṛṣṇa em Sua situação real, por Sua misericórdia imotivada Ele desce para mostrar favor a tais especuladores. Contudo, apesar das atividades incomuns do Senhor Supremo, esses especuladores, devido à contaminação da energia material, ainda pensam que o Brahman impessoal é o Supremo. Apenas os devotos plenamente rendidos ao Senhor Supremo podem compreender, pela graça da Suprema Personalidade, que Ele é Kṛṣṇa. Os devotos do Senhor não se preocupam com a concepção do Brahman impessoal de Deus; sua fé e devoção os levam a render-se imediatamente ao Senhor Supremo e, pela misericórdia imotivada de Kṛṣṇa, eles podem compreender Kṛṣṇa. Ninguém mais pode compreendê-Lo. Por isso, mesmo os grandes sábios concordam: O que é o ātmā, o que é o Supremo? É Aquele a quem temos de adorar."}
{"ref": "bg/10/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/3/", "verse_text": "yo mām ajam anādiṁ ca\n\nvetti loka-maheśvaram\n\nasammūḍhaḥ sa martyeṣu\n\nsarva-pāpaiḥ pramucyate", "devanagari": "> यो मामजमनादिं च वेत्ति लोकमहेश्वरम् ।\n> असम्मूढः स मर्त्येषु सर्वपापैः प्रमुच्यते ॥३॥", "synonyms": "*yaḥ*—todo aquele; *mām*—a Mim; *ajam*—não nascido; *anādim*—sem princípio; *ca*—também; *vetti*—conhece; *loka*—dos planetas; *maheśvaram*—senhor supremo; *asaṁmūḍhaḥ*—sem dúvida; *saḥ*—ele; *martyeṣu*—entre os que estão sujeitos à morte; *sarva-pāpaiḥ*—de todas as reações pecaminosas; *pramucyate*—é liberado.", "translation": "**Aquele que Me conhece como o não nascido, como o sem princípio, como o Senhor Supremo de todos os mundos – este, sem ilusão entre os homens, libera-se de todos os pecados.**", "purport": "Como se afirmou no Sétimo Capítulo, aqueles que tentam elevar-se à plataforma da realização espiritual não são homens comuns. Eles são superiores a milhões e milhões de homens comuns que nada sabem da realização espiritual. Mas, dentre aqueles que verdadeiramente tentam compreender sua situação espiritual, aquele que chega à compreensão de que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, o proprietário de tudo, o não nascido, é a pessoa mais bem-sucedida em realização espiritual. Somente nessa fase, quando a pessoa compreendeu plenamente a posição suprema de Kṛṣṇa, é que pode ficar completamente liberada de todas as reações pecaminosas.\n\n\n\nAqui, a palavra ajam, que significa não nascido, não deve ser confundida com as entidades vivas, que são descritas no Segundo Capítulo como ajam. O Senhor é diferente das entidades vivas, que estão nascendo e morrendo devido ao apego material. As almas condicionadas trocam de corpo, mas Seu corpo não é mutável. Mesmo quando vem a este mundo material, Ele vem como o mesmo não nascido; por isso, no Quarto Capítulo afirma-se que o Senhor, por Sua potência interna, não está sob a energia material inferior, mas sempre se situa na energia superior.\n\n\n\nEle já existia antes da criação e é diferente de Sua criação. Todos os semideuses foram criados dentro deste mundo material, mas, no que se refere a Kṛṣṇa, afirma-se que Ele não é criado; portanto, Kṛṣṇa é diferente até dos grandes semideuses como Brahmā e Śiva. E, por ser o criador de Brahmā, Śiva e todos os demais semideuses, Ele é a Pessoa Suprema de todos os planetas.\n\n\n\nŚrī Kṛṣṇa, por conseguinte, é diferente de tudo o que é criado, e qualquer pessoa que O conheça assim imediatamente se libera de todas as reações pecaminosas. É preciso estar liberado de todas as atividades pecaminosas para situar-se no conhecimento do Senhor Supremo. Apenas pelo serviço devocional Ele pode ser conhecido, e não por nenhum outro meio, conforme se declara no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nNão se deve tentar compreender Kṛṣṇa como um ser humano. Como já se afirmou, somente uma pessoa tola O considera um ser humano. Isso é novamente expresso aqui de outra forma. Um homem que não é tolo, que tem inteligência suficiente para compreender a posição constitucional de Deus, está sempre livre de todas as reações pecaminosas.\n\n\n\nSe Kṛṣṇa é conhecido como filho de Devakī, como pode ser não nascido? Isso também se explica no *Śrīmad-Bhāgavatam*: Quando Ele apareceu diante de Devakī e Vasudeva, não nasceu como uma criança comum; apareceu em Sua forma original e, em seguida, transformou-Se em uma criança comum.\n\n\n\nTudo o que se faz sob a direção de Kṛṣṇa é transcendental. Não pode ser contaminado pelas reações materiais, sejam elas auspiciosas ou inauspiciosas. A concepção de que há coisas auspiciosas e inauspiciosas no mundo material é, mais ou menos, uma invenção mental, pois nada há de auspicioso no mundo material. Tudo é inauspicioso porque a própria máscara material é inauspiciosa. Apenas imaginamos que seja auspiciosa. A verdadeira auspiciosidade depende de atividades em consciência de Kṛṣṇa, em plena devoção e serviço. Por isso, se realmente queremos que nossas atividades sejam auspiciosas, devemos atuar sob as orientações do Senhor Supremo. Tais orientações são dadas em escrituras autorizadas, como o *Śrīmad-Bhāgavatam* e o *Bhagavad-gītā*, ou por um mestre espiritual genuíno. Como o mestre espiritual é o representante do Senhor Supremo, sua orientação é diretamente a orientação do Senhor Supremo. O mestre espiritual, as pessoas santas e as escrituras orientam da mesma forma. Não há contradição entre essas três fontes. Todas as ações realizadas sob tal orientação estão livres das reações de atividades piedosas ou ímpias deste mundo material. A atitude transcendental do devoto na execução de atividades é, na verdade, de renúncia, e isso se chama sannyāsa. Aquele que age sob a orientação do Senhor Supremo é, de fato, um sannyāsī e um yogī, e não o homem que simplesmente vestiu a roupa de sannyāsī, ou um pseudo-yogī."}
{"ref": "bg/10/4-5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/4-5/", "verse_text": "buddhir jñānam asammohaḥ\n\nkṣamā satyaṁ damaḥ śamaḥ\n\nsukhaṁ duḥkhaṁ bhavo 'bhāvo\n\nbhayaṁ cābhayam eva ca\n\nahiṁsā samatā tuṣṭis\n\ntapo dānaṁ yaśo 'yaśaḥ\n\nbhavanti bhāvā bhūtānāṁ\n\nmatta eva pṛthag-vidhāḥ", "devanagari": "> बुद्धिर्ज्ञानमसम्मोहः क्षमा सत्यं दमः शमः ।\n> सुखं दुःखं भवोऽभावो भयं चाभयमेव च ॥४॥\n> अहिंसा समता तुष्टिस्तपो दानं यशोऽयशः ।\n> भवन्ति भावा भूतानां मत्त एव पृथग्विधाः ॥५॥", "synonyms": "*buddhiḥ*—inteligência; *jñānam*—conhecimento; *asammohaḥ*—libertação da dúvida; *kṣamā*—perdão; *satyam*—veracidade; *damaḥ*—controle dos sentidos; *śamaḥ*—controle da mente; *sukham*—felicidade; *duḥkham*—aflição; *bhavaḥ*—nascimento; *abhāvaḥ*—morte; *bhayam*—medo; *ca*—também; *abhayam*—destemor; *eva*—também; *ca*—e; *ahiṁsā*—não-violência; *samatā*—equilíbrio; *tuṣṭiḥ*—satisfação; *tapaḥ*—penitência; *dānam*—caridade; *yaśaḥ*—fama; *ayaśaḥ*—infâmia; *bhavanti*—surgem; *bhāvāḥ*—naturezas; *bhūtānām*—das entidades vivas; *mattaḥ*—de Mim; *eva*—certamente; *pṛthak-vidhāḥ*—dispostas diversamente.", "translation": "**Inteligência, conhecimento, libertação da dúvida e da ilusão, perdão, veracidade, autocontrole e calma, prazer e dor, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, satisfação, austeridade, caridade, fama e infâmia – tudo isso é criado apenas por Mim.**", "purport": "As diferentes qualidades das entidades vivas, sejam boas ou más, todas são criadas por Kṛṣṇa, e aqui são descritas.\n\n\n\nInteligência refere-se ao poder de analisar as coisas em sua perspectiva apropriada, e conhecimento refere-se à compreensão do que é espírito e do que é matéria. O conhecimento comum, obtido através de uma educação universitária, refere-se apenas à matéria, e aqui não é aceito como conhecimento. Conhecimento significa saber distinguir entre espírito e matéria. Na educação moderna não há conhecimento sobre o espírito; eles simplesmente cuidam dos elementos materiais e das necessidades corpóreas. Por conseguinte, o conhecimento acadêmico não é completo.\n\n\n\nAsaṁmohaḥ, libertação da dúvida e da ilusão, pode ser alcançado quando a pessoa não hesita e quando compreende a filosofia transcendental. Lentamente, mas com certeza, ela se libera da perplexidade. Nada deve ser aceito cegamente; tudo deve ser aceito com cuidado e cautela. Kṣamā, perdão, deve ser praticado, e a pessoa deve desculpar as ofensas menores dos outros. Satyam, veracidade, significa que os fatos devem ser apresentados como são, para o benefício dos outros. Os fatos não devem ser deturpados. Segundo as convenções sociais, diz-se que só se pode dizer a verdade quando ela é palatável aos outros. Mas isso não é veracidade. A verdade deve ser dita de modo direto e franco, para que os outros compreendam de fato quais são os fatos. Se um homem é ladrão e as pessoas são advertidas de que ele é ladrão, isso é a verdade. Embora a verdade às vezes seja desagradável, não se deve abster-se de dizê-la. A veracidade exige que os fatos sejam apresentados como são, para o benefício dos outros. Esta é a definição de verdade.\n\n\n\nAutocontrole significa que os sentidos não devem ser usados para o desfrute pessoal desnecessário. Não há proibição contra atender às necessidades adequadas dos sentidos, mas o desfrute desnecessário dos sentidos é prejudicial ao avanço espiritual. Por isso, deve-se conter os sentidos quanto ao seu uso desnecessário. Da mesma forma, a mente não deve entregar-se a pensamentos desnecessários; isso se chama śamaḥ, ou calma. Tampouco se deve passar o tempo refletindo sobre o ganho de dinheiro. Isso é um mau uso da capacidade de pensar. A mente deve ser usada para compreender a necessidade primordial dos seres humanos, e isso deve ser apresentado de modo autorizado. O poder do pensamento deve ser desenvolvido em companhia de pessoas que sejam autoridades nas escrituras, de pessoas santas e mestres espirituais e daqueles cujo pensamento é altamente desenvolvido. Sukham, prazer ou felicidade, deve estar sempre naquilo que seja favorável ao cultivo do conhecimento espiritual da consciência de Kṛṣṇa. E, de modo semelhante, aquilo que é doloroso ou que causa aflição é aquilo que é desfavorável ao cultivo da consciência de Kṛṣṇa. Tudo o que for favorável ao desenvolvimento da consciência de Kṛṣṇa deve ser aceito, e tudo o que for desfavorável deve ser rejeitado.\n\n\n\nBhava, nascimento, deve-se entender como referente ao corpo. No que diz respeito à alma, não há nem nascimento nem morte; isso já discutimos no início do *Bhagavad-gītā*. Nascimento e morte aplicam-se à corporificação no mundo material. O medo deve-se à preocupação com o futuro. A pessoa em consciência de Kṛṣṇa não tem medo, porque, por suas atividades, está certa de retornar ao céu espiritual, de volta ao lar, de volta a Deus. Por isso, seu futuro é muito brilhante. Os outros, contudo, não sabem o que lhes reserva o futuro; não têm conhecimento do que a próxima vida lhes reserva. Por isso, encontram-se em constante ansiedade. Se queremos libertar-nos da ansiedade, então o melhor caminho é compreender Kṛṣṇa e situar-nos sempre em consciência de Kṛṣṇa. Dessa forma, ficaremos livres de todo medo. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que o medo é causado por nossa absorção na energia ilusória, mas aqueles que estão livres da energia ilusória, aqueles que têm certeza de que não são o corpo material, de que são partes espirituais da Suprema Personalidade de Deus e que, por isso, ocupam-se no serviço transcendental ao Deus Supremo, nada têm a temer. Seu futuro é muito brilhante. Esse medo é uma condição das pessoas que não estão em consciência de Kṛṣṇa. Bhayam, destemor, só é possível para quem está em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nAhiṁsā, não-violência, significa que não se deve fazer nada que coloque os outros em miséria ou confusão. As atividades materiais prometidas por tantos políticos, sociólogos, filantropos etc. não produzem resultados muito bons, porque os políticos e filantropos não têm visão transcendental; não sabem o que é realmente benéfico para a sociedade humana. Ahiṁsā significa que as pessoas devem ser educadas de tal modo que se possa alcançar a plena utilização do corpo humano. O corpo humano destina-se à realização espiritual, de modo que qualquer movimento ou qualquer comissão que não promova esse fim comete violência sobre o corpo humano. Aquilo que promove a felicidade espiritual futura das pessoas em geral chama-se não-violência.\n\n\n\nSamatā, equanimidade, refere-se à libertação do apego e da aversão. Estar muito apegado ou muito desapegado não é o melhor. Este mundo material deve ser aceito sem apego nem aversão. De modo semelhante, aquilo que for favorável à execução da consciência de Kṛṣṇa deve ser aceito; aquilo que for desfavorável deve ser rejeitado. Isso é chamado samatā, equanimidade. Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa nada tem a rejeitar nem a aceitar, a menos que seja útil na execução da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nTuṣṭiḥ, satisfação, significa que não se deve estar ansioso por reunir cada vez mais bens materiais por meio de atividade desnecessária. Deve-se estar satisfeito com aquilo que se obtém pela graça do Senhor Supremo; isso se chama satisfação. Tapas significa austeridade ou penitência. Há muitas regras e definições nos *Vedas* que se aplicam aqui, como levantar-se cedo pela manhã e tomar banho. Às vezes é muito incômodo levantar-se cedo pela manhã, mas qualquer incômodo voluntário que se possa sofrer dessa maneira chama-se penitência. Da mesma forma, há prescrições para jejum em certos dias do mês. A pessoa pode não se sentir inclinada a praticar tal jejum, mas, devido à sua determinação de avançar na ciência da consciência de Kṛṣṇa, deve aceitar esses incômodos corpóreos que são recomendados. Contudo, não se deve jejuar desnecessariamente nem contra as injunções Védicas. Não se deve jejuar para algum propósito político; isso é descrito no *Bhagavad-gītā* como jejum em ignorância, e o que é feito em ignorância ou paixão não conduz ao avanço espiritual. Tudo o que se faz no modo da bondade, contudo, faz a pessoa avançar, e o jejum feito conforme as injunções Védicas a enriquece em conhecimento espiritual.\n\n\n\nQuanto à caridade, deve-se dar cinquenta por cento dos próprios ganhos a alguma boa causa. E o que é uma boa causa? É aquela conduzida em termos de consciência de Kṛṣṇa. Não é apenas uma boa causa, mas a melhor das causas. Como Kṛṣṇa é bom, Sua causa também é boa. Assim, a caridade deve ser dada a uma pessoa que esteja ocupada em consciência de Kṛṣṇa. Segundo a literatura Védica, está prescrito que a caridade deve ser dada aos *brāhmaṇas*. Essa prática ainda é seguida, embora não muito bem nos termos da injunção Védica. Mas, ainda assim, a injunção é que a caridade deve ser dada aos *brāhmaṇas*. Por quê? Porque eles se ocupam em cultivo superior do conhecimento espiritual. Supõe-se que um *brāhmaṇa* dedique toda a sua vida à compreensão do Brahman. Um brahma-jana é aquele que conhece o Brahman; é chamado de *brāhmaṇa*. Assim, a caridade é oferecida aos *brāhmaṇas* porque, como sempre se ocupam em serviço espiritual superior, eles não têm tempo para ganhar seu sustento. Na literatura Védica, a caridade também deve ser concedida ao renunciante, o *sannyāsī*. Os *sannyāsīs* mendigam de porta em porta, não por dinheiro, mas para fins missionários. O sistema é que vão de porta em porta para despertar os chefes de família do sono da ignorância. Como os chefes de família estão ocupados em assuntos familiares e esqueceram-se do verdadeiro propósito da vida – o despertar de sua consciência de Kṛṣṇa –, é tarefa dos *sannyāsīs* dirigir-se como mendicantes aos chefes de família e incentivá-los a serem conscientes de Kṛṣṇa. Como se diz nos *Vedas*, deve-se acordar e alcançar aquilo que cabe à pessoa nesta forma humana de vida. Esse conhecimento e método são distribuídos pelos *sannyāsīs*; portanto, a caridade deve ser dada ao renunciante da vida, aos *brāhmaṇas* e a causas igualmente boas, não a qualquer causa caprichosa.\n\n\n\nYaśaḥ, fama, deve ser, segundo o Senhor Caitanya, que disse que um homem é famoso quando é conhecido como um grande devoto. Isso é a verdadeira fama. Se a pessoa se tornou um grande homem em consciência de Kṛṣṇa e isso se tornou conhecido, então ela é verdadeiramente famosa. Aquele que não tem essa fama é infame.\n\n\n\nTodas essas qualidades manifestam-se por todo o universo, na sociedade humana e na sociedade dos semideuses. Há muitas formas de humanidade em outros planetas, e essas qualidades estão lá. Ora, para aquele que deseja avançar em consciência de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa cria todas essas qualidades, mas a pessoa as desenvolve por si mesma, a partir de dentro. Aquele que se ocupa no serviço devocional ao Senhor Supremo desenvolve todas as boas qualidades, conforme dispõe o Senhor Supremo.\n\n\n\nSeja o que for que encontremos, bom ou mau, a origem é Kṛṣṇa. Nada pode manifestar-se neste mundo material que não esteja em Kṛṣṇa. Isso é conhecimento; embora saibamos que as coisas estão diferentemente situadas, devemos compreender que tudo flui de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/6/", "verse_text": "maharṣayaḥ sapta pūrve\n\ncatvāro manavas tathā\n\nmad-bhāvā mānasā jātā\n\nyeṣāṁ loka imāḥ prajāḥ", "devanagari": "> महर्षयः सप्त पूर्वे चत्वारो मनवस्तथा ।\n> मद्भावा मानसा जाता येषां लोक इमाः प्रजाः ॥६॥", "synonyms": "*maharṣayaḥ*—os grandes sábios; *sapta*—sete; *pūrve*—antes; *catvāraḥ*—quatro; *manavaḥ*—Manus; *tathā*—também; *mat-bhāvāḥ*—nascidos de Mim; *mānasāḥ*—da mente; *jātāḥ*—nascidos; *yeṣām*—deles; *loke*—os planetas; *imāḥ*—toda esta; *prajāḥ*—população.", "translation": "**Os sete grandes sábios e antes deles os quatro outros grandes sábios e os Manus [progenitores da humanidade] nascem de Minha mente, e todas as criaturas destes planetas descendem deles.**", "purport": "O Senhor está dando uma sinopse genealógica da população universal. Brahmā é a criatura original, nascida da energia do Senhor Supremo conhecida como Hiraṇyagarbha. E de Brahmā manifestam-se todos os sete grandes sábios e, antes deles, quatro outros grandes sábios, chamados Sanaka, Sananda, Sanātana e Sanatkumāra, e os catorze Manus. Todos esses vinte e cinco grandes sábios são conhecidos como os patriarcas das entidades vivas em todo o universo. Há inumeráveis universos e inumeráveis planetas em cada universo, e cada planeta está repleto de uma população de variedades diversas. Todos eles nascem desses vinte e cinco patriarcas. Brahmā submeteu-se a penitência durante mil anos dos semideuses antes de compreender, pela graça de Kṛṣṇa, como criar. Em seguida, de Brahmā saíram Sanaka, Sananda, Sanātana e Sanatkumāra, depois Rudra, e depois os sete sábios; dessa maneira, todos os *brāhmaṇas* e *kṣatriyas* nascem da energia da Suprema Personalidade de Deus. Brahmā é conhecido como pitāmaha, o avô, e Kṛṣṇa é conhecido como prapitā-maha, o pai do avô. Isso se afirma no Décimo Primeiro Capítulo do *Bhagavad-gītā* (Bg. 11.39)."}
{"ref": "bg/10/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/7/", "verse_text": "etāṁ vibhūtiṁ yogaṁ ca\n\nmama yo vetti tattvataḥ\n\nso 'vikalpena yogena\n\nyujyate nātra saṁśayaḥ", "devanagari": "> एतां विभूतिं योगं च मम यो वेत्ति तत्त्वतः ।\n> सोऽविकम्पेन योगेन युज्यते नात्र संशयः ॥७॥", "synonyms": "*etām*—toda esta; *vibhūtiṁ*—opulência; *yogam ca*—também poder místico; *mama*—de Mim; *yaḥ*—todo aquele; *vetti*—conhece; *tattvataḥ*—de fato; *saḥ*—ele; *avikalpena*—sem divisão; *yogena*—em serviço devocional; *yujyate*—ocupa-se; *na*—nunca; *atra*—aqui; *saṁśayaḥ*—dúvida.", "translation": "**Aquele que conhece em verdade esta glória e poder Meus ocupa-se em serviço devocional imaculado; quanto a isso, não há dúvida.**", "purport": "O ápice máximo da perfeição espiritual é o conhecimento da Suprema Personalidade de Deus. A menos que se esteja firmemente convencido das diferentes opulências do Senhor Supremo, não se pode ocupar-se em serviço devocional. Geralmente, as pessoas sabem que Deus é grande, mas não sabem em detalhes como Deus é grande. Aqui estão os detalhes. Se a pessoa souber, de fato, quão grande é Deus, então naturalmente se torna uma alma rendida e ocupa-se no serviço devocional ao Senhor. Quando a pessoa de fato conhece as opulências do Supremo, não há alternativa senão render-se a Ele. Esse conhecimento factual pode ser obtido das descrições do *Śrīmad-Bhāgavatam* e do *Bhagavad-gītā* e literaturas semelhantes.\n\n\n\nNa administração deste universo há muitos semideuses distribuídos por todo o sistema planetário, e os principais entre eles são Brahmā, o Senhor Śiva, e os quatro grandes Kumāras e outros patriarcas. Há muitos antepassados da população do universo, e todos eles nascem do Senhor Supremo Kṛṣṇa. A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é o antepassado original de todos os antepassados.\n\n\n\nEstas são algumas das opulências do Senhor Supremo. Quando a pessoa está firmemente convencida delas, aceita Kṛṣṇa com grande fé e sem dúvida alguma, e ocupa-se em serviço devocional. Todo este conhecimento particular é necessário para aumentar o interesse no serviço devocional amoroso ao Senhor. Não se deve negligenciar a compreensão plena de quão grande é Kṛṣṇa, pois, conhecendo a grandeza de Kṛṣṇa, será possível fixar-se em sincero serviço devocional."}
{"ref": "bg/10/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/8/", "verse_text": "ahaṁ sarvasya prabhavo\n\nmattaḥ sarvaṁ pravartate\n\niti matvā bhajante māṁ\n\nbudhā bhāva-samanvitāḥ", "devanagari": "> अहं सर्वस्य प्रभवो मत्तः सर्वं प्रवर्तते ।\n> इति मत्वा भजन्ते मां बुधा भावसमन्विताः ॥८॥", "synonyms": "*aham*—Eu; *sarvasya*—de tudo; *prabhavaḥ*—fonte de geração; *mattaḥ*—de Mim; *sarvam*—tudo; *pravartate*—emana; *iti*—assim; *matvā*—conhecendo; *bhajante*—tornam-se devotados; *mām*—a Mim; *budhāḥ*—eruditos; *bhāva-samanvitāḥ*—com grande atenção.", "translation": "**Eu sou a fonte de todos os mundos espirituais e materiais. Tudo emana de Mim. Os sábios que sabem isso perfeitamente ocupam-se em Meu serviço devocional e adoram-Me com todo o coração.**", "purport": "Um erudito que estudou os *Vedas* perfeitamente e tem informação de autoridades como o Senhor Caitanya, e que sabe como aplicar esses ensinamentos, pode compreender que Kṛṣṇa é a origem de tudo, tanto no mundo material como no espiritual. E, por saber isso perfeitamente, fixa-se firmemente no serviço devocional ao Senhor Supremo. Jamais poderá ser desviado por qualquer quantidade de comentários disparatados ou por tolos. Toda a literatura Védica concorda em que Kṛṣṇa é a fonte de Brahmā, Śiva e todos os demais semideuses. No Atharva-veda diz-se: \"yo brahmāṇaṁ vidadhāti pūrvaṁ yo vai vedāṁś ca gāpayati sma kṛṣṇaḥ.\" \"Foi Kṛṣṇa quem, no princípio, instruiu Brahmā no conhecimento Védico e quem disseminou o conhecimento Védico no passado.\" Em seguida, diz-se: \"atha puruṣo ha vai nārāyaṇo 'kāmayata prajāḥ sṛjeya ity upakramya.\" \"Então a Suprema Personalidade Nārāyaṇa desejou criar entidades vivas.\" Novamente se diz:\n\n\n\nnārāyaṇād brahmā jāyate, nārāyaṇād prajāpatiḥ prajāyate, nārāyaṇād indro jāyate, nārāyaṇād aṣṭau vasavo jāyante, nārāyaṇād ekādaśa rudrā jāyante, nārāyaṇād dvādaśādityāḥ.\n\n\n\n\"De Nārāyaṇa nasce Brahmā, e de Nārāyaṇa também nascem os patriarcas. De Nārāyaṇa nasce Indra, de Nārāyaṇa nascem os oito Vasus, de Nārāyaṇa nascem os onze Rudras, de Nārāyaṇa nascem os doze Ādityas.\"\n\n\n\nDiz-se nos mesmos *Vedas*: brahmaṇyo devakī-putraḥ: \"O filho de Devakī, Kṛṣṇa, é a Suprema Personalidade.\" Em seguida, diz-se:\n\n\n\neko vai nārāyaṇa āsīn na brahmā na īśāno nāpo nāgni samau neme\n\ndyāv-āpṛthivī na nakṣatrāṇi na sūryaḥ sa ekākī na ramate tasya\n\ndhyānāntaḥ sthasya yatra chāndogaiḥ kriyamāṇāṣṭakādi-saṁjñakā\n\nstuti-stomaḥ stomam ucyate.\n\n\n\n\"No princípio da criação havia somente a Suprema Personalidade Nārāyaṇa. Não havia Brahmā, nem Śiva, nem fogo, nem lua, nem estrelas no céu, nem sol. Havia apenas Kṛṣṇa, que cria tudo e desfruta de tudo.\"\n\n\n\nEm muitos *Purāṇas* afirma-se que o Senhor Śiva nasceu do mais elevado, o Senhor Supremo Kṛṣṇa, e os *Vedas* dizem que é o Senhor Supremo, o criador de Brahmā e Śiva, quem deve ser adorado. No Mokṣa-dharma, Kṛṣṇa também diz: prajāpatiṁ ca rudraṁ cāpy aham eva sṛjāmi vai tau hi māṁ na vijānīto mama māyā-vimohitau. \"Os patriarcas, Śiva e outros são criados por Mim, embora não saibam que são criados por Mim, porque estão iludidos por Minha energia ilusória.\" No Varāha Purāṇa também se diz: nārāyaṇaḥ paro devas tasmāj jātaś caturmukhaḥ tasmād rudro 'bhavad devaḥ sa ca sarvajñatāṁ gataḥ. \"Nārāyaṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e dEle nasceu Brahmā, de quem nasceu Śiva.\"\n\n\n\nO Senhor Kṛṣṇa é a fonte de todas as gerações, e Ele é chamado a causa mais eficiente de tudo. Ele diz que, \"como tudo nasce de Mim, sou a fonte original de tudo. Tudo está sob Mim; ninguém está acima de Mim.\" Não há controlador supremo além de Kṛṣṇa. Aquele que compreende Kṛṣṇa dessa maneira, a partir de um mestre espiritual genuíno e da literatura Védica, e que ocupa toda a sua energia em consciência de Kṛṣṇa, torna-se um homem verdadeiramente erudito. Em comparação a ele, todos os outros, que não conhecem Kṛṣṇa adequadamente, são apenas tolos. Somente um tolo consideraria Kṛṣṇa um homem comum. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não deve ser confundida por tolos; deve evitar todos os comentários e interpretações não autorizados sobre o *Bhagavad-gītā* e prosseguir em consciência de Kṛṣṇa com determinação e firmeza."}
{"ref": "bg/10/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/9/", "verse_text": "mac-cittā mad-gata-prāṇā\n\nbodhayantaḥ parasparam\n\nkathayantaś ca māṁ nityaṁ\n\ntuṣyanti ca ramanti ca", "devanagari": "> मच्चित्ता मद्गतप्राणा बोधयन्तः परस्परम् ।\n> कथयन्तश्च मां नित्यं तुष्यन्ति च रमन्ति च ॥९॥", "synonyms": "*mat-cittāḥ*—mentes plenamente ocupadas em Mim; *mat-gata-prāṇāḥ*—vidas dedicadas ao serviço de Kṛṣṇa; *bodhayantaḥ*—pregando; *parasparam*—entre si; *kathayantaḥ ca*—falando também; *mām*—sobre Mim; *nityam*—perpetuamente; *tuṣyanti*—satisfazem-se; *ca*—também; *ramanti*—desfrutam de bem-aventurança transcendental; *ca*—também.", "translation": "**Os pensamentos de Meus devotos puros habitam em Mim, suas vidas estão rendidas a Mim, e eles obtêm grande satisfação e bem-aventurança esclarecendo-se mutuamente e conversando sobre Mim.**", "purport": "Os devotos puros, cujas características são mencionadas aqui, ocupam-se plenamente no serviço amoroso transcendental ao Senhor. Suas mentes não podem ser desviadas dos pés de lótus de Kṛṣṇa. Suas conversas referem-se exclusivamente a temas transcendentais. Os sintomas dos devotos puros são descritos especificamente neste verso. Os devotos do Senhor Supremo ocupam-se vinte e quatro horas por dia em glorificar os passatempos do Senhor Supremo. Seus corações e almas estão constantemente submersos em Kṛṣṇa, e eles têm prazer em discutir sobre Ele com outros devotos.\n\n\n\nNo estágio preliminar do serviço devocional, eles saboreiam o prazer transcendental do próprio serviço, e, no estágio maduro, situam-se de fato em amor a Deus. Uma vez situados nessa posição transcendental, podem saborear a perfeição máxima exibida pelo Senhor em Sua morada. O Senhor Caitanya compara o serviço devocional transcendental ao plantio de uma semente no coração da entidade viva. Há inumeráveis entidades vivas viajando por entre os diferentes planetas do universo, e dentre elas há algumas suficientemente afortunadas para encontrar um devoto puro e ter a oportunidade de compreender o serviço devocional. Esse serviço devocional é como uma semente, e, se for plantado no coração de uma entidade viva e ela continuar a ouvir e cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, essa semente frutifica, assim como a semente de uma árvore frutifica com a rega regular. A planta espiritual do serviço devocional cresce gradualmente até penetrar a cobertura do universo material e entrar na refulgência *brahmajyoti* no céu espiritual. No céu espiritual, também, essa planta cresce cada vez mais, até alcançar o planeta mais elevado, chamado Goloka Vṛndāvana, o planeta supremo de Kṛṣṇa. Por fim, a planta abriga-se sob os pés de lótus de Kṛṣṇa e ali repousa. Gradualmente, assim como a planta produz frutos e flores, a planta do serviço devocional também produz frutos, e o processo de irrigação na forma de cantar e ouvir prossegue. Essa planta do serviço devocional é plenamente descrita no *Caitanya-caritāmṛta*. Ali se explica que, quando a planta completa abriga-se sob os pés de lótus do Senhor Supremo, a pessoa fica plenamente absorta em amor a Deus; então, não pode viver sequer por um momento sem estar em contato com o Senhor Supremo, assim como um peixe não pode viver sem água. Em tal estado, o devoto, em contato com o Senhor Supremo, alcança de fato as qualidades transcendentais.\n\n\n\nO *Śrīmad-Bhāgavatam* também está repleto dessas narrações sobre a relação entre o Senhor Supremo e Seus devotos; por isso, o *Śrīmad-Bhāgavatam* é muito querido aos devotos. Nessa narração nada há sobre atividades materiais, gratificação dos sentidos ou liberação. O *Śrīmad-Bhāgavatam* é a única narração em que se descreve plenamente a natureza transcendental do Senhor Supremo e de Seus devotos. Assim, as almas realizadas em consciência de Kṛṣṇa têm contínuo prazer em ouvir tais literaturas transcendentais, assim como um menino e uma menina sentem prazer em sua companhia."}
{"ref": "bg/10/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/10/", "verse_text": "teṣāṁ satata-yuktānāṁ\n\nbhajatāṁ prīti-pūrvakam\n\ndadāmi buddhi-yogaṁ taṁ\n\nyena mām upayānti te", "devanagari": "> तेषां सततयुक्तानां भजतां प्रीतिपूर्वकम् ।\n> ददामि बुद्धियोगं तं येन मामुपयान्ति ते ॥१०॥", "synonyms": "*teṣām*—a eles; *satata-yuktānām*—sempre ocupados; *bhajatām*—em serviço devocional; *prīti-pūrvakam*—em êxtase amoroso; *dadāmi*—Eu dou; *buddhi-yogam*—verdadeira inteligência; *tam*—essa; *yena*—pela qual; *mām*—a Mim; *upayānti*—vêm; *te*—eles.", "translation": "**Àqueles que estão constantemente devotados e Me adoram com amor, dou a compreensão pela qual podem vir a Mim.**", "purport": "Neste verso, a palavra buddhi-yogam é muito significativa. Podemos lembrar que, no Segundo Capítulo, o Senhor, instruindo Arjuna, disse que lhe falara de muitas coisas e que o instruiria no caminho do buddhi-yoga. Agora se explica o buddhi-yoga. O próprio buddhi-yogam é ação em consciência de Kṛṣṇa; essa é a inteligência mais elevada. Buddhi significa inteligência, e yogam significa atividades místicas ou elevação mística. Quando a pessoa tenta voltar ao lar, de volta a Deus, e adota plenamente a consciência de Kṛṣṇa em serviço devocional, sua ação chama-se buddhi-yogam. Em outras palavras, o buddhi-yogam é o processo pelo qual se sai do enredamento deste mundo material. A meta última do progresso é Kṛṣṇa. As pessoas não sabem disso; por isso, a associação dos devotos e um mestre espiritual genuíno são importantes. Deve-se saber que a meta é Kṛṣṇa, e, quando a meta é fixada, então a senda é percorrida lenta mas progressivamente, e a meta última é alcançada.\n\n\n\nQuando a pessoa conhece a meta da vida, mas é viciada nos frutos das atividades, está agindo em karma-yoga. Quando sabe que a meta é Kṛṣṇa, mas tem prazer em especulações mentais para compreender Kṛṣṇa, está agindo em jñāna-yoga. E quando conhece a meta e busca Kṛṣṇa completamente em consciência de Kṛṣṇa e em serviço devocional, está agindo em bhakti-yoga, ou buddhi-yoga, que é o yoga completo. Esse yoga completo é o estágio mais elevado de perfeição da vida.\n\n\n\nUma pessoa pode ter um mestre espiritual genuíno e estar vinculada a uma organização espiritual, mas, ainda assim, se não for inteligente o suficiente para progredir, então Kṛṣṇa, de dentro, dá-lhe instruções para que possa, por fim, vir a Ele sem dificuldade. A qualificação é que a pessoa sempre se ocupe em consciência de Kṛṣṇa e, com amor e devoção, preste todo tipo de serviços. Ela deve realizar algum tipo de trabalho para Kṛṣṇa, e esse trabalho deve ser feito com amor. Se um devoto for inteligente o bastante, progredirá no caminho da autorrealização. Se for sincero e devotado às atividades do serviço devocional, o Senhor lhe dá a oportunidade de progredir e, por fim, alcançá-Lo."}
{"ref": "bg/10/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/11/", "verse_text": "teṣām evānukampārtham\n\naham ajñāna-jaṁ tamaḥ\n\nnāśayāmy ātma-bhāva-stho\n\njñāna-dīpena bhāsvatā", "devanagari": "> तेषामेवानुकम्पार्थमहमज्ञानजं तमः ।\n> नाशयाम्यात्मभावस्थो ज्ञानदीपेन भास्वता ॥११॥", "synonyms": "*teṣām*—para eles; *eva*—certamente; *anukampā-artham*—para mostrar misericórdia especial; *aham*—Eu; *ajñāna-jam*—devida à ignorância; *tamaḥ*—escuridão; *nāśayāmi*—dissipo; *ātma*—dentro; *bhāvasthaḥ*—deles próprios; *jñāna*—de conhecimento; *dīpena*—com a lâmpada; *bhāsvatā*—brilhante.", "translation": "**Por compaixão por eles, Eu, que habito em seus corações, destruo com a lâmpada brilhante do conhecimento a escuridão nascida da ignorância.**", "purport": "Quando o Senhor Caitanya estava em Benares promulgando o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, milhares de pessoas O seguiam. Prakāśānanda, um erudito muito influente em Benares naquela época, ridicularizou o Senhor Caitanya por considerá-Lo sentimentalista. Às vezes, os filósofos criticam os devotos, pois pensam que a maioria dos devotos está na escuridão da ignorância e são filosoficamente sentimentalistas ingênuos. Na verdade, isso não é fato. Há eruditos muito, muito instruídos que apresentaram a filosofia da devoção, mas, ainda que um devoto não tire proveito de suas literaturas ou de seu mestre espiritual, se for sincero em seu serviço devocional será ajudado pelo próprio Kṛṣṇa, dentro de seu coração. Assim, o devoto sincero ocupado em consciência de Kṛṣṇa não pode ficar sem conhecimento. A única qualificação é que se execute o serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nOs filósofos modernos pensam que, sem discriminação, não se pode ter conhecimento puro. Para eles, o Senhor Supremo dá esta resposta: aqueles que se ocupam em serviço devocional puro, ainda que sem suficiente educação e mesmo sem suficiente conhecimento dos princípios Védicos, são, mesmo assim, ajudados pelo Deus Supremo, conforme se afirma neste verso.\n\n\n\nO Senhor diz a Arjuna que, basicamente, não há possibilidade de compreender a Verdade Suprema, a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus, simplesmente especulando, pois a Verdade Suprema é tão grande que não é possível compreendê-La ou alcançá-La simplesmente por um esforço mental. O homem pode prosseguir especulando por vários milhões de anos, e, se não for devotado, se não for um amante da Verdade Suprema, jamais compreenderá Kṛṣṇa ou a Verdade Suprema. Somente pelo serviço devocional a Verdade Suprema, Kṛṣṇa, fica satisfeito, e, por Sua energia inconcebível, Ele pode revelar-Se ao coração do devoto puro. O devoto puro sempre tem Kṛṣṇa em seu coração; por isso, é como o sol que dissipa a escuridão da ignorância. Esta é a misericórdia especial concedida ao devoto puro por Kṛṣṇa.\n\n\n\nDevido à contaminação da associação material, ao longo de muitos e muitos milhões de nascimentos, o coração da pessoa está sempre coberto pela poeira do materialismo, mas, quando ela se ocupa em serviço devocional e canta constantemente Hare Kṛṣṇa, a poeira se dissipa rapidamente, e a pessoa é elevada à plataforma do conhecimento puro. A meta última de Viṣṇu pode ser alcançada apenas por meio desse canto e do serviço devocional, e não por especulação mental ou argumentação. O devoto puro não tem de preocupar-se com as necessidades da vida; não precisa ficar ansioso, pois, quando dissipa a escuridão de seu coração, tudo é provido automaticamente pelo Senhor Supremo, pois Ele Se satisfaz com o serviço devocional amoroso do devoto. Esta é a essência dos ensinamentos do *Gītā*. Estudando o *Bhagavad-gītā*, a pessoa pode tornar-se uma alma completamente rendida ao Senhor Supremo e ocupar-se em serviço devocional puro. Quando o Senhor toma o comando, a pessoa torna-se completamente livre de todo tipo de esforços materialistas."}
{"ref": "bg/10/12-13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/12-13/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nparaṁ brahma paraṁ dhāma\n\npavitraṁ paramaṁ bhavān\n\npuruṣaṁ śāśvataṁ divyam\n\nādi-devam ajaṁ vibhum\n\nāhus tvām ṛṣayaḥ sarve\n\ndevarṣir nāradas tathā\n\nasito devalo vyāsaḥ\n\nsvayaṁ caiva bravīṣi me", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> परं ब्रह्म परं धाम पवित्रं परमं भवान् ।\n> पुरुषं शाश्वतं दिव्यमादिदेवमजं विभुम् ॥१२॥\n> आहुस्त्वामृषयः सर्वे देवर्षिर्नारदस्तथा ।\n> असितो देवलो व्यासः स्वयं चैव ब्रवीषि मे ॥१३॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *param*—suprema; *brahma*—verdade; *param*—suprema; *dhāma*—sustentação; *pavitram*—puríssimo; *paramam*—supremo; *bhavān*—Vós próprio; *puruṣam*—personalidade; *śāśvatam*—original; *divyam*—transcendental; *ādi-devam*—Senhor original; *ajam*—não nascido; *vibhum*—maior; *āhuḥ*—dizem; *tvām*—de Vós; *ṛṣayaḥ*—sábios; *sarve*—todos; *devarṣiḥ*—o sábio entre os semideuses; *nāradaḥ*—Nārada; *tathā*—também; *asitaḥ*—Asita; *devalaḥ*—Devala; *vyāsaḥ*—Vyāsa; *svayam*—pessoalmente; *ca*—também; *eva*—certamente; *bravīṣi*—explicando; *me*—a mim.", "translation": "**Arjuna disse: Tu és o Brahman Supremo, o último, a suprema morada e purificador, a Verdade Absoluta e a eterna pessoa divina. Tu és o Deus primordial, transcendental e original, e Tu és a beleza não nascida e onipenetrante. Todos os grandes sábios, como Nārada, Asita, Devala e Vyāsa, proclamam isso de Ti, e agora Tu próprio o declaras a mim.**", "purport": "Nestes dois versos, o Senhor Supremo dá uma oportunidade ao filósofo moderno, pois aqui fica claro que o Supremo é diferente da alma individual. Arjuna, depois de ouvir os quatro versos essenciais do *Bhagavad-gītā* neste capítulo, ficou completamente livre de todas as dúvidas e aceitou Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Imediatamente declara, com ousadia: \"Tu és Parambrahma, a Suprema Personalidade de Deus.\" E, anteriormente, Kṛṣṇa afirma que Ele é o originador de tudo e de todos. Cada semideus e cada ser humano dependem dEle. Homens e semideuses, por ignorância, pensam que são absolutos e independentes do Senhor Supremo Kṛṣṇa. Essa ignorância é removida perfeitamente pelo desempenho do serviço devocional. Isso já foi explicado no verso anterior pelo Senhor. Agora, por Sua graça, Arjuna O aceita como a Verdade Suprema, em concordância com a injunção Védica. Não é por Kṛṣṇa ser amigo íntimo de Arjuna que este O lisonjeia chamando-O de Suprema Personalidade de Deus, a Verdade Absoluta. O que quer que Arjuna diga nestes dois versos é confirmado pela verdade Védica. As injunções Védicas afirmam que somente aquele que adota o serviço devocional ao Senhor Supremo pode compreendê-Lo, ao passo que os outros não. Cada palavra deste verso, dita por Arjuna, é confirmada por uma injunção Védica.\n\n\n\nNo Kena Upaniṣad afirma-se que o Brahman Supremo é o repouso de tudo, e Kṛṣṇa já explicou que tudo repousa nEle. O Muṇḍaka Upaniṣad confirma que o Senhor Supremo, em quem tudo repousa, só pode ser realizado por aqueles que se ocupam constantemente em pensar nEle. Esse pensar constante em Kṛṣṇa é smaraṇam, um dos métodos do serviço devocional. É somente pelo serviço devocional a Kṛṣṇa que a pessoa pode compreender sua posição e livrar-se deste corpo material.\n\n\n\nNos *Vedas*, o Senhor Supremo é aceito como o mais puro dos puros. Aquele que compreende que Kṛṣṇa é o mais puro dos puros pode purificar-se de todas as atividades pecaminosas. Não se pode ficar livre das atividades pecaminosas a menos que a pessoa se renda ao Senhor Supremo. A aceitação de Kṛṣṇa, por Arjuna, como o supremo puro, está em conformidade com as injunções da literatura Védica. Isso também é confirmado por grandes personalidades, das quais Nārada é a principal.\n\n\n\nKṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e a pessoa deve sempre meditar nEle e desfrutar de sua relação transcendental com Ele. Ele é a existência suprema. Ele está livre de necessidades corpóreas, de nascimento e morte. Não somente Arjuna confirma isso, mas toda a literatura Védica, os *Purāṇas* e as histórias. Em toda a literatura Védica Kṛṣṇa é assim descrito, e o próprio Senhor Supremo também diz, no Quarto Capítulo: \"Embora Eu seja não nascido, apareço nesta Terra para estabelecer os princípios religiosos.\" Ele é a origem suprema; não tem causa, pois Ele é a causa de todas as causas, e tudo emana dEle. Esse conhecimento perfeito pode ser obtido pela graça do Senhor Supremo.\n\n\n\nAqui Arjuna se expressa pela graça de Kṛṣṇa. Se quisermos compreender o *Bhagavad-gītā*, devemos aceitar as afirmações destes dois versos. Isso se chama o sistema paramparā, a aceitação da sucessão discipular. A menos que se esteja na sucessão discipular, não se pode compreender o *Bhagavad-gītā*. Não é possível por meio da chamada educação acadêmica. Infelizmente, aqueles que se orgulham de sua educação acadêmica, apesar de tantas evidências na literatura Védica, mantêm-se obstinados em sua convicção de que Kṛṣṇa é uma pessoa comum."}
{"ref": "bg/10/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/14/", "verse_text": "sarvam etad ṛtaṁ manye\n\nyan māṁ vadasi keśava\n\nna hi te bhagavan vyaktiṁ\n\nvidur devā na dānavāḥ", "devanagari": "> सर्वमेतदृतं मन्ये यन्मां वदसि केशव ।\n> न हि ते भगवन्व्यक्तिं विदुर्देवा न दानवाः ॥१४॥", "synonyms": "*sarvam*—toda; *etat*—esta; *ṛtam*—verdade; *manye*—aceito; *yat*—que; *mām*—a mim; *vadasi*—Tu dizes; *keśava*—ó Kṛṣṇa; *na*—nunca; *hi*—certamente; *te*—Tua; *bhagavan*—ó Personalidade de Deus; *vyaktim*—revelação; *viduḥ*—podem conhecer; *devaḥ*—os semideuses; *na*—nem; *dānavāḥ*—os demônios.", "translation": "**Ó Kṛṣṇa, aceito totalmente como verdade tudo o que me disseste. Nem os deuses nem os demônios, ó Senhor, conhecem Tua personalidade.**", "purport": "Aqui Arjuna confirma que as pessoas de natureza incrédula e demoníaca não podem compreender Kṛṣṇa. Ele não é conhecido nem mesmo pelos semideuses, o que dizer, então, dos supostos eruditos deste mundo moderno? Pela graça do Senhor Supremo, Arjuna compreendeu que a Verdade Suprema é Kṛṣṇa e que Ele é o perfeito. Deve-se, pois, seguir o caminho de Arjuna. Ele recebeu a autoridade do *Bhagavad-gītā*. Como se descreveu no Quarto Capítulo, o sistema paramparā de sucessão discipular para a compreensão do *Bhagavad-gītā* foi perdido e, por isso, Kṛṣṇa restabeleceu essa sucessão discipular com Arjuna, porque o considerava Seu amigo íntimo e um grande devoto. Por conseguinte, como se afirma em nossa Introdução ao Gītopaniṣad, o *Bhagavad-gītā* deve ser compreendido no sistema paramparā. Quando o sistema paramparā se perdeu, Arjuna foi novamente escolhido para revigorá-lo. A aceitação, por parte de Arjuna, de tudo o que Kṛṣṇa diz deve ser imitada; então, poderemos compreender a essência do *Bhagavad-gītā*, e somente então poderemos compreender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/10/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/15/", "verse_text": "svayam evātmanātmānaṁ\n\nvettha tvaṁ puruṣottama\n\nbhūta-bhāvana bhūteśa\n\ndeva-deva jagat-pate", "devanagari": "> स्वयमेवात्मनात्मानं वेत्थ त्वं पुरुषोत्तम ।\n> भूतभावन भूतेश देवदेव जगत्पते ॥१५॥", "synonyms": "*svayam*—personalidade; *eva*—certamente; *ātmanā*—por Ti mesmo; *ātmānam*—a Ti mesmo; *vettha*—conheces; *tvam*—Tu; *puruṣottama*—ó maior de todas as pessoas; *bhūta-bhāvana*—ó origem de tudo; *bhūteśa*—ó Senhor de tudo; *deva-deva*—ó Senhor de todos os semideuses; *jagat-pate*—ó Senhor do universo inteiro.", "translation": "**De fato, somente Tu Te conheces por Tuas próprias potências, ó origem de tudo, Senhor de todos os seres, Deus dos deuses, ó Pessoa Suprema, Senhor do universo!**", "purport": "O Senhor Supremo Kṛṣṇa pode ser conhecido por aquelas pessoas que estão em relação com Ele através do desempenho do serviço devocional, como Arjuna e seus sucessores. As pessoas de mentalidade demoníaca ou ateísta não podem conhecer Kṛṣṇa. A especulação mental, que afasta a pessoa do Senhor Supremo, é um pecado grave, e quem não conhece Kṛṣṇa não deve tentar comentar o *Bhagavad-gītā*. O *Bhagavad-gītā* é a declaração de Kṛṣṇa e, por ser a ciência de Kṛṣṇa, deve ser compreendido a partir de Kṛṣṇa, assim como Arjuna o compreendeu. Não deve ser recebido de pessoas ateístas.\n\n\n\nA Verdade Suprema é compreendida em três aspectos: como Brahman impessoal, Paramātmā localizado e, por fim, como a Suprema Personalidade de Deus. Assim, no último estágio de compreensão da Verdade Absoluta, chega-se à Suprema Personalidade de Deus. Um homem liberado e mesmo um homem comum podem compreender o Brahman impessoal ou o Paramātmā localizado, mas talvez não compreendam a personalidade de Deus a partir dos versos do *Bhagavad-gītā*, que estão sendo falados por esta pessoa, Kṛṣṇa. Às vezes, os impersonalistas aceitam Kṛṣṇa como Bhagavān, ou aceitam Sua autoridade. Contudo, muitas pessoas liberadas não conseguem compreender Kṛṣṇa como Puruṣottama, a Pessoa Suprema, o pai de todas as entidades vivas. Por isso, Arjuna se dirige a Ele como Puruṣottama. E, ainda que se chegue a conhecê-Lo como o pai de todas as entidades vivas, talvez não se O conheça como o controlador supremo; assim sendo, Ele é aqui chamado de Bhūteśa, o controlador supremo de todos. E, mesmo que se conheça Kṛṣṇa como o controlador supremo de todas as entidades vivas, talvez ainda não se saiba que Ele é a origem de todos os semideuses; portanto, Ele é aqui chamado de Devadeva, o Deus adorável de todos os semideuses. E, mesmo que se O conheça como o Deus adorável de todos os semideuses, talvez não se saiba que Ele é o supremo proprietário de tudo; daí ser Ele chamado de Jagatpati. Assim, a verdade sobre Kṛṣṇa é estabelecida neste verso pela compreensão de Arjuna, e devemos seguir os passos de Arjuna para compreender Kṛṣṇa como Ele é."}
{"ref": "bg/10/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/16/", "verse_text": "vaktum arhasy aśeṣeṇa\n\ndivyā hy ātma-vibhūtayaḥ\n\nyābhir vibhūtibhir lokān\n\nimāṁs tvaṁ vyāpya tiṣṭhasi", "devanagari": "> वक्तुमर्हस्यशेषेण दिव्या ह्यात्मविभूतयः ।\n> याभिर्विभूतिभिर्लोकानिमांस्त्वं व्याप्य तिष्ठसि ॥१६॥", "synonyms": "*vaktum*—dizer; *arhasi*—mereces; *aśeṣeṇa*—em detalhe; *divyā*—divinas; *hi*—certamente; *ātma*—Tuas próprias; *vibhūtayaḥ*—opulências; *yābhiḥ*—pelas quais; *vibhūtibhiḥ*—opulências; *lokān*—todos os planetas; *imān*—estes; *tvam*—Tu; *vyāpya*—penetrando; *tiṣṭhasi*—permaneces.", "translation": "**Por favor, fala-me em detalhes sobre Teus poderes divinos, pelos quais penetras todos estes mundos e habitas neles.**", "purport": "Neste verso, parece que Arjuna já está satisfeito com sua compreensão do Senhor Supremo Kṛṣṇa. Pela graça de Kṛṣṇa, Arjuna tem experiência pessoal, inteligência e conhecimento, e tudo o mais que uma pessoa possa ter por meio desses recursos, e compreendeu Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Para ele, não há dúvida. Contudo, ele pede a Kṛṣṇa que explique Sua natureza onipenetrante, para que, no futuro, as pessoas compreendam, especialmente os impersonalistas, como Ele existe em Seu aspecto onipenetrante por meio de Suas diferentes energias. Deve-se saber que isso está sendo perguntado por Arjuna em nome das pessoas comuns."}
{"ref": "bg/10/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/17/", "verse_text": "kathaṁ vidyām ahaṁ yogiṁs\n\ntvāṁ sadā paricintayan\n\nkeṣu keṣu ca bhāveṣu\n\ncintyo 'si bhagavan mayā", "devanagari": "> कथं विद्यामहं योगिंस्त्वां सदा परिचिन्तयन् ।\n> केषु केषु च भावेषु चिन्त्योऽसि भगवन्मया ॥१७॥", "synonyms": "*katham*—como; *vidyām aham*—conhecerei; *yogin*—ó místico supremo; *tvām*—a Ti; *sadā*—sempre; *paricintayan*—pensando; *keṣu*—em quais; *keṣu*—em quais; *ca*—também; *bhāveṣu*—naturezas; *cintyaḥ asi*—és lembrado; *bhagavan*—ó Supremo; *mayā*—por mim.", "translation": "**Como devo meditar em Ti? Em quais várias formas Te devo contemplar, ó Senhor Abençoado?**", "purport": "Como se afirmou no capítulo anterior, a Suprema Personalidade de Deus está coberta por Sua *yoga-māyā*. Apenas as almas rendidas e os devotos podem vê-Lo. Agora Arjuna está convencido de que Seu amigo, Kṛṣṇa, é o Deus Supremo, mas deseja conhecer o processo geral pelo qual o Senhor onipenetrante pode ser compreendido pelo homem comum. Nenhum homem comum, incluindo os demônios e os ateus, pode conhecer Kṛṣṇa, pois Ele está protegido por Sua energia *yoga-māyā*. Novamente, estas perguntas são feitas por Arjuna para benefício deles. O devoto superior se preocupa não somente com sua própria compreensão, mas com a compreensão de toda a humanidade. Por sua misericórdia, por ser um vaiṣṇava, um devoto, Arjuna está abrindo a compreensão para o homem comum no que se refere à onipenetração do Supremo. Ele se dirige a Kṛṣṇa especificamente como yogin, porque Śrī Kṛṣṇa é o mestre da energia *yoga-māyā*, pela qual fica coberto e descoberto para o homem comum. O homem comum, que não tem amor por Kṛṣṇa, não pode pensar sempre em Kṛṣṇa; por isso, tem de pensar materialmente. Arjuna está considerando o modo de pensar das pessoas materialistas deste mundo. Como os materialistas não podem compreender Kṛṣṇa espiritualmente, são aconselhados a concentrar a mente em coisas físicas e tentar ver como Kṛṣṇa é manifestado por meio de representações físicas."}
{"ref": "bg/10/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/18/", "verse_text": "vistareṇātmano yogaṁ\n\nvibhūtiṁ ca janārdana\n\nbhūyaḥ kathaya tṛptir hi\n\nśṛṇvato nāsti me 'mṛtam", "devanagari": "> विस्तरेणात्मनो योगं विभूतिं च जनार्दन ।\n> भूयः कथय तृप्तिर्हि शृण्वतो नास्ति मेऽमृतम् ॥१८॥", "synonyms": "*vistareṇa*—em descrição; *ātmanaḥ*—de Ti mesmo; *yogam*—poder místico; *vibhūtim*—opulências; *ca*—também; *janārdana*—ó destruidor dos ateus; *bhūyaḥ*—novamente; *kathaya*—descreve; *tṛptiḥ*—satisfação; *hi*—certamente; *śṛṇvataḥ*—ouvindo; *na asti*—não há; *me*—meu; *amṛtam*—néctar.", "translation": "**Fala-me novamente em detalhes, ó Janārdana [Kṛṣṇa], de Tuas potências e glórias poderosas, pois jamais me canso de ouvir Tuas palavras ambrosiais.**", "purport": "Uma declaração semelhante foi feita a Sūta Gosvāmī pelos *ṛṣis* de Naimiṣāraṇya, encabeçados por Śaunaka. A declaração é:\n\n\n\nvayaṁ tu na vitṛpyāma uttama-śloka-vikrame\n\nyac chṛṇvatāṁ rasa-jñānāṁ svādu svādu pade pade.\n\n\n\n\"Jamais se pode ficar saciado, ainda que se ouçam continuamente os passatempos transcendentais de Kṛṣṇa, que é glorificado pelos hinos Védicos. Aqueles que entraram numa relação transcendental com Kṛṣṇa saboreiam, a cada passo, as descrições dos passatempos do Senhor.\" Assim, Arjuna está interessado em ouvir falar de Kṛṣṇa, especificamente como Ele permanece como o Senhor Supremo onipenetrante.\n\n\n\nOra, no que se refere a *amṛtam*, néctar, qualquer narração ou declaração concernente a Kṛṣṇa é como néctar. E esse néctar pode ser percebido pela experiência prática. As histórias modernas, a ficção e as histórias diferem dos passatempos transcendentais do Senhor, pois a pessoa cansa-se de ouvir histórias mundanas, mas jamais se cansa de ouvir falar de Kṛṣṇa. É somente por essa razão que a história do universo inteiro está repleta de referências aos passatempos das encarnações de Deus. Por exemplo, os *Purāṇas* são histórias de eras passadas que relatam os passatempos das várias encarnações do Senhor. Dessa maneira, o material de leitura permanece sempre fresco, apesar de leituras repetidas."}
{"ref": "bg/10/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/19/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nhanta te kathayiṣyāmi\n\ndivyā hy ātma-vibhūtayaḥ\n\nprādhānyataḥ kuru-śreṣṭha\n\nnāsty anto vistarasya me", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> हन्त ते कथयिष्यामि दिव्या ह्यात्मविभूतयः ।\n> प्राधान्यतः कुरुश्रेष्ठ नास्त्यन्तो विस्तरस्य मे ॥१९॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *hanta*—sim; *te*—a ti; *kathayiṣyāmi*—falarei; *divyāḥ*—divinas; *hi*—certamente; *ātma-vibhūtayaḥ*—opulências pessoais; *prādhānyataḥ*—principalmente; *kuruśreṣṭha*—ó melhor dos Kurus; *na asti*—não há; *antaḥ*—limite; *vistarasya*—à extensão; *me*—de Minhas.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Sim, falar-te-ei de Minhas esplendorosas manifestações, mas apenas das que são proeminentes, ó Arjuna, pois Minha opulência é ilimitada.**", "purport": "Não é possível abranger a grandeza de Kṛṣṇa e Suas opulências. Os sentidos da alma individual são imperfeitos e não lhe permitem compreender a totalidade dos assuntos de Kṛṣṇa. Mesmo assim, os devotos tentam compreender Kṛṣṇa, mas não com base no princípio de que conseguirão compreender Kṛṣṇa plenamente em algum momento específico ou em algum estado da vida. Em vez disso, os próprios temas de Kṛṣṇa são tão saborosos que lhes parecem néctar. Assim, eles se deleitam com tais temas. Ao discutir as opulências de Kṛṣṇa e Suas diversas energias, os devotos puros sentem prazer transcendental. Por isso, querem ouvi-las e discuti-las. Kṛṣṇa sabe que as entidades vivas não compreendem a extensão de Suas opulências; por conseguinte, concorda em declarar apenas as principais manifestações de Suas diferentes energias. A palavra *prādhānyataḥ* (principal) é muito importante, pois podemos compreender apenas alguns dos principais detalhes do Senhor Supremo, já que Seus aspectos são ilimitados. Não é possível compreendê-los todos. E *vibhūti*, conforme usado neste verso, refere-se às opulências pelas quais Ele controla toda a manifestação. No dicionário Amara-kośa afirma-se que *vibhūti* indica uma opulência excepcional.\n\n\n\nO impersonalista ou o panteísta não pode compreender as opulências excepcionais do Senhor Supremo nem as manifestações de Sua energia divina. Tanto no mundo material como no mundo espiritual, Suas energias estão distribuídas em toda variedade de manifestação. Agora Kṛṣṇa está descrevendo o que pode ser percebido diretamente pelo homem comum; assim, parte de Sua energia variegada é descrita dessa maneira."}
{"ref": "bg/10/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/20/", "verse_text": "aham ātmā guḍākeśa\n\nsarva-bhūtāśaya-sthitaḥ\n\naham ādiś ca madhyaṁ ca\n\nbhūtānām anta eva ca", "devanagari": "> अहमात्मा गुडाकेश सर्वभूताशयस्थितः ।\n> अहमादिश्च मध्यं च भूतानामन्त एव च ॥२०॥", "synonyms": "*aham*—Eu; *ātmā*—alma; *guḍākeśa*—ó Arjuna; *sarva-bhūta*—todas as entidades vivas; *āśaya-sthitaḥ*—situado dentro; *aham*—Eu sou; *ādiḥ*—origem; *ca*—também; *madhyam*—meio; *ca*—também; *bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *antaḥ*—fim; *eva*—certamente; *ca*—e.", "translation": "**Eu sou o Eu, ó Guḍākeśa, situado nos corações de todas as criaturas. Eu sou o princípio, o meio e o fim de todos os seres.**", "purport": "Neste verso, Arjuna é tratado por Guḍākeśa, que significa aquele que conquistou a escuridão do sono. Para aqueles que estão dormindo na escuridão da ignorância, não é possível compreender como o Deus Supremo Se manifesta nos mundos material e espiritual. Assim, este modo de Kṛṣṇa dirigir-se a Arjuna é significativo. Como Arjuna está acima de tal escuridão, a Personalidade de Deus aceita descrever Suas várias opulências.\n\n\n\nKṛṣṇa primeiramente informa a Arjuna que Ele é o Eu ou alma de toda a manifestação cósmica por intermédio de Sua expansão primária. Antes da criação material, o Senhor Supremo, por Sua expansão plenária, aceita as encarnações Puruṣa, e dEle tudo começa. Por isso, Ele é *ātmā*, a alma do *mahat-tattva*, os elementos universais. A energia material total não é a causa da criação, mas, na verdade, é Mahā-Viṣṇu quem entra no *mahat-tattva*, a energia material total. Ele é a alma. Quando Mahā-Viṣṇu entra nos universos manifestados, Ele Se manifesta novamente como a Superalma em cada uma das entidades. Temos a experiência de que o corpo pessoal da entidade viva existe devido à presença da centelha espiritual. Sem a existência da centelha espiritual, o corpo não pode desenvolver-se. De modo semelhante, a manifestação material não pode desenvolver-se a menos que a Alma Suprema de Kṛṣṇa entre nela.\n\n\n\nA Suprema Personalidade de Deus existe como a Superalma em todos os universos manifestados. Uma descrição dos três *puruṣa-avatāras* é dada no *Śrīmad-Bhāgavatam*. \"A Suprema Personalidade de Deus manifesta três aspectos, como Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu, Garbhodakaśāyī Viṣṇu e Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, nesta manifestação material.\" O Senhor Supremo Kṛṣṇa, a causa de todas as causas, deita-Se no oceano cósmico como Mahā-Viṣṇu ou Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu, e por isso Kṛṣṇa é o princípio deste universo, o mantenedor da manifestação universal e o fim de toda a energia."}
{"ref": "bg/10/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/21/", "verse_text": "ādityānām ahaṁ viṣṇur\n\njyotiṣāṁ ravir aṁśumān\n\nmarīcir marutām asmi\n\nnakṣatrāṇām ahaṁ śaśī", "devanagari": "> आदित्यानामहं विष्णुर्ज्योतिषां रविरंशुमान् ।\n> मरीचिर्मरुतामस्मि नक्षत्राणामहं शशी ॥२१॥", "synonyms": "*ādityānām*—dos Ādityas; *aham*—Eu sou; *viṣṇuḥ*—o Senhor Supremo; *jyotiṣām*—de todos os luminares; *raviḥ*—o sol; *aṁśumān*—radiante; *marīciḥ*—Marīci; *marutām*—dos Marutas; *asmi*—Eu sou; *nakṣatrāṇām*—das estrelas; *aham*—Eu sou; *śaśī*—a lua.", "translation": "**Dos Ādityas, sou Viṣṇu; das luzes, sou o sol radiante; sou Marīci dos Marutas, e entre as estrelas sou a lua.**", "purport": "Há doze Ādityas, dos quais Kṛṣṇa é o principal. E, dentre todos os luminares que cintilam no céu, o sol é o principal, e no Brahma-saṁhitā o sol é aceito como a refulgência brilhante do Senhor Supremo e é considerado um de Seus olhos. Marīci é a deidade controladora dos espaços celestiais. Entre as estrelas, a lua é a mais proeminente à noite, e assim a lua representa Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/22/", "verse_text": "vedānāṁ sāma-vedo 'smi\n\ndevānām asmi vāsavaḥ\n\nindriyāṇāṁ manaś cāsmi\n\nbhūtānām asmi cetanā", "devanagari": "> वेदानां सामवेदोऽस्मि देवानामस्मि वासवः ।\n> इन्द्रियाणां मनश्चास्मि भूतानामस्मि चेतना ॥२२॥", "synonyms": "*vedānām*—de todos os Vedas; *sāma-vedaḥ*—o Sāma-veda; *asmi*—Eu sou; *devānām*—de todos os semideuses; *asmi*—Eu sou; *vāsavaḥ*—rei celestial; *indriyāṇām*—de todos os sentidos; *manaḥ*—a mente; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *asmi*—Eu sou; *cetanā*—a força viva.", "translation": "**Dos *Vedas*, sou o Sāma-veda; dos semideuses, sou Indra; dos sentidos, sou a mente; e nos seres vivos, sou a força viva [conhecimento].**", "purport": "A diferença entre matéria e espírito é que a matéria não tem consciência, como a entidade viva tem; por isso, esta consciência é suprema e eterna. A consciência não pode ser produzida por uma combinação de matéria."}
{"ref": "bg/10/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/23/", "verse_text": "rudrāṇāṁ śaṅkaraś cāsmi\n\nvitteśo yakṣa-rakṣasām\n\nvasūnāṁ pāvakaś cāsmi\n\nmeruḥ śikhariṇām aham", "devanagari": "> रुद्राणां शङ्करश्चास्मि वित्तेशो यक्षरक्षसाम् ।\n> वसूनां पावकश्चास्मि मेरुः शिखरिणामहम् ॥२३॥", "synonyms": "*rudrāṇām*—de todos os Rudras; *śaṅkaraḥ*—o Senhor Śiva; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *vitteśaḥ*—o senhor do tesouro; *yakṣa-rakṣasām*—dos Yakṣas e Rākṣasas; *vasūnām*—dos Vasus; *pāvakaḥ*—fogo; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *meruḥ*—Meru; *śikhariṇām*—de todas as montanhas; *aham*—Eu sou.", "translation": "**De todos os Rudras, sou o Senhor Śiva; dos Yakṣas e Rākṣasas, sou o senhor da riqueza [Kuvera]; dos Vasus, sou o fogo [Agni], e das montanhas sou Meru.**", "purport": "Há onze Rudras, dos quais Śaṅkara, o Senhor Śiva, é o predominante. Ele é a encarnação do Senhor Supremo encarregada do modo da ignorância no universo. Entre os semideuses, Kuvera é o tesoureiro principal, e ele é uma representação do Senhor Supremo. Meru é uma montanha famosa por seus ricos recursos naturais."}
{"ref": "bg/10/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/24/", "verse_text": "purodhasāṁ ca mukhyaṁ māṁ\n\nviddhi pārtha bṛhaspatim\n\nsenānīnām ahaṁ skandaḥ\n\nsarasām asmi sāgaraḥ", "devanagari": "> पुरोधसां च मुख्यं मां विद्धि पार्थ बृहस्पतिम् ।\n> सेनानीनामहं स्कन्दः सरसामस्मि सागरः ॥२४॥", "synonyms": "*purodhasām*—de todos os sacerdotes; *ca*—também; *mukhyam*—o principal; *mām*—a Mim; *viddhi*—entende; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *bṛhaspatim*—Bṛhaspati; *senānīnām*—de todos os comandantes; *aham*—Eu sou; *skandaḥ*—Kārtikeya; *sarasām*—de todos os reservatórios de água; *asmi*—Eu sou; *sāgaraḥ*—o oceano.", "translation": "**Dos sacerdotes, ó Arjuna, sabe que sou o principal, Bṛhaspati, o senhor da devoção. Dos generais, sou Skanda, o senhor da guerra; e dos corpos de água, sou o oceano.**", "purport": "Indra é o semideus principal dos planetas celestiais e é conhecido como o rei dos céus. O planeta em que ele reina chama-se Indraloka. Bṛhaspati é o sacerdote de Indra, e, como Indra é o principal de todos os reis, Bṛhaspati é o principal de todos os sacerdotes. E, assim como Indra é o principal de todos os reis, da mesma forma Skanda, o filho de Pārvatī e do Senhor Śiva, é o principal de todos os comandantes militares. E, dentre todos os corpos de água, o oceano é o maior. Estas representações de Kṛṣṇa apenas dão indícios de Sua grandeza."}
{"ref": "bg/10/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/25/", "verse_text": "maharṣīṇāṁ bhṛgur ahaṁ\n\ngirām asmy ekam akṣaram\n\nyajñānāṁ japa-yajño 'smi\n\nsthāvarāṇāṁ himālayaḥ", "devanagari": "> महर्षीणां भृगुरहं गिरामस्म्येकमक्षरम् ।\n> यज्ञानां जपयज्ञोऽस्मि स्थावराणां हिमालयः ॥२५॥", "synonyms": "*maharṣīṇām*—entre os grandes sábios; *bhṛguḥ*—Bhṛgu; *aham*—Eu sou; *girām*—das vibrações; *asmi*—Eu sou; *ekam akṣaram*—praṇava; *yajñānām*—dos sacrifícios; *japa-yajñaḥ*—canto; *asmi*—Eu sou; *sthāvarāṇām*—das coisas imóveis; *himālayaḥ*—as montanhas do Himalaia.", "translation": "**Dos grandes sábios, sou Bhṛgu; das vibrações, sou o transcendental om. Dos sacrifícios, sou o canto dos santos nomes [japa], e das coisas imóveis sou os Himalaias.**", "purport": "Brahmā, a primeira criatura viva no universo, criou vários filhos para a propagação dos diversos tipos de espécies. O mais poderoso de seus filhos é Bhṛgu, que também é o maior sábio. De todas as vibrações transcendentais, o \"om\" (omkara) representa o Supremo. De todos os sacrifícios, o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare é a representação mais pura de Kṛṣṇa. Às vezes, recomendam-se sacrifícios animais, mas, no sacrifício de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, não há possibilidade de violência. É o mais simples e o mais puro. Tudo o que é sublime nos mundos é uma representação de Kṛṣṇa. Por conseguinte, os Himalaias, as maiores montanhas do mundo, também O representam. A montanha chamada Meru foi mencionada num verso anterior, mas Meru às vezes é móvel, ao passo que os Himalaias jamais são móveis. Assim, os Himalaias são maiores do que Meru."}
{"ref": "bg/10/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/26/", "verse_text": "aśvatthaḥ sarva-vṛkṣāṇāṁ\n\ndevarṣīṇāṁ ca nāradaḥ\n\ngandharvāṇāṁ citrarathaḥ\n\nsiddhānāṁ kapilo muniḥ", "devanagari": "> अश्वत्थः सर्ववृक्षाणां देवर्षीणां च नारदः ।\n> गन्धर्वाणां चित्ररथः सिद्धानां कपिलो मुनिः ॥२६॥", "synonyms": "*aśvatthaḥ*—a figueira-de-bengala; *sarva-vṛkṣāṇām*—de todas as árvores; *devarṣīṇām*—de todos os sábios entre os semideuses; *ca*—e; *nāradaḥ*—Nārada; *gandharvāṇām*—os habitantes do planeta Gandharva; *citrarathaḥ*—Citraratha; *siddhānām*—de todos os que estão aperfeiçoados; *kapilaḥ muniḥ*—Kapila Muni.", "translation": "**De todas as árvores, sou a sagrada figueira, e entre os sábios e semideuses, sou Nārada. Dos cantores dos deuses [Gandharvas], sou Citraratha, e entre os seres aperfeiçoados, sou o sábio Kapila.**", "purport": "A figueira (*aśvattha*) é uma das árvores mais belas e mais altas, e na Índia as pessoas costumam adorá-la como um de seus rituais matinais diários. Entre os semideuses, eles também adoram Nārada, que é considerado o maior devoto do universo. Assim, ele é a representação de Kṛṣṇa como devoto. O planeta Gandharva está repleto de entidades que cantam belamente, e, entre elas, o melhor cantor é Citraratha. Entre as entidades vivas perpetuamente liberadas, Kapila é considerado uma encarnação de Kṛṣṇa, e Sua filosofia é mencionada no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Mais tarde, outro Kapila tornou-se famoso, mas sua filosofia era ateísta. Assim, há um abismo de diferença entre eles."}
{"ref": "bg/10/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/27/", "verse_text": "uccaiḥśravasam aśvānāṁ\n\nviddhi mām amṛtodbhavam\n\nairāvataṁ gajendrāṇāṁ\n\nnarāṇāṁ ca narādhipam", "devanagari": "> उच्चैःश्रवसमश्वानां विद्धि माममृतोद्भवम् ।\n> ऐरावतं गजेन्द्राणां नराणां च नराधिपम् ॥२७॥", "synonyms": "*uccaiḥśravasam*—Uccaiḥśravā; *aśvānām*—entre os cavalos; *viddhi*—conhece; *mām*—a Mim; *amṛta-udbhavam*—produzido pela batedura do oceano; *airāvatam*—Airāvata; *gajendrāṇām*—dos elefantes; *narāṇām*—entre os seres humanos; *ca*—e; *narādhipam*—o rei.", "translation": "**Dos cavalos, sabe que sou Uccaiḥśravā, que surgiu do oceano, nascido do elixir da imortalidade; dos elefantes senhoriais, sou Airāvata, e entre os homens, sou o monarca.**", "purport": "Os semideuses devotos e os demônios (*asuras*) certa vez fizeram uma viagem marítima. Nessa viagem, foram produzidos néctar e veneno, e o Senhor Śiva bebeu o veneno. Do néctar foram produzidas muitas entidades, dentre as quais havia um cavalo chamado Uccaiḥśravā. Outro animal produzido do néctar foi um elefante chamado Airāvata. Como esses dois animais foram produzidos do néctar, têm significado especial e são representativos de Kṛṣṇa.\n\n\n\nEntre os seres humanos, o rei é o representante de Kṛṣṇa, pois Kṛṣṇa é o mantenedor do universo, e os reis, que são designados em razão de suas qualificações divinas, são os mantenedores de seus reinos. Reis como Mahārāja Yudhiṣṭhira, Mahārāja Parīkṣit e o Senhor Rāma foram todos reis altamente justos, que sempre pensavam no bem-estar dos cidadãos. Na literatura Védica, o rei é considerado o representante de Deus. Nesta era, contudo, com a corrupção dos princípios da religião, a monarquia decaiu e agora finalmente foi abolida. Deve-se compreender, contudo, que, no passado, as pessoas eram mais felizes sob reis justos."}
{"ref": "bg/10/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/28/", "verse_text": "āyudhānām ahaṁ vajraṁ\n\ndhenūnām asmi kāmadhuk\n\nprajanaś cāsmi kandarpaḥ\n\nsarpāṇām asmi vāsukiḥ", "devanagari": "> आयुधानामहं वज्रं धेनूनामस्मि कामधुक् ।\n> प्रजनश्चास्मि कन्दर्पः सर्पाणामस्मि वासुकिः ॥२८॥", "synonyms": "*āyudhānām*—de todas as armas; *aham*—Eu sou; *vajram*—o raio; *dhenūnām*—das vacas; *asmi*—Eu sou; *kāmadhuk*—as vacas surabhi; *prajanaḥ*—para gerar filhos; *ca*—e; *asmi*—Eu sou; *kandarpaḥ*—Cupido; *sarpāṇām*—de todas as serpentes; *asmi*—Eu sou; *vāsukiḥ*—Vāsuki.", "translation": "**Das armas, sou o raio; entre as vacas, sou a surabhi, doadora de leite abundante. Dos procriadores, sou Kandarpa, o deus do amor, e das serpentes, sou Vāsuki, o principal.**", "purport": "O raio, de fato uma arma poderosa, representa o poder de Kṛṣṇa. Em Kṛṣṇaloka, no céu espiritual, há vacas que podem ser ordenhadas a qualquer momento, e elas dão tanto leite quanto se queira. Naturalmente, tais vacas não existem neste mundo material, mas há menção delas em Kṛṣṇaloka. O Senhor mantém muitas dessas vacas, chamadas surabhi. Afirma-se que o Senhor Se ocupa em pastorear as vacas surabhi. Kandarpa é o desejo sexual para apresentar bons filhos; portanto, Kandarpa é o representante de Kṛṣṇa. Às vezes, ocupa-se em sexo apenas para a gratificação dos sentidos; tal sexo não representa Kṛṣṇa. Mas o sexo para a geração de bons filhos chama-se Kandarpa e representa Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/29/", "verse_text": "anantaś cāsmi nāgānāṁ\n\nvaruṇo yādasām aham\n\npitṝṇām aryamā cāsmi\n\nyamaḥ saṁyamatām aham", "devanagari": "> अनन्तश्चास्मि नागानां वरुणो यादसामहम् ।\n> पितॄणामर्यमा चास्मि यमः संयमतामहम् ॥२९॥", "synonyms": "*anantaḥ*—Ananta; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *nāgānām*—de todas as serpentes; *varuṇaḥ*—o semideus que controla a água; *yādasām*—de todos os seres aquáticos; *aham*—Eu sou; *pitṝṇām*—dos antepassados; *aryamā*—Aryāma; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *yamaḥ*—o controlador da morte; *saṁyamatām*—de todos os reguladores; *aham*—Eu sou.", "translation": "**Das serpentes celestiais Nāga, sou Ananta; das deidades aquáticas, sou Varuṇa. Dos antepassados falecidos, sou Aryamā, e entre os dispensadores da lei, sou Yama, o senhor da morte.**", "purport": "Entre as muitas serpentes celestiais Nāga, Ananta é a maior, assim como Varuṇa é o maior entre os seres aquáticos. Ambos representam Kṛṣṇa. Há também um planeta de árvores presidido por Aryamā, que representa Kṛṣṇa. Há muitas entidades vivas que aplicam castigo aos malfeitores, e entre elas Yama é o principal. Yama está situado num planeta próximo a este planeta terrestre, e, após a morte, aqueles que são muito pecaminosos são levados para lá, e Yama dispõe diferentes tipos de castigo para eles."}
{"ref": "bg/10/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/30/", "verse_text": "prahlādaś cāsmi daityānāṁ\n\nkālaḥ kalayatām aham\n\nmṛgāṇāṁ ca mṛgendro 'haṁ\n\nvainateyaś ca pakṣiṇām", "devanagari": "> प्रह्लादश्चास्मि दैत्यानां कालः कलयतामहम् ।\n> मृगाणां च मृगेन्द्रोऽहं वैनतेयश्च पक्षिणाम् ॥३०॥", "synonyms": "*prahlādaḥ*—Prahlāda; *ca*—também; *asmi*—Eu sou; *daityānām*—dos demônios; *kālaḥ*—tempo; *kalayatām*—dos subjugadores; *aham*—Eu sou; *mṛgāṇām*—dos animais; *ca*—e; *mṛgendraḥ*—o leão; *aham*—Eu sou; *vainateyaḥ*—Garuḍa; *ca*—também; *pakṣiṇām*—das aves.", "translation": "**Entre os demônios Daityas, sou o devotado Prahlāda; entre os subjugadores, sou o tempo; entre os animais, sou o leão, e entre as aves, sou Garuḍa, o transportador alado de Viṣṇu.**", "purport": "Diti e Aditi são duas irmãs. Os filhos de Aditi chamam-se Ādityas, e os filhos de Diti chamam-se Daityas. Todos os Ādityas são devotos do Senhor, e todos os Daityas são ateístas. Embora Prahlāda tenha nascido na família dos Daityas, ele foi um grande devoto desde a infância. Devido a seu serviço devocional e a sua natureza divina, ele é considerado um representante de Kṛṣṇa.\n\n\n\nHá muitos princípios subjugadores, mas o tempo desgasta todas as coisas no universo material e, por isso, representa Kṛṣṇa. Dos muitos animais, o leão é o mais poderoso e feroz, e, das milhões de variedades de aves, Garuḍa, o portador do Senhor Viṣṇu, é o maior."}
{"ref": "bg/10/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/31/", "verse_text": "pavanaḥ pavatām asmi\n\nrāmaḥ śastra-bhṛtām aham\n\njhaṣāṇāṁ makaraś cāsmi\n\nsrotasām asmi jāhnavī", "devanagari": "> पवनः पवतामस्मि रामः शस्त्रभृतामहम् ।\n> झषाणां मकरश्चास्मि स्रोतसामस्मि जाह्नवी ॥३१॥", "synonyms": "*pavanaḥ*—o vento; *pavatām*—de tudo o que purifica; *asmi*—Eu sou; *rāmaḥ*—Rāma; *śastra-bhṛtām*—dos portadores de armas; *aham*—Eu sou; *jhaṣāṇām*—de todos os seres aquáticos; *makaraḥ*—tubarão; *ca asmi*—também sou; *srotasām*—dos rios que fluem; *asmi*—Eu sou; *jāhnavī*—o rio Ganges.", "translation": "**Dos purificadores, sou o vento; dos portadores de armas, sou Rāma; dos peixes, sou o tubarão, e dos rios que fluem, sou o Ganges.**", "purport": "De todos os seres aquáticos, o tubarão é um dos maiores e certamente o mais perigoso para o homem. Assim, o tubarão representa Kṛṣṇa. E, dos rios, o maior na Índia é a Mãe Ganges. O Senhor Rāmacandra, do *Rāmāyaṇa*, encarnação de Kṛṣṇa, é o mais poderoso dos guerreiros."}
{"ref": "bg/10/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/32/", "verse_text": "sargāṇām ādir antaś ca\n\nmadhyaṁ caivāham arjuna\n\nadhyātma-vidyā vidyānāṁ\n\nvādaḥ pravadatām aham", "devanagari": "> सर्गाणामादिरन्तश्च मध्यं चैवाहमर्जुन ।\n> अध्यात्मविद्या विद्यानां वादः प्रवदतामहम् ॥३२॥", "synonyms": "*sargāṇām*—de todas as criações; *ādiḥ*—princípio; *antaḥ*—fim; *ca*—e; *madhyam*—meio; *ca*—também; *eva*—certamente; *aham*—Eu sou; *arjuna*—ó Arjuna; *adhyātma-vidyā*—conhecimento espiritual; *vidyānām*—de toda educação; *vādaḥ*—conclusão natural; *pravadatām*—dos argumentos; *aham*—Eu sou.", "translation": "**De todas as criações, sou o princípio e o fim, e também o meio, ó Arjuna. De todas as ciências, sou a ciência espiritual do Eu, e entre os lógicos, sou a verdade conclusiva.**", "purport": "Entre as manifestações criadas, os elementos materiais totais são primeiramente criados por Mahā-Viṣṇu e são aniquilados pelo Senhor Śiva. Brahmā é o criador secundário. Todos esses elementos criados são diferentes encarnações das qualidades materiais do Senhor Supremo; por isso, Ele é o princípio, o meio e o fim de toda criação.\n\n\n\nQuanto à ciência espiritual do Eu, há muitas literaturas, como os quatro *Vedas*, o *Vedānta-sūtra* e os *Purāṇas*, o *Śrīmad-Bhāgavatam* e o *Gītā*. Todos eles são representativos de Kṛṣṇa. Entre os lógicos, há diferentes estágios de argumentação. A apresentação de evidência chama-se japa. A tentativa de derrotar um ao outro chama-se vitaṇḍa, e a conclusão final chama-se vāda. A verdade conclusiva, o fim de todos os processos de raciocínio, é Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/33/", "verse_text": "akṣarāṇām a-kāro 'smi\n\ndvandvaḥ sāmāsikasya ca\n\naham evākṣayaḥ kālo\n\ndhātāhaṁ viśvato-mukhaḥ", "devanagari": "> अक्षराणामकारोऽस्मि द्वन्द्वः सामासिकस्य च ।\n> अहमेवाक्षयः कालो धाताहं विश्वतोमुखः ॥३३॥", "synonyms": "*akṣarāṇām*—das letras; *akāraḥ*—a primeira; *asmi*—Eu sou; *dvandvaḥ*—dual; *sāmāsikāsya*—dos compostos; *ca*—e; *aham*—Eu sou; *eva*—certamente; *akṣayaḥ*—eterno; *kālaḥ*—tempo; *dhātā*—criador; *aham*—Eu sou; *viśvato-mukhaḥ*—Brahmā.", "translation": "**Das letras, sou a letra A, e entre os compostos, sou a palavra dual. Sou também o tempo inesgotável, e dos criadores sou Brahmā, cujas múltiplas faces se voltam em todas as direções.**", "purport": "Akāra, a primeira letra do alfabeto sânscrito, é o início da literatura Védica. Sem akāra, nada pode ser pronunciado; por isso, é o início do som. Em sânscrito também há muitas palavras compostas, das quais a palavra dual, como Rāma-kṛṣṇa, chama-se dvandvaḥ. Por exemplo, Rāma e Kṛṣṇa têm o mesmo ritmo, e por isso são chamados de duais.\n\n\n\nEntre todos os tipos de matadores, o tempo é o supremo, pois o tempo mata tudo. O tempo é o representante de Kṛṣṇa, porque, no devido curso do tempo, haverá um grande fogo e tudo será aniquilado.\n\n\n\nEntre os criadores e as entidades vivas, Brahmā é o principal. Os vários Brahmās exibem quatro, oito, dezesseis etc. cabeças, conforme o caso, e são os criadores principais em seus respectivos universos. Os Brahmās são representantes de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/34/", "verse_text": "mṛtyuḥ sarva-haraś cāham\n\nudbhavaś ca bhaviṣyatām\n\nkīrtiḥ śrīr vāk ca nārīṇāṁ\n\nsmṛtir medhā dhṛtiḥ kṣamā", "devanagari": "> मृत्युः सर्वहरश्चाहमुद्भवश्च भविष्यताम् ।\n> कीर्तिः श्रीर्वाक्च नारीणां स्मृतिर्मेधा धृतिः क्षमा ॥३४॥", "synonyms": "*mṛtyuḥ*—morte; *sarva-haraḥ*—que tudo devora; *ca*—também; *aham*—Eu sou; *udbhavaḥ*—geração; *ca*—também; *bhaviṣyatām*—do que está por vir; *kīrtiḥ*—fama; *śrīḥ vāk*—bela fala; *ca*—também; *nārīṇāṁ*—das mulheres; *smṛtiḥ*—memória; *medhā*—inteligência; *dhṛtiḥ*—fidelidade; *kṣamā*—paciência.", "translation": "**Eu sou a morte que tudo devora, e sou o gerador de todas as coisas que ainda hão de vir. Entre as mulheres, sou a fama, a fortuna, a fala, a memória, a inteligência, a fidelidade e a paciência.**", "purport": "Assim que um homem nasce, ele morre a cada momento. Assim, a morte está devorando cada entidade viva a cada momento, mas o golpe final chama-se a própria morte. Essa morte é Kṛṣṇa. Todas as espécies de vida passam por seis transformações básicas. Nascem, crescem, permanecem por algum tempo, reproduzem-se, declinam e, por fim, desaparecem. Dessas transformações, a primeira é a libertação do útero, e essa é Kṛṣṇa. A primeira geração é o início de todas as atividades futuras.\n\n\n\nAs seis opulências enumeradas são consideradas femininas. Se uma mulher possui todas elas ou algumas delas, torna-se gloriosa. O sânscrito é uma língua perfeita e, por isso, é muito gloriosa. Após estudar, se a pessoa consegue lembrar-se do tema, é dotada de boa memória, ou *smṛti*. Não é preciso ler muitos livros sobre diferentes temas; a capacidade de lembrar-se de alguns e de citá-los quando necessário também é outra opulência."}
{"ref": "bg/10/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/35/", "verse_text": "bṛhat-sāma tathā sāmnāṁ\n\ngāyatrī chandasām aham\n\nmāsānāṁ mārga-śīrṣo 'ham\n\nṛtūnāṁ kusumākaraḥ", "devanagari": "> बृहत्साम तथा साम्नां गायत्री छन्दसामहम् ।\n> मासानां मार्गशीर्षोऽहमृतूनां कुसुमाकरः ॥३५॥", "synonyms": "*bṛhat-sāma*—o Bṛhat-sāma; *tathā*—também; *sāmnām*—do canto do Sāma-veda; *gāyatrī*—os hinos Gāyatrī; *chandasām*—de toda a poesia; *aham*—Eu sou; *māsānām*—dos meses; *mārga-śīrṣo 'ham*—o mês de novembro-dezembro; *aham*—Eu sou; *ṛtūnām*—de todas as estações; *kusumākaraḥ*—a primavera.", "translation": "**Dos hinos, sou o Bṛhat-sāma, cantado ao Senhor Indra, e da poesia, sou o verso Gāyatrī, cantado diariamente pelos *brāhmaṇas*. Dos meses, sou novembro e dezembro, e das estações, sou a primavera florida.**", "purport": "Já foi explicado pelo Senhor que, dentre todos os *Vedas*, o Sāma-veda é rico em belos cantos executados pelos vários semideuses.\n\n\n\nUm desses cantos é o Bṛhat-sāma, que tem uma melodia primorosa e é cantado à meia-noite.\n\n\n\nEm sânscrito, há regras definidas que regulam a poesia; rima e métrica não se escrevem caprichosamente, como em grande parte da poesia moderna. Entre a poesia regulada, o mantra Gāyatrī, que é cantado pelos *brāhmaṇas* devidamente qualificados, é o mais proeminente. O mantra Gāyatrī é mencionado no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Como o mantra Gāyatrī destina-se especialmente à realização de Deus, ele representa o Senhor Supremo. Esse mantra destina-se às pessoas espiritualmente avançadas, e, quando se obtém êxito em cantá-lo, pode-se entrar na posição transcendental do Senhor. Para cantar o mantra Gāyatrī, deve-se primeiro adquirir as qualidades da pessoa perfeitamente situada, as qualidades da bondade segundo as leis da natureza material. O mantra Gāyatrī é muito importante na civilização Védica e é considerado a encarnação sonora do Brahman. Brahmā é seu iniciador, e ele é transmitido por ele em sucessão discipular.\n\n\n\nOs meses de novembro e dezembro são considerados os melhores de todos os meses, pois, na Índia, os grãos são colhidos dos campos nessa época, e as pessoas tornam-se muito felizes. É claro que a primavera é uma estação universalmente apreciada, pois não é nem muito quente nem muito fria, e as flores e árvores florescem e prosperam. Na primavera, há também muitas cerimônias que comemoram os passatempos de Kṛṣṇa; por isso, é considerada a mais alegre de todas as estações, e é a representante do Senhor Supremo Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/36/", "verse_text": "dyūtaṁ chalayatām asmi\n\ntejas tejasvinām aham\n\njayo 'smi vyavasāyo 'smi\n\nsattvaṁ sattvavatām aham", "devanagari": "> द्यूतं छलयतामस्मि तेजस्तेजस्विनामहम् ।\n> जयोऽस्मि व्यवसायोऽस्मि सत्त्वं सत्त्ववतामहम् ॥३६॥", "synonyms": "*dyūtam*—jogo de azar; *chalayatām*—de todos os trapaceiros; *asmi*—Eu sou; *tejaḥ*—esplêndido; *tejasvinām*—de tudo o que é esplêndido; *aham*—Eu sou; *jayaḥ*—vitória; *asmi*—Eu sou; *vyavasāyaḥ*—aventura; *asmi*—Eu sou; *sattvam*—força; *sattvavatām*—de todos os fortes; *aham*—Eu sou.", "translation": "**Sou também o jogo dos trapaceiros, e do esplêndido sou o esplendor. Sou a vitória, sou a aventura e sou a força dos fortes.**", "purport": "Há muitos tipos de trapaceiros por todo o universo. De todos os processos de trapaça, o jogo de azar destaca-se como supremo e, por isso, representa Kṛṣṇa. Como o Supremo, Kṛṣṇa pode ser mais astuto do que qualquer mero homem. Se Kṛṣṇa optar por ludibriar uma pessoa, ninguém pode superá-Lo em Sua astúcia. Sua grandeza não é apenas unilateral – é multilateral.\n\n\n\nEntre os vitoriosos, Ele é a vitória. Ele é o esplendor do esplêndido. Entre os industriais empreendedores, Ele é o mais empreendedor. Entre os aventureiros, Ele é o mais aventureiro, e entre os fortes, Ele é o mais forte. Quando Kṛṣṇa esteve presente na Terra, ninguém pôde superá-Lo em força. Mesmo em Sua infância, Ele ergueu a colina Govardhana. Ninguém pode superá-Lo em trapaça, ninguém pode superá-Lo em esplendor, ninguém pode superá-Lo em vitória, ninguém pode superá-Lo em empreendimento, e ninguém pode superá-Lo em força."}
{"ref": "bg/10/37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/37/", "verse_text": "vṛṣṇīnāṁ vāsudevo 'smi\n\npāṇḍavānāṁ dhanañjayaḥ\n\nmunīnām apy ahaṁ vyāsaḥ\n\nkavīnām uśanā kaviḥ", "devanagari": "> वृष्णीनां वासुदेवोऽस्मि पाण्डवानां धनञ्जयः ।\n> मुनीनामप्यहं व्यासः कवीनामुशना कविः ॥३७॥", "synonyms": "*vṛṣṇīnām*—dos descendentes de Vṛṣṇi; *vāsudevaḥ*—Kṛṣṇa em Dvāraka; *asmi*—Eu sou; *pāṇḍavānām*—dos Pāṇḍavas; *dhanañjayaḥ*—Arjuna; *munīnām*—dos sábios; *api*—também; *aham*—Eu sou; *vyāsaḥ*—Vyāsa, o compilador de toda a literatura Védica; *kavīnām*—de todos os grandes pensadores; *uśanā*—Uśanā; *kaviḥ*—o pensador.", "translation": "**Dos descendentes de Vṛṣṇi, sou Vāsudeva, e dos Pāṇḍavas, sou Arjuna. Dos sábios, sou Vyāsa, e entre os grandes pensadores, sou Uśanā.**", "purport": "Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus original, e Vāsudeva é a expansão imediata de Kṛṣṇa. Tanto o Senhor Kṛṣṇa quanto Baladeva aparecem como filhos de Vasudeva. Entre os filhos de Pāṇḍu, Arjuna é famoso e valente. De fato, ele é o melhor dos homens e, por isso, representa Kṛṣṇa. Entre os *munis*, ou homens eruditos versados em conhecimento Védico, Vyāsa é o maior, pois explicou o conhecimento Védico de muitas maneiras diferentes para a compreensão da massa comum de pessoas nesta era de Kali. E Vyāsa também é conhecido como uma encarnação de Kṛṣṇa; portanto, Vyāsa também representa Kṛṣṇa. Os *kavis* são aqueles que são capazes de pensar profundamente sobre qualquer tema. Entre os *kavis*, Uśanā era o mestre espiritual dos demônios; era extremamente inteligente, previdente, político e espiritual em todos os sentidos. Assim, Uśanā é mais um representante da opulência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/38/", "verse_text": "daṇḍo damayatām asmi\n\nnītir asmi jigīṣatām\n\nmaunaṁ caivāsmi guhyānāṁ\n\njñānaṁ jñānavatām aham", "devanagari": "> दण्डो दमयतामस्मि नीतिरस्मि जिगीषताम् ।\n> मौनं चैवास्मि गुह्यानां ज्ञानं ज्ञानवतामहम् ॥३८॥", "synonyms": "*daṇḍaḥ*—castigo; *damayatām*—de toda separação; *asmi*—Eu sou; *nītiḥ*—moralidade; *asmi*—Eu sou; *jigīṣatām*—dos vitoriosos; *maunam*—silêncio; *ca*—e; *eva*—também; *asmi*—Eu sou; *guhyānām*—dos segredos; *jñānam*—conhecimento; *jñānavatām*—dos sábios; *aham*—Eu sou.", "translation": "**Entre os castigos, sou a vara de correção, e dos que buscam a vitória, sou a moralidade. Das coisas secretas, sou o silêncio, e dos sábios, sou a sabedoria.**", "purport": "Há muitos agentes repressivos, dos quais os mais importantes são os que castigam os malfeitores. Quando os malfeitores são castigados, a vara de correção representa Kṛṣṇa. Entre aqueles que tentam ser vitoriosos em algum campo de atividade, o elemento mais vitorioso é a moralidade. Entre as atividades confidenciais de ouvir, pensar e meditar, o silêncio é o mais importante, pois, pelo silêncio, pode-se progredir muito rapidamente. O sábio é aquele que sabe distinguir entre matéria e espírito, entre as naturezas superior e inferior de Deus. Tal conhecimento é o próprio Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/39/", "verse_text": "yac cāpi sarva-bhūtānāṁ\n\nbījaṁ tad aham arjuna\n\nna tad asti vinā yat syān\n\nmayā bhūtaṁ carācaram", "devanagari": "> यच्चापि सर्वभूतानां बीजं तदहमर्जुन ।\n> न तदस्ति विना यत्स्यान्मया भूतं चराचरम् ॥३९॥", "synonyms": "*yat*—o que quer que; *ca*—também; *api*—possa ser; *sarva-bhūtānām*—de todas as criações; *bījam*—a semente; *tat*—essa; *aham*—Eu sou; *arjuna*—ó Arjuna; *na*—não; *tat*—isso; *asti*—há; *vinā*—sem; *yat*—o que; *syāt*—exista; *mayā*—por Mim; *bhūtam*—criado; *carācaram*—móvel e imóvel.", "translation": "**Além disso, ó Arjuna, sou a semente geradora de todas as existências. Não há ser – móvel ou imóvel – que possa existir sem Mim.**", "purport": "Tudo tem uma causa, e essa causa ou semente da manifestação é Kṛṣṇa. Sem a energia de Kṛṣṇa, nada pode existir; por isso, Ele é chamado de onipotente. Sem Sua potência, nem o móvel nem o imóvel pode existir. Toda existência que não esteja fundada na energia de Kṛṣṇa chama-se *māyā*, aquilo que não é."}
{"ref": "bg/10/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/40/", "verse_text": "nānto 'sti mama divyānāṁ\n\nvibhūtīnāṁ parantapa\n\neṣa tūddeśataḥ prokto\n\nvibhūter vistaro mayā", "devanagari": "> नान्तोऽस्ति मम दिव्यानां विभूतीनां परन्तप ।\n> एष तूद्देशतः प्रोक्तो विभूतेर्विस्तरो मया ॥४०॥", "synonyms": "*na*—nem; *antaḥ*—um limite; *asti*—há; *mama*—de Minhas; *divyānām*—divinas; *vibhūtīnam*—opulências; *parantapa*—ó conquistador dos inimigos; *eṣaḥ*—tudo isto; *tu*—isso; *uddeśataḥ*—exemplos; *proktaḥ*—dito; *vibhūteḥ*—opulências; *vistaraḥ*—expandido; *mayā*—por Mim.", "translation": "**Ó poderoso conquistador dos inimigos, não há fim para Minhas manifestações divinas. O que te disse é apenas uma mera indicação de Minhas infinitas opulências.**", "purport": "Como se afirma na literatura Védica, embora as opulências e energias do Supremo sejam compreendidas de várias maneiras, não há limite para tais opulências; portanto, nem todas as opulências e energias podem ser explicadas. Apenas alguns exemplos estão sendo descritos a Arjuna para acalmar sua curiosidade."}
{"ref": "bg/10/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/41/", "verse_text": "yad yad vibhūtimat sattvaṁ\n\nśrīmad ūrjitam eva vā\n\ntat tad evāvagaccha tvaṁ\n\nmama tejo-'ṁśa-sambhavam", "devanagari": "> यद्यद्विभूतिमत्सत्त्वं श्रीमदूर्जितमेव वा ।\n> तत्तदेवावगच्छ त्वं मम तेजोंऽशसम्भवम् ॥४१॥", "synonyms": "*yat yat*—o que quer que; *vibhūti*—opulências; *mat*—possuindo; *sattvam*—existência; *śrīmat*—bela; *ūrjitam*—gloriosa; *eva*—certamente; *vā*—ou; *tat tat*—todas elas; *eva*—certamente; *avagaccha*—deves saber; *tvam*—tu; *mama*—Meu; *tejaḥ*—esplendor; *aṁśa*—em parte; *sambhavam*—nascida de.", "translation": "**Sabe que todas as criações belas, gloriosas e poderosas brotam apenas de uma centelha do Meu esplendor.**", "purport": "Qualquer existência gloriosa ou bela deve ser compreendida como sendo apenas uma manifestação fragmentária da opulência de Kṛṣṇa, seja no mundo espiritual, seja no material. Qualquer coisa extraordinariamente opulenta deve ser considerada como representante da opulência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/10/42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/10/42/", "verse_text": "atha vā bahunaitena\n\nkiṁ jñātena tavārjuna\n\nviṣṭabhyāham idaṁ kṛtsnam\n\nekāṁśena sthito jagat", "devanagari": "> अथवा बहुनैतेन किं ज्ञातेन तवार्जुन ।\n> विष्टभ्याहमिदं कृत्स्नमेकांशेन स्थितो जगत् ॥४२॥", "synonyms": "*athavā*—ou; *bahunā*—muitos; *etena*—por este tipo; *kim*—de que; *jñātena*—conhecer; *tava*—a ti; *arjuna*—ó Arjuna; *viṣṭabhya*—inteiro; *aham*—Eu; *idam*—este; *kṛtsnam*—todas as manifestações; *eka*—uma; *aṁśena*—parte; *sthithaḥ*—situado; *jagat*—no universo.", "translation": "**Mas que necessidade há, Arjuna, de todo este conhecimento detalhado? Com um único fragmento de Mim mesmo, penetro e sustento todo este universo.**", "purport": "O Senhor Supremo é representado por todos os universos materiais ao entrar em todas as coisas como a Superalma. O Senhor diz aqui a Arjuna que não há sentido em compreender como as coisas existem em sua opulência e grandeza separadas. Ele deve saber que todas as coisas existem porque Kṛṣṇa entrou nelas como Superalma. Desde Brahmā, a entidade mais gigantesca, até a menor formiga, todos existem porque o Senhor entrou em cada um deles e está sustentando-os.\n\n\n\nA adoração aos semideuses é desencorajada aqui, pois mesmo os maiores semideuses, como Brahmā e Śiva, representam apenas parte da opulência do Senhor Supremo. Ele é a origem de todos os que nascem, e ninguém é maior do que Ele. Ele é samatā, o que significa que ninguém é superior a Ele e que ninguém é igual a Ele. No Viṣṇu-mantra afirma-se que aquele que considera o Senhor Supremo Kṛṣṇa na mesma categoria dos semideuses – sejam eles mesmo Brahmā ou Śiva – torna-se imediatamente um ateu. Se, contudo, a pessoa estuda meticulosamente as diferentes descrições das opulências e expansões da energia de Kṛṣṇa, então pode compreender, sem nenhuma dúvida, a posição do Senhor Śrī Kṛṣṇa, e pode fixar sua mente na adoração a Kṛṣṇa sem desvio. O Senhor é onipenetrante pela expansão de Sua representação parcial, a Superalma, que entra em tudo o que é. Os devotos puros, por isso, concentram suas mentes em consciência de Kṛṣṇa em pleno serviço devocional; portanto, sempre se situam na posição transcendental. O serviço devocional e a adoração a Kṛṣṇa são muito claramente indicados neste capítulo, nos versos oito a onze. Esse é o caminho do serviço devocional puro. Como se pode atingir a mais elevada perfeição devocional de associação com a Suprema Personalidade de Deus, foi explicado meticulosamente neste capítulo.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā*, que trata da Opulência do Absoluto."}
{"ref": "bg/11/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nmad-anugrahāya paramaṁ\n\nguhyam adhyātma-saṁjñitam\n\nyat tvayoktaṁ vacas tena\n\nmoho 'yaṁ vigato mama", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> मदनुग्रहाय परमं गुह्यमध्यात्मसंज्ञितम् ।\n> यत्त्वयोक्तं वचस्तेन मोहोऽयं विगतो मम ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *mat-anugrahāya*—apenas para favorecer-me; *paramam*—supremo; *guhyam*—confidencial; *adhyātma*—espiritual; *saṁjñitam*—no que diz respeito a; *yat*—o que; *tvayā*—por Ti; *uktam*—dito; *vacaḥ*—palavras; *tena*—por isso; *mohaḥ*—ilusão; *ayam*—esta; *vigataḥ*—dissipa-se; *mama*—minha.", "translation": "**Arjuna disse: Ouvi Tuas instruções sobre os assuntos espirituais confidenciais que tão bondosamente me transmitiste, e minha ilusão agora se dissipou.**", "purport": "Este capítulo revela Kṛṣṇa como a causa de todas as causas. Ele é até mesmo a causa do Mahā-Viṣṇu, e é Dele que emanam os universos materiais. Kṛṣṇa não é uma encarnação; Ele é a fonte de todas as encarnações. Isso ficou plenamente explicado no capítulo anterior.\n\n\n\nOra, no que se refere a Arjuna, ele afirma que sua ilusão acabou. Isso significa que Arjuna já não pensa em Kṛṣṇa como um simples ser humano, como um amigo seu, e sim como a fonte de tudo. Arjuna está muito iluminado e alegra-se por ter um grande amigo como Kṛṣṇa, mas agora pondera que, embora ele possa aceitar Kṛṣṇa como a fonte de tudo, talvez outros não o aceitem. Assim, a fim de estabelecer a divindade de Kṛṣṇa para todos, neste capítulo ele pede a Kṛṣṇa que lhe mostre Sua forma universal. Na verdade, quando alguém vê a forma universal de Kṛṣṇa, fica aterrorizado, como Arjuna, mas Kṛṣṇa é tão bondoso que, depois de mostrá-la, retorna novamente à Sua forma original. Arjuna concorda diversas vezes com o que Kṛṣṇa diz. Kṛṣṇa fala-lhe apenas para seu benefício, e Arjuna reconhece que tudo isto lhe está sucedendo pela graça de Kṛṣṇa. Ele agora está convicto de que Kṛṣṇa é a causa de todas as causas e está presente no coração de todos como a Superalma."}
{"ref": "bg/11/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/2/", "verse_text": "bhavāpyayau hi bhūtānāṁ\n\nśrutau vistaraśo mayā\n\ntvattaḥ kamala-patrākṣa\n\nmāhātmyam api cāvyayam", "devanagari": "> भवाप्ययौ हि भूतानां श्रुतौ विस्तरशो मया ।\n> त्वत्तः कमलपत्राक्ष माहात्म्यमपि चाव्ययम् ॥२॥", "synonyms": "*bhava*—aparecimento; *apyayau*—desaparecimento; *hi*—certamente; *bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *śrutau*—ouvi; *vistaraśaḥ*—detalhe; *mayā*—por mim; *tvattaḥ*—de Ti; *kamala-patrākṣa*—ó Tu de olhos de lótus; *māhātmyam*—glórias; *api*—também; *ca*—e; *avyayam*—inesgotáveis.", "translation": "**Ó Tu de olhos de lótus, ouvi de Ti em detalhe sobre o aparecimento e o desaparecimento de cada entidade viva, conforme manifestado por Tuas inesgotáveis glórias.**", "purport": "Arjuna dirige-se ao Senhor Kṛṣṇa como \"de olhos de lótus\" (os olhos de Kṛṣṇa parecem-se com as pétalas de uma flor de lótus) movido pela alegria, pois Kṛṣṇa lhe assegurou, no último verso do capítulo anterior, que Ele sustenta o universo inteiro com apenas um fragmento de Si mesmo. Ele é a fonte de tudo nesta manifestação material, e Arjuna ouviu sobre isso do Senhor em pormenor. Arjuna sabe ainda que, apesar de ser a fonte de todos os aparecimentos e desaparecimentos, Ele permanece à parte deles. Sua personalidade não se perde, embora Ele seja onipenetrante. Tal é a opulência inconcebível de Kṛṣṇa que Arjuna admite ter compreendido por completo."}
{"ref": "bg/11/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/3/", "verse_text": "evam etad yathāttha tvam\n\nātmānaṁ parameśvara\n\ndraṣṭum icchāmi te rūpam\n\naiśvaraṁ puruṣottama", "devanagari": "> एवमेतद्यथात्थ त्वमात्मानं परमेश्वर ।\n> द्रष्टुमिच्छामि ते रूपमैश्वरं पुरुषोत्तम ॥३॥", "synonyms": "*evam*—assim; *etat*—isto; *yathāttha*—tal como é; *tvam*—Tu; *ātmānam*—a alma; *parameśvara*—o Senhor Supremo; *draṣṭum*—ver; *icchāmi*—desejo; *te*—Tua; *rūpam*—forma; *aiśvaram*—divina; *puruṣottama*—ó melhor das personalidades.", "translation": "**Ó maior de todas as personalidades, ó forma suprema, embora veja aqui diante de mim Tua posição real, desejo, contudo, ver como entraste nesta manifestação cósmica. Quero ver essa Tua forma.**", "purport": "O Senhor disse que, por ter entrado no universo material por meio de Sua representação pessoal, a manifestação cósmica tornou-se possível e segue em curso. Ora, no que diz respeito a Arjuna, ele se sente inspirado pelas afirmações de Kṛṣṇa, mas, a fim de convencer outros no futuro que possam pensar que Kṛṣṇa é uma pessoa comum, deseja vê-lO efetivamente em Sua forma universal, para constatar como Ele atua dentro do universo, embora esteja apartado dele. O fato de Arjuna pedir permissão ao Senhor também é significativo. Como o Senhor é a Suprema Personalidade de Deus, Ele está presente dentro do próprio Arjuna; portanto, conhece o desejo de Arjuna e pode compreender que ele não tem nenhum desejo especial de vê-lO em Sua forma universal, pois está plenamente satisfeito em vê-lO em Sua forma pessoal de Kṛṣṇa. Mas Ele pode compreender também que Arjuna deseja ver a forma universal a fim de convencer outros. Arjuna não tinha nenhum desejo pessoal de confirmação. Kṛṣṇa também compreende que Arjuna deseja ver a forma universal para estabelecer um critério, pois no futuro haveria muitíssimos impostores que se apresentariam como encarnações de Deus. As pessoas, por isso, devem estar atentas; aquele que afirma ser Kṛṣṇa deve estar preparado para mostrar sua forma universal, a fim de confirmar tal alegação ao povo."}
{"ref": "bg/11/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/4/", "verse_text": "manyase yadi tac chakyaṁ\n\nmayā draṣṭum iti prabho\n\nyogeśvara tato me tvaṁ\n\ndarśayātmānam avyayam", "devanagari": "> मन्यसे यदि तच्छक्यं मया द्रष्टुमिति प्रभो ।\n> योगेश्वर ततो मे त्वं दर्शयात्मानमव्ययम् ॥४॥", "synonyms": "*manyase*—se Tu pensas; *yadi*—se; *tat*—isso; *śakyam*—capaz de ver; *mayā*—por mim; *draṣṭum*—ver; *iti*—assim; *prabho*—ó Senhor; *yogeśvara*—o Senhor de todo o poder místico; *tataḥ*—então; *me*—a mim; *tvam*—Tu; *darśaya*—mostra; *ātmānam*—a Ti mesmo; *avyayam*—eterno.", "translation": "**Se pensas que sou capaz de contemplar Tua forma cósmica, ó meu Senhor, ó mestre de todo poder místico, então tem a bondade de mostrar-me esse Teu eu universal.**", "purport": "Diz-se que ninguém pode ver, ouvir, compreender nem perceber o Senhor Supremo, Kṛṣṇa, pelos sentidos materiais. Mas se a pessoa se ocupa em amoroso serviço transcendental ao Senhor desde o início, então pode ver o Senhor por revelação. Cada entidade viva é apenas uma centelha espiritual; portanto, não lhe é possível ver ou compreender o Senhor Supremo. Arjuna, como devoto, não depende de sua força especulativa; antes, admite suas limitações como entidade viva e reconhece a posição inestimável de Kṛṣṇa. Arjuna podia compreender que, para uma entidade viva, não é possível compreender o ilimitado infinito. Se o infinito Se revelar, então é possível compreender a natureza do infinito pela graça do infinito. A palavra yogeśvara também é muito significativa aqui, pois o Senhor possui poder inconcebível. Se Lhe aprouver, Ele pode revelar-Se por Sua graça, embora seja ilimitado. Por isso, Arjuna implora a graça inconcebível de Kṛṣṇa. Ele não dá ordens a Kṛṣṇa. Kṛṣṇa não é obrigado a revelar-Se a quem quer que seja, a menos que a pessoa se renda plenamente em consciência de Kṛṣṇa e se ocupe em serviço devocional. Assim, não é possível àqueles que dependem da força de suas especulações mentais ver Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/11/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/5/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\npaśya me pārtha rūpāṇi\n\nśataśo 'tha sahasraśaḥ\n\nnānā-vidhāni divyāni\n\nnānā-varṇākṛtīni ca", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> पश्य मे पार्थ रूपाणि शतशोऽथ सहस्रशः ।\n> नानाविधानि दिव्यानि नानावर्णाकृतीनि च ॥५॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *paśya*—contempla; *me*—Minhas; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *rūpāṇi*—formas; *śataśaḥ*—centenas; *atha*—também; *sahasraśaḥ*—milhares; *nānā-vidhāni*—variegadas; *divyāni*—divinas; *nānā*—variegadas; *varṇa*—coloridas; *akṛtīni*—formas; *ca*—também.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Meu querido Arjuna, ó filho de Pṛthā, contempla agora Minhas opulências, centenas de milhares de variadas formas divinas, multicoloridas como o mar.**", "purport": "Arjuna queria ver Kṛṣṇa em Sua forma universal, a qual, embora seja uma forma transcendental, é manifestada apenas em função da manifestação cósmica e está, portanto, sujeita ao tempo temporário desta natureza material. Assim como a natureza material se manifesta e se desmanifesta, da mesma forma esta forma universal de Kṛṣṇa se manifesta e se desmanifesta. Ela não está eternamente situada no céu espiritual como as demais formas de Kṛṣṇa. No que se refere ao devoto, este não anseia ver a forma universal; mas, como Arjuna desejava ver Kṛṣṇa dessa maneira, Kṛṣṇa revela esta forma. Esta forma universal não pode ser vista por nenhum homem comum. Kṛṣṇa precisa conceder à pessoa o poder de vê-la."}
{"ref": "bg/11/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/6/", "verse_text": "paśyādityān vasūn rudrān\n\naśvinau marutas tathā\n\nbahūny adṛṣṭa-pūrvāṇi\n\npaśyāścaryāṇi bhārata", "devanagari": "> पश्यादित्यान्वसून्रुद्रानश्विनौ मरुतस्तथा ।\n> बहून्यदृष्टपूर्वाणि पश्याश्चर्याणि भारत ॥६॥", "synonyms": "*paśya*—vê; *ādityān*—os doze filhos de Aditi; *vasūn*—os oito Vasus; *rudrān*—as onze formas de Rudra; *aśvinau*—os dois Aśvins; *marutaḥ*—os quarenta e nove Maruts (semideuses do vento); *tathā*—também; *bahūni*—muitas; *adṛṣṭa*—que não ouviste nem viste; *pūrvāṇi*—antes; *paśya*—contempla; *āścaryāṇi*—todas as coisas maravilhosas; *bhārata*—ó melhor dos Bhāratas.", "translation": "**Ó melhor dos Bhāratas, contempla aqui as diferentes manifestações dos Ādityas, dos Rudras e de todos os semideuses. Vê as muitas coisas que ninguém jamais viu nem ouviu antes.**", "purport": "Embora Arjuna fosse um amigo pessoal de Kṛṣṇa e o mais avançado dos eruditos, ainda assim não lhe era possível saber tudo a respeito de Kṛṣṇa. Aqui se afirma que os seres humanos nunca ouviram nem conheceram todas estas formas e manifestações. Ora, Kṛṣṇa revela estas maravilhosas formas."}
{"ref": "bg/11/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/7/", "verse_text": "ihaika-sthaṁ jagat kṛtsnaṁ\n\npaśyādya sa-carācaram\n\nmama dehe guḍākeśa\n\nyac cānyad draṣṭum icchasi", "devanagari": "> इहैकस्थं जगत्कृत्स्नं पश्याद्य सचराचरम् ।\n> मम देहे गुडाकेश यच्चान्यद् द्रष्टुमिच्छसि ॥७॥", "synonyms": "*iha*—neste; *ekastham*—em um só lugar; *jagat*—o universo; *kṛtsnam*—completamente; *paśya*—contempla; *adya*—imediatamente; *sa*—com; *cara*—móveis; *acaram*—imóveis; *mama*—Meu; *dehe*—neste corpo; *guḍākeśa*—ó Arjuna; *yat*—aquilo que; *ca*—também; *anyat*—outro; *draṣṭum*—ver; *icchasi*—desejes.", "translation": "**Tudo o que desejares ver, podes vê-lo de uma só vez neste corpo. Esta forma universal pode mostrar-te tudo o que agora desejas, bem como tudo o que possas vir a desejar no futuro. Tudo está aqui completamente.**", "purport": "Ninguém pode ver o universo inteiro estando em um só lugar. Mesmo o cientista mais avançado não pode ver o que se passa em outras partes do universo. Kṛṣṇa concede-lhe o poder de ver tudo o que ele queira ver — passado, presente e futuro. Assim, pela misericórdia de Kṛṣṇa, Arjuna é capaz de ver tudo."}
{"ref": "bg/11/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/8/", "verse_text": "na tu māṁ śakyase draṣṭum\n\nanenaiva sva-cakṣuṣā\n\ndivyaṁ dadāmi te cakṣuḥ\n\npaśya me yogam aiśvaram", "devanagari": "> न तु मां शक्यसे द्रष्टुमनेनैव स्वचक्षुषा ।\n> दिव्यं ददामि ते चक्षुः पश्य मे योगमैश्वरम् ॥८॥", "synonyms": "*na*—nunca; *tu*—mas; *mām*—a Mim; *śakyase*—és capaz; *draṣṭum*—ver; *anena*—com estes; *eva*—certamente; *sva-cakṣuṣā*—com teus próprios olhos; *divyam*—divinos; *dadāmi*—dou; *te*—a ti; *cakṣuḥ*—olhos; *paśya*—contempla; *me*—Meu; *yogam aiśvaram*—poder místico inconcebível.", "translation": "**Mas tu não podes ver-Me com teus olhos atuais. Por isso, dou-te olhos divinos, com os quais poderás contemplar Minha opulência mística.**", "purport": "Um devoto puro não gosta de ver Kṛṣṇa em forma alguma, exceto em Sua forma de duas mãos; o devoto deve ver a forma universal por Sua graça, não com a mente, mas com olhos espirituais. Para ver a forma universal de Kṛṣṇa, diz-se a Arjuna que não mude sua mente, mas sua visão. A forma universal de Kṛṣṇa não é muito importante; isto ficará claro nos versos seguintes. Contudo, como Arjuna desejava vê-la, o Senhor lhe concede a visão particular requerida para se contemplar essa forma universal.\n\n\n\nOs devotos que estão corretamente situados em uma relação transcendental com Kṛṣṇa atraem-se por Seus aspectos amorosos, não por uma exibição ímpia de opulências. Os companheiros de brincadeira de Kṛṣṇa, os amigos de Kṛṣṇa e os pais de Kṛṣṇa nunca querem que Kṛṣṇa exiba Suas opulências. Eles estão de tal modo imersos em puro amor que sequer sabem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Em sua troca amorosa, esquecem-se de que Kṛṣṇa é o Senhor Supremo. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que os meninos que brincam com Kṛṣṇa são todos almas altamente piedosas, e somente após muitíssimos nascimentos podem brincar com Kṛṣṇa. Esses meninos não sabem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Eles O tomam como amigo pessoal. A Pessoa Suprema é considerada como o Brahman impessoal pelos grandes sábios, como a Suprema Personalidade de Deus pelos devotos, e como produto desta natureza material pelos homens comuns. O fato é que o devoto não está interessado em ver o viśva-rūpa, a forma universal, mas Arjuna desejava vê-la para fundamentar a afirmação de Kṛṣṇa, de modo que, no futuro, as pessoas pudessem compreender que Kṛṣṇa não Se apresentou como o Supremo apenas teórica ou filosoficamente, mas Se apresentou efetivamente como tal a Arjuna. Arjuna deve confirmar isso, porque Arjuna é o início do sistema paramparā. Aqueles que estão genuinamente interessados em compreender a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e que seguem os passos de Arjuna, devem compreender que Kṛṣṇa não Se apresentou como o Supremo apenas teoricamente, mas efetivamente Se revelou como o Supremo.\n\n\n\nO Senhor concedeu a Arjuna o poder necessário para ver Sua forma universal, pois sabia que Arjuna não tinha um desejo particular de vê-la, conforme já explicamos."}
{"ref": "bg/11/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/9/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\nevam uktvā tato rājan\n\nmahā-yogeśvaro hariḥ\n\ndarśayām āsa pārthāya\n\nparamaṁ rūpam aiśvaram", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> एवमुक्त्वा ततो राजन्महायोगेश्वरो हरिः ।\n> दर्शयामास पार्थाय परमं रूपमैश्वरम् ॥९॥", "synonyms": "*sañjayaḥ uvāca*—Sañjaya disse; *evam*—assim; *uktvā*—dizendo; *tataḥ*—em seguida; *rājan*—ó rei; *mahā-yogeśvaraḥ*—o mais poderoso místico; *hariḥ*—a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa; *darśayāmāsa*—mostrou; *pārthāya*—a Arjuna; *paramam*—divina; *rūpam*—forma universal; *aiśvaram*—opulências.", "translation": "**Sañjaya disse: Ó rei, falando assim, o Supremo, o Senhor de todo poder místico, a Personalidade de Deus, exibiu Sua forma universal a Arjuna.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/10-11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/10-11/", "verse_text": "aneka-vaktra-nayanam\n\nanekādbhuta-darśanam\n\naneka-divyābharaṇaṁ\n\ndivyānekodyatāyudham\n\ndivya-mālyāmbara-dharaṁ\n\ndivya-gandhānulepanam\n\nsarvāścarya-mayaṁ devam\n\nanantaṁ viśvato-mukham", "devanagari": "> अनेकवक्त्रनयनमनेकाद्भुतदर्शनम् ।\n> अनेकदिव्याभरणं दिव्यानेकोद्यतायुधम् ॥१०॥\n> दिव्यमाल्याम्बरधरं दिव्यगन्धानुलेपनम् ।\n> सर्वाश्चर्यमयं देवमनन्तं विश्वतोमुखम् ॥११॥", "synonyms": "*aneka*—várias; *vaktra*—bocas; *nayanam*—olhos; *aneka*—várias; *adbhuta*—maravilhosa; *darśanam*—visão; *aneka*—muitos; *divya*—divinos; *ābharaṇam*—ornamentos; *divya*—divinas; *aneka*—várias; *udyata*—erguidas; *āyudham*—armas; *divya*—divinas; *mālya*—guirlandas; *ambara-dharam*—vestidos com as roupagens; *divya*—divina; *gandha*—fragrância; *anulepanam*—ungido; *sarva*—toda; *aścaryamayam*—maravilhosa; *devam*—resplandecente; *anantam*—ilimitada; *viśvataḥ-mukham*—onipenetrante.", "translation": "**Naquela forma universal, Arjuna viu ilimitadas bocas e ilimitados olhos. Tudo era prodigioso. A forma estava decorada com divinos e deslumbrantes ornamentos e revestida de muitos trajes. Estava gloriosamente engrinaldada, e havia muitas fragrâncias ungidas em Seu corpo. Tudo era magnífico, em expansão constante, ilimitado. Foi isto que Arjuna viu.**", "purport": "Estes dois versos indicam que não há limite para as mãos, bocas, pernas, etc., do Senhor. Estas manifestações estão distribuídas por todo o universo e são ilimitadas. Pela graça do Senhor, Arjuna podia vê-las estando em um só lugar. Isso se deve à inconcebível potência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/11/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/12/", "verse_text": "divi sūrya-sahasrasya\n\nbhaved yugapad utthitā\n\nyadi bhāḥ sadṛśī sā syād\n\nbhāsas tasya mahātmanaḥ", "devanagari": "> दिवि सूर्यसहस्रस्य भवेद्युगपदुत्थिता ।\n> यदि भाः सदृशी सा स्याद्भासस्तस्य महात्मनः ॥१२॥", "synonyms": "*divi*—no céu; *sūrya*—sóis; *sahasrasya*—de muitos milhares; *bhavet*—houvesse; *yugapat*—simultaneamente; *utthitā*—presentes; *yadi*—se; *bhāḥ*—luz; *sadṛśī*—assim; *sā*—essa; *syāt*—poderia ser; *bhāsaḥ*—refulgência; *tasya*—há; *mahātmanaḥ*—do grande Senhor.", "translation": "**Se centenas de milhares de sóis se erguessem ao mesmo tempo no céu, sua luz talvez se assemelhasse à refulgência da Pessoa Suprema naquela forma universal.**", "purport": "O que Arjuna viu era indescritível, mas Sañjaya tenta dar a Dhṛtarāṣṭra uma imagem mental dessa grande revelação. Nem Sañjaya nem Dhṛtarāṣṭra estavam presentes, mas Sañjaya, pela graça de Vyāsa, podia ver tudo o que acontecia. Assim, ele agora compara a situação, na medida em que pode ser compreendida, a um fenômeno imaginável (isto é, milhares de sóis)."}
{"ref": "bg/11/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/13/", "verse_text": "tatraika-sthaṁ jagat kṛtsnaṁ\n\npravibhaktam anekadhā\n\napaśyad deva-devasya\n\nśarīre pāṇḍavas tadā", "devanagari": "> तत्रैकस्थं जगत्कृत्स्नं प्रविभक्तमनेकधा ।\n> अपश्यद्देवदेवस्य शरीरे पाण्डवस्तदा ॥१३॥", "synonyms": "*tatra*—ali; *ekastham*—em um lugar; *jagat*—universo; *kṛtsnam*—completamente; *pravibhaktam*—dividido em; *anekadhā*—muitas espécies; *apaśyat*—pôde ver; *deva-devasya*—da Suprema Personalidade de Deus; *śarīre*—na forma universal; *pāṇḍavaḥ*—Arjuna; *tadā*—naquele momento.", "translation": "**Naquele momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as ilimitadas expansões do universo situadas em um só lugar, embora divididas em muitos e muitos milhares.**", "purport": "A palavra tatra (ali) é muito significativa. Indica que tanto Arjuna como Kṛṣṇa estavam sentados na quadriga quando Arjuna viu a forma universal. Os demais no campo de batalha não podiam ver esta forma, pois Kṛṣṇa concedeu a visão somente a Arjuna. No corpo de Kṛṣṇa, Arjuna podia ver muitos milhares de universos. Como aprendemos das escrituras Védicas, há muitos universos e muitos planetas. Alguns deles são feitos de terra, alguns são feitos de ouro, alguns são feitos de joias, alguns são muito grandes, outros nem tanto, e assim por diante. Sentado em sua quadriga, Arjuna podia ver todos estes universos. Mas ninguém podia compreender o que se passava entre Arjuna e Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/11/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/14/", "verse_text": "tataḥ sa vismayāviṣṭo\n\nhṛṣṭa-romā dhanañjayaḥ\n\npraṇamya śirasā devaṁ\n\nkṛtāñjalir abhāṣata", "devanagari": "> ततः स विस्मयाविष्टो हृष्टरोमा धनञ्जयः ।\n> प्रणम्य शिरसा देवं कृताञ्जलिरभाषत ॥१४॥", "synonyms": "*tataḥ*—em seguida; *saḥ*—ele; *vismayāviṣṭaḥ*—dominado pelo assombro; *hṛṣṭa-romā*—com os pelos do corpo arrepiados devido ao seu grande êxtase; *dhanañjayaḥ*—Arjuna; *praṇamya*—oferecendo reverências; *śirasā*—com a cabeça; *devam*—à Suprema Personalidade de Deus; *kṛtāñjaliḥ*—de mãos postas; *abhāṣata*—começou a falar.", "translation": "**Então, perplexo e atônito, com os pelos arrepiados, Arjuna pôs-se a orar de mãos postas, oferecendo reverências ao Senhor Supremo.**", "purport": "Uma vez revelada a visão divina, a relação entre Kṛṣṇa e Arjuna muda imediatamente. Antes, Kṛṣṇa e Arjuna mantinham uma relação baseada na amizade, mas aqui, após a revelação, Arjuna oferece reverências com grande respeito e, de mãos postas, ora a Kṛṣṇa. Ele louva a forma universal. Assim, a relação de Arjuna torna-se mais de assombro do que de amizade. Os grandes devotos veem Kṛṣṇa como o reservatório de todas as relações. Nas escrituras se mencionam doze tipos básicos de relações, e todas elas estão presentes em Kṛṣṇa. Diz-se que Ele é o oceano de todas as relações trocadas entre dois seres vivos, entre os deuses, ou entre o Senhor Supremo e Seus devotos.\n\n\n\nDiz-se que Arjuna foi inspirado pela relação de assombro e, nesse assombro, embora por natureza fosse muito sóbrio, calmo e tranquilo, tornou-se extático, seus pelos arrepiaram-se, e ele começou a oferecer reverências ao Senhor Supremo de mãos postas. Não estava, certamente, com medo. Foi afetado pelas maravilhas do Senhor Supremo. O contexto imediato é o assombro; sua amizade amorosa natural foi sobrepujada pelo assombro, e por isso ele reagiu dessa forma."}
{"ref": "bg/11/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/15/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\npaśyāmi devāṁs tava deva dehe\n\nsarvāṁs tathā bhūta-viśeṣa-saṅghān\n\nbrahmāṇam īśaṁ kamalāsana-stham\n\nṛṣīṁś ca sarvān uragāṁś ca divyān", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> पश्यामि देवांस्तव देव देहे\n> सर्वांस्तथा भूतविशेषसङ्घान् ।\n> ब्रह्माणमीशं कमलासनस्थ-\n> मृषींश्च सर्वानुरगांश्च दिव्यान् ॥१५॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *paśyāmi*—vejo; *devān*—todos os semideuses; *tava*—Teu; *deva*—ó Senhor; *dehe*—no corpo; *sarvān*—todos; *tathā*—também; *bhūta*—entidades vivas; *viśeṣa-saṅghān*—especificamente reunidas; *brahmāṇam*—o Senhor Brahmā; *īśam*—o Senhor Śiva; *kamala-āsana-stham*—sentado sobre a flor de lótus; *ṛṣīn*—grandes sábios; *ca*—também; *sarvān*—todos; *uragān*—serpentes; *ca*—também; *divyān*—divinas.", "translation": "**Arjuna disse: Meu querido Senhor Kṛṣṇa, vejo reunidos em Teu corpo todos os semideuses e várias outras entidades vivas. Vejo Brahmā sentado sobre a flor de lótus, bem como o Senhor Śiva e muitos sábios e serpentes divinas.**", "purport": "Arjuna vê tudo no universo; portanto, vê Brahmā, que é a primeira criatura do universo, e a serpente celestial sobre a qual Garbhodakaśāyī Viṣṇu repousa nas regiões inferiores do universo. Esse leito de serpente chama-se Vāsuki. Há também outras serpentes conhecidas como Vāsuki. Arjuna pode ver desde Garbhodakaśāyī Viṣṇu até a parte mais elevada do universo, no planeta da flor de lótus, onde reside Brahmā, a primeira criatura do universo. Isto significa que, do princípio ao fim, tudo podia ser visto por Arjuna estando em um só lugar em sua quadriga. Isto foi possível pela graça do Senhor Supremo, Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/11/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/16/", "verse_text": "aneka-bāhūdara-vaktra-netraṁ\n\npaśyāmi tvāṁ sarvato 'nanta-rūpam\n\nnāntaṁ na madhyaṁ na punas tavādiṁ\n\npaśyāmi viśveśvara viśva-rūpa", "devanagari": "> अनेकबाहूदरवक्त्रनेत्रं\n> पश्यामि त्वां सर्वतोऽनन्तरूपम् ।\n> नान्तं न मध्यं न पुनस्तवादिं\n> पश्यामि विश्वेश्वर  विश्वरूप ॥१६॥", "synonyms": "*aneka*—muitos; *bāhū*—braços; *udara*—ventres; *vaktra*—bocas; *netram*—olhos; *paśyāmi*—vejo; *tvām*—a Ti; *sarvataḥ*—de todos os lados; *ananta-rūpam*—forma ilimitada; *na antam*—não há fim; *na madhyam*—não há meio; *na punaḥ*—nem tampouco; *tava*—Teu; *ādim*—princípio; *paśyāmi*—vejo; *viśveśvara*—ó Senhor do universo; *viṣva-rūpa*—na forma do universo.", "translation": "**Ó Senhor do universo, vejo em Teu corpo universal muitas e muitas formas — ventres, bocas, olhos — expandindo-se sem limite. Não há fim, não há princípio, e não há meio em tudo isto.**", "purport": "Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus e é ilimitado; assim, através Dele tudo podia ser visto."}
{"ref": "bg/11/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/17/", "verse_text": "kirīṭinaṁ gadinaṁ cakriṇaṁ ca\n\ntejo-rāśiṁ sarvato dīptimantam\n\npaśyāmi tvāṁ durnirīkṣyaṁ samantād\n\ndīptānalārka-dyutim aprameyam", "devanagari": "> किरीटिनं गदिनं चक्रिणं च\n> तेजोराशिं सर्वतो दीप्तिमन्तम् ।\n> पश्यामि त्वां दुर्निरीक्ष्यं समन्ताद्\n> दीप्तानलार्कद्युतिमप्रमेयम् ॥१७॥", "synonyms": "*kirīṭinam*—com elmos; *gadinam*—com maças; *cakriṇam*—com discos; *ca*—e; *tejorāśim*—refulgência; *sarvataḥ*—de todos os lados; *dīptimantam*—resplandecente; *pasyāmi*—vejo; *tvām*—a Ti; *durnirīkṣyam*—difícil de contemplar; *samantāt*—por toda parte; *dīpta-anala*—fogo flamejante; *arka*—sol; *dyutim*—luz solar; *aprameyam*—imensurável.", "translation": "**Tua forma, adornada com vários elmos, maças e discos, é difícil de contemplar por causa de sua deslumbrante refulgência, que é ígnea e imensurável como o sol.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/18/", "verse_text": "tvam akṣaraṁ paramaṁ veditavyaṁ\n\ntvam asya viśvasya paraṁ nidhānam\n\ntvam avyayaḥ śāśvata-dharma-goptā\n\nsanātanas tvaṁ puruṣo mato me", "devanagari": "> त्वमक्षरं परमं वेदितव्यं\n> त्वमस्य विश्वस्य परं निधानम् ।\n> त्वमव्ययः शाश्वतधर्मगोप्ता\n> सनातनस्त्वं पुरुषो मतो मे ॥१८॥", "synonyms": "*tvam*—Tu; *akṣaram*—inesgotável; *paramam*—supremo; *veditavyam*—a ser compreendido; *tvam*—Tu; *asya*—deste; *viśvasya*—do universo; *param*—supremo; *nidhānam*—fundamento; *tvam*—Tu és; *avyayaḥ*—inesgotável; *śāśvata-dharma-goptā*—mantenedor da religião eterna; *sanātanaḥ*—eterna; *tvam*—Tu; *puruṣaḥ*—Personalidade Suprema; *mataḥ me*—é minha opinião.", "translation": "**Tu és o supremo objetivo primordial; Tu és o melhor em todos os universos; Tu és inesgotável, e Tu és o mais antigo; Tu és o mantenedor da religião, a eterna Personalidade de Deus.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/19/", "verse_text": "anādi-madhyāntam ananta-vīryam\n\nananta-bāhuṁ śaśi-sūrya-netram\n\npaśyāmi tvāṁ dīpta-hutāśa-vaktraṁ\n\nsva-tejasā viśvam idaṁ tapantam", "devanagari": "> अनादिमध्यान्तमनन्तवीर्य-\n> मनन्तबाहुं शशिसूर्यनेत्रम् ।\n> पश्यामि त्वां दीप्तहुताशवक्त्रं\n> स्वतेजसा विश्वमिदं तपन्तम् ॥१९॥", "synonyms": "*anādi*—sem princípio; *madhya*—sem meio; *antam*—sem fim; *ananta*—ilimitada; *vīryam*—glória; *ananta*—ilimitados; *bāhum*—braços; *śaśi*—lua; *sūrya*—sol; *netram*—olhos; *paśyāmi*—vejo; *tvām*—a Ti; *dīpta*—flamejante; *hutāśa-vaktram*—fogo saindo de Tua boca; *sva-tejasā*—com Teu; *viśvam*—este universo; *idam*—este; *tapantam*—aquecendo.", "translation": "**Tu és a origem sem princípio, meio nem fim. Tens inúmeros braços, e o sol e a lua estão entre Teus grandes e ilimitados olhos. Com Tua própria refulgência, aqueces este universo inteiro.**", "purport": "Não há limite para a extensão das seis opulências da Suprema Personalidade de Deus. Aqui e em muitas outras passagens há repetição, mas, segundo as escrituras, a repetição das glórias de Kṛṣṇa não constitui defeito literário. Diz-se que, em momento de perplexidade, assombro ou grande êxtase, as afirmações repetem-se incessantemente. Isso não é uma falha."}
{"ref": "bg/11/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/20/", "verse_text": "dyāv ā-pṛthivyor idam antaraṁ hi\n\nvyāptaṁ tvayaikena diśaś ca sarvāḥ\n\ndṛṣṭvādbhutaṁ rūpam ugraṁ tavedaṁ\n\nloka-trayaṁ pravyathitaṁ mahātman", "devanagari": "> द्यावापृथिव्योरिदमन्तरं हि\n> व्याप्तं त्वयैकेन दिशश्च सर्वाः ।\n> दृष्ट्वाद्भुतं रूपमुग्रं तवेदं\n> लोकत्रयं प्रव्यथितं महात्मन् ॥२०॥", "synonyms": "*dyau*—no espaço sideral; *āpṛthivyoḥ*—da terra; *idam*—este; *antaram*—entre; *hi*—certamente; *vyāptam*—penetrado; *tvayā*—por Ti; *ekena*—por um só; *diśaḥ*—direções; *ca*—e; *sarvāḥ*—todas; *dṛṣṭvā*—ao ver; *adbhutam*—maravilhosa; *rūpam*—forma; *ugram*—terrível; *tava*—Tua; *idam*—esta; *loka*—sistema planetário; *trayam*—três; *pravyathitam*—perturbado; *mahātman*—ó grandioso.", "translation": "**Embora sejas um só, Tu Te estendes pelo céu, pelos planetas e por todo o espaço entre eles. Ó grandioso, ao contemplar esta terrível forma, vejo que todos os sistemas planetários se perturbam.**", "purport": "Dyāv āpṛthivyoḥ (o espaço entre o céu e a terra) e lokatrayam (os três mundos) são palavras significativas neste verso, pois fica patente que não somente Arjuna viu esta forma universal do Senhor, mas outros, em outros sistemas planetários, também a viram. A visão não foi um sonho. Todos os que estavam espiritualmente despertos com a visão divina viram-na."}
{"ref": "bg/11/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/21/", "verse_text": "amī hi tvāṁ sura-saṅghā viśanti\n\nkecid bhītāḥ prāñjalayo gṛṇanti\n\nsvastīty uktvā maharṣi-siddha-saṅghāḥ\n\nstuvanti tvāṁ stutibhiḥ puṣkalābhiḥ", "devanagari": "> अमी हि त्वां सुरसङ्घा विशन्ति\n> केचिद्भीताः प्राञ्जलयो गृणन्ति ।\n> स्वस्तीत्युक्त्वा महर्षिसिद्धसङ्घाः\n> स्तुवन्ति त्वां स्तुतिभिः पुष्कलाभिः ॥२१॥", "synonyms": "*amī*—todos esses; *hi*—certamente; *tvām*—a Ti; *sura-saṅghāḥ*—grupos de semideuses; *viśanti*—entrando; *kecit*—alguns deles; *bhītāḥ*—de medo; *prāñjalayaḥ*—de mãos postas; *gṛṇanti*—oferecendo orações a; *svasti*—toda a paz; *iti*—assim; *uktvā*—falando dessa forma; *maharṣi*—grandes sábios; *siddha-saṅghāḥ*—sábios perfeitos; *stuvanti*—cantando hinos; *tvām*—a Ti; *stutibhiḥ*—com orações; *puṣkalābhiḥ*—hinos Védicos.", "translation": "**Todos os semideuses estão rendendo-se e adentrando em Ti. Estão assaz amedrontados, e, de mãos postas, cantam os hinos Védicos.**", "purport": "Os semideuses em todos os sistemas planetários temiam a manifestação aterradora da forma universal e sua resplandecente refulgência, e por isso oraram por proteção."}
{"ref": "bg/11/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/22/", "verse_text": "rudrādityā vasavo ye ca sādhyā\n\nviśve 'śvinau marutaś coṣmapāś ca\n\ngandharva-yakṣāsura-siddha-saṅghā\n\nvīkṣante tvāṁ vismitāś caiva sarve", "devanagari": "> रुद्रादित्या वसवो ये च साध्या\n> विश्वेऽश्विनौ मरुतश्चोष्मपाश्च ।\n> गन्धर्वयक्षासुरसिद्धसङ्घा\n> वीक्षन्ते त्वां विस्मिताश्चैव सर्वे ॥२२॥", "synonyms": "*rudra*—manifestações do Senhor Śiva; *ādityāḥ*—os Ādityas; *vasavaḥ*—os Vasus; *ye*—todos esses; *ca*—e; *sādhyāḥ*—os Sādhyas; *viśve*—os Viśvadevas; *aśvinau*—os Aśvinīkumāras; *marutaḥ*—os Maruts; *ca*—e; *uṣmapāḥ*—os antepassados; *ca*—e; *gandharva*—os Gandharvas; *yakṣa*—os Yakṣas; *asura-siddha*—os demônios e os semideuses perfeitos; *saṅghāḥ*—assembleias; *vīkṣante*—estão vendo; *tvām*—a Ti; *vismitāḥ*—em assombro; *ca*—também; *eva*—certamente; *sarve*—todos.", "translation": "**As diferentes manifestações do Senhor Śiva, os Ādityas, os Vasus, os Sādhyas, os Viśvadevas, os dois Aśvins, os Maruts, os antepassados, os Gandharvas, os Yakṣas, os Asuras e todos os semideuses perfeitos contemplam-Te com assombro.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/23/", "verse_text": "rūpaṁ mahat te bahu-vaktra-netraṁ\n\nmahā-bāho bahu-bāhūru-pādam\n\nbahūdaraṁ bahu-daṁṣṭrā-karālaṁ\n\ndṛṣṭvā lokāḥ pravyathitās tathāham", "devanagari": "> रूपं महत्ते बहुवक्त्रनेत्रं\n> महाबाहो बहुबाहूरुपादम् ।\n> बहूदरं बहुदंष्ट्राकरालं\n> दृष्ट्वा लोकाः प्रव्यथितास्तथाहम् ॥२३॥", "synonyms": "*rūpam*—forma; *mahat*—imensa; *te*—de Ti; *bahu*—muitas; *vaktra*—faces; *netram*—olhos; *mahā-bāho*—ó Tu de braços poderosos; *bahu*—muitos; *bāhu*—braços; *ūru*—coxas; *pādam*—pernas; *bahu-udaram*—muitos ventres; *babu-daṁṣṭrā*—muitos dentes; *karālam*—horríveis; *dṛṣṭvā*—vendo; *lokāḥ*—todos os planetas; *pravyathitāḥ*—perturbados; *tathā*—de modo semelhante; *aham*—eu.", "translation": "**Ó Tu de braços poderosos, todos os planetas, com seus semideuses, estão perturbados ao verem Tuas muitas faces, olhos, braços, ventres e pernas, e Teus terríveis dentes, e, assim como eles estão perturbados, eu também estou.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/24/", "verse_text": "nabhaḥ-spṛśaṁ dīptam aneka-varṇaṁ\n\nvyāttānanaṁ dīpta-viśāla-netram\n\ndṛṣṭvā hi tvāṁ pravyathitāntar-ātmā\n\ndhṛtiṁ na vindāmi śamaṁ ca viṣṇo", "devanagari": "> नभःस्पृशं दीप्तमनेकवर्णं\n> व्यात्ताननं दीप्तविशालनेत्रम् ।\n> दृष्ट्वा हि त्वां प्रव्यथितान्तरात्मा\n> धृतिं न विन्दामि शमं च विष्णो ॥२४॥", "synonyms": "*nabhaḥ spṛśam*—tocando o céu; *dīptam*—resplandecente; *aneka*—muitas; *varṇam*—cores; *vyāttā*—aberta; *ānanam*—boca; *dīpta*—resplandecentes; *viśāla*—imensos; *netram*—olhos; *dṛṣṭvā*—ao ver; *hi*—certamente; *tvām*—a Ti; *pravyathitā*—perturbada; *antaḥ*—dentro; *ātmā*—alma; *dhṛtim*—firmeza; *na*—não; *vindāmi*—tenho; *śamam*—tranquilidade mental; *ca*—também; *viṣṇo*—ó Senhor Viṣṇu.", "translation": "**Ó Viṣṇu onipenetrante, já não consigo manter meu equilíbrio. Vendo Tuas cores radiantes a preencher os céus e contemplando Teus olhos e bocas, sinto medo.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/25/", "verse_text": "daṁṣṭrā-karālāni ca te mukhāni\n\ndṛṣṭvaiva kālānala-sannibhāni\n\ndiśo na jāne na labhe ca śarma\n\nprasīda deveśa jagan-nivāsa", "devanagari": "> दंष्ट्राकरालानि च ते मुखानि\n> दृष्ट्वैव कालानलसन्निभानि ।\n> दिशो न जाने न लभे च शर्म\n> प्रसीद देवेश जगन्निवास ॥२५॥", "synonyms": "*daṁṣṭrā*—dentes; *karālāni*—assim; *ca*—também; *te*—Tuas; *mukhāni*—faces; *dṛṣṭvā*—vendo; *eva*—assim; *kālānala*—o fogo da morte; *sannibhāni*—como se flamejantes; *diśaḥ*—direções; *na jāne*—não sei; *na labhe*—nem obtenho; *ca śarma*—e graça; *prasīda*—digna-Te; *deveśa*—ó Senhor de todos os senhores; *jagat-nivāsa*—refúgio dos mundos.", "translation": "**Ó Senhor dos senhores, ó refúgio dos mundos, sê benigno comigo. Não consigo manter meu equilíbrio ao ver, dessa forma, Tuas faces flamejantes como a morte e Teus dentes terríveis. Em todas as direções estou perplexo.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/26-27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/26-27/", "verse_text": "amī ca tvāṁ dhṛtarāṣṭrasya putrāḥ\n\nsarve sahaivāvani-pāla-saṅghaiḥ\n\nbhīṣmo droṇaḥ sūta-putras tathāsau\n\nsahāsmadīyair api yodha-mukhyaiḥ\n\nvaktrāṇi te tvaramāṇā viśanti\n\ndaṁṣṭrā-karālāni bhayānakāni\n\nkecid vilagnā daśanāntareṣu\n\nsandṛśyante cūrṇitair uttamāṅgaiḥ", "devanagari": "> अमी च त्वां धृतराष्ट्रस्य पुत्राः\n> सर्वे सहैवावनिपालसङ्घैः ।\n> भीष्मो द्रोणः सूतपुत्रस्तथासौ\n> सहास्मदीयैरपि योधमुख्यैः ॥२६॥\n> वक्त्राणि ते त्वरमाणा विशन्ति\n> दंष्ट्राकरालानि भयानकानि ।\n> केचिद्विलग्ना दशनान्तरेषु\n> सन्दृश्यन्ते चूर्णितैरुत्तमाङ्गैः ॥२७॥", "synonyms": "*amī*—todos esses; *ca*—também; *tvām*—a Ti; *dhṛtarāṣṭasya*—de Dhṛtarāṣṭra; *putrāḥ*—filhos; *sarva*—todos; *saha eva*—juntamente com; *avanipāla*—reis guerreiros; *saṅghaiḥ*—com os grupos; *bhīṣmaḥ*—Bhīṣmadeva; *droṇaḥ*—Droṇācārya; *sūta-putraḥ*—Karṇa; *tathā*—também; *asau*—esse; *saha*—com; *asmadīyaiḥ*—nossos; *api*—também; *yodha-mukhyaiḥ*—chefe entre os guerreiros; *vaktrāṇi*—bocas; *te*—Tuas; *tvaramāṇāḥ*—temerosos; *viśanti*—entrando; *daṁṣṭrā*—dentes; *karālāni*—terríveis; *bhayānakāni*—assustadores; *kecit*—alguns deles; *vilagnāḥ*—sendo atacados; *daśanāntareṣu*—entre os dentes; *sandṛśyante*—sendo vistos; *cūrṇitaiḥ*—esmagados; *uttama-aṅgaiḥ*—pela cabeça.", "translation": "**Todos os filhos de Dhṛtarāṣṭra, juntamente com seus reis aliados, e Bhīṣma, Droṇa e Karṇa, e também todos os nossos soldados, precipitam-se em Tuas bocas, com suas cabeças esmagadas pelos Teus terríveis dentes. Vejo que alguns também estão sendo triturados entre Teus dentes.**", "purport": "Em um verso anterior, o Senhor prometeu mostrar a Arjuna coisas que ele teria muito interesse em ver. Ora, Arjuna vê que os líderes do partido adversário (Bhīṣma, Droṇa, Karṇa e todos os filhos de Dhṛtarāṣṭra), seus soldados e os próprios soldados de Arjuna estão todos sendo aniquilados. Isto indica que Arjuna sairá vitorioso da batalha, apesar das pesadas perdas em ambos os lados. Menciona-se também aqui que Bhīṣma, supostamente invencível, igualmente será destroçado. O mesmo acontecerá a Karṇa. Não somente os grandes guerreiros do outro partido, como Bhīṣma, serão destroçados, mas também alguns dos grandes guerreiros do lado de Arjuna."}
{"ref": "bg/11/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/28/", "verse_text": "yathā nadīnāṁ bahavo 'mbu-vegāḥ\n\nsamudram evābhimukhā dravanti\n\ntathā tavāmī nara-loka-vīrā\n\nviśanti vaktrāṇy abhivijvalanti", "devanagari": "> यथा नदीनां बहवोऽम्बुवेगाः\n> समुद्रमेवाभिमुखा द्रवन्ति ।\n> तथा तवामी नरलोकवीरा\n> विशन्ति वक्त्राण्यभिविज्वलन्ति ॥२८॥", "synonyms": "*yathā*—assim como; *nadīnām*—dos rios; *bahavaḥ*—muitas; *ambu-vegāḥ*—ondas das águas; *samudram*—oceano; *eva*—certamente; *abhimukhāḥ*—em direção a; *dravanti*—correm; *tathā*—de modo semelhante; *tava*—Teus; *amī*—todos esses; *nara-lokavīrāḥ*—os reis da sociedade humana; *viśanti*—entrando; *vaktrāṇi*—nas bocas; *abhivijvalanti*—flamejantes.", "translation": "**Assim como os rios desembocam no mar, todos esses grandes guerreiros adentram Tuas flamejantes bocas e perecem.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/29/", "verse_text": "yathā pradīptaṁ jvalanaṁ pataṅgā\n\nviśanti nāśāya samṛddha-vegāḥ\n\ntathaiva nāśāya viśanti lokās\n\ntavāpi vaktrāṇi samṛddha-vegāḥ", "devanagari": "> यथा प्रदीप्तं ज्वलनं पतङ्गा\n> विशन्ति नाशाय समृद्धवेगाः ।\n> तथैव नाशाय विशन्ति लोकास्-\n> तवापि वक्त्राणि समृद्धवेगाः ॥२९॥", "synonyms": "*yathā*—assim como; *pradīptam*—flamejante; *jvalanam*—fogo; *pataṅgāḥ*—mariposas; *viśanti*—adentram; *nāśāya*—destruição; *samṛddha*—total; *vegāḥ*—velocidade; *tathā eva*—de modo semelhante; *nāśāya*—para destruição; *viśanti*—adentrando; *lokāḥ*—todas as pessoas; *tava*—em Ti; *api*—também; *vaktrāṇi*—nas bocas; *samṛddha-vegāḥ*—em plena velocidade.", "translation": "**Vejo todas as pessoas precipitarem-se a toda velocidade em Tuas bocas, como mariposas que se lançam em um fogo flamejante.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/30/", "verse_text": "lelihyase grasamānaḥ samantāl\n\nlokān samagrān vadanair jvaladbhiḥ\n\ntejobhir āpūrya jagat samagraṁ\n\nbhāsas tavogrāḥ pratapanti viṣṇo", "devanagari": "> लेलिह्यसे ग्रसमानः समन्ताल्-\n> लोकान्समग्रान्वदनैर्ज्वलद्भिः ।\n> तेजोभिरापूर्य जगत्समग्रं\n> भासस्तवोग्राः प्रतपन्ति विष्णो ॥३०॥", "synonyms": "*lelihyase*—lambendo; *grasamānaḥ*—devorando; *samantāt*—de todas as direções; *lokān*—pessoas; *samagrān*—completamente; *vadanaiḥ*—pela boca; *jvaladbhiḥ*—com flamejantes; *tejobhiḥ*—com refulgência; *āpūrya*—cobrindo; *jagat*—o universo; *samagram*—todo; *bhāsaḥ*—iluminando; *tava*—Teus; *ugrāḥ*—terríveis; *pratapanti*—abrasando; *viṣṇo*—ó Senhor onipenetrante.", "translation": "**Ó Viṣṇu, vejo-Te devorando todas as pessoas em Tuas flamejantes bocas e cobrindo o universo com Teus imensuráveis raios. Abrasando os mundos, Tu Te manifestas.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/31/", "verse_text": "ākhyāhi me ko bhavān ugra-rūpo\n\nnamo 'stu te deva-vara prasīda\n\nvijñātum icchāmi bhavantam ādyaṁ\n\nna hi prajānāmi tava pravṛttim", "devanagari": "> आख्याहि मे को भवानुग्ररूपो\n> नमोऽस्तु ते देववर प्रसीद ।\n> विज्ञातुमिच्छामि भवन्तमाद्यं\n> न हि प्रजानामि तव प्रवृत्तिम् ॥३१॥", "synonyms": "*ākhyāhi*—digna-Te de explicar; *me*—a mim; *kaḥ*—quem; *bhavān*—Tu; *ugra-rūpaḥ*—forma feroz; *namaḥ astu*—reverências; *te*—a Ti; *deva-vara*—o grande entre os semideuses; *prasīda*—sê benigno; *vijñātum*—apenas para saber; *icchāmi*—desejo; *bhavantam*—a Ti; *ādyam*—o original; *na*—nunca; *hi*—certamente; *prajānāmi*—conheço; *tava*—Tua; *pravṛttim*—missão.", "translation": "**Ó Senhor dos senhores, com forma tão feroz, dize-me, por favor, quem és Tu. Ofereço-Te minhas reverências; sê benigno comigo. Não sei qual é Tua missão, e desejo ouvi-la.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/11/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/32/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nkālo 'smi loka-kṣaya-kṛt pravṛddho\n\nlokān samāhartum iha pravṛttaḥ\n\nṛte 'pi tvāṁ na bhaviṣyanti sarve\n\nye 'vasthitāḥ pratyanīkeṣu yodhāḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> कालोऽस्मि लोकक्षयकृत्प्रवृद्धो\n> लोकान्समाहर्तुमिह प्रवृत्तः ।\n> ऋतेऽपि त्वां न भविष्यन्ति सर्वे\n> येऽवस्थिताः प्रत्यनीकेषु योधाः ॥३२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Personalidade de Deus disse; *kālaḥ*—tempo; *asmi*—sou; *loka*—os mundos; *kṣaya-kṛt*—destruidor; *pravṛddhaḥ*—a ocupar-me; *lokān*—todas as pessoas; *samāhartum*—destruir; *iha*—neste mundo; *pravṛttaḥ*—a ocupar-me; *ṛte api*—sem sequer; *tvām*—tu; *na*—nunca; *bhaviṣyanti*—serão; *sarve*—todos; *ye*—que; *avasthitāḥ*—situados; *pratyanīkeṣu*—no lado oposto; *yodhāḥ*—os soldados.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Sou o tempo, o destruidor dos mundos, e vim para ocupar todas as pessoas. Com exceção de vós [os Pāṇḍavas], todos os soldados aqui presentes em ambos os lados serão mortos.**", "purport": "Embora Arjuna soubesse que Kṛṣṇa era seu amigo e a Suprema Personalidade de Deus, ainda assim ficou perplexo com as várias formas exibidas por Kṛṣṇa. Por isso, indagou mais sobre a real missão dessa força devastadora. Está escrito nos *Vedas* que a Verdade Suprema destrói tudo, até mesmo Brahmā. Yasya brahme ca kṣatram ca ubhe bhavata odanaḥ/mṛtyur yasyopasecanaṁ ka itthā veda yatra saḥ. Por fim, todos os brāhmaṇas, kṣatriyas e todos os demais são devorados pelo Supremo. Esta forma do Senhor Supremo é a de um gigante que tudo devora, e aqui Kṛṣṇa Se apresenta sob essa forma do tempo que tudo devora. Com exceção de uns poucos Pāṇḍavas, todos os que estavam presentes naquele campo de batalha seriam por Ele devorados.\n\n\n\nArjuna não era favorável à luta, e julgava melhor não lutar; assim, não haveria frustração. Em resposta, o Senhor diz que, mesmo que ele não lutasse, todos seriam destruídos, pois esse é Seu plano. Se ele deixasse de lutar, eles morreriam de outra maneira. Não se pode deter a morte, ainda que ele não lutasse. De fato, eles já estavam mortos. O tempo é destruição, e todas as manifestações devem ser aniquiladas por desejo do Senhor Supremo. Tal é a lei da natureza."}
{"ref": "bg/11/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/33/", "verse_text": "tasmāt tvam uttiṣṭha yaśo labhasva\n\njitvā śatrūn bhuṅkṣva rājyaṁ samṛddham\n\nmayaivaite nihatāḥ pūrvam eva\n\nnimitta-mātraṁ bhava savya-sācin", "devanagari": "> तस्मात्त्वमुत्तिष्ठ यशो लभस्व\n> जित्वा शत्रून् भुङ्क्ष्व राज्यं समृद्धम् ।\n> मयैवैते निहताः पूर्वमेव\n> निमित्तमात्रं भव सव्यसाचिन् ॥३३॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *tvām*—tu; *uttiṣṭha*—levanta-te; *yaśaḥ*—fama; *labhasva*—conquista; *jitvā*—conquistando; *śatrūn*—inimigos; *bhuṅkṣva*—desfruta; *rājyam*—reino; *samṛddham*—florescente; *mayā*—por Mim; *eva*—certamente; *ete*—todos estes; *nihatāḥ*—já mortos; *pūrvam eva*—por elementos anteriores; *nimitta-mātram*—apenas torna-te o instrumento; *bhava*—torna-te; *savyasācin*—ó Savyasācin.", "translation": "**Portanto, levanta-te e prepara-te para lutar. Após conquistares teus inimigos, desfrutarás de um próspero reino. Eles já estão mortos por arranjo Meu, e tu, ó Savyasācin, podes ser apenas um instrumento na luta.**", "purport": "Savyasācin refere-se àquele que pode disparar flechas com grande perícia no campo de batalha; assim, dirige-se a Arjuna como guerreiro perito, capaz de disparar flechas para matar seus inimigos. \"Torna-te apenas um instrumento\": nimitta-mātram. Esta palavra também é assaz significativa. O mundo inteiro se move conforme o plano da Suprema Personalidade de Deus. As pessoas tolas, que não dispõem de conhecimento suficiente, pensam que a natureza se move sem plano e que todas as manifestações não passam de formações acidentais. Há muitos supostos cientistas que sugerem que talvez tenha sido assim, ou talvez assado, mas não há nada de \"talvez\". Há um plano específico que se executa neste mundo material. Qual é este plano? Esta manifestação cósmica é uma oportunidade para as almas condicionadas voltarem ao Supremo, voltarem ao lar. Enquanto tiverem a mentalidade dominadora que as faz tentar enfeitiçar a natureza material, permanecem condicionadas. Mas quem quer que possa compreender o plano do Senhor Supremo e cultivar a consciência de Kṛṣṇa é o mais inteligente. A criação e a destruição da manifestação cósmica estão sob a orientação superior de Deus. Assim, a Batalha de Kurukṣetra travou-se conforme o plano de Deus. Arjuna recusava-se a lutar, mas foi-lhe dito que ele deveria lutar e, ao mesmo tempo, desejar o Senhor Supremo. Então seria feliz. Aquele que está em plena consciência de Kṛṣṇa e cuja vida se dedica a Seu serviço transcendental é perfeito."}
{"ref": "bg/11/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/34/", "verse_text": "droṇaṁ ca bhīṣmaṁ ca jayadrathaṁ ca\n\nkarṇaṁ tathānyān api yodha-vīrān\n\nmayā hatāṁs tvaṁ jahi mā vyathiṣṭhā\n\nyudhyasva jetāsi raṇe sapatnān", "devanagari": "> द्रोणं च भीष्मं च जयद्रथं च\n> कर्णं तथान्यानपि योधवीरान् ।\n> मया हतांस्त्वं जहि मा व्यथिष्ठा\n> युध्यस्व जेतासि रणे सपत्नान् ॥३४॥", "synonyms": "*droṇam ca*—também Droṇa; *bhīṣmam ca*—também Bhīṣma; *jayadratham ca*—também Jayadratha; *karṇam*—também Karṇa; *tathā*—também; *anyān*—outros; *api*—certamente; *yodha-vīrān*—grandes guerreiros; *mayā*—por Mim; *hatān*—já mortos; *tvam*—tu; *jahi*—torna-te vitorioso; *mā*—nunca; *vyathiṣṭhāḥ*—te perturbes; *yudhyasva*—simplesmente luta; *jetāsi*—simplesmente conquista; *raṇe*—na luta; *sapatnān*—inimigos.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Todos os grandes guerreiros — Droṇa, Bhīṣma, Jayadratha, Karṇa — já estão destruídos. Simplesmente luta, e vencerás teus inimigos.**", "purport": "Cada plano é elaborado pela Suprema Personalidade de Deus, mas Ele é tão bondoso e misericordioso para com Seus devotos que deseja dar o crédito a Seus devotos que executam Seu plano segundo Seu desejo. A vida, por isso, deve transcorrer de tal modo que cada um aja em consciência de Kṛṣṇa e compreenda a Suprema Personalidade de Deus por intermédio de um mestre espiritual. Os planos da Suprema Personalidade de Deus são compreendidos por Sua misericórdia, e os planos dos devotos equivalem aos Seus planos. Deve-se seguir tais planos e ser vitorioso na luta pela existência."}
{"ref": "bg/11/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/35/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\netac chrutvā vacanaṁ keśavasya\n\nkṛtāñjalir vepamānaḥ kirītī\n\nnamaskṛtvā bhūya evāha kṛṣṇaṁ\n\nsa-gadgadaṁ bhīta-bhītaḥ praṇamya", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> एतच्छ्रुत्वा वचनं केशवस्य\n> कृताञ्जलिर्वेपमानः किरीटी ।\n> नमस्कृत्वा भूय एवाह कृष्णं\n> सगद्गदं भीतभीतः प्रणम्य ॥३५॥", "synonyms": "*sañjayaḥ uvāca*—Sañjaya disse; *etat*—assim; *śrutvā*—ouvindo; *vacanam*—discurso; *keśavasya*—de Kṛṣṇa; *kṛtāñjaliḥ*—de mãos postas; *vepamānaḥ*—trêmulo; *kirītī*—Arjuna; *namaskṛtvā*—oferecendo reverências; *bhūyaḥ*—de novo; *eva*—também; *āha kṛṣṇam*—disse a Kṛṣṇa; *sa-gadgadam*—titubeante; *bhīta-bhītaḥ*—temeroso; *praṇamya*—oferecendo reverências.", "translation": "**Sañjaya disse a Dhṛtarāṣṭra: Ó rei, depois de ouvir estas palavras da Suprema Personalidade de Deus, Arjuna, trêmulo, ofereceu reverências temerosamente, de mãos postas, e começou a falar, titubeante, da seguinte maneira:**", "purport": "Como já explicamos, devido à situação criada pela forma universal da Suprema Personalidade de Deus, Arjuna ficou perplexo de assombro; assim, começou a oferecer suas respeitosas reverências a Kṛṣṇa repetidas vezes e, com voz titubeante, começou a orar, não como amigo, mas como devoto em assombro."}
{"ref": "bg/11/36", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/36/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nsthāne hṛṣīkeśa tava prakīrtyā\n\njagat prahṛṣyaty anurajyate ca\n\nrakṣāṁsi bhītāni diśo dravanti\n\nsarve namasyanti ca siddha-saṅghāḥ", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> स्थाने हृषीकेश तव प्रकीर्त्या\n> जगत्प्रहृष्यत्यनुरज्यते च ।\n> रक्षांसि भीतानि दिशो द्रवन्ति\n> सर्वे नमस्यन्ति च सिद्धसङ्घाः ॥३६॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *sthāne*—com razão; *hṛṣīkeśa*—ó mestre de todos os sentidos; *tava*—Tuas; *prakīrtya*—glórias; *jagat*—o mundo inteiro; *prahṛṣyati*—rejubila-se; *anurajyate*—apega-se; *rakṣāṁsi*—os demônios; *bhītāni*—de medo; *diśaḥ*—direções; *dravanti*—fugindo; *sarve*—todos; *namasyanti*—oferecendo respeito; *ca*—também; *siddha-saṅghāḥ*—os seres humanos perfeitos.", "translation": "**Ó Hṛṣīkeśa, o mundo se rejubila ao ouvir Teu nome, e assim todos se apegam a Ti. Embora os seres perfeitos Te ofereçam suas respeitosas homenagens, os demônios sentem medo e fogem para todos os lados. Tudo isso se dá com razão.**", "purport": "Arjuna, depois de ouvir de Kṛṣṇa o desfecho da Batalha de Kurukṣetra, tornou-se um devoto iluminado do Senhor Supremo. Admitiu que tudo o que Kṛṣṇa faz é totalmente cabível. Arjuna confirmou que Kṛṣṇa é o mantenedor e o objeto de adoração para os devotos e o destruidor dos indesejáveis. Suas ações são igualmente boas para todos. Aqui, Arjuna entendeu que, ao concluir-se a Batalha de Kurukṣetra, no espaço sideral estavam presentes muitos semideuses, siddhas e a intelectualidade dos planetas superiores, todos observando a luta porque Kṛṣṇa estava presente. Quando Arjuna viu a forma universal do Senhor, os semideuses sentiram prazer, mas outros, que eram demônios e ateus, não puderam suportar quando o Senhor foi louvado. Por seu temor natural à devastadora forma da Suprema Personalidade de Deus, fugiram. Arjuna louva o tratamento que Kṛṣṇa dispensa aos devotos e aos ateus. Em todos os casos, o devoto glorifica o Senhor, pois sabe que tudo o que Ele faz é bom para todos."}
{"ref": "bg/11/37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/37/", "verse_text": "kasmāc ca te na nameran mahātman\n\ngarīyase brahmaṇo 'py ādi-kartre\n\nananta deveśa jagan-nivāsa\n\ntvam akṣaraṁ sad-asat tat paraṁ yat", "devanagari": "> कस्माच्च ते न नमेरन्महात्मन्\n> गरीयसे ब्रह्मणोऽप्यादिकर्त्रे ।\n> अनन्त देवेश जगन्निवास\n> त्वमक्षरं सदसत्तत्परं यत् ॥३७॥", "synonyms": "*kasmāt*—por que; *ca*—também; *te*—a Ti; *na*—não; *nameran*—ofereceriam reverências apropriadas; *mahātman*—ó grandioso; *garīyase*—Tu és melhor que; *brahmaṇaḥ*—Brahmā; *api*—embora; *ādi-kartre*—o criador supremo; *ananta*—ilimitado; *deveśa*—Deus dos deuses; *jagat-nivāsa*—ó refúgio do universo; *tvam*—Tu és; *akṣaram*—imperecível; *sat-asat*—causa e efeito; *tat-param*—transcendental; *yat*—porque.", "translation": "**Ó grandioso, que estás acima até mesmo de Brahmā, Tu és o senhor original. Por que não Te ofereceriam suas homenagens, ó ilimitado? Ó refúgio do universo, Tu és a fonte invencível, a causa de todas as causas, transcendental a esta manifestação material.**", "purport": "Ao oferecer estas reverências, Arjuna indica que Kṛṣṇa é digno da adoração de todos. Ele é onipenetrante e é a Alma de cada alma. Arjuna se dirige a Kṛṣṇa como mahātmā, o que significa que Ele é magnânimo e ilimitado em grau supremo. Ananta indica que não há nada que não esteja abrangido pela influência e energia do Senhor Supremo, e deveśa significa que Ele é o controlador de todos os semideuses e está acima de todos eles. Ele é o centro do universo inteiro. Arjuna pensava também que era cabível que todas as entidades vivas perfeitas e todos os poderosos semideuses oferecessem suas respeitosas reverências a Ele, pois ninguém é maior que Ele. Menciona, em especial, que Kṛṣṇa é maior que Brahmā porque Brahmā é criado por Ele. Brahmā nasce do caule de lótus que brota do ventre umbilical de Garbhodakaśāyī Viṣṇu, que é a expansão plenária de Kṛṣṇa; portanto, Brahmā e o Senhor Śiva, que nasce de Brahmā, e todos os outros semideuses devem oferecer suas respeitosas reverências. Assim, o Senhor é respeitado pelo Senhor Śiva, por Brahmā e por outros semideuses semelhantes. A palavra akṣaram é assaz significativa, pois esta criação material está sujeita à destruição, mas o Senhor está acima desta criação material. Ele é a causa de todas as causas, e, sendo assim, é superior a todas as almas condicionadas dentro desta natureza material, bem como à própria manifestação cósmica material. Ele é, por conseguinte, o todo-grandioso Supremo."}
{"ref": "bg/11/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/38/", "verse_text": "tvam ādi-devaḥ puruṣaḥ purāṇas\n\ntvam asya viśvasya paraṁ nidhānam\n\nvettāsi vedyaṁ ca paraṁ ca dhāma\n\ntvayā tataṁ viśvam ananta-rūpa", "devanagari": "> त्वमादिदेवः पुरुषः पुराणस्-\n> त्वमस्य विश्वस्य परं निधानम् ।\n> वेत्तासि वेद्यं च परं च धाम\n> त्वया ततं विश्वमनन्तरूप ॥३८॥", "synonyms": "*tvam*—Tu; *ādi-devaḥ*—o original Deus Supremo; *puruṣaḥ*—personalidade; *purāṇaḥ*—antigo; *tvam*—Tu; *asya*—deste; *viśvasya*—universo; *param*—transcendental; *nidhānam*—refúgio; *vettā*—conhecedor; *asi*—és; *vedyam ca*—e o cognoscível; *param ca*—e transcendental; *dhāma*—refúgio; *tvayā*—por Ti; *tatam*—penetrado; *viśvam*—universo; *ananta-rūpa*—forma ilimitada.", "translation": "**Tu és a Personalidade original, a Divindade. Tu és o único santuário deste mundo cósmico manifestado. Tu sabes tudo, e Tu és tudo o que se pode saber. Tu estás acima dos modos materiais. Ó forma ilimitada! Toda esta manifestação cósmica está penetrada por Ti!**", "purport": "Tudo repousa na Suprema Personalidade de Deus; portanto, Ele é o repouso último. Nidhānam significa que tudo, até mesmo a refulgência do Brahman, repousa na Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Ele é o conhecedor de tudo o que sucede neste mundo, e, se o conhecimento tem algum fim, Ele é o fim de todo o conhecimento; portanto, Ele é o conhecido e o cognoscível. Ele é o objeto do conhecimento porque é onipenetrante. Por ser a causa no mundo espiritual, é transcendental. É também a personalidade principal do mundo transcendental."}
{"ref": "bg/11/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/39/", "verse_text": "vāyur yamo 'gnir varuṇaḥ śaśāṅkaḥ\n\nprajāpatis tvaṁ prapitāmahaś ca\n\nnamo namas te 'stu sahasra-kṛtvaḥ\n\npunaś ca bhūyo 'pi namo namas te", "devanagari": "> वायुर्यमोऽग्निर्वरुणः शशाङ्कः\n> प्रजापतिस्त्वं प्रपितामहश्च ।\n> नमो नमस्तेऽस्तु सहस्रकृत्वः\n> पुनश्च भूयोऽपि नमो नमस्ते ॥३९॥", "synonyms": "*vāyuḥ*—ar; *yamaḥ*—controlador; *agniḥ*—fogo; *varuṇaḥ*—água; *śaśāṅkaḥ*—lua; *prajāpatiḥ*—Brahmā; *tvam*—Tu; *prapitāmahaḥ*—avô; *ca*—também; *namaḥ*—oferecendo reverências; *namaḥ te*—de novo ofereço minhas reverências a Ti; *astu*—são; *sahasra-kṛtvaḥ*—mil vezes; *punaḥ ca*—e novamente; *bhūyaḥ*—de novo; *api*—também; *namaḥ*—ofereço minhas reverências; *namaḥ te*—oferecendo minhas reverências a Ti.", "translation": "**Tu és o ar, o fogo, a água, e Tu és a lua! Tu és o controlador supremo e o avô. Assim, ofereço-Te minhas respeitosas reverências mil vezes, e novamente, e mais uma vez!**", "purport": "O Senhor é aqui invocado como ar, pois o ar é a representação mais importante de todos os semideuses, sendo onipresente. Arjuna também invoca Kṛṣṇa como o avô, porque Ele é o pai de Brahmā, a primeira criatura viva no universo."}
{"ref": "bg/11/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/40/", "verse_text": "namaḥ purastād atha pṛṣṭhatas te\n\nnamo 'stu te sarvata eva sarva\n\nananta-vīryāmita-vikramas tvaṁ\n\nsarvaṁ samāpnoṣi tato 'si sarvaḥ", "devanagari": "> नमः पुरस्तादथ पृष्ठतस्ते\n> नमोऽस्तु ते सर्वत एव सर्व ।\n> अनन्तवीर्यामितविक्रमस्त्वं\n> सर्वं समाप्नोषि ततोऽसि सर्वः ॥४०॥", "synonyms": "*namaḥ*—oferecendo reverências; *purastāt*—pela frente; *atha*—também; *pṛṣṭhataḥ*—por trás; *te*—a Ti; *namaḥ astu*—ofereço meus respeitos; *te*—a Ti; *sarvataḥ*—de todos os lados; *eva sarva*—porque Tu és tudo; *ananta-vīrya*—potência ilimitada; *amita-vikramaḥ*—força ilimitada; *tvam*—Tu; *sarvam*—tudo; *samāpnoṣi*—abranges; *tataḥ asi*—portanto, és; *sarvaḥ*—tudo.", "translation": "**Reverências pela frente, por trás e por todos os lados! Ó poder sem limites, Tu és o senhor da força ilimitada! Tu és onipenetrante e, assim, és tudo!**", "purport": "Por amoroso êxtase por Kṛṣṇa, seu amigo, Arjuna oferece seus respeitos por todos os lados. Ele aceita que Ele é o senhor de todas as potências e de todas as proezas, muitíssimo superior a todos os grandes guerreiros reunidos no campo de batalha. Diz-se no *Viṣṇu Purāṇa*: yo 'yaṁ tavāgato deva-samīpaṁ devatā-gaṇaḥ sa tvam eva jagat-sraṣṭā yataḥ sarva-gato bhavān. \"Quem quer que se apresente diante de Ti, ainda que seja um semideus, é criado por Ti, ó Suprema Personalidade de Deus.\""}
{"ref": "bg/11/41-42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/41-42/", "verse_text": "sakheti matvā prasabhaṁ yad uktaṁ\n\nhe kṛṣṇa he yādava he sakheti\n\najānatā mahimānaṁ tavedaṁ\n\nmayā pramādāt praṇayena vāpi\n\nyac cāvahāsārtham asat-kṛto 'si\n\nvihāra-śayyāsana-bhojaneṣu\n\neko 'tha vāpy acyuta tat-samakṣaṁ\n\ntat kṣāmaye tvām aham aprameyam", "devanagari": "> सखेति मत्वा प्रसभं यदुक्तं\n> हे कृष्ण हे यादव हे सखेति ।\n> अजानता महिमानं तवेदं\n> मया प्रमादात्प्रणयेन वापि ॥४१॥\n> यच्चावहासार्थमसत्कृतोऽसि\n> विहारशय्यासनभोजनेषु ।\n> एकोऽथवाप्यच्युत तत्समक्षं\n> तत्क्षामये त्वामहमप्रमेयम् ॥४२॥", "synonyms": "*sakhā*—amigo; *iti*—assim; *matvā*—pensando; *prasabham*—temporário; *yat*—tudo o que; *uktam*—dito; *he krṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *he yādava*—ó Yādava; *he sakhā iti*—ó meu querido amigo; *ajānatā*—sem conhecer; *mahimānam*—glórias; *tava*—Tuas; *idam*—isto; *mayā*—por mim; *pramādāt*—por insensatez; *pranayena*—por amor; *vā api*—quer; *yat*—tudo o que; *ca*—também; *avahāsārtham*—por gracejo; *asatkṛtaḥ*—desonra; *asi*—tenha sido feita; *vihāra*—em descanso; *śayyā*—em gracejo; *āsana*—em um lugar de repouso; *bhojaneṣu*—ou comendo juntos; *ekaḥ*—sozinho; *athavā*—ou; *api*—outros; *acyuta*—ó infalível; *tat-samakṣam*—como Teu rival; *tat*—tudo isso; *kṣāmaye*—desculpa; *tvām*—a Ti; *aham*—eu; *aprameyam*—imensurável.", "translation": "**No passado, dirigi-me a Ti como \"ó Kṛṣṇa\", \"ó Yādava\", \"ó meu amigo\", sem conhecer Tuas glórias. Por favor, perdoa o que possa ter feito por insensatez ou por amor. Desonrei-Te muitas vezes, descansando ou recostado no mesmo leito, ou comendo juntos, às vezes a sós e às vezes diante de muitos amigos. Por favor, desculpa-me por todas as minhas ofensas.**", "purport": "Embora Kṛṣṇa Se manifeste diante de Arjuna em Sua forma universal, Arjuna se lembra de sua relação amistosa com Kṛṣṇa e, por isso, lhe pede perdão e implora que O desculpe pelos muitos gestos informais que decorrem da amizade. Ele admite que antes não sabia que Kṛṣṇa pudesse assumir tal forma universal, embora Kṛṣṇa lho tivesse explicado como amigo íntimo. Arjuna não sabia quantas vezes O havia desonrado ao dirigir-se a Ele como \"ó meu amigo, ó Kṛṣṇa, ó Yādava\", etc., sem reconhecer Sua opulência. Mas Kṛṣṇa é tão bondoso e misericordioso que, apesar de tal opulência, brincava com Arjuna como amigo. Tal é a transcendental reciprocidade amorosa entre o devoto e o Senhor. A relação entre a entidade viva e Kṛṣṇa fixa-se eternamente; não pode ser esquecida, como podemos ver pelo comportamento de Arjuna. Embora Arjuna tenha visto a opulência na forma universal, não pôde esquecer sua relação amistosa com Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/11/43", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/43/", "verse_text": "pitāsi lokasya carācarasya\n\ntvam asya pūjyaś ca gurur garīyān\n\nna tvat-samo 'sty abhyadhikaḥ kuto 'nyo\n\nloka-traye 'py apratima-prabhāva", "devanagari": "> पितासि लोकस्य चराचरस्य\n> त्वमस्य पूज्यश्च गुरुर्गरीयान् ।\n> न त्वत्समोऽस्त्यभ्यधिकः कुतोऽन्यो\n> लोकत्रयेऽप्यप्रतिमप्रभाव ॥४३॥", "synonyms": "*pitā*—pai; *asi*—és; *lokasya*—de todo o mundo; *cara*—móvel; *acarasya*—imóvel; *tvam*—Tu és; *asya*—deste; *pūjyaḥ*—digno de adoração; *ca*—também; *guruḥ*—mestre; *garīyān*—glorioso; *na*—nunca; *tvat-samaḥ*—igual a Ti; *asti*—há; *abhyadhikaḥ*—maior; *kutaḥ*—como é possível; *anyaḥ*—outro; *loka-traye*—nos três sistemas planetários; *api*—também; *apratima*—imensurável; *prabhāva*—poder.", "translation": "**Tu és o pai desta completa manifestação cósmica, o chefe digno de adoração, o mestre espiritual. Ninguém é igual a Ti, nem alguém pode tornar-se uno contigo. Dentro dos três mundos, Tu és imensurável.**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa é digno de adoração assim como um pai é digno da adoração de seu filho. Ele é o mestre espiritual porque originalmente transmitiu a Brahmā as instruções Védicas, e agora também está instruindo o *Bhagavad-gītā* a Arjuna; portanto, Ele é o mestre espiritual original, e qualquer mestre espiritual genuíno na atualidade deve descender da linha de sucessão discipular que parte de Kṛṣṇa. Sem ser representante de Kṛṣṇa, ninguém pode tornar-se professor ou mestre espiritual de assuntos transcendentais.\n\n\n\nO Senhor recebe reverências sob todos os aspectos. Sua grandeza é imensurável. Ninguém pode ser maior que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, pois ninguém é igual ou superior a Kṛṣṇa em qualquer manifestação, espiritual ou material. Todos estão abaixo Dele. Ninguém pode superá-lO.\n\n\n\nO Senhor Supremo, Kṛṣṇa, tem sentidos e um corpo como o homem comum, mas, para Ele, não há diferença entre Seus sentidos, Seu corpo, Sua mente e Ele mesmo. Pessoas tolas, que não O conhecem perfeitamente, dizem que Kṛṣṇa é diferente de Sua alma, mente, coração e tudo o mais. Kṛṣṇa é absoluto; portanto, Suas atividades e potências são supremas. Afirma-se também que Ele não tem sentidos como os nossos. Ele pode realizar todas as atividades sensoriais; portanto, Seus sentidos não são imperfeitos nem limitados. Ninguém pode ser maior que Ele, ninguém pode ser igual a Ele, e todos são inferiores a Ele.\n\n\n\nQuem conhece Seu corpo transcendental, Suas atividades e Sua perfeição, depois de abandonar o corpo, retorna a Ele e não volta mais a este mundo miserável. Por isso, deve-se saber que as atividades de Kṛṣṇa são diferentes das dos demais. A melhor política é seguir os princípios de Kṛṣṇa; isso tornará a pessoa perfeita. Afirma-se também que ninguém é mestre de Kṛṣṇa; todos são Seus servos. Somente Kṛṣṇa é Deus, e todos são servos. Todos cumprem Sua ordem. Ninguém pode negar Sua ordem. Todos agem segundo Sua direção, sob Sua superintendência. Como se afirma na Brahma-saṁhitā, Ele é a causa de todas as causas."}
{"ref": "bg/11/44", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/44/", "verse_text": "tasmāt praṇamya praṇidhāya kāyaṁ\n\nprasādaye tvām aham īśam īḍyam\n\npiteva putrasya sakheva sakhyuḥ\n\npriyaḥ priyāyārhasi deva soḍhum", "devanagari": "> तस्मात्प्रणम्य प्रणिधाय कायं\n> प्रसादये त्वामहमीशमीड्यम् ।\n> पितेव पुत्रस्य सखेव सख्युः\n> प्रियः प्रियायार्हसि देव सोढुम् ॥४४॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *praṇamya*—depois de oferecer reverências; *praṇidhāya*—prostrando; *kāyam*—o corpo; *prasādaye*—implorar misericórdia; *tvām*—a Ti; *aham*—eu; *īśam*—ao Senhor Supremo; *īḍyam*—que é digno de adoração; *pitā iva*—como um pai; *putrasya*—de um filho; *sakhā iva*—como um amigo; *sakhyuḥ*—de um amigo; *priyaḥ*—amante; *priyāyāḥ*—do mais querido; *arhasi*—deves; *deva*—meu Senhor; *soḍhum*—tolerar.", "translation": "**Tu és o Senhor Supremo, digno de adoração de cada ser vivo. Por isso, prostro-me para Te oferecer meus respeitos e pedir Tua misericórdia. Por favor, tolera os erros que possa ter cometido contra Ti e suporta-me como o pai suporta o filho, ou o amigo, o amigo, ou o amante, a amada.**", "purport": "Os devotos de Kṛṣṇa relacionam-se com Kṛṣṇa em diversas relações; pode-se tratá-lO como filho, como esposo, como amigo, como amo, etc. Kṛṣṇa e Arjuna estão relacionados pela amizade. Assim como o pai tolera, ou o esposo, ou o amo tolera, assim também Kṛṣṇa tolera."}
{"ref": "bg/11/45", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/45/", "verse_text": "adṛṣṭa-pūrvaṁ hṛṣito 'smi dṛṣṭvā\n\nbhayena ca pravyathitaṁ mano me\n\ntad eva me darśaya deva rūpaṁ\n\nprasīda deveśa jagan-nivāsa", "devanagari": "> अदृष्टपूर्वं हृषितोऽस्मि दृष्ट्वा\n> भयेन च प्रव्यथितं मनो मे ।\n> तदेव मे दर्शय देव रूपं\n> प्रसीद देवेश जगन्निवास ॥४५॥", "synonyms": "*adṛṣṭa-pūrvam*—nunca antes vista; *hṛṣitaḥ*—contente; *asmi*—estou; *dṛṣṭvā*—ao ver; *bhayena*—de medo; *ca*—também; *pravyathitam*—perturbada; *manaḥ*—mente; *me*—minha; *tat*—portanto; *eva*—certamente; *me*—a mim; *darśaya*—mostra; *deva*—ó Senhor; *rūpam*—a forma; *prasīda*—digna-Te; *deveśa*—ó Senhor dos senhores; *jagat-nivāsa*—o refúgio do universo.", "translation": "**Depois de ver esta forma universal, que jamais havia visto antes, sinto-me contente, mas, ao mesmo tempo, minha mente se perturba de medo. Por isso, peço-Te a graça de revelares novamente Tua forma como Personalidade de Deus, ó Senhor dos senhores, ó morada do universo.**", "purport": "Arjuna sempre desfruta da intimidade com Kṛṣṇa, pois é um amigo muito querido, e, assim como o querido amigo se contenta com a opulência de seu amigo, Arjuna está jubiloso por ver que seu amigo, Kṛṣṇa, é a Suprema Personalidade de Deus e pode mostrar tão maravilhosa forma universal. Mas, ao mesmo tempo, depois de ver essa forma universal, ele teme ter cometido tantas ofensas a Kṛṣṇa por causa de sua amizade pura. Assim, sua mente se perturba de medo, embora não houvesse motivo para temer. Por isso, Arjuna pede a Kṛṣṇa que lhe mostre Sua forma de Nārāyaṇa, pois Ele pode assumir qualquer forma. Esta forma universal é material e temporária, assim como o mundo material é temporário. Mas nos planetas Vaikuṇṭha Ele tem Sua forma transcendental de quatro braços como Nārāyaṇa. Há inúmeros planetas no céu espiritual, e em cada um deles Kṛṣṇa Se faz presente por meio de Suas manifestações plenárias de diferentes nomes. Assim, Arjuna desejava ver uma das formas manifestadas nos planetas Vaikuṇṭha. Naturalmente, em cada planeta Vaikuṇṭha a forma de Nārāyaṇa é de quatro braços, e as quatro mãos seguram diferentes símbolos: o búzio, a maça, o lótus e o disco. Conforme as diferentes mãos em que estes quatro objetos são segurados, os Nārāyaṇas recebem nomes. Todas estas formas são uma e a mesma com Kṛṣṇa; portanto, Arjuna pede para ver Seu aspecto de quatro braços."}
{"ref": "bg/11/46", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/46/", "verse_text": "kirīṭinaṁ gadinaṁ cakra-hastam\n\nicchāmi tvāṁ draṣṭum ahaṁ tathaiva\n\ntenaiva rūpeṇa catur-bhujena\n\nsahasra-bāho bhava viśva-mūrte", "devanagari": "> किरीटिनं गदिनं चक्रहस्तं\n> इच्छामि त्वां द्रष्टुमहं तथैव ।\n> तेनैव रूपेण चतुर्भुजेन\n> सहस्रबाहो भव विश्वमूर्ते ॥४६॥", "synonyms": "*kirīṭinam*—com elmo; *gadinam*—com clava; *cakra-hastam*—disco na mão; *icchāmi*—desejo; *tvām*—a Ti; *draṣṭum*—ver; *aham*—eu; *tathā eva*—nessa posição; *tena eva*—com aquela; *rūpeṇa*—forma; *catur-bhujena*—de quatro mãos; *sahasra-bāho*—ó Tu de mil braços; *bhava*—simplesmente Te tornes; *viśva-mūrte*—ó forma universal.", "translation": "**Ó Senhor universal, desejo ver-Te em Tua forma de quatro braços, com a cabeça encimada por elmo e com a clava, a roda, o búzio e a flor de lótus em Tuas mãos. Anseio ver-Te nessa forma.**", "purport": "Na Brahma-saṁhitā afirma-se que o Senhor Se situa eternamente em centenas e milhares de formas, e as principais são as como Rāma, Nṛsiṁha, Nārāyaṇa, etc. Há inúmeras formas. Mas Arjuna sabia que Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original que assume Sua forma universal temporária. Ele agora pede para ver a forma de Nārāyaṇa, uma forma espiritual. Este verso estabelece sem qualquer dúvida a afirmação do *Śrīmad-Bhāgavatam* de que Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original e todos os outros aspectos originam-se Dele. Ele não é diferente de Suas expansões plenárias, e é Deus em qualquer de Suas inúmeras formas. Em todas estas formas Ele permanece sempre fresco como um jovem. Tal é o aspecto constante da Suprema Personalidade de Deus. Quem conhece Kṛṣṇa imediatamente liberta-se de toda a contaminação do mundo material."}
{"ref": "bg/11/47", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/47/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nmayā prasannena tavārjunedaṁ\n\nrūpaṁ paraṁ darśitam ātma-yogāt\n\ntejo-mayaṁ viśvam anantam ādyaṁ\n\nyan me tvad anyena na dṛṣṭa-pūrvam", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> मया प्रसन्नेन तवार्जुनेदं\n> रूपं परं दर्शितमात्मयोगात् ।\n> तेजोमयं विश्वमनन्तमाद्यं\n> यन्मे त्वदन्येन न दृष्टपूर्वम् ॥४७॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *mayā*—por Mim; *prasannena*—com alegria; *tava*—a ti; *arjuna*—ó Arjuna; *idam*—esta; *rūpam*—forma; *param*—transcendental; *darśitam*—mostrada; *ātma-yogāt*—pela Minha potência interna; *tejomayam*—plena de refulgência; *viśvam*—o universo inteiro; *anantam*—ilimitado; *ādyam*—original; *yat me*—aquilo que é Meu; *tvat-anyena*—senão a ti; *na dṛṣṭa-pūrvam*—ninguém viu antes.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Meu querido Arjuna, com alegria mostro-te esta forma universal dentro do mundo material por Minha potência interna. Ninguém antes de ti jamais viu esta forma ilimitada e ofuscantemente refulgente.**", "purport": "Arjuna desejava ver a forma universal do Senhor Supremo, e por isso, em Sua misericórdia para com Seu devoto Arjuna, o Senhor Kṛṣṇa lhe mostrou Sua forma universal cheia de refulgência e opulência. Esta forma resplandecia como o sol, e suas muitas faces mudavam rapidamente. Kṛṣṇa mostrou esta forma apenas para satisfazer o desejo de Seu amigo Arjuna. Esta forma foi manifestada por Kṛṣṇa por meio de Sua potência interna, inconcebível à especulação humana. Ninguém havia visto esta forma universal do Senhor antes de Arjuna, mas, por ela ter sido mostrada a Arjuna, outros devotos nos planetas celestiais e em outros planetas no espaço sideral também puderam vê-la. Não a tinham visto antes, mas, devido a Arjuna, também puderam vê-la. Em outras palavras, todos os devotos discipulares do Senhor puderam ver a forma universal que foi mostrada a Arjuna pela misericórdia de Kṛṣṇa. Alguém comentou que esta forma também foi mostrada a Duryodhana quando Kṛṣṇa foi a Duryodhana negociar a paz. Lamentavelmente, Duryodhana não aceitou a oferta de paz, mas naquele momento Kṛṣṇa manifestou algumas de Suas formas universais. Mas aquelas formas são diferentes desta mostrada a Arjuna. Diz-se claramente que ninguém jamais viu esta forma antes."}
{"ref": "bg/11/48", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/48/", "verse_text": "na veda-yajñādhyayanair na dānair\n\nna ca kriyābhir na tapobhir ugraiḥ\n\nevaṁ-rūpaḥ śakya ahaṁ nṛ-loke\n\ndraṣṭuṁ tvad anyena kuru-pravīra", "devanagari": "> न वेदयज्ञाध्ययनैर्न दानैर्-\n> न च क्रियाभिर्न तपोभिरुग्रैः ।\n> एवंरूपः शक्य अहं नृलोके\n> द्रष्टुं त्वदन्येन कुरुप्रवीर ॥४८॥", "synonyms": "*na*—nunca; *veda*—estudo Védico; *yajña*—sacrifício; *adhyayanaiḥ*—estudando; *na dānaiḥ*—pela caridade; *na*—nunca; *ca*—também; *kriyābhiḥ*—por atividades piedosas; *na tapobhiḥ*—por sérias penitências; *ugraiḥ*—severas; *evam*—assim; *rūpaḥ*—forma; *śakyaḥ*—pode ser vista; *aham*—Eu; *nṛloke*—neste mundo material; *draṣṭum*—ver; *tvat*—tu; *anyena*—por outro; *kuru-pravīra*—ó melhor entre os guerreiros Kuru.", "translation": "**Ó melhor dos guerreiros Kuru, ninguém antes de ti jamais viu esta Minha forma universal, pois nem pelo estudo dos *Vedas*, nem pela realização de sacrifícios, nem pela caridade ou atividades semelhantes pode-se ver esta forma. Somente tu a viste.**", "purport": "A visão divina, neste contexto, deve ser claramente compreendida. Quem pode ter visão divina? Divino significa semelhante a Deus. A menos que a pessoa atinja o status de divindade como semideus, não pode ter visão divina. E o que é um semideus? Afirma-se nas escrituras Védicas que aqueles que são devotos do Senhor Viṣṇu são semideuses. Aqueles que são ateus, isto é, que não acreditam em Viṣṇu, ou que reconhecem apenas o aspecto impessoal de Kṛṣṇa como o Supremo, não podem ter a visão divina. Não é possível depreciar Kṛṣṇa e, ao mesmo tempo, ter a visão divina. Ninguém pode ter visão divina sem tornar-se divino. Em outras palavras, aqueles que têm visão divina podem também ver como Arjuna.\n\n\n\nO *Bhagavad-gītā* fornece a descrição da forma universal, e essa descrição era desconhecida de todos antes de Arjuna. Ora, depois deste episódio, alguma ideia do viśva-rūpa pode ser concebida; aqueles que são realmente divinos podem ver a forma universal do Senhor. Mas ninguém pode ser divino sem ser um devoto puro de Kṛṣṇa. Os devotos, no entanto, que estão realmente situados na natureza divina e que têm visão divina, não estão muito interessados em ver a forma universal do Senhor. Como descrito no verso anterior, Arjuna desejava ver a forma de quatro mãos do Senhor Kṛṣṇa como Viṣṇu, e na verdade temia a forma universal.\n\n\n\nNeste verso há algumas palavras significativas, como veda-yajñādhya-yanaiḥ, que se refere ao estudo da literatura Védica e ao tema das regulamentações sacrificiais. Veda refere-se a todos os tipos de literatura Védica, a saber, os quatro *Vedas* (Ṛk, Yajus, Sāma e Atharva) e os dezoito *Purāṇas* e *Upaniṣads*, e o *Vedānta-sūtra*. Pode-se estudá-los em casa ou em qualquer outro lugar. De modo semelhante, há sūtras, Kalpa-sūtras e Mīmāṁsā-sūtras, para o estudo do método de sacrifício. Dānaiḥ refere-se à caridade que se oferece a uma parte adequada, tais como aqueles que estão ocupados no transcendental serviço amoroso ao Senhor, os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas. De modo semelhante, atividades piedosas referem-se ao agni-hotra, etc., os deveres prescritos das diferentes castas. E a aceitação voluntária de algumas dores corporais chama-se tapasya. Assim, pode-se realizar tudo isto, aceitar penitências corporais, dar caridade, estudar os *Vedas*, etc., mas, a menos que a pessoa seja um devoto como Arjuna, não é possível ver essa forma universal. Aqueles que são impersonalistas também imaginam que estão vendo a forma universal do Senhor, mas, pelo *Bhagavad-gītā*, compreendemos que os impersonalistas não são devotos. Por isso, são incapazes de ver a forma universal do Senhor.\n\n\n\nHá muitas pessoas que criam encarnações. Alegam falsamente que um ser humano comum é uma encarnação, mas tudo isso é tolice. Devemos seguir os princípios do *Bhagavad-gītā*; do contrário, não há possibilidade de alcançar conhecimento espiritual perfeito. Embora o *Bhagavad-gītā* seja considerado o estudo preliminar da ciência de Deus, ainda assim é tão perfeito que se pode distinguir o que é o quê. Os seguidores de uma pseudoencarnação podem dizer que também viram a encarnação transcendental de Deus, a forma universal, mas isso não é aceitável, pois aqui se afirma claramente que, a menos que a pessoa se torne um devoto de Kṛṣṇa, não pode ver a forma universal de Deus. Assim, é preciso primeiro tornar-se devoto puro de Kṛṣṇa; então pode-se afirmar que se pode mostrar a forma universal daquilo que se viu. Um devoto de Kṛṣṇa não pode aceitar falsas encarnações nem seguidores de falsas encarnações."}
{"ref": "bg/11/49", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/49/", "verse_text": "mā te vyathā mā ca vimūḍha-bhāvo\n\ndṛṣṭvā rūpaṁ ghoram īdṛṅ mamedam\n\nvyapeta-bhīḥ prīta-manāḥ punas tvaṁ\n\ntad eva me rūpam idaṁ prapaśya", "devanagari": "> मा ते व्यथा मा च विमूढभावो\n> दृष्ट्वा रूपं घोरमीदृङ्ममेदम् ।\n> व्यपेतभीः प्रीतमनाः पुनस्त्वं\n> तदेव मे रूपमिदं प्रपश्य ॥४९॥", "synonyms": "*mā*—que não seja; *te*—a ti; *vyathā*—perturbação; *mā*—que não seja; *ca*—também; *vimūḍha-bhāvaḥ*—perplexidade; *dṛṣṭvā*—ao ver; *rūpam*—forma; *ghoram*—horrível; *īdṛk*—desta maneira; *mama*—Minha; *idam*—tal como é; *vyapetabhīḥ*—simplesmente livra-te de todo o medo; *prīta-manāḥ*—contenta a tua mente; *punaḥ*—de novo; *tvam*—tu; *tat*—essa; *eva*—assim; *me*—Minha; *rūpam*—forma; *idam*—esta; *prapaśya*—simplesmente vê.", "translation": "**Tua mente foi perturbada ao ver este Meu aspecto horrível. Que isto cesse agora. Meu devoto, livra-te de toda a perturbação. Com a mente serena, podes agora ver a forma que desejas.**", "purport": "No início do *Bhagavad-gītā*, Arjuna se preocupava em matar Bhīṣma e Droṇa, seus veneráveis avós e mestres. Mas Kṛṣṇa disse que ele não precisava temer matar seu avô. Quando tentaram desnudar Draupadī na assembleia, Bhīṣma e Droṇa permaneceram em silêncio, e por tal negligência do dever deveriam ser mortos. Kṛṣṇa mostrou Sua forma universal a Arjuna apenas para mostrar-lhe que essas pessoas já estavam mortas por sua ação ilegal. Aquela cena foi mostrada a Arjuna porque os devotos são sempre pacíficos e não podem realizar tais ações horríveis. O propósito da revelação da forma universal foi exposto; agora Arjuna queria ver a forma de quatro braços, e Kṛṣṇa lha mostrou. O devoto não está muito interessado na forma universal, pois ela não permite reciprocar sentimentos amorosos. O devoto deseja oferecer seus respeitosos sentimentos de adoração; assim, deseja ver a forma de duas mãos ou de quatro mãos de Kṛṣṇa, para poder reciprocar em serviço amoroso com a Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/11/50", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/50/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\nity arjunaṁ vāsudevas tathoktvā\n\nsvakaṁ rūpaṁ darśayām āsa bhūyaḥ\n\nāśvāsayām āsa ca bhītam enaṁ\n\nbhūtvā punaḥ saumya-vapur mahātmā", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> इत्यर्जुनं वासुदेवस्तथोक्त्वा\n> स्वकं रूपं दर्शयामास भूयः ।\n> आश्वासयामास च भीतमेनं\n> भूत्वा पुनः सौम्यवपुर्महात्मा ॥५०॥", "synonyms": "*sañjayaḥ uvāca*—Sañjaya disse; *iti*—assim; *arjunam*—a Arjuna; *vāsudevaḥ*—Kṛṣṇa; *tathā*—dessa forma; *uktvā*—dizendo; *svakam*—Sua própria; *rūpam*—forma; *darśayāmāsa*—mostrou; *bhūyaḥ*—de novo; *āśvāsayāmāsa*—também o tranquilizou; *ca*—também; *bhītam*—temeroso; *enam*—a ele; *bhūtvā punaḥ*—tornando-se de novo; *saumya-vapuḥ*—bela forma; *mahātmā*—o grandioso.", "translation": "**Sañjaya disse a Dhṛtarāṣṭra: A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, falando dessa forma a Arjuna, exibiu Sua verdadeira forma de quatro braços e, por fim, mostrou-lhe Sua forma de duas mãos, encorajando assim o temeroso Arjuna.**", "purport": "Quando Kṛṣṇa apareceu como filho de Vasudeva e Devakī, primeiramente apareceu como o Nārāyaṇa de quatro braços, mas, ao ser solicitado por Seus pais, transformou-Se, em aparência, em uma criança comum. De modo semelhante, Kṛṣṇa sabia que Arjuna não estava interessado em ver uma forma de quatro mãos de Kṛṣṇa, mas, como ele pediu para ver esta forma de quatro mãos, Ele lha mostrou de novo e, em seguida, Se mostrou em Sua forma de duas mãos. A palavra saumya-vapuḥ é assaz significativa. Saumya-vapu é uma forma muito bela; é conhecida como a forma mais bela. Quando estava presente, todos eram atraídos simplesmente pela forma de Kṛṣṇa, e, como Kṛṣṇa é o diretor do universo, Ele simplesmente baniu o medo de Arjuna, Seu devoto, e mostrou-lhe novamente Sua bela forma de Kṛṣṇa. Na Brahma-saṁhitā afirma-se que somente uma pessoa cujos olhos estão ungidos com o bálsamo do amor pode ver a bela forma de Śrī Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/11/51", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/51/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\ndṛṣṭvedaṁ mānuṣaṁ rūpaṁ\n\ntava saumyaṁ janārdana\n\nidānīm asmi saṁvṛttaḥ\n\nsa-cetāḥ prakṛtiṁ gataḥ", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> दृष्ट्वेदं मानुषं रूपं तव सौम्यं जनार्दन ।\n> इदानीमस्मि संवृत्तः सचेताः प्रकृतिं गतः ॥५१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *dṛṣṭvā*—vendo; *idam*—esta; *mānuṣam*—ser humano; *rūpam*—forma; *tava*—Tua; *saumyam*—muito bela; *janārdana*—ó castigador dos inimigos; *idānīm*—neste momento; *asmi*—estou; *saṁvṛttaḥ*—restabelecido; *sa-cetāḥ*—em minha consciência; *prakṛtim*—à minha própria; *gataḥ*—tornei.", "translation": "**Quando Arjuna assim viu Kṛṣṇa em Sua forma original, disse: Vendo esta forma de aparência humana, tão belíssima, minha mente está agora apaziguada, e estou restabelecido em minha natureza original.**", "purport": "Aqui as palavras mānuṣaṁ rūpam indicam claramente que a Suprema Personalidade de Deus é originalmente de duas mãos. Aqueles que zombam de Kṛṣṇa, considerando-O uma pessoa comum, mostram-se aqui ignorantes de Sua natureza divina. Se Kṛṣṇa é como um ser humano comum, como Lhe seria possível mostrar a forma universal e em seguida mostrar a forma de Nārāyaṇa de quatro braços? Assim, afirma-se com toda clareza no *Bhagavad-gītā* que aquele que pensa que Kṛṣṇa é uma pessoa comum e desorienta o leitor afirmando que é o Brahman impessoal dentro de Kṛṣṇa que está falando, comete a maior das injustiças. Kṛṣṇa de fato mostrou Sua forma universal e Sua forma de Viṣṇu de quatro mãos. Como, então, poderia ser um ser humano comum? Um devoto puro não se confunde com comentários enganadores sobre o *Bhagavad-gītā*, pois sabe o que é o quê. Os versos originais do *Bhagavad-gītā* são tão claros como o sol; não requerem a luz da lâmpada de comentadores tolos."}
{"ref": "bg/11/52", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/52/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nsu-durdarśam idaṁ rūpaṁ\n\ndṛṣṭavān asi yan mama\n\ndevā apy asya rūpasya\n\nnityaṁ darśana-kāṅkṣiṇaḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> सुदुर्दर्शमिदं रूपं दृष्टवानसि यन्मम ।\n> देवा अप्यस्य रूपस्य नित्यं दर्शनकाङ्क्षिणः ॥५२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *sudur-darśana*—muito difícil de ser vista; *idam*—esta; *rūpam*—forma; *dṛṣṭavān asi*—tal como viste; *yat*—que; *mama*—de Mim; *devāḥ*—os semideuses; *api asya*—também desta; *rūpasya*—forma; *nityam*—eternamente; *darśana-kāṅkṣiṇaḥ*—sempre aspiram a ver.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Meu querido Arjuna, a forma que agora estás vendo é muito difícil de contemplar. Mesmo os semideuses estão sempre buscando a oportunidade de ver esta forma que é tão querida.**", "purport": "No quadragésimo oitavo verso deste capítulo, o Senhor Kṛṣṇa concluiu a revelação de Sua forma universal e informou a Arjuna que esta forma não pode ser vista por meio de tantas atividades, sacrifícios, etc. Ora, aqui se usa a palavra sudurdarśam, indicando que a forma de duas mãos de Kṛṣṇa é ainda mais confidencial. É possível ver a forma universal de Kṛṣṇa acrescentando uma pequena dose de serviço devocional a várias atividades como penitência, estudo Védico e especulação filosófica, etc. Pode ser possível, mas, sem uma dose de bhakti, não se pode ver; isso já foi explicado. Ainda assim, além dessa forma universal, a forma de Kṛṣṇa como homem de duas mãos é ainda mais difícil de ver, mesmo para semideuses como Brahmā e o Senhor Śiva. Eles desejam vê-lO, e há evidências no *Śrīmad-Bhāgavatam* de que, quando se supunha que Ele estivesse no ventre de Sua mãe, Devakī, todos os semideuses do céu vieram ver a maravilha de Kṛṣṇa. Eles até esperaram para vê-lO. Uma pessoa tola pode dele zombar, mas isso é uma pessoa comum. Kṛṣṇa, na verdade, é desejado por semideuses como Brahmā e Śiva em Sua forma de dois braços.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā* também se confirma que Ele não é visível para as pessoas tolas que dele zombam. O corpo de Kṛṣṇa, conforme confirmado pela Brahma-saṁhitā e por Ele próprio no *Bhagavad-gītā*, é completamente espiritual e pleno de bem-aventurança e eternidade. Seu corpo nunca é como um corpo material. Mas, para alguns que estudam Kṛṣṇa lendo o *Bhagavad-gītā* ou escrituras Védicas semelhantes, Kṛṣṇa é um problema. Para alguém que utiliza um processo material, Kṛṣṇa é considerado uma grande personalidade histórica e um filósofo muito erudito. Mas Ele não é um homem comum. Mas alguns pensam que, embora fosse tão poderoso, teve de aceitar um corpo material. Em última análise, pensam que a Verdade Absoluta é impessoal; portanto, pensam que, a partir de Seu aspecto impessoal, Ele assumiu um aspecto pessoal apegado à natureza material. Tal é o cálculo materialista do Senhor Supremo. Outro cálculo é especulativo. Aqueles que estão à procura do conhecimento também especulam sobre Kṛṣṇa e O consideram menos importante que a forma universal do Supremo. Assim, alguns pensam que a forma universal de Kṛṣṇa que se manifestou a Arjuna é mais importante que Sua forma pessoal. Segundo eles, a forma pessoal do Supremo é algo imaginário. Crêem que, em última instância, a Verdade Absoluta não é uma pessoa. Mas o processo transcendental é descrito no *Bhagavad-gītā*, Capítulo Dois: ouvir sobre Kṛṣṇa de autoridades. Esse é o processo Védico real, e aqueles que estão de fato na linha Védica ouvem sobre Kṛṣṇa de uma autoridade e, ao ouvirem repetidamente sobre Ele, Kṛṣṇa Se torna querido. Como já discutimos várias vezes, Kṛṣṇa está coberto por Sua potência yoga-māyā. Ele não pode ser visto nem revelado a qualquer um. Somente quem recebe Sua revelação pode vê-lO. Isso se confirma na literatura Védica; para a alma rendida, a Verdade Absoluta pode realmente ser compreendida. O transcendentalista, pela contínua consciência de Kṛṣṇa e pelo serviço devocional a Kṛṣṇa, pode ter seus olhos espirituais abertos e pode ver Kṛṣṇa por revelação. Tal revelação não é possível sequer para os semideuses; portanto, é difícil mesmo para os semideuses compreender Kṛṣṇa, e os semideuses avançados sempre têm a esperança de ver Kṛṣṇa em Sua forma de duas mãos. A conclusão é que, embora ver a forma universal de Kṛṣṇa seja muito, muito difícil e não seja possível para qualquer um, é ainda mais difícil compreender Sua forma pessoal como Śyāmasundara."}
{"ref": "bg/11/53", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/53/", "verse_text": "nāhaṁ vedair na tapasā\n\nna dānena na cejyayā\n\nśakya evaṁ-vidho draṣṭuṁ\n\ndṛṣṭavān asi māṁ yathā", "devanagari": "> नाहं वेदैर्न तपसा न दानेन न चेज्यया ।\n> शक्य एवंविधो द्रष्टुं दृष्टवानसि मां यथा ॥५३॥", "synonyms": "*na*—nunca; *aham*—Eu; *vedaiḥ*—pelo estudo dos Vedas; *na*—nunca; *tapasā*—por sérias penitências; *na*—nunca; *dānena*—pela caridade; *na*—nunca; *ca*—também; *ijyayā*—pela adoração; *śakyaḥ*—é possível; *evam-vidhaḥ*—dessa maneira; *draṣṭum*—ver; *dṛṣṭavān*—vendo; *asi*—estás; *mām*—a Mim; *yathā*—como.", "translation": "**A forma que estás vendo com teus olhos transcendentais não pode ser compreendida simplesmente pelo estudo dos *Vedas*, nem submetendo-se a sérias penitências, nem pela caridade, nem pela adoração. Não é por estes meios que se pode ver-Me como sou.**", "purport": "Kṛṣṇa primeiro apareceu diante de Seus pais, Devakī e Vasudeva, em uma forma de quatro mãos, e em seguida transformou-Se na forma de duas mãos. Este mistério é muito difícil de compreender para os ateus ou para aqueles desprovidos de serviço devocional. Para os eruditos que simplesmente estudaram a literatura Védica por meio da especulação ou por mero interesse acadêmico, Kṛṣṇa não é fácil de compreender. Tampouco pode ser compreendido pelas pessoas que vão oficialmente ao templo para oferecer adoração. Fazem sua visita, mas não conseguem compreender Kṛṣṇa como Ele é. Kṛṣṇa só pode ser compreendido pela senda do serviço devocional, como o próprio Kṛṣṇa explica no verso seguinte."}
{"ref": "bg/11/54", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/54/", "verse_text": "bhaktyā tv ananyayā śakya\n\naham evaṁ-vidho 'rjuna\n\njñātuṁ draṣṭuṁ ca tattvena\n\npraveṣṭuṁ ca parantapa", "devanagari": "> भक्त्या त्वनन्यया शक्य अहमेवंविधोऽर्जुन ।\n> ज्ञातुं द्रष्टुं च तत्त्वेन प्रवेष्टुं च परन्तप ॥५४॥", "synonyms": "*bhaktyā*—pelo serviço devocional; *tu*—mas; *ananyayā*—sem estar misturado a atividades fruitivas ou conhecimento especulativo; *śakyaḥ*—possível; *aham*—Eu; *evam-vidhaḥ*—dessa maneira; *arjuna*—ó Arjuna; *jñātum*—conhecer; *draṣṭum*—ver; *tattvena*—de fato; *praveṣṭum*—e adentrar; *ca*—também; *parantapa*—ó Tu de braços poderosos.", "translation": "**Meu querido Arjuna, somente pelo serviço devocional indiviso é que posso ser compreendido como sou, postado diante de ti, e assim ser visto diretamente. Somente dessa maneira poderás adentrar os mistérios de Minha compreensão.**", "purport": "Kṛṣṇa só pode ser compreendido pelo processo do serviço devocional indiviso. Ele explica isso de modo explícito neste verso, para que os comentadores não autorizados, que tentam compreender o *Bhagavad-gītā* pelo processo especulativo, saibam que estão simplesmente perdendo seu tempo. Ninguém pode compreender Kṛṣṇa, ou como Ele veio dos pais em uma forma de quatro mãos e imediatamente Se transformou em uma forma de duas mãos. Aqui se afirma claramente que ninguém pode vê-lO. Aqueles que, no entanto, são estudantes muito experientes da literatura Védica, podem aprender sobre Ele a partir da literatura Védica de várias maneiras. Há tantas regras e regulamentações, e, se a pessoa quiser de fato compreender Kṛṣṇa, deve seguir os princípios regulativos descritos na literatura autorizada. Pode-se realizar penitência conforme esses princípios. Quanto à caridade, é evidente que a caridade deve ser dada aos devotos de Kṛṣṇa que estão ocupados em Seu serviço devocional para difundir a filosofia de Kṛṣṇa, ou consciência de Kṛṣṇa, pelo mundo afora. A consciência de Kṛṣṇa é uma bênção para a humanidade. O Senhor Caitanya foi descrito por Rūpa Gosvāmī como o homem mais magnânimo na caridade, pois o amor a Kṛṣṇa, que é tão difícil de obter, foi por Ele distribuído gratuitamente. E, se alguém adora conforme prescrito no templo (nos templos da Índia há sempre alguma estátua, geralmente de Viṣṇu ou Kṛṣṇa), isso é uma oportunidade de progresso. Para os iniciantes no serviço devocional ao Senhor, a adoração no templo é assaz essencial, e isso se confirma na literatura Védica.\n\n\n\nAquele que tem devoção inabalável pelo Senhor Supremo e é orientado pelo mestre espiritual pode ver a Suprema Personalidade de Deus por revelação. Para quem não recebe instrução pessoal sob a orientação de um mestre espiritual genuíno, é impossível sequer começar a compreender Kṛṣṇa. A palavra tu é especificamente usada aqui para indicar que nenhum outro processo pode ser empregado, recomendado, ou ter êxito na compreensão de Kṛṣṇa.\n\n\n\nAs formas pessoais de Kṛṣṇa, a forma de duas mãos e a de quatro mãos, são completamente diferentes da temporária forma universal mostrada a Arjuna. A forma de quatro mãos é Nārāyaṇa, e a forma de duas mãos é Kṛṣṇa; são eternas e transcendentais, ao passo que a forma universal exibida a Arjuna é temporária. A própria palavra sudurdarśam, que significa difícil de ver, sugere que ninguém viu aquela forma universal. Sugere também que, entre os devotos, não havia necessidade de mostrá-la. Aquela forma foi exibida por Kṛṣṇa a pedido de Arjuna, para que, no futuro, quando alguém se apresentasse como encarnação de Deus, as pessoas pudessem pedir para ver sua forma universal.\n\n\n\nKṛṣṇa muda da forma universal para a forma de quatro mãos de Nārāyaṇa e em seguida para Sua própria forma natural de duas mãos. Isso indica que as formas de quatro mãos e outras formas mencionadas na literatura Védica são todas emanações do Kṛṣṇa original de duas mãos. Ele é a origem de todas as emanações. Kṛṣṇa é distinto até mesmo dessas formas, sem falar da concepção impessoal. Quanto às formas de quatro mãos de Kṛṣṇa, afirma-se claramente que mesmo a forma de quatro mãos mais idêntica a Kṛṣṇa (que é conhecida como Mahā-Viṣṇu, que jaz no oceano cósmico e de cuja respiração tantos inúmeros universos saem e entram) é também uma expansão do Senhor Supremo. Por conseguinte, deve-se conclusivamente adorar a forma pessoal de Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, que é eternidade, bem-aventurança e conhecimento. Ele é a fonte de todas as formas de Viṣṇu, é a fonte de todas as formas de encarnação, e é a Personalidade Suprema original, como se confirma no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nNa literatura Védica afirma-se que a Suprema Verdade Absoluta é uma pessoa. Seu nome é Kṛṣṇa, e Ele às vezes desce a esta terra. De modo semelhante, no *Śrīmad-Bhāgavatam* há a descrição de todas as espécies de encarnações da Suprema Personalidade de Deus, e ali se diz que Kṛṣṇa não é uma encarnação de Deus, mas a própria Suprema Personalidade de Deus original. Kṛṣṇas tu bhagavān svayam. De modo semelhante, no *Bhagavad-gītā* o Senhor diz: mattaḥ parataram nānyāt: \"Não há nada superior à Minha forma como a Personalidade de Deus Kṛṣṇa.\" Ele também diz, em outra passagem do *Bhagavad-gītā*: aham ādir hi devānām: \"Eu sou a origem de todos os semideuses.\" E, depois de compreender o *Bhagavad-gītā* a partir de Kṛṣṇa, Arjuna confirma isso com as seguintes palavras: paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān: \"Agora compreendo plenamente que Tu és a Suprema Personalidade de Deus, a Verdade Absoluta, e que Tu és o refúgio de tudo.\" Por isso, a forma universal que Kṛṣṇa mostrou a Arjuna não é a forma original de Deus. A original é a forma de Kṛṣṇa. A forma universal, com seus milhares e milhares de cabeças e mãos, manifesta-se apenas para chamar a atenção daqueles que não têm amor por Deus. Não é a forma original de Deus.\n\n\n\nA forma universal não é atrativa para os devotos puros, que estão apaixonados pelo Senhor em diferentes relações transcendentais. A Suprema Divindade troca amor transcendental em Sua forma original de Kṛṣṇa. Por isso, para Arjuna, que estava tão intimamente relacionado com Kṛṣṇa pela amizade, esta forma da manifestação universal não era agradável; pelo contrário, era assustadora. Arjuna, que é companheiro constante de Kṛṣṇa, certamente possuía olhos transcendentais; não era um homem comum. Por isso, não foi cativado pela forma universal. Esta forma pode parecer maravilhosa para as pessoas envolvidas em elevar-se por meio de atividades fruitivas, mas, para as pessoas ocupadas em serviço devocional, a forma de duas mãos de Kṛṣṇa é a mais querida."}
{"ref": "bg/11/55", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/11/55/", "verse_text": "mat-karma-kṛn mat-paramo\n\nmad-bhaktaḥ saṅga-varjitaḥ\n\nnirvairaḥ sarva-bhūteṣu\n\nyaḥ sa mām eti pāṇḍava", "devanagari": "> मत्कर्मकृन्मत्परमो मद्भक्तः सङ्गवर्जितः ।\n> निर्वैरः सर्वभूतेषु यः स मामेति पाण्डव ॥५५॥", "synonyms": "*mat-karma-kṛt*—ocupado em realizar Meu trabalho; *mat-paramaḥ*—considerando-Me a Mim, o Supremo; *mat-bhaktaḥ*—ocupado em Meu serviço devocional; *saṅga-varjitaḥ*—livre da contaminação das atividades anteriores e da especulação mental; *nirvairaḥ*—sem inimigo; *sarva-bhūteṣu*—para com toda entidade viva; *yaḥ*—aquele que; *saḥ*—ele; *mām*—a Mim; *eti*—vem; *pāṇḍava*—ó filho de Pāṇḍu.", "translation": "**Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações das atividades anteriores e da especulação mental, que é amistoso para com toda entidade viva, certamente vem a Mim.**", "purport": "Quem quer que deseje aproximar-se do Supremo de todas as Personalidades de Deus, no planeta Kṛṣṇaloka, no céu espiritual, e estar intimamente conectado com a Personalidade Suprema, Kṛṣṇa, deve adotar esta fórmula, conforme afirmada pelo próprio Supremo. Por isso, este verso é considerado a essência do *Bhagavad-gītā*. O *Bhagavad-gītā* é um livro dirigido às almas condicionadas, ocupadas no mundo material com o propósito de assenhorear-se da natureza e que desconhecem a vida espiritual real. O *Bhagavad-gītā* destina-se a mostrar como se pode compreender a própria existência espiritual e a relação eterna com a Suprema Personalidade Espiritual, e a ensinar como voltar ao lar, voltar ao Supremo. Eis aqui o verso que explica claramente o processo pelo qual se pode alcançar êxito na atividade espiritual: o serviço devocional. No que diz respeito ao trabalho, deve-se transferir a energia inteiramente para atividades em consciência de Kṛṣṇa. Nenhum trabalho deve ser realizado por homem algum, exceto em relação a Kṛṣṇa. Isso se chama Kṛṣṇa-karma. Pode-se ocupar-se em várias atividades, mas não se deve estar apegado ao resultado de seu trabalho; o resultado deve ser feito para Ele. Por exemplo, pode-se estar ocupado em negócios, mas, para transformar essa atividade em consciência de Kṛṣṇa, é preciso fazer negócios para Kṛṣṇa. Se Kṛṣṇa é o proprietário do negócio, então Kṛṣṇa deve desfrutar do lucro do negócio. Se um homem de negócios possui milhares e milhares de dólares, e se tiver de oferecer tudo isso a Kṛṣṇa, pode fazê-lo. Isto é trabalho para Kṛṣṇa. Em vez de construir um grande edifício para sua gratificação dos sentidos, pode construir um belo templo para Kṛṣṇa, e pode instalar a Deidade de Kṛṣṇa e providenciar o serviço da Deidade, conforme delineado nos livros autorizados de serviço devocional. Tudo isto é Kṛṣṇa-karma. Não se deve estar apegado ao resultado do trabalho; antes, o resultado deve ser oferecido a Kṛṣṇa. Deve-se também aceitar como prasādam, alimento, os restos das oferendas a Kṛṣṇa. Se, contudo, a pessoa não puder construir um templo para Kṛṣṇa, pode ocupar-se em limpar o templo de Kṛṣṇa; isso também é Kṛṣṇa-karma. Pode-se cultivar um jardim. Quem quer que tenha terra — na Índia, ao menos, qualquer homem pobre tem certa quantidade de terra — pode utilizá-la para Kṛṣṇa cultivando flores para Lhe oferecer. Pode semear plantas tulasī, pois as folhas de tulasī são muito importantes, e Kṛṣṇa o recomendou no *Bhagavad-gītā*. Kṛṣṇa deseja que se Lhe ofereça uma folha, ou uma flor, ou um pouco de água, e Ele Se satisfaz. Esta folha refere-se especialmente à tulasī. Assim, pode-se semear folhas de tulasī e regar a planta. Desse modo, mesmo o homem mais pobre pode ocupar-se no serviço de Kṛṣṇa. Estes são alguns dos exemplos de como se pode ocupar-se em trabalhar para Kṛṣṇa.\n\n\n\nA palavra mat-paramaḥ refere-se àquele que considera a associação com Kṛṣṇa em Sua morada suprema como a mais alta perfeição da vida. Tal pessoa não deseja ser elevada aos planetas superiores, como a lua, o sol ou os planetas celestiais, ou mesmo o planeta mais elevado deste universo, Brahmaloka. Não tem atração por isso. Atrai-se somente por ser transferida ao céu espiritual. E, mesmo no céu espiritual, não se contenta em fundir-se na resplandecente refulgência brahmajyoti, pois deseja entrar no mais elevado planeta espiritual, a saber, Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana. Tem pleno conhecimento desse planeta e, por isso, não está interessada em nenhum outro. Como indicado pela palavra mad-bhaktaḥ, ocupa-se plenamente em serviço devocional, especificamente nos nove processos de ocupação devocional: ouvir, cantar, lembrar-se, adorar, servir aos pés de lótus do Senhor, oferecer orações, executar as ordens do Senhor, fazer amizade com Ele e render-Lhe tudo. Pode-se ocupar nos nove processos devocionais, ou em oito, ou em sete, ou ao menos em um, e isso certamente tornará a pessoa perfeita.\n\n\n\nO termo saṅga-varjitaḥ é assaz significativo. Deve-se desassociar-se de pessoas que estão contra Kṛṣṇa. Não somente as pessoas ateístas estão contra Kṛṣṇa, mas também aqueles que se atraem por atividades fruitivas e especulação mental. Por isso, a forma pura de serviço devocional descreve-se no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* da seguinte maneira: anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanaṁ bhaktir uttamā. Neste verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī afirma claramente que, se alguém deseja executar serviço devocional puro, deve estar livre de toda espécie de contaminação material. Deve estar livre da associação com pessoas que se entregam a atividades fruitivas e especulação mental. Quando, livre dessa associação indesejada e da contaminação dos desejos materiais, a pessoa cultiva favoravelmente conhecimento sobre Kṛṣṇa, isso se chama serviço devocional puro. Ānukūlyasya saṅkaplaḥ prātikūlyasya varjanam. Deve-se pensar em Kṛṣṇa e agir favoravelmente para Kṛṣṇa, não desfavoravelmente. Kaṁsa era inimigo de Kṛṣṇa. Desde o nascimento de Kṛṣṇa, ele planejou de tantas maneiras matá-lO e, como sempre fracassava, sempre pensava em Kṛṣṇa. Assim, ao trabalhar, ao comer e ao dormir, sempre estava consciente de Kṛṣṇa em todos os aspectos, mas essa consciência de Kṛṣṇa não era favorável e, por isso, apesar de sempre pensar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, foi considerado um demônio, e Kṛṣṇa, por fim, o matou. Naturalmente, quem quer que seja morto por Kṛṣṇa alcança imediatamente a salvação, mas esse não é o objetivo do devoto puro. O devoto puro nem mesmo deseja a salvação. Não deseja ser transferido sequer ao planeta mais elevado, Goloka Vṛndāvana. Seu único objetivo é servir a Kṛṣṇa onde quer que esteja.\n\n\n\nUm devoto de Kṛṣṇa é amistoso para com todos. Por isso se diz aqui que ele não tem inimigo. Como assim? Um devoto situado em consciência de Kṛṣṇa sabe que somente o serviço devocional a Kṛṣṇa pode aliviar uma pessoa de todos os problemas da vida. Tem experiência pessoal disso e, por isso, deseja introduzir esse sistema, a consciência de Kṛṣṇa, na sociedade humana. Há muitos exemplos na história de devotos do Senhor que arriscaram a vida pela difusão da consciência de Deus. O exemplo predileto é o do Senhor Jesus Cristo. Foi crucificado pelos não-devotos, mas sacrificou Sua vida pela difusão da consciência de Deus. Naturalmente, seria superficial entender que Ele foi morto. De modo semelhante, na Índia também há muitos exemplos, como Ṭhākur Haridāsa. Por que correr tal risco? Porque queriam difundir a consciência de Kṛṣṇa, e isso é difícil. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa sabe que, se alguém está sofrendo, isso se deve a seu esquecimento da relação eterna com Kṛṣṇa. Por isso, o maior benefício que se pode prestar à sociedade humana é aliviar o próximo de todos os problemas materiais. Dessa maneira, um devoto puro ocupa-se no serviço do Senhor. Ora, podemos imaginar quão misericordioso é Kṛṣṇa para com aqueles que se ocupam em Seu serviço, arriscando tudo por Ele. Por isso, é certo que tais pessoas devem alcançar o planeta supremo após deixarem o corpo.\n\n\n\nEm síntese, a forma universal de Kṛṣṇa, que é uma manifestação temporária, e a forma do tempo que tudo devora, e mesmo a forma de Viṣṇu, de quatro mãos, foram todas exibidas por Kṛṣṇa. Assim, Kṛṣṇa é a origem de todas estas manifestações. Não é que Kṛṣṇa seja uma manifestação do viśva-rūpa original, ou de Viṣṇu. Kṛṣṇa é a origem de todas as formas. Há centenas e milhares de Viṣṇus, mas, para um devoto, nenhuma forma de Kṛṣṇa é importante senão a forma original, o Śyāmasundara de duas mãos. Na Brahma-saṁhitā afirma-se que aqueles que estão apegados à forma de Śyāmasundara de Kṛṣṇa em amor e devoção podem vê-lO sempre dentro do coração e não conseguem ver mais nada. Deve-se compreender, portanto, que o propósito deste Décimo Primeiro Capítulo é que a forma de Kṛṣṇa é essencial e suprema.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Primeiro Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* no que se refere à Forma Universal."}
{"ref": "bg/12/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nevaṁ satata-yuktā ye\n\nbhaktās tvāṁ paryupāsate\n\nye cāpy akṣaram avyaktaṁ\n\nteṣāṁ ke yoga-vittamāḥ", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> एवं सततयुक्ता ये भक्तास्त्वां पर्युपासते ।\n> ये चाप्यक्षरमव्यक्तं तेषां के योगवित्तमाः ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *evam*—assim; *satata*—sempre; *yuktāḥ*—ocupados; *ye*—aqueles; *bhaktāḥ*—devotos; *tvām*—a Ti; *paryupāsate*—adoram apropriadamente; *ye*—aqueles; *ca*—também; *api*—novamente; *akṣaram*—além dos sentidos; *avyaktam*—imanifesto; *teśām*—deles; *ke*—quem; *yoga-vittamāḥ*—os mais perfeitos.", "translation": "**Arjuna perguntou: Quais são considerados mais perfeitos: aqueles que estão devidamente ocupados em Teu serviço devocional, ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto?**", "purport": "Kṛṣṇa explicou agora a respeito do pessoal, do impessoal e do universal, e descreveu todas as classes de devotos e *yogīs*. Em geral, os transcendentalistas podem ser divididos em duas classes. Uma é a dos impersonalistas, e a outra é a dos personalistas. O devoto personalista ocupa-se com toda a sua energia no serviço ao Senhor Supremo. O impersonalista ocupa-se não diretamente no serviço a Kṛṣṇa, mas na meditação no Brahman impessoal, o imanifesto.\n\n\n\nVerifica-se neste capítulo que, dos diferentes processos para a percepção da Verdade Absoluta, o *bhakti-yoga*, o serviço devocional, é o mais elevado. Caso a pessoa, de alguma forma, deseje ter a associação da Suprema Personalidade de Deus, deve então adotar o serviço devocional.\n\n\n\nAqueles que adoram diretamente o Senhor Supremo por meio do serviço devocional chamam-se personalistas. Aqueles que se ocupam na meditação no Brahman impessoal chamam-se impersonalistas. Arjuna está aqui perguntando qual posição é melhor. Há diferentes maneiras de perceber a Verdade Absoluta, mas Kṛṣṇa indica neste capítulo que o *bhakti-yoga*, ou serviço devocional a Ele, é o mais elevado de todos. É o mais direto, e é o meio mais fácil para a associação com a Divindade.\n\n\n\nNo Segundo Capítulo, o Senhor explica que a entidade viva não é o corpo material, mas é uma centelha espiritual, uma parte da Verdade Absoluta. No Sétimo Capítulo, Ele fala da entidade viva como parte integrante do todo supremo e recomenda que ela transfira sua atenção plenamente para o todo. No Oitavo Capítulo, afirma-se que quem quer que pense em Kṛṣṇa no momento da morte é imediatamente transferido para o céu espiritual, a morada de Kṛṣṇa. E, ao final do Sexto Capítulo, o Senhor diz que, dentre todos os *yogīs*, aquele que pensa em Kṛṣṇa dentro de si é considerado o mais perfeito. Assim, em todo o *Gītā*, a devoção pessoal a Kṛṣṇa é recomendada como a forma mais elevada de percepção espiritual. Não obstante, há aqueles que ainda se sentem atraídos pela refulgência impessoal *brahmajyoti* de Kṛṣṇa, que é o aspecto onipenetrante da Verdade Absoluta e que é imanifesta e está além do alcance dos sentidos. Arjuna gostaria de saber qual desses dois tipos de transcendentalistas é mais perfeito em conhecimento. Em outras palavras, ele está esclarecendo sua própria posição, porque está apegado à forma pessoal de Kṛṣṇa. Ele não está apegado ao Brahman impessoal. Quer saber se sua posição é segura. A manifestação impessoal, seja neste mundo material, seja no mundo espiritual do Senhor Supremo, constitui um problema para a meditação. Na verdade, não se pode conceber perfeitamente o aspecto impessoal da Verdade Absoluta. Por isso, Arjuna quer dizer: \"De que serve tal desperdício de tempo?\" Arjuna experimentou no Décimo Primeiro Capítulo que estar apegado à forma pessoal de Kṛṣṇa é o melhor, porque ele pôde assim compreender todas as outras formas ao mesmo tempo, sem que houvesse perturbação em seu amor por Kṛṣṇa. Esta importante pergunta feita a Kṛṣṇa por Arjuna esclarecerá a distinção entre as concepções impessoal e pessoal da Verdade Absoluta."}
{"ref": "bg/12/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/2/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nmayy āveśya mano ye māṁ\n\nnitya-yuktā upāsate\n\nśraddhayā parayopetās\n\nte me yuktatamā matāḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> मय्यावेश्य मनो ये मां नित्ययुक्ता उपासते ।\n> श्रद्धया परयोपेताः ते मे युक्ततमा मताः ॥२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *mayi*—em Mim; *āveśya*—fixando; *manaḥ*—mente; *ye*—aquele que; *mām*—em Mim; *nitya*—sempre; *yuktāḥ*—ocupado; *upāsate*—adora; *śraddhayā*—com fé; *parayā*—transcendental; *upetāḥ*—ocupa-se; *te*—eles; *me*—Meus; *yuktatamāḥ*—mais perfeitos; *matāḥ*—considero.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Aquele cuja mente está fixa em Minha forma pessoal, sempre ocupado em adorar-Me com grande fé transcendental, é por Mim considerado o mais perfeito.**", "purport": "Em resposta à pergunta de Arjuna, Kṛṣṇa diz claramente que aquele que se concentra em Sua forma pessoal e que O adora com fé e devoção deve ser considerado o mais perfeito em *yoga*. Para alguém em tal consciência de Kṛṣṇa, não há atividades materiais, pois tudo é feito por Kṛṣṇa. Um devoto puro está constantemente ocupado — às vezes ele canta, às vezes ouve ou lê livros sobre Kṛṣṇa, ou às vezes cozinha *prasādam* ou vai ao mercado para comprar algo para Kṛṣṇa, ou às vezes lava o templo ou os utensílios — faça o que fizer, ele não deixa passar um único momento sem dedicar suas atividades a Kṛṣṇa. Tal ação está em pleno *samādhi*."}
{"ref": "bg/12/3-4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/3-4/", "verse_text": "ye tv akṣaram anirdeśyam\n\navyaktaṁ paryupāsate\n\nsarvatra-gam acintyaṁ ca\n\nkūṭa-stham acalaṁ dhruvam\n\nsanniyamyendriya-grāmaṁ\n\nsarvatra sama-buddhayaḥ\n\nte prāpnuvanti mām eva\n\nsarva-bhūta-hite ratāḥ", "devanagari": "> ये त्वक्षरमनिर्देश्यमव्यक्तं पर्युपासते ।\n> सर्वत्रगमचिन्त्यञ्च कूटस्थमचलन्ध्रुवम् ॥३॥\n> सन्नियम्येन्द्रियग्रामं सर्वत्र समबुद्धयः ।\n> ते प्राप्नुवन्ति मामेव सर्वभूतहिते रताः ॥४॥", "synonyms": "*ye*—aqueles; *tu*—mas; *akṣaram*—que está além da percepção dos sentidos; *anirdeśyam*—indefinido; *avyaktam*—imanifesto; *paryupāsate*—ocupam-se completamente; *sarvatra-gam*—onipenetrante; *acintyam*—inconcebível; *ca*—também; *kūṭastham*—no centro; *acalam*—imóvel; *dhruvam*—fixo; *sanniyamya*—controlando; *indriya-grāmam*—todos os sentidos; *sarvatra*—em toda parte; *sama-buddayaḥ*—com a mesma disposição; *te*—eles; *prāpnuvanti*—alcançam; *mām*—a Mim; *eva*—certamente; *sarva-bhūta-hite*—no bem-estar de todas as entidades vivas; *ratāḥ*—ocupados.", "translation": "**Mas aqueles que adoram plenamente o imanifesto, aquilo que está além da percepção dos sentidos, o onipenetrante, inconcebível, fixo e imóvel — a concepção impessoal da Verdade Absoluta —, controlando os vários sentidos e mantendo-se igualmente dispostos para com todos, tais pessoas, ocupadas no bem-estar de todos, finalmente Me alcançam.**", "purport": "Aqueles que não adoram diretamente a Suprema Divindade, Kṛṣṇa, mas que tentam alcançar a mesma meta por um processo indireto, também acabam por alcançar a meta suprema, Śrī Kṛṣṇa, como se afirma: \"Após muitos nascimentos, o homem de sabedoria refugia-se em Mim, sabendo que Vāsudeva é tudo.\" Quando uma pessoa atinge o pleno conhecimento após muitos nascimentos, ela se rende ao Senhor Kṛṣṇa. Caso alguém se aproxime da Divindade pelo método mencionado neste verso, terá de controlar os sentidos, prestar serviço a todos e ocupar-se no bem-estar de todos os seres. Infere-se que é necessário aproximar-se do Senhor Kṛṣṇa; do contrário, não há percepção perfeita. Frequentemente há muita penitência envolvida antes que alguém se renda completamente a Ele.\n\n\n\nA fim de perceber a Superalma dentro da alma individual, é preciso cessar as atividades sensoriais de ver, ouvir, saborear, trabalhar, etc. Então, passa-se a compreender que a Alma Suprema está presente em toda parte. Percebendo isso, a pessoa não inveja nenhuma entidade viva — não vê diferença entre o homem e o animal, porque vê apenas a alma, não o invólucro externo. Mas, para o homem comum, esse método de percepção impessoal é muito difícil."}
{"ref": "bg/12/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/5/", "verse_text": "kleśo 'dhikataras teṣām\n\navyaktāsakta-cetasām\n\navyaktā hi gatir duḥkhaṁ\n\ndehavadbhir avāpyate", "devanagari": "> क्लेशोऽधिकतरस्तेषामव्यक्तासक्तचेतसाम् ।\n> अव्यक्ता हि गतिर्दुःखं देहवद्भिरवाप्यते ॥५॥", "synonyms": "*kleśaḥ*—dificuldade; *adhikataraḥ*—mais difícil; *teṣām*—deles; *avyakta*—imanifesto; *āsakta*—estando apegados; *cetasām*—daqueles cujas mentes; *avyaktā*—imanifesto; *hi*—certamente; *gatiḥ duḥkham*—progresso é difícil; *dehavadbhiḥ*—dos corporificados; *avāpyate*—alcançam.", "translation": "**Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto imanifesto e impessoal do Supremo, o avanço é muito difícil. Progredir nessa disciplina é sempre árduo para os que estão corporificados.**", "purport": "O grupo de transcendentalistas que segue a senda do aspecto inconcebível, imanifesto e impessoal do Senhor Supremo é chamado de *jñāna-yogīs*, e as pessoas que estão em plena consciência de Kṛṣṇa, ocupadas no serviço devocional ao Senhor, são chamadas de *bhakti-yogīs*. Ora, aqui se exprime definitivamente a diferença entre *jñāna-yoga* e *bhakti-yoga*. O processo de *jñāna-yoga*, embora conduza ao mesmo objetivo, é muito difícil, ao passo que a senda do *bhakti-yoga*, o processo de prestar serviço direto à Suprema Personalidade de Deus, é mais fácil e natural para a alma corporificada. A alma individual está corporificada desde tempos imemoriais. É muito difícil para ela compreender simplesmente em teoria que não é o corpo. Por isso, o *bhakti-yogī* aceita a Deidade de Kṛṣṇa como adorável, porque há certa concepção corporal fixada na mente, que pode assim ser aplicada. É claro que a adoração à Suprema Personalidade de Deus em Sua forma dentro do templo não é idolatria. Há evidência na literatura Védica de que a adoração pode ser *saguṇa* e *nirguṇa* — do Supremo possuindo ou não atributos. A adoração à Deidade no templo é adoração *saguṇa*, pois o Senhor é representado por qualidades materiais. Mas a forma do Senhor, embora representada por qualidades materiais como pedra, madeira ou tinta a óleo, não é, na verdade, material. Essa é a natureza absoluta do Senhor Supremo.\n\n\n\nPode-se dar aqui um exemplo rudimentar. Podemos encontrar algumas caixas de correio na rua e, se postarmos nossas cartas nessas caixas, elas naturalmente chegarão ao seu destino sem dificuldade. Mas qualquer caixa antiga, ou uma imitação, que possamos encontrar em algum lugar, que não seja autorizada pelos correios, não fará o serviço. De modo semelhante, Deus tem uma representação autorizada na forma da Deidade, que se chama *arca-vigraha*. Esta *arca-vigraha* é uma encarnação do Senhor Supremo. Deus aceitará o serviço por meio dessa forma. O Senhor é onipotente e todo-poderoso; portanto, por Sua encarnação como *arca-vigraha*, Ele pode aceitar os serviços do devoto, apenas para tornar isso conveniente para o homem em vida condicionada.\n\n\n\nAssim sendo, para um devoto, não há dificuldade em aproximar-se do Supremo imediata e diretamente, mas, para aqueles que seguem o caminho impessoal rumo à percepção espiritual, a senda é difícil. Eles têm de compreender a representação imanifesta do Supremo através de literaturas Védicas, como os *Upaniṣads*, e têm de aprender a língua, compreender os sentimentos não perceptuais, e têm de perceber todos esses processos. Isso não é muito fácil para o homem comum. Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa, ocupada no serviço devocional, simplesmente pela orientação do mestre espiritual genuíno, simplesmente oferecendo reverências regulativas à Deidade, simplesmente ouvindo as glórias do Senhor e simplesmente comendo os restos dos alimentos oferecidos ao Senhor, percebe a Suprema Personalidade de Deus muito facilmente. Não há dúvida de que os impersonalistas estão tomando desnecessariamente uma senda difícil, com o risco de não perceberem a Verdade Absoluta no fim último. Mas o personalista, sem qualquer risco, dificuldade ou problema, aproxima-se da Personalidade Suprema diretamente. Uma passagem semelhante aparece no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Afirma-se ali que, se a pessoa precisa, em última análise, render-se à Suprema Personalidade de Deus (esse processo de rendição chama-se *bhakti*), mas, em vez disso, dá-se ao trabalho de compreender o que é Brahman e o que não é Brahman, e gasta toda a sua vida desse modo, o resultado é simplesmente penoso. Por conseguinte, aconselha-se aqui que não se deva tomar essa senda difícil de autorrealização, porque há incerteza no resultado final.\n\n\n\nUma entidade viva é eternamente uma alma individual, e, se desejar fundir-se no todo espiritual, poderá realizar a percepção dos aspectos eternos e cognoscíveis de sua natureza original, mas a porção bem-aventurada não é percebida. Pela graça de algum devoto, tal transcendentalista, altamente erudito no processo de *jñāna-yoga*, pode chegar ao ponto do *bhakti-yoga*, ou serviço devocional. Nesse momento, a longa prática do impersonalismo torna-se também uma fonte de problemas, pois ele não consegue abandonar a ideia. Logo, uma alma corporificada está sempre em dificuldade com o imanifesto, tanto no momento da prática como no momento da percepção. Toda alma viva é parcialmente independente, e deve-se saber, com certeza, que essa percepção do imanifesto é contrária à natureza do seu eu espiritual e bem-aventurado. Não se deve adotar esse processo. Para cada entidade viva individual, o processo da consciência de Kṛṣṇa, que implica plena ocupação no serviço devocional, é o melhor caminho. Caso alguém queira ignorar este serviço devocional, há o perigo de voltar-se para o ateísmo. Dessa forma, este processo de centrar a atenção no imanifesto, no inconcebível, que está além do alcance dos sentidos — como já se exprimiu neste verso —, jamais deve ser estimulado, especialmente nesta era. Não é aconselhado pelo Senhor Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/12/6-7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/6-7/", "verse_text": "ye tu sarvāṇi karmāṇi\n\nmayi sannyasya mat-parāḥ\n\nananyenaiva yogena\n\nmāṁ dhyāyanta upāsate\n\nteṣām ahaṁ samuddhartā\n\nmṛtyu-saṁsāra-sāgarāt\n\nbhavāmi na cirāt pārtha\n\nmayy āveśita-cetasām", "devanagari": "> ये तु सर्वाणि कर्माणि मयि संन्यस्य मत्परः ।\n> अनन्येनैव योगेन मां ध्यायन्त उपासते ॥६॥\n> तेषामहं समुद्धर्ता मृत्युसंसारसागरात् ।\n> भवामि नचिरात्पार्थ मय्यावेशितचेतसाम् ॥७॥", "synonyms": "*ye*—aquele que; *tu*—mas; *sarvāṇi*—tudo; *karmāṇi*—atividades; *mayi*—a Mim; *sannyasya*—entregando; *mat-parāḥ*—estando apegado a Mim; *ananyena*—sem divisão; *eva*—certamente; *yogena*—pela prática de tal *bhakti-yoga*; *mām*—em Mim; *dhyāyantaḥ*—meditando; *upāsate*—adoram; *teṣām*—deles; *aham*—Eu; *samuddhartā*—libertador; *mṛtyu*—essa; *saṁsāra*—existência material; *sāgarāt*—do oceano; *bhavāmi*—torno-Me; *na cirāt*—em pouco tempo; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *mayi*—em Mim; *āveśita*—fixas; *cetasām*—daqueles cujas mentes assim estão.", "translation": "**Para aquele que Me adora, entregando-Me todas as suas atividades e sendo devotado a Mim sem desvio, ocupado no serviço devocional e sempre meditando em Mim, que fixou sua mente em Mim, ó filho de Pṛthā, para esse, Eu sou o veloz libertador do oceano de nascimentos e mortes.**", "purport": "Afirma-se aqui explicitamente que os devotos são muito afortunados em serem libertos muito rapidamente da existência material pelo Senhor. No serviço devocional puro, percebe-se que Deus é grande e que a alma individual é subordinada a Ele. Seu dever é prestar serviço ao Senhor — e, se assim não fizer, prestará serviço à *māyā*.\n\n\n\nComo afirmado anteriormente, o Senhor Supremo só pode ser apreciado pelo serviço devocional. Por conseguinte, é preciso ser plenamente devotado. Deve-se fixar a mente plenamente em Kṛṣṇa para alcançá-Lo. Deve-se trabalhar somente para Kṛṣṇa. Não importa em que tipo de trabalho a pessoa se ocupe, mas esse trabalho deve ser feito apenas para Kṛṣṇa. Esse é o padrão do serviço devocional. O devoto não deseja nenhuma realização que não seja agradar à Suprema Personalidade de Deus. A missão de sua vida é agradar a Kṛṣṇa, e ele pode sacrificar tudo pela satisfação de Kṛṣṇa, assim como Arjuna fez na Batalha de Kurukṣetra. O processo é muito simples: pode-se dedicar-se à própria ocupação e ao mesmo tempo ocupar-se em cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Tal canto transcendental atrai o devoto à Personalidade de Deus.\n\n\n\nO Senhor Supremo aqui promete que sem demora libertará um devoto puro assim ocupado do oceano da existência material. Aqueles que são avançados na prática do *yoga* podem, à vontade, transferir a alma para qualquer planeta que desejem pelo processo do *yoga*, e outros aproveitam a oportunidade de várias maneiras, mas, no que diz respeito ao devoto, está claramente afirmado aqui que o próprio Senhor o leva. Ele não precisa esperar para tornar-se muito experiente a fim de transferir-se ao céu espiritual.\n\n\n\nNo Varāha Purāṇa aparece este verso:\n\n\n\nnayāmi paramaṁ sthānam arcirādi-gatiṁ vinā\n\ngaruḍa-skandham āropya yatheccham anivāritaḥ\n\n\n\nO significado deste verso é que o devoto não precisa praticar *aṣṭāṅga-yoga* a fim de transferir sua alma aos planetas espirituais. A responsabilidade é assumida pelo próprio Senhor Supremo. Ele afirma claramente aqui que Ele próprio Se torna o libertador. Uma criança é completamente cuidada por seus pais, e, dessa forma, sua posição é segura. De modo semelhante, o devoto não precisa esforçar-se para transferir-se mediante a prática de *yoga* a outros planetas. Pelo contrário, o Senhor Supremo, por Sua grande misericórdia, vem imediatamente, montado em Sua ave, Garuḍa, e libera de pronto o devoto desta existência material. Embora um homem que tenha caído no oceano possa esforçar-se muito e ser muito perito em natação, não pode salvar-se a si próprio. Mas, se alguém vier e tirá-lo da água, então será facilmente resgatado. De modo semelhante, o Senhor tira o devoto desta existência material. Basta praticar o fácil processo da consciência de Kṛṣṇa e ocupar-se plenamente no serviço devocional. Qualquer homem inteligente deve sempre preferir o processo do serviço devocional a todas as outras sendas. No Nārāyaṇīya, isto é confirmado da seguinte maneira:\n\n\n\nyā vai sādhana-sampatti-puruṣārtha-catuṣṭaye\n\ntayā vinā tad-āpnoti naro nārāyaṇāśrayaḥ\n\n\n\nO significado deste verso é que não se deve ocupar-se nos diferentes processos de atividade fruitiva, nem cultivar conhecimento pelo processo especulativo mental. Aquele que é devotado à Personalidade Suprema pode obter todos os benefícios derivados de outros processos iógicos, da especulação, dos rituais, dos sacrifícios, das caridades, etc. Essa é a bênção específica do serviço devocional.\n\n\n\nSimplesmente cantando o santo nome de Kṛṣṇa — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare —, o devoto do Senhor pode aproximar-se do destino supremo fácil e felizmente, mas tal destino não pode ser alcançado por nenhum outro processo religioso.\n\n\n\nA conclusão do *Bhagavad-gītā* é apresentada no Décimo Oitavo Capítulo:\n\n\n\nsarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja\n\nahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ.\n\n\n\nDeve-se abandonar todos os outros processos de autorrealização e simplesmente executar o serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Isso permitirá à pessoa alcançar a mais elevada perfeição da vida. Não há necessidade de a pessoa considerar as ações pecaminosas de sua vida passada, porque o Senhor Supremo Se incumbe plenamente dela. Por isso, não se deve tentar inutilmente libertar-se na percepção espiritual. Que cada um se refugie no Supremo, no onipotente Deus Kṛṣṇa. Essa é a mais elevada perfeição da vida."}
{"ref": "bg/12/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/8/", "verse_text": "mayy eva mana ādhatsva\n\nmayi buddhiṁ niveśaya\n\nnivasiṣyasi mayy eva\n\nata ūrdhvaṁ na saṁśayaḥ", "devanagari": "> मय्येव मन आधत्स्व मयि बुद्धिं निवेशय ।\n> निवसिष्यसि मय्येव अत ऊर्ध्वं न संशयः ॥८॥", "synonyms": "*mayi*—em Mim; *eva*—certamente; *manaḥ*—mente; *ādhatsva*—fixa; *mayi*—em Mim; *buddhim*—inteligência; *niveśaya*—aplica; *nivasiṣyasi*—residirás; *mayi*—em Mim; *eva*—certamente; *ataḥ*—portanto; *ūrdhvam*—acima; *na*—nunca; *saṁśayaḥ*—dúvida.", "translation": "**Apenas fixa tua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupa toda a tua inteligência em Mim. Assim, viverás em Mim para sempre, sem dúvida alguma.**", "purport": "Aquele que está ocupado no serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa vive em uma relação direta com o Senhor Supremo, de modo que não há dúvida de que sua posição é transcendental desde o início. O devoto não vive no plano material — vive em Kṛṣṇa. O santo nome do Senhor e o Senhor não são diferentes; portanto, quando um devoto canta Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa e Sua potência interna dançam na língua do devoto. Quando ele oferece alimento a Kṛṣṇa, Kṛṣṇa diretamente aceita esses comestíveis, e o devoto torna-se \"krsnizado\" comendo os restos. Aquele que não se ocupa em tal serviço não pode compreender como isso é assim, embora se trate de um processo recomendado no *Gītā* e em outras literaturas Védicas."}
{"ref": "bg/12/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/9/", "verse_text": "atha cittaṁ samādhātuṁ\n\nna śaknoṣi mayi sthiram\n\nabhyāsa-yogena tato\n\nmām icchāptuṁ dhanañjaya", "devanagari": "> अथ चित्तं समाधातुं न शक्नोषि मयि स्थिरम् ।\n> अभ्यासयोगेन ततो मामिच्छाप्तुं धनञ्जय ॥९॥", "synonyms": "*atha*—se, portanto; *cittam*—mente; *samādhātam*—fixar; *na*—não; *śaknoṣi*—és capaz; *mayi*—em Mim; *sthiram*—fixa; *abhyāsa*—prática; *yogena*—pelo serviço devocional; *tataḥ*—portanto; *mām*—a Mim; *icchā*—desejo; *āptum*—obter; *dhanañjaya*—ó Arjuna.", "translation": "**Meu querido Arjuna, ó conquistador de riquezas, se não és capaz de fixar tua mente em Mim sem desvio, então segue os princípios regulativos do *bhakti-yoga*. Dessa maneira, desenvolverás o desejo de alcançar-Me.**", "purport": "Neste verso, indicam-se dois processos diferentes de *bhakti-yoga*. O primeiro aplica-se àquele que de fato desenvolveu apego por *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, mediante o amor transcendental. E o outro destina-se a quem ainda não desenvolveu apego pela Pessoa Suprema mediante o amor transcendental. Para esta segunda classe, há diferentes regras e regulações prescritas, que se podem seguir para, em última análise, ser elevado ao estágio do apego por Kṛṣṇa.\n\n\n\nO *bhakti-yoga* é a purificação dos sentidos. No presente momento, na existência material, os sentidos estão sempre impuros, ocupando-se na gratificação dos sentidos. Mas, pela prática do *bhakti-yoga*, esses sentidos podem purificar-se, e, no estado purificado, entram em contato direto com o Senhor Supremo. Nesta existência material, posso estar ocupado em algum serviço a algum patrão, mas não sirvo realmente meu patrão com amor. Apenas sirvo para receber algum dinheiro. E o patrão também não está em amor; ele recebe serviço de mim e me paga. De modo que não há possibilidade de amor. Mas, para a vida espiritual, é preciso elevar-se ao estágio puro do amor. Esse estágio de amor pode ser alcançado pela prática do serviço devocional, executado com os sentidos atuais.\n\n\n\nEsse amor a Deus encontra-se agora em estado latente no coração de todos. E, ali, o amor a Deus manifesta-se de diferentes maneiras, mas está contaminado pela associação material. Ora, a associação material precisa ser purificada, e esse amor latente e natural por Kṛṣṇa precisa ser revivido. Esse é todo o processo.\n\n\n\nPara praticar os princípios regulativos do *bhakti-yoga*, deve-se, sob a orientação de um mestre espiritual experiente, seguir certos princípios: deve-se levantar cedo pela manhã, banhar-se, entrar no templo e oferecer orações e cantar Hare Kṛṣṇa, depois colher flores para oferecer à Deidade, cozinhar alimentos para oferecer à Deidade, tomar *prasādam*, e assim por diante. Há várias regras e regulações que se devem seguir. E deve-se ouvir constantemente o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam* dos lábios de devotos puros. Esta prática pode ajudar qualquer um a elevar-se ao nível do amor a Deus, e, então, ele estará certo de seu progresso para o reino espiritual de Deus. Esta prática do *bhakti-yoga*, sob as regras e regulações, com a orientação de um mestre espiritual, certamente conduzirá a pessoa ao estágio do amor a Deus."}
{"ref": "bg/12/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/10/", "verse_text": "abhyāse 'py asamartho 'si\n\nmat-karma-paramo bhava\n\nmad-artham api karmāṇi\n\nkurvan siddhim avāpsyasi", "devanagari": "> अभ्यासेऽप्यसमर्थोऽसि मत्कर्मपरमो भव ।\n> मदर्थमपि कर्माणि कुर्वन्सिद्धिमवाप्स्यसि ॥१०॥", "synonyms": "*abhyāse*—na prática de; *api*—mesmo; *asamarthaḥ*—incapaz; *asi*—és; *mat-karma*—Meu trabalho; *paramaḥ*—supremo; *bhava*—torna-te; *mat-artham*—em Meu favor; *api*—mesmo que; *karmāṇi*—trabalho; *kurvan*—executando; *siddhim*—perfeição; *avāpsyasi*—alcançarás.", "translation": "**Caso não consigas praticar as regulações do *bhakti-yoga*, então simplesmente tenta trabalhar para Mim, porque, trabalhando para Mim, alcançarás o estágio perfeito.**", "purport": "Aquele que não é capaz nem mesmo de praticar os princípios regulativos do *bhakti-yoga*, sob a orientação de um mestre espiritual, ainda pode ser atraído a esse estágio perfectivo trabalhando para o Senhor Supremo. Como executar esse trabalho já se explicou no quinquagésimo quinto verso do Décimo Primeiro Capítulo. Deve-se ser solidário à propagação da consciência de Kṛṣṇa. Há muitos devotos que se ocupam na propagação da consciência de Kṛṣṇa, e eles necessitam de ajuda. Assim sendo, mesmo que alguém não possa praticar diretamente os princípios regulativos do *bhakti-yoga*, pode tentar ajudar tal trabalho. Todo empreendimento exige terra, capital, organização e trabalho. Assim como nos negócios é necessário um lugar para ficar, algum capital para usar, algum trabalho e alguma organização para expandir, o mesmo se exige no serviço a Kṛṣṇa. A única diferença é que, no materialismo, trabalha-se para a gratificação dos sentidos. O mesmo trabalho, contudo, pode ser executado para a satisfação de Kṛṣṇa, e isso é atividade espiritual. Caso alguém disponha de dinheiro suficiente, pode ajudar a construir um escritório ou um templo para a propagação da consciência de Kṛṣṇa. Ou pode ajudar com publicações. Há vários campos de atividade, e a pessoa deve interessar-se por tais atividades. Caso não consiga sacrificar o resultado de tais atividades, essa mesma pessoa pode ainda sacrificar uma percentagem para propagar a consciência de Kṛṣṇa. Esse serviço voluntário à causa da consciência de Kṛṣṇa ajudará a pessoa a elevar-se a um estado mais elevado de amor a Deus, ponto em que ela se torna perfeita."}
{"ref": "bg/12/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/11/", "verse_text": "athaitad apy aśakto 'si\n\nkartuṁ mad-yogam āśritaḥ\n\nsarva-karma-phala-tyāgaṁ\n\ntataḥ kuru yatātmavān", "devanagari": "> अथैतदप्यशक्तोऽसि कर्तुं मद्योगमाश्रितः ।\n> सर्वकर्मफलत्यागं ततः कुरु यतात्मवान् ॥११॥", "synonyms": "*atha*—mesmo que; *etat*—isto; *api*—também; *aśaktaḥ*—incapaz; *asi*—és; *kartum*—executar; *mat*—em Mim; *yogam*—serviço devocional; *āśritaḥ*—refúgio; *sarva-karma*—todas as atividades; *phala*—resultado; *tyāgam*—para a renúncia; *tataḥ*—portanto; *kuru*—faze; *yata-ātmavan*—autossituado.", "translation": "**Se, contudo, fores incapaz de trabalhar nesta consciência, então tenta agir abandonando todos os resultados de teu trabalho e procura situar-te em ti mesmo.**", "purport": "Pode ser que alguém não consiga sequer simpatizar com as atividades da consciência de Kṛṣṇa devido a considerações sociais, familiares ou religiosas, ou devido a algum outro impedimento. Caso a pessoa se apegue diretamente às atividades da consciência de Kṛṣṇa, pode haver objeção dos membros da família ou tantas outras dificuldades. Para aquele que tem tal problema, aconselha-se que sacrifique o resultado acumulado de suas atividades a alguma boa causa. Tais procedimentos são descritos nas regras Védicas. Há muitas descrições de sacrifícios e funções especiais do *pumundi* ou trabalho especial em que o resultado da ação anterior pode ser aplicado. Assim, pode-se gradualmente elevar-se ao estado de conhecimento. Verifica-se também que, quando alguém que nem sequer está interessado nas atividades da consciência de Kṛṣṇa dá caridade a algum hospital ou a alguma outra instituição social, ele abre mão dos resultados arduamente conquistados de suas atividades. Isso também se recomenda aqui, pois, pela prática de abrir mão dos frutos das próprias atividades, a pessoa certamente purificará a mente gradualmente, e, nesse estado purificado da mente, torna-se capaz de compreender a consciência de Kṛṣṇa. É claro que a consciência de Kṛṣṇa não depende de nenhuma outra experiência, pois a própria consciência de Kṛṣṇa pode purificar a mente da pessoa, mas, se há impedimentos à consciência de Kṛṣṇa, pode-se tentar abandonar o resultado da própria ação. Nesse aspecto, o serviço social, o serviço comunitário, o serviço nacional, o sacrifício pelo próprio país, etc., podem ser aceitos para que algum dia a pessoa possa chegar ao estágio do serviço devocional puro ao Senhor Supremo. No *Bhagavad-gītā*, encontramos esta afirmação: *yataḥ pravṛttir bhūtānām*: caso alguém decida sacrificar-se pela causa suprema, mesmo que não saiba que a causa suprema é Kṛṣṇa, gradualmente compreenderá que Kṛṣṇa é a causa suprema pelo método sacrificial."}
{"ref": "bg/12/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/12/", "verse_text": "śreyo hi jñānam abhyāsāj\n\njñānād dhyānaṁ viśiṣyate\n\ndhyānāt karma-phala-tyāgas\n\ntyāgāc chāntir anantaram", "devanagari": "> श्रेयो हि ज्ञानमभ्यासाज्ज्ञानाद्ध्यानं विशिष्यते ।\n> ध्यानात्कर्मफलत्यागस्त्यागाच्छान्तिरनन्तरम् ॥१२॥", "synonyms": "*śreyaḥ*—melhor; *hi*—certamente; *jñānam*—conhecimento; *abhyāsāt*—pela prática; *jnānāt*—melhor que o conhecimento; *dhyānam*—meditação; *viśiṣyate*—especialmente considerada; *dhyānāt*—da meditação; *karma-phala-tyāgaḥ*—renúncia aos resultados da ação fruitiva; *tyāgāt*—por tal renúncia; *śāntiḥ*—paz; *anantaram*—depois disso.", "translation": "**Caso não consigas adotar esta prática, então ocupa-te no cultivo do conhecimento. Melhor do que o conhecimento, contudo, é a meditação, e melhor do que a meditação é a renúncia aos frutos da ação, pois, mediante tal renúncia, pode-se alcançar a paz da mente.**", "purport": "Como mencionado nos versos anteriores, há duas espécies de serviço devocional: o caminho dos princípios regulativos e o caminho do pleno apego em amor à Suprema Personalidade de Deus. Para aqueles que de fato não conseguem seguir os princípios da consciência de Kṛṣṇa, é melhor cultivar o conhecimento, pois, por meio do conhecimento, é possível compreender a própria posição real. Gradualmente, o conhecimento desenvolver-se-á até o ponto da meditação. Pela meditação, pode-se compreender a Suprema Personalidade de Deus mediante um processo gradual. Há processos que fazem a pessoa compreender que ela própria é o Supremo, e essa espécie de meditação é preferida caso a pessoa seja incapaz de ocupar-se no serviço devocional. Caso a pessoa não seja capaz de meditar dessa forma, então há deveres prescritos, conforme imposto pela literatura Védica, para os *brāhmaṇas*, *vaiśyas* e *śūdras*, que encontraremos em um capítulo posterior do *Bhagavad-gītā*. Mas, em todos os casos, deve-se abandonar o resultado ou os frutos do trabalho; isto significa empregar o resultado do *karma* em alguma boa causa. Em síntese, para alcançar a Suprema Personalidade de Deus, a meta mais elevada, há dois processos: um processo é por desenvolvimento gradual, e o outro processo é direto. O serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa é o método direto, e o outro método envolve renunciar aos frutos das próprias atividades. Então, pode-se chegar ao estágio do conhecimento, depois ao estágio da meditação, depois ao estágio da compreensão da Superalma, e depois ao estágio da Suprema Personalidade de Deus. Pode-se tomar tanto o processo passo a passo quanto a senda direta. O processo direto não é possível para todos; por conseguinte, o processo indireto também é bom. Deve-se compreender, no entanto, que o processo indireto não é recomendado para Arjuna, porque ele já está no estágio do amoroso serviço devocional ao Senhor Supremo. É para outros que não estão neste estado; para eles, deve-se seguir o processo gradual de renúncia, conhecimento, meditação e percepção da Superalma e do Brahman. Mas, no que se refere ao *Bhagavad-gītā*, é o método direto que se enfatiza. Aconselha-se a todos a adotar o método direto e render-se à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/12/13-14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/13-14/", "verse_text": "adveṣṭā sarva-bhūtānāṁ\n\nmaitraḥ karuṇa eva ca\n\nnirmamo nirahaṅkāraḥ\n\nsama-duḥkha-sukhaḥ kṣamī\n\nsantuṣṭaḥ satataṁ yogī\n\nyatātmā dṛḍha-niścayaḥ\n\nmayy arpita-mano-buddhir\n\nyo mad-bhaktaḥ sa me priyaḥ", "devanagari": "> अद्वेष्टा सर्वभूतानां मैत्रः करुण एव च ।\n> निर्ममो निरहङ्कारः समदुःखसुखः क्षमी ॥१३॥\n> सन्तुष्टः सततं योगी यतात्मा दृढनिश्चयः ।\n> मय्यर्पितमनोबुद्धिर्यो मद्भक्तः स मे प्रियः ॥१४॥", "synonyms": "*adveṣṭā*—não invejoso; *sarva-bhūtānām*—para com todas as entidades vivas; *maitraḥ*—amistoso; *karuṇaḥ*—bondoso; *eva*—certamente; *ca*—também; *nirmamaḥ*—sem senso de propriedade; *nirahaṅkāraḥ*—sem ego falso; *sama*—igualmente; *duḥkhaḥ*—aflição; *sukhaḥ*—felicidade; *kṣamī*—perdoador; *santuṣṭaḥ*—satisfeito; *satatam*—satisfeito; *yogī*—ocupado em devoção; *yatā-atmā*—esforçando-se; *dṛdḥaniścayaḥ*—com determinação; *mayi*—em Mim; *arpita*—ocupada; *manaḥ*—mente; *buddhiḥ*—inteligente; *yaḥ*—aquele que; *mat-bhaktaḥ*—Meu devoto; *saḥ me priyaḥ*—ele Me é querido.", "translation": "**Aquele que não é invejoso, mas que é um amigo bondoso para com todas as entidades vivas, que não se considera proprietário, que está livre do ego falso e é equânime tanto na felicidade quanto na aflição, que está sempre satisfeito e ocupado no serviço devocional com determinação, e cuja mente e inteligência estão de acordo com as Minhas — esse Me é muito querido.**", "purport": "Voltando novamente ao ponto do serviço devocional puro, o Senhor descreve as qualificações transcendentais de um devoto puro nestes dois versos. Um devoto puro nunca se perturba em quaisquer circunstâncias. Tampouco tem inveja de alguém. Nem o devoto se torna inimigo de seu inimigo; ele pensa que aquele atua como seu inimigo devido a seus próprios maus atos passados. Por isso, é melhor sofrer do que protestar. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se: *tat te 'nukampāṁ su-samīkṣyamaṇo*. Sempre que um devoto está em aflição ou caiu em dificuldade, pensa que se trata da misericórdia do Senhor sobre ele. Pensa: \"Graças a meus maus atos passados, eu deveria sofrer muito, muito mais do que estou sofrendo agora. Assim, é pela misericórdia do Senhor Supremo que não estou recebendo todo o castigo que mereço. Estou recebendo apenas um pouco, pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus.\" Por conseguinte, está sempre calmo, tranquilo e paciente, apesar de muitas condições aflitivas. Um devoto também é sempre bondoso para com todos, mesmo para com seu inimigo. *Nirmama* significa que o devoto não atribui muita importância à paz e ao incômodo pertencentes ao corpo, porque sabe perfeitamente bem que não é o corpo material. Não se identifica com o corpo; portanto, está livre da concepção de ego falso e é equânime tanto na felicidade como na aflição. É tolerante e está satisfeito com tudo o que vem pela graça do Senhor Supremo. Não se esforça muito para conquistar algo com grande dificuldade; por isso, está sempre alegre. É um místico completamente perfeito, porque está fixo nas instruções recebidas do mestre espiritual e, porque seus sentidos estão controlados, é determinado. Não se deixa abalar por argumentos falsos, pois ninguém pode afastá-lo da determinação fixa do serviço devocional. Está plenamente consciente de que Kṛṣṇa é o Senhor eterno, de modo que ninguém pode perturbá-lo. Todas as suas qualificações o capacitam a depender inteiramente do Senhor Supremo. Tal padrão de serviço devocional é, indubitavelmente, muito raro, mas o devoto situa-se nesse estágio seguindo os princípios regulativos do serviço devocional. Ademais, o Senhor diz que tal devoto Lhe é muito querido, pois o Senhor está sempre satisfeito com todas as suas atividades em plena consciência de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/12/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/15/", "verse_text": "yasmān nodvijate loko\n\nlokān nodvijate ca yaḥ\n\nharṣāmarṣa-bhayodvegair\n\nmukto yaḥ sa ca me priyaḥ", "devanagari": "> यस्मान्नोद्विजते लोको लोकान्नोद्विजते च यः ।\n> हर्षामर्षभयोद्वेगैर्मुक्तो यः स च मे प्रियः ॥१५॥", "synonyms": "*yasmāt*—de quem; *na*—nunca; *udvijate*—agita-se; *lokaḥ*—pessoas; *lokāt*—pessoas; *na*—nunca; *advijate*—perturbado; *ca*—também; *yaḥ*—quem quer que seja; *harṣa*—felicidade; *amarṣa*—aflição; *bhaya*—temor; *udvegaiḥ*—com ansiedade; *muktaḥ*—libertado; *yaḥ*—quem; *saḥ*—qualquer; *ca*—também; *me*—Meu; *priyaḥ*—muito querido.", "translation": "**Aquele por quem ninguém é posto em dificuldade e que não é perturbado pela ansiedade, que está firme tanto na felicidade quanto na aflição, é-Me muito querido.**", "purport": "Algumas qualificações adicionais de um devoto estão sendo descritas. Ninguém é posto em dificuldade, ansiedade, temor ou insatisfação por tal devoto. Visto que o devoto é bondoso para com todos, não age de modo a colocar os outros em ansiedade. Ao mesmo tempo, se outros tentam colocar o devoto em ansiedade, ele não se perturba. É pela graça do Senhor que ele está tão treinado a ponto de não ser perturbado por nenhuma perturbação externa. Na verdade, porque o devoto está sempre absorto na consciência de Kṛṣṇa e ocupado no serviço devocional, todas essas circunstâncias materiais não conseguem atraí-lo. Geralmente, uma pessoa materialista fica muito feliz quando há algo para a gratificação de seus sentidos e de seu corpo, mas, quando vê que outros têm algo para a gratificação dos sentidos deles e ela não, fica triste e invejosa. Quando espera alguma retaliação de um inimigo, está em estado de medo, e, quando não consegue executar algo com êxito, fica abatida. Mas o devoto é sempre transcendental a todas essas perturbações; portanto, é-Me muito querido a Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/12/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/16/", "verse_text": "anapekṣaḥ śucir dakṣa\n\nudāsīno gata-vyathaḥ\n\nsarvārambha-parityāgī\n\nyo mad-bhaktaḥ sa me priyaḥ", "devanagari": "> अनपेक्षः शुचिर्दक्ष उदासीनो गतव्यथः ।\n> सर्वारम्भपरित्यागी यो मद्भक्तः स मे प्रियः ॥१६॥", "synonyms": "*anapekṣaḥ*—neutro; *śuciḥ*—puro; *dakṣaḥ*—perito; *udāsīnaḥ*—livre de cuidados; *gata-vyathaḥ*—libertado de toda aflição; *sarva-ārambha*—todos os empreendimentos; *parityāgī*—renunciante; *yaḥ*—quem quer que seja; *mat-bhaktaḥ*—Meu devoto; *saḥ*—ele; *me*—a Mim; *priyaḥ*—muito querido.", "translation": "**Um devoto que não depende do curso ordinário das atividades, que é puro, perito, sem cuidados, livre de todas as dores e que não se esforça por algum resultado, é-Me muito querido.**", "purport": "Pode-se oferecer dinheiro a um devoto, mas ele não deve esforçar-se para adquiri-lo. Caso, automaticamente, pela graça do Supremo, o dinheiro chegue até ele, ele não se agita. Naturalmente, um devoto banha-se pelo menos duas vezes por dia e levanta-se cedo pela manhã para o serviço devocional. Assim, é naturalmente limpo tanto interna quanto externamente. Um devoto é sempre perito, porque conhece plenamente o sentido de todas as atividades da vida e está convencido das escrituras autoritativas. O devoto nunca toma o partido de um determinado grupo; por isso, está despreocupado. Nunca se aflige, pois está livre de todas as designações; sabe que seu corpo é uma designação, de modo que, se há algumas dores corporais, está livre delas. O devoto puro não se esforça por nada que seja contrário aos princípios do serviço devocional. Por exemplo, construir um grande edifício exige grande energia, e o devoto não se dedica a tal negócio caso isso não o beneficie no avanço de seu serviço devocional. Pode construir um templo para o Senhor, e, para isso, pode assumir todo tipo de ansiedades, mas não constrói uma casa grande para suas relações pessoais."}
{"ref": "bg/12/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/17/", "verse_text": "yo na hṛṣyati na dveṣṭi\n\nna śocati na kāṅkṣati\n\nśubhāśubha-parityāgī\n\nbhaktimān yaḥ sa me priyaḥ", "devanagari": "> यो न हृष्यति न द्वेष्टि न शोचति न काङ्क्षति ।\n> शुभाशुभपरित्यागी भक्तिमान्यः स मे प्रियः ॥१७॥", "synonyms": "*yaḥ*—aquele que; *na*—nunca; *hṛṣyati*—se compraz; *na*—nunca; *dveṣṭi*—se aflige; *na*—nunca; *śocati*—lamenta; *na*—nunca; *kāṅkṣati*—deseja; *śubha*—auspicioso; *aśubha*—inauspicioso; *parityāgī*—renunciante; *bhaktimān*—devoto; *yaḥ*—aquele que; *saḥ*—ele é; *me*—Meu; *priyaḥ*—querido.", "translation": "**Aquele que não se apega ao prazer nem ao pesar, que não lamenta nem deseja, e que renuncia tanto a coisas auspiciosas quanto inauspiciosas, é-Me muito querido.**", "purport": "Um devoto puro não está nem feliz nem aflito por ganho ou perda materiais, nem está muito ansioso por obter um filho ou um discípulo, nem se aflige por não os obter. Caso perca algo que lhe é muito querido, não se lamenta. De modo semelhante, caso não obtenha o que deseja, não se aflige. É transcendental diante de todas as espécies de atividades auspiciosas, inauspiciosas e pecaminosas. Está preparado para aceitar todas as espécies de riscos para a satisfação do Senhor Supremo. Nada é impedimento na execução de seu serviço devocional. Tal devoto é-Me muito querido a Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/12/18-19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/18-19/", "verse_text": "samaḥ śatrau ca mitre ca\n\ntathā mānāpamānayoḥ\n\nśītoṣṇa-sukha-duḥkheṣu\n\nsamaḥ saṅga-vivarjitaḥ\n\ntulya-nindā-stutir maunī\n\nsantuṣṭo yena kenacit\n\naniketaḥ sthira-matir\n\nbhaktimān me priyo naraḥ", "devanagari": "> समः शत्रौ च मित्रे च तथा मानापमानयोः ।\n> शीतोष्णसुखदुःखेषु समः सङ्गविवर्जितः ॥१८॥\n> तुल्यनिन्दास्तुतिर्मौनी सन्तुष्टो येन केनचित् ।\n> अनिकेतः स्थिरमतिर्भक्तिमान्मे प्रियो नरः ॥१९॥", "synonyms": "*samaḥ*—igual; *śatrau*—para com o inimigo; *ca*—também; *mitre*—para com os amigos; *ca*—também; *tatha*—assim; *māna*—honra; *apamānayoḥ*—desonra; *śīta*—frio; *uṣṇa*—calor; *sukha*—felicidade; *duḥkheṣu*—aflição; *samaḥ*—equânime; *saṅga-vivarjitaḥ*—livre de toda associação; *tulya*—igual; *nindā*—difamação; *stutiḥ*—boa fama; *maunī*—silencioso; *santuṣṭaḥ*—satisfeito; *yena*—de algum modo; *kena*—ou outro; *cit*—se; *aniketaḥ*—sem residência; *sthira*—fixa; *matiḥ*—determinação; *bhaktimān*—ocupado em devoção; *me*—Meu; *priyaḥ*—querido; *naraḥ*—um homem.", "translation": "**Aquele que é igual para com amigos e inimigos, que é equânime na honra e na desonra, no calor e no frio, na felicidade e na aflição, na fama e na infâmia, que está sempre livre da contaminação, sempre silencioso e satisfeito com qualquer coisa, que não se importa com nenhuma residência, que está fixo em conhecimento e ocupado no serviço devocional, é-Me muito querido.**", "purport": "Um devoto está sempre livre de toda má associação. Às vezes, a pessoa é elogiada e, às vezes, é difamada; tal é a natureza da sociedade humana. Mas o devoto é sempre transcendental à fama e à infâmia artificiais, à aflição ou à felicidade. É muito paciente. Não fala de nada que não sejam os tópicos sobre Kṛṣṇa; portanto, é chamado de silencioso. Silencioso não significa que não se deva falar; silencioso significa que não se deve falar tolices. Deve-se falar apenas do essencial, e a fala mais essencial para o devoto é falar do Senhor Supremo. Ele é feliz em todas as condições; às vezes pode obter alimentos muito saborosos, às vezes não, mas está satisfeito. Tampouco se importa com qualquer facilidade residencial. Pode às vezes viver debaixo de uma árvore, e pode às vezes viver em um edifício palaciano; não se atrai por nenhum dos dois. É chamado de fixo porque está fixo em sua determinação e conhecimento. Podemos encontrar alguma repetição nas descrições das qualificações de um devoto, mas isto se faz apenas para dar uma ilustração do fato de que um devoto deve adquirir todas estas qualificações. Sem boas qualificações, não se pode ser um devoto puro. Aquele que não é devoto não tem nenhuma boa qualificação. Aquele que quer ser reconhecido como devoto deve desenvolver as boas qualificações. Naturalmente, ele não se esforça extrinsecamente para adquirir essas qualificações, mas o engajamento na consciência de Kṛṣṇa e no serviço devocional automaticamente o ajuda a desenvolvê-las."}
{"ref": "bg/12/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/12/20/", "verse_text": "ye tu dharmāmṛtam idaṁ\n\nyathoktaṁ paryupāsate\n\nśraddadhānā mat-paramā\n\nbhaktās te 'tīva me priyāḥ", "devanagari": "> ये तु धर्म्यामृतमिदं यथोक्तं पर्युपासते ।\n> श्रद्दधाना मत्परमा भक्तास्तेऽतीव मे प्रियाः ॥२०॥", "synonyms": "*ye*—aquele que; *tu*—mas; *dharmya*—generosidade; *amṛtam*—compreensão; *idam*—isto; *yathā*—como; *uktam*—dito; *paryupāsate*—ocupa-se completamente; *sraddadhānāḥ*—com fé; *mat-paramāḥ*—tomando o Senhor Supremo como tudo; *bhaktāḥ*—devotos; *te*—tais pessoas; *atīva*—muito, muito; *me*—a Mim; *priyāḥ*—queridos.", "translation": "**Aquele que segue esta senda imperecível do serviço devocional e que se ocupa completamente com fé, fazendo de Mim a meta suprema, é-Me muito, muito querido.**", "purport": "Neste capítulo, expõe-se a religião do engajamento eterno, a explicação do processo do serviço transcendental para aproximar-se do Senhor Supremo. Este processo é-Lhe muito querido, e Ele aceita aquele que se ocupa em tal processo. A pergunta sobre quem é melhor — aquele que está ocupado na senda do Brahman impessoal ou aquele que está ocupado no serviço pessoal à Suprema Personalidade de Deus — foi feita por Arjuna, e o Senhor lhe respondeu de modo tão explícito que não há dúvida de que o serviço devocional à Personalidade de Deus é o melhor de todos os processos de percepção espiritual. Em outras palavras, decide-se neste capítulo que, por meio de boa associação, a pessoa desenvolve apego pelo serviço devocional puro e, com isso, aceita um mestre espiritual genuíno e dele começa a ouvir, a cantar e a observar os princípios regulativos do serviço devocional com fé, apego e devoção, ocupando-se assim no serviço transcendental ao Senhor. Esta senda recomenda-se neste capítulo; portanto, não há dúvida de que o serviço devocional é a única senda absoluta para a autorrealização, para o alcance da Suprema Personalidade de Deus. A concepção impessoal da Suprema Verdade Absoluta, conforme descrita neste capítulo, recomenda-se apenas até o momento em que a pessoa se rende para a autorrealização. Em outras palavras, enquanto a pessoa não tiver a oportunidade de associar-se com um devoto puro, a concepção impessoal pode ser benéfica. Na concepção impessoal da Verdade Absoluta, trabalha-se sem resultado fruitivo, medita-se e cultiva-se conhecimento para compreender o espírito e a matéria. Isso é necessário enquanto a pessoa não estiver na associação de um devoto puro. Felizmente, caso alguém desenvolva diretamente o desejo de ocupar-se em consciência de Kṛṣṇa no serviço devocional puro, não precisa passar por melhorias passo a passo na percepção espiritual. O serviço devocional, conforme descrito nos seis capítulos centrais do *Bhagavad-gītā*, é mais propício. Não é necessário preocupar-se com materiais para manter o corpo e a alma juntos, porque, pela graça do Senhor, tudo se realiza automaticamente.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta ao Décimo Segundo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* no que se refere a Serviço Devocional."}
{"ref": "bg/13/1-2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/1-2/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nprakṛtiṁ puruṣaṁ caiva\n\nkṣetraṁ kṣetra-jñam eva ca\n\netad veditum icchāmi\n\njñānaṁ jñeyaṁ ca keśava\n\n<1>śrī-bhagavān uvāca\n\nidaṁ śarīraṁ kaunteya\n\nkṣetram ity abhidhīyate\n\netad yo vetti taṁ prāhuḥ\n\nkṣetra-jña iti tad-vidaḥ", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> प्रकृतिं पुरुषं चैव क्षेत्रं क्षेत्रज्ञमेव च ।\n> एतद्वेदितुमिच्छामि ज्ञानं ज्ञेयं च केशव ॥१॥\n> श्रीभगवानुवाच ।\n> इदं शरीरं कौन्तेय क्षेत्रमित्यभिधीयते ।\n> एतद्यो वेत्ति तं प्राहुः क्षेत्रज्ञ इति तद्विदः ॥२॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *prakṛtim*—natureza; *puruṣam*—o desfrutador; *ca*—também; *eva*—certamente; *kṣetram*—corpo; *kṣetrajñam*—conhecedor do corpo; *eva*—certamente; *ca*—também; *etat*—tudo isto; *veditum*—compreender; *icchāmi*—desejo; *jñānam*—conhecimento; *jñeyam*—o objeto do conhecimento; *ca*—também; *keśava*—ó Kṛṣṇa; *śrī bhagavān uvāca*—a Personalidade de Deus disse; *idam*—este; *śarīram*—corpo; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *kṣetram*—o campo; *iti*—assim; *abhidhīyate*—é chamado; *etat*—este; *yaḥ*—qualquer um; *vetti*—conhece; *tam*—ele; *prāhuḥ*—é chamado; *kṣetrajñaḥ*—conhecedor do corpo; *iti*—assim; *tat-vidaḥ*—aquele que conhece.", "translation": "**Arjuna disse: Ó meu querido Kṛṣṇa, desejo conhecer a respeito de prakṛti [a natureza], Puruṣa [o desfrutador], e o campo e o conhecedor do campo, bem como do conhecimento e do fim do conhecimento. O Senhor Abençoado disse então: Este corpo, ó filho de Kuntī, chama-se o campo, e aquele que conhece este corpo é chamado o conhecedor do campo.**", "purport": "Arjuna mostrava-se curioso a respeito de prakṛti, ou natureza, puruṣa, o desfrutador, kṣetra, o campo, kṣetrajña, seu conhecedor, e do conhecimento e do objeto do conhecimento. Ao indagar sobre tudo isso, Kṛṣṇa disse que este corpo se chama o campo e que aquele que conhece este corpo se chama o conhecedor do campo. Este corpo é o campo de atividade da alma condicionada. A alma condicionada está aprisionada na existência material, e tenta assenhorear-se da natureza material. Assim, conforme sua capacidade de dominar a natureza material, ela recebe um campo de atividade. Esse campo de atividade é o corpo. E o que é o corpo? O corpo é feito de sentidos. A alma condicionada quer desfrutar da gratificação dos sentidos e, segundo sua capacidade de desfrutar dessa gratificação, oferece-se-lhe um corpo, ou campo de atividade. Por isso o corpo é chamado kṣetra, ou o campo de atividade da alma condicionada. Ora, a pessoa que não se identifica com o corpo é chamada kṣetrajña, o conhecedor do campo. Não é muito difícil compreender a diferença entre o campo e seu conhecedor, entre o corpo e o conhecedor do corpo. Qualquer pessoa pode notar que da infância à velhice ela passa por inúmeras mudanças de corpo e, ainda assim, continua a ser uma só pessoa. Há, portanto, uma diferença entre o conhecedor do campo de atividades e o próprio campo de atividades. Uma alma condicionada viva pode, dessa forma, compreender que é diferente do corpo. Descreve-se no início — *dehe 'smin* — que a entidade viva está dentro do corpo e que o corpo vai mudando da infância para a meninice, da meninice para a juventude e da juventude para a velhice, e a pessoa que possui o corpo sabe que o corpo está mudando. O proprietário é distintamente o kṣetrajña. Às vezes compreendemos que estou feliz, estou louco, sou uma mulher, sou um cão, sou um gato: estes são os conhecedores. O conhecedor é diferente do campo. Embora utilizemos muitos artigos — nossas roupas, etc. — sabemos que somos diferentes das coisas usadas. De modo semelhante, também compreendemos, mediante uma pequena reflexão, que somos diferentes do corpo.\n\n\n\nNos seis primeiros capítulos do *Bhagavad-gītā*, descrevem-se o conhecedor do corpo, a entidade viva, e a posição pela qual ela pode compreender o Senhor Supremo. Nos seis capítulos centrais do *Gītā*, descrevem-se a Suprema Personalidade de Deus e a relação entre a alma individual e a Superalma quanto ao serviço devocional. A posição superior da Suprema Personalidade de Deus e a posição subordinada da alma individual ficam definitivamente definidas nesses capítulos. As entidades vivas são subordinadas em todas as circunstâncias, mas em seu esquecimento padecem. Quando iluminadas pelas atividades piedosas, aproximam-se do Senhor Supremo em diferentes condições — como os aflitos, os necessitados de dinheiro, os curiosos e os que buscam conhecimento. Isso também já foi descrito. Agora, a partir do Décimo Terceiro Capítulo, explica-se como a entidade viva entra em contato com a natureza material, como é libertada pelo Senhor Supremo por meio dos diferentes métodos das atividades fruitivas, do cultivo do conhecimento e da execução do serviço devocional. Embora a entidade viva seja completamente diferente do corpo material, de algum modo torna-se relacionada a ele. Isso também é explicado."}
{"ref": "bg/13/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/3/", "verse_text": "kṣetra-jñaṁ cāpi māṁ viddhi\n\nsarva-kṣetreṣu bhārata\n\nkṣetra-kṣetrajñayor jñānaṁ\n\nyat taj jñānaṁ mataṁ mama", "devanagari": "> क्षेत्रज्ञं चापि मां विद्धि सर्वक्षेत्रेषु भारत\n> क्षेत्रक्षेत्रज्ञयोर्ज्ञानं यत्तज्ज्ञानं मतं मम ॥३॥", "synonyms": "*kṣetrajñam*—o conhecedor; *ca*—também; *api*—certamente; *mām*—a Mim; *viddhi*—conhece; *sarva*—todos; *kṣetreṣu*—nos campos corporais; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *kṣetra*—campo de atividades (o corpo); *kṣetrajñayoḥ*—o conhecedor do campo; *jñānam*—conhecimento; *yat*—aquilo que é ensinado; *tat*—aquilo; *jñānam*—conhecimento; *matam*—opinião; *mama*—Minha.", "translation": "**Ó descendente de Bharata, deves compreender que Eu também sou o conhecedor em todos os corpos, e compreender este corpo e seu proprietário é o que se chama conhecimento. Esta é a Minha opinião.**", "purport": "Ao discutirmos o tema deste corpo e do proprietário do corpo, a alma e a Superalma, encontraremos três temas distintos de estudo: o Senhor, a entidade viva e a matéria. Em cada campo de atividades, em cada corpo, há duas almas: a alma individual e a Superalma. Como a Superalma é a expansão plenária da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, Kṛṣṇa diz: \"Eu também sou o conhecedor, mas não sou o proprietário individual do corpo. Sou o superconhecedor. Estou presente em cada corpo como o Paramātmā, ou Superalma.\"\n\n\n\nAquele que estuda minuciosamente o tema do campo de atividade e do conhecedor do campo, à luz deste *Bhagavad-gītā*, pode alcançar o conhecimento.\n\n\n\nO Senhor diz: \"Eu sou o conhecedor do campo de atividades em cada corpo individual.\" O indivíduo pode ser o conhecedor de seu próprio corpo, mas não tem conhecimento de outros corpos. A Suprema Personalidade de Deus, que está presente como a Superalma em todos os corpos, sabe tudo a respeito de todos os corpos. Ele conhece todos os diferentes corpos de todas as várias espécies de vida. Um cidadão pode saber tudo sobre seu pedaço de terra, mas o rei conhece não somente seu palácio, mas todas as propriedades possuídas pelos cidadãos individuais. De modo semelhante, pode-se ser proprietário do corpo individualmente, mas o Senhor Supremo é o proprietário de todos os corpos. O rei é o proprietário original do reino, e o cidadão é o proprietário secundário. Da mesma forma, o Senhor Supremo é o proprietário supremo de todos os corpos.\n\n\n\nO corpo consiste em sentidos. O Senhor Supremo é Hṛṣīkeśa, o que significa controlador dos sentidos. Ele é o controlador original dos sentidos, assim como o rei é o controlador original de todas as atividades do estado, e os cidadãos são os controladores secundários. O Senhor também diz: \"Eu também sou o conhecedor.\" Isso significa que Ele é o superconhecedor; a alma individual conhece apenas seu corpo particular. Na literatura Védica, afirma-se o seguinte:\n\n\n\nkṣetrāṇi hi śarīrāṇi bījaṁ cāpi śubhāśubhe\n\ntāni vetti sa yogātmā tataḥ kṣetrajña ucyate.\n\n\n\nEste corpo é chamado kṣetra, e dentro dele habita o proprietário do corpo e o Senhor Supremo, que conhece tanto o corpo quanto o proprietário do corpo. Por isso Ele é chamado o conhecedor de todos os campos. A distinção entre o campo de atividades, o proprietário das atividades e o supremo proprietário das atividades descreve-se da seguinte maneira. O conhecimento perfeito da constituição do corpo, da constituição da alma individual e da constituição da Superalma é conhecido na literatura Védica como jñānam. Esta é a opinião de Kṛṣṇa. Compreender que tanto a alma quanto a Superalma são uma só, e ainda assim distintas, é conhecimento. Aquele que não compreende o campo de atividade e o conhecedor da atividade não está em conhecimento perfeito. É preciso compreender a posição de prakṛti, a natureza, e de puruṣa, o desfrutador da natureza, e de īśvara, o conhecedor que domina ou controla a natureza e a alma individual. Não se devem confundir os três em suas diferentes capacidades. Não se deve confundir o pintor, a pintura e o cavalete. Este mundo material, que é o campo de atividades, é a natureza, e o desfrutador da natureza é a entidade viva, e acima de ambos está o controlador supremo, a Personalidade de Deus. Afirma-se na linguagem Védica: \"*bhoktā bhogyaṁ preritāraṁ ca matvā sarvaṁ proktaṁ tri-vidhaṁ brahmam etat*.\" Há três concepções de Brahman: prakṛti é Brahman como o campo de atividades, e a jīva (alma individual) também é Brahman e tenta controlar a natureza material, e o controlador de ambos também é Brahman, mas Ele é o controlador factual.\n\n\n\nNeste capítulo também se explicará que, dos dois conhecedores, um é falível e o outro é infalível. Um é superior e o outro é subordinado. Aquele que entende que os dois conhecedores do campo são um só e o mesmo contradiz a Suprema Personalidade de Deus, que afirma aqui muito claramente: \"Eu também sou o conhecedor do campo de atividade.\" Aquele que confunde uma corda com uma serpente não está em conhecimento. Há diferentes tipos de corpos, e há diferentes proprietários dos corpos. Como cada alma individual tem sua capacidade individual de assenhorear-se da natureza material, há diferentes corpos. Mas o Supremo também está presente neles como o controlador. A palavra ca é significativa, pois indica o número total de corpos. Esta é a opinião de Śrīla Baladeva Vidyābhūṣaṇa: Kṛṣṇa é a Superalma presente em todos e cada um dos corpos, à parte da alma individual. E Kṛṣṇa diz aqui explicitamente que a Superalma é o controlador tanto do campo de atividades quanto do desfrutador finito."}
{"ref": "bg/13/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/4/", "verse_text": "tat kṣetraṁ yac ca yādṛk ca\n\nyad-vikāri yataś ca yat\n\nsa ca yo yat-prabhāvaś ca\n\ntat samāsena me śṛṇu", "devanagari": "> तत्क्षेत्रं यच्च यादृक्च यद्विकारि यतश्च यत् ।\n> स च यो यत्प्रभावश्च तत्समासेन मे शृणु ॥४॥", "synonyms": "*tat*—esse; *kṣetram*—campo de atividades; *yat*—como; *ca*—também; *yādṛk*—tal como é; *ca*—também; *yat*—o que é; *vikāri*—mudanças; *yataḥ*—de onde; *ca*—também; *yat*—um; *saḥ*—ele; *ca*—também; *yaḥ*—um; *yat*—que; *prabhāvaḥ ca*—influência também; *tat*—isso; *samāsena*—em detalhe; *me*—de Mim; *śṛṇu*—compreende.", "translation": "**Agora ouve, por favor, Minha breve descrição deste campo de atividade e como ele se constitui, quais são suas mudanças, de onde é produzido, quem é esse conhecedor do campo de atividades e quais são suas influências.**", "purport": "O Senhor descreve o campo de atividades e o conhecedor do campo de atividades em suas posições constitucionais. É preciso saber como este corpo se constitui, dos materiais de que este corpo é feito, sob cujo controle este corpo trabalha, como ocorrem as mudanças, de onde provêm as mudanças, quais são as causas, quais são as razões, qual é a meta última do indivíduo e qual é a forma real da alma individual. Deve-se também conhecer a distinção entre a alma viva individual e a Superalma, as diferentes influências, suas potências, etc. Basta compreender este *Bhagavad-gītā* diretamente da descrição dada pela Suprema Personalidade de Deus, e tudo isso ficará esclarecido. Mas é preciso ter o cuidado de não considerar a Suprema Personalidade de Deus em cada corpo e alma individual como sendo a jīva. Isso seria algo como igualar o potente e o impotente."}
{"ref": "bg/13/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/5/", "verse_text": "ṛṣibhir bahudhā gītaṁ\n\nchandobhir vividhaiḥ pṛthak\n\nbrahma-sūtra-padaiś caiva\n\nhetumadbhir viniścitaiḥ", "devanagari": "> ऋषिभिर्बहुधा गीतं छन्दोभिर्विविधैः पृथक् ।\n> ब्रह्मसूत्रपदैश्चैव हेतुमद्भिर्विनिश्चितैः ॥५॥", "synonyms": "*ṛṣibhiḥ*—pelos sábios eruditos; *bahudhā*—de muitas maneiras; *gītām*—descrito; *chandobhiḥ*—hinos Védicos; *vividhaiḥ*—em vários; *pṛthak*—de modos diversos; *brahma-sūtra*—o Vedānta; *padaiḥ*—aforismo; *ca*—também; *eva*—certamente; *hetumadbhiḥ*—com causa e efeito; *viniścitaiḥ*—verifica.", "translation": "**Esse conhecimento do campo de atividades e do conhecedor das atividades é descrito por vários sábios em diversos escritos Védicos — especialmente no *Vedānta-sūtra* — e é apresentado com todo o raciocínio quanto à causa e ao efeito.**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a mais elevada autoridade em explicar este conhecimento. Ainda assim, como é natural, eruditos versados e autoridades reconhecidas sempre apresentam evidências de autoridades anteriores. Kṛṣṇa explica este pontilhão controverso a respeito da dualidade e da não-dualidade da alma e da Superalma referindo-Se às Escrituras, ao Vedānta, que são aceitas como autoridade. Primeiro, Ele diz que isto está de acordo com diversos sábios. Quanto aos sábios, além Dele próprio, Vyāsadeva, o autor do *Vedānta-sūtra*, é um grande sábio, e no *Vedānta-sūtra* a dualidade é perfeitamente explicada. E o pai de Vyāsadeva, Parāśara, também era um grande sábio, e em seus livros sobre religiosidade ele escreve: \"*aham tvaṁ ca athānye*...\" \"Nós — você, eu e várias outras entidades vivas — somos todos transcendentais, embora estejamos em corpos materiais. Agora caímos nos modos da natureza material conforme nosso diferente karma. Por isso, alguns estão em níveis mais elevados, e outros se encontram na natureza inferior. As naturezas superior e inferior existem devido à ignorância e estão se manifestando num número infinito de entidades vivas. Mas a Superalma, que é infalível, não se contamina pelas três qualidades da natureza e é transcendental.\" De modo semelhante, nos *Vedas* originais, faz-se uma distinção entre a alma, a Superalma e o corpo, especialmente no Kaṭha Upaniṣad.\n\n\n\nHá uma manifestação da energia do Senhor Supremo conhecida como annamaya, pela qual se depende simplesmente do alimento para a existência. Esta é uma compreensão materialista do Supremo. Em seguida, há prāṇamaya; isso significa que, após perceber a Suprema Verdade Absoluta no alimento, pode-se perceber a Verdade Absoluta nos sintomas vivos, ou nas formas de vida. Em jñānamaya, o sintoma vivo desenvolve-se até o ponto de pensar, sentir e desejar. Depois há a compreensão do Brahman e a compreensão chamada vijñānamaya, pela qual a mente e os sintomas de vida da entidade viva distinguem-se da própria entidade viva. A etapa seguinte e suprema é ānandamaya, a compreensão da natureza plenamente bem-aventurada. Há, portanto, cinco estágios da compreensão do Brahman, que se chama brahma puccham. Destes, os três primeiros — annamaya, prāṇamaya e jñānamaya — envolvem os campos de atividades das entidades vivas. Transcendental a todos esses campos de atividades é o Senhor Supremo, que é chamado ānandamaya. No *Vedānta-sūtra* também, o Supremo é chamado ānandamayo 'bhyāsāt. A Suprema Personalidade de Deus é, por natureza, plena de júbilo, e, para desfrutar de Sua bem-aventurança transcendental, expande-Se em vijñānamaya, prāṇamaya, jñānamaya e annamaya. Neste campo de atividades, a entidade viva é considerada o desfrutador, e diferente dela é o ānandamaya. Isso significa que, se a entidade viva decide desfrutar acoplando-se ao ānandamaya, então torna-se perfeita. Este é o quadro real do Senhor Supremo, como conhecedor supremo do campo, da entidade viva, como conhecedor subordinado, e da natureza do campo de atividades."}
{"ref": "bg/13/6-7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/6-7/", "verse_text": "mahā-bhūtāny ahaṅkāro\n\nbuddhir avyaktam eva ca\n\nindriyāṇi daśaikaṁ ca\n\npañca cendriya-gocarāḥ\n\nicchā dveṣaḥ sukhaṁ duḥkhaṁ\n\nsaṅghātaś cetanā dhṛtiḥ\n\netat kṣetraṁ samāsena\n\nsa-vikāram udāhṛtam", "devanagari": "> महाभूतान्यहंकारो बुद्धिरव्यक्तमेव च ।\n> इन्द्रियाणि दशैकं च पञ्च चेन्द्रियगोचराः ॥६॥\n> इच्छा द्वेषः सुखं दुःखं संघातश्चेतना धृतिः ।\n> एतत्क्षेत्रं समासेन सविकारमुदाहृतम् ॥७॥", "synonyms": "*mahā-bhūtāni*—grandes elementos; *ahaṅkāraḥ*—ego falso; *buddhiḥ*—inteligência; *avyaktam*—o imanifesto; *eva*—certamente; *ca*—também; *indriyāṇi*—sentidos; *daśa ekam*—onze; *ca*—também; *pañca*—cinco; *ca*—também; *indriya-gocarāḥ*—objetos dos sentidos; *icchā*—desejo; *dveṣaḥ*—ódio; *sukham*—felicidade; *duḥkham*—aflição; *saṅghataḥ*—o agregado; *cetanā*—sintomas vivos; *dhṛtiḥ*—convicção; *etat*—tudo isto; *kṣetram*—campo de atividades; *samāsena*—em resumo; *sa-vikāram*—interação; *udāhṛtam*—exemplificado.", "translation": "**Os cinco grandes elementos, o ego falso, a inteligência, o imanifesto, os dez sentidos, a mente, os cinco objetos dos sentidos, o desejo, o ódio, a felicidade, a aflição, o agregado, os sintomas vivos e as convicções — tudo isto, em resumo, considera-se o campo de atividades e suas interações.**", "purport": "A partir de todas as afirmações autorizadas dos grandes sábios, dos hinos Védicos e dos aforismos do *Vedānta-sūtra*, os componentes deste mundo são a terra, a água, o fogo, o ar e o éter. Estes são os cinco grandes elementos (mahābhūta). Em seguida, há o ego falso, a inteligência e o estado imanifesto dos três modos da natureza. Depois, há cinco sentidos para adquirir conhecimento: os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e o tato. Em seguida, cinco sentidos de trabalho: a voz, as pernas, as mãos, o ânus e os genitais. Acima dos sentidos, há a mente, que está dentro e que pode ser chamada o sentido interior. Por isso, incluindo a mente, há ao todo onze sentidos. Há, então, os cinco objetos dos sentidos: o olfato, o paladar, o calor, o tato e o som. Ora, o agregado destes vinte e quatro elementos chama-se o campo de atividade. Se a pessoa fizer um estudo analítico destes vinte e quatro temas, poderá compreender muito bem o campo de atividade. Em seguida, há o desejo, o ódio, o prazer e a dor, que são interações, representações dos cinco grandes elementos no corpo grosseiro. Os sintomas vivos, representados pela consciência e pela convicção, são a manifestação do corpo sutil — a mente, o ego e a inteligência. Estes elementos sutis estão incluídos no campo de atividades.\n\n\n\nOs cinco grandes elementos são uma representação grosseira do ego falso sutil. Eles são uma representação na concepção material. A consciência é representada pela inteligência, cujo estado imanifesto são os três modos da natureza material. Os três modos imanifestos da natureza material chamam-se pradhāna.\n\n\n\nQuem desejar conhecer detalhadamente os vinte e quatro elementos juntamente com suas interações deverá estudar a filosofia mais minuciosamente. No *Bhagavad-gītā*, dá-se apenas um resumo.\n\n\n\nO corpo é a representação de todos esses fatores, e há mudanças no corpo, que são em número de seis: o corpo nasce, cresce, permanece, produz subprodutos, depois começa a definhar e, na última fase, desaparece. Por conseguinte, o campo é uma coisa material não permanente. Contudo, o kṣetrajña, o conhecedor do campo, seu proprietário, é diferente."}
{"ref": "bg/13/8-12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/8-12/", "verse_text": "amānitvam adambhitvam\n\nahiṁsā kṣāntir ārjavam\n\nācāryopāsanaṁ śaucaṁ\n\nsthairyam ātma-vinigrahaḥ\n\nindriyārtheṣu vairāgyam\n\nanahaṅkāra eva ca\n\njanma-mṛtyu-jarā-vyādhi-\n\nduḥkha-doṣānudarśanam\n\nasaktir anabhiṣvaṅgaḥ\n\nputra-dāra-gṛhādiṣu\n\nnityaṁ ca sama-cittatvam\n\niṣṭāniṣṭopapattiṣu\n\nmayi cānanya-yogena\n\nbhaktir avyabhicāriṇī\n\nvivikta-deśa-sevitvam\n\naratir jana-saṁsadi\n\nadhyātma-jñāna-nityatvaṁ\n\ntattva-jñānārtha-darśanam\n\netaj jñānam iti proktam\n\najñānaṁ yad ato 'nyathā", "devanagari": "> अमानित्वमदम्भित्वमहिंसा क्षान्तिरार्जवम् ।\n> आचार्योपासनं शौचं स्थैर्यमात्मविनिग्रहः ॥८॥\n> इन्द्रियार्थेषु वैराग्यमनहंकार एव च ।\n> जन्ममृत्युजराव्याधिदुःखदोषानुदर्शनम् ॥९॥\n> असक्तिरनभिष्वङ्गः पुत्रदारगृहादिषु ।\n> नित्यं च समचित्तत्वमिष्टानिष्टोपपत्तिषु ॥१०॥\n> मयि चानन्ययोगेन भक्तिरव्यभिचारिणी ।\n> विविक्तदेशसेवित्वमरतिर्जनसंसदि ॥११॥\n> अध्यात्मज्ञाननित्यत्वं तत्त्वज्ञानार्थदर्शनम् ।\n> एतज्ज्ञानमिति प्रोक्तमज्ञानं यदतोऽन्यथा ॥१२॥", "synonyms": "*amānitvam*—humildade; *adambhitvam*—ausência de orgulho; *ahiṁsā*—não-violência; *kṣāntiḥ*—tolerância; *ārjavam*—simplicidade; *ācārya-upāsanam*—aproximar-se de um mestre espiritual genuíno; *śaucam*—limpeza; *sthairyam*—firmeza; *ātma-vinigrahaḥ*—controle; *iṇdriya-artheṣu*—em matéria dos sentidos; *vairāgyam*—renúncia; *anahaṅkāraḥ*—sem egoísmo falso; *eva*—certamente; *ca*—também; *janma*—nascimento; *mṛtyu*—morte; *jarā*—velhice; *vyādhi*—doença; *duḥkha*—aflição; *doṣa*—defeito; *anudarśanam*—observando; *asaktiḥ*—sem apego; *anabhiṣvaṅgaḥ*—sem associação; *putra*—filho; *dāra*—esposa; *gṛha-ādiṣu*—lar, etc.; nityam; *ca*—também; *sama-cittatvam*—equilíbrio; *iṣṭa*—desejável; *aniṣṭaḥ*—indesejável; *upapattiṣu*—tendo obtido; *mayi*—a Mim; *ca*—também; *ananya-yogena*—pelo serviço devocional; *bhaktiḥ*—devoção; *avyabhicāriṇī*—constante, imaculada; *vivikta*—solitário; *deśa*—lugar; *sevitvam*—aspirando; *aratiḥ*—sem apego; *jana*—pessoas em geral; *saṁsadi*—massa; *adhyātma*—pertinente ao eu; *jñāna*—conhecimento; *nityatvam*—eternidade; *tattva-jñāna*—conhecimento da verdade; *artha*—o objeto; *darśanam*—filosofia; *etat*—tudo isto; *jñānam*—conhecimento; *iti*—assim; *proktam*—declarado; *ajñānam*—ignorância; *yat*—aquilo que; *ataḥ*—disto; *anyathā*—outros.", "translation": "**Humildade, ausência de orgulho, não-violência, tolerância, simplicidade, aproximar-se de um mestre espiritual genuíno, limpeza, firmeza e autocontrole; renúncia aos objetos da gratificação dos sentidos, ausência de ego falso, percepção do mal do nascimento, da morte, da velhice e da doença; desapego de filhos, esposa, lar e o resto, equanimidade em meio a acontecimentos agradáveis e desagradáveis; devoção constante e imaculada a Mim, ir a lugares solitários, desapego da massa geral das pessoas; aceitar a importância da autorrealização, e a busca filosófica da Verdade Absoluta — tudo isto declaro, portanto, ser conhecimento, e o que se opõe a isto é ignorância.**", "purport": "Este processo de conhecimento é, às vezes, mal interpretado por homens menos inteligentes como sendo a interação do campo de atividade. Mas, na verdade, este é o verdadeiro processo de conhecimento. Se a pessoa aceitar este processo, então existe a possibilidade de aproximar-se da Verdade Absoluta. Esta não é a interação dos dez elementos, como se descreveu antes. Este é, de fato, o meio de sair dela. De todas as descrições do processo de conhecimento, o ponto mais importante é descrito na primeira linha do décimo verso: o processo de conhecimento culmina no serviço devocional imaculado ao Senhor. Assim, se alguém não se aproxima, ou não consegue aproximar-se, do serviço transcendental ao Senhor, então os outros dezenove itens não têm valor especial. Porém, se alguém adota o serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa, os outros dezenove itens desenvolvem-se nele automaticamente. O princípio de aceitar um mestre espiritual, mencionado no sétimo verso, é essencial. Mesmo para aquele que adota o serviço devocional, é da maior importância. A vida transcendental começa quando se aceita um mestre espiritual genuíno. A Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, afirma claramente aqui que este processo de conhecimento é a verdadeira senda. Tudo o que se especula além disso é disparate.\n\n\n\nQuanto ao conhecimento aqui delineado, os itens podem ser analisados da seguinte forma: humildade significa que não se deve estar ansioso por ter a satisfação de ser honrado pelos outros. A concepção material da vida torna-nos muito ávidos por receber honra dos outros, mas, do ponto de vista de um homem em conhecimento perfeito — que sabe que não é este corpo —, qualquer coisa, honra ou desonra, pertinente a este corpo é inútil. Não se deve almejar este engano material. As pessoas estão muito ansiosas por ficar famosas pela sua religião e, em consequência, às vezes se encontra que, sem compreender os princípios da religião, alguém entra em algum grupo, que de fato não está seguindo princípios religiosos, e depois quer anunciar-se como mentor religioso. Quanto ao avanço real na ciência espiritual, a pessoa deve dispor de um teste para ver até que ponto está progredindo. Pode julgar-se por estes itens.\n\n\n\nA não-violência geralmente é entendida como não matar nem destruir o corpo, mas, na verdade, não-violência significa não pôr os outros em aflição. Em geral, as pessoas estão presas pela ignorância na concepção material da vida, e sofrem perpetuamente as dores materiais. Logo, a menos que se eleve as pessoas ao conhecimento espiritual, está-se praticando violência. A pessoa deve fazer o seu melhor para distribuir o verdadeiro conhecimento ao povo, para que se ilumine e abandone este enredamento material. Isso é não-violência.\n\n\n\nTolerância significa que a pessoa deve estar treinada para suportar insultos e desonra dos outros. Se alguém está dedicado ao avanço do conhecimento espiritual, haverá tantos insultos e tanta desonra por parte dos outros. Isto é esperado, porque a natureza material assim se constitui. Mesmo um menino como Prahlāda, que, com apenas cinco anos de idade, dedicava-se ao cultivo do conhecimento espiritual, foi posto em perigo quando seu pai tornou-se hostil à sua devoção. O pai tentou matá-lo de muitas maneiras, mas Prahlāda o tolerou. Assim, para fazer avanço no conhecimento espiritual, pode haver muitos impedimentos, mas devemos ser tolerantes e prosseguir em nosso progresso com determinação.\n\n\n\nSimplicidade significa que, sem diplomacia, a pessoa deve ser tão franca, que possa revelar a verdade real até mesmo a um inimigo. Quanto à aceitação do mestre espiritual, isso é essencial, porque, sem a instrução de um mestre espiritual genuíno, ninguém pode progredir na ciência espiritual. Deve-se aproximar do mestre espiritual com toda humildade e oferecer-lhe todos os serviços, para que ele se sinta satisfeito em conferir suas bênçãos ao discípulo. Como um mestre espiritual genuíno é representante de Kṛṣṇa, se ele conferir quaisquer bênçãos a seu discípulo, isso fará com que o discípulo avance imediatamente, sem que o discípulo tenha de seguir os princípios reguladores. Ou então, os princípios reguladores serão mais fáceis para aquele que serviu o mestre espiritual sem reservas.\n\n\n\nA limpeza é essencial para se fazer avanço na vida espiritual. Há dois tipos de limpeza: externa e interna. A limpeza externa significa tomar banho, mas, para a limpeza interna, é preciso pensar sempre em Kṛṣṇa e cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Este processo limpa da mente o pó acumulado do karma passado.\n\n\n\nFirmeza significa que a pessoa deve ser muito determinada a fazer progresso na vida espiritual. Sem tal determinação, ninguém pode fazer progresso tangível. E autocontrole significa que não se deve aceitar nada que seja prejudicial à senda do progresso espiritual. Deve-se acostumar-se a isto e rejeitar tudo o que vai contra a senda do progresso espiritual. Isso é renúncia verdadeira. Os sentidos são tão fortes, que estão sempre ávidos por gratificação dos sentidos. Não se deve atender a essas exigências, que não são necessárias. Os sentidos só devem ser gratificados para manter o corpo em forma, de modo que a pessoa possa cumprir seu dever de avançar na vida espiritual. O sentido mais importante e mais incontrolável é a língua. Se alguém conseguir controlar a língua, há toda a possibilidade de controlar os outros sentidos. A função da língua é saborear e vibrar. Por isso, mediante regulação sistemática, a língua deve estar sempre ocupada em saborear os restos dos alimentos oferecidos a Kṛṣṇa e em cantar Hare Kṛṣṇa. Quanto aos olhos, não devem ser autorizados a ver nada além da bela forma de Kṛṣṇa. Isso controlará os olhos. De modo semelhante, os ouvidos devem ocupar-se em ouvir sobre Kṛṣṇa e o nariz em cheirar as flores oferecidas a Kṛṣṇa. Este é o processo do serviço devocional, e fica entendido aqui que o *Bhagavad-gītā* simplesmente expõe a ciência do serviço devocional. O serviço devocional é o objetivo principal e único. Comentadores pouco inteligentes do *Gītā* tentam desviar a mente do leitor para outros assuntos, mas não há outro assunto no *Bhagavad-gītā* a não ser o serviço devocional.\n\n\n\nEgo falso significa aceitar este corpo como o eu. Quando se compreende que não se é o corpo e sim alma espiritual, isso é o ego verdadeiro. O ego está aí. O ego falso é condenado, mas não o ego verdadeiro. Na literatura Védica, diz-se: ahaṁ brahmāsmi. Eu sou Brahman, sou espírito. Este \"Eu sou\", o senso de eu, também existe no estágio liberado da autorrealização. Este senso de \"Eu sou\" é ego, mas, quando o senso de \"Eu sou\" é aplicado a este corpo falso, é ego falso. Quando o senso de eu é aplicado à realidade, isso é ego verdadeiro. Há alguns filósofos que dizem que devemos abandonar nosso ego, mas não podemos abandonar nosso ego, porque ego significa identidade. Devemos, naturalmente, abandonar a identificação falsa com o corpo.\n\n\n\nDeve-se procurar compreender a aflição de aceitar nascimento, morte, velhice e doença. Há descrições em várias literaturas Védicas a respeito do nascimento. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, descrevem-se muito graficamente o mundo do não nascido, a permanência da criança no ventre da mãe, seu sofrimento, etc. Deve-se compreender perfeitamente que o nascimento é aflitivo. Como nos esquecemos de quanta aflição padecemos dentro do ventre da mãe, não fazemos qualquer solução para a repetição do nascimento e da morte. De modo semelhante, no momento da morte, há toda espécie de sofrimentos, e estes também são mencionados nas escrituras autorizadas. Estes devem ser discutidos. E quanto à doença e à velhice, todos têm experiência prática. Ninguém quer ficar doente, e ninguém quer envelhecer, mas não há como evitá-los. A menos que tenhamos uma visão pessimista desta vida material, considerando as aflições do nascimento, da morte, da velhice e da doença, não há ímpeto para que façamos avanço na vida espiritual.\n\n\n\nQuanto ao desapego dos filhos, esposa e lar, isso não significa que se deva não ter sentimento por estes. Eles são objetos naturais de afeição, mas, quando não são favoráveis ao progresso espiritual, então não se deve estar apegado a eles. O melhor processo para tornar o lar agradável é a consciência de Kṛṣṇa. Se alguém está em plena consciência de Kṛṣṇa, pode tornar seu lar muito feliz, porque este processo da consciência de Kṛṣṇa é muito fácil. Basta cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, aceitar os restos dos alimentos oferecidos a Kṛṣṇa, ter alguma discussão sobre livros como o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam*, e ocupar-se na adoração à Deidade. Estas quatro coisas farão com que se seja feliz. Deve-se treinar os membros da família dessa maneira. Os membros da família podem sentar-se manhã e noite e cantar juntos Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Se alguém puder moldar sua vida familiar dessa maneira para desenvolver a consciência de Kṛṣṇa, seguindo estes quatro princípios, então não há necessidade de mudar da vida familiar para a vida renunciada. Mas se ela não for propícia, não favorável ao progresso espiritual, então a vida familiar deve ser abandonada. É preciso sacrificar tudo para perceber ou servir a Kṛṣṇa, exatamente como Arjuna fez. Arjuna não desejava matar os membros de sua família, mas, quando compreendeu que estes membros da família eram impedimentos à sua compreensão de Kṛṣṇa, aceitou a instrução de Kṛṣṇa, lutou e os matou. Em todos os casos, deve-se estar desapegado da felicidade e da aflição da vida familiar, porque, neste mundo, ninguém pode ser plenamente feliz nem plenamente miserável. A felicidade e a aflição são fatores concomitantes da vida material. Deve-se aprender a tolerar, como aconselha o *Bhagavad-gītā*. Nunca se pode restringir a chegada e a partida da felicidade e da aflição, de modo que se deve estar desapegado do modo de vida materialista e ficar automaticamente equilibrado em ambos os casos. Geralmente, quando obtemos algo desejável, ficamos muito felizes, e quando obtemos algo indesejável, ficamos aflitos. Mas se estivermos realmente na posição espiritual, estas coisas não nos agitarão. Para alcançar essa etapa, temos de praticar serviço devocional ininterrupto; serviço devocional a Kṛṣṇa sem desvio significa ocupar-se nos nove processos do serviço devocional — cantar, ouvir, adorar, oferecer respeito, etc. — como descrito no último verso do Nono Capítulo. Esse processo deve ser seguido. Naturalmente, quando a pessoa se adapta ao modo de vida espiritual, não desejará misturar-se com homens materialistas. Isso iria contra o seu temperamento. Pode-se testar a si mesmo vendo até que ponto se está inclinado a viver em um lugar solitário sem associação indesejada.\n\n\n\nNaturalmente, um devoto não tem gosto por esportes desnecessários ou por idas a cinema ou pelo desfrute de alguma função social, porque compreende que estes são simplesmente perda de tempo. Há muitos pesquisadores e filósofos que estudam a vida sexual ou algum outro tema, mas, segundo o *Bhagavad-gītā*, esse trabalho de pesquisa e a especulação filosófica não têm valor. Isso é mais ou menos disparatado. De acordo com o *Bhagavad-gītā*, deve-se fazer pesquisa por discrição filosófica sobre a natureza da alma. Deve-se pesquisar para compreender com o que o eu está envolvido. Isso é o que se recomenda aqui.\n\n\n\nQuanto à autorrealização, afirma-se claramente aqui que o bhakti-yoga é especialmente prático. Tão logo se trate de devoção, deve-se considerar a relação entre a Superalma e a alma individual. A alma individual e a Superalma não podem ser uma só, ao menos não na concepção do bhakti, na concepção devocional da vida. Este serviço da alma individual à Alma Suprema é eterno, nityam, como se afirma claramente. Logo, o bhakti, ou serviço devocional, é eterno. Deve-se estabelecer-se nessa convicção filosófica; caso contrário, é apenas perda de tempo, ignorância.\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam*, isso se explica: vadanti tat tattva-vidas tattvaṁ yaj jñānam advayam. \"Aqueles que de fato conhecem a Verdade Absoluta sabem que o Eu é percebido em três fases distintas como Brahman, Paramātmā e Bhagavān.\" (Bhāg. 1.2.11) Bhagavān é a última palavra na compreensão da Verdade Absoluta; por isso, deve-se chegar a essa plataforma de compreensão da Suprema Personalidade de Deus e, assim, ocupar-se no serviço devocional ao Senhor. Esta é a perfeição do conhecimento.\n\n\n\nComeçando pela prática da humildade até o ponto da compreensão da Verdade Suprema, a Personalidade Absoluta de Deus, este processo é como uma escada que vai do andar térreo até o último andar. Ora, nessa escada há tantas pessoas que chegaram ao primeiro andar, ao segundo ou ao terceiro, etc., mas, a menos que se chegue ao último andar, que é a compreensão de Kṛṣṇa, está-se em um nível inferior de conhecimento. Se alguém quiser competir com Deus e, ao mesmo tempo, fazer avanço no conhecimento espiritual, ficará frustrado. Afirma-se claramente que sem humildade a compreensão é prejudicial. Achar-se Deus é o cúmulo do convencimento. Embora a entidade viva esteja sempre sendo escoiceada pelas leis estritas da natureza material, ainda assim ela pensa: \"Eu sou Deus\", devido à ignorância. Deve-se ser humilde e saber que se é subordinado ao Senhor Supremo. Devido à rebeldia contra o Senhor Supremo, a pessoa torna-se subordinada à natureza material. É preciso conhecer e estar convicto desta verdade."}
{"ref": "bg/13/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/13/", "verse_text": "jñeyaṁ yat tat pravakṣyāmi\n\nyaj jñātvāmṛtam aśnute\n\nanādi mat-paraṁ brahma\n\nna sat tan nāsad ucyate", "devanagari": "> ज्ञेयं यत्तत्प्रवक्ष्यामि यज्ज्ञात्वामृतमश्नुते ।\n> अनादिमत्परं ब्रह्म न सत्तन्नासदुच्यते ॥१३॥", "synonyms": "*jñeyam*—conhecível; *yat*—aquilo; *tat*—que; *pravakṣyāmi*—explicarei agora; *yat*—que; *jñātvā*—conhecendo; *amṛtam*—néctar; *aśnute*—saboreia; *anādi*—sem princípio; *mat-param*—subordinado a Mim; *brahma*—espírito; *na*—nem; *sat*—causa; *tat*—aquilo; *na*—nem; *asat*—efeito; *ucyate*—chama-se.", "translation": "**Agora explicarei o conhecível, ao conhecer o qual saborearás o eterno. Isto não tem princípio e é subordinado a Mim. Chama-se Brahman, o espírito, e está além da causa e do efeito deste mundo material.**", "purport": "O Senhor explicou o campo de atividades e o conhecedor do campo. Também explicou o processo de conhecer o conhecedor do campo de atividades. Agora, está explicando o conhecível, tanto a alma quanto a Superalma respectivamente. Pelo conhecimento do conhecedor, tanto da alma quanto da Superalma, pode-se saborear o néctar da vida. Como se explicou no Segundo Capítulo, a entidade viva é eterna. Isto também é confirmado aqui. Não há data específica em que a jīva tenha nascido. Tampouco pode alguém rastrear a história da manifestação da jīvātmā a partir do Senhor Supremo. Por isso, é sem princípio. A literatura Védica confirma isto: na jāyate mṛjayate vā vipaścit. O conhecedor do corpo nunca nasce nem morre, e é pleno de conhecimento. O Senhor Supremo é também declarado na literatura Védica como pradhāna-kṣetrajña-patir guṇeśaḥ. O Senhor Supremo, como Superalma, é o principal conhecedor do corpo, e é o senhor dos três modos da natureza material. No smṛti afirma-se: dāsa-bhūto harer eva nānyasvaiva kadācana. As entidades vivas estão eternamente a serviço do Senhor Supremo. Isto também é confirmado pelo Senhor Caitanya em Seu ensinamento; portanto, a descrição do Brahman mencionada neste verso refere-se à alma individual, e quando a palavra Brahman é aplicada à entidade viva, deve-se compreender que ela é vijñānaṁ brahma, em oposição ao ananta-brahma. O ananta-brahma é o Supremo Brahman, a Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/13/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/14/", "verse_text": "sarvataḥ pāṇi-pādaṁ tat\n\nsarvato 'kṣi-śiro-mukham\n\nsarvataḥ śrutimal loke\n\nsarvam āvṛtya tiṣṭhati", "devanagari": "> सर्वतः पाणिपादं तत्सर्वतोऽक्षिशिरोमुखम् ।\n> सर्वतः श्रुतिमल्लोके सर्वमावृत्य तिष्ठति ॥१४॥", "synonyms": "*sarvataḥ*—em toda parte; *pāṇi*—mãos; *pādam*—pernas; *tat*—isso; *sarvataḥ*—em toda parte; *akṣi*—olhos; *śiraḥ*—cabeça; *mukham*—rosto; *sarvataḥ*—em toda parte; *śrutimat*—audição; *loke*—no mundo; *sarvam*—em toda parte; *āvṛtya*—cobrindo; *tiṣṭhati*—existe.", "translation": "**Em toda parte estão Suas mãos e pernas, Seus olhos e rostos, e Ele tudo ouve. Dessa maneira, a Superalma existe.**", "purport": "Assim como o sol existe difundindo seus raios ilimitados, assim também existe a Superalma, ou Suprema Personalidade de Deus. Ele existe em Sua forma onipenetrante, e Nele existem todas as entidades vivas individuais, começando pelo primeiro grande mestre, Brahmā, até as pequenas formigas. Há ilimitadas cabeças, pernas, mãos e olhos, e ilimitadas entidades vivas. Todas existem na Superalma e sobre Ela. Por isso, a Superalma é onipenetrante. A alma individual, no entanto, não pode dizer que tem suas mãos, pernas e olhos em toda parte. Isso não é possível. Se ela pensar que, embora sob ignorância não esteja consciente de que suas mãos e pernas estão difundidas por toda parte, mas que, ao alcançar o devido conhecimento, chegará a essa etapa, seu pensamento é contraditório. Isto significa que a alma individual, tendo-se tornado condicionada pela natureza material, não é suprema. O Supremo é diferente da alma individual. O Senhor Supremo pode estender Sua mão sem limite; a alma individual não pode. No *Bhagavad-gītā*, o Senhor diz que se alguém Lhe oferecer uma flor, ou uma fruta, ou um pouco de água, Ele aceita. Se o Senhor está a uma grande distância, como pode aceitar coisas? Esta é a onipotência do Senhor: embora esteja situado em Sua própria morada, muito, muito longe da Terra, pode estender Sua mão para aceitar o que quer que alguém Lhe ofereça. Esta é Sua potência. Na Brahmā-saṁhitā, afirma-se: goloka eva nivasati: embora esteja sempre dedicado a passatempos em Seu planeta transcendental, é onipenetrante. A alma individual não pode pretender ser onipenetrante. Por isso, este verso descreve a Alma Suprema, a Personalidade de Deus, e não a alma individual."}
{"ref": "bg/13/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/15/", "verse_text": "sarvendriya-guṇābhāsaṁ\n\nsarvendriya-vivarjitam\n\nasaktaṁ sarva-bhṛc caiva\n\nnirguṇaṁ guṇa-bhoktṛ ca", "devanagari": "> सर्वेन्द्रियगुणाभासं सर्वेन्द्रियविवर्जितम् ।\n> असक्तं सर्वभृच्चैव निर्गुणं गुणभोक्तृ च ॥१५॥", "synonyms": "*sarve*—todos; *indriya*—sentidos; *guṇa*—qualidades; *ābhāsam*—fonte original; *sarva*—todos; *indriya*—sentidos; *vivarjitam*—sendo desprovido; *asaktam*—sem apego; *sarva-bhṛt*—mantenedor de todos; *ca*—também; *eva*—certamente; *nirguṇam*—sem qualidades materiais; *guṇa-bhoktṛ*—simultaneamente senhor dos guṇas; *ca*—também.", "translation": "**A Superalma é a fonte original de todos os sentidos, mas não tem sentidos. Ele é desapegado, embora seja o mantenedor de todos os seres vivos. Transcende os modos da natureza e, ao mesmo tempo, é o senhor de todos os modos da natureza material.**", "purport": "Embora seja a fonte de todos os sentidos das entidades vivas, o Senhor Supremo não tem sentidos materiais como elas têm. Na verdade, as almas individuais têm sentidos espirituais, mas, na vida condenada, estes ficam cobertos pelos elementos materiais e, por isso, as atividades dos sentidos são exibidas por meio da matéria. Os sentidos do Senhor Supremo não estão assim cobertos. Seus sentidos são transcendentais e, portanto, são chamados nirguṇa. Guṇa significa os modos materiais, mas Seus sentidos não têm cobertura material. Deve-se compreender que Seus sentidos não são exatamente como os nossos. Embora seja a fonte de todas as nossas atividades sensoriais, Ele tem Seus sentidos transcendentais, que não estão contaminados. Isso é muito bem explicado no Śvetāśvatara Upaniṣad, no verso: sarvataḥ pāṇi-pādam. A Suprema Personalidade de Deus não tem mãos materialmente contaminadas, mas Ele tem Suas mãos e aceita qualquer sacrifício que Lhe seja oferecido. Esta é a distinção entre a alma condicionada e a Superalma. Ele não tem olhos materiais, mas tem olhos — caso contrário, como poderia ver? Ele vê tudo, passado, presente e futuro. Vive dentro do coração do ser vivo, e sabe o que fizemos no passado, o que estamos fazendo agora e o que nos aguarda no futuro. Isto também é confirmado no *Bhagavad-gītā*: Ele sabe tudo, mas ninguém O conhece. Diz-se que o Senhor Supremo não tem pernas como nós, mas pode viajar por todo o espaço, porque possui pernas espirituais. Em outras palavras, o Senhor não é impessoal; Ele tem Seus olhos, pernas, mãos e tudo o mais, e, como somos partes integrantes do Senhor Supremo, também possuímos essas coisas. Mas Suas mãos, pernas, olhos e sentidos não estão contaminados pela natureza material.\n\n\n\nO *Bhagavad-gītā* também confirma que, quando o Senhor aparece, aparece como Ele é, por Sua potência interna. Não está contaminado pela energia material, porque é o Senhor da energia material. Na literatura Védica, descobrimos que toda a Sua corporificação é espiritual. Possui Sua forma eterna, chamada sac-cid-ānanda-vigraha. É pleno de toda opulência. É o proprietário de toda a riqueza e o dono de toda a energia. É o mais inteligente e é pleno de conhecimento. Estes são alguns dos sintomas da Suprema Personalidade de Deus. É o mantenedor de todas as entidades vivas e a testemunha de todas as atividades. No que podemos compreender da literatura Védica, o Senhor Supremo é sempre transcendental. Embora não vejamos Sua cabeça, rosto, mãos ou pernas, Ele os possui, e quando somos elevados à situação transcendental, então podemos ver a forma do Senhor. Devido aos sentidos materialmente contaminados, não podemos ver Sua forma. Por isso, os impersonalistas, que ainda estão materialmente afetados, não podem compreender a Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/13/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/16/", "verse_text": "bahir antaś ca bhūtānām\n\nacaraṁ caram eva ca\n\nsūkṣmatvāt tad avijñeyaṁ\n\ndūra-sthaṁ cāntike ca tat", "devanagari": "> बहिरन्तश्च भूतानामचरं चरमेव च ।\n> सूक्ष्मत्वात्तदविज्ञेयं दूरस्थं चान्तिके च तत् ॥१६॥", "synonyms": "*bahiḥ*—fora; *antaḥ*—dentro; *ca*—também; *bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *acaram*—não móvel; *caram*—móvel; *eva*—também; *ca*—e; *sūkṣmatvāt*—devido a ser sutil; *tat*—isso; *avijñeyam*—incognoscível; *dūrasthaṁ*—muito longe; *ca antike*—também perto; *ca*—e; *tat*—isso.", "translation": "**A Verdade Suprema existe tanto interna quanto externamente, no que se move e no que não se move. Ele está além do poder dos sentidos materiais para vê-Lo ou conhecê-Lo. Embora muito, muito distante, Ele está também perto de todos.**", "purport": "Na literatura Védica, compreendemos que Nārāyaṇa, a Pessoa Suprema, reside tanto fora quanto dentro de cada entidade viva. Ele está presente tanto no mundo espiritual quanto no material. Embora esteja muito, muito longe, ainda assim está perto de nós. Estas são as afirmações da literatura Védica. Āsīno dūraṁ vrajati śayāno yāti sarvataḥ. E, por estar sempre dedicado à bem-aventurança transcendental, não podemos compreender como Ele desfruta de Sua plena opulência. Não podemos vê-Lo nem compreendê-Lo com estes sentidos materiais. Por isso, na linguagem Védica, diz-se que, para compreendê-Lo, nossa mente e sentidos materiais não podem agir. Mas aquele que purificou sua mente e sentidos pela prática da consciência de Kṛṣṇa em serviço devocional pode vê-Lo constantemente. Confirma-se na Brahmā-saṁhitā que o devoto que desenvolveu amor pelo Deus Supremo pode vê-Lo sempre, sem cessar. E confirma-se no *Bhagavad-gītā* (11.54) que Ele só pode ser visto e compreendido pelo serviço devocional. Bhaktyā tvananyayā śakyaḥ."}
{"ref": "bg/13/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/17/", "verse_text": "avibhaktaṁ ca bhūteṣu\n\nvibhaktam iva ca sthitam\n\nbhūta-bhartṛ ca taj jñeyaṁ\n\ngrasiṣṇu prabhaviṣṇu ca", "devanagari": "> अविभक्तं च भूतेषु विभक्तमिव च स्थितम् ।\n> भूतभर्तृ च तज्ज्ञेयं ग्रसिष्णु प्रभविष्णु च ॥१७॥", "synonyms": "*avibhaktam*—sem divisão; *ca*—também; *bhūteṣu*—em cada ser vivo; *vibhaktam*—dividido; *iva*—como se; *ca*—também; *sthitam*—situado; *bhūta-bhartṛ*—mantenedor de todas as entidades vivas; *ca*—também; *tat*—isso; *jñeyam*—a ser compreendido; *grasiṣṇu*—devora; *prabhaviṣṇu*—desenvolve; *ca*—também.", "translation": "**Embora a Superalma pareça estar dividida, Ele nunca é dividido. Está situado como um só. Embora seja o mantenedor de cada entidade viva, deve-se compreender que devora e desenvolve a todos.**", "purport": "O Senhor está situado no coração de todos como a Superalma. Significa isto que Ele se dividiu? Não. Na verdade, é um. Dá-se o exemplo do sol: o sol, no meridiano, está situado em seu lugar. Mas se alguém andar oito mil quilômetros em todas as direções e perguntar: \"Onde está o sol?\", todos dirão que ele está brilhando sobre suas cabeças. Na literatura Védica, dá-se este exemplo para mostrar que, embora seja indiviso, está situado como se estivesse dividido. Também se diz na literatura Védica que um único Viṣṇu está presente em toda parte por Sua onipotência, assim como o sol aparece em muitos lugares para muitas pessoas. E o Senhor Supremo, embora seja o mantenedor de cada entidade viva, devora tudo no momento da aniquilação. Isso foi confirmado no Décimo Primeiro Capítulo, quando o Senhor disse que viera para devorar todos os guerreiros reunidos em Kurukṣetra. Ele também menciona que, na forma do tempo, devora também. Ele é o aniquilador, o matador de todos. Quando há a criação, Ele desenvolve todos a partir de seu estado original, e, no momento da aniquilação, devora-os. Os hinos Védicos confirmam o fato de que Ele é a origem de todas as entidades vivas e o repouso de todas elas. Após a criação, tudo repousa em Sua onipotência, e, após a aniquilação, tudo retorna a repousar Nele. Estas são as confirmações dos hinos Védicos. Yato vā imāni bhūtāni jāyante yena jātāni jīvanti yat prayanty abhisaṁviśanti tad brahma tad vijijñāsasva. (Taittirīya Upaniṣad, 3.1)"}
{"ref": "bg/13/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/18/", "verse_text": "jyotiṣām api taj jyotis\n\ntamasaḥ param ucyate\n\njñānaṁ jñeyaṁ jñāna-gamyaṁ\n\nhṛdi sarvasya viṣṭhitam", "devanagari": "> ज्योतिषामपि तज्ज्योतिस्तमसः परमुच्यते ।\n> ज्ञानं ज्ञेयं ज्ञानगम्यं हृदि सर्वस्य विष्ठितम् ॥१८॥", "synonyms": "*jyotiṣām*—em todos os objetos luminosos; *api*—também; *tat*—isso; *jyotiḥ*—fonte de luz; *tamasaḥ*—da escuridão; *param*—além; *ucyate*—diz-se; *jñānam*—conhecimento; *jñeyam*—a ser conhecido; *jñāna-gamyam*—a ser abordado pelo conhecimento; *hṛdi*—no coração; *sarvasya*—de todos; *viṣṭhitam*—situado.", "translation": "**Ele é a fonte de luz em todos os objetos luminosos. Está além da escuridão da matéria e é imanifesto. Ele é o conhecimento, é o objeto do conhecimento, e é a meta do conhecimento. Está situado no coração de todos.**", "purport": "A Superalma, a Suprema Personalidade de Deus, é a fonte de luz em todos os objetos luminosos, como o sol, a lua, as estrelas, etc. Na literatura Védica, encontramos que, no reino espiritual, não há necessidade de sol nem de lua, porque ali está a refulgência do Senhor Supremo. No mundo material, esse brahmajyoti, a refulgência espiritual do Senhor, está coberto pelo mahat-tattva, os elementos materiais; por isso, neste mundo material, exigimos a assistência do sol, da lua, da eletricidade, etc., para a luz. Mas, no mundo espiritual, não há necessidade de tais coisas. Afirma-se claramente na literatura Védica que, devido à Sua refulgência luminosa, tudo está iluminado. Está claro, por conseguinte, que Sua situação não é no mundo material. Ele está situado no mundo espiritual, que está muito, muito distante, no céu espiritual. Isso também se confirma na literatura Védica. Āditya-varṇam tamasaḥ parastāt. Ele é como o sol, eternamente luminoso, mas está muito, muito além da escuridão deste mundo material. Seu conhecimento é transcendental. A literatura Védica confirma que Brahman é conhecimento transcendental concentrado. Àquele que está ansioso por ser transferido para esse mundo espiritual, o conhecimento é dado pelo Senhor Supremo, que está situado no coração de todos.\n\n\n\nUm mantra Védico diz: taṁ ha devam ātma-buddhi-prakāśaṁ mumukṣur vai śaraṇam aham prapadye. Deve-se render-se à Suprema Personalidade de Deus, se de fato se quiser a liberação. Quanto à meta do conhecimento último, isso também é confirmado na literatura Védica: tam eva viditvātimṛtyum eti. \"Somente conhecendo-Te, pode-se transpor o limite do nascimento e da morte.\" Ele está situado no coração de todos como o controlador supremo. O Supremo tem pernas e mãos distribuídas em toda parte, e isto não se pode dizer da alma individual. Por isso, deve-se admitir que há dois conhecedores do campo de atividade — a alma individual e a Superalma. As mãos e pernas da pessoa são distribuídas localmente, mas as mãos e pernas de Kṛṣṇa são distribuídas em toda parte. Isso se confirma no Śvetāśvatara Upaniṣad: sarvasya prabhum īśānaṁ sarvasya śaraṇaṁ bṛhat. Essa Suprema Personalidade de Deus, a Superalma, é o prabhu, ou senhor de todas as entidades vivas; por isso, é o centro último de todas as entidades vivas. Logo, não há como negar o fato de que a Superalma Suprema e a alma individual são sempre diferentes."}
{"ref": "bg/13/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/19/", "verse_text": "iti kṣetraṁ tathā jñānaṁ\n\njñeyaṁ coktaṁ samāsataḥ\n\nmad-bhakta etad vijñāya\n\nmad-bhāvāyopapadyate", "devanagari": "> इति क्षेत्रं तथा ज्ञानं ज्ञेयं चोक्तं समासतः ।\n> मद्भक्त एतद्विज्ञाय मद्भावायोपपद्यते ॥१९॥", "synonyms": "*iti*—assim; *kṣetram*—campo de atividades (o corpo); *tathā*—também; *jñānam*—conhecimento; *jñeyam*—conhecível; *ca*—também; *uktam*—descrito; *samāsataḥ*—em resumo; *mat-bhaktaḥ*—Meu devoto; *etat*—tudo isto; *vijñāya*—depois de compreender; *mat-bhāvāya*—Minha natureza; *upapadyate*—alcança.", "translation": "**Assim, descrevi resumidamente o campo de atividades [o corpo], o conhecimento e o conhecível. Somente Meus devotos podem compreender isto plenamente e, dessa forma, alcançar Minha natureza.**", "purport": "O Senhor descreveu, em resumo, o corpo, o conhecimento e o conhecível. Este conhecimento envolve três coisas: o conhecedor, o conhecível e o processo de conhecer. Combinados, estes se chamam vijñānam, ou a ciência do conhecimento. O conhecimento perfeito pode ser compreendido diretamente pelos devotos imaculados do Senhor. Os outros são incapazes de compreender. Os monistas dizem que, no estágio último, estes três itens tornam-se um só, mas os devotos não aceitam isso. Conhecimento e desenvolvimento do conhecimento significam compreender-se em consciência de Kṛṣṇa. Estamos sendo conduzidos pela consciência material, mas, tão logo transferimos toda a consciência para as atividades de Kṛṣṇa e percebemos que Kṛṣṇa é tudo, alcançamos o conhecimento verdadeiro. Em outras palavras, o conhecimento nada mais é do que o estágio preliminar de compreender perfeitamente o serviço devocional."}
{"ref": "bg/13/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/20/", "verse_text": "prakṛtiṁ puruṣaṁ caiva\n\nviddhy anādī ubhāv api\n\nvikārāṁś ca guṇāṁś caiva\n\nviddhi prakṛti-sambhavān", "devanagari": "> प्रकृतिं पुरुषं चैव विद्ध्यनादी उभावपि ।\n> विकारांश्च गुणांश्चैव विद्धि प्रकृतिसम्भवान् ॥२०॥", "synonyms": "*prakṛtim*—natureza material; *puruṣam*—entidades vivas; *ca*—também; *eva*—certamente; *viddhi*—deve-se saber; *anādī*—sem princípio; *ubhau*—ambos; *api*—também; *vikārān*—transformação; *ca*—também; *guṇān*—três modos da natureza; *ca*—também; *eva*—certamente; *viddhi*—saiba; *prakṛti*—natureza material; *sambhavān*—produzido de.", "translation": "**Deve-se compreender que a natureza material e as entidades vivas não têm princípio. Suas transformações e os modos da matéria são produtos da natureza material.**", "purport": "Por meio deste conhecimento, podem-se conhecer o corpo, o campo de atividades, e os conhecedores do corpo (tanto a alma individual quanto a Superalma). O corpo é o campo de atividade e é composto da natureza material. É a alma individual que está corporificada. Aquele que desfruta das atividades do corpo é o puruṣa, ou a entidade viva. Ela é um conhecedor, e o outro é a Superalma. É claro, deve-se compreender que tanto a Superalma quanto a entidade individual são manifestações diferentes da Suprema Personalidade de Deus. A entidade viva está na categoria de Sua energia, e a Superalma está na categoria de Sua expansão pessoal.\n\n\n\nTanto a natureza material quanto a entidade viva são eternas. Ou seja, existiam antes da criação. A manifestação material provém da energia do Senhor Supremo, e assim também as entidades vivas, mas estas pertencem à energia superior. Ambas existiam antes que este cosmos fosse manifestado. A natureza material estava absorvida na Suprema Personalidade de Deus, Mahā-Viṣṇu, e, quando exigida, foi manifestada por intermédio do mahat-tattva. De modo semelhante, as entidades vivas também estão Nele, e, por estarem condicionadas, mostram-se avessas a servir o Senhor Supremo. Por isso, não lhes é permitido entrar no céu espiritual. Após o recolhimento da natureza material, dá-se de novo a essas entidades vivas a oportunidade de agir no mundo material e de preparar-se para entrar no mundo espiritual. Esse é o mistério desta criação material. Na verdade, a entidade viva é, originalmente, a parte espiritual integrante do Senhor Supremo, mas, devido à sua natureza rebelde, está condicionada dentro da natureza material. Não importa muito como essas entidades vivas, ou entidades superiores do Senhor Supremo, vieram a entrar em contato com a natureza material. A Suprema Personalidade de Deus sabe, contudo, como e por que isso de fato ocorreu. Nas escrituras, o Senhor diz que aqueles atraídos por esta natureza material padecem uma árdua luta pela existência. Mas devemos saber com certeza, a partir das descrições destes poucos versos, que todas as transformações e influências da natureza material pelos três modos também são produções da natureza material. Todas as transformações e a variedade no que se refere às entidades vivas devem-se ao corpo. Quanto ao espírito, todas as entidades vivas são iguais."}
{"ref": "bg/13/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/21/", "verse_text": "kārya-kāraṇa-kartṛtve\n\nhetuḥ prakṛtir ucyate\n\npuruṣaḥ sukha-duḥkhānāṁ\n\nbhoktṛtve hetur ucyate", "devanagari": "> कार्यकारणकर्तृत्वे हेतुः प्रकृतिरुच्यते ।\n> पुरुषः सुखदुःखानां भोक्तृत्वे हेतुरुच्यते ॥२१॥", "synonyms": "*kārya*—efeito; *kāraṇa*—causa; *kartṛtve*—em matéria de criação; *hetuḥ*—instrumento; *prakṛtiḥ*—natureza material; *ucyate*—diz-se ser; *puruṣaḥ*—as entidades vivas; *sukha*—felicidade; *duḥkhānām*—das aflições; *bhoktṛtve*—no desfrute; *hetuḥ*—instrumento; *ucyate*—diz-se ser.", "translation": "**Diz-se que a natureza é a causa de todas as atividades e efeitos materiais, ao passo que a entidade viva é a causa dos vários sofrimentos e desfrutes neste mundo.**", "purport": "As diferentes manifestações de corpo e de sentidos entre as entidades vivas devem-se à natureza material. Há 8.400.000 espécies de vida diferentes, e essas variedades são criação da natureza material. Surgem dos diferentes prazeres sensoriais da entidade viva, que assim deseja viver neste corpo ou naquele. Quando colocada em corpos diferentes, ela desfruta de diferentes espécies de felicidade e aflição. Sua felicidade e aflição materiais devem-se ao seu corpo, e não a si mesma como ela é. Em seu estado original, não há dúvida quanto ao desfrute; portanto, esse é seu estado real. Devido ao desejo de assenhorear-se da natureza material, ela está no mundo material. No mundo espiritual não há tal coisa. O mundo espiritual é puro, mas, no mundo material, todos lutam arduamente para adquirir vítimas que apresentem diferentes prazeres ao corpo. Talvez seja mais claro afirmar que este corpo é o efeito dos sentidos. Os sentidos são instrumentos para gratificar o desejo. Ora, a soma total — corpo e sentidos instrumentais — é oferecida pela natureza material e, como ficará claro no próximo verso, a entidade viva é abençoada ou amaldiçoada com circunstâncias de acordo com seu desejo e atividade passados. Conforme os desejos e atividades de cada um, a natureza material coloca-o em diversas habitações. O ser, em si, é a causa de obter tais habitações e o desfrute ou sofrimento que delas decorrem. Uma vez colocado em alguma espécie particular de corpo, fica sob o controle da natureza, porque o corpo, sendo matéria, age conforme as leis da natureza. Nesse momento, a entidade viva não tem poder para mudar essa lei. Suponhamos que uma entidade seja colocada no corpo de um cão. Tão logo se ache no corpo de um cão, deverá agir como um cão. Não pode agir de outra maneira. E se a entidade viva for colocada no corpo de um porco, será forçada a comer fezes e a agir como um porco. De modo semelhante, se a entidade viva for colocada no corpo de um semideus, deverá agir conforme seu corpo. Esta é a lei da natureza. Mas em todas as circunstâncias, a Superalma está com a alma individual. Isso é explicado nos *Vedas* da seguinte forma: dvā suparṇā sayujā sakhāyā. O Senhor Supremo é tão bondoso com a entidade viva, que sempre acompanha a alma individual e, em todas as circunstâncias, está presente como a Superalma, ou Paramātmā."}
{"ref": "bg/13/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/22/", "verse_text": "puruṣaḥ prakṛti-stho hi\n\nbhuṅkte prakṛti-jān guṇān\n\nkāraṇaṁ guṇa-saṅgo 'sya\n\nsad-asad-yoni-janmasu", "devanagari": "> पुरुषः प्रकृतिस्थो हि भुङ्क्ते प्रकृतिजान्गुणान् ।\n> कारणं गुणसङ्गोऽस्य सदसद्योनिजन्मसु ॥२२॥", "synonyms": "*puruṣaḥ*—a entidade viva; *prakṛti-sthaḥ*—estando situada na energia material; *hi*—certamente; *bhuṅkte*—desfruta; *prakṛti-jān*—produzido pela natureza material; *guṇān*—modos da natureza; *kāraṇam*—causa; *guṇa-saṅgaḥ*—associação com os modos da natureza; *asya*—da entidade viva; *sat-asat*—boas e más; *yoni*—espécies de vida; *janmasu*—nascimento.", "translation": "**A entidade viva, na natureza material, segue assim os modos de vida, desfrutando dos três modos da natureza. Isto se deve à sua associação com essa natureza material. Por isso, encontra o bem e o mal entre as várias espécies.**", "purport": "Este verso é muito importante para a compreensão de como as entidades vivas transmigram de um corpo a outro. Explica-se no Segundo Capítulo que a entidade viva está transmigrando de um corpo a outro, assim como se troca de roupa. Esta troca de roupa deve-se ao seu apego à existência material. Enquanto estiver cativada por essa manifestação falsa, terá de continuar a transmigrar de um corpo a outro. Devido a seu desejo de assenhorear-se da natureza material, é colocada em circunstâncias indesejáveis. Sob a influência do desejo material, a entidade nasce ora como um semideus, ora como um homem, ora como um animal, como uma ave, como um verme, como um aquático, como um santo, como um inseto. Isto continua a ocorrer. E em todos os casos, a entidade viva julga-se senhora de suas circunstâncias, embora esteja sob a influência da natureza material.\n\n\n\nComo ela é colocada em corpos tão diferentes, explica-se aqui. Isto se deve à associação com os diferentes modos da natureza. É preciso, portanto, elevar-se acima dos três modos materiais e situar-se na posição transcendental. Isso se chama consciência de Kṛṣṇa. A menos que se esteja situado em consciência de Kṛṣṇa, sua consciência material o obrigará a transferir-se de um corpo a outro, porque tem desejos materiais desde tempos imemoriais. Mas é preciso mudar essa concepção. Essa mudança só pode ser efetuada ouvindo de fontes autorizadas. O melhor exemplo está aqui: Arjuna está ouvindo a ciência de Deus de Kṛṣṇa. A entidade viva, se se submeter a esse processo de ouvir, perderá seu desejo há muito acalentado de dominar a natureza material e, gradualmente e em proporção, à medida que reduz seu antigo desejo de dominar, passa a desfrutar de felicidade espiritual. Em um mantra Védico, afirma-se que, à medida que se torna erudita em associação com a Suprema Personalidade de Deus, ela proporcionalmente saboreia sua eterna vida bem-aventurada."}
{"ref": "bg/13/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/23/", "verse_text": "upadraṣṭānumantā ca\n\nbhartā bhoktā maheśvaraḥ\n\nparamātmeti cāpy ukto\n\ndehe 'smin puruṣaḥ paraḥ", "devanagari": "> उपद्रष्टानुमन्ता च भर्ता भोक्ता महेश्वरः ।\n> परमात्मेति चाप्युक्तो देहेऽस्मिन्पुरुषः परः ॥२३॥", "synonyms": "*upadraṣṭā*—supervisor; *anumantā*—permissor; *ca*—também; *bhartā*—senhor; *bhoktā*—desfrutador supremo; *maheśvaraḥ*—o Senhor Supremo; *paramātmā*—Superalma; *iti*—também; *ca*—e; *api uktaḥ*—diz-se; *dehe*—neste corpo; *asmin*—este; *puruṣaḥ*—desfrutador; *paraḥ*—transcendental.", "translation": "**Contudo, neste corpo há outro, um desfrutador transcendental, que é o Senhor, o proprietário supremo, que existe como o supervisor e permissor, e que é conhecido como a Superalma.**", "purport": "Afirma-se aqui que a Superalma, que está sempre com a alma individual, é a representação do Senhor Supremo. Não é uma entidade viva comum. Como os filósofos monistas tomam o conhecedor do corpo como um só, pensam que não há diferença entre a Superalma e a alma individual. Para esclarecer isso, o Senhor diz que Ele é a representação do Paramātmā em cada corpo. Ele é diferente da alma individual; é paraḥ, transcendental. A alma individual desfruta das atividades de um campo particular, mas a Superalma está presente, não como desfrutador finito nem como alguém que toma parte nas atividades corporais, mas como a testemunha, supervisor, permissor e desfrutador supremo. Seu nome é Paramātmā, não ātmā, e Ele é transcendental. Está perfeitamente claro que ātmā e Paramātmā são diferentes. A Superalma, o Paramātmā, tem pernas e mãos em toda parte, mas a alma individual não. E, por ser o Senhor Supremo, está presente internamente para sancionar o desejo da alma individual de desfrutar materialmente. Sem a sanção da Alma Suprema, a alma individual nada pode fazer. O indivíduo é bhakta, ou o sustentado, e Ele é bhukta, ou o mantenedor. Há inumeráveis entidades vivas, e Ele permanece nelas como amigo.\n\n\n\nO fato é que as entidades vivas individuais são eternamente partes integrantes do Senhor Supremo, e ambos estão muito intimamente relacionados como amigos. Mas a entidade viva tem a tendência a rejeitar a sanção do Senhor Supremo e a agir independentemente, na tentativa de dominar a natureza suprema, e, por possuir essa tendência, é chamada a energia marginal do Senhor Supremo. A entidade viva pode situar-se ou na energia material ou na energia espiritual. Enquanto estiver condicionada pela energia material, o Senhor Supremo, como seu amigo, a Superalma, permanece com ela apenas para fazê-la retornar à energia espiritual. O Senhor está sempre ansioso por levá-la de volta à energia espiritual, mas, devido à sua minúscula independência, a entidade individual rejeita continuamente a associação da luz espiritual. Esse mau uso da independência é a causa de sua peleja material na natureza condicionada. O Senhor, por isso, está sempre dando instrução tanto de dentro quanto de fora. De fora, dá instruções como afirmadas no *Bhagavad-gītā*, e de dentro tenta convencê-la de que suas atividades no campo material não são propícias à verdadeira felicidade. \"Basta abandoná-las e voltar a tua fé para Mim. Então serás feliz\", diz Ele. Assim, a pessoa inteligente que deposita sua fé no Paramātmā, ou na Suprema Personalidade de Deus, começa a avançar para uma bem-aventurada vida eterna de conhecimento."}
{"ref": "bg/13/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/24/", "verse_text": "ya evaṁ vetti puruṣaṁ\n\nprakṛtiṁ ca guṇaiḥ saha\n\nsarvathā vartamāno 'pi\n\nna sa bhūyo 'bhijāyate", "devanagari": "> य एवं वेत्ति पुरुषं प्रकृतिं च गुणैः सह ।\n> सर्वथा वर्तमानोऽपि न स भूयोऽभिजायते ॥२४॥", "synonyms": "*yaḥ*—qualquer um; *evam*—assim; *vetti*—compreende; *puruṣam*—as entidades vivas; *prakṛtim*—natureza material; *ca*—e; *guṇaiḥ*—modos da natureza material; *saha*—com; *sarvathā*—de todas as maneiras; *vartamānaḥ*—situado; *api*—apesar de; *na*—nunca; *saḥ*—ele; *bhūyaḥ*—novamente; *abhijāyate*—nasce.", "translation": "**Aquele que compreende esta filosofia a respeito da natureza material, da entidade viva e da interação dos modos da natureza certamente alcança a liberação. Não nascerá aqui novamente, independentemente de sua posição atual.**", "purport": "A clara compreensão da natureza material, da Superalma, da alma individual e de sua inter-relação torna a pessoa elegível a tornar-se liberada e voltar à atmosfera espiritual sem ser forçada a retornar a esta natureza material. Este é o resultado do conhecimento. O propósito do conhecimento é compreender distintamente que a entidade viva, por acaso, caiu nesta existência material. Por seu próprio empenho, em associação com autoridades, com pessoas santas e com um mestre espiritual, ela tem de compreender sua posição e, então, voltar à consciência espiritual, ou consciência de Kṛṣṇa, pela compreensão do *Bhagavad-gītā* tal como é explicado pela Personalidade de Deus. Nesse caso, é certo que jamais voltará a esta existência material; será transferida para o mundo espiritual, para uma bem-aventurada vida eterna de conhecimento."}
{"ref": "bg/13/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/25/", "verse_text": "dhyānenātmani paśyanti\n\nkecid ātmānam ātmanā\n\nanye sāṅkhyena yogena\n\nkarma-yogena cāpare", "devanagari": "> ध्यानेनात्मनि पश्यन्ति केचिदात्मानमात्मना ।\n> अन्ये साङ्ख्येन योगेन कर्मयोगेन चापरे ॥२५॥", "synonyms": "*dhyānena*—pela meditação; *ātmani*—eu; *paśyanti*—vê; *kecit*—um; *ātmānam*—Superalma; *ātmanā*—pela mente; *anye*—outros; *sāṅkhyena*—pela discussão filosófica; *yogena*—pelo sistema de yoga; *karma-yogena*—por atividades sem desejo fruitivo; *ca*—também; *apare*—outros.", "translation": "**Essa Superalma é percebida por alguns mediante a meditação, por outros mediante o cultivo do conhecimento, e por outros mediante o trabalho sem desejo fruitivo.**", "purport": "O Senhor informa Arjuna que a alma condicionada pode dividir-se em duas classes no que se refere à busca humana da autorrealização. Aqueles que são ateus, agnósticos e céticos estão além da capacidade de compreensão espiritual. Mas há outros que são fiéis em sua compreensão da vida espiritual, e estes são chamados trabalhadores que renunciaram aos resultados fruitivos. Aqueles que sempre tentam estabelecer a doutrina do monismo também são contados entre os ateus e agnósticos. Em outras palavras, somente os devotos da Suprema Personalidade de Deus são realmente capazes de compreensão espiritual, porque compreendem que, além desta natureza material, há o mundo espiritual e a Suprema Personalidade de Deus, que é expandido como o Paramātmā, a Superalma em todos, a Divindade onipenetrante. É claro, há aqueles que tentam compreender a Suprema Verdade Absoluta pelo cultivo do conhecimento, e estes podem ser contados na segunda classe. Os filósofos ateus analisam este mundo material em vinte e quatro elementos, e colocam a alma individual como o vigésimo quinto item. Quando são capazes de compreender que a natureza da alma individual é transcendental aos elementos materiais, são também capazes de compreender que, acima da alma individual, há a Suprema Personalidade de Deus. Ele é o vigésimo sexto elemento. Assim, gradualmente, também chegam ao critério do serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que trabalham sem resultados fruitivos também são perfeitos em sua atitude. Dá-se-lhes a oportunidade de avançar para a plataforma do serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Aqui se afirma que há algumas pessoas que são puras em consciência e que tentam descobrir a Superalma pela meditação, e, quando descobrem a Superalma dentro de si mesmas, situam-se transcendentalmente. De modo semelhante, há outros que também tentam compreender a Alma Suprema pelo cultivo do conhecimento, e há outros que cultivam o sistema do haṭha-yoga e que tentam satisfazer a Suprema Personalidade de Deus por meio de atividades infantis."}
{"ref": "bg/13/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/26/", "verse_text": "anye tv evam ajānantaḥ\n\nśrutvānyebhya upāsate\n\nte 'pi cātitaranty eva\n\nmṛtyuṁ śruti-parāyaṇāḥ", "devanagari": "> अन्ये त्वेवमजानन्तः श्रुत्वान्येभ्य उपासते ।\n> तेऽपि चातितरन्त्येव मृत्युं श्रुतिपरायणाः ॥२६॥", "synonyms": "*anye*—outros; *tu*—mas; *evam*—isto; *ajānantaḥ*—sem conhecimento espiritual; *śrutvā*—ouvindo; *anyebhyaḥ*—de outros; *upāsate*—começam a adorar; *te*—eles; *api*—também; *ca*—e; *atitaranti*—transcendem; *eva*—certamente; *mṛtyum*—a senda da morte; *śruti-parāyaṇāḥ*—inclinados ao processo de ouvir.", "translation": "**Há ainda aqueles que, embora não sejam versados em conhecimento espiritual, começam a adorar a Pessoa Suprema ao ouvir falar Dele de outros. Devido à sua tendência a ouvir de autoridades, eles também transcendem a senda do nascimento e da morte.**", "purport": "Este verso é particularmente aplicável à sociedade moderna, porque, na sociedade moderna, praticamente não há educação em assuntos espirituais. Algumas das pessoas podem parecer ateístas ou agnósticas ou filosóficas, mas, na verdade, não há conhecimento de filosofia. Quanto ao homem comum, se for uma boa alma, há uma chance de avanço pelo ouvir. Esse processo de ouvir é muito importante. O Senhor Caitanya, que pregou a consciência de Kṛṣṇa no mundo moderno, deu grande ênfase ao ouvir, porque, se o homem comum simplesmente ouvir de fontes autorizadas, poderá progredir, especialmente, segundo o Senhor Caitanya, se ouvir a vibração transcendental Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Afirma-se, por isso, que todos os homens devem aproveitar o ouvir das almas realizadas e, gradualmente, tornar-se capazes de compreender tudo. A adoração ao Senhor Supremo então, sem dúvida, ocorrerá. O Senhor Caitanya disse que, nesta era, ninguém precisa mudar sua posição, mas deve abandonar o esforço para compreender a Verdade Absoluta por raciocínio especulativo. Deve-se aprender a tornar-se servo daqueles que estão em conhecimento do Senhor Supremo. Se alguém for afortunado o bastante para abrigar-se em um devoto puro, ouvi-lo a respeito da autorrealização e seguir seus passos, será gradualmente elevado à posição de devoto puro. Neste verso, particularmente, o processo de ouvir é fortemente recomendado, e isso é muito apropriado. Embora o homem comum, muitas vezes, não seja tão capaz quanto os supostos filósofos, o ouvir fielmente de uma pessoa autorizada o ajudará a transcender esta existência material e a voltar ao Supremo, voltar ao lar."}
{"ref": "bg/13/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/27/", "verse_text": "yāvat sañjāyate kiñcit\n\nsattvaṁ sthāvara-jaṅgamam\n\nkṣetra-kṣetrajña-saṁyogāt\n\ntad viddhi bharatarṣabha", "devanagari": "> यावत्सञ्जायते किञ्चित्सत्त्वं स्थावरजङ्गमम् ।\n> क्षेत्रक्षेत्रज्ञसंयोगात्तद्विद्धि भरतर्षभ ॥२७॥", "synonyms": "*yāvat*—o que quer que seja; *saṁjāyate*—acontece; *kiñcit*—qualquer coisa; *sattvam*—existência; *sthāvara*—não móvel; *jaṅgamam*—móvel; *kṣetra*—o corpo; *kṣetrajña*—conhecedor do corpo; *saṁyogāt*—união entre; *tat viddhi*—deves saber; *bharatarṣabha*—ó chefe dos Bhāratas.", "translation": "**Ó chefe dos Bhāratas, tudo o que vires existir, tanto o que se move quanto o que não se move, é apenas a combinação do campo de atividades e do conhecedor do campo.**", "purport": "Tanto a natureza material quanto a entidade viva, que existiam antes da criação do cosmos, são explicadas neste verso. Tudo o que é criado nada mais é do que uma combinação da entidade viva e da natureza material. Há muitas manifestações, como árvores, montanhas e colinas, que não se movem, e há muitas existências que se movem, e todas elas nada mais são do que combinações da natureza material e da natureza superior, a entidade viva. Sem o toque da natureza superior, a entidade viva, nada pode crescer. Por isso, a relação entre a matéria e a natureza ocorre eternamente, e essa combinação é efetuada pelo Senhor Supremo; portanto, Ele é o controlador tanto da natureza superior quanto da inferior. A natureza material é criada por Ele, e a natureza superior é colocada nesta natureza material, e assim ocorrem todas estas atividades e manifestações."}
{"ref": "bg/13/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/28/", "verse_text": "samaṁ sarveṣu bhūteṣu\n\ntiṣṭhantaṁ parameśvaram\n\nvinaśyatsv avinaśyantaṁ\n\nyaḥ paśyati sa paśyati", "devanagari": "> समं सर्वेषु भूतेषु तिष्ठन्तं परमेश्वरम् ।\n> विनश्यत्स्वविनश्यन्तं यः पश्यति स पश्यति ॥२८॥", "synonyms": "*samam*—igualmente; *sarveṣu*—em todas; *bhūteṣu*—entidades vivas; *tiṣṭhantam*—residindo; *parameśvaram*—a Superalma; *vinaśyatsu*—no destrutível; *avinaśyantam*—não destruído; *yaḥ*—qualquer um; *paśyati*—vê; *saḥ*—ele; *paśyati*—realmente vê.", "translation": "**Aquele que vê a Superalma acompanhando a alma individual em todos os corpos, e que compreende que nem a alma nem a Superalma jamais é destruída, realmente vê.**", "purport": "Quem quer que possa ver três coisas — o corpo, o proprietário do corpo, ou alma individual, e o amigo da alma individual, combinados pela boa associação — está realmente em conhecimento. Aqueles que não estão associados com o amigo da alma são ignorantes; eles simplesmente veem o corpo, e, quando o corpo é destruído, pensam que tudo terminou, mas, na verdade, não é assim. Após a destruição do corpo, tanto a alma quanto a Superalma existem, e prosseguem eternamente em muitas e várias formas móveis e não móveis. A palavra sânscrita parameśvaram às vezes é traduzida como a alma individual, porque a alma é o senhor do corpo, e, após a destruição do corpo, transfere-se para outra forma. Dessa maneira, ela é senhor. Mas há outros que interpretam este parameśvaram como sendo a Superalma. Em qualquer dos casos, tanto a Superalma quanto a alma individual continuam. Não são destruídas. Aquele que pode ver dessa maneira pode realmente ver o que está acontecendo."}
{"ref": "bg/13/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/29/", "verse_text": "samaṁ paśyan hi sarvatra\n\nsamavasthitam īśvaram\n\nna hinasty ātmanātmānaṁ\n\ntato yāti parāṁ gatim", "devanagari": "> समं पश्यन्हि सर्वत्र समवस्थितमीश्वरम् ।\n> न हिनस्त्यात्मनात्मानं ततो याति परां गतिम् ॥२९॥", "synonyms": "*samam*—igualmente; *paśyan*—vendo; *hi*—certamente; *sarvatra*—em toda parte; *samavasthitam*—igualmente situada; *īśvaram*—Superalma; *na*—não; *hinasti*—degrada; *ātmanā*—pela mente; *ātmānam*—a alma; *tataḥ yāti*—então alcança; *parām*—o transcendental; *gatim*—destino.", "translation": "**Aquele que vê a Superalma em cada ser vivo e igual em toda parte não se degrada por sua mente. Dessa forma, aproxima-se do destino transcendental.**", "purport": "A entidade viva, ao aceitar sua existência material como apenas tanto sofrimento, pode situar-se em sua existência espiritual. Se a pessoa compreender que o Supremo está situado em Sua manifestação Paramātmā em toda parte, isto é, se puder ver a presença da Suprema Personalidade de Deus em cada ser vivo, não se degradará e, por isso, gradualmente avançará no mundo espiritual. A mente geralmente está viciada em processos egocêntricos; mas quando ela se volta para a Superalma, a pessoa torna-se avançada na compreensão espiritual."}
{"ref": "bg/13/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/30/", "verse_text": "prakṛtyaiva ca karmāṇi\n\nkriyamāṇāni sarvaśaḥ\n\nyaḥ paśyati tathātmānam\n\nakartāraṁ sa paśyati", "devanagari": "> प्रकृत्यैव च कर्माणि क्रियमाणानि सर्वशः ।\n> यः पश्यति तथात्मानमकर्तारं स पश्यति ॥३०॥", "synonyms": "*prakṛtyā*—natureza material; *eva*—certamente; *ca*—também; *karmāṇi*—atividades; *kriyamāṇāni*—dedicado a executar; *sarvaśaḥ*—em todos os aspectos; *yaḥ*—qualquer um que; *paśyati*—vê; *tathā*—também; *ātmānam*—a si mesmo; *akartāram*—não executor; *saḥ*—ele; *paśyati*—vê perfeitamente.", "translation": "**Aquele que pode ver que todas as atividades são executadas pelo corpo, que é criado da natureza material, e vê que o eu nada faz, realmente vê.**", "purport": "Este corpo é feito pela natureza material sob a direção da Superalma, e quaisquer atividades que ocorrem em relação ao corpo da pessoa não são feitas por ela. Tudo o que se supõe que se deva fazer, seja pela felicidade, seja pela aflição, é-se forçado a fazer devido à constituição corpórea. O eu, contudo, está fora de todas estas atividades corpóreas. Este corpo é dado conforme os desejos passados da pessoa. Para satisfazer os desejos, dá-se à pessoa o corpo, com o qual ela age conforme. Praticamente falando, o corpo é uma máquina, projetada pelo Senhor Supremo, para satisfazer os desejos. Devido aos desejos, a pessoa é colocada em circunstâncias difíceis para sofrer ou para desfrutar. Esta visão transcendental da entidade viva, quando desenvolvida, faz com que a pessoa se separe das atividades corpóreas. Aquele que tem tal visão é um vidente real."}
{"ref": "bg/13/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/31/", "verse_text": "yadā bhūta-pṛthag-bhāvam\n\neka-stham anupaśyati\n\ntata eva ca vistāraṁ\n\nbrahma sampadyate tadā", "devanagari": "> यदा भूतपृथग्भावमेकस्थमनुपश्यति ।\n> तत एव च विस्तारं ब्रह्म सम्पद्यते तदा ॥३१॥", "synonyms": "*yadā*—quando; *bhūta*—entidades vivas; *pṛthak-bhāvam*—entidades separadas; *eka-stham*—situadas em uma; *anupaśyati*—tenta ver pela autoridade; *tataḥ eva*—depois disso; *ca*—também; *vistāram*—expandido; *brahma*—o Absoluto; *sampadyate*—alcança; *tadā*—nesse momento.", "translation": "**Quando um homem sensato deixa de ver diferentes identidades, que se devem aos diferentes corpos materiais, alcança a concepção do Brahman. Assim, vê que os seres estão expandidos em toda parte.**", "purport": "Quando alguém pode ver que os vários corpos das entidades vivas surgem devido aos diferentes desejos da alma individual e não pertencem realmente à própria alma, ele realmente vê. Na concepção material da vida, encontramos alguém como semideus, alguém como ser humano, cão, gato, etc. Essa é a visão material, não a visão real. Essa diferenciação material deve-se à concepção material da vida. Após a destruição do corpo material, esta alma espiritual é uma. A alma espiritual, devido ao contato com a natureza material, recebe diferentes tipos de corpos. Quando a pessoa pode ver isso, alcança a visão espiritual; assim, livre de diferenciações como homem, animal, grande, baixo, etc., torna-se embelezada em sua consciência e capaz de desenvolver a consciência de Kṛṣṇa em sua identidade espiritual. Como, então, ela vê as coisas, será explicado no próximo verso."}
{"ref": "bg/13/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/32/", "verse_text": "anāditvān nirguṇatvāt\n\nparamātmāyam avyayaḥ\n\nśarīra-stho 'pi kaunteya\n\nna karoti na lipyate", "devanagari": "> अनादित्वान्निर्गुणत्वात्परमात्मायमव्ययः ।\n> शरीरस्थोऽपि कौन्तेय न करोति न लिप्यते ॥३२॥", "synonyms": "*anāditvāt*—devido à eternidade; *nirguṇatvāt*—devido à transcendental; *param*—além da natureza material; *ātmā*—espírito; *ayam*—este; *avyayaḥ*—inesgotável; *śarīra-sthaḥ api*—embora habitando no corpo; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *na karoti*—nunca faz nada; *na lipyate*—nem se enreda.", "translation": "**Aqueles com a visão da eternidade podem ver que a alma é transcendental, eterna, e está além dos modos da natureza. Apesar do contato com o corpo material, ó Arjuna, a alma nada faz nem se enreda.**", "purport": "A entidade viva parece nascer devido ao nascimento do corpo material, mas, na verdade, a entidade viva é eterna; não nasce, e, apesar de estar situada num corpo material, é transcendental e eterna. Por isso, não pode ser destruída. Por natureza, é plena de bem-aventurança. Não se ocupa em quaisquer atividades materiais; por isso, as atividades executadas devido a seu contato com corpos materiais não a enredam."}
{"ref": "bg/13/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/33/", "verse_text": "yathā sarva-gataṁ saukṣmyād\n\nākāśaṁ nopalipyate\n\nsarvatrāvasthito dehe\n\ntathātmā nopalipyate", "devanagari": "> यथा सर्वगतं सौक्ष्म्यादाकाशं नोपलिप्यते ।\n> सर्वत्रावस्थितो देहे तथात्मा नोपलिप्यते ॥३३॥", "synonyms": "*yathā*—como; *sarva-gatam*—onipenetrante; *saukṣmyāt*—devido a ser sutil; *ākāśam*—o céu; *na*—nunca; *upalipyate*—mistura-se; *sarvatra*—em toda parte; *avasthitaḥ*—situado; *dehe*—no corpo; *tathā*—tal; *ātmā*—o eu; *na*—nunca; *upalipyate*—mistura-se.", "translation": "**O céu, devido a sua natureza sutil, não se mistura com nada, embora seja onipenetrante. De modo semelhante, a alma, situada na visão do Brahman, não se mistura com o corpo, embora situada nesse corpo.**", "purport": "O ar penetra na água, na lama, nas fezes e em qualquer outra coisa que ali esteja; ainda assim, não se mistura com nada. De modo semelhante, a entidade viva, embora situada em variedades de corpos, mantém-se à parte deles devido à sua natureza sutil. Por isso, é impossível ver com olhos materiais como a entidade viva está em contato com este corpo e como sai dele após a destruição do corpo. Ninguém na ciência pode determinar isto."}
{"ref": "bg/13/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/34/", "verse_text": "yathā prakāśayaty ekaḥ\n\nkṛtsnaṁ lokam imaṁ raviḥ\n\nkṣetraṁ kṣetrī tathā kṛtsnaṁ\n\nprakāśayati bhārata", "devanagari": "> यथा प्रकाशयत्येकः कृत्स्नं लोकमिमं रविः ।\n> क्षेत्रं क्षेत्री तथा कृत्स्नं प्रकाशयति भारत ॥३४॥", "synonyms": "*yathā*—como; *prakāśayati*—ilumina; *ekaḥ*—um; *kṛtsnam*—todo; *lokam*—universo; *imam*—este; *raviḥ*—o sol, *kṣetram*–este corpo; *kṣetrī*—a alma; *tathā*—de modo semelhante; *kṛtsnam*—todo; *prakāśayati*—ilumina; *bhārata*—ó filho de Bharata.", "translation": "**Ó filho de Bharata, assim como o sol sozinho ilumina todo este universo, assim também a entidade viva, uma só dentro do corpo, ilumina o corpo inteiro pela consciência.**", "purport": "Há várias teorias a respeito da consciência. Aqui no *Bhagavad-gītā*, dá-se o exemplo do sol e da luz solar. Assim como o sol está situado em um lugar, mas ilumina todo o universo, do mesmo modo uma pequena partícula de alma espiritual, embora situada no coração deste corpo, ilumina o corpo inteiro pela consciência. Assim, a consciência é a prova da presença da alma, como a luz solar, ou a luz, é a prova da presença do sol.\n\n\n\nQuando a alma está presente no corpo, há consciência por todo o corpo, e tão logo a alma tenha partido do corpo, não há mais consciência. Isto pode ser facilmente compreendido por qualquer homem inteligente. Por isso, a consciência não é uma produção das combinações da matéria. É o sintoma da entidade viva. A consciência da entidade viva, embora qualitativamente uma com a consciência suprema, não é suprema, porque a consciência de um corpo particular não compartilha a de outro corpo. Mas a Superalma, que está situada em todos os corpos como o amigo da alma individual, está consciente de todos os corpos. Esta é a diferença entre a consciência suprema e a consciência individual."}
{"ref": "bg/13/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/13/35/", "verse_text": "kṣetra-kṣetrajñayor evam\n\nantaraṁ jñāna-cakṣuṣā\n\nbhūta-prakṛti-mokṣaṁ ca\n\nye vidur yānti te param", "devanagari": "> क्षेत्रक्षेत्रज्ञयोरेवमन्तरं ज्ञानचक्षुषा ।\n> भूतप्रकृतिमोक्षं च ये विदुर्यान्ति ते परम् ॥३५॥", "synonyms": "*kṣetra*—corpo; *kṣetrajñayoḥ*—do proprietário do corpo; *evam*—essa; *antaram*—diferença; *jñāna-cakṣuṣā*—pela visão do conhecimento; *bhūta*—entidade viva; *prakṛti*—natureza material; *mokṣam*—liberação; *ca*—também; *ye*—aquele que; *viduḥ*—conhece; *yānti*—aproxima-se; *te*—eles; *param*—Supremo.", "translation": "**Aquele que com conhecimento vê esta diferença entre o corpo e o proprietário do corpo, e pode compreender o processo de liberação deste cativeiro, também alcança a meta suprema.**", "purport": "O significado deste Décimo Terceiro Capítulo é que se deve conhecer a distinção entre o corpo, o proprietário do corpo e a Superalma. A pessoa fiel deve, em primeiro lugar, ter alguma boa associação para ouvir sobre Deus e, dessa forma, gradualmente iluminar-se. Se a pessoa aceitar um mestre espiritual, poderá aprender a distinguir entre matéria e espírito, e isto se torna o degrau para a compreensão espiritual posterior. Um mestre espiritual ensina a seus alunos a libertarem-se da concepção material da vida por meio de várias instruções. Por exemplo, no *Bhagavad-gītā*, encontramos Kṛṣṇa instruindo Arjuna a libertá-lo de considerações materialistas.\n\n\n\nPode-se compreender que este corpo é matéria; pode ser analisado com seus vinte e quatro elementos. Esta é a manifestação grosseira. E a manifestação sutil é a mente e os efeitos psicológicos. E os sintomas da vida são a interação destes traços. Mas, acima e além disto, há a alma, e há também a Superalma. A alma e a Superalma são duas. Este mundo material funciona pela conjunção da alma e dos vinte e quatro elementos materiais. Aquele que pode ver a constituição de toda a manifestação material como esta combinação da alma e dos elementos materiais e também pode ver a situação da Alma Suprema torna-se elegível à transferência para o mundo espiritual. Estas coisas destinam-se à contemplação e à compreensão, e deve-se ter uma compreensão completa deste capítulo com a ajuda do mestre espiritual.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Terceiro Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* no que se refere à Natureza, ao Desfrutador e à Consciência."}
{"ref": "bg/14/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nparaṁ bhūyaḥ pravakṣyāmi\n\njñānānāṁ jñānam uttamam\n\nyaj jñātvā munayaḥ sarve\n\nparāṁ siddhim ito gatāḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> परं भूयः प्रवक्ष्यामि ज्ञानानां ज्ञानमुत्तमम् ।\n> यज्ज्ञात्वा मुनयः सर्वे परां सिद्धिमितो गताः ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *param*—transcendental; *bhūyaḥ*—novamente; *pravakṣyāmi*—falarei; *jñānānām*—de todo conhecimento; *jñānam*—conhecimento; *uttamam*—o supremo; *yat*—o qual; *jñātvā*—conhecendo; *munayaḥ*—os sábios; *sarve*—todos; *parām*—transcendental; *siddhim*—perfeição; *itaḥ*—deste mundo; *gatāḥ*—alcançam.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Mais uma vez te declararei esta sabedoria suprema, o melhor de todo conhecimento, conhecendo o qual todos os sábios alcançaram a perfeição suprema.**", "purport": "Do Sétimo Capítulo até o final do Décimo Segundo Capítulo, Śrī Kṛṣṇa revela em detalhes a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. Ora, o próprio Senhor continua a iluminar Arjuna. Se a pessoa compreender este capítulo por meio do processo da especulação filosófica, chegará a uma compreensão do serviço devocional. No Décimo Terceiro Capítulo, explicou-se claramente que, ao desenvolver humildemente o conhecimento, é possível libertar-se do enredamento material. Também se explicou que é devido à associação com os modos da natureza que a entidade viva se enreda neste mundo material. Agora, neste capítulo, a Suprema Personalidade explica o que são esses modos da natureza, como agem, como aprisionam e como concedem a liberação. O conhecimento explicado neste capítulo é proclamado pelo Senhor Supremo como superior ao conhecimento dado até agora nos outros capítulos. Ao compreenderem este conhecimento, vários grandes sábios alcançaram a perfeição e transferiram-se para o mundo espiritual. O Senhor agora explica o mesmo conhecimento de uma maneira melhor. Este conhecimento é muito, muito superior a todos os outros processos de conhecimento explicados até aqui, e, ao conhecê-lo, muitos atingem a perfeição. Assim, espera-se que aquele que compreender este Décimo Quarto Capítulo alcance a perfeição."}
{"ref": "bg/14/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/2/", "verse_text": "idaṁ jñānam upāśritya\n\nmama sādharmyam āgatāḥ\n\nsarge 'pi nopajāyante\n\npralaye na vyathanti ca", "devanagari": "> इदं ज्ञानमुपाश्रित्य मम साधर्म्यमागताः ।\n> सर्गेऽपि नोपजायन्ते प्रलये न व्यथन्ति च ॥२॥", "synonyms": "*idam*—este; *jñānam*—conhecimento; *upāśritya*—refugiando-se em; *mama*—Minha; *sādharmyam*—natureza; *āgatāḥ*—alcançam; *sarge api*—mesmo na criação; *na*—nunca; *upajāyante*—nascem; *pralaye*—na aniquilação; *na*—nem; *vyathanti*—perturbados; *ca*—também.", "translation": "**Ao fixar-se neste conhecimento, a pessoa pode alcançar a natureza transcendental, semelhante à Minha própria natureza. Assim estabelecida, ela não nasce no momento da criação nem se perturba no momento da dissolução.**", "purport": "Após adquirir o conhecimento transcendental perfeito, a pessoa adquire igualdade qualitativa com a Suprema Personalidade de Deus, libertando-se da repetição de nascimento e morte. Ela, contudo, não perde sua identidade como alma individual. Compreende-se da literatura Védica que as almas liberadas que alcançaram os planetas transcendentais do céu espiritual sempre contemplam os pés de lótus do Senhor Supremo, ocupando-se em Seu transcendental serviço amoroso. Portanto, mesmo após a liberação, os devotos não perdem suas identidades individuais.\n\n\n\nEm geral, no mundo material, todo conhecimento que obtemos está contaminado pelos três modos da natureza material. Mas o conhecimento que não está contaminado pelos três modos da natureza chama-se conhecimento transcendental. Assim que a pessoa se situa nesse conhecimento transcendental, encontra-se no mesmo plano da Pessoa Suprema. Aqueles que não têm conhecimento do céu espiritual sustentam que, após libertar-se das atividades materiais da forma material, esta identidade espiritual torna-se sem forma, sem qualquer variedade. Contudo, assim como há variedade material neste mundo, no mundo espiritual também há variedade. Aqueles que ignoram isso pensam que a existência espiritual se opõe à variedade material. Mas, na verdade, no céu espiritual, a pessoa alcança uma forma espiritual. Existem atividades espirituais, e a situação espiritual chama-se vida devocional. Diz-se que essa atmosfera é incontaminada, e ali a pessoa é igual em qualidade ao Senhor Supremo. Para obter tal conhecimento, deve-se desenvolver todas as qualidades espirituais. Aquele que desenvolve assim as qualidades espirituais não é afetado nem pela criação nem pela destruição do mundo material."}
{"ref": "bg/14/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/3/", "verse_text": "mama yonir mahad brahma\n\ntasmin garbhaṁ dadhāmy aham\n\nsambhavaḥ sarva-bhūtānāṁ\n\ntato bhavati bhārata", "devanagari": "> मम योनिर्महद् ब्रह्म तस्मिन्गर्भं दधाम्यहम् ।\n> सम्भवः सर्वभूतानां ततो भवति भारत ॥३॥", "synonyms": "*mama*—Minha; *yoniḥ*—fonte de nascimento; *mahat*—a existência material total; *brahma*—suprema; *tasmin*—nessa; *garbham*—gravidez; *dadhāmi*—crio; *aham*—Eu; *sambhavaḥ*—possibilidade; *sarva-bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *tataḥ*—depois disso; *bhavati*—torna-se; *bhārata*—ó filho de Bharata.", "translation": "**A substância material total, chamada Brahman, é a fonte do nascimento, e é esse Brahman que Eu fecundo, possibilitando os nascimentos de todos os seres vivos, ó filho de Bharata.**", "purport": "Esta é uma explicação do mundo: tudo o que ocorre se deve à combinação de kṣetra e kṣetrajña, o corpo e a alma espiritual. Essa combinação da natureza material e da entidade viva é tornada possível pelo próprio Deus Supremo. O mahat-tattva é a causa total da manifestação cósmica total e, como na substância total da causa material há três modos da natureza, às vezes chama-se Brahman. A Suprema Personalidade fecunda essa substância total, e assim inúmeros universos se tornam possíveis. Esta substância material total, o mahat-tattva, é descrita como Brahman na literatura Védica: *tasmād etad brahma nāma-rūpam annaṁ ca jāyate*. Nesse Brahman as sementes das entidades vivas são fecundadas pela Pessoa Suprema. Os vinte e quatro elementos, começando por terra, água, fogo e ar, são todos energia material, chamada Mahā-brahman, ou o grande Brahman, a natureza material. Como se explica no Sétimo Capítulo, além desta há outra natureza superior — a entidade viva. Na natureza material, a natureza superior é misturada pela vontade da Suprema Personalidade de Deus, e em seguida todas as entidades vivas nascem desta natureza material.\n\n\n\nO escorpião põe seus ovos em pilhas de arroz, e às vezes se diz que o escorpião nasce do arroz. Mas o arroz não é a causa do escorpião. Na verdade, os ovos foram postos pela mãe. De modo semelhante, a natureza material não é a causa do nascimento das entidades vivas. A semente é dada pela Suprema Personalidade de Deus, e elas apenas parecem sair como produtos da natureza material. Assim, cada entidade viva, conforme suas atividades passadas, tem um corpo diferente, criado por esta natureza material, e a entidade pode desfrutar ou sofrer conforme seus atos passados. O Senhor é a causa de todas as manifestações de entidades vivas neste mundo material."}
{"ref": "bg/14/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/4/", "verse_text": "sarva-yoniṣu kaunteya\n\nmūrtayaḥ sambhavanti yāḥ\n\ntāsāṁ brahma mahad yonir\n\nahaṁ bīja-pradaḥ pitā", "devanagari": "> सर्वयोनिषु कौन्तेय मूर्तयः सम्भवन्ति याः ।\n> तासां ब्रह्म महद्योनिरहं बीजप्रदः पिता ॥४॥", "synonyms": "*sarva-yoniṣu*—em todas as espécies de vida; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *mūrtayaḥ*—formas; *sambhavanti*—como aparecem; *yāḥ*—as quais; *tāsām*—de todas elas; *brahma*—suprema; *mahat yoniḥ*—a fonte de nascimento na substância material; *aham*—Eu mesmo; *bīja-pradaḥ*—doador da semente; *pitā*—pai.", "translation": "**Deve-se compreender que todas as espécies de vida, ó filho de Kuntī, são tornadas possíveis pelo nascimento nesta natureza material, e que Eu sou o pai doador da semente.**", "purport": "Neste verso, explica-se claramente que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é o pai original de todas as entidades vivas. As entidades vivas são combinações da natureza material e da natureza espiritual. Tais entidades vivas são vistas não apenas neste planeta, mas em todos os planetas, mesmo no mais elevado, onde Brahmā está situado. Em toda parte há entidades vivas; dentro da terra há entidades vivas, mesmo dentro da água e dentro do fogo. Todos esses aparecimentos devem-se à mãe, a natureza material, e ao processo de Kṛṣṇa de doar a semente. O propósito é que as entidades vivas, sendo fecundadas no mundo material, saem e tomam forma no momento da criação conforme seus atos passados."}
{"ref": "bg/14/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/5/", "verse_text": "sattvaṁ rajas tama iti\n\nguṇāḥ prakṛti-sambhavāḥ\n\nnibadhnanti mahā-bāho\n\ndehe dehinam avyayam", "devanagari": "> सत्त्वं रजस्तम इति गुणाः प्रकृतिसम्भवाः ।\n> निबध्नन्ति महाबाहो देहे देहिनमव्ययम् ॥५॥", "synonyms": "*sattvam*—modo da bondade; *rajaḥ*—modo da paixão; *tamaḥ*—modo da ignorância; *iti*—assim; *guṇāḥ*—qualidades; *prakṛti*—natureza material; *sambhavāḥ*—produzidas de; *nibadhnanti*—condicionam; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *dehe*—neste corpo; *dehinam*—a entidade viva; *avyayam*—eterna.", "translation": "**A natureza material consiste de três modos — bondade, paixão e ignorância. Quando a entidade viva entra em contato com a natureza, torna-se condicionada por estes modos.**", "purport": "A entidade viva, por ser transcendental, nada tem a ver com esta natureza material. Ainda assim, por ter-se tornado condicionada pelo mundo material, ela age sob o feitiço dos três modos da natureza material. Como as entidades vivas têm diferentes tipos de corpos, em termos dos diferentes aspectos da natureza, são induzidas a agir conforme essa natureza. Esta é a causa das variedades de felicidade e aflição."}
{"ref": "bg/14/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/6/", "verse_text": "tatra sattvaṁ nirmalatvāt\n\nprakāśakam anāmayam\n\nsukha-saṅgena badhnāti\n\njñāna-saṅgena cānagha", "devanagari": "> तत्र सत्त्वं निर्मलत्वात्प्रकाशकमनामयम् ।\n> सुखसङ्गेन बध्नाति ज्ञानसङ्गेन चानघ ॥६॥", "synonyms": "*tatra*—depois disso; *sattvam*—modo da bondade; *nirmalatvāt*—sendo o mais puro no mundo material; *prakāśakam*—iluminador; *anāmayam*—sem qualquer reação pecaminosa; *sukha*—felicidade; *saṅgena*—associação; *badhnāti*—condiciona; *jñāna*—conhecimento; *saṅgena*—associação; *ca*—também; *anagha*—ó impecável.", "translation": "**Ó impecável, o modo da bondade, sendo mais puro do que os outros, é iluminador e liberta a pessoa de todas as reações pecaminosas. Aqueles situados nesse modo desenvolvem conhecimento, mas tornam-se condicionados pelo conceito de felicidade.**", "purport": "As entidades vivas condicionadas pela natureza material são de vários tipos. Uma é feliz, outra é muito ativa, e outra é desamparada. Todos esses tipos de manifestações psicológicas são causas do estado condicionado das entidades na natureza. Como elas são diferentemente condicionadas explica-se nesta seção do *Bhagavad-gītā*. O modo da bondade é considerado em primeiro lugar. O efeito de desenvolver o modo da bondade no mundo material é que a pessoa se torna mais sábia do que aqueles condicionados de outra forma. Um homem no modo da bondade não é tão afetado pelas misérias materiais e tem uma sensação de avanço em conhecimento material. O tipo representativo é o *brāhmaṇa*, que se supõe estar situado no modo da bondade. Esta sensação de felicidade deve-se à compreensão de que, no modo da bondade, a pessoa está mais ou menos livre de reações pecaminosas. Na verdade, na literatura Védica diz-se que o modo da bondade significa maior conhecimento e maior sensação de felicidade.\n\n\n\nA dificuldade aqui é que, quando uma entidade viva está situada no modo da bondade, ela se torna condicionada a sentir que está avançada em conhecimento e é melhor do que outros. Dessa maneira, ela se torna condicionada. Os melhores exemplos são o cientista e o filósofo: cada um está muito orgulhoso de seu conhecimento e, como geralmente melhoram suas condições de vida, sentem uma espécie de felicidade material. Esta sensação de felicidade avançada na vida condicionada faz com que fiquem presos pelo modo da bondade da natureza material. Assim sendo, eles são atraídos a trabalhar no modo da bondade e, enquanto tiverem atração por trabalhar dessa forma, terão de aceitar algum tipo de corpo nos modos da natureza. Logo, não há possibilidade de liberação ou de serem transferidos para o mundo espiritual. Repetidamente, a pessoa pode tornar-se filósofo, cientista ou poeta e, repetidamente, enredar-se nas mesmas desvantagens do nascimento e da morte. Mas, devido à ilusão da energia material, pensa-se que esse tipo de vida é agradável."}
{"ref": "bg/14/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/7/", "verse_text": "rajo rāgātmakaṁ viddhi\n\ntṛṣṇā-saṅga-samudbhavam\n\ntan nibadhnāti kaunteya\n\nkarma-saṅgena dehinam", "devanagari": "> रजो रागात्मकं विद्धि तृष्णासङ्गसमुद्भवम् ।\n> तन्निबध्नाति कौन्तेय कर्मसङ्गेन देहिनम् ॥७॥", "synonyms": "*rajaḥ*—modo da paixão; *rāga-ātmakam*—nascido do desejo ou luxúria; *viddhi*—saiba; *tṛṣṇā*—anseio; *saṅga*—associação; *samudbhavam*—produzido de; *tat*—isso; *nibadhnāti*—prende; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *karma-saṅgena*—associação com atividade fruitiva; *dehinam*—do encarnado.", "translation": "**O modo da paixão nasce de desejos e anseios ilimitados, ó filho de Kuntī, e por causa disso a pessoa fica presa a atividades fruitivas materiais.**", "purport": "O modo da paixão caracteriza-se pela atração entre homem e mulher. A mulher tem atração pelo homem, e o homem tem atração pela mulher. Isso é chamado modo da paixão. E, quando o modo da paixão aumenta, a pessoa desenvolve o anseio pelo gozo material. Quer desfrutar da gratificação dos sentidos. Para gratificação dos sentidos, um homem no modo da paixão deseja alguma honra na sociedade ou na nação, e quer ter uma família feliz, com filhos, esposa e casa agradáveis. Estes são os produtos do modo da paixão. Enquanto a pessoa estiver ansiando por essas coisas, terá que trabalhar muito. Por isso, declara-se aqui claramente que ela se associa aos frutos de suas atividades, e dessa maneira fica presa por tais atividades. A fim de agradar à esposa, aos filhos e à sociedade e manter o próprio prestígio, é preciso trabalhar. Por conseguinte, todo o mundo material está mais ou menos no modo da paixão. A civilização moderna é considerada avançada pelos padrões do modo da paixão. Antigamente, considerava-se a condição avançada como sendo a do modo da bondade. Se não há liberação para os que estão no modo da bondade, que dizer dos que estão enredados no modo da paixão?"}
{"ref": "bg/14/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/8/", "verse_text": "tamas tv ajñāna-jaṁ viddhi\n\nmohanaṁ sarva-dehinām\n\npramādālasya-nidrābhis\n\ntan nibadhnāti bhārata", "devanagari": "> तमस्त्वज्ञानजं विद्धि मोहनं सर्वदेहिनाम् ।\n> प्रमादालस्यनिद्राभिस्तन्निबध्नाति भारत ॥८॥", "synonyms": "*tamaḥ*—modo da ignorância; *tu*—mas; *ajñāna-jam*—produtos da ignorância; *viddhi*—conhecendo; *mohanam*—ilusão; *sarva-dehinām*—de todos os seres encarnados; *pramāda*—loucura; *ālasya*—indolência; *nidrābhiḥ*—sono; *tat*—isso; *nibadhnāti*—aprisiona; *bhārata*—ó filho de Bharata.", "translation": "**Ó filho de Bharata, o modo da ignorância causa a ilusão de todas as entidades vivas. O resultado deste modo é loucura, indolência e sono, que aprisionam a alma condicionada.**", "purport": "Neste verso, a aplicação específica da palavra *tu* é muito significativa. Isso quer dizer que o modo da ignorância é uma qualificação muito peculiar da alma encarnada. Este modo da ignorância é justamente o oposto do modo da bondade. No modo da bondade, pelo desenvolvimento do conhecimento, a pessoa pode compreender o que é o quê, mas o modo da ignorância é justamente o oposto. Todos sob o feitiço do modo da ignorância tornam-se loucos, e um louco não pode compreender o que é o quê. Em vez de progredir, a pessoa torna-se degradada. A definição do modo da ignorância é declarada na literatura Védica: sob o feitiço da ignorância, não se pode compreender a coisa como ela é. Por exemplo, todos podem ver que seu avô morreu, e portanto também ele morrerá; o homem é mortal. Os filhos que ele conceber também morrerão. Logo, a morte é certa. Ainda assim, as pessoas estão loucamente acumulando dinheiro e trabalhando arduamente dia e noite, sem se importarem com o espírito eterno. Isso é loucura. Em sua loucura, são muito relutantes em progredir na compreensão espiritual. Tais pessoas são muito preguiçosas. Quando são convidadas a associar-se para a compreensão espiritual, não se interessam muito. Não são sequer ativas como o homem que é controlado pelo modo da paixão. Assim, outro sintoma daquele que está mergulhado no modo da ignorância é que ele dorme mais do que o necessário. Seis horas de sono são suficientes, mas um homem no modo da ignorância dorme pelo menos dez ou doze horas por dia. Tal homem parece estar sempre abatido e é viciado em intoxicantes e em dormir. Estes são os sintomas de uma pessoa condicionada pelo modo da ignorância."}
{"ref": "bg/14/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/9/", "verse_text": "sattvaṁ sukhe sañjayati\n\nrajaḥ karmaṇi bhārata\n\njñānam āvṛtya tu tamaḥ\n\npramāde sañjayaty uta", "devanagari": "> सत्त्वं सुखे सञ्जयति रजः कर्मणि भारत ।\n> ज्ञानमावृत्य तु तमः प्रमादे सञ्जयत्युत ॥९॥", "synonyms": "*sattvam*—modo da bondade; *sukhe*—em felicidade; *sañjayati*—desenvolve; *rajaḥ*—modo da paixão; *karmaṇi*—frutos das atividades; *bhārata*—ó filho de Bharata; *jñānam*—conhecimento; *āvṛtya*—cobrindo; *tu*—mas; *tamaḥ*—o modo da ignorância; *pramāde*—em loucura; *sañjayati*—desenvolve; *uta*—diz-se.", "translation": "**O modo da bondade condiciona a pessoa à felicidade; a paixão a condiciona aos frutos da ação; e a ignorância, à loucura.**", "purport": "Uma pessoa no modo da bondade fica satisfeita com seu trabalho ou atividade intelectual, assim como um filósofo, cientista ou educador pode ocupar-se em determinado campo de conhecimento e ficar satisfeito dessa forma. Um homem nos modos da paixão e da bondade pode ocupar-se em atividade fruitiva; possui o máximo que pode e gasta em boas causas. Às vezes tenta abrir hospitais, doar a instituições de caridade, etc. Estes são os sinais de quem está no modo da paixão. E o modo da ignorância encobre o conhecimento. No modo da ignorância, o que quer que a pessoa faça não é bom nem para si nem para ninguém."}
{"ref": "bg/14/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/10/", "verse_text": "rajas tamaś cābhibhūya\n\nsattvaṁ bhavati bhārata\n\nrajaḥ sattvaṁ tamaś caiva\n\ntamaḥ sattvaṁ rajas tathā", "devanagari": "> रजस्तमश्चाभिभूय सत्त्वं भवति भारत ।\n> रजः सत्त्वं तमश्चैव तमः सत्त्वं रजस्तथा ॥१०॥", "synonyms": "*rajaḥ*—modo da paixão; *tamaḥ*—modo da ignorância; *ca*—também; *abhibhūya*—superando também; *sattvam*—modo da bondade; *bhavati*—torna-se proeminente; *bhārata*—ó filho de Bharata; *rajaḥ*—modo da paixão; *sattvam*—modo da bondade; *tamaḥ*—modo da ignorância; *ca*—também; *eva*—assim; *tamaḥ*—modo da ignorância; *sattvam*—modo da bondade; *rajaḥ*—modo da paixão; *tathā*—como nesta.", "translation": "**Às vezes o modo da paixão se torna proeminente, derrotando o modo da bondade, ó filho de Bharata. E às vezes o modo da bondade derrota a paixão, e em outras vezes o modo da ignorância derrota a bondade e a paixão. Dessa forma, há sempre competição pela supremacia.**", "purport": "Quando o modo da paixão é proeminente, os modos da bondade e da ignorância são derrotados. Quando o modo da bondade é proeminente, a paixão e a ignorância são derrotadas. E, quando o modo da ignorância é proeminente, a paixão e a bondade são derrotadas. Esta competição se dá continuamente. Por isso, aquele que realmente pretende avançar na consciência de Kṛṣṇa tem que transcender estes três modos. A proeminência de algum modo específico da natureza manifesta-se no trato da pessoa, em suas atividades, no comer, etc. Tudo isso se explicará nos capítulos posteriores. Mas, se a pessoa quiser, ela pode desenvolver, pela prática, o modo da bondade e assim derrotar os modos da ignorância e da paixão. Pode-se igualmente desenvolver o modo da paixão e derrotar a bondade e a ignorância. Ou pode-se desenvolver o modo da ignorância e derrotar a bondade e a paixão. Embora existam estes três modos da natureza material, se alguém for determinado, pode ser abençoado pelo modo da bondade e, transcendendo o modo da bondade, pode situar-se em bondade pura, que se chama estado *vāsudeva*, um estado em que se pode compreender a ciência de Deus. Pela manifestação de atividades particulares, é possível compreender em que modo da natureza a pessoa está situada."}
{"ref": "bg/14/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/11/", "verse_text": "sarva-dvāreṣu dehe 'smin\n\nprakāśa upajāyate\n\njñānaṁ yadā tadā vidyād\n\nvivṛddhaṁ sattvam ity uta", "devanagari": "> सर्वद्वारेषु देहेऽस्मिन्प्रकाश उपजायते ।\n> ज्ञानं यदा तदा विद्याद्विवृद्धं सत्त्वमित्युत ॥११॥", "synonyms": "*sarva-dvāreṣu*—todos os portões; *dehe asmin*—neste corpo; *prakāśaḥ*—qualidade de iluminação; *upajāyate*—desenvolve; *jñānam*—conhecimento; *yadā*—quando; *tadā*—nesse momento; *vidyāt*—deve saber; *vivṛddham*—aumentado; *sattvam*—modo da bondade; *iti*—assim; *uta*—dito.", "translation": "**As manifestações do modo da bondade podem ser experimentadas quando todos os portões do corpo estão iluminados pelo conhecimento.**", "purport": "Há nove portões no corpo: dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, a boca, o órgão genital e o ânus. Em cada portão, quando o sintoma da bondade é iluminado, deve-se compreender que se desenvolveu o modo da bondade. No modo da bondade, pode-se ver as coisas na posição correta, pode-se ouvir as coisas na posição correta, e pode-se saborear as coisas na posição correta. A pessoa torna-se purificada por dentro e por fora. Em cada portão há desenvolvimento dos sintomas da felicidade, e essa é a posição da bondade."}
{"ref": "bg/14/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/12/", "verse_text": "lobhaḥ pravṛttir ārambhaḥ\n\nkarmaṇām aśamaḥ spṛhā\n\nrajasy etāni jāyante\n\nvivṛddhe bharatarṣabha", "devanagari": "> लोभः प्रवृत्तिरारम्भः कर्मणामशमः स्पृहा ।\n> रजस्येतानि जायन्ते विवृद्धे भरतर्षभ ॥१२॥", "synonyms": "*lobhaḥ*—cobiça; *pravṛttiḥ*—anseio; *ārambhaḥ*—empenho; *karmaṇām*—de atividades; *aśamaḥ*—incontrolável; *spṛhā*—desejo; *rajasi*—no modo da paixão; *etāni*—tudo isso; *jāyante*—desenvolve-se; *vivṛddhe*—quando há excesso; *bharatarṣabha*—ó chefe dos descendentes de Bharata.", "translation": "**Ó chefe dos Bhāratas, quando há um aumento no modo da paixão, desenvolvem-se os sintomas de grande apego, desejo incontrolável, anseio e empenho intenso.**", "purport": "Aquele que está no modo da paixão jamais se satisfaz com a posição que já adquiriu; ele anseia por aumentar sua posição. Se quer construir uma casa residencial, esforça-se ao máximo para ter uma casa palaciana, como se pudesse residir nessa casa eternamente. E desenvolve um grande anseio pela gratificação dos sentidos. Não há fim para a gratificação dos sentidos. Ele sempre quer permanecer com sua família e em sua casa e continuar o processo de gratificação dos sentidos. Não há cessação disso. Todos esses sintomas devem ser compreendidos como característicos do modo da paixão."}
{"ref": "bg/14/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/13/", "verse_text": "aprakāśo 'pravṛttiś ca\n\npramādo moha eva ca\n\ntamasy etāni jāyante\n\nvivṛddhe kuru-nandana", "devanagari": "> अप्रकाशोऽप्रवृत्तिश्च प्रमादो मोह एव च ।\n> तमस्येतानि जायन्ते विवृद्धे कुरुनन्दन ॥१३॥", "synonyms": "*aprakāśaḥ*—escuridão; *apravṛttiḥ*—inatividade; *ca*—e; *pramādaḥ*—loucura; *mohaḥ*—ilusão; *eva*—certamente; *ca*—também; *tamasi*—do modo da ignorância; *etāni*—estes; *jāyante*—manifestam-se; *vivṛddhe*—desenvolve-se; *kuru-nandana*—ó filho de Kuru.", "translation": "**Ó filho de Kuru, quando há um aumento no modo da ignorância, manifestam-se loucura, ilusão, inércia e escuridão.**", "purport": "Quando não há iluminação, o conhecimento está ausente. Aquele que está no modo da ignorância não trabalha por um princípio regulador; quer agir caprichosamente, sem propósito algum. Embora tenha capacidade para trabalhar, não faz nenhum esforço. A isso se chama ilusão. Embora a consciência prossiga, a vida está inativa. Estes são os sintomas daquele que está no modo da ignorância."}
{"ref": "bg/14/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/14/", "verse_text": "yadā sattve pravṛddhe tu\n\npralayaṁ yāti deha-bhṛt\n\ntadottama-vidāṁ lokān\n\namalān pratipadyate", "devanagari": "> यदा सत्त्वे प्रवृद्धे तु प्रलयं याति देहभृत् ।\n> तदोत्तमविदां लोकानमलान्प्रतिपद्यते ॥१४॥", "synonyms": "*yadā*—quando; *sattve*—modo da bondade; *pravṛddhe*—em desenvolvimento; *tu*—mas; *pralayam*—dissolução; *yāti*—vai; *deha-bhṛt*—encarnado; *tadā*—nesse momento; *uttama-vidām*—dos grandes sábios; *lokān*—os planetas; *amalān*—puros; *pratipadyate*—alcança.", "translation": "**Quando alguém morre no modo da bondade, alcança os planetas superiores puros.**", "purport": "Aquele que está em bondade alcança sistemas planetários superiores, como Brahmaloka ou Janaloka, e ali desfruta de felicidade divina. A palavra *amalān* é significativa; significa livre dos modos da paixão e da ignorância. Há impurezas no mundo material, mas o modo da bondade é a forma mais pura de existência no mundo material. Há diferentes tipos de planetas para diferentes tipos de entidades vivas. Aqueles que morrem no modo da bondade são elevados aos planetas onde vivem grandes sábios e grandes devotos."}
{"ref": "bg/14/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/15/", "verse_text": "rajasi pralayaṁ gatvā\n\nkarma-saṅgiṣu jāyate\n\ntathā pralīnas tamasi\n\nmūḍha-yoniṣu jāyate", "devanagari": "> रजसि प्रलयं गत्वा कर्मसङ्गिषु जायते ।\n> तथा प्रलीनस्तमसि मूढयोनिषु जायते ॥१५॥", "synonyms": "*rajasi*—em paixão; *pralayam*—dissolução; *gatvā*—alcançando; *karma-saṅgiṣu*—na associação de atividades fruitivas; *jāyate*—nasce; *tathā*—em seguida; *pralīnaḥ*—sendo dissolvido; *tamasi*—em ignorância; *mūḍha*—animal; *yoniṣu*—espécies; *jāyate*—nasce.", "translation": "**Quando alguém morre no modo da paixão, nasce entre os ocupados em atividades fruitivas; e quando morre no modo da ignorância, nasce no reino animal.**", "purport": "Algumas pessoas têm a impressão de que, quando a alma alcança o plano da vida humana, jamais decai novamente. Isso é incorreto. De acordo com este verso, se alguém desenvolver o modo da ignorância, após sua morte é degradado à forma animal de vida. Daí, a pessoa tem que elevar-se de novo, pelo processo evolutivo, para chegar outra vez à forma humana de vida. Por isso, aqueles que realmente são sérios quanto à vida humana devem adotar o modo da bondade e, em boa associação, transcender os modos e situar-se na consciência de Kṛṣṇa. Este é o objetivo da vida humana. Caso contrário, não há garantia de que o ser humano alcançará novamente a posição humana."}
{"ref": "bg/14/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/16/", "verse_text": "karmaṇaḥ sukṛtasyāhuḥ\n\nsāttvikaṁ nirmalaṁ phalam\n\nrajasas tu phalaṁ duḥkham\n\najñānaṁ tamasaḥ phalam", "devanagari": "> कर्मणः सुकृतस्याहुः सात्त्विकं निर्मलं फलम् ।\n> रजसस्तु फलं दुःखमज्ञानं तमसः फलम् ॥१६॥", "synonyms": "*karmaṇaḥ*—de trabalho; *sukṛtasya*—no modo da bondade; *āhuḥ*—dito; *sāttvikam*—modo da bondade; *nirmalam*—purificado; *phalam*—resultado; *rajasaḥ*—do modo da paixão; *tu*—mas; *phalam*—resultado; *duḥkham*—miséria; *ajñānam*—disparate; *tamasaḥ*—do modo da ignorância; *phalam*—resultado.", "translation": "**Agindo no modo da bondade, a pessoa se purifica. Os trabalhos feitos no modo da paixão resultam em aflição, e as ações realizadas no modo da ignorância resultam em tolice.**", "purport": "Por atividades piedosas no modo da bondade a pessoa se purifica; por isso os sábios, livres de toda ilusão, situam-se em felicidade. De modo semelhante, as atividades no modo da paixão são simplesmente miseráveis. Qualquer atividade em prol da felicidade material está fadada a ser derrotada. Se, por exemplo, alguém quiser ter um arranha-céu, será preciso passar por muita miséria humana antes que se possa construir um grande arranha-céu. O financiador tem que ter muito trabalho para ganhar uma massa de riqueza, e aqueles que se escravizam para construir o edifício têm de prestar trabalho físico. As misérias estão presentes. Assim, o *Bhagavad-gītā* afirma que, em qualquer atividade realizada sob o feitiço do modo da paixão, há definitivamente grande miséria. Pode haver um pouco da chamada felicidade mental — \"Eu tenho esta casa ou este dinheiro\" —, mas isto não é felicidade real. No que se refere ao modo da ignorância, o executor está sem conhecimento e, por isso, todas as suas atividades resultam em miséria presente, e depois ele rumará para a vida animal. A vida animal é sempre miserável, embora, sob o feitiço da energia ilusória, *māyā*, os animais não compreendam isso. O abate de pobres animais também se deve ao modo da ignorância. Os matadores de animais não sabem que, no futuro, o animal terá um corpo adequado para matá-los. Esta é a lei da natureza. Na sociedade humana, se alguém mata um homem, tem de ser enforcado. Esta é a lei do estado. Por causa da ignorância, as pessoas não percebem que há um estado completo controlado pelo Senhor Supremo. Toda criatura viva é filha do Senhor Supremo, e Ele não tolera nem mesmo a morte de uma formiga. É preciso pagar por isso. Logo, a indulgência em matar animais para o gosto da língua é o mais grosseiro tipo de ignorância. Um ser humano não tem necessidade de matar animais, pois Deus forneceu tantas coisas agradáveis. Se a pessoa, mesmo assim, se entrega a comer carne, deve-se compreender que está agindo em ignorância e tornando seu futuro muito sombrio. De todos os tipos de matança de animais, a matança de vacas é a mais perversa, porque a vaca nos dá todos os tipos de prazer fornecendo leite. O abate de vacas é um ato do mais grosseiro tipo de ignorância. Na literatura Védica, as palavras *gobhiḥ prīṇita-matsaram* indicam que aquele que, estando plenamente satisfeito pelo leite, deseja matar a vaca, está na mais grosseira ignorância. Há também uma oração na literatura Védica que afirma:\n\n\n\nnamo brahmaṇya-devāya go-brāhmaṇa-hitāya ca\n\njagaddhitāya kṛṣṇāya govindāya namo namaḥ.\n\n\n\n\"Meu Senhor, Tu és o benquerente das vacas e dos *brāhmaṇas*, e és o benquerente de toda a sociedade humana e do mundo.\" O propósito é que se dá menção especial nessa oração à proteção das vacas e dos *brāhmaṇas*. Os *brāhmaṇas* são o símbolo da educação espiritual, e as vacas são o símbolo do alimento mais valioso; estas duas criaturas vivas, os *brāhmaṇas* e as vacas, devem receber toda a proteção — esse é o verdadeiro avanço da civilização. Na sociedade humana moderna, o conhecimento espiritual é negligenciado, e o abate de vacas é incentivado. Há de se compreender, então, que a sociedade humana está avançando na direção errada e está abrindo caminho para sua própria condenação. Uma civilização que orienta os cidadãos a se tornarem animais em suas próximas vidas certamente não é uma civilização humana. A presente civilização humana está, sem dúvida, grosseiramente desviada pelos modos da paixão e da ignorância. É uma era muito perigosa, e todas as nações devem ter o cuidado de oferecer o processo mais fácil, a consciência de Kṛṣṇa, para salvar a humanidade do maior perigo."}
{"ref": "bg/14/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/17/", "verse_text": "sattvāt sañjāyate jñānaṁ\n\nrajaso lobha eva ca\n\npramāda-mohau tamaso\n\nbhavato 'jñānam eva ca", "devanagari": "> सत्त्वात्सञ्जायते ज्ञानं रजसो लोभ एव च ।\n> प्रमादमोहौ तमसो भवतोऽज्ञानमेव च ॥१७॥", "synonyms": "*sattvāt*—do modo da bondade; *sañjāyate*—desenvolve-se; *jñānam*—conhecimento; *rajasaḥ*—do modo da paixão; *lobhaḥ*—cobiça; *eva*—certamente; *ca*—também; *pramāda*—loucura; *mohau*—ilusão; *tamasaḥ*—do modo da ignorância; *bhavataḥ*—desenvolve-se; *ajñānam*—disparate; *eva*—certamente; *ca*—também.", "translation": "**Do modo da bondade desenvolve-se o conhecimento real; do modo da paixão desenvolve-se o pesar; e do modo da ignorância desenvolvem-se a tolice, a loucura e a ilusão.**", "purport": "Já que a presente civilização não é muito propícia às entidades vivas, recomenda-se a consciência de Kṛṣṇa. Por meio da consciência de Kṛṣṇa, a sociedade desenvolverá o modo da bondade. Quando o modo da bondade for desenvolvido, as pessoas verão as coisas como elas são. No modo da ignorância, as pessoas são exatamente como animais e não podem ver as coisas com clareza. No modo da ignorância, por exemplo, elas não veem que, ao matar um animal, correm o risco de ser mortas pelo mesmo animal na próxima vida. Como as pessoas não têm educação no conhecimento real, tornam-se irresponsáveis. Para deter essa irresponsabilidade, deve haver uma educação para desenvolver o modo da bondade nas pessoas em geral. Quando elas forem realmente educadas no modo da bondade, tornar-se-ão sóbrias, em pleno conhecimento das coisas como elas são. Então as pessoas serão felizes e prósperas. Mesmo que a maioria das pessoas não seja feliz e próspera, se uma certa porcentagem da população desenvolver a consciência de Kṛṣṇa e situar-se no modo da bondade, então haverá possibilidade de paz e prosperidade no mundo todo. Caso contrário, se o mundo se dedicar aos modos da paixão e da ignorância, não pode haver paz nem prosperidade. No modo da paixão, as pessoas tornam-se cobiçosas, e seu anseio pelo gozo dos sentidos não tem limite. Pode-se ver que, mesmo que se tenha bastante dinheiro e arranjos adequados para a gratificação dos sentidos, não há nem felicidade nem paz de espírito. Isso não é possível porque a pessoa está situada no modo da paixão. Se alguém deseja realmente felicidade, seu dinheiro não o ajudará; ele tem de elevar-se ao modo da bondade praticando a consciência de Kṛṣṇa. Aquele que se ocupa no modo da paixão não é apenas mentalmente infeliz, mas sua profissão e ocupação também são muito penosas. Tem de elaborar tantos planos e estratagemas para conseguir dinheiro suficiente para manter seu *status quo*. Tudo isso é miserável. No modo da ignorância, as pessoas tornam-se loucas. Estando aflitas por suas circunstâncias, refugiam-se em intoxicantes, e assim afundam-se ainda mais na ignorância. Seu futuro na vida é muito sombrio."}
{"ref": "bg/14/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/18/", "verse_text": "ūrdhvaṁ gacchanti sattva-sthā\n\nmadhye tiṣṭhanti rājasāḥ\n\njaghanya-guṇa-vṛtti-sthā\n\nadho gacchanti tāmasāḥ", "devanagari": "> ऊर्ध्वं गच्छन्ति सत्त्वस्था मध्ये तिष्ठन्ति राजसाः ।\n> जघन्यगुणवृत्तिस्था अधो गच्छन्ति तामसाः ॥१८॥", "synonyms": "*ūrdhvam*—para cima; *gacchanti*—vai; *sattva-sthāḥ*—aquele que está situado no modo da bondade; *madhye*—no meio; *tiṣṭhanti*—permanecem; *rājasāḥ*—aqueles que estão situados no modo da paixão; *jaghanya*—abominável; *guṇa*—qualidade; *vṛtti-sthāḥ*—ocupação; *adhaḥ*—para baixo; *gacchanti*—vão; *tāmasāḥ*—pessoas no modo da ignorância.", "translation": "**Aqueles situados no modo da bondade gradualmente sobem aos planetas superiores; os que estão no modo da paixão vivem nos planetas terrenos; e os que estão no modo da ignorância descem aos mundos infernais.**", "purport": "Neste verso os resultados das ações nos três modos da natureza são expostos mais explicitamente. Há um sistema planetário superior, composto pelos planetas celestiais, onde todos são altamente elevados. Conforme o grau de desenvolvimento do modo da bondade, a entidade viva pode ser transferida para vários planetas neste sistema. O planeta mais elevado é Satyaloka, ou Brahmaloka, onde reside a pessoa principal deste universo, o Senhor Brahmā. Já vimos que dificilmente se pode calcular a maravilhosa condição de vida em Brahmaloka, mas a mais alta condição de vida, o modo da bondade, pode levar-nos até lá.\n\n\n\nO modo da paixão é misturado. Está no meio, entre os modos da bondade e da ignorância. Uma pessoa nem sempre é pura, mas, mesmo que estivesse puramente no modo da paixão, simplesmente permaneceria nesta terra como um rei ou um homem rico. Mas, como há misturas, pode-se também descer. As pessoas nesta terra, nos modos da paixão ou da ignorância, não podem aproximar-se à força dos planetas superiores por meio de máquina. No modo da paixão, há também a chance de tornar-se louco na próxima vida.\n\n\n\nA qualidade mais baixa, o modo da ignorância, é descrita aqui como abominável. O resultado de desenvolver a ignorância é muito, muito arriscado. É a qualidade mais baixa na natureza material. Abaixo do nível humano há oito milhões de espécies de vida: pássaros, bestas, répteis, árvores, etc., e, conforme o desenvolvimento do modo da ignorância, as pessoas são levadas a estas condições abomináveis. A palavra *tāmasāḥ* é muito significativa aqui. *Tāmasāḥ* indica aqueles que permanecem continuamente no modo da ignorância sem elevar-se a um modo superior. Seu futuro é muito sombrio.\n\n\n\nHá oportunidade para os homens nos modos da ignorância e da paixão de serem elevados ao modo da bondade, e esse sistema chama-se consciência de Kṛṣṇa. Mas aquele que não aproveitar essa oportunidade certamente continuará nos modos inferiores."}
{"ref": "bg/14/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/19/", "verse_text": "nānyaṁ guṇebhyaḥ kartāraṁ\n\nyadā draṣṭānupaśyati\n\nguṇebhyaś ca paraṁ vetti\n\nmad-bhāvaṁ so 'dhigacchati", "devanagari": "> नान्यं गुणेभ्यः कर्तारं यदा द्रष्टानुपश्यति ।\n> गुणेभ्यश्च परं वेत्ति मद्भावं सोऽधिगच्छति ॥१९॥", "synonyms": "*na*—nunca; *anyam*—outro além; *guṇebhyaḥ*—das qualidades; *kartāram*—o executor; *yadā*—quando; *draṣṭā anupaśyati*—aquele que vê adequadamente; *guṇebhyaḥ ca*—dos modos da natureza; *param*—transcendental; *vetti*—saiba; *mat-bhāvam*—Minha natureza espiritual; *saḥ*—ele; *adhigacchati*—é promovido.", "translation": "**Quando vires que não há nada além destes modos da natureza em todas as atividades e que o Senhor Supremo é transcendental a todos esses modos, poderás conhecer Minha natureza espiritual.**", "purport": "É possível transcender todas as atividades dos modos da natureza material simplesmente compreendendo-as adequadamente, aprendendo com as almas adequadas. O verdadeiro mestre espiritual é Kṛṣṇa, e Ele está transmitindo este conhecimento espiritual a Arjuna. De modo semelhante, é com aqueles que estão plenamente em consciência de Kṛṣṇa que se tem de aprender esta ciência das atividades em termos dos modos da natureza. Caso contrário, a vida da pessoa estará mal direcionada. Pela instrução de um mestre espiritual genuíno, uma entidade viva pode conhecer sua posição espiritual, seu corpo material, seus sentidos, como está enredada e como está sob o feitiço dos modos materiais da natureza. Está desamparada, presa nas garras desses modos, mas, quando puder ver sua posição real, então poderá alcançar o plano transcendental, tendo escopo para a vida espiritual. Na verdade, a entidade viva não é a executora de diferentes atividades. É forçada a agir porque está situada num tipo particular de corpo, conduzido por algum modo particular da natureza material. A menos que tenha o auxílio da autoridade espiritual, não poderá compreender em que posição está realmente situada. Com a associação de um mestre espiritual genuíno, ela pode ver sua posição real e, por tal compreensão, pode tornar-se fixa em plena consciência de Kṛṣṇa. Um homem em consciência de Kṛṣṇa não é controlado pelo feitiço dos modos materiais da natureza. Já se afirmou no Sétimo Capítulo que aquele que se rendeu a Kṛṣṇa libertou-se das atividades da natureza material. Por conseguinte, para aquele que é capaz de ver as coisas como elas são, a influência da natureza material gradualmente cessa."}
{"ref": "bg/14/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/20/", "verse_text": "guṇān etān atītya trīn\n\ndehī deha-samudbhavān\n\njanma-mṛtyu-jarā-duḥkhair\n\nvimukto 'mṛtam aśnute", "devanagari": "> गुणानेतानतीत्य त्रीन्देही देहसमुद्भवान् ।\n> जन्ममृत्युजरादुःखैर्विमुक्तोऽमृतमश्नुते ॥२०॥", "synonyms": "*guṇān*—qualidades; *etān*—todas estas; *atītya*—transcendendo; *trīn*—três; *dehī*—corpo; *deha*—corpo; *samudbhavān*—produzidas de; *janma*—nascimento; *mṛtyu*—morte; *jarā*—velhice; *duḥkhaiḥ*—aflições; *vimuktaḥ*—sendo libertado de; *amṛtam*—néctar; *aśnute*—desfruta.", "translation": "**Quando o ser encarnado é capaz de transcender estes três modos, pode libertar-se do nascimento, da morte, da velhice e de suas aflições, e pode desfrutar do néctar mesmo nesta vida.**", "purport": "Como a pessoa pode permanecer na posição transcendental, mesmo neste corpo, em plena consciência de Kṛṣṇa, é o que se explica neste verso. A palavra sânscrita *dehī* significa encarnado. Embora se esteja dentro deste corpo material, por seu avanço em conhecimento espiritual a pessoa pode libertar-se da influência dos modos da natureza. Pode desfrutar da felicidade da vida espiritual mesmo neste corpo, porque, após deixar este corpo, certamente irá ao céu espiritual. Mas, mesmo neste corpo, pode desfrutar de felicidade espiritual. Em outras palavras, o serviço devocional na consciência de Kṛṣṇa é o sinal da liberação deste enredamento material, e isso será explicado no Décimo Oitavo Capítulo. Quando a pessoa se liberta da influência dos modos da natureza material, entra no serviço devocional."}
{"ref": "bg/14/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/21/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nkair liṅgais trīn guṇān etān\n\natīto bhavati prabho\n\nkim ācāraḥ kathaṁ caitāṁs\n\ntrīn guṇān ativartate", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> कैर्लिङ्गैस्त्रीन्गुणानेतानतीतो भवति प्रभो ।\n> किमाचारः कथं चैतांस्त्रीन्गुणानतिवर्तते ॥२१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *kaiḥ*—pelos quais; *liṅgaiḥ*—sintomas; *trīn*—três; *guṇān*—qualidades; *etān*—todas estas; *atītaḥ*—transcende; *bhavati*—torna-se; *prabho*—meu Senhor; *kim*—qual; *ācāraḥ*—comportamento; *katham*—como; *ca*—também; *etān*—estes; *trīn*—três; *guṇān*—qualidades; *ativartate*—transcende.", "translation": "**Arjuna perguntou: Ó meu querido Senhor, por quais sintomas se conhece aquele que é transcendental a esses modos? Qual é o seu comportamento? E como ele transcende os modos da natureza?**", "purport": "Neste verso, as perguntas de Arjuna são muito apropriadas. Ele quer saber os sintomas de uma pessoa que já transcendeu os modos materiais. Primeiro pergunta sobre os sintomas de tal pessoa transcendental. Como se pode compreender que ela já transcendeu a influência dos modos da natureza material? A segunda pergunta indaga como ela vive e quais são suas atividades. São reguladas ou não reguladas? Em seguida, Arjuna pergunta sobre os meios pelos quais ela pode alcançar a natureza transcendental. Isso é muito importante. A menos que se conheçam os meios diretos pelos quais a pessoa pode situar-se sempre transcendentalmente, não há possibilidade de manifestar os sintomas. Logo, todas estas perguntas feitas por Arjuna são muito importantes, e o Senhor as responde."}
{"ref": "bg/14/22-25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/22-25/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nprakāśaṁ ca pravṛttiṁ ca\n\nmoham eva ca pāṇḍava\n\nna dveṣṭi sampravṛttāni\n\nna nivṛttāni kāṅkṣati\n\nudāsīna-vad āsīno\n\nguṇair yo na vicālyate\n\nguṇā vartanta ity evaṁ\n\nyo 'vatiṣṭhati neṅgate\n\nsama-duḥkha-sukhaḥ sva-sthaḥ\n\nsama-loṣṭāśma-kāñcanaḥ\n\ntulya-priyāpriyo dhīras\n\ntulya-nindātma-saṁstutiḥ\n\nmānāpamānayos tulyas\n\ntulyo mitrāri-pakṣayoḥ\n\nsarvārambha-parityāgī\n\nguṇātītaḥ sa ucyate", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> प्रकाशं च प्रवृत्तिं च मोहमेव च पाण्डव ।\n> न द्वेष्टि सम्प्रवृत्तानि न निवृत्तानि काङ्क्षति ॥२२॥\n> उदासीनवदासीनो गुणैर्यो न विचाल्यते ।\n> गुणा वर्तन्त इत्येवं योऽवतिष्ठति नेङ्गते ॥२३॥\n> समदुःखसुखः स्वस्थः समलोष्टाश्मकाञ्चनः ।\n> तुल्यप्रियाप्रियो धीरस्तुल्यनिन्दात्मसंस्तुतिः ॥२४॥\n> मानापमानयोस्तुल्यस्तुल्यो मित्रारिपक्षयोः ।\n> सर्वारम्भपरित्यागी गुणातीतः स उच्यते ॥२५॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *prakāśam ca*—e iluminação; *pravṛttim ca*—e apego; *moham*—ilusão; *eva ca*—também; *pāṇḍava*—ó filho de Pāṇḍu; *na dveṣṭi*—não odeia; *sampravṛttāni*—embora desenvolvidos; *na nivṛttāni*—nem cessam de desenvolver-se; *kāṅkṣati*—deseja; *udāsīnavat*—como se neutro; *āsīnaḥ*—situado; *guṇaiḥ*—pelas qualidades; *yaḥ*—aquele que; *na*—nunca; *vicālyate*—é agitado; *guṇāḥ*—as qualidades; *vartante*—situa-se; *iti evam*—conhecendo assim; *yaḥ*—aquele que; *avatiṣṭhati*—permanece; *na*—nunca; *iṅgate*—vacila; *sama*—igualmente; *duḥkha*—na aflição; *sukhaḥ*—na felicidade; *svasthaḥ*—situado em si mesmo; *sama*—igualmente; *loṣṭa*—um torrão de terra; *aśma*—pedra; *kāñcanaḥ*—ouro; *tulya*—igualmente disposto; *priya*—querido; *apriyaḥ*—indesejado; *dhīraḥ*—firmemente; *tulya*—igualmente; *nindā*—em difamação; *ātma-saṁstutiḥ*—em louvor a si mesmo; *māna*—honra; *apamānayoḥ*—desonra; *tulyaḥ*—igualmente; *tulyaḥ*—igualmente; *mitra*—amigo; *ari*—inimigo; *pakṣayoḥ*—em partido; *sarva*—todos; *ārambhaḥ*—empenho; *parityāgī*—renunciante; *guṇa-atītaḥ*—transcendental aos modos materiais da natureza; *saḥ*—ele; *ucyate*—diz-se que é.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Aquele que não odeia a iluminação, o apego e a ilusão quando estão presentes, nem os anseia quando desaparecem; que está sentado como alguém indiferente, situado além destas reações materiais dos modos da natureza, que permanece firme, sabendo que somente os modos atuam; que considera de maneira igual o prazer e a dor, e olha para um torrão, uma pedra e um pedaço de ouro com olhar igual; que é sábio e considera louvor e censura como sendo a mesma coisa; que é imutável na honra e na desonra, que trata amigo e inimigo da mesma forma, que abandonou todos os empreendimentos fruitivos — tal homem se diz haver transcendido os modos da natureza.**", "purport": "Arjuna apresentou três perguntas diferentes, e o Senhor as responde uma após a outra. Nestes versos, Kṛṣṇa primeiramente indica que uma pessoa transcendentalmente situada não inveja ninguém nem anseia por nada. Quando uma entidade viva permanece neste mundo material encarnada no corpo material, deve-se compreender que está sob o controle de um dos três modos da natureza material. Quando ela está realmente fora do corpo, então está fora das garras dos modos materiais da natureza. Mas, enquanto não estiver fora do corpo material, deve manter-se neutra. Deve ocupar-se no serviço devocional ao Senhor para que sua identificação com o corpo material seja automaticamente esquecida. Quando a pessoa está consciente do corpo material, age apenas para gratificação dos sentidos, mas, quando se transfere a consciência para Kṛṣṇa, a gratificação dos sentidos cessa automaticamente. Não se necessita deste corpo material, e não é preciso aceitar os ditames do corpo material. As qualidades dos modos materiais no corpo atuarão, mas, como alma espiritual, o eu permanece à parte de tais atividades. Como ele se mantém à parte? Não deseja desfrutar do corpo, nem deseja sair dele. Assim transcendentalmente situado, o devoto torna-se automaticamente livre. Não precisa tentar libertar-se da influência dos modos da natureza material.\n\n\n\nA próxima questão refere-se ao trato de uma pessoa transcendentalmente situada. A pessoa materialmente situada é afetada pela chamada honra e desonra oferecida ao corpo, mas a pessoa transcendentalmente situada não é afetada por tal falsa honra e desonra. Ela cumpre seu dever na consciência de Kṛṣṇa e não se importa se um homem a honra ou desonra. Aceita as coisas que são favoráveis a seu dever na consciência de Kṛṣṇa; do contrário, não tem necessidade de nada material, seja uma pedra ou ouro. Considera todos seus queridos amigos os que o ajudam em sua execução da consciência de Kṛṣṇa, e não odeia seu suposto inimigo. Está igualmente disposto e vê tudo num mesmo nível, porque sabe perfeitamente bem que nada tem a ver com a existência material. Questões sociais e políticas não o afetam, pois conhece a situação dos transtornos e perturbações temporários. Não tenta nada para si mesmo. Pode tentar qualquer coisa por Kṛṣṇa, mas para seu próprio eu não consegue nada. Por tal comportamento, a pessoa torna-se realmente situada de modo transcendental."}
{"ref": "bg/14/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/26/", "verse_text": "māṁ ca yo 'vyabhicāreṇa\n\nbhakti-yogena sevate\n\nsa guṇān samatītyaitān\n\nbrahma-bhūyāya kalpate", "devanagari": "> मां च योऽव्यभिचारेण भक्तियोगेन सेवते ।\n> स गुणान्समतीत्यैतान्ब्रह्मभूयाय कल्पते ॥२६॥", "synonyms": "*mām*—a Mim; *ca*—também; *yaḥ*—pessoa; *avyabhicāreṇa*—sem falha; *bhakti-yogena*—pelo serviço devocional; *sevate*—presta serviço; *saḥ*—ele; *guṇān*—todos os modos da natureza material; *samatītya*—transcendendo; *etān*—todos estes; *brahma-bhūyāya*—ser elevado ao plano de Brahman; *kalpate*—é considerado.", "translation": "**Aquele que se ocupa em pleno serviço devocional, que não cai em circunstância alguma, transcende imediatamente os modos da natureza material e assim chega ao nível de Brahman.**", "purport": "Este verso é uma resposta à terceira pergunta de Arjuna: qual é o meio de alcançar a posição transcendental? Como já se explicou, o mundo material está agindo sob o feitiço dos modos da natureza material. Não se deve perturbar-se com as atividades dos modos da natureza; em vez de colocar a consciência em tais atividades, pode-se transferi-la às atividades de Kṛṣṇa. As atividades de Kṛṣṇa são conhecidas como *bhakti-yoga* — sempre agir por Kṛṣṇa. Isto inclui não apenas Kṛṣṇa, mas Suas diferentes expansões plenárias, tais como Rāma e Nārāyaṇa. Ele tem inúmeras expansões. Aquele que se ocupa no serviço a qualquer das formas de Kṛṣṇa, ou de Suas expansões plenárias, é considerado transcendentalmente situado. Deve-se também notar que todas as formas de Kṛṣṇa são plenamente transcendentais, bem-aventuradas, plenas de conhecimento e eternas. Tais personalidades de Deus são onipotentes e oniscientes, e possuem todas as qualidades transcendentais. Portanto, se a pessoa se ocupa no serviço a Kṛṣṇa ou Suas expansões plenárias com determinação infalível, embora estes modos da natureza material sejam muito difíceis de superar, pode superá-los facilmente. Isso já se explicou no Sétimo Capítulo. Aquele que se rende a Kṛṣṇa imediatamente supera a influência dos modos da natureza material. Estar em consciência de Kṛṣṇa ou em serviço devocional significa adquirir a igualdade com Kṛṣṇa. O Senhor diz que Sua natureza é eterna, bem-aventurada e plena de conhecimento, e as entidades vivas são parte integrante do Supremo, assim como as partículas de ouro são parte de uma mina de ouro. Logo, a posição espiritual da entidade viva é tão boa quanto o ouro, tão boa quanto Kṛṣṇa em qualidade. A diferença de individualidade continua; do contrário, não há sentido em *bhakti-yoga*. *Bhakti-yoga* significa que o Senhor está ali, o devoto está ali, e a atividade de troca de amor entre o Senhor e o devoto está ali. Por isso, a individualidade de duas pessoas está presente na Suprema Personalidade de Deus e na pessoa individual; do contrário, não há sentido em *bhakti-yoga*. Se a pessoa não está situada na mesma posição transcendental com o Senhor, não pode servir ao Senhor Supremo. Para ser assistente pessoal de um rei, deve-se adquirir as qualificações. Assim, a qualificação é tornar-se Brahman, ou estar livre de toda contaminação material. Diz-se na literatura Védica: *brahmaiva san brahmāpyeti*. Pode-se alcançar o Supremo Brahman tornando-se Brahman. Isto significa que se deve qualitativamente tornar-se um com Brahman. Pelo alcance de Brahman, não se perde a eterna identidade Brahman como alma individual."}
{"ref": "bg/14/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/14/27/", "verse_text": "brahmaṇo hi pratiṣṭhāham\n\namṛtasyāvyayasya ca\n\nśāśvatasya ca dharmasya\n\nsukhasyaikāntikasya ca", "devanagari": "> ब्रह्मणो हि प्रतिष्ठाहममृतस्याव्ययस्य च ।\n> शाश्वतस्य च धर्मस्य सुखस्यैकान्तिकस्य च ॥२७॥", "synonyms": "*brahmaṇaḥ*—do *brahmajyoti* impessoal; *hi*—certamente; *pratiṣṭhā*—o repouso; *aham*—Eu sou; *amṛtasya*—do imperecível; *avyayasya*—imortal; *ca*—também; *śāśvatasya*—do eterno; *ca*—e; *dharmasya*—da posição constitucional; *sukhasya*—felicidade; *aikāntikasya*—última; *ca*—também.", "translation": "**E Eu sou a base do Brahman impessoal, que é a posição constitucional da última felicidade, e que é imortal, imperecível e eterno.**", "purport": "A constituição de Brahman é imortalidade, imperecibilidade, eternidade e felicidade. Brahman é o início da realização transcendental. Paramātmā, a Superalma, é o meio, o segundo estágio na realização transcendental, e a Suprema Personalidade de Deus é a última realização da Verdade Absoluta. Por isso, tanto Paramātmā como o Brahman impessoal estão dentro da Pessoa Suprema. Explica-se no Sétimo Capítulo que a natureza material é a manifestação da energia inferior do Senhor Supremo. O Senhor fecunda a natureza material inferior com os fragmentos da natureza superior, e esse é o toque espiritual na natureza material. Quando uma entidade viva condicionada por esta natureza material começa a cultivar o conhecimento espiritual, eleva-se da posição da existência material e gradualmente sobe até a concepção do Brahman do Supremo. Esse alcance da concepção do Brahman da vida é o primeiro estágio na autorrealização. Nesse estágio, a pessoa que realizou Brahman é transcendental à posição material, mas não é realmente perfeita na realização do Brahman. Se quiser, pode continuar a permanecer na posição de Brahman e então gradualmente subir até a realização do Paramātmā e, em seguida, à realização da Suprema Personalidade de Deus. Há muitos exemplos disso na literatura Védica. Os quatro Kumāras estavam situados a princípio na concepção do Brahman impessoal da verdade, mas então gradualmente se elevaram ao plano do serviço devocional. Aquele que não consegue elevar-se além da concepção impessoal do Brahman corre o risco de cair. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que, embora a pessoa possa subir ao estágio do Brahman impessoal, sem ir além, sem informações sobre a Pessoa Suprema, sua inteligência não está perfeitamente clara. Logo, apesar de ser elevada ao plano de Brahman, há a possibilidade de cair se ela não estiver ocupada no serviço devocional ao Senhor. Na linguagem Védica também se diz: *raso vai saḥ; rasaṁ hy evāyaṁ labdhvānandī bhavati*. \"Quando a pessoa compreende a Personalidade de Deus, o reservatório de prazer, Kṛṣṇa, ela realmente se torna transcendentalmente bem-aventurada.\" O Senhor Supremo é pleno em seis opulências, e, quando um devoto se aproxima Dele, há um intercâmbio dessas seis opulências. O servo do rei desfruta num nível quase igual ao do rei. E assim, felicidade eterna, felicidade imperecível e vida eterna acompanham o serviço devocional. Por isso, a realização de Brahman, ou da eternidade, ou da imperecibilidade, está incluída no serviço devocional. Isso já é possuído por uma pessoa que se ocupa no serviço devocional.\n\n\n\nA entidade viva, embora seja Brahman por natureza, tem o desejo de assenhorar-se do mundo material e, devido a isso, cai. Em sua posição constitucional, uma entidade viva está acima dos três modos da natureza material, mas a associação com a natureza material a enreda nos diferentes modos da natureza material — bondade, paixão e ignorância. Devido à associação destes três modos, seu desejo de dominar o mundo material está presente. Pela ocupação no serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa, ela imediatamente se situa na posição transcendental, e seu desejo ilegítimo de controlar a natureza material é removido. Por conseguinte, o processo de serviço devocional, que começa com ouvir, cantar e lembrar — os nove métodos prescritos para realizar o serviço devocional — deve ser praticado na associação de devotos. Gradualmente, por tal associação, pela influência do mestre espiritual, o desejo material da pessoa de dominar é removido, e ela se torna firmemente situada no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Este método é prescrito do vigésimo segundo verso até o último verso deste capítulo. O serviço devocional ao Senhor é muito simples: deve-se sempre ocupar-se no serviço ao Senhor, comer os restos dos alimentos oferecidos à Deidade, cheirar as flores oferecidas aos pés de lótus do Senhor, ver os lugares onde o Senhor teve Seus passatempos transcendentais, ler sobre as diferentes atividades do Senhor, Seu intercâmbio de amor com Seus devotos, cantar sempre a vibração transcendental Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, e observar os dias de jejum em comemoração aos aparecimentos e desaparecimentos do Senhor e de Seus devotos. Seguindo tal processo, a pessoa torna-se completamente desapegada de todas as atividades materiais. Aquele que pode assim situar-se no *brahmajyoti* é igual à Suprema Personalidade de Deus em qualidade.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Quarto Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* referente aos Três Modos da Natureza Material."}
{"ref": "bg/15/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/1/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nūrdhva-mūlam adhaḥ-śākham\n\naśvatthaṁ prāhur avyayam\n\nchandāṁsi yasya parṇāni\n\nyas taṁ veda sa veda-vit", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> ऊर्ध्वमूलमधःशाखमश्वत्थं प्राहुरव्ययम् ।\n> छन्दांसि यस्य पर्णानि यस्तं वेद स वेदवित् ॥१॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *ūrdhva-mūlam*—com as raízes para cima; *adhaḥ*—para baixo; *śākham*—galhos; *aśvattham*—figueira-de-bengala; *prāhuḥ*—disse-se; *avyayam*—eterna; *chandāṁsi*—os hinos Védicos; *yasya*—da qual; *parṇāni*—as folhas; *yaḥ*—todo aquele; *tam*—essa; *veda*—conhece; *saḥ*—ele; *veda-vit*—o conhecedor dos Vedas.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: Há uma figueira-de-bengala cujas raízes apontam para cima e cujos galhos descem, e cujas folhas são os hinos Védicos. Aquele que conhece essa árvore é o conhecedor dos *Vedas*.**", "purport": "Após a discussão sobre a importância do bhakti-yoga, pode-se indagar: \"E quanto aos *Vedas*?\" Neste capítulo, explica-se que o propósito do estudo Védico é compreender Kṛṣṇa. Portanto, aquele que está em consciência de Kṛṣṇa, ocupado em serviço devocional, já conhece os *Vedas*.\n\n\n\nO enredamento deste mundo material é aqui comparado a uma figueira-de-bengala. Para quem se ocupa em atividades fruitivas, não há fim para essa figueira. Ele vagueia de um galho a outro, e a outro, e a outro mais. A árvore deste mundo material não tem fim, e para quem está apegado a ela não há possibilidade de liberação. Os hinos Védicos, destinados a elevar o ser, são chamados as folhas dessa árvore. As raízes dessa árvore crescem para cima porque começam de onde se localiza Brahmā, o planeta mais elevado deste universo. Se alguém puder compreender essa indestrutível árvore da ilusão, então poderá sair dela.\n\n\n\nEsse processo de extricação deve ser compreendido. Nos capítulos anteriores, explicou-se que existem muitos processos pelos quais se pode escapar do enredamento material. E, até o Décimo Terceiro Capítulo, vimos que o serviço devocional ao Senhor Supremo é o melhor caminho. Ora, o princípio básico do serviço devocional consiste no desapego das atividades materiais e no apego ao serviço transcendental do Senhor. O processo de romper o apego ao mundo material é discutido no início deste capítulo. A raiz desta existência material cresce para cima. Isso significa que ela começa a partir da substância material total, do planeta mais elevado do universo. Dali, todo o universo se expande, com inúmeros galhos, que representam os vários sistemas planetários. Os frutos representam os resultados das atividades das entidades vivas, a saber: religião, desenvolvimento econômico, gratificação dos sentidos e liberação.\n\n\n\nPois bem, não há experiência imediata neste mundo de uma árvore situada com os galhos para baixo e as raízes para cima, mas tal coisa existe. Tal árvore pode ser encontrada à beira de um reservatório de água. Vê-se que as árvores na margem se refletem na água com seus galhos para baixo e raízes para cima. Em outras palavras, a árvore deste mundo material é apenas um reflexo da verdadeira árvore do mundo espiritual. Esse reflexo do mundo espiritual está situado no desejo, assim como o reflexo da árvore se situa sobre a água. O desejo é a causa de as coisas estarem situadas nesta luz material refletida. Aquele que deseja sair desta existência material precisa conhecer essa árvore minuciosamente, por meio de estudo analítico. Então poderá cortar sua relação com ela.\n\n\n\nEssa árvore, sendo o reflexo da árvore real, é uma réplica exata. Tudo está lá no mundo espiritual. Os impersonalistas tomam Brahmā como a raiz desta árvore material e, a partir da raiz, segundo a filosofia *sāṅkhya*, vêm prakṛti, puruṣa, depois os três *guṇas*, depois os cinco elementos grosseiros (*pañca-mahābhūta*), depois os dez sentidos (*daśendriya*), a mente, etc. Dessa forma, eles dividem todo o mundo material. Se Brahmā é o centro de todas as manifestações, então este mundo material é uma manifestação do centro em 180 graus, e os outros 180 graus constituem o mundo espiritual. O mundo material é o reflexo pervertido, de modo que o mundo espiritual deve ter a mesma variedade, mas em realidade. A *prakṛti* é a energia externa do Senhor Supremo, e o *puruṣa* é o próprio Senhor Supremo, e isso se explica no *Bhagavad-gītā*. Visto que esta manifestação é material, é temporária. Um reflexo é temporário, pois às vezes é visto e às vezes não. Contudo, a origem da qual o reflexo se reflete é eterna. O reflexo material da árvore real precisa ser cortado. Quando se afirma que uma pessoa conhece os *Vedas*, presume-se que ela sabe como cortar o apego a este mundo material. Se alguém conhece esse processo, então de fato conhece os *Vedas*. Aquele que se sente atraído pelas fórmulas ritualísticas dos *Vedas* é atraído pelas belas folhas verdes da árvore. Ele não conhece exatamente o propósito dos *Vedas*. O propósito dos *Vedas*, conforme revelado pela própria Personalidade de Deus, é cortar essa árvore refletida e alcançar a verdadeira árvore do mundo espiritual."}
{"ref": "bg/15/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/2/", "verse_text": "adhaś cordhvaṁ prasṛtās tasya śākhā\n\nguṇa-pravṛddhā viṣaya-pravālāḥ\n\nadhaś ca mūlāny anusantatāni\n\nkarmānubandhīni manuṣya-loke", "devanagari": "> अधश्चोर्ध्वं प्रसृतास्तस्य शाखा\n> गुणप्रवृद्धा विषयप्रवालाः ।\n> अधश्च मूलान्यनुसन्ततानि\n> कर्मानुबन्धीनि मनुष्यलोके ॥२॥", "synonyms": "*adhaḥ*—para baixo; *ca*—e; *ūrdhvam*—para cima; *prasṛtāḥ*—estendidos; *tasya*—seus; *śākhāḥ*—galhos; *guṇa*—modos da natureza material; *pravṛddhāḥ*—desenvolvidos; *viṣaya*—objetos dos sentidos; *pravālāḥ*—ramos; *adhaḥ*—para baixo; *ca*—e; *mūlāni*—raízes; *anusantatāni*—estendidas; *karma*—segundo o trabalho; *anubandhīni*—atadas; *manuṣya-loke*—no mundo da sociedade humana.", "translation": "**Os galhos desta árvore se estendem para baixo e para cima, nutridos pelos três modos da natureza material. Os ramos são os objetos dos sentidos. Esta árvore tem também raízes que descem, e estas estão atadas às ações fruitivas da sociedade humana.**", "purport": "A descrição da figueira-de-bengala é aqui melhor explicada. Seus galhos se espalham em todas as direções. Nas partes inferiores, há manifestações variadas de entidades vivas, tais como seres humanos, animais, cavalos, vacas, cães, gatos, etc. Estes se situam nas partes inferiores dos galhos, ao passo que nas partes superiores estão formas mais elevadas de entidades vivas: os semideuses, os Gandharvas (fadas) e muitas outras espécies de vida superiores. Assim como uma árvore é nutrida pela água, esta árvore é nutrida pelos três modos da natureza material. Às vezes verificamos que uma extensão de terra é estéril por falta de água suficiente, e às vezes uma extensão é muito verde; de modo semelhante, onde os modos da natureza material são proporcionalmente maiores em quantidade, as diferentes espécies de vida se manifestam nessa proporção.\n\n\n\nOs ramos da árvore são considerados os objetos dos sentidos. Pelo desenvolvimento dos diversos modos da natureza, desenvolvemos diferentes sentidos, e, pelos sentidos, desfrutamos de diversas variedades de objetos dos sentidos. A fonte dos sentidos — os ouvidos, o nariz, os olhos, etc. — é considerada como os ramos superiores, sintonizados ao desfrute dos diferentes objetos dos sentidos. As folhas são o som, a forma, o tato — os objetos dos sentidos. As raízes, que são subsidiárias, são os subprodutos das diversas variedades de sofrimento e de gozo dos sentidos. Dessa maneira, desenvolvemos apego e aversão. As tendências à piedade e à impiedade são consideradas as raízes secundárias, espalhando-se em todas as direções. A raiz verdadeira parte de Brahmaloka, e as outras raízes estão nos sistemas planetários humanos. Após desfrutar dos resultados das atividades virtuosas nos sistemas planetários superiores, a pessoa desce a esta Terra e renova seu *karma* ou atividades fruitivas para promoção. Este planeta dos seres humanos é considerado o campo das atividades."}
{"ref": "bg/15/3-4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/3-4/", "verse_text": "na rūpam asyeha tathopalabhyate\n\nnānto na cādir na ca sampratiṣṭhā\n\naśvattham enaṁ su-virūḍha-mūlam\n\nasaṅga-śastreṇa dṛḍhena chittvā\n\ntataḥ padaṁ tat parimārgitavyaṁ\n\nyasmin gatā na nivartanti bhūyaḥ\n\ntam eva cādyaṁ puruṣaṁ prapadye\n\nyataḥ pravṛttiḥ prasṛtā purāṇī", "devanagari": "> न रूपमस्येह तथोपलभ्यते\n> नान्तो न चादिर्न च सम्प्रतिष्ठा ।\n> अश्वत्थमेनं सुविरूढमूलं\n> असङ्गशस्त्रेण दृढेन छित्त्वा ॥३॥\n> ततः पदं तत्परिमार्गितव्यं\n> यस्मिन्गता न निवर्तन्ति भूयः ।\n> तमेव चाद्यं पुरुषं प्रपद्ये\n> यतः प्रवृत्तिः प्रसृता पुराणी ॥४॥", "synonyms": "*na*—não; *rūpam*—forma; *asya*—desta árvore; *iha*—neste; *tathā*—também; *upalabhyate*—pode ser percebida; *na*—nunca; *antaḥ*—fim; *na*—nunca; *ca*—também; *ādiḥ*—início; *na*—nunca; *ca*—também; *sampratiṣṭhā*—o fundamento; *aśvattham*—figueira-de-bengala; *enam*—esta; *suvirūḍha*—fortemente; *mūlam*—arraigada; *asaṅga-śastreṇa*—pela arma do desapego; *dṛḍhena*—firme; *chittvā*—cortando; *tataḥ*—em seguida; *padam*—situação; *tat*—aquela; *parimārgitavyam*—deve ser buscada; *yasmin*—onde; *gatāḥ*—indo; *na*—nunca; *nivartanti*—retorna; *bhūyaḥ*—de novo; *tam*—a Ele; *eva*—certamente; *ca*—também; *ādyam*—original; *puruṣam*—a Personalidade de Deus; *prapadye*—entrego-me; *yataḥ*—de quem; *pravṛttiḥ*—princípio; *prasṛtā*—extensão; *purāṇī*—muito antiga.", "translation": "**A forma real desta árvore não pode ser percebida neste mundo. Ninguém pode compreender onde ela termina, onde começa ou onde está seu fundamento. Mas, com determinação, deve-se cortar esta árvore com a arma do desapego. Assim procedendo, deve-se buscar aquele lugar do qual, uma vez tendo ido, jamais se retorna, e ali render-se àquela Suprema Personalidade de Deus de quem tudo começou e em quem tudo subsiste desde tempos imemoriais.**", "purport": "Está agora claramente afirmado que a forma real desta figueira-de-bengala não pode ser compreendida neste mundo material. Visto que a raiz está para cima, a extensão da árvore real está na outra extremidade. Ninguém pode ver até onde a árvore se estende, nem o início desta árvore. Ainda assim, é preciso descobrir a causa. \"Eu sou o filho de meu pai, meu pai é o filho de tal e tal pessoa, etc.\" Buscando dessa maneira, chega-se a Brahmā, que é gerado por Garbhodakaśāyī Viṣṇu. Por fim, dessa forma, quando se chega à Suprema Personalidade de Deus, esse é o fim do trabalho de pesquisa. É preciso buscar essa origem da árvore, a Suprema Personalidade de Deus, por meio da associação de pessoas que estão em conhecimento daquela Suprema Personalidade de Deus. Então, pelo entendimento, a pessoa torna-se gradualmente desapegada deste falso reflexo da realidade, e, pelo conhecimento, pode cortar a conexão e de fato situar-se na árvore real.\n\n\n\nA palavra *asaṅga* é muito importante neste contexto, porque o apego ao gozo dos sentidos e a senhorear-se da natureza material é muito forte. Por isso, é preciso aprender o desapego mediante a discussão da ciência espiritual baseada em escrituras autorizadas, e é preciso ouvir de pessoas que estejam de fato em conhecimento. Como resultado dessa discussão na associação dos devotos, chega-se à Suprema Personalidade de Deus. Então, a primeira coisa que se deve fazer é render-se a Ele. A descrição daquele lugar, indo ao qual ninguém retorna a esta falsa árvore refletida, é dada aqui. A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a raiz original de quem tudo emanou. Para conquistar o favor dessa Personalidade de Deus, basta render-se, e isso é resultado de executar serviço devocional ouvindo, cantando, etc. Ele é a causa desta extensão deste mundo material. Isso já foi explicado pelo próprio Senhor: *ahaṁ sarvasya prabhavaḥ.* \"Eu sou a origem de tudo.\"\n\n\n\nPor conseguinte, para sair do enredamento desta forte figueira-de-bengala da vida material, é preciso render-se a Kṛṣṇa. Tão logo a pessoa se renda a Kṛṣṇa, ela se desapega automaticamente desta extensão material."}
{"ref": "bg/15/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/5/", "verse_text": "nirmāna-mohā jita-saṅga-doṣā\n\nadhyātma-nityā vinivṛtta-kāmāḥ\n\ndvandvair vimuktāḥ sukha-duḥkha-saṁjñair\n\ngacchanty amūḍhāḥ padam avyayaṁ tat", "devanagari": "> निर्मानमोहा जितसङ्गदोषा\n> अध्यात्मनित्या विनिवृत्तकामाः ।\n> द्वन्द्वैर्विमुक्ताः सुखदुःखसंज्ञैर्-\n> गच्छन्त्यमूढाः पदमव्ययं तत् ॥५॥", "synonyms": "*nir*—sem; *māna*—respeito; *mohāḥ*—ilusão; *jita*—tendo conquistado; *saṅga*—associação; *doṣāḥ*—defeituosa; *adhyātma*—espiritual; *nityāḥ*—eternidade; *vinivṛtta*—associadas; *kāmāḥ*—luxúrias; *dvandvaiḥ*—com a dualidade; *vimuktāḥ*—liberados; *sukha-duḥkha*—felicidade e aflição; *saṁjñaiḥ*—chamados; *gacchanti*—alcança; *amūḍhāḥ*—não confundidos; *padam*—situação; *avyayam*—eterna; *tat*—aquela.", "translation": "**Aquele que está livre da ilusão, do falso prestígio e da falsa associação, que compreende o eterno, que terminou com a luxúria material e está liberado da dualidade da felicidade e da aflição, e que sabe como render-se à Pessoa Suprema, alcança aquele reino eterno.**", "purport": "O processo de rendição é descrito aqui muito bem. A primeira qualificação é que não se deve estar iludido pelo orgulho. Como a alma condicionada está convencida, julgando-se senhora da natureza material, é muito difícil para ela render-se à Suprema Personalidade de Deus. Deve-se saber, pelo cultivo do conhecimento verdadeiro, que não se é senhor da natureza material; a Suprema Personalidade de Deus é o Senhor. Quando alguém está livre da ilusão causada pelo orgulho, pode iniciar o processo de rendição. Para aquele que está sempre esperando alguma honra neste mundo material, não é possível render-se à Pessoa Suprema. O orgulho deve-se à ilusão, pois, embora venha aqui, permaneça por breve tempo e depois vá embora, a pessoa tem a tola noção de que é o senhor do mundo. Dessa maneira, complica todas as coisas e está sempre em apuros. O mundo inteiro caminha sob essa impressão. As pessoas consideram que a terra, este planeta, pertence à sociedade humana, e dividiram a terra sob a falsa impressão de que são as proprietárias. É preciso livrar-se dessa falsa noção de que a sociedade humana é a proprietária deste mundo. Quando alguém se libera de tal falsa noção, fica livre de todas as falsas associações causadas por afeições familiares, sociais e nacionais. Essas associações postiças prendem o ser a este mundo material. Após esse estágio, é preciso desenvolver conhecimento espiritual. É preciso cultivar o conhecimento do que é de fato seu e do que de fato não lhe pertence. E, quando se tem uma compreensão das coisas como elas são, fica-se livre de todas as concepções duais, tais como felicidade e aflição, prazer e dor. A pessoa torna-se plena em conhecimento; então é-lhe possível render-se à Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/15/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/6/", "verse_text": "na tad bhāsayate sūryo\n\nna śaśāṅko na pāvakaḥ\n\nyad gatvā na nivartante\n\ntad dhāma paramaṁ mama", "devanagari": "> न तद्भासयते सूर्यो न शशाङ्को न पावकः ।\n> यद्गत्वा न निवर्तन्ते तद्धाम परमं मम ॥६॥", "synonyms": "*na*—não; *tat*—essa; *bhāsayate*—ilumina; *sūryaḥ*—sol; *na*—nem; *śaśāṅkaḥ*—a lua; *na*—nem; *pāvakaḥ*—fogo, eletricidade; *yat*—onde; *gatvā*—indo; *na*—nunca; *nivartante*—retorna; *tat dhāma*—aquela morada; *paramam*—suprema; *mama*—Minha.", "translation": "**Aquela Minha morada não é iluminada pelo sol nem pela lua, nem pela eletricidade. Aquele que a alcança jamais retorna a este mundo material.**", "purport": "O mundo espiritual, a morada da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa — que é conhecida como Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana —, é descrito aqui. No céu espiritual, não há necessidade de luz solar, luar, fogo ou eletricidade, porque todos os planetas são autoluminosos. Temos apenas um planeta neste universo, o sol, que é autoluminoso, mas todos os planetas no céu espiritual são autoluminosos. A refulgência brilhante de todos esses planetas (chamados Vaikuṇṭhas) constitui o céu brilhante conhecido como *brahmajyoti*. Na verdade, a refulgência emana do planeta de Kṛṣṇa, Goloka Vṛndāvana. Parte dessa refulgência brilhante é coberta pelo *mahat-tattva*, o mundo material. Fora isso, a maior porção desse céu brilhante está repleta de planetas espirituais, que são chamados Vaikuṇṭhas, dos quais o principal é Goloka Vṛndāvana.\n\n\n\nEnquanto a entidade viva está neste obscuro mundo material, ela está na vida condicional, mas, tão logo alcance o céu espiritual, cortando através da falsa e pervertida árvore deste mundo material, torna-se liberada. Então não há possibilidade de retornar para cá. Em sua vida condicional, a entidade viva considera-se senhora deste mundo material, mas, em seu estado liberado, ela ingressa no reino espiritual e torna-se associada do Senhor Supremo. Lá, desfruta de bem-aventurança eterna, vida eterna e pleno conhecimento.\n\n\n\nA pessoa deve sentir-se cativada por essa informação. Deve desejar transferir-se para aquele mundo eterno e extricar-se deste falso reflexo da realidade. Para quem está demasiado apegado a este mundo material, é muito difícil cortar tal apego, mas, se ela adotar a consciência de Kṛṣṇa, há possibilidade de gradualmente desapegar-se. É preciso associar-se com devotos, aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa. Deve-se buscar uma sociedade dedicada à consciência de Kṛṣṇa e aprender como executar serviço devocional. Dessa maneira, pode-se cortar o apego ao mundo material. Não é possível desapegar-se da atração do mundo material simplesmente vestindo-se de roupa cor de açafrão. É preciso apegar-se ao serviço devocional do Senhor. Por isso, deve-se levar muito a sério que o serviço devocional, conforme descrito no Décimo Segundo Capítulo, é a única forma de sair desta falsa representação da árvore real. No Capítulo Quatorze, descreve-se a contaminação de todos os tipos de processos pela natureza material. Apenas o serviço devocional é descrito como puramente transcendental.\n\n\n\nAs palavras *paramaṁ mama* são muito importantes aqui. Na verdade, cada canto e cantinho é propriedade do Senhor Supremo, mas o mundo espiritual é *paramam*, repleto de seis opulências. Nos *Upaniṣads* também se confirma que, no mundo espiritual, não há necessidade de luz solar nem luar, pois todo o céu espiritual é iluminado pela potência interna do Senhor Supremo. Aquela morada suprema só pode ser alcançada pela rendição, e por nenhum outro meio."}
{"ref": "bg/15/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/7/", "verse_text": "mamaivāṁśo jīva-loke\n\njīva-bhūtaḥ sanātanaḥ\n\nmanaḥ-ṣaṣṭhānīndriyāṇi\n\nprakṛti-sthāni karṣati", "devanagari": "> ममैवांशो जीवलोके जीवभूतः सनातनः ।\n> मनःषष्ठानीन्द्रियाणि प्रकृतिस्थानि कर्षति ॥७॥", "synonyms": "*mama*—Minhas; *eva*—certamente; *aṁśaḥ*—partículas fragmentárias; *jīva-loke*—mundo da vida condicional; *jīva-bhūtaḥ*—as entidades vivas condicionadas; *sanātanaḥ*—eternas; *manaḥ*—mente; *ṣaṣṭhāni*—seis; *indriyāṇi*—sentidos; *prakṛti*—natureza material; *sthāni*—situados; *karṣati*—lutando arduamente.", "translation": "**As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Devido à vida condicional, elas estão lutando arduamente com os seis sentidos, que incluem a mente.**", "purport": "Neste verso, a identidade do ser vivo é claramente dada. A entidade viva é a parte fragmentária integrante do Senhor Supremo — eternamente. Não que ela assuma individualidade em sua vida condicional e, em seu estado liberado, torne-se una com o Senhor Supremo. Ela é eternamente fragmentária. Está claramente dito: *sanātanaḥ.* Segundo a versão Védica, o Senhor Supremo manifesta-Se e expande-Se em inumeráveis expansões, cujas expansões primárias se chamam *Viṣṇu-tattva*, e as expansões secundárias se chamam entidades vivas. Em outras palavras, o *Viṣṇu-tattva* é a expansão pessoal, e as entidades vivas são expansões separadas. Por Sua expansão pessoal, Ele Se manifesta em várias formas, como o Senhor Rāma, Nṛsiṁhadeva, Viṣṇumūrti e todas as Deidades predominantes nos planetas Vaikuṇṭha. As expansões separadas, as entidades vivas, são eternamente servidoras. As expansões pessoais da Suprema Personalidade de Deus, as identidades individuais da Divindade, estão sempre presentes. De modo semelhante, as expansões separadas das entidades vivas têm suas identidades. Como partes fragmentárias integrantes do Senhor Supremo, as entidades vivas também têm qualidades fragmentárias, das quais a independência é uma. Cada entidade viva tem uma alma individual, sua individualidade pessoal e uma forma diminuta de independência. Pelo mau uso dessa independência, torna-se uma alma condicionada, e pelo uso adequado da independência ela está sempre liberada. Em qualquer dos casos, é qualitativamente eterna, assim como o é o Senhor Supremo. Em seu estado liberado, está livre desta condição material, e está sob a ocupação do serviço transcendental ao Senhor; em sua vida condicionada, é dominada pelos modos materiais da natureza, e esquece o transcendental serviço amoroso ao Senhor. Em consequência, tem de lutar arduamente para manter sua existência no mundo material.\n\n\n\nAs entidades vivas, não apenas os seres humanos e os gatos e cães, mas até mesmo os controladores maiores do mundo material — Brahmā, o Senhor Śiva e até Viṣṇu — são todos partes integrantes do Senhor Supremo. Todos são eternos, não manifestações temporárias. A palavra *karṣati* (lutando ou debatendo-se arduamente) é muito significativa. A alma condicionada está atada, como que acorrentada por correntes de ferro. Está atada pelo ego falso, e a mente é o agente principal que a conduz nesta existência material. Quando a mente está no modo da bondade, suas atividades são boas; quando a mente está no modo da paixão, suas atividades são problemáticas; e quando a mente está no modo da ignorância, ela viaja pelas espécies inferiores de vida. Está claro, contudo, neste verso, que a alma condicionada está coberta pelo corpo material, com a mente e os sentidos, e quando se libera, esta cobertura material perece, mas seu corpo espiritual manifesta-se em sua capacidade individual. A seguinte informação consta na Mādhyandi-nāyana-śruti: *sa vā eṣa brahma-niṣṭha idaṁ sarīraṁ marttyam atisṛjya brahmābhisampadya brahmaṇā paśyati brahmaṇā śṛnoti brahmaṇaivedaṁ sarvam anubhavati.* Afirma-se aqui que, quando uma entidade viva abandona esta corporificação material e ingressa no mundo espiritual, ela revive seu corpo espiritual, e em seu corpo espiritual pode ver a Suprema Personalidade de Deus face a face. Pode ouvir e falar com Ele face a face, e pode compreender a Suprema Personalidade tal como Ele é. No *smṛti* também se entende que, nos planetas espirituais, todos vivem em corpos com aspecto semelhante ao da Suprema Personalidade de Deus. No que diz respeito à constituição corporal, não há diferença entre as entidades vivas, partes integrantes, e as expansões de Viṣṇumūrti. Em outras palavras, na liberação, a entidade viva obtém um corpo espiritual pela graça da Suprema Personalidade de Deus.\n\n\n\nA palavra *mamaivāṁśaḥ* (partes fragmentárias integrantes do Senhor Supremo) é também muito significativa. A porção fragmentária do Senhor Supremo não é como alguma parte material quebrada. Já compreendemos no Segundo Capítulo que o espírito não pode ser cortado em pedaços. Esse fragmento não é concebido materialmente. Não é como a matéria, que pode ser cortada em pedaços e reunida novamente. Essa concepção não é aplicável aqui, porque a palavra sânscrita *sanātana* (eterno) é usada. A porção fragmentária é eterna. Também se afirma no início do Segundo Capítulo que (*dehino 'smin yathā*) em cada corpo individual está presente a porção fragmentária do Senhor Supremo. Essa porção fragmentária, quando liberada do enredamento corporal, revive seu corpo espiritual original no céu espiritual, num planeta espiritual, e desfruta da associação do Senhor Supremo. Aqui se entende, contudo, que a entidade viva, sendo a parte fragmentária integrante do Senhor Supremo, é qualitativamente uma com Ele, assim como as partes integrantes do ouro também são ouro."}
{"ref": "bg/15/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/8/", "verse_text": "śarīraṁ yad avāpnoti\n\nyac cāpy utkrāmatīśvaraḥ\n\ngṛhītvaitāni saṁyāti\n\nvāyur gandhān ivāśayāt", "devanagari": "> शरीरं यदवाप्नोति यच्चाप्युत्क्रामतीश्वरः ।\n> गृहीत्वैतानि संयाति वायुर्गन्धानिवाशयात् ॥८॥", "synonyms": "*śarīram*—corpo; *yat*—tanto quanto; *avāpnoti*—obtém; *yat*—aquilo que; *ca*—também; *api*—virtualmente; *utkrāmati*—abandona; *īśvaraḥ*—o senhor do corpo; *gṛhītvā*—levando; *etāni*—todos estes; *saṁyāti*—vai-se; *vāyuḥ*—ar; *gandhān*—cheiro; *iva*—como; *āśayāt*—da flor.", "translation": "**A entidade viva no mundo material leva consigo suas diferentes concepções de vida de um corpo a outro, assim como o ar carrega aromas.**", "purport": "Aqui, a entidade viva é descrita como *īśvara*, o controlador de seu próprio corpo. Se quiser, pode mudar seu corpo para um grau superior, e, se quiser, pode mover-se para uma classe inferior. Há diminuta independência. A mudança que seu corpo sofre depende dela. No momento da morte, a consciência que ela criou a levará ao próximo tipo de corpo. Se houver feito sua consciência semelhante à de um gato ou de um cão, certamente mudará para um corpo de gato ou de cão. E, se houver fixado sua consciência em qualidades divinas, mudará para a forma de um semideus. E, se estiver em consciência de Kṛṣṇa, será transferida para Kṛṣṇaloka, no mundo espiritual, e associar-se-á com Kṛṣṇa. É falsa a alegação de que, após a aniquilação deste corpo, tudo se acaba. A alma individual está transmigrando de um corpo a outro, e seu corpo presente e suas atividades presentes são o pano de fundo de seu próximo corpo. Obtém-se um corpo diferente segundo o *karma*, e tem-se de abandonar este corpo no devido tempo. Afirma-se aqui que o corpo sutil, que carrega a concepção do próximo corpo, desenvolve outro corpo na próxima vida. Esse processo de transmigrar de um corpo a outro e de lutar enquanto está no corpo é chamado *karṣati*, ou luta pela existência."}
{"ref": "bg/15/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/9/", "verse_text": "śrotraṁ cakṣuḥ sparśanaṁ ca\n\nrasanaṁ ghrāṇam eva ca\n\nadhiṣṭhāya manaś cāyaṁ\n\nviṣayān upasevate", "devanagari": "> श्रोत्रं चक्षुः स्पर्शनं च रसनं घ्राणमेव च ।\n> अधिष्ठाय मनश्चायं विषयानुपसेवते ॥९॥", "synonyms": "*śrotram*—ouvidos; *cakṣuḥ*—olhos; *sparśanam*—tato; *ca*—também; *rasanam*—língua; *ghrāṇam*—olfato; *eva*—também; *ca*—e; *adhiṣṭhāya*—estando situado; *manaḥ*—mente; *ca*—também; *ayam*—este; *viṣayān*—objetos dos sentidos; *upasevate*—desfruta.", "translation": "**A entidade viva, assim assumindo outro corpo grosseiro, obtém certo tipo de ouvido, língua, nariz e sentido de tato, que se agrupam em torno da mente. Dessa forma, desfruta de um conjunto particular de objetos dos sentidos.**", "purport": "Em outras palavras, se a entidade viva adulterar sua consciência com as qualidades de gatos e cães, em sua próxima vida obterá um corpo de gato ou de cão e desfrutará. A consciência é originalmente pura, como a água. Mas, se misturarmos a água com determinada cor, ela muda. De modo semelhante, a consciência é pura, pois a alma espiritual é pura. Mas a consciência é alterada conforme a associação das qualidades materiais. A consciência verdadeira é a consciência de Kṛṣṇa. Por conseguinte, quando alguém está situado em consciência de Kṛṣṇa, está em sua vida pura. Mas, se sua consciência é adulterada por algum tipo de mentalidade material, na próxima vida obtém um corpo correspondente. Não obtém necessariamente outro corpo humano; pode obter o corpo de um gato, cão, porco, semideus ou de uma dentre muitas outras formas, pois há 8.400.000 espécies."}
{"ref": "bg/15/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/10/", "verse_text": "utkrāmantaṁ sthitaṁ vāpi\n\nbhuñjānaṁ vā guṇānvitam\n\nvimūḍhā nānupaśyanti\n\npaśyanti jñāna-cakṣuṣaḥ", "devanagari": "> उत्क्रामन्तं स्थितं वापि भुञ्जानं वा गुणान्वितम् ।\n> विमूढा नानुपश्यन्ति पश्यन्ति ज्ञानचक्षुषः ॥१०॥", "synonyms": "*utkrāmantam*—abandonando o corpo; *sthitam*—situado no corpo; *vāpi*—ou; *bhuñjānam*—desfrutando; *vā*—ou; *guṇa-anvitam*—sob o feitiço dos modos da natureza material; *vimūḍhāḥ*—pessoas tolas; *na*—nunca; *anupaśyanti*—podem ver; *paśyanti*—pode-se ver; *jñāna-cakṣuṣaḥ*—aquele que tem os olhos do conhecimento.", "translation": "**Os tolos não podem compreender como uma entidade viva pode abandonar seu corpo, nem podem compreender que tipo de corpo ela desfruta sob o feitiço dos modos da natureza. Mas aquele cujos olhos estão treinados em conhecimento pode ver tudo isso.**", "purport": "A palavra *jñāna-cakṣuṣaḥ* é muito significativa. Sem conhecimento, não se pode compreender como uma entidade viva deixa seu corpo presente, nem que forma de corpo ela tomará na próxima vida, nem mesmo por que está vivendo num determinado tipo de corpo. Isso requer grande quantidade de conhecimento, compreendido por meio do *Bhagavad-gītā* e literaturas semelhantes ouvidas de um mestre espiritual genuíno. Aquele que está treinado a perceber todas essas coisas é afortunado. Toda entidade viva está abandonando seu corpo sob certas circunstâncias; está vivendo sob certas circunstâncias e desfrutando sob certas circunstâncias sob o feitiço da natureza material. Em consequência, sofre diferentes tipos de felicidade e aflição, sob a ilusão do gozo dos sentidos. As pessoas que são eternamente enganadas pela luxúria e pelo desejo perdem todo o poder de compreender sua mudança de corpo e sua permanência em determinado corpo. Não conseguem compreendê-lo. Aqueles que desenvolveram conhecimento espiritual, contudo, podem ver que o espírito é diferente do corpo e está mudando de corpo e desfrutando de diferentes maneiras. Uma pessoa em tal conhecimento pode compreender como a entidade viva condicionada está sofrendo nesta existência material. Por isso, aqueles que são altamente desenvolvidos em consciência de Kṛṣṇa fazem o melhor que podem para dar este conhecimento às pessoas em geral, pois sua vida condicional é muito penosa. Devem sair dela e ser conscientes de Kṛṣṇa e liberar-se para transferir-se ao mundo espiritual."}
{"ref": "bg/15/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/11/", "verse_text": "yatanto yoginaś cainaṁ\n\npaśyanty ātmany avasthitam\n\nyatanto 'py akṛtātmāno\n\nnainaṁ paśyanty acetasaḥ", "devanagari": "> यतन्तो योगिनश्चैनं पश्यन्त्यात्मन्यवस्थितम् ।\n> यतन्तोऽप्यकृतात्मानो नैनं पश्यन्त्यचेतसः ॥११॥", "synonyms": "*yatantaḥ*—esforçando-se; *yoginaḥ*—transcendentalistas; *ca*—também; *enam*—isto; *paśyanti*—podem ver; *ātmani*—no eu; *avasthitam*—situado; *yatantaḥ*—embora se esforçando; *api*—embora; *akṛta-ātmānaḥ*—sem autorrealização; *na*—não; *enam*—isto; *paśyanti*—podem ver; *acetasaḥ*—mente subdesenvolvida.", "translation": "**O transcendentalista que se esforça, situado em autorrealização, pode ver tudo isso claramente. Mas aqueles que não estão situados em autorrealização não podem ver o que está acontecendo, embora possam tentar.**", "purport": "Há muitos transcendentalistas no caminho da autorrealização espiritual, mas aquele que não está situado em autorrealização não pode ver como as coisas estão mudando no corpo da entidade viva. A palavra *yoginaḥ* é significativa neste contexto. Atualmente, há muitos supostos *yogīs*, e há muitas supostas associações de *yogīs*, mas eles são, na verdade, cegos no que se refere à autorrealização. Estão simplesmente viciados em algum tipo de exercício ginástico e contentam-se quando o corpo está bem constituído e saudável. Não têm outra informação. São chamados *yatanto 'py akṛtātmānaḥ*. Embora se esforcem em um suposto sistema de yoga, não estão autorrealizados. Tais pessoas não podem compreender o processo da transmigração da alma. Apenas aqueles que de fato estão no sistema de yoga e que realizaram o eu, o mundo e o Senhor Supremo — em outras palavras, os *bhakti-yogīs*, aqueles ocupados em puro serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa — podem compreender como as coisas estão acontecendo."}
{"ref": "bg/15/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/12/", "verse_text": "yad āditya-gataṁ tejo\n\njagad bhāsayate 'khilam\n\nyac candramasi yac cāgnau\n\ntat tejo viddhi māmakam", "devanagari": "> यदादित्यगतं तेजो जगद्भासयतेऽखिलम् ।\n> यच्चन्द्रमसि यच्चाग्नौ तत्तेजो विद्धि मामकम् ॥१२॥", "synonyms": "*yat*—aquilo que; *āditya-gatam*—na luz do sol; *tejaḥ*—esplendor; *jagat*—o mundo inteiro; *bhāsayate*—ilumina; *akhilam*—inteiramente; *yat*—aquilo que; *candramasi*—na lua; *yat*—aquilo que; *ca*—também; *agnau*—no fogo; *tat*—aquele; *tejaḥ*—esplendor; *viddhi*—compreende; *māmakam*—de Mim.", "translation": "**O esplendor do sol, que dissipa a escuridão deste mundo inteiro, vem de Mim. E o esplendor da lua e o esplendor do fogo também vêm de Mim.**", "purport": "Os ininteligentes não podem compreender como as coisas estão acontecendo. O início do conhecimento pode ser estabelecido pela compreensão daquilo que o Senhor explica aqui. Todos veem o sol, a lua, o fogo e a eletricidade. Deve-se simplesmente tentar compreender que o esplendor do sol, o esplendor da lua e o esplendor da eletricidade ou do fogo provêm da Suprema Personalidade de Deus. Em tal concepção de vida — o início da consciência de Kṛṣṇa — reside um grande avanço para a alma condicionada neste mundo material. As entidades vivas são essencialmente as partes integrantes do Senhor Supremo, e Ele lhes dá aqui a indicação de como podem regressar a Deus, regressar ao lar. Por este verso, podemos compreender que o sol está iluminando todo o sistema solar. Há diferentes universos e sistemas solares, e há também diferentes sóis, luas e planetas. A luz solar deve-se à refulgência espiritual no céu espiritual do Senhor Supremo. Com o nascer do sol, as atividades dos seres humanos são iniciadas. Eles acendem fogo para preparar seu alimento; acendem fogo para iniciar as fábricas, etc. Tantas coisas se fazem com a ajuda do fogo. Por isso, o nascer do sol, o fogo e o luar são tão agradáveis às entidades vivas. Sem a ajuda deles, nenhuma entidade viva pode viver. Assim, se alguém puder compreender que a luz e o esplendor do sol, da lua e do fogo emanam da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, então sua consciência de Kṛṣṇa terá início. Pelo luar, todos os vegetais são nutridos. O luar é tão agradável que as pessoas podem facilmente compreender que estão vivendo pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Sem a Sua misericórdia, não pode haver sol, sem a Sua misericórdia não pode haver lua, e sem a Sua misericórdia não pode haver fogo, e sem a ajuda do sol, da lua e do fogo, ninguém pode viver. Estes são alguns pensamentos para suscitar a consciência de Kṛṣṇa na alma condicionada."}
{"ref": "bg/15/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/13/", "verse_text": "gām āviśya ca bhūtāni\n\ndhārayāmy aham ojasā\n\npuṣṇāmi cauṣadhīḥ sarvāḥ\n\nsomo bhūtvā rasātmakaḥ", "devanagari": "> गामाविश्य च भूतानि धारयाम्यहमोजसा ।\n> पुष्णामि चौषधीः सर्वाः सोमो भूत्वा रसात्मकः ॥१३॥", "synonyms": "*gām*—os planetas; *āviśya*—entrando; *ca*—também; *bhūtāni*—entidades vivas; *dhārayāmi*—sustentando; *aham*—Eu; *ojasā*—por Minha energia; *puṣṇāmi*—nutrindo; *ca*—e; *auṣadhīḥ*—todos os vegetais; *sarvāḥ*—todos; *somaḥ*—a lua; *bhūtvā*—tornando-Me; *rasa-ātmakaḥ*—suprindo o suco.", "translation": "**Eu entro em cada planeta, e por Minha energia eles permanecem em órbita. Eu Me torno a lua e, com isso, supro o suco da vida a todos os vegetais.**", "purport": "Compreende-se que todos os planetas estão flutuando no ar apenas pela energia do Senhor. O Senhor entra em cada átomo, em cada planeta e em cada ser vivo. Isso é discutido no Brahmā-saṁhitā. Afirma-se ali que uma porção plenária da Suprema Personalidade de Deus, o Paramātmā, entra nos planetas, no universo, na entidade viva e até mesmo no átomo. Assim, devido à Sua entrada, tudo se manifesta apropriadamente. Quando a alma espiritual está presente, um ser vivo pode flutuar na água, mas, quando a centelha viva está fora do corpo e o corpo está morto, ele afunda. É claro que, quando se decompõe, flutua, assim como palha e outras coisas, mas, tão logo o homem morre, afunda imediatamente na água. De modo semelhante, todos esses planetas estão flutuando no espaço, e isso se deve à entrada da energia suprema da Suprema Personalidade de Deus. Sua energia sustenta cada planeta, como um punhado de pó. Se alguém segura um punhado de pó, não há possibilidade de o pó cair, mas se o lança ao ar, ele cairá. Da mesma forma, esses planetas, que estão flutuando no ar, estão de fato seguros no punho da forma universal do Senhor Supremo. Por Sua força e energia, todas as coisas móveis e imóveis permanecem em seu lugar. Diz-se que, em virtude da Suprema Personalidade de Deus, o sol está brilhando e os planetas se movimentam continuamente. Não fosse por Ele, todos os planetas se dispersariam, como pó no ar, e pereceriam. De modo semelhante, é em virtude da Suprema Personalidade de Deus que a lua nutre todos os vegetais. Devido à influência da lua, os vegetais tornam-se saborosos. Sem o luar, os vegetais não podem nem crescer nem ter sabor suculento. A sociedade humana está trabalhando, vivendo confortavelmente e desfrutando do alimento devido ao suprimento do Senhor Supremo. Caso contrário, a humanidade não poderia sobreviver. A palavra *rasātmakaḥ* é muito significativa. Tudo se torna palatável pela ação do Senhor Supremo, através da influência da lua."}
{"ref": "bg/15/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/14/", "verse_text": "ahaṁ vaiśvānaro bhūtvā\n\nprāṇināṁ deham āśritaḥ\n\nprāṇāpāna-samāyuktaḥ\n\npacāmy annaṁ catur-vidham", "devanagari": "> अहं वैश्वानरो भूत्वा प्राणिनां देहमाश्रितः ।\n> प्राणापानसमायुक्तः पचाम्यन्नं चतुर्विधम् ॥१४॥", "synonyms": "*aham*—Eu; *vaiśvānaraḥ*—por Minha porção plenária como o fogo da digestão; *bhūtvā*—tornando-Me; *prāṇinām*—de todas as entidades vivas; *deham*—corpo; *āśritaḥ*—situado; *prāṇa*—ar que sai; *apāna*—ar que desce; *samāyuktaḥ*—mantenho o equilíbrio; *pacāmi*—digiro; *annam*—alimento; *catur-vidham*—quatro tipos de.", "translation": "**Eu sou o fogo da digestão em cada corpo vivo, e sou o ar da vida, que sai e que entra, mediante o qual digiro os quatro tipos de alimento.**", "purport": "Segundo o Āyur-vedic śāstra, compreendemos que há um fogo no estômago que digere todo alimento ali enviado. Quando o fogo não está em chamas, não há fome, e quando o fogo está em ordem, ficamos famintos. Às vezes, quando o fogo não vai bem, é necessário tratamento. Em qualquer caso, este fogo é representativo da Suprema Personalidade de Deus. Os mantras Védicos também confirmam que o Senhor Supremo, ou Brahman, está situado em forma de fogo dentro do estômago e está digerindo todos os tipos de alimento. Por isso, visto que Ele está auxiliando a digestão de todos os tipos de alimento, a entidade viva não é independente no processo de comer. A menos que o Senhor Supremo a auxilie na digestão, não há possibilidade de comer. Ele assim produz e digere o alimento e, por Sua graça, estamos desfrutando da vida. No *Vedānta-sūtra* isso também se confirma: *śabdādibhyo 'ntaḥ pratiṣṭhānāc ca.* O Senhor está situado dentro do som e dentro do corpo, dentro do ar e até mesmo dentro do estômago como força digestiva. Há quatro tipos de alimento: alguns são engolidos, alguns são mastigados, alguns são lambidos e alguns são sugados, e Ele é a força digestiva para todos eles."}
{"ref": "bg/15/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/15/", "verse_text": "sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo\n\nmattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca\n\nvedaiś ca sarvair aham eva vedyo\n\nvedānta-kṛd veda-vid eva cāham", "devanagari": "> सर्वस्य चाहं हृदि सन्निविष्टो\n> मत्तः स्मृतिर्ज्ञानमपोहनञ्च ।\n> वेदैश्च सर्वैरहमेव वेद्यो\n> वेदान्तकृद्वेदविदेव चाहम् ॥१५॥", "synonyms": "*sarvasya*—de todos os seres vivos; *ca*—e; *aham*—Eu; *hṛdi*—no coração; *sanniviṣṭaḥ*—estando situado; *mattaḥ*—de Mim; *smṛtiḥ*—lembrança; *jñānam*—conhecimento; *apohanam ca*—e o esquecimento; *vedaiḥ*—pelos Vedas; *ca*—também; *sarvaiḥ*—todos; *aham*—Eu sou; *eva*—certamente; *vedyaḥ*—conhecível; *vedānta-kṛt*—o compilador do Vedānta; *veda-vit*—o conhecedor dos Vedas; *eva*—certamente; *ca*—e; *aham*—Eu.", "translation": "**Estou sentado no coração de cada um, e de Mim provêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento. Por todos os *Vedas* sou Eu a ser conhecido; de fato, Eu sou o compilador do Vedānta, e sou o conhecedor dos *Vedas*.**", "purport": "O Senhor Supremo está situado como Paramātmā no coração de cada um, e é dEle que todas as atividades são iniciadas. A entidade viva esquece tudo de sua vida passada, mas tem de agir conforme a direção do Senhor Supremo, que é testemunha de toda a sua obra. Por isso, ela inicia seu trabalho segundo seus atos passados. O conhecimento requerido lhe é fornecido, e a lembrança lhe é dada, e ela esquece, também, sobre sua vida passada. Assim, o Senhor não é apenas onipenetrante; Ele também é localizado em cada coração individual. Ele concede os diferentes resultados fruitivos. Ele é adorável não apenas como o Brahman impessoal, a Suprema Personalidade de Deus e o Paramātmā localizado, mas também como a forma da encarnação dos *Vedas*. Os *Vedas* dão a direção correta às pessoas para que possam moldar adequadamente suas vidas e regressar a Deus, regressar ao lar. Os *Vedas* oferecem conhecimento da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa, em Sua encarnação como Vyāsadeva, é o compilador do *Vedānta-sūtra*. O comentário sobre o *Vedānta-sūtra* feito por Vyāsadeva no *Śrīmad-Bhāgavatam* dá a verdadeira compreensão do *Vedānta-sūtra*. O Senhor Supremo é tão pleno que, para a libertação da alma condicionada, Ele é o supridor e o digestor do alimento, a testemunha de sua atividade, o doador do conhecimento na forma dos *Vedas* e, como a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, o mestre do *Bhagavad-gītā*. Ele é adorável pela alma condicionada. Assim, Deus é todo bondade; Deus é todo misericórdia.\n\n\n\n*Antaḥpraviṣṭaḥ śāstā janānām.* A entidade viva esquece tão logo abandona seu corpo presente, mas começa seu trabalho novamente, iniciado pelo Senhor Supremo. Embora ela esqueça, o Senhor lhe dá a inteligência para renovar seu trabalho onde terminou sua última vida. Assim, não apenas a entidade viva desfruta ou sofre neste mundo conforme o ditame do Senhor Supremo situado localmente no coração, mas ela também recebe a oportunidade de compreender os *Vedas* a partir dEle. Se alguém é sério em compreender o conhecimento Védico, então Kṛṣṇa lhe dá a inteligência requerida. Por que Ele apresenta o conhecimento Védico para compreensão? Porque a entidade viva individualmente precisa compreender Kṛṣṇa. A literatura Védica confirma isso: *yo 'sau sarvair vedair gīyate.* Em toda a literatura Védica, começando dos quatro *Vedas*, do *Vedānta-sūtra* e dos *Upaniṣads* e *Purāṇas*, são celebradas as glórias do Senhor Supremo. Realizando rituais Védicos, discutindo a filosofia Védica e adorando o Senhor em serviço devocional, alcança-se a Ele. Por conseguinte, o propósito dos *Vedas* é compreender Kṛṣṇa. Os *Vedas* nos dão a direção para compreender Kṛṣṇa e o processo de compreensão. A meta última é a Suprema Personalidade de Deus. O *Vedānta-sūtra* confirma isso nas seguintes palavras: *tat tu samanvayāt.* Pode-se atingir a perfeição compreendendo a literatura Védica, e pode-se compreender a relação que se tem com a Suprema Personalidade de Deus realizando os diferentes processos. Assim, pode-se aproximar-se dEle e, ao final, alcançar a meta suprema, que não é outra senão a Suprema Personalidade de Deus. Neste verso, contudo, o propósito dos *Vedas*, a compreensão dos *Vedas* e a meta dos *Vedas* são claramente definidos."}
{"ref": "bg/15/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/16/", "verse_text": "dvāv imau puruṣau loke\n\nkṣaraś cākṣara eva ca\n\nkṣaraḥ sarvāṇi bhūtāni\n\nkūṭa-stho 'kṣara ucyate", "devanagari": "> द्वाविमौ पुरुषौ लोके क्षरश्चाक्षर एव च ।\n> क्षरः सर्वाणि भूतानि कूटस्थोऽक्षर उच्यते ॥१६॥", "synonyms": "*dvau*—dois; *imau*—neste (mundo); *puruṣau*—entidades vivas; *loke*—no mundo; *kṣaraḥ*—falível; *ca*—e; *akṣaraḥ*—infalível; *eva*—certamente; *ca*—e; *kṣaraḥ*—o falível; *sarvāṇi*—todas; *bhūtāni*—entidades vivas; *kūṭasthaḥ*—em unidade; *akṣaraḥ*—infalível; *ucyate*—diz-se.", "translation": "**Há duas classes de seres, o falível e o infalível. No mundo material, toda entidade é falível, e no mundo espiritual toda entidade é chamada infalível.**", "purport": "Conforme já se explicou, o Senhor, em Sua encarnação como Vyāsadeva, compilou o *Vedānta-sūtra*. Aqui, o Senhor está dando, em resumo, o conteúdo do *Vedānta-sūtra*: Ele diz que as entidades vivas, que são inumeráveis, podem ser divididas em duas classes — as falíveis e as infalíveis. As entidades vivas são eternamente partes integrantes separadas da Suprema Personalidade de Deus. Quando estão em contato com o mundo material, são chamadas *jīva-bhūtāḥ*, e as palavras sânscritas aqui dadas, *sarvāṇi bhūtāni*, significam que são falíveis. Aquelas que estão em unidade com a Suprema Personalidade de Deus, contudo, são chamadas infalíveis. Unidade não significa que não tenham individualidade, mas que não há desunião. Todas estão em concordância com o propósito da criação. É claro que, no mundo espiritual, não existe tal coisa como criação, mas, visto que a Suprema Personalidade de Deus afirmou no *Vedānta-sūtra* que Ele é a fonte de todas as emanações, esse conceito é explicado.\n\n\n\nConforme a afirmação da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Kṛṣṇa, há duas classes de homens. Os *Vedas* dão evidência disso, de modo que não há dúvida a respeito. As entidades vivas, que estão lutando neste mundo com a mente e os cinco sentidos, têm seus corpos materiais que estão mudando enquanto as entidades vivas estiverem condicionadas. O corpo de uma pessoa muda devido ao contato com a matéria; a matéria está mudando, de modo que a entidade viva parece estar mudando. Mas, no mundo espiritual, o corpo não é feito de matéria; portanto, não há mudança. No mundo material, a entidade viva passa por seis mudanças — nascimento, crescimento, duração, reprodução, depois declínio e desaparecimento. Estas são as mudanças do corpo material. Mas no mundo espiritual o corpo não muda; não há velhice, não há nascimento, não há morte. Lá, tudo existe em unidade. É mais claramente explicado como *sarvāṇi bhūtāni*: qualquer entidade viva que tenha entrado em contato com a matéria, começando do primeiro ser criado, Brahmā, até uma pequena formiga, está mudando seu corpo; portanto, todas elas são falíveis. No mundo espiritual, contudo, sempre estão liberadas em unidade."}
{"ref": "bg/15/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/17/", "verse_text": "uttamaḥ puruṣas tv anyaḥ\n\nparamātmety udāhṛtaḥ\n\nyo loka-trayam āviśya\n\nbibharty avyaya īśvaraḥ", "devanagari": "> उत्तमः पुरुषस्त्वन्यः परमात्मेत्युधाहृतः ।\n> यो लोकत्रयमाविश्य बिभर्त्यव्यय ईश्वरः ॥१७॥", "synonyms": "*uttamaḥ*—o melhor; *puruṣaḥ*—personalidade; *tu*—mas; *anyaḥ*—outro; *param*—o Supremo; *ātmā*—Eu; *iti*—assim; *udāhṛtaḥ*—dito; *yaḥ*—aquele que; *loka*—do universo; *trayam*—as três divisões; *āviśya*—entrando; *bibharti*—mantendo; *avyayaḥ*—inesgotável; *īśvaraḥ*—o Senhor.", "translation": "**Além destes dois, há a maior personalidade viva, o próprio Senhor, que entrou nestes mundos e os está mantendo.**", "purport": "Este verso é muito bem expresso no Kaṭha Upaniṣad e no Śvetāśvatara Upaniṣad. Afirma-se claramente ali que, acima das inumeráveis entidades vivas, algumas das quais são condicionadas e algumas das quais são liberadas, há a Personalidade Suprema, que é o Paramātmā. O verso upaniṣádico é o seguinte: *nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām.* O significado é que, entre todas as entidades vivas, tanto condicionadas como liberadas, há uma personalidade viva suprema, a Suprema Personalidade de Deus, que as mantém e lhes dá toda a facilidade de desfrute conforme as diferentes obras. Aquela Suprema Personalidade de Deus está situada no coração de cada um como Paramātmā. Um homem sábio que possa compreendê-Lo é elegível para alcançar a paz perfeita, e não outros.\n\n\n\nÉ incorreto pensar que o Senhor Supremo e as entidades vivas estão no mesmo nível, ou que são iguais em todos os aspectos. Há sempre a questão de superioridade e inferioridade em suas personalidades. Esta palavra particular *uttama* é muito significativa. Ninguém pode superar a Suprema Personalidade de Deus. *Loke* também é significativo, porque no Pauruṣa, uma literatura Védica, afirma-se: *lokyate vedārtho 'nena.* Esse Senhor Supremo, em Seu aspecto localizado como Paramātmā, explica o propósito dos *Vedas*. O verso seguinte também aparece nos *Vedas*:\n\n\n\ntāvad eṣa samprasādo 'smāc\n\ncharīrāt samutthāya paraṁ\n\njyoti-rūpaṁ sampadya svena\n\nrūpeṇābhiniṣpadyate sa uttamaḥ puruṣaḥ\n\n\n\n\"A Superalma, saindo do corpo, ingressa no *brahmajyoti* impessoal; então, em Sua forma, permanece em Sua identidade espiritual. Esse Supremo é chamado a Personalidade Suprema.\" Isso significa que a Personalidade Suprema está exibindo e difundindo Sua refulgência espiritual, que é a iluminação última. Essa Personalidade Suprema também tem um aspecto localizado como Paramātmā. Encarnando-Se como o filho de Satyavatī e Parāśara, Ele explica o conhecimento Védico como Vyāsadeva."}
{"ref": "bg/15/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/18/", "verse_text": "yasmāt kṣaram atīto 'ham\n\nakṣarād api cottamaḥ\n\nato 'smi loke vede ca\n\nprathitaḥ puruṣottamaḥ", "devanagari": "> यस्मात्क्षरमतीतोऽहमक्षरादपि चोत्तमः ।\n> अतोऽस्मि लोके वेदे च प्रथितः पुरुषोत्तमः ॥१८॥", "synonyms": "*yasmāt*—porque; *kṣaram*—o falível; *atītaḥ*—transcendental; *aham*—Eu; *akṣarāt*—do infalível; *api*—melhor do que isso; *ca*—e; *uttamaḥ*—o melhor; *ataḥ*—portanto; *asmi*—Eu sou; *loke*—no mundo; *vede*—na literatura Védica; *ca*—e; *prathitaḥ*—celebrado; *puruṣottamaḥ*—como a Personalidade Suprema.", "translation": "**Por ser Eu transcendental, além tanto do falível quanto do infalível, e porque sou o maior, sou celebrado tanto no mundo quanto nos *Vedas* como aquela Pessoa Suprema.**", "purport": "Ninguém pode superar a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa — nem a alma condicionada nem a alma liberada. Ele é, portanto, a maior das personalidades. Ora, está claro aqui que as entidades vivas e a Suprema Personalidade de Deus são indivíduos. A diferença é que as entidades vivas, seja no estado condicionado, seja no estado liberado, não podem superar em quantidade as inconcebíveis potências da Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/15/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/19/", "verse_text": "yo mām evam asammūḍho\n\njānāti puruṣottamam\n\nsa sarva-vid bhajati māṁ\n\nsarva-bhāvena bhārata", "devanagari": "> यो मामेवमसम्मूढो जानाति पुरुषोत्तमम् ।\n> स सर्वविद्भजति मां सर्वभावेन भारत ॥१९॥", "synonyms": "*yaḥ*—todo aquele; *mām*—a Mim; *evam*—certamente; *asammūḍhaḥ*—sem dúvida; *jānāti*—conhece; *puruṣottamam*—a Suprema Personalidade de Deus; *saḥ*—ele; *sarva-vit*—conhecedor de tudo; *bhajati*—presta serviço devocional; *mām*—a Mim; *sarva-bhāvena*—em todos os aspectos; *bhārata*—ó filho de Bharata.", "translation": "**Aquele que Me conhece como a Suprema Personalidade de Deus, sem dúvida alguma, deve ser compreendido como o conhecedor de tudo, e ele, portanto, ocupa-se em pleno serviço devocional, ó filho de Bharata.**", "purport": "Há muitas especulações filosóficas sobre a posição constitucional das entidades vivas e da Suprema Verdade Absoluta. Ora, neste verso, a Suprema Personalidade de Deus explica claramente que todo aquele que conhece o Senhor Kṛṣṇa como a Pessoa Suprema é, de fato, o conhecedor de tudo. O conhecedor imperfeito continua simplesmente especulando sobre a Verdade Absoluta, mas o conhecedor perfeito, sem desperdiçar seu tempo precioso, ocupa-se diretamente em consciência de Kṛṣṇa, no serviço devocional ao Senhor Supremo. Em todo o *Bhagavad-gītā*, este fato é enfatizado a cada passo. E, mesmo assim, há tantos comentadores obstinados do *Bhagavad-gītā* que consideram a Suprema Verdade Absoluta e as entidades vivas como uma e a mesma coisa.\n\n\n\nO conhecimento Védico chama-se *śruti*, aprendizado por recepção auditiva. Deve-se de fato receber a mensagem Védica de autoridades como Kṛṣṇa e Seus representantes. Aqui Kṛṣṇa distingue tudo muito bem, e deve-se ouvir desta fonte. Simplesmente ouvir como os porcos não é suficiente; é preciso poder compreender pelas autoridades. Não que se deva simplesmente especular academicamente. Deve-se ouvir submissamente do *Bhagavad-gītā* que estas entidades vivas são sempre subordinadas à Suprema Personalidade de Deus. Todo aquele que for capaz de compreender isso, segundo a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, conhece o propósito dos *Vedas*; ninguém mais conhece o propósito dos *Vedas*.\n\n\n\nA palavra *bhajate* é muito significativa. Em muitas passagens, a palavra *bhajate* é expressa em relação ao serviço do Senhor Supremo. Se uma pessoa está ocupada em plena consciência de Kṛṣṇa, em serviço devocional ao Senhor, deve-se compreender que ela compreendeu todo o conhecimento Védico. Na *Vaiṣṇava paramparā*, diz-se que, se alguém está ocupado no serviço devocional a Kṛṣṇa, então não há necessidade de um processo espiritual para compreender a Suprema Verdade Absoluta. Ele já chegou à meta, porque está ocupado no serviço devocional ao Senhor. Encerrou todos os processos preliminares de compreensão; de modo semelhante, se alguém, após especular por centenas de milhares de vidas, não chega ao ponto de que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus e de que se tem de render-se ali, toda a sua especulação por tantos anos e vidas é um inútil desperdício de tempo."}
{"ref": "bg/15/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/15/20/", "verse_text": "iti guhyatamaṁ śāstram\n\nidam uktaṁ mayānagha\n\netad buddhvā buddhimān syāt\n\nkṛta-kṛtyaś ca bhārata", "devanagari": "> इति गुह्यतमं शास्त्रमिदमुक्तं मयानघ ।\n> एतद्बुद्ध्वा बुद्धिमान्स्यात्कृतकृत्यश्च भारत ॥२०॥", "synonyms": "*iti*—assim; *guhyatamam*—o mais confidencial; *śāstram*—as escrituras reveladas; *idam*—isto; *uktam*—revelado; *mayā*—por Mim; *anagha*—ó imaculado; *etat*—isto; *buddhvā*—compreendendo; *buddhimān*—inteligente; *syāt*—torna-se; *kṛta-kṛtyaḥ*—o mais perfeito; *ca*—e; *bhārata*—ó filho de Bharata.", "translation": "**Esta é a parte mais confidencial das escrituras Védicas, ó imaculado, e é agora revelada por Mim. Quem quer que compreenda isto se tornará sábio, e seus esforços conhecerão a perfeição.**", "purport": "O Senhor explica claramente aqui que esta é a substância de todas as escrituras reveladas. E deve-se compreender isso como dado pela Suprema Personalidade de Deus. Assim, tornar-se-á inteligente e perfeito em conhecimento transcendental. Em outras palavras, ao compreender esta filosofia da Suprema Personalidade de Deus e ocupar-se em Seu serviço transcendental, todos podem ficar livres de todas as contaminações dos modos da natureza material. O serviço devocional é um processo de compreensão espiritual. Onde quer que exista o serviço devocional, a contaminação material não pode coexistir. O serviço devocional ao Senhor e o próprio Senhor são uma e a mesma coisa, porque ambos são espirituais — a energia interna do Senhor Supremo. Diz-se que o Senhor é o sol, e a ignorância é chamada escuridão. Onde o sol está presente, não há possibilidade de escuridão. Por conseguinte, sempre que o serviço devocional está presente sob a orientação adequada de um mestre espiritual genuíno, não há possibilidade de ignorância.\n\n\n\nTodos devem adotar esta consciência de Kṛṣṇa e ocupar-se em serviço devocional para se tornarem inteligentes e purificados. A menos que se chegue a esta posição de compreender Kṛṣṇa e se ocupe em serviço devocional, por mais inteligente que se seja na estimação de algum homem comum, não se é perfeitamente inteligente.\n\n\n\nA palavra *anagha*, pela qual Arjuna é tratado, é significativa. *Anagha*, ó imaculado, significa que, a menos que se esteja livre de todas as reações pecaminosas, é muito difícil compreender Kṛṣṇa. É preciso ficar livre de toda contaminação, de todas as atividades pecaminosas; então pode-se compreender. Mas o serviço devocional é tão puro e potente que, uma vez ocupado em serviço devocional, automaticamente se chega ao estágio da impecabilidade.\n\n\n\nAo executar serviço devocional na associação de devotos puros em plena consciência de Kṛṣṇa, há certas coisas que requerem ser totalmente vencidas. A coisa mais importante que se tem de superar é a fraqueza do coração. A primeira queda é causada pelo desejo de senhorear-se da natureza material. Assim, abandona-se o transcendental serviço amoroso ao Senhor Supremo. A segunda fraqueza do coração é que, à medida que se aumenta a propensão a senhorear-se da natureza material, fica-se apegado à matéria e à posse da matéria. Os problemas da existência material devem-se a essas fraquezas do coração.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Quinto Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* sobre o tema Puruṣottama-yoga, o Yoga da Pessoa Suprema."}
{"ref": "bg/16/1-3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/1-3/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nabhayaṁ sattva-saṁśuddhir\n\njñāna-yoga-vyavasthitiḥ\n\ndānaṁ damaś ca yajñaś ca\n\nsvādhyāyas tapa ārjavam\n\nahiṁsā satyam akrodhas\n\ntyāgaḥ śāntir apaiśunam\n\ndayā bhūteṣv aloluptvaṁ\n\nmārdavaṁ hrīr acāpalam\n\ntejaḥ kṣamā dhṛtiḥ śaucam\n\nadroho nāti-mānitā\n\nbhavanti sampadaṁ daivīm\n\nabhijātasya bhārata", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> अभयं सत्त्वसंशुद्धिर्ज्ञानयोगव्यवस्थितिः ।\n> दानं दमश्च यज्ञश्च स्वाध्यायस्तप आर्जवम् ॥१॥\n> अहिंसा सत्यमक्रोधस्त्यागः शान्तिरपैशुनम् ।\n> दया भूतेष्वलोलुप्त्वं मार्दवं ह्रीरचापलम् ॥२॥\n> तेजः क्षमा धृतिः शौचमद्रोहो नातिमानिता ।\n> भवन्ति सम्पदं दैवीमभिजातस्य भारत ॥३॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *abhayam*—destemor; *sattva-saṁśuddhiḥ*—purificação da própria existência; *jñāna*—conhecimento; *yoga*—de vinculação; *vyavasthitiḥ*—a situação; *dānam*—caridade; *damaḥ ca*—e controle da mente; *yajñaḥ ca*—e realização de sacrifício; *svādhyāyaḥ*—estudo da literatura Védica; *tapaḥ*—austeridade; *ārjavam*—simplicidade; *ahiṁsā*—não-violência; *satyam*—veracidade; *akrodhaḥ*—ausência de ira; *tyāgaḥ*—renúncia; *śāntiḥ*—tranquilidade; *apaiśunam*—aversão a apontar defeitos; *dayā*—misericórdia; *bhūteṣu*—para com todas as entidades vivas; *aloluptvam*—ausência de cobiça; *mārdavam*—brandura; *hrīḥ*—modéstia; *acāpalam*—determinação; *tejaḥ*—vigor; *kṣamā*—perdão; *dhṛtiḥ*—fortaleza; *śaucam*—limpeza; *adrohaḥ*—ausência de inveja; *na*—não; *atimānitā*—expectativa de honra; *bhavanti*—tornam-se; *sampadam*—qualidades; *daivīm*—transcendentais; *abhijātasya*—daquele que nasce de; *bhārata*—ó filho de Bharata.", "translation": "**O Senhor Abençoado disse: O destemor, a purificação da própria existência, o cultivo do conhecimento espiritual, a caridade, o autocontrole, a realização de sacrifícios, o estudo dos *Vedas*, a austeridade e a simplicidade; a não-violência, a veracidade, a ausência de ira; a renúncia, a tranquilidade, a aversão a apontar defeitos, a compaixão e a ausência de cobiça; a brandura, a modéstia e a determinação firme; o vigor, o perdão, a fortaleza, a limpeza, a ausência de inveja e do desejo de honra — estas qualidades transcendentais, ó filho de Bharata, pertencem aos homens piedosos dotados de natureza divina.**", "purport": "No início do Décimo Quinto Capítulo, explicou-se a árvore de bāniana deste mundo material. As raízes adicionais que dela brotam foram comparadas às atividades das entidades vivas, algumas auspiciosas, outras inauspiciosas. No Nono Capítulo, também, explicaram-se os devas, ou os piedosos, e os asuras, os ímpios ou demônios. Ora, segundo os ritos Védicos, as atividades no modo da bondade são consideradas auspiciosas para o progresso na senda da liberação, e tais atividades são conhecidas como deva prakṛti, transcendentais por natureza. Aqueles que se situam na natureza transcendental progridem na senda da liberação. Por outro lado, para os que agem nos modos da paixão e da ignorância, não há possibilidade de liberação. Ou terão de permanecer neste mundo material como seres humanos, ou descenderão entre as espécies de animais ou mesmo a formas de vida ainda inferiores. Neste Décimo Sexto Capítulo, o Senhor explica tanto a natureza transcendental e suas qualidades concomitantes quanto a natureza demoníaca e suas qualidades. Também explica as vantagens e desvantagens dessas qualidades.\n\n\n\nA palavra abhijātasya, em referência àquele que nasce com qualidades transcendentais ou tendências piedosas, é muito significativa. Gerar um filho numa atmosfera piedosa é conhecido nas escrituras Védicas como Garbhādhāna-saṁskāra. Se os pais desejarem um filho com as qualidades piedosas, devem seguir os dez princípios do ser humano. No *Bhagavad-gītā*, já estudamos antes que a vida sexual destinada a gerar um bom filho é o próprio Kṛṣṇa. A vida sexual não é condenada, contanto que o processo seja utilizado em consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa não devem, ao menos, gerar filhos como gatos e cães, mas sim gerá-los de modo que possam tornar-se conscientes de Kṛṣṇa após o nascimento. Essa deve ser a vantagem dos filhos nascidos de pai ou mãe absortos em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA instituição social conhecida como varṇāśrama-dharma — a instituição que divide a sociedade em quatro divisões ou castas — não se destina a dividir a sociedade humana segundo o nascimento. Tais divisões existem em função das qualificações educacionais. Destinam-se a manter a sociedade num estado de paz e prosperidade. As qualidades aqui mencionadas são explicadas como qualidades transcendentais destinadas a fazer com que a pessoa progrida na compreensão espiritual, a fim de que possa libertar-se do mundo material. Na instituição varṇāśrama, o sannyāsī, ou seja, a pessoa na ordem renunciada de vida, é considerado o cabeça ou mestre espiritual de todos os status e ordens sociais. O *brāhmaṇa* é considerado o mestre espiritual das outras três seções da sociedade, a saber, os *kṣatriyas*, os *vaiśyas* e os *śūdras*; o sannyāsī, contudo, que está no topo da instituição, é considerado também o mestre espiritual dos *brāhmaṇas*. Para um sannyāsī, a primeira qualificação deve ser o destemor. Como o sannyāsī tem de estar sozinho, sem qualquer apoio ou garantia de apoio, tem simplesmente de depender da misericórdia da Suprema Personalidade de Deus. Se ele pensar: \"Depois de deixar minhas relações, quem me protegerá?\", não deverá aceitar a ordem renunciada de vida. É preciso ter plena convicção de que Kṛṣṇa, ou a Suprema Personalidade de Deus em Seu aspecto localizado como Paramātmā, está sempre em seu interior, que Ele vê tudo e sempre sabe o que a pessoa pretende fazer. Deve-se, pois, ter firme convicção de que Kṛṣṇa, como Paramātmā, cuidará da alma rendida a Ele. \"Jamais estarei sozinho\", deve a pessoa pensar. \"Mesmo que eu viva nas regiões mais escuras de uma floresta, serei acompanhado por Kṛṣṇa, e Ele me dará toda a proteção.\" Tal convicção chama-se abhayam, sem medo. Esse estado de espírito é necessário para a pessoa na ordem renunciada de vida. Em seguida, ela tem de purificar sua existência. Há tantas regras e regulações a serem seguidas na ordem renunciada de vida. Mais importante de tudo, está estritamente proibido ao sannyāsī ter qualquer relação íntima com mulher. Está-lhe proibido inclusive falar com uma mulher num lugar reservado. O Senhor Caitanya foi um sannyāsī ideal, e quando estava em Purī, Suas devotas femininas não podiam sequer aproximar-se para oferecer suas reverências. Eram aconselhadas a prostrar-se de um lugar distante. Isso não é sinal de ódio às mulheres como classe, mas sim uma restrição imposta ao sannyāsī para que não tenha relações estreitas com mulheres. É preciso seguir as regras e regulações de um determinado status de vida a fim de purificar a própria existência. Para um sannyāsī, relações íntimas com mulheres e a posse de riquezas para gratificação dos sentidos estão estritamente proibidas. O sannyāsī ideal foi o próprio Senhor Caitanya, e podemos aprender, a partir de Sua vida, que Ele era muito rigoroso em relação às mulheres. Embora seja considerado a mais liberal encarnação de Deus, aceitando as mais caídas almas condicionadas, Ele seguiu estritamente as regras e regulações da ordem de sannyāsa em ligação com a associação com mulheres. Um de Seus associados pessoais, a saber, Choṭa Haridāsa, estava pessoalmente associado ao Senhor Caitanya, juntamente com Seus outros associados pessoais e confidentes; mas, de algum modo, esse Choṭa Haridāsa olhou luxuriosamente para uma jovem, e o Senhor Caitanya foi tão rigoroso que imediatamente o rejeitou da sociedade de Seus associados pessoais. O Senhor Caitanya disse: \"Para um sannyāsī, ou para qualquer um que aspire a libertar-se das garras da natureza material e procure elevar-se à natureza espiritual e voltar ao lar, voltar ao Supremo, olhar para posses materiais e mulheres com vistas à gratificação dos sentidos — sem sequer desfrutá-las, mas apenas olhando para elas com tal propensão — é tão condenável que seria melhor cometer suicídio antes de experimentar tais desejos ilícitos.\" Estes são, pois, os processos para a purificação.\n\n\n\nO item seguinte é jñāna-yoga-vyavasthitiḥ: ocupar-se no cultivo do conhecimento. A vida de sannyāsī destina-se a distribuir conhecimento aos chefes de família e a outros que se esqueceram de sua verdadeira vida de avanço espiritual. Supõe-se que o sannyāsī mendigue de porta em porta para sua subsistência, mas isso não significa que seja um mendigo. A humildade é também uma das qualificações de uma pessoa transcendentalmente situada e, por pura humildade, o sannyāsī vai de porta em porta, não exatamente com o propósito de mendigar, mas para ver os chefes de família e despertá-los para a consciência de Kṛṣṇa. Esse é o dever de um sannyāsī. Se ele for de fato avançado e assim ordenado por seu mestre espiritual, deve pregar Kṛṣṇa com lógica e compreensão; e, se não for tão avançado, não deve aceitar a ordem renunciada de vida. Mas, mesmo que tenha aceitado a ordem renunciada de vida sem conhecimento suficiente, deve ocupar-se plenamente em ouvir um mestre espiritual genuíno, a fim de cultivar conhecimento. O sannyāsī, ou seja, aquele na ordem renunciada de vida, deve estar situado no destemor, na sattva-saṁśuddhiḥ (pureza) e no jñāna-yoga (conhecimento).\n\n\n\nO item seguinte é a caridade. A caridade destina-se aos chefes de família. Os chefes de família devem ganhar a subsistência por meios honrados e gastar cinquenta por cento de sua renda para propagar a consciência de Kṛṣṇa por todo o mundo. Assim, o chefe de família deve dar caridade às sociedades institucionais que se ocupam dessa forma. A caridade deve ser dada ao receptor correto. Há diferentes tipos de caridade, como se explicará mais adiante: caridade nos modos da bondade, paixão e ignorância. A caridade no modo da bondade é recomendada pelas escrituras, mas a caridade nos modos da paixão e da ignorância não é recomendada, pois é simplesmente um desperdício de dinheiro. A caridade deve ser dada apenas para propagar a consciência de Kṛṣṇa por todo o mundo. Essa é a caridade no modo da bondade.\n\n\n\nQuanto a damaḥ (autocontrole), não se destina apenas às outras ordens da sociedade religiosa, mas, de modo especial, ao chefe de família. Embora tenha esposa, o chefe de família não deve usar seus sentidos para a vida sexual desnecessariamente. Há restrições aos chefes de família mesmo na vida sexual, na qual só se devem ocupar com vistas à propagação dos filhos. Se ele não desejar filhos, não deve desfrutar da vida sexual com sua esposa. A sociedade moderna desfruta da vida sexual com métodos contraceptivos ou com métodos ainda mais abomináveis para evitar a responsabilidade dos filhos. Isso não pertence à qualidade transcendental, mas é demoníaco. Quem quer que deseje progredir na vida espiritual, mesmo sendo chefe de família, deve controlar sua vida sexual e não deve gerar um filho sem o propósito de servir a Kṛṣṇa. Se for capaz de gerar filhos que estarão em consciência de Kṛṣṇa, pode-se produzir centenas de filhos; mas, sem essa capacidade, não se deve entregar apenas ao prazer dos sentidos.\n\n\n\nO sacrifício é outro item a ser realizado pelos chefes de família, pois os sacrifícios requerem grande quantia de dinheiro. As outras ordens de vida, a saber, brahmacarya, vānaprastha e sannyāsa, não possuem dinheiro; vivem da mendicância. Por conseguinte, a realização de diferentes tipos de sacrifício destina-se ao chefe de família. Estes devem realizar sacrifícios agni-hotra, conforme prescrito na literatura Védica; tais sacrifícios, porém, no momento atual, são muito dispendiosos, e não é possível a nenhum chefe de família realizá-los. O melhor sacrifício recomendado nesta era denomina-se saṅkīrtana-yajña, o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Este é o melhor e mais barato sacrifício; todos podem adotá-lo e dele extrair benefício. Assim, esses três itens — a saber, caridade, controle dos sentidos e realização de sacrifício — destinam-se ao chefe de família.\n\n\n\nEm seguida, svādhyāyaḥ, o estudo Védico, e tapas, a austeridade, e ārjavam, a brandura ou simplicidade, destinam-se à vida de brahmacarya, ou seja, à vida de estudante. Os *brahmacārīs* não devem ter ligação com mulheres; devem viver uma vida de celibato e ocupar a mente no estudo da literatura Védica para o cultivo do conhecimento espiritual. Isto se chama svādhyāyaḥ. Tapas, ou austeridade, destina-se de modo especial à vida retirada. Não se deve permanecer chefe de família a vida toda; é preciso lembrar sempre que há quatro divisões da vida: brahmacarya, gṛhastha, vānaprastha e sannyāsa. Assim, depois da gṛhastha, vida de chefe de família, deve-se retirar. Se a pessoa viver cem anos, deve gastar vinte e cinco anos na vida estudantil, vinte e cinco na vida de chefe de família, vinte e cinco na vida retirada e vinte e cinco na ordem renunciada de vida. Estas são as regulações da disciplina religiosa Védica. Um homem retirado da vida doméstica deve praticar austeridades do corpo, da mente e da língua. Isso é tapasyā. Toda a sociedade varṇāśrama-dharma destina-se à tapasyā. Sem tapasyā ou austeridade, nenhum ser humano pode obter a liberação. A teoria de que não há necessidade de austeridade na vida, de que basta especular e tudo correrá bem, não é recomendada nem na literatura Védica nem no *Bhagavad-gītā*. Tais teorias são fabricadas por espiritualistas de fachada, que tentam reunir mais seguidores. Caso haja restrições, regras e regulações, as pessoas não se sentirão atraídas. Por isso, aqueles que desejam seguidores em nome da religião, apenas para fazer um espetáculo, não restringem a vida de seus alunos nem a sua própria. Esse método, contudo, não é aprovado pelos *Vedas*.\n\n\n\nQuanto à simplicidade, não é só uma determinada ordem de vida que deve seguir esse princípio, mas todo membro, esteja ele no brahmacarya-āśrama, ou no gṛhastha-āśrama, ou no vānaprastha-āśrama. Deve-se viver muito simplesmente.\n\n\n\nAhiṁsā significa não interromper a vida progressiva de qualquer entidade viva. Não se deve pensar que, como a centelha espiritual nunca é morta, mesmo após a morte do corpo, não há mal algum em matar animais para a gratificação dos sentidos. As pessoas, hoje em dia, viciaram-se em comer animais, apesar de haver ampla provisão de grãos, frutas e leite. Não há necessidade de matar animais. Esta injunção é para todos. Quando não houver outra alternativa, pode-se matar um animal, mas ele deve ser oferecido em sacrifício. De qualquer modo, quando há ampla provisão de alimento para a humanidade, as pessoas que desejam progredir na percepção espiritual não devem cometer violência contra os animais. A verdadeira ahiṁsā significa não impedir a vida progressiva de quem quer que seja. Os animais também progridem em sua vida evolutiva, transmigrando de uma categoria de vida animal para outra. Se um determinado animal for morto, seu progresso fica obstruído. Se um animal está permanecendo num determinado corpo por tantos dias ou tantos anos, e é morto antes do tempo, ele tem de retornar novamente nessa forma de vida para completar os dias restantes, a fim de ser promovido a outra espécie de vida. Por isso, seu progresso não deve ser obstruído apenas para satisfazer o paladar de alguém. Isto se chama ahiṁsā.\n\n\n\nSatyam. Esta palavra significa que não se deve distorcer a verdade em prol de algum interesse pessoal. Na literatura Védica, há algumas passagens difíceis, mas o significado ou o propósito deve ser aprendido com um mestre espiritual genuíno. Esse é o processo para compreender os *Vedas*. Śruti significa que se deve ouvir da autoridade. Não se deve construir alguma interpretação em prol do interesse pessoal. Há tantos comentários sobre o *Bhagavad-gītā* que distorcem o texto original. O verdadeiro sentido da palavra deve ser apresentado, e isso se deve aprender com um mestre espiritual genuíno.\n\n\n\nAkrodhaḥ significa conter a ira. Mesmo havendo provocação, a pessoa deve ser tolerante, pois, uma vez que se ira, todo o seu corpo se contamina. A ira é produto dos modos da paixão e da luxúria, de modo que aquele que se situa transcendentalmente deve conter-se da ira. Apaiśunam significa que não se deve apontar defeitos nos outros nem corrigi-los desnecessariamente. É claro que chamar um ladrão de ladrão não é apontar defeitos, mas chamar uma pessoa honesta de ladrão é muito ofensivo para alguém que progride na vida espiritual. Hrīḥ significa que se deve ser muito modesto e não se deve realizar algum ato que seja abominável. Acāpalam, determinação, significa que não se deve ficar agitado nem frustrado em alguma tentativa. Pode haver fracasso em alguma tentativa, mas a pessoa não deve entristecer-se por isso; deve progredir com paciência e determinação. A palavra tejaḥ aqui empregada destina-se aos *kṣatriyas*. Os *kṣatriyas* devem ser sempre muito fortes para poder dar proteção aos fracos. Não devem apresentar-se como não-violentos. Se a violência for necessária, devem manifestá-la.\n\n\n\nŚaucam significa limpeza, não somente na mente e no corpo, mas também nas próprias relações. Destina-se de modo especial aos comerciantes, que não devem operar no mercado negro. Nātimānitā, não esperar honra, aplica-se aos *śūdras*, a classe trabalhadora, considerados, segundo as injunções Védicas, a mais baixa das quatro classes. Não devem inflar-se com prestígio ou honra desnecessários, e devem permanecer em seu próprio status. É dever dos *śūdras* oferecer respeito à classe superior para a manutenção da ordem social.\n\n\n\nTodas essas dezesseis qualificações mencionadas são qualidades transcendentais. Devem ser cultivadas conforme os diferentes status da ordem social. O propósito é que, mesmo sendo miseráveis as condições materiais, se essas qualidades forem desenvolvidas pela prática, por todas as classes de homens, então gradualmente é possível elevar-se à mais alta plataforma da percepção transcendental."}
{"ref": "bg/16/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/4/", "verse_text": "dambho darpo 'bhimānaś ca\n\nkrodhaḥ pāruṣyam eva ca\n\najñānaṁ cābhijātasya\n\npārtha sampadam āsurīm", "devanagari": "> दम्भो दर्पोऽभिमानश्च क्रोधः पारुष्यमेव च ।\n> अज्ञानं चाभिजातस्य पार्थ सम्पदमासुरीम् ॥४॥", "synonyms": "*dambhaḥ*—orgulho; *darpaḥ*—arrogância; *abhimānaḥ*—presunção; *ca*—e; *krodaḥ*—ira; *pāruṣyam*—aspereza; *eva*—certamente; *ca*—e; *ajñānam*—ignorância; *ca*—e; *abhijātasya*—daquele que nasce; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *sampadam*—natureza; *āsurīm*—demoníaca.", "translation": "**A arrogância, o orgulho, a ira, a presunção, a aspereza e a ignorância — estas qualidades pertencem aos de natureza demoníaca, ó filho de Pṛthā.**", "purport": "Neste verso, descreve-se a estrada real para o inferno. Os demoníacos querem fazer um espetáculo de religião e de avanço na ciência espiritual, embora não sigam os princípios. São sempre arrogantes ou orgulhosos por possuírem algum tipo de educação ou tanta riqueza. Desejam ser adorados pelos outros e exigem respeitabilidade, embora não inspirem respeito. Por ninharias, irritam-se profundamente e falam com aspereza, não com brandura. Não sabem o que se deve e o que não se deve fazer. Tudo fazem caprichosamente, segundo seu próprio desejo, e não reconhecem autoridade alguma. Essas qualidades demoníacas são adquiridas por eles desde o início de seus corpos, no ventre de suas mães, e, à medida que crescem, manifestam todas essas qualidades inauspiciosas."}
{"ref": "bg/16/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/5/", "verse_text": "daivī sampad vimokṣāya\n\nnibandhāyāsurī matā\n\nmā śucaḥ sampadaṁ daivīm\n\nabhijāto 'si pāṇḍava", "devanagari": "> दैवी सम्पद्विमोक्षाय निबन्धायासुरी मता ।\n> मा शुचः सम्पदं दैवीमभिजातोऽसि पाण्डव ॥५॥", "synonyms": "*daivī*—transcendental; *sampat*—natureza; *vimokṣāya*—destinada à liberação; *nibandhāya*—ao cativeiro; *āsurī*—qualidades demoníacas; *matā*—considera-se; *mā*—não; *śucaḥ*—te preocupes; *sampadam*—natureza; *daivīm*—transcendental; *abhijātaḥ*—nascido; *asi*—és; *pāṇḍava*—ó filho de Pāṇḍu.", "translation": "**As qualidades transcendentais conduzem à liberação, ao passo que as qualidades demoníacas levam ao cativeiro. Não te preocupes, ó filho de Pāṇḍu, pois nasceste com as qualidades divinas.**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa animou Arjuna, dizendo-lhe que ele não havia nascido com qualidades demoníacas. Seu envolvimento na luta não era demoníaco, pois ele estava ponderando os prós e os contras. Estava considerando se pessoas respeitáveis como Bhīṣma e Droṇa deveriam ou não ser mortos; portanto, não agia sob a influência da ira, do falso prestígio ou da aspereza. Não pertencia, assim, à qualidade dos demônios. Para um *kṣatriya*, um militar, disparar flechas contra o inimigo é considerado transcendental, e abster-se de tal dever é demoníaco. Por conseguinte, não havia razão para Arjuna lamentar-se. Quem quer que execute os princípios regulados das diferentes ordens de vida está transcendentalmente situado."}
{"ref": "bg/16/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/6/", "verse_text": "dvau bhūta-sargau loke 'smin\n\ndaiva āsura eva ca\n\ndaivo vistaraśaḥ prokta\n\nāsuraṁ pārtha me śṛṇu", "devanagari": "> द्वौ भूतसर्गौ लोकेऽस्मिन्दैव आसुर एव च ।\n> दैवो विस्तरशः प्रोक्त आसुरं पार्थ मे शृणु ॥६॥", "synonyms": "*dvau*—dois; *bhūta-sargau*—seres vivos criados; *loke*—neste mundo; *asmin*—este; *daivaḥ*—piedoso; *āsuraḥ*—demoníaco; *eva*—certamente; *ca*—e; *daivaḥ*—divino; *vistaraśaḥ*—extensamente; *proktaḥ*—dito; *asuram*—demoníaco; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *me*—de Mim; *śṛṇu*—ouve só.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, neste mundo há dois tipos de seres criados. Um é chamado divino e o outro, demoníaco. Já te expliquei extensamente as qualidades divinas. Ouve agora de Mim sobre as demoníacas.**", "purport": "O Senhor Kṛṣṇa, tendo assegurado a Arjuna que ele havia nascido com as qualidades divinas, descreve agora a maneira demoníaca. As entidades vivas condicionadas dividem-se em duas classes neste mundo. Aqueles que nascem com qualidades divinas seguem uma vida regulada; isto é, atêm-se às injunções das escrituras e às autoridades. Devem-se executar os deveres à luz da escritura autorizada. Essa mentalidade chama-se divina. Aquele que não segue os princípios reguladores tais como prescritos nas escrituras, e que age segundo seus caprichos, é chamado demoníaco ou asúrico. Não há outro critério senão a obediência aos princípios reguladores das escrituras. Menciona-se na literatura Védica que tanto os semideuses como os demônios nasceram do Prajāpati; a única diferença é que uma classe obedece às injunções Védicas e a outra, não."}
{"ref": "bg/16/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/7/", "verse_text": "pravṛttiṁ ca nivṛttiṁ ca\n\njanā na vidur āsurāḥ\n\nna śaucaṁ nāpi cācāro\n\nna satyaṁ teṣu vidyate", "devanagari": "> प्रवृत्तिं च निवृत्तिं च जना न विदुरासुराः ।\n> न शौचं नापि चाचारो न सत्यं तेषु विद्यते ॥७॥", "synonyms": "*pravṛttim*—ação correta; *ca*—também; *nivṛttim*—ação incorreta; *ca*—e; *janāḥ*—pessoas; *na*—nunca; *viduḥ*—sabem; *āsurāḥ*—de qualidade demoníaca; *na*—nunca; *śaucam*—limpeza; *na*—nem; *api*—também; *ca*—e; *ācāraḥ*—comportamento; *na*—nunca; *satyam*—verdade; *teṣu*—neles; *vidyate*—há.", "translation": "**Aqueles que são demoníacos não sabem o que se deve fazer e o que não se deve fazer. Não há neles nem limpeza, nem comportamento adequado, nem verdade.**", "purport": "Em toda sociedade humana civilizada, há algum conjunto de regras e regulações escriturísticas que se seguem desde o princípio, especialmente entre os Āryans, ou seja, aqueles que adotam a civilização Védica e que são conhecidos como os povos civilizados mais avançados. Aqueles que não seguem as injunções escriturísticas são considerados demônios. Por isso, afirma-se aqui que os demônios não conhecem as regras escriturísticas, nem têm qualquer inclinação para segui-las. A maioria deles não as conhece, e mesmo que alguns as conheçam, não têm a tendência de segui-las. Não têm fé, nem estão dispostos a agir de acordo com as injunções Védicas. Os demônios não são limpos, nem externa nem internamente.\n\n\n\nDeve-se sempre ter o cuidado de manter o corpo limpo, banhando-se, escovando os dentes, trocando de roupa, etc. Quanto à limpeza interna, deve-se sempre lembrar os santos nomes de Deus e cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Os demônios não gostam nem seguem todas essas regras de limpeza externa e interna.\n\n\n\nQuanto ao comportamento, há muitas regras e regulações que orientam o comportamento humano, tais como a Manu-saṁhitā, que é a lei da raça humana. Mesmo até hoje, os hindus seguem a Manu-saṁhitā. Leis de herança e outras legalidades derivam deste livro. Pois bem, na Manu-saṁhitā afirma-se claramente que à mulher não se deve dar liberdade. Isso não significa que as mulheres devam ser mantidas como escravas, mas sim que são como crianças. Às crianças não se dá liberdade, mas isso não significa que sejam mantidas como escravas. Os demônios negligenciaram tais injunções e pensam que se deve dar à mulher tanta liberdade quanto ao homem. Isso, contudo, não melhorou a condição social do mundo. Na verdade, à mulher se deve dar proteção em todas as etapas da vida. Deve ser protegida pelo pai em sua juventude, pelo esposo em sua mocidade e pelos filhos crescidos em sua velhice. Esse é o comportamento social adequado, segundo a Manu-saṁhitā. A educação moderna, porém, inventou artificialmente um conceito inflado da vida feminina e, portanto, o casamento é praticamente, agora, uma imaginação na sociedade humana. Tampouco a condição moral da mulher é, hoje, muito boa. Os demônios, por conseguinte, não aceitam nenhuma instrução que seja boa para a sociedade, e, por não seguirem a experiência dos grandes sábios e as regras e regulações estabelecidas pelos sábios, a condição social do povo demoníaco é muito miserável."}
{"ref": "bg/16/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/8/", "verse_text": "asatyam apratiṣṭhaṁ te\n\njagad āhur anīśvaram\n\naparaspara-sambhūtaṁ\n\nkim anyat kāma-haitukam", "devanagari": "> असत्यमप्रतिष्ठं ते जगदाहुरनीश्वरम् ।\n> अपरस्परसम्भूतं किमन्यत्कामहैतुकम् ॥८॥", "synonyms": "*asatyam*—irreal; *apratiṣṭham*—sem fundamento; *te*—eles; *jagat*—a manifestação cósmica; *āhuḥ*—dizem; *anīśvaram*—sem controlador; *aparaspara*—por luxúria mútua; *sambhūtam*—causada; *kim anyat*—não há outra causa; *kāma-haitukam*—deve-se apenas à luxúria.", "translation": "**Dizem que este mundo é irreal, que não há fundamento e que não há Deus que o controle. Foi produzido pelo desejo sexual, e não tem outra causa senão a luxúria.**", "purport": "Os demoníacos concluem que o mundo é uma fantasmagoria. Não há causa, nem efeito, nem controlador, nem propósito: tudo é irreal. Dizem que esta manifestação cósmica surge devido a ações e reações materiais ao acaso. Não pensam que o mundo tenha sido criado por Deus para um determinado propósito. Têm sua própria teoria: que o mundo surgiu por si só e que não há razão para crer que haja um Deus por trás dele. Para eles, não há diferença entre espírito e matéria, e não aceitam o Espírito Supremo. Tudo é apenas matéria, e supõe-se que todo o cosmo seja uma massa de ignorância. Segundo eles, tudo é vazio, e qualquer manifestação que exista deve-se a nossa ignorância na percepção. Tomam por certo que toda manifestação de diversidade é uma exibição de ignorância. Assim como num sonho podemos criar tantas coisas que de fato não têm existência, do mesmo modo, quando despertarmos, veremos que tudo é simplesmente um sonho. Mas, factualmente, embora os demônios digam que a vida é um sonho, são muito hábeis em desfrutar deste sonho. E assim, em vez de adquirir conhecimento, envolvem-se cada vez mais em sua terra dos sonhos. Concluem que, assim como um filho é apenas o resultado da relação sexual entre homem e mulher, este mundo nasceu sem alma alguma. Para eles, é apenas uma combinação de matéria que produziu as entidades vivas, e não há possibilidade da existência da alma. Assim como muitas criaturas vivas surgem da transpiração e de um corpo morto, sem causa alguma, de modo semelhante, todo o mundo vivo surgiu das combinações materiais da manifestação cósmica. Portanto, a natureza material é a causa desta manifestação, e não há outra causa. Não creem nas palavras de Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*: mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram. \"Sob Minha direção, todo o mundo material se move.\" Em outras palavras, entre os demônios não há conhecimento perfeito da criação deste mundo; cada um deles tem alguma teoria particular sua. Segundo eles, uma interpretação das escrituras é tão boa quanto outra, pois não creem numa compreensão padrão das injunções escriturísticas."}
{"ref": "bg/16/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/9/", "verse_text": "etāṁ dṛṣṭim avaṣṭabhya\n\nnaṣṭātmāno 'lpa-buddhayaḥ\n\nprabhavanty ugra-karmāṇaḥ\n\nkṣayāya jagato 'hitāḥ", "devanagari": "> एतां दृष्टिमवष्टभ्य नष्टात्मानोऽल्पबुद्धयः ।\n> प्रभवन्त्युग्रकर्माणः क्षयाय जगतोऽहिताः ॥९॥", "synonyms": "*etām*—assim; *dṛṣṭim*—visão; *avaṣṭabhya*—aceitando; *naṣṭa*—perdido; *ātmānaḥ*—eu; *alpa-buddhayaḥ*—de pouca inteligência; *prabhavanti*—florescem; *ugra-karmāṇaḥ*—em atividades dolorosas; *kṣayāya*—para a destruição; *jagataḥ*—do mundo; *ahitāḥ*—nocivos.", "translation": "**Seguindo tais conclusões, os demoníacos, que estão perdidos para si mesmos e que não têm inteligência, ocupam-se em obras nocivas e horríveis destinadas a destruir o mundo.**", "purport": "Os demoníacos ocupam-se em atividades que levarão o mundo à destruição. O Senhor afirma aqui que são pouco inteligentes. Os materialistas, que não têm noção de Deus, julgam estar avançando. Mas, segundo o *Bhagavad-gītā*, são ininteligentes e desprovidos de todo bom-senso. Tentam desfrutar deste mundo material ao máximo limite e, por isso, ocupam-se sempre em inventar algo para a gratificação dos sentidos. Tais invenções materialistas são consideradas avanço da civilização humana, mas o resultado é que as pessoas tornam-se cada vez mais violentas e cada vez mais cruéis, cruéis com os animais e cruéis com outros seres humanos. Não fazem ideia de como devem comportar-se uns com os outros. Matar animais é muito proeminente entre o povo demoníaco. Tais pessoas são consideradas inimigas do mundo, pois, ao final, inventarão ou criarão algo que trará destruição a todos. Indiretamente, este verso antecipa a invenção das armas nucleares, das quais, hoje, todo o mundo se orgulha tanto. A qualquer momento pode irromper a guerra, e essas armas atômicas podem causar estrago. Tais coisas são criadas exclusivamente para a destruição do mundo, e isso aqui se indica. Em razão da impiedade, tais armas são inventadas na sociedade humana; não se destinam à paz e à prosperidade do mundo."}
{"ref": "bg/16/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/10/", "verse_text": "kāmam āśritya duṣpūraṁ\n\ndambha-māna-madānvitāḥ\n\nmohād gṛhītvāsad-grāhān\n\npravartante 'śuci-vratāḥ", "devanagari": "> काममाश्रित्य दुष्पूरं दम्भमानमदान्विताः ।\n> मोहाद्गृहीत्वासद्ग्राहान्प्रवर्तन्तेऽशुचिव्रताः ॥१०॥", "synonyms": "*kāmam*—luxúria; *āśritya*—refugiando-se em; *duṣpūram*—insaciável; *dambha*—orgulho; *māna*—falso prestígio; *mada-anvitāḥ*—absortos em presunção; *mohāt*—pela ilusão; *gṛhītvā*—tomando; *asat*—não-permanente; *grāhān*—coisas; *pravartante*—florescem; *aśuci*—imundo; *vratāḥ*—votado.", "translation": "**Os demoníacos, refugiando-se na luxúria insaciável, no orgulho e no falso prestígio, e estando assim iludidos, votam-se sempre a obras imundas, atraídos pelo impermanente.**", "purport": "Aqui se descreve a mentalidade demoníaca. A luxúria dos demônios jamais se sacia. Continuarão aumentando cada vez mais seus desejos insaciáveis de gozo material. Embora sempre cheios de ansiedades por aceitarem coisas não-permanentes, ainda assim continuam ocupando-se em tais atividades por ilusão. Não têm conhecimento e não conseguem perceber que estão indo pelo caminho errado. Aceitando coisas não-permanentes, tais pessoas demoníacas criam seu próprio Deus, criam seus próprios hinos e cantam-nos conforme seu gosto. O resultado é que se tornam cada vez mais atraídas por duas coisas: o gozo sexual e a acumulação de riqueza material. A palavra aśuci-vratāḥ, voto imundo, é muito significativa nessa conexão. Tais pessoas demoníacas só se atraem por vinho, mulheres, jogo e consumo de carne; estes são seus aśuci, hábitos imundos. Induzidos pelo orgulho e pelo falso prestígio, criam alguns princípios de religião que não são aprovados pelas injunções Védicas. Embora tais pessoas demoníacas sejam das mais abomináveis no mundo, mesmo assim, por meios artificiais, o mundo cria uma falsa honra para elas. Embora deslizem rumo ao inferno, consideram-se muito avançadas."}
{"ref": "bg/16/11-12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/11-12/", "verse_text": "cintām aparimeyāṁ ca\n\npralayāntām upāśritāḥ\n\nkāmopabhoga-paramā\n\netāvad iti niścitāḥ\n\nāśā-pāśa-śatair baddhāḥ\n\nkāma-krodha-parāyaṇāḥ\n\nīhante kāma-bhogārtham\n\nanyāyenārtha-sañcayān", "devanagari": "> चिन्तामपरिमेयां च प्रलयान्तामुपाश्रिताः ।\n> कामोपभोगपरमा एतावदिति निश्चिताः ॥११॥\n> आशापाशशतैर्बद्धाः कामक्रोधपरायणाः ।\n> ईहन्ते कामभोगार्थमन्यायेनार्थसञ्चयान् ॥१२॥", "synonyms": "*cintām*—temores e ansiedades; *aparimeyām*—imensuráveis; *ca*—e; *pralaya-antām*—até o ponto da morte; *upāśritāḥ*—tendo se refugiado neles; *kāma-upabhoga*—gratificação dos sentidos; *paramāḥ*—a meta mais elevada da vida; *etāvat*—assim; *iti*—desse modo; *niścitāḥ*—certificam-se; *āśā-pāśa*—enredamento na rede da esperança; *śataiḥ*—por centenas; *baddhāḥ*—estando atados; *kāma*—luxúria; *krodha*—ira; *parāyaṇāḥ*—sempre situados nessa mentalidade; *īhante*—desejam; *kāma*—luxúria; *bhoga*—gozo dos sentidos; *artham*—com esse propósito; *anyāyena*—ilegalmente; *artha*—riqueza; *sañcayān*—acumulam.", "translation": "**Creem que gratificar os sentidos até o fim da vida é a necessidade primordial da civilização humana. Assim, não há fim para sua ansiedade. Estando atados por centenas e milhares de desejos, pela luxúria e pela ira, conseguem dinheiro por meios ilegais para a gratificação dos sentidos.**", "purport": "Os demoníacos aceitam que o desfrute dos sentidos é a meta última da vida, e mantêm essa concepção até a morte. Não creem na vida após a morte, e não creem que se assumam diferentes tipos de corpos conforme o próprio karma, ou seja, as atividades neste mundo. Seus planos para a vida nunca terminam, e continuam preparando plano após plano, todos eles jamais concluídos. Temos experiência pessoal de uma pessoa de tal mentalidade demoníaca que, mesmo no momento da morte, suplicava ao médico que prolongasse sua vida por mais quatro anos, pois seus planos ainda não estavam concluídos. Tais pessoas tolas não sabem que um médico não pode prolongar a vida sequer por um momento. Quando a notificação chega, não há consideração pelo desejo do homem. As leis da natureza não permitem um segundo além daquilo que se está destinado a desfrutar.\n\n\n\nA pessoa demoníaca, que não tem fé em Deus nem na Superalma dentro de si mesma, executa todo tipo de atividades pecaminosas simplesmente para a gratificação dos sentidos. Não sabe que há uma testemunha sentada dentro de seu coração. A Superalma observa as atividades da alma individual. Como se afirma na literatura Védica, nos *Upaniṣads*, há duas aves sentadas numa árvore; uma age e desfruta ou sofre os frutos dos ramos, e a outra é testemunha. Aquele que é demoníaco, porém, não tem conhecimento da escritura Védica, nem tem qualquer fé; portanto, sente-se livre para fazer qualquer coisa em prol do gozo dos sentidos, sem se importar com as consequências."}
{"ref": "bg/16/13-15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/13-15/", "verse_text": "idam adya mayā labdham\n\nimaṁ prāpsye manoratham\n\nidam astīdam api me\n\nbhaviṣyati punar dhanam\n\nasau mayā hataḥ śatrur\n\nhaniṣye cāparān api\n\nīśvaro 'ham ahaṁ bhogī\n\nsiddho 'haṁ balavān sukhī\n\nāḍhyo 'bhijanavān asmi\n\nko 'nyo 'sti sadṛśo mayā\n\nyakṣye dāsyāmi modiṣya\n\nity ajñāna-vimohitāḥ", "devanagari": "> इदमद्य मया लब्धमिमं प्राप्स्ये मनोरथम् ।\n> इदमस्तीदमपि मे भविष्यति पुनर्धनम् ॥१३॥\n> असौ मया हतः शत्रुर्हनिष्ये चापरानपि ।\n> ईश्वरोऽहमहं भोगी सिद्धोऽहं बलवान्सुखी ॥१४॥\n> आढ्योऽभिजनवानस्मि कोऽन्योऽस्ति सदृशो मया ।\n> यक्ष्ये दास्यामि मोदिष्य इत्यज्ञानविमोहिताः ॥१५॥", "synonyms": "*idam*—isto; *adya*—hoje; *mayā*—por mim; *labdham*—ganhei; *imam*—isto; *prāpsye*—ganharei; *manoratham*—conforme meus desejos; *idam*—isto; *asti*—há; *idam*—isto; *api*—também; *me*—meu; *bhaviṣyati*—aumentará no futuro; *punaḥ*—novamente; *dhanam*—riqueza; *asau*—aquele; *mayā*—por mim; *hataḥ*—foi morto; *śatruḥ*—inimigo; *haniṣye*—matarei; *ca*—também; *aparān*—outros; *api*—certamente; *īśvaraḥ*—o senhor; *aham*—sou eu; *aham*—sou eu; *bhogī*—o desfrutador; *siddhah*—perfeito; *aham*—sou eu; *balavān*—poderoso; *sukhī*—feliz; *āḍhyaḥ*—rico; *abhijanavān*—rodeado de parentes aristocráticos; *asmi*—sou; *kaḥ*—quem mais; *anyaḥ*—outro; *asti*—há; *sadṛśaḥ*—como; *mayā*—eu; *yakṣye*—farei sacrifícios; *dāsyāmi*—darei em caridade; *modiṣye*—regozijar-me-ei; *iti*—assim; *ajñāna*—ignorância; *vimohitāḥ*—iludidos por.", "translation": "**A pessoa demoníaca pensa: \"Tenho tanta riqueza hoje, e ganharei mais segundo meus planos. Tenho tanto agora, e isso aumentará no futuro, cada vez mais. Aquele é meu inimigo, e eu o matei; e meu outro inimigo também será morto. Sou o senhor de tudo, sou o desfrutador, sou perfeito, poderoso e feliz. Sou o homem mais rico, rodeado de parentes aristocráticos. Não há ninguém tão poderoso e feliz como eu. Realizarei sacrifícios, darei alguma caridade, e assim me regozijarei.\" Dessa forma, tais pessoas estão iludidas pela ignorância.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/16/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/16/", "verse_text": "aneka-citta-vibhrāntā\n\nmoha-jāla-samāvṛtāḥ\n\nprasaktāḥ kāma-bhogeṣu\n\npatanti narake 'śucau", "devanagari": "> अनेकचित्तविभ्रान्ता मोहजालसमावृताः ।\n> प्रसक्ताः कामभोगेषु पतन्ति नरकेऽशुचौ ॥१६॥", "synonyms": "*aneka*—numerosas; *citta-vibhrāntāḥ*—perplexos por ansiedades; *moha*—de ilusões; *jāla*—por uma rede; *samāvṛtāḥ*—rodeados; *prasaktāḥ*—apegados; *kāma*—luxúria; *bhogeṣu*—gratificação dos sentidos; *patanti*—desliza; *narake*—no inferno; *aśucau*—imundo.", "translation": "**Assim perplexos por várias ansiedades e atados por uma rede de ilusões, a pessoa apega-se demasiadamente ao gozo dos sentidos e cai no inferno.**", "purport": "O homem demoníaco não conhece limite a seu desejo de adquirir dinheiro. Esse desejo é ilimitado. Pensa apenas em quanto avalia seu patrimônio neste momento e arquiteta como empregar esse estoque de riqueza cada vez mais. Por essa razão, não hesita em agir de qualquer modo pecaminoso e, assim, opera no mercado negro em prol de gratificação ilegal. Está enamorado das posses que já tem, tais como terra, família, casa e saldo bancário, e está sempre planejando aumentá-las. Crê na própria força, e não sabe que tudo o que está ganhando se deve a seus bons atos passados. Foi-lhe dada uma oportunidade de acumular tais coisas, mas ele não tem concepção alguma das causas passadas. Pensa apenas que toda a sua massa de riqueza se deve a seu próprio empenho. A pessoa demoníaca crê na força de seu trabalho pessoal, não na lei do karma. Segundo a lei do karma, um homem nasce numa família elevada, ou torna-se rico, ou muito bem educado, ou muito belo, em virtude de bons atos no passado. O demoníaco pensa que todas essas coisas são acidentais e devidas à força de sua capacidade pessoal. Não pressente arranjo algum por trás de todas as variedades de pessoas, beleza e educação. Quem quer que entre em competição com tal homem demoníaco torna-se seu inimigo. Há muitas pessoas demoníacas, e cada uma é inimiga das outras. Essa inimizade torna-se cada vez mais profunda — entre pessoas, depois entre famílias, depois entre sociedades e, por fim, entre nações. Por isso há constante luta, guerra e inimizade por todo o mundo.\n\n\n\nCada pessoa demoníaca pensa que pode viver à custa de todos os outros. Geralmente, a pessoa demoníaca pensa em si mesma como o Deus Supremo, e um pregador demoníaco diz a seus seguidores: \"Por que estais buscando Deus em outra parte? Vós mesmos sois Deus! O que vos agradar, podeis fazer. Não acrediteis em Deus. Jogai Deus fora. Deus está morto.\" Tais são as pregações dos demoníacos.\n\n\n\nEmbora a pessoa demoníaca veja outros igualmente ricos e influentes, ou ainda mais, pensa que ninguém é mais rico do que ela e que ninguém é mais influente do que ela. Quanto à promoção ao sistema planetário superior, não crê na realização de *yajñas* ou sacrifícios. Os demônios pensam que fabricarão seu próprio processo de *yajña* e prepararão alguma máquina por meio da qual poderão alcançar qualquer planeta superior. O melhor exemplo de tal homem demoníaco foi Rāvaṇa. Ele ofereceu ao povo um programa pelo qual prepararia uma escadaria, de modo que qualquer um pudesse alcançar os planetas celestiais sem realizar sacrifícios, tais como os prescritos nos *Vedas*. De modo semelhante, na era atual, tais homens demoníacos esforçam-se por alcançar os sistemas planetários superiores por meio de arranjo mecânico. Estes são exemplos de desorientação. O resultado é que, sem o saberem, deslizam rumo ao inferno. Aqui, a palavra sânscrita mohajāla é muito significativa. Jāla significa rede; como peixes apanhados numa rede, não têm como sair."}
{"ref": "bg/16/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/17/", "verse_text": "ātma-sambhāvitāḥ stabdhā\n\ndhana-māna-madānvitāḥ\n\nyajante nāma-yajñais te\n\ndambhenāvidhi-pūrvakam", "devanagari": "> आत्मसम्भाविताः स्तब्धा धनमानमदान्विताः ।\n> यजन्ते नामयज्ञैस्ते दम्भेनाविधिपूर्वकम् ॥१७॥", "synonyms": "*ātma-sambhāvitāḥ*—autocomplacentes; *stabdhāḥ*—insolentes; *dhana-māna*—riqueza e falso prestígio; *mada-anvitāḥ*—absortos no orgulho; *yajante*—realizam sacrifícios; *nāma*—apenas no nome; *yajñaiḥ*—com tal sacrifício; *te*—eles; *dambhena*—por orgulho; *avidhi-pūrvakam*—sem seguir quaisquer regras e regulações.", "translation": "**Autocomplacentes e sempre insolentes, iludidos pela riqueza e pelo falso prestígio, às vezes realizam sacrifícios apenas em nome, sem seguir regra ou regulação alguma.**", "purport": "Julgando-se o suprassumo, sem se importar com qualquer autoridade ou escritura, os demoníacos às vezes realizam ditos ritos religiosos ou sacrificiais. E, por não crerem na autoridade, são muito insolentes. Isso se deve à ilusão causada pela acumulação de alguma riqueza e de falso prestígio. Às vezes, tais demônios assumem o papel de pregador, desencaminham o povo e tornam-se conhecidos como reformadores religiosos ou como encarnações de Deus. Fazem um espetáculo de realização de sacrifícios, ou adoram os semideuses, ou fabricam seu próprio Deus. Os homens comuns os apregoam como Deus e os adoram, e os tolos os consideram avançados nos princípios da religião, ou nos princípios do conhecimento espiritual. Tomam o traje da ordem renunciada de vida e ocupam-se em todo tipo de disparate nesse traje. Na verdade, há tantas restrições para aquele que renunciou a este mundo. Os demônios, contudo, não se importam com tais restrições. Pensam que qualquer caminho que se possa criar é o próprio caminho da pessoa; não existe tal coisa como um caminho padrão a ser seguido. A palavra avidhi-pūrvakam, significando desconsideração pelas regras e regulações, é especialmente enfatizada aqui. Essas coisas devem-se sempre à ignorância e à ilusão."}
{"ref": "bg/16/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/18/", "verse_text": "ahaṅkāraṁ balaṁ darpaṁ\n\nkāmaṁ krodhaṁ ca saṁśritāḥ\n\nmām ātma-para-deheṣu\n\npradviṣanto 'bhyasūyakāḥ", "devanagari": "> अहंकारं बलं दर्पं कामं क्रोधं च संश्रिताः ।\n> मामात्मपरदेहेषु प्रद्विषन्तोऽभ्यसूयकाः ॥१८॥", "synonyms": "*ahaṅkāram*—ego falso; *balam*—força; *darpam*—orgulho; *kāmam*—luxúria; *krodham*—ira; *ca*—também; *saṁśritāḥ*—tendo se refugiado em; *mām*—a Mim; *ātma*—próprio; *para-deheṣu*—em outros corpos; *pradviṣantaḥ*—blasfema; *abhyasūyakāḥ*—invejosos.", "translation": "**Confundido pelo ego falso, pela força, pelo orgulho, pela luxúria e pela ira, o demônio torna-se invejoso da Suprema Personalidade de Deus, que está situada em seu próprio corpo e nos corpos dos outros, e blasfema contra a verdadeira religião.**", "purport": "A pessoa demoníaca, sendo sempre contrária à supremacia de Deus, não gosta de crer nas escrituras. É invejosa tanto das escrituras quanto da existência da Suprema Personalidade de Deus. Isso é causado por seu suposto prestígio e por sua acumulação de riqueza e força. Não sabe que a vida presente é uma preparação para a próxima vida. Não sabendo disso, é, na verdade, invejosa de si mesma, bem como dos outros. Comete violência contra os corpos alheios e contra o seu próprio. Não se importa com o controle supremo da Personalidade de Deus, porque não tem conhecimento. Sendo invejosa das escrituras e da Suprema Personalidade de Deus, apresenta argumentos falsos contra a existência de Deus e refuta a autoridade escriturística. Considera-se independente e poderosa em todas as ações. Pensa que, como ninguém pode igualar-se a ela em força, poder ou riqueza, pode agir de qualquer modo, e ninguém pode detê-la. Se tiver um inimigo que possa frear o avanço de suas atividades sensoriais, faz planos para abatê-lo por seu próprio poder."}
{"ref": "bg/16/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/19/", "verse_text": "tān ahaṁ dviṣataḥ krūrān\n\nsaṁsāreṣu narādhamān\n\nkṣipāmy ajasram aśubhān\n\nāsurīṣv eva yoniṣu", "devanagari": "> तानहं द्विषतः क्रुरान्संसारेषु नराधमान् ।\n> क्षिपाम्यजस्रमशुभानासुरीष्वेव योनिषु ॥१९॥", "synonyms": "*tān*—aqueles; *aham*—Eu; *dviṣataḥ*—invejosos; *krūrān*—maldosos; *saṁsāreṣu*—no oceano da existência material; *narādhamān*—os mais baixos da humanidade; *kṣipāmi*—lanço; *ajasram*—inumeráveis; *aśubhān*—inauspiciosos; *āsurīṣu*—demoníacas; *eva*—certamente; *yoniṣu*—nos ventres.", "translation": "**Aqueles que são invejosos e maldosos, que são os mais baixos entre os homens, são por Mim lançados no oceano da existência material, em várias espécies de vida demoníaca.**", "purport": "Neste verso, indica-se claramente que a colocação de uma alma individual particular num corpo particular é a prerrogativa da vontade suprema. A pessoa demoníaca pode não concordar em aceitar a supremacia do Senhor, e é fato que pode agir conforme seus próprios caprichos, mas seu próximo nascimento dependerá da decisão da Suprema Personalidade de Deus, e não dela própria. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, Terceiro Canto, afirma-se que uma alma individual, após sua morte, é colocada no ventre de uma mãe, onde recebe um determinado tipo de corpo sob a supervisão de um poder superior. Por isso, na existência material, encontramos tantas espécies de vida — animais, insetos, homens, e assim por diante. Tudo está disposto pelo poder superior. Não são acidentais. Quanto aos demoníacos, aqui se diz claramente que são perpetuamente colocados nos ventres de demônios e, dessa forma, continuam a ser invejosos, os mais baixos da humanidade. Tais espécies demoníacas de vida são consideradas sempre cheias de luxúria, sempre violentas e odiosas e sempre imundas. São como tantas feras na selva."}
{"ref": "bg/16/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/20/", "verse_text": "āsurīṁ yonim āpannā\n\nmūḍhā janmani janmani\n\nmām aprāpyaiva kaunteya\n\ntato yānty adhamāṁ gatim", "devanagari": "> आसुरीं योनिमापन्ना मूढा जन्मनि जन्मनि ।\n> मामप्राप्यैव कौन्तेय ततो यान्त्यधमां गतिम् ॥२०॥", "synonyms": "*āsurīm*—demoníaca; *yonim*—espécie; *āpannāḥ*—obtendo; *mūḍhāḥ*—os tolos; *janmani janmani*—em nascimento após nascimento; *mām*—a Mim; *aprāpya*—sem alcançar; *eva*—certamente; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *tataḥ*—depois; *yānti*—vão; *adhamām*—condenado; *gatim*—destino.", "translation": "**Obtendo nascimento repetido entre as espécies de vida demoníaca, tais pessoas jamais podem aproximar-se de Mim. Gradualmente, afundam-se ao tipo de existência mais abominável.**", "purport": "Sabe-se que Deus é todo-misericordioso, mas aqui descobrimos que Deus jamais é misericordioso para com os demoníacos. Afirma-se claramente que as pessoas demoníacas, vida após vida, são colocadas nos ventres de demônios semelhantes e, sem alcançar a misericórdia do Senhor Supremo, descem cada vez mais, de modo que, por fim, alcançam corpos como os de gatos, cães e porcos. Afirma-se claramente que tais demônios praticamente não têm chance alguma de receber a misericórdia de Deus em qualquer estágio da vida posterior. Nos *Vedas* também se afirma que tais pessoas afundam gradualmente até se tornarem cães e porcos. Pode-se argumentar, nessa conexão, que Deus não deveria ser apregoado como todo-misericordioso, se não é misericordioso para com tais demônios. Em resposta a essa pergunta, no *Vedānta-sūtra* encontramos que o Senhor Supremo não tem ódio por ninguém. A colocação dos asuras, os demônios, no status mais baixo da vida é simplesmente outra característica de Sua misericórdia. Às vezes, os asuras são mortos pelo Senhor Supremo, mas essa morte também é boa para eles, pois, na literatura Védica, encontramos que qualquer um que seja morto pelo Senhor Supremo torna-se liberado. Há, na história, instâncias de muitos asuras — Rāvaṇa, Kaṁsa, Hiraṇyakaśipu — para quem o Senhor apareceu em várias encarnações apenas para matá-los. Por conseguinte, a misericórdia de Deus é mostrada aos asuras se eles forem afortunados o bastante para serem mortos por Ele."}
{"ref": "bg/16/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/21/", "verse_text": "tri-vidhaṁ narakasyedaṁ\n\ndvāraṁ nāśanam ātmanaḥ\n\nkāmaḥ krodhas tathā lobhas\n\ntasmād etat trayaṁ tyajet", "devanagari": "> त्रिविधं नरकस्येदं द्वारं नाशनमात्मनः ।\n> कामः क्रोधस्तथा लोभस्तस्मादेतत्त्रयं त्यजेत् ॥२१॥", "synonyms": "*tri-vidham*—três tipos de; *narakasya*—infernais; *idam*—este; *dvāram*—portão; *nāśanam*—destrutivo; *ātmanaḥ*—do eu; *kāmaḥ*—luxúria; *krodhaḥ*—ira; *tathā*—bem como; *lobhaḥ*—cobiça; *tasmāt*—portanto; *etat*—estes; *trayam*—três; *tyajet*—deve-se abandonar.", "translation": "**Há três portões que conduzem a este inferno — luxúria, ira e cobiça. Todo homem sensato deve abandoná-los, pois conduzem à degradação da alma.**", "purport": "Aqui se descreve o início da vida demoníaca. A pessoa tenta satisfazer sua luxúria e, quando não consegue, surgem a ira e a cobiça. O homem sensato que não deseja deslizar rumo às espécies de vida demoníaca deve tentar abandonar esses três inimigos, que podem matar o eu a tal ponto que não haverá possibilidade de liberação deste enredamento material."}
{"ref": "bg/16/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/22/", "verse_text": "etair vimuktaḥ kaunteya\n\ntamo-dvārais tribhir naraḥ\n\nācaraty ātmanaḥ śreyas\n\ntato yāti parāṁ gatim", "devanagari": "> एतैर्विमुक्तः कौन्तेय तमोद्वारैस्त्रिभिर्नरः ।\n> आचरत्यात्मनः श्रेयस्ततो याति परां गतिम् ॥२२॥", "synonyms": "*etaiḥ*—por estes; *vimuktaḥ*—estando liberado; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *tamaḥ-dvāraiḥ*—os portões da ignorância; *tribhiḥ*—três tipos de; *naraḥ*—uma pessoa; *ācarati*—executa; *ātmanaḥ*—do eu; *śreyaḥ*—benção; *tataḥ*—depois; *yāti*—vai; *parām*—suprema; *gatim*—destino.", "translation": "**O homem que escapa destes três portões do inferno, ó filho de Kuntī, executa atos conducentes à autorrealização e, dessa maneira, atinge gradualmente o destino supremo.**", "purport": "Deve-se ter muito cuidado com estes três inimigos da vida humana: luxúria, ira e cobiça. Quanto mais a pessoa se livrar da luxúria, da ira e da cobiça, mais sua existência se tornará pura. Em seguida, poderá seguir as regras e regulações prescritas na literatura Védica. Seguindo os princípios reguladores da vida humana, a pessoa eleva-se gradualmente à plataforma da percepção espiritual. Se, por essa prática, for tão afortunada que se eleve à plataforma da consciência de Kṛṣṇa, então o êxito está-lhe garantido. Na literatura Védica, prescrevem-se as vias de ação e reação para que a pessoa possa atingir o estágio de purificação. Todo o método baseia-se em abandonar a luxúria, a cobiça e a ira. Cultivando o conhecimento desse processo, a pessoa pode ser elevada à mais alta posição de autorrealização; essa autorrealização aperfeiçoa-se no serviço devocional. Nesse serviço devocional, a liberação da alma condicionada está garantida. Por isso, segundo o sistema Védico, instituíram-se as quatro ordens de vida e os quatro status de vida, denominados sistema de castas e sistema de ordem espiritual. Há diferentes regras e regulações para diferentes castas ou divisões da sociedade, e, se a pessoa for capaz de segui-las, será automaticamente elevada à mais alta plataforma da percepção espiritual. Então poderá obter a liberação sem dúvida alguma."}
{"ref": "bg/16/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/23/", "verse_text": "yaḥ śāstra-vidhim utsṛjya\n\nvartate kāma-kārataḥ\n\nna sa siddhim avāpnoti\n\nna sukhaṁ na parāṁ gatim", "devanagari": "> यः शास्त्रविधिमुत्सृज्य वर्तते कामकारतः ।\n> न स सिद्धिमवाप्नोति न सुखं न परां गतिम् ॥२३॥", "synonyms": "*yaḥ*—qualquer um; *śāstra-vidhim*—as regulações das escrituras; *utsṛjya*—abandonando; *vartate*—permanece; *kāma-kārataḥ*—agindo caprichosamente em luxúria; *na*—nunca; *saḥ*—ele; *siddhim*—perfeição; *avāpnoti*—alcança; *na*—nunca; *sukham*—felicidade; *na*—nunca; *parām*—o supremo; *gatim*—estágio perfeccional.", "translation": "**Mas aquele que descarta as injunções escriturísticas e age conforme seus próprios caprichos não alcança nem perfeição, nem felicidade, nem o destino supremo.**", "purport": "Como descrito antes, o śāstra-vidhim, ou a direção do śāstra, é dado às diferentes castas e ordens da sociedade humana. Espera-se que todos sigam essas regras e regulações. Se alguém não as seguir e agir caprichosamente, conforme sua luxúria, cobiça e desejo, então jamais será perfeito em sua vida. Em outras palavras, um homem pode teoricamente conhecer todas essas coisas, mas, se não as aplicar em sua própria vida, deve ser conhecido como o mais baixo da humanidade. Na forma humana de vida, espera-se que a entidade viva seja sensata e siga as regulações dadas para elevar sua vida à mais alta plataforma; mas, se não as seguir, ela própria se degradará. Mas, mesmo que siga as regras e regulações e os princípios morais, e, em última análise, não chegue ao estágio de compreender o Senhor Supremo, então todo o seu conhecimento se estraga. Por isso, deve-se elevar gradualmente à plataforma da consciência de Kṛṣṇa e do serviço devocional; é então e ali que ela pode atingir o mais alto estágio perfeccional, e não de outro modo.\n\n\n\nA palavra kāma-cārataḥ é muito significativa. Uma pessoa que conscientemente viola as regras age em luxúria. Sabe que isso é proibido, e, ainda assim, age. Isso se chama agir caprichosamente. Sabe que isso deve ser feito, mas mesmo assim não o faz; portanto, é chamada caprichosa. Tais pessoas são destinadas a serem condenadas pelo Senhor Supremo. Tais pessoas não podem ter a perfeição que está destinada à vida humana. A vida humana destina-se de modo especial a purificar a própria existência, e aquele que não segue as regras e regulações não pode purificar-se, nem pode alcançar o verdadeiro estágio de felicidade."}
{"ref": "bg/16/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/16/24/", "verse_text": "tasmāc chāstraṁ pramāṇaṁ te\n\nkāryākārya-vyavasthitau\n\njñātvā śāstra-vidhānoktaṁ\n\nkarma kartum ihārhasi", "devanagari": "> तस्माच्छास्त्रं प्रमाणं ते कार्याकार्यव्यवस्थितौ ।\n> ज्ञात्वा शास्त्रविधानोक्तं कर्म कर्तुमिहार्हसि ॥२४॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *śāstram*—escrituras; *pramāṇam*—evidência; *te*—teu; *kārya*—dever; *akārya*—atividades proibidas; *vyavasthitau*—em determinar; *jñātvā*—conhecendo; *śāstra*—da escritura; *vidhāna*—regulações; *uktam*—como declarado; *karma*—trabalho; *kartum*—fazer; *iha arhasi*—deves fazê-lo.", "translation": "**Deve-se compreender o que é dever e o que não é dever pelas regulações das escrituras. Conhecendo tais regras e regulações, deve-se agir de modo a elevar-se gradualmente.**", "purport": "Como afirmado no Décimo Quinto Capítulo, todas as regras e regulações dos *Vedas* destinam-se a conhecer Kṛṣṇa. Se alguém compreende Kṛṣṇa a partir do *Bhagavad-gītā* e situa-se em consciência de Kṛṣṇa, ocupando-se no serviço devocional, atinge a mais alta perfeição do conhecimento oferecido pela literatura Védica. O Senhor Caitanya Mahāprabhu tornou esse processo muito fácil: pediu às pessoas que simplesmente cantassem Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare e que se ocupassem no serviço devocional do Senhor e comessem os restos dos alimentos oferecidos à Deidade. Quem está diretamente ocupado em todas essas atividades devocionais deve ser entendido como tendo estudado toda a literatura Védica. Chegou perfeitamente à conclusão. Naturalmente, para as pessoas comuns, que não estão em consciência de Kṛṣṇa ou que não estão ocupadas no serviço devocional, o que se deve fazer e o que não se deve fazer há de ser decidido pelas injunções dos *Vedas*. Deve-se agir conforme tais injunções, sem discussão. Isso se chama seguir os princípios do śāstra, ou da escritura. O śāstra está isento dos quatro defeitos principais que são visíveis na alma condicionada: sentidos imperfeitos, propensão para a trapaça, certeza de cometer erros e certeza de estar iludida. Esses quatro defeitos principais da vida condicionada desqualificam a pessoa de estabelecer regras e regulações. Por conseguinte, as regras e regulações descritas no śāstra — estando acima desses defeitos — são aceitas sem alteração por todos os grandes santos, *ācāryas* e grandes almas.\n\n\n\nNa Índia, há muitos partidos de compreensão espiritual, geralmente classificados em dois: os impersonalistas e os personalistas. Ambos, contudo, conduzem suas vidas segundo os princípios dos *Vedas*. Sem seguir os princípios das escrituras, não se pode elevar ao estágio perfeccional. Aquele que de fato compreende o propósito dos *śāstras* é considerado afortunado.\n\n\n\nNa sociedade humana, a aversão aos princípios da compreensão da Suprema Personalidade de Deus é a causa de todas as quedas. Essa é a maior ofensa da vida humana. Por isso, māyā, a energia material da Suprema Personalidade de Deus, está sempre nos causando dificuldade sob a forma das três espécies de misérias. Essa energia material é constituída pelos três modos da natureza material. É preciso elevar-se ao menos ao modo da bondade antes que se possa abrir a senda para a compreensão do Senhor Supremo. Sem elevar-se ao critério do modo da bondade, a pessoa permanece na ignorância e na paixão, que são a causa da vida demoníaca. Aqueles que estão nos modos da paixão e da ignorância zombam das escrituras, zombam do santo homem e zombam da compreensão correta do mestre espiritual, e não se importam com as regulações das escrituras. Apesar de ouvirem as glórias do serviço devocional, não se sentem atraídos. Assim, fabricam seu próprio modo de elevação. Estes são alguns dos defeitos da sociedade humana, que conduzem ao status demoníaco de vida. Se, contudo, a pessoa for capaz de ser guiada por um mestre espiritual genuíno e adequado, que possa conduzi-la à senda da elevação, ao estágio mais elevado, então sua vida torna-se exitosa.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Sexto Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* sobre as Naturezas Divina e Demoníaca."}
{"ref": "bg/17/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nye śāstra-vidhim utsṛjya\n\nyajante śraddhayānvitāḥ\n\nteṣāṁ niṣṭhā tu kā kṛṣṇa\n\nsattvam āho rajas tamaḥ", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> ये शास्त्रविधिमुत्सृज्य यजन्ते श्रद्धयान्विताः ।\n> तेषां निष्ठा तु का कृष्ण सत्त्वमाहो रजस्तमः ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *ye*—aqueles; *śāstra-vidhim*—as regulações das escrituras; *utsṛjya*—abandonando; *yajante*—adora; *śraddhayā*—plena fé; *anvitāḥ*—possuídos de; *teṣām*—deles; *niṣṭhā*—fé; *tu*—mas; *kā*—qual é essa; *kṛṣṇa*—ó Kṛṣṇa; *sattvam*—em bondade; *āho*—disse; *rajaḥ*—em paixão; *tamaḥ*—em ignorância.", "translation": "**Arjuna disse: Ó Kṛṣṇa, qual é a situação daquele que não segue os princípios das escrituras, mas adora segundo sua própria imaginação? Está em bondade, em paixão ou em ignorância?**", "purport": "No Quarto Capítulo, trigésimo nono verso, afirma-se que a pessoa fiel a um determinado tipo de adoração gradualmente se eleva à etapa do conhecimento e alcança a mais alta etapa perfeccional de paz e prosperidade. No Décimo Sexto Capítulo, conclui-se que aquele que não segue os princípios estabelecidos nas escrituras é chamado de asura, demônio, e aquele que segue fielmente os preceitos das escrituras é chamado de deva, ou semideus. Ora, se alguém, com fé, segue certas regras que não estão mencionadas nos preceitos das escrituras, qual é sua posição? Esta dúvida de Arjuna deve ser esclarecida por Kṛṣṇa. Aqueles que criam algum tipo de Deus selecionando um ser humano e depositando sua fé nele estão adorando em bondade, paixão ou ignorância? Tais pessoas alcançam a etapa perfeccional da vida? É possível que se situem em conhecimento real e se elevem à mais alta etapa perfeccional? Aqueles que não seguem as regras e regulações das escrituras, mas que têm fé em algo e adoram deuses, semideuses e homens, alcançam êxito em seu esforço? Arjuna está dirigindo essas perguntas a Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/17/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/2/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\ntri-vidhā bhavati śraddhā\n\ndehināṁ sā svabhāva-jā\n\nsāttvikī rājasī caiva\n\ntāmasī ceti tāṁ śṛṇu", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> त्रिविधा भवति श्रद्धा देहिनां सा स्वभावजा ।\n> सात्त्विकी राजसी चैव तामसी चेति तां शृणु ॥२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *tri-vidhā*—três tipos; *bhavati*—torna-se; *śraddhā*—fé; *dehinām*—do encarnado; *sā*—essa; *sva-bhāva-jā*—segundo seu modo da natureza material; *sāttvikī*—modo da bondade; *rājasī*—modo da paixão; *ca*—também; *eva*—certamente; *tāmasī*—modo da ignorância; *ca*—e; *iti*—assim; *tām*—essa; *sṛṇu*—ouve de Mim.", "translation": "**O Senhor Supremo disse: Conforme os modos da natureza adquiridos pela alma encarnada, sua fé pode ser de três tipos — em bondade, em paixão ou em ignorância. Ouve agora a respeito desses tipos.**", "purport": "Aqueles que conhecem as regras e regulações das escrituras, mas, por preguiça ou indolência, deixam de seguir tais regras e regulações, são governados pelos modos da natureza material. De acordo com suas atividades anteriores nos modos da bondade, da paixão ou da ignorância, adquirem uma natureza de qualidade específica. A associação da entidade viva com os diferentes modos da natureza vem ocorrendo perpetuamente, pois a entidade viva está em contato com a natureza material. Assim, ela adquire diferentes tipos de mentalidade conforme sua associação com os modos materiais. Mas essa natureza pode ser modificada se a pessoa se associar com um mestre espiritual genuíno e se ativer às regras dele e das escrituras. Gradualmente, é possível mudar de posição da ignorância para a bondade, ou da paixão para a bondade. A conclusão é que a fé cega num determinado modo da natureza não pode ajudar a pessoa a elevar-se à etapa perfeccional. É preciso considerar as coisas cuidadosamente, com inteligência, na associação de um mestre espiritual genuíno. Dessa maneira, pode-se mudar de posição para um modo superior da natureza."}
{"ref": "bg/17/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/3/", "verse_text": "sattvānurūpā sarvasya\n\nśraddhā bhavati bhārata\n\nśraddhā-mayo 'yaṁ puruṣo\n\nyo yac-chraddhaḥ sa eva saḥ", "devanagari": "> सत्त्वानुरूपा सर्वस्य श्रद्धा भवति भारत ।\n> श्रद्धामयोऽयं पुरुषो यो यच्छ्रद्धः स एव सः ॥३॥", "synonyms": "*sattva-anurūpā*—conforme a existência; *sarvasya*—de cada um; *śraddhā*—fé; *bhavati*—torna-se; *bhārata*—ó filho de Bhārata; *śraddhā*—fé; *mayaḥ*—plena; *ayam*—esta; *puruṣaḥ*—entidade viva; *yaḥ*—qualquer; *yat*—essa; *śraddhaḥ*—fé; *saḥ*—essa; *eva*—certamente; *saḥ*—ele.", "translation": "**De acordo com a existência da pessoa sob os vários modos da natureza, ela desenvolve um determinado tipo de fé. Diz-se que o ser vivo possui uma fé específica conforme os modos que adquiriu.**", "purport": "Cada um tem um determinado tipo de fé, seja qual for sua condição. Mas sua fé é considerada boa, apaixonada ou ignorante segundo a natureza que adquiriu. Assim, conforme seu tipo particular de fé, a pessoa se associa com determinadas pessoas. Ora, o fato real é que toda entidade viva, como se afirma no Décimo Quinto Capítulo, é originalmente parte integrante fragmentária do Senhor Supremo. Por isso, originalmente, a pessoa é transcendental a todos os modos da natureza material. Mas quando se esquece de sua relação com a Suprema Personalidade de Deus e entra em contato com a natureza material na vida condicionada, ela mesma gera sua própria posição pela associação com as diferentes variedades da natureza material. A fé e a existência artificiais resultantes são apenas materiais. Embora a pessoa possa estar sendo conduzida por alguma impressão ou alguma concepção de vida, ainda assim, originalmente, ela é nirguṇa, ou transcendental. Por conseguinte, é preciso purificar-se da contaminação material adquirida a fim de recuperar sua relação com o Senhor Supremo. Esse é o único caminho de retorno sem temor: a consciência de Kṛṣṇa. Se alguém estiver situado em consciência de Kṛṣṇa, então tal caminho lhe garante a elevação à etapa perfeccional. Se a pessoa não tomar essa senda da autorrealização, certamente será conduzida pela influência dos modos da natureza.\n\n\n\nA palavra sattva, ou fé, é muito significativa neste verso. Sattva, ou fé, sempre provém das obras de bondade. A fé da pessoa pode estar num semideus, em algum Deus criado ou em alguma invenção mental. Supõe-se que seja sua firme fé em algo que produz as obras de bondade material. Mas, na vida condicionada material, nenhuma obra de natureza material é completamente purificada. São mistas. Não estão em pura bondade. A pura bondade é transcendental; em bondade purificada pode-se compreender a verdadeira natureza da Suprema Personalidade de Deus. Enquanto a fé não estiver inteiramente em bondade purificada, está sujeita à contaminação por qualquer um dos modos da natureza material. Os modos contaminados da natureza material expandem-se ao coração. Por isso, segundo a posição do coração em contato com determinado modo da natureza material, estabelece-se a fé da pessoa. Deve-se compreender que, se o coração de alguém está no modo da bondade, sua fé também está no modo da bondade. Se seu coração está no modo da paixão, sua fé também está no modo da paixão. E se seu coração está no modo da escuridão, da ilusão, sua fé também está assim contaminada. Encontramos, dessa forma, diferentes tipos de fé neste mundo, e há diferentes tipos de religiões devido aos diferentes tipos de fé. O verdadeiro princípio da fé religiosa situa-se no modo da bondade pura, mas, como o coração está manchado, encontramos diferentes tipos de princípios religiosos. Assim, conforme os diferentes tipos de fé, há diferentes formas de adoração."}
{"ref": "bg/17/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/4/", "verse_text": "yajante sāttvikā devān\n\nyakṣa-rakṣāṁsi rājasāḥ\n\npretān bhūta-gaṇāṁś cānye\n\nyajante tāmasā janāḥ", "devanagari": "> यजन्ते सात्त्विका देवान्यक्षरक्षांसि राजसाः ।\n> प्रेतान्भूतगणांश्चान्ये यजन्ते तामसा जनाः ॥४॥", "synonyms": "*yajante*—adoram; *sāttvikāḥ*—aqueles que estão no modo da bondade; *devān*—semideuses; *yakṣa-rakṣāṁsi rājasāḥ*—aqueles que estão no modo da paixão adoram demônios; *pretān*—espíritos mortos; *bhūta-gaṇān*—fantasmas; *ca anye*—e outros; *yajante*—adoram; *tāmasāḥ*—no modo da ignorância; *janāḥ*—pessoas.", "translation": "**Os homens no modo da bondade adoram os semideuses; aqueles no modo da paixão adoram os demônios; e aqueles no modo da ignorância adoram fantasmas e espíritos.**", "purport": "Neste verso, a Suprema Personalidade de Deus descreve diferentes tipos de adoradores conforme suas atividades externas. Segundo o preceito das escrituras, somente a Suprema Personalidade de Deus é adorável; mas aqueles que não estão muito familiarizados com os preceitos das escrituras, ou não lhes são fiéis, adoram diferentes objetos, segundo suas situações específicas nos modos da natureza material. Aqueles que se situam na bondade geralmente adoram os semideuses. Os semideuses incluem Brahmā, Śiva e outros como Indra, Candra e o deus do sol. Há vários semideuses. Os que estão em bondade adoram um determinado semideus para um determinado fim. De modo semelhante, aqueles que estão no modo da paixão adoram os demônios. Lembramo-nos de que, durante a Segunda Guerra Mundial, um homem em Calcutá adorou Hitler porque, graças àquela guerra, havia acumulado grande quantidade de riqueza negociando no mercado negro. Da mesma forma, aqueles nos modos da paixão e da ignorância geralmente selecionam um homem poderoso para ser Deus. Pensam que qualquer um pode ser adorado como Deus e que se obterão os mesmos resultados.\n\n\n\nOra, aqui se descreve claramente que aqueles no modo da paixão adoram e criam tais deuses, e aqueles no modo da ignorância, na escuridão, adoram espíritos mortos. Às vezes, as pessoas adoram no túmulo de algum homem morto. O serviço sexual também é considerado no modo da escuridão. De modo semelhante, em vilarejos remotos da Índia há adoradores de fantasmas. Vimos que, na Índia, as pessoas das classes inferiores às vezes vão à floresta e, se sabem que um fantasma vive em uma árvore, adoram essa árvore e oferecem sacrifícios. Esses diferentes tipos de adoração não são, na verdade, adoração a Deus. A adoração a Deus é para pessoas que estão transcendentalmente situadas em bondade pura. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se: sattvaṁ viśuddhaṁ vāsudeva-śabditam. \"Quando o homem está situado em bondade pura, adora Vāsudeva.\" O significado é que aqueles que estão completamente purificados dos modos materiais da natureza e que estão transcendentalmente situados podem adorar a Suprema Personalidade de Deus.\n\n\n\nSupõe-se que os impersonalistas estejam situados no modo da bondade, e adoram cinco tipos de semideuses. Adoram o Viṣṇu impessoal, ou a forma de Viṣṇu no mundo material, conhecida como Viṣṇu filosofado. Viṣṇu é a expansão da Suprema Personalidade de Deus, mas os impersonalistas, por não acreditarem em última análise na Suprema Personalidade de Deus, imaginam que a forma de Viṣṇu seja apenas mais um aspecto do Brahman impessoal; de modo semelhante, imaginam que o Senhor Brahmā seja a forma impessoal no modo material da paixão. Por isso, descrevem às vezes cinco tipos de deuses adoráveis, mas, como pensam que a verdade real é o Brahman impessoal, dispensam todos os objetos adoráveis ao final. Em conclusão, as diferentes qualidades dos modos materiais da natureza podem ser purificadas pela associação com pessoas de natureza transcendental."}
{"ref": "bg/17/5-6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/5-6/", "verse_text": "aśāstra-vihitaṁ ghoraṁ\n\ntapyante ye tapo janāḥ\n\ndambhāhaṅkāra-saṁyuktāḥ\n\nkāma-rāga-balānvitāḥ\n\nkarṣayantaḥ śarīra-sthaṁ\n\nbhūta-grāmam acetasaḥ\n\nmāṁ caivāntaḥ śarīra-sthaṁ\n\ntān viddhy āsura-niścayān", "devanagari": "> अशास्त्रविहितं घोरं तप्यन्ते ये तपो जनाः ।\n> दम्भाहंकारसंयुक्ताः कामरागबलान्विताः ॥५॥\n> कर्षयन्तः शरीरस्थं भूतग्राममचेतसः ।\n> मां चैवान्तःशरीरस्थं तान्विद्ध्यासुरनिश्चयान् ॥६॥", "synonyms": "*aśāstra*—não mencionado nas escrituras; *vihitam*—dirigido; *ghoram*—prejudicial aos outros; *tapyante*—submetem-se a penitências; *ye*—aqueles; *tapaḥ*—austeridades; *janāḥ*—pessoas; *dambha*—orgulho; *ahaṅkāra*—egoísmo; *saṁyuktāḥ*—ocupados; *kāma*—luxúria; *rāga*—apego; *bala*—força; *anvitāḥ*—impelidos por; *karṣayantaḥ*—atormentando; *śarīra-stham*—situados dentro do corpo; *bhūta-grāmam*—combinação de elementos materiais; *acetasaḥ*—por tal mentalidade desorientada; *mām*—a Mim; *ca*—também; *eva*—certamente; *antaḥ*—dentro; *śarīra-stham*—situado no corpo; *tān*—a eles; *viddhi*—compreende; *āsura*—demônios; *niścayān*—certamente.", "translation": "**Aqueles que se submetem a severas austeridades e penitências não recomendadas nas escrituras, executando-as por orgulho, egoísmo, luxúria e apego, que são impelidos pela paixão e que torturam os órgãos do corpo, bem como a Superalma que dentro deles habita, devem ser conhecidos como demônios.**", "purport": "Há pessoas que inventam modos de austeridade e penitências não mencionados nos preceitos das escrituras. Por exemplo, jejuar com algum propósito ulterior, como promover um fim puramente político, não está mencionado nas instruções das escrituras. As escrituras recomendam o jejum para o avanço espiritual, não para algum fim político ou propósito social. Pessoas que se entregam a tais austeridades são, segundo o *Bhagavad-gītā*, certamente demoníacas. Seus atos vão contra o preceito das escrituras e não são benéficos para as pessoas em geral. Na verdade, agem por orgulho, ego falso, luxúria e apego ao gozo material. Por tais atividades, perturba-se não somente a combinação de elementos materiais de que é construído o corpo, mas também a própria Suprema Personalidade de Deus que habita dentro do corpo. Tal jejum ou austeridade não autorizada para algum fim político é, certamente, muito perturbadora aos demais. Não está mencionada na literatura Védica. Uma pessoa demoníaca pode pensar que, por esse método, conseguirá forçar seu inimigo ou outras partes a atender a seu desejo, mas, às vezes, alguém morre em virtude de tal jejum. Esses atos não são aprovados pela Suprema Personalidade de Deus, e Ele diz que aqueles que se ocupam neles são demônios. Tais demonstrações são insultos à Suprema Personalidade de Deus, pois são levadas a cabo em desobediência aos preceitos das escrituras Védicas. A palavra acetasaḥ é significativa nesse contexto — pessoas em condição mental normal devem obedecer aos preceitos das escrituras. Aqueles que não estão em tal posição negligenciam e desobedecem às escrituras e fabricam seus próprios modos de austeridade e penitências. Deve-se sempre lembrar do destino último das pessoas demoníacas, conforme descrito no capítulo anterior. O Senhor as obriga a nascer no ventre de pessoas demoníacas. Em consequência, viverão segundo princípios demoníacos vida após vida, sem conhecer sua relação com a Suprema Personalidade de Deus. Se, contudo, tais pessoas tiverem a fortuna de ser orientadas por um mestre espiritual capaz de dirigi-las à senda da sabedoria Védica, poderão sair desse emaranhado e, em última análise, alcançar a meta suprema."}
{"ref": "bg/17/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/7/", "verse_text": "āhāras tv api sarvasya\n\ntri-vidho bhavati priyaḥ\n\nyajñas tapas tathā dānaṁ\n\nteṣāṁ bhedam imaṁ śṛṇu", "devanagari": "> आहारस्त्वपि सर्वस्य त्रिविधो भवति प्रियः ।\n> यज्ञस्तपस्तथा दानं तेषां भेदमिमं शृणु ॥७॥", "synonyms": "*āhāraḥ*—comer; *tu*—certamente; *api*—também; *sarvasya*—de cada um; *tri-vidhaḥ*—três tipos; *bhavati*—há; *priyaḥ*—querido; *yajñaḥ*—sacrifício; *tapaḥ*—austeridade; *tathā*—também; *dānam*—caridade; *teṣām*—deles; *bhedam*—diferenças; *imam*—assim; *śṛṇu*—ouve.", "translation": "**Mesmo o alimento de que todos participam é de três tipos, conforme os três modos da natureza material. O mesmo se aplica aos sacrifícios, às austeridades e à caridade. Ouve, e te falarei das distinções entre eles.**", "purport": "Em razão das diferentes situações e dos modos da natureza material, há diferenças no modo de comer, de realizar sacrifícios, austeridades e caridades. Não se conduzem todas no mesmo nível. Aqueles que conseguem compreender analiticamente que tipos de execuções estão em que modos da natureza material são, de fato, sábios; aqueles que consideram que todos os tipos de sacrifício, alimentos ou caridade são iguais não conseguem discriminar, e são tolos. Há trabalhadores missionários que defendem que se pode fazer o que se quer e atingir a perfeição. Mas esses guias néscios não estão agindo conforme a direção das escrituras. Inventam métodos e desorientam as pessoas em geral."}
{"ref": "bg/17/8-10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/8-10/", "verse_text": "āyuḥ-sattva-balārogya-\n\nsukha-prīti-vivardhanāḥ\n\nrasyāḥ snigdhāḥ sthirā hṛdyā\n\nāhārāḥ sāttvika-priyāḥ\n\nkaṭv-amla-lavaṇāty-uṣṇa-\n\ntīkṣṇa-rūkṣa-vidāhinaḥ\n\nāhārā rājasasyeṣṭā\n\nduḥkha-śokāmaya-pradāḥ\n\nyāta-yāmaṁ gata-rasaṁ\n\npūti paryuṣitaṁ ca yat\n\nucchiṣṭam api cāmedhyaṁ\n\nbhojanaṁ tāmasa-priyam", "devanagari": "> आयुःसत्त्वबलारोग्यसुखप्रीतिविवर्धनाः ।\n> रस्याः स्निग्धाः स्थिरा हृद्या आहाराः सात्त्विकप्रियाः ॥८॥\n> कट्वम्ललवणात्युष्णतीक्ष्णरूक्षविदाहिनः ।\n> आहारा राजसस्येष्टा दुःखशोकामयप्रदाः ॥९॥\n> यातयामं गतरसं पूति पर्युषितं च यत् ।\n> उच्छिष्टमपि चामेध्यं भोजनं तामसप्रियम् ॥१०॥", "synonyms": "*āyuḥ*—duração da vida; *sattva*—existência; *bala*—força; *ārogya*—saúde; *sukha*—felicidade; *prīti*—e satisfação; *vivardhanāḥ*—aumentando; *rasyāḥ*—sucosos; *snigdhāḥ*—gordurosos; *sthirāḥ*—duradouros; *hṛdyāḥ*—agradáveis ao coração; *āhārāḥ*—alimento; *sāttvika*—a quem está em bondade; *priyāḥ*—saboroso.", "translation": "**Os alimentos no modo da bondade aumentam a duração da vida, purificam a existência e proporcionam força, saúde, felicidade e satisfação. Tais alimentos nutritivos são doces, sucosos, gordurosos e saborosos. Os alimentos demasiado amargos, demasiado azedos, salgados, picantes, secos e quentes agradam às pessoas no modo da paixão. Tais alimentos causam dor, aflição e doença. O alimento cozido mais de três horas antes de ser ingerido, que é insípido, velho, pútrido, decomposto e impuro, é o alimento apreciado pelas pessoas no modo da ignorância.**", "purport": "O propósito do alimento é aumentar a duração da vida, purificar a mente e auxiliar a força corporal. Esse é seu único propósito. No passado, grandes autoridades selecionaram os alimentos que melhor auxiliam a saúde e aumentam a duração da vida, tais como laticínios, açúcar, arroz, trigo, frutas e legumes. Esses alimentos são muito caros àqueles no modo da bondade. Alguns outros alimentos, como milho assado e melaço, embora não sejam muito saborosos em si mesmos, podem tornar-se agradáveis quando misturados com leite ou outros alimentos. Encontram-se, então, no modo da bondade. Todos esses alimentos são puros por natureza. São bem distintos de coisas intocáveis como carne e bebida alcoólica. Os alimentos gordurosos, mencionados no oitavo verso, não têm relação com a gordura animal obtida pelo abate. A gordura animal está disponível na forma de leite, que é o mais maravilhoso de todos os alimentos. O leite, a manteiga, o queijo e produtos semelhantes fornecem a gordura animal numa forma que descarta toda necessidade de matar criaturas inocentes. Somente por uma mentalidade brutal é que esse abate prossegue. O método civilizado de obter a gordura necessária é o leite. O abate é a senda dos sub-humanos. A proteína está amplamente disponível através de ervilhas partidas, dhall, trigo integral, etc.\n\n\n\nOs alimentos no modo da paixão, que são amargos, demasiado salgados, ou demasiado quentes ou excessivamente misturados com pimenta vermelha, causam sofrimento ao produzirem muco no estômago, levando à doença. Os alimentos no modo da ignorância ou da escuridão são essencialmente aqueles que não são frescos. Qualquer alimento cozido mais de três horas antes de ser ingerido (exceto prasādam, alimento oferecido ao Senhor) é considerado no modo da escuridão. Por se decomporem, tais alimentos exalam um mau odor, que muitas vezes atrai as pessoas neste modo, mas repele aquelas no modo da bondade.\n\n\n\nOs restos de comida só podem ser ingeridos quando fazem parte de uma refeição que foi primeiramente oferecida ao Senhor Supremo ou primeiramente ingerida por pessoas santas, especialmente o mestre espiritual. Caso contrário, os restos de comida são considerados no modo da escuridão e aumentam a infecção ou a doença. Tais alimentos, embora muito saborosos para pessoas no modo da escuridão, não são apreciados nem mesmo tocados por aquelas no modo da bondade. O melhor alimento é o resto do que se oferece à Suprema Personalidade de Deus. No *Bhagavad-gītā*, o Senhor Supremo diz que aceita preparações de legumes, farinha e leite quando oferecidas com devoção. Patraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyam. Naturalmente, devoção e amor são as principais coisas que a Suprema Personalidade de Deus aceita. Mas também se menciona que o prasādam deve ser preparado de uma maneira específica. Qualquer alimento preparado conforme o preceito das escrituras e oferecido à Suprema Personalidade de Deus pode ser ingerido mesmo que tenha sido preparado há muito tempo, pois esse alimento é transcendental. Por conseguinte, para tornar o alimento antisséptico, comestível e saboroso para todas as pessoas, deve-se oferecê-lo à Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/17/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/11/", "verse_text": "aphalākāṅkṣibhir yajño\n\nvidhi-diṣṭo ya ijyate\n\nyaṣṭavyam eveti manaḥ\n\nsamādhāya sa sāttvikaḥ", "devanagari": "> अफलाङ्क्षिभिर्यज्ञो विधिदृष्टो य इज्यते ।\n> यष्टव्यमेवेति मनः समाधाय स सात्त्विकः ॥११॥", "synonyms": "*aphala-kāñkṣibhiḥ*—desprovido de desejo de resultado; *yajñaḥ*—sacrifício; *vidhi*—conforme; *dṛṣtaḥ*—direção; *yaḥ*—qualquer um; *ijyate*—executa; *yaṣṭavyam*—deve ser executado; *eva*—certamente; *iti*—assim; *manaḥ*—mente; *samādhāya*—fixa em; *saḥ*—ele; *sāttvikaḥ*—está no modo da bondade.", "translation": "**Dos sacrifícios, o sacrifício executado conforme o dever e as regras das escrituras, e sem expectativa de recompensa, é da natureza da bondade.**", "purport": "A tendência geral é oferecer sacrifício com algum propósito em mente, mas aqui se afirma que o sacrifício deve ser executado sem tal desejo. Deve ser feito como uma questão de dever. Tomemos, por exemplo, a execução de rituais em templos ou em igrejas. Em geral, são executados com o propósito de benefício material, mas isso não está no modo da bondade. Deve-se ir a um templo ou igreja como uma questão de dever, oferecer respeito à Suprema Personalidade de Deus e oferecer flores e comestíveis. Todos pensam que não há utilidade em ir ao templo apenas para adorar a Deus. Mas a adoração para benefício econômico não está recomendada nos preceitos das escrituras. Deve-se ir simplesmente para oferecer respeito à Deidade. Isso situará a pessoa no modo da bondade. É o dever de todo homem civilizado obedecer aos preceitos das escrituras e oferecer respeito à Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/17/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/12/", "verse_text": "abhisandhāya tu phalaṁ\n\ndambhārtham api caiva yat\n\nijyate bharata-śreṣṭha\n\ntaṁ yajñaṁ viddhi rājasam", "devanagari": "> अभिसन्धाय तु फलं दम्भार्थमपि चैव यत् ।\n> इज्यते भरतश्रेष्ठ तं यज्ञं विद्धि राजसम् ॥१२॥", "synonyms": "*abhisandhāya*—desejando; *tu*—mas; *phalam*—o resultado; *dambha*—orgulho; *artham*—benefícios materiais; *api*—também; *ca*—e; *eva*—certamente; *yat*—aquilo que; *ijyate*—adoração; *bharata-śreṣṭha*—ó chefe dos Bhāratas; *tam*—esse; *yajñam*—sacrifício; *viddhi*—saiba; *rājasam*—no modo da paixão.", "translation": "**Mas o sacrifício executado por algum fim ou benefício material, ou executado ostensivamente, por orgulho, é da natureza da paixão, ó chefe dos Bhāratas.**", "purport": "Às vezes, sacrifícios e rituais são executados visando à elevação ao reino celestial ou a algum benefício material neste mundo. Tais sacrifícios ou execuções ritualísticas são considerados no modo da paixão."}
{"ref": "bg/17/13", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/13/", "verse_text": "vidhi-hīnam asṛṣṭānnaṁ\n\nmantra-hīnam adakṣiṇam\n\nśraddhā-virahitaṁ yajñaṁ\n\ntāmasaṁ paricakṣate", "devanagari": "> विधिहीनमसृष्टान्नं मन्त्रहीनमदक्षिणम् ।\n> श्रद्धाविरहितं यज्ञं तामसं परिचक्षते ॥१३॥", "synonyms": "*vidhi-hīnam*—sem direção das escrituras; *asṛṣṭa-annam*—sem distribuição de prasādam; *mantra-hīnam*—sem entoação dos hinos Védicos; *adakṣiṇam*—sem remunerações aos sacerdotes; *śraddhā*—fé; *virahitam*—sem; *yajñam*—sacrifício; *tāmasam*—no modo da ignorância; *paricakṣate*—deve ser considerado.", "translation": "**E o sacrifício executado em desafio aos preceitos das escrituras, no qual não se distribui alimento espiritual, não se entoam hinos e não se fazem remunerações aos sacerdotes, e que é desprovido de fé — esse sacrifício é da natureza da ignorância.**", "purport": "A fé no modo da escuridão ou ignorância é, na verdade, falta de fé. Às vezes, as pessoas adoram algum semideu apenas para fazer dinheiro e depois gastam o dinheiro em recreação, ignorando os preceitos das escrituras. Tais demonstrações cerimoniais de religiosidade não são aceitas como genuínas. Estão todas no modo da escuridão; produzem mentalidade demoníaca e não beneficiam a sociedade humana."}
{"ref": "bg/17/14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/14/", "verse_text": "deva-dvija-guru-prājña-\n\npūjanaṁ śaucam ārjavam\n\nbrahmacaryam ahiṁsā ca\n\nśārīraṁ tapa ucyate", "devanagari": "> देवद्विजगुरुप्राज्ञपूजनं शौचमार्जवम् ।\n> ब्रह्मचर्यमहिंसा च शारीरं तप उच्यते ॥१४॥", "synonyms": "*deva*—o Senhor Supremo; *dvija*—o brāhmaṇa; *guru*—o mestre espiritual; *prājña*—personalidades adoráveis; *pūjanam*—adoração; *śaucam*—limpeza; *ārjavam*—simplicidade; *brahma-caryam*—celibato; *ahiṁsā*—não-violência; *ca*—também; *śārīram*—referente ao corpo; *tapaḥ*—austeridade; *ucyate*—diz-se que é.", "translation": "**A austeridade do corpo consiste no seguinte: a adoração ao Senhor Supremo, aos brāhmaṇas, ao mestre espiritual e a superiores como o pai e a mãe. A limpeza, a simplicidade, o celibato e a não-violência também são austeridades do corpo.**", "purport": "A Suprema Divindade explica aqui os diferentes tipos de austeridade e penitência. Primeiramente, explica as austeridades e penitências praticadas pelo corpo. Deve-se oferecer, ou aprender a oferecer, respeito a Deus ou aos semideuses, aos brāhmaṇas perfeitos e qualificados, ao mestre espiritual e a superiores como pai, mãe ou qualquer pessoa familiarizada com o conhecimento Védico. A estes deve-se prestar o devido respeito. Deve-se praticar a limpeza externa e interna, e aprender a tornar-se simples no comportamento. Não se deve fazer nada que não seja sancionado pelo preceito das escrituras. Não se deve entregar ao sexo fora da vida conjugal, pois o sexo é sancionado nas escrituras apenas no casamento, não de outra forma. Isso se chama celibato. Estas são as penitências e austeridades no que tange ao corpo."}
{"ref": "bg/17/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/15/", "verse_text": "anudvega-karaṁ vākyaṁ\n\nsatyaṁ priya-hitaṁ ca yat\n\nsvādhyāyābhyasanaṁ caiva\n\nvāṅ-mayaṁ tapa ucyate", "devanagari": "> अनुद्वेगकरं वाक्यं सत्यं प्रियहितं च यत् ।\n> स्वाध्यायाभ्यसनं चैव वाङ्मयं तप उच्यते ॥१५॥", "synonyms": "*anudvega*—não agitando; *karam*—produzindo; *vākyam*—palavras; *satyam*—verdadeiras; *priya*—queridas; *hitam*—benéficas; *ca*—também; *yat*—as quais; *svādhyāya*—estudo Védico; *abhyasanam*—prática; *ca*—também; *eva*—certamente; *vāṅmayam*—da voz; *tapaḥ*—austeridade; *ucyate*—diz-se que é.", "translation": "**A austeridade da fala consiste em falar de modo verdadeiro e benéfico, evitando expressões que ofendam. Deve-se também recitar regularmente os *Vedas*.**", "purport": "Não se deve falar de tal maneira que se agitem as mentes alheias. Naturalmente, quando um mestre fala, pode dizer a verdade para a instrução de seus alunos, mas tal mestre não deve falar a outros que não sejam seus alunos se for agitar-lhes a mente. Isso é penitência no que diz respeito à fala. Além disso, não se deve dizer disparates. Quando se fala em círculos espirituais, as afirmações devem estar respaldadas pelas escrituras. Deve-se imediatamente citar a autoridade das escrituras para sustentar o que se está dizendo. Ao mesmo tempo, tal conversa deve ser muito agradável ao ouvido. Por meio de tais discussões, pode-se obter o mais alto benefício e elevar a sociedade humana. Há um estoque ilimitado de literatura Védica, e dele é preciso fazer estudo. Isso se chama penitência da fala."}
{"ref": "bg/17/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/16/", "verse_text": "manaḥ-prasādaḥ saumyatvaṁ\n\nmaunam ātma-vinigrahaḥ\n\nbhāva-saṁśuddhir ity etat\n\ntapo mānasam ucyate", "devanagari": "> मनः प्रसादः सौम्यत्वं मौनमात्मविनिग्रहः ।\n> भावसंशुद्धिरित्येतत्तपो मानसमुच्यते ॥१६॥", "synonyms": "*manaḥ-prasādaḥ*—satisfação da mente; *saumyatvam*—sem duplicidade para com os outros; *maunam*—gravidade; *ātma*—próprio; *vinigrahaḥ*—controle; *bhāva*—natureza; *saṁśuddhiḥ*—purificação; *iti*—assim; *etat*—isto é; *tapaḥ*—austeridade; *mānasam*—da mente; *ucyate*—diz-se que é.", "translation": "**E a serenidade, a simplicidade, a gravidade, o autocontrole e a pureza de pensamento são as austeridades da mente.**", "purport": "Tornar a mente austera é desapegá-la da gratificação dos sentidos. Ela deve ser tão treinada que possa estar sempre pensando em fazer o bem aos outros. O melhor treinamento para a mente é a gravidade no pensamento. Não se deve desviar da consciência de Kṛṣṇa e deve-se sempre evitar a gratificação dos sentidos. Purificar a própria natureza é tornar-se consciente de Kṛṣṇa. A satisfação da mente só pode ser obtida afastando-se a mente dos pensamentos de gozo dos sentidos. Quanto mais pensamos em gozo dos sentidos, mais a mente se torna insatisfeita. Na era atual, ocupamos desnecessariamente a mente em tantas formas diferentes de gratificação dos sentidos, e assim não há possibilidade de a mente tornar-se satisfeita. O melhor curso é desviar a mente para a literatura Védica, que está repleta de histórias satisfatórias, como nos *Purāṇas* e no *Mahābhārata*. Pode-se aproveitar esse conhecimento e assim purificar-se. A mente deve ser desprovida de duplicidade, e deve-se pensar no bem-estar de todos. Silêncio significa que se está sempre pensando na autorrealização. A pessoa em consciência de Kṛṣṇa observa silêncio perfeito nesse sentido. Controle da mente significa desapegar a mente do gozo dos sentidos. Deve-se ser direto no trato e, dessa forma, purificar a própria existência. Todas essas qualidades, em conjunto, constituem austeridade nas atividades mentais."}
{"ref": "bg/17/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/17/", "verse_text": "śraddhayā parayā taptaṁ\n\ntapas tat tri-vidhaṁ naraiḥ\n\naphalākāṅkṣibhir yuktaiḥ\n\nsāttvikaṁ paricakṣate", "devanagari": "> श्रद्धया परया तप्तं तपस्तत्त्रिविधं नरैः ।\n> अफलाकाङ्क्षिभिर्युक्तैः सात्त्विकं परिचक्षते ॥१७॥", "synonyms": "*śraddhayā*—com fé; *parayā*—transcendental; *taptam*—executada; *tapaḥ*—austeridade; *tat*—essa; *tri-vidham*—três tipos; *naraiḥ*—pelos homens; *aphala-ākāṅkṣibhiḥ*—sem desejos pelos frutos; *yuktaiḥ*—ocupados; *sāttvikam*—no modo da bondade; *pari-cakṣate*—chama-se.", "translation": "**Esta tríplice austeridade, praticada pelos homens cujo objetivo não é beneficiar-se materialmente, mas agradar ao Supremo, é da natureza da bondade.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/17/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/18/", "verse_text": "satkāra-māna-pūjārthaṁ\n\ntapo dambhena caiva yat\n\nkriyate tad iha proktaṁ\n\nrājasaṁ calam adhruvam", "devanagari": "> सत्कारमानपूजार्थं तपो दम्भेन चैव यत् ।\n> क्रियते तदिह प्रोक्तं राजसं चलमध्रुवम् ॥१८॥", "synonyms": "*satkāra*—respeito; *māna*—honra; *pūjā-artham*—para adoração; *tapaḥ*—austeridade; *dambhena*—com orgulho; *ca*—também; *eva*—certamente; *yat*—a qual; *kriyate*—executa-se; *tat*—essa; *iha*—neste mundo; *proktam*—diz-se que é; *rājasam*—no modo da paixão; *calam*—oscilante; *adhruvam*—temporária.", "translation": "**Aquelas penitências e austeridades ostensivas que são executadas a fim de obter respeito, honra e reverência são ditas no modo da paixão. Não são nem estáveis nem permanentes.**", "purport": "Às vezes, executam-se penitência e austeridade para atrair pessoas e receber honra, respeito e adoração dos outros. Pessoas no modo da paixão arranjam ser adoradas pelos subordinados e deixam que estes lhes lavem os pés e ofereçam riquezas. Tais arranjos artificialmente feitos pela execução de penitências são considerados no modo da paixão. Os resultados são temporários; podem ser mantidos por algum tempo, mas não são permanentes."}
{"ref": "bg/17/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/19/", "verse_text": "mūḍha-grāheṇātmano yat\n\npīḍayā kriyate tapaḥ\n\nparasyotsādanārthaṁ vā\n\ntat tāmasam udāhṛtam", "devanagari": "> मूढग्राहेणात्मनो यत्पीडया क्रियते तपः ।\n> परस्योत्सादनार्थं वा तत्तामसमुदाहृतम् ॥१९॥", "synonyms": "*mūḍha*—tola; *grāheṇa*—com esforço; *ātmanaḥ*—do próprio eu; *yat*—a qual; *pīḍayā*—por tortura; *kriyate*—executa-se; *tapaḥ*—penitência; *parasya*—a outros; *utsādanārtham*—causando aniquilação; *vā*—ou; *tat*—essa; *tāmasam*—no modo da escuridão; *udāhṛtam*—diz-se que é.", "translation": "**E aquelas penitências e austeridades que se executam tolamente por meio de obstinada autotortura, ou para destruir ou ferir outros, dizem-se no modo da ignorância.**", "purport": "Há exemplos de penitência tola empreendida por demônios como Hiraṇyakaśipu, que executou austeras penitências para tornar-se imortal e matar os semideuses. Orou a Brahmā por tais coisas, mas em última análise foi morto pela Suprema Personalidade de Deus. Submeter-se a penitências por algo impossível é, certamente, do modo da ignorância."}
{"ref": "bg/17/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/20/", "verse_text": "dātavyam iti yad dānaṁ\n\ndīyate 'nupakāriṇe\n\ndeśe kāle ca pātre ca\n\ntad dānaṁ sāttvikaṁ smṛtam", "devanagari": "> दातव्यमिति यद्दानं दीयतेऽनुपकारिणे ।\n> देशे काले च पात्रे च तद्दानं सात्त्विकं स्मृतम् ॥२०॥", "synonyms": "*dātavyam*—digno de se dar; *iti*—assim; *yat*—aquilo que; *dānam*—caridade; *dīyate*—dada; *anupakāriṇe*—a qualquer pessoa, independentemente de bem que faça; *dese*—em lugar; *kāle*—em tempo; *ca*—também; *pātre*—pessoa adequada; *ca*—e; *tat*—essa; *dānam*—caridade; *sāttvikam*—no modo da bondade; *smṛtam*—considere.", "translation": "**A dádiva que é feita por dever, em lugar e tempo apropriados, a uma pessoa digna, e sem expectativa de retorno, é considerada caridade no modo da bondade.**", "purport": "Na literatura Védica, recomenda-se a caridade dada a uma pessoa ocupada em atividades espirituais. Não há recomendação para se dar caridade indiscriminadamente. A perfeição espiritual é sempre uma consideração. Por isso, recomenda-se que a caridade seja dada num lugar de peregrinação, em eclipses lunares ou solares, no fim do mês, ou a um brāhmaṇa qualificado, a um Vaiṣṇava (devoto) ou em templos. Tais caridades devem ser dadas sem qualquer consideração de retorno. A caridade aos pobres às vezes é dada por compaixão, mas, se um homem pobre não é digno de receber caridade, então não há avanço espiritual. Em outras palavras, a caridade indiscriminada não é recomendada na literatura Védica."}
{"ref": "bg/17/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/21/", "verse_text": "yat tu pratyupakārārthaṁ\n\nphalam uddiśya vā punaḥ\n\ndīyate ca parikliṣṭaṁ\n\ntad dānaṁ rājasaṁ smṛtam", "devanagari": "> यत्तु प्रत्युपकारार्थं फलमुद्दिश्य वा पुनः ।\n> दीयते च परिक्लिष्टं तद्दानं राजसं स्मृतम् ॥२१॥", "synonyms": "*yat*—aquilo que; *tu*—mas; *prati-upakāra-artham*—com o intuito de obter algum retorno; *phalam*—resultado; *uddiśya*—desejando; *vā*—ou; *punaḥ*—novamente; *dīyate*—é dada em caridade; *ca*—também; *parikliṣṭam*—de má vontade; *tat*—essa; *dānam*—caridade; *rājasam*—no modo da paixão; *smṛtam*—entende-se que é.", "translation": "**Mas a caridade executada com a expectativa de algum retorno, ou com desejo de resultados fruitivos, ou de má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão.**", "purport": "A caridade é, às vezes, executada visando à elevação ao reino celestial, e às vezes com grande aborrecimento e arrependimento posterior: \"Por que gastei tanto desta forma?\" A caridade também é, às vezes, feita por alguma obrigação, a pedido de um superior. Esses tipos de caridade dizem-se no modo da paixão.\n\n\n\nHá muitas fundações beneficentes que oferecem suas dádivas a instituições onde se pratica a gratificação dos sentidos. Tais caridades não são recomendadas na escritura Védica. Apenas a caridade no modo da bondade é recomendada."}
{"ref": "bg/17/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/22/", "verse_text": "adeśa-kāle yad dānam\n\napātrebhyaś ca dīyate\n\nasat-kṛtam avajñātaṁ\n\ntat tāmasam udāhṛtam", "devanagari": "> अदेशकाले यद्दानमपात्रेभ्यश्च दीयते ।\n> असत्कृतमवज्ञातं तत्तामसमुदाहृतम् ॥२२॥", "synonyms": "*adesa*—lugar impuro; *kāle*—tempo impuro; *yat*—aquilo que é; *dānam*—caridade; *apātrebhyaḥ*—a pessoas indignas; *ca*—também; *dīyate*—é dada; *asatkṛtam*—sem respeito; *avajñātam*—sem a devida atenção; *tat*—essa; *tāmasam*—no modo da escuridão; *udāhṛtam*—diz-se que é.", "translation": "**E a caridade executada em lugar e tempo impróprios e dada a pessoas indignas, sem respeito e com desprezo, é caridade no modo da ignorância.**", "purport": "Não se incentivam aqui as contribuições para a indulgência em intoxicação e jogo. Esse tipo de contribuição está no modo da ignorância. Tal caridade não é benéfica; ao contrário, encoraja pessoas pecaminosas. De modo semelhante, se uma pessoa dá caridade a uma pessoa adequada sem respeito e sem atenção, esse tipo de caridade também se diz no modo da escuridão."}
{"ref": "bg/17/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/23/", "verse_text": "oṁ tat sad iti nirdeśo\n\nbrahmaṇas tri-vidhaḥ smṛtaḥ\n\nbrāhmaṇās tena vedāś ca\n\nyajñāś ca vihitāḥ purā", "devanagari": "> ॐतत्सदिति निर्देशो ब्रह्मणस्त्रिविधः स्मृतः ।\n> ब्राह्मणास्तेन वेदाश्च यज्ञाश्च विहिताः पुरा ॥२३॥", "synonyms": "*om*—indicação do Supremo; *tat*—isso; *sat*—eterno; *iti*—essa; *nirdeśaḥ*—indicação; *brāhmaṇāḥ*—do Supremo; *tri-vidhaḥ*—três tipos; *smṛtaḥ*—considere; *brahmaṇaḥ*—os brāhmaṇas; *tena*—portanto; *vedāḥ*—a literatura Védica; *ca*—também; *yajñāḥ*—sacrifício; *ca*—também; *vihitāḥ*—sacrifício; *purā*—outrora.", "translation": "**Desde o princípio da criação, as três sílabas — om tat sat — têm sido usadas para indicar a Suprema Verdade Absoluta [Brahman]. Eram pronunciadas pelos brāhmaṇas ao entoarem hinos Védicos e durante os sacrifícios, para a satisfação do Supremo.**", "purport": "Já se explicou que penitência, sacrifício, caridade e alimentos dividem-se em três categorias: os modos da bondade, da paixão e da ignorância. Mas, sejam de primeira, segunda ou terceira classe, são todos condicionados, contaminados pelos modos materiais da natureza. Quando se voltam para o Supremo — om tat sat, a Suprema Personalidade de Deus, o eterno —, tornam-se meios de elevação espiritual. Nos preceitos das escrituras, indica-se tal objetivo. Estas três palavras, om tat sat, indicam particularmente a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. Nos hinos Védicos, encontra-se sempre a palavra om.\n\n\n\nAquele que age sem seguir as regulações das escrituras não alcançará a Verdade Absoluta. Obterá algum resultado temporário, mas não o fim último da vida. A conclusão é que a execução de caridades, sacrifício e penitência deve ser feita no modo da bondade. Executados nos modos da paixão ou da ignorância, são, certamente, inferiores em qualidade. As três palavras om tat sat são pronunciadas em conjunção com o santo nome do Senhor Supremo, por exemplo, om tad viṣṇoḥ. Sempre que se profere um hino Védico ou o santo nome do Senhor Supremo, acrescenta-se om. Essa é a indicação da literatura Védica. Estas três palavras são extraídas de hinos Védicos. Om ity etad brahmaṇo nediṣṭaṁ nāma indica a primeira meta. Em seguida, tattvamasi indica a segunda meta. E sad eva saumya indica a terceira meta. Combinadas, tornam-se om tat sat. Outrora, quando Brahmā, a primeira entidade viva criada, executou sacrifícios, ele pronunciou esses três nomes da Suprema Personalidade de Deus. O mesmo princípio sustenta-se pela sucessão discipular. Logo, esse hino é de grande significação. O *Bhagavad-gītā* recomenda, portanto, que qualquer trabalho que se faça deve ser feito por om tat sat, ou pela Suprema Personalidade de Deus. Quando alguém executa penitência, caridade e sacrifício com estas três palavras, está agindo em consciência de Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa é uma execução científica de atividades transcendentais que capacita a pessoa a retornar ao lar, de volta ao Supremo. Não há perda de energia ao se agir dessa maneira transcendental."}
{"ref": "bg/17/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/24/", "verse_text": "tasmād oṁ ity udāhṛtya\n\nyajña-dāna-tapaḥ-kriyāḥ\n\npravartante vidhānoktāḥ\n\nsatataṁ brahma-vādinām", "devanagari": "> तस्मादोमित्युदाहृत्य यज्ञदानतपःक्रियाः ।\n> प्रवर्तन्ते विधानोक्ताः सततं ब्रह्मवादिनाम् ॥२४॥", "synonyms": "*tasmāt*—portanto; *om*—começando com om; *iti*—assim; *udāhṛtya*—indicando; *yajña*—sacrifício; *dāna*—caridade; *tapaḥ*—penitência; *kriyāḥ*—execuções; *pravartante*—começa; *vidhāna-uktāḥ*—conforme a regulação das escrituras; *satatam*—sempre; *brahma-vādinām*—dos transcendentalistas.", "translation": "**Assim, os transcendentalistas empreendem sacrifícios, caridades e penitências, começando sempre com om, para alcançar o Supremo.**", "purport": "Om tad viṣṇoḥ paramaṁ padam. Os pés de lótus de Viṣṇu são a suprema plataforma devocional. A execução de tudo em prol da Suprema Personalidade de Deus assegura a perfeição de toda atividade."}
{"ref": "bg/17/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/25/", "verse_text": "tad ity anabhisandhāya\n\nphalaṁ yajña-tapaḥ-kriyāḥ\n\ndāna-kriyāś ca vividhāḥ\n\nkriyante mokṣa-kāṅkṣibhiḥ", "devanagari": "> तदित्यनभिसन्धाय फलं यज्ञतपःक्रियाः ।\n> दानक्रियाश्च विविधाः क्रियन्ते मोक्षकाङ्क्षिभिः ॥२५॥", "synonyms": "*tat*—isso; *iti*—elas; *anabhisandhāya*—sem resultado fruitivo; *phalam*—resultado de sacrifício; *yajña*—sacrifício; *tapaḥ*—penitência; *kriyāḥ*—atividades; *dāna*—caridade; *kriyāḥ*—atividades; *ca*—também; *vividhāḥ*—variedades; *kriyante*—feitas; *mokṣa-kāṅkṣibhiḥ*—aqueles que realmente desejam a liberação.", "translation": "**Deve-se executar sacrifício, penitência e caridade com a palavra tat. O propósito de tais atividades transcendentais é libertar-se do enredamento material.**", "purport": "Para ser elevado à posição espiritual, não se deve agir em busca de qualquer ganho material. Os atos devem ser executados visando ao ganho último de ser transferido ao reino espiritual, de volta ao lar, de volta ao Supremo."}
{"ref": "bg/17/26-27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/26-27/", "verse_text": "sad-bhāve sādhu-bhāve ca\n\nsad ity etat prayujyate\n\npraśaste karmaṇi tathā\n\nsac-chabdaḥ pārtha yujyate\n\nyajñe tapasi dāne ca\n\nsthitiḥ sad iti cocyate\n\nkarma caiva tad-arthīyaṁ\n\nsad ity evābhidhīyate", "devanagari": "> सद्भावे साधुभावे च सदित्येतत्प्रयुज्यते ।\n> प्रशस्ते कर्मणि तथा सच्छब्दः पार्थ युज्यते ॥२६॥\n> यज्ञे तपसि दाने च स्थितिः सदिति चोच्यते ।\n> कर्म चैव तदर्थीयं सदित्येवाभिधीयते ॥२७॥", "synonyms": "*sat-bhāve*—no sentido da natureza do Supremo; *sādhu-bhāve*—no sentido da natureza da devoção; *ca*—também; *sat*—o Supremo; *iti*—assim; *etat*—isto; *prayujyate*—é usado; *praśaste*—genuínas; *karmaṇi*—atividades; *tathā*—também; *sat-śabdaḥ*—som; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *yujyate*—é usado; *yajñe*—sacrifício; *tapasi*—em penitência; *dāne*—caridade; *ca*—também; *sthitiḥ*—situado; *sat*—o Supremo; *iti*—assim; *ca*—e; *ucyate*—pronunciado; *karma*—trabalho; *ca*—também; *eva*—certamente; *tat*—isso; *arthīyam*—destinam-se; *sat*—Supremo; *iti*—assim; *eva*—certamente; *abhidhīyate*—é praticado.", "translation": "**A Verdade Absoluta é o objetivo do sacrifício devocional, e é indicada pela palavra sat. Estas obras de sacrifício, de penitência e de caridade, fiéis à natureza absoluta, são executadas para agradar à Pessoa Suprema, ó filho de Pṛthā.**", "purport": "As palavras praśaste karmaṇi, ou deveres prescritos, indicam que há muitas atividades prescritas na literatura Védica que são processos purificatórios, começando do cuidado parental até o fim da vida. Tais processos purificatórios são adotados para a liberação última da entidade viva. Em todas essas atividades, recomenda-se vibrar om tat sat. As palavras sad-bhāve e sādhu-bhāve indicam a situação transcendental. Aquele que está agindo em consciência de Kṛṣṇa é chamado de sattva, e aquele que está plenamente consciente das atividades em consciência de Kṛṣṇa é chamado de svarūpa. No *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que o assunto transcendental torna-se claro na associação dos devotos. Sem boa associação, não se pode alcançar o conhecimento transcendental. Ao se iniciar uma pessoa ou ao se oferecer o cordão sagrado, vibram-se as palavras om tat sat. De modo semelhante, em todos os tipos de execuções yóguicas, invoca-se o objeto supremo, om tat sat. Estas palavras om tat sat são empregadas para aperfeiçoar todas as atividades. Este supremo om tat sat torna tudo completo."}
{"ref": "bg/17/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/17/28/", "verse_text": "aśraddhayā hutaṁ dattaṁ\n\ntapas taptaṁ kṛtaṁ ca yat\n\nasad ity ucyate pārtha\n\nna ca tat pretya no iha", "devanagari": "> अश्रद्धया हुतं दत्तं तपस्तप्तं कृतं च यत् ।\n> असदित्युच्यते पार्थ न च तत्प्रेत्य नो इह ॥२८॥", "synonyms": "*aśraddhayā*—sem fé; *hutam*—executado; *dattam*—dado; *tapaḥ*—penitência; *taptam*—executada; *kṛtam*—executado; *ca*—também; *yat*—aquilo que; *asat*—decai; *iti*—assim; *ucyate*—diz-se que é; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *na*—nunca; *ca*—também; *tat*—isso; *pretya*—depois da morte; *no*—nem; *iha*—nesta vida.", "translation": "**Mas os sacrifícios, austeridades e caridades executados sem fé no Supremo são impermanentes, ó filho de Pṛthā, sejam quais forem os ritos executados. Chamam-se asat e são inúteis tanto nesta vida como na próxima.**", "purport": "Tudo o que se faz sem o objetivo transcendental — seja sacrifício, caridade ou penitência — é inútil. Por conseguinte, neste verso declara-se que tais atividades são abomináveis. Tudo deve ser feito para o Supremo em consciência de Kṛṣṇa. Sem essa fé, e sem a orientação adequada, nunca poderá haver fruto algum. Em todas as escrituras Védicas, aconselha-se a fé no Supremo. Na busca de todas as instruções Védicas, a meta última é a compreensão de Kṛṣṇa. Ninguém pode obter êxito sem seguir esse princípio. Por isso, o melhor curso é trabalhar desde o início em consciência de Kṛṣṇa sob a orientação de um mestre espiritual genuíno. Esse é o caminho para fazer tudo bem-sucedido.\n\n\n\nNo estado condicionado, as pessoas atraem-se por adorar semideuses, fantasmas, ou Yakṣas como Kuvera. O modo da bondade é melhor que os modos da paixão e da ignorância, mas aquele que se dedica diretamente à consciência de Kṛṣṇa é transcendental a todos os três modos da natureza material. Embora exista um processo de elevação gradual, se a pessoa, pela associação de devotos puros, se dedicar diretamente à consciência de Kṛṣṇa, esse é o melhor caminho. E é isso o que se recomenda neste capítulo. Para se alcançar êxito por esse meio, é preciso primeiro encontrar o mestre espiritual adequado e receber treinamento sob a sua direção. Então, pode-se alcançar fé no Supremo. Quando essa fé amadurece, com o passar do tempo, é chamada de amor a Deus. Esse amor é a meta última das entidades vivas. Por isso, deve-se dedicar diretamente à consciência de Kṛṣṇa. Essa é a mensagem deste Décimo Sétimo Capítulo.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta referentes ao Décimo Sétimo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā* no que tange às Divisões da Fé."}
{"ref": "bg/18/1", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/1/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nsannyāsasya mahā-bāho\n\ntattvam icchāmi veditum\n\ntyāgasya ca hṛṣīkeśa\n\npṛthak keśī-niṣūdana", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> संन्यासस्य महाबाहो तत्त्वमिच्छामि वेदितुम् ।\n> त्यागस्य च हृषीकेश पृथक्केशिनिषूदन ॥१॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *sannyāsasya*—renúncia; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *tattvam*—verdade; *icchāmi*—desejo; *veditum*—compreender; *tyāgasya*—de renúncia; *ca*—também; *hṛṣīkeśa*—ó senhor dos sentidos; *pṛthak*—de modo distinto; *keśi-nisūdana*—ó matador do demônio Keśī.", "translation": "**Arjuna disse: Ó pessoa de braços poderosos, desejo compreender o propósito da renúncia [tyāga] e da ordem de vida renunciada [sannyāsa], ó matador do demônio Keśī, Hṛṣīkeśa.**", "purport": "Na verdade, o *Bhagavad-gītā* termina no décimo sétimo capítulo. O Décimo Oitavo Capítulo é um resumo suplementar dos tópicos discutidos anteriormente. Em cada capítulo do *Bhagavad-gītā*, o Senhor Kṛṣṇa enfatiza que o serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus é a meta última da vida. Esse mesmo ponto resume-se no Décimo Oitavo Capítulo como a senda mais confidencial do conhecimento. Nos seis primeiros capítulos, deu-se ênfase ao serviço devocional: yoginām api sarveṣām... “De todos os yogīs ou transcendentalistas, aquele que sempre pensa em Mim em seu íntimo é o melhor.” Nos seis capítulos seguintes, discutiram-se o serviço devocional puro e sua natureza e atividade. Nos seis capítulos derradeiros, descreveram-se o conhecimento, a renúncia, as atividades da natureza material e da natureza transcendental, e o serviço devocional. Concluiu-se que todos os atos devem ser executados em conjunto com o Senhor Supremo, o que se resume nas palavras om tat sat, que indicam Viṣṇu, a Pessoa Suprema. Na terceira parte do *Bhagavad-gītā*, estabeleceu-se o serviço devocional pelo exemplo dos ācāryas do passado e pelo *Brahma-sūtra*, o *Vedānta-sūtra*, que afirma ser o serviço devocional a finalidade última da vida e nada mais. Certos impersonalistas consideram-se os monopolizadores do conhecimento do *Vedānta-sūtra*, mas, na verdade, o *Vedānta-sūtra* destina-se à compreensão do serviço devocional, pois o próprio Senhor é o compositor do *Vedānta-sūtra* e é Seu conhecedor. Isso descreve-se no Décimo Quinto Capítulo. Em toda escritura, em todo Veda, o serviço devocional é o objetivo. Isso explica-se no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nAssim como, no Segundo Capítulo, descreveu-se uma sinopse de toda a matéria, de modo semelhante, no Décimo Oitavo Capítulo também se oferece o resumo de todas as instruções. Indica-se que o propósito da vida é a renúncia e a obtenção da posição transcendental acima dos três modos materiais da natureza. Arjuna deseja esclarecer os dois temas distintos do *Bhagavad-gītā*, a saber, a renúncia (tyāga) e a ordem de vida renunciada (sannyāsa). Por isso, ele pergunta o significado destas duas palavras.\n\n\n\nDuas palavras usadas neste verso para se dirigir ao Senhor Supremo—Hṛṣīkeśa e Keśinisūdana—são significativas. Hṛṣīkeśa é Kṛṣṇa, o senhor de todos os sentidos, que sempre pode ajudar-nos a alcançar a serenidade mental. Arjuna pede-Lhe que resuma tudo de maneira tal que ele possa permanecer equilibrado. Contudo, ele tem algumas dúvidas, e as dúvidas sempre se comparam a demônios. Por isso, dirige-se a Kṛṣṇa como Keśinisūdana. Keśī foi um dos mais formidáveis demônios mortos pelo Senhor; ora, Arjuna espera que Kṛṣṇa mate o demônio da dúvida."}
{"ref": "bg/18/2", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/2/", "verse_text": "śrī-bhagavān uvāca\n\nkāmyānāṁ karmaṇāṁ nyāsaṁ\n\nsannyāsaṁ kavayo viduḥ\n\nsarva-karma-phala-tyāgaṁ\n\nprāhus tyāgaṁ vicakṣaṇāḥ", "devanagari": "> श्रीभगवानुवाच ।\n> काम्यानां कर्मणां न्यासं संन्यासं कवयो विदुः ।\n> सर्वकर्मफलत्यागं प्राहुस्त्यागं विचक्षणाः ॥२॥", "synonyms": "*śrī bhagavān uvāca*—a Suprema Personalidade de Deus disse; *kāmyānām*—com desejo; *karmaṇām*—atividades; *nyāsam*—renúncia; *sannyāsam*—ordem de vida renunciada; *kavayaḥ*—os eruditos; *viduḥ*—conhecem; *sarva*—todas; *karma*—atividades; *phala*—de resultados; *tyāgam*—renúncia; *prāhuḥ*—chamam; *tyāgam*—renúncia; *vicakṣaṇāḥ*—os experientes.", "translation": "**O Senhor Supremo disse: Os sábios chamam de renúncia [tyāga] o ato de abandonar os resultados de todas as atividades. E esse estado é chamado de ordem de vida renunciada [sannyāsa] pelos grandes eruditos.**", "purport": "É preciso abandonar a execução de atividades visando aos resultados. Esta é a instrução do *Bhagavad-gītā*. Mas as atividades que conduzem ao avanço no conhecimento espiritual não devem ser abandonadas. Isso ficará claro no próximo verso. Há nas literaturas Védicas muitas prescrições de métodos para realizar sacrifícios com algum propósito particular. Há certos sacrifícios que se executam para obter um bom filho ou para alcançar elevação aos planetas superiores, mas os sacrifícios motivados por desejos devem ser interrompidos. Contudo, o sacrifício para a purificação do coração ou para o avanço na ciência espiritual não deve ser abandonado."}
{"ref": "bg/18/3", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/3/", "verse_text": "tyājyaṁ doṣa-vad ity eke\n\nkarma prāhur manīṣiṇaḥ\n\nyajña-dāna-tapaḥ-karma\n\nna tyājyam iti cāpare", "devanagari": "> त्याज्यं दोषवदित्येके कर्म प्राहुर्मनीषिणः ।\n> यज्ञदानतपःकर्म न त्याज्यमिति चापरे ॥३॥", "synonyms": "*tyājyam*—deve ser abandonado; *doṣavat*—como um mal; *iti*—assim; *eke*—um grupo; *karma*—trabalho; *prāhuḥ*—disseram; *manīṣiṇaḥ*—de grandes pensadores; *yajña*—sacrifício; *dāna*—caridade; *tapaḥ*—penitência; *karma*—trabalho; *na*—nunca; *tyājyam*—deve ser abandonado; *iti*—assim; *ca*—certamente; *apare*—outros.", "translation": "**Alguns eruditos declaram que todos os tipos de atividades fruitivas devem ser abandonados, mas há ainda outros sábios que sustentam que os atos de sacrifício, caridade e penitência jamais devem ser abandonados.**", "purport": "Há, nas literaturas Védicas, muitas atividades que são objeto de contenda. Por exemplo, diz-se que um animal pode ser morto em sacrifício, mas alguns sustentam que matar animais é completamente abominável. Embora a literatura Védica recomende a morte de animais em sacrifício, não se considera que o animal seja morto. O sacrifício destina-se a dar uma nova vida ao animal. Às vezes, depois de ser morto no sacrifício, o animal recebe nova vida animal, e às vezes é imediatamente promovido à forma humana de vida. Mas há diferentes opiniões entre os sábios. Alguns dizem que matar animais sempre se deve evitar, e outros dizem que, para um sacrifício específico, é bom. Todas estas diferentes opiniões sobre a atividade sacrifical são agora esclarecidas pelo próprio Senhor."}
{"ref": "bg/18/4", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/4/", "verse_text": "niścayaṁ śṛṇu me tatra\n\ntyāge bharata-sattama\n\ntyāgo hi puruṣa-vyāghra\n\ntri-vidhaḥ samprakīrtitaḥ", "devanagari": "> निश्चयं शृणु मे तत्र त्यागे भरतसत्तम ।\n> त्यागो हि पुरुषव्याघ्र त्रिविधः सम्प्रकीर्तितः ॥४॥", "synonyms": "*niścayam*—certamente; *śṛṇu*—ouve; *me*—de Mim; *tatra*—lá; *tyāge*—em matéria de renúncia; *bharata-sattama*—ó melhor dos Bhāratas; *tyāgaḥ*—renúncia; *hi*—certamente; *puruṣa-vyāghra*—ó tigre entre os seres humanos; *tri-vidhaḥ*—três tipos; *samprakīrtitaḥ*—declara-se.", "translation": "**Ó melhor dos Bhāratas, ouve agora de Mim sobre a renúncia. Ó tigre entre os homens, há três tipos de renúncia declarados nas escrituras.**", "purport": "Embora haja divergências de opinião quanto à renúncia, aqui a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, dá Seu juízo, que deve ser tido como definitivo. Afinal, os *Vedas* são diferentes leis dadas pelo Senhor. Aqui o Senhor está pessoalmente presente, e Sua palavra deve ser tida como definitiva. O Senhor diz que o processo de renúncia deve ser considerado em função dos modos da natureza material em que se realiza."}
{"ref": "bg/18/5", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/5/", "verse_text": "yajña-dāna-tapaḥ-karma\n\nna tyājyaṁ kāryam eva tat\n\nyajño dānaṁ tapaś caiva\n\npāvanāni manīṣiṇām", "devanagari": "> यज्ञदानतपःकर्म न त्याज्यं कार्यमेव तत् ।\n> यज्ञो दानं तपश्चैव पावनानि मनीषिणाम् ॥५॥", "synonyms": "*yajña*—sacrifício; *dāna*—caridade; *tapaḥ*—penitência; *karma*—atividades; *na*—nunca; *tyājyam*—devem ser abandonadas; *kāryam*—devem ser executadas; *eva*—certamente; *tat*—isso; *yajñaḥ*—sacrifício; *dānam*—caridade; *tapaḥ*—penitência; *ca*—também; *eva*—certamente; *pāvanāni*—purificadores; *manīṣiṇām*—mesmo das grandes almas.", "translation": "**Os atos de sacrifício, caridade e penitência não devem ser abandonados, mas executados. De fato, o sacrifício, a caridade e a penitência purificam até as grandes almas.**", "purport": "Os yogīs devem realizar atos para o avanço da sociedade humana. Há muitos processos purificatórios que elevam o ser humano à vida espiritual. A cerimônia matrimonial, por exemplo, é considerada um desses sacrifícios. Chama-se vivāha-yajña. Deveria um sannyāsī, que pertence à ordem de vida renunciada e que abandonou suas relações familiares, encorajar a cerimônia matrimonial? O Senhor diz aqui que qualquer sacrifício destinado ao bem-estar humano jamais deve ser abandonado. O vivāha-yajña, a cerimônia matrimonial, destina-se a regular a mente humana para que se torne pacífica e propícia ao avanço espiritual. Para a maioria dos homens, este vivāha-yajña deve ser encorajado mesmo por pessoas situadas na ordem de vida renunciada. Os sannyāsīs nunca devem associar-se com mulheres, mas isso não significa que aquele que se encontra nas etapas inferiores da vida, um jovem, não deva aceitar uma esposa por meio da cerimônia matrimonial. Todos os sacrifícios prescritos destinam-se a alcançar o Senhor Supremo. Por conseguinte, nas etapas inferiores, não devem ser abandonados. De modo semelhante, a caridade serve para a purificação do coração. Se a caridade for dada a pessoas adequadas, conforme já se descreveu, ela conduz a pessoa à vida espiritual avançada."}
{"ref": "bg/18/6", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/6/", "verse_text": "etāny api tu karmāṇi\n\nsaṅgaṁ tyaktvā phalāni ca\n\nkartavyānīti me pārtha\n\nniścitaṁ matam uttamam", "devanagari": "> एतान्यपि तु कर्माणि सङ्गं त्यक्त्वा फलानि च ।\n> कर्तव्यानीति मे पार्थ निश्चितं मतमुत्तमम् ॥६॥", "synonyms": "*etāni*—todas estas; *api*—certamente; *tu*—devem; *karmāṇi*—atividades; *saṅgam*—associação; *tyaktvā*—renunciando; *phalāni*—resultados; *ca*—também; *kartavyāni*—como dever; *iti*—assim; *me*—Minha; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *niścitam*—definida; *matam*—opinião; *uttamam*—a melhor.", "translation": "**Todas estas atividades devem ser executadas sem qualquer expectativa de resultado. Devem ser executadas como uma questão de dever, ó filho de Pṛthā. Esta é Minha opinião final.**", "purport": "Embora todos os sacrifícios sejam purificadores, não se deve esperar nenhum resultado de tais execuções. Em outras palavras, todos os sacrifícios destinados ao avanço material na vida devem ser abandonados, mas os sacrifícios que purificam a existência e elevam a pessoa ao plano espiritual não devem ser interrompidos. Tudo o que conduz à consciência de Kṛṣṇa deve ser encorajado. Também no *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que qualquer atividade que conduza ao serviço devocional ao Senhor deve ser aceita. Esse é o critério mais elevado da religião. Um devoto do Senhor deve aceitar qualquer espécie de trabalho, sacrifício ou caridade que o ajude no desempenho do serviço devocional ao Senhor."}
{"ref": "bg/18/7", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/7/", "verse_text": "niyatasya tu sannyāsaḥ\n\nkarmaṇo nopapadyate\n\nmohāt tasya parityāgas\n\ntāmasaḥ parikīrtitaḥ", "devanagari": "> नियतस्य तु संन्यासः कर्मणो नोपपद्यते ।\n> मोहात्तस्य परित्यागस्तामसः परिकीर्तितः ॥७॥", "synonyms": "*niyatasya*—deveres prescritos; *tu*—mas; *sannyāsaḥ*—renúncia; *karmaṇaḥ*—atividades; *na*—nunca; *upapadyate*—é devida; *mohāt*—pela ilusão; *tasya*—de que; *parityāgaḥ*—renúncia; *tāmasaḥ*—no modo da ignorância; *parikīrtitaḥ*—declara-se.", "translation": "**Os deveres prescritos jamais devem ser renunciados. Se alguém, por ilusão, abandonar seus deveres prescritos, diz-se que tal renúncia está no modo da ignorância.**", "purport": "O trabalho visando à satisfação material deve ser abandonado, mas as atividades que promovem a pessoa à atividade espiritual—como cozinhar para o Senhor Supremo, oferecer-Lhe o alimento e então aceitar a comida—são recomendadas. Diz-se que uma pessoa na ordem de vida renunciada não deve cozinhar para si mesma. Cozinhar para si mesmo é proibido, mas cozinhar para o Senhor Supremo não é proibido. De modo semelhante, um sannyāsī pode realizar uma cerimônia matrimonial para auxiliar seu discípulo no avanço da consciência de Kṛṣṇa. Se alguém renunciar a tais atividades, deve-se compreender que está agindo no modo da escuridão."}
{"ref": "bg/18/8", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/8/", "verse_text": "duḥkham ity eva yat karma\n\nkāya-kleśa-bhayāt tyajet\n\nsa kṛtvā rājasaṁ tyāgaṁ\n\nnaiva tyāga-phalaṁ labhet", "devanagari": "> दुःखमित्येव यत्कर्म कायक्लेशभयात्त्यजेत् ।\n> स कृत्वा राजसं त्यागं नैव त्यागफलं लभेत् ॥८॥", "synonyms": "*duḥkham*—infeliz; *iti*—assim; *eva*—certamente; *yat*—aquilo que; *karma*—trabalho; *kāya*—corpo; *kleśa*—penoso; *bhayāt*—por; *tyajet*—medo; *saḥ*—essa; *kṛtvā*—depois de fazer; *rājasam*—no modo da paixão; *tyāgam*—renúncia; *na eva*—certamente não; *tyāga*—renunciado; *phalam*—resultados; *labhet*—obtém.", "translation": "**Quem quer que abandone os deveres prescritos por considerá-los penosos, ou por medo, diz-se que está no modo da paixão. Tal ação jamais conduz à elevação da renúncia.**", "purport": "Aquele que está em consciência de Kṛṣṇa não deve abandonar seu ganha-pão por temor de estar realizando atividades fruitivas. Se, ao trabalhar, alguém pode empregar seu dinheiro em consciência de Kṛṣṇa, ou se, ao levantar-se cedo de manhã, pode avançar em sua consciência transcendental de Kṛṣṇa, não deve desistir por medo nem por considerar tais atividades penosas. Tal renúncia está no modo da paixão. O resultado do trabalho apaixonado é sempre miserável. Mesmo que uma pessoa renuncie ao trabalho com esse espírito, jamais obtém o resultado da renúncia."}
{"ref": "bg/18/9", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/9/", "verse_text": "kāryam ity eva yat karma\n\nniyataṁ kriyate 'rjuna\n\nsaṅgaṁ tyaktvā phalaṁ caiva\n\nsa tyāgaḥ sāttviko mataḥ", "devanagari": "> कार्यमित्येव यत्कर्म नियतं क्रियतेऽर्जुन ।\n> सङ्गं त्यक्त्वा फलं चैव स त्यागः सात्त्विको मतः ॥९॥", "synonyms": "*kāryam*—deve ser feito; *iti*—assim; *eva*—assim; *yat*—aquilo que; *karma*—trabalho; *niyatam*—prescrito; *kriyate*—executado; *arjuna*—ó Arjuna; *saṅgam*—associação; *tyaktvā*—abandonando; *phalam*—resultado; *ca*—também; *eva*—certamente; *saḥ*—essa; *tyāgaḥ*—renúncia; *sāttvikaḥ*—no modo da bondade; *mataḥ*—em Minha opinião.", "translation": "**Mas aquele que executa seu dever prescrito apenas porque deve ser feito, e renuncia a todo apego ao fruto—sua renúncia é da natureza da bondade, ó Arjuna.**", "purport": "Os deveres prescritos devem ser executados com essa mentalidade. Deve-se agir sem apego ao resultado; deve-se desassociar dos modos do trabalho. Um homem que trabalha em consciência de Kṛṣṇa numa fábrica não se associa com o trabalho da fábrica nem com os trabalhadores da fábrica. Ele simplesmente trabalha para Kṛṣṇa. E quando ele entrega o resultado a Kṛṣṇa, está agindo transcendentalmente."}
{"ref": "bg/18/10", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/10/", "verse_text": "na dveṣṭy akuśalaṁ karma\n\nkuśale nānuṣajjate\n\ntyāgī sattva-samāviṣṭo\n\nmedhāvī chinna-saṁśayaḥ", "devanagari": "> न द्वेष्ट्यकुशलं कर्म कुशले नानुषज्जते ।\n> त्यागी सत्त्वसमाविष्टो मेधावी छिन्नसंशयः ॥१०॥", "synonyms": "*na*—nunca; *dveṣṭi*—detesta; *akuśalam*—inauspicioso; *karma*—trabalho; *kuśale*—em auspicioso; *na*—nem; *anuṣajjate*—torna-se apegado; *tyāgī*—o renunciante; *sattva*—bondade; *samāviṣṭaḥ*—absorto em; *medhāvī*—inteligente; *chinna*—dissipadas; *saṁśayaḥ*—todas as dúvidas.", "translation": "**Aqueles que se situam no modo da bondade, que não detestam o trabalho inauspicioso nem se apegam ao auspicioso, não têm dúvidas a respeito do trabalho.**", "purport": "Afirma-se no *Bhagavad-gītā* que jamais se pode abandonar o trabalho. Por conseguinte, aquele que trabalha para Kṛṣṇa e não desfruta dos resultados fruitivos, que oferece tudo a Kṛṣṇa, é, na verdade, um renunciante. Há muitos membros da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna que trabalham arduamente em seu escritório, na fábrica ou em algum outro lugar, e tudo o que ganham entregam à Sociedade. Tais almas altamente elevadas são, de fato, sannyāsīs e situam-se na ordem de vida renunciada. Aqui se delineia claramente como renunciar aos frutos do trabalho e com que propósito os frutos devem ser renunciados."}
{"ref": "bg/18/11", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/11/", "verse_text": "na hi deha-bhṛtā śakyaṁ\n\ntyaktuṁ karmāṇy aśeṣataḥ\n\nyas tu karma-phala-tyāgī\n\nsa tyāgīty abhidhīyate", "devanagari": "> न हि देहभृता शक्यं त्यक्तुं कर्माण्यशेषतः ।\n> यस्तु कर्मफलत्यागी स त्यागीत्यभिधीयते ॥११॥", "synonyms": "*na*—nunca; *hi*—certamente; *deha-bhṛtā*—do encarnado; *śakyam*—possível; *tyaktum*—renunciar; *karmāṇi*—atividades de; *aśeṣataḥ*—totalmente; *yaḥ tu*—quem quer que; *karma*—trabalho; *phala*—resultado; *tyāgī*—renunciante; *saḥ*—ele; *tyāgī*—o renunciante; *iti*—assim; *abhidhīyate*—diz-se.", "translation": "**É de fato impossível para um ser encarnado abandonar todas as atividades. Por isso, diz-se que aquele que renuncia aos frutos da ação é quem verdadeiramente renunciou.**", "purport": "A pessoa em consciência de Kṛṣṇa que age conhecendo sua relação com Kṛṣṇa está sempre liberada. Por conseguinte, não tem que desfrutar nem sofrer os resultados de seus atos após a morte."}
{"ref": "bg/18/12", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/12/", "verse_text": "aniṣṭam iṣṭaṁ miśraṁ ca\n\ntri-vidhaṁ karmaṇaḥ phalam\n\nbhavaty atyāgināṁ pretya\n\nna tu sannyāsināṁ kvacit", "devanagari": "> अनिष्टमिष्टं मिश्रं च त्रिविधं कर्मणः फलम् ।\n> भवत्यत्यागिनां प्रेत्य न तु संन्यासिनां क्वचित् ॥१२॥", "synonyms": "*aniṣṭam*—conduzindo ao inferno; *iṣṭam*—conduzindo ao céu; *miśram ca*—ou misto; *tri-vidham*—três tipos; *karmaṇaḥ*—trabalho; *phalam*—resultado; *bhavati*—torna-se; *atyāginām*—do não-renunciante; *pretya*—depois da morte; *na tu*—mas não; *sannyāsinām*—da ordem renunciada; *kvacit*—em qualquer momento.", "translation": "**Para aquele que não é renunciante, os três frutos da ação—desejável, indesejável e misto—acumulam-se após a morte. Mas aqueles que se encontram na ordem de vida renunciada não têm tais resultados a sofrer ou desfrutar.**", "purport": "A pessoa em consciência de Kṛṣṇa ou no modo da bondade não detesta ninguém nem nada que perturbe seu corpo. Realiza seu trabalho no lugar próprio e no momento oportuno, sem temer os efeitos penosos de seu dever. Tal pessoa, situada na transcendência, deve ser compreendida como a mais inteligente e além de todas as dúvidas em suas atividades."}
{"ref": "bg/18/13-14", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/13-14/", "verse_text": "pañcaitāni mahā-bāho\n\nkāraṇāni nibodha me\n\nsāṅkhye kṛtānte proktāni\n\nsiddhaye sarva-karmaṇām\n\nadhiṣṭhānaṁ tathā kartā\n\nkaraṇaṁ ca pṛthag-vidham\n\nvividhāś ca pṛthak ceṣṭā\n\ndaivaṁ caivātra pañcamam", "devanagari": "> पञ्चैतानि महाबाहो कारणानि निबोध मे ।\n> साङ्ख्ये कृतान्ते प्रोक्तानि सिद्धये सर्वकर्मणाम् ॥१३॥\n> अधिष्ठानं तथा कर्ता करणं च पृथग्विधम् ।\n> विविधाश्च पृथक्चेष्टा दैवं चैवात्र पञ्चमम् ॥१४॥", "synonyms": "*pañca*—cinco; *etāni*—todas estas; *mahā-bāho*—ó pessoa de braços poderosos; *kāraṇāni*—causas; *nibodha*—compreende; *me*—de Mim; *sāṅkhye*—nos *Vedas*; *kṛtānte*—depois da execução; *proktāni*—dito; *siddhaye*—perfeição; *sarva*—todas; *karmaṇām*—acionadas; *adhiṣṭhānam*—lugar; *tathā*—também; *kartā*—executor; *karaṇam ca*—e instrumentos; *pṛthak-vidham*—de diferentes tipos; *vividhāḥ ca*—variedades; *pṛthak*—separadamente; *ceṣṭāḥ*—esforço; *daivam*—o Supremo; *ca*—também; *eva*—certamente; *atra*—aqui; *pañcamam*—cinco.", "translation": "**Ó Arjuna de braços poderosos, aprende de Mim sobre os cinco fatores que efetuam a realização de toda ação. Esses são declarados na filosofia sāṅkhya como sendo o lugar da ação, o executor, os sentidos, o esforço e, por fim, a Superalma.**", "purport": "Pode-se levantar a questão de como, sendo certo que toda atividade executada deve ter alguma reação, a pessoa em consciência de Kṛṣṇa não sofre nem desfruta as reações do trabalho. O Senhor cita a filosofia Vedānta para mostrar como isso é possível. Ele diz que há cinco causas de todas as atividades e do êxito em toda atividade, e devem-se conhecer essas cinco causas. Sāṅkhya significa o tronco do conhecimento, e Vedānta é o tronco final do conhecimento aceito por todos os principais ācāryas. Até Śaṅkara aceita o *Vedānta-sūtra* como tal. Por isso, deve-se consultar tal autoridade.\n\n\n\nA vontade última está investida na Superalma, como se afirma no *Gītā*: “sarvasya cāhaṁ hṛdi.” Ele ocupa todos em certas atividades. Os atos realizados sob Sua direção, a partir do interior, não produzem reação alguma, nem nesta vida nem na vida após a morte.\n\n\n\nOs instrumentos da ação são os sentidos, e por meio dos sentidos a alma age de várias maneiras, e para cada ação há um esforço diferente. Mas todas as atividades dependem da vontade da Superalma, que está sentada dentro do coração como amiga. O Senhor Supremo é a supercausa. Sob estas circunstâncias, aquele que age em consciência de Kṛṣṇa, sob a direção da Superalma situada dentro do coração, naturalmente não fica atado por atividade alguma. Aqueles em plena consciência de Kṛṣṇa não são, em última análise, responsáveis por suas ações. Tudo depende da vontade suprema, da Superalma, da Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/18/15", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/15/", "verse_text": "śarīra-vāṅ-manobhir yat\n\nkarma prārabhate naraḥ\n\nnyāyyaṁ vā viparītaṁ vā\n\npañcaite tasya hetavaḥ", "devanagari": "> शरीरवाङ्मनोभिर्यत्कर्म प्रारभते नरः ।\n> न्याय्यं वा विपरीतं वा पञ्चैते तस्य हेतवः ॥१५॥", "synonyms": "*śarīra*—corpo; *vāk*—fala; *manobhiḥ*—pela mente; *yat*—qualquer coisa; *karma*—trabalho; *prārabhate*—começa; *naraḥ*—uma pessoa; *nyāyyam*—certo; *vā*—ou; *viparītam*—o oposto; *vā*—ou; *pañca*—cinco; *ete*—todos estes; *tasya*—suas; *hetavaḥ*—causas.", "translation": "**Toda ação certa ou errada que um homem executa pelo corpo, pela mente ou pela fala é causada por estes cinco fatores.**", "purport": "As palavras “certo” e “errado” são muito significativas neste verso. O trabalho certo é o trabalho realizado em conformidade com as direções prescritas nas escrituras, e o trabalho errado é o trabalho executado contra os princípios das injunções escriturais. Mas tudo o que se faz requer estes cinco fatores para sua execução completa."}
{"ref": "bg/18/16", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/16/", "verse_text": "tatraivaṁ sati kartāram\n\nātmānaṁ kevalaṁ tu yaḥ\n\npaśyaty akṛta-buddhitvān\n\nna sa paśyati durmatiḥ", "devanagari": "> तत्रैवं सति कर्तारमात्मानं केवलं तु यः ।\n> पश्यत्यकृतबुद्धित्वान्न स पश्यति दुर्मतिः ॥१६॥", "synonyms": "*tatra*—lá; *evam*—certamente; *sati*—sendo assim; *kartāram*—do executor; *ātmānam*—a alma; *kevalam*—somente; *tu*—mas; *yaḥ*—quem quer que; *paśyati*—vê; *akṛta-buddhitvāt*—devido à falta de inteligência; *na*—nunca; *saḥ*—ele; *paśyati*—vê; *durmatiḥ*—tolo.", "translation": "**Por isso, aquele que se julga o único agente, sem considerar os cinco fatores, certamente não é muito inteligente e não pode ver as coisas como elas são.**", "purport": "Uma pessoa tola não consegue compreender que a Superalma está sentada como amiga em seu interior, conduzindo suas ações. Embora as causas materiais sejam o lugar, o executor, o esforço e os sentidos, a causa final é o Supremo, a Personalidade de Deus. Por conseguinte, deve-se ver não apenas as quatro causas materiais, mas também a suprema causa eficiente. Aquele que não vê o Supremo julga-se o instrumento."}
{"ref": "bg/18/17", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/17/", "verse_text": "yasya nāhaṅkṛto bhāvo\n\nbuddhir yasya na lipyate\n\nhatvāpi sa imāḹ lokān\n\nna hanti na nibadhyate", "devanagari": "> यस्य नाहंकृतो भावो बुद्धिर्यस्य न लिप्यते ।\n> हत्वाऽपि स इमाँल्लोकान्न हन्ति न निबध्यते ॥१७॥", "synonyms": "*yasya*—daquele que; *na*—nunca; *ahaṅkṛtaḥ*—ego falso; *bhāvaḥ*—natureza; *buddhiḥ*—inteligência; *yasya*—aquele que; *na*—nunca; *lipyate*—está apegada; *hatvā api*—mesmo matando; *saḥ*—ele; *imān*—este; *lokān*—mundo; *na*—nunca; *hanti*—mata; *na*—nunca; *nibadhyate*—enreda-se.", "translation": "**Aquele que não é motivado pelo ego falso, cuja inteligência não está enredada, embora mate homens neste mundo, não é o matador. Tampouco fica atado por suas ações.**", "purport": "Neste verso, o Senhor informa Arjuna que o desejo de não lutar surge do ego falso. Arjuna julgava-se o executor da ação, mas não considerava a sanção Suprema interior e exterior. Se não se sabe que existe uma supersanção, por que se haveria de agir? Mas aquele que conhece o instrumento de trabalho, conhece a si mesmo como o executor e ao Senhor Supremo como o sancionador supremo, é perfeito ao fazer todas as coisas. Tal pessoa jamais está em ilusão. A atividade pessoal e a responsabilidade nascem do ego falso e da falta de Deus, ou seja, da ausência de consciência de Kṛṣṇa. Quem quer que esteja agindo em consciência de Kṛṣṇa sob a direção da Superalma ou da Suprema Personalidade de Deus, embora mate, não mata. Tampouco é jamais afetado pela reação de tal morte. Quando um soldado mata sob o comando de um oficial superior, não é passível de julgamento. Mas se um soldado mata por sua conta pessoal, então é certamente julgado por um tribunal."}
{"ref": "bg/18/18", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/18/", "verse_text": "jñānaṁ jñeyaṁ parijñātā\n\ntri-vidhā karma-codanā\n\nkaraṇaṁ karma karteti\n\ntri-vidhaḥ karma-saṅgrahaḥ", "devanagari": "> ज्ञानं ज्ञेयं परिज्ञाता त्रिविधा कर्मचोदना ।\n> करणं कर्म कर्तेति त्रिविधः कर्मसंग्रहः ॥१८॥", "synonyms": "*jñānam*—conhecimento; *jñeyam*—objetivo; *parijñātā*—o conhecedor; *tri-vidhā*—três tipos; *karma*—trabalho; *codanā*—ímpeto; *karaṇam*—os sentidos; *karma*—trabalho; *kartā*—o executor; *iti*—assim; *tri-vidhaḥ*—três tipos; *karma*—trabalho; *saṅgrahaḥ*—acumulação.", "translation": "**O conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor são os três fatores que motivam a ação; os sentidos, o trabalho e o executor compõem a base tríplice da ação.**", "purport": "Há três tipos de ímpeto para o trabalho diário: o conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor. Os instrumentos do trabalho, o trabalho em si e o trabalhador chamam-se os constituintes do trabalho. Qualquer trabalho realizado por qualquer ser humano possui esses elementos. Antes de agir, há algum ímpeto, ao qual se chama inspiração. Qualquer solução a que se chegue antes que o trabalho se concretize é uma forma sutil de trabalho. Em seguida, o trabalho assume a forma de ação. Primeiro, é preciso passar pelos processos psicológicos de pensar, sentir e querer, e isso chama-se ímpeto. Na verdade, a fé para realizar atos chama-se conhecimento. A inspiração para trabalhar é a mesma, quer venha das escrituras, quer da instrução do mestre espiritual. Quando há a inspiração e há o executor, a atividade efetiva ocorre com a ajuda dos sentidos. A mente é o centro de todos os sentidos, e o objeto é o trabalho em si. Estas são as diferentes fases do trabalho conforme se descreve no *Bhagavad-gītā*. A soma total de todas as atividades chama-se acumulação do trabalho."}
{"ref": "bg/18/19", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/19/", "verse_text": "jñānaṁ karma ca kartā ca\n\ntridhaiva guṇa-bhedataḥ\n\nprocyate guṇa-saṅkhyāne\n\nyathāvac chṛṇu tāny api", "devanagari": "> ज्ञानं कर्म च कर्ताच त्रिधैव गुणभेदतः ।\n> प्रोच्यते गुणसङ्ख्याने यथावच्छृणु तान्यपि ॥१९॥", "synonyms": "*jñānam*—conhecimento; *karma*—trabalho; *ca*—também; *kartā*—executor; *ca*—também; *tridhā*—três tipos; *eva*—certamente; *guṇa-bhedataḥ*—em função dos diferentes modos da natureza material; *procyate*—diz-se; *guṇa-saṅkhyāne*—em função dos diferentes modos; *yathāvat*—conforme atuam; *śṛṇu*—ouve; *tāni*—todos eles; *api*—também.", "translation": "**De acordo com os três modos da natureza material, há três espécies de conhecimento, ação e executores da ação. Ouve enquanto os descrevo.**", "purport": "No Décimo Quarto Capítulo, descreveram-se minuciosamente as três divisões dos modos da natureza material. Naquele capítulo, disse-se que o modo da bondade é iluminador, o modo da paixão é materialista, e o modo da ignorância conduz à preguiça e à indolência. Todos os modos da natureza material são atadores; não são fontes de liberação. Mesmo no modo da bondade a pessoa permanece condicionada. No Décimo Sétimo Capítulo, descreveram-se os diferentes tipos de adoração praticados por diferentes tipos de homens nos diferentes modos da natureza material. Neste verso, o Senhor deseja falar dos diferentes tipos de conhecimento, executores e do trabalho em si, segundo os três modos materiais."}
{"ref": "bg/18/20", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/20/", "verse_text": "sarva-bhūteṣu yenaikaṁ\n\nbhāvam avyayam īkṣate\n\navibhaktaṁ vibhakteṣu\n\ntaj jñānaṁ viddhi sāttvikam", "devanagari": "> सर्वभूतेषु येनैकं भावमव्ययमीक्षते ।\n> अविभक्तं विभक्तेषु तज्ज्ञानं विद्धि सात्त्विकम् ॥२०॥", "synonyms": "*sarva-bhūteṣu*—em todas as entidades vivas; *yena*—pelo qual; *ekam*—uma; *bhāvam*—situação; *avyayam*—imperecível; *īkṣate*—vê; *avibhaktam*—indivisa; *vibhakteṣu*—nas inumeráveis divididas; *tat*—esse; *jñānam*—conhecimento; *viddhi*—conhece; *sāttvikam*—no modo da bondade.", "translation": "**O conhecimento pelo qual se vê uma única natureza espiritual indivisa em todas as existências, indivisa nos divididos, é conhecimento no modo da bondade.**", "purport": "A pessoa que vê uma única alma espiritual em cada ser vivo, seja ele semideus, ser humano, animal, ave, fera, criatura aquática ou planta, possui conhecimento no modo da bondade. Em todas as entidades vivas há uma única alma espiritual, embora possuam corpos diferentes em função de seu trabalho anterior. Como se descreveu no Sétimo Capítulo, a manifestação da força viva em cada corpo deve-se à natureza superior do Senhor Supremo. Assim, ver essa única natureza superior, essa força viva, em cada corpo é ver no modo da bondade. Essa energia viva é imperecível, embora os corpos sejam perecíveis. A diferença é percebida em função do corpo, pois há muitas formas de existência material na vida condicionada; por isso parecem estar divididas. Tal conhecimento impessoal conduz, finalmente, à autorrealização."}
{"ref": "bg/18/21", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/21/", "verse_text": "pṛthaktvena tu yaj jñānaṁ\n\nnānā-bhāvān pṛthag-vidhān\n\nvetti sarveṣu bhūteṣu\n\ntaj jñānaṁ viddhi rājasam", "devanagari": "> पृथक्त्वेन तु यज्ज्ञानं नानाभावान्पृथग्विधान् ।\n> वेत्ति सर्वेषु भूतेषु तज्ज्ञानं विद्धि राजसम् ॥२१॥", "synonyms": "*pṛthaktvena*—devido à divisão; *tu*—mas; *yat jñānam*—o conhecimento que; *nānā-bhāvān*—situações multifárias; *pṛthak-vidhān*—de modo diverso; *vetti*—aquele que conhece; *sarveṣu*—em todas; *bhūteṣu*—entidades vivas; *tat jñānam*—esse conhecimento; *viddhi*—deve ser conhecido; *rājasam*—em função da paixão.", "translation": "**O conhecimento pelo qual se vê habitar em diferentes corpos um tipo diferente de entidade viva é o conhecimento no modo da paixão.**", "purport": "O conceito de que o corpo material é a entidade viva e de que, com a destruição do corpo, também se destrói a consciência, chama-se conhecimento no modo da paixão. Segundo esse conhecimento, os corpos diferem uns dos outros pelo desenvolvimento de diferentes tipos de consciência; do contrário, não há alma separada que manifeste consciência. O próprio corpo é a alma, e não há alma separada além deste corpo. Segundo tal conhecimento, a consciência é temporária. Ou então não há almas individuais, mas existe uma alma onipenetrante, plena de conhecimento, e este corpo é uma manifestação de ignorância temporária. Ou então, além deste corpo, não há nenhum indivíduo especial nem Alma Suprema. Todas estas concepções consideram-se produtos do modo da paixão."}
{"ref": "bg/18/22", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/22/", "verse_text": "yat tu kṛtsna-vad ekasmin\n\nkārye saktam ahaitukam\n\natattvārtha-vad alpaṁ ca\n\ntat tāmasam udāhṛtam", "devanagari": "> यत्तु कृत्स्नवदेकस्मिन्कार्ये सक्तमहैतुकम् ।\n> अतत्त्वार्थवदल्पं च तत्तामसमुदाहृतम् ॥२२॥", "synonyms": "*yat*—aquilo que; *tu*—mas; *kṛtsnavat*—tudo em tudo; *ekasmin*—em uma; *kārye*—trabalho; *saktam*—apegado; *ahaitukam*—sem causa; *atattva-arthavat*—sem realidade; *alpam ca*—e muito escasso; *tat*—esse; *tāmasam*—no modo da escuridão; *udāhṛtam*—diz-se.", "translation": "**E o conhecimento pelo qual a pessoa se apega a um único tipo de trabalho como tudo em tudo, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da escuridão.**", "purport": "O “conhecimento” do homem comum encontra-se sempre no modo da escuridão ou ignorância, pois toda entidade viva, na vida condicionada, nasce no modo da ignorância. Aquele que não desenvolve conhecimento por meio das autoridades ou das injunções escriturais possui um conhecimento limitado ao corpo. Não se preocupa em agir conforme as direções das escrituras. Para ele, Deus é o dinheiro, e conhecimento significa a satisfação das exigências corporais. Tal conhecimento não tem conexão alguma com a Verdade Absoluta. É mais ou menos como o conhecimento dos animais comuns: o conhecimento de comer, dormir, defender-se e acasalar-se. Tal conhecimento descreve-se aqui como o produto do modo da escuridão. Em outras palavras, o conhecimento referente à alma espiritual além deste corpo chama-se conhecimento no modo da bondade; o conhecimento que produz muitas teorias e doutrinas pela força da lógica mundana e da especulação mental é o produto do modo da paixão; e o conhecimento que se preocupa apenas em manter o corpo confortável diz-se que está no modo da ignorância."}
{"ref": "bg/18/23", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/23/", "verse_text": "niyataṁ saṅga-rahitam\n\narāga-dveṣataḥ kṛtam\n\naphala-prepsunā karma\n\nyat tat sāttvikam ucyate", "devanagari": "> नियतं सङ्गरहितमरागद्वेषतः कृतम् ।\n> अफलप्रेप्सुना कर्म यत्तत्सात्त्विकमुच्यते ॥२३॥", "synonyms": "*niyatam*—regulada; *saṅga-rahitam*—sem apego; *arāga-dveṣataḥ*—sem amor nem ódio; *kṛtam*—realizada; *aphala-prepsunā*—sem resultado fruitivo; *karma*—atos; *yat*—aquilo que; *tat*—essa; *sāttvikam*—no modo da bondade; *ucyate*—chama-se.", "translation": "**Quanto às ações, a ação que está em conformidade com o dever, executada sem apego, sem amor nem ódio, por aquele que renunciou aos resultados fruitivos, chama-se ação no modo da bondade.**", "purport": "Os deveres ocupacionais regulados, conforme prescritos nas escrituras em função das diferentes ordens e divisões da sociedade, executados sem apego nem direitos de propriedade e, portanto, sem amor nem ódio, e executados em consciência de Kṛṣṇa para a satisfação do Supremo, sem autossatisfação nem autogratificação, chamam-se ações no modo da bondade."}
{"ref": "bg/18/24", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/24/", "verse_text": "yat tu kāmepsunā karma\n\nsāhaṅkāreṇa vā punaḥ\n\nkriyate bahulāyāsaṁ\n\ntad rājasam udāhṛtam", "devanagari": "> यत्तु कामेप्सुना कर्म साहंकारेण वा पुनः ।\n> क्रियते बहुलायासं तद्राजसमुदाहृतम् ॥२४॥", "synonyms": "*yat*—aquilo que; *tu*—mas; *kāma-īpsunā*—com resultado fruitivo; *karma*—trabalho; *sāhaṅkāreṇa*—com ego; *vā*—ou; *punaḥ*—de novo; *kriyate*—executado; *bahula-āyāsam*—com grande labor; *tat*—esse; *rājasam*—no modo da paixão; *udāhṛtam*—diz-se.", "translation": "**Mas a ação executada com grande esforço por aquele que busca satisfazer seus desejos, e que se encena a partir de um sentimento de ego falso, chama-se ação no modo da paixão.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/25", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/25/", "verse_text": "anubandhaṁ kṣayaṁ hiṁsām\n\nanapekṣya ca pauruṣam\n\nmohād ārabhyate karma\n\nyat tat tāmasam ucyate", "devanagari": "> अनुबन्धं क्षयं हिंसामनपेक्ष्य च पौरुषम् ।\n> मोहादारभ्यते कर्म यत्तत्तामसमुच्यते ॥२५॥", "synonyms": "*anubandham*—cativeiro futuro; *kṣayam*—distrativo; *hiṁsām*—violência; *anapekṣya*—sem consideração das consequências; *ca*—também; *pauruṣam*—angustiante para os outros; *mohāt*—pela ilusão; *ārabhyate*—começada; *karma*—trabalho; *yat*—aquele; *tat*—que; *tāmasam*—no modo da ignorância; *ucyate*—diz-se.", "translation": "**E a ação executada na ignorância e na ilusão, sem consideração do cativeiro ou das consequências futuras, que inflige dano e é impraticável, diz-se ser ação no modo da ignorância.**", "purport": "É preciso prestar contas das próprias ações ao Estado ou aos agentes do Senhor Supremo chamados Yamadūtas. O trabalho irresponsável é distração, pois destrói os princípios reguladores das injunções escriturais. Frequentemente baseia-se na violência e é angustiante para outras entidades vivas. Tal trabalho irresponsável realiza-se à luz da experiência pessoal de cada um. Isso chama-se ilusão. E todo esse trabalho ilusório é produto do modo da ignorância."}
{"ref": "bg/18/26", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/26/", "verse_text": "mukta-saṅgo 'nahaṁ-vādī\n\ndhṛty-utsāha-samanvitaḥ\n\nsiddhy-asiddhyor nirvikāraḥ\n\nkartā sāttvika ucyate", "devanagari": "> मुक्तसङ्गोऽनहंवादी धृत्युत्साहसमन्वितः ।\n> सिद्ध्यसिद्ध्योर्निर्विकारः कर्ता सात्त्विक उच्यते ॥२६॥", "synonyms": "*mukta-saṅgaḥ*—liberado de toda associação material; *anaham-vādī*—sem ego falso; *dhṛti-utsāha*—com grande entusiasmo; *samanvitaḥ*—qualificado dessa maneira; *siddhi*—perfeição; *asiddhyoḥ*—fracasso; *nirvikāraḥ*—sem mudança; *kartā*—executor; *sāttvikaḥ*—no modo da bondade; *ucyate*—diz-se.", "translation": "**O executor que está livre de todos os apegos materiais e do ego falso, que é entusiasta e resoluto e indiferente ao êxito ou ao fracasso, é um executor no modo da bondade.**", "purport": "A pessoa em consciência de Kṛṣṇa é sempre transcendental aos modos materiais da natureza. Não tem expectativas quanto ao resultado do trabalho que lhe é confiado, pois está acima do ego falso e do orgulho. Mesmo assim, mantém-se sempre entusiasmada até a conclusão de tal trabalho. Não se preocupa com a aflição assumida; está sempre entusiasmada. Não se importa com o êxito ou o fracasso; é equânime tanto na aflição quanto na felicidade. Tal executor situa-se no modo da bondade."}
{"ref": "bg/18/27", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/27/", "verse_text": "rāgī karma-phala-prepsur\n\nlubdho hiṁsātmako 'śuciḥ\n\nharṣa-śokānvitaḥ kartā\n\nrājasaḥ parikīrtitaḥ", "devanagari": "> रागी कर्मफलप्रेप्सुर्लुब्धो हिंसात्मकोऽशुचिः ।\n> हर्षशोकान्वितः कर्ता राजसः परिकीर्तितः ॥२७॥", "synonyms": "*rāgī*—muito apegado; *karma-phala*—ao fruto do trabalho; *prepsuḥ*—desejoso; *lubdhaḥ*—ávido; *hiṁsā-ātmakaḥ*—e sempre invejoso; *aśuciḥ*—impuro; *harṣa-śoka-anvitaḥ*—intricado, com alegria e tristeza; *kartā*—tal executor; *rājasaḥ*—no modo da paixão; *parikīrtitaḥ*—declara-se.", "translation": "**Mas o executor que está apegado aos frutos de seu labor e que apaixonadamente quer desfrutá-los, que é ávido, invejoso e impuro e movido pela felicidade e pela aflição, é um executor no modo da paixão.**", "purport": "Uma pessoa apega-se em demasia a certo tipo de trabalho ou ao resultado porque tem apego excessivo ao materialismo, ao lar, à esposa e aos filhos. Tal pessoa não tem desejo de elevação superior na vida. Preocupa-se simplesmente em tornar este mundo o mais materialmente confortável possível. É geralmente muito ávida e pensa que tudo o que conquistou é permanente e jamais será perdido. Tal pessoa inveja os outros e está pronta a fazer qualquer coisa errada para a gratificação dos sentidos. Por isso é impura, e não se importa se seus ganhos são puros ou impuros. Fica muito feliz quando seu trabalho é bem-sucedido e muito aflita quando seu trabalho não é bem-sucedido. Assim é o homem no modo da paixão."}
{"ref": "bg/18/28", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/28/", "verse_text": "ayuktaḥ prākṛtaḥ stabdhaḥ\n\nśaṭho naiṣkṛtiko 'lasaḥ\n\nviṣādī dīrgha-sūtrī ca\n\nkartā tāmasa ucyate", "devanagari": "> अयुक्तः प्राकृतः स्तब्धः शठो नैष्कृतिकोऽलसः ।\n> विषादी दीर्घसूत्री च कर्ता तामस उच्यते ॥२८॥", "synonyms": "*ayuktaḥ*—sem referência às injunções escriturais; *prākṛtaḥ*—materialista; *stabdhaḥ*—obstinado; *śaṭhaḥ*—ardiloso; *naiṣkṛtikaḥ*—perito em insultar os outros; *alasaḥ*—preguiçoso; *viṣādī*—taciturno; *dīrgha-sūtrī*—procrastinador; *ca*—também; *kartā*—executor; *tāmasaḥ*—no modo da ignorância; *ucyate*—diz-se.", "translation": "**E o executor que está sempre ocupado em trabalho contra a injunção das escrituras, que é materialista, obstinado, trapaceiro e perito em insultar os outros, que é preguiçoso, sempre taciturno e procrastinador, é um executor no modo da ignorância.**", "purport": "Nas injunções escriturais encontramos que tipo de trabalho deve ser executado e que tipo de trabalho não deve ser executado. Aqueles que não se importam com tais injunções ocupam-se em trabalho que não deve ser feito, e tais pessoas são geralmente materialistas. Trabalham segundo os modos da natureza, não segundo as injunções das escrituras. Tais executores não são muito gentis e, em geral, são sempre astutos e peritos em insultar os outros. São muito preguiçosos; embora tenham algum dever, não o cumprem corretamente e o deixam de lado para mais tarde. Por isso parecem taciturnos. Procrastinam; qualquer coisa que possa ser feita em uma hora, eles a arrastam por anos. Tais executores situam-se no modo da ignorância."}
{"ref": "bg/18/29", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/29/", "verse_text": "buddher bhedaṁ dhṛteś caiva\n\nguṇatas tri-vidhaṁ śṛṇu\n\nprocyamānam aśeṣeṇa\n\npṛthaktvena dhanañjaya", "devanagari": "> बुद्धेर्भेदं धृतेश्चैव गुणतस्त्रिविधं शृणु ।\n> प्रोच्यमानमशेषेण पृथक्त्वेन धनञ्जय ॥२९॥", "synonyms": "*buddheḥ*—da inteligência; *bhedam*—diferenças; *dhṛteḥ*—da firmeza; *ca*—também; *eva*—certamente; *guṇataḥ*—pelos modos da natureza material; *tri-vidham*—os três tipos de; *śṛṇu*—ouve; *procyamānam*—conforme descrito por Mim; *aśeṣeṇa*—em detalhe; *pṛthaktvena*—de modo diverso; *dhanañjaya*—ó vencedor das riquezas.", "translation": "**Ora, ó vencedor das riquezas, ouve, por favor, enquanto te falo em detalhe sobre os três tipos de entendimento e determinação segundo os três modos da natureza.**", "purport": "Após explicar o conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor, em três divisões diferentes segundo os modos da natureza material, o Senhor explica agora a inteligência e a determinação do executor da mesma maneira."}
{"ref": "bg/18/30", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/30/", "verse_text": "pravṛttiṁ ca nivṛttiṁ ca\n\nkāryākārye bhayābhaye\n\nbandhaṁ mokṣaṁ ca yā vetti\n\nbuddhiḥ sā pārtha sāttvikī", "devanagari": "> प्रवृत्तिं च निवृत्तिं च कार्याकार्ये भयाभये ।\n> बन्धं मोक्षं च या वेत्ति बुद्धिः सा पार्थ सात्त्विकी ॥३०॥", "synonyms": "*pravṛttim*—digno de fazer-se; *ca*—também; *nivṛttim*—não digno; *kārya*—trabalho; *akārye*—reação; *bhaya*—temeroso; *abhaye*—destemor; *bandham*—obrigação; *mokṣam ca*—e liberação; *yā*—aquela que; *vetti*—conhece; *buddhiḥ*—entendimento; *sā*—essa; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *sāttvikī*—no modo da bondade.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, o entendimento pelo qual se sabe o que deve ser feito e o que não deve ser feito, o que se deve temer e o que não se deve temer, o que ata e o que liberta, esse entendimento estabelece-se no modo da bondade.**", "purport": "As ações executadas em conformidade com as direções das escrituras chamam-se pravṛtti, ou ações que merecem ser executadas, e as ações que não recebem tal direção não devem ser executadas. Aquele que não conhece as direções escriturais enreda-se nas ações e reações do trabalho. O entendimento que discrimina pela inteligência situa-se no modo da bondade."}
{"ref": "bg/18/31", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/31/", "verse_text": "yayā dharmam adharmaṁ ca\n\nkāryaṁ cākāryam eva ca\n\nayathāvat prajānāti\n\nbuddhiḥ sā pārtha rājasī", "devanagari": "> यया धर्ममधर्मं च कार्यं चाकार्यमेव च ।\n> अयथावत्प्रजानाति बुद्धिः सा पार्थ राजसी ॥३१॥", "synonyms": "*yayā*—pela qual; *dharmam*—princípios da religião; *adharmam ca*—e irreligião; *kāryam*—trabalho; *ca*—também; *akāryam*—o que não deve ser feito; *eva*—certamente; *ca*—também; *ayathāvat*—imperfeitamente; *prajānati*—conhece; *buddhiḥ*—inteligência; *sā*—essa; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *rājasī*—no modo da paixão.", "translation": "**E o entendimento que não pode distinguir entre o modo de vida religioso e o irreligioso, entre a ação que deve ser feita e a ação que não deve ser feita, esse entendimento imperfeito, ó filho de Pṛthā, está no modo da paixão.**", "purport": "A inteligência no modo da paixão sempre opera de modo perverso. Aceita religiões que não são realmente religiões e rejeita a religião verdadeira. Todas as visões e atividades estão desviadas. Os homens de inteligência apaixonada compreendem uma grande alma como sendo um homem comum e aceitam um homem comum como uma grande alma. Pensam que a verdade é falsidade e aceitam a falsidade como verdade. Em todas as atividades, simplesmente seguem o caminho errado; por isso, sua inteligência está no modo da paixão."}
{"ref": "bg/18/32", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/32/", "verse_text": "adharmaṁ dharmam iti yā\n\nmanyate tamasāvṛtā\n\nsarvārthān viparītāṁś ca\n\nbuddhiḥ sā pārtha tāmasī", "devanagari": "> अधर्मं धर्ममिति या मन्यते तमसावृता ।\n> सर्वार्थान्विपरीतांश्च बुद्धिः सा पार्थ तामसी ॥३२॥", "synonyms": "*adharmam*—irreligião; *dharmam*—religião; *iti*—assim; *yā*—que; *manyate*—pensa; *tamasā*—pela ilusão; *āvṛtā*—coberta; *sarva-arthān*—todas as coisas; *viparītān*—na direção errada; *ca*—também; *buddhiḥ*—inteligência; *sa*—essa; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *tāmasī*—no modo da ignorância.", "translation": "**O entendimento que considera a irreligião como religião e a religião como irreligião, sob o feitiço da ilusão e da escuridão, e que se esforça sempre na direção errada, ó Pārtha, está no modo da ignorância.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/33", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/33/", "verse_text": "dhṛtyā yayā dhārayate\n\nmanaḥ-prāṇendriya-kriyāḥ\n\nyogenāvyabhicāriṇyā\n\ndhṛtiḥ sā pārtha sāttvikī", "devanagari": "> धृत्या यया धारयते मनःप्राणेन्द्रियक्रियाः ।\n> योगेनाव्यभिचारिण्या धृतिः सा पार्थ सात्त्विकी ॥३३॥", "synonyms": "*dhṛtyā*—determinação; *yayā*—pela qual; *dhārayate*—sustenta-se; *manaḥ*—mente; *prāṇa*—vida; *indriya*—sentidos; *kriyāḥ*—atividades; *yogena*—pela prática do yoga; *avyabhicāriṇyā*—sem qualquer interrupção; *dhṛtiḥ*—tal determinação; *sā*—essa; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *sāttvikī*—no modo da bondade.", "translation": "**Ó filho de Pṛthā, a determinação que é inquebrável, sustentada com firmeza pela prática do yoga, e que assim controla a mente, a vida e os atos dos sentidos, está no modo da bondade.**", "purport": "O yoga é um meio de compreender a Alma Suprema. Aquele que está firmemente fixo na Alma Suprema com determinação, concentrando sua mente, vida e atividades sensórias no Supremo, ocupa-se em consciência de Kṛṣṇa. Esse tipo de determinação está no modo da bondade. A palavra avyabhicāriṇya é muito significativa, pois refere-se a pessoas que se ocupam em consciência de Kṛṣṇa e jamais se desviam por qualquer outra atividade."}
{"ref": "bg/18/34", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/34/", "verse_text": "yayā tu dharma-kāmārthān\n\ndhṛtyā dhārayate 'rjuna\n\nprasaṅgena phalākāṅkṣī\n\ndhṛtiḥ sā pārtha rājasī", "devanagari": "> यया तु धर्मकामार्थान्धृत्या धारयतेऽर्जुन ।\n> प्रसङ्गेन फलाकाङ्क्षी धृतिः सा पार्थ राजसी ॥३४॥", "synonyms": "*yayā*—pela qual; *tu*—mas; *dharma-kāma-arthān*—à religiosidade e ao desenvolvimento econômico; *dhṛtyā*—pela determinação; *dhārayate*—em tais termos; *arjuna*—ó Arjuna; *prasaṅgena*—por isso; *phala-ākāṅkṣī*—desejando resultado fruitivo; *dhṛtiḥ*—determinação; *sā*—essa; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *rājasī*—no modo da paixão.", "translation": "**E a determinação pela qual a pessoa se aferra ao resultado fruitivo na religião, no desenvolvimento econômico e na gratificação dos sentidos é da natureza da paixão, ó Arjuna.**", "purport": "Toda pessoa que está sempre desejosa de resultados fruitivos em atividades religiosas ou econômicas, cujo único desejo é a gratificação dos sentidos, e cuja mente, vida e sentidos estão assim ocupados, encontra-se no modo da paixão."}
{"ref": "bg/18/35", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/35/", "verse_text": "yayā svapnaṁ bhayaṁ śokaṁ\n\nviṣādaṁ madam eva ca\n\nna vimuñcati durmedhā\n\ndhṛtiḥ sā pārtha tāmasī", "devanagari": "> यया स्वप्नं भयं शोकं विषादं मदमेव च ।\n> न विमुञ्चति दुर्मेधा धृतिः सा पार्थ तामसी ॥३५॥", "synonyms": "*yayā*—pela qual; *svapnam*—sonho; *bhayam*—temor; *śokam*—lamentação; *viṣādam*—taciturnidade; *madam*—ilusão; *eva*—certamente; *ca*—também; *na*—nunca; *vimuñcati*—libera-se; *durmedhāḥ*—pouco inteligente; *dhṛtiḥ*—determinação; *sā*—essa; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *tāmasī*—no modo da ignorância.", "translation": "**E a determinação que não pode ir além do sonho, do temor, da lamentação, da taciturnidade e da ilusão—tal determinação pouco inteligente está no modo da escuridão.**", "purport": "Não se deve concluir que a pessoa no modo da bondade não sonhe. Aqui, sonho significa dormir em excesso. O sonho está sempre presente; quer no modo da bondade, da paixão ou da ignorância, o sonho é uma ocorrência natural. Mas aqueles que não conseguem evitar o sono em excesso, que não conseguem evitar o orgulho de desfrutar dos objetos materiais e que estão sempre sonhando em assenhorear-se do mundo material, cuja vida, mente e sentidos estão assim ocupados, são considerados como estando no modo da ignorância."}
{"ref": "bg/18/36-37", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/36-37/", "verse_text": "sukhaṁ tv idānīṁ tri-vidhaṁ\n\nśṛṇu me bharatarṣabha\n\nabhyāsād ramate yatra\n\nduḥkhāntaṁ ca nigacchati\n\nyat tad agre viṣam iva\n\npariṇāme 'mṛtopamam\n\ntat sukhaṁ sāttvikaṁ proktam\n\nātma-buddhi-prasāda-jam", "devanagari": "> सुखं त्विदानीं त्रिविधं शृणु मे भरतर्षभ ।\n> अभ्यासाद्रमते यत्र दुःखान्तं च निगच्छति ॥३६॥\n> यत्तदग्रे विषमिव परिणामेऽमृतोपमम् ।\n> तत्सुखं सात्त्विकं प्रोक्तमात्मबुद्धिप्रसादजम् ॥३७॥", "synonyms": "*sukham*—felicidade; *tu*—mas; *idānīm*—agora; *tri-vidham*—três tipos; *śṛṇu*—ouve; *me*—de Mim; *bharatarṣabha*—ó melhor entre os Bhāratas; *abhyāsāt*—pela prática; *ramate*—desfruta; *yatra*—onde; *duḥkha*—aflição; *antam*—fim; *ca*—também; *nigacchati*—obtém; *yat*—aquilo que; *tat*—essa; *agre*—no princípio; *viṣam iva*—como veneno; *pariṇāme*—no fim; *amṛta*—néctar; *upamam*—comparada a; *tat*—essa; *sukham*—felicidade; *sāttvikam*—no modo da bondade; *proktam*—diz-se; *ātma*—do eu; *buddhi*—inteligência; *prasāda-jam*—satisfatória.", "translation": "**Ó melhor dos Bhāratas, ouve agora, por favor, de Mim sobre os três tipos de felicidade que a alma condicionada desfruta, e pelos quais por vezes chega ao fim de toda aflição. Aquela que, no princípio, pode ser como veneno, mas no fim é como néctar e que desperta a pessoa para a autorrealização diz-se ser felicidade no modo da bondade.**", "purport": "A alma condicionada tenta desfrutar da felicidade material vez após vez. Assim, mastiga o já mastigado, mas, às vezes, no decorrer de tal desfrute, ela se livra do enredamento material pela associação com uma grande alma. Em outras palavras, a alma condicionada está sempre ocupada em algum tipo de gratificação dos sentidos, mas, quando compreende, pela boa associação, que isso não passa de uma repetição da mesma coisa e desperta para sua verdadeira consciência de Kṛṣṇa, às vezes se livra dessa suposta felicidade repetitiva.\n\n\n\nNa busca da autorrealização, é preciso seguir muitas regras e regulações para controlar a mente e os sentidos e concentrar a mente no Eu. Todos esses procedimentos são muito difíceis, amargos como veneno, mas se a pessoa for bem-sucedida em seguir as regulações e alcançar a posição transcendental, começa a beber o verdadeiro néctar, e desfruta da vida."}
{"ref": "bg/18/38", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/38/", "verse_text": "viṣayendriya-saṁyogād\n\nyat tad agre 'mṛtopamam\n\npariṇāme viṣam iva\n\ntat sukhaṁ rājasaṁ smṛtam", "devanagari": "> विषयेन्द्रियसंयोगाद्यत्तदग्रेऽमृतोपमम् ।\n> परिणामे विषमिव तत्सुखं राजसं स्मृतम् ॥३८॥", "synonyms": "*viṣaya*—objetos dos sentidos; *indriya*—sentidos; *saṁyogāt*—combinação; *yat*—essa; *tat*—que; *agre*—no princípio; *amṛta-upamam*—como néctar; *pariṇāme*—no fim; *viṣam iva*—como veneno; *tat*—essa; *sukham*—felicidade; *rājasam*—no modo da paixão; *smṛtam*—considera-se.", "translation": "**A felicidade que se deriva do contato dos sentidos com seus objetos e que parece néctar no início, mas veneno no fim, diz-se ser da natureza da paixão.**", "purport": "Um jovem e uma jovem se encontram, e os sentidos impelem o jovem a vê-la, tocá-la e ter relação sexual com ela. No princípio, isso pode ser muito agradável aos sentidos, mas, no fim, ou após algum tempo, torna-se como veneno. Eles se separam ou há divórcio, há lamentação, há tristeza, etc. Tal felicidade está sempre no modo da paixão. A felicidade derivada de uma combinação dos sentidos com os objetos dos sentidos é sempre causa de aflição e deve ser evitada por todos os meios."}
{"ref": "bg/18/39", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/39/", "verse_text": "yad agre cānubandhe ca\n\nsukhaṁ mohanam ātmanaḥ\n\nnidrālasya-pramādotthaṁ\n\ntat tāmasam udāhṛtam", "devanagari": "> यदग्रे चानुबन्धे च सुखं मोहनमात्मनः ।\n> निद्रालस्यप्रमादोत्थं तत्तामसमुदाहृतम् ॥३९॥", "synonyms": "*yat*—aquela que; *agre*—no princípio; *ca*—também; *anubandhe*—pelo cativeiro; *ca*—também; *sukham*—felicidade; *mohanam*—ilusão; *ātmanaḥ*—do eu; *nidrā*—sono; *ālasya*—preguiça; *pramāda*—ilusão; *uttham*—produzida de; *tat*—essa; *tāmasam*—no modo da ignorância; *udāhṛtam*—diz-se.", "translation": "**E a felicidade que é cega para a autorrealização, que é ilusão do princípio ao fim e que surge do sono, da preguiça e da ilusão diz-se ser da natureza da ignorância.**", "purport": "Aquele que se compraz na preguiça e no sono está certamente no modo da escuridão, e aquele que não tem ideia de como agir e de como não agir também está no modo da ignorância. Para a pessoa no modo da ignorância, tudo é ilusão. Não há felicidade nem no princípio nem no fim. Para a pessoa no modo da paixão pode haver algum tipo de felicidade efêmera no princípio e aflição no fim, mas para a pessoa no modo da ignorância só há aflição tanto no princípio quanto no fim."}
{"ref": "bg/18/40", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/40/", "verse_text": "na tad asti pṛthivyāṁ vā\n\ndivi deveṣu vā punaḥ\n\nsattvaṁ prakṛti-jair muktaṁ\n\nyad ebhiḥ syāt tribhir guṇaiḥ", "devanagari": "> न तदस्ति पृथिव्यां वा दिवि देवेषु वा पुनः ।\n> सत्त्वं प्रकृतिजैर्मुक्तं यदेभिः स्यात्त्रिभिर्गुणैः ॥४०॥", "synonyms": "*na*—não; *tat*—esse; *asti*—há; *pṛthivyām*—no universo; *vā*—ou; *divi*—no sistema planetário superior; *deveṣu*—entre os semideuses; *vā*—ou; *punaḥ*—de novo; *sattvam*—existência; *prakṛti-jaiḥ*—sob a influência da natureza material; *muktam*—liberada; *yat*—que; *ebhiḥ*—por estes; *syāt*—assim se torna; *tribhiḥ*—pelos três; *guṇaiḥ*—modos da natureza material.", "translation": "**Não há ser existente, nem aqui nem entre os semideuses nos sistemas planetários superiores, que esteja livre dos três modos da natureza material.**", "purport": "Aqui o Senhor resume a influência total dos três modos da natureza material em todo o universo."}
{"ref": "bg/18/41", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/41/", "verse_text": "brāhmaṇa-kṣatriya-viśāṁ\n\nśūdrāṇāṁ ca parantapa\n\nkarmāṇi pravibhaktāni\n\nsvabhāva-prabhavair guṇaiḥ", "devanagari": "> ब्राह्मणक्षत्रियविशां शूद्राणां च परन्तप ।\n> कर्माणि प्रविभक्तानि स्वभावप्रभवैर्गुणैः ॥४१॥", "synonyms": "*brāhmaṇa*—os brāhmaṇas; *kṣatriya*—os kṣatriyas; *viśām*—os vaiśyas; *śūdrāṇām*—os śūdras; *ca*—e; *parantapa*—ó subjugador dos inimigos; *karmāṇi*—atividades; *pravibhaktāni*—dividem-se; *svabhāva*—natureza própria; *prabhavaiḥ*—nascidos de; *guṇaiḥ*—pelos modos da natureza material.", "translation": "**Os brāhmaṇas, os kṣatriyas, os vaiśyas e os śūdras distinguem-se por suas qualidades de trabalho, ó castigador do inimigo, em conformidade com os modos da natureza.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/42", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/42/", "verse_text": "śamo damas tapaḥ śaucaṁ\n\nkṣāntir ārjavam eva ca\n\njñānaṁ vijñānam āstikyaṁ\n\nbrahma-karma svabhāva-jam", "devanagari": "> शमो दमस्तपः शौचं क्षान्तिरार्जवमेव च ।\n> ज्ञानं विज्ञानमास्तिक्यं ब्रह्मकर्म स्वभावजम् ॥४२॥", "synonyms": "*śamaḥ*—serenidade; *damaḥ*—autocontrole; *tapaḥ*—austeridade; *śaucam*—pureza; *kṣāntiḥ*—tolerância; *ārjavam*—honestidade; *eva*—certamente; *ca*—e; *jñānam*—sabedoria; *vijñānam*—conhecimento; *āstikyam*—religiosidade; *brahma*—de um brāhmaṇa; *karma*—dever; *svabhāva-jam*—nascido de sua própria natureza.", "translation": "**Serenidade, autocontrole, austeridade, pureza, tolerância, honestidade, sabedoria, conhecimento e religiosidade—estas são as qualidades pelas quais os brāhmaṇas trabalham.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/43", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/43/", "verse_text": "śauryaṁ tejo dhṛtir dākṣyaṁ\n\nyuddhe cāpy apalāyanam\n\ndānam īśvara-bhāvaś ca\n\nkṣātraṁ karma svabhāva-jam", "devanagari": "> शौर्यं तेजो धृतिर्दाक्ष्यं युद्धे चाप्यपलायनम् ।\n> दानमीश्वरभावश्च क्षात्रं कर्म स्वभावजम् ॥४३॥", "synonyms": "*śauryam*—heroísmo; *tejaḥ*—poder; *dhṛtiḥ*—determinação; *dākṣyam*—habilidade; *yuddhe*—em batalha; *ca*—e; *api*—também; *apalāyanam*—não fugir; *dānam*—generosidade; *īśvara*—liderança; *bhāvaḥ*—natureza; *ca*—e kṣātram–kṣatriya; *karma*—dever; *svabhāva-jam*—nascido de sua própria natureza.", "translation": "**Heroísmo, poder, determinação, habilidade, coragem em batalha, generosidade e liderança são as qualidades de trabalho dos kṣatriyas.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/44", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/44/", "verse_text": "kṛṣi-go-rakṣya-vāṇijyaṁ\n\nvaiśya-karma svabhāva-jam\n\nparicaryātmakaṁ karma\n\nśūdrasyāpi svabhāva-jam", "devanagari": "> कृषिगौरक्ष्यवाणिज्यं वैश्यकर्म स्वभावजम् ।\n> परिचर्यात्मकं कर्म शूद्रस्यापि स्वभावजम् ॥४४॥", "synonyms": "*kṛṣi*—lavoura; *go*—vacas; *rakṣya*—proteção; *vāṇijyam*—comércio; *vaiśya*—vaiśya; *karma*—dever; *svabhāva-jam*—nascido de sua própria natureza; *paricaryā*—serviço; *ātmakam*—natureza; *karma*—dever; *śūdrasya*—do śūdra; *api*—também; *svabhāva-jam*—nascido de sua própria natureza.", "translation": "**A agricultura, a proteção das vacas e o comércio são as qualidades de trabalho dos vaiśyas, e para os śūdras há o labor e o serviço aos outros.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/45", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/45/", "verse_text": "sve sve karmaṇy abhirataḥ\n\nsaṁsiddhiṁ labhate naraḥ\n\nsva-karma-nirataḥ siddhiṁ\n\nyathā vindati tac chṛṇu", "devanagari": "> स्वे स्वे कर्मण्यभिरतः संसिद्धिं लभते नरः ।\n> स्वकर्मनिरतः सिद्धिं यथा विन्दति तच्छृणु ॥४५॥", "synonyms": "*sve*—própria; *sve*—própria; *karmaṇi*—em trabalho; *abhirataḥ*—seguindo; *saṁsiddhim*—perfeição; *labhate*—alcança; *naraḥ*—um homem; *svakarma*—por seu próprio dever; *nirataḥ*—ocupado; *siddhim*—perfeição; *yathā*—conforme; *vindati*—alcança, tat–isso; *śṛṇu*—ouve.", "translation": "**Seguindo suas qualidades de trabalho, todo homem pode tornar-se perfeito. Ouve agora, por favor, de Mim como isso pode ser feito.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/46", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/46/", "verse_text": "yataḥ pravṛttir bhūtānāṁ\n\nyena sarvam idaṁ tatam\n\nsva-karmaṇā tam abhyarcya\n\nsiddhiṁ vindati mānavaḥ", "devanagari": "> यतः प्रवृत्तिर्भूतानां येन सर्वमिदं ततम् ।\n> स्वकर्मणा तमभ्यर्च्य सिद्धिं विन्दति मानवः ॥४६॥", "synonyms": "*yataḥ*—de quem; *pravṛttiḥ*—emanação; *bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *yena*—por quem; *sarvam*—tudo; *idam*—isto; *tatam*—é penetrado; *svakarmaṇā*—em seus próprios deveres; *tam*—a Ele; *abhyarcya*—adorando; *siddhim*—perfeição; *vindati*—alcança; *mānavaḥ*—um homem.", "translation": "**Pela adoração ao Senhor, que é a fonte de todos os seres e que é onipenetrante, o homem pode, na execução de seu próprio dever, alcançar a perfeição.**", "purport": "Como se afirma no Décimo Quinto Capítulo, todos os seres vivos são partes integrantes fragmentárias do Senhor Supremo. Como tal, o Senhor Supremo é o princípio de todas as entidades vivas. Isso é confirmado no *Vedānta-sūtra*—janmādy asya yataḥ. Logo, o Senhor Supremo é o princípio da vida de toda entidade viva. E o Senhor Supremo, por Suas duas energias, Sua energia externa e Sua energia interna, é onipenetrante. Por isso, deve-se adorar o Senhor Supremo com Suas energias. Geralmente, os devotos vaiṣṇavas adoram o Senhor Supremo com Sua energia interna. Sua energia externa é um reflexo pervertido da energia interna. A energia externa é um pano de fundo, mas o Senhor Supremo, mediante a expansão de Sua porção plenária como Paramātmā, está situado em toda parte. Ele é a Superalma de todos os semideuses, de todos os seres humanos, de todos os animais, em toda parte. Deve-se, portanto, saber que, como parte integrante do Senhor Supremo, é dever da pessoa prestar serviço ao Supremo. Todos devem ocupar-se em serviço devocional ao Senhor em plena consciência de Kṛṣṇa. Isso é o que se recomenda neste verso.\n\n\n\nTodos devem pensar que estão ocupados em determinado tipo de ocupação por Hṛṣīkeśa, o senhor dos sentidos. E, com o resultado do trabalho em que se está ocupado, deve-se adorar a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Se a pessoa pensar sempre dessa maneira, em plena consciência de Kṛṣṇa, então, pela graça do Senhor, tornar-se-á plenamente consciente de tudo. Essa é a perfeição da vida. O Senhor diz no *Bhagavad-gītā*, teṣām ahaṁ samuddhartā. O próprio Senhor Supremo encarrega-se de libertar tal devoto. Essa é a mais alta perfeição da vida. Em qualquer ocupação em que a pessoa esteja envolvida, se servir ao Senhor Supremo, alcançará a mais alta perfeição."}
{"ref": "bg/18/47", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/47/", "verse_text": "śreyān sva-dharmo viguṇaḥ\n\npara-dharmāt sv-anuṣṭhitāt\n\nsvabhāva-niyataṁ karma\n\nkurvan nāpnoti kilbiṣam", "devanagari": "> श्रेयान्स्वधर्मो विगुणः परधर्मात्स्वनुष्ठितात् ।\n> स्वभावनियतं कर्म कुर्वन्नाप्नोति किल्बिषम् ॥४७॥", "synonyms": "*sreyān*—melhor; *sva-dharmaḥ*—a própria ocupação; *viguṇaḥ*—executada imperfeitamente; *para-dharmāt*—ocupação alheia; *svanuṣṭhitāt*—executada perfeitamente; *svabhāva-niyatam*—deveres prescritos segundo a natureza própria; *karma*—trabalho; *kurvan*—executando; *na*—nunca; *āpnoti*—alcança; *kilbiṣam*—reações pecaminosas.", "translation": "**É melhor ocupar-se na própria ocupação, mesmo que se execute de modo imperfeito, do que aceitar a ocupação alheia e executá-la perfeitamente. Os deveres prescritos, segundo a natureza própria, jamais são afetados por reações pecaminosas.**", "purport": "O dever ocupacional é prescrito no *Bhagavad-gītā*. Como já se discutiu em versos anteriores, os deveres do brāhmaṇa, do kṣatriya, do vaiśya e do śūdra são prescritos segundo os modos particulares da natureza. Não se deve imitar o dever alheio. Um homem que, por natureza, sente-se atraído pelo tipo de trabalho realizado pelos śūdras não deve declarar-se artificialmente brāhmaṇa, ainda que haja nascido em família de brāhmaṇa. Dessa forma, deve-se trabalhar conforme a própria natureza; nenhum trabalho é abominável, se executado a serviço do Senhor Supremo. O dever ocupacional do brāhmaṇa está certamente no modo da bondade, mas, se uma pessoa não está, por natureza, no modo da bondade, não deve imitar o dever ocupacional do brāhmaṇa. Para o kṣatriya, ou administrador, há tantas coisas abomináveis; o kṣatriya tem de ser violento para matar seus inimigos, e às vezes precisa mentir por causa da diplomacia. Tal violência e duplicidade acompanham os assuntos políticos, mas o kṣatriya não deve abandonar seu dever ocupacional para tentar executar os deveres do brāhmaṇa.\n\n\n\nDeve-se agir para satisfazer o Senhor Supremo. Por exemplo, Arjuna era um kṣatriya. Hesitava em lutar contra o lado oposto. Mas, se tal luta for executada por amor a *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, não há motivo para temer degradação alguma. No campo dos negócios também, às vezes um comerciante tem de contar tantas mentiras para obter lucro. Se não o fizer, não pode haver lucro. Às vezes um comerciante diz: “Ó, meu querido cliente, para o senhor não estou tendo lucro algum”, mas é preciso saber que, sem lucro, o comerciante não pode existir. Por isso, deve-se considerar uma simples mentira quando um comerciante diz que não está tendo lucro. Mas o comerciante não deve pensar que, por estar ocupado em uma ocupação na qual mentir é compulsório, deva abandonar sua profissão e adotar a profissão de um brāhmaṇa. Isso não se recomenda. Se a pessoa é um kṣatriya, vaiśya ou śūdra não importa, desde que sirva, com seu trabalho, à Suprema Personalidade de Deus. Até mesmo os brāhmaṇas, que executam diferentes tipos de sacrifício, às vezes precisam matar animais, pois às vezes os animais são sacrificados em tais cerimônias. De modo semelhante, se um kṣatriya, ocupado em sua própria ocupação, mata um inimigo, não há nenhum pecado incorrido. No Terceiro Capítulo, esses assuntos foram clara e minuciosamente explicados; todo homem deve trabalhar com o propósito de yajña, ou para Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus. Tudo o que se faz para a gratificação pessoal dos sentidos é causa de cativeiro. A conclusão é que todos devem ocupar-se segundo o modo particular da natureza que adquiriram, e devem decidir trabalhar somente para servir à causa suprema do Senhor Supremo."}
{"ref": "bg/18/48", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/48/", "verse_text": "saha-jaṁ karma kaunteya\n\nsa-doṣam api na tyajet\n\nsarvārambhā hi doṣeṇa\n\ndhūmenāgnir ivāvṛtāḥ", "devanagari": "> सहजं कर्म कौन्तेय सदोषमपि न त्यजेत् ।\n> सर्वारम्भा हि दोषेण धूमेनाग्निरिवावृताः ॥४८॥", "synonyms": "*saha-jam*—nascido simultaneamente; *karma*—trabalho; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *sa-doṣam*—com falha; *api*—embora; *na*—nunca; *tyajet*—deve ser abandonado; *sarva-ārambhāḥ*—qualquer empreendimento; *hi*—é certamente; *doṣeṇa*—com falha; *dhūmena*—com fumaça; *agniḥ*—fogo; *iva*—como; *āvṛtāḥ*—coberto.", "translation": "**Todo empreendimento é coberto por algum tipo de falha, assim como o fogo é coberto pela fumaça. Por isso, não se deve abandonar o trabalho que é nascido da própria natureza, ó filho de Kuntī, ainda que tal trabalho seja repleto de falhas.**", "purport": "Na vida condicionada, todo trabalho está contaminado pelos modos materiais da natureza. Mesmo sendo um brāhmaṇa, é preciso executar sacrifícios em que a morte de animais é necessária. De modo semelhante, um kṣatriya, por mais piedoso que seja, tem de combater inimigos. Não pode evitá-lo. Igualmente, um comerciante, por mais piedoso que seja, às vezes tem de ocultar seu lucro para se manter no negócio, ou às vezes tem de fazer negócios no mercado negro. Estas coisas são necessárias; não há como evitá-las. De modo semelhante, ainda que um homem seja śūdra a serviço de um mau patrão, tem de cumprir a ordem do patrão, ainda que ela não devesse ser cumprida. Apesar destas falhas, deve-se continuar a cumprir os deveres prescritos, pois nascem da própria natureza.\n\n\n\nApresenta-se aqui um exemplo muito apropriado. Embora o fogo seja puro, há fumaça. No entanto, a fumaça não torna o fogo impuro. Mesmo havendo fumaça no fogo, ainda se considera o fogo o mais puro de todos os elementos. Se a pessoa preferir abandonar o trabalho do kṣatriya e adotar a ocupação do brāhmaṇa, não tem garantia de que, na ocupação do brāhmaṇa, não haja deveres desagradáveis. Pode-se, então, concluir que, no mundo material, ninguém pode ficar completamente livre da contaminação da natureza material. Este exemplo do fogo e da fumaça é muito apropriado a este respeito. Quando, no inverno, alguém pega uma pedra do fogo, às vezes a fumaça perturba os olhos e outras partes do corpo, mas ainda assim é preciso fazer uso do fogo, apesar das condições incômodas. De modo semelhante, não se deve abandonar a própria ocupação natural por haver alguns elementos perturbadores. Pelo contrário, deve-se estar determinado a servir o Senhor Supremo por meio do dever ocupacional em consciência de Kṛṣṇa. Esse é o ponto da perfeição. Quando determinado tipo de ocupação se executa para a satisfação do Senhor Supremo, todos os defeitos dessa ocupação particular são purificados. Quando os resultados do trabalho são purificados, ao serem conectados ao serviço devocional, a pessoa torna-se perfeita em ver o eu interior, e isso é a autorrealização."}
{"ref": "bg/18/49", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/49/", "verse_text": "asakta-buddhiḥ sarvatra\n\njitātmā vigata-spṛhaḥ\n\nnaiṣkarmya-siddhiṁ paramāṁ\n\nsannyāsenādhigacchati", "devanagari": "> असक्तबुद्धिः सर्वत्र जितात्मा विगतस्पृहः ।\n> नैष्कर्म्यसिद्धिं परमां संन्यासेनाधिगच्छति ॥४९॥", "synonyms": "*asakta-buddhiḥ*—inteligência desapegada; *sarvatra*—em toda parte; *jita-ātmā*—controle da mente, vigata-spṛhaḥ–sem desejos materiais; *naiṣkarmya-siddhim*—perfeição da não-reação; *paramām*—suprema; *sannyāsena*—pela ordem de vida renunciada; *adhigacchati*—alcança.", "translation": "**Pode-se obter os resultados da renúncia simplesmente pelo autocontrole, tornando-se desapegado das coisas materiais e ignorando os desfrutes materiais. Esse é o estágio mais elevado da perfeição da renúncia.**", "purport": "A verdadeira renúncia significa que a pessoa deve sempre considerar-se parte integrante do Senhor Supremo. Por isso, não tem direito de desfrutar dos resultados de seu trabalho. Visto que é parte integrante do Senhor Supremo, os resultados de seu trabalho devem ser desfrutados pelo Senhor Supremo. Isso é, na verdade, consciência de Kṛṣṇa. A pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa é, de fato, um sannyāsī, alguém na ordem de vida renunciada. Com tal mentalidade, a pessoa fica satisfeita, pois está realmente agindo para o Supremo. Assim, não se apega a nada material; acostuma-se a não sentir prazer em nada além da felicidade transcendental derivada do serviço ao Senhor. Supõe-se que um sannyāsī esteja livre das reações de suas atividades passadas, mas a pessoa em consciência de Kṛṣṇa alcança automaticamente esta perfeição, mesmo sem aceitar a chamada ordem de renúncia. Esse estado mental chama-se yogārūḍha, ou o estágio da perfeição do yoga, como se confirma no Terceiro Capítulo: yas tv ātma-ratir eva syāt. Aquele que está satisfeito em si mesmo não tem medo de qualquer espécie de reação por sua atividade."}
{"ref": "bg/18/50", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/50/", "verse_text": "siddhiṁ prāpto yathā brahma\n\ntathāpnoti nibodha me\n\nsamāsenaiva kaunteya\n\nniṣṭhā jñānasya yā parā", "devanagari": "> सिद्धिं प्राप्तो यथा ब्रह्म तथाप्नोति निबोध मे ।\n> समासेनैव कौन्तेय निष्ठा ज्ञानस्य या परा ॥५०॥", "synonyms": "*siddhim*—perfeição; *prāptaḥ*—alcançando; *yathā*—conforme; *brahma*—o Supremo; *tathā*—assim; *āpnoti*—alcança; *nibodha*—procura compreender; *me*—de Mim; *samāsena*—resumidamente; *eva*—certamente; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *niṣṭhā*—estágio; *jñānasya*—do conhecimento; *yā*—que; *parā*—transcendental.", "translation": "**Ó filho de Kuntī, aprende de Mim em breves palavras como se pode alcançar o estágio supremo da perfeição, o Brahman, agindo da maneira que agora resumirei.**", "purport": "O Senhor descreve para Arjuna como se pode alcançar o mais elevado estágio de perfeição simplesmente ocupando-se em seu dever ocupacional, executando esse dever para a Suprema Personalidade de Deus. Alcança-se o estágio supremo do Brahman simplesmente ao renunciar ao resultado do trabalho para a satisfação do Senhor Supremo. Esse é o processo de autorrealização. A perfeição efetiva do conhecimento está em alcançar a consciência de Kṛṣṇa pura; isso descreve-se nos versos a seguir."}
{"ref": "bg/18/51-53", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/51-53/", "verse_text": "buddhyā viśuddhayā yukto\n\ndhṛtyātmānaṁ niyamya ca\n\nśabdādīn viṣayāṁs tyaktvā\n\nrāga-dveṣau vyudasya ca\n\nvivikta-sevī laghv-āśī\n\nyata-vāk-kāya-mānasaḥ\n\ndhyāna-yoga-paro nityaṁ\n\nvairāgyaṁ samupāśritaḥ\n\nahaṅkāraṁ balaṁ darpaṁ\n\nkāmaṁ krodhaṁ parigraham\n\nvimucya nirmamaḥ śānto\n\nbrahma-bhūyāya kalpate", "devanagari": "> बुद्ध्या विशुद्धया युक्तो धृत्यात्मानं नियम्य च ।\n> शब्दादीन्विषयांस्त्यक्त्वा रागद्वेषौ व्युदस्य च ॥५१॥\n> विविक्तसेवी लघ्वाशी यतवाक्कायमानसः ।\n> ध्यानयोगपरो नित्यं वैराग्यं समुपाश्रितः ॥५२॥\n> अहंकारं बलं दर्पं कामं क्रोधं परिग्रहम् ।\n> विमुच्य निर्ममः शान्तो ब्रह्मभूयाय कल्पते ॥५३॥", "synonyms": "*buddhyā*—pela inteligência; *viśuddhayā*—plenamente purificada; *yuktaḥ*—tal ocupação; *dhṛtyā*—determinação; *ātmānam*—eu; *niyamya*—regulado; *ca*—também; *śabdādīn*—os objetos dos sentidos, como o som, etc.; *viṣayān*—objetos dos sentidos; *tyaktvā*—abandonando; *rāga*—apegos; *dveṣau*—ódio; *vyudasya*—tendo deixado de lado; *ca*—também; *vivikta-sevī*—vivendo em lugar isolado; *laghu-āśī*—comendo pequena quantidade; *yata-vāk*—controle da fala; *kāya*—corpo; *mānasaḥ*—controle da mente; *dhyāna-yoga-paraḥ*—sempre absorto em transe; *nityam*—vinte e quatro horas por dia; *vairāgyam*—desapego; *samupāśritaḥ*—tendo se refugiado; *ahaṅkāram*—ego falso; *balam*—força falsa; *darpam*—orgulho falso; *kāmam*—luxúria; *krodham*—ira; *parigraham*—aceitação de coisas materiais; *vimucya*—sendo libertado; *nirmamaḥ*—sem espírito de propriedade; *śāntaḥ*—pacífico; *brahma-bhūyāya*—para tornar-se autorrealizado; *kalpate*—entende-se.", "translation": "**Sendo purificado por sua inteligência e controlando a mente com determinação, abandonando os objetos da gratificação dos sentidos, livre do apego e do ódio, aquele que vive em lugar isolado, que come pouco e que controla o corpo e a língua, e está sempre em transe e desapegado, sem ego falso, força falsa, orgulho falso, luxúria, ira, e que não aceita coisas materiais—tal pessoa é certamente elevada à posição de autorrealização.**", "purport": "Quando a pessoa se purifica pelo conhecimento, mantém-se no modo da bondade. Assim, torna-se controladora da mente e está sempre em transe. Como não está apegada aos objetos da gratificação dos sentidos, não come mais do que precisa, e controla as atividades do corpo e da mente. Não tem ego falso, pois não aceita o corpo como sendo si mesma. Tampouco deseja tornar o corpo gordo e forte aceitando tantas coisas materiais. Como não tem o conceito corporal da vida, não é falsamente orgulhosa. Está satisfeita com tudo o que lhe é oferecido pela graça do Senhor, e nunca se ira na ausência de gratificação dos sentidos. Tampouco se esforça para obter os objetos dos sentidos. Assim, quando está totalmente livre do ego falso, torna-se desapegada de todas as coisas materiais, e esse é o estágio da autorrealização do Brahman. Esse estágio chama-se estágio brahma-bhūta. Quando a pessoa está livre da concepção material da vida, torna-se pacífica e não pode ser agitada."}
{"ref": "bg/18/54", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/54/", "verse_text": "brahma-bhūtaḥ prasannātmā\n\nna śocati na kāṅkṣati\n\nsamaḥ sarveṣu bhūteṣu\n\nmad-bhaktiṁ labhate parām", "devanagari": "> ब्रह्मभूतः प्रसन्नात्मा न शोचति न काङ्क्षति ।\n> समः सर्वेषु भूतेषु मद्भक्तिं लभते पराम् ॥५४॥", "synonyms": "*brahma-bhūtaḥ*—sendo um com o Absoluto; *prasanna-ātmā*—plenamente jubiloso; *na*—nunca; *śocati*—lamenta; *na*—nunca; *kāṅkṣati*—deseja; *samaḥ*—igualmente disposto; *sarveṣu*—a todas; *bhūteṣu*—entidade viva; *mat-bhaktim*—Meu serviço devocional; *labhate*—alcança; *parām*—transcendental.", "translation": "**Aquele que está, assim, transcendentalmente situado, percebe imediatamente o Brahman Supremo. Jamais lamenta nem deseja ter algo; está igualmente disposto para com toda entidade viva. Nesse estado, alcança o serviço devocional puro a Mim.**", "purport": "Para o impersonalista, alcançar o estágio brahma-bhūta, tornando-se um com o Absoluto, é a última palavra. Mas para o personalista, ou devoto puro, é preciso ir ainda mais além para ocupar-se em serviço devocional puro. Isso significa que aquele que está ocupado em serviço devocional puro ao Senhor Supremo já se encontra em estado de liberação, denominado brahma-bhūta, unidade com o Absoluto. Sem ser uno com o Supremo, o Absoluto, não se pode prestar serviço a Ele. Na concepção absoluta, não há diferença entre o servido e o servidor; contudo, a distinção existe, num sentido espiritual mais elevado.\n\n\n\nNa concepção material da vida, quando se trabalha pela gratificação dos sentidos, há miséria, mas no mundo absoluto, quando a pessoa se ocupa em serviço devocional puro, não há miséria. O devoto em consciência de Kṛṣṇa não tem nada a lamentar nem a desejar. Como Deus é completo, a entidade viva que se ocupa no serviço de Deus, em consciência de Kṛṣṇa, também se torna completa em si mesma. É como um rio purificado de toda água suja. Como o devoto puro não tem outro pensamento senão Kṛṣṇa, naturalmente está sempre jubiloso. Não lamenta por nenhuma perda ou ganho material, pois está completo no serviço do Senhor. Não tem desejo de desfrute material, pois sabe que toda entidade viva é parte integrante fragmentária do Senhor Supremo e, por isso, eternamente um servo. Ele não vê, no mundo material, alguém como mais elevado e alguém como inferior; posições mais elevadas e inferiores são efêmeras, e o devoto não tem nada a ver com aparições ou desaparições efêmeras. Para ele, pedra e ouro têm igual valor. Esse é o estágio brahma-bhūta, e tal estágio é alcançado muito facilmente pelo devoto puro. Nesse estágio de existência, a ideia de tornar-se uno com o Brahman Supremo e aniquilar a própria individualidade torna-se infernal, e a ideia de alcançar o reino celestial torna-se uma fantasmagoria, e os sentidos são como dentes quebrados de serpente. Assim como não há temor de uma serpente com os dentes quebrados, também não há temor dos sentidos quando estão automaticamente controlados. O mundo é miserável para a pessoa materialmente infectada, mas para o devoto o mundo inteiro é tão bom como Vaikuṇṭha, ou o céu espiritual. A mais alta personalidade neste universo material não é mais significativa que uma formiga para o devoto. Tal estágio pode ser alcançado pela misericórdia do Senhor Caitanya, que pregou o serviço devocional puro nesta era."}
{"ref": "bg/18/55", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/55/", "verse_text": "bhaktyā mām abhijānāti\n\nyāvān yaś cāsmi tattvataḥ\n\ntato māṁ tattvato jñātvā\n\nviśate tad-anantaram", "devanagari": "> भक्त्या मामभिजानाति यावान्यश्चास्मि तत्त्वतः ।\n> ततो मां तत्त्वतो ज्ञात्वा विशते तदनन्तरम् ॥५५॥", "synonyms": "*bhaktyā*—pelo serviço devocional puro; *mām*—Eu; *abhijānāti*—pode-se conhecer; *yāvān*—tanto quanto; *yaḥ ca asmi*—como Eu sou; *tattvataḥ*—em verdade; *tataḥ*—depois disso; *mām*—a Mim; *tattvataḥ*—pela verdade; *jñātvā*—conhecendo; *viśate*—entra; *tat*—depois disso; *anantaram*—depois.", "translation": "**Pode-se compreender a Suprema Personalidade tal como Ele é apenas pelo serviço devocional. E quando se está em plena consciência do Senhor Supremo por tal devoção, pode-se entrar no reino de Deus.**", "purport": "A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e Suas porções plenárias não podem ser compreendidos pela especulação mental nem pelos não-devotos. Se alguém deseja compreender a Suprema Personalidade de Deus, deve adotar o serviço devocional puro sob a orientação de um devoto puro. Caso contrário, a verdade da Suprema Personalidade de Deus permanecerá sempre oculta. Já se afirmou (nāhaṁ prakāśaḥ) que Ele não Se revela a todos. Ninguém pode compreender Deus simplesmente pela erudição acadêmica nem pela especulação mental. Apenas aquele que está realmente ocupado em consciência de Kṛṣṇa e em serviço devocional pode compreender o que é Kṛṣṇa. Os títulos universitários não ajudam.\n\n\n\nQuem está plenamente versado na ciência de Kṛṣṇa torna-se elegível para entrar no reino espiritual, a morada de Kṛṣṇa. Tornar-se Brahman não significa que se perde a própria identidade. O serviço devocional está lá, e enquanto o serviço devocional existir, deve haver Deus, o devoto e o processo de serviço devocional. Tal conhecimento jamais é destruído, mesmo após a liberação. A liberação envolve livrar-se do conceito da vida material; na vida espiritual, a mesma distinção persiste, a mesma individualidade persiste, mas em consciência de Kṛṣṇa pura. Não se deve interpretar mal que a palavra viśate, “entra em Mim”, apoie a teoria monista de que a pessoa se torna homogênea com o Brahman impessoal. Não. Viśate significa que se pode entrar na morada do Senhor Supremo na própria individualidade para ocupar-se em Sua associação e prestar-Lhe serviço. Por exemplo, um pássaro verde entra numa árvore verde não para tornar-se um com a árvore, mas para desfrutar dos frutos da árvore. Os impersonalistas geralmente dão o exemplo de um rio que flui para o oceano e nele se funde. Isto pode ser fonte de felicidade para o impersonalista, mas o personalista mantém sua individualidade pessoal como um ser aquático no oceano. Encontramos tantas entidades vivas dentro do oceano, se descermos profundamente. O conhecimento superficial do oceano não é suficiente; é preciso ter pleno conhecimento dos seres aquáticos que vivem nas profundezas do oceano.\n\n\n\nPor causa de seu serviço devocional puro, o devoto pode compreender as qualidades transcendentais e as opulências do Senhor Supremo em verdade. Como se afirma no Décimo Primeiro Capítulo, somente pelo serviço devocional pode-se compreender. O mesmo se confirma aqui; pode-se compreender a Suprema Personalidade de Deus pelo serviço devocional e entrar em Seu reino.\n\n\n\nApós alcançar o estágio brahma-bhūta de liberdade das concepções materiais, o serviço devocional começa quando a pessoa ouve sobre o Senhor. Quando se ouve sobre o Senhor Supremo, automaticamente o estágio brahma-bhūta se desenvolve, e a contaminação material—a avareza e a luxúria pelo desfrute dos sentidos—desaparece. À medida que a luxúria e os desejos desaparecem do coração de um devoto, ele se apega mais ao serviço do Senhor, e por meio de tal apego se livra da contaminação material. Nesse estado de vida, ele pode compreender o Senhor Supremo. Esta é também a afirmação do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Também após a liberação, o processo de bhakti, ou serviço transcendental, continua. O *Vedānta-sūtra* confirma isso: āprāyaṇāt tatrāpi hi dṛṣṭam. Isso significa que após a liberação o processo de serviço devocional continua. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, a verdadeira liberação devocional é definida como a reinstalação da entidade viva em sua própria identidade, em sua própria posição constitucional. A posição constitucional já se explicou: toda entidade viva é a porção fragmentária parte integrante do Senhor Supremo. Por isso, sua posição constitucional é servir. Após a liberação, esse serviço jamais é interrompido. A liberação verdadeira consiste em livrar-se das concepções errôneas da vida."}
{"ref": "bg/18/56", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/56/", "verse_text": "sarva-karmāṇy api sadā\n\nkurvāṇo mad-vyapāśrayaḥ\n\nmat-prasādād avāpnoti\n\nśāśvataṁ padam avyayam", "devanagari": "> सर्वकर्माण्यपि सदा कुर्वाणो मद्व्यपाश्रयः ।\n> मत्प्रसादादवाप्नोति शाश्वतं पदमव्ययम् ॥५६॥", "synonyms": "*sarva*—todas; *karmāṇi*—atividades; *api*—embora; *sadā*—sempre; *kurvāṇaḥ*—executando; *mat*—sob Minha; *vyapāśrayah*—proteção; *mat*—Minha; *prasādāt*—misericórdia; *avāpnoti*—alcança; *sāśvatam*—eterna; *padam*—morada; *avyayam*—imperecível.", "translation": "**Embora ocupado em todas as espécies de atividades, Meu devoto, sob Minha proteção, alcança pela Minha graça a morada eterna e imperecível.**", "purport": "A palavra mad-vyapāśrayaḥ significa sob a proteção do Senhor Supremo. Para se livrar da contaminação material, o devoto puro age sob a direção do Senhor Supremo ou de Seu representante, o mestre espiritual. Não há limitação de tempo para o devoto puro. Está sempre, vinte e quatro horas, cem por cento ocupado em atividades sob a direção do Senhor Supremo. Para o devoto que está assim ocupado em consciência de Kṛṣṇa, o Senhor é muitíssimo bondoso. Apesar de todas as dificuldades, finalmente é colocado na morada transcendental, ou Kṛṣṇaloka. Sua entrada lá é garantida; não há dúvida disso. Naquela morada suprema, não há mudança; tudo é eterno, imperecível e pleno de conhecimento."}
{"ref": "bg/18/57", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/57/", "verse_text": "cetasā sarva-karmāṇi\n\nmayi sannyasya mat-paraḥ\n\nbuddhi-yogam upāśritya\n\nmac-cittaḥ satataṁ bhava", "devanagari": "> चेतसा सर्वकर्माणि मयि संन्यस्य मत्परः ।\n> बुद्धियोगमुपाश्रित्य मच्चित्तः सततं भव ॥५७॥", "synonyms": "*cetasā*—pela inteligência; *sarva-karmāni*—todas as espécies de atividades; *mayi*—a Mim; *sannyasya*—abandonando; *mat-paraḥ*—Minha proteção; *buddhi-yogam*—atividades devocionais; *upāśritya*—tomando refúgio em; *mat-cittaḥ*—consciência; *satatam*—vinte e quatro horas por dia; *bhava*—simplesmente torna-te.", "translation": "**Em todas as atividades, simplesmente depende de Mim e trabalha sempre sob Minha proteção. Em tal serviço devocional, sê plenamente consciente de Mim.**", "purport": "Quando alguém age em consciência de Kṛṣṇa, não age como amo do mundo. Como um servo, deve agir totalmente sob a direção do Senhor Supremo. Um servo não tem independência individual. Age apenas por ordem do amo. Um servo que age em nome do amo supremo não tem afeição por lucro ou perda. Simplesmente cumpre seu dever fielmente, conforme a ordem do Senhor. Ora, pode-se argumentar que Arjuna estava agindo sob a direção pessoal de Kṛṣṇa, mas, quando Kṛṣṇa não está presente, como se deve agir? Se a pessoa age conforme a direção de Kṛṣṇa neste livro, bem como sob a orientação do representante de Kṛṣṇa, então o resultado será o mesmo. A palavra sânscrita mat-paraḥ é muito importante neste verso. Indica que não se tem outra meta na vida senão agir em consciência de Kṛṣṇa apenas para satisfazer a Kṛṣṇa. E, ao trabalhar dessa maneira, deve-se pensar somente em Kṛṣṇa: “Fui designado por Kṛṣṇa para cumprir este dever particular.” Ao agir dessa maneira, naturalmente se há de pensar em Kṛṣṇa. Esta é a perfeita consciência de Kṛṣṇa. Deve-se, contudo, observar que, depois de fazer algo caprichosamente, não se deve oferecer o resultado ao Senhor Supremo. Esse tipo de dever não está no serviço devocional da consciência de Kṛṣṇa. Deve-se agir conforme a ordem de Kṛṣṇa. Este é um ponto muito importante. Essa ordem de Kṛṣṇa vem por meio da sucessão discipular do mestre espiritual genuíno. Por isso, a ordem do mestre espiritual deve ser tomada como o principal dever da vida. Se a pessoa obtiver um mestre espiritual genuíno e agir conforme sua direção, sua perfeição da vida em consciência de Kṛṣṇa estará garantida."}
{"ref": "bg/18/58", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/58/", "verse_text": "mac-cittaḥ sarva-durgāṇi\n\nmat-prasādāt tariṣyasi\n\natha cet tvam ahaṅkārān\n\nna śroṣyasi vinaṅkṣyasi", "devanagari": "> मच्चित्तः सर्वदुर्गाणि मत्प्रसादात्तरिष्यसि ।\n> अथ चेत्त्वमहंकारान्न श्रोष्यसि विनङ्क्ष्यसि ॥५८॥", "synonyms": "*mat*—Minha; *cittaḥ*—consciência; *sarva*—todos; *durgāṇi*—impedimentos; *mat*—Minha; *prasādāt*—Minha misericórdia; *tariṣyasi*—superarás; *atha*—portanto; *cet*—se; *tvam*—tu; *ahaṅkārāt*—pelo ego falso; *na*—não; *śroṣyasi*—não ouves; *vinaṅkṣyasi*—então te perderás.", "translation": "**Se te tornares consciente de Mim, ultrapassarás todos os obstáculos da vida condicionada por Minha graça. Se, contudo, não trabalhares em tal consciência, mas agires por ego falso, sem Me ouvir, tu te perderás.**", "purport": "Uma pessoa em plena consciência de Kṛṣṇa não está indevidamente ansiosa para executar os deveres de sua existência. O tolo não pode compreender essa grande liberdade de toda ansiedade. Para aquele que age em consciência de Kṛṣṇa, o Senhor Kṛṣṇa torna-se o amigo mais íntimo. Sempre cuida do bem-estar de Seu amigo, e Se entrega a Seu amigo, que está tão devotadamente ocupado em trabalhar vinte e quatro horas por dia para agradar ao Senhor. Por isso, ninguém deve deixar-se levar pelo ego falso do conceito corporal da vida. Não se deve falsamente julgar-se independente das leis da natureza material ou livre para agir. Já se está sob estritas leis materiais. Mas, assim que a pessoa age em consciência de Kṛṣṇa, fica liberada, livre das perplexidades materiais. Deve-se notar com muito cuidado que aquele que não está ativo em consciência de Kṛṣṇa está se perdendo no redemoinho material, no oceano de nascimento e morte. Nenhuma alma condicionada sabe, na verdade, o que se deve fazer e o que não se deve fazer, mas a pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa é livre para agir, pois tudo é incitado por Kṛṣṇa do interior e confirmado pelo mestre espiritual."}
{"ref": "bg/18/59", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/59/", "verse_text": "yad ahaṅkāram āśritya\n\nna yotsya iti manyase\n\nmithyaiṣa vyavasāyas te\n\nprakṛtis tvāṁ niyokṣyati", "devanagari": "> यदहंकारमाश्रित्य न योत्स्य इति मन्यसे ।\n> मिथ्यैष व्यवसायस्ते प्रकृतिस्त्वां नियोक्ष्यति ॥५९॥", "synonyms": "*yat*—portanto; *ahaṅkāram*—ego falso; *āśritya*—refugiando-te; *na*—não; *yotsya*—lutarei; *iti*—assim; *manyase*—pensas; *mithyā eṣaḥ*—tudo isso é falso; *vyavasāyah te*—tua determinação; *prakṛtiḥ*—natureza material; *tvām*—tu; *niyokṣyati*—te ocupará.", "translation": "**Se não agires segundo Minha direção e não lutares, então serás falsamente dirigido. Por tua natureza, terás de ocupar-te em guerra.**", "purport": "Arjuna era um homem militar e nascido da natureza do kṣatriya. Por isso, seu dever natural era lutar. Mas, devido ao ego falso, ele temia que, ao matar o seu mestre, o avô e os amigos, houvesse reações pecaminosas. Na verdade, considerava-se amo de suas ações, como se estivesse dirigindo os bons e maus resultados de tal trabalho. Esquecia que a Suprema Personalidade de Deus estava ali presente, instruindo-o a lutar. Esse é o esquecimento da alma condicionada. A Suprema Personalidade dá direções quanto ao que é bom e ao que é ruim, e basta agir em consciência de Kṛṣṇa para alcançar a perfeição da vida. Ninguém pode determinar seu destino como o Senhor Supremo pode; por isso, o melhor curso é aceitar a direção do Senhor Supremo e agir. Ninguém deve negligenciar a ordem da Suprema Personalidade de Deus ou a ordem do mestre espiritual, que é o representante de Deus. Deve-se agir sem hesitação para executar a ordem da Suprema Personalidade de Deus—isso o manterá a salvo em todas as circunstâncias."}
{"ref": "bg/18/60", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/60/", "verse_text": "svabhāva-jena kaunteya\n\nnibaddhaḥ svena karmaṇā\n\nkartuṁ necchasi yan mohāt\n\nkariṣyasy avaśo 'pi tat", "devanagari": "> स्वभावजेन कौन्तेय निबद्धः स्वेन कर्मणा ।\n> कर्तुं नेच्छसि यन्मोहात्करिष्यस्यवशोपि तत् ॥६०॥", "synonyms": "*sva-bhāva-jena*—pela própria natureza; *kaunteya*—ó filho de Kuntī; *nibaddhaḥ*—condicionado; *svena*—pelas próprias; *karmaṇā*—atividades; *kartum*—fazer; *na*—não; *icchasi*—desejas; *yat*—aquilo; *mohāt*—pela ilusão; *kariṣyasi*—agirás; *avaśaḥ*—imperceptivelmente; *api*—mesmo; *tat*—aquilo.", "translation": "**Sob a ilusão, agora te recusas a agir conforme Minha direção. Mas, compelido por tua própria natureza, agirás de qualquer modo, ó filho de Kuntī.**", "purport": "Se a pessoa se recusa a agir sob a direção do Senhor Supremo, então é compelida a agir pelos modos em que está situada. Todos estão sob o feitiço de uma combinação particular dos modos da natureza e estão agindo dessa maneira. Mas quem quer que voluntariamente se ocupe sob a direção do Senhor Supremo torna-se glorioso."}
{"ref": "bg/18/61", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/61/", "verse_text": "īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ\n\nhṛd-deśe 'rjuna tiṣṭhati\n\nbhrāmayan sarva-bhūtāni\n\nyantrārūḍhāni māyayā", "devanagari": "> ईश्वरः सर्वभूतानां हृद्देशेऽर्जुन तिष्ठति ।\n> भ्रामयन्सर्वभूतानि यन्त्रारूढानि मायया ॥६१॥", "synonyms": "*īśvaraḥ*—o Senhor Supremo; *sarva-bhūtānām*—de todas as entidades vivas; *hṛd-deśe*—no local do coração; *arjuna*—ó Arjuna; *tiṣṭhati*—reside; *bhrāmayan*—fazendo viajar; *sarva-bhūtāni*—todas as entidades vivas; *yantra*—máquina; *ārūḍhāni*—assim colocadas; *māyayā*—sob o feitiço da energia material.", "translation": "**O Senhor Supremo está situado no coração de todos, ó Arjuna, e dirige as andanças de todas as entidades vivas, que estão sentadas como em uma máquina, feita da energia material.**", "purport": "Arjuna não era o conhecedor supremo, e sua decisão de lutar ou não lutar limitava-se à sua discrição limitada. O Senhor Kṛṣṇa instruiu que o indivíduo não é tudo em tudo. A Suprema Personalidade de Deus, ou Ele Próprio, Kṛṣṇa, a Superalma localizada, está sentado no coração dirigindo o ser vivo. Após mudar de corpo, a entidade viva esquece seus feitos passados, mas a Superalma, como conhecedora do passado, do presente e do futuro, permanece a testemunha de todas as suas atividades. Por isso, todas as atividades das entidades vivas são dirigidas por essa Superalma. A entidade viva obtém o que merece e é levada pelo corpo material que se cria na energia material sob a direção da Superalma. Assim que uma entidade viva é colocada num determinado tipo de corpo, ela tem de trabalhar sob o feitiço daquela situação corporal. Uma pessoa sentada num automóvel de alta velocidade vai mais rápido do que outra sentada num carro mais lento, embora as entidades vivas, os motoristas, possam ser as mesmas. De modo semelhante, por ordem da Alma Suprema, a natureza material modela um determinado tipo de corpo para um determinado tipo de entidade viva, para que esta trabalhe segundo seus desejos passados. A entidade viva não é independente. Não se deve julgar independente da Suprema Personalidade de Deus. O indivíduo está sempre sob Seu controle. Por isso, seu dever é render-se, e essa é a injunção do verso seguinte."}
{"ref": "bg/18/62", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/62/", "verse_text": "tam eva śaraṇaṁ gaccha\n\nsarva-bhāvena bhārata\n\ntat-prasādāt parāṁ śāntiṁ\n\nsthānaṁ prāpsyasi śāśvatam", "devanagari": "> तमेव शरणं गच्छ सर्वभावेन भारत ।\n> तत्प्रसादात्परां शान्तिं स्थानं प्राप्स्यसि शाश्वतम् ॥६२॥", "synonyms": "*tam*—a Ele; *eva*—certamente; *śaraṇam*—rendição; *gaccha*—vai; *sarva-bhāvena*—em todos os aspectos; *bhārata*—ó descendente de Bharata; *tat-prasādāt*—por Sua graça; *parām*—transcendental; *śāntim*—paz; *sthānam*—morada; *prāpsyasi*—obterás; *śāśvatam*—eterna.", "translation": "**Ó descendente de Bharata, rende-te totalmente a Ele. Por Sua graça, alcançarás a paz transcendental e a morada suprema e eterna.**", "purport": "Por isso, a entidade viva deve render-se à Suprema Personalidade de Deus, que está situada no coração de todos, e isso a aliviará de todas as espécies de misérias desta existência material. Por tal rendição, ficar-se-á livre não apenas de todas as misérias nesta vida, mas, ao final, alcançar-se-á o Deus Supremo. O mundo transcendental descreve-se na literatura Védica como tad viṣṇoḥ paramaṁ padam. Como toda a criação é o reino de Deus, tudo o que é material é, na verdade, espiritual, mas paramaṁ padam refere-se especificamente à morada eterna, que se chama o céu espiritual ou Vaikuṇṭha.\n\n\n\nNo Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā* afirma-se: “Sarvasya cāham hṛdi sanniviṣṭaḥ.” O Senhor está sentado no coração de todos, de modo que esta recomendação de que se renda à Superalma sentada no íntimo significa que se deve render à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Kṛṣṇa já foi aceito por Arjuna como o Supremo. Foi aceito no Décimo Capítulo como paraṁ brahma paraṁ dhāma. Arjuna aceitou Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus e a morada suprema de todas as entidades vivas, não apenas por sua experiência pessoal, mas também por causa das evidências de grandes autoridades como Nārada, Asita, Devala e Vyāsa."}
{"ref": "bg/18/63", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/63/", "verse_text": "iti te jñānam ākhyātaṁ\n\nguhyād guhyataraṁ mayā\n\nvimṛśyaitad aśeṣeṇa\n\nyathecchasi tathā kuru", "devanagari": "> इति ते ज्ञानमाख्यातं गुह्याद्गुह्यतरं मया ।\n> विमृश्यैतदशेषेण यथेच्छसि तथा कुरु ॥६३॥", "synonyms": "*iti*—assim; *te*—a ti; *jñānam*—conhecimento; *ākhyātam*—descrito; *guhyāt*—confidencial; *guhyataram*—ainda mais confidencial; *mayā*—por Mim; *vimṛśya*—pela deliberação; *etat*—isso; *aśeṣeṇa*—plenamente; *yathā*—como tu; *icchasi*—desejas; *tathā*—assim; *kuru*—faze.", "translation": "**Assim, expliquei-te o mais confidencial de todos os conhecimentos. Delibera plenamente sobre isso e, então, faze o que desejares.**", "purport": "O Senhor já explicou a Arjuna o conhecimento de brahmabhūta. Aquele que está na condição brahma-bhūta é jubiloso; jamais lamenta nem deseja coisa alguma. Isso se deve ao conhecimento confidencial. Kṛṣṇa também revela o conhecimento da Superalma. Este também é conhecimento do Brahman, conhecimento do Brahman, mas é superior.\n\n\n\nAqui o Senhor Kṛṣṇa diz a Arjuna que ele pode fazer como quiser. Deus não interfere na pequena independência da entidade viva. No *Bhagavad-gītā*, o Senhor explicou em todos os aspectos como se pode elevar a própria condição vital. O melhor conselho transmitido a Arjuna é que se renda à Superalma sentada em seu coração. Por discriminação correta, deve-se concordar em agir segundo a ordem da Superalma. Isso ajudará a pessoa a situar-se constantemente em consciência de Kṛṣṇa, o mais alto estágio de perfeição da vida humana. Arjuna está sendo diretamente ordenado pela Personalidade de Deus a lutar. A rendição à Suprema Personalidade de Deus é o que melhor convém ao interesse das entidades vivas. Não é para o interesse do Supremo. Antes de render-se, a pessoa é livre para deliberar sobre este assunto até onde sua inteligência alcance; essa é a melhor maneira de aceitar a instrução da Suprema Personalidade de Deus. Tal instrução vem também por meio do mestre espiritual, o representante genuíno de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/18/64", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/64/", "verse_text": "sarva-guhyatamaṁ bhūyaḥ\n\nśṛṇu me paramaṁ vacaḥ\n\niṣṭo 'si me dṛḍham iti\n\ntato vakṣyāmi te hitam", "devanagari": "> सर्वगुह्यतमं भूयः शृणु मे परमं वचः ।\n> इष्टोऽसि मे दृढमिति ततो वक्ष्यामि ते हितम् ॥६४॥", "synonyms": "*sarva-guhyatamam*—o mais confidencial; *bhūyaḥ*—de novo; *śṛṇu*—simplesmente ouve; *me*—de Mim; *paramam*—a suprema; *vacaḥ*—instrução; *isṭaḥ asi*—és muito querido por Mim; *dṛḍham*—muito; *iti*—assim; *tataḥ*—portanto; *vakṣyāmi*—falando; *te*—para teu; *hitam*—benefício.", "translation": "**Visto que és Meu querido amigo, falo-te a parte mais confidencial do conhecimento. Ouve isto de Mim, pois é para teu benefício.**", "purport": "O Senhor deu a Arjuna conhecimento confidencial sobre a Superalma dentro do coração de todos, e agora dá a parte mais confidencial deste conhecimento: simplesmente render-se à Suprema Personalidade de Deus. Ao final do Nono Capítulo, Ele disse: “Apenas pensa sempre em Mim.” A mesma instrução repete-se aqui para enfatizar a essência dos ensinamentos do *Bhagavad-gītā*. Esta essência não é compreendida pelo homem comum, mas por aquele que é, de fato, muito querido por Kṛṣṇa, um devoto puro de Kṛṣṇa. Esta é a instrução mais importante de toda a literatura Védica. O que Kṛṣṇa diz a este respeito é a parte mais essencial do conhecimento, e deve ser cumprida não apenas por Arjuna, mas por todas as entidades vivas."}
{"ref": "bg/18/65", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/65/", "verse_text": "man-manā bhava mad-bhakto\n\nmad-yājī māṁ namaskuru\n\nmām evaiṣyasi satyaṁ te\n\npratijāne priyo 'si me", "devanagari": "> मन्मना भव मद्भक्तो मद्याजी मां नमस्कुरु ।\n> मामेवैष्यसि सत्यं ते प्रतिजाने प्रियोऽसि मे ॥६५॥", "synonyms": "*man-manāḥ*—pensando em Mim; *bhava*—simplesmente torna-te; *mat-bhaktaḥ*—Meu devoto; *mat-yājī*—Meu adorador; *mām*—a Mim; *namaskuru*—oferece tuas reverências; *mām*—a Mim; *eva*—certamente; *eṣyasi*—virás; *satyam*—verdadeiramente; *te*—a ti; *pratijāne*—prometo; *prijaḥ*—querido; *asi*—és; *me*—Meu.", "translation": "**Pensa sempre em Mim e torna-te Meu devoto. Adora-Me e oferece-Me tuas homenagens. Assim, virás a Mim sem falta. Prometo-te isto porque és Meu queridíssimo amigo.**", "purport": "A parte mais confidencial do conhecimento é que se deve tornar-se um devoto puro de Kṛṣṇa, sempre pensar Nele e agir para Ele. Não se deve tornar-se um meditador oficial. A vida deve ser moldada de tal maneira que sempre se tenha a oportunidade de pensar em Kṛṣṇa. Deve-se sempre agir de tal modo que todas as suas atividades diárias estejam em conexão com Kṛṣṇa. Deve-se organizar a vida de tal maneira que, durante as vinte e quatro horas, não se possa deixar de pensar em Kṛṣṇa. E a promessa do Senhor é a de que quem quer que esteja em tal consciência de Kṛṣṇa pura certamente retornará à morada de Kṛṣṇa, onde se ocupará na associação com Kṛṣṇa face a face. Esta parte mais confidencial do conhecimento fala-se a Arjuna porque ele é o querido amigo de Kṛṣṇa. Todo aquele que segue o caminho de Arjuna pode tornar-se um querido amigo de Kṛṣṇa e obter a mesma perfeição que Arjuna.\n\n\n\nEstas palavras enfatizam que se deve concentrar a mente em Kṛṣṇa—a própria forma com duas mãos que carrega uma flauta, o menino azulado de belo rosto e penas de pavão no cabelo. Há descrições de Kṛṣṇa que se encontram na Brahma-saṁhitā e em outras literaturas. Deve-se fixar a mente nesta forma original de Deus, Kṛṣṇa. Não se deve sequer desviar a atenção para outras formas do Senhor. O Senhor possui múltiplas formas, como Viṣṇu, Nārāyaṇa, Rāma, Varāha, etc., mas o devoto deve concentrar a mente na forma que estava presente diante de Arjuna. A concentração da mente na forma de Kṛṣṇa constitui a parte mais confidencial do conhecimento, e isso é revelado a Arjuna porque ele é o mais querido amigo de Kṛṣṇa."}
{"ref": "bg/18/66", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/66/", "verse_text": "sarva-dharmān parityajya\n\nmām ekaṁ śaraṇaṁ vraja\n\nahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo\n\nmokṣayiṣyāmi mā śucaḥ", "devanagari": "> सर्वधर्मान्परित्यज्य मामेकं शरणं व्रज ।\n> अहं त्वा सर्वपापेभ्यो मोक्षयिष्यामि मा शुचः ॥६६॥", "synonyms": "*sarva-dharmān*—todas as variedades de religião; *parityajya*—abandonando; *mām*—a Mim; *ekam*—somente; *śaraṇam*—rendição; *vraja*—vai; *aham*—Eu; *tvām*—a ti; *sarva*—de todas; *pāpebhyaḥ*—reações pecaminosas; *mokṣayiṣyāmi*—libertarei; *mā*—não; *śucaḥ*—te preocupes.", "translation": "**Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te libertarei de toda reação pecaminosa. Não temas.**", "purport": "O Senhor descreveu várias espécies de conhecimento, processos de religião, conhecimento do Brahman Supremo, conhecimento da Superalma, conhecimento dos diferentes tipos de ordens e estados da vida social, conhecimento da ordem de vida renunciada, conhecimento do desapego, do controle dos sentidos e da mente, da meditação, etc. Descreveu de tantas maneiras diferentes tipos de religião. Ora, ao resumir o *Bhagavad-gītā*, o Senhor diz que Arjuna deve abandonar todos os processos que lhe foram explicados; deve simplesmente render-se a Kṛṣṇa. Essa rendição o salvará de todas as espécies de reações pecaminosas, pois o Senhor pessoalmente promete protegê-lo.\n\n\n\nNo Oitavo Capítulo, disse-se que somente quem se livrou de todas as reações pecaminosas pode adotar a adoração ao Senhor Kṛṣṇa. Assim, pode-se pensar que, a menos que se esteja livre de todas as reações pecaminosas, não se pode adotar o processo de rendição. A tais dúvidas, diz-se aqui que, mesmo que não se esteja livre de todas as reações pecaminosas, simplesmente pelo processo de rendição a Śrī Kṛṣṇa a pessoa fica automaticamente livre. Não há necessidade de esforço extenuante para livrar-se das reações pecaminosas. Deve-se sem hesitação aceitar Kṛṣṇa como o supremo salvador de todas as entidades vivas. Com fé e amor, deve-se render-se a Ele.\n\n\n\nSegundo o processo devocional, deve-se simplesmente aceitar tais princípios religiosos que conduzam, em última instância, ao serviço devocional ao Senhor. Pode-se executar um determinado dever ocupacional segundo a posição na ordem social, mas, se, ao executar seu dever, não se chega ao ponto da consciência de Kṛṣṇa, todas as suas atividades são em vão.\n\n\n\nTudo o que não conduz ao estágio de perfeição da consciência de Kṛṣṇa deve ser evitado. Deve-se ter confiança de que, em todas as circunstâncias, Kṛṣṇa o protegerá de todas as dificuldades. Não há necessidade de pensar em como manter o corpo e a alma juntos. Kṛṣṇa cuidará disso. Deve-se sempre considerar-se desamparado e considerar Kṛṣṇa a única base para o progresso na vida. Assim que a pessoa se ocupa seriamente em serviço devocional ao Senhor em plena consciência de Kṛṣṇa, fica imediatamente livre de toda contaminação da natureza material. Há diferentes processos de religião e processos purificatórios pelo cultivo do conhecimento, pela meditação no sistema de yoga místico, etc., mas aquele que se rende a Kṛṣṇa não tem que executar tantos métodos. Essa simples rendição a Kṛṣṇa o salvará do desperdício desnecessário de tempo. Pode-se assim fazer todo o progresso de uma só vez e ficar livre de toda reação pecaminosa.\n\n\n\nDeve-se sentir atração pela bela visão de Kṛṣṇa. Seu nome é Kṛṣṇa porque Ele é todo-atrativo. Aquele que se sente atraído pela bela, todo-poderosa e onipotente visão de Kṛṣṇa é afortunado. Há diferentes tipos de transcendentalistas—alguns deles estão apegados à visão impessoal do Brahman, alguns deles atraem-se pelo aspecto da Superalma, etc., mas aquele que se sente atraído pelo aspecto pessoal da Suprema Personalidade de Deus e, sobretudo, aquele que se sente atraído pela Suprema Personalidade de Deus como o próprio Kṛṣṇa, é o mais perfeito transcendentalista. Em outras palavras, o serviço devocional a Kṛṣṇa, em plena consciência, é a parte mais confidencial do conhecimento, e esta é a essência de todo o *Bhagavad-gītā*. Os karma-yogīs, os filósofos empíricos, os místicos e os devotos são todos chamados transcendentalistas, mas aquele que é um devoto puro é o melhor de todos. As palavras particulares aqui usadas, mā śucaḥ, “Não temas, não hesites, não te preocupes”, são muito significativas. Pode-se ficar perplexo quanto a como abandonar todas as espécies de formas religiosas e simplesmente render-se a Kṛṣṇa, mas tal preocupação é inútil."}
{"ref": "bg/18/67", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/67/", "verse_text": "idaṁ te nātapaskāya\n\nnābhaktāya kadācana\n\nna cāśuśrūṣave vācyaṁ\n\nna ca māṁ yo 'bhyasūyati", "devanagari": "> इदं ते नातपस्काय नाभक्ताय कदाचन ।\n> न चाशुश्रूषवे वाच्यं न च मां योऽभ्यसूयति ॥६७॥", "synonyms": "*idam*—isto; *te*—tu; *na*—nunca; *atapaskāya*—aquele que não é austero; *na*—nunca; *abhaktāya*—aquele que não é devoto; *kadācana*—em momento algum; *na*—nunca; *ca*—também; *aśuśrūṣave*—aquele que não está ocupado em serviço devocional; *vācyam*—a ser falado; *na*—nunca; *ca*—também; *mām*—a Mim; *yaḥ*—quem quer que; *abhyasūyati*—invejoso.", "translation": "**Este conhecimento confidencial não pode ser explicado àqueles que não são austeros, nem devotados, nem ocupados em serviço devocional, nem àquele que tem inveja de Mim.**", "purport": "As pessoas que não passaram pelas austeridades do processo religioso, que jamais tentaram o serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa, que não cuidaram de um devoto puro e, especialmente, aqueles que são conscientes de Kṛṣṇa como personalidade histórica ou que invejam a grandeza de Kṛṣṇa, não devem receber esta parte mais confidencial do conhecimento. Contudo, às vezes verifica-se que mesmo pessoas demoníacas que invejam Kṛṣṇa, adorando Kṛṣṇa de modo diferente, adotam a profissão de explicar o *Bhagavad-gītā* de modo diferente para fazer negócio, mas quem quer que deseje, na verdade, compreender Kṛṣṇa deve evitar tais comentários sobre o *Bhagavad-gītā*. Na verdade, o propósito do *Bhagavad-gītā* não é compreensível àqueles que são sensuais—mesmo que alguém não seja sensual, mas siga estritamente as disciplinas prescritas na escritura Védica, se não for devoto, também não pode compreender Kṛṣṇa. Mesmo quando alguém se faz passar por devoto de Kṛṣṇa, mas não está ocupado em atividades conscientes de Kṛṣṇa, também não pode compreender Kṛṣṇa. Há muitas pessoas que invejam Kṛṣṇa porque Ele explicou no *Bhagavad-gītā* que Ele é o Supremo e que nada está acima Dele ou é igual a Ele. Há muitas pessoas que invejam Kṛṣṇa. A tais pessoas não se deve falar do *Bhagavad-gītā*, pois não podem compreender. Não há possibilidade de pessoas sem fé compreenderem o *Bhagavad-gītā* e Kṛṣṇa. Sem compreender Kṛṣṇa pela autoridade de um devoto puro, não se deve tentar comentar o Bhagavad-gītā."}
{"ref": "bg/18/68", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/68/", "verse_text": "ya idaṁ paramaṁ guhyaṁ\n\nmad-bhakteṣv abhidhāsyati\n\nbhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā\n\nmām evaiṣyaty asaṁśayaḥ", "devanagari": "> य इदं परमं गुह्यं मद्भक्तेष्वभिधास्यति ।\n> भक्तिं मयि परां कृत्वा मामेवैष्यत्यसंशयः ॥६८॥", "synonyms": "*yaḥ*—quem quer que; *idam*—este; *paramam*—mais; *guhyam*—confidencial; *mat*—Meus; *bhakteṣu*—entre os devotos de; *abhidhāsyati*—explica; *bhaktim*—serviço devocional; *mayi*—a Mim; *parām*—transcendental; *kṛtvā*—tendo feito; *mām*—a Mim; *eva*—certamente; *eṣyati*—vem; *asaṁśayaḥ*—sem dúvida.", "translation": "**Para aquele que explica o segredo supremo aos devotos, o serviço devocional é garantido, e ao final ele voltará a Mim.**", "purport": "Geralmente aconselha-se que o *Bhagavad-gītā* seja discutido apenas entre devotos, pois aqueles que não são devotos não compreenderão nem Kṛṣṇa nem o *Bhagavad-gītā*. Aqueles que não aceitam Kṛṣṇa como Ele é e o *Bhagavad-gītā* tal como é não devem tentar explicar o *Bhagavad-gītā* caprichosamente e tornar-se ofensores. O *Bhagavad-gītā* deve ser explicado a pessoas que estejam prontas a aceitar Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. É um tema apenas para os devotos e não para os especuladores filosóficos. Quem quer que, contudo, tente sinceramente apresentar o *Bhagavad-gītā* tal como é avançará em atividades devocionais e alcançará o estado de devoção pura na vida. Como resultado de tal devoção pura, é certo que voltará ao lar, voltará ao Supremo."}
{"ref": "bg/18/69", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/69/", "verse_text": "na ca tasmān manuṣyeṣu\n\nkaścin me priya-kṛttamaḥ\n\nbhavitā na ca me tasmād\n\nanyaḥ priyataro bhuvi", "devanagari": "> न च तस्मान्मनुष्येषु कश्चिन्मे प्रियकृत्तमः ।\n> भविता न च मे तस्मादन्यः प्रियतरो भुवि ॥६९॥", "synonyms": "*na*—nunca; *ca*—e; *tasmāt*—portanto; *manuṣyeṣu*—entre a humanidade; *kaścit*—alguém; *me*—Meu; *priya-kṛttamaḥ*—mais querido; *bhavitā*—tornar-se-á; *na*—não; *ca*—e; *me*—Meu; *tasmāt*—do que ele; *anyaḥ*—outro; *priyataraḥ*—mais querido; *bhuvi*—neste mundo.", "translation": "**Não há servo neste mundo mais querido a Mim do que ele, nem jamais haverá outro mais querido.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/70", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/70/", "verse_text": "adhyeṣyate ca ya imaṁ\n\ndharmyaṁ saṁvādam āvayoḥ\n\njñāna-yajñena tenāham\n\niṣṭaḥ syām iti me matiḥ", "devanagari": "> अध्येष्यते च य इमं धर्म्यं संवादमावयोः ।\n> ज्ञानयज्ञेन तेनाहमिष्टः स्यामिति मे मतिः ॥७०॥", "synonyms": "*adhyeṣyate*—estudará; *ca*—também; *yaḥ*—ele; *imam*—esta; *dharmyaṁ*—sagrada; *saṁvādam*—conversa; *āvayoḥ*—nossa; *jñāna*—conhecimento; *yajñena*—pelo sacrifício; *tena*—por ele; *aham*—Eu; *iṣṭaḥ*—adorado; *syām*—serei; *iti*—assim; *me*—Minha; *matiḥ*—opinião.", "translation": "**E declaro que aquele que estuda esta sagrada conversa Me adora pela sua inteligência.**", "purport": ""}
{"ref": "bg/18/71", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/71/", "verse_text": "śraddhāvān anasūyaś ca\n\nśṛṇuyād api yo naraḥ\n\nso 'pi muktaḥ śubhāl lokān\n\nprāpnuyāt puṇya-karmaṇām", "devanagari": "> श्रद्धावाननसूयश्च शृणुयादपि यो नरः ।\n> सोऽपि मुक्तः शुभाँल्लोकान्प्राप्नुयात्पुण्यकर्मणाम् ॥७१॥", "synonyms": "*sraddhāvan*—fiel; *anasūyaḥ ca*—e não-invejoso; *śṛṇuyāt*—ouve; *api*—certamente; *yaḥ*—quem; *naraḥ*—homem; *saḥ api*—ele também; *muktaḥ*—sendo liberado; *śubhān*—auspiciosos; *lokān*—planetas; *prāpnuyāt*—alcança; *puṇya-karmaṇām*—dos passados.", "translation": "**E aquele que ouve com fé e sem inveja livra-se das reações pecaminosas e alcança os planetas onde habitam os piedosos.**", "purport": "No verso 67 deste capítulo, o Senhor proibiu explicitamente que o *Gītā* seja falado àqueles que invejam o Senhor. Em outras palavras, o *Bhagavad-gītā* é apenas para os devotos, mas acontece que, às vezes, um devoto do Senhor realiza uma classe aberta, e nessa classe não se espera que todos os alunos sejam devotos. Por que tais pessoas realizam uma classe aberta? Explica-se aqui que, embora nem todos sejam devotos, há ainda muitos homens que não invejam Kṛṣṇa. Têm fé Nele como a Suprema Personalidade de Deus. Se tais pessoas ouvirem de um devoto genuíno sobre o Senhor, o resultado é que ficam imediatamente livres de todas as reações pecaminosas e, depois disso, alcançam o sistema planetário onde se situam todas as pessoas justas. Por isso, simplesmente ouvindo o *Bhagavad-gītā*, mesmo a pessoa que não tenta ser devoto puro alcança o resultado das atividades justas. Assim, o devoto puro do Senhor dá a todos a oportunidade de se livrarem de todas as reações pecaminosas e de tornarem-se devotos do Senhor.\n\n\n\nEm geral, aqueles que estão livres de reações pecaminosas são justos. Tais pessoas adotam muito facilmente a consciência de Kṛṣṇa. A palavra puṇya-karmaṇām é muito significativa aqui. Refere-se à realização de grande sacrifício. Aqueles que são justos na execução do serviço devocional, mas que não são puros, podem alcançar o sistema planetário da estrela polar, ou Dhruvaloka, onde Dhruva Mahārāja preside. Ele é um grande devoto do Senhor, e tem um planeta especial, que se chama estrela polar."}
{"ref": "bg/18/72", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/72/", "verse_text": "kaccid etac chrutaṁ pārtha\n\ntvayaikāgreṇa cetasā\n\nkaccid ajñāna-sammohaḥ\n\npraṇaṣṭas te dhanañjaya", "devanagari": "> कच्चिदेतच्छ्रुतं पार्थ त्वयैकाग्रेण चेतसा ।\n> कच्चिदज्ञानसम्मोहः प्रनष्टस्ते धनञ्जय ॥७२॥", "synonyms": "*kaccit*—acaso; *etat*—isto; *śrutam*—ouvido; *pārtha*—ó filho de Pṛthā; *tvayā*—por ti; *ekāgreṇa*—com plena atenção; *cetasā*—pela mente; *kaccit*—acaso; *ajñāna*—ignorante; *saṁmohaḥ*—ilusão; *praṇaṣṭaḥ*—dissipada; *te*—de ti; *dhanañjaya*—ó conquistador das riquezas (Arjuna).", "translation": "**Ó conquistador das riquezas, Arjuna, ouviste isto atentamente com a tua mente? E estão agora dissipadas as tuas ilusões e a tua ignorância?**", "purport": "O Senhor estava agindo como o mestre espiritual de Arjuna. Por isso, era Seu dever indagar a Arjuna se ele havia compreendido todo o *Bhagavad-gītā* em sua justa perspectiva. Caso contrário, o Senhor estava pronto a re-explicar qualquer ponto, ou todo o *Bhagavad-gītā*, se necessário. Na verdade, quem quer que ouça o *Bhagavad-gītā* de um mestre espiritual genuíno como Kṛṣṇa ou Seu representante constatará que toda a sua ignorância se dissipa. O *Bhagavad-gītā* não é um livro comum escrito por um poeta ou um romancista; é falado pela Suprema Personalidade de Deus. Toda pessoa, se for afortunada o bastante para ouvir estes ensinamentos de Kṛṣṇa ou de Seu representante espiritual genuíno, certamente se tornará uma pessoa liberada e sairá da escuridão da ignorância."}
{"ref": "bg/18/73", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/73/", "verse_text": "arjuna uvāca\n\nnaṣṭo mohaḥ smṛtir labdhā\n\ntvat-prasādān mayācyuta\n\nsthito 'smi gata-sandehaḥ\n\nkariṣye vacanaṁ tava", "devanagari": "> अर्जुन उवाच ।\n> नष्टो मोहः स्मृतिर्लब्धा त्वत्प्रसादान्मयाच्युत ।\n> स्थितोऽस्मि गतसन्देहः करिष्ये वचनं तव ॥७३॥", "synonyms": "*arjunaḥ uvāca*—Arjuna disse; *naṣṭaḥ*—dissipada; *mohaḥ*—ilusão; *smṛtiḥ*—memória; *labdhā*—recobrada; *tvat-prasādāt*—por Tua misericórdia; *mayā*—por mim; *acyuta*—ó infalível Kṛṣṇa; *sthitaḥ*—situado; *asmi*—estou; *gata*—removidas; *sandehaḥ*—todas as dúvidas; *kariṣye*—executarei; *vacanam*—ordem; *tava*—Tua.", "translation": "**Arjuna disse: Meu querido Kṛṣṇa, ó infalível, minha ilusão agora se foi. Recobrei a memória por Tua misericórdia, e estou agora firme e livre de dúvida e pronto para agir conforme as Tuas instruções.**", "purport": "A posição constitucional de uma entidade viva, representada por Arjuna, é que ela tem de agir conforme a ordem do Senhor Supremo. Está destinada à autodisciplina. Śrī Caitanya Mahāprabhu diz que a verdadeira posição da entidade viva é a de servo eterno do Senhor Supremo. Esquecendo este princípio, a entidade viva fica condicionada pela natureza material, mas, ao servir o Senhor Supremo, torna-se o servo liberado de Deus. A posição constitucional da entidade viva é ser servidor; ela tem de servir, ou à ilusória māyā, ou ao Senhor Supremo. Se servir ao Senhor Supremo, está em sua condição normal, mas se preferir servir à ilusória energia externa, então certamente estará em cativeiro. Em ilusão, a entidade viva está servindo neste mundo material. Está atada por sua luxúria e seus desejos, mas pensa em si mesma como o amo do mundo. Isso se chama ilusão. Quando uma pessoa é liberada, sua ilusão se desfaz, e voluntariamente se rende ao Supremo para agir conforme Seus desejos. A última ilusão, a última armadilha de māyā para enredar a entidade viva, é a proposição de que ela é Deus. A entidade viva pensa que não é mais uma alma condicionada, mas Deus. Ela é tão pouco inteligente que não pensa que, se fosse Deus, como poderia estar em dúvida? Isso ela não considera. Logo, esta é a última armadilha da ilusão. Na verdade, libertar-se da energia ilusória é compreender *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, e concordar em agir conforme Sua ordem. A palavra mohaḥ é muito importante neste verso. Mohaḥ refere-se àquilo que se opõe ao conhecimento. Na verdade, o verdadeiro conhecimento é a compreensão de que todo ser vivo é eternamente servidor do Senhor, mas, em vez de pensar-se nessa posição, a entidade viva pensa que não é serva, que é o amo deste mundo material, pois deseja assenhorear-se da natureza material. Essa é a sua ilusão. Esta ilusão pode ser superada pela misericórdia do Senhor ou pela misericórdia de um devoto puro. Quando essa ilusão se desfaz, a pessoa concorda em agir em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é agir conforme a ordem de Kṛṣṇa. Uma alma condicionada iludida pela energia externa da matéria não sabe que o Senhor Supremo é o amo, que é pleno de conhecimento e que é o proprietário de tudo. Tudo o que Ele desejar, pode conferir aos Seus devotos; é amigo de todos, e sente-se especialmente inclinado para com Seu devoto. É o controlador desta natureza material e de todas as entidades vivas. É também o controlador do tempo inesgotável, e é pleno de todas as opulências e de todas as potências. A Suprema Personalidade de Deus pode até dar-Se ao devoto. Aquele que não O conhece está sob o feitiço da ilusão; não se torna devoto, mas servidor de māyā. Arjuna, contudo, depois de ouvir o *Bhagavad-gītā* da Suprema Personalidade de Deus, ficou livre de toda ilusão. Pôde compreender que Kṛṣṇa não era apenas seu amigo, mas a Suprema Personalidade de Deus. E compreendeu Kṛṣṇa de fato. Logo, estudar o *Bhagavad-gītā* é compreender Kṛṣṇa de fato. Quando uma pessoa está em pleno conhecimento, naturalmente se rende a Kṛṣṇa. Quando Arjuna compreendeu que era plano de Kṛṣṇa reduzir o aumento desnecessário da população, concordou em lutar conforme o desejo de Kṛṣṇa. Tomou novamente suas armas—suas flechas e seu arco—para lutar sob a ordem da Suprema Personalidade de Deus."}
{"ref": "bg/18/74", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/74/", "verse_text": "sañjaya uvāca\n\nity ahaṁ vāsudevasya\n\npārthasya ca mahātmanaḥ\n\nsaṁvādam imam aśrauṣam\n\nadbhutaṁ roma-harṣaṇam", "devanagari": "> सञ्जय उवाच ।\n> इत्यहं वासुदेवस्य पार्थस्य च महात्मनः ।\n> संवादमिममश्रौषमद्भुतं रोमहर्षणम् ॥७४॥", "synonyms": "*sañjayaḥ uvāca*—Sañjaya disse; *iti*—assim; *aham*—eu; *vāsudevasya*—de Kṛṣṇa; *pārthasya*—de Arjuna; *ca*—também; *mahātmanaḥ*—duas grandes almas; *saṁvādam*—discutindo; *imam*—esta; *aśrauṣam*—ouvi; *adbhutam*—maravilha; *romaharṣaṇam*—arrepiando os cabelos.", "translation": "**Sañjaya disse: Assim ouvi a conversa entre duas grandes almas, Kṛṣṇa e Arjuna. E tão maravilhosa é essa mensagem que meus cabelos se arrepiam.**", "purport": "No princípio do *Bhagavad-gītā*, Dhṛtarāṣṭra perguntou ao seu secretário Sañjaya: “O que aconteceu no Campo de Batalha de Kurukṣetra?” Todo o estudo foi relatado ao coração de Sañjaya pela graça de seu mestre espiritual, Vyāsa. Ele assim explicou o tema do campo de batalha. A conversa foi maravilhosa porque uma conversa tão importante entre duas grandes almas jamais ocorrera antes e jamais ocorreria de novo. É maravilhosa porque a Suprema Personalidade de Deus está falando sobre Si mesmo e Suas energias à entidade viva, Arjuna, um grande devoto do Senhor. Se seguirmos os passos de Arjuna para compreender Kṛṣṇa, então nossa vida será feliz e bem-sucedida. Sañjaya percebeu isto, e, à medida que começou a compreendê-lo, relatou a conversa a Dhṛtarāṣṭra. Ora, conclui-se que onde quer que estejam Kṛṣṇa e Arjuna, ali há vitória."}
{"ref": "bg/18/75", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/75/", "verse_text": "vyāsa-prasādāc chrutavān\n\netad guhyam ahaṁ param\n\nyogaṁ yogeśvarāt kṛṣṇāt\n\nsākṣāt kathayataḥ svayam", "devanagari": "> व्यासप्रसादाच्छ्रुतवानेतद्गुह्यमहं परम् ।\n> योगं योगेश्वरात्कृष्णात्साक्षात्कथयतः स्वयम् ॥७५॥", "synonyms": "*vyāsa-prasādāt*—pela misericórdia de Vyāsadeva; *śrutavān*—ouvi; *etat*—este; *guhyam*—confidencial; *aham*—eu; *param*—o supremo; *yogam*—misticismo; *yogeśvarāt*—do amo de todo o misticismo; *kṛṣṇāt*—de Kṛṣṇa; *sākṣāt*—diretamente; *kathayataḥ*—falando; *svayam*—pessoalmente.", "translation": "**Pela misericórdia de Vyāsa, ouvi estas palestras mais confidenciais diretamente do amo de todo o misticismo, Kṛṣṇa, que falava pessoalmente a Arjuna.**", "purport": "Vyāsa era o mestre espiritual de Sañjaya, e Sañjaya admite que foi por sua misericórdia que ele pôde compreender a Suprema Personalidade de Deus. Isso significa que se tem de compreender Kṛṣṇa não diretamente, mas por meio do mestre espiritual. O mestre espiritual é o meio transparente, embora seja verdade que a experiência é direta. Este é o mistério da sucessão discipular. Quando o mestre espiritual é genuíno, então pode-se ouvir o *Bhagavad-gītā* diretamente, como Arjuna o ouviu. Há muitos místicos e yogīs em todo o mundo, mas Kṛṣṇa é o amo de todos os sistemas de yoga. A instrução de Kṛṣṇa está explicitamente declarada no *Bhagavad-gītā*—rende-te a Kṛṣṇa. Aquele que assim faz é o mais elevado yogī. Isso confirma-se no último verso do Sexto Capítulo. Yoginām api sarveṣām.\n\n\n\nNārada é o discípulo direto de Kṛṣṇa e o mestre espiritual de Vyāsa. Por isso, Vyāsa é tão genuíno como Arjuna, pois vem na sucessão discipular, e Sañjaya é o discípulo direto de Vyāsa. Logo, pela graça de Vyāsa, seus sentidos foram purificados, e ele pôde ver e ouvir Kṛṣṇa diretamente. Aquele que ouve Kṛṣṇa diretamente pode compreender este conhecimento confidencial. Se a pessoa não vem para a sucessão discipular, não pode ouvir Kṛṣṇa; portanto, seu conhecimento é sempre imperfeito, ao menos no que diz respeito à compreensão do *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā*, todos os sistemas de yoga, karma-yoga, jñāna-yoga e bhakti-yoga, são explicados. Kṛṣṇa é o amo de todo esse misticismo. Deve-se compreender, contudo, que, assim como Arjuna foi afortunado o suficiente para compreender Kṛṣṇa diretamente, da mesma forma, pela graça de Vyāsa, Sañjaya também pôde ouvir Kṛṣṇa diretamente. Na verdade, não há diferença entre ouvir diretamente de Kṛṣṇa ou ouvir diretamente de Kṛṣṇa por meio de um mestre espiritual genuíno como Vyāsa. O mestre espiritual também é o representante de Vyāsadeva. Segundo o sistema Védico, no aniversário do mestre espiritual, os discípulos realizam a cerimônia chamada Vyāsa-pūjā."}
{"ref": "bg/18/76", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/76/", "verse_text": "rājan saṁsmṛtya saṁsmṛtya\n\nsaṁvādam imam adbhutam\n\nkeśavārjunayoḥ puṇyaṁ\n\nhṛṣyāmi ca muhur muhuḥ", "devanagari": "> राजन्संस्मृत्य संस्मृत्य संवादमिममद्भुतम् ।\n> केशवार्जुनयोः पुण्यं हृष्यामि च मुहुर्मुहुः ॥७६॥", "synonyms": "*rājan*—ó Rei; *saṁsmṛtya*—lembrando; *saṁsmṛtya*—lembrando; *saṁvādam*—mensagem; *imam*—esta; *adbhutam*—maravilhosa; *keśava*—o Senhor Kṛṣṇa; *arjunayoḥ*—e Arjuna; *puṇyam*—piedosa; *hṛṣyāmi*—regozijo-me; *ca*—também; *muhuḥ muhuḥ*—sempre, repetidamente.", "translation": "**Ó Rei, à medida que repetidamente recordo este maravilhoso e sagrado diálogo entre Kṛṣṇa e Arjuna, regozijo-me, sentindo-me emocionado a cada momento.**", "purport": "A compreensão do *Bhagavad-gītā* é tão transcendental que quem quer que se torne familiarizado com os tópicos de Arjuna e Kṛṣṇa torna-se justo, e não pode esquecer tais palestras. Esta é a posição transcendental da vida espiritual. Em outras palavras, aquele que ouve o *Gītā* da fonte certa, diretamente de Kṛṣṇa, alcança a plena consciência de Kṛṣṇa. O resultado da consciência de Kṛṣṇa é que a pessoa torna-se cada vez mais iluminada e desfruta da vida com emoção, não apenas por algum tempo, mas a cada momento."}
{"ref": "bg/18/77", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/77/", "verse_text": "tac ca saṁsmṛtya saṁsmṛtya\n\nrūpam aty-adbhutaṁ hareḥ\n\nvismayo me mahān rājan\n\nhṛṣyāmi ca punaḥ punaḥ", "devanagari": "> तच्च संस्मृत्य संस्मृत्य रूपमत्यद्भुतं हरेः ।\n> विस्मयो मे महान् राजन्हृष्यामि च पुनः पुनः ॥७७॥", "synonyms": "*tat*—essa; *ca*—também; *saṁsmṛtya*—lembrando; *saṁsmṛtya*—lembrando; *rūpam*—forma; *ati*—grande; *adbhutam*—maravilhosa; *hareḥ*—do Senhor Kṛṣṇa; *vismayaḥ*—maravilha; *me*—minha; *mahān*—grande; *rājan*—ó Rei, hṛṣyāmi–regozijando-me; *ca*—também; *punaḥ punaḥ*—repetidamente.", "translation": "**Ó Rei, quando me lembro da maravilhosa forma do Senhor Kṛṣṇa, fico tomado por uma maravilha ainda maior, e regozijo-me uma e outra vez.**", "purport": "Parece que Sañjaya também, pela graça de Vyāsa, pôde ver a forma universal de Kṛṣṇa exibida a Arjuna. É claro, diz-se que o Senhor Kṛṣṇa jamais havia exibido tal forma antes. Foi exibida apenas a Arjuna, mas alguns grandes devotos também puderam ver a forma universal de Kṛṣṇa quando ela foi mostrada a Arjuna, e Vyāsa foi um deles. Ele é um dos grandes devotos do Senhor, e é considerado uma poderosa encarnação de Kṛṣṇa. Vyāsa revelou isso ao seu discípulo, Sañjaya, que se lembrou daquela maravilhosa forma de Kṛṣṇa exibida a Arjuna e dela desfrutou repetidamente."}
{"ref": "bg/18/78", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/18/78/", "verse_text": "yatra yogeśvaraḥ kṛṣṇo\n\nyatra pārtho dhanur-dharaḥ\n\ntatra śrīr vijayo bhūtir\n\ndhruvā nītir matir mama", "devanagari": "> यत्र योगेश्वरः कृष्णो यत्र पार्थो धनुर्धरः ।\n> तत्र श्रीर्विजयो भूतिर्ध्रुवा नीतिर्मतिर्मम ॥७८॥", "synonyms": "*yatra*—onde; *yogeśvaraḥ*—o amo do misticismo; *kṛṣṇaḥ*—o Senhor Kṛṣṇa; *yatra*—onde; *pārthaḥ*—o filho de Pṛthā; *dhanur-dharaḥ*—o portador do arco e da flecha; *tatra*—ali; *śrīḥ*—opulência; *vijayaḥ*—vitória; *bhūtiḥ*—poder excepcional; *dhruvā*—certamente; *nītiḥ*—moralidade; *matiḥ mama*—é minha opinião.", "translation": "**Onde quer que esteja Kṛṣṇa, o amo de todos os místicos, e onde quer que esteja Arjuna, o supremo arqueiro, ali certamente também haverá opulência, vitória, poder extraordinário e moralidade. Esta é a minha opinião.**", "purport": "O *Bhagavad-gītā* começou com uma pergunta de Dhṛtarāṣṭra. Ele tinha esperança da vitória de seus filhos, auxiliados por grandes guerreiros como Bhīṣma, Droṇa e Karṇa. Tinha esperança de que a vitória seria do seu lado. Mas, depois de descrever a cena no campo de batalha, Sañjaya disse ao Rei: “Pensas em vitória, mas a minha opinião é que onde quer que estejam presentes Kṛṣṇa e Arjuna, ali haverá toda a boa fortuna.” Ele confirmou diretamente que Dhṛtarāṣṭra não podia esperar a vitória para o seu lado. A vitória estava certa para o lado de Arjuna, pois Kṛṣṇa estava ali. A aceitação por parte de Kṛṣṇa do posto de quadrigário de Arjuna foi a exibição de outra opulência. Kṛṣṇa é pleno de todas as opulências, e a renúncia é uma delas. Há muitos exemplos de tal renúncia, pois Kṛṣṇa é também o amo da renúncia.\n\n\n\nA luta era, na verdade, entre Duryodhana e Yudhiṣṭhira. Arjuna lutava em nome de seu irmão mais velho, Yudhiṣṭhira. Visto que Kṛṣṇa e Arjuna estavam do lado de Yudhiṣṭhira, a vitória de Yudhiṣṭhira era certa. A batalha decidiria quem governaria o mundo, e Sañjaya predisse que o poder seria transferido a Yudhiṣṭhira. Aqui também se prediz que Yudhiṣṭhira, depois de obter a vitória nesta batalha, prosperaria cada vez mais, pois não era apenas justo e piedoso, mas era um estrito moralista. Jamais proferiu uma mentira durante a sua vida.\n\n\n\nHá muitas pessoas pouco inteligentes que tomam o *Bhagavad-gītā* como uma discussão de tópicos entre dois amigos num campo de batalha. Mas tal livro não pode ser uma escritura. Alguns podem protestar que Kṛṣṇa incitou Arjuna a lutar, o que é imoral, mas a realidade da situação afirma-se claramente: o *Bhagavad-gītā* é a instrução suprema em moralidade. A instrução suprema da moralidade afirma-se no Nono Capítulo, no trigésimo quarto verso: manmanā bhava mad-bhaktaḥ. Deve-se tornar-se devoto de Kṛṣṇa, e a essência de toda religião é render-se a Kṛṣṇa, conforme se afirma, Sarva-dharmān. As instruções do *Bhagavad-gītā* constituem o supremo processo de religião e moralidade. Todos os outros processos podem ser purificadores e podem conduzir a este processo, mas a última instrução do *Gītā* é a última palavra em toda moralidade e religião: render-se a Kṛṣṇa. Este é o veredito do Décimo Oitavo Capítulo.\n\n\n\nPelo *Bhagavad-gītā* podemos compreender que perceber a si mesmo pela especulação filosófica e pela meditação é um processo, mas render-se plenamente a Kṛṣṇa é a mais alta perfeição. Esta é a essência dos ensinamentos do *Bhagavad-gītā*. A senda dos princípios reguladores conforme as ordens da vida social e conforme os diferentes cursos da religião pode ser uma senda confidencial de conhecimento, na medida em que os rituais da religião são confidenciais, mas a pessoa ainda está envolvida com meditação e cultivo de conhecimento. A rendição a Kṛṣṇa em serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa é a instrução mais confidencial e é a essência do Décimo Oitavo Capítulo.\n\n\n\nOutro aspecto do *Bhagavad-gītā* é que a verdade efetiva é a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. A Verdade Absoluta percebe-se em três aspectos—Brahman impessoal, Paramātmā localizado e a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. O conhecimento perfeito da Verdade Absoluta significa o conhecimento perfeito de Kṛṣṇa. Se a pessoa compreende Kṛṣṇa, então todos os departamentos do conhecimento são parte integrante dessa compreensão. Kṛṣṇa é transcendental, pois está sempre situado em Sua eterna potência interna. As entidades vivas se manifestam e dividem-se em duas classes: eternamente condicionadas e eternamente liberadas. Tais entidades vivas são inumeráveis, e são consideradas partes fundamentais de Kṛṣṇa. A energia material manifesta-se em vinte e quatro divisões. A criação se efetua pelo tempo eterno, e é criada e dissolvida pela energia externa. Esta manifestação do mundo cósmico repetidamente se torna visível e invisível.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā* discutiram-se cinco temas principais: a Suprema Personalidade de Deus, a natureza material, as entidades vivas, o tempo eterno e todas as espécies de atividades. Todas estas dependem da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Todas as concepções da Verdade Absoluta, a saber, Brahman impessoal, Paramātmā localizado ou qualquer outra concepção transcendental, existem dentro da categoria da compreensão da Suprema Personalidade de Deus. Embora superficialmente a Suprema Personalidade de Deus, a entidade viva, a natureza material e o tempo pareçam ser diferentes, nada é diferente do Supremo. Mas o Supremo é sempre diferente de tudo. A filosofia do Senhor Caitanya é a de “inconcebivelmente uno e diferente”. Este sistema de filosofia constitui o conhecimento perfeito da Verdade Absoluta.\n\n\n\nA entidade viva, em sua posição original, é espírito puro. É como uma partícula atômica do Espírito Supremo. A entidade viva condicionada, contudo, é a energia marginal do Senhor; tende a estar em contato tanto com a energia material quanto com a energia espiritual. Em outras palavras, a entidade viva está situada entre as duas energias do Senhor e, como pertence à energia superior do Senhor, possui uma partícula de independência. Pelo uso adequado dessa independência, ela passa para a direção direta de Kṛṣṇa. Assim, alcança sua condição normal na potência que dá prazer.\n\n\n\nAssim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Oitavo Capítulo do Śrīmad-*Bhagavad-gītā*, em sua Conclusão—A Perfeição da Renúncia."}
{"ref": "bg/0a", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/0a/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Dedicatória", "purport": "A\n**ŚRĪLA BALADEVA VIDYĀBHŪṢAṆA**\nque apresentou tão belamente o comentário \"Govinda-bhāṣya\" \nsobre a filosofia Vedānta"}
{"ref": "bg/0b", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/0b/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Prefácio", "purport": "O *Bhagavad-gītā* é o mais conhecido e o mais frequentemente traduzido dos textos religiosos Védicos. Por que ele deveria ser tão atraente para a mente ocidental é uma questão interessante. Tem drama, pois seu cenário é uma cena de dois grandes exércitos, com bandeiras tremulando, dispostos um diante do outro no campo, prontos para a batalha. Tem ambiguidade, e o fato de que Arjuna e seu quadrigário Kṛṣṇa conduzem seu diálogo entre os dois exércitos sugere a indecisão de Arjuna diante da questão fundamental: deve ele entrar em combate contra aqueles que são amigos e parentes, e matá-los? Tem mistério, pois Kṛṣṇa demonstra a Arjuna Sua forma cósmica. Tem uma visão devidamente complexa das vias da vida religiosa, e trata das sendas do conhecimento, das obras, da disciplina e da fé e de suas inter-relações — problemas que afligiram os adeptos de outras religiões em outros tempos e lugares. A devoção de que se fala é um meio deliberado de satisfação religiosa, não um mero transbordamento de emoção poética. Depois do *Bhāgavata-purāṇa*, uma extensa obra do sul da Índia, o *Gītā* é o texto mais frequentemente citado nos escritos filosóficos da escola Gauḍīya Vaiṣṇava, a escola representada por Swami Bhaktivedanta como o mais recente de uma longa sucessão de mestres. Pode-se dizer que essa escola do vaiṣṇavismo foi fundada, ou revivida, por Śrī Kṛṣṇa-Caitanya Mahāprabhu (1486-1533) em Bengala, e que ela é atualmente a mais forte força religiosa isolada na parte oriental do subcontinente indiano. A escola Gauḍīya Vaiṣṇava, para a qual Kṛṣṇa é o próprio Deus Supremo, e não meramente uma encarnação de outra deidade, vê o *bhakti* como uma força religiosa imediata e poderosa, que consiste no amor entre o homem e Deus. Sua disciplina consiste em dedicar todas as próprias ações à Deidade, e a pessoa ouve as narrativas de Kṛṣṇa a partir dos textos sagrados, canta o nome de Kṛṣṇa, lava, banha e veste o *mūrti* de Kṛṣṇa, alimenta-O e recebe os restos do alimento que Lhe foi oferecido, absorvendo assim Sua graça; a pessoa faz essas coisas e muitas outras, até que se opera uma transformação: o devoto se transforma em alguém próximo de Kṛṣṇa e vê o Senhor face a face.\n\nSwami Bhaktivedanta comenta o *Gītā* desse ponto de vista, e isso é legítimo. Mais do que isso, nesta tradução o leitor ocidental tem a oportunidade ímpar de ver como um devoto de Kṛṣṇa interpreta seus próprios textos. É a tradição exegética Védica, justamente famosa, em ação. Este livro é, portanto, um acréscimo bem-vindo sob muitos pontos de vista. Pode servir como um valioso livro didático para o estudante universitário. Permite-nos ouvir um intérprete habilidoso explicando um texto que possui profundo significado religioso. Dá-nos discernimento sobre as ideias originais e altamente convincentes da escola Gauḍīya Vaiṣṇava. Ao fornecer o sânscrito tanto em Devanagari quanto em transliteração, oferece ao especialista em sânscrito a oportunidade de reinterpretar, ou de debater, determinados significados sânscritos — embora eu pense que haverá pouca discordância quanto à qualidade da erudição sânscrita do Swami. E, finalmente, para o não especialista, há um inglês legível e uma atitude devocional que não pode deixar de comover o leitor sensível. E há as pinturas, as quais, por mais incrível que possa parecer àqueles familiarizados com a arte religiosa indiana contemporânea, foram feitas por devotos americanos.\n\nO erudito, o estudioso do vaiṣṇavismo Gauḍīya e o número crescente de leitores ocidentais interessados no pensamento Védico clássico receberam um serviço da parte de Swami Bhaktivedanta. Ao trazer-nos uma nova e viva interpretação de um texto já conhecido por muitos, ele aumentou em muitas vezes a nossa compreensão; e argumentos em favor do entendimento, nestes dias de afastamento, não precisam ser apresentados.\n\nProfessor Edward C. Dimock, Jr.\n*Departamento de Línguas e Civilizações do Sul da Ásia*\n*Universidade de Chicago*"}
{"ref": "bg/0c", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/0c/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Prefácio", "purport": "Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa é genuíno, historicamente autorizado, natural e transcendental por estar baseado no *Bhagavad-gītā Como Ele É.* Ele está se tornando aos poucos o movimento mais popular do mundo inteiro, especialmente entre a geração mais jovem. Está se tornando cada vez mais interessante também para a geração mais velha. Senhores de idade estão se interessando, a tal ponto que os pais e avós de meus discípulos estão nos encorajando ao tornar-se membros vitalícios de nossa grande sociedade, a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna. Em Los Angeles, muitos pais e mães costumavam vir ver-me para exprimir seus sentimentos de gratidão por eu conduzir o movimento da consciência de Kṛṣṇa pelo mundo inteiro. Alguns deles diziam que era uma grande fortuna para os americanos que eu tivesse iniciado o movimento da consciência de Kṛṣṇa na América. Mas, na verdade, o pai original deste movimento é o próprio Senhor Kṛṣṇa, visto que ele foi iniciado há muitíssimo tempo, mas vem descendo à sociedade humana através da sucessão discipular. Se eu tenho algum mérito nesta questão, ele não me pertence pessoalmente, mas se deve a meu mestre espiritual eterno, Sua Divina Graça Oṁ Viṣṇupāda Paramahaṁsa Parivrājakācārya 108 Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja Prabhupāda.\n\nSe pessoalmente tenho algum mérito neste assunto, é apenas que tentei apresentar o *Bhagavad-gītā* como ele é, sem adulteração. Antes de minha apresentação do *Bhagavad-gītā Como Ele É,* quase todas as edições inglesas do *Bhagavad-gītā* foram apresentadas para satisfazer a ambição pessoal de alguém. Mas nossa tentativa, ao apresentar o *Bhagavad-gītā Como Ele É,* é apresentar a missão da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Nosso intuito é apresentar a vontade de Kṛṣṇa, e não a de qualquer especulador mundano como o político, o filósofo ou o cientista, pois eles têm muito pouco conhecimento de Kṛṣṇa, apesar de todo o seu outro conhecimento. Quando Kṛṣṇa diz *man-manā bhava mad-bhakto mad-yājī māṁ namaskuru,* etc., nós, ao contrário dos supostos eruditos, não dizemos que Kṛṣṇa e Seu espírito interior são diferentes. Kṛṣṇa é absoluto, e não há diferença entre o nome de Kṛṣṇa, a forma de Kṛṣṇa, a qualidade de Kṛṣṇa, os passatempos de Kṛṣṇa, etc. Esta posição absoluta de Kṛṣṇa é difícil de compreender para qualquer pessoa que não seja devota de Kṛṣṇa no sistema da *paramparā* (sucessão discipular). Em geral, os supostos eruditos, políticos, filósofos e *svāmīs,* sem conhecimento perfeito de Kṛṣṇa, tentam banir ou matar Kṛṣṇa ao escreverem comentários sobre o *Bhagavad-gītā.* Tal comentário não autorizado sobre o *Bhagavad-gītā* é conhecido como *Māyāvādī-Bhāṣya,* e o Senhor Caitanya nos advertiu acerca desses homens não autorizados. O Senhor Caitanya diz claramente que qualquer um que tente compreender o *Bhagavad-gītā* do ponto de vista Māyāvādī cometerá um grande disparate. O resultado de tal disparate será que o estudante desorientado do *Bhagavad-gītā* certamente ficará confuso na senda da orientação espiritual e não será capaz de voltar ao lar, voltar ao Supremo.\n\nNosso único propósito é apresentar este *Bhagavad-gītā Como Ele É* a fim de guiar o estudante condicionado ao mesmo propósito pelo qual Kṛṣṇa desce a este planeta uma vez por dia de Brahmā, ou a cada 8.600.000.000 de anos. Este propósito está exposto no *Bhagavad-gītā,* e temos de aceitá-lo como ele é; caso contrário, não há sentido em tentar compreender o *Bhagavad-gītā* e seu orador, o Senhor Kṛṣṇa. O Senhor Kṛṣṇa falou o *Bhagavad-gītā* pela primeira vez ao deus do sol há algumas centenas de milhões de anos. Temos de aceitar este fato e assim compreender a importância histórica do *Bhagavad-gītā,* sem interpretação errônea, com base na autoridade de Kṛṣṇa. Interpretar o *Bhagavad-gītā* sem nenhuma referência à vontade de Kṛṣṇa é a maior ofensa. A fim de salvar-se desta ofensa, a pessoa tem de compreender o Senhor como a Suprema Personalidade de Deus, tal como Ele foi diretamente compreendido por Arjuna, o primeiro discípulo do Senhor Kṛṣṇa. Tal compreensão do *Bhagavad-gītā* é realmente proveitosa e autorizada para o bem-estar da sociedade humana, no cumprimento da missão da vida.\n\nO movimento da consciência de Kṛṣṇa é essencial na sociedade humana, pois oferece a mais elevada perfeição da vida. Como isso se dá, explica-se plenamente no *Bhagavad-gītā.* Infelizmente, contendores mundanos têm tirado proveito do *Bhagavad-gītā* para impelir suas propensões demoníacas e desorientar as pessoas quanto à correta compreensão dos simples princípios da vida. Todos devem saber quão grande é Deus, ou Kṛṣṇa, e todos devem saber a posição verdadeira das entidades vivas. Todos devem saber que a entidade viva é eternamente um servo e que, a menos que sirva a Kṛṣṇa, ela terá de servir à ilusão nas diferentes variedades dos três modos da natureza material, e assim, perpetuamente, terá de vagar dentro do ciclo de nascimento e morte; até mesmo o suposto especulador Māyāvādī liberado tem de submeter-se a este processo. Este conhecimento constitui uma grande ciência, e cada um dos seres vivos tem de ouvi-lo para seu próprio interesse.\n\nAs pessoas em geral, especialmente nesta era de Kali, estão fascinadas pela energia externa de Kṛṣṇa, e pensam erroneamente que, pelo avanço dos confortos materiais, todo homem será feliz. Elas não têm conhecimento de que a natureza material, ou externa, é muito forte, pois todos estão fortemente atados pelas leis rigorosas da natureza material. A entidade viva é, felizmente, parte integrante do Senhor, e por isso sua função natural é prestar serviço imediato ao Senhor. Pelo encanto da ilusão, a pessoa tenta ser feliz servindo à gratificação de seus próprios sentidos sob diferentes formas que jamais a farão feliz. Em vez de satisfazer seus próprios sentidos materiais pessoais, ela tem de satisfazer os sentidos do Senhor. Esta é a mais elevada perfeição da vida. O Senhor deseja isto, e Ele o exige. É preciso compreender este ponto central do *Bhagavad-gītā.* Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa está ensinando este ponto central ao mundo inteiro, e, como não estamos poluindo o tema do *Bhagavad-gītā Como Ele É,* qualquer pessoa seriamente interessada em obter benefício pelo estudo do *Bhagavad-gītā* deve buscar auxílio do movimento da consciência de Kṛṣṇa para a compreensão prática do *Bhagavad-gītā* sob a orientação direta do Senhor. Esperamos, portanto, que as pessoas obtenham o maior benefício pelo estudo do *Bhagavad-gītā Como Ele É* tal como o apresentamos aqui, e, se ao menos um homem se tornar um devoto puro do Senhor, consideraremos nossa tentativa um êxito.\n\nA.C. Bhaktivedanta Swami \n12 de maio de 1971 \nSydney, Austrália"}
{"ref": "bg/0d", "book": "bg", "lang": "pt", "url": "/pt/library/bg/0d/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Introdução", "purport": "> om ajñāna-timirāndhasya jñānāñjana-śalākayā\n> cakṣur unmīlitaṁ yena tasmai śrī-gurave namaḥ\n\n> śrī-caitanya-mano ’bhīṣṭaṁ sthāpitaṁ yena bhū-tale\n> svayaṁ rūpaḥ kadā mahyaṁ dadāti sva-padāntikam\n\nNasci na mais profunda ignorância, e meu mestre espiritual abriu-me os olhos com o archote do conhecimento. A ele ofereço minhas respeitosas reverências.\n\nQuando me dará Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda, que estabeleceu dentro deste mundo material a missão de satisfazer o desejo do Senhor Caitanya, abrigo sob seus pés de lótus?\n\n> vande ’haṁ śrī-guroḥ śrī-yuta-pada-kamalaṁ śrī-gurun vaiṣṇavāṁś ca\n> śrī-rūpaṁ sāgrajātaṁ saha-gaṇa-raghunāthānvitaṁ taṁ sa-jīvam\n> sādvaitaṁ sāvadhūtaṁ parijana-sahitaṁ Kṛṣṇa-caitanya-devaṁ\n> śrī-rādhā-Kṛṣṇa-pādān saha-gaṇa-lalitā-śrī-viśākhānvitāṁś ca\n\nOfereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de meu mestre espiritual e aos pés de todos os vaiṣṇavas. Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de Śrīla Rūpa Gosvāmī, juntamente com seu irmão mais velho Sanātana Gosvāmī, bem como Raghunātha Dāsa e Raghunātha Bhaṭṭa, Gopāla Bhaṭṭa e Śrīla Jīva Gosvāmī. Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Kṛṣṇa Caitanya e ao Senhor Nityānanda, juntamente com Advaita Ācārya, Gadādhara, Śrīvāsa e outros associados. Ofereço minhas respeitosas reverências a Śrīmatī Rādhārāṇī e a Śrī Kṛṣṇa, juntamente com Seus associados, Śrī Lalitā e Viśākhā.\n\n> he Kṛṣṇa karunā-sindho dīna-bandho jagat-pate\n> gopeśa gopikā-kānta rādhā-kānta namo ’stu te\n\nÓ meu querido Kṛṣṇa, Tu és o amigo dos aflitos e a fonte da criação. És o senhor das *gopīs* e o amado de Rādhārāṇī. A Ti ofereço minhas respeitosas reverências.\n\n> tapta-kāñcana-gaurāṅgi rādhe vṛndāvaneśvari\n> vṛṣabhānu-sute devi praṇamāmi hari-priye\n\nOfereço meus respeitos a Rādhārāṇī, cuja tez corpórea é como ouro fundido e que é a Rainha de Vṛndāvana. Tu és a filha do Rei Vṛṣabhānu, e és muito querida ao Senhor Kṛṣṇa.\n\n> vāñchā-kalpatarubhyaś ca kṛpā-sindhubhya eva ca\n> patitānāṁ pāvanebhyo vaiṣṇavebhyo namo namaḥ\n\nOfereço minhas respeitosas reverências a todos os devotos vaiṣṇavas do Senhor, os quais podem satisfazer os desejos de todos, assim como as árvores-dos-desejos, e que são plenos de compaixão pelas almas caídas.\n\n> śrī Kṛṣṇa caitanya prabhu nityānanda\n> śrī advaita gadādhara śrīvāsādi-gaura-bhakta-vṛnda\n\nOfereço minhas reverências a Śrī Kṛṣṇa Caitanya, Prabhu Nityānanda, Śrī Advaita, Gadādhara, Śrīvāsa e a todos os demais na linha da devoção.\n\n> hare Kṛṣṇa, hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, hare hare\n> hare rāma, hare rāma, rāma rāma, hare hare.\n\nO *Bhagavad-gītā* também é conhecido como *Gītopaniṣad.* É a essência do conhecimento Védico e um dos mais importantes *Upaniṣads* da literatura Védica. Naturalmente, há muitos comentários em inglês sobre o *Bhagavad-gītā,* e alguém poderia indagar a necessidade de mais um. Esta presente edição pode ser explicada da seguinte maneira. Recentemente, uma senhora americana pediu-me que lhe recomendasse uma tradução do *Bhagavad-gītā* em inglês. Naturalmente, na América há tantas edições do *Bhagavad-gītā* disponíveis em inglês, mas, até onde pude ver, não só na América como também na Índia, de nenhuma delas se pode dizer rigorosamente que seja autorizada, pois em quase todas o comentador expressou suas próprias opiniões sem tocar no espírito do *Bhagavad-gītā* como ele é.\n\nO espírito do *Bhagavad-gītā* é mencionado no próprio *Bhagavad-gītā.* É exatamente assim: se quisermos tomar determinado remédio, então temos de seguir as instruções escritas no rótulo. Não podemos tomar o remédio segundo nosso próprio capricho ou conforme a orientação de um amigo. Ele deve ser tomado de acordo com as instruções do rótulo ou com as instruções dadas por um médico. De modo semelhante, o *Bhagavad-gītā* deve ser tomado ou aceito como o orienta o próprio orador. O orador do *Bhagavad-gītā* é o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Ele é mencionado em cada página do *Bhagavad-gītā* como a Suprema Personalidade de Deus, Bhagavān. Naturalmente, a palavra \"*bhagavān*\" às vezes se refere a qualquer pessoa poderosa ou a qualquer semideus poderoso, e certamente aqui Bhagavān designa o Senhor Śrī Kṛṣṇa como uma grande personalidade; mas, ao mesmo tempo, devemos saber que o Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, como confirmam todos os grandes *ācāryas* (mestres espirituais), tais como Śaṅkarācārya, Rāmānujācārya, Madhvācārya, Nimbārka Svāmī, Śrī Caitanya Mahāprabhu e muitas outras autoridades do conhecimento Védico na Índia. O próprio Senhor também Se estabelece como a Suprema Personalidade de Deus no *Bhagavad-gītā,* e é aceito como tal na *Brahma-saṁhitā* e em todos os *Purāṇas,* especialmente o *Śrīmad-Bhāgavatam,* conhecido como o *Bhāgavata Purāṇa* (*Kṛṣṇas tu bhagavān svayam*). Portanto, devemos tomar o *Bhagavad-gītā* como o orienta a própria Personalidade de Deus.\n\nNo Quarto Capítulo do *Gītā,* o Senhor diz:\n\n> (1)\n> imaṁ vivasvate yogaṁ proktavān aham avyayam\n> vivasvān manave prāha manur ikṣvākave ’bravīt\n\n> (2)\n> evaṁ paramparā-prāptam imaṁ rājarṣayo viduḥ\n> sa kāleneha mahatā yogo naṣṭaḥ parantapa\n\n> (3)\n> sa evāyaṁ mayā te ’dya yogaḥ proktaḥ purātanaḥ\n> bhakto ’si me sakhā ceti rahasyaṁ hy etad uttamam\n\nAqui o Senhor informa Arjuna de que este sistema de *yoga,* o *Bhagavad-gītā,* foi falado primeiramente ao deus do Sol, e o deus do Sol o explicou a Manu, e Manu o explicou a Ikṣvāku, e desse modo, por sucessão discipular, de um orador a outro, este sistema de *yoga* foi descendo. Mas, com o decorrer do tempo, ele se perdeu. Em consequência, o Senhor tem de falá-lo novamente, desta vez a Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra.\n\nEle diz a Arjuna que lhe está relatando este segredo supremo porque ele é Seu devoto e Seu amigo. O significado disso é que o *Bhagavad-gītā* é um tratado especialmente destinado ao devoto do Senhor. Há três classes de transcendentalistas, a saber, o *jñānī,* o *yogī* e o *bhakta,* ou seja, o impersonalista, o meditador e o devoto. Aqui o Senhor diz claramente a Arjuna que está fazendo dele o primeiro receptor de uma nova *paramparā* (sucessão discipular), pois a antiga sucessão fora rompida. Era o desejo do Senhor, portanto, estabelecer outra *paramparā* na mesma linha de pensamento que descia do deus do Sol aos demais, e era Seu desejo que Seu ensinamento fosse distribuído novamente por Arjuna. Ele queria que Arjuna se tornasse a autoridade na compreensão do *Bhagavad-gītā.* Assim, vemos que o *Bhagavad-gītā* é instruído a Arjuna especialmente porque Arjuna era um devoto do Senhor, um aluno direto de Kṛṣṇa e Seu amigo íntimo. Por isso, o *Bhagavad-gītā* é mais bem compreendido por uma pessoa que tenha qualidades semelhantes às de Arjuna. Ou seja, ela deve ser um devoto numa relação direta com o Senhor. Logo que alguém se torna um devoto do Senhor, passa a ter também uma relação direta com o Senhor. Trata-se de um assunto muito complexo, mas, em resumo, pode-se afirmar que o devoto está em relação com a Suprema Personalidade de Deus de uma de cinco maneiras diferentes:\n\n  1. A pessoa pode ser um devoto num estado passivo;\n  2. A pessoa pode ser um devoto num estado ativo;\n  3. A pessoa pode ser um devoto como amigo;\n  4. A pessoa pode ser um devoto como pai ou mãe;\n  5. A pessoa pode ser um devoto como amante conjugal.\n\nArjuna estava numa relação de amizade com o Senhor. Naturalmente, há um abismo de diferença entre esta amizade e a amizade encontrada no mundo material. Esta é uma amizade transcendental que não pode ser tida por todos. É claro que todos têm uma relação específica com o Senhor, e essa relação é evocada pela perfeição do serviço devocional. Mas, no atual estado de nossa vida, não somente nos esquecemos do Senhor Supremo, como também nos esquecemos de nossa relação eterna com o Senhor. Todo ser vivo, dentre muitos e muitos bilhões e trilhões de seres vivos, tem eternamente uma relação específica com o Senhor. Isso se chama *svarūpa.* Pelo processo do serviço devocional, a pessoa pode reviver esse *svarūpa,* e essa fase se chama *svarūpa-siddhi*—a perfeição de sua posição constitucional. Portanto, Arjuna era um devoto, e estava em contato com o Senhor Supremo em amizade.\n\nDeve-se notar como Arjuna aceitou este *Bhagavad-gītā.* Sua maneira de aceitação é apresentada no Décimo Capítulo.\n\n> (12)\n> arjuna uvāca\n> paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān\n> puruṣaṁ śāśvataṁ divyam ādi-devam ajaṁ vibhum\n\n> (13)\n> āhus tvām ṛṣayaḥ sarve devarṣir nāradas tathā\n> asito devalo vyāsaḥ svayaṁ caiva bravīṣi me\n\n> (14)\n> sarvam etad ṛtaṁ manye yan māṁ vadasi keśava\n> na hi te bhagavan vyaktiṁ vidur devā na dānavāḥ\n\n\"Arjuna disse: Tu és o Brahman Supremo, o derradeiro, a morada suprema e o purificador, a Verdade Absoluta e a eterna Pessoa Divina. És o Deus primordial, transcendental e original, e és a beleza não nascida e onipenetrante. Todos os grandes sábios, como Nārada, Asita, Devala e Vyāsa, proclamam isso a Teu respeito, e agora Tu mesmo o estás declarando a mim. Ó Kṛṣṇa, aceito por completo como verdade tudo o que me disseste. Nem os deuses nem os demônios, ó Senhor, conhecem Tua personalidade.\" (Bg. 10.12-14).\n\nApós ouvir o *Bhagavad-gītā* da Suprema Personalidade de Deus, Arjuna aceitou Kṛṣṇa como *Paraṁ Brahma,* o Brahman Supremo. Todo ser vivo é Brahman, mas o ser vivo supremo, ou a Suprema Personalidade de Deus, é o Brahman Supremo. *Paraṁ dhāma* significa que Ele é o repouso ou a morada suprema de tudo; *pavitram* significa que Ele é puro, imaculado pela contaminação material; *puruṣam* significa que Ele é o desfrutador supremo; *divyam,* transcendental; *ādi-devam,* a Suprema Personalidade de Deus; *ajam,* o não nascido; e *vibhum,* o maior, o onipenetrante.\n\nOra, alguém poderia pensar que, por Kṛṣṇa ser o amigo de Arjuna, Arjuna Lhe dizia tudo isso à guisa de lisonja; mas Arjuna, justamente para afastar essa espécie de dúvida das mentes dos leitores do *Bhagavad-gītā,* fundamenta esses louvores no verso seguinte, quando diz que Kṛṣṇa é aceito como a Suprema Personalidade de Deus não apenas por ele, mas por autoridades como o sábio Nārada, Asita, Devala, Vyāsadeva e assim por diante. Estas são grandes personalidades que distribuem o conhecimento Védico tal como é aceito por todos os *ācāryas.* Por isso, Arjuna diz a Kṛṣṇa que aceita tudo o que Ele diz como completamente perfeito. *Sarvam etad ṛtaṁ manye:* \"Aceito como verdadeiro tudo o que dizes.\" Arjuna também diz que a personalidade do Senhor é muito difícil de compreender e que nem mesmo os grandes semideuses podem conhecê-la. Isso significa que o Senhor não pode ser conhecido nem mesmo por personalidades maiores do que os seres humanos. Então, como pode um ser humano compreender Śrī Kṛṣṇa sem tornar-se Seu devoto?\n\nPor conseguinte, o *Bhagavad-gītā* deve ser abordado num espírito de devoção. Ninguém deve pensar que é igual a Kṛṣṇa, nem deve pensar que Kṛṣṇa é uma personalidade comum, ou mesmo uma personalidade muito grandiosa. O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, ao menos teoricamente, segundo as afirmações do *Bhagavad-gītā* ou as afirmações de Arjuna, a pessoa que está tentando compreender o *Bhagavad-gītā.* Devemos, pois, ao menos teoricamente, aceitar Śrī Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, e com esse espírito submisso podemos compreender o *Bhagavad-gītā.* A menos que se leia o *Bhagavad-gītā* num espírito submisso, é muito difícil compreender o *Bhagavad-gītā,* pois ele é um grande mistério.\n\nAfinal, o que é o *Bhagavad-gītā?* O propósito do *Bhagavad-gītā* é libertar a humanidade da nesciência da existência material. Todo homem está em dificuldade de tantas maneiras, assim como Arjuna também estava em dificuldade por ter de lutar a Batalha de Kurukṣetra. Arjuna rendeu-se a Śrī Kṛṣṇa, e em consequência este *Bhagavad-gītā* foi falado. Não somente Arjuna, mas cada um de nós está repleto de ansiedades por causa desta existência material. Nossa própria existência se encontra na atmosfera da inexistência. Na verdade, não estamos destinados a ser ameaçados pela inexistência. Nossa existência é eterna. Mas, de uma forma ou de outra, somos postos em *asat. Asat* refere-se àquilo que não existe.\n\nDentre tantos seres humanos que sofrem, há uns poucos que de fato indagam sobre sua posição, sobre o que são, por que foram postos nesta posição incômoda e assim por diante. A menos que alguém desperte para esta posição de questionar seu sofrimento, a menos que perceba que não deseja sofrer, mas antes deseja encontrar uma solução para todos os sofrimentos, então não há de ser considerado um ser humano perfeito. A humanidade começa quando esse tipo de indagação desperta na mente. No *Brahma-sūtra,* essa indagação se chama \"*brahma-jijñāsā.*\" Toda atividade do ser humano deve ser considerada um fracasso a menos que ele indague sobre a natureza do Absoluto. Por isso, aqueles que começam a perguntar por que estão sofrendo, ou de onde vieram e para onde irão após a morte, são alunos apropriados para a compreensão do *Bhagavad-gītā.* O aluno sincero também deve ter um respeito firme pela Suprema Personalidade de Deus. Tal aluno foi Arjuna.\n\nO Senhor Kṛṣṇa desce especificamente para restabelecer o verdadeiro propósito da vida quando o homem se esquece desse propósito. Mesmo assim, dentre muitos e muitos seres humanos que despertam, talvez haja um que de fato penetre no espírito de compreender sua posição, e para ele este *Bhagavad-gītā* é falado. Na verdade, todos nós somos perseguidos pelo tigre da nesciência, mas o Senhor é muito misericordioso para com as entidades vivas, especialmente os seres humanos. Com esse fim, Ele falou o *Bhagavad-gītā,* fazendo de Seu amigo Arjuna Seu aluno.\n\nPor ser um associado do Senhor Kṛṣṇa, Arjuna estava acima de toda ignorância; mas Arjuna foi posto em ignorância no Campo de Batalha de Kurukṣetra justamente para interrogar o Senhor Kṛṣṇa acerca dos problemas da vida, de modo que o Senhor pudesse explicá-los em benefício das futuras gerações de seres humanos e traçasse o plano da vida. Então o homem poderia agir de acordo e aperfeiçoar a missão da vida humana.\n\nO tema do *Bhagavad-gītā* implica a compreensão de cinco verdades básicas. Antes de tudo, explica-se a ciência de Deus, e em seguida a posição constitucional das entidades vivas, os *jīvas.* Há *īśvara,* que significa controlador, e há os *jīvas,* as entidades vivas que são controladas. Se uma entidade viva diz que não é controlada, mas que é livre, então é insana. O ser vivo é controlado sob todos os aspectos, ao menos em sua vida condicionada. Assim, no *Bhagavad-gītā,* o tema trata do *īśvara,* o controlador supremo, e dos *jīvas,* as entidades vivas controladas. *Prakṛti* (a natureza material), o tempo (a duração da existência de todo o universo, ou da manifestação da natureza material) e o *karma* (a atividade) também são discutidos. A manifestação cósmica está repleta de atividades diversas. Todas as entidades vivas estão ocupadas em atividades diferentes. Do *Bhagavad-gītā* devemos aprender o que é Deus, o que são as entidades vivas, o que é a *prakṛti,* o que é a manifestação cósmica e como é controlada pelo tempo, e quais são as atividades das entidades vivas.\n\nDentre estes cinco temas básicos do *Bhagavad-gītā,* estabelece-se que o Supremo Deus, ou Kṛṣṇa, ou Brahman, ou o controlador supremo, ou o Paramātmā—pode-se usar o nome que se queira—é o maior de todos. Os seres vivos são, em qualidade, semelhantes ao controlador supremo. Por exemplo, o Senhor tem controle sobre os assuntos universais, sobre a natureza material, etc., como será explicado nos capítulos posteriores do *Bhagavad-gītā.* A natureza material não é independente. Ela age sob a direção do Senhor Supremo. Como diz o Senhor Kṛṣṇa: \"A *prakṛti* trabalha sob Minha direção.\" Quando vemos coisas maravilhosas acontecendo na natureza cósmica, devemos saber que por trás desta manifestação cósmica há um controlador. Nada poderia manifestar-se sem ser controlado. É pueril não considerar o controlador. Por exemplo, uma criança pode pensar que um automóvel é algo bastante maravilhoso, por ser capaz de andar sem um cavalo ou outro animal a puxá-lo; mas um homem são conhece a natureza do arranjo de engenharia do automóvel. Ele sempre sabe que por trás do maquinário há um homem, um motorista. De modo semelhante, o Senhor Supremo é um condutor sob cuja direção tudo está funcionando. Ora, os *jīvas,* ou as entidades vivas, foram aceitos pelo Senhor, como notaremos nos capítulos posteriores, como Suas partes integrantes. Uma partícula de ouro também é ouro, uma gota de água do oceano também é salgada e, de modo semelhante, nós, as entidades vivas, sendo partes integrantes do controlador supremo, *īśvara,* ou Bhagavān, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, temos todas as qualidades do Senhor Supremo em quantidade diminuta, pois somos *īśvaras* minúsculos, *īśvaras* subordinados. Tentamos controlar a natureza, tal como presentemente tentamos controlar o espaço ou os planetas, e essa tendência de controlar existe porque está em Kṛṣṇa. Mas, embora tenhamos a tendência de assenhorear-nos da natureza material, devemos saber que não somos o controlador supremo. Isso é explicado no *Bhagavad-gītā.*\n\nO que é a natureza material? Isso também é explicado no *Gītā* como *prakṛti* inferior, natureza inferior. A entidade viva é explicada como a *prakṛti* superior. A *prakṛti* está sempre sob controle, quer inferior, quer superior. A *prakṛti* é feminina, e é controlada pelo Senhor assim como as atividades de uma esposa são controladas pelo esposo. A *prakṛti* é sempre subordinada, predominada pelo Senhor, que é o predominador. As entidades vivas e a natureza material são ambas predominadas, controladas pelo Senhor Supremo. Segundo o *Gītā,* as entidades vivas, embora partes integrantes do Senhor Supremo, devem ser consideradas *prakṛti.* Isso é mencionado claramente no Sétimo Capítulo, quinto verso, do *Bhagavad-gītā:* \"*Apareyam itas tv anyām.*\" \"Esta *prakṛti* é Minha natureza inferior.\" \"*Prakṛtiṁ viddhi me parām jīva-bhūtāṁ mahā-bāho yayedaṁ dhāryate jagat.*\" E, além desta, há outra *prakṛti: jīva-bhūtām,* a entidade viva.\n\nA própria *prakṛti* é constituída por três qualidades: o modo da bondade, o modo da paixão e o modo da ignorância. Acima desses modos há o tempo eterno, e por uma combinação desses modos da natureza, e sob o controle e o alcance do tempo eterno, há atividades que se chamam *karma.* Estas atividades vêm sendo realizadas desde tempos imemoriais, e estamos sofrendo ou desfrutando os frutos de nossas atividades. Por exemplo, suponhamos que eu seja um homem de negócios e que tenha trabalhado muito arduamente, com inteligência, e tenha acumulado um grande saldo bancário. Então sou um desfrutador. Mas digamos, então, que eu tenha perdido todo o meu dinheiro nos negócios; então sou um sofredor. De modo semelhante, em cada campo da vida desfrutamos os resultados de nosso trabalho, ou sofremos os resultados. Isso se chama *karma.*\n\n*Īśvara* (o Senhor Supremo), *jīva* (a entidade viva), *prakṛti* (a natureza), o tempo eterno e o *karma* (a atividade) são todos explicados no *Bhagavad-gītā.* Destes cinco, o Senhor, as entidades vivas, a natureza material e o tempo são eternos. A manifestação da *prakṛti* pode ser temporária, mas não é falsa. Alguns filósofos dizem que a manifestação da natureza material é falsa, mas, segundo a filosofia do *Bhagavad-gītā,* ou segundo a filosofia dos vaiṣṇavas, não é assim. A manifestação do mundo não é aceita como falsa; é aceita como real, porém temporária. Compara-se a uma nuvem que se desloca pelo céu, ou à chegada da estação das chuvas, que nutre os cereais. Logo que termina a estação das chuvas, e logo que a nuvem se vai, todas as colheitas que foram nutridas pela chuva secam. De modo semelhante, esta manifestação material ocorre em certo intervalo, permanece por algum tempo e depois desaparece. Tais são os funcionamentos da *prakṛti.* Mas este ciclo opera eternamente. Por conseguinte, a *prakṛti* é eterna; não é falsa. O Senhor refere-Se a ela como \"Minha *prakṛti.*\" Esta natureza material é a energia separada do Senhor Supremo, e, de modo semelhante, as entidades vivas também são energia do Senhor Supremo, mas não são separadas. Elas estão eternamente relacionadas. Assim, o Senhor, a entidade viva, a natureza material e o tempo estão todos inter-relacionados e são todos eternos. Contudo, o outro item, o *karma,* não é eterno. Os efeitos do *karma* podem ser, de fato, muito antigos. Estamos sofrendo ou desfrutando os resultados de nossas atividades desde tempos imemoriais, mas podemos mudar os resultados de nosso *karma,* ou de nossa atividade, e essa mudança depende da perfeição de nosso conhecimento. Estamos ocupados em diversas atividades. Sem dúvida, não sabemos que tipo de atividades devemos adotar para obter alívio das ações e reações de todas essas atividades; mas isso também é explicado no *Bhagavad-gītā.*\n\nA posição de *īśvara* é a de consciência suprema. Os *jīvas,* ou as entidades vivas, sendo partes integrantes do Senhor Supremo, também são conscientes. Tanto a entidade viva quanto a natureza material são explicadas como *prakṛti,* a energia do Senhor Supremo, mas um dos dois, o *jīva,* é consciente. A outra *prakṛti* não é consciente. Essa é a diferença. Por isso, a *jīva-prakṛti* é chamada superior, pois o *jīva* tem consciência semelhante à do Senhor. A do Senhor, contudo, é consciência suprema, e ninguém deve afirmar que o *jīva,* a entidade viva, também é supremamente consciente. O ser vivo não pode ser supremamente consciente em nenhum estágio de sua perfeição, e a teoria de que pode sê-lo é uma teoria enganosa. Consciente ele pode ser, mas não é perfeita ou supremamente consciente.\n\nA distinção entre o *jīva* e o *īśvara* será explicada no Décimo Terceiro Capítulo do *Bhagavad-gītā.* O Senhor é *kṣetra-jñaḥ,* consciente, assim como o é o ser vivo, mas o ser vivo é consciente de seu corpo específico, ao passo que o Senhor é consciente de todos os corpos. Por viver no coração de cada ser vivo, Ele é consciente dos movimentos psíquicos dos *jīvas* específicos. Não devemos esquecer isso. Também se explica que o *Paramātmā,* a Suprema Personalidade de Deus, vive no coração de cada um como *īśvara,* como o controlador, e que está dando direções para que a entidade viva aja como deseja. A entidade viva esquece-se do que fazer. Antes de tudo, ela toma a determinação de agir de certo modo, e então fica enredada nos atos e reações de seu próprio *karma.* Após abandonar um tipo de corpo, ela ingressa em outro tipo de corpo, assim como vestimos e tiramos roupas velhas. À medida que a alma migra dessa maneira, ela sofre as ações e reações de suas atividades passadas. Estas atividades podem ser mudadas quando o ser vivo está no modo da bondade, em sanidade, e compreende que tipo de atividades deve adotar. Se assim o faz, então todas as ações e reações de suas atividades passadas podem ser mudadas. Por conseguinte, o *karma* não é eterno. Por isso afirmamos que, dos cinco itens (*īśvara, jīva, prakṛti,* tempo e *karma*), quatro são eternos, ao passo que o *karma* não é eterno.\n\nO supremo consciente *īśvara* é semelhante à entidade viva neste aspecto: tanto a consciência do Senhor quanto a da entidade viva são transcendentais. Não é que a consciência seja gerada pela associação com a matéria. Essa é uma ideia equivocada. A teoria de que a consciência se desenvolve sob certas circunstâncias de combinação material não é aceita no *Bhagavad-gītā.* A consciência pode ser pervertidamente refletida pela cobertura das circunstâncias materiais, assim como a luz refletida através de um vidro colorido pode parecer ter determinada cor; mas a consciência do Senhor não é afetada materialmente. O Senhor Kṛṣṇa diz: \"*mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ.*\" Quando Ele desce ao universo material, Sua consciência não é afetada materialmente. Se Ele fosse assim afetado, seria incapaz de falar sobre assuntos transcendentais como o faz no *Bhagavad-gītā.* Ninguém pode dizer coisa alguma sobre o mundo transcendental sem estar livre da consciência materialmente contaminada. Logo, o Senhor não é materialmente contaminado. Nossa consciência, no presente momento, porém, está materialmente contaminada. O *Bhagavad-gītā* ensina que temos de purificar esta consciência materialmente contaminada. Na consciência pura, nossas ações estarão ajustadas à vontade de *īśvara,* e isso nos fará felizes. Não é que tenhamos de cessar todas as atividades. Em vez disso, nossas atividades devem ser purificadas, e as atividades purificadas se chamam *bhakti.* As atividades em *bhakti* parecem ser como atividades comuns, mas não são contaminadas. Uma pessoa ignorante pode ver que um devoto está agindo ou trabalhando como um homem comum, mas tal pessoa, com seu escasso cabedal de conhecimento, não sabe que as atividades do devoto ou do Senhor não são contaminadas por consciência impura ou por matéria. Elas são transcendentais aos três modos da natureza. Devemos saber, contudo, que, neste ponto, nossa consciência está contaminada.\n\nQuando estamos materialmente contaminados, somos chamados de condicionados. A consciência falsa exibe-se sob a impressão de que \"sou um produto da natureza material\". Isso se chama ego falso. Aquele que está absorto no pensamento das concepções corpóreas não consegue compreender sua situação. O *Bhagavad-gītā* foi falado para libertar a pessoa da concepção corpórea da vida, e Arjuna se colocou nesta posição a fim de receber essa informação do Senhor. É preciso tornar-se livre da concepção corpórea da vida; essa é a atividade preliminar para o transcendentalista. Aquele que deseja tornar-se livre, que deseja libertar-se, deve antes de tudo aprender que não é este corpo material. *Mukti,* ou liberação, significa estar livre da consciência material. No *Śrīmad-Bhāgavatam* também se dá a definição de liberação: *Mukti* significa liberação da consciência contaminada deste mundo material e situar-se em consciência pura. Todas as instruções do *Bhagavad-gītā* destinam-se a despertar esta consciência pura, e por isso encontramos, no último estágio das instruções do *Gītā,* que Kṛṣṇa pergunta a Arjuna se ele agora está em consciência purificada. Consciência purificada significa agir de acordo com as instruções do Senhor. Esta é toda a soma e substância da consciência purificada. A consciência já está presente, pois somos partes integrantes do Senhor, mas, para nós, há a propensão a ser afetados pelos modos inferiores. O Senhor, contudo, sendo o Supremo, jamais é afetado. Essa é a diferença entre o Senhor Supremo e as almas condicionadas.\n\nQue consciência é esta? Esta consciência é \"eu sou\". Então, o que sou eu? Na consciência contaminada, \"eu sou\" significa \"sou o senhor de tudo o que examino. Sou o desfrutador\". O mundo gira porque cada ser vivo pensa que é o senhor e o criador do mundo material. A consciência material tem duas divisões psíquicas. Uma é que \"sou o criador\", e a outra é que \"sou o desfrutador\". Mas, na verdade, o Senhor Supremo é tanto o criador quanto o desfrutador, e a entidade viva, sendo parte integrante do Senhor Supremo, não é nem o criador nem o desfrutador, mas um cooperador. Ela é a criada e a desfrutada. Por exemplo, uma parte de uma máquina coopera com a máquina inteira; uma parte do corpo coopera com o corpo inteiro. As mãos, os pés, os olhos, as pernas e assim por diante são todos partes do corpo, mas não são, de fato, os desfrutadores. O estômago é o desfrutador. As pernas se movem, as mãos fornecem o alimento, os dentes mastigam, e todas as partes do corpo estão ocupadas em satisfazer o estômago, pois o estômago é o fator principal que nutre a organização do corpo. Por isso, tudo é dado ao estômago. Nutre-se a árvore regando-lhe a raiz, e nutre-se o corpo alimentando o estômago, pois, se o corpo há de manter-se em estado saudável, então as partes do corpo devem cooperar para alimentar o estômago. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o desfrutador e o criador, e nós, como seres vivos subordinados, estamos destinados a cooperar para satisfazê-Lo. Essa cooperação de fato nos ajudará, assim como o alimento recebido pelo estômago ajudará todas as outras partes do corpo. Se os dedos da mão pensarem que devem tomar o alimento para si mesmos em vez de dá-lo ao estômago, então ficarão frustrados. A figura central da criação e do desfrute é o Senhor Supremo, e as entidades vivas são cooperadoras. Pela cooperação, elas desfrutam. A relação também é como a do amo e do servo. Se o amo está plenamente satisfeito, então o servo fica satisfeito. De modo semelhante, o Senhor Supremo deve ser satisfeito, embora a tendência de tornar-se o criador e a tendência de desfrutar do mundo material estejam presentes também nas entidades vivas, pois essas tendências estão presentes no Senhor Supremo, que criou o mundo cósmico manifestado.\n\nEncontraremos, portanto, neste *Bhagavad-gītā,* que o todo completo é constituído pelo controlador supremo, pelas entidades vivas controladas, pela manifestação cósmica, pelo tempo eterno e pelo *karma,* ou pelas atividades, e tudo isso é explicado neste texto. Tomados completamente, todos estes formam o todo completo, e o todo completo se chama Suprema Verdade Absoluta. O todo completo e a completa Verdade Absoluta são a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Todas as manifestações devem-se a Suas diferentes energias. Ele *é* o todo completo.\n\nTambém se explica no *Gītā* que o Brahman impessoal também é subordinado ao completo. O Brahman é explicado de modo mais explícito no *Brahma-sūtra* como sendo semelhante aos raios da luz do Sol. O Brahman impessoal são os raios reluzentes da Suprema Personalidade de Deus. O Brahman impessoal é a compreensão incompleta do todo absoluto, e assim também o é a concepção de Paramātmā no Décimo Segundo Capítulo. Ali se verá que a Suprema Personalidade de Deus, Puruṣottama, está acima tanto do Brahman impessoal quanto da compreensão parcial do Paramātmā. A Suprema Personalidade de Deus é chamada *sac-cid-ānanda-vigraha.* A *Brahma-saṁhitā* começa desta maneira: *īśvaraḥ paramaḥ Kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ/anādir ādir govindaḥ sarva-kāraṇa-kāraṇam.* \"Kṛṣṇa é a causa de todas as causas. Ele é a causa primordial, e é a própria forma do ser, do conhecimento e da bem-aventurança eternos.\" A compreensão do Brahman impessoal é a compreensão de Seu aspecto *sat* (ser). A compreensão do Paramātmā é a compreensão do aspecto *cit* (conhecimento eterno). Mas a compreensão da Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a compreensão de todos os aspectos transcendentais: *sat, cit* e *ānanda* (ser, conhecimento, bem-aventurança) em completo *vigraha* (forma).\n\nAs pessoas de menos inteligência consideram a Verdade Suprema como impessoal, mas Ele é uma pessoa transcendental, e isso é confirmado em todas as literaturas Védicas. *Nityo nityānām cetanaś cetanānām.* Assim como todos nós somos seres vivos individuais e temos nossa individualidade, a Suprema Verdade Absoluta também é, em última análise, uma pessoa, e a compreensão da Personalidade de Deus é a compreensão de todos os aspectos transcendentais. O todo completo não é desprovido de forma. Se Ele fosse desprovido de forma, ou se fosse menor do que qualquer outra coisa, então não poderia ser o todo completo. O todo completo deve ter tudo dentro de nossa experiência e além de nossa experiência, do contrário não poderia ser completo. O todo completo, a Personalidade de Deus, tem imensas potências.\n\nComo Kṛṣṇa age em diferentes potências também é explicado no *Bhagavad-gītā.* Este mundo fenomenal, ou mundo material, no qual estamos situados, também é completo em si mesmo, pois os vinte e quatro elementos dos quais este universo material é uma manifestação temporária, segundo a filosofia Sāṅkhya, estão completamente ajustados para produzir os recursos completos que são necessários à manutenção e subsistência deste universo. Não há nada de supérfluo; nem há algo necessário. Esta manifestação tem seu próprio tempo fixado pela energia do todo supremo, e, quando seu tempo se completa, estas manifestações temporárias serão aniquiladas pelo arranjo completo do completo. Há completas condições para que as pequenas unidades completas, a saber, as entidades vivas, compreendam o completo, e toda sorte de incompletude é experimentada devido ao conhecimento incompleto do completo. Portanto, o *Bhagavad-gītā* contém o conhecimento completo da sabedoria Védica.\n\nTodo o conhecimento Védico é infalível, e os hindus aceitam o conhecimento Védico como completo e infalível. Por exemplo, o esterco de vaca é o excremento de um animal e, segundo o *smṛti,* ou preceito Védico, se alguém toca o excremento de um animal, tem de tomar um banho para purificar-se. Mas, nas escrituras Védicas, o esterco de vaca é considerado um agente purificador. Pode-se considerar isso contraditório, mas é aceito por ser preceito Védico; e, de fato, ao aceitar isso, não se cometerá um erro; posteriormente, ficou provado pela ciência moderna que o esterco de vaca contém todas as propriedades antissépticas. Portanto, o conhecimento Védico é completo, pois está acima de toda dúvida e de todo erro, e o *Bhagavad-gītā* é a essência de todo o conhecimento Védico.\n\nO conhecimento Védico não é uma questão de pesquisa. Nosso trabalho de pesquisa é imperfeito, pois pesquisamos as coisas com sentidos imperfeitos. Temos de aceitar o conhecimento perfeito que desce, como se afirma no *Bhagavad-gītā,* pela sucessão discipular *paramparā.* Temos de receber o conhecimento da fonte apropriada, na sucessão discipular que começa com o supremo mestre espiritual, o próprio Senhor, e é transmitido a uma sucessão de mestres espirituais. Arjuna, o aluno que tomou lições do Senhor Śrī Kṛṣṇa, aceita tudo o que Ele diz sem contradizê-Lo. Não se permite a ninguém aceitar uma porção do *Bhagavad-gītā* e outra não. Não. Devemos aceitar o *Bhagavad-gītā* sem interpretação, sem supressão e sem nossa própria participação caprichosa no assunto. O *Gītā* deve ser tomado como a mais perfeita apresentação do conhecimento Védico. O conhecimento Védico é recebido de fontes transcendentais, e as primeiras palavras foram faladas pelo próprio Senhor. As palavras faladas pelo Senhor diferem das palavras faladas por uma pessoa do mundo mundano, que está infectada por quatro defeitos. Um mundano 1) está fadado a cometer erros, 2) está invariavelmente iludido, 3) tem a tendência de enganar os outros e 4) é limitado por sentidos imperfeitos. Com estas quatro imperfeições, ninguém pode transmitir informação perfeita do conhecimento onipenetrante.\n\nO conhecimento Védico não é transmitido por tais entidades vivas defeituosas. Ele foi transmitido ao coração de Brahmā, o primeiro ser vivo criado, e Brahmā, por sua vez, disseminou este conhecimento a seus filhos e discípulos, tal como originalmente o recebera do Senhor. O Senhor é *pūrṇam,* totalmente perfeito, e não há possibilidade de que Ele venha a ficar sujeito às leis da natureza material. Por isso, a pessoa deve ser inteligente o bastante para saber que o Senhor é o único proprietário de tudo no universo e que Ele é o criador original, o criador de Brahmā. No Décimo Primeiro Capítulo, o Senhor é tratado como *prapitāmaha,* pois Brahmā é tratado como *pitāmaha,* o avô, e Ele é o criador do avô. Portanto, ninguém deve reivindicar ser o proprietário de coisa alguma; deve-se aceitar apenas as coisas que são reservadas pelo Senhor como sua cota para sua manutenção.\n\nHá muitos exemplos dados de como devemos utilizar aquelas coisas que nos são reservadas pelo Senhor. Isso também é explicado no *Bhagavad-gītā.* No início, Arjuna decidiu que não deveria lutar na Batalha de Kurukṣetra. Esta foi sua própria decisão. Arjuna disse ao Senhor que não lhe era possível desfrutar do reino após matar seus próprios parentes. Esta decisão baseava-se no corpo, pois ele pensava que o corpo era ele próprio e que suas relações ou expansões corpóreas eram seus irmãos, sobrinhos, cunhados, avós e assim por diante. Ele pensava dessa maneira para satisfazer suas exigências corpóreas. O *Bhagavad-gītā* foi falado pelo Senhor justamente para mudar este ponto de vista, e ao final Arjuna decide lutar sob as direções do Senhor, quando diz: \"*kariṣye vacanaṁ tava.*\" \"Agirei segundo Tua palavra.\"\n\nNeste mundo, o homem não está destinado a labutar como os porcos. Ele deve ser inteligente para perceber a importância da vida humana e recusar-se a agir como um animal comum. Um ser humano deve perceber o objetivo de sua vida, e essa direção é dada em todas as literaturas Védicas, e a essência é dada no *Bhagavad-gītā.* A literatura Védica destina-se aos seres humanos, não aos animais. Os animais podem matar outros animais vivos, e não há questão de pecado de sua parte; mas, se um homem mata um animal para a satisfação de seu paladar descontrolado, deve ser responsável por infringir as leis da natureza. No *Bhagavad-gītā,* explica-se claramente que há três espécies de atividades, segundo os diferentes modos da natureza: as atividades da bondade, da paixão e da ignorância. De modo semelhante, há também três espécies de alimentos: alimentos na bondade, na paixão e na ignorância. Tudo isso é descrito com clareza e, se utilizarmos apropriadamente as instruções do *Bhagavad-gītā,* então toda a nossa vida se purificará e, por fim, seremos capazes de alcançar o destino que está além deste céu material.\n\nEsse destino chama-se o céu *sanātana,* o eterno céu espiritual. Neste mundo material, observamos que tudo é temporário. Vem a existir, permanece por algum tempo, produz alguns subprodutos, definha e depois se desvanece. Essa é a lei do mundo material, quer tomemos como exemplo este corpo, quer uma fruta, quer qualquer coisa. Mas, além deste mundo temporário, há outro mundo, do qual temos informação. Este mundo consiste em outra natureza, que é *sanātana,* eterna. O *jīva* também é descrito como *sanātana,* eterno, e o Senhor também é descrito como *sanātana* no Décimo Primeiro Capítulo. Temos uma relação íntima com o Senhor e, por sermos todos qualitativamente unos—o *sanātana-dhāma,* ou céu, a *sanātana* Personalidade Suprema e as *sanātana* entidades vivas—todo o propósito do *Bhagavad-gītā* é reviver nossa ocupação *sanātana,* ou *sanātana-dharma,* que é a ocupação eterna da entidade viva. Estamos temporariamente ocupados em diferentes atividades, mas todas essas atividades podem ser purificadas quando abandonamos todas essas atividades temporárias e assumimos as atividades que são prescritas pelo Senhor Supremo. Isso se chama nossa vida pura.\n\nO Senhor Supremo e Sua morada transcendental são ambos *sanātana,* assim como o são as entidades vivas, e a associação combinada do Senhor Supremo e das entidades vivas na morada *sanātana* é a perfeição da vida humana. O Senhor é muito bondoso para com as entidades vivas, pois elas são Seus filhos. O Senhor Kṛṣṇa declara no *Bhagavad-gītā:* \"*sarva-yoniṣu...ahaṁ bīja-pradaḥ pitā.*\" \"Eu sou o pai de todos.\" Naturalmente, há toda sorte de entidades vivas, segundo seus vários *karmas,* mas aqui o Senhor reivindica ser o pai de todas elas. Por isso, o Senhor desce para reclamar todas essas almas caídas e condicionadas, para chamá-las de volta ao *sanātana* céu eterno, de modo que as *sanātana* entidades vivas possam reaver suas eternas posições *sanātana* em eterna associação com o Senhor. O Senhor vem Ele mesmo em diferentes encarnações, ou envia Seus servos confidenciais como filhos, ou Seus associados, ou *ācāryas,* para reclamar as almas condicionadas.\n\nPor conseguinte, o *sanātana-dharma* não se refere a nenhum processo sectário de religião. É a função eterna das eternas entidades vivas em relação com o eterno Senhor Supremo. O *sanātana-dharma* refere-se, como afirmado anteriormente, à ocupação eterna da entidade viva. Rāmānujācārya explicou a palavra *sanātana* como \"aquilo que não tem começo nem fim\"; portanto, quando falamos de *sanātana-dharma,* devemos tê-lo como certo, com base na autoridade de Śrī Rāmānujācārya, que ele não tem começo nem fim.\n\nA palavra inglesa \"religion\" é um pouco diferente de *sanātana-dharma.* \"Religião\" transmite a ideia de fé, e a fé pode mudar. A pessoa pode ter fé em determinado processo, e pode mudar essa fé e adotar outra; mas o *sanātana-dharma* refere-se àquela atividade que não pode ser mudada. Por exemplo, a liquidez não pode ser tirada da água, nem o calor pode ser tirado do fogo. De modo semelhante, a função eterna da eterna entidade viva não pode ser tirada da entidade viva. O *sanātana-dharma* é eternamente integral à entidade viva. Quando falamos de *sanātana-dharma,* portanto, devemos tê-lo como certo, com base na autoridade de Śrī Rāmānujācārya, que ele não tem começo nem fim. Aquilo que não tem fim nem começo não há de ser sectário, pois não pode ser limitado por nenhuma fronteira. Contudo, aqueles que pertencem a alguma fé sectária considerarão erroneamente que o *sanātana-dharma* também é sectário; mas, se aprofundarmos o assunto e o considerarmos à luz da ciência moderna, é possível vermos que o *sanātana-dharma* é a ocupação de todos os povos do mundo—ou melhor, de todas as entidades vivas do universo.\n\nUma fé religiosa não-*sanātana* pode ter algum começo nos anais da história humana, mas não há começo para a história do *sanātana-dharma,* pois ele permanece eternamente com as entidades vivas. No que diz respeito às entidades vivas, os *śāstras* autorizados afirmam que a entidade viva não tem nascimento nem morte. No *Gītā* se afirma que a entidade viva nunca nasce e nunca morre. Ela é eterna e indestrutível, e continua a viver após a destruição de seu corpo material temporário. Em referência ao conceito de *sanātana-dharma,* devemos tentar compreender o conceito de religião a partir do significado raiz da palavra em sânscrito. *Dharma* refere-se àquilo que existe constantemente com determinado objeto. Concluímos que há calor e luz juntamente com o fogo; sem calor e luz, não há significado para a palavra \"fogo\". De modo semelhante, devemos descobrir a parte essencial do ser vivo, aquela parte que é sua companheira constante. Essa companheira constante é sua qualidade eterna, e essa qualidade eterna é sua religião eterna.\n\nQuando Sanātana Gosvāmī perguntou a Śrī Caitanya Mahāprabhu acerca do *svarūpa* de cada ser vivo, o Senhor respondeu que o *svarūpa,* ou posição constitucional, do ser vivo é a prestação de serviço à Suprema Personalidade de Deus. Se analisarmos esta afirmação do Senhor Caitanya, poderemos ver facilmente que cada ser vivo está constantemente ocupado em prestar serviço a outro ser vivo. Um ser vivo serve a outros seres vivos em duas capacidades. Ao fazê-lo, a entidade viva desfruta da vida. Os animais inferiores servem aos seres humanos assim como os servos servem a seu amo. A serve a B como amo, B serve a C como amo, C serve a D como amo e assim por diante. Nestas circunstâncias, podemos ver que um amigo serve a outro amigo, a mãe serve ao filho, a esposa serve ao esposo, o esposo serve à esposa e assim por diante. Se continuarmos a buscar neste espírito, ver-se-á que não há exceção na sociedade dos seres vivos à atividade de servir. O político apresenta seu manifesto ao público para convencê-lo de sua capacidade de servir. Os eleitores, por isso, dão ao político seus valiosos votos, pensando que ele prestará valioso serviço à sociedade. O lojista serve ao freguês, e o artesão serve ao capitalista. O capitalista serve à família, e a família serve ao Estado nos termos da capacidade eterna do eterno ser vivo. Dessa maneira, podemos ver que nenhum ser vivo está isento de prestar serviço a outros seres vivos e, por conseguinte, podemos concluir com segurança que o serviço é a companheira constante do ser vivo e que a prestação de serviço é a religião eterna do ser vivo.\n\nContudo, o homem professa pertencer a determinado tipo de fé com referência a tempo e circunstância específicos e, assim, alega ser hindu, muçulmano, cristão, budista ou de qualquer outra seita. Tais designações são não-*sanātana-dharma.* Um hindu pode mudar sua fé para tornar-se muçulmano, ou um muçulmano pode mudar sua fé para tornar-se hindu, ou um cristão pode mudar sua fé e assim por diante. Mas, em todas as circunstâncias, a mudança de fé religiosa não afeta a ocupação eterna de prestar serviço aos outros. O hindu, o muçulmano ou o cristão, em todas as circunstâncias, é servo de alguém. Assim, professar determinado tipo de seita não é professar o próprio *sanātana-dharma.* A prestação de serviço é *sanātana-dharma.*\n\nDe fato, estamos relacionados ao Senhor Supremo em serviço. O Senhor Supremo é o desfrutador supremo, e nós, entidades vivas, somos Seus servidores. Somos criados para Seu desfrute e, se participamos desse desfrute eterno com a Suprema Personalidade de Deus, tornamo-nos felizes. Não podemos tornar-nos felizes de outra maneira. Não é possível ser feliz de modo independente, assim como nenhuma parte do corpo pode ser feliz sem cooperar com o estômago. Não é possível à entidade viva ser feliz sem prestar serviço transcendental amoroso ao Senhor Supremo.\n\nNo *Bhagavad-gītā,* a adoração de diferentes semideuses, ou a prestação de serviço a eles, não é aprovada. Afirma-se no Sétimo Capítulo, vigésimo verso:\n\n> kāmais tais tair hṛt-ajñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ\n> taṁ taṁ niyamam āsthāya prakṛtyā niyatāḥ svayā\n\n\"Aqueles cujas mentes estão distorcidas por desejos materiais rendem-se aos semideuses e seguem as regras e regulações específicas de adoração de acordo com suas próprias naturezas.\" [[bg/7/20|(Bg. 7.20)]] Aqui se diz claramente que aqueles que são dirigidos pela luxúria adoram os semideuses, e não o Senhor Supremo Kṛṣṇa. Quando mencionamos o nome Kṛṣṇa, não nos referimos a nenhum nome sectário. Kṛṣṇa significa o prazer supremo, e está confirmado que o Senhor Supremo é o reservatório ou depósito de todo o prazer. Todos nós ansiamos por prazer. *Ānandamayo 'bhyāsāt.* (Vs. 1.1.12) As entidades vivas, como o Senhor, são plenas de consciência, e estão em busca da felicidade. O Senhor é perpetuamente feliz e, se as entidades vivas se associam com o Senhor, cooperam com Ele e tomam parte em Sua associação, então também se tornam felizes.\n\nO Senhor desce a este mundo mortal para mostrar Seus passatempos em Vṛndāvana, os quais são plenos de felicidade. Quando o Senhor Śrī Kṛṣṇa estava em Vṛndāvana, Suas atividades com Seus amigos vaqueirinhos, com Suas donzelas amigas, com os habitantes de Vṛndāvana e com as vacas eram todas plenas de felicidade. A população total de Vṛndāvana nada conhecia além de Kṛṣṇa. Mas o Senhor Kṛṣṇa chegou até a desencorajar Seu pai Nanda Mahārāja de adorar o semideus Indra, pois queria estabelecer o fato de que as pessoas não precisam adorar nenhum semideus. Elas precisam apenas adorar o Senhor Supremo, pois seu objetivo último é retornar a Sua morada.\n\nA morada do Senhor Śrī Kṛṣṇa é descrita no *Bhagavad-gītā,* Décimo Quinto Capítulo, sexto verso:\n\n> na tad bhāsayate sūryo na śaśāṅko na pāvakaḥ\n> yad gatvā na nivartante tad dhāma paramaṁ mama\n\n\"Essa morada Minha não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pela eletricidade. E todo aquele que a alcança jamais retorna a este mundo material.\" [[bg/15/6|(Bg. 15.6)]]\n\nEste verso dá uma descrição daquele céu eterno. Naturalmente, temos uma concepção material do céu, e pensamos nele em relação ao Sol, à Lua, às estrelas e assim por diante; mas, neste verso, o Senhor afirma que, no céu eterno, não há necessidade do Sol nem da Lua nem de fogo de espécie alguma, pois o céu espiritual já está iluminado pelo *brahmajyoti,* os raios que emanam do Senhor Supremo. Estamos tentando, com dificuldade, alcançar outros planetas, mas não é difícil compreender a morada do Senhor Supremo. Esta morada é mencionada como Goloka. Na *Brahma-saṁhitā,* ela é descrita de maneira bela: *Goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ.* O Senhor reside eternamente em Sua morada, Goloka, mas pode ser abordado a partir deste mundo, e com esse fim o Senhor vem manifestar Sua verdadeira forma, *sac-cid-ānanda-vigraha.* Quando Ele manifesta esta forma, não há necessidade de imaginarmos com o que Ele se parece. Para desencorajar tal especulação imaginativa, Ele desce e Se exibe como é, como Śyāmasundara. Infelizmente, os menos inteligentes O escarnecem por Ele vir como um de nós e brincar conosco como um ser humano. Mas, por causa disso, não devemos considerar que o Senhor é um de nós. É por Sua potência que Ele Se apresenta diante de nós em Sua verdadeira forma e exibe Seus passatempos, que são protótipos daqueles passatempos encontrados em Sua morada.\n\nNos refulgentes raios do céu espiritual, há inumeráveis planetas flutuando. O *brahmajyoti* emana da morada suprema, Kṛṣṇaloka, e os planetas *ānandamaya-cinmaya,* que não são materiais, flutuam naqueles raios. O Senhor diz: *na tad bhāsayate sūryo na śaśāṅko na pāvakaḥ yad gatvā na nivartante tad dhāma paramaṁ mama.* Aquele que pode abordar esse céu espiritual não é obrigado a descer novamente ao céu material. No céu material, mesmo se abordarmos o planeta mais elevado (Brahmaloka), o que dizer da Lua, encontraremos as mesmas condições de vida, a saber, nascimento, morte, doença e velhice. Nenhum planeta no universo material está livre destes quatro princípios da existência material. Por isso, o Senhor diz no *Bhagavad-gītā: ābrahma-bhuvanāl lokāḥ punar āvartino 'rjuna.* As entidades vivas estão viajando de um planeta a outro, não por arranjo mecânico, mas por um processo espiritual. Isso também é mencionado: *yānti deva-vratā devān pitṝn yānti pitṛ-vratāḥ.* Nenhum arranjo mecânico é necessário se quisermos viagem interplanetária. O *Gītā* instrui: *yānti deva-vratā devān.* A Lua, o Sol e os planetas superiores são chamados *svargaloka.* Há três diferentes condições de planetas: sistemas planetários superiores, intermediários e inferiores. A Terra pertence ao sistema planetário intermediário. O *Bhagavad-gītā* informa-nos como viajar aos sistemas planetários superiores (*devaloka*) com uma fórmula muito simples: *yānti deva-vratā devān.* Basta adorar o semideus específico daquele planeta específico e, dessa maneira, ir à Lua, ao Sol ou a qualquer dos sistemas planetários superiores.\n\nContudo, o *Bhagavad-gītā* não nos aconselha a ir a nenhum dos planetas deste mundo material, pois, mesmo se formos a Brahmaloka, o planeta mais elevado, por meio de algum tipo de engenhoca mecânica, talvez viajando por quarenta mil anos (e quem viveria tanto tempo?), ainda assim encontraremos os inconvenientes materiais de nascimento, morte, doença e velhice. Mas aquele que deseja abordar o planeta supremo, Kṛṣṇaloka, ou qualquer dos outros planetas dentro do céu espiritual, não se deparará com esses inconvenientes materiais. Dentre todos os planetas do céu espiritual, há um planeta supremo, chamado Goloka Vṛndāvana, que é o planeta original na morada da original Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Toda esta informação é dada no *Bhagavad-gītā,* e, por meio de sua instrução, recebemos informação de como deixar o mundo material e iniciar uma vida verdadeiramente bem-aventurada no céu espiritual.\n\nNo Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā,* dá-se o verdadeiro quadro do mundo material. Ali se diz:\n\n> ūrdhva-mūlam adhaḥ-śākham aśvatthaṁ prāhur avyayam\n> chandāṁsi yasya parṇāni yas taṁ veda sa veda-vit\n\n\"O Senhor Supremo disse: Há uma figueira-de-bengala cujas raízes apontam para cima e cujos ramos apontam para baixo, e cujas folhas são os hinos Védicos. Aquele que conhece esta árvore é o conhecedor dos *Vedas.*\" Aqui o mundo material é descrito como uma árvore cujas raízes estão para cima e cujos ramos estão para baixo. Temos experiência de uma árvore cujas raízes estão para cima: se a pessoa se posta à margem de um rio ou de qualquer reservatório de água, pode ver que as árvores refletidas na água estão de cabeça para baixo. Os ramos vão para baixo e as raízes para cima. De modo semelhante, este mundo material é um reflexo do mundo espiritual. O mundo material não passa de uma sombra da realidade. Na sombra não há realidade nem substancialidade, mas, a partir da sombra, podemos compreender que há substância e realidade. No deserto não há água, mas a miragem sugere que existe algo como água. No mundo material não há água, não há felicidade, mas a verdadeira água da felicidade real está lá, no mundo espiritual.\n\nO Senhor sugere que alcancemos o mundo espiritual da seguinte maneira:\n\n> nirmāna-mohā jita-saṅga-doṣā\n> adhyātma-nityā vinivṛtta-kāmāḥ\n> dvandvair vimuktāḥ sukha-duḥkha-saṁjñair\n> gacchanty amūḍhāḥ padam avyayaṁ tat.\n\nAquele *padam avyayam,* ou reino eterno, pode ser alcançado por quem é *nirmāna-moha.* O que significa isto? Estamos em busca de designações. Alguém quer tornar-se filho, alguém quer tornar-se senhor, alguém quer tornar-se o presidente, ou um homem rico, ou um rei, ou algo mais. Enquanto estivermos apegados a essas designações, estaremos apegados ao corpo, pois as designações pertencem ao corpo. Mas nós não somos estes corpos, e perceber isso é o primeiro estágio na compreensão espiritual. Estamos associados aos três modos da natureza material, mas devemos desapegar-nos por meio do serviço devocional ao Senhor. Se não estivermos apegados ao serviço devocional ao Senhor, então não poderemos desapegar-nos dos modos da natureza material. As designações e os apegos devem-se à nossa luxúria e desejo, à nossa vontade de assenhorear-nos da natureza material. Enquanto não abandonarmos essa propensão de assenhorear-nos da natureza material, não haverá possibilidade de retornarmos ao reino do Supremo, o *sanātana-dhāma.* Esse reino eterno, que jamais é destruído, pode ser abordado por quem não é confundido pelas atrações dos falsos desfrutes materiais, por quem está situado no serviço do Senhor Supremo. Aquele que assim se situa pode facilmente abordar essa morada suprema.\n\nEm outra passagem do *Gītā,* afirma-se:\n\n> avyakto ’kṣara ity uktas tam āhuḥ paramāṁ gatim\n> yaṁ prāpya na nivartante tad dhāma paramaṁ mama.\n\n*Avyakta* significa imanifesto. Nem mesmo todo o mundo material está manifesto diante de nós. Nossos sentidos são tão imperfeitos que não conseguimos ver sequer todas as estrelas dentro deste universo material. Na literatura Védica, podemos receber muita informação sobre todos os planetas, e podemos crer nela ou não. Todos os planetas importantes são descritos nas literaturas Védicas, especialmente o *Śrīmad-Bhāgavatam,* e o mundo espiritual, que está além deste céu material, é descrito como *avyakta,* imanifesto. Deve-se desejar e ansiar por esse reino supremo, pois, quando a pessoa alcança esse reino, não tem de retornar a este mundo material.\n\nA seguir, alguém pode levantar a questão de como abordar essa morada do Senhor Supremo. A informação a esse respeito é dada no Oitavo Capítulo. Ali se diz:\n\n> anta-kāle ca mām eva smaran muktvā kalevaram\n> yaḥ prayāti sa mad-bhāvam yāti nāsty atra saṁśayaḥ\n\n\"Todo aquele que, ao final da vida, abandona seu corpo lembrando-se de Mim, alcança imediatamente Minha natureza; e disto não há dúvida.\" [[bg/8/5|(Bg. 8.5)]] Aquele que pensa em Kṛṣṇa no momento de sua morte vai a Kṛṣṇa. É preciso lembrar-se da forma de Kṛṣṇa; se a pessoa abandona seu corpo pensando nesta forma, aproxima-se do reino espiritual. *Mad-bhāvaṁ* refere-se à natureza suprema do Ser Supremo. O Ser Supremo é *sac-cid-ānanda-vigraha*—eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. Nosso corpo atual não é *sac-cid-ānanda.* Ele é *asat,* não *sat.* Não é eterno; é perecível. Não é *cit,* pleno de conhecimento, mas é pleno de ignorância. Não temos conhecimento do reino espiritual, nem temos sequer conhecimento perfeito deste mundo material, onde há tantas coisas desconhecidas para nós. O corpo também é *nirānanda;* em vez de ser pleno de bem-aventurança, é pleno de miséria. Todas as misérias que experimentamos no mundo material surgem do corpo, mas aquele que deixa este corpo pensando na Suprema Personalidade de Deus alcança de imediato um corpo *sac-cid-ānanda,* como se promete neste quinto verso do Oitavo Capítulo, onde o Senhor Kṛṣṇa diz: \"Ele alcança Minha natureza.\"\n\nO processo de abandonar este corpo e obter outro corpo no mundo material também é organizado. Um homem morre após se ter decidido que forma de corpo ele terá na próxima vida. Autoridades superiores, não a própria entidade viva, tomam esta decisão. Segundo nossas atividades nesta vida, ou nos elevamos, ou nos afundamos. Esta vida é uma preparação para a próxima vida. Se pudermos, portanto, preparar-nos nesta vida para obter promoção ao reino de Deus, então, certamente, após abandonar este corpo material, alcançaremos um corpo espiritual exatamente como o do Senhor.\n\nComo explicado antes, há diferentes espécies de transcendentalistas, o *brahmavādī,* o *paramātmāvādī* e o devoto e, como mencionado, no *brahmajyoti* (céu espiritual) há inumeráveis planetas espirituais. O número desses planetas é muito, muito maior do que todos os planetas deste mundo material. Este mundo material foi estimado em apenas um quarto da criação. Neste segmento material, há milhões e bilhões de universos com trilhões de planetas e sóis, estrelas e luas. Mas toda esta criação material é apenas um fragmento da criação total. A maior parte da criação está no céu espiritual. Aquele que deseja imergir na existência do Brahman Supremo é de imediato transferido ao *brahmajyoti* do Senhor Supremo e, assim, alcança o céu espiritual. O devoto, que deseja desfrutar da associação do Senhor, ingressa nos planetas Vaikuṇṭha, que são inumeráveis, e o Senhor Supremo, por meio de Suas expansões plenárias como Nārāyaṇa, com quatro mãos e com diferentes nomes como Pradyumna, Aniruddha, Govinda, etc., associa-se com ele ali. Por conseguinte, ao final da vida, os transcendentalistas, ou pensam no *brahmajyoti,* ou no Paramātmā, ou na Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Em todos os casos, eles ingressam no céu espiritual, mas apenas o devoto, ou aquele que está em contato pessoal com o Senhor Supremo, ingressa nos planetas Vaikuṇṭha. O Senhor acrescenta ainda que disto \"não há dúvida\". Isso deve ser firmemente acreditado. Não devemos rejeitar aquilo que não condiz com nossa imaginação; nossa atitude deve ser a de Arjuna: \"Acredito em tudo o que disseste.\" Por conseguinte, quando o Senhor diz que, no momento da morte, todo aquele que pensa nEle como Brahman, ou Paramātmā, ou como a Personalidade de Deus, certamente ingressa no céu espiritual, não há dúvida quanto a isto. Não há possibilidade de descrer disso.\n\nA informação de como pensar no Ser Supremo no momento da morte também é dada no *Gītā:*\n\n> yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ tyajaty ante kalevaram\n> taṁ tam evaiti kaunteya sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ\n\n\"Em qualquer estado de existência que se abandone o corpo atual, na próxima vida alcançar-se-á, sem falta, esse mesmo estado de existência.\" [[bg/8/6|(Bg. 8.6)]] A natureza material é uma exibição de uma das energias do Senhor Supremo. No *Viṣṇu Purāṇa,* as energias totais do Senhor Supremo, como *Viṣṇu-śaktiḥ parā proktā,* etc., são delineadas. O Senhor Supremo tem energias diversas e inumeráveis, que estão além de nossa concepção; contudo, grandes sábios eruditos ou almas liberadas estudaram essas energias e analisaram-nas em três partes. Todas as energias são da *Viṣṇu-śakti,* isto é, são diferentes potências do Senhor Viṣṇu. Essa energia é *parā,* transcendental. As entidades vivas também pertencem à energia superior, como já foi explicado. As outras energias, ou energias materiais, estão no modo da ignorância. No momento da morte, ou podemos permanecer na energia inferior deste mundo material, ou podemos transferir-nos para a energia do mundo espiritual.\n\nNa vida, estamos acostumados a pensar, ou na energia material, ou na espiritual. Há tantas literaturas que enchem nossos pensamentos com a energia material—jornais, romances, etc. Nosso pensamento, que agora está absorto nessas literaturas, deve ser transferido para as literaturas Védicas. Os grandes sábios, portanto, escreveram tantas literaturas Védicas, tais como os *Purāṇas,* etc. Os *Purāṇas* não são imaginativos; são registros históricos. No *Caitanya-caritāmṛta,* há o seguinte verso:\n\n> māyā mugdha jīver nāhi svataḥ Kṛṣṇa-jñāna\n> jīvera kṛpāya kailā Kṛṣṇa veda-purāṇa\n> (Cc. Madhya 20.122)\n\nAs entidades vivas esquecidas, ou almas condicionadas, esqueceram-se de sua relação com o Senhor Supremo, e estão absortas em pensar nas atividades materiais. Justamente para transferir seu poder de pensamento ao céu espiritual, Kṛṣṇa deu um grande número de literaturas Védicas. Primeiro Ele dividiu os *Vedas* em quatro, depois explicou-os nos *Purāṇas* e, para as pessoas menos capazes, escreveu o *Mahābhārata.* No *Mahābhārata* é dado o *Bhagavad-gītā.* Em seguida, toda a literatura Védica é resumida no *Vedānta-sūtra* e, para orientação futura, Ele deu um comentário natural sobre o *Vedānta-sūtra,* chamado *Śrīmad-Bhāgavatam.* Devemos sempre ocupar nossas mentes na leitura destas literaturas Védicas. Assim como os materialistas ocupam suas mentes na leitura de jornais, revistas e tantas literaturas materialistas, devemos transferir nossa leitura para estas literaturas que nos foram dadas por Vyāsadeva; dessa maneira, ser-nos-á possível lembrar do Senhor Supremo no momento da morte. Esse é o único caminho sugerido pelo Senhor, e Ele garante o resultado: \"Não há dúvida.\" [[bg/8/7|(Bg. 8.7)]]\n\n> tasmāt sarveṣu kāleṣu mām anusmara yudhya ca\n> mayy arpita-mano-buddhir mām evaiṣyasy asaṁśayaḥ\n\n\"Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim e, ao mesmo tempo, continuar a desempenhar teu dever prescrito e lutar. Com tua mente e atividades sempre fixas em Mim, e tudo dedicado a Mim, tu Me alcançarás, sem nenhuma dúvida.\"\n\nEle não aconselha Arjuna a simplesmente lembrar-se dEle e abandonar sua ocupação. Não, o Senhor jamais sugere algo impraticável. Neste mundo material, para manter o corpo é preciso trabalhar. A sociedade humana está dividida, segundo o trabalho, em quatro divisões da ordem social—*brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya, śūdra.* A classe *brāhmaṇa,* ou classe inteligente, trabalha de um modo; a classe *kṣatriya,* ou administrativa, trabalha de outro modo; e a classe mercantil e os trabalhadores ocupam-se todos de seus deveres específicos. Na sociedade humana, quer a pessoa seja trabalhador, comerciante, guerreiro, administrador ou agricultor, ou mesmo que pertença à classe mais elevada e seja um homem de letras, um cientista ou um teólogo, ela tem de trabalhar para manter sua existência. O Senhor, portanto, diz a Arjuna que ele não precisa abandonar sua ocupação, mas que, enquanto está ocupado em sua ocupação, deve lembrar-se de Kṛṣṇa. Se não praticar lembrar-se de Kṛṣṇa enquanto luta pela existência, então não lhe será possível lembrar-se de Kṛṣṇa no momento da morte. O Senhor Caitanya também aconselha isso. Ele diz que se deve praticar lembrar-se do Senhor cantando sempre os nomes do Senhor. Os nomes do Senhor e o Senhor não são diferentes. Assim, a instrução do Senhor Kṛṣṇa a Arjuna de \"lembrar-Se de Mim\" e o preceito do Senhor Caitanya de sempre \"cantar os nomes do Senhor Kṛṣṇa\" são a mesma instrução. Não há diferença, pois Kṛṣṇa e o nome de Kṛṣṇa não são diferentes. No estado absoluto, não há diferença entre a referência e o referente. Por isso, temos de praticar lembrar-nos do Senhor sempre, vinte e quatro horas por dia, cantando Seus nomes e moldando as atividades de nossa vida de tal maneira que possamos lembrar-nos dEle sempre.\n\nComo isso é possível? Os *ācāryas* dão o seguinte exemplo. Se uma mulher casada está apegada a outro homem, ou se um homem tem apego por uma mulher que não a sua esposa, então o apego deve ser considerado muito forte. Aquele que tem tal apego está sempre pensando na pessoa amada. A esposa que está pensando em seu amante está sempre pensando em encontrar-se com ele, mesmo enquanto executa suas tarefas domésticas. De fato, ela executa seu trabalho doméstico com ainda mais cuidado, para que seu esposo não suspeite de seu apego. De modo semelhante, devemos sempre lembrar-nos do amante supremo, Śrī Kṛṣṇa, e, ao mesmo tempo, desempenhar muito bem nossos deveres materiais. Um forte senso de amor é exigido aqui. Se temos um forte senso de amor pelo Senhor Supremo, então podemos cumprir nosso dever e, ao mesmo tempo, lembrar-nos dEle. Mas temos de desenvolver esse senso de amor. Arjuna, por exemplo, estava sempre pensando em Kṛṣṇa; era o companheiro constante de Kṛṣṇa e, ao mesmo tempo, era um guerreiro. Kṛṣṇa não o aconselhou a abandonar a luta e ir à floresta meditar. Quando o Senhor Kṛṣṇa delineia o sistema de *yoga* a Arjuna, Arjuna diz que a prática deste sistema não lhe é possível.\n\n>arjuna uvāca\n>yo 'yaṁ yogas tvayā proktaḥ sāmyena madhusūdana\n>etasyāhaṁ na paśyāmi cañcalatvāt sthitiṁ sthirām\n\n\"Arjuna disse: Ó Madhusūdana, o sistema de *yoga* que resumiste parece-me impraticável e insuportável, pois a mente é inquieta e instável.\" [[bg/6/33|(Bg. 6.33)]]\n\nMas o Senhor diz:\n\n> yoginām api sarveṣāṁ mad-gatenāntarātmanā\n> śraddhāvān bhajate yo māṁ sa me yuktatamo mataḥ\n\n\"De todos os *yogīs,* aquele que sempre permanece em Mim com grande fé, adorando-Me em serviço transcendental amoroso, está mais intimamente unido a Mim em *yoga,* e é o mais elevado de todos.\" [[bg/6/47|(Bg. 6.47)]] Portanto, aquele que pensa no Senhor Supremo sempre é o maior *yogī,* o supremo *jñānī* e o maior devoto ao mesmo tempo. O Senhor diz ainda a Arjuna que, como *kṣatriya,* ele não pode abandonar sua luta; mas, se Arjuna lutar lembrando-se de Kṛṣṇa, então será capaz de lembrar-se dEle no momento da morte. Contudo, é preciso estar completamente rendido no serviço transcendental amoroso ao Senhor.\n\nNa verdade, não trabalhamos com nosso corpo, mas com nossa mente e inteligência. Assim, se a inteligência e a mente estão sempre ocupadas no pensamento do Senhor Supremo, então, naturalmente, os sentidos também estão ocupados em Seu serviço. Superficialmente, ao menos, as atividades dos sentidos permanecem as mesmas, mas a consciência está mudada. O *Bhagavad-gītā* ensina como absorver a mente e a inteligência no pensamento do Senhor. Tal absorção capacitará a pessoa a transferir-se para o reino do Senhor. Se a mente está ocupada no serviço de Kṛṣṇa, então os sentidos estão automaticamente ocupados em Seu serviço. Esta é a arte, e este é também o segredo do *Bhagavad-gītā:* a absorção total no pensamento de Śrī Kṛṣṇa.\n\nO homem moderno tem se esforçado muito arduamente para alcançar a Lua, mas não se tem esforçado muito para elevar-se espiritualmente. Se a pessoa tem cinquenta anos de vida pela frente, deve ocupar esse breve tempo em cultivar esta prática de lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus. Esta prática é o processo devocional de:\n\n> śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam\n> arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ sakhyam ātma-nivedanam\n\nEstes nove processos, dos quais o mais fácil é *śravaṇaṁ,* ouvir o *Bhagavad-gītā* da pessoa realizada, voltarão a pessoa para o pensamento do Ser Supremo. Isso a conduzirá a *niścala,* lembrar-se do Senhor Supremo, e a capacitará, ao deixar o corpo, a alcançar um corpo espiritual que é justamente apto para a associação com o Senhor Supremo.\n\nO Senhor diz ainda:\n\n> abhyāsa-yoga-yuktena cetasā nānya-gāminā\n> paramaṁ puruṣaṁ divyaṁ yāti pārthānucintayan\n\n\"Aquele que medita em Mim como a Suprema Personalidade de Deus, com a mente constantemente ocupada em lembrar-se de Mim, sem desviar-se do caminho, ó Pārtha, é certo que Me alcança.\" [[bg/8/8|(Bg. 8.8)]]\n\nEste não é um processo muito difícil. Contudo, é preciso aprendê-lo de uma pessoa experiente, de alguém que já esteja na prática. A mente está sempre voando para isto e aquilo, mas é preciso sempre praticar concentrar a mente na forma do Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa, ou no som de Seu nome. A mente é naturalmente inquieta, indo para cá e para lá, mas pode repousar na vibração sonora de Kṛṣṇa. É preciso, assim, meditar em *paramaṁ puruṣaṁ,* a Pessoa Suprema; e, dessa forma, alcançá-Lo. As maneiras e os meios para a realização última, para a obtenção última, são afirmados no *Bhagavad-gītā,* e as portas deste conhecimento estão abertas para todos. Ninguém fica de fora. Todas as classes de homens podem abordar o Senhor pensando nEle, pois ouvir e pensar nEle é possível para todos.\n\nO Senhor diz ainda:\n\n> māṁ hi pārtha vyapāśritya ye ’pi syuḥ pāpa-yonayaḥ\n> striyo vaiśyās tathā śūdrās te ’pi yānti parāṁ gatim\n\n> kiṁ punar brāhmaṇāḥ puṇyā bhaktā rājarṣayas tathā\n> anityam asukhaṁ lokam imaṁ prāpya bhajasva mām\n\n\"Ó filho de Pṛthā, todo aquele que se abrigar em Mim, seja uma mulher, ou um comerciante, ou alguém nascido em família baixa, pode ainda assim alcançar o destino supremo. Quão maiores, então, são os *brāhmaṇas,* os justos, os devotos e os reis santos! Neste mundo miserável, estes estão fixos no serviço devocional ao Senhor.\" (Bg. 9.32-33)\n\nOs seres humanos, mesmo nas condições inferiores de vida (um comerciante, uma mulher ou um trabalhador), podem alcançar o Supremo. Não se necessita de inteligência altamente desenvolvida. O ponto é que todo aquele que aceita o princípio do *bhakti-yoga* e aceita o Senhor Supremo como o *summum bonum* da vida, como o alvo mais elevado, a meta última, pode abordar o Senhor no céu espiritual. Se a pessoa adota os princípios enunciados no *Bhagavad-gītā,* pode tornar sua vida perfeita e dar uma solução perfeita a todos os problemas da vida que surgem da natureza transitória da existência material. Esta é a soma e a substância de todo o *Bhagavad-gītā.*\n\nEm conclusão, o *Bhagavad-gītā* é uma literatura transcendental que se deve ler com muito cuidado. Ela é capaz de salvar a pessoa de todo temor.\n\n> nehābhikrama-nāśo ’sti pratyavāyo na vidyate\n> svalpam apy asya dharmasya trāyate mahato bhayāt\n\n\"Neste empenho não há perda nem diminuição, e um pequeno avanço nesta senda pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de temor.\" [[bg/2/40|(Bg. 2.40)]] Se a pessoa lê o *Bhagavad-gītā* sincera e seriamente, então todas as reações de seus malfeitos passados não recairão sobre ela. Na última porção do *Bhagavad-gītā,* o Senhor Śrī Kṛṣṇa proclama:\n\n> sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja\n> ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ\n\n\"Abandona todas as variedades de religiosidade e simplesmente rende-te a Mim; e, em troca, Eu te protegerei de todas as reações pecaminosas. Portanto, nada tens a temer.\" [[bg/18/66|(Bg. 18.66)]] Assim, o Senhor toma toda a responsabilidade por aquele que se rende a Ele, e indeniza todas as reações do pecado.\n\nA pessoa limpa-se diariamente tomando um banho de água, mas aquele que toma seu banho apenas uma vez na sagrada água do Ganges do *Bhagavad-gītā* lava toda a sujeira da vida material. Por o *Bhagavad-gītā* ser falado pela Suprema Personalidade de Deus, não é preciso ler nenhuma outra literatura Védica. Basta ouvir e ler o *Bhagavad-gītā* com atenção e regularidade. Na era atual, a humanidade está tão absorta em atividades mundanas que não é possível ler todas as literaturas Védicas. Mas isso não é necessário. Este único livro, o *Bhagavad-gītā,* será suficiente, pois é a essência de todas as literaturas Védicas e porque é falado pela Suprema Personalidade de Deus. Diz-se que aquele que bebe a água do Ganges certamente obtém a salvação; mas o que dizer de quem bebe as águas do *Bhagavad-gītā?* O *Gītā* é o próprio néctar do *Mahābhārata,* falado pelo próprio Viṣṇu, pois o Senhor Kṛṣṇa é o Viṣṇu original. É néctar que emana da boca da Suprema Personalidade de Deus, e diz-se que o Ganges emana dos pés de lótus do Senhor. Naturalmente, não há diferença entre a boca e os pés do Senhor Supremo, mas, em nossa posição, podemos apreciar que o *Bhagavad-gītā* é ainda mais importante que o Ganges.\n\nO *Bhagavad-gītā* é exatamente como uma vaca, e o Senhor Kṛṣṇa, que é um vaqueirinho, está ordenhando esta vaca. O leite é a essência dos *Vedas,* e Arjuna é exatamente como um bezerro. Os homens sábios, os grandes sábios e os devotos puros devem beber o leite nectáreo do *Bhagavad-gītā.*\n\nNos dias de hoje, o homem está muito ansioso por ter uma escritura, um Deus, uma religião e uma ocupação. Portanto, que haja uma escritura comum para o mundo inteiro—o *Bhagavad-gītā.* E que haja um único Deus para o mundo inteiro—Śrī Kṛṣṇa. E um único *mantra*—Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. E que haja um único trabalho—o serviço à Suprema Personalidade de Deus.\n\n## A SUCESSÃO DISCIPULAR\n\n*Evaṁ paramparā-prāptam imaṁ rājarṣayo viduḥ.* (Bhagavad-gītā, 4.2) Este *Bhagavad-gītā Como Ele É* é recebido por intermédio desta sucessão discipular:\n\n**1) Kṛṣṇa,** 2) Brahmā, 3) Nārada, 4) Vyāsa, 5) Madhva, 6) Padmanābha, 7) Nṛhari, 8) Mādhava, 9) Akṣobhya, 10) Jaya Tīrtha, 11) Jñānasindhu, 12) Dayānidhi, 13) Vidyānidhi, 14) Rājendra, 15) Jayadharma, 16) Puruṣottama, 17) Brahmaṇya Tīrtha, 18) Vyāsa Tīrtha, 19) Lakṣmīpati, 20) Mādhavendra Purī, 21) Īśvara Purī, (Nityānanda, Advaita), **22) Senhor Caitanya,** 23) Rūpa, (Svarūpa, Sanātana), 24) Raghunātha, Jīva, 25) Kṛṣṇadāsa, 26) Narottama, 27) Viśvanātha, 28) (Baladeva) Jagannātha, 29) Bhaktivinoda, 30) Gaurakiśora, 31) Bhaktisiddhānta Sarasvatī, 32) Bhaktivedanta Swami Prabhupāda."}
