{"ref": "ej/1", "book": "ej", "lang": "pt", "url": "/pt/library/ej/1/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "1. Mundos antimateriais", "purport": "A ciência materialista talvez descubra um dia, por fim, o eterno mundo antimaterial que durante tanto tempo permaneceu desconhecido para os polemistas do materialismo grosseiro. A respeito da atual concepção dos cientistas sobre a antimatéria, o Times of India (27 de outubro de 1959) publicou a seguinte nota informativa:\n\n\n\nEstocolmo, 26 de outubro de 1959 — Dois cientistas atômicos norte-americanos receberam hoje o Prêmio Nobel de Física de 1959 pela descoberta do antipróton, comprovando que a matéria existe em duas formas: como partículas e como antipartículas. Trata-se do Dr. Emilio Segre, de 69 anos, nascido na Itália, e do Dr. Owen Chamberlain, nascido em São Francisco… Segundo uma das suposições fundamentais da nova teoria, pode existir outro mundo, ou um antimundo, constituído de antimatéria. Esse mundo antimaterial seria composto de partículas atômicas e subatômicas que giram em órbitas inversas às do mundo que conhecemos. Caso esses dois mundos venham algum dia a colidir, ambos se aniquilariam num único clarão ofuscante.\n\n\n\n\n\nNesta declaração, apresentam-se as seguintes proposições:\n\n\n\n1. Existe um átomo ou partícula antimaterial constituído pelas antiqualidades dos átomos materiais.\n\n\n\n2. Existe outro mundo além deste mundo material, do qual temos apenas uma experiência limitada.\n\n\n\n3. Os mundos antimaterial e material podem colidir em determinado período e podem aniquilar-se mutuamente.\n\n\n\nDestes três pontos, nós, os estudantes da ciência teísta, podemos concordar plenamente com os pontos 1 e 2, mas só podemos concordar com o ponto 3 dentro da definição científica limitada de antimatéria. A dificuldade reside no fato de que a concepção dos cientistas sobre a antimatéria se estende apenas a outra variedade de energia material, ao passo que a verdadeira antimatéria há de ser inteiramente antimaterial. A matéria, tal como está constituída, está sujeita à aniquilação, mas a antimatéria — se há de estar livre de todos os sintomas materiais — também há de estar livre da aniquilação, por sua própria natureza. Se a matéria é destrutível ou separável, a antimatéria há de ser indestrutível e inseparável. Tentaremos discutir essas proposições a partir do ângulo da visão escriturística autêntica.\n\n\n\nAs Escrituras mais amplamente reconhecidas do mundo são os *Vedas*. Os *Vedas* foram divididos em quatro partes: Sāma, Yajur, Ṛg e Atharva. O assunto dos *Vedas* é muito difícil para um homem de entendimento comum. Para sua elucidação, os quatro *Vedas* são explicados na epopeia histórica chamada *Mahābhārata* e em dezoito *Purāṇas*. O *Rāmāyaṇa* é também uma epopeia histórica que contém todas as informações necessárias dos *Vedas*. Assim, os quatro *Vedas*, o *Rāmāyaṇa* original de Vālmīki, o *Mahābhārata* e os *Purāṇas* classificam-se como literaturas Védicas. Os *Upaniṣads* são partes dos quatro *Vedas*, e os Vedānta-sūtras representam a essência dos *Vedas*. Para resumir todas essas literaturas Védicas, o *Bhagavad-gītā* é aceito como a essência de todos os *Upaniṣads* e a explicação preliminar dos Vedānta-sūtras. Pode-se, então, concluir que somente do *Bhagavad-gītā* se obtém a essência dos *Vedas*, pois ele é falado pelo Senhor Śrī Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, que desce a este mundo material a partir do mundo antimaterial a fim de dar informação completa da forma superior de energia.\n\n\n\nA forma superior de energia da Personalidade de Deus é descrita no *Bhagavad-gītā* como parā prakṛti. Os cientistas descobriram recentemente que há duas formas de matéria perecível, mas o *Bhagavad-gītā* descreve com a maior perfeição o conceito de matéria e antimatéria em termos de duas formas de energia. A matéria é uma energia que cria o mundo material, e a mesma energia, em sua forma superior, cria também o mundo antimaterial (transcendental). As entidades vivas pertencem à categoria da energia superior. A energia inferior, ou energia material, denomina-se aparā prakṛti. No *Bhagavad-gītā*, a energia criativa é, dessa maneira, apresentada em duas formas, a saber, aparā e parā prakṛti.\n\n\n\nA matéria, por si só, não tem poder criativo. Quando é manipulada pela energia viva, produzem-se as coisas materiais. Em sua forma grosseira, portanto, a matéria é a energia latente do Ser Supremo. Sempre que pensamos em energia, é natural que pensemos em sua fonte. Por exemplo, quando pensamos na energia elétrica, pensamos simultaneamente na usina onde ela é gerada. A energia não é autossuficiente. Acha-se sob o controle de um ser vivo superior. O fogo, por exemplo, é a fonte de outras duas energias, a saber, a luz e o calor. A luz e o calor não têm existência independente fora do fogo. De modo semelhante, as energias inferior e superior derivam de uma fonte, à qual se pode chamar por qualquer nome. Essa fonte de energia há de ser um ser vivo com pleno conhecimento de tudo. Esse ser vivo supremo é a Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, ou o ser vivo todo-atraente.\n\n\n\nNos *Vedas*, o ser vivo supremo, ou a Verdade Absoluta, denomina-se Bhagavān — o opulento, o ser vivo que é a nascente de todas as energias. A descoberta das duas formas de energias limitadas pelos cientistas modernos é apenas o começo do progresso da ciência. Cabe-lhes agora ir mais além, para descobrir a fonte das duas partículas ou átomos que denominam material e antimaterial.\n\n\n\nComo se pode explicar a partícula antimaterial? Temos experiência com partículas ou átomos materiais, mas não temos experiência alguma com átomos antimateriais. Contudo, o *Bhagavad-gītā* oferece a seguinte vívida descrição da partícula antimaterial:\n\n\n\nEsta partícula antimaterial encontra-se dentro do corpo material. Devido à presença dessa partícula antimaterial, o corpo material muda progressivamente da infância para a meninice, da meninice para a juventude e desta para a velhice, após o que a partícula antimaterial abandona o velho e inservível corpo e assume outro corpo material.\n\n\n\n\n\nEsta descrição de um corpo vivo confirma a descoberta científica de que a energia existe em duas formas. Quando uma delas, a partícula antimaterial, se separa do corpo material, este último torna-se inútil para todos os fins. Como tal, a partícula antimaterial é, sem dúvida, superior à energia material.\n\n\n\nNinguém, portanto, deveria lamentar a perda de energia material. Todas as variedades de percepção sensorial nas categorias de calor e frio, felicidade e aflição, não são senão interações da energia material que vêm e vão como as mudanças sazonais. O aparecimento e o desaparecimento temporários de tais interações materiais confirmam que o corpo material é formado de uma energia material inferior à força viva, ou energia jīva.\n\n\n\nQualquer homem inteligente que não se perturbe diante da felicidade e da aflição, compreendendo que são fases materiais distintas resultantes das interações da energia inferior, está apto a reaver o mundo antimaterial, onde a vida é eterna, plena de conhecimento permanente e bem-aventurança.\n\n\n\nO mundo antimaterial é mencionado aqui e, além disso, dá-se a informação de que, no mundo antimaterial, não há flutuação «sazonal». Tudo lá é permanente, bem-aventurado e pleno de conhecimento. Mas, quando dele falamos como um «mundo», devemos lembrar que ele possui formas e parafernália de diversas categorias, além de nossas experiências materiais.\n\n\n\nO corpo material é destrutível e, como tal, é mutável e temporário. O mesmo se dá com o mundo material. Mas a força viva antimaterial é indestrutível e, em consequência, é permanente. Os cientistas peritos distinguiram, assim, as diferentes qualidades das partículas material e antimaterial como temporária e permanente, respectivamente.\n\n\n\nOs descobridores das duas formas de matéria ainda têm de descobrir as qualidades da antimatéria. Mas já se dá uma vívida descrição no *Bhagavad-gītā*, como segue. O cientista pode prosseguir sua pesquisa com base nesta valiosa informação.\n\n\n\nA partícula antimaterial é mais fina do que a mais fina das partículas materiais. Esta força viva é tão poderosa que estende sua influência por todo o corpo material. A partícula antimaterial tem uma potência imensa em comparação com a partícula material e, em consequência, não pode ser destruída.\n\n\n\nIsto não é senão o começo da descrição da partícula antimaterial no *Bhagavad-gītā*. Explica-se ainda da seguinte maneira:\n\n\n\nA forma mais fina da partícula antimaterial acha-se enjaulada dentro dos corpos materiais grosseiro e sutil. Embora os corpos materiais (tanto o grosseiro quanto o sutil) estejam sujeitos à destruição, a partícula antimaterial, mais fina, é eterna. O interesse da pessoa, portanto, deveria recair sobre este princípio eterno.\n\n\n\nA perfeição da ciência ocorrerá quando for possível aos cientistas materiais conhecer as qualidades da partícula antimaterial e libertá-la da associação com as partículas materiais, não permanentes. Tal liberação assinalaria a culminação do progresso científico.\n\n\n\nHá uma verdade parcial na sugestão dos cientistas de que também pode existir outro mundo composto de átomos antimateriais e de que uma colisão entre os mundos material e antimaterial resultará na aniquilação de ambos. Há uma colisão que se produz continuamente: a aniquilação das partículas materiais ocorre a cada instante, e a partícula não material luta pela liberação. Isso se explica no *Bhagavad-gītā* da seguinte maneira:\n\n\n\nA partícula não material, que é a entidade viva, influencia a partícula material para que esta atue. Esta entidade viva é sempre indestrutível. Enquanto a partícula não material permanece dentro do amontoado de energia material — conhecido pelos nomes de corpos grosseiro e sutil —, a entidade manifesta-se como uma unidade viva. Na contínua colisão entre as duas partículas, a partícula não material jamais é aniquilada. Ninguém pode destruir a partícula antimaterial em momento algum — passado, presente ou futuro.\n\n\n\nPor isso, consideramos que a teoria que sustenta que os mundos material e antimaterial podem colidir, resultando na aniquilação de ambos, é correta apenas dentro do contexto da definição limitada de antimatéria dada pelos cientistas. O *Bhagavad-gītā* explica a natureza da partícula antimaterial, que jamais pode ser aniquilada:\n\n\n\nA fina e incomensurável partícula antimaterial é sempre indestrutível, permanente e eterna. Contudo, após certo período, seu encarceramento por partículas materiais é aniquilado. Este mesmo princípio opera também no caso dos mundos material e antimaterial. Ninguém deveria temer a aniquilação da partícula antimaterial, pois ela sobrevive à aniquilação dos mundos materiais.\n\n\n\nTudo o que se cria é aniquilado em determinada etapa. Tanto o corpo material como o mundo material são criados e, por conseguinte, estão sujeitos à aniquilação. A partícula antimaterial, porém, jamais é criada e, em consequência, jamais é aniquilada. Isso também se corrobora no *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nA partícula antimaterial, que é a força vital, nunca nasce nem é criada. Existe eternamente. Não tem datas de nascimento nem de morte. Não se cria nem se destrói repetidamente. Existe eternamente e, portanto, é a mais antiga das antigas e, ainda assim, está sempre fresca e nova. Embora a partícula material seja aniquilada, a partícula antimaterial jamais é afetada.\n\n\n\nO princípio também se aplica ao universo antimaterial, bem como à partícula antimaterial. Quando o universo material for aniquilado, o universo antimaterial existirá em todas as circunstâncias. Isso será explicado mais detalhadamente adiante.\n\n\n\nO cientista pode aprender também o seguinte do *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nO homem instruído, que sabe perfeitamente bem que a partícula antimaterial é indestrutível, sabe que ela não pode ser aniquilada por meio algum.\n\n\n\nO cientista atômico pode cogitar de aniquilar o mundo material com armas nucleares, mas suas armas não podem destruir o mundo antimaterial. A partícula antimaterial é explicada com maior clareza nas seguintes linhas:\n\n\n\nNão a corta em pedaços arma material alguma, nem o fogo a queima. Nem a água a umedece, nem ela murcha, nem se resseca, nem se evapora no ar. É indivisível, incombustível e insolúvel. Por ser eterna, pode entrar em qualquer tipo de corpo e dele sair. Por ser estável por constituição, suas qualidades são sempre fixas. É inexplicável, porque é contrária a todas as qualidades materiais. É impensável para o cérebro comum. É imutável. Ninguém, portanto, deveria jamais lamentar-se por aquilo que constitui um princípio eterno e antimaterial.\n\n\n\nDesse modo, no *Bhagavad-gītā* e em todas as demais literaturas Védicas, a energia superior (princípio antimaterial) é aceita como a força vital, ou o espírito vivo. A isto também se chama a jīva. Este princípio vivo não pode ser gerado por nenhuma combinação de elementos materiais. Há oito princípios materiais que se descrevem como energias inferiores, e são eles: (1) terra, (2) água, (3) fogo, (4) ar, (5) éter, (6) mente, (7) inteligência e (8) ego. À parte destes, encontra-se a força viva, ou o princípio antimaterial, que se descreve como a energia superior. Denominam-se «energias» porque são empunhadas e controladas pelo ser vivo supremo, a Personalidade de Deus (Kṛṣṇa).\n\n\n\nDurante muito tempo, o materialista esteve limitado dentro do âmbito dos oito princípios materiais acima mencionados. Ora, é alentador ver que ele já tem um pouco de informação preliminar sobre o princípio antimaterial e o universo antimaterial. Esperamos que, com o passar do tempo, o materialista seja capaz de avaliar o valor do mundo antimaterial, no qual não há vestígio de princípios materiais. Naturalmente, a própria palavra «antimaterial» indica que o princípio se opõe a todas as qualidades materiais.\n\n\n\nHá, decerto, os especuladores mentais que comentam o princípio antimaterial. Estes se dividem em dois grupos principais e chegam a duas conclusões errôneas distintas. Um grupo (os materialistas grosseiros) ou nega o princípio antimaterial ou admite apenas a desintegração da combinação material em determinada etapa (a morte). O outro grupo aceita o princípio antimaterial como algo que se opõe diretamente ao princípio material, com suas vinte e quatro categorias. Esse grupo é conhecido como os sāṅkhyaítas, e eles investigam os princípios materiais e os analisam minuciosamente. Ao fim de sua investigação, os sāṅkhyaítas finalmente aceitam apenas um princípio transcendental (antimaterial) não ativo. Não obstante, surgem dificuldades para todos esses especuladores mentais, porque especulam com o auxílio da energia inferior. Não aceitam informação da energia superior. Para perceber a posição real do princípio antimaterial, é preciso elevar-se ao plano transcendental da energia superior. O bhakti-yoga é a própria atividade da energia superior.\n\n\n\nDa plataforma do mundo material, não se pode avaliar a posição real do mundo antimaterial. Mas o Senhor Supremo, que é o controlador das energias tanto material como antimaterial, desce por Sua misericórdia imotivada e nos dá informação completa do mundo antimaterial. Dessa maneira, podemos saber o que é o mundo antimaterial. Somos informados de que tanto o Senhor Supremo quanto as entidades vivas são de qualidade antimaterial. Assim, podemos formar uma ideia do Senhor Supremo mediante um estudo minucioso das entidades vivas. Cada entidade viva é uma pessoa individual. Por conseguinte, o ser vivo supremo também há de ser a pessoa suprema. Nas literaturas Védicas, a pessoa suprema é corretamente identificada como Kṛṣṇa. O nome «Kṛṣṇa», que indica o Senhor Supremo, é o único nome verdadeiramente inteligível da mais elevada ordem. Ele é o controlador das energias tanto material como antimaterial, e a própria palavra «Kṛṣṇa» significa que Ele é o controlador supremo. No *Bhagavad-gītā*, o Senhor confirma isto da seguinte maneira:\n\n\n\nHá dois mundos: o material e o antimaterial. O mundo material é composto de energia qualitativa inferior, dividida em oito princípios materiais. O mundo antimaterial é feito de energia qualitativa superior. Visto que tanto a energia material como a antimaterial são emanações da Transcendência Suprema, a Personalidade de Deus, é correto concluir que Eu [o Senhor Kṛṣṇa] sou a causa última de todas as criações e aniquilações.\n\n\n\nVisto que as duas energias do Senhor (inferior e superior) manifestam os mundos material e antimaterial, Ele é denominado a Suprema Verdade Absoluta. O Senhor Kṛṣṇa explica isto no *Bhagavad-gītā* assim:\n\n\n\nEu sou, Arjuna, o princípio mais elevado da transcendência, e não há nada superior a Mim. Tudo o que existe repousa em Minhas energias exatamente como pérolas em um fio.\n\n\n\nMuito, muito antes da descoberta dos princípios da antimatéria e dos mundos antimateriais, o tema foi delineado nas páginas do *Bhagavad-gītā*. O próprio *Gītā* indica que sua filosofia fora previamente ensinada à deidade regente do sol, o que implica que os princípios do *Bhagavad-gītā* foram expostos pela Personalidade de Deus muito antes da Batalha de Kurukṣetra — pelo menos uns 120.000.000 de anos antes. Ora, a ciência moderna apenas descobriu uma fração das verdades disponíveis no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nA suposição de um universo antimaterial também se encontra no *Bhagavad-gītā*. E, a partir de todos os dados disponíveis, há de se presumir, sem a menor dúvida, que o mundo antimaterial está situado no céu antimaterial, um céu que no *Bhagavad-gītā* é mencionado como sanātana-dhāma, ou a natureza eterna.\n\n\n\nExatamente como os átomos materiais criam o mundo material, os átomos antimateriais criam o mundo antimaterial com toda a sua parafernália. O mundo antimaterial é habitado por entidades vivas antimateriais. No mundo antimaterial não há matéria inerte. Tudo lá é um princípio vivo, e a Pessoa Suprema nessa região é o próprio Deus. Os habitantes do mundo antimaterial possuem vida eterna, conhecimento eterno e bem-aventurança eterna. Em outras palavras, têm todas as qualificações de Deus.\n\n\n\nNo mundo material, o planeta mais elevado denomina-se Satyaloka, ou Brahmaloka. Os seres dos maiores talentos vivem nesse planeta. A deidade regente de Brahmaloka é Brahmā, o primeiro ser criado deste mundo material. Brahmā é um ser vivo como tantos de nós, mas é a personalidade mais talentosa do mundo material. Ele não é talentoso a ponto de estar na categoria de Deus, mas acha-se na categoria daquelas entidades vivas diretamente dominadas por Deus. Tanto Deus quanto as entidades vivas pertencem ao mundo antimaterial. O cientista, portanto, prestaria um serviço a todos pesquisando a constituição do mundo antimaterial — como é administrado, como as coisas ali se configuram, quem são as personalidades regentes, e assim por diante. Das literaturas Védicas, o *Śrīmad-Bhāgavatam* trata minuciosamente desses assuntos. O *Bhagavad-gītā* é o estudo preliminar do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Esses dois importantes livros de conhecimento deveriam ser estudados a fundo por todos os homens do mundo científico. Tais livros forneceriam muitas pistas para o progresso científico e indicariam muitas novas descobertas.\n\n\n\nOs transcendentalistas e os materialistas são duas classes distintas de homens. O transcendentalista colhe seu conhecimento de Escrituras autoritativas como os *Vedas*. A literatura Védica é recebida de fontes autoritativas que se encontram na linha da sucessão discipular transcendental. Esta sucessão discipular (paramparā) também é mencionada no *Bhagavad-gītā*. Kṛṣṇa diz no *Bhagavad-gītā* que, há centenas de milhares de anos, o *Gītā* foi falado à deidade regente do sol, que transmitiu o conhecimento a seu filho Manu, de quem descende a presente geração de homens. Manu, por sua vez, entregou este conhecimento transcendental a seu filho, o rei Ikṣvāku, que é o antepassado da dinastia em que apareceu a Personalidade de Deus Śrī Rāma. Essa longa cadeia de sucessão discipular rompeu-se durante o período do advento do Senhor Kṛṣṇa (há cinco mil anos), e por essa razão Kṛṣṇa reexpôs o *Bhagavad-gītā* a Arjuna, fazendo dele, assim, o primeiro discípulo deste conhecimento nesta era. O transcendentalista desta era, por conseguinte, acha-se na linha discipular que começa com Arjuna. Sem se incomodar com o trabalho de pesquisa materialista, o transcendentalista adquire as verdades referentes à matéria e à antimatéria da maneira mais perfeita (através dessa sucessão discipular) e, assim, poupa-se de muito transtorno.\n\n\n\nOs materialistas grosseiros, contudo, não acreditam nos mundos antimateriais da Personalidade de Deus. São, por isso, criaturas desventuradas, embora às vezes muito talentosas, instruídas e avançadas sob outros aspectos. Estão desnorteados pela influência da manifestação material e carecem de conhecimento das coisas antimateriais. É, portanto, um bom sinal que os cientistas materialistas estejam progredindo gradualmente em direção à região do mundo antimaterial. Talvez lhes seja possível inclusive alcançar progresso suficiente para conhecerem os detalhes deste mundo antimaterial, onde a Personalidade de Deus reside como a figura predominante e onde as entidades vivas vivem com Ele e O servem. As entidades vivas que servem a Deus são iguais a Ele em qualidade, mas, ao mesmo tempo, são predominadas em sua condição de servidoras. No mundo antimaterial não há diferença entre o predominado e o predominador — a relação se dá em perfeição e sem o menor tinte de materialismo.\n\n\n\nA natureza do mundo material é destrutiva. Segundo o *Bhagavad-gītā*, há certa verdade parcial na suposição do cientista físico de que ocorre a aniquilação dos mundos material e antimaterial quando estes vêm a colidir. O mundo material é uma criação dos modos mutáveis da natureza. Esses modos (guṇas) são conhecidos como sattva (bondade), rajas (paixão) e tamas (ignorância). O mundo material é criado pelo modo de rajas, mantido pelo modo de sattva e aniquilado pelo modo de tamas. Esses modos são onipresentes no mundo material e, como tais, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo, o processo de criação, manutenção e aniquilação ocorre por todo o universo material. O planeta mais elevado do universo material, Brahmaloka, também se acha sujeito a esses modos da natureza, embora se diga que a duração de vida nesse planeta, devido à predominância do modo de sattva, seja de 4.300.000 x 1.000 x 2 x 30 x 12 x 100 anos solares. Apesar dessa longa duração, contudo, Brahmaloka está sujeito à destruição. Embora a vida em Brahmaloka seja fantasticamente longa em comparação com a vida na Terra, é apenas um relâmpago em comparação com a vida eterna dos mundos não materiais. Em consequência, o orador do *Bhagavad-gītā*, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, afirma a importância do universo antimaterial, que é Sua morada.\n\n\n\nO Senhor Kṛṣṇa ensina que todos os planetas dentro do universo material são destruídos ao fim de 4.300.000 x 1.000 x 2 x 30 x 12 x 100 anos solares. E todos os seres vivos que habitam esses planetas materiais são destruídos materialmente junto com a destruição dos mundos materiais. A entidade viva, todavia, é constitucionalmente uma partícula antimaterial. Mas, a menos que se eleve à região dos mundos antimateriais pelo cultivo de atividades antimateriais, é destruída materialmente na aniquilação dos mundos materiais e fica sujeita a renascer numa forma material com o renascimento de um novo universo material. Em outras palavras, fica sujeita às dores do nascimento e da morte repetidos. Somente aquelas entidades vivas que adotam o amoroso serviço à Personalidade de Deus durante a etapa manifesta da vida material são, sem dúvida, transferidas aos mundos antimateriais após abandonarem o corpo material. A imortalidade é obtida apenas por aqueles que regressam a Deus mediante a prática de atividades antimateriais.\n\n\n\nQue atividades antimateriais são essas? São medicamentos. Por exemplo, quando um homem adoece, dirige-se a um médico, que lhe prescreve medicamentos que, por fim, curam o paciente sofredor. De modo semelhante, o materialista está enfermo e deve consultar um perito transcendentalista-médico. Qual é a sua enfermidade? Sofre as tribulações de repetidos nascimentos, mortes, doenças e velhice. Uma vez que concorde em submeter-se ao tratamento «de volta ao Supremo», ele pode transferir-se para o mundo antimaterial, onde há vida eterna em vez de nascimento e morte.\n\n\n\nA aniquilação do mundo material ocorre de dois modos. A aniquilação parcial ocorre ao fim de cada 4.300.000 x 1.000 anos solares, ou ao fim de cada dia de Brahmaloka, que é o planeta mais elevado do mundo material. Durante esse tempo de aniquilação parcial, os planetas mais elevados, como Brahmaloka, não são aniquilados; mas, ao fim de cada período de 4.300.000 x 1.000 x 2 x 30 x 12 x 100 anos solares, a manifestação cósmica inteira funde-se no corpo antimaterial do qual os princípios materiais emanam, manifestam-se e tornam a fundir-se após a aniquilação. O mundo antimaterial, que se encontra muito longe do céu material, jamais é aniquilado. Ele absorve o mundo material. Pode ser que ocorra uma «colisão» entre os mundos material e antimaterial, como sugerem os cientistas, e que os mundos materiais sejam destruídos; mas não há aniquilação dos mundos antimateriais. O eternamente existente mundo antimaterial está imanifesto para o cientista materialista. Este só pode obter informação dele na medida em que os princípios de sua existência são contrários aos modos do mundo material. Os detalhes completos do universo antimaterial só podem ser conhecidos a partir da fonte infalível das autoridades liberadas que perceberam a fundo a constituição do princípio antimaterial. Esta informação é recebida por recepção auricular por parte de um discípulo submisso da Personalidade de Deus.\n\n\n\nO conhecimento Védico foi assim transmitido ao coração de Brahmā, o primeiro ser vivo da criação material. Foi Brahmā quem relatou este conhecimento ao sábio Nārada Muni. De modo semelhante, o *Bhagavad-gītā* foi falado pela Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, a Vivasvān, a deidade regente do sol, e, quando a cadeia auricular da sucessão discipular se rompeu, o Senhor Kṛṣṇa repetiu o *Bhagavad-gītā* a Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra. Naquela ocasião, Arjuna assumiu o papel de discípulo e estudante a fim de receber o conhecimento transcendental de Śrī Kṛṣṇa. Para dissipar todas as dúvidas que os materialistas grosseiros do mundo pudessem ter, Arjuna formulou todas as perguntas pertinentes, e Kṛṣṇa deu as respostas de modo que qualquer pessoa leiga possa compreendê-las. Somente aqueles que se acham cativos pelo encanto do mundo material não conseguem aceitar a autoridade do Senhor Śrī Kṛṣṇa. É preciso tornar-se inteiramente limpo de hábitos e de coração antes de poder compreender os detalhes do mundo antimaterial. O bhakti-yoga é uma atividade transcendental científica e detalhada que tanto o neófito como o yogī perfeito podem praticar.\n\n\n\nO mundo material é apenas uma representação sombria do mundo antimaterial, e os homens inteligentes, que são limpos de coração e de hábitos, poderão aprender, em resumo, todos os detalhes do mundo antimaterial a partir do texto do *Bhagavad-gītā*, e estes são, na verdade, mais exaustivos do que os detalhes materiais. Os detalhes básicos são os seguintes:\n\n\n\nA Deidade regente do mundo antimaterial é Śrī Kṛṣṇa, que existe em Sua personalidade original, bem como em Suas muitas expansões plenárias. Esta personalidade e Suas expansões plenárias só podem ser conhecidas mediante atividades antimateriais comumente conhecidas como bhakti-yoga, ou serviço devocional. A Personalidade de Deus é a verdade suprema, e Ele é o princípio antimaterial completo. Tanto o princípio material quanto o princípio antimaterial são uma emanação de Sua pessoa. Ele é a raiz da árvore completa. Quando se verte água sobre a raiz de uma árvore, os ramos e as folhas nutrem-se automaticamente. E, da mesma forma, quando Śrī Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, é adorado, todos os detalhes dos mundos materiais se iluminam, e o coração do devoto nutre-se sem que ele tenha de trabalhar de maneira materialista. Este é o segredo do *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nO processo de entrar nos mundos antimateriais difere dos processos materialistas. O ser vivo individual pode entrar muito facilmente no mundo antimaterial praticando atividades antimateriais enquanto reside no mundo material. Mas aqueles que são verdadeiramente materialistas grosseiros, que dependem da força limitada do pensamento experimental, da especulação mental e da ciência materialista, encontram grande dificuldade para entrar nos mundos antimateriais. O materialista grosseiro pode tentar aproximar-se dos mundos antimateriais esforçando-se com naves espaciais, satélites, foguetes, etc., que lança ao espaço exterior; mas, por tais meios, sequer consegue aproximar-se dos planetas materiais das regiões superiores do céu material, que dirá daqueles planetas situados no céu antimaterial, que está muito além do universo material. Mesmo os yogīs que controlaram perfeitamente os poderes místicos têm grande dificuldade para entrar nessa região. Os yogīs mestres, que controlam a partícula antimaterial dentro do corpo material pela prática de poderes místicos, podem abandonar seus corpos materiais à vontade em determinado momento oportuno e, assim, entrar nos mundos antimateriais por uma via específica que liga os mundos material e antimaterial. Caso sejam de algum modo capazes disso, agem de acordo com o método prescrito que se dá no *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nAqueles que perceberam a Transcendência podem alcançar o mundo antimaterial abandonando seus corpos materiais durante o período de uttarāyana, isto é, quando o sol se encontra em seu caminho setentrional, ou durante momentos auspiciosos em que as deidades do fogo e da refulgência controlam a atmosfera.\n\n\n\nOs diferentes semideuses, ou poderosos oficiais diretores, estão designados para atuar na administração das atividades cósmicas. As pessoas tolas, incapazes de ver as complexidades da administração cósmica, riem-se da ideia de uma administração pessoal do fogo, do ar, da eletricidade, dos dias, das noites, etc., por parte de semideuses. Mas o yogī perfeito sabe como satisfazer esses administradores invisíveis dos assuntos materiais e, valendo-se da boa vontade desses administradores, abandona seu corpo material à vontade durante momentos oportunos dispostos para a entrada no universo antimaterial ou nos planetas mais elevados do céu material. Nos planetas superiores do mundo material, os yogīs podem desfrutar de vidas mais cômodas e mais prazerosas durante centenas de milhares de anos, mas a vida nesses planetas superiores não é eterna. Aqueles que desejam vida eterna entram no universo antimaterial mediante poderes místicos, em certos momentos oportunos criados pelos semideuses administradores dos assuntos cósmicos, administradores invisíveis para os materialistas grosseiros que residem neste planeta de sétima categoria chamado «Terra».\n\n\n\nAqueles que não são yogīs, mas que morrem num momento oportuno devido a atos piedosos de sacrifício, caridade, penitência, etc., podem elevar-se aos planetas superiores após a morte, mas estão sujeitos a regressar a este planeta [a Terra]. Sua partida tem lugar num período conhecido como dhūma, a metade escura e sem lua do mês, ou quando o sol se encontra em seu caminho meridional.\n\n\n\nEm resumo, o *Bhagavad-gītā* recomenda que se adotem os meios do serviço devocional, ou atividades antimateriais, caso se deseje entrar no mundo antimaterial. Aqueles que adotam os meios do serviço devocional, tal como o prescreve o transcendentalista perito, jamais se decepcionam em suas tentativas de entrar no mundo antimaterial. Embora os obstáculos sejam muitos, os devotos do Senhor Kṛṣṇa podem superá-los facilmente seguindo rigorosamente a senda traçada pelos devotos transcendentais. Tais devotos — que são passageiros que progridem na viagem da vida em direção ao reino antimaterial de Deus — jamais se desnorteiam. Ninguém é enganado nem decepcionado quando adota a senda garantida da devoção para a entrada no universo antimaterial. Pode-se alcançar facilmente todos os resultados que derivam dos estudos dos *Vedas*, da realização de sacrifícios, da prática de penitências e da oferta de caridades, simplesmente pela execução unilateral do serviço devocional, tecnicamente conhecido como bhakti-yoga.\n\n\n\nO bhakti-yoga é, portanto, a grande panaceia para todos, e sua prática foi facilitada, especialmente nesta era de ferro, pelo próprio Senhor Kṛṣṇa em Sua mais sublime, generosa e munificente aparição como o Senhor Śrī Caitanya (1486-1534), que apareceu em Bengala e difundiu o movimento de saṅkīrtana — cantar, dançar e recitar os nomes de Deus — por toda a Índia. Pela graça do Senhor Caitanya, pode-se assimilar rapidamente os princípios do bhakti-yoga. Assim, todas as dúvidas do coração desaparecerão, o fogo das tribulações materiais será extinto, e a bem-aventurança transcendental se instaurará.\n\n\n\nNo Quinto Capítulo do Brahma-saṁhitā há uma descrição do variegado sistema planetário que se encontra dentro do mundo material. Indica-se também no *Bhagavad-gītā* que há variegados sistemas planetários em centenas de milhares de universos materiais, e que, no total, todos esses universos compreendem apenas uma fração (uma quarta parte) da energia criativa de Deus. A maior parte (três quartas partes) da energia criativa do Senhor manifesta-se no céu espiritual, denominado para-vyoma ou Vaikuṇṭhaloka. Estas instruções do Brahma-saṁhitā e do *Bhagavad-gītā* poderão ser finalmente confirmadas pelo cientista materialista à medida que pesquise a existência do mundo antimaterial.\n\n\n\nAlém disso, um comunicado de imprensa de Moscou, de 21 de fevereiro de 1960, noticiou:\n\n\n\nO renomado professor russo de astronomia Boris Vorontsov-Veliaminov disse que deve haver um número infinito de planetas no universo habitados por seres dotados de razão.\n\n\n\nEsta declaração do astrônomo russo é uma confirmação da informação dada no Brahma-saṁhitā, que afirma:\n\n\n\nyasya prabhā prabhavato jagand-aṇḍa-koṭi-\n\nkoṭiṣv aśeṣa-vasudhādi-vibhūti-bhinnam\n\ntad brahma niṣkalam anantam aśeṣa-bhūtaṁ\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\nSegundo esta citação do Brahma-saṁhitā, não só há números infinitos de planetas, como confirma o astrônomo russo, mas há também números infinitos de universos. Todos esses infinitos universos, com seus infinitos planetas, flutuam sobre a refulgência Brahman que emana do corpo transcendental de Mahā-Viṣṇu — e por ela são produzidos —, o qual é adorado por Brahmā, a deidade regente do universo em que residimos.\n\n\n\nO astrônomo russo também confirma que todos os planetas — estimados em não menos de cem milhões — são habitados. No Brahma-saṁhitā há indicação de que em cada um dos infinitos universos há números infinitos de planetas variegados.\n\n\n\nA opinião do astrônomo foi corroborada pelo professor Vladimir Alpatov, biólogo, que sustentou que alguns dos planetas mencionados acima haviam alcançado um estado de desenvolvimento correspondente ao da Terra. O relato de Moscou prosseguia:\n\n\n\nPoderia ser que a vida, semelhante à da Terra, floresça em tais planetas. O doutor em Química Nikolái Zhirov, abordando o problema da atmosfera nos planetas, assinalou que o organismo de um marciano, por exemplo, bem poderia adaptar-se a uma existência normal com uma baixa temperatura corporal. Afirmou que considerava que a composição gasosa da atmosfera de Marte era bastante adequada para sustentar a vida de seres que se houvessem adaptado a ela.\n\n\n\nA adaptabilidade dos organismos em diferentes variedades de planetas descreve-se no Brahma-saṁhitā como vibhūti-bhinnam, isto é, cada um dos inumeráveis planetas dentro dos universos está dotado de um tipo particular de atmosfera, e as entidades vivas ali são avançadas em ciência, psicologia, etc., conforme a superioridade ou inferioridade da atmosfera. Vibhūti significa «poder específico», e bhinnam significa «variegado». Os cientistas que estão tentando explorar o espaço exterior, na tentativa de alcançar outros planetas por meios mecânicos, devem dar-se conta de que os organismos adaptados à atmosfera da Terra não podem existir nas atmosferas de outros planetas. Como tais, as tentativas do homem de alcançar a Lua, o Sol ou Marte serão completamente inúteis, devido às diferentes atmosferas que prevalecem nesses planetas. Individualmente, no entanto, pode-se tentar ir a qualquer planeta que se deseje, mas isso só é possível mediante mudanças psicológicas na mente. A mente é o núcleo do corpo material. O progresso evolutivo gradual do corpo material depende de mudanças psicológicas dentro da mente. A mudança da estrutura corpórea de um verme para a de uma borboleta e, na ciência médica moderna, a conversão do corpo de um homem no de uma mulher (ou vice-versa) dependem mais ou menos de mudanças psicológicas.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā* se diz que, se um homem, no momento da morte, concentra sua mente na forma da Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, e, ao fazê-lo, abandona seu corpo, entra de imediato na existência espiritual do mundo antimaterial. Isto significa que qualquer um que treine a mente para voltar-se da matéria para a forma espiritual de Deus, pela execução das regras prescritas do serviço devocional, pode alcançar facilmente o reino de Deus, no céu antimaterial. E disto não há dúvida.\n\n\n\nE, da mesma forma, se alguém desejar entrar em qualquer outro planeta do céu material, pode ir até lá logo após abandonar o corpo atual (isto é, após a morte). Assim, se alguém quiser ir à Lua, ao Sol ou a Marte, pode fazê-lo simplesmente executando atos com tal propósito. O *Bhagavad-gītā* confirma esta afirmação com as seguintes palavras:\n\n\n\nAquilo em que uma pessoa medita no momento da morte, abandonando seu corpo absorta no pensamento daquilo, isso em particular ela alcança após a morte.\n\n\n\nMahārāja Bharata, apesar de uma vida de severas penitências, pensou num veado no momento de sua morte e, assim, tornou-se um veado depois de morrer. Contudo, manteve uma clara consciência de sua vida passada e compreendeu seu erro. É importante perceber que os pensamentos da pessoa no momento da morte são influenciados pelos atos que ela de fato executa durante a vida.\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam* (Terceiro Canto, Capítulo Trinta e Dois), o processo de entrar na Lua descreve-se da seguinte maneira:\n\n\n\nOs homens de mentalidade materialista, que não têm informação do reino de Deus, vivem sempre enlouquecidos pela aquisição material de riqueza, fama e adoração. Tais homens interessam-se pelo bem-estar progressivo de sua particular unidade familiar para sua própria satisfação e, por isso, interessam-se também pelo progresso do bem-estar social e nacional. Esses homens alcançam seus objetivos desejados mediante atividades materiais. Estão mecanicamente ocupados no cumprimento ritualístico de deveres prescritos e, em consequência, inclinam-se a satisfazer os Pitās, ou antepassados falecidos, e os semideuses controladores mediante a execução de sacrifícios conforme prescrito pelas Escrituras reveladas. Viciadas em tais atos de sacrifícios e em tais observâncias cerimoniais, essas almas entram na Lua após a morte. Quando se é assim promovido à Lua, recebe-se a capacidade de desfrutar a bebida do soma-rasa, uma beberagem celestial. A Lua é um lugar onde o semideus Candra é a deidade predominante. A atmosfera e as comodidades de vida ali são muito mais cômodas e vantajosas do que as daqui na Terra. Após alcançar a Lua, se uma alma não aproveita a oportunidade para a promoção a melhores planetas, é degradada e obrigada a regressar à Terra ou a um planeta semelhante. Contudo, as pessoas materialistas, ainda que alcancem o sistema planetário mais elevado, certamente são aniquiladas no momento da dissolução da manifestação cósmica.\n\n\n\nQuanto ao sistema planetário do céu espiritual, há ilimitados planetas Vaikuṇṭha no para-vyoma. Os Vaikuṇṭhas são planetas espirituais que são manifestações da potência interna do Senhor, e a proporção desses planetas em relação aos planetas materiais (energia externa) no céu material é de três para um. De modo que o pobre materialista ocupa-se em fazer ajustes políticos num planeta que é o mais insignificante na criação de Deus. Sem falar deste planeta Terra, o universo inteiro, com inumeráveis planetas ao longo das galáxias, é comparável a um grão de mostarda num saco cheio de grãos de mostarda. Mas o pobre materialista faz planos para viver confortavelmente aqui e, assim, desperdiça sua valiosa energia humana em algo que está fadado à frustração. Em vez de perder seu tempo com especulações comerciais, poderia ter buscado a vida de simplicidade e elevado pensamento espiritual, poupando-se, assim, da perpétua inquietação materialista.\n\n\n\nMesmo que um materialista deseje desfrutar de facilidades materiais desenvolvidas, pode transferir-se a planetas onde possa experimentar prazeres materiais muito mais avançados do que os disponíveis no planeta Terra. Mas o melhor plano é preparar-se para regressar ao céu espiritual após abandonar o corpo. Contudo, se alguém está empenhado em desfrutar de facilidades materiais, pode transferir-se a outros planetas do céu material valendo-se de poderes yóguicos. As naves espaciais de brinquedo dos astronautas não passam de entretenimentos infantis e não servem para esse propósito.\n\n\n\nO sistema de aṣṭāṅga-yoga também é materialista, na medida em que ensina a pessoa a controlar os movimentos do ar dentro do corpo material. A centelha espiritual, a alma, flutua sobre o ar dentro do corpo, e a inalação e a exalação são as ondas desse ar que contém a alma. Por isso, o sistema de yoga é uma arte materialista de controlar este ar, transferindo-o do estômago para o umbigo, do peito para a clavícula, e dali para os globos oculares, e dali para o cerebelo, e dali para qualquer planeta desejado. As velocidades do ar e da luz são levadas em conta pelo cientista materialista, mas ele não tem informação alguma da velocidade da mente e da inteligência. Temos alguma experiência limitada da velocidade da mente, pois num instante podemos transferir nossas mentes a lugares a centenas de milhares de milhas de distância. A inteligência é ainda mais fina. Mais fina do que a inteligência é a alma, que não é matéria como a mente e a inteligência, mas espírito, ou antimatéria. A alma é centenas de milhares de vezes mais fina e mais poderosa do que a inteligência. Só podemos, assim, imaginar a velocidade da alma ao viajar de um planeta a outro. Nem é preciso dizer que a alma viaja por sua própria força e não com a ajuda de qualquer tipo de veículo material.\n\n\n\nA civilização bestial de comer, dormir, temer e gratificar os sentidos desencaminhou o homem moderno, fazendo-o esquecer-se de quão poderosa é a alma que ele possui. Como já descrevemos, a alma é uma centelha espiritual que é muitas, muitas vezes mais iluminadora, deslumbrante e poderosa do que o sol, a lua ou a eletricidade. A vida humana arruína-se quando o homem não compreende sua verdadeira identidade com a alma. O Senhor Caitanya apareceu com Seu discípulo Nityānanda para salvar o homem deste tipo de civilização enganosa.\n\n\n\nO *Śrīmad-Bhāgavatam* também descreve como os yogīs podem viajar a todos os planetas do universo. Quando a força vital é elevada ao cerebelo, há toda probabilidade de que esta força irrompa pelos olhos, pelo nariz, pelos ouvidos, etc., uma vez que estes são lugares conhecidos como a sétima órbita da força vital. Mas os yogīs podem bloquear esses orifícios mediante a suspensão completa do ar. O yogī então concentra a força vital na posição média, isto é, entre as sobrancelhas. Nessa posição, o yogī pode pensar no planeta em que deseja entrar após abandonar o corpo. Pode, então, decidir se deseja ir à morada de Kṛṣṇa nos transcendentais Vaikuṇṭhas, de onde não lhe será exigido descer ao mundo material, ou viajar a planetas superiores do universo material. O yogī perfeito está livre para fazer qualquer das duas coisas.\n\n\n\nPara o yogī perfeito que alcançou êxito no método de abandonar o corpo em consciência perfeita, transferir-se de um planeta a outro é tão fácil quanto, para um homem comum, ir até o armazém. Como já discutimos, o corpo material é apenas uma cobertura da alma espiritual. A mente e a inteligência são as coberturas interiores, e o corpo grosseiro de terra, água, ar, etc., é a cobertura externa da alma. Como tal, qualquer alma avançada que se percebeu a si mesma pelo processo yóguico, que conhece a relação entre a matéria e o espírito, pode abandonar a vestimenta grosseira da alma em ordem perfeita e como desejar. Pela graça de Deus, temos completa liberdade. Como o Senhor é bondoso conosco, podemos viver em qualquer parte — quer no céu espiritual, quer no céu material, em qualquer planeta que desejemos. Contudo, o mau uso desta liberdade faz com que a pessoa caia no mundo material e sofra as três espécies de misérias da vida condicionada. O fato de viver uma vida miserável no mundo material por escolha da alma é muito bem ilustrado por Milton em O paraíso perdido. De modo semelhante, por escolha, a alma pode reaver o paraíso e regressar ao lar, de volta a Deus.\n\n\n\nNo momento crítico da morte, pode-se colocar a força vital entre as duas sobrancelhas e decidir aonde se deseja ir. Se a pessoa estiver relutante em manter qualquer conexão com o mundo material, pode, em menos de um segundo, alcançar os transcendentais Vaikuṇṭhas e ali aparecer completamente em seu corpo espiritual, que lhe será adequado na atmosfera espiritual. Basta-lhe desejar abandonar o mundo material em suas formas tanto finas como grosseiras e, então, mover a força vital para a parte mais alta do crânio e abandonar o corpo pelo orifício do crânio chamado brahma-randhra. Esta é a mais elevada perfeição na prática do yoga.\n\n\n\nNaturalmente, o homem está dotado de livre-arbítrio e, como tal, se não quiser libertar-se do mundo material, pode desfrutar a vida de brahma-pāda (a ocupação do posto de Brahmā) e visitar Siddhaloka, os planetas dos seres materialmente perfeitos, que possuem plenas capacidades para controlar a gravidade, o espaço, o tempo, etc. Para visitar esses planetas superiores do universo material, não é preciso abandonar a mente e a inteligência (matéria mais fina), mas apenas a matéria mais grosseira (o corpo material).\n\n\n\nAs naves espaciais e os veículos espaciais mecânicos fabricados pelo homem jamais poderão transportar seres humanos aos planetas do espaço exterior. Os homens sequer podem empreender suas tão alardeadas viagens à Lua, pois, como já afirmamos, a atmosfera de tais planetas superiores é diferente da atmosfera daqui na Terra. Cada planeta tem sua atmosfera particular, e, se alguém quiser viajar a qualquer planeta particular dentro do universo material, há de ter um corpo material exatamente adaptado à condição climática desse planeta. Por exemplo, se alguém quiser ir da Índia à Europa, onde a condição climática é diferente, há de trocar sua vestimenta em conformidade. De modo semelhante, uma mudança completa de corpo é necessária se alguém quiser ir aos planetas transcendentais de Vaikuṇṭha.\n\n\n\nSe alguém quiser ir aos planetas materiais superiores, pode conservar sua vestimenta mais fina de mente, inteligência e ego, mas há de abandonar sua vestimenta grosseira (o corpo) feita de terra, água, fogo, etc. Quando se vai a um planeta transcendental, contudo, é necessário mudar tanto o corpo fino como o grosseiro, pois há de se alcançar o céu espiritual completamente numa forma espiritual. Esta mudança de vestimenta ocorrerá automaticamente no momento da morte, se assim se desejar. Mas este desejo só é possível no momento da morte se for cultivado durante a vida. Onde estão os tesouros da pessoa, ali também está seu coração. Quando se pratica o serviço devocional, cultiva-se um desejo pelo reino de Deus. Os seguintes detalhes esboçam uma prática geral pela qual a pessoa pode preparar-se para uma viagem fácil aos planetas Vaikuṇṭha (antimateriais), onde a vida é livre de nascimento, velhice, doença e morte.\n\n\n\nPrática geral (funções positivas):\n\n\n\n1. O candidato sério deve aceitar um mestre espiritual genuíno a fim de ser treinado cientificamente. Visto que os sentidos são materiais, não é de modo algum possível perceber a Transcendência por meio deles. Portanto, os sentidos hão de ser espiritualizados pelo método prescrito sob a direção do mestre espiritual.\n\n\n\n2. Quando o estudante escolher um mestre espiritual genuíno, deve receber dele a iniciação adequada. Isto marca o início do treinamento espiritual.\n\n\n\n3. O candidato deve estar preparado para satisfazer o mestre espiritual em todos os aspectos. Um mestre espiritual genuíno, que é plenamente conhecedor dos métodos da ciência espiritual, versado nas Escrituras espirituais como o *Bhagavad-gītā*, o Vedānta, o *Śrīmad-Bhāgavatam* e os *Upaniṣads*, e que é também uma alma realizada que estabeleceu uma conexão tangível com o Senhor Supremo, é o meio transparente pelo qual o candidato disposto é conduzido à senda dos Vaikuṇṭhas. O mestre espiritual há de ser satisfeito sob todos os aspectos, pois, simplesmente por seus bons desejos, um candidato pode lograr um progresso maravilhoso ao longo da senda.\n\n\n\n4. O candidato inteligente formula perguntas inteligentes ao mestre espiritual a fim de limpar sua senda de todas as incertezas. O mestre espiritual mostra o caminho, não caprichosamente, mas de acordo com os princípios das autoridades que de fato percorreram a senda. Os nomes dessas autoridades são revelados nas Escrituras, e basta segui-las sob a direção do mestre espiritual. O mestre espiritual jamais se desvia da senda das autoridades.\n\n\n\n5. O candidato deveria sempre procurar seguir as pegadas dos grandes sábios que praticaram o método e obtiveram êxito. Isto deveria ser tomado como um lema na vida. Não se deveria imitá-los superficialmente, mas segui-los sinceramente em função do tempo e das circunstâncias particulares.\n\n\n\n6. O candidato há de estar preparado para mudar seus hábitos em função das instruções contidas nos livros de autoridade, e, para a satisfação do Senhor, há de estar preparado para sacrificar tanto a gratificação dos sentidos quanto a abnegação dos sentidos, seguindo o exemplo de Arjuna.\n\n\n\n7. O candidato deveria viver numa atmosfera espiritual.\n\n\n\n8. Há de contentar-se com tanta riqueza quanto seja suficiente apenas para a manutenção. Não deveria tentar acumular mais riqueza do que a necessária para sustentar-se de maneira simples.\n\n\n\n9. Há de observar os dias de jejum, como o décimo primeiro dia da lua crescente e da minguante.\n\n\n\n10. Há de mostrar respeito ao baniano, à vaca, ao *brāhmaṇa* instruído e ao devoto.\n\n\n\nEstes são os primeiros degraus em direção à senda do serviço devocional. Gradualmente, a pessoa há de adotar outros itens, que são de caráter negativo:\n\n\n\n11. Deve-se evitar as ofensas no desempenho do serviço devocional e no canto dos santos nomes.\n\n\n\n12. Deve evitar a associação extensa com não devotos.\n\n13. Não deve aceitar um número ilimitado de discípulos. Isto significa que um candidato que tenha seguido com êxito os doze primeiros itens também pode tornar-se mestre espiritual, assim como um aluno se torna monitor de classe com um número limitado de discípulos.\n\n\n\n14. Não deve apresentar-se como homem vastamente erudito pela simples citação de declarações contidas em livros. Há de possuir conhecimento sólido dos livros necessários, sem conhecimento supérfluo de outros.\n\n\n\n15. A prática regular e bem-sucedida dos catorze itens acima capacitará o candidato a manter o equilíbrio mental mesmo em meio às grandes provações da perda e do ganho materiais.\n\n\n\n16. Na etapa seguinte, o candidato não se vê afligido pela lamentação nem pela ilusão.\n\n\n\n17. Não ridiculariza o modo de religião ou de adoração de outrem, tampouco ridiculariza a Personalidade de Deus ou Seus devotos.\n\n\n\n18. Jamais tolera a blasfêmia contra o Senhor ou Seus devotos.\n\n\n\n19. Não deve comprazer-se na discussão de temas que tratem da relação entre homem e mulher; nem deve envolver-se em temas inúteis a respeito dos assuntos familiares alheios.\n\n\n\n20. Não deve infligir dor — quer no corpo, quer na mente — a outras entidades vivas, sejam elas quais forem.\n\n\n\nDentre os vinte itens acima, os três primeiros itens positivos são imperativos e os mais essenciais para o candidato sério.\n\n\n\nHá outros quarenta e quatro itens a serem seguidos pelo candidato sério, mas o Senhor Caitanya selecionou cinco como os mais importantes. Estes foram selecionados em virtude das condições atuais da vida cívica. São os seguintes:\n\n\n\n1. Deve-se associar com os devotos. A associação com os devotos torna-se possível ao ouvi-los atentamente, ao fazer-lhes perguntas pertinentes, ao fornecer-lhes alimento e ao aceitar alimento deles, e ao dar-lhes caridade e aceitar deles o que quer que ofereçam.\n\n\n\n2. Deve-se cantar o santo nome do Senhor em todas as circunstâncias. O canto do nome do Senhor é um processo de compreensão fácil e econômico. Pode-se cantar qualquer um dos inumeráveis nomes do Senhor a qualquer momento. Deve-se procurar evitar as ofensas. Há dez ofensas que se pode cometer ao cantar os nomes transcendentais, e estas devem evitar-se na medida do possível; em todo caso, porém, deve-se procurar cantar os santos nomes do Senhor a todo momento.\n\n\n\n3. Deve-se ouvir os temas transcendentais enunciados no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Essa audição torna-se possível mediante palestras proferidas por devotos genuínos e mediante traduções autorizadas do *Bhāgavatam*.\n\n\n\n4. Deve-se fazer do lar Mathurā, o local de nascimento do Senhor Kṛṣṇa. Ou pode-se fazer do próprio lar algo tão bom quanto Mathurā instalando a Deidade do Senhor, a fim de que seja adorada por todos os membros da família após a devida iniciação por parte do mestre espiritual.\n\n\n\n5. Deve-se adorar a Deidade instalada com atenção e devoção, de modo que toda a atmosfera do lar se torne a réplica da morada do Senhor. Isto torna-se possível mediante a orientação do mestre espiritual, que conhece a arte transcendental e pode mostrar ao candidato o método adequado.\n\n\n\nOs cinco itens acima podem ser adotados por qualquer homem em qualquer parte do mundo. Assim, qualquer um pode preparar-se para regressar ao lar, de volta a Deus, mediante o método simples reconhecido por autoridades como o Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu, que adveio especificamente para liberar as almas caídas desta era.\n\n\n\nPara mais detalhes sobre este tema, deve-se ler obras como o *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*, do qual apresentamos um estudo resumido em inglês intitulado The *Nectar of Devotion*.\n\n\n\nTodo o processo de transferir-se ao céu espiritual implica a liquidação gradual da composição material das coberturas grosseira e sutil da alma espiritual. Os cinco itens de atividades devocionais acima mencionados são tão espiritualmente poderosos que sua execução por parte de um devoto, mesmo na etapa preliminar, pode promover muito rapidamente o executor sincero à etapa de bhāva (a etapa imediatamente anterior ao amor a Deus), ou emoção no plano espiritual, que é transcendental às funções mentais e intelectuais. Uma absorção completa em bhāva, ou amor a Deus, torna a pessoa apta a ser transferida ao céu espiritual logo após deixar o tabernáculo material. A perfeição do amor a Deus por parte de um devoto de fato o situa na plataforma espiritual, ainda que talvez mantenha um corpo material grosseiro. Ele se torna como um ferro em brasa que, ao entrar em contato com o fogo, de fato deixa de ser ferro e age como fogo. Tais coisas tornam-se possíveis graças à inescrutável e inconcebível energia do Senhor, que a ciência material não tem alcance para calcular. A pessoa deve, por conseguinte, ocupar-se no serviço devocional com fé absoluta, e, para tornar firme sua fé, deve buscar a associação dos devotos exemplares do Senhor mediante a associação pessoal (se possível) ou pensando neles. Essa associação a ajudará a desenvolver o serviço devocional genuíno ao Senhor, o que fará todas as dúvidas materiais desaparecerem como um relâmpago. Todas essas diferentes etapas de compreensão espiritual serão sentidas pessoalmente pelo candidato, e isso criará nele a firme convicção de que está fazendo um progresso positivo rumo ao céu espiritual. Então ele se apegará sinceramente ao Senhor e à Sua morada. Tal é o processo gradual de desenvolvimento do amor a Deus, que é a necessidade primordial da forma humana de vida.\n\n\n\nHá casos na história de grandes personalidades, incluindo sábios e reis, que alcançaram a perfeição mediante este processo. Alguns deles alcançaram o êxito inclusive ao aderirem a um único item do serviço devocional com fé e perseverança. Algumas dessas personalidades enumeram-se a seguir.\n\n\n\n1. O imperador Parīkṣit alcançou a plataforma espiritual simplesmente por ouvir de uma autoridade como Śrī Śukadeva Gosvāmī.\n\n\n\n2. Śrī Śukadeva Gosvāmī alcançou o mesmo simplesmente por recitar, palavra por palavra, a mensagem transcendental que recebera de seu grande pai, Śrī Vyāsadeva.\n\n\n\n3. O imperador Prahlāda alcançou o êxito espiritual por recordar-se do Senhor constantemente, em conformidade com as instruções dadas por Śrī Nārada Muni, o grande santo e devoto.\n\n\n\n4. Lakṣmījī, a deusa da fortuna, alcançou o êxito simplesmente por sentar-se e servir os pés de lótus do Senhor.\n\n\n\n5. O rei Pṛthu alcançou o êxito simplesmente por adorar o Senhor.\n\n\n\n6. Akrūra, o quadrigário, alcançou o êxito simplesmente por cantar orações ao Senhor.\n\n\n\n7. Hanumān (Mahāvīra), o famoso devoto não humano do Senhor Śrī Rāmacandra, alcançou o êxito simplesmente por cumprir as ordens do Senhor.\n\n\n\n8. Arjuna, o grande guerreiro, alcançou a mesma perfeição simplesmente por travar amizade com o Senhor, que transmitiu a mensagem do *Bhagavad-gītā* para iluminar Arjuna e seus seguidores.\n\n\n\n9. O imperador Bali alcançou o êxito ao render tudo ao Senhor, inclusive o próprio corpo.\n\n\n\nEstes são nove modos padrão de serviço devocional ao Senhor, e um candidato pode optar por adotar um, dois, três, quatro ou todos eles, conforme deseje. Todos os serviços prestados ao Absoluto são, em si mesmos, absolutos, sem nenhuma das diferenças quantitativas ou qualitativas que se encontram na plataforma material. Na plataforma espiritual, tudo é idêntico a tudo o mais, embora haja variedade transcendental. O imperador Ambarīṣa adotou todos os nove itens acima e alcançou o êxito perfeito. Foi ele quem ocupou a mente nos pés de lótus do Senhor, a voz em descrever o mundo espiritual, as mãos em limpar o templo do Senhor, os ouvidos em ouvir submissamente as palavras do Senhor Śrī Kṛṣṇa, os olhos em contemplar as Deidades do Senhor, o corpo em tocar os corpos dos devotos, as narinas em cheirar as flores oferecidas ao Senhor, a língua em saborear o alimento oferecido ao Senhor, as pernas em visitar o templo do Senhor, e toda a energia de sua vida em executar os serviços do Senhor sem desejar, no mínimo que fosse, a própria gratificação dos sentidos. Todas essas atividades o ajudaram a alcançar a etapa perfeita da vida, que supera todas as destrezas da ciência material.\n\n\n\nÉ, por conseguinte, importante que todos os seres humanos adotem estes princípios de compreensão espiritual para a perfeição da vida. A única obrigação do ser humano é a compreensão espiritual. Infelizmente, na civilização moderna, a sociedade humana ocupa-se demasiadamente em cumprir deveres nacionais. Na verdade, os deveres nacionais, os deveres sociais e os deveres humanitários só são obrigatórios para aqueles que carecem de deveres espirituais. Tão logo um homem nasce nesta Terra, não só passa a ter obrigações nacionais, sociais e humanitárias, mas também tem obrigações para com os semideuses que fornecem o ar, a luz, a água, etc. Tem igualmente obrigações para com os grandes sábios que deixaram atrás de si vastos tesouros de conhecimento para guiá-lo ao longo da vida. Tem obrigações para com toda sorte de entidades vivas, para com seus antepassados, os membros de sua família e assim por diante. Mas, tão logo se ocupe no único dever obrigatório — o dever da perfeição espiritual —, liquida então automaticamente todas as demais obrigações sem ter de empreender esforços separados.\n\n\n\nUm devoto do Senhor jamais é um elemento perturbador na sociedade; pelo contrário, é um grande patrimônio social. Visto que nenhum devoto sincero se sente atraído por ações pecaminosas, tão logo um homem se torna devoto puro, pode prestar inestimável serviço desinteressado à sociedade, em prol da paz e da prosperidade de todos os interessados, nesta vida e na seguinte. Mas, mesmo que tal devoto cometa alguma ofensa, o próprio Senhor a retifica num instante. Por isso, não há necessidade de que um devoto cultive conhecimento materialista, tampouco precisa um devoto renunciar a tudo e viver como eremita. Pode simplesmente permanecer em casa e executar o serviço devocional sem dificuldade em qualquer ordem de vida. E há casos na história de homens extremamente cruéis que se tornaram bondosos simplesmente pela execução do serviço devocional. O conhecimento e a abnegação de um modo de vida inferior seguem-se automaticamente na vida de um devoto puro, sem que ele tenha de empreender esforço alheio.\n\n\n\nEsta arte e ciência espirituais do serviço devocional constituem a mais elevada contribuição dos sábios da Índia ao restante do mundo. Por isso, todo aquele que tenha nascido na Índia tem a obrigação de aperfeiçoar sua vida adotando os princípios desta grande arte e ciência e distribuindo-os ao restante do mundo, que ainda ignora o objetivo último da vida. A sociedade humana está destinada a alcançar esta etapa de perfeição mediante o desenvolvimento gradual do conhecimento. Os sábios da Índia, contudo, já alcançaram essa posição. Por que haveriam os demais de esperar milhares e milhares de anos para atingir tais alturas? Por que não lhes dar a informação imediatamente, de maneira sistemática, a fim de que poupem tempo e energia? Devem aproveitar uma vida pela qual talvez tenham labutado milhões de anos para alcançar.\n\n\n\nUm escritor de ficção russo está agora oferecendo sugestões ao restante do mundo, segundo as quais o progresso científico pode ajudar o homem a viver para sempre. Naturalmente, ele não acredita num Ser Supremo que seja o criador. Ainda assim, damos as boas-vindas à sua sugestão, pois sabemos que o progresso real do conhecimento científico certamente levará os homens ao céu espiritual e informará o cientista de que existe um criador supremo, que possui potências plenas além de todas as concepções científicas materialistas.\n\n\n\nComo se mencionou, toda entidade viva é eterna em forma, mas tem de mudar suas coberturas externas, grosseira e sutil, e esse processo de mudança é tecnicamente conhecido como vida e morte. Enquanto a entidade viva tiver de envergar os grilhões do cativeiro material, não haverá alívio desse processo de mudança, que prossegue inclusive na mais elevada etapa da vida material. O escritor de ficção russo pode especular, como costumam fazer os escritores de ficção, mas as pessoas mais sensatas, dotadas de algum conhecimento da lei natural, não concordarão que o homem possa viver para sempre dentro deste mundo material.\n\n\n\nUm naturalista pode observar o curso geral da natureza material simplesmente ao estudar um fruto. Um pequeno fruto desenvolve-se a partir de uma flor, cresce, permanece por algum tempo num ramo, atinge a plena maturidade, amadurece, depois começa a definhar dia após dia até que, por fim, cai da árvore e começa a decompor-se na terra e, enfim, mistura-se com a terra, deixando atrás de si sua semente, a qual, por sua vez, cresce e se torna uma árvore que produz com o tempo muitos frutos, os quais correrão todos a mesma sorte, e assim por diante.\n\n\n\nDe modo semelhante, uma entidade viva (como centelha espiritual, parte integrante do Ser Supremo) assume sua forma orgânica no ventre de uma mãe logo após a relação sexual. Cresce pouco a pouco dentro do ventre, nasce, em seguida continua a crescer, torna-se criança, menino, jovem, adulto, ancião, e por fim definha e depara-se com a morte, a despeito de todos os bons votos e das ilusórias quimeras dos escritores de ficção. Em comparação, não há diferença entre o homem e o fruto. Tal como o fruto, o homem pode deixar atrás de si suas sementes de numerosos filhos, mas não pode existir eternamente dentro de seu corpo material, em virtude da lei da natureza material.\n\n\n\nComo pode alguém ignorar a lei da natureza material? Nenhum cientista materialista pode alterar as rigorosas leis da natureza, por mais jactancioso que seja. Nenhum astrônomo ou cientista pode alterar o curso dos planetas; só pode fabricar um insignificante planeta de brinquedo, ao qual chama satélite. Crianças tolas podem impressionar-se com isso e atribuir grande crédito aos inventores dos satélites modernos, dos sputniks, etc., mas a parcela mais sensata da humanidade atribui maior crédito ao criador dos satélites gigantescos, a saber, o sol, as estrelas e os planetas, dos quais o cientista materialista não consegue ver o fim. Se um pequeno satélite de brinquedo tem um criador na Rússia ou nos Estados Unidos, é razoável que os satélites gigantescos tenham seu criador no céu espiritual. Se um satélite de brinquedo requer tantos cérebros científicos para sua fabricação e sua colocação em órbita, que tipo de cérebro sutil e perfeito criou galáxias de estrelas e as mantém em suas órbitas? Até o momento, a classe ateísta não conseguiu responder a isto.\n\n\n\nOs incrédulos apresentam suas próprias teorias da criação, que em geral resultam em declarações como: \"É difícil de compreender\", \"Nossa imaginação não consegue concebê-lo, mas é bem possível\", \"É incompreensível\", e assim por diante. Isto apenas significa que sua informação não tem fundamento autoritativo e não se respalda em dados científicos. Eles simplesmente especulam. Contudo, há informação autorizada disponível no *Bhagavad-gītā*. Por exemplo, o *Bhagavad-gītā* informa-nos de que, dentro do mundo material, há entidades vivas cuja duração de vida abrange 4.300.000 x 1.000 x 2 x 30 x 12 x 100 anos solares. Aceitamos o *Bhagavad-gītā* como autoridade porque este livro de conhecimento foi assim aceito pelos grandes sábios da Índia, como Śaṅkarācārya, Śrī Rāmānujācārya, Śrī Madhvācārya e Śrī Caitanya Mahāprabhu. O *Bhagavad-gītā* indica que, no mundo material, todas as formas compostas estão sujeitas à decadência e à morte, independentemente de sua duração de vida.\n\n\n\nPor conseguinte, todas as formas materiais estão sujeitas à lei da mudança, embora, potencialmente, a energia material se conserve. Potencialmente, tudo é eterno, mas, no mundo material, a matéria toma forma, permanece por algum tempo, desenvolve-se até a maturidade, envelhece, começa a definhar e, ao final, desaparece de novo. Tal é o caso de todos os objetos materiais. A sugestão do materialista de que, além do céu material, existe \"alguma outra forma\" que se encontra além do limite da visibilidade e que é estranha e inconcebível não passa de uma tênue indicação do céu espiritual. Contudo, o princípio básico do espírito está muito mais próximo, pois funciona dentro de todas as entidades vivas. Quando esse princípio espiritual se acha fora do corpo material, então o corpo material não tem vida. Dentro do corpo de uma criança, por exemplo, o princípio espiritual está presente, e por isso ocorrem mudanças no corpo, que se desenvolve. Mas, se o espírito deixa o corpo, o desenvolvimento cessa. Essa lei aplica-se a todos os objetos materiais. A matéria transforma-se de uma forma em outra quando está em contato com o espírito. Sem o espírito, não há transformação. O universo inteiro desenvolve-se dessa maneira. Emana da energia da Transcendência em razão da força espiritual que é Sua, e desenvolve-se em formas gigantescas como o sol, a lua, a terra, etc. Há catorze divisões de sistemas planetários e, embora todas difiram em dimensão e qualidade, o mesmo princípio de desenvolvimento é válido para todas. A força espiritual é a criadora, e somente por este princípio espiritual têm lugar a transformação, a transição e o desenvolvimento.\n\n\n\nA vida decididamente não se gera apenas por uma reação material, como uma combinação química, conforme afirmam muitos homens tolos. A interação material é posta em movimento por um ser superior, que cria uma circunstância favorável para acomodar a força viva espiritual. A energia superior manipula a matéria de modo apropriado — conforme o determina o livre-arbítrio do ser espiritual. Por exemplo, os materiais de construção não \"reagem\" automaticamente nem assumem de repente a forma de uma casa residencial. O ser espiritual vivo manipula a matéria de modo apropriado por seu livre-arbítrio e, assim, constrói sua casa. De modo semelhante, a matéria é apenas o ingrediente, mas o espírito é o criador. Apenas um homem de parco acervo de conhecimento se esquiva desta conclusão. O criador talvez permaneça invisível no plano de fundo, mas isso não significa que não haja criador. Não se deve deixar iludir simplesmente pela forma gigantesca do universo material. Em vez disso, deve-se aprender a discernir a existência de uma inteligência suprema por trás de todas estas manifestações materiais. O Ser Supremo, que é a inteligência suprema, é o criador último, a todo-atraente Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Embora a pessoa talvez não esteja ciente disso, há informação definitiva acerca do criador nas obras Védicas, como o *Bhagavad-gītā* e, especialmente, o *Śrīmad-Bhāgavatam*.\n\n\n\nQuando um satélite é lançado ao espaço sideral, uma criança talvez não compreenda que há cérebros científicos por trás dele, mas um adulto inteligente percebe que cérebros científicos na Terra estão controlando o satélite. De modo semelhante, as pessoas menos inteligentes não dispõem de informação sobre o criador e Sua morada eterna no mundo espiritual, que está muito além de nosso alcance de visibilidade, mas, na realidade, existe um céu espiritual e planetas espirituais que são mais espaçosos e mais numerosos do que os planetas do céu material. Do *Bhagavad-gītā* recebemos a informação de que o universo material constitui apenas uma fração (uma quarta parte) da criação. Tal informação está amplamente disponível no *Śrīmad-Bhāgavatam* e em outras obras Védicas.\n\n\n\nSe a energia viva pudesse ser gerada no laboratório do cientista pela \"interação de certas combinações físicas e químicas\", então por que os jactanciosos cientistas materialistas não conseguiram fabricar vida? Devem saber, com toda a certeza, que a força espiritual é distinta da matéria e que não é possível produzir tal energia mediante qualquer quantidade de ajuste material. Atualmente, russos e estadunidenses estão, sem dúvida, muito avançados em muitos ramos da ciência tecnológica, mas ainda ignoram a ciência espiritual. Terão de aprender com uma inteligência superior a fim de constituírem uma sociedade humana perfeita e progressiva.\n\n\n\nOs russos desconhecem que, no *Śrīmad-Bhāgavatam*, a filosofia socialista é descrita da maneira mais perfeita. O *Bhāgavatam* ensina que toda a riqueza existente — todos os recursos naturais (agrícolas, minerais, etc.) — é criada pelo criador último e, portanto, toda entidade viva tem o direito de tomar parte deles. Diz-se, ademais, que um homem só deve possuir tanta riqueza quanto seja suficiente para manter o corpo, e que, caso deseje mais do que isso, ou caso tome mais do que lhe cabe, fica sujeito a punição. Também se afirma que os animais devem ser tratados como os próprios filhos.\n\n\n\nAcreditamos que nenhuma nação na Terra é capaz de descrever o socialismo tão bem quanto o *Śrīmad-Bhāgavatam*. As entidades vivas que não os seres humanos podem ser tratadas como irmãos e filhos somente quando se tem a plena concepção do criador e da constituição real da entidade viva.\n\n\n\nO desejo do homem de ser imortal só se realiza no mundo espiritual. Como se afirmou no início deste ensaio, o desejo de vida eterna é um sinal da vida espiritual latente. O objetivo da civilização humana deve ser dirigido a esse fim. É possível a todo ser humano transferir-se para esse reino espiritual mediante o processo do bhakti-yoga, conforme aqui se descreve. É uma grande ciência, e a Índia produziu muitas obras científicas mediante as quais se pode alcançar a perfeição da vida.\n\n\n\nO bhakti-yoga é a religião eterna do homem. Numa época em que a ciência material predomina sobre todos os temas — inclusive os princípios da religião —, seria revigorante ver os princípios da religião eterna do homem do ponto de vista do cientista moderno.\n\n\n\nAté mesmo o Dr. S. Radhakrishnan admitiu, numa conferência mundial de religiões, que a religião não será aceita na civilização moderna se não for aceita de um ponto de vista científico. Em resposta, regozijamo-nos em anunciar aos amantes da verdade que o bhakti-yoga é a religião eterna do mundo e destina-se a todas as entidades vivas, todas as quais estão eternamente relacionadas com o Senhor Supremo.\n\n\n\nŚrīpāda Rāmānujācārya define a palavra sanātana, ou \"eterno\", como aquilo que não tem princípio nem fim. Quando falamos de sanātana-dharma, religião eterna, damos por certa esta definição. Aquilo que não tem princípio nem fim não se assemelha a nada de sectário, que tem limites e fronteiras. À luz da ciência moderna, ser-nos-á possível ver o sanātana-dharma como a ocupação principal de todos os povos do mundo — e mais ainda, de todas as entidades vivas do universo. A fé religiosa não sanātana talvez tenha algum começo nos anais do homem, mas não há origem histórica do sanātana-dharma, porque ele permanece eternamente com as entidades vivas.\n\n\n\nQuando um homem professa pertencer a uma fé particular — hindu, muçulmano, cristão, budista ou qualquer outra seita — e quando se refere a determinado tempo e circunstância de nascimento, tais designações denominam-se não sanātana-dharma. Um hindu pode tornar-se muçulmano, ou um muçulmano pode tornar-se hindu ou cristão, etc., mas, em todas as circunstâncias, há uma constante. Em todas as circunstâncias, ele está prestando serviço a outros. Um hindu, muçulmano, budista ou cristão é, em todas as circunstâncias, servo de alguém. O tipo particular de fé professada não é sanātana-dharma. O sanātana-dharma é o companheiro constante do ser vivo, o unificador de todas as religiões. O sanātana-dharma é a prestação de serviço.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā*, há diversas referências àquilo que é sanātana. Aprendamos o sentido do sanātana-dharma a partir desta autoridade.\n\n\n\nHá uma referência à palavra sanātanam no décimo verso do Sétimo Capítulo, no qual o Senhor diz que Ele é a fonte eterna de tudo e que, por conseguinte, é sanātanam. A fonte de tudo é descrita nos *Upaniṣads* como o todo completo. Todas as emanações da fonte são também completas em si mesmas, mas, embora muitas unidades completas emanem da fonte sanātana completa, a fonte sanātana não diminui em qualidade nem em quantidade. Isso ocorre porque a natureza de sanātana é imutável. Tudo o que muda sob a influência do tempo e das circunstâncias não é sanātana. Logo, nada que mude, seja em forma, seja em qualidade, pode ser aceito como sanātana. Para dar um exemplo material, o sol vem disseminando seus raios por centenas e milhões de anos e, no entanto, embora seja um objeto criado materialmente, sua forma e seus raios permanecem inalterados. Por isso, aquilo que jamais é criado não pode mudar em formação nem em qualidade, ainda que Ele seja a fonte seminal de tudo.\n\n\n\nO Senhor afirma ser o pai de todas as espécies de vida. Declara que todas as entidades vivas — independentemente do que sejam — são parte integrante Dele. Em consequência, o *Bhagavad-gītā* destina-se a todas elas. No *Gītā*, há informação acerca dessa natureza sanātana do Senhor Supremo. Há também informação sobre Sua morada, que está muito além do céu material, e sobre a natureza sanātana das entidades vivas.\n\n\n\nO Senhor Kṛṣṇa, no *Bhagavad-gītā*, também nos informa de que este mundo material está repleto de misérias sob a forma de nascimento, velhice, doença e morte. Mesmo no mais elevado planeta do universo material, Brahmaloka, essas misérias estão presentes. Somente em Sua própria morada há ausência total de miséria. Nessa morada, não há necessidade da luz do sol, da lua nem do fogo. Os planetas são autoluminosos. A vida ali é perpétua e plena de conhecimento e bem-aventurança. É isso o que se conhece como sanātana-dharma. É, portanto, natural concluir que as entidades vivas devem regressar ao lar, de volta a Deus, para desfrutar a vida no sanātana-dhāma com o sanātana-puruṣa, ou o puruṣottama, o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Não devem permanecer a apodrecer nesta miserável terra de existência material. Não há felicidade na esfera material — nem mesmo em Brahmaloka —, de modo que os planos e as atividades de elevação a planetas superiores dentro do universo material são levados a cabo por aqueles que são menos inteligentes. Os homens menos inteligentes também se refugiam nos semideuses e somente obtêm benefícios que perduram por um período limitado. Assim, seus princípios religiosos e os benefícios daí derivados são apenas temporários. O homem inteligente, contudo, abandona todas as ocupações em nome da religião e refugia-se na Suprema Personalidade de Deus, recebendo, dessa forma, proteção absoluta do Pai Todo-Poderoso. O sanātana-dharma é, por conseguinte, o processo do bhakti-yoga, mediante o qual se pode chegar a conhecer o Senhor sanātana e Sua morada sanātana. Somente mediante este processo se pode regressar ao universo espiritual, o sanātana-dhāma, para tomar parte no desfrute sanātana que ali prevalece.\n\n\n\nAqueles que são seguidores do sanātana-dharma podem, doravante, adotar esses princípios no espírito do *Bhagavad-gītā*. Nada impede ninguém de adotar os princípios eternos. Mesmo as pessoas menos esclarecidas podem regressar a Deus. Esta é a versão ensinada pelo *Śrīmad-Bhāgavatam* e pelo próprio Senhor Supremo no *Bhagavad-gītā*. À humanidade deve dar-se a oportunidade de tirar proveito desta ocasião. Visto que o *Bhagavad-gītā* foi falado na terra de Bhārata-varṣa, todo indiano tem a responsabilidade de difundir a mensagem do verdadeiro sanātana-dharma às demais partes do mundo. Especialmente no momento atual, homens desencaminhados sofrem na escuridão do materialismo, e seu suposto saber permitiu-lhes descobrir a bomba atômica. Acham-se, em consequência, à beira da aniquilação. O sanātana-dharma, contudo, ensinar-lhes-á o verdadeiro propósito da vida, e eles se beneficiarão de sua propagação."}
{"ref": "ej/2", "book": "ej", "lang": "pt", "url": "/pt/library/ej/2/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "2. Variedades de Sistemas Planetários", "purport": "Nestes dias em que os homens tentam ir à Lua, as pessoas não devem pensar que a consciência de Kṛṣṇa se ocupa de algo antiquado. Enquanto o mundo progride para chegar à Lua, estamos cantando Hare Kṛṣṇa. Mas as pessoas não devem interpretar mal e supor que estejamos atrasados em relação ao avanço científico moderno. Já superamos todo avanço científico. No *Bhagavad-gītā*, diz-se que a tentativa do homem de alcançar planetas superiores não é nova. As manchetes dos jornais anunciam: \"Os primeiros passos do homem na Lua\", mas os repórteres não sabem que milhões e milhões de homens foram até lá e voltaram. Esta não é a primeira vez. Trata-se de uma prática antiga. No *Bhagavad-gītā* (8.16), afirma-se claramente: abrahma-bhuvanāl lokāḥ punar āvartino 'rjuna: \"Meu querido Arjuna, mesmo que vás ao mais elevado sistema planetário, que se chama Brahmaloka, terás de voltar\". Por conseguinte, a viagem interplanetária não é nova. Ela é conhecida dos devotos conscientes de Kṛṣṇa.\n\n\n\nVisto que somos conscientes de Kṛṣṇa, tomamos o que Kṛṣṇa diz como a Verdade Absoluta. Segundo a literatura Védica, há muitos sistemas planetários. O sistema planetário em que vivemos chama-se Bhūrloka. Acima deste sistema planetário está Bhuvarloka. Acima desse está Svarloka (a Lua pertence ao sistema planetário Svarloka). Acima de Svarloka está Maharloka; acima desse, Janaloka; e acima desse, Satyaloka. De modo semelhante, há sistemas planetários inferiores. Assim, há catorze graus de sistemas planetários dentro deste universo, e o sol é o planeta principal. O sol é descrito no Brahma-saṁhitā (5.52):\n\n\n\nyac-cakṣur eṣa savitā sakala-grahāṇāṁ\n\nrājā samasta-sura-mūrtir aśeṣa-tejāḥ\n\nyasyājñayā bhramati saṁbhṛta-kāla-cakro\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n\"Adoro Govinda [Kṛṣṇa], o Senhor primordial, por cuja ordem o sol assume imenso poder e calor e percorre sua órbita. O sol, que é o principal entre todos os sistemas planetários, é o olho do Senhor Supremo.\" Na verdade, sem o sol não podemos ver. Podemos orgulhar-nos muito de nossos olhos, mas não conseguimos ver sequer nosso vizinho ao lado. As pessoas desafiam: \"Você pode mostrar-me Deus?\" Mas o que conseguem ver elas? Qual é o valor de seus olhos? Deus não é algo barato. Não conseguimos ver nada, e muito menos Deus, sem a luz do sol. Sem a luz solar, estamos cegos. À noite, não conseguimos ver nada e, por isso, usamos a eletricidade, pois o sol não está presente.\n\n\n\nNão há um único sol na manifestação cósmica; há milhões e trilhões de sóis. Isso também se afirma no Brahma-saṁhitā (5.40):\n\n\n\nyasya prabhā prabhavato jagad-aṇḍa-koṭi-\n\nkoṭiṣv aśeṣa-vasudhādi-vibhūti-bhinnam\n\ntad brahma niṣkalam anantam aśeṣa-bhūtaṁ\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\nA refulgência corpórea espiritual da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, chama-se brahmajyoti, e nesse brahmajyoti há incontáveis planetas. Assim como dentro da luz solar há inumeráveis planetas, na refulgência luminosa do corpo de Kṛṣṇa há inumeráveis planetas e universos. Temos conhecimento de muitos universos, e em cada universo há um sol. Dessa forma, há milhões e bilhões de universos e milhões e bilhões de sóis, luas e planetas. Mas Kṛṣṇa diz que, se alguém tentar ir a um destes planetas, simplesmente desperdiçará seu tempo.\n\n\n\nPois bem, alguém foi à Lua, mas o que ganhará a sociedade humana com isso? Se, após gastar tanto dinheiro, tanta energia e dez anos de esforço, alguém vai à Lua e simplesmente a toca, qual é o benefício disso? Pode-se permanecer ali e convidar os amigos a virem? E, mesmo que alguém vá até lá e permaneça, qual será o benefício? Enquanto estivermos neste mundo material, quer neste planeta, quer em outros, as mesmas misérias — nascimento, morte, velhice e doença — nos seguirão. Não conseguimos livrar-nos delas.\n\n\n\nSe formos viver na Lua — supondo que seja possível —, mesmo com uma máscara de oxigênio, por quanto tempo poderíamos ali ficar? Ademais, mesmo que tivéssemos a oportunidade de ali permanecer, o que ganharíamos? Talvez ganhássemos uma vida um pouco mais longa, mas não poderíamos viver ali para sempre. Isso é impossível. E o que ganharíamos com uma vida mais longa? Taravaḥ kiṁ na jīvanti: [SB 2.3.18] acaso não vivem as árvores por muitos e muitos anos? Perto de São Francisco, vi uma floresta onde há uma árvore com sete mil anos de idade. Mas qual é o benefício? Se alguém se orgulha de permanecer parado num único lugar por sete mil anos, isso não constitui crédito muito grande.\n\n\n\nComo se vai à Lua, como se regressa, etc., é toda uma história, e tudo isto se descreve na literatura Védica. Não é um processo muito novo. Mas o objetivo de nossa sociedade para a consciência de Kṛṣṇa é diferente. Não vamos desperdiçar nosso valioso tempo. Kṛṣṇa diz: \"Não desperdices teu tempo tentando ir a este planeta ou àquele. O que ganharás? Tuas misérias materiais te seguirão aonde quer que vás\". Daí que, no *Caitanya-caritāmṛta* (Ādi 3.97), o autor diga muito acertadamente:\n\n\n\nkeha pāpe, keha puṇye kare viṣaya-bhoga\n\nbhakti-gandha nāhi, yāte yāya bhava-roga\n\n\n\n\"Neste mundo material, alguém está desfrutando e alguém não está desfrutando, mas, na verdade, todos estão sofrendo, embora algumas pessoas pensem que estão desfrutando, ao passo que outras percebem que estão sofrendo.\" Na verdade, todos estão sofrendo. Quem, neste mundo material, não padece de doença? Quem não sofre da velhice? Quem não morre? Ninguém quer envelhecer nem padecer de doença, mas todos devem fazê-lo. Onde está, então, o desfrute? Esse desfrute é todo uma tolice, pois dentro deste mundo material não há desfrute. É simplesmente nossa imaginação. Não se deve pensar: \"Isto é desfrute, e isto é sofrimento\". Tudo é sofrimento! Por isso, afirma-se no *Caitanya-caritāmṛta*: \"Os princípios de comer, dormir, acasalar-se e defender-se sempre existirão, mas existirão em diferentes padrões\". Por exemplo, os estadunidenses nasceram nos Estados Unidos como resultado de atividades piedosas realizadas em vidas anteriores. Na Índia, o povo é assolado pela pobreza e sofre, mas, embora os estadunidenses comam pão bem amanteigado e os indianos comam sem manteiga, ambos estão comendo, não obstante. O fato de a Índia ser assolada pela pobreza não fez toda a população morrer por falta de alimento. As quatro demandas corporais principais — comer, dormir, acasalar-se e defender-se — podem satisfazer-se sob qualquer circunstância, quer se tenha nascido numa condição ímpia, quer numa condição piedosa. O problema, contudo, é como tornar-se livre dos quatro princípios de nascimento, morte, velhice e doença.\n\n\n\nEste é o verdadeiro problema. Não se trata de \"O que comerei?\" As aves e os animais não têm tal problema. De manhã, põem-se imediatamente a chilrear: \"Ji, ji, ji, ji\". Sabem que terão seu alimento. Ninguém está morrendo, e não existe tal coisa como superpopulação, pois todos são providos pelo arranjo de Deus. Há diferenças qualitativas, mas obter uma qualidade superior de desfrute material não é a meta da vida. O verdadeiro problema é como livrar-se do nascimento, da morte, da velhice e da doença. Isso não pode resolver-se simplesmente desperdiçando tempo a viajar dentro deste universo. Mesmo que alguém vá ao mais elevado planeta, este problema não pode resolver-se, pois há morte em toda parte.\n\n\n\nA duração de vida na Lua, segundo a informação Védica, é de dez mil anos, e um dia ali equivale a seis meses aqui. Assim, dez mil multiplicados por cento e oitenta anos é a duração de vida na Lua. Contudo, é impossível para os homens da Terra ir à Lua e ali viver por muito tempo. De outro modo, toda a literatura Védica seria falsa. Podemos tentar ir até lá, mas não é possível viver ali. Este conhecimento se encontra nos *Vedas*. Por isso, não estamos muito ansiosos por ir a este planeta ou àquele. Estamos ansiosos por ir diretamente ao planeta onde Kṛṣṇa vive. Kṛṣṇa afirma no *Bhagavad-gītā* (9.25):\n\n\n\nyānti deva-vratā devān\n\npitṝn yānti pitṛ-vratāḥ\n\nbhūtāni yānti bhūtejyā\n\nyānti mad-yājino 'pi mām\n\n\n\n\"Pode-se ir à Lua, ou pode-se até ir ao Sol ou a milhões e trilhões de outros planetas, ou, se alguém está demasiadamente apegado em termos materiais, pode permanecer aqui — mas aqueles que são Meus devotos virão a Mim.\" Este é o nosso objetivo. A iniciação na consciência de Kṛṣṇa assegura que o aluno possa, em última instância, ir ao planeta supremo, Kṛṣṇaloka. Não estamos ociosos; também estamos tentando ir a outros planetas, mas não estamos meramente desperdiçando tempo.\n\n\n\nUm homem sensato e inteligente não deseja entrar em nenhum dos planetas materiais, pois as quatro condições de misérias materiais existem em todos eles. Do *Bhagavad-gītā* podemos compreender que, mesmo que entremos em Brahmaloka, o mais elevado sistema planetário deste universo, os quatro princípios de miséria estarão presentes. Aprendemos do *Bhagavad-gītā* que a duração de um dia em Brahmaloka equivale a milhões de anos de nosso cálculo. Isso é um fato.\n\n\n\nMesmo o mais elevado sistema planetário, Brahmaloka, pode ser alcançado, mas os cientistas dizem que levaria quarenta mil anos à velocidade do sputnik. Quem está disposto a viajar pelo espaço por quarenta mil anos? Da literatura Védica podemos compreender que podemos entrar em qualquer dos planetas, contanto que nos preparemos para esse fim. Se alguém se prepara para entrar nos sistemas planetários superiores, que se diz serem habitados por semideuses, pode ir até lá. De modo semelhante, pode-se ir a um sistema planetário inferior, ou, se assim desejar, pode-se permanecer neste planeta. Por fim, se desejar, pode-se entrar no planeta da Suprema Personalidade de Deus. Tudo é uma questão de preparação. Contudo, todos os sistemas planetários dentro de nosso universo material são temporários. A duração de vida em certos planetas materiais pode ser muito longa, mas todas as entidades vivas do universo material acabam por estar sujeitas à aniquilação e têm de desenvolver novamente outros corpos. Há diferentes tipos de corpo. Um corpo humano existe por cem anos, ao passo que o corpo de um inseto pode existir por doze horas. Assim, a duração desses diferentes corpos é relativa. Se alguém, porém, entra no planeta chamado Vaikuṇṭhaloka, o planeta espiritual, alcança então vida eterna, plena de bem-aventurança e conhecimento. Um ser humano pode atingir essa perfeição se se esforçar. Isso se afirma no *Bhagavad-gītā* quando o Senhor diz: \"Quem quer que conheça verdadeiramente a Suprema Personalidade de Deus pode alcançar Minha natureza\".\n\n\n\nMuitas pessoas afirmam: \"Deus é grande\", mas esta é uma frase batida. É preciso saber como Ele é grande, e isso pode conhecer-se das Escrituras autorizadas. No *Bhagavad-gītā*, Deus descreve-Se a Si mesmo. Ele diz: \"Meu surgimento ao nascer tal como um ser humano comum é, na verdade, transcendental\". Deus é tão bondoso que vem diante de nós como um ser humano comum, mas Seu corpo não é exatamente como um corpo humano. Aqueles canalhas que não O conhecem pensam que Kṛṣṇa é como um de nós. Isso também se afirma no *Bhagavad-gītā* (9.11):\n\n\n\navajānanti māṁ mūḍhā\n\nmānuṣīṁ tanum āśritam\n\nparaṁ bhāvam ajānanto\n\nmama bhūta-maheśvaram\n\n\n\n\"Os tolos zombam de Mim quando desço sob a forma humana. Não conhecem Minha natureza transcendental nem Meu supremo domínio sobre tudo o que existe.\" Temos a oportunidade de conhecer Kṛṣṇa, contanto que leiamos a literatura correta sob a orientação correta; e, se simplesmente soubermos qual é a natureza de Deus, então, pela compreensão tão somente deste único fato, tornamo-nos liberados. Não é possível, em nossa condição humana, compreender por completo a Absoluta Suprema Personalidade de Deus, mas, com a ajuda do *Bhagavad-gītā*, das declarações dadas pela Suprema Personalidade de Deus e do mestre espiritual, podemos conhecê-Lo na medida de nossa capacidade. Se pudermos conhecê-Lo de fato, então, imediatamente após deixar este corpo, poderemos entrar no reino de Deus. Kṛṣṇa diz: tyaktvā dehaṁ punar janma naiti mām eti so 'rjuna: \"Após deixar este corpo, aquele que está em conhecimento não retorna novamente a este mundo material, pois entra no mundo espiritual e vem a Mim\" (Bg. 4.9).\n\n\n\nO propósito de nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa é propagar esta ideia científica avançada às pessoas em geral, e o processo é muito simples. Simplesmente por cantar os santos nomes de Deus — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare —, a pessoa limpa a sujeira de seu coração e adquire a compreensão de que é parte integrante do Senhor Supremo e de que seu dever é servi-Lo. Este processo é muito prazeroso: cantamos o Hare Kṛṣṇa mantra, dançamos ritmicamente e comemos delicioso prasādam. Enquanto desfrutamos desta vida, estamos preparando-nos para entrar no reino de Deus em nossa próxima vida. Isto não é uma invenção; tudo é fato. Embora, para um leigo, isso pareça uma invenção, Kṛṣṇa Se revela a partir de dentro àquele que é sério a respeito da realização de Deus. Tanto Kṛṣṇa como o mestre espiritual ajudam a alma sincera. O mestre espiritual é a manifestação externa de Deus, que está situado no coração de todos como a Superalma. Para aquele que é muito sério em compreender a Suprema Personalidade de Deus, a Superalma imediatamente presta assistência, orientando-o a um mestre espiritual genuíno. Dessa forma, o candidato espiritual é ajudado por dentro e por fora.\n\n\n\nSegundo o Bhāgavata Purāṇa, a Verdade Suprema é percebida em três etapas. Primeiro, há o Brahman impessoal, ou o Absoluto impessoal; depois, o Paramātmā, ou aspecto localizado do Brahman. O nêutron do átomo pode ser tomado como a representação do Paramātmā, que também entra no átomo. Isso é descrito no Brahma-saṁhitā. Mas, em última instância, o Supremo Ser Divino é percebido como a suprema pessoa todo-atraente (Kṛṣṇa), dotado de potências plenas e inconcebíveis de opulência, força, fama, beleza, conhecimento e renúncia. Estas seis potências são plenamente exibidas por Śrī Rāma e Śrī Kṛṣṇa quando Eles descem diante dos seres humanos. Apenas uma parcela dos seres humanos — os devotos imaculados — pode reconhecer Kṛṣṇa pela autoridade das Escrituras reveladas, mas os demais ficam confundidos pela influência da energia material. A Verdade Absoluta é, por conseguinte, a Pessoa Absoluta, que não tem igual nem competidor. Os raios impessoais do Brahman são os raios de Seu corpo transcendental, assim como os raios do sol são emanações do sol.\n\n\n\nSegundo o *Viṣṇu Purāṇa*, a energia material chama-se avidyā, ou nesciência, e exibe-se nas atividades fruitivas do desfrute dos sentidos. Mas, embora a entidade viva tenha a tendência de ser iludida e aprisionada pela energia material em prol do desfrute dos sentidos, ela pertence à energia antimaterial, ou energia espiritual. Nesse sentido, a entidade viva é a energia positiva, ao passo que a matéria é a energia negativa. A matéria não se desenvolve, a menos que esteja em contato com a energia superior, espiritual ou antimaterial, que é diretamente parte integrante do todo espiritual. O assunto desta energia espiritual exibida pelas entidades vivas é, sem dúvida, muito complicado para um homem comum, que, por isso, fica perplexo diante do tema. Às vezes ele o compreende parcialmente por meio dos sentidos imperfeitos, e às vezes não consegue conhecê-lo de todo. O melhor, portanto, é ouvir da mais elevada autoridade, Śrī Kṛṣṇa, ou de Seu devoto, que O representa na corrente de sucessão discipular.\n\n\n\nEste movimento da consciência de Kṛṣṇa destina-se ao propósito de compreender Deus. O mestre espiritual é o representante vivo de Kṛṣṇa, que ajuda externamente, e Kṛṣṇa, como a Superalma, ajuda internamente. A entidade viva pode tirar proveito de tal orientação e fazer da vida um êxito. Solicitamos que todos leiam literatura autorizada a fim de compreender este movimento. Publicamos o *Bhagavad-gītā Como Ele É*; os *Ensinamentos do Senhor Caitanya*; o *Śrīmad-Bhāgavatam*; *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*; e O *Néctar da Devoção*. Também publicamos nossa revista De Volta ao Supremo todos os meses em muitos idiomas. Nossa missão é salvar a sociedade humana das armadilhas de encarnar novamente no ciclo de nascimento e morte.\n\n\n\nTodos devem procurar ir a Kṛṣṇa. Publicamos em nossa revista De Volta ao Supremo um artigo intitulado \"Além do Universo\". Este artigo descreve um lugar além deste universo, segundo o conhecimento contido no *Bhagavad-gītā*. O *Bhagavad-gītā* é um livro muito popular, e há muitas edições dele nos Estados Unidos, bem como muitas provenientes da Índia. Infelizmente, porém, muitos canalhas vieram ao Ocidente para pregar o *Bhagavad-gītā*. São designados como canalhas porque são embusteiros que não dão informação real. Em nosso *Bhagavad-gītā Como Ele É*, contudo, a natureza espiritual é descrita de modo autoritativo.\n\n\n\nEsta manifestação cósmica chama-se \"natureza\", mas há outra natureza, que é superior. A manifestação cósmica é natureza inferior, mas, além desta natureza, que é manifesta e imanifesta, há outra natureza, que se chama sanātana, eterna. É fácil compreender que tudo o que aqui se manifesta é temporário. O exemplo óbvio é o nosso corpo. Se alguém tem trinta anos, há trinta anos seu corpo não estava manifesto, e dentro de outros cinquenta anos voltará a estar imanifesto. Essa é uma lei factual da natureza. Manifesta-se e novamente se aniquila, assim como as ondas no mar se erguem frequentemente e depois recuam. O materialista, contudo, só se preocupa com esta vida mortal, que pode acabar a qualquer momento. Ademais, assim como este corpo morrerá, também o universo inteiro, este gigantesco corpo material, será aniquilado, e, quer sejamos afortunados, quer infortunados, neste planeta ou em outro, tudo terá fim. Por que, então, estamos desperdiçando nosso tempo a tentar ir a um planeta onde tudo terá fim? Devemos procurar ir a Kṛṣṇaloka. Esta é a ciência espiritual; devemos procurar compreendê-la e, após compreendê-la nós mesmos, devemos pregar esta mensagem ao mundo inteiro. Todos estão na escuridão. Embora as pessoas não tenham conhecimento, são muito orgulhosas. Mas não é avanço do conhecimento ir à Lua após dez anos de esforço, pegar uma pedra e voltar. Os viajantes do espaço são muito orgulhosos: \"Oh, eu a toquei\". Mas o que ganharam? Mesmo que pudéssemos viver ali, não seria por muito tempo. No final, tudo será destruído.\n\n\n\nProcurai encontrar aquele planeta de onde jamais se retornará, onde há vida eterna e onde se pode dançar com Kṛṣṇa. Este é o significado da consciência de Kṛṣṇa. Levai este movimento a sério, pois a consciência de Kṛṣṇa dá a oportunidade de alcançar Kṛṣṇa e de dançar com Ele eternamente. Da literatura Védica compreendemos que este mundo material é uma manifestação de apenas uma quarta parte da criação completa de Deus. As três quartas partes da criação de Deus constituem o mundo espiritual. Isso encontramos no *Bhagavad-gītā*. Kṛṣṇa diz: \"Este mundo material é apenas uma parte fracionária do todo\". Se olhamos tão longe quanto conseguimos ver — até o céu —, nossa visão ainda está confinada a um único universo, e há universos ilimitados agrupados dentro daquilo que se chama mundo material. Mas, além desses aglomerados de números ilimitados de universos, está o céu espiritual, que também se menciona no *Bhagavad-gītā*, onde o Senhor diz que, além do mundo material, há outra natureza, que é eterna; não há história de seu começo, e ela não tem fim. \"Eterno\" refere-se àquilo que não tem fim nem começo. A religião Védica chama-se, por conseguinte, eterna, porque ninguém consegue rastrear quando ela começou. A religião cristã tem uma história de dois mil anos, e a religião muçulmana também tem uma história, mas, se alguém tentasse rastrear a religião Védica, não encontraria seu começo histórico. Por isso, ela se chama religião eterna.\n\n\n\nCom toda a razão podemos dizer que Deus criou este mundo material, e isto indica que Deus existia antes da criação. Esta própria palavra \"criado\" sugere que, antes da criação da manifestação cósmica, o Senhor existia. Logo, Deus não está sob a criação. Se Deus estivesse sob a criação, como poderia tê-la criado? Ele teria sido, em vez disso, um dos objetos desta criação material. Mas Deus não está sob a criação; Ele é o criador e, por isso, é eterno.\n\n\n\nHá um céu espiritual, onde há inumeráveis planetas espirituais e inumeráveis entidades vivas espirituais, mas aqueles que não são aptos a viver naquele mundo espiritual são enviados a este mundo material. Voluntariamente, aceitamos este corpo material, mas, na verdade, somos almas espirituais que não deveriam tê-lo aceitado. Quando e como o aceitamos não se pode rastrear. Ninguém consegue rastrear a história de quando a alma condicionada aceitou pela primeira vez o corpo material. Há 8.400.000 formas de entidades vivas; na água, 2.000.000 de espécies de vida figuram entre as plantas e os vegetais. Infelizmente, este conhecimento Védico não é ensinado em nenhuma universidade. Mas estes são fatos. Que o botânico e o antropólogo investiguem a conclusão Védica. A teoria de Darwin sobre a evolução da matéria orgânica é, naturalmente, muito proeminente nas instituições de ensino. Mas o Bhāgavata Purāṇa e outras Escrituras autorizadas de magnitude científica descrevem como as entidades vivas, em diferentes formas de corpo, evoluem uma após outra. Não é uma ideia nova, mas os educadores dão ênfase apenas à teoria de Darwin, embora na literatura Védica disponhamos de imensa informação acerca das condições de vida neste mundo material.\n\n\n\nSomos apenas uma porção fracionária de todas as entidades vivas nos muitos universos do mundo material. Aqueles que se encontram no mundo material e no corpo material estão condenados. Por exemplo, a população na prisão está condenada pelo governo, mas seu número é apenas uma fração da população total. Não é que toda a população vá para a prisão; alguns, que são desobedientes, ficam confinados na prisão. De modo semelhante, as almas condicionadas dentro deste mundo material são apenas uma fração de todas as entidades vivas na criação de Deus, e, porque desobedeceram a Deus — porque não acataram a ordem de Kṛṣṇa —, foram colocadas neste mundo material. Se alguém é sensato e inquiridor, deve procurar compreender: \"Por que fui colocado nesta vida condicionada? Não desejo sofrer\".\n\n\n\nHá três tipos de sofrimento, incluindo as misérias relativas ao corpo e à mente. No Havaí, em frente à minha casa, um homem mantinha alguns animais e aves com o propósito de levá-los para serem abatidos. Dei este exemplo a meus alunos: \"Estes animais estão parados aqui e, se você lhes disser: 'Oh, meus queridos animais, por que estão parados aqui? Vão embora! Estão destinados ao matadouro', não conseguem ir. Não têm inteligência\".\n\n\n\nSofrer sem conhecimento, sem remédio, é vida animal. Aquele que não consegue compreender que está sofrendo e que pensa estar muito bem encontra-se em consciência animal, não em consciência humana. O ser humano deve estar ciente de que padece das três misérias deste planeta. Deve-se saber que se está sofrendo no nascimento, sofrendo na morte, sofrendo na velhice e sofrendo na doença, e deve-se ser inquiridor quanto à maneira de evitar o sofrimento. Esse é o verdadeiro trabalho de pesquisa.\n\n\n\nSofremos desde o começo de nosso nascimento. Como bebê, o ser humano fica apertadamente colocado no abdome da mãe, num saco hermético, por nove meses. Não consegue sequer mover-se, há insetos que o picam e ele não pode protestar. Depois que a criança sai, o sofrimento continua. A mãe, sem dúvida, dispensa-lhe muito cuidado, mas, ainda assim, a criança chora porque está sofrendo. Há percevejos que a picam, ou há dores em seu estômago; a criança chora, e a mãe não sabe como apaziguá-la. Seu sofrimento começa no ventre da mãe. Depois, após seu nascimento, à medida que cresce, há mais sofrimento. Não quer ir à escola, mas é obrigado. Não quer estudar, mas o professor lhe dá tarefas. Se analisarmos nossa vida, descobriremos que ela está repleta de sofrimento. Por que, então, estamos vindo para cá? As almas condicionadas não são muito perspicazes. Deveríamos indagar: \"Por que estou sofrendo?\" Se há um remédio, devemos tirar proveito dele.\n\n\n\nEstamos eternamente conectados com o Senhor Supremo, mas, de um modo ou de outro, encontramo-nos agora em contaminação material. Por isso, devemos adotar um processo mediante o qual regressar de novo ao mundo espiritual. Esse processo de vinculação chama-se yoga. A tradução exata da palavra yoga é \"mais\". No momento presente, estamos menos Deus, ou menos o Supremo. Mas, quando nos tornamos mais — conectados —, então nossa forma humana de vida é perfeita. Durante nossa vida, temos de praticar a aproximação a esse ponto de perfeição, e, no momento da morte, quando abandonamos este corpo material, essa perfeição há de realizar-se. No momento da morte, deve-se estar preparado. Os alunos, por exemplo, preparam-se por dois a cinco anos na faculdade, e a prova final de sua educação é o exame. Se passam no exame, recebem um diploma. De modo semelhante, na matéria da vida, se nos preparamos para o exame no momento da morte e nele somos aprovados, então somos transferidos ao mundo espiritual. Tudo é examinado no momento da morte.\n\n\n\nHá um provérbio bengali muito comum que diz que tudo o que se faça em prol da perfeição será posto à prova no momento da morte. O *Bhagavad-gītā* descreve o que devemos fazer no ponto de nossa morte, quando estamos abandonando este corpo atual. Para o dhyāna-yogī (meditador), Śrī Kṛṣṇa profere os seguintes versos:\n\n\n\nyad akṣaraṁ veda-vido vadanti\n\nviśanti yad yatayo vīta-rāgāḥ\n\nyad icchanto brahmacaryaṁ caranti\n\ntat te padaṁ saṅgraheṇa pravakṣye\n\n\n\nsarva-dvārāṇi saṁyamya\n\nmano hṛdi nirudhya ca\n\nmūrdhny ādhāyātmanaḥ prāṇam\n\nāsthito yoga-dhāraṇām\n\n\n\n\"As pessoas instruídas nos *Vedas*, que pronunciam o oṁkāra e que são grandes sábios na ordem renunciada, entram no Brahman. Desejando tal perfeição, pratica-se o celibato. Agora te explicarei este processo mediante o qual se pode alcançar a salvação. A situação yóguica é a do desapego de toda ocupação sensual. Fechando todas as portas dos sentidos e fixando a mente no coração e o ar vital no topo da cabeça, a pessoa estabelece-se no yoga\" (Bg. 8.11-12). No sistema de yoga, este processo chama-se pratyāhāra, que significa, em linguagem técnica, \"o oposto\". Pois bem, os olhos estão ocupados em ver a beleza mundana, de modo que se tem de retirá-los do desfrute dessa beleza e concentrar-se em ver a beleza interior. Isso se chama pratyāhāra. De modo semelhante, tem-se de ouvir, a partir de dentro, o som do oṁkāra.\n\n\n\noṁ ity ekākṣaraṁ brahma\n\nvyāharan mām anusmaran\n\nyaḥ prayāti tyajan dehaṁ\n\nsa yāti paramāṁ gatim\n\n\n\n\"Após estabelecer-se nesta prática de yoga e vibrar a sílaba sagrada oṁ, a suprema combinação de letras, se alguém pensa na Suprema Personalidade de Deus e abandona seu corpo, certamente alcançará os planetas espirituais\" (Bg. 8.13). Dessa forma, todos os sentidos têm de cessar em suas atividades externas, e a mente deve concentrar-se em viṣṇu-mūrti, a forma do Senhor Viṣṇu. Essa é a perfeição do yoga. A mente é muito turbulenta, de modo que tem de ser fixada no coração. Quando a mente está fixada dentro do coração e o ar vital é transferido ao topo da cabeça, pode-se alcançar a perfeição do yoga.\n\n\n\nO yogī perfeito, então, determina aonde há de ir. Há inumeráveis planetas materiais, e, além desses planetas, está o mundo espiritual. Os yogīs dispõem desta informação a partir das Escrituras Védicas. Por exemplo, antes de eu vir aos Estados Unidos, li descrições deste país em livros. De modo semelhante, uma descrição dos planetas superiores e do mundo espiritual pode encontrar-se nas Escrituras Védicas. O yogī sabe tudo; pode transferir-se a qualquer planeta que deseje. Não necessita da ajuda de naves espaciais.\n\n\n\nOs cientistas materialistas vêm tentando por muitos anos, e continuarão tentando por mais cem ou mil anos, mas jamais alcançarão planeta algum. Talvez, por um processo científico, um ou dois homens consigam alcançar algum planeta, mas esse não é o processo geral. O processo geralmente aceito para o traslado a outros planetas é a prática do sistema de yoga ou do sistema de jñāna. O sistema de bhakti, contudo, não se destina ao traslado a nenhum planeta material. Aqueles que se ocupam no serviço devocional de Kṛṣṇa, ou do Senhor Supremo, não se interessam por nenhum dos planetas deste mundo material, pois sabem que, não importa a que planeta alguém se eleve, ainda assim encontrará ali os quatro princípios da existência material, não obstante. Em alguns planetas, a duração da vida é muito mais longa do que nesta Terra, mas a morte está presente ali. Aqueles que são conscientes de Kṛṣṇa, contudo, transcendem esta vida material de nascimento, morte, doença e velhice.\n\n\n\nA vida espiritual significa a liberação desta moléstia e miséria. Aqueles que são inteligentes, portanto, não procuram elevar-se a nenhum planeta deste mundo material. Os homens estão tentando alcançar a Lua e, embora seja muito difícil conseguir entrada nesse planeta, se a conseguirmos, o período de nossa vida será prolongado. Naturalmente, isso não se aplica à vida neste corpo. Se entrássemos na Lua com este corpo, a morte instantânea seria certa.\n\n\n\nQuando alguém entra num sistema planetário, há de ter um corpo adequado àquele planeta. Cada planeta é habitado por entidades vivas com corpos adequados àquele planeta. Por exemplo, podemos entrar na água com este corpo, mas não conseguimos ali viver. Podemos ali permanecer quinze ou dezesseis horas, ou talvez vinte e quatro horas, mas é só. Os animais aquáticos, contudo, têm corpos específicos, adequados a viver toda a sua vida na água. De modo semelhante, se alguém tira um peixe da água e o coloca em terra, ele morrerá instantaneamente. Assim como compreendemos que, mesmo neste planeta, há diferentes tipos de corpos para viver em lugares específicos, de modo semelhante, se quisermos entrar em outro planeta, teremos de preparar-nos para obter um corpo adequado.\n\n\n\nSe alguém se traslada e sua alma transmigra para a Lua por este processo yóguico, obtém uma longa duração de vida. Nos planetas superiores, seis de nossos meses equivalem a um dia. Assim, os seres de lá vivem dez mil anos. Essa é a descrição na literatura Védica. De modo que, sem dúvida, pode-se obter uma duração de vida muito longa, mas, ainda assim, há morte. Após dez mil ou vinte mil anos, ou mesmo após milhões de anos (não importa), a morte chega.\n\n\n\nNa verdade, não estamos sujeitos à morte. Isso se afirma no início do *Bhagavad-gītā* (2.20): na hanyate hanyamāne śarīre. Somos alma espiritual e, por isso, somos eternos. Por que, então, deveríamos sujeitar-nos à morte e ao nascimento? É inteligente pensar dessa maneira. Aqueles que são conscientes de Kṛṣṇa são muito inteligentes, pois não se interessam em obter promoção a nenhum planeta onde haja morte, a despeito de uma longa duração de vida ali. Pelo contrário, querem obter um corpo como o de Deus. Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ (Bs. 5.1). O corpo de Deus é sac-cid-ānanda. Sat significa \"eterno\", e cit significa \"pleno de conhecimento\". Ānanda significa \"pleno de prazer\".\n\n\n\nComo se afirma em nosso folheto Kṛṣṇa, o Reservatório do Prazer, se nos trasladarmos ao mundo espiritual, ao planeta de Kṛṣṇa ou a qualquer outro planeta espiritual, então obteremos um corpo semelhante ao de Deus: sac-cid-ānanda — eterno, pleno de conhecimento e pleno de bem-aventurança. Assim, aqueles que tentam ser conscientes de Kṛṣṇa têm um objetivo de vida diferente daqueles que tentam promover-se aos melhores planetas deste mundo material. O Senhor Kṛṣṇa diz: mūrdhny ādhāyātmanaḥ prāṇam āsthito yoga-dhāraṇām: \"A perfeição do yoga é transferir-se ao mundo espiritual\" (Bg. 8.12).\n\n\n\nA alma espiritual é uma diminuta partícula dentro do corpo. Não conseguimos vê-la. Pratica-se o sistema de yoga para elevar a alma à parte mais alta da cabeça. Esta prática prossegue enquanto se está vivo, e a perfeição é alcançada quando alguém consegue situar-se no topo da cabeça e depois atravessá-lo. Então pode transferir-se a quaisquer planetas superiores que deseje. Essa é a perfeição do yogī.\n\n\n\nSe o yogī é inquiridor quanto a ver a Lua, pode dizer: \"Ah, deixa-me ver como é a Lua. Depois me transferirei a planetas superiores\", assim como os viajantes que vão à Europa, à Califórnia, ao Canadá ou a outros países da Terra. Pode-se transferir-se a muitos planetas mediante este sistema de yoga, mas, aonde quer que vá, ele encontrará sistemas de visto e sistemas alfandegários. Para ir a outros planetas, é preciso estar qualificado.\n\n\n\nAs pessoas conscientes de Kṛṣṇa não se interessam por nenhum planeta temporário, mesmo que ele ofereça uma longa duração de vida. Se o yogī, no momento da morte, consegue pronunciar oṁ, a forma concisa de vibração transcendental, e, ao mesmo tempo, mām anusmaran, recordar-se de Kṛṣṇa, de Viṣṇu, ele alcançará a perfeição. O propósito de todo o sistema de yoga é concentrar a mente em Viṣṇu. Os impersonalistas imaginam que veem a forma de Viṣṇu, ou do Senhor, mas aqueles que são personalistas não a imaginam — de fato, veem a forma do Senhor Supremo. De uma maneira ou de outra, quer alguém concentre a mente por meio da imaginação, quer de fato a veja, tem de concentrar a mente na forma de Viṣṇu. Mām significa \"ao Senhor Supremo, Viṣṇu\". Quem quer que deixe este corpo e concentre a mente em Viṣṇu entra no reino espiritual após abandonar o corpo. Aqueles que são de fato yogīs não desejam entrar em nenhum outro planeta, pois sabem que a vida é temporária nos planetas temporários e, por isso, não se interessam. Isso é inteligência.\n\n\n\nAqueles que se satisfazem com felicidade temporária, vida temporária e comodidades temporárias não são inteligentes segundo o *Bhagavad-gītā* (7.23). Antavat tu phalaṁ teṣāṁ tad bhavaty alpa-medhasām: \"Aquele cuja substância cerebral é muito escassa interessa-se por coisas temporárias\". Essa é a versão do Śrīmad *Bhagavad-gītā*. Eu sou eterno; então por que deveria interessar-me por coisas não permanentes? Quem quer existência não permanente? Ninguém a quer. Se estamos morando num apartamento e o proprietário nos pede que o desocupemos, ficamos contrariados, mas não ficamos contrariados se nos mudamos para um apartamento melhor. Esta, então, é nossa inclinação. Não desejamos morrer, porque somos eternos.\n\n\n\nA atmosfera material está roubando-nos nossa eternidade. O *Śrīmad-Bhāgavatam* diz: \"Nossa duração de vida está sendo diminuída pelo sol, desde o seu nascer até o momento em que se põe\". Diariamente, estamos perdendo a duração de nossa vida. Se o sol nasce às 5h30 da manhã, às 5h30 da tarde doze horas terão sido tomadas da duração de nossa vida. Jamais reaveremos esse tempo. Se perguntarmos a qualquer cientista: \"Dou-lhe doze milhões de dólares; por favor, devolva-me estas doze horas\", ele responderá: \"Não, não é possível\". O cientista não consegue fazê-lo. Por isso, o *Bhāgavatam* diz que, do nascer ao pôr do sol, a duração de nossa vida está sendo diminuída.\n\n\n\nO tempo chama-se kāla — passado, presente e futuro. O que agora é presente, amanhã será passado, e o que agora é futuro, amanhã será presente. Mas este passado, presente e futuro são o passado, presente e futuro do corpo. Nós não pertencemos à categoria do passado, presente e futuro. Pertencemos à categoria da eternidade. Por conseguinte, deve-se preocupar com a maneira de alcançar ou de elevar-se à plataforma da eternidade. A consciência desenvolvida do ser humano não deve ser utilizada nas propensões animais de comer, dormir, acasalar-se e defender-se, mas em buscar a valiosa senda que o ajudará a obter essa vida de eternidade. Diz-se que o sol leva nossa duração de vida — a cada minuto, a cada hora, a cada dia —, mas, se nos ocupamos nos temas de Uttama-śloka, os temas do Senhor, esse tempo não pode ser arrebatado. O tempo que se dedica num templo da consciência de Kṛṣṇa não pode ser arrebatado. É um patrimônio — um mais, não um menos. A duração de vida, no que tange ao corpo, pode ser tomada; por mais que se tente mantê-la intacta, ninguém o consegue. Mas a educação espiritual que recebemos na consciência de Kṛṣṇa não pode ser arrebatada pelo sol. Torna-se um patrimônio sólido.\n\n\n\nCantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare é algo muito fácil de fazer. O tempo dedicado ao canto não pode ser arrebatado, como o pode o tempo relativo ao corpo. Há cinquenta anos, eu era um homem jovem, mas esse tempo foi tomado e não pode ser devolvido. O conhecimento espiritual que recebi de meu mestre espiritual, contudo, não pode ser arrebatado, mas irá comigo. Mesmo após eu deixar este corpo, irá comigo; e, se for perfeito nesta vida, então me levará à morada eterna.\n\n\n\nTanto o mundo material como o espiritual pertencem a Kṛṣṇa. Não somos proprietários de nada. Tudo é propriedade do Senhor Supremo, assim como tudo no estado pertence ao governo, quer na prisão, quer fora dela. A vida condicionada é como a vida numa prisão dentro deste mundo material. Um prisioneiro não pode mudar livremente de uma cela para outra. Na vida livre, pode-se ir de um lar para outro lar, mas, na vida na prisão, não se pode fazer isso, devendo-se antes permanecer na própria cela. Todos estes planetas são como celas. Estamos tentando ir à Lua, mas isso não é praticável por meios mecânicos. Quer sejamos estadunidenses, indianos, chineses ou russos, foi-nos dado este planeta para vivermos. Não podemos partir — embora haja milhões e bilhões de planetas e embora disponhamos de máquinas com as quais poderíamos —, pois estamos condicionados pelas leis da natureza, as leis de Deus. Um homem que é posto numa certa cela não pode mudar a seu bel-prazer sem uma autoridade superior. Kṛṣṇa diz no *Bhagavad-gītā* que não se deve procurar mudar de uma cela para outra. Isso não fará ninguém feliz. Se um prisioneiro pensa: \"Estou nesta cela; deixa-me pedir ao carcereiro que mude minha cela, e serei feliz\", essa é uma ideia equivocada. Não se pode ser feliz enquanto se está dentro dos muros da prisão. Estamos tentando ser felizes mudando de celas — do capitalismo para o comunismo. O objetivo deveria ser tornar-se livre deste \"ismo\" e daquele \"ismo\". É preciso mudar por completo deste \"ismo\" do materialismo; então pode-se ser feliz. Esse é o programa da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nEstamos recebendo conselho da Pessoa Suprema. Ele diz: \"Meu querido Arjuna, talvez sejas elevado ao mais elevado sistema planetário, que se chama Brahmaloka e é desejável porque a vida ali é muito longa\". Não conseguimos calcular ali nem mesmo meio dia. Está além de nossos cálculos matemáticos. Mas, mesmo em Brahmaloka, há morte. Por isso, Kṛṣṇa diz: \"Não desperdices teu tempo a tentar elevar-te ou trasladar-te deste planeta àquele\".\n\n\n\nAs pessoas que vi nos Estados Unidos são muito inquietas. Vão de um apartamento para outro apartamento, ou de um país para outro país. Essa inquietude existe porque estamos em busca de nosso verdadeiro lar. Ir deste lugar àquele lugar não dará vida eterna. A vida eterna está com Kṛṣṇa. Daí que Kṛṣṇa diga: \"Tudo Me pertence, e possuo a morada superexcelente, que se chama Goloka Vṛndāvana\". Se alguém quer ir até lá, deve simplesmente tornar-se consciente de Kṛṣṇa e procurar compreender como Kṛṣṇa aparece e desaparece, qual é Sua posição constitucional, qual é nossa posição constitucional, qual é nossa relação com Ele e como viver. Procurai simplesmente compreender estas ideias de modo científico. Tudo na consciência de Kṛṣṇa é científico. Não é espúrio, caprichoso, sentimental, fanático nem imaginário. É verdade, fato, realidade. É preciso compreender Kṛṣṇa em verdade.\n\n\n\nTemos de abandonar este corpo, queiramos ou não. Chegará o dia em que teremos de submeter-nos às leis da natureza e abandonar este corpo. Mesmo o presidente Kennedy, em sua procissão, teve de submeter-se à lei da natureza e trocar seu corpo por outro corpo. Não pôde dizer: \"Oh, sou o presidente; sou o Sr. Kennedy. Não posso fazer isso\". Foi forçado a fazê-lo. É assim que a natureza opera.\n\n\n\nO propósito de nossa desenvolvida consciência humana é compreender como a natureza opera. Além da consciência humana, há consciência em cães, gatos, vermes, árvores, aves, animais e em todas as demais espécies. Mas não estamos destinados a viver nessa consciência. O *Śrīmad-Bhāgavatam* diz que, após muitos e muitos nascimentos, alcançamos a forma humana de corpo. Pois bem, não devemos fazer mau uso dela. Por favor, utilizemos esta vida humana para desenvolver a consciência de Kṛṣṇa e ser felizes."}
{"ref": "ej/0a", "book": "ej", "lang": "pt", "url": "/pt/library/ej/0a/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Prefácio", "purport": "Um ser vivo, especialmente o homem civilizado, tem o desejo natural de viver para sempre em felicidade. Isso é bastante natural, porque, em seu estado original, o ser vivo é ao mesmo tempo eterno e jubiloso. No atual estado condicionado de vida, porém, ele se acha empenhado numa luta contra os repetidos nascimentos e mortes. Por isso, não alcançou nem felicidade nem imortalidade.\n\nO desejo mais recente que o homem desenvolveu é o de viajar a outros planetas. Isso também é bastante natural, pois ele tem o direito constitucional de ir a qualquer parte dos céus materiais ou espirituais. Tal viagem é muito tentadora e empolgante, porque esses céus estão repletos de ilimitados globos de qualidades variadas, ocupados por todos os tipos de entidades vivas. O desejo de viajar para lá pode ser realizado pelo processo do *yoga*, que serve como meio pelo qual a pessoa pode transferir-se para qualquer planeta que deseje — possivelmente a planetas onde a vida é não apenas eterna e bem-aventurada, mas onde há múltiplas variedades de energias desfrutáveis. Quem quer que consiga alcançar a liberdade dos planetas espirituais jamais precisará retornar a esta miserável terra de nascimento, velhice, doença e morte.\n\nEsse estágio de perfeição pode ser alcançado muito facilmente pelo esforço individual. A pessoa pode simplesmente seguir, em seu próprio lar, o método prescrito de *bhakti-yoga*. Esse método, sob orientação adequada, é simples e prazeroso. Faz-se aqui uma tentativa de oferecer informação às pessoas em geral, e aos filósofos e religiosos em particular, sobre como a pessoa pode transferir-se a outros planetas por este processo de *bhakti-yoga* — o mais elevado de todos os processos ióguicos."}
