{"ref": "nod/1", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/1/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "1. Características do Serviço Devocional Puro", "purport": "No *Śrīmad-Bhāgavatam,* terceiro canto, capítulo 29, verso 10, Śrīla Kapiladeva, ao instruir Sua mãe, deu as seguintes características do serviço devocional puro: \"Minha querida mãe, aqueles que são Meus devotos puros e que não têm desejo de benefício material nem de especulação filosófica têm a mente tão ocupada em Meu serviço que jamais se interessam em Me pedir coisa alguma — exceto estarem ocupados nesse serviço. Eles nem sequer imploram para viver Comigo em Minha morada.\"\n\nHá cinco espécies de liberação, a saber: tornar-se uno com o Senhor, viver com o Senhor Supremo no mesmo planeta, ter os mesmos traços que o Senhor, desfrutar das mesmas opulências que o Senhor e viver como companheiro do Senhor. O devoto, isso para não falar de rejeitar a gratificação material dos sentidos, não deseja sequer nenhuma das cinco espécies de liberação. Ele se satisfaz simplesmente em prestar serviço amoroso ao Senhor. Essa é a característica da devoção pura.\n\nNa declaração acima, feita por Kapiladeva no *Śrīmad-Bhāgavatam,* descreve-se a verdadeira posição do devoto puro e definem-se também as características primárias do serviço devocional. Outras características do serviço devocional são descritas por Rūpa Gosvāmī com evidências de diferentes escrituras. Ele afirma que há seis características do serviço devocional puro, que são as seguintes:\n\n1. O serviço devocional puro traz alívio imediato de toda espécie de sofrimento material.\n2. O serviço devocional puro é o começo de tudo o que é auspicioso.\n3. O serviço devocional puro coloca a pessoa automaticamente em prazer transcendental.\n4. O serviço devocional puro raramente é alcançado.\n5. Aqueles que estão em serviço devocional puro zombam até mesmo da concepção de liberação.\n6. O serviço devocional puro é o único meio de atrair Kṛṣṇa.\n\nKṛṣṇa é todo-atrativo, mas o serviço devocional puro atrai até mesmo a Ele. Isso significa que o serviço devocional puro é, transcendentalmente, ainda mais forte que o próprio Kṛṣṇa, porque é a potência interna de Kṛṣṇa.\n\n## Alívio do Sofrimento Material\n\nNo *Bhagavad-gītā,* o Senhor diz que devemos nos render a Ele, abandonando todas as outras ocupações. Ali, o Senhor também dá Sua palavra de que protegerá as almas rendidas das reações de todas as atividades pecaminosas. Śrīla Rūpa Gosvāmī diz que os sofrimentos decorrentes das atividades pecaminosas devem-se tanto aos pecados em si quanto aos pecados cometidos em nossas vidas passadas. Em geral, a pessoa comete atividades pecaminosas por ignorância. Mas a ignorância não é desculpa para escapar da reação — as atividades pecaminosas. As atividades pecaminosas são de duas espécies: as que estão maduras e as que não estão maduras. As atividades pecaminosas pelas quais sofremos no momento atual chamam-se maduras. As muitas atividades pecaminosas armazenadas dentro de nós, pelas quais ainda não sofremos, são consideradas imaturas. Por exemplo, um homem pode ter cometido atos criminosos, mas ainda não ter sido preso por eles. Ora, tão logo seja descoberto, a prisão o aguarda. Da mesma forma, por algumas de nossas atividades pecaminosas aguardam-nos sofrimentos no futuro, e, por outras, que estão maduras, sofremos no momento atual.\n\nDessa maneira, há uma cadeia de atividades pecaminosas e seus sofrimentos concomitantes, e a alma condicionada sofre vida após vida devido a esses pecados. Ela sofre na vida atual os resultados das atividades pecaminosas da vida passada e, entrementes, cria novos sofrimentos para sua vida futura. As atividades pecaminosas maduras manifestam-se quando alguém sofre de alguma doença crônica, quando sofre de algum problema legal, quando nasce em família baixa e degradada, ou quando não tem educação ou é muito feio.\n\nHá muitos resultados de atividades pecaminosas passadas pelos quais sofremos no momento atual, e podemos vir a sofrer no futuro devido às nossas atividades pecaminosas atuais. Mas todas essas reações aos atos pecaminosos podem cessar imediatamente se adotarmos a consciência de Kṛṣṇa. Como evidência disso, Rūpa Gosvāmī cita o *Śrīmad-Bhāgavatam,* décimo primeiro canto, capítulo 14, verso 18. Esse verso diz respeito à instrução do Senhor Kṛṣṇa a Uddhava, onde Ele diz: \"Meu querido Uddhava, o serviço devocional a Mim é tal qual um fogo ardente que pode reduzir a cinzas uma quantidade ilimitada de combustível que se lhe forneça.\" O significado é que, assim como o fogo ardente pode reduzir a cinzas qualquer quantidade de combustível, o serviço devocional ao Senhor em consciência de Kṛṣṇa pode queimar todo o combustível das atividades pecaminosas. Por exemplo, no *Gītā,* Arjuna pensou que lutar era uma atividade pecaminosa, mas Kṛṣṇa o ocupou no campo de batalha sob Sua ordem, e assim a luta se tornou serviço devocional. Por isso, Arjuna não se sujeitou a nenhuma reação pecaminosa.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī cita outro verso, do terceiro canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* capítulo 33, verso 6, no qual Devahūti se dirige a seu filho, Kapiladeva, e diz: \"Meu querido Senhor, há nove diferentes espécies de serviço devocional, começando por ouvir e cantar. Qualquer pessoa que ouça sobre Teus passatempos, que cante sobre Tuas glórias, que Te ofereça reverências, que pense em Ti e, dessa maneira, execute qualquer uma das nove espécies de serviço devocional — mesmo que tenha nascido em uma família de comedores de cães [a classe mais baixa da humanidade] — torna-se imediatamente qualificada para realizar sacrifícios.\" Sendo assim, para qualquer pessoa que esteja realmente ocupada em serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa, como é possível que ela não se tenha purificado? Não é possível. Quem está ocupado em consciência de Kṛṣṇa e serviço devocional livrou-se, sem dúvida, de todas as contaminações das atividades pecaminosas materiais. O serviço devocional, portanto, tem o poder de realmente anular toda espécie de reação aos atos pecaminosos. Não obstante, o devoto está sempre alerta para não cometer nenhuma atividade pecaminosa; essa é sua qualificação específica como devoto. Assim, o *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma que, pela realização do serviço devocional, uma pessoa nascida mesmo em família de comedores de cães pode tornar-se apta a participar da realização das cerimônias ritualísticas recomendadas nos *Vedas.* Está implícito nessa declaração que uma pessoa nascida em família de comedores de cães geralmente não é apta a realizar *yajña,* ou sacrifício. A casta sacerdotal encarregada de realizar essas cerimônias ritualísticas recomendadas nos *Vedas* chama-se ordem dos *brāhmaṇas.* A menos que seja *brāhmaṇa,* a pessoa não pode realizar essas cerimônias.\n\nUma pessoa nasce em família de *brāhmaṇas* ou em família de comedores de cães devido a suas atividades passadas. Se uma pessoa nasce em família de comedores de cães, isso significa que suas atividades passadas foram todas pecaminosas. Mas, se mesmo tal pessoa adotar o caminho do serviço devocional e começar a cantar os santos nomes do Senhor — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare —, ela se torna de imediato apta a realizar as cerimônias ritualísticas. Isso significa que suas reações pecaminosas foram imediatamente neutralizadas.\n\nAfirma-se no *Padma Purāṇa* que há quatro espécies de efeitos decorrentes das atividades pecaminosas, que se enumeram como segue: 1) o efeito que ainda não frutificou, 2) o efeito que jaz como semente, 3) o efeito que já está maduro e 4) o efeito que está quase maduro. Afirma-se também que todos esses quatro efeitos são imediatamente aniquilados para aqueles que se rendem à Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, e se ocupam em Seu serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa.\n\nOs efeitos descritos como \"quase maduros\" referem-se ao sofrimento pelo qual se está passando no momento, e os efeitos que \"jazem como semente\" significam que, no âmago do coração, há certo estoque de desejos pecaminosos que são como sementes. A palavra sânscrita *kūṭam* significa que eles estão quase prontos para produzir a semente, ou o efeito da semente. Um \"efeito imaturo\" refere-se ao caso em que a germinação ainda não começou. Dessa declaração do *Padma Purāṇa,* entende-se que a contaminação material é muito sutil. Seu início, sua frutificação e seus resultados, e o modo como a pessoa sofre tais resultados na forma de sofrimento, fazem parte de uma grande cadeia. Quando alguém contrai uma doença, muitas vezes é muito difícil determinar a causa da doença, onde ela se originou e como está amadurecendo. O sofrimento de uma doença, porém, não aparece de repente. Na verdade, leva tempo. E, assim como no campo da medicina, por precaução, o médico aplica uma vacina para impedir o avanço da contaminação, a injeção prática para deter todas as frutificações das sementes de nossas atividades pecaminosas é simplesmente a ocupação em consciência de Kṛṣṇa.\n\nA esse respeito, Śukadeva Gosvāmī fala, no sexto canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* capítulo 2, verso 17, sobre a história de Ajāmila, que começou a vida como um *brāhmaṇa* íntegro e zeloso de seus deveres, mas que, em sua juventude, corrompeu-se por completo por causa de uma prostituta. No fim de sua vida perversa, apenas por chamar o nome de \"Nārāyaṇa [Kṛṣṇa]\", ele foi salvo, apesar de tanto pecado. Śukadeva assinala que a austeridade, a caridade e a realização de cerimônias ritualísticas para neutralizar as atividades pecaminosas são processos recomendados, mas que, por realizá-los, não se pode remover do coração a semente do desejo pecaminoso, como foi o caso de Ajāmila em sua juventude. Essa semente do desejo pecaminoso só pode ser removida pelo alcance da consciência de Kṛṣṇa. E isso pode ser conseguido muito facilmente pelo cantar do *mahā-mantra,* ou *mantra* Hare Kṛṣṇa, como recomendou Śrī Caitanya Mahāprabhu. Em outras palavras, a menos que adote o caminho do serviço devocional, a pessoa não pode ficar cem por cento limpa de todas as reações das atividades pecaminosas.\n\nPela realização de atividades ritualísticas Védicas, pela doação de dinheiro em caridade e pela prática de austeridade, a pessoa pode livrar-se temporariamente das reações das atividades pecaminosas, mas, no momento seguinte, deve ocupar-se novamente em atividades pecaminosas. Por exemplo, uma pessoa que sofre de doença venérea por causa da entrega excessiva à vida sexual tem de submeter-se a dores severas no tratamento médico, e fica então curada por algum tempo. Mas, como não foi capaz de remover do coração o desejo sexual, deve entregar-se novamente à mesma coisa e tornar-se vítima da mesma doença. Assim, o tratamento médico pode dar alívio temporário do sofrimento dessa doença venérea, mas, a menos que a pessoa seja treinada a compreender que a vida sexual é abominável, é impossível salvar-se de tal sofrimento repetido. De modo semelhante, as realizações ritualísticas, a caridade e a austeridade recomendadas nos *Vedas* podem temporariamente impedir alguém de agir de maneira pecaminosa, mas, enquanto o coração não estiver limpo, a pessoa terá de repetir as atividades pecaminosas vez após vez.\n\nOutro exemplo dado no *Śrīmad-Bhāgavatam* é o do elefante que entra em um lago e se banha com muita seriedade, limpando o corpo por completo. Então, assim que volta à margem, ele novamente apanha um pouco de terra do chão e a joga sobre o corpo. Da mesma forma, uma pessoa que não é treinada em consciência de Kṛṣṇa não pode livrar-se por completo do desejo de atividades pecaminosas. Nem o processo de *yoga,* nem as especulações filosóficas, nem as atividades fruitivas podem salvar alguém das sementes dos desejos pecaminosos. Isso só pode ser feito pela ocupação em serviço devocional.\n\nHá outra evidência no quarto canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* capítulo 22, verso 37, onde Sanat-kumāra diz: \"Meu querido rei, o ego falso do ser humano é tão forte que o mantém na existência material como se estivesse atado por uma corda forte. Somente os devotos podem cortar o nó dessa corda forte com muita facilidade, ocupando-se em consciência de Kṛṣṇa. Outros, que não estão em consciência de Kṛṣṇa, mas tentam tornar-se grandes místicos ou grandes realizadores de rituais, não podem avançar como os devotos. Portanto, é dever de todos ocupar-se nas atividades da consciência de Kṛṣṇa para se libertarem do apertado nó do ego falso e da ocupação em atividades materiais.\"\n\nEsse apertado nó do ego falso deve-se à ignorância. Enquanto for ignorante quanto à sua identificação, a pessoa certamente agirá de modo errado e, com isso, se enredará na contaminação material. Essa ignorância do conhecimento verdadeiro também pode ser dissipada pela consciência de Kṛṣṇa, como se confirma no *Padma Purāṇa* da seguinte maneira: \"O serviço devocional puro em consciência de Kṛṣṇa é a iluminação máxima e, quando tal iluminação está presente, ela é como um incêndio ardente na floresta, que mata todas as inauspiciosas serpentes do desejo.\" Dá-se o exemplo, a esse respeito, de que, quando há um incêndio na floresta, o extenso fogo ardente mata automaticamente todas as serpentes da floresta. Há muitas e muitas serpentes no solo da floresta e, quando ocorre um incêndio, a folhagem seca queima, e as serpentes são imediatamente atacadas. Os animais que têm quatro patas podem fugir do fogo, ou ao menos tentar fugir, mas as serpentes são mortas de imediato. Da mesma forma, o fogo ardente da consciência de Kṛṣṇa é tão forte que as serpentes da ignorância são imediatamente mortas.\n\n## A Consciência de Kṛṣṇa É Plenamente Auspiciosa\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī deu uma definição de auspiciosidade. Ele diz que a verdadeira auspiciosidade significa atividades beneficentes para todas as pessoas do mundo. No momento atual, grupos de pessoas estão ocupados em atividades beneficentes em termos de sociedade, comunidade ou nação. Há inclusive uma tentativa, na forma das Nações Unidas, de atividade de ajuda mundial. Mas, devido às deficiências das limitadas atividades nacionais, semelhante programa geral de bem-estar das massas para o mundo inteiro não é possível na prática. O movimento da consciência de Kṛṣṇa, no entanto, é tão bom que pode prestar o benefício máximo a toda a raça humana. Todos podem ser atraídos por esse movimento, e todos podem sentir o resultado. Por isso, Rūpa Gosvāmī e outros sábios eruditos concordam que um amplo programa de propaganda do movimento de consciência de Kṛṣṇa do serviço devocional por todo o mundo é a mais elevada atividade humanitária de bem-estar.\n\nComo o movimento da consciência de Kṛṣṇa pode atrair a atenção do mundo inteiro e como todo e cada homem pode sentir prazer nessa consciência de Kṛṣṇa é o que se afirma no *Padma Purāṇa* da seguinte maneira: \"Deve-se entender que uma pessoa ocupada em serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa presta o melhor serviço ao mundo inteiro e satisfaz a todos no mundo. Além da sociedade humana, ela satisfaz até mesmo as árvores e os animais, porque eles também se sentem atraídos por esse movimento.\" Um exemplo prático disso foi mostrado pelo Senhor Caitanya quando Ele viajava pelas florestas de Jharikhanda, na Índia central, difundindo Seu movimento de *saṅkīrtana.* Os tigres, os elefantes, os veados e todos os outros animais selvagens juntaram-se a Ele e participavam, a seu próprio modo, dançando e cantando Hare Kṛṣṇa.\n\nAlém disso, uma pessoa ocupada em consciência de Kṛṣṇa, agindo em serviço devocional, pode desenvolver todas as boas qualidades que geralmente se encontram nos semideuses. Diz Śukadeva Gosvāmī, no quinto canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* capítulo 18, verso 12: \"Meu querido rei, as pessoas que têm fé inabalável em Kṛṣṇa e que são livres de qualquer duplicidade podem desenvolver todas as boas qualidades dos semideuses. Por causa do elevado grau de consciência de Kṛṣṇa do devoto, até mesmo os semideuses gostam de viver com ele, e por isso pode-se entender que as qualidades dos semideuses se desenvolveram dentro de seu corpo.\"\n\nPor outro lado, uma pessoa que não está em consciência de Kṛṣṇa não tem boas qualidades. Ela pode ser muito instruída do ponto de vista acadêmico, mas, no campo real de suas atividades, pode-se ver que ela é mais baixa que os animais. Mesmo que uma pessoa seja academicamente muito instruída, se não puder ir além da esfera das atividades mentais, certamente realizará apenas atividades materiais e, dessa forma, permanecerá impura. Há muitíssimas pessoas no mundo moderno que receberam educação elevada nas universidades materialistas, mas vê-se que elas não conseguem adotar o movimento da consciência de Kṛṣṇa e desenvolver as elevadas qualidades dos semideuses.\n\nPor exemplo, um rapaz consciente de Kṛṣṇa, mesmo que não seja muito bem instruído pelo padrão universitário, pode abandonar imediatamente toda vida sexual ilícita, os jogos de azar, o comer carne e a intoxicação; ao passo que aqueles que não estão em consciência de Kṛṣṇa, embora muitíssimo instruídos, são com frequência beberrões, comedores de carne, libertinos e jogadores. Essas são provas práticas de como uma pessoa consciente de Kṛṣṇa se torna altamente desenvolvida em boas qualidades, ao passo que uma pessoa que não está em consciência de Kṛṣṇa não consegue fazê-lo. Temos a experiência de que mesmo um jovem em consciência de Kṛṣṇa é desapegado de cinemas, casas noturnas, espetáculos de dança nua, restaurantes, lojas de bebidas, etc. Ele se livra por completo. Ele poupa seu valioso tempo de ser gasto extravagantemente em fumar, beber, frequentar o teatro e dançar.\n\nQuem não está em consciência de Kṛṣṇa geralmente não consegue ficar sentado em silêncio nem mesmo por meia hora. O sistema de *yoga* ensina que, se a pessoa ficar em silêncio, compreenderá que é Deus. Esse sistema pode ser bom para as pessoas materialistas, mas por quanto tempo elas conseguirão manter-se em silêncio? Artificialmente, podem sentar-se para a assim chamada meditação, mas, logo depois de sua prática de yoga, elas voltarão a ocupar-se em atividades como vida sexual ilícita, jogos de azar, comer carne e muitas outras tolices. Mas a pessoa consciente de Kṛṣṇa eleva-se gradualmente, sem esforçar-se por essa assim chamada meditação silenciosa. Simplesmente por estar ocupada em consciência de Kṛṣṇa, ela abandona automaticamente todas essas tolices e desenvolve um caráter elevado. A pessoa desenvolve o mais elevado caráter tornando-se devota pura de Kṛṣṇa. A conclusão é que ninguém pode verdadeiramente ter boas qualidades se lhe falta a consciência de Kṛṣṇa.\n\n## Felicidade em Consciência de Kṛṣṇa\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī analisou as diferentes fontes de felicidade. Ele dividiu a felicidade em três categorias, que são: 1) a felicidade derivada do gozo material, 2) a felicidade derivada de identificar-se com o Brahman Supremo e 3) a felicidade derivada da consciência de Kṛṣṇa.\n\nNo *Tantra-śāstra,* o Senhor Śiva fala à sua esposa, Satī, desta maneira: \"Minha querida esposa, uma pessoa que se rendeu aos pés de lótus de Govinda e que, dessa forma, desenvolveu a consciência de Kṛṣṇa pura pode muito facilmente receber todas as perfeições desejadas pelos impersonalistas; e, além disso, ela pode desfrutar da felicidade alcançada pelos devotos puros.\"\n\nA felicidade derivada do serviço devocional puro é a mais elevada, porque é eterna. Mas a felicidade derivada da perfeição material ou de compreender que se é Brahman é inferior, porque é temporária. Não há como impedir a queda da felicidade material, e há até mesmo toda a possibilidade de cair da felicidade espiritual derivada de identificar-se com o Brahman impessoal.\n\nTem-se visto que grandes *sannyāsīs* māyāvādīs (impersonalistas) — almas muitíssimo instruídas e quase realizadas — às vezes adotam atividades políticas ou atividades de bem-estar social. A razão é que, na verdade, eles não obtêm nenhuma felicidade transcendental última na compreensão impessoal e, por isso, precisam descer à plataforma material e adotar tais assuntos mundanos. Há muitos casos, especialmente na Índia, em que esses *sannyāsīs* māyāvādīs descem novamente à plataforma material. Mas uma pessoa que está plenamente em consciência de Kṛṣṇa jamais voltará a qualquer espécie de plataforma material. Por mais sedutoras e atraentes que sejam, ela sempre sabe que nenhuma atividade material de bem-estar pode comparar-se à atividade espiritual da consciência de Kṛṣṇa.\n\nAs perfeições místicas alcançadas pelos *yogīs* verdadeiramente bem-sucedidos são oito. *Aṇimā-siddhi* refere-se ao poder pelo qual a pessoa pode tornar-se tão pequena que pode entrar dentro de uma pedra. Os progressos científicos modernos também nos permitem entrar na pedra, pois proporcionam a escavação de muitos túneis subterrâneos, a perfuração de montanhas, etc. Portanto, o *aṇimā-siddhi,* a perfeição mística de tentar entrar na pedra, também foi alcançado pela ciência material. Da mesma forma, todos os *yoga-siddhis,* ou perfeições, são artes materiais. Por exemplo, em um *yoga-siddhi,* há o desenvolvimento do poder de tornar-se tão leve que se pode flutuar no ar ou sobre a água. Isso também está sendo realizado pelos cientistas modernos. Eles voam pelo ar, flutuam na superfície da água e viajam sob a água.\n\nDepois de comparar todos esses *yoga-siddhis* místicos às perfeições materialistas, conclui-se que os cientistas materialistas buscam as mesmas perfeições. Assim, na verdade, não há diferença entre a perfeição mística e a perfeição materialista. Um erudito alemão disse certa vez que as assim chamadas perfeições do *yoga* já haviam sido alcançadas pelos cientistas modernos e que, por isso, elas não lhe interessavam. Ele, inteligentemente, foi à Índia para aprender como poderia compreender sua relação eterna com o Senhor Supremo por meio do *bhakti-yoga,* o serviço devocional.\n\nÉ claro que, nas categorias da perfeição mística, há certos processos que os cientistas materiais ainda não conseguiram desenvolver. Por exemplo, um *yogī* místico pode entrar no planeta Sol simplesmente usando os raios da luz solar. Essa perfeição chama-se *laghimā.* Da mesma forma, um *yogī* pode tocar a Lua com o dedo. Embora os astronautas modernos vão à Lua com a ajuda de espaçonaves, eles passam por muitas dificuldades, ao passo que uma pessoa com perfeição mística pode estender a mão e tocar a Lua com o dedo. Esse *siddhi* chama-se *prāpti,* ou aquisição. Com esse *prāpti-siddhi,* o perfeito *yogī* místico pode não apenas tocar o planeta Lua, mas pode estender a mão a qualquer lugar e pegar o que quiser. Ele pode estar sentado a milhares de quilômetros de distância de determinado lugar e, se quiser, pode pegar frutas de um jardim de lá. Isso é o *prāpti-siddhi.*\n\nOs cientistas modernos fabricaram armas nucleares com as quais podem destruir uma parte insignificante deste planeta, mas, pelo *yoga-siddhi* conhecido como *īśitā,* pode-se criar e destruir um planeta inteiro pela simples vontade. Outra perfeição chama-se *vaśitā,* e por essa perfeição pode-se colocar qualquer pessoa sob o próprio controle. Trata-se de uma espécie de hipnotismo quase irresistível. Às vezes, vê-se que um *yogī* que tenha alcançado um pouco de perfeição nesse poder místico de *vaśitā* aparece entre o povo e fala toda sorte de disparates, controla a mente das pessoas, explora-as, toma-lhes o dinheiro e depois vai embora.\n\nHá outra perfeição mística, conhecida como *prākāmya* (magia). Por esse poder de *prākāmya,* a pessoa pode conseguir tudo o que quiser. Por exemplo, ela pode fazer a água entrar em seu olho e depois sair novamente de dentro do olho. Pela simples vontade, ela pode realizar atividades maravilhosas como essas.\n\nA perfeição máxima do poder místico chama-se *kāmāvasāyitā.* Esta também é magia, mas, enquanto o poder de *prākāmya* atua criando efeitos maravilhosos dentro do âmbito da natureza, o *kāmāvasāyitā* permite contrariar a natureza — em outras palavras, fazer o impossível. É claro que se pode obter grande quantidade de felicidade temporária pelo alcance de tais perfeições materialistas do yoga.\n\nTolamente, as pessoas que estão encantadas pelo brilho do progresso materialista moderno pensam que o movimento da consciência de Kṛṣṇa é para homens menos inteligentes. \"Estou melhor ocupando-me de meus confortos materiais — mantendo um bom apartamento, família e vida sexual.\" Essas pessoas não sabem que, a qualquer momento, podem ser expulsas a pontapés de sua situação material. Devido à ignorância, não sabem que a verdadeira vida é eterna. Os confortos temporários do corpo não são a meta da vida, e é somente devido à mais escura ignorância que as pessoas ficam encantadas com o reluzente progresso dos confortos materiais.\n\nŚrīla Bhaktivinoda Ṭhākura disse, portanto, que o avanço do conhecimento material torna a pessoa mais tola, porque, com seu brilho, faz com que ela se esqueça de sua verdadeira identificação. Isso é a ruína para ela, porque esta forma humana de vida destina-se a sair da contaminação material. Pelo avanço do conhecimento material, as pessoas estão se enredando cada vez mais na existência material. Elas não têm esperança de libertar-se dessa catástrofe.\n\nNo *Hari-bhakti-sudhodaya,* afirma-se que Prahlāda Mahārāja, um grande devoto do Senhor, orou a Nṛsiṁhadeva (a encarnação metade leão, metade homem) da seguinte maneira: \"Meu querido Senhor, oro repetidamente a Teus pés de lótus para que eu simplesmente me torne mais forte no serviço devocional. Oro simplesmente para que minha consciência de Kṛṣṇa seja mais forte e estável, porque a felicidade derivada da consciência de Kṛṣṇa e do serviço devocional é tão poderosa que, com ela, a pessoa pode ter todas as outras perfeições da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da gratificação dos sentidos e até mesmo o alcance da liberação da existência material.\"\n\nNa verdade, o devoto puro não aspira a nenhuma dessas perfeições, porque a felicidade derivada do serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa é tão transcendental e tão ilimitada que nenhuma outra felicidade pode comparar-se a ela. Diz-se que mesmo uma gota de felicidade em consciência de Kṛṣṇa está além de qualquer comparação com um oceano de felicidade derivada de qualquer outra atividade. Assim, qualquer pessoa que tenha desenvolvido mesmo uma pequena quantidade de serviço devocional puro pode muito facilmente chutar para longe todas as outras espécies de felicidade derivadas da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da gratificação dos sentidos e da liberação.\n\nHavia um grande devoto do Senhor Caitanya conhecido como Kholāvecā Śrīdhara, que era um homem muito pobre. Ele mantinha um pequeno negócio de venda de copos feitos de folhas de bananeira, e sua renda era quase nula. Ainda assim, gastava cinquenta por cento de sua pequena renda na adoração ao Ganges, e com os outros cinquenta por cento vivia de alguma maneira. O Senhor Caitanya certa vez revelou-Se a esse devoto íntimo, Kholāvecā Śrīdhara, e ofereceu-lhe qualquer opulência que ele quisesse. Mas Śrīdhara informou ao Senhor que não queria nenhuma opulência material. Ele estava muito feliz em sua posição atual e queria apenas obter fé e devoção inabaláveis aos pés de lótus do Senhor Caitanya. Essa é a posição dos devotos puros. Se puderem estar ocupados vinte e quatro horas por dia em serviço devocional, eles não querem mais nada, nem mesmo a felicidade da liberação ou de tornar-se uno com o Supremo.\n\nNo *Nārada-pañcarātra,* também se diz que qualquer pessoa que tenha desenvolvido mesmo uma pequena quantidade de serviço devocional não dá a mínima importância a nenhuma espécie de felicidade derivada da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da gratificação dos sentidos ou das cinco espécies de liberação. Nenhuma espécie de felicidade derivada da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da liberação ou da gratificação dos sentidos pode sequer ousar entrar no coração de um devoto puro. Afirma-se que, assim como os assistentes pessoais e as criadas de uma rainha seguem a rainha com todo o respeito e reverência, as alegrias da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da gratificação dos sentidos e da liberação seguem o serviço devocional ao Senhor. Em outras palavras, ao devoto puro não falta nenhuma espécie de felicidade derivada de qualquer fonte. Ele não quer nada além do serviço a Kṛṣṇa, mas, mesmo que tenha algum outro desejo, o Senhor o satisfaz sem que o devoto precise pedir.\n\n## A Raridade do Serviço Devocional Puro\n\nNa fase preliminar da vida espiritual, há diferentes espécies de austeridades, penitências e processos semelhantes para alcançar a autorrealização. Contudo, mesmo que o executor desses processos não tenha nenhum desejo material, ele ainda assim não pode alcançar o serviço devocional. E aspirar sozinho, por si mesmo, a alcançar o serviço devocional também não é muito promissor, porque Kṛṣṇa não concorda em conceder o serviço devocional a qualquer um. Kṛṣṇa pode facilmente oferecer a uma pessoa a felicidade material, ou mesmo a liberação, mas Ele não concorda muito facilmente em conceder a alguém a ocupação em Seu serviço devocional. O serviço devocional só pode, de fato, ser alcançado pela misericórdia de um devoto puro. No *Caitanya-caritāmṛta, Madhya* 19.151, diz-se: \"Pela misericórdia do mestre espiritual, que é um devoto puro, e pela misericórdia de Kṛṣṇa, pode-se alcançar a plataforma do serviço devocional. Não há outra maneira.\"\n\nA raridade do serviço devocional também é confirmada no *Tantra-śāstra,* onde o Senhor Śiva diz a Satī: \"Minha querida Satī, se alguém for um filósofo muito refinado, que analisa os diferentes processos de conhecimento, pode alcançar a liberação do enredamento material. Pela realização dos sacrifícios ritualísticos recomendados nos *Vedas,* a pessoa pode elevar-se à plataforma das atividades piedosas e, com isso, desfrutar plenamente dos confortos materiais da vida. Mas todos esses esforços dificilmente podem oferecer a alguém o serviço devocional ao Senhor, nem mesmo que a pessoa se empenhe por ele mediante tais processos durante muitos e muitos milhares de nascimentos.\"\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Prahlāda Mahārāja também confirma que, meramente por esforços pessoais ou pelas instruções de autoridades superiores, não se pode alcançar a etapa do serviço devocional. É preciso ser abençoado pela poeira dos pés de lótus de um devoto puro, que esteja completamente livre da contaminação dos desejos materiais.\n\nNo quinto canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* capítulo 6, verso 18, Nārada também diz a Yudhiṣṭhira: \"Meu querido rei, é o Senhor Kṛṣṇa, conhecido como Mukunda, o eterno protetor dos Pāṇḍavas e dos Yadus. Ele é também seu mestre espiritual e instrutor em todos os aspectos. Ele é o único Deus adorável para você. Ele é muito querido e afetuoso, e é o diretor de todas as suas atividades, tanto individuais quanto familiares. E, mais ainda, Ele às vezes executa suas ordens como se fosse seu mensageiro! Meu querido rei, quão afortunado você é, porque, para outros, todos esses favores que o Senhor Supremo lhe deu não seriam sequer sonhados.\" O significado desse verso é que o Senhor oferece facilmente a liberação, mas raramente concorda em conceder a uma alma o serviço devocional, porque, pelo serviço devocional, o próprio Senhor é comprado pelo devoto.\n\n## A Felicidade de Tornar-se Uno com o Supremo\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī diz que, se o *brahmānanda,* ou a felicidade de tornar-se uno com o Supremo, for multiplicado um trilhão de vezes, ainda assim não poderá comparar-se a uma fração atômica da felicidade derivada do oceano do serviço devocional.\n\nNo *Hari-bhakti-sudhodaya,* Prahlāda Mahārāja, enquanto satisfazia o Senhor Nṛsiṁhadeva com suas orações, diz: \"Meu querido Senhor do universo, sinto prazer transcendental em Tua presença e mergulhei no oceano de felicidade. Agora considero a felicidade do *brahmānanda* como não sendo mais do que a água da marca deixada na terra pelo casco de uma vaca, em comparação com este oceano de bem-aventurança.\" Da mesma forma, confirma-se no *Bhāvārtha-dīpikā,* o comentário de Śrīdhara Svāmī sobre o *Śrīmad-Bhāgavatam:* \"Meu querido Senhor, algumas das pessoas afortunadas que nadam no oceano de Teu néctar de devoção, e que saboreiam o néctar da narração de Teus passatempos, certamente conhecem êxtases que de imediato minimizam o valor da felicidade derivada da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da gratificação dos sentidos e da liberação. Tal devoto transcendental considera qualquer espécie de felicidade que não seja o serviço devocional como não sendo melhor que a palha da rua.\"\n\n## Como Atrair Kṛṣṇa\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī afirmou que o serviço devocional atrai até mesmo Kṛṣṇa. Kṛṣṇa atrai a todos, mas o serviço devocional atrai Kṛṣṇa. O símbolo do serviço devocional no mais alto grau é Rādhārāṇī. Kṛṣṇa é chamado Madana-mohana, o que significa que Ele é tão atrativo que pode derrotar a atração de milhares de Cupidos. Mas Rādhārāṇī é ainda mais atrativa, pois Ela pode atrair até mesmo Kṛṣṇa. Por isso, os devotos A chamam Madana-mohana-mohanī — a atratora daquele que atrai o Cupido.\n\nRealizar serviço devocional significa seguir os passos de Rādhārāṇī, e os devotos em Vṛndāvana colocam-se aos cuidados de Rādhārāṇī a fim de alcançarem a perfeição em seu serviço devocional. Em outras palavras, o serviço devocional não é uma atividade do mundo material; ele está diretamente sob o controle de Rādhārāṇī. No *Bhagavad-gītā,* confirma-se que os *mahātmās,* ou grandes almas, estão sob a proteção da *daivī prakṛti,* a energia interna — Rādhārāṇī. Assim, estando diretamente sob o controle da potência interna de Kṛṣṇa, o serviço devocional atrai até mesmo o próprio Kṛṣṇa.\n\nEsse fato é corroborado por Kṛṣṇa no décimo primeiro canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* capítulo 12, verso 1, onde Ele diz: \"Meu querido Uddhava, fique sabendo por Mim que a atração que sinto pelo serviço devocional prestado por Meus devotos não pode ser alcançada nem mesmo pela realização do *yoga* místico, pela especulação filosófica, pelos sacrifícios ritualísticos, pelo estudo do *Vedānta,* pela prática de severas austeridades ou pela doação de tudo em caridade. Essas são, sem dúvida, atividades muito boas, mas não Me são tão atrativas quanto o serviço transcendental amoroso prestado por Meus devotos.\"\n\nComo Kṛṣṇa Se sente atraído pelo serviço devocional de Seus devotos é descrito por Nārada no *Śrīmad-Bhāgavatam,* sétimo canto, capítulo 10, verso 37. Ali, Nārada se dirige ao rei Yudhiṣṭhira enquanto o rei aprecia as glórias do caráter de Prahlāda Mahārāja. O devoto sempre aprecia as atividades de outros devotos. Yudhiṣṭhira Mahārāja apreciava as qualidades de Prahlāda, e esse é um dos sintomas do devoto puro. O devoto puro jamais se julga grande; ele sempre pensa que os outros devotos são maiores que ele. O rei pensava: \"Prahlāda Mahārāja é realmente um devoto do Senhor, ao passo que eu não sou nada\", e, enquanto pensava assim, Nārada se dirigiu a ele com as seguintes palavras: \"Meu querido rei Yudhiṣṭhira, neste mundo, vocês [os irmãos Pāṇḍavas] são as únicas pessoas afortunadas. A Suprema Personalidade de Deus apareceu neste planeta e Se apresenta a vocês como um ser humano comum. Ele está sempre com vocês em todas as circunstâncias. Ele vive com vocês e Se oculta dos olhos dos outros. Os outros não podem compreender que Ele é o Senhor Supremo, mas Ele continua vivendo com vocês como primo, como amigo e até mesmo como mensageiro. Portanto, saibam que ninguém neste mundo é mais afortunado que vocês.\"\n\nNo *Bhagavad-gītā,* quando Kṛṣṇa apareceu em Sua forma universal, Arjuna orou: \"Meu querido Kṛṣṇa, eu Te considerava meu primo-irmão e, por isso, Te desrespeitei de muitas maneiras, chamando-Te de Kṛṣṇa ou de amigo. Mas Tu és tão grande que eu não podia compreender.\" Essa era, portanto, a posição dos Pāṇḍavas; embora Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade de Deus, o maior entre todos os grandes, Ele permanecia com aqueles irmãos da realeza, atraído pela devoção, pela amizade e pelo amor deles. Essa é a prova de quão grande é esse processo do serviço devocional. Ele pode atrair até mesmo a Suprema Personalidade de Deus. Deus é grande, mas o serviço devocional é maior que Deus, porque O atrai. As pessoas que não estão em serviço devocional jamais poderão compreender que grande valor há em prestar serviço ao Senhor."}
{"ref": "nod/2", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/2/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "2. As Primeiras Etapas da Devoção", "purport": "## As Primeiras Etapas da Devoção\n\nAs três categorias de serviço devocional que Śrīla Rūpa Gosvāmī descreve no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* estão enumeradas como serviço devocional na prática, serviço devocional em êxtase e serviço devocional em puro amor a Deus. Há muitas subdivisões em cada uma dessas categorias. Em geral, entende-se que, na categoria do serviço devocional na prática, há duas qualidades distintas; o serviço devocional em êxtase tem quatro qualidades, e o serviço devocional em puro amor a Deus tem seis qualidades. Essas qualidades serão explicadas por Śrīla Rūpa Gosvāmī mais adiante.\n\nA esse respeito, Śrīla Rūpa Gosvāmī sugere que a pessoa apta à consciência de Kṛṣṇa, ou ao serviço devocional, pode ser classificada conforme seu gosto específico. Ele diz que o serviço devocional é um processo contínuo, vindo da vida anterior. Ninguém pode dedicar-se ao serviço devocional a menos que tenha tido alguma ligação prévia com ele. Por exemplo, suponha-se que, nesta vida, eu pratique o serviço devocional em certa medida. Ainda que não seja executado de modo cem por cento perfeito, mesmo assim o que eu tiver feito não se perderá. Em minha próxima vida, começarei de novo a partir exatamente do ponto em que parei nesta vida. Dessa maneira, há sempre uma continuidade. Mas, ainda que não haja continuidade, se por mero acaso uma pessoa se interessar pela instrução de um devoto puro, ela poderá ser aceita e poderá progredir no serviço devocional. De qualquer modo, para as pessoas que têm um gosto natural por compreender livros como o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam,* o serviço devocional é mais fácil do que para aquelas que estão simplesmente habituadas à especulação mental e aos processos argumentativos.\n\nEm apoio a essa afirmação, há muitas asserções autorizadas dos eruditos sábios de eras passadas. Segundo a opinião geral deles, uma pessoa pode tornar-se governada por certas convicções derivadas de seus próprios argumentos e decisões. Então, outra pessoa, que talvez seja um lógico ainda maior, anulará essas conclusões e estabelecerá outra tese. Dessa forma, a senda da argumentação jamais será segura nem conclusiva. O *Śrīmad-Bhāgavatam* recomenda, portanto, que se sigam as pegadas das autoridades.\n\nEis aqui uma descrição geral do serviço devocional dada por Śrī Rūpa Gosvāmī em seu *Bhakti-rasāmṛta-sindhu.* Já se afirmou anteriormente que o serviço devocional pode dividir-se em três categorias — a saber, serviço devocional na prática, serviço devocional em êxtase e serviço devocional em puro amor a Deus. Agora Śrī Rūpa Gosvāmī propõe-se a descrever o serviço devocional na prática.\n\nPrática significa empregar nossos sentidos em algum tipo específico de trabalho. Por conseguinte, serviço devocional na prática significa utilizar nossos diferentes órgãos sensoriais em serviço a Kṛṣṇa. Alguns dos sentidos destinam-se à aquisição de conhecimento, e alguns destinam-se a executar as conclusões de nosso pensar, sentir e querer. Assim, prática significa empregar tanto a mente como os sentidos no serviço devocional prático. Esta prática não se destina a desenvolver algo artificial. Por exemplo, uma criança aprende ou pratica a andar. Esse andar não é antinatural. A capacidade de andar está originalmente presente na criança, e, simplesmente com um pouco de prática, ela anda muito bem. De modo semelhante, o serviço devocional ao Senhor Supremo é o instinto natural de toda entidade viva. Até mesmo homens incivilizados, como os aborígenes, oferecem suas respeitosas reverências a algo maravilhoso exibido pela lei da natureza, e reconhecem que, por trás de alguma exibição ou ação maravilhosa, há algo supremo. Assim, essa consciência, embora jaza adormecida naqueles que estão materialmente contaminados, encontra-se em toda entidade viva. E, quando purificada, ela se chama consciência de Kṛṣṇa.\n\nHá certos métodos prescritos para empregar nossos sentidos e a mente de tal maneira que nossa consciência adormecida para amar Kṛṣṇa seja despertada, assim como a criança, com um pouco de prática, pode começar a andar. Aquele que não tem capacidade básica de andar não pode andar pela prática. De modo semelhante, a consciência de Kṛṣṇa não pode ser despertada simplesmente pela prática. Na verdade, não existe tal prática. Quando desejamos desenvolver nossa capacidade inata para o serviço devocional, há certos processos que, ao serem aceitos e executados por nós, farão com que essa capacidade adormecida seja despertada. Tal prática chama-se *sādhana-bhakti.*\n\nConsidera-se que toda entidade viva sob o feitiço da energia material se acha numa condição anormal de loucura. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* diz-se: \"Em geral, a alma condicionada é louca, porque está sempre ocupada em atividades que são as causas do cativeiro e do sofrimento.\" A alma espiritual, em sua condição original, é alegre, bem-aventurada, eterna e plena de conhecimento. Somente por sua implicação em atividades materiais é que ela se tornou miserável, temporária e plena de ignorância. Isso se deve ao *vikarma. Vikarma* significa ações que não deveriam ser feitas. Portanto, devemos praticar o *sādhana-bhakti* — o que significa oferecer o *maṅgala-ārātrika* (adoração à Deidade) pela manhã, abster-se de certas atividades materiais, oferecer reverências ao mestre espiritual e seguir muitas outras regras e regulações que serão discutidas aqui, uma após a outra. Essas práticas ajudarão a pessoa a curar-se da loucura. Assim como a doença mental de um homem é curada pelas orientações de um psiquiatra, este *sādhana-bhakti* cura a alma condicionada de sua loucura sob o feitiço de *māyā,* a ilusão material.\n\nNārada Muni menciona este *sādhana-bhakti* no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Sétimo Canto, primeiro capítulo, trigésimo verso. Ele diz ali ao rei Yudhiṣṭhira: \"Meu querido rei, é preciso fixar a mente em Kṛṣṇa por todos os meios.\" Isso se chama consciência de Kṛṣṇa. É dever do *ācārya,* o mestre espiritual, encontrar os meios e maneiras para que seu discípulo fixe a mente em Kṛṣṇa. Esse é o começo do *sādhana-bhakti.*\n\nŚrī Caitanya Mahāprabhu deu-nos um programa autorizado para esse propósito, centrado no cantar do *mantra* Hare Kṛṣṇa. Este cantar tem tanto poder que imediatamente apega a pessoa a Kṛṣṇa. Esse é o começo do *sādhana-bhakti.* De um modo ou de outro, é preciso fixar a mente em Kṛṣṇa. O grande santo Ambarīṣa Mahārāja, embora fosse um rei responsável, fixou a mente em Kṛṣṇa, e, de modo semelhante, qualquer pessoa que tente fixar a mente dessa maneira fará progresso muito rápido ao reviver com êxito sua consciência de Kṛṣṇa original.\n\nOra, este *sādhana-bhakti,* ou prática do serviço devocional, também pode dividir-se em duas partes. A primeira parte chama-se princípios regulativos: é preciso seguir esses diferentes princípios regulativos por ordem do mestre espiritual, ou com base nas escrituras autorizadas, e não pode haver possibilidade de recusa. Isso se chama *vaidhi,* ou regulado. É preciso fazê-lo sem argumentação alguma. Outra parte do *sādhana-bhakti* chama-se *rāgānugā. Rāgānugā* refere-se ao ponto em que, ao seguir os princípios regulativos, a pessoa se torna um pouco mais apegada a Kṛṣṇa e executa o serviço devocional por amor natural. Por exemplo, uma pessoa ocupada no serviço devocional pode receber a ordem de levantar-se cedo pela manhã e oferecer *ārātrika,* que é uma forma de adoração à Deidade. No princípio, por ordem de seu mestre espiritual, a pessoa se levanta cedo pela manhã e oferece *ārātrika,* mas, então, desenvolve verdadeiro apego. Quando obtém esse apego, ela automaticamente tenta decorar a Deidade, preparar diferentes tipos de vestes e pensar em diferentes planos para executar bem seu serviço devocional. Embora esteja dentro da categoria da prática, esta oferenda de serviço amoroso é espontânea. Assim, a prática do serviço devocional, *sādhana-bhakti,* pode dividir-se em duas partes — a saber, regulada e espontânea.\n\nRūpa Gosvāmī define a primeira parte da prática devocional, ou *vaidhi-bhakti,* da seguinte forma: \"Quando não há apego nem serviço amoroso espontâneo ao Senhor, e a pessoa se ocupa no serviço ao Senhor simplesmente por obediência à ordem do mestre espiritual ou em conformidade com as escrituras, tal serviço obrigatório chama-se *vaidhi-bhakti.*\"\n\nEsses princípios do *vaidhi-bhakti* também estão descritos no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Segundo Canto, primeiro capítulo, verso 35, onde Śukadeva Gosvāmī instrui o moribundo Mahārāja Parīkṣit quanto a seu curso de ação. Mahārāja Parīkṣit encontrou-se com Śukadeva Gosvāmī apenas uma semana antes de sua morte, e o rei estava perplexo quanto ao que deveria ser feito antes que ele tivesse de partir. Muitos outros sábios também ali chegaram, mas nenhum pôde dar-lhe a orientação apropriada. Śukadeva Gosvāmī, contudo, deu-lhe esta orientação da seguinte forma: \"Meu querido rei, se quiseres ser destemido ao enfrentar tua morte na próxima semana (pois, na verdade, todos sentem medo no momento da morte), então deves começar imediatamente o processo de ouvir, cantar e lembrar de Deus.\" Se a pessoa puder cantar e ouvir Hare Kṛṣṇa e sempre lembrar do Senhor Kṛṣṇa, então ela com certeza se tornará destemida diante da morte, que pode chegar a qualquer momento.\n\nNas afirmações de Śukadeva Gosvāmī, diz-se que a Suprema Personalidade de Deus é Kṛṣṇa. Portanto, Śukadeva recomenda que se ouça sempre acerca de Kṛṣṇa. Ele não recomenda que se ouça e cante acerca dos semideuses. Os māyāvādīs (impersonalistas) dizem que se pode cantar qualquer nome, seja o de Kṛṣṇa, seja os dos semideuses, e o resultado será o mesmo. Mas, na verdade, isso não é um fato. Segundo a versão autorizada do *Śrīmad-Bhāgavatam,* é preciso ouvir e cantar apenas acerca do Senhor Viṣṇu (Kṛṣṇa).\n\nAssim, Śukadeva Gosvāmī recomendou a Parīkṣit Mahārāja que, para ser destemido diante da morte, é preciso ouvir, cantar e lembrar, por todos os meios, da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Ele também menciona que a Suprema Personalidade de Deus é *sarvātmā. Sarvātmā* significa \"a Superalma de todos\". Kṛṣṇa também é mencionado como *īśvara,* o controlador supremo que está situado no coração de todos. Por conseguinte, se de algum modo nos apegarmos a Kṛṣṇa, Ele nos livrará de todo perigo. No *Bhagavad-gītā,* diz-se que qualquer pessoa que se torne devota do Senhor jamais é vencida. Os outros, contudo, são sempre vencidos. Vencido significa que, depois de obter esta forma humana de vida, a pessoa não sai do enredamento do nascimento e da morte e, assim, perde sua oportunidade dourada. Tal pessoa não sabe para onde está sendo lançada pelas leis da natureza.\n\nSuponha-se que alguém não desenvolva consciência de Kṛṣṇa nesta forma humana de vida. Ele será lançado no ciclo de nascimentos e mortes, que envolve 8.400.000 espécies de vida, e sua identidade espiritual permanecerá perdida. A pessoa não sabe se vai ser uma planta, ou um animal, ou um pássaro, ou algo do gênero, porque há muitíssimas espécies de vida. A recomendação de Rūpa Gosvāmī para reviver nossa consciência de Kṛṣṇa original é que, de um modo ou de outro, apliquemos nossa mente em Kṛṣṇa muito seriamente e, assim, nos tornemos também destemidos diante da morte. Após a morte, não conhecemos nosso destino, porque estamos completamente sob o controle das leis da natureza. Apenas Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é o controlador das leis da natureza. Por isso, se nos refugiarmos seriamente em Kṛṣṇa, não haverá medo de sermos lançados de volta ao ciclo de tantas espécies de vida. Um devoto sincero certamente será transferido para a morada de Kṛṣṇa, como se afirma no *Bhagavad-gītā.*\n\nNo *Padma Purāṇa* também se aconselha o mesmo processo. Ali se diz que se deve sempre lembrar do Senhor Viṣṇu. Isso se chama *dhyāna,* ou meditação — lembrar sempre de Kṛṣṇa. Diz-se que é preciso meditar com a mente fixa em Viṣṇu. O *Padma Purāṇa* recomenda que se fixe sempre a mente na forma de Viṣṇu por meio da meditação e que não O esqueçamos em momento algum. E este estado de consciência chama-se *samādhi,* ou transe.\n\nDevemos sempre tentar moldar as atividades de nossas vidas de tal maneira que lembremos constantemente de Viṣṇu, ou Kṛṣṇa. Isso é consciência de Kṛṣṇa. Quer a pessoa concentre a mente na forma de quatro braços de Viṣṇu, quer na forma de dois braços de Kṛṣṇa, é a mesma coisa. O *Padma Purāṇa* recomenda: de um modo ou de outro, pensa sempre em Viṣṇu, sem esquecê-Lo sob nenhuma circunstância. Na verdade, este é o mais básico de todos os princípios regulativos. Pois, quando há uma ordem de um superior para fazer algo, há simultaneamente uma proibição. Quando a ordem é que se deve sempre lembrar de Kṛṣṇa, a proibição é que jamais se deve esquecê-Lo. Dentro desta simples ordem e proibição, todos os princípios regulativos se encontram completos.\n\nEste princípio regulativo aplica-se a todos os *varṇas* e *āśramas,* as castas e ocupações da vida. Há quatro *varṇas,* a saber: os *brāhmaṇas* (sacerdotes e intelectuais), os *kṣatriyas* (guerreiros e estadistas), os *vaiśyas* (comerciantes e agricultores) e os *śūdras* (trabalhadores e servos). Há também quatro *āśramas* padrão, a saber: *brahmacarya* (vida estudantil), *gṛhastha* (chefe de família), *vānaprastha* (aposentado) e *sannyāsa* (renunciante). Os princípios regulativos não são apenas para os *brahmacārīs* (estudantes celibatários) seguirem, mas são aplicáveis a todos. Não importa se a pessoa é uma iniciante — um *brahmacārī* — ou se é muito avançada — um *sannyāsī.* O princípio de lembrar constantemente da Suprema Personalidade de Deus e de não esquecê-Lo em momento algum destina-se a ser seguido por todos, sem falta.\n\nSe esta injunção for seguida, então todas as demais regras e regulações automaticamente se enquadrarão. Todas as demais regras e regulações devem ser tratadas como auxiliares ou servidoras deste único princípio básico. As injunções das regras e regulações e as reações resultantes são mencionadas no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* quinto capítulo, primeiro e segundo versos. Camasa Muni, um dos nove sábios que vieram instruir o rei Nimi, dirigiu-se ao rei e disse: \"As quatro ordens sociais, a saber, os *brāhmaṇas,* os *kṣatriyas,* os *vaiśyas* e os *śūdras,* surgiram das diferentes partes da forma universal do Senhor Supremo, da seguinte forma: os *brāhmaṇas* surgiram da cabeça, os *kṣatriyas* surgiram dos braços, os *vaiśyas* surgiram da cintura, e os *śūdras* surgiram das pernas. De modo semelhante, os *sannyāsīs* surgiram da cabeça, os *vānaprasthas* dos braços, os *gṛhasthas* da cintura, e os *brahmacārīs* das pernas.\"\n\nEssas diferentes ordens da sociedade e graus de avanço espiritual são concebidos em termos de qualificação. Confirma-se no *Bhagavad-gītā* que as quatro ordens sociais e as quatro ordens espirituais são criadas pelo próprio Senhor, em termos de diferentes qualidades individuais. Assim como as diferentes partes do corpo têm diferentes tipos de atividades, da mesma forma as ordens sociais e as ordens espirituais também têm diferentes tipos de atividades em termos de qualificação e posição. O alvo dessas atividades, contudo, é sempre a Suprema Personalidade de Deus. Como se confirma no *Bhagavad-gītā:* \"Ele é o desfrutador supremo.\" Assim, quer a pessoa seja um *brāhmaṇa,* quer um *śūdra,* ela tem de satisfazer o Senhor Supremo por meio de suas atividades. Isso também se confirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* por um verso que diz: \"Todos devem ocupar-se em seu dever específico, mas a perfeição de tal trabalho deve ser avaliada por quanto o Senhor fica satisfeito com tais atividades.\" A injunção aqui é que a pessoa tem de agir de acordo com sua posição, e, por tais atividades, ou ela satisfaz a Suprema Personalidade, ou então cai de sua posição.\n\nPor exemplo, um *brāhmaṇa,* que nasce da cabeça do Senhor, tem como sua função pregar os transcendentais sons Védicos, ou *śabda-brahman.* Por ser o *brāhmaṇa* a cabeça, ele tem de pregar o som transcendental, e também tem de comer em nome do Senhor Supremo. Segundo as injunções Védicas, quando um *brāhmaṇa* come, deve-se entender que a Personalidade de Deus está comendo através dele. Não se trata, contudo, de o *brāhmaṇa* simplesmente comer em nome do Senhor e não pregar a mensagem do *Bhagavad-gītā* ao mundo. Na verdade, aquele que prega a mensagem do *Gītā* é muito querido por Kṛṣṇa, como se confirma no próprio *Gītā.* Tal pregador é, de fato, um *brāhmaṇa* e, assim, ao alimentá-lo, alimenta-se o Senhor Supremo diretamente.\n\nDe modo semelhante, o *kṣatriya* tem de proteger as pessoas dos assaltos de *māyā.* Esse é seu dever. Por exemplo, assim que Mahārāja Parīkṣit viu que um homem negro tentava matar uma vaca, ele imediatamente empunhou sua espada, querendo matar o homem negro, cujo nome era Kali.((Não se deve confundir com Kālī, a semideusa que é o aspecto devastador da natureza material. Esta última pronuncia-se, na realidade, káh-li, ao passo que o Kali aqui em discussão (como na era de kali) pronuncia-se kâh-li.)) Esse é o dever de um *kṣatriya.* A violência é necessária para dar proteção. No *Bhagavad-gītā,* o Senhor Kṛṣṇa deu diretamente Sua ordem a Arjuna para cometer violência no campo de batalha de Kurukṣetra, justamente para dar proteção às pessoas em geral.\n\nOs *vaiśyas* destinam-se a produzir produtos agrícolas, comercializá-los e distribuí-los. E a classe trabalhadora, ou *śūdras,* são aqueles que não têm a inteligência dos *brāhmaṇas,* ou dos *kṣatriyas,* ou dos *vaiśyas,* e por isso destinam-se a ajudar essas classes superiores por meio do trabalho corporal. Dessa maneira, há plena cooperação e avanço espiritual entre todas as diferentes ordens da sociedade. E, quando não há tal cooperação, os membros da sociedade caem. Essa é a posição atual no kali-yuga, esta era de disputa. Ninguém está cumprindo seu dever, e todos estão simplesmente convencidos, chamando a si mesmos de *brāhmaṇas* (intelectuais) ou *kṣatriyas* (soldados ou estadistas). Mas, na verdade, tais pessoas estão sem status algum. Estão fora de contato com a Suprema Personalidade de Deus, porque não são conscientes de Kṛṣṇa. Por isso, o movimento da consciência de Kṛṣṇa destina-se a colocar toda a sociedade humana em condição apropriada, de modo que todos sejam felizes e tirem proveito do desenvolvimento da consciência de Kṛṣṇa.\n\nO Senhor Śrī Kṛṣṇa instruiu Uddhava que, ao seguir as injunções das ordens sociais e espirituais da sociedade humana, pode-se satisfazer a Suprema Personalidade de Deus e, como resultado dessa satisfação, toda a sociedade obtém abundantemente e sem dificuldade todas as necessidades da vida. Isso ocorre porque, afinal, a Suprema Personalidade de Deus mantém todas as demais entidades vivas. Se toda a sociedade executar seus respectivos deveres e permanecer em consciência de Kṛṣṇa, não há dúvida de que todos os seus membros viverão muito pacífica e felizmente. Sem ansiar pelas necessidades da vida, o mundo inteiro se transformará em Vaikuṇṭha, uma morada espiritual. Mesmo sem serem transferidos para o reino de Deus, ao seguirem as injunções do *Śrīmad-Bhāgavatam* e cumprirem os deveres da consciência de Kṛṣṇa, toda a sociedade humana será feliz em todos os aspectos.\n\nHá uma afirmação semelhante do próprio Śrī Kṛṣṇa a Uddhava no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* quinto capítulo, segundo verso. O Senhor diz ali: \"Meu querido Uddhava, todas as pessoas estão ocupadas em atividades, sejam as indicadas nas escrituras reveladas, sejam as atividades mundanas comuns. Se, pelo resultado de quaisquer dessas atividades, elas Me adorarem em consciência de Kṛṣṇa, então automaticamente se tornarão muito felizes, tanto neste mundo como no próximo. Disso não há dúvida.\" Podemos concluir desta afirmação de Kṛṣṇa que as atividades em consciência de Kṛṣṇa darão a todos toda a perfeição em seus desejos.\n\nAssim, o movimento da consciência de Kṛṣṇa é tão maravilhoso que não há necessidade sequer de a pessoa designar a si mesma como *brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya, śūdra, brahmacārī, gṛhastha, vānaprastha* ou *sannyāsī.* Que cada um se ocupe na ocupação que agora tem. Que ele simplesmente adore o Senhor Kṛṣṇa por meio do resultado de suas atividades em consciência de Kṛṣṇa. Isso ajustará toda a situação, e todos serão felizes e pacíficos dentro deste mundo. No *Nārada-pañcarātra,* os princípios regulativos do serviço devocional são descritos da seguinte forma: \"Quaisquer atividades sancionadas nas escrituras reveladas e que visem à satisfação da Suprema Personalidade de Deus são aceitas pelos mestres santos como os princípios regulativos do serviço devocional. Se alguém regularmente executa tal serviço à Suprema Personalidade de Deus sob a direção de um mestre espiritual genuíno, então gradualmente ele se eleva à plataforma de servir em puro amor a Deus.\""}
{"ref": "nod/3", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/3/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "3. Elegibilidade do Candidato para Aceitar o Serviço Devocional", "purport": "## Qualificação do Candidato para Aceitar o Serviço Devocional\n\nEm virtude de sua associação com *mahātmās,* ou grandes almas que estão cem por cento ocupadas no serviço devocional ao Senhor, a pessoa pode obter um pouco de atração por Śrī Kṛṣṇa. Mas, ao mesmo tempo, ela pode permanecer muito apegada às atividades fruitivas e ao gozo material dos sentidos e não estar preparada para submeter-se aos diferentes tipos de renúncia. Tal pessoa, se tiver uma atração inabalável por Kṛṣṇa, torna-se um candidato apto a executar o serviço devocional.\n\nEssa atração pela consciência de Kṛṣṇa em associação com devotos puros é o sinal de grande fortuna. O Senhor Caitanya confirma que somente as pessoas afortunadas, pela misericórdia tanto de um mestre espiritual genuíno quanto de Kṛṣṇa, receberão a semente do serviço devocional. A esse respeito, o Senhor Kṛṣṇa diz no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Primeiro Canto, vigésimo capítulo, verso 8: \"Meu querido Uddhava, somente por uma fortuna excepcional alguém se sente atraído por Mim (Kṛṣṇa). E, mesmo que alguém não esteja completamente desapegado das atividades fruitivas, ou não esteja completamente apegado ao serviço devocional, tal serviço é rapidamente eficaz.\"\n\nOs devotos podem ser divididos em três classes. A primeira, ou mais elevada, é descrita da seguinte maneira: a pessoa é muito perita no estudo das escrituras pertinentes e também é perita em apresentar argumentos com base nessas escrituras. Ela pode apresentar conclusões muito bem, com perfeito discernimento, e pode considerar as vias do serviço devocional de modo decisivo. Compreende perfeitamente que o objetivo último da vida é alcançar o transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa, e sabe que Kṛṣṇa é o único objeto de adoração e amor. Esse devoto de primeira classe é aquele que seguiu rigorosamente as regras e regulações sob o treinamento de um mestre espiritual genuíno e que o obedeceu sinceramente, de acordo com as escrituras reveladas. Assim, estando plenamente treinado para pregar e tornar-se ele próprio um mestre espiritual, é considerado de primeira classe. Um devoto de primeira classe jamais se desvia dos princípios da autoridade superior, e ele alcança fé firme nas escrituras ao compreendê-las com toda razão e argumento. Quando falamos de argumentos e razão, isso significa argumentos e razão com base na escritura revelada. O devoto de primeira classe não se interessa por áridos métodos especulativos destinados a desperdiçar tempo. Em outras palavras, aquele que alcançou uma determinação madura no que se refere ao serviço devocional pode ser aceito como o devoto de primeira classe.\n\nO devoto de segunda classe foi definido pelos seguintes sintomas: ele não é muito perito em argumentar com base na escritura revelada, mas tem fé firme no objetivo. O significado dessa descrição é que o devoto de segunda classe tem fé firme no procedimento do serviço devocional a Kṛṣṇa, mas às vezes pode falhar em oferecer argumentos e decisões a uma parte opositora com base na escritura revelada. Mas, ao mesmo tempo, ele permanece imperturbável dentro de si quanto a sua decisão de que Kṛṣṇa é o objeto supremo de adoração.\n\nO neófito, ou devoto de terceira classe, é aquele cuja fé não é forte e que, ao mesmo tempo, não reconhece a decisão da escritura revelada. A fé do neófito pode ser mudada por outra pessoa com argumentos fortes ou por uma decisão oposta. Diferentemente do devoto de segunda classe, que também não consegue apresentar argumentos e evidências da escritura, mas que, mesmo assim, mantém toda a fé no objetivo, o neófito não tem fé firme no objetivo. Por isso, ele é chamado de devoto neófito.\n\nUma classificação adicional do devoto neófito é feita no *Bhagavad-gītā.* Afirma-se ali que quatro classes de homens — a saber, aqueles que estão aflitos, aqueles que necessitam de dinheiro, aqueles que são inquisitivos e aqueles que são sábios — começam o serviço devocional e vêm ao Senhor em busca de alívio no que se refere a sua respectiva satisfação pessoal. Eles vão a algum local de adoração e oram a Deus pela mitigação da aflição material, ou por algum desenvolvimento econômico, ou para satisfazer sua inquisitividade. E um homem sábio que simplesmente percebe a grandeza de Deus também é contado entre os neófitos. Tais principiantes podem ser elevados à plataforma de segunda classe ou de primeira classe se se associarem com devotos puros.\n\nUm exemplo da classe neófita é Mahārāja Dhruva. Ele necessitava do reino de seu pai e, por isso, ocupou-se no serviço devocional ao Senhor. Então, no final, quando estava completamente purificado, recusou-se a aceitar qualquer bênção material do Senhor. De modo semelhante, Gajendra estava aflito e orou a Kṛṣṇa por proteção, após o que se tornou um devoto puro. De modo semelhante, Sanaka, Sanātana, Sananda e Sanat-kumāra estavam todos na categoria de pessoas sábias e santas, e eles também foram atraídos pelo serviço devocional. Algo semelhante aconteceu à assembleia na floresta de Naimiṣāraṇya, encabeçada pelo sábio Śaunaka. Eles eram inquisitivos e estavam sempre perguntando a Sūta Gosvāmī sobre Kṛṣṇa. Assim, alcançaram a associação de um devoto puro e tornaram-se eles próprios devotos puros. Portanto, esse é o modo de elevar-se. Em qualquer condição em que a pessoa se encontre, se for afortunada o bastante para associar-se com devotos puros, então, muito rapidamente, será elevada à plataforma de segunda classe ou de primeira classe.\n\nEsses quatro tipos de devotos foram descritos no Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā,* e todos eles foram aceitos como piedosos. Sem tornar-se piedoso, ninguém pode chegar ao serviço devocional. Explica-se no *Bhagavad-gītā* que somente aquele que executou continuamente atividades piedosas e cujas reações pecaminosas na vida cessaram completamente pode adotar a consciência de Kṛṣṇa. Os outros não podem. Os devotos neófitos são classificados em quatro grupos — os aflitos, os que necessitam de dinheiro, os inquisitivos e os sábios — de acordo com suas gradações de atividades piedosas. Sem atividades piedosas, se um homem está numa condição aflita, torna-se agnóstico, comunista ou algo do gênero. Porque não acredita firmemente em Deus, ele pensa que pode ajustar sua condição aflita descrendo totalmente dEle.\n\nO Senhor Kṛṣṇa, contudo, explicou no *Gītā* que, dentre esses quatro tipos de neófitos, aquele que é sábio Lhe é muito querido, pois um homem sábio, se está apegado a Kṛṣṇa, não busca uma troca de benefícios materiais. Um homem sábio que se apega a Kṛṣṇa não quer nenhum retorno dEle, nem na forma de aliviar a aflição, nem na de ganhar dinheiro. Isso significa que, desde o início, seu princípio básico de apego a Kṛṣṇa é, mais ou menos, amor. Ademais, em virtude de sua sabedoria e de seu estudo dos *śāstras* (escrituras), ele pode compreender também que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus.\n\nConfirma-se no *Bhagavad-gītā* que, após muitos e muitos nascimentos, quando a pessoa se torna realmente sábia, rende-se a Vāsudeva, sabendo perfeitamente bem que Kṛṣṇa (Vāsudeva) é a origem e a causa de todas as causas. Por isso, ela se apega aos pés de lótus de Kṛṣṇa e gradualmente desenvolve amor por Ele. Embora tal homem sábio seja muito querido a Kṛṣṇa, os outros também são aceitos como muito magnânimos, pois, embora estejam aflitos ou necessitem de dinheiro, vieram a Kṛṣṇa em busca de satisfação. Dessa forma, são aceitos como *mahātmās* liberais e de mente ampla.\n\nSem ser elevado à posição de *jñānī,* ou homem sábio, ninguém pode aderir ao princípio de adorar a Suprema Personalidade de Deus. Os outros, que são menos inteligentes, ou aqueles cuja inteligência foi roubada pelo encanto de *māyā,* apegam-se a diferentes semideuses, em virtude da influência dos modos da natureza. O homem sábio é aquele que compreendeu cabalmente que é alma espiritual, e não simplesmente um corpo. Porque percebe que é espírito e que Kṛṣṇa é o espírito supremo, ele sabe que sua relação íntima deve ser com Kṛṣṇa, não com este corpo. O aflito e o homem em busca de dinheiro estão no conceito material da vida, pois tanto a aflição quanto a necessidade de dinheiro estão em relação com este corpo. Aquele que é inquisitivo pode estar um pouco acima do aflito e do homem que necessita de dinheiro, mas, ainda assim, está na plataforma material. Mas um homem sábio que busca Kṛṣṇa sabe perfeitamente bem que é alma espiritual, ou Brahman, e que Kṛṣṇa é a suprema alma espiritual, ou Param-Brahman. Ele sabe que a alma espiritual, sendo subordinada e finita, deve sempre afinar-se com a infinita e suprema alma, Kṛṣṇa. Essa é a relação do homem sábio com Kṛṣṇa.\n\nPode-se concluir que uma pessoa que está livre do conceito corporal da vida é um candidato apto ao serviço devocional puro. Confirma-se também no *Bhagavad-gītā* que, após a percepção do Brahman, quando a pessoa está livre das ansiedades materiais e pode ver toda entidade viva num nível igual, ela está apta a entrar no serviço devocional.\n\nComo já se afirmou antes, há três tipos de felicidade: material, espiritual e devocional. O serviço devocional e a felicidade decorrente de sua execução não são possíveis enquanto a pessoa estiver materialmente afetada. Se alguém tem desejo de gozo material ou de tornar-se uno com o Supremo, ambos são considerados conceitos materiais. Porque os impersonalistas não conseguem apreciar a felicidade espiritual da associação e do intercâmbio de relações amorosas com a Suprema Personalidade de Deus, seu objetivo último é tornar-se uno com o Senhor. Esse conceito é simplesmente uma extensão da ideia material. No mundo material, todos tentam ser o maior chefe entre todos os seus semelhantes ou vizinhos. Seja comunal, social ou nacionalmente, todos competem para ser maiores do que todos os outros, no conceito material da vida. Essa grandeza pode ser estendida ao ilimitado, de modo que a pessoa realmente queira tornar-se una com o maior de todos, o Senhor Supremo. Isso também é um conceito material, embora talvez um pouco mais avançado.\n\nContudo, o conceito espiritual perfeito da vida é o conhecimento completo da posição constitucional da pessoa, e, assim, ela sabe o suficiente para afinar-se no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Deve-se saber que se é finito e que o Senhor é infinito. Por isso, não é possível tornar-se realmente uno com o Senhor, mesmo que a pessoa aspire a isso. Simplesmente não é possível. Portanto, qualquer um que tenha algum desejo ou aspiração de satisfazer seus sentidos tornando-se cada vez mais importante, seja no sentido material, seja no sentido espiritual, não pode realmente saborear o sabor verdadeiramente doce do serviço devocional. Śrīla Rūpa Gosvāmī, por isso, comparou possuir esses desejos de *bhukti* (material) e *mukti* (liberação) a ser influenciado pela arte negra de uma feiticeira: em ambos os casos, a pessoa está em apuros. *Bhukti* significa gozo material, e *mukti* significa libertar-se da ansiedade material e tornar-se uno com o Senhor. Esses desejos são comparados a ser assombrado por fantasmas e feiticeiras, pois, enquanto permanecem essas aspirações ao gozo material ou à unidade espiritual com o Supremo, ninguém pode saborear o verdadeiro sabor transcendental do serviço devocional.\n\nUm devoto puro jamais se importa com a liberação. O Senhor Caitanya Mahāprabhu orou a Kṛṣṇa: \"Meu querido filho de Nanda, não quero nenhuma felicidade material na forma de muitos seguidores, nem imensa opulência em riqueza, nem qualquer bela esposa, nem desejo a cessação da existência material. Posso nascer muitas vezes, uma após outra, mas o que Te peço é que minha devoção a Ti permaneça sempre inabalável.\"\n\nA atenção de um devoto puro é tão atraída para a glorificação dos passatempos, do nome, das qualidades, das formas etc. do Senhor que o devoto não se importa com *mukti.* Śrī Bilvamaṅgala Ṭhākura disse: \"Se eu estiver ocupado no serviço devocional a Ti, meu querido Senhor, então muito facilmente poderei perceber Tua presença em toda parte. E, no que se refere à liberação, penso que a liberação está à minha porta, de mãos postas, esperando para servir-me.\" Para os devotos puros, portanto, a liberação e a emancipação espiritual não são coisas muito importantes.\n\nA esse respeito, no Terceiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Capítulo 25, verso 23, Kapiladeva aconselhou Sua mãe, Devahūti, da seguinte maneira: \"Minha querida mãe, Meus devotos puros ficam encantados ao ver Minhas diferentes formas, a beleza de Meu rosto, a estrutura de Meu corpo tão arrebatadora. Meu sorriso, Meus passatempos e Meu olhar parecem-lhes tão belos que suas mentes ficam sempre absortas em pensamentos sobre Mim, e suas vidas são plenamente dedicadas a Mim. Embora tais pessoas não desejem nenhuma espécie de liberação nem nenhuma espécie de felicidade material, ainda assim Eu lhes concedo um lugar entre Meus associados na morada suprema.\"\n\nEssa evidência do *Śrīmad-Bhāgavatam* dá ao devoto puro a garantia de ser elevado à associação com a Suprema Personalidade de Deus. Śrīla Rūpa Gosvāmī observa, a esse respeito, que aquele que está realmente atraído pela beleza dos pés de lótus de Śrī Kṛṣṇa ou por Seu serviço, e cujo coração, por tal atração, está sempre repleto de bem-aventurança transcendental, naturalmente jamais aspirará à liberação, que é tão valiosa para os impersonalistas.\n\nHá também uma passagem semelhante no Terceiro Canto, décimo quinto capítulo, do mesmo livro, em que Uddhava se dirige ao Senhor Kṛṣṇa e diz: \"Meu querido Senhor, para as pessoas que se ocupam em Teu transcendental serviço amoroso, não há nada digno de ser obtido da religiosidade, do desenvolvimento econômico, da gratificação dos sentidos ou da liberação — embora a felicidade dessas diferentes fontes possa ser obtida por elas muito facilmente. Apesar de tais facilidades, meu querido Senhor, não aspiro a alcançar quaisquer desses resultados. Minha única oração é que eu possa ter fé e devoção inabaláveis a Teus pés de lótus.\"\n\nUma passagem semelhante aparece no Terceiro Canto, vigésimo quinto capítulo, trigésimo primeiro verso, em que Kapiladeva instrui Sua mãe e diz: \"Minha querida mãe, os devotos cujos corações estão sempre repletos no serviço a Meus pés de lótus, e que estão preparados para fazer qualquer coisa por Minha satisfação, especialmente aqueles que se reúnem para compreender Minhas qualidades, passatempos e forma, e que assim Me glorificam congregacionalmente e daí derivam prazer transcendental, tais afortunados devotos jamais desejam tornar-se unos coMigo. E, sem falar de tornar-se uno coMigo, se lhes for oferecido um posto como o Meu em Minha morada, ou opulência como a Minha, ou mesmo a associação pessoal coMigo com traços corporais semelhantes, eles recusam aceitar, pois estão satisfeitos simplesmente por estar ocupados em Meu serviço devocional.\"\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Quarto Canto, nono capítulo, décimo verso, o rei Dhruva diz: \"Meu querido Senhor, o prazer transcendental derivado da meditação em Teus pés de lótus, que é desfrutado pelos devotos puros, não pode ser alcançado pelo prazer transcendental derivado pelos impersonalistas por meio da autorrealização. Então, como podem os trabalhadores fruitivos, que, no máximo, podem aspirar à promoção aos planetas celestiais superiores, compreender-Te, e como se pode dizer que desfrutam de uma felicidade semelhante à felicidade dos devotos?\""}
{"ref": "nod/4", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/4/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "4. O Serviço Devocional Ultrapassa Toda Liberação", "purport": "## O Serviço Devocional Supera Toda Liberação\n\nO quanto um devoto está seriamente apegado ao serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus pode ser compreendido a partir da declaração de Mahārāj Pṛthu (Ādirāja), descrita no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Quarto Canto, 20º Capítulo, 21º verso. Ele ora à Suprema Personalidade de Deus desta maneira: \"Meu querido Senhor, se depois de obter a liberação eu não tiver oportunidade de ouvir as glórias de Vossa Senhoria, glórias cantadas pelos devotos puros do âmago de seus corações em louvor a Vossos pés de lótus, e se eu não tiver oportunidade de saborear este mel de bem-aventurança transcendental, então jamais pedirei a liberação nem esta suposta emancipação espiritual. Apenas orarei sempre a Vossa Senhoria para que me deis milhões de línguas e milhões de ouvidos a fim de que eu possa constantemente cantar e ouvir Vossas glórias transcendentais.\"\n\nOs impersonalistas desejam fundir-se na existência do Supremo, mas, sem preservar sua individualidade, não têm oportunidade de ouvir e cantar as glórias do Senhor Supremo. Por não terem nenhuma ideia da forma transcendental do Senhor Supremo, não há possibilidade de cantarem e ouvirem sobre Suas atividades transcendentais. Em outras palavras, a menos que a pessoa já esteja além da liberação, não pode saborear as glórias transcendentais do Senhor, nem pode compreender a forma transcendental do Senhor.\n\nUma declaração semelhante encontra-se no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Quinto Canto, 14º Capítulo, 43º verso. Śukadeva Gosvāmī dirige-se ali a Parīkṣit Mahārāj e diz: \"A grande alma, o rei Bharata, estava tão apegado ao serviço aos pés de lótus de Kṛṣṇa que abandonou com muita facilidade seu domínio sobre o planeta terrestre e sua afeição por seus filhos, sociedade, amigos, opulência real e bela esposa. Ele teve tanta sorte que a deusa da fortuna se comprazia em oferecer-lhe toda espécie de concessões materiais, mas ele jamais aceitou nenhuma dessas opulências materiais.\" Śukadeva Gosvāmī enaltece grandemente esse comportamento do rei Bharata. Ele diz: \"Qualquer pessoa cujo coração se sinta atraído pelas qualidades transcendentais da Suprema Personalidade de Deus, Madhusūdana, não se importa sequer com aquela liberação almejada por muitos grandes sábios, isto para não falar de opulências materiais.\"\n\nNo *Bhāgavatam,* Sexto Canto, 11º Capítulo, 23º verso, há uma declaração semelhante feita por Vṛtrāsura, que se dirige ao Senhor da seguinte maneira: \"Meu querido Senhor, ao abandonar Vosso serviço transcendental, eu poderia ser promovido ao planeta chamado Dhruva-loka [a Estrela Polar], ou poderia obter domínio sobre todos os sistemas planetários do universo. Mas não aspiro a isso. Tampouco desejo as perfeições místicas da prática do *yoga,* nem aspiro à emancipação espiritual. Tudo o que desejo, meu Senhor, é Vossa associação e Vosso serviço transcendental eternamente.\"\n\nEsta declaração é confirmada pelo Senhor Śiva no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Sexto Canto, 17º Capítulo, 52º verso, onde o Senhor Śiva se dirige a Satī desta maneira: \"Minha querida Satī, as pessoas devotadas a Nārāyaṇa [Kṛṣṇa] não temem nada. Quer sejam elevadas aos sistemas planetários superiores, quer obtenham liberação da contaminação material, quer sejam empurradas para a condição infernal de vida — ou, de fato, em qualquer situação que seja —, elas não temem nada. Simplesmente porque se abrigaram nos pés de lótus de Nārāyaṇa, para elas qualquer posição no mundo material é tão boa quanto outra.\"\n\nHá uma declaração semelhante feita por Indra, o rei do céu, no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Sexto Canto, 18º Capítulo, 52º verso. Ali Indra se dirige a sua mãe desta maneira: \"Minha querida mãe [Aditi], as pessoas que abandonaram toda espécie de desejo e estão simplesmente ocupadas no serviço devocional ao Senhor sabem qual é, de fato, seu verdadeiro interesse. Tais pessoas estão realmente servindo a seus próprios interesses e são consideradas peritos de primeira classe na questão de avançar até a etapa perfeccional da vida.\"\n\nNo Sétimo Canto do *Bhāgavatam,* 6º Capítulo, 23º verso, Mahārāj Prahlāda diz: \"Meus queridos amigos, nascidos em famílias ateístas, se conseguirdes agradar à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, então não há nada mais raro neste mundo. Em outras palavras, se o Senhor Supremo Kṛṣṇa estiver satisfeito convosco, então qualquer desejo que possais ter no âmago de vosso coração poderá ser satisfeito sem dúvida alguma. Sendo assim, de que adianta elevar-vos pelos resultados das atividades fruitivas, que de qualquer modo são alcançados automaticamente pelos modos da natureza material? E de que vos adianta a emancipação espiritual, ou liberação do cativeiro material? Se estiverdes sempre ocupados em cantar as glórias do Senhor Supremo e sempre saboreando o néctar dos pés de lótus do Senhor, então nada disso será necessário.\" Por esta declaração de Prahlāda Mahārāj, compreende-se claramente que quem sente prazer em cantar e ouvir as glórias transcendentais do Senhor já superou toda espécie de bênçãos materiais, incluindo os resultados das atividades fruitivas piedosas, dos sacrifícios e até mesmo a liberação do cativeiro material.\n\nDe modo semelhante, no mesmo Sétimo Canto, 8º Capítulo, 39º verso, quando os semideuses estão oferecendo orações ao Senhor Nṛsiṁha, Indra, o rei do céu, diz: \"Ó Supremo, estes demônios falam de nossa parte de participação na execução de sacrifícios ritualísticos, mas, simplesmente por Vosso aparecimento como o Senhor Nṛsiṁhadeva, salvastes-nos de temores terríveis. Na verdade, nossas porções nas execuções sacrificiais devem-se apenas a Vós, pois sois o supremo desfrutador de todos os sacrifícios. Sois a Superalma de toda entidade viva e, portanto, sois o verdadeiro proprietário de tudo. Por muito tempo nossos corações estiveram sempre repletos de temor deste demônio, Hiraṇyakaśipu. Mas sois tão bondoso conosco que, ao matá-lo, removestes esse temor de dentro de nossos corações e nos destes a oportunidade de colocar novamente Vossa Senhoria dentro de nossos corações. Para as pessoas ocupadas no transcendental serviço amoroso a Vossa Senhoria, todas as opulências que nos foram tomadas pelos demônios são tidas como nada. Os devotos não se importam sequer com a liberação, isto para não falar dessas opulências materiais. Na verdade, não somos desfrutadores dos frutos dos sacrifícios. Nosso único dever é estar sempre ocupados em Vosso serviço, pois sois o desfrutador de tudo.\"\n\nO significado desta declaração de Indra é que, começando por Brahmā e descendo até a insignificante formiga, nenhuma entidade viva se destina a desfrutar das opulências materiais. Elas se destinam apenas a oferecer tudo ao proprietário supremo, a Personalidade de Deus. Ao fazê-lo, desfrutam automaticamente do benefício. Pode-se citar novamente o exemplo das diferentes partes do corpo, que recolhem alimentos e os cozinham para que, por fim, uma refeição seja oferecida ao estômago. Depois que a refeição chega ao estômago, todas as partes do corpo desfrutam igualmente do benefício dela. Assim também, o dever de cada um é satisfazer o Senhor Supremo, e então, automaticamente, todos ficarão satisfeitos.\n\nUm verso semelhante encontra-se no Oitavo Canto, 3º Capítulo, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* verso 20. Gajendra diz ali: \"Meu querido Senhor, não tenho experiência da bem-aventurança transcendental derivada de Vosso serviço devocional e, portanto, pedi-Vos algum favor. Mas sei que as pessoas que são devotos puros e que, por servir aos pés de lótus de grandes almas, libertaram-se de todos os desejos materiais estão sempre imersas no oceano de bem-aventurança transcendental e, como tal, estão sempre satisfeitas simplesmente por glorificar Vossas características auspiciosas. Para elas não há mais nada a que aspirar ou pelo que orar.\"\n\nNo Nono Canto do *Bhāgavatam,* 4º Capítulo, 49º verso, o Senhor de Vaikuṇṭha responde a Durvāsā Muni desta maneira: \"Meus devotos puros estão sempre satisfeitos por estarem ocupados no serviço devocional e, portanto, não aspiram sequer às cinco etapas liberadas, que são: 1) ser uno comigo, 2) obter residência em Meu planeta, 3) possuir Minhas opulências, 4) possuir traços corporais semelhantes aos Meus e 5) obter associação pessoal comigo. Logo, quando eles não se interessam sequer por essas posições liberadas, podes compreender quão pouco se importam com opulências materiais ou com a liberação material.\"\n\nHá uma oração semelhante feita pelas *nāgapatnīs* (esposas da serpente Kāliya), no Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 16º Capítulo, 33º verso. As *nāgapatnīs* dizem ali: \"Querido Senhor, a poeira de Vossos pés de lótus é maravilhosíssima. Qualquer pessoa que tenha a fortuna suficiente para alcançar essa poeira não se importa com os planetas celestiais, com o domínio sobre todos os sistemas planetários, com as perfeições místicas do *yoga* ou mesmo com a liberação da existência material. Em outras palavras, quem quer que adore a poeira de Vossos pés de lótus não dá a mínima importância a todas as outras etapas perfeccionais.\"\n\nHá uma declaração semelhante no Décimo Canto, 87º Capítulo, 17º verso, quando os Śrutis, os *Vedas* personificados, oraram ao Senhor da seguinte maneira: \"Meu querido Senhor, é muito difícil compreender o conhecimento espiritual. Vosso aparecimento aqui, tal como sois, destina-se a explicar-nos este difícil tema do conhecimento sobre o espírito. Sendo assim, Vossos devotos, que abandonaram seus confortos domésticos para se associarem com os *ācāryas* liberados [mestres], estão agora plenamente imersos no serviço devocional a Vossa Senhoria e, dessa forma, não se importam com nenhuma suposta liberação.\"\n\nAo explicar este verso, deve-se notar que conhecimento espiritual significa compreender o eu e a Superalma, ou o supereu. A alma individual e a Superalma são qualitativamente uma e, portanto, ambas são conhecidas como Brahman, ou espírito. Mas o conhecimento sobre o Brahman é muito difícil de compreender. Há tantos filósofos ocupados na questão de compreender a alma, mas são incapazes de fazer qualquer avanço tangível. Confirma-se no *Bhagavad-gītā* que, entre muitos milhões de pessoas, talvez apenas uma tente compreender o que é o conhecimento espiritual, e, entre muitas dessas pessoas que estão tentando compreender, talvez apenas uma ou poucas saibam o que é a Suprema Personalidade de Deus. Por isso, este verso diz que o conhecimento espiritual é muito difícil de alcançar e, assim, a fim de torná-lo mais facilmente acessível, o próprio Senhor Supremo vem em Sua forma original como Śrī Kṛṣṇa e dá Sua instrução diretamente a um associado como Arjuna, justamente para que as pessoas em geral possam tirar proveito deste conhecimento espiritual. Este verso também explica que liberação significa ter abandonado por completo todos os confortos materiais da vida. Aqueles que são impersonalistas se satisfazem simplesmente por se libertarem das circunstâncias materiais, mas os que são devotos podem automaticamente abandonar a vida material e também desfrutar da bem-aventurança transcendental de ouvir e cantar as maravilhosas atividades do Senhor Kṛṣṇa.\n\nNo Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 20º Capítulo, 34º verso, o Senhor Kṛṣṇa diz a Uddhava o seguinte: \"Meu querido Uddhava, os devotos que se abrigaram completamente em Meu serviço são tão firmes no serviço devocional que não têm nenhum outro desejo. Mesmo que lhes sejam oferecidas as quatro espécies de opulências espirituais,((A quinta espécie de liberação, fundir-se no Supremo, não é considerada uma opulência na existência espiritual variada.)) eles se recusarão a aceitá-las. Que dizer, então, de desejarem qualquer coisa dentro do mundo material!\" De modo semelhante, o Senhor Kṛṣṇa diz em outra passagem do *Bhāgavatam,* Décimo Primeiro Canto, 14º Capítulo, 13º verso: \"Meu querido Uddhava, a pessoa cuja consciência está completamente absorta em pensar em Mim e em Minhas atividades não aspira sequer a ocupar o posto de Brahmā, ou o posto de Indra, ou o posto de domínio sobre os planetas, ou as oito espécies de perfeições místicas, ou mesmo a própria liberação.\" No Décimo Segundo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 10º Capítulo, verso 6, o Senhor Śiva diz a Devī: \"Minha querida Devī, este grande sábio *brāhmaṇa* Mārkaṇḍeya alcançou fé e devoção inabaláveis à Suprema Personalidade de Deus e, como tal, não aspira a nenhuma bênção, incluindo a liberação do mundo material.\"\n\nDe modo semelhante, há uma declaração no *Padma Purāṇa* que descreve a função ritualística durante o mês de Kārttika (outubro-novembro). Durante este mês, em Vṛndāvana, é princípio regulativo orar diariamente ao Senhor Kṛṣṇa em Sua forma de Dāmodara. A forma de Dāmodara refere-se a Kṛṣṇa em Sua infância, quando foi amarrado com uma corda por Sua mãe, Yaśodā. *Dāma* significa cordas, e *udara* significa o abdome. Assim, mãe Yaśodā, muito perturbada pelo travesso Kṛṣṇa, amarrou-O em torno do abdome com uma corda, e, dessa forma, Kṛṣṇa é chamado Dāmodara. Durante o mês de Kārttika, ora-se a Dāmodara da seguinte maneira: \"Meu querido Senhor, sois o Senhor de todos, o outorgador de todas as bênçãos.\" Há muitos semideuses, como o Senhor Brahmā e o Senhor Śiva, que às vezes oferecem bênçãos a seus respectivos devotos. Por exemplo, Rāvaṇa foi abençoado com muitas bênçãos pelo Senhor Śiva, e Hiraṇyakaśipu foi abençoado pelo Senhor Brahmā. Mas até mesmo o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā dependem das bênçãos do Senhor Kṛṣṇa, e, por isso, Kṛṣṇa é tratado como o Senhor de todos os benfeitores. Sendo assim, o Senhor Kṛṣṇa pode oferecer a Seus devotos qualquer coisa que desejem, mas, ainda assim, a oração do devoto continua: \"Não Vos peço a liberação nem qualquer facilidade material até o ponto da liberação. O que desejo como Vosso favor é que eu possa sempre pensar em Vossa forma tal como Vos vejo agora, na forma de Dāmodara. Sois tão belo e atraente que minha mente não deseja nada além desta maravilhosa forma.\" Nesta mesma oração, há outra passagem em que se diz: \"Meu querido Senhor Dāmodara, certa vez, quando brincáveis como um menino travesso na casa de Nanda Mahārāj, quebrastes a vasilha que continha iogurte e, por causa disso, mãe Yaśodā Vos considerou um transgressor e Vos amarrou com uma corda ao pilão de moer da casa. Naquela ocasião, libertastes os dois filhos de Kuvera, Nalakūvara e Maṇigrīva, que ali permaneciam como duas árvores *arjuna* no quintal de Nanda Mahārāj. Meu único pedido é que, por Vossos misericordiosos passatempos, possais libertar-me de modo semelhante.\"\n\nA história por trás deste verso é que os dois filhos de Kuvera (o tesoureiro dos semideuses) estavam convencidos por causa da opulência de seu pai, e assim, certa vez, num planeta celestial, divertiam-se em um lago com algumas donzelas nuas do céu. Naquela ocasião, o grande santo Nārada Muni passava pelo caminho e lamentou ver o comportamento dos filhos de Kuvera. Ao verem Nārada passando, as donzelas do céu cobriram seus corpos com tecido, mas os dois filhos, por estarem embriagados, não tiveram essa decência. Nārada irou-se com o comportamento deles e os amaldiçoou desta maneira: \"Não tendes nenhum bom senso, portanto, é melhor que vos torneis árvores em vez de filhos de Kuvera.\" Ao ouvirem isso, os jovens recobraram o juízo e suplicaram a Nārada que os perdoasse por suas ofensas. Nārada então disse: \"Sim, vós vos tornareis árvores, árvores *arjuna,* e ficareis no pátio de Nanda Mahārāj. Mas o próprio Kṛṣṇa aparecerá, no devido tempo, como o filho adotivo de Nanda, e Ele vos libertará.\" Em outras palavras, a maldição de Nārada foi uma bênção para os filhos de Kuvera, pois, indiretamente, predizia que eles seriam capazes de receber o favor do Senhor Kṛṣṇa. Depois disso, os dois filhos de Kuvera ficaram como duas grandes árvores *arjuna* no pátio de Nanda Mahārāj, até que o Senhor Dāmodara, a fim de satisfazer o desejo de Nārada, arrastou o pilão de moer ao qual estava amarrado e golpeou as duas árvores, fazendo-as cair violentamente. De dentro dessas árvores caídas saíram Nalakūvara e Maṇigrīva, que àquela altura já se haviam tornado grandes devotos do Senhor.\n\nHá uma passagem no *Hayaśīrṣa Purāṇa* que afirma: \"Meu querido Senhor, ó Suprema Personalidade de Deus, não quero nenhuma bênção resultante de minha vida religiosa, nem quero qualquer desenvolvimento econômico, nem quero desfrutar da gratificação dos sentidos, nem da liberação. Apenas oro para ser um servo eterno a Vossos pés de lótus. Tende a bondade de atender-me e de conceder-me esta bênção.\"\n\nNo mesmo *Hayaśīrṣa Purāṇa,* depois que Nṛsiṁhadeva quis conceder bênçãos a Prahlāda Mahārāj, Prahlāda não aceitou nenhuma bênção material e simplesmente pediu o favor de o Senhor permanecer Seu devoto eterno. A esse respeito, Prahlāda Mahārāj citou o exemplo de Hanumān, o servidor eterno do Senhor Rāmacandra, que também deu o exemplo de jamais pedir qualquer favor material ao Senhor. Ele sempre permanecia ocupado em Seu serviço. Esse é o caráter ideal de Hanumān, pelo qual ele ainda é adorado por todos os devotos. Prahlāda Mahārāj também ofereceu suas respeitosas reverências a Hanumān. Há um verso bem conhecido proferido por Hanumān, no qual ele diz: \"Meu querido Senhor, se desejardes, podeis conceder-me a salvação desta existência material, ou o privilégio de fundir-me em Vossa existência, mas não desejo nenhuma dessas coisas. Não quero nada que diminua minha relação convosco como amo e servo, nem mesmo depois da liberação.\"\n\nEm uma passagem semelhante no *Nārada-pañcarātra,* afirma-se: \"Meu querido Senhor, não desejo nenhuma etapa perfeccional pela execução das cerimônias religiosas ritualísticas, nem pelo desenvolvimento econômico, nem pela gratificação dos sentidos, nem pela liberação. Apenas oro para que me concedais o favor de manter-me sob Vossos pés de lótus. Não desejo nenhuma espécie de liberação, tal como *sālokya,* residir em Vosso planeta, ou *sārūpya,* ter os mesmos traços corporais que Vós. Apenas oro por Vosso favor, para que eu esteja sempre ocupado em Vosso serviço amoroso.\"\n\nDe modo semelhante, no Sexto Canto, 14º Capítulo, 4º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Mahārāj Parīkṣit pergunta a Śukadeva Gosvāmī: \"Meu querido *brāhmaṇa,* compreendo que o demônio Vṛtrāsura era uma pessoa muito pecaminosa e que sua mentalidade estava completamente absorta nos modos da paixão e da ignorância. Como conseguiu ele alcançar uma etapa tão perfeccional de serviço devocional a Nārāyaṇa? Tenho ouvido que até mesmo grandes pessoas que se submeteram a severas austeridades e que estão liberadas com pleno conhecimento devem esforçar-se para se tornarem devotos do Senhor. Entende-se que tais pessoas são muito raras e quase nunca se veem; por isso, estou admirado de que Vṛtrāsura se tenha tornado um devoto assim!\"\n\nNo verso acima, a coisa mais importante a se notar é que pode haver muitas pessoas liberadas que se fundiram na existência do Brahman impessoal, mas um devoto da Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa, é muitíssimo raro. Mesmo entre milhões de pessoas liberadas, apenas uma tem a fortuna de se tornar devota.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Primeiro Canto, 7º Capítulo, a rainha Kuntī ora ao Senhor Kṛṣṇa por ocasião de Sua partida: \"Meu querido Kṛṣṇa, sois tão grandioso que sois inconcebível até mesmo para grandes e robustos eruditos e *paramahaṁsas* [almas plenamente liberadas]. Logo, se tais grandes sábios, que são transcendentais a todas as reações da existência material, são incapazes de Vos conhecer, então, no que nos diz respeito, pertencendo à menos inteligente classe das mulheres, como nos é possível conhecer Vossas glórias? Como podemos compreender-Vos?\" Neste verso, a coisa específica a se notar é que a Personalidade de Deus não é compreendida por grandes pessoas liberadas, mas apenas por devotos como a rainha Kuntī, em sua humildade. Embora ela fosse mulher e considerada menos inteligente que um homem, ainda assim percebeu as glórias de Kṛṣṇa. Esse é o significado deste verso.\n\nOutra passagem muito importante encontra-se no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Primeiro Canto, 6º Capítulo, 10º verso, e é chamada de \"verso *ātmārāma.*\" Neste verso *ātmārāma,* afirma-se que mesmo aqueles que estão completamente liberados da contaminação material sentem-se atraídos pelas qualidades transcendentais do Senhor Kṛṣṇa.((Este verso *ātmārāma* foi certa vez muito bem explicado pelo Senhor Caitanya a Sanātana Gosvāmī. Há uma explicação detalhada deste verso no livro do autor, Os Ensinamentos do Senhor Caitanya.)) O significado deste verso é que uma alma liberada não tem absolutamente nenhum desejo de gozo material; ela está totalmente livre de toda espécie de desejos materiais e, ainda assim, sente-se irresistivelmente atraída pelo desejo de ouvir e compreender os passatempos do Senhor. Podemos, portanto, concluir que as glórias e os passatempos do Senhor não são materiais. De outro modo, como poderiam as pessoas liberadas conhecidas como *ātmārāmas* sentir-se atraídas por tais passatempos? Esse é o ponto importante neste verso.\n\nA partir da declaração acima, descobre-se que um devoto não almeja nenhuma das etapas da liberação. Há cinco etapas de liberação, já explicadas como sendo: 1) tornar-se uno com o Senhor, 2) viver no mesmo planeta que o Senhor, 3) obter os mesmos traços corporais que o Senhor, 4) ter as mesmas opulências que o Senhor e 5) ter associação constante com o Senhor. Dentre essas cinco etapas liberadas, aquela conhecida como *sāyujya,* ou fundir-se na existência do Senhor, é a última a ser aceita por um devoto. As outras quatro liberações, embora não desejadas pelos devotos, ainda assim não vão contra os ideais devocionais. Algumas das pessoas liberadas que alcançaram essas quatro etapas de liberação também podem desenvolver afeição por Kṛṣṇa e ser promovidas ao planeta Goloka Vṛndāvana, no céu espiritual. Em outras palavras, aqueles que já foram promovidos aos planetas Vaikuṇṭha e que possuem as quatro espécies de liberação também podem, às vezes, desenvolver afeição por Kṛṣṇa e ser promovidos a Kṛṣṇa-loka.\n\nAssim, aqueles que estão nos quatro estados liberados podem ainda estar passando por diferentes etapas de existência. No início, talvez desejem as opulências de Kṛṣṇa, mas, na etapa madura, o amor adormecido por Kṛṣṇa, manifestado em Vṛndāvana, torna-se proeminente em seus corações. Sendo assim, os devotos puros jamais aceitam a liberação de *sāyujya,* tornar-se uno com o Supremo, embora às vezes possam aceitar como favoráveis os outros quatro estados liberados.\n\nDentre as muitas espécies de devotos da Suprema Personalidade de Deus, aquele que se sente atraído pela forma original do Senhor, Kṛṣṇa em Vṛndāvana, é considerado o mais excelente, o devoto de primeira classe. Tal devoto jamais se sente atraído pelas opulências de Vaikuṇṭha, nem sequer pelas de Dvārakā, a cidade real onde Kṛṣṇa governava. A conclusão de Śrī Rūpa Gosvāmī é que os devotos que se sentem atraídos pelos passatempos do Senhor em Gokula, ou Vṛndāvana,((Vṛndāvana é o lugar transcendental onde Kṛṣṇa desfruta de Seus passatempos eternos como menino, e é considerada a esfera mais elevada de toda a existência. Quando isso se manifesta no mundo material, o lugar se chama Gokula, e, no mundo espiritual, chama-se Goloka, ou Goloka Vṛndāvana.)) são os devotos mais elevados.\n\nUm devoto apegado a determinada forma do Senhor não deseja transferir sua devoção para outras formas. Por exemplo, Hanumān, o devoto do Senhor Rāmacandra, sabia que não há diferença entre o Senhor Rāmacandra e o Senhor Nārāyaṇa e, ainda assim, queria prestar serviço apenas ao Senhor Rāmacandra. Isso se deve à atração específica de determinado devoto. Há muitíssimas formas do Senhor, mas Kṛṣṇa continua sendo a forma original. Embora todos os devotos das diferentes formas do Senhor estejam na mesma categoria, ainda assim diz-se que aqueles que são devotos do Senhor Kṛṣṇa são os mais elevados na lista de todos os devotos."}
{"ref": "nod/5", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/5/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "5. Pureza do Serviço Devocional", "purport": "## A Pureza do Serviço Devocional\n\nTodas as instruções anteriores transmitidas por Śrīla Rūpa Gosvāmī em suas amplas declarações podem resumir-se assim: enquanto a pessoa estiver materialmente inclinada ou desejosa de fundir-se na refulgência espiritual, não poderá entrar no reino do serviço devocional puro. A seguir, Rūpa Gosvāmī afirma que o serviço devocional é transcendental a todas as considerações materiais e que não se limita a nenhum país, classe, sociedade ou circunstância em particular. Como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam,* o serviço devocional é transcendental e não tem causa. O serviço devocional é executado sem nenhuma esperança de ganho, e não pode ser detido por nenhuma circunstância material. É acessível a todos, sem nenhuma distinção, e é a ocupação constitucional das entidades vivas.\n\nNa Idade Média, após o desaparecimento do grande associado do Senhor Caitanya, o Senhor Nityānanda, uma classe de pessoas sacerdotais alegou ser descendente de Nityānanda, chamando a si mesma de casta *gosvāmī.* Alegaram ainda que a prática e a difusão do serviço devocional pertenciam apenas à sua classe particular, que era conhecida como Nityānanda-vaṁśa. Dessa maneira, exerceram seu poder artificial por algum tempo, até que Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura, o poderoso *ācārya* da Gauḍīya Vaiṣṇava *sampradāya,* despedaçou completamente essa ideia. Houve uma grande e árdua luta por algum tempo, mas ela resultou bem-sucedida, e agora está corretamente e na prática estabelecido que o serviço devocional não se restringe a uma classe particular de homens. Além disso, qualquer pessoa que se ocupe no serviço devocional já está na posição de ser um *brāhmaṇa* de primeira classe. Portanto, a luta de Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura por este movimento resultou bem-sucedida.\n\nÉ com base em sua posição que qualquer pessoa pode agora tornar-se um Gauḍīya Vaiṣṇava, de qualquer parte do mundo ou de qualquer parte do universo. Qualquer pessoa que seja um Vaiṣṇava puro está situada transcendentalmente e, portanto, a mais elevada qualificação no mundo material, a saber, estar no modo da bondade, já é alcançada por tal pessoa. Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa no mundo ocidental baseia-se na supracitada proposição de Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Prabhupāda, nosso mestre espiritual. Com base em sua autoridade, estamos reivindicando membros de todos os setores dos países ocidentais. Os supostos *brāhmaṇas* alegam que quem não nasce numa família *brāhmaṇa* não pode receber o cordão sagrado nem tornar-se um Vaiṣṇava de alto grau. Mas não aceitamos tal teoria, pois ela não é apoiada por Rūpa Gosvāmī nem pela força das diversas escrituras.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī menciona aqui especificamente que todo homem tem o direito de nascença de aceitar o serviço devocional e de tornar-se consciente de Kṛṣṇa. Ele deu muitas evidências de muitas escrituras, e citou em especial uma passagem do *Padma Purāṇa,* onde o sábio Vasiṣṭha diz ao Rei Dilīpa: \"Meu querido rei, todos têm o direito de executar o serviço devocional, assim como têm o direito de tomar banho cedo no mês de Māgh [dezembro-janeiro].\" Há mais evidências no *Padma Purāṇa,* na porção *Kāśī-khaṇḍa,* onde se diz: \"No país conhecido como Mayūradhvaja, as pessoas de casta inferior, que são consideradas menos que *śūdras,* também são iniciadas no culto Vaiṣṇava do serviço devocional. E, quando estão devidamente vestidas, com *tilaka* em seus corpos e contas em suas mãos e em seus pescoços, parecem estar vindo de Vaikuṇṭha. De fato, parecem tão belas que imediatamente superam os *brāhmaṇas* comuns.\"\n\nAssim, um Vaiṣṇava torna-se automaticamente um *brāhmaṇa.* Essa ideia também é apoiada por Sanātana Gosvāmī em seu livro *Hari-bhakti-vilāsa,* que é o guia Vaiṣṇava. Ali, ele afirmou claramente que qualquer pessoa que seja devidamente iniciada no culto Vaiṣṇava certamente se torna um *brāhmaṇa,* assim como o metal conhecido como *kaṁsa* (bronze de sino) é transformado em ouro pela mistura de mercúrio. Um mestre espiritual genuíno, sob a orientação das autoridades, pode converter qualquer pessoa ao culto Vaiṣṇava, de modo que ela possa, naturalmente, chegar à posição mais elevada de um *brāhmaṇa.*\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī adverte, contudo, que, se uma pessoa for devidamente iniciada por um mestre espiritual genuíno, ela não deve pensar que, simplesmente pela aceitação de tal iniciação, sua tarefa está então concluída. Ainda é preciso seguir as regras e regulamentos com muito cuidado. Se, após aceitar o mestre espiritual e ser iniciada, a pessoa não segue as regras e regulamentos do serviço devocional, então cai novamente. É preciso ser muito vigilante para lembrar que se é a parte integrante do corpo transcendental de Kṛṣṇa, e que é seu dever, como parte integrante, prestar serviço ao todo, ou Kṛṣṇa. Se não prestamos serviço a Kṛṣṇa, então caímos de novo. Em outras palavras, simplesmente tornar-se iniciado não eleva a pessoa à posição de um *brāhmaṇa* de primeira classe. É preciso também desempenhar os deveres e seguir os princípios reguladores de modo muito rígido.\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī também diz que, se alguém está desempenhando regularmente o serviço devocional, não haverá possibilidade de queda. Mas, mesmo que, por circunstância, haja alguma queda, o Vaiṣṇava nada precisa ter a ver com o *prāyaścitta,* a cerimônia ritualística de purificação. Se alguém cai dos princípios do serviço devocional, não precisa recorrer às execuções de *prāyaścitta* para reformar-se. Ele tem simplesmente de executar as regras e regulamentos para o desempenho do serviço devocional, e isso é suficiente para sua reabilitação. Este é o mistério do culto Vaiṣṇava (devocional).\n\nNa prática, há três processos para elevar a pessoa à plataforma da consciência espiritual. Esses processos chamam-se *karma, jñāna* e *bhakti.* As execuções ritualísticas estão no campo do *karma.* Os processos especulativos estão no campo do *jñāna.* Quem adotou o *bhakti,* o serviço devocional ao Senhor, nada precisa ter a ver com o *karma* ou o *jñāna.* Já se explicou que o serviço devocional puro está isento de qualquer matiz de *karma* ou *jñāna.* O *bhakti* não deve ter nenhum matiz de especulação filosófica ou de execuções ritualísticas.\n\nNesse sentido, Śrīla Rūpa Gosvāmī apresenta evidências do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Primeiro Canto, no qual o Senhor Kṛṣṇa diz a Uddhava: \"A distinção entre qualificação e desqualificação pode fazer-se desta maneira: as pessoas que já estão elevadas no desempenho do serviço devocional nunca mais se abrigarão nos processos das atividades fruitivas ou da especulação filosófica. Se a pessoa se mantém fiel ao serviço devocional e é conduzida pelos princípios reguladores dados pelas autoridades e *ācāryas,* essa é a melhor qualificação.\"\n\nEssa afirmação é apoiada no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Primeiro Canto, Capítulo Cinco, verso 17, onde Śrī Nārada Muni aconselha Vyāsadeva da seguinte forma: \"Mesmo que a pessoa não execute seu dever ocupacional específico, mas imediatamente se abrigue diretamente nos pés de lótus de Hari [Kṛṣṇa], não haverá falta de sua parte, e, em todas as circunstâncias, sua posição estará segura. Mesmo que, por alguma má associação, ela caia enquanto executa o serviço devocional, ou se não completa o curso completo do serviço devocional e morre prematuramente, ainda assim não está em desvantagem. Uma pessoa que está simplesmente desempenhando seu dever ocupacional em *varṇa* e *āśrama,* contudo, sem nenhuma consciência de Kṛṣṇa, praticamente não obtém o verdadeiro benefício da vida humana.\" O significado é que todas as almas condicionadas que se ocupam muito freneticamente em atividades de gratificação dos sentidos, sem saber que esse processo nunca as ajudará a sair da contaminação material, são premiadas apenas com repetidos nascimentos e mortes.\n\nNo Quinto Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Ṛṣabhadeva afirma claramente a seus filhos: \"As pessoas ocupadas em atividades fruitivas estão repetidamente aceitando nascimento e morte e, até que desenvolvam um sentimento amoroso por Vāsudeva, não haverá possibilidade de saírem dessas rigorosas leis da natureza material.\" Sendo assim, deve-se compreender que qualquer pessoa que se ocupa muito seriamente em seus deveres ocupacionais nos *varṇas* e *āśramas,* e que não desenvolve amor pela Suprema Personalidade de Deus, Vāsudeva, está simplesmente desperdiçando sua forma humana de vida.\n\nIsso também é confirmado no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Capítulo Onze, verso 32, no qual o Senhor diz a Uddhava: \"Meu querido Uddhava, qualquer pessoa que se abrigue em Mim em completa rendição e siga Minhas instruções, abandonando todos os deveres ocupacionais, deve ser considerada o homem de primeira classe.\" Nessa afirmação da Suprema Personalidade de Deus, compreende-se que as pessoas que geralmente são atraídas por atividades filantrópicas, éticas, morais, altruístas, políticas e de bem-estar social podem ser consideradas bons homens apenas no cômputo do mundo material. Pelo *Śrīmad-Bhāgavatam* e por outras autênticas escrituras Védicas, aprendemos ainda que, se uma pessoa simplesmente age em consciência de Kṛṣṇa e desempenha o serviço devocional, é considerada situada muitíssimo melhor do que todas aquelas pessoas ocupadas em atividades filantrópicas, éticas, morais, altruístas e de bem-estar social.\n\nA mesma coisa é confirmada com ainda mais ênfase no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Primeiro Canto, Capítulo Cinco, verso 37, no qual Karabhājana Muni se dirige a Mahārāj Nimi da seguinte forma: \"Meu querido rei, se alguém abandona seus deveres ocupacionais tal como são prescritos para os diferentes *varṇas* e *āśramas,* mas se abriga completamente, rendendo-se aos pés de lótus do Senhor, tal pessoa não é mais devedora, nem tem qualquer obrigação de executar os diferentes tipos de atividades que prestamos aos grandes sábios, aos ancestrais, às entidades vivas e aos membros da família e da sociedade. Tampouco tem ela qualquer necessidade de preocupar-se em executar os cinco tipos de *yajñas* [sacrifícios] para libertar-se da contaminação pecaminosa. Simplesmente por desempenhar o serviço devocional, ela se liberta de todos os tipos de obrigações.\" O significado é que, assim que um homem nasce, fica imediatamente endividado com tantas fontes. Ele está endividado com os grandes sábios, pois se beneficia da leitura de suas escrituras e livros autoritativos. Por exemplo, tiramos proveito dos livros escritos por Vyāsadeva. Vyāsadeva deixou para nós todos os *Vedas.* Antes dos escritos de Vyāsadeva, a literatura Védica era simplesmente ouvida, e os discípulos aprendiam os *mantras* rapidamente ouvindo, e não lendo. Mais tarde, Vyāsadeva julgou prudente escrever os *Vedas,* porque, nesta era, as pessoas têm pouca memória e são incapazes de lembrar todas as instruções dadas pelo mestre espiritual. Por isso, ele deixou todo o conhecimento Védico em forma de livro, tais como os *Purāṇas,* o *Vedānta,* o *Mahābhārata* e o *Śrīmad-Bhāgavatam.*\n\nHá muitos outros sábios, como Śaṅkarācārya, Gautama Muni e Nārada Muni, etc., com quem estamos endividados, pois tiramos proveito de seu conhecimento. De modo semelhante, somos obrigados a nossos antepassados, pois nascemos numa determinada família, onde tiramos todas as vantagens e herdamos propriedades. Por isso, estamos endividados com os antepassados e temos de oferecer-lhes *piṇḍa* (*prasādam*) depois que morrem. Da mesma forma, estamos também endividados com as pessoas em geral, bem como com nossos parentes, amigos e até mesmo com animais, tais como vacas e cães, que nos prestam tanto serviço.\n\nDessa maneira, estamos endividados com os semideuses, com os antepassados, com os sábios, com os animais e com a sociedade em geral. É nosso dever retribuir a todos eles pelo devido desempenho de serviço. Mas, com o único golpe do serviço devocional, se alguém abandona todas as obrigações e simplesmente se rende à Suprema Personalidade de Deus, deixa de ser devedor, nem fica obrigado a qualquer outra fonte de benefício.\n\nNo *Bhagavad-gītā,* o Senhor também diz: \"Abandona todas as tuas ocupações e simplesmente rende-te a Mim. Asseguro-te que te darei proteção contra todas as reações pecaminosas.\" A pessoa pode pensar que, por estar se rendendo à Suprema Personalidade de Deus, não conseguirá desempenhar todas as suas outras obrigações. Mas o Senhor diz repetidamente: \"Não hesites. Não consideres que, por estares abandonando todas as outras ocupações, haverá algum defeito em tua vida. Não penses assim. Eu te darei toda a proteção.\" Essa é a garantia do Senhor Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā.*\n\nHá evidência adicional no *Agastya-saṁhitā:* \"Assim como os princípios reguladores das escrituras não são exigidos de uma pessoa liberada, da mesma forma uma pessoa que está devidamente ocupada no serviço ao Senhor Rāmacandra também não é obrigada a desempenhar os princípios ritualísticos indicados nos suplementos Védicos.\" Em outras palavras, os devotos do Senhor Rāmacandra, ou Kṛṣṇa, já são pessoas liberadas e não são obrigados a seguir todos os princípios reguladores mencionados nas porções ritualísticas da literatura Védica.\n\nDe modo semelhante, no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Capítulo Cinco, Karabhājana Muni dirige-se ao Rei Nimi e diz: \"Meu querido rei, uma pessoa que abandonou a adoração aos semideuses e concentrou completamente sua energia no serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus tornou-se muitíssimo querida ao Senhor. Sendo assim, se, por acaso ou por engano, ela faz algo proibido, não há necessidade de executar quaisquer cerimônias purificatórias. Como o Senhor está situado dentro de seu coração, Ele tem compaixão pelo engano acidental do devoto e o corrige a partir de dentro.\" Também se confirma no *Bhagavad-gītā,* em muitas passagens, que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, tem um interesse especial em Seus devotos e declara enfaticamente que nada pode fazer com que Seus devotos caiam. Ele está sempre protegendo-os."}
{"ref": "nod/6", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/6/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "6. Como Executar o Serviço Devocional", "purport": "## Como Executar o Serviço Devocional\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī declara que seu irmão mais velho (Sanātana Gosvāmī) compilou o *Hari-bhakti-vilāsa* para a orientação dos vaiṣṇavas e nele mencionou muitas regras e regulações a serem seguidas pelos vaiṣṇavas. Algumas delas são muito importantes e proeminentes, e ele agora mencionará esses itens muito importantes para nosso benefício. O significado desta afirmação é que Śrīla Rūpa Gosvāmī se propõe a mencionar apenas princípios básicos, não detalhes. Por exemplo, um princípio básico é que a pessoa tem de aceitar um mestre espiritual. Como exatamente alguém segue as instruções de seu mestre espiritual é considerado um detalhe. Por exemplo, se alguém segue a instrução de seu mestre espiritual, e essa instrução é diferente das instruções de outro mestre espiritual, isso se chama informação detalhada. Mas o princípio básico de aceitar um mestre espiritual é válido em toda parte, embora os detalhes possam ser diferentes. Śrīla Rūpa Gosvāmī não deseja entrar em detalhes aqui, mas quer colocar diante de nós apenas os princípios.\n\nEle menciona os princípios básicos da seguinte forma: 1) aceitar o abrigo dos pés de lótus de um mestre espiritual genuíno; 2) ser iniciado pelo mestre espiritual e aprender com ele como executar o serviço devocional; 3) obedecer às ordens do mestre espiritual com fé e devoção; 4) seguir os passos de grandes *ācāryas* (mestres) sob a direção do mestre espiritual; 5) indagar do mestre espiritual como avançar em consciência de Kṛṣṇa; 6) estar disposto a abandonar qualquer coisa material para a satisfação da Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa (Isto significa que, quando estamos ocupados no serviço devocional de Kṛṣṇa, devemos estar dispostos a abandonar algo que talvez não desejemos abandonar, e também temos de aceitar algo que talvez não desejemos aceitar.); 7) residir em um lugar sagrado de peregrinação, como Dvārakā ou Vṛndāvana; 8) lidar com o mundo material apenas na medida do necessário; 9) observar o dia de jejum no *Ekādaśī;* e 10) adorar árvores sagradas, como a figueira-de-bengala. Estes dez itens são necessidades preliminares para começar a execução do serviço devocional nos princípios regulativos. No início, se um devoto neófito observar os dez princípios mencionados acima, certamente fará rápido e bom progresso em consciência de Kṛṣṇa.\n\nO conjunto seguinte de instruções é enumerado da seguinte forma: 1) Deve-se abandonar rigidamente a companhia de não devotos. 2) Não se deve instruir uma pessoa que não deseje aceitar o serviço devocional. 3) Não se deve ser muito entusiástico em construir templos ou mosteiros dispendiosos. 4) Não se deve tentar ler livros em excesso, nem se deve desenvolver a ideia de ganhar o sustento dando palestras sobre o *Śrīmad-Bhāgavatam* ou o *Bhagavad-gītā,* ou recitando-os profissionalmente. 5) Não se deve ser negligente nas relações comuns. 6) Não se deve estar sob o feitiço da lamentação na perda nem da tribulação no ganho. 7) Não se deve desrespeitar os semideuses. 8) Não se deve causar perturbação desnecessária a nenhuma entidade viva. 9) Deve-se evitar cuidadosamente as várias ofensas ao cantar o santo nome do Senhor, ou ao adorar a Deidade no templo. 10) Deve-se ser muito intolerante para com a blasfêmia contra a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, ou contra Seus devotos.\n\nSem seguir os dez princípios mencionados acima, ninguém pode elevar-se adequadamente à plataforma de *sādhana-bhakti,* ou serviço devocional na prática. Ao todo, Śrīla Rūpa Gosvāmī menciona vinte itens, e todos eles são muito importantes. Dentre os vinte, os três primeiros — a saber, aceitar o abrigo de um mestre espiritual genuíno, receber dele a iniciação e servi-lo com respeito e reverência — são os mais importantes.\n\nOs itens importantes seguintes são os seguintes: 1) Deve-se decorar o corpo com *tilaka,* que é o sinal dos vaiṣṇavas. (A ideia é que, tão logo uma pessoa veja essas marcas no corpo do vaiṣṇava, ela imediatamente se lembrará de Kṛṣṇa. O Senhor Caitanya disse que vaiṣṇava é aquele que, ao ser visto, faz alguém lembrar-se de Kṛṣṇa. Portanto, é essencial que o vaiṣṇava marque seu corpo com *tilaka* para lembrar os outros de Kṛṣṇa.) 2) Ao marcar tal *tilaka,* às vezes pode-se escrever Hare Kṛṣṇa no corpo. 3) Deve-se aceitar as flores e guirlandas que foram oferecidas à Deidade e ao mestre espiritual e colocá-las sobre o corpo. 4) Deve-se aprender a dançar diante da Deidade. 5) Deve-se aprender a prostrar-se imediatamente ao ver a Deidade ou o mestre espiritual. 6) Tão logo se visite um templo do Senhor Kṛṣṇa, deve-se ficar de pé. 7) Quando a Deidade está sendo conduzida para um passeio pela rua, o devoto deve seguir imediatamente a procissão. (A este respeito, pode-se notar que na Índia, especialmente nos templos de Viṣṇu, o sistema é que, além da grande Deidade que está situada permanentemente na área principal do templo, há outro conjunto de Deidades menores que são levadas em procissão ao anoitecer. Em alguns templos, é costume realizar uma grande procissão ao anoitecer, com uma banda tocando e um belo guarda-sol grande sobre as Deidades, que se sentam em tronos decorados na carruagem ou palanquim, carregado pelos devotos. As Deidades saem à rua e percorrem a vizinhança, enquanto as pessoas da vizinhança saem para oferecer *prasādam.* Os residentes da vizinhança todos seguem a procissão, de modo que é uma cena muito bela. Quando a Deidade sai, os servidores do templo apresentam diante dEla as contas diárias: tanto foi a arrecadação, tanto foi a despesa. A ideia geral é que a Deidade é considerada a proprietária de todo o estabelecimento, e todos os sacerdotes e demais pessoas que cuidam do templo são considerados os servos da Deidade. Este sistema é muito, muito antigo e ainda é seguido. Por isso, portanto, menciona-se aqui que, quando a Deidade está em passeio, as pessoas devem seguir atrás.) 8) O devoto deve visitar um templo de Viṣṇu ao menos uma ou duas vezes por dia, de manhã e à tarde. (Em Vṛndāvana, este sistema é seguido muito estritamente. Todos os devotos da cidade vão, toda manhã e toda tarde, visitar diferentes templos. Por isso, durante esses períodos, há multidões consideráveis por toda a cidade. Há cerca de 5.000 templos na cidade de Vṛndāvana. Naturalmente, não é possível visitar todos os templos, mas há ao menos uma dúzia de templos muito grandes e importantes, que foram iniciados pelos Gosvāmīs e que devem ser visitados.) 9) Deve-se circundar o edifício do templo ao menos três vezes. (Em todo templo há uma disposição para se circundar o templo ao menos três vezes. Alguns devotos o circundam mais de três vezes: dez vezes, quinze vezes — segundo seus votos. Os Gosvāmīs costumavam circundar a colina de Govardhana.) 10) Deve-se circundar toda a área de Vṛndāvana. 11) Deve-se adorar a Deidade no templo segundo os princípios regulativos. (Oferecer *ārātrika* e *prasādam,* decorar a Deidade etc. — essas coisas devem ser observadas regularmente.) 12) Prestar serviço pessoal às Deidades. 13) Cantar. 14) *Saṅkīrtana.* 15) Entoar. 16) Oferecer orações. 17) Recitar orações notáveis. 18) Saborear o *mahā-prasādam* (alimento do próprio prato oferecido diante das Deidades). 19) Beber o *caraṇāmṛtam* (água do banho das Deidades, que é oferecida aos hóspedes). 20) Deve-se inalar o aroma do incenso e das flores oferecidos à Deidade. 21) Deve-se tocar os pés de lótus da Deidade. 22) Deve-se ver a Deidade com grande devoção. 23) Deve-se oferecer *ārātrika* em diferentes momentos. 24) Deve-se ouvir sobre o Senhor e Seus passatempos a partir do *Śrīmad-Bhāgavatam,* do *Bhagavad-gītā* e de livros semelhantes. 25) Deve-se orar à Deidade por Sua misericórdia. 26) Deve-se lembrar a Deidade. 27) Deve-se meditar na Deidade. 28) Deve-se prestar algum serviço voluntário. 29) Deve-se pensar no Senhor como seu amigo. 30) Deve-se oferecer tudo ao Senhor. 31) Deve-se oferecer um artigo predileto (como alimento ou uma roupa). 32) Deve-se assumir toda espécie de riscos em benefício de Kṛṣṇa. 33) Em toda condição, ser uma alma rendida. 34) Verter água sobre a árvore de *tulasī.* 35) Ouvir regularmente o *Śrīmad-Bhāgavatam* e literatura semelhante. 36) Viver em um lugar sagrado, como Mathurā, Vṛndāvana ou Dvārakā. 37) Prestar serviço aos vaiṣṇavas (devotos). 38) Organizar o serviço devocional segundo os próprios meios. 39) No mês de *Kārttika* (outubro e novembro), tomar providências para serviços especiais. 40) Durante Janmāṣṭamī (o momento do aparecimento de Kṛṣṇa neste mundo), observar um serviço especial. 41) Fazer com grande cuidado e devoção tudo o que se fizer para a Deidade. 42) Saborear o prazer da leitura do *Bhāgavatam* entre devotos, e não entre pessoas de fora. 43) Associar-se com devotos que sejam considerados mais avançados. 44) Viver na jurisdição de Mathurā.\n\nOra, o total dos princípios regulativos chega a um conjunto de sessenta e quatro itens. Como mencionamos, os primeiros são os dez princípios regulativos primários. Em seguida vêm os dez princípios regulativos secundários, e a estes se acrescentam quarenta e quatro outras atividades. Assim, ao todo há sessenta e quatro itens para a execução da prática regulativa do serviço devocional. Dentre esses sessenta e quatro itens, cinco — a saber, oferecer água à árvore de tulasī, ouvir o *Śrīmad-Bhāgavatam,* associar-se entre os devotos, o *saṅkīrtana* e viver em Mathurā — são muito importantes.\n\nOs sessenta e quatro itens do serviço devocional devem incluir todas as nossas atividades de corpo, mente e fala. Como se afirmou no início, o princípio regulativo do serviço devocional prescreve que todos os nossos sentidos devem ser empregados no serviço ao Senhor. Como exatamente eles podem ser assim empregados está descrito nos sessenta e quatro itens acima. Agora, Śrīla Rūpa Gosvāmī apresentará evidências de diferentes escrituras que apoiam a autenticidade de muitos desses pontos."}
{"ref": "nod/7", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/7/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "7. Evidências Quanto aos Princípios Devocionais", "purport": "No Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Prabuddha diz a Mahārāj Nimi: \"Meu querido rei, por favor, fica sabendo com certeza que no mundo material não há felicidade. É simplesmente um engano pensar que aqui haja felicidade, pois este lugar está cheio de nada além de condições miseráveis. Qualquer pessoa que esteja seriamente desejosa de alcançar a verdadeira felicidade deve buscar um mestre espiritual genuíno e refugiar-se nele pela iniciação. A qualificação de um mestre espiritual é que ele deve ter percebido a conclusão das escrituras pela deliberação e pelos argumentos, e assim ser capaz de convencer outros dessas conclusões. Tais grandes personalidades, que se refugiaram no Supremo Deus, deixando de lado todas as considerações materiais, devem entender-se como mestres espirituais genuínos. Todos devem tentar encontrar tal mestre espiritual genuíno a fim de cumprir a missão de sua vida, que é transferir-se ao plano da bem-aventurança espiritual.\"\n\n\n\nO significado é que não se deve aceitar como mestre espiritual alguém que seja Tolo Número Um, que não tenha nenhuma orientação de acordo com as injunções das escrituras, cujo caráter seja duvidoso, que não siga os princípios do serviço devocional, ou que não tenha conquistado a influência dos seis agentes gratificadores dos sentidos. Os seis agentes da gratificação dos sentidos são a língua, os órgãos genitais, o ventre, a ira, a mente e as palavras. Qualquer pessoa que tenha praticado o controle desses seis está autorizada a fazer discípulos por todo o mundo. Aceitar tal mestre espiritual é o ponto crucial para o avanço na vida espiritual. Aquele que tem a fortuna de vir abrigar-se sob um mestre espiritual genuíno certamente percorrerá a senda da salvação espiritual sem qualquer dúvida.\n\n\n\nO sábio Prabuddha continuou a falar ao rei como segue: \"Meu querido rei, um discípulo tem de aceitar o mestre espiritual não apenas como mestre espiritual, mas também como o representante da Suprema Personalidade de Deus e da superalma. Em outras palavras, o discípulo deve aceitar o mestre espiritual como Deus, pois ele é a manifestação externa de Kṛṣṇa.\" Isto se confirma em toda escritura, e um discípulo deve aceitar o mestre espiritual como tal. Deve-se aprender o *Śrīmad-Bhāgavatam* seriamente e com todo respeito e veneração pelo mestre espiritual. Ouvir e falar o *Śrīmad-Bhāgavatam* é o processo religioso que eleva a pessoa à plataforma de servir e amar a Suprema Personalidade de Deus.\n\n\n\nA atitude do discípulo deve ser sempre satisfazer o mestre espiritual genuíno. Então, será muito fácil para ele compreender o conhecimento espiritual. Isto se confirma nos *Vedas*, e será explicado mais adiante por Rūpa Gosvāmī que, para uma pessoa que tem fé inabalável em Deus e no mestre espiritual, tudo se torna revelado muito facilmente.\n\n\n\nNo que se refere a aceitar a iniciação do mestre espiritual, no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 17º Capítulo, 22º verso, é afirmado pelo Senhor Kṛṣṇa: \"Meu querido Uddhava, o mestre espiritual deve ser aceito não apenas como Meu representante, mas como Meu próprio Eu. Ele jamais deve ser considerado no mesmo nível de um ser humano comum. Jamais se deve ter inveja do mestre espiritual, como se pode ter inveja de um homem comum. O mestre espiritual deve ser sempre visto como o representante da Suprema Personalidade de Deus, e, ao servir o mestre espiritual, a pessoa é capaz de servir a todos os semideuses.\"\n\n\n\nNo Skanda Purāṇa, aconselha-se que um devoto siga os ācāryas passados e as pessoas santas, porque, por tal seguimento, pode-se alcançar os resultados desejados, sem chance de lamentar-se ou de ser frustrado em seu progresso.\n\n\n\nNa escritura conhecida como Brahma-yāmala, afirma-se o seguinte: \"Se alguém quer apresentar-se como um grande devoto sem seguir as autoridades das escrituras reveladas, então suas atividades jamais o ajudarão a fazer progresso no serviço devocional. Em vez disso, ele simplesmente criará perturbações para os estudantes sinceros do serviço devocional.\" Aqueles que não seguem estritamente os princípios das escrituras reveladas geralmente são chamados de sahajiyā, aqueles que imaginaram que tudo é barato, e que têm suas próprias ideias inventadas, e que não seguem as injunções das escrituras. Tais pessoas estão simplesmente criando perturbações no desempenho do serviço devocional.\n\n\n\nA esse respeito, pode ser levantada uma objeção por aqueles que não estão no serviço devocional e que não se importam com as escrituras reveladas. Um exemplo disto se vê na filosofia budista. O Senhor Buda apareceu na família de um rei kṣatriya de alto grau, mas sua filosofia não estava de acordo com as conclusões Védicas e, por isso, foi rejeitada. Sob o patrocínio de um rei hindu, Mahārāj Aśoka, a religião budista foi difundida por toda a Índia e pelos países vizinhos. Contudo, após o aparecimento do grande e robusto mestre Śaṅkarācārya, esse budismo foi expulso para além das fronteiras da Índia.\n\n\n\nOs budistas ou outros religiosos que não se importam com as escrituras reveladas às vezes dizem que há muitos devotos do Senhor Buda que mostram serviço devocional ao Senhor Buda e que, portanto, devem ser considerados devotos. Em resposta a esse argumento, Rūpa Gosvāmī diz que os seguidores de Buda não podem ser aceitos como devotos. Embora o Senhor Buda seja aceito como uma encarnação de Kṛṣṇa, os seguidores de tais encarnações não são muito avançados em seu conhecimento dos *Vedas*. Estudar os *Vedas* significa chegar à conclusão da supremacia da Personalidade de Deus. Por isso, qualquer princípio religioso que negue a supremacia da Personalidade de Deus não é aceito e é chamado de ateísmo. Ateísmo significa desafiar a autoridade dos *Vedas* e difamar os grandes ācāryas que ensinam as escrituras Védicas para o benefício das pessoas em geral.\n\n\n\nO Senhor Buda é aceito como uma encarnação de Kṛṣṇa no *Śrīmad-Bhāgavatam*, mas no mesmo *Śrīmad-Bhāgavatam* afirma-se que o Senhor Buda apareceu a fim de confundir a classe ateísta de homens. Por isso, sua filosofia destina-se a confundir os ateístas e não deve ser aceita. Se alguém perguntar: \"Por que Kṛṣṇa propagaria princípios ateístas?\", a resposta é que era o desejo da Suprema Personalidade de Deus pôr fim à violência que então estava sendo cometida em nome dos *Vedas*. Os supostos religiosos estavam falsamente usando os *Vedas* para justificar atos violentos como comer carne, e o Senhor Buda veio para afastar as pessoas caídas de tal falsa interpretação dos *Vedas*. Além disso, para a classe ateísta, o Senhor Buda pregou o ateísmo, de modo que eles o seguissem e assim fossem enganados a prestar serviço devocional ao Senhor Buda, ou Kṛṣṇa.\n\n\n\nNo Nāradīya Purāṇa, diz-se: \"Se alguém é realmente muito sério no serviço devocional, então todos os seus propósitos serão atendidos sem qualquer demora.\"\n\n\n\nNo *Padma Purāṇa*, afirma-se: \"Para aquele que abandonou seu gozo material dos sentidos e aceitou os princípios do serviço devocional, a opulência de Viṣṇu-loka [o reino de Deus] está aguardando.\" No *Padma Purāṇa*, também se diz que, para uma pessoa que viveu em Dvārakā por seis meses, por um mês, ou mesmo por uma quinzena, está aguardando a elevação aos Vaikuṇṭha-lokas e todos os lucros da sārūpya-mukti (o privilégio de ter os mesmos aspectos corporais de quatro mãos que Nārāyaṇa).\n\n\n\nNo Brahma Purāṇa, diz-se: \"O significado transcendental de Puruṣottama-kṣetra, que é o campo de oitenta milhas quadradas do Senhor Jagannātha, não pode ser descrito adequadamente. Mesmo os semideuses dos sistemas planetários superiores veem os habitantes desta Jagannātha Purī como tendo exatamente os mesmos aspectos de corpo que são possuídos por alguém em Vaikuṇṭha. Ou seja, os semideuses veem os habitantes de Jagannātha Purī como tendo quatro mãos.\"\n\n\n\nQuando houve uma reunião de grandes sábios em Naimiṣāraṇya, Sūta Gosvāmī estava recitando o *Śrīmad-Bhāgavatam*, e a importância do Ganges foi declarada como segue: \"As águas do Ganges estão sempre carregando o aroma da tulasī oferecida aos pés de lótus de Śrī Kṛṣṇa, e, como tal, as águas do Ganges estão sempre fluindo, espalhando as glórias do Senhor Kṛṣṇa. Onde quer que as águas do Ganges fluam, tudo será santificado, tanto externa quanto internamente.\"\n\n\n\nNo Nāradīya Purāṇa, dirige-se: \"Não se deve aceitar mais do que o necessário se a pessoa é séria quanto a desempenhar o serviço devocional.\" O significado é que não se deve negligenciar o seguimento dos princípios do serviço devocional, nem se deve aceitar os preceitos do serviço devocional que sejam mais do que aquilo que se pode facilmente executar. Por exemplo, pode-se dizer que se deve cantar o mantra Hare Kṛṣṇa pelo menos 100.000 vezes por dia em suas contas. Mas, se isto não for possível, então é preciso minimizar o cantar de acordo com sua própria capacidade. Geralmente, recomendamos a nossos discípulos que cantem pelo menos 16 voltas em suas contas de japa diariamente, e isto deve ser completado. Mas, se a pessoa não for capaz de cantar nem mesmo 16 voltas, então deve compensá-las no dia seguinte. Ela deve certificar-se de manter seu voto. Se não seguir isto estritamente, então certamente será negligente. Isto é ofensivo no serviço ao Senhor. Se encorajamos ofensas, não seremos capazes de fazer progresso no serviço devocional. É melhor que a pessoa estabeleça um princípio regulador de acordo com sua própria capacidade e então siga esse voto sem falta. Isto a tornará avançada na vida espiritual.\n\n\n\nNo Brahma-vaivarta Purāṇa, diz-se que aquele que observa o jejum no dia de Ekādaśī fica livre de todos os tipos de reações a atividades pecaminosas e avança na vida piedosa. O princípio básico não é apenas jejuar, mas aumentar a própria fé e o amor por Govinda, ou Kṛṣṇa. A verdadeira razão para observar o jejum em Ekādaśī é minimizar as exigências do corpo e ocupar nosso tempo no serviço ao Senhor, cantando ou realizando serviço semelhante. A melhor coisa a fazer nos dias de jejum é lembrar-se dos passatempos de Govinda e ouvir Seu santo nome constantemente.\n\n\n\nNo Skanda Purāṇa, dirige-se que um devoto deve oferecer água à planta tulasī e às árvores āmalaka. Ele deve oferecer respeito às vacas e aos brāhmaṇas e deve servir os Vaiṣṇavas, oferecendo-lhes respeitosas reverências e meditando neles. Todos esses processos ajudarão o devoto a diminuir as reações a suas atividades pecaminosas passadas.\n\n\n\nO Senhor Caitanya foi certa vez perguntado por um de Seus devotos chefes de família qual deveria ser o comportamento geral de um Vaiṣṇava. A esse respeito, o Senhor Caitanya respondeu que um Vaiṣṇava deve sempre abandonar a companhia dos não-devotos. Então, Ele explicou que há dois tipos de não-devotos: uma classe é contra a supremacia de Kṛṣṇa, e outra classe é materialista demais. Em outras palavras, aqueles que estão atrás do gozo material e aqueles que são contra a supremacia do Senhor são chamados de avaiṣṇava, e sua companhia deve ser estritamente evitada.\n\n\n\nNa Kātyāyana-saṁhitā, afirma-se que, mesmo que a pessoa seja forçada a viver dentro de uma jaula de ferro ou no meio de um fogo ardente, ela deve aceitar essa posição em vez de viver com não-devotos que são inteiramente contra a supremacia do Senhor. De modo semelhante, no Viṣṇu-rahasya, há uma afirmação no sentido de que se deve preferir abraçar uma serpente, um tigre ou um jacaré a associar-se com pessoas que são adoradoras de vários semideuses e que são impelidas pelo desejo material.\n\n\n\nNas escrituras, instrui-se que a pessoa pode adorar certo semideus se está desejosa de alcançar algum ganho material. Por exemplo, aconselha-se a adorar o deus do sol se a pessoa está desejosa de livrar-se de uma condição doente. Por uma bela esposa, pode-se adorar Umā, a esposa do Senhor Śiva, e por educação avançada pode-se adorar Sarasvatī. De modo semelhante, há uma lista no *Śrīmad-Bhāgavatam* para os adoradores de todos os semideuses, de acordo com diferentes desejos materiais. Mas todos esses adoradores, embora pareçam ser muito bons devotos dos semideuses, ainda são considerados não-devotos. Eles não podem ser aceitos como devotos.\n\n\n\nOs māyāvādīs (impersonalistas) dizem que se pode adorar qualquer forma do Senhor e que isso não importa, porque, de qualquer modo, alcança-se o mesmo destino. Mas afirma-se claramente no *Bhagavad-gītā* que aqueles que são adoradores dos semideuses alcançarão, em última instância, apenas os planetas desses semideuses, ao passo que aqueles que são devotos do próprio Senhor serão promovidos à morada do Senhor, o reino de Deus. Assim, na verdade, essas pessoas que são adoradoras dos semideuses foram condenadas no *Gītā*. Descreve-se que, devido a seus desejos luxuriosos, elas perderam sua inteligência e, por isso, adotaram a adoração dos diferentes semideuses. Assim, no Viṣṇu-rahasya, esses adoradores de semideuses são vigorosamente condenados pela afirmação de que é melhor viver com os animais mais perigosos do que associar-se com essas pessoas.\n\n\n\nOutra restrição é que uma pessoa pode ter muitos discípulos, mas não deve agir de tal maneira que fique obrigada a qualquer um deles por alguma ação ou favor em particular. E também não se deve ser muito entusiasta em construir novos templos, nem se deve ser entusiasta em ler diversos tipos de livros, salvo e exceto aqueles que levam ao avanço do serviço devocional. Praticamente, se a pessoa lê muito cuidadosamente o *Bhagavad-gītā*, o *Śrīmad-Bhāgavatam*, os *Ensinamentos do Senhor Caitanya* e este *Néctar da Devoção*, isso lhe dará conhecimento suficiente para compreender a ciência da consciência de Kṛṣṇa. Não é preciso dar-se ao trabalho de ler outros livros.\n\n\n\nNo Sétimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 13º Capítulo, 7º verso, Nārada Muni, enquanto discutia com Mahārāj Yudhiṣṭhira as várias funções das diferentes ordens da sociedade, menciona especialmente regras para os sannyāsīs — aquelas pessoas que renunciaram a este mundo material. Aquele que aceitou a ordem de vida de sannyāsa está proibido de aceitar como discípulo qualquer um que não seja apto. Um sannyāsī deve, antes de tudo, examinar se um estudante em potencial está sinceramente buscando a consciência de Kṛṣṇa. Se não estiver, não deve ser aceito. Contudo, a misericórdia imotivada do Senhor Caitanya é tal que Ele aconselhou todos os mestres espirituais genuínos a falar sobre a consciência de Kṛṣṇa em toda parte. Por isso, na linha do Senhor Caitanya, mesmo os sannyāsīs podem falar sobre a consciência de Kṛṣṇa em toda parte, e, se alguém está seriamente inclinado a tornar-se um discípulo, o sannyāsī sempre o aceita.\n\n\n\nO ponto é que, sem aumentar o número de discípulos, não há propagação do culto da consciência de Kṛṣṇa. Por isso, às vezes, mesmo correndo um risco, um sannyāsī na linha de Caitanya Mahāprabhu pode aceitar até mesmo uma pessoa que não seja inteiramente apta a tornar-se um discípulo. Mais tarde, pela misericórdia de tal mestre espiritual genuíno, o discípulo é gradualmente elevado. Contudo, se alguém aumenta o número de discípulos simplesmente por algum prestígio ou falsa honra, certamente cairá no que se refere a executar a consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nDe modo semelhante, um mestre espiritual genuíno não tem por que ler muitos livros simplesmente para mostrar sua proficiência ou para obter popularidade palestrando em diferentes lugares. Deve-se evitar todas essas coisas. Também se afirma que um sannyāsī não deve ser entusiasta em construir templos. Podemos ver na vida de vários ācāryas na linha de Śrī Caitanya Mahāprabhu que eles não são muito entusiastas em construir templos. Contudo, se alguém se apresenta para oferecer algum serviço, os mesmos relutantes ācāryas encorajarão a construção de templos dispendiosos por tais servidores. Por exemplo, Rūpa Gosvāmī recebeu um favor de Mahārāj Mansingh, o comandante-em-chefe do Imperador Akbar, e Rūpa Gosvāmī o instruiu a construir um grande templo para Govindajī, que custou vastas somas de dinheiro.\n\n\n\nAssim, um mestre espiritual genuíno não deve assumir pessoalmente qualquer responsabilidade pela construção de templos, mas, se alguém tem dinheiro e quer gastá-lo no serviço a Kṛṣṇa, um ācārya como Rūpa Gosvāmī pode utilizar o dinheiro do devoto para construir um belo e dispendioso templo para o serviço ao Senhor. Infelizmente, acontece que alguém que não é apto a tornar-se um mestre espiritual pode aproximar-se de pessoas ricas para contribuírem com construções de templos. Se tal dinheiro é utilizado por mestres espirituais não qualificados para viver confortavelmente em templos dispendiosos sem realmente fazer qualquer trabalho de pregação, isto não é aceitável. Em outras palavras, um mestre espiritual não precisa ser muito entusiasta em construir edifícios de templos simplesmente em nome do suposto avanço espiritual. Em vez disso, sua primeira e principal atividade deve ser pregar. A esse respeito, Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāj recomendou que um mestre espiritual imprima livros. Se a pessoa tem dinheiro, em vez de construir templos dispendiosos, deve gastar seu dinheiro na publicação de livros autorizados em diferentes idiomas para propagar o movimento da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nHá uma afirmação no *Padma Purāṇa*: \"As pessoas que estão ocupadas na consciência de Kṛṣṇa jamais devem ser perturbadas por algum ganho ou perda material. Mesmo que haja alguma perda material, não se deve ficar perturbado, mas deve-se sempre pensar em Kṛṣṇa dentro de si.\" O significado é que toda alma condicionada está sempre absorta em pensar nas atividades materialistas; ela tem de livrar-se de tais pensamentos e transferir-se completamente para a consciência de Kṛṣṇa. Como já explicamos, o princípio básico da consciência de Kṛṣṇa é sempre pensar em Kṛṣṇa. Não se deve ficar perturbado na perda material, mas, em vez disso, deve-se concentrar a mente nos pés de lótus do Senhor.\n\n\n\nUm devoto não deve estar sujeito à lamentação ou à ilusão. Há a seguinte afirmação no *Padma Purāṇa*: \"Dentro do coração de uma pessoa que está dominada pela lamentação ou pela ira, não há possibilidade de Kṛṣṇa manifestar-Se.\"\n\n\n\nNão se deve tornar-se negligente em oferecer o devido respeito aos semideuses. A pessoa pode não ser um devoto dos semideuses, mas isso não significa que deva ser desrespeitosa para com eles. Por exemplo, um Vaiṣṇava não é um devoto do Senhor Śiva ou do Senhor Brahmā, mas tem o dever de oferecer todos os respeitos a tais semideuses de tão elevada posição. Segundo a filosofia vaiṣṇava, deve-se oferecer respeito até mesmo a uma formiga, então o que dizer de pessoas tão exaltadas como o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā?\n\n\n\nNo *Padma Purāṇa*, diz-se: \"Kṛṣṇa, ou Hari, é o senhor de todos os semideuses, e, portanto, Ele é sempre adorável. Mas isto não significa que não se deva oferecer respeito aos semideuses.\"\n\n\n\nEsta é a afirmação do *Mahābhārata*: \"Uma pessoa que não perturba nem causa ação dolorosa na mente de nenhuma entidade viva, que trata todos exatamente como um pai amoroso trata seus filhos, cujo coração é tão puro, certamente muito em breve torna-se favorecida pela Suprema Personalidade de Deus.\"\n\n\n\nNa suposta sociedade civilizada, às vezes há agitação contra a crueldade com os animais, mas, ao mesmo tempo, matadouros regulares são sempre mantidos. Um Vaiṣṇava não é assim. Um Vaiṣṇava jamais pode apoiar a matança de animais, nem mesmo causar dor a nenhuma entidade viva."}
{"ref": "nod/8", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/8/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "8. Ofensas a Serem Evitadas", "purport": "## Ofensas a Serem Evitadas\n\nNa literatura Védica suplementar, há a seguinte lista de 32 ofensas no que diz respeito a servir o Senhor:\n**1**) Não se deve entrar no templo da Deidade em um carro ou palanquim, ou de sapatos nos pés.\n**2**) Não se deve deixar de observar os vários festivais para o prazer da Suprema Personalidade de Deus, tais como Janmāṣṭamī, Ratha-yātrā etc.\n**3**) Não se deve deixar de prostrar-se diante da Deidade.\n**4**) Não se deve entrar no templo para adorar o Senhor sem ter lavado as mãos e os pés após comer.\n**5**) Não se deve entrar no templo em estado contaminado. (Segundo a escritura Védica, se alguém morre na família, a família inteira fica contaminada por algum tempo, conforme sua condição. Por exemplo, se a família é de *brāhmaṇas,* o período de contaminação é de 12 dias; para os *kṣatriyas* e *vaiśyas* é de 15 dias; e para os *śūdras,* de 30 dias.)\n**6**) Não se deve prostrar sobre uma só mão.\n**7**) Não se deve circundar diante de Śrī Kṛṣṇa. (O processo de circundar o templo é que se deve começar a circundar a partir do lado direito da Deidade no templo e dar a volta. Tal circundação deve ser executada do lado de fora da estrutura do templo ao menos três vezes ao dia.)\n**8**) Não se deve estender as pernas diante da Deidade.\n**9**) Não se deve sentar diante da Deidade segurando os tornozelos, os cotovelos ou os joelhos com as mãos.\n**10**) Não se deve deitar diante da Deidade de Kṛṣṇa.\n**11**) Não se deve aceitar *prasādam* diante da Deidade.\n**12**) Não se deve jamais dizer uma mentira diante da Deidade.\n**13**) Não se deve falar muito alto diante da Deidade.\n**14**) Não se deve conversar com outros diante da Deidade.\n**15**) Não se deve chorar ou prantear diante da Deidade.\n**16**) Não se deve disputar ou brigar diante da Deidade.\n**17**) Não se deve castigar ninguém diante da Deidade.\n**18**) Não se deve dar caridade a mendigos diante da Deidade.\n**19**) Não se deve falar muito asperamente com outros diante da Deidade.\n**20**) Não se deve usar uma manta de pele diante da Deidade.\n**21**) Não se deve elogiar ou louvar qualquer outra pessoa diante da Deidade.\n**22**) Não se deve proferir nomes injuriosos diante da Deidade.\n**23**) Não se deve soltar gases diante da Deidade.\n**24**) Não se deve deixar de adorar a Deidade segundo os próprios meios. (No *Bhagavad-gītā* afirma-se que o Senhor fica satisfeito se algum devoto Lhe oferece até mesmo uma folha ou um pouco de água. Esta fórmula prescrita pelo Senhor é universalmente aplicável, mesmo para o homem mais pobre. Mas isto não significa que alguém que disponha de meios suficientes para adorar o Senhor muito bem deva também adotar este método e tentar satisfazer o Senhor simplesmente oferecendo água e uma folha. Se ele dispõe de meios suficientes, deve oferecer belas decorações, belas flores, belos alimentos e observar todas as cerimônias. Não se deve tentar satisfazer o Senhor Supremo com um pouco de água e uma folha, e gastar todo o próprio dinheiro consigo mesmo, na gratificação dos sentidos.)\n**25**) Não se deve comer nada que não seja primeiro oferecido a Kṛṣṇa.\n**26**) Não se deve deixar de oferecer fruta fresca e grãos a Kṛṣṇa, conforme a estação.\n**27**) Após cozinhar, não se deve oferecer alimento algum a ninguém sem que seja primeiro oferecido à Deidade.\n**28**) Não se deve sentar de costas para a Deidade.\n**29**) Não se deve oferecer reverências silenciosamente ao mestre espiritual; em outras palavras, deve-se recitar *em voz alta* as orações ao mestre espiritual enquanto se oferecem reverências.\n**30**) Não se deve deixar de oferecer algum louvor na presença do mestre espiritual.\n**31**) Não se deve louvar a si mesmo diante do mestre espiritual.\n**32**) Não se deve zombar dos semideuses diante da Deidade.\n\nEsta é uma lista de 32 ofensas. Além destas, há um número de ofensas mencionadas no *Varāha Purāṇa.* São elas:\n**1**) Não se deve tocar a Deidade num quarto escuro.\n**2**) Não se deve deixar de seguir estritamente as regras e regulações na adoração à Deidade.\n**3**) Não se deve entrar no templo da Deidade sem primeiro fazer algum som.\n**4**) Não se deve oferecer à Deidade nenhum alimento que tenha sido visto por cães ou outros animais inferiores.\n**5**) Não se deve romper o silêncio durante a adoração.\n**6**) Não se deve urinar ou evacuar enquanto se está ocupado na adoração.\n**7**) Não se deve oferecer incenso sem oferecer alguma flor.\n**8**) Não se devem oferecer flores inúteis, sem qualquer fragrância.\n**9**) Não se deve deixar de lavar os dentes muito cuidadosamente todos os dias.\n**10**) Não se deve entrar no templo logo após relação sexual.\n**11**) Não se deve tocar uma mulher durante seu período menstrual.\n**12**) Não se deve entrar no templo após tocar um cadáver.\n**13**) Não se deve entrar no templo trajando vestes de cor vermelha ou azul, ou que não estejam lavadas.\n**14**) Não se deve entrar no templo após ver um cadáver.\n**15**) Não se deve soltar gases dentro do templo.\n**16**) Não se deve ficar irado dentro do templo.\n**17**) Não se deve entrar no templo após visitar um crematório.\n**18**) Não se deve arrotar diante da Deidade. Assim, enquanto não se houver digerido por completo o alimento, não se deve entrar no templo.\n**19**) Não se deve fumar maconha, ou *gañjā.*\n**20**) Não se deve tomar ópio ou intoxicantes semelhantes.\n**21**) Não se deve entrar na sala da Deidade ou tocar o corpo da Deidade após ter besuntado o próprio corpo de óleo.\n**22**) Não se deve demonstrar desrespeito a uma escritura que ensine a supremacia do Senhor.\n**23**) Não se deve introduzir qualquer escritura oposta.\n**24**) Não se deve mascar bétel diante da Deidade.\n**25**) Não se deve oferecer uma flor que tenha sido guardada num pote imundo.\n**26**) Não se deve adorar o Senhor sentado no chão nu: é preciso ter um assento ou tapete.\n**27**) Não se deve tocar a Deidade antes de haver concluído o banho.\n**28**) Não se deve decorar a testa com o *tilaka* de três linhas.\n**29**) Não se deve entrar no templo sem lavar as mãos e os pés.\n\nOutras regras são que não se deve oferecer alimento cozido por um não vaiṣṇava. Não se deve adorar a Deidade diante de um não devoto. Não se deve ocupar na adoração ao Senhor enquanto se vê um não devoto. Deve-se começar pela adoração ao semideus Gaṇapati, que afasta todos os impedimentos na execução do serviço devocional. Na *Brahma-saṁhitā* afirma-se que Gaṇapati adora os pés de lótus do Senhor Nṛsiṁhadeva, e dessa maneira tornou-se auspicioso para os devotos, removendo todos os impedimentos. Por isso, todos os devotos devem adorar Gaṇapati. As Deidades não devem ser banhadas com água que tenha sido tocada pelas unhas ou pelos dedos. Quando o devoto está transpirando, não deve ocupar-se na adoração à Deidade. De modo semelhante, há muitas outras proibições, como, por exemplo, que não se deve cruzar nem passar por cima das flores oferecidas às Deidades, nem se deve fazer um voto em nome de Deus. Estas são todas diferentes espécies de ofensas no que diz respeito à execução do serviço devocional, e deve-se ter o cuidado de evitá-las.\n\nNo *Padma Purāṇa* afirma-se que mesmo uma pessoa cuja vida seja completamente pecaminosa será inteiramente protegida pelo Senhor se simplesmente se render a Ele. Assim, aceita-se que aquele que se rende à Suprema Personalidade de Deus liberta-se de todas as reações pecaminosas. E mesmo quando uma pessoa se torna ofensora à própria Suprema Personalidade de Deus, ela ainda pode ser libertada simplesmente por se abrigar nos santos nomes do Senhor: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Em outras palavras, cantar Hare Kṛṣṇa é benéfico para erradicar todos os pecados; mas, se alguém se torna ofensor aos santos nomes do Senhor, então não tem possibilidade de ser libertado.\n\nAs ofensas contra o cantar do santo nome são as seguintes:\n**1**) Blasfemar contra os devotos que dedicaram a vida à propagação do santo nome do Senhor.\n**2**) Considerar os nomes de semideuses, como o Senhor Śiva ou o Senhor Brahmā, iguais ao nome do Senhor Viṣṇu, ou independentes dele. (Às vezes a classe ateísta de homens supõe que qualquer semideus é tão bom quanto a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu. Mas quem é devoto sabe que nenhum semideus, por maior que seja, é independentemente tão bom quanto a Suprema Personalidade de Deus. Por isso, se alguém pensa que pode cantar Kālī, Kālī! ou Durgā, Durgā! e que é o mesmo que Hare Kṛṣṇa, isso é a maior das ofensas.)\n**3**) Desobedecer às ordens do mestre espiritual.\n**4**) Blasfemar contra a literatura Védica ou contra a literatura que segue a versão Védica.\n**5**) Considerar as glórias de cantar Hare Kṛṣṇa como imaginação.\n**6**) Dar alguma interpretação ao santo nome do Senhor.\n**7**) Cometer atividades pecaminosas amparado na força do santo nome do Senhor. (Visto que, por cantar o santo nome do Senhor, a pessoa pode livrar-se de toda espécie de reações pecaminosas, não se deve concluir que se possa continuar a agir de modo pecaminoso e, depois disso, cantar Hare Kṛṣṇa para neutralizar os pecados. Tal mentalidade perigosa é muito ofensiva e deve ser evitada.)\n**8**) Considerar o cantar de Hare Kṛṣṇa como uma das atividades ritualísticas auspiciosas oferecidas nos *Vedas* como atividades fruitivas (*karma-kāṇḍa*).\n**9**) Instruir uma pessoa sem fé acerca das glórias do santo nome. (Qualquer um pode tomar parte no cantar do santo nome do Senhor, mas, no início, não se deve instruir alguém acerca da potência transcendental do Senhor. Aqueles que são pecaminosos demais não conseguem apreciar as glórias transcendentais do Senhor; por isso, é melhor não os instruir neste assunto.)\n**10**) Não ter fé completa no cantar dos santos nomes e manter apegos materiais, mesmo após compreender tantas instruções a este respeito.\n\nTodo devoto que afirma ser vaiṣṇava deve precaver-se contra essas ofensas a fim de alcançar rapidamente o êxito desejado."}
{"ref": "nod/9", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/9/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "9. Considerações Adicionais sobre os Princípios Devocionais", "purport": "## Blasfêmia\n\nNão se deve tolerar a blasfêmia contra o Senhor ou contra Seus devotos. A este respeito, no Décimo Canto, 70.º Capítulo, 25.º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Śukadeva Gosvāmī diz a Parīkṣit Mahārāja: \"Meu querido rei, se uma pessoa, após ouvir propaganda blasfema contra o Senhor e Seus devotos, não se afasta daquele lugar, ela fica destituída do efeito de todas as atividades piedosas.\"\n\nEm um dos versos *Śikṣāṣṭaka* do Senhor Caitanya afirma-se: \"O devoto deve ser mais tolerante que a árvore e mais submisso que a relva. Deve oferecer toda honra aos outros, mas não aceitar honra alguma para si mesmo.\" Apesar de ser o Senhor Caitanya tão humilde e manso como devoto, quando foi informado das injúrias infligidas ao corpo de Śrī Nityānanda, Ele imediatamente correu ao local e quis matar os ofensores, Jagāi e Mādhāi. Este comportamento do Senhor Caitanya é muito significativo. Mostra que o vaiṣṇava pode ser muito tolerante e manso, abrindo mão de tudo no tocante à própria honra; mas, quando se trata da honra de Kṛṣṇa ou de Seu devoto, ele não tolerará insulto algum.\n\nHá três maneiras de lidar com tais insultos. Se alguém é ouvido blasfemando por palavras, deve-se ser tão perito que se possa derrotar a parte adversária pelo raciocínio. Se a pessoa for incapaz de derrotar a parte adversária, então o passo seguinte é que ela não deve apenas permanecer ali, mansamente, mas deve abandonar a vida. O terceiro processo segue-se caso ela seja incapaz de executar os dois processos mencionados acima, e este é que se deve deixar o local e ir embora. Se o devoto não executa nenhum dos três processos mencionados acima, cai de sua posição de devoção.\n\n## Tilaka, Contas de Tulasī e Guirlandas de Flores\n\nNo *Padma Purāṇa* há uma afirmação que descreve como o vaiṣṇava deve decorar o corpo com *tilaka* e contas: \"As pessoas que põem contas de *tulasī* no pescoço, que marcam doze lugares do corpo como templos de Viṣṇu com as representações simbólicas de Viṣṇu [os quatro itens segurados nas quatro mãos do Senhor Viṣṇu — búzio, maça, disco e lótus], e que têm o *tilaka* de Viṣṇu na testa, devem ser compreendidas como os devotos do Senhor Viṣṇu neste mundo. Sua presença purifica o mundo, e onde quer que permaneçam tornam aquele lugar tão bom quanto Vaikuṇṭha.\"\n\nUma afirmação semelhante encontra-se no *Skanda Purāṇa,* que diz: \"As pessoas decoradas com *tilaka,* ou *gopī-candana* [uma espécie de argila parecida com a terra de pisoeiro, produzida em certas regiões de Vṛndāvana], que marcam o corpo inteiro com os santos nomes do Senhor, e em cujo pescoço e peito há contas de *tulasī,* nunca são abordadas pelos Yama-dūtas.\" Os Yama-dūtas são os agentes do rei Yama (o senhor da morte), que pune todos os homens pecaminosos. Os vaiṣṇavas nunca são chamados por tais agentes de Yamarāja. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* na narração da libertação de Ajāmila, diz-se que Yamarāja deu instruções claras a seus assistentes para que não se aproximassem dos vaiṣṇavas. Os vaiṣṇavas estão além da jurisdição das atividades de Yamarāja.\n\nNo *Padma Purāṇa* menciona-se também: \"A pessoa cujo corpo é decorado com a polpa de sândalo, com pinturas do santo nome do Senhor, livra-se de todas as reações pecaminosas, e, após a morte, vai diretamente a Kṛṣṇa-loka viver em associação com a Suprema Personalidade de Deus.\"\n\nA instrução seguinte é que se deve usar as guirlandas de flores que são oferecidas à Deidade. A este respeito, no Décimo Primeiro Canto, 6.º Capítulo, 31.º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Uddhava diz a Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, peguei coisas que Tu usaste e desfrutaste, tais como guirlandas de flores, artigos sagrados, vestes e ornamentos, e como apenas os restos de Teu alimento, porque sou Teu humilde servo. Por isso, estou certo de que não serei atacado pelo feitiço da energia material.\" O significado deste verso é que, para qualquer pessoa que simplesmente siga estas regras e regulações de decorar o corpo com as marcas de *tilaka* de *gopī-candana* ou polpa de sândalo, e que use as guirlandas que foram oferecidas a Kṛṣṇa, não há possibilidade de ser conquistada pelo feitiço da energia material. No momento da morte, não há possibilidade de tal pessoa ser chamada pelos agentes de Yamarāja. Mesmo que alguém não aceite todos os princípios vaiṣṇavas, mas ainda assim aceite os restos do alimento oferecido a Kṛṣṇa, ou *Kṛṣṇa-prasādam,* ele gradualmente se qualificará para elevar-se à plataforma de vaiṣṇava.\n\nDe modo semelhante, no *Skanda Purāṇa* o Senhor Brahmā diz a Nārada: \"Meu querido Nārada, qualquer um que ponha em seu pescoço a guirlanda de flores que outrora foi usada por Kṛṣṇa livra-se de toda doença e das reações às atividades pecaminosas, e gradualmente liberta-se da contaminação da matéria.\"\n\n## Dançar Diante da Deidade\n\nNo *Dvārakā-māhātmya,* a importância de dançar diante da Deidade é declarada pelo Senhor Kṛṣṇa da seguinte maneira: \"A pessoa que está em espírito jubiloso, que sente profundo êxtase devocional ao dançar diante de Mim, e que manifesta diferentes traços de expressão corporal, pode reduzir a cinzas todas as reações pecaminosas acumuladas que armazenou por muitos e muitos milhares de anos.\" No mesmo livro há uma afirmação de Nārada, na qual ele assevera: \"Do corpo de qualquer pessoa que bate palmas e dança diante da Deidade, manifestando expressões de êxtase, todos os pássaros das atividades pecaminosas voam para o alto.\" Assim como, batendo as mãos, pode-se fazer com que muitos pássaros voem para longe, de modo semelhante os pássaros de todas as atividades pecaminosas que estão pousados sobre o corpo podem ser feitos voar para longe simplesmente por dançar e bater palmas diante da Deidade de Kṛṣṇa.\n\n## Prostrar-se e Levantar-se em Honra à Deidade\n\nNo *Nāradīya Purāṇa* há uma afirmação sobre prostrar-se e oferecer respeito à Deidade. Ali se diz: \"Uma pessoa que executou um grande sacrifício ritualístico e uma pessoa que simplesmente ofereceu suas respeitosas reverências, prostrando-se diante do Senhor, não podem ser tidas como iguais.\" A pessoa que executou muitos grandes sacrifícios alcançará o resultado de suas atividades piedosas, mas, quando tais resultados se esgotarem, ela terá de nascer de novo no planeta terrestre; ao passo que a pessoa que ofereceu respeitos uma só vez, prostrando-se diante da Deidade, não voltará de novo a este mundo, porque irá diretamente à morada de Kṛṣṇa.\n\nNo *Brahmāṇḍa Purāṇa* diz-se: \"Uma pessoa que vê o festival do carro de Ratha-yātrā do Senhor e então se levanta para receber o Senhor pode expurgar do próprio corpo toda espécie de resultados pecaminosos.\" Há uma afirmação semelhante no *Bhaviṣya Purāṇa,* na qual se diz: \"Uma pessoa que segue o Ratha-yātrā quando os Rathas [Deidades] passam à frente ou por trás, ainda que nascida de família humilde, certamente será elevada à posição de alcançar opulência igual à de Viṣṇu.\"\n\n## Ir ao Templo de Viṣṇu ou a Lugares de Peregrinação\n\nAfirma-se nos *Purāṇas:* \"As pessoas que se empenham em visitar os lugares sagrados de peregrinação, como Vṛndāvana, Mathurā ou Dvārakā, são de fato glorificadas. Por tais atividades de viagem, conseguem atravessar o deserto da existência material.\"\n\nNo *Hari-bhakti-sudhodaya,* há uma afirmação sobre o benefício de visitar os templos do Senhor Kṛṣṇa. Como já explicamos anteriormente, em Vṛndāvana, Mathurā e Dvārakā o sistema é que todos os devotos aproveitam a oportunidade de visitar os vários templos situados nesses lugares sagrados. Afirma-se no *Hari-bhakti-sudhodaya:* \"As pessoas que são impelidas pelo serviço devocional puro em consciência de Kṛṣṇa e que, por isso, vão ver as Deidades de Viṣṇu no templo certamente obterão alívio de entrar de novo na casa-prisão do ventre materno.\" A alma condicionada esquece o tormento de viver dentro do ventre materno durante o nascimento, mas é uma experiência muito dolorosa e terrível. A fim de escapar desta condição material, recomenda-se que se visite um templo de Viṣṇu com consciência devocional. Então é possível sair muito facilmente da condição miserável do nascimento material.\n\n## Circundar o Templo de Viṣṇu\n\nDiz-se no *Hari-bhakti-sudhodaya:* \"A pessoa que está circundando a Deidade de Viṣṇu pode contrabalançar a circundação de repetidos nascimentos e mortes neste mundo material.\" A alma condicionada está circundando através de repetidos nascimentos e mortes em razão de sua existência material, e isso pode ser contrabalançado simplesmente por circundar a Deidade no templo.\n\nA cerimônia de Cāturmāsya é observada durante os quatro meses da estação das chuvas na Índia, começando em Śrāvaṇa (aproximadamente julho, agosto, setembro e outubro). Durante esses quatro meses, as pessoas santas que costumam viajar de um lugar a outro para propagar a consciência de Kṛṣṇa permanecem em um só lugar, geralmente um lugar sagrado de peregrinação. Durante esses períodos, há certas regras e regulações especiais que são estritamente seguidas. Afirma-se no *Skanda Purāṇa* que, durante esse período, se alguém circundar o templo de Viṣṇu ao menos quatro vezes, entende-se que viajou por todo o universo. Por tal circundação, entende-se que a pessoa viu todos os lugares sagrados por onde corre a água do Ganges, e, por seguir os princípios regulativos de Cāturmāsya, pode-se elevar muito rapidamente à plataforma do serviço devocional.\n\n## Arcanā\n\n*Arcanā* significa adorar a Deidade no templo. Por executar este processo, a pessoa confirma-se como não sendo o corpo, mas a alma espiritual. No Décimo Canto, 81.º Capítulo, 16.º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* conta-se como Sudāmā, um amigo íntimo de Kṛṣṇa, enquanto ia à casa de um *brāhmaṇa,* murmurou consigo mesmo: \"Simplesmente por adorar Kṛṣṇa, pode-se alcançar facilmente todos os resultados da opulência celestial, da liberação, da supremacia sobre os sistemas planetários do universo, todas as opulências deste mundo material e o poder místico de executar o sistema de *yoga.*\"\n\nOs acontecimentos que levaram Sudāmā a murmurar esta afirmação foram os seguintes: Śrī Kṛṣṇa ordenara a Seu amigo Sudāmā que fosse à casa de um *brāhmaṇa* e pedisse algum alimento. Os *brāhmaṇas* estavam executando um grande sacrifício, e Śrī Kṛṣṇa disse a Sudāmā que lhes suplicasse, dizendo que Ele e Balarāma estavam sentindo fome e precisavam de algum alimento. Quando Sudāmā foi até lá, os *brāhmaṇas* recusaram-se a oferecer qualquer coisa; mas as esposas dos *brāhmaṇas,* ao ouvirem que Śrī Kṛṣṇa queria algum alimento, imediatamente pegaram muitos pratos saborosos e foram oferecê-los a Śrī Kṛṣṇa. No *Viṣṇu-rahasya* afirma-se também: \"Qualquer pessoa, dentro deste mundo, que esteja ocupada na adoração a Viṣṇu pode alcançar muito facilmente o reino de Deus, sempre bem-aventurado, conhecido como Vaikuṇṭha.\"\n\n## Prestar Serviço ao Senhor\n\nAfirma-se no *Viṣṇu-rahasya:* \"Qualquer pessoa que possa providenciar serviço ao Senhor da mesma maneira que um rei recebe serviço de seus servidores certamente é elevada à morada de Kṛṣṇa após a morte.\" Na verdade, na Índia, os templos são exatamente como palácios reais. Não são edifícios comuns, porque a adoração a Kṛṣṇa deve ser executada da mesma maneira que um rei é adorado em seu palácio. Assim, em Vṛndāvana há muitas centenas de templos nos quais a Deidade é adorada exatamente como um rei. No *Nāradīya Purāṇa* afirma-se: \"Se uma pessoa permanece no templo do Senhor, ainda que por alguns momentos, certamente pode alcançar o reino transcendental de Deus.\"\n\nA conclusão é que aqueles que são homens ricos na sociedade devem construir belos templos e providenciar a adoração a Viṣṇu, para que as pessoas possam sentir-se atraídas a visitar tais templos e, dessa maneira, recebam a oportunidade de dançar diante do Senhor, de cantar o santo nome do Senhor, ou então de ouvir o santo nome do Senhor. Assim, todos terão a chance de elevar-se ao reino de Deus. Em outras palavras, mesmo um homem comum, simplesmente por visitar tal templo, poderá alcançar as mais elevadas bênçãos, isto para não falar dos devotos que estão constantemente ocupados no serviço ao Senhor em plena consciência de Kṛṣṇa.\n\nA este respeito, há uma afirmação no Quarto Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* na qual o rei Pṛthu diz a seus súditos: \"Meus queridos cidadãos, atentai, por favor, para o fato de que a Suprema Personalidade de Deus, Hari, é de fato o libertador de todas as almas condicionadas decaídas. Nenhum semideus pode executar este ato de libertar as almas condicionadas, porque os próprios semideuses são condicionados. Uma alma condicionada não pode libertar outra alma condicionada. Somente Kṛṣṇa ou Seu representante genuíno pode libertá-la. A água do Ganges, que flui desde o dedo do pé do Senhor Viṣṇu, cai sobre o planeta terrestre e outros planetas e, com isso, liberta todas as entidades vivas condicionadas e pecaminosas. Então, que necessidade há de falar da libertação das pessoas que estão sempre ocupadas no serviço ao Senhor? Não há dúvida quanto à liberação delas, ainda que tenham estoques de atividades pecaminosas de muitos e muitos nascimentos.\" Em outras palavras, uma pessoa que está ocupada na adoração às Deidades pode minimizar seu estoque de reações pecaminosas provenientes de muitos e muitos nascimentos anteriores. Este processo de adorar a Deidade já foi descrito, e deve-se procurar seguir seriamente estas regras e regulações.\n\nNo *Liṅga Purāṇa* há uma afirmação sobre glorificar e cantar acerca do Senhor. Ali se diz: \"Um *brāhmaṇa* que está constantemente ocupado em cantar as glórias do Senhor certamente é elevado ao mesmo planeta que a Suprema Personalidade de Deus. O Senhor Kṛṣṇa aprecia esse cantar ainda mais do que as orações oferecidas pelo Senhor Śiva.\"\n\nQuando uma pessoa canta em voz alta as glórias das atividades, qualidades, forma etc. do Senhor, esse cantar chama-se *saṅkīrtana.* *Saṅkīrtana* refere-se também ao cantar congregacional do santo nome do Senhor.\n\nNo *Viṣṇu-dharma* há uma afirmação que glorifica este processo de cantar congregacional: \"Meu querido rei, esta palavra '*Kṛṣṇa*' é tão auspiciosa que qualquer pessoa que cante este santo nome imediatamente se livra das ações resultantes das atividades pecaminosas de muitos e muitos nascimentos.\" Isto é um fato. Há a seguinte afirmação no *Caitanya-caritāmṛta:* \"Uma pessoa que canta uma vez o santo nome de Kṛṣṇa pode contrabalançar as ações resultantes de mais atividades pecaminosas do que é capaz de executar.\" Um homem pecaminoso pode executar muitas e muitas atividades pecaminosas, mas ele é incapaz de executar tantas que não possam ser apagadas por uma única pronúncia de \"*Kṛṣṇa.*\"\n\nNo Sétimo Canto, 9.º Capítulo, 17.º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Mahārāja Prahlāda oferece as seguintes orações ao Senhor: \"Meu querido Senhor Nṛsiṁha, se eu puder ser elevado à posição de Teu servo, então me será possível ouvir sobre Tuas atividades. Tu és o amigo supremo, a suprema Deidade adorável. Teus passatempos são transcendentais, e, simplesmente por ouvi-los, a pessoa pode contrabalançar todas as suas atividades pecaminosas. Por isso, não darei importância a todas essas atividades pecaminosas, porque, simplesmente por ouvir sobre Teus passatempos, sairei de toda a contaminação do apego material.\"\n\nHá muitas canções sobre as atividades do Senhor. Por exemplo, há a *Brahma-saṁhitā,* cantada pelo Senhor Brahmā; o *Nārada-pañcarātra,* cantado por Nārada Muni; e o *Śrīmad-Bhāgavatam,* cantado por Śukadeva Gosvāmī. Se estas canções forem ouvidas por qualquer pessoa, ela poderá sair facilmente das garras da contaminação material. Não deveria haver dificuldade alguma em ouvir estas canções de Deus. Elas vêm chegando desde muitos e muitos milhões de anos atrás, e as pessoas ainda tiram proveito delas. Então, por que, neste momento, não se haveria de tirar pleno proveito e, assim, libertar-se?\n\n### Glorificar as Atividades Transcendentais do Senhor\n\nNo Primeiro Canto, 5.º Capítulo, 22.º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Nārada Muni diz a seu discípulo Vyāsadeva: \"Meu querido Vyāsa, deves saber que as pessoas que se ocupam em executar austeridades e penitências, estudar os *Vedas,* realizar grandes sacrifícios, cantar os hinos dos *Vedas,* especular sobre o conhecimento transcendental e realizar funções caritativas têm, com todas as suas atividades auspiciosas, apenas de conquistar um lugar na associação dos devotos e de cantar as glórias do Senhor.\" Indica-se aqui que cantar e glorificar o Senhor é a atividade última da entidade viva.\n\n## Japa\n\nQuando um *mantra* ou hino é cantado suave e lentamente, isso se chama *japa.* O mesmo *mantra,* quando cantado em voz alta, chama-se *kīrtana.* Por exemplo, o *mahā-mantra* (Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare), quando proferido muito suavemente, apenas para a própria audição, chama-se *japa.* O mesmo *mantra,* quando cantado em voz alta para ser ouvido por todos os outros, chama-se *kīrtana.* O *mahā-mantra* pode ser usado tanto para o *japa* quanto para o *kīrtana.* Quando o *japa* é praticado, é para o benefício pessoal de quem o canta; mas, quando o *kīrtana* é executado, é para o benefício de todos os outros que possam ouvir.\n\nNo *Padma Purāṇa* há uma afirmação: \"Para qualquer pessoa que esteja cantando o santo nome, seja suave, seja em voz alta, abrem-se de imediato as sendas para a liberação e mesmo para a felicidade celestial.\"\n\n## Submissão\n\nNo *Skanda Purāṇa* há uma afirmação sobre a submissão aos pés de lótus do Senhor. Ali se diz que os devotos sóbrios podem oferecer sua submissão a Kṛṣṇa das três seguintes maneiras: 1) *samprārthanātmikā,* oferecer orações com muito sentimento; 2) *dainyavodhikā,* submeter-se humildemente; 3) *lālasāmayī,* desejar algum estágio de perfeição. Este desejar algum estágio de perfeição na vida espiritual não é gratificação dos sentidos. Quando a pessoa compreende algo de sua relação constitucional com a Suprema Personalidade de Deus, ela entende sua posição original e quer ser reinstalada nesta posição, seja como amigo, servo, pai ou amante conjugal de Kṛṣṇa. Isso se chama *lālasāmayī,* ou desejar muito ardentemente ir à própria posição natural. Este estágio *lālasāmayī* de submissão surge no estágio de perfeita liberação, que é tecnicamente chamado de *svarūpa-siddhi,* quando a entidade viva compreende, por meio do perfeito avanço espiritual e da revelação, sua relação original com o Senhor.\n\n### Submissão no Sentimento\n\nNo *Skanda Purāṇa* há uma afirmação dos devotos orando ao Senhor: \"Meu Senhor, sei que as jovens têm afeição natural pelos rapazes, e que os rapazes têm afeição natural pelas jovens. Estou orando a Teus pés de lótus para que minha mente se sinta atraída por Ti da mesma forma espontânea.\" O exemplo é muito apropriado. Quando um rapaz ou uma jovem vê um membro do sexo oposto, há uma atração natural, sem necessidade de qualquer apresentação. Sem qualquer treinamento, há uma atração natural devida ao impulso sexual. Este é um exemplo material, mas o devoto está orando para poder desenvolver um apego espontâneo semelhante pelo Senhor Supremo, livre de qualquer desejo de lucro e sem qualquer outra causa. Esta atração natural pelo Senhor é o estágio perfeito da autorrealização.\n\nNo mesmo *Skanda Purāṇa* há uma afirmação sobre a submissão e a humildade. Ali se afirma: \"Meu querido Senhor, não há entidade viva pecaminosa que seja mais pecadora do que eu. Tampouco há ofensor maior do que eu. Sou tão grandemente pecaminoso e ofensivo que, quando venho confessar minhas atividades pecaminosas diante de Ti, fico envergonhado.\" Esta é uma posição natural para um devoto. No que diz respeito à alma condicionada, não é de admirar que ela tenha algumas atividades pecaminosas em sua vida passada, e isso deve ser admitido e confessado diante do Senhor. Tão logo isto seja feito, o Senhor perdoa o devoto sincero. Mas isto não significa que se deva tirar proveito da misericórdia imotivada do Senhor e esperar ser perdoado repetidas vezes, enquanto se cometem as mesmas atividades pecaminosas. Tal mentalidade é apenas para pessoas sem vergonha. Aqui se diz claramente: \"Quando venho confessar minhas atividades pecaminosas, fico envergonhado.\" Assim, se uma pessoa não se envergonha de suas atividades pecaminosas e continua a cometer as mesmas atividades pecaminosas, com a consciência de que o Senhor a perdoará, isso é uma proposta das mais despropositadas. Tal ideia não é aceita em nenhuma parte da literatura Védica. É um fato que, por cantar o santo nome do Senhor, a pessoa fica lavada e limpa de todas as atividades pecaminosas de sua vida passada. Mas isto não significa que, após ser lavado, se deva começar de novo atividades pecaminosas e esperar ser lavado outra vez. Estas são propostas despropositadas e não são admitidas no serviço devocional. Alguém pode pensar: \"Durante uma semana inteira posso cometer atividades pecaminosas, e durante um dia irei ao templo ou à igreja e admitirei minhas atividades pecaminosas, para que eu possa ser lavado e começar de novo a pecar.\" Isto é o mais despropositado e ofensivo, e não é aceitável para o autor do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu.*\n\nNo *Nārada-pañcarātra* há uma afirmação de submissão acompanhada do desejo de perfeição. O devoto diz: \"Meu querido Senhor, quando virá aquele dia em que me pedirás para abanar Teu corpo, e, segundo o Teu prazer, dirás: 'Abana-Me apenas desta maneira'?\" A ideia neste verso é que o devoto deseja abanar pessoalmente o corpo da Suprema Personalidade de Deus. Isto significa que ele deseja tornar-se o companheiro pessoal do Senhor Supremo. Naturalmente, qualquer devoto, em qualquer condição — seja como servo, amigo ou amante conjugal — sempre tem associação direta com o Senhor. Mas, segundo seu diferente gosto individual, a pessoa deseja apenas uma destas relações. Aqui o devoto deseja tornar-se servo do Senhor e deseja abanar o Senhor, assim como faz Sua energia interna, Lakṣmī, a deusa da fortuna. Ele também deseja que a Personalidade de Deus tenha o prazer de dar-lhe orientações sobre como abanar. Esta submissão com desejo transcendental, ou *lālasāmayī vijñapti,* é o mais elevado estágio perfeito da realização espiritual.\n\nNo mesmo *Nārada-pañcarātra,* há outra expressão de submissão, na qual o devoto diz: \"Meu querido Senhor, ó Tu de olhos de lótus, quando virá aquele dia em que, à margem do Yamunā, eu me tornarei exatamente como um louco e continuarei a cantar Teu santo nome, enquanto lágrimas incessantes fluem de meus olhos?\" Este é outro estágio perfeito. O Senhor Caitanya também desejou que \"um momento me pareça doze anos de tempo, e o mundo inteiro me pareça vazio por não Te ver, meu querido Senhor.\" Deve-se orar com sentimento e tornar-se ávido por prestar seu tipo particular de serviço ao Senhor. Este é o ensinamento de todos os grandes devotos, especialmente o do Senhor Caitanya.\n\nEm outras palavras, deve-se aprender a chorar pelo Senhor. Deve-se aprender esta pequena técnica, e a pessoa deve ser muito ávida e de fato chorar para ocupar-se em algum tipo particular de serviço. Isso se chama *laulyam,* e tais lágrimas são o preço da mais elevada perfeição. Se a pessoa desenvolve este *laulyam,* ou ânsia excessiva por encontrar e servir o Senhor de uma maneira particular, esse é o preço para entrar no reino de Deus. Caso contrário, não há cálculo material para o valor do bilhete pelo qual se pode entrar no reino de Deus. O único preço para tal entrada é este *laulyam lālasāmayī,* ou desejo e grande ânsia.\n\n## Orações\n\nSegundo grandes eruditos, o *Bhagavad-gītā* inteiro contém muitas orações autorizadas, especialmente no Décimo Primeiro Capítulo, onde Arjuna ora à forma universal do Senhor. De modo semelhante, no *Gautamīya-tantra* todos os versos são chamados orações. Outra vez no *Śrīmad-Bhāgavatam,* há centenas de orações ao Senhor. Assim, o devoto deve selecionar algumas destas orações para sua recitação. No *Skanda Purāṇa* as glórias destas orações são declaradas da seguinte forma: \"Os devotos cujas línguas estão sempre decoradas com orações ao Senhor Kṛṣṇa recebem sempre respeito até mesmo das grandes pessoas santas e dos sábios, e tais devotos são de fato adoráveis pelos semideuses.\"\n\nAqueles que são menos inteligentes querem adorar diferentes semideuses, em busca de algum ganho material, em vez de adorar Kṛṣṇa. Mas aqui se afirma que um devoto que está sempre ocupado em oferecer orações ao Senhor é adorável até pelos próprios semideuses. Os devotos puros nada têm a pedir a qualquer semideus; ao contrário, os semideuses é que estão ansiosos por oferecer orações aos devotos puros.\n\nNo *Nṛsiṁha Purāṇa* afirma-se: \"Qualquer pessoa que venha diante da Deidade do Senhor Kṛṣṇa e comece a cantar diferentes orações é imediatamente aliviada de todas as reações das atividades pecaminosas e torna-se elegível, sem qualquer dúvida, a entrar em Vaikuṇṭha-loka.\"\n\n## Honrar o Prasādam\n\nHá esta afirmação específica no *Padma Purāṇa:* \"Uma pessoa que honra o *prasādam* e o come regularmente, não exatamente diante da Deidade, junto com o *caraṇāmṛtam* [a água oferecida aos pés de lótus do Senhor, misturada com sementes da árvore de *tulasī*], pode imediatamente alcançar os resultados das atividades piedosas que se obtêm por meio de dez mil execuções de ritos sacrificiais.\"\n\nO *caraṇāmṛtam* é obtido pela manhã, enquanto o Senhor é lavado antes de ser vestido. Perfumada com essências e flores, a água desliza por Seus pés de lótus, é recolhida e misturada com iogurte. Dessa maneira, este *caraṇāmṛtam* não só fica com um sabor muito agradável, mas também tem um tremendo valor espiritual. Descreve-se no *Padma Purāṇa* que mesmo uma pessoa que nunca foi capaz de dar em caridade, que nunca foi capaz de executar um grande sacrifício, que nunca foi capaz de estudar os *Vedas,* que nunca foi capaz de adorar o Senhor — ou, em outras palavras, mesmo alguém que nunca fez qualquer atividade piedosa —, se simplesmente beber o *caraṇāmṛtam* que é mantido no templo, tornar-se-á elegível a entrar no reino de Deus. No templo, é costume que o *caraṇāmṛtam* seja mantido em um grande pote. Os devotos que vêm visitar e oferecer respeitos à Deidade tomam muito submissamente três gotas de *caraṇāmṛtam* e sentem-se felizes em bem-aventurança transcendental.\n\n## Inalar o Aroma do Incenso\n\nNo *Hari-bhakti-sudhodaya* há uma afirmação sobre o incenso que é oferecido no templo: \"Quando os devotos inalam o bom aroma do incenso que é oferecido à Deidade, eles assim ficam curados dos efeitos venenosos da contaminação material, tanto quanto alguém fica curado de uma picada de cobra ao cheirar as ervas medicinais prescritas.\" A explicação deste verso é que há uma erva encontrada nas selvas que as pessoas peritas sabem usar para reanimar a consciência de quem é picado por uma cobra. Simplesmente por cheirar aquela erva, a pessoa fica imediatamente aliviada dos efeitos venenosos da picada de cobra. O mesmo exemplo é aplicável: quando uma pessoa vem visitar o templo e cheira o incenso oferecido à Deidade, ela é curada, nesse momento, de toda a sua contaminação material.\n\nQualquer devoto que entra no templo deve sempre oferecer algo à Deidade — fruta, flores, incenso etc. Se não puder oferecer nada em dinheiro, deve-se oferecer alguma outra coisa. Na Índia, o sistema é que todas as senhoras e senhores que vêm pela manhã visitar o templo trazem muitas coisas. Mesmo um punhado de arroz ou um punhado de farinha pode ser oferecido. É um princípio regulativo que não se deve ir ver uma pessoa santa ou a Deidade no templo sem qualquer oferenda. A oferenda pode ser muito humilde, ou pode não ter preço. Mesmo uma flor, uma frutinha, um pouco de água — o que quer que seja possível — deve ser oferecido. Assim, quando o devoto vem oferecer algo à Deidade pela manhã, certamente cheirará o bom aroma do incenso, e então, de imediato, ficará limpo do efeito venenoso da existência material.\n\nAfirma-se no *Tantra-śāstra:* \"Se o aroma da guirlanda que foi oferecida à Deidade no templo entra nas narinas de uma pessoa, imediatamente seu cativeiro às atividades pecaminosas fica desfeito. E, mesmo que alguém não tenha atividades pecaminosas, ainda assim, por cheirar tais restos de flores, pode avançar de māyāvādī (impersonalista) a devoto.\" Há vários exemplos disto, sendo um dos principais o avanço dos quatro Kumāras. Eles eram māyāvādīs impersonalistas, mas, após cheirar os restos das flores e do incenso no templo, voltaram-se para se tornarem devotos. Pelo verso acima, parece que os māyāvādīs, ou impersonalistas, estão mais ou menos contaminados. Não são puros.\n\nConfirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam:* \"Aquele que não lavou todas as reações das atividades pecaminosas não pode ser um devoto puro. Um devoto puro não tem mais dúvidas sobre a supremacia da Personalidade de Deus, e assim ele se ocupa em consciência de Kṛṣṇa e no serviço devocional.\" Há uma afirmação semelhante no *Agastya-saṁhitā:* apenas para purificar as impurezas de nossas narinas, devemos tentar cheirar os restos das flores oferecidas a Kṛṣṇa no templo.\n\n## Tocar a Deidade\n\nNo *Viṣṇu-dharmottara* há uma afirmação sobre tocar os pés de lótus do Senhor. Diz-se: \"Somente uma pessoa que é iniciada como vaiṣṇava e que está executando serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa tem o direito de tocar o corpo da Deidade.\" Na Índia houve agitação durante o movimento político de Gandhi, porque as classes de homens de baixo nascimento, como os varredores de rua e os *caṇḍālas,* são proibidos, segundo o sistema Védico, de entrar no templo. Devido a seus hábitos impuros, são proibidos, mas, ao mesmo tempo, recebem outras facilidades, para que possam ser elevados ao mais alto grau de serviço devocional pela associação com devotos puros. Um homem nascido em qualquer família não é barrado, mas precisa ser purificado. Esse processo de purificação deve ser adotado. Gandhi queria torná-los limpos simplesmente carimbando-os com um nome fictício, *Hari-jana* (filhos de Deus), e assim houve um grande cabo de guerra entre os proprietários dos templos e os seguidores de Gandhi.\n\nMas, de qualquer modo, a lei atual é a lei de toda escritura — que, se alguém é purificado, pode entrar no templo. Na verdade, esta é a posição. Somente quem é devidamente iniciado, quem segue devidamente as regras e regulações, pode entrar e tocar a Deidade — não todos. E quem toca o corpo da Deidade, seguindo tais princípios regulativos, é imediatamente libertado da contaminação dos pecados materiais, e todos os seus desejos são satisfeitos sem demora.\n\nNo *Varāha Purāṇa* também há uma afirmação que louva o tocar a Deidade de Śrī Kṛṣṇa no templo. Um devoto diz ali: \"Minha querida Vasundharā, qualquer pessoa que vá a Vṛndāvana e veja a Deidade de Govindadeva fica livre do tribunal de Yamarāja e tem permissão de entrar no mais elevado sistema planetário, onde residem os semideuses.\" Isto significa que mesmo uma pessoa comum que vá a Vṛndāvana por curiosidade e, por acaso, veja o templo, especialmente o de Govindadeva, ainda que não seja elevada ao reino espiritual, tem assegurada a promoção aos sistemas planetários superiores. Isto significa que, simplesmente por visitar a Deidade de Govinda em Vṛndāvana, a pessoa eleva-se grandemente na vida piedosa.\n\n## Observar o Ārātrika e as Celebrações do Senhor\n\nNo *Skanda Purāṇa* há a seguinte descrição do resultado de ver o *ārātrika* (a adoração) da Deidade: \"Se alguém vê o rosto do Senhor enquanto o *ārātrika* está em andamento, pode ser aliviado de todas as reações pecaminosas provenientes de muitos e muitos milhares e milhões de anos passados. É até mesmo perdoado da morte de um *brāhmaṇa* ou de atividades proibidas semelhantes.\"\n\nComo já explicamos, há diferentes cerimônias a serem observadas, tais como o aniversário de Kṛṣṇa, o aniversário do Senhor Rāmacandra, o aniversário de alguns vaiṣṇavas proeminentes, a cerimônia de Jhulan-yātrā com o Senhor sentado em um balanço, Dola-yātrā (as atividades do Senhor no mês de março), e assim por diante. Em todos os festivais, o Senhor é sentado em um carro, e o carro se move pelas diferentes ruas da cidade, para que as pessoas possam aproveitar a oportunidade de visitar o Senhor. No *Bhaviṣya Purāṇa* diz-se: \"Em tal cerimônia, se mesmo um *caṇḍāla* [comedor de cães], simplesmente por curiosidade, vê o Senhor no carro, ele passa a ser contado como um dos associados de Viṣṇu.\"\n\nNo *Garuḍa Purāṇa* afirma-se: \"Qualquer pessoa que, com alegria, veja a adoração à Deidade no templo obterá os resultados do *kriyā-yoga* que estão descritos na escritura *Pañcarātra.*\" O *kriyā-yoga* é um sistema de prática muito parecido com o serviço devocional prático, mas é especialmente destinado aos *yogīs* místicos. Em outras palavras, por este processo gradual, os *yogīs* místicos acabam por ser elevados ao serviço devocional do Senhor."}
{"ref": "nod/10", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/10/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "10. Técnicas de Ouvir e Memorizar", "purport": "O começo da consciência de Kṛṣṇa e do serviço devocional é o ouvir, que em sânscrito se chama śravaṇam. A todas as pessoas deve ser dada a chance de vir e juntar-se aos grupos devocionais, para que possam ouvir. Este ouvir é muito importante para progredir na consciência de Kṛṣṇa. Quando a pessoa liga seus ouvidos para dar recepção auricular às vibrações transcendentais, ela pode rapidamente purificar-se e limpar-se no coração. O Senhor Caitanya afirmou que este ouvir é muito importante. Ele limpa o coração da alma contaminada, de modo que ela rapidamente se qualifica para entrar no serviço devocional e compreender a consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nNo Garuḍa Purāṇa, a ênfase no ouvir é expressa muito bem. Diz-se ali: \"O estado da vida condicionada no mundo material é exatamente como um homem deitado inconsciente, tendo sido picado por uma cobra. Isto porque ambos esses estados inconscientes podem ser encerrados pelo som de um mantra.\" Quando um homem é picado por uma cobra, ele não morre imediatamente, mas primeiro fica inconsciente e permanece em estado de coma. Qualquer pessoa que está no mundo material também está dormindo, pois ignora seu verdadeiro eu, seu verdadeiro dever e sua relação com Deus. Portanto, a vida materialista significa que a pessoa foi picada pela cobra de māyā, a ilusão, e assim, sem nenhuma consciência de Kṛṣṇa, está quase morta. Pois bem, o suposto homem morto picado por uma cobra pode ser trazido de volta novamente à vida pelo cantar de algum mantra. Há cantadores peritos desses mantras que podem realizar este feito. De modo semelhante, a pessoa pode ser trazida de volta à consciência de Kṛṣṇa a partir do mortal estado inconsciente da vida material, por ouvir o mahā-mantra: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.\n\n\n\nNo Quarto Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 29º Capítulo, 37º verso, a importância de ouvir sobre os passatempos do Senhor é declarada por Śukadeva Gosvāmī a Mahārāj Parīkṣit: \"Meu querido rei, deve-se permanecer em um lugar onde os grandes ācāryas [mestres santos] falam sobre as atividades transcendentais do Senhor, e deve-se dar recepção auricular ao rio nectáreo que flui das faces semelhantes à lua de tais grandes personalidades. Se alguém continua ansiosamente a ouvir tais sons transcendentais, então certamente ficará livre de toda a fome, sede, medo e lamentação materiais, bem como de todas as ilusões da existência material.\"\n\n\n\nŚrī Caitanya Mahāprabhu também recomendou este processo de ouvir como um meio de autorrealização na presente era de Kali. Nesta era, é muito difícil seguir minuciosamente os princípios reguladores e os estudos dos *Vedas* que foram anteriormente recomendados. Contudo, se a pessoa dá recepção auricular ao som vibrado pelos grandes devotos e ācāryas, somente isso lhe dará alívio de toda a contaminação material. Por isso, é a recomendação de Caitanya Mahāprabhu que se deve simplesmente ouvir de autoridades que sejam realmente devotas do Senhor. Ouvir de homens profissionais não ajudará. Se ouvirmos daqueles que são realmente autorrealizados, então os rios nectáreos, como aqueles que fluem no planeta lunar, fluirão para dentro de nossos ouvidos. Esta é a metáfora usada no verso acima.\n\n\n\nComo se afirma no *Bhagavad-gītā*: \"Uma pessoa materialista pode abandonar seus anseios materiais somente por situar-se em consciência de Kṛṣṇa.\" A menos que a pessoa encontre uma ocupação superior, ela não será capaz de abandonar sua ocupação inferior. No mundo material, todos estão ocupados nas atividades ilusórias da energia inferior, mas, quando a pessoa recebe a oportunidade de saborear as atividades da energia superior realizadas por Kṛṣṇa, então ela esquece todos os seus prazeres menores. Quando Kṛṣṇa fala no campo de batalha de Kurukṣetra, à pessoa materialista parece que isto é simplesmente uma conversa entre dois amigos, mas, na verdade, é um rio de néctar fluindo da boca de Śrī Kṛṣṇa. Arjuna deu recepção auricular a tais vibrações e, assim, ficou livre de todas as ilusões dos problemas materiais.\n\n\n\nNo Décimo Segundo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 3º Capítulo, 12º verso, afirma-se: \"Uma pessoa que deseja o serviço devocional imaculado ao Senhor Kṛṣṇa, que é louvado por vibrações sonoras transcendentais, deve sempre ouvir sobre Sua glorificação e Suas qualidades transcendentais. Isto certamente matará todos os tipos de inauspiciosidade no coração.\"\n\n\n\nTambém no Décimo Canto, 14º Capítulo, 8º verso, diz-se: \"Meu querido Senhor, qualquer pessoa que está constantemente aguardando que Tua misericórdia imotivada lhe seja concedida, e que continua a sofrer as ações resultantes de seus malfeitos passados, oferecendo-Te respeitosas reverências do âmago de seu coração, certamente é elegível para tornar-se liberada, pois isso se tornou seu legítimo direito.\"\n\n\n\nEsta afirmação do *Śrīmad-Bhāgavatam* deve ser o guia de todos os devotos. Um devoto não deve esperar alívio imediato das reações de seus malfeitos passados. Nenhuma alma condicionada está livre de tais experiências reacionárias, porque a existência material significa contínuo sofrimento ou desfrute de atividades passadas. Se a pessoa tiver concluído suas atividades materiais, então não há mais nascimento. Isto é possível somente quando ela começa as atividades conscientes de Kṛṣṇa, porque tais atividades não produzem reação. Por isso, tão logo a pessoa se torne perfeita nas atividades conscientes de Kṛṣṇa, ela não voltará a tomar nascimento neste mundo material. Um devoto que não está perfeitamente livre das ações resultantes deve, portanto, continuar a agir em consciência de Kṛṣṇa com seriedade, ainda que possa haver muitíssimos impedimentos. Quando tais impedimentos surgem, ele deve simplesmente pensar em Kṛṣṇa e esperar Sua misericórdia. Esse é o único consolo. Se o devoto passa seus dias nesse espírito, é certo que ele será promovido à morada do Senhor. Por tais atividades, ele conquista seu direito de entrar no reino de Deus. A palavra exata usada neste verso é dāyabhāk. Dāyabhāk refere-se a um filho que se torna o herdeiro legítimo da propriedade do pai. De modo semelhante, um devoto puro que está preparado para sofrer todos os tipos de tribulações na execução dos deveres conscientes de Kṛṣṇa torna-se legitimamente qualificado a entrar na morada transcendental.\n\n\n\nDe uma maneira ou de outra, se alguém estabelece em sua mente sua relação contínua com Kṛṣṇa, esta relação chama-se lembrança. Sobre esta lembrança, há uma bela afirmação no *Viṣṇu Purāṇa*, onde se diz: \"Simplesmente por lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus, todas as entidades vivas tornam-se elegíveis para todos os tipos de auspiciosidade. Por isso, que eu sempre me lembre do Senhor, que é não nascido e eterno.\" No *Padma Purāṇa*, a mesma lembrança é explicada como segue: \"Que eu ofereça minhas respeitosas reverências ao Supremo Senhor Kṛṣṇa, porque, se alguém se lembra dEle, seja na hora da morte seja durante o curso de sua vida, ele se livra de todas as reações pecaminosas.\"\n\n\n\nMeditação significa ocupar a mente em pensar na forma do Senhor, nas qualidades do Senhor, nas atividades do Senhor e no serviço ao Senhor. Meditação não significa nada impessoal ou vazio. De acordo com a literatura Védica, a meditação é sempre na forma de Viṣṇu.\n\n\n\nNo Nṛsiṁha Purāṇa, há uma afirmação sobre a meditação na forma do Senhor. Diz-se ali: \"A meditação focada nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus tem sido aceita como transcendental e além da experiência da dor e do prazer materiais. Por tal meditação, mesmo alguém que é grosseiramente perverso pode ser libertado das reações pecaminosas de sua vida.\"\n\n\n\nNo Viṣṇu-dharma, há uma afirmação sobre a meditação na qualidade transcendental do Senhor. Diz-se: \"As pessoas que estão constantemente ocupadas em consciência de Kṛṣṇa, e que se lembram das qualidades transcendentais do Senhor, ficam livres de todas as reações a atividades pecaminosas e, após serem assim limpas, tornam-se aptas a entrar no reino de Deus.\" Em outras palavras, ninguém pode entrar no reino de Deus sem estar livre de todas as reações pecaminosas. As reações pecaminosas podem ser evitadas simplesmente por lembrar-se da forma, das qualidades, dos passatempos, etc., do Senhor.\n\n\n\nNo *Padma Purāṇa*, há uma afirmação sobre lembrar-se das atividades do Senhor: \"Uma pessoa que está sempre ocupada em meditação nos doces passatempos e nas maravilhosas atividades do Senhor certamente se livra de toda a contaminação material.\"\n\n\n\nMeditação na Execução do Serviço Devocional\n\n\n\nEm alguns dos *Purāṇas*, dá-se a evidência de que, se alguém está simplesmente meditando nas atividades devocionais, ele alcançou o resultado desejado e viu face a face a Suprema Personalidade de Deus. A esse respeito, há uma história no Brahma-vaivarta Purāṇa que conta que, na cidade de Pratiṣṭhānapura, no sul da Índia, viveu certa vez um brāhmaṇa que não era muito abastado, mas que, mesmo assim, estava satisfeito consigo mesmo, pensando que, por causa de seus malfeitos passados e pelo desejo de Kṛṣṇa, ele não obtivera dinheiro e opulência suficientes. Assim, ele não estava de modo algum pesaroso com sua pobre posição material, e costumava viver muito pacificamente. Ele era muito franco e, às vezes, ia ouvir algumas palestras proferidas por grandes almas realizadas. Em uma dessas reuniões, enquanto ouvia muito fielmente sobre as atividades vaiṣṇavas, ele foi informado de que essas atividades podem ser realizadas até mesmo por meio da meditação. Em outras palavras, se uma pessoa é incapaz de realizar de fato as atividades vaiṣṇavas fisicamente, ela pode meditar nas atividades vaiṣṇavas e, com isso, adquirir todos os mesmos resultados. Como o brāhmaṇa não era muito abastado financeiramente, ele decidiu que simplesmente meditaria em grandiosas e régias atividades devocionais, e começou esse empreendimento da seguinte maneira:\n\n\n\nÀs vezes, ele tomava seu banho no Rio Godāvarī. Após tomar seu banho, sentava-se em um lugar isolado na margem do rio e, por praticar os exercícios de yoga do prāṇāyāma, o costumeiro exercício de respiração, concentrava sua mente. Este exercício de respiração destina-se a fixar mecanicamente a mente em um assunto particular. Esse é o resultado do exercício de respiração e também das diferentes posturas sentadas do yoga. Antigamente, mesmo pessoas bastante comuns costumavam saber como fixar a mente na lembrança do Senhor, e assim o brāhmaṇa fazia isso. Quando havia fixado a forma do Senhor em sua mente, ele começava a imaginar em suas meditações que estava vestindo o Senhor muito bem, com roupas custosas, com ornamentos, elmos e outros apetrechos. Então, oferecia suas respeitosas reverências, prostrando-se diante do Senhor. Após terminar de vesti-Lo, começava a imaginar que estava limpando o templo muito bem. Após limpar o templo, imaginava que tinha muitas jarras de água feitas de ouro e prata, e levava todas aquelas jarras ao rio e as enchia com a água sagrada. Não apenas coletava água do Godāvarī, mas coletava do Ganges, do Yamunā, do Narmadā e do Kāverī. Geralmente, um Vaiṣṇava, enquanto adora o Senhor, coleta água de todos esses rios por meio do canto de mantras. Este brāhmaṇa, em vez de cantar algum mantra, imaginava que estava fisicamente obtendo água de todos esses rios em potes de água de ouro e prata. Então, coletava todos os tipos de apetrechos de adoração — flores, frutas, incenso e polpa de sândalo. Coletava tudo para colocar diante da Deidade. Todas essas águas, flores e artigos perfumados eram então muito bem oferecidos às Deidades para Sua satisfação. Em seguida, ele oferecia o ārātrika e, com os princípios reguladores, concluía todas essas atividades no correto método de adoração.\n\n\n\nEle executava diariamente realizações semelhantes como seu trabalho rotineiro, e continuou a fazê-lo por muitos e muitos anos. Então, um dia, o brāhmaṇa imaginou em suas meditações que tinha preparado um arroz-doce com leite e açúcar e oferecido a preparação à Deidade. Contudo, ele não estava muito satisfeito com a oferenda, porque o arroz-doce tinha sido preparado havia pouco e ainda estava muito quente. (Esta preparação, o arroz-doce, não deve ser tomada quente. Quanto mais frio o arroz-doce, melhor seu sabor.) Portanto, como o arroz-doce fora preparado havia muito pouco pelo brāhmaṇa, ele quis tocá-lo para poder saber se estava em condições de ser comido pelo Senhor. Tão logo tocou o pote de arroz-doce com o dedo, ele imediatamente se queimou com o calor do pote. Dessa maneira, sua meditação se rompeu. Pois bem, quando olhou para seu dedo, viu que estava queimado, e ficou imaginando, com espanto, como isso poderia ter acontecido. Como estava simplesmente meditando em tocar o quente arroz-doce, ele nunca pensou que seu dedo realmente se queimaria.\n\n\n\nEnquanto pensava assim, em Vaikuṇṭha o Senhor Nārāyaṇa, sentado com a deusa da fortuna, Lakṣmī, começou a sorrir bem-humorado. Ao verem este sorriso do Senhor, todas as deusas da fortuna que estavam atendendo o Senhor ficaram muito curiosas e perguntaram ao Senhor Nārāyaṇa por que Ele estava sorrindo. O Senhor, contudo, não respondeu à curiosidade delas, mas, em vez disso, imediatamente mandou chamar o brāhmaṇa. Um avião enviado de Vaikuṇṭha trouxe imediatamente o brāhmaṇa à presença do Senhor Nārāyaṇa. Quando o brāhmaṇa esteve assim presente diante do Senhor e das deusas da fortuna, o Senhor explicou toda a história. O brāhmaṇa teve então a fortuna suficiente de obter um lugar eterno em Vaikuṇṭha, na associação do Senhor e de Suas Lakṣmīs. Isto mostra como o Senhor é onipenetrante, apesar de estar situado localmente em Sua morada. Embora o Senhor estivesse presente em Vaikuṇṭha, Ele estava presente também no coração do brāhmaṇa quando este meditava no processo de adoração. Assim, podemos compreender que as coisas oferecidas pelos devotos, mesmo em meditação, são aceitas pelo Senhor, e elas ajudam a pessoa a alcançar o resultado desejado."}
{"ref": "nod/11", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/11/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "11. Aspectos do Serviço Transcendental", "purport": "## Atitude de servo\n\nNa opinião dos *karmīs* (trabalhadores fruitivos), oferecer os resultados do *karma* chama-se atitude de servo. Mas, segundo os *ācāryas* vaiṣṇavas como Rūpa Gosvāmī, atitude de servo significa estar constantemente ocupado em algum tipo de serviço ao Senhor.\n\nNo *Skanda Purāṇa*, afirma-se que aqueles que estão apegados às atividades ritualísticas, às quatro ordens da vida social e às quatro ordens da vida espiritual são considerados devotos. Mas, quando os devotos de fato se ocupam em oferecer serviço diretamente ao Senhor, esses são *bhāgavatas*, ou devotos puros. Aqueles que se ocupam em atividades fruitivas, ou em deveres prescritos de acordo com as quatro ordens da vida social e espiritual, não são propriamente devotos puros. Mesmo assim, por estarem oferecendo o resultado ao Senhor, eles são aceitos como devotos. Quando alguém não tem semelhante desejo, mas age espontaneamente por amor a Deus, tal pessoa deve ser aceita como devoto puro. As almas condicionadas que entraram em contato com o mundo material são todas, em maior ou menor grau, desejosas de assenhorear-se da natureza material. O sistema de *varṇāśrama* e os deveres prescritos sob este sistema são concebidos de modo que a alma condicionada possa desfrutar no mundo material conforme seu desejo de gratificação dos sentidos e, ao mesmo tempo, elevar-se gradualmente à compreensão espiritual. Sob esses deveres prescritos de *varṇa* e *āśrama*, há muitas atividades que pertencem ao serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Os devotos que são chefes de família aceitam as cerimônias ritualísticas Védicas, bem como os deveres prescritos do serviço devocional, porque ambos se destinam a satisfazer Kṛṣṇa. Quando os devotos chefes de família realizam alguns deveres ritualísticos Védicos, fazem-no para satisfazer Kṛṣṇa. Como já discutimos antes, qualquer atividade que vise satisfazer a Suprema Personalidade de Deus é considerada serviço devocional.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī descreve quem está apto a ocupar-se em serviço devocional. Ele diz que as pessoas que são neófitas e que desenvolveram um pouco de amor a Deus não se interessam pelas atividades de gratificação dos sentidos, na proporção de sua devoção. Mas, se ainda há alguma atração pelas atividades de gratificação dos sentidos, então o resultado de tais atividades deve ser oferecido a Kṛṣṇa. Isso também se chama ocupação no serviço ao Senhor, com o Senhor como mestre e o trabalhador como servo.\n\nNo *Nāradīya Purāṇa*, há uma afirmação sobre como esta atitude de servo é transcendental. Ali se diz que a pessoa que está constantemente ocupada em serviço devocional com seu corpo, mente e palavras, ou mesmo a pessoa que não está praticamente ocupada, mas simplesmente deseja estar, é considerada liberada.\n\n## Serviço Devocional em Amizade\n\nO serviço devocional em amizade pode ser dividido em duas categorias: a primeira é agir como servo confidencial do Senhor, e a outra é agir como benquerente do Senhor. O devoto que tem confiança no serviço devocional ao Senhor segue sistematicamente as regras e regulações, com a fé de que alcançará a plataforma da vida transcendental. O segundo tipo de amizade devocional é tornar-se benquerente da Suprema Personalidade de Deus. No *Bhagavad-gītā*, diz-se que o Senhor aceita um pregador como o servo mais querido. Qualquer um que esteja pregando a mensagem confidencial do *Gītā* às pessoas em geral é tão querido por Kṛṣṇa que ninguém pode igualar-se a ele na sociedade humana.\n\nNo *Mahābhārata*, Draupadī diz: \"Meu querido Govinda, Tua promessa é que Teu devoto jamais pode ser vencido. Eu acredito nessa afirmação e, portanto, em toda sorte de tribulações, simplesmente lembro-me de Tua promessa e, assim, vivo.\" O significado é que Draupadī e seus cinco maridos, os Pāṇḍavas, foram colocados em severas tribulações por seu primo-irmão, Duryodhana, bem como por outros. As tribulações eram tão severas que mesmo Bhīṣmadeva, que era tanto um *brahmacārī* por toda a vida quanto um grande guerreiro, às vezes derramava lágrimas ao pensar nelas. Ele sempre se surpreendia de que, embora os Pāṇḍavas fossem tão retos e Draupadī fosse praticamente a deusa da fortuna, e embora Kṛṣṇa fosse seu amigo, ainda assim tivessem de passar por tribulações tão severas. Embora suas tribulações não fossem comuns, ainda assim Draupadī não se desencorajou. Ela sabia que, por Kṛṣṇa ser seu amigo, no final seriam salvos.\n\nHá uma afirmação semelhante no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 2º Capítulo, 5º verso, onde Havi, o filho do rei Ṛṣabha, dirige-se a Mahārāja Nimi: \"Meu querido rei, a pessoa que jamais se desvia, nem por um momento, da ocupação no serviço aos pés de lótus da Pessoa Suprema (ocupação que é buscada até mesmo por grandes semideuses como Indra), com a firme convicção de que não há nada mais digno de adoração ou desejável do que isso, chama-se devoto de primeira classe.\"\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī diz que um devoto neófito que simplesmente desenvolveu um leve amor a Deus é certamente um candidato em potencial ao serviço devocional. Quando ele se fixa firmemente em tal serviço devocional, esse status assegurado torna-se uma parte confidencial de seu serviço devocional.\n\nÀs vezes, observa-se que um devoto puro se deita no templo do Senhor a fim de servi-Lo como amigo confidencial. Tal comportamento amistoso de um devoto pode ser aceito como *rāgānugā*, ou espontâneo. Embora, de acordo com os princípios regulativos, ninguém possa deitar-se no templo da Suprema Personalidade de Deus, este amor espontâneo a Deus pode ser agrupado sob o serviço devocional em amizade.\n\n## Render Tudo ao Senhor\n\nQuanto à completa auto-rendição, há uma bela descrição no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 29º Capítulo, 32º verso, onde o Senhor diz: \"A pessoa que se rendeu completamente a Mim e abandonou por completo todas as outras atividades é protegida por Mim pessoalmente, tanto nesta vida quanto na próxima. Em outras palavras, desejo ajudá-la a tornar-se cada vez mais avançada na vida espiritual. Tal pessoa deve ser compreendida como tendo já alcançado *sārṣṭi* [possuir opulências iguais às do Supremo].\" Também se confirma no *Bhagavad-gītā* que, tão logo a pessoa se rende aos pés de lótus de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa encarrega-se dela e lhe dá uma garantia de proteção contra todas as reações pecaminosas. Ele também instrui a partir de dentro, para que o devoto possa, muito rapidamente, fazer avanço rumo à perfeição espiritual.\n\nEsta auto-rendição chama-se *ātma-nivedana*. De acordo com diferentes autoridades, o \"eu\" é definido de maneiras diferentes. Por vezes, considera-se que o \"eu\" se refere ao eu espiritual, ou alma, e, por vezes, considera-se que o \"eu\" se refere à mente ou ao corpo. A plena auto-rendição, portanto, significa não apenas render o próprio eu como alma espiritual, mas também render a mente e o corpo ao serviço do Senhor. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura cantou uma bela canção a este respeito. Enquanto se oferecia como alma plenamente rendida, ele disse: \"Minha mente, meus afazeres domésticos, meu corpo, tudo o que está em minha posse, meu querido Senhor, ofereço a Ti para Teu serviço. Agora podes fazer com eles o que quiseres. Tu és o possuidor supremo de tudo, de modo que, se quiseres, podes matar-me, ou, se quiseres, podes dar-me proteção. Toda autoridade pertence a Ti. Nada tenho a reivindicar como meu.\"\n\nŚrī Yāmunācārya, em suas orações ao Senhor, expressou uma ideia semelhante com as seguintes palavras: \"Meu querido Senhor, posso estar vivendo dentro de algum corpo como ser humano ou como semideus, mas, qualquer que seja o modo de vida, não me importo, porque estes corpos são simplesmente subprodutos dos três modos da natureza material e eu, que estou de posse destes corpos, estou rendendo-me a Ti.\"\n\nNo *Hari-bhakti-viveka*, há uma afirmação sobre como se pode oferecer o próprio corpo em auto-rendição. Ali, o devoto diz: \"Meu querido Senhor, assim como um animal vendido não tem necessidade de pensar em sua manutenção e sustento, da mesma forma, por ter eu entregado meu corpo e minha alma a Ti, não me preocupo mais com minha manutenção e meu sustento.\" Em outras palavras, não se deve incomodar com a manutenção ou o sustento pessoal ou familiar. Se a pessoa está de fato rendida em corpo e alma, deve sempre lembrar-se de que sua única preocupação é estar ocupada no serviço ao Senhor.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī diz que o serviço devocional em amizade e o serviço devocional em auto-rendição são dois processos difíceis. Por conseguinte, tais relações com o Senhor podem ser vistas muito raramente. Somente para os devotos avançados esses dois processos são facilmente executados. O significado é que é muito raro ver a rendição mesclada com sincera devoção extática. A pessoa deve entregar-se completamente à vontade do Senhor.\n\nNo Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, 40º verso, 11º Capítulo, o Senhor Kṛṣṇa diz a Uddhava: \"Meu querido amigo, se alguém Me oferece a melhor coisa que possui, ou qualquer coisa que lhe seja muito agradável, será eternamente beneficiado.\"\n\nNo *Nārada-pañcarātra*, há uma afirmação sobre como se pode agir em todas as esferas da vida para a satisfação do Senhor. Ali se afirma que a pessoa que está de fato em serviço devocional deve ocupar-se em toda sorte de atividades, tanto as prescritas nas escrituras reveladas quanto as que são aceitas para o sustento. Em outras palavras, o devoto deve ocupar-se não apenas nos deveres prescritos do serviço devocional que são mencionados nas escrituras reveladas, mas também deve realizar os deveres de sua vida prática em consciência de Kṛṣṇa. Por exemplo, um devoto que possui um grande estabelecimento, ou uma fábrica, pode oferecer os frutos de tal posse material para o serviço ao Senhor.\n\nNo *Hari-bhakti-vilāsa*, há a seguinte afirmação sobre a auto-rendição: \"Meu querido Senhor, a pessoa que se rendeu a Ti, e que está na firme convicção de que é Tua, e que de fato age dessa maneira com seu corpo, mente e palavras, pode de fato saborear a bem-aventurança transcendental.\"\n\nNo *Nṛsiṁha Purāṇa*, o Senhor Nṛsiṁhadeva diz: \"Qualquer um que ore a Mim e se abrigue em Mim torna-se Meu protegido, e Eu sempre o protejo de toda sorte de calamidades.\"\n\n## Servir Árvores como a Tulasī\n\nNo *Skanda Purāṇa*, há uma afirmação que enaltece a árvore *tulasī* da seguinte maneira: \"Permita-me oferecer minhas respeitosas reverências à árvore *tulasī*, que pode imediatamente aniquilar volumes de atividades pecaminosas. Simplesmente por ver ou tocar esta árvore, a pessoa pode ficar aliviada de todas as aflições e doenças. Simplesmente por oferecer reverências e por derramar água sobre a árvore *tulasī*, a pessoa pode ficar livre do medo de ser enviada ao tribunal de Yamarāja [o Rei da morte, que pune os pecaminosos]. Se alguém planta uma árvore *tulasī* em algum lugar, certamente torna-se devoto do Senhor Kṛṣṇa. E quando as folhas de *tulasī* são oferecidas com devoção aos pés de lótus de Kṛṣṇa, há o pleno desenvolvimento do amor a Deus.\"\n\nNa Índia, todo hindu, mesmo aqueles que não pertencem ao grupo vaiṣṇava, tem cuidado especial com a árvore *tulasī*. Mesmo nas grandes cidades, onde é muito difícil manter uma árvore *tulasī*, encontram-se pessoas mantendo esta planta com muito cuidado. Elas a regam e lhe oferecem reverências, porque a adoração à árvore *tulasī* é muito importante no serviço devocional.\n\nNo *Skanda Purāṇa*, há outra afirmação sobre a *tulasī*, a saber: \"A *tulasī* é auspiciosa em todos os aspectos. Simplesmente por ver, simplesmente por tocar, simplesmente por lembrar, simplesmente por orar, simplesmente por inclinar-se diante dela, simplesmente por ouvir a seu respeito ou simplesmente por plantar esta árvore, há sempre auspiciosidade. Qualquer um que entre em contato com a árvore *tulasī* das maneiras mencionadas acima vive eternamente no mundo de Vaikuṇṭha.\""}
{"ref": "nod/12", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/12/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "12. Escrituras Reveladas", "purport": "De acordo com Śrīla Rūpa Gosvāmī, qualquer livro que dê esclarecimento na questão de avançar o serviço devocional é considerado escritura revelada. Śrīla Madhvācārya também definiu as *escrituras reveladas* como referindo-se a livros tais como o *Rāmāyaṇa*, o *Mahābhārata*, os *Purāṇas*, os *Upaniṣads*, o *Vedānta* — e qualquer outra literatura que seja escrita em conformidade com tais escrituras reveladas.\n\nNo *Skanda Purāṇa*, há a afirmação: \"A pessoa que está constantemente ocupada em ler a literatura que enuncia o cultivo do serviço devocional vaiṣṇava é sempre gloriosa na sociedade humana, e certamente o Senhor Kṛṣṇa fica satisfeito com ela. A pessoa que, com muito cuidado, mantém tal literatura em casa e lhe oferece respeitosas reverências fica livre de todas as reações pecaminosas e, por fim, torna-se digna de adoração pelos semideuses.\"\n\nDiz-se também a Nārada Muni: \"Meu querido Nārada, a pessoa que escreve literatura vaiṣṇava e mantém tal literatura em casa tem o Senhor Nārāyaṇa sempre residindo em seu lar.\"\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam*, Décimo Segundo Canto, 12º Capítulo, 12º verso, afirma-se: \"O *Śrīmad-Bhāgavatam* é a essência de toda a filosofia Vedānta. Qualquer pessoa que, de um modo ou de outro, tenha se apegado à leitura do *Śrīmad-Bhāgavatam* não pode ter gosto algum por ler qualquer outra literatura. Em outras palavras, a pessoa que saboreou a bem-aventurança transcendental do *Śrīmad-Bhāgavatam* não pode satisfazer-se com escritos mundanos.\"\n\nNo *Varāha Purāṇa*, há uma afirmação que louva os aposentos residenciais de Mathurā. O Senhor Varāha diz aos homens da Terra: \"Qualquer pessoa que se sinta atraída por lugares que não Mathurā certamente será cativada pela energia ilusória.\" No *Brahmāṇḍa Purāṇa*, diz-se que todos os resultados de viajar por todas as peregrinações dentro dos três mundos podem ser alcançados simplesmente por tocar a santa terra de Mathurā. Em muitos *śāstras* (escrituras), diz-se que, simplesmente por ouvir, lembrar, glorificar, desejar, ver ou tocar a terra de Mathurā, a pessoa pode alcançar todos os desejos.\n\nNo *Padma Purāṇa*, há uma bela afirmação que louva o serviço aos vaiṣṇavas, ou devotos. Naquela escritura, o Senhor Śiva diz a Pārvatī: \"Minha querida Pārvatī, há diferentes métodos de adoração e, de todos esses métodos, a adoração à Pessoa Suprema é considerada a mais elevada. Mas, ainda mais elevada do que a adoração ao Senhor, é a adoração aos devotos do Senhor.\"\n\nUma afirmação semelhante encontra-se no Terceiro Canto, 7º Capítulo, 19º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*: \"Que eu me torne um servo sincero dos devotos, pois, por servi-los, a pessoa pode alcançar serviço devocional imaculado aos pés de lótus do Senhor. O serviço aos devotos diminui todas as condições materiais miseráveis e desenvolve dentro da pessoa um profundo amor devocional pela Suprema Personalidade de Deus.\"\n\nNo *Skanda Purāṇa*, há uma afirmação semelhante: \"As pessoas cujos corpos estão marcados com *tilaka*, simbolizando o búzio, a roda, a clava e o lótus — e que mantêm as folhas de *tulasī* sobre suas cabeças, e cujos corpos estão sempre decorados com *gopī-candana* — mesmo vistas uma só vez, podem ajudar o observador a aliviar-se de todas as atividades pecaminosas.\"\n\nUma afirmação semelhante encontra-se no Primeiro Canto, 19º Capítulo, 30º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*: \"Não há dúvida de que a pessoa fica livre de todas as reações às atividades pecaminosas após visitar um devoto, ou tocar seus pés de lótus, ou dar-lhe um lugar para sentar-se. Mesmo por lembrar-se das atividades de tais vaiṣṇavas, a pessoa se purifica, juntamente com toda a sua família. E o que dizer, então, de prestar-lhe serviço direto?\"\n\nNo *Ādi Purāṇa*, há a seguinte afirmação do próprio Senhor Kṛṣṇa, dirigida a Arjuna: \"Meu querido Pārtha, aquele que afirma ser Meu devoto não o é. Apenas a pessoa que afirma ser devota de Meu devoto é, de fato, Meu devoto.\" Ninguém pode aproximar-se da Suprema Personalidade de Deus diretamente [[cc/madhya/13/80|[Cc. Madhya 13.80] ]]. Deve-se aproximar-Se dEle através de Seus devotos puros. Portanto, no sistema das atividades vaiṣṇavas, o primeiro dever é aceitar um devoto como mestre espiritual e, então, prestar-lhe serviço.\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī afirma que todas as citações apresentadas no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* a partir de diferentes escrituras são aceitas pelos grandes *ācāryas* e devotos do Senhor.\n\nNo *Padma Purāṇa*, há uma afirmação de que se devem realizar as cerimônias para o Senhor de acordo com a própria condição financeira. Todos devem observar, por todos os meios, as diferentes cerimônias e celebrações do Senhor. Uma das mais importantes dentre essas funções cerimoniais chama-se Ūrja-vrata. O Ūrja-vrata é observado no mês de Kārttika (outubro-novembro); especialmente em Vṛndāvana, há um programa específico para a adoração no templo ao Senhor em Sua forma de Dāmodara. Dāmodara refere-se ao fato de Kṛṣṇa ter sido amarrado com corda por Sua mãe, Yaśodā. Diz-se que, assim como o Senhor Dāmodara é muito querido por Seus devotos, da mesma forma o mês conhecido como Dāmodara, ou Kārttika, também lhes é muito querido.\n\nA execução do serviço devocional durante o Ūrja-vrata no mês de Kārttika é especialmente recomendada para ser realizada em Mathurā. Este sistema ainda é seguido por muitos devotos. Eles vão a Mathurā ou a Vṛndāvana e ali permanecem durante o mês de Kārttika, especificamente para realizar serviços devocionais durante este período.\n\nNo *Padma Purāṇa*, diz-se: \"O Senhor pode oferecer liberação ou felicidade material a um devoto, mas, depois de executado algum serviço devocional, particularmente em Mathurā durante o mês de Kārttika, os devotos desejam apenas alcançar o serviço devocional puro ao Senhor.\" O significado é que o Senhor não concede serviço devocional a pessoas comuns que não levam isso a sério. Mas mesmo essas pessoas que não levam a sério, e que executam serviço devocional de acordo com os princípios regulativos durante o mês de Kārttika, e dentro da jurisdição de Mathurā, na Índia, recebem muito facilmente o serviço pessoal ao Senhor.\n\nNo *Bhaviṣya Purāṇa*, há uma afirmação sobre observar diferentes cerimônias que celebram o aparecimento (aniversário) do Senhor e outras atividades transcendentais. Diz-se: \"Meu Senhor Janārdana [Kṛṣṇa], por favor, dá-nos a conhecer a data em que Tua mãe Devakī devī Te deu à luz. Se nos informares gentilmente sobre isso, então observaremos uma grande celebração nesta data. Ó matador de Keśī, somos almas cem por cento rendidas a Teus pés de lótus, e desejamos apenas agradar-Te com nossas cerimônias.\"\n\nEsta afirmação do *Bhaviṣya Purāṇa* dá evidência de que, por observar diferentes funções em relação com o Senhor, a pessoa está fadada a tornar-se agradável ao Senhor. Diz-se no *Ādi Purāṇa*: \"A pessoa que está constantemente ocupada em cantar o santo nome e que sente prazer transcendental, por estar ocupada em serviço devocional, é certamente agraciada com as facilidades do serviço devocional, e nunca lhe é dada apenas *mukti* [liberação].\"\n\n*Mukti* significa liberação da contaminação material; quando liberada, a pessoa não tem de nascer novamente no mundo material. Os impersonalistas desejam fundir-se na existência espiritual, pôr fim à sua existência individual, mas, de acordo com o *Śrīmad-Bhāgavatam*, *mukti* é apenas o começo de a pessoa situar-se em sua condição normal. A condição normal de toda entidade viva é estar ocupada no serviço devocional ao Senhor. Pela afirmação do *Ādi Purāṇa*, parece que um devoto se satisfaz simplesmente por estar ocupado em serviço devocional. Ele não aspira a qualquer liberação da vida material condicionada. Em outras palavras, qualquer um que esteja ocupado em serviço devocional não está na condição material da vida, embora possa parecer estar.\n\n## Recitação do Śrīmad-Bhāgavatam\n\nO *Śrīmad-Bhāgavatam* é a árvore-dos-desejos da sabedoria Védica. *Veda* em si significa o agregado do conhecimento. E todo o conhecimento que é requerido pela sociedade humana está perfeitamente apresentado no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Há diferentes ramos de conhecimento nos escritos Védicos, incluindo sociologia, política, medicina e arte militar. Todos esses e outros ramos de conhecimento estão perfeitamente descritos nos *Vedas*. Assim, no que se refere ao conhecimento espiritual, este também está perfeitamente descrito ali, e considera-se que o *Śrīmad-Bhāgavatam* é o fruto amadurecido desta árvore dos *Vedas* que satisfaz os desejos. Uma árvore é honrada pela produção de seu fruto. Por exemplo, uma mangueira é considerada muito valiosa porque produz o rei de todos os frutos, a manga. Quando a manga amadurece, é o maior presente daquela árvore, e o *Śrīmad-Bhāgavatam* é, de modo semelhante, tido como o fruto amadurecido da árvore Védica. E, assim como o fruto amadurecido torna-se mais saboroso quando tocado primeiro pelo bico de um papagaio, ou *suka*, da mesma forma o *Śrīmad-Bhāgavatam* tornou-se mais saboroso por ter sido entregue através da boca transcendental de Śukadeva Gosvāmī.\n\nO *Śrīmad-Bhāgavatam* deve ser recebido em sucessão discipular, sem qualquer ruptura. Quando um fruto amadurecido desce da parte superior da árvore até o chão pelo processo de ser passado de um galho mais alto para um galho mais baixo pelas pessoas que estão na árvore, o fruto não se quebra. O *Śrīmad-Bhāgavatam*, quando recebido no sistema *paramparā*, ou sucessão discipular, permanecerá igualmente intacto. Afirma-se no *Bhagavad-gītā* que a sucessão discipular, ou *paramparā*, é a maneira de receber o conhecimento transcendental. Tal conhecimento deve descer através da sucessão discipular, através de pessoas autorizadas que conhecem o verdadeiro propósito do *śāstra*.\n\nŚrī Caitanya Mahāprabhu recomendou que se aprendesse o *Śrīmad-Bhāgavatam* da boca da pessoa autorrealizada chamada *bhāgavatam*. *Bhāgavata* significa \"em relação com a Personalidade de Deus (Bhagavān).\" Assim, o devoto é, por vezes, chamado de *bhāgavatam*, e o livro que está em relação com o serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus também é chamado de *Bhāgavatam*. Śrī Caitanya Mahāprabhu recomendou que, a fim de saborear o verdadeiro gosto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, a pessoa deve receber instrução da pessoa *bhāgavatam*. O *Śrīmad-Bhāgavatam* é saboroso até mesmo para uma pessoa liberada. Foi admitido por Śukadeva Gosvāmī que, embora ele fosse liberado desde dentro do próprio ventre de sua mãe, foi somente após saborear o *Śrīmad-Bhāgavatam* que ele se tornou um grande devoto. Assim, aquele que deseja avançar em consciência de Kṛṣṇa deve saborear o significado do *Śrīmad-Bhāgavatam* através das discussões de devotos autorizados.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam*, Segundo Canto, 1º Capítulo, 9º verso, Śukadeva Gosvāmī admite que, embora ele estivesse muito atraído pelo Brahman impessoal, quando ouviu os passatempos transcendentais da Suprema Personalidade de Deus da boca de seu pai, Vyāsadeva, ele ficou mais atraído pelo *Śrīmad-Bhāgavatam*. A ideia é que Vyāsadeva também era uma alma autorrealizada, e sua madura contribuição de conhecimento transcendental foi entregue diretamente a Śukadeva Gosvāmī da maneira indicada.\n\nA importância de discutir o *Śrīmad-Bhāgavatam* na sociedade de devotos puros é explicada por Śaunaka Muni durante a reunião em Naimiṣāraṇya, na presença de Sūta Gosvāmī. Sūta Gosvāmī confirmou que, se alguém é afortunado o bastante para associar-se com um devoto puro do Senhor, mesmo que por um momento, esse momento em particular é tão valioso que mesmo aquelas atividades piedosas que podem promover a pessoa aos planetas celestiais, ou dar-lhe liberação das misérias materiais, não podem comparar-se a ele. Em outras palavras, aqueles que estão apegados ao *Śrīmad-Bhāgavatam* não se importam com qualquer tipo de benefício derivado da elevação aos reinos planetários superiores, nem com a liberação que é concebida pelos impersonalistas. Sendo assim, a associação de devotos puros é tão transcendentalmente valiosa que nenhum tipo de felicidade material pode comparar-se a ela.\n\nNo *Hari-bhakti-sudhodaya*, há uma conversa entre Prahlāda Mahārāja e seu pai, Hiraṇyakaśipu, na qual Hiraṇyakaśipu dirige-se a Prahlāda desta maneira: \"Meu querido filho, a associação é muito importante. Ela age exatamente como uma pedra de cristal, que reflete qualquer coisa que seja posta diante dela.\" De modo semelhante, se nos associarmos com os devotos do Senhor, semelhantes a flores, e se nossos corações forem claros como cristal, então certamente a mesma ação se dará ali. Outro exemplo dado a este respeito é que, se um homem é potente e se uma mulher não está doente, então, por sua união, haverá concepção. Da mesma maneira, se o recipiente do conhecimento espiritual e aquele que entrega o conhecimento espiritual forem sinceros e genuínos, haverá bons resultados."}
{"ref": "nod/13", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/13/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "13. O Mahā-mantra", "purport": "## O Mahā-mantra\n\nA importância de cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare é fortemente enfatizada no Segundo Canto, 1º Capítulo, 11º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, da seguinte maneira. Śukadeva Gosvāmī diz a Mahārāja Parīkṣit: \"Meu querido rei, se a pessoa está espontaneamente apegada ao canto do Hare Kṛṣṇa *mahā-mantra*, deve-se compreender que ela alcançou a mais elevada etapa de perfeição.\" Menciona-se especificamente que os *karmīs*, que aspiram aos resultados fruitivos de suas atividades, os salvacionistas, que aspiram a tornar-se um com a Pessoa Suprema, e os *yogīs*, que aspiram às perfeições místicas, podem alcançar os resultados de todas as etapas de perfeição simplesmente por cantar o *mahā-mantra*. Śukadeva usa a palavra *nirṇītam*, que significa \"já está decidido.\" Ele era uma alma liberada e, portanto, não podia aceitar nada que não fosse conclusivo. Assim, Śukadeva Gosvāmī enfatiza especialmente que já está concluído que aquele que chegou à etapa de cantar o Hare Kṛṣṇa *mantra* com determinação e constância deve ser considerado como tendo já passado pelas provas das atividades fruitivas, da especulação mental e do *yoga* místico.\n\nA mesma coisa é confirmada no *Ādi Purāṇa* por Kṛṣṇa. Ao dirigir-Se a Arjuna, Ele diz: \"Qualquer um que esteja ocupado em cantar Meu nome transcendental deve ser considerado como estando sempre associando-se coMigo. E posso dizer-te francamente que, por tal devoto, Eu Me deixo facilmente comprar.\"\n\nNo *Padma Purāṇa*, também se afirma: \"O canto do Hare Kṛṣṇa *mantra* está presente apenas nos lábios da pessoa que, por muitos nascimentos, adorou Vāsudeva.\" Afirma-se ainda no *Padma Purāṇa*: \"Não há diferença entre o santo nome do Senhor e o próprio Senhor. Sendo assim, o santo nome é tão perfeito quanto o próprio Senhor em plenitude, pureza e eternidade. O santo nome não é uma vibração sonora material, nem tem qualquer contaminação material.\" Por conseguinte, o santo nome não pode ser cantado sem ofensa por aquele que não conseguiu purificar seus sentidos. Em outras palavras, os sentidos materialistas não podem cantar apropriadamente os santos nomes do Hare Kṛṣṇa *mahā-mantra*. Mas, por adotar este processo de canto, dá-se à pessoa a oportunidade de de fato purificar-se, de modo que ela possa, muito em breve, cantar sem ofensa.\n\nCaitanya Mahāprabhu recomendou que todos cantem o Hare Kṛṣṇa *mantra* justamente para limpar a poeira do coração. Se a poeira do coração for limpa, então a pessoa pode de fato compreender a importância do santo nome. Para as pessoas que não estão inclinadas a limpar a poeira de seu coração e que querem manter as coisas como estão, não é possível derivar o resultado transcendental de cantar o Hare Kṛṣṇa *mantra*. A pessoa deve, portanto, ser encorajada a desenvolver sua atitude de serviço para com o Senhor, pois isso a ajudará a cantar sem qualquer ofensa. E assim, sob a orientação de um mestre espiritual, o discípulo é treinado, ao mesmo tempo, a prestar serviço e a cantar o Hare Kṛṣṇa *mantra*. Tão logo a pessoa desenvolva sua atitude espontânea de serviço, ela pode imediatamente compreender a natureza transcendental dos santos nomes do *mahā-mantra*.\n\nNo *Padma Purāṇa*, há uma afirmação sobre a importância de viver em lugares santos como Mathurā ou Dvārakā. Ali se afirma: \"Viajar a diferentes lugares de peregrinação significa alcançar a emancipação do cativeiro material. Esta emancipação, contudo, não é a mais elevada etapa de perfeição. Após alcançar esta etapa liberada, a pessoa tem de ocupar-se no serviço devocional ao Senhor. Após a obtenção da etapa brahma-bhūta [[*SB 4.30.20] ]] [liberação], pode-se avançar ainda mais até a ocupação no serviço devocional. Assim, esta obtenção do amoroso serviço devocional transcendental ao Senhor é o objetivo da vida, e ela pode ser alcançada muito facilmente por quem vive em Mathurā-maṇḍala, ainda que por alguns segundos.\"\n\nAfirma-se ainda: \"Quem é a pessoa que não concordará em adorar a terra de Mathurā? Mathurā pode conceder todos os desejos e ambições dos trabalhadores fruitivos e dos salvacionistas, que desejam tornar-se um com o Brahman supremo. Certamente Mathurā concederá os desejos dos devotos, que apenas aspiram a ocupar-se no serviço devocional ao Senhor.\" Na literatura Védica, também se afirma: \"Quão maravilhoso é que, simplesmente por residir em Mathurā, mesmo que por um dia, a pessoa possa alcançar uma amorosa atitude transcendental para com a Suprema Personalidade de Deus! Esta terra de Mathurā deve ser mais gloriosa que Vaikuṇṭha-dhāma, o reino de Deus!\"\n\nRūpa Gosvāmī afirmou que cinco tipos de atividades devocionais — a saber, residir em Mathurā, adorar a Deidade do Senhor, recitar o *Śrīmad-Bhāgavatam*, servir um devoto e cantar o Hare Kṛṣṇa *mantra* — são tão potentes que um pequeno apego por qualquer um destes cinco itens pode despertar o êxtase devocional mesmo em um neófito.\n\nQuanto à adoração à forma do Senhor, ou Deidade, Rūpa Gosvāmī escreveu o seguinte verso: \"Meu querido amigo, se ainda tens algum desejo de desfrutar da companhia de teus amigos dentro deste mundo material, então não olhes para a forma de Kṛṣṇa, que está de pé na margem do Keśī-ghāṭa [um local de banho em Vṛndāvana]. Ele é conhecido como Govinda, e Seus olhos são muito encantadores. Ele está tocando Sua flauta e, sobre Sua cabeça, há uma pena de pavão. E todo o Seu corpo está iluminado pelo luar no céu.\"\n\nO significado deste verso é que, se alguém se apega à *Śrī Mūrti*, ou Deidade de Kṛṣṇa, ao adorá-la em casa, então esquecerá suas relações de suposta amizade, amor e sociedade. Assim, é dever de todo chefe de família instalar Deidades do Senhor em casa e iniciar o processo de adoração juntamente com todos os membros de sua família. Isso salvará a todos de tais atividades indesejadas como ir a clubes, cinemas, festas dançantes, fumar, beber etc. Todo esse disparate será esquecido se a pessoa enfatizar a adoração às Deidades em casa.\n\nRūpa Gosvāmī escreve ainda: \"Meu querido amigo tolo, penso que já ouviste um pouco do auspicioso *Śrīmad-Bhāgavatam*, que condena buscar os resultados das atividades fruitivas, o desenvolvimento econômico e a liberação. Penso que agora é certo que, gradualmente, os versos do Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, que descrevem os passatempos do Senhor, entrarão em teus ouvidos e irão para teu coração.\"\n\nNo começo do *Śrīmad-Bhāgavatam*, diz-se que, a menos que a pessoa tenha a capacidade de lançar fora, tal como lixo, os resultados fruitivos das cerimônias ritualísticas, o desenvolvimento econômico e o tornar-se um com o supremo (ou a salvação), ela não pode compreender o *Śrīmad-Bhāgavatam*. O *Bhāgavatam* trata exclusivamente do serviço devocional. Apenas quem estuda o *Śrīmad-Bhāgavatam* com espírito de renúncia pode compreender os passatempos do Senhor que são descritos no Décimo Canto. Em outras palavras, a pessoa não deve tentar compreender os tópicos do Décimo Canto, tais como o *rāsa-līlā* (dança do amor), a menos que tenha atração espontânea pelo *Śrīmad-Bhāgavatam*. A pessoa deve estar situada em serviço devocional puro antes de poder saborear o *Śrīmad-Bhāgavatam* como ele é.\n\nNos dois versos de Rūpa Gosvāmī acima, há algumas analogias metafóricas que, indiretamente, condenam a associação da sociedade, da amizade e do amor materialistas. As pessoas geralmente se sentem atraídas pela sociedade, pela amizade e pelo amor, e fazem elaborados arranjos e fortes esforços para desenvolver essas contaminações materiais; mas ver as *Śrī Mūrtis* de Rādhā e Kṛṣṇa é esquecer tais esforços pela associação material. Rūpa Gosvāmī compôs seu verso de tal maneira que, aparentemente, louvava a associação material da amizade, do amor etc., e condenava a audiência das *Śrī Mūrtis*, ou de Govinda. Esta analogia metafórica está construída de tal maneira que as coisas que parecem ser louvadas são condenadas, e as coisas que devem ser condenadas são louvadas. O real sentido do verso é que a pessoa deve ver a forma de Govinda se de algum modo deseja esquecer o disparate da amizade, do amor e da sociedade materiais.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī descreveu, de modo semelhante, a natureza transcendental de saborear tópicos que dizem respeito a Kṛṣṇa. Um devoto disse certa vez: \"É muito surpreendente que, desde que vi esta Personalidade de Deus que é banhada pelas lágrimas de meus olhos, há um tremor em meu corpo, e Ele fez de mim um fracasso na execução de meus deveres materiais. Desde que O vi, não posso permanecer silenciosamente em casa. Desejo sempre sair em direção a Ele.\" O significado desta afirmação é que, tão logo a pessoa seja afortunada o bastante para entrar em contato com um devoto puro, ela deve estar imediatamente ansiosa por ouvir sobre Kṛṣṇa, por aprender sobre Kṛṣṇa, ou, em outras palavras, por tornar-se plenamente consciente de Kṛṣṇa.\n\nDe modo semelhante, há uma afirmação sobre ouvir e cantar o *mahā-mantra*: \"Diz-se que os santos têm sido capazes de ouvir as cordas vibrantes da *vīṇā* nas mãos de Nārada, que está sempre cantando as glórias do Senhor Kṛṣṇa. Agora, esta mesma vibração sonora entrou em meus ouvidos, e estou sempre sentindo a presença da Personalidade Suprema. Gradualmente, estou ficando despojado de todo apego ao desfrute material.\"\n\nNovamente, ele descreveu Mathurā-maṇḍala: \"Lembro-me do Senhor de pé às margens do rio Yamunā, tão belo entre as árvores *kadamba*, onde muitos pássaros gorjeiam nos jardins. E estas impressões estão sempre dando-me a percepção transcendental de beleza e bem-aventurança.\" Este sentimento de Rūpa Gosvāmī acerca de Mathurā-maṇḍala e de Vṛndāvana pode de fato ser sentido até mesmo por não-devotos. Os lugares no distrito de Mathurā, de oitenta e quatro milhas quadradas, estão tão belamente situados às margens do rio Yamunā que qualquer um que vá lá jamais quererá retornar a este mundo material. Estas afirmações de Rūpa Gosvāmī são descrições factualmente percebidas de Mathurā e de Vṛndāvana. Todas estas qualidades provam que Mathurā e Vṛndāvana estão situadas transcendentalmente. Caso contrário, não haveria possibilidade de invocar nossos sentimentos transcendentais nesses lugares. Tais sentimentos transcendentais são despertados imediatamente e sem falta após a pessoa chegar a Mathurā ou a Vṛndāvana.\n\nNestas afirmações sobre o serviço devocional, por vezes pode parecer que os resultados foram superestimados; mas, na verdade, não há superestimação. Alguns devotos, como se evidencia das escrituras reveladas, tiveram resultados imediatos por tal associação, embora isso não seja possível para todos. Por exemplo, os Kumāras imediatamente se tornaram devotos simplesmente por sentir o aroma do incenso no templo. Bilvamaṅgala Ṭhākura simplesmente ouviu falar de Kṛṣṇa e, então, imediatamente abandonou sua bela amiga e partiu para Mathurā e Vṛndāvana, onde se tornou um vaiṣṇava perfeito. Assim, estas afirmações não são superestimações, tampouco são histórias. São fatos reais, mas são verdadeiros para certos devotos e não se aplicam necessariamente a todos. Estas descrições, mesmo se consideradas superestimações, devem ser aceitas como são, a fim de desviar nossa atenção da fugaz beleza material para a eterna beleza da consciência de Kṛṣṇa. E, para uma pessoa que já está em contato com a consciência de Kṛṣṇa, os resultados descritos não são incomuns.\n\nAlguns estudiosos argumentam que, simplesmente por seguir os princípios de *varṇa* e *āśrama*, a pessoa pode elevar-se gradualmente às perfeições alcançadas pela prática do serviço devocional, mas este argumento não é aceito pelas grandes autoridades. O Senhor Caitanya também condenou esta ideia enquanto conversava com Rāmānanda Rāya sobre o desenvolvimento gradual do serviço devocional. Ele rejeitou a ideia da importância do *varṇāśrama-dharma* quando esta foi apresentada por Rāmānanda Rāya. Ele disse que este avanço de *varṇa* e *āśrama* é meramente externo. Há um princípio mais elevado. No *Bhagavad-gītā*, também, o Senhor diz que a pessoa tem de abandonar todos os outros princípios de elevação e adotar simplesmente o método da consciência de Kṛṣṇa. Isso a ajudará a alcançar a mais elevada perfeição da vida.\n\nNo Décimo Primeiro Canto, 20º Capítulo, 8º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, o próprio Senhor diz: \"A pessoa deve executar os deveres prescritos de *varṇa* e *āśrama* enquanto não tiver desenvolvido apego espontâneo por ouvir sobre Meus passatempos e atividades.\" Em outras palavras, as formas prescritas de *varṇa* e *āśrama* são cerimônias ritualísticas da religião destinadas ao desenvolvimento econômico, à gratificação dos sentidos ou à salvação. Todas estas coisas são recomendadas para pessoas que não desenvolveram a consciência de Kṛṣṇa; de fato, todas essas atividades são recomendadas nas escrituras reveladas apenas para conduzir a pessoa ao ponto da consciência de Kṛṣṇa. Mas aquele que já desenvolveu apego espontâneo por Kṛṣṇa não precisa executar os deveres prescritos nas escrituras."}
{"ref": "nod/14", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/14/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "14. Qualificações Devocionais", "purport": "## Qualificações Devocionais\n\nAlguns estudiosos recomendam que o conhecimento e a renúncia sejam fatores importantes para elevar-se ao serviço devocional. Mas, na verdade, isso não é um fato. Na verdade, o cultivo do conhecimento ou da renúncia, que são favoráveis para conquistar um ponto de apoio na consciência de Kṛṣṇa, pode ser aceito no começo, mas, por fim, eles também podem vir a ser rejeitados, pois o serviço devocional não depende de nada além do sentimento ou do desejo por tal serviço. Ele não requer nada mais que sinceridade.\n\nÉ a opinião dos devotos peritos que a especulação mental e as austeridades artificiais da prática do *yoga* podem ser favoráveis para libertar-se da contaminação material, mas elas também tornarão o coração da pessoa cada vez mais duro. Elas não ajudarão em nada no progresso do serviço devocional. Por conseguinte, estes processos não são favoráveis para entrar no amoroso serviço transcendental ao Senhor. Na verdade, a consciência de Kṛṣṇa — o próprio serviço devocional — é a única maneira de avançar na vida devocional. O serviço devocional é absoluto; é tanto a causa quanto o efeito. A Suprema Personalidade de Deus é a causa e o efeito de tudo o que existe e, para aproximar-se dEle, o absoluto, tem de adotar-se o processo do serviço devocional — que também é absoluto.\n\nIsso é confirmado no *Bhagavad-gītā* pelo próprio Senhor: \"A pessoa só pode compreender-Me através do serviço devocional.\" Ao iniciar Seu ensinamento do *Gītā*, o Senhor disse a Arjuna: \"Por seres Meu devoto, ensinar-te-ei estes segredos.\" O conhecimento Védico significa, em última instância, compreender o Senhor Supremo, e o processo de entrar em Seu reino é o serviço devocional. Isso é aceito por todas as escrituras autênticas. Os especuladores mentais negligenciam o processo do serviço devocional e, simplesmente por tentar derrotar os outros na pesquisa filosófica, deixam de desenvolver o êxtase da devoção.\n\nNo Décimo Primeiro Canto, 20º Capítulo, 31º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Kṛṣṇa diz: \"Meu querido Uddhava, para as pessoas que estão seriamente ocupadas em Meu serviço, o cultivo da especulação filosófica e a renúncia artificial não são muito favoráveis. Quando uma pessoa se torna Meu devoto, ela automaticamente alcança os frutos da renúncia ao desfrute material, e obtém conhecimento suficiente para compreender a verdade absoluta.\" Esse é o teste do avanço no serviço devocional. Um devoto não pode estar na escuridão, porque o Senhor lhe mostra um favor especial e o ilumina a partir de dentro.\n\nNo Décimo Primeiro Canto, 20º Capítulo, 32º e 33º versos, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, o Senhor instrui ainda Uddhava: \"Meu querido amigo, os lucros derivados das atividades fruitivas, das austeridades, do cultivo do conhecimento filosófico, da renúncia, da prática do *yoga* místico, da caridade e de todas as atividades auspiciosas semelhantes são automaticamente alcançados por Meus devotos — aqueles que estão simplesmente apegados a Mim pelo serviço amoroso. Estes devotos têm tudo à sua disposição, mas nada desejam fora de Meu serviço devocional. Se algum dia um devoto desejar algum lucro material — ser promovido aos planetas celestiais — ou algum lucro espiritual — ir aos Vaikuṇṭhas —, por Minha misericórdia imotivada, seus desejos são muito facilmente satisfeitos.\"\n\nNa verdade, uma pessoa que está desenvolvendo a consciência de Kṛṣṇa e que ainda tem algum apego ao desfrute material logo se libertará de tal tendência, ao executar regularmente o serviço devocional sob a instrução de um mestre espiritual genuíno.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī, então, recomenda que a pessoa não se apegue ao desfrute material dos sentidos, mas aceite tudo o que é desfrutável e que está em relação com Kṛṣṇa. Por exemplo, comer é necessário, e a pessoa quer alguns pratos saborosos para satisfazer seu sentido do paladar. Assim, nesse caso, para a satisfação de Kṛṣṇa, em vez de para a satisfação da língua, alguns pratos saborosos podem ser preparados e oferecidos a Kṛṣṇa. Então, isso é renúncia. Que os pratos saborosos sejam preparados, mas, a menos que sejam oferecidos a Kṛṣṇa, a pessoa não deve aceitá-los para comer. Este voto de rejeitar qualquer coisa que não seja oferecida a Kṛṣṇa é, de fato, renúncia. E, por tal renúncia, a pessoa é capaz de satisfazer as exigências dos sentidos.\n\nOs impersonalistas que tentam evitar tudo o que é material podem submeter-se a severas austeridades, mas perdem a oportunidade de ocupar-se no serviço ao Senhor. Assim, sua renúncia não é suficiente para a perfeição. Há muitos casos em que, seguindo tal renúncia artificial sem qualquer contato com o serviço devocional, o impersonalista voltou a cair e ficou atraído pela contaminação material. Há muitos supostos renunciantes mesmo no presente momento que oficialmente se tornam *sannyāsīs*, ou renunciantes, e que, exteriormente, afirmam que a existência espiritual é verdade e a existência material, inverdade. Dessa maneira, artificialmente, fazem uma exibição de renúncia ao mundo material. No entanto, por não conseguirem chegar ao ponto do serviço devocional, deixam de alcançar o objetivo e voltam novamente às atividades materiais, tais como o trabalho filantrópico, a agitação política etc. Há muitos casos de supostos *sannyāsīs* que abandonaram o mundo como inverdade, mas voltaram novamente ao mundo material porque não estavam buscando seu verdadeiro repouso aos pés de lótus do Senhor.\n\nA pessoa não deve abandonar nada que possa ser utilizado no serviço ao Senhor. Esse é um segredo do serviço devocional. Qualquer coisa que possa ser utilizada para avançar a consciência de Kṛṣṇa e o serviço devocional deve ser aceita. Por exemplo, estamos usando muitas máquinas para o avanço de nosso presente movimento da consciência de Kṛṣṇa, máquinas como máquinas de escrever, ditafones, gravadores, microfones e aviões. Às vezes, as pessoas nos perguntam: \"Por que estais utilizando produtos materiais se condenais o avanço da civilização material?\" Mas, na verdade, não condenamos. Simplesmente pedimos às pessoas que façam, em consciência de Kṛṣṇa, tudo o que estão fazendo. Este é o mesmo princípio pelo qual, no *Bhagavad-gītā*, Kṛṣṇa aconselhou Arjuna a utilizar suas habilidades de combate no serviço devocional. De modo semelhante, estamos utilizando estas máquinas para o serviço de Kṛṣṇa. Com tal sentimento por Kṛṣṇa, ou consciência de Kṛṣṇa, podemos aceitar tudo. Se a máquina de escrever pode ser utilizada para avançar nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa, devemos aceitá-la. De modo semelhante, o ditafone, ou qualquer outra máquina, deve ser usado. Nossa visão é que Kṛṣṇa é tudo. Kṛṣṇa é a causa e o efeito, e nada nos pertence. As coisas de Kṛṣṇa devem ser usadas no serviço de Kṛṣṇa. Essa é a nossa visão.\n\nIsso não significa, contudo, que devamos abandonar os princípios da execução do serviço devocional, ou negligenciar o cumprimento das regras e regulações ali prescritas. Na etapa neófita da devoção, a pessoa deve seguir todos os princípios, regulados pela autoridade do mestre espiritual. A aceitação e a rejeição das coisas devem estar sempre em conformidade com os princípios devocionais; não que a pessoa possa, independentemente, fabricar alguma ideia do que deve ser aceito ou rejeitado. O mestre espiritual, como a manifestação visível de Kṛṣṇa, é necessário, portanto, para orientar o devoto em nome da Suprema Personalidade de Deus.\n\nO mestre espiritual jamais deve ser arrebatado por um acúmulo de riqueza ou por um grande número de seguidores. Um mestre espiritual genuíno jamais se tornará assim. Mas, às vezes, se um mestre espiritual não está devidamente autorizado, e, apenas por sua própria iniciativa, torna-se mestre espiritual, ele pode ser arrebatado por um acúmulo de riqueza e por grandes números de discípulos. O dele não é um grau muito elevado de serviço devocional. Se uma pessoa é arrebatada por tais conquistas, então seu serviço devocional fica afrouxado. A pessoa deve, portanto, aderir estritamente aos princípios da sucessão discipular.\n\nUma pessoa consciente de Kṛṣṇa, por ser naturalmente purificada, não tem necessidade de desenvolver qualquer outro processo purificatório de pensamento ou ação. Em razão de estar altamente elevada em consciência de Kṛṣṇa, ela já adquiriu todas as boas qualidades e está seguindo as regras e regulações prescritas para o processo ióguico místico. Tais regras são automaticamente praticadas pelos devotos. Um exemplo concreto é a qualidade da não-violência, que é considerada uma boa qualificação. Um devoto é naturalmente não-violento e, portanto, não tem de praticar a não-violência separadamente. Algumas pessoas buscam a purificação aderindo a um movimento vegetariano, mas um devoto é automaticamente vegetariano. Ele não precisa praticar separadamente nesta questão, nem aderir a qualquer sociedade de vegetarianos. Ele é automaticamente vegetariano.\n\nHá muitos outros casos que mostram que um devoto não precisa praticar nada a não ser a consciência de Kṛṣṇa; todas as boas qualidades dos semideuses desenvolvem-se automaticamente dentro dele. Aqueles que estão intencionalmente praticando para ser vegetarianos ou para tornar-se não-violentos podem ter boas qualificações por uma avaliação material, mas estas qualificações não são suficientes para fazer deles devotos. Um vegetariano não é necessariamente um devoto, tampouco o é uma pessoa não-violenta. Mas um devoto é automaticamente vegetariano e não-violento. Devemos concluir, portanto, que o vegetarianismo ou a não-violência não são a causa da devoção.\n\nA este respeito, há uma história no *Skanda Purāṇa* sobre um caçador que foi convertido em um grande devoto sob a instrução de Nārada Muni. Quando o caçador se tornou um devoto perfeito, não estava disposto a matar nem mesmo uma formiga. Parvata Muni, um amigo de Nārada, viu a maravilhosa transformação do caçador pelo serviço devocional e observou: \"Meu querido caçador, tua relutância em matar nem mesmo uma formiga não é muito surpreendente. Qualquer pessoa que desenvolve a atitude devocional tem *todas* as boas qualidades automaticamente manifestas em sua pessoa. Um devoto nunca é causa de aflição para ninguém.\"\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī afirma aqui que a purificação da consciência, a purificação das atividades corporais, as austeridades, a paz de espírito etc. tornam-se todas automaticamente manifestas na pessoa que está ocupada em serviço devocional.\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī afirma aqui que há nove diferentes tipos de serviço devocional, que estão listados como ouvir, cantar, lembrar, servir, adorar a Deidade no templo, orar, executar ordens, servi-Lo como amigo e sacrificar tudo por Ele. Cada um desses processos é tão poderoso que, se alguém seguir mesmo um único deles, pode alcançar a perfeição desejada sem falta. Por exemplo, se uma pessoa está apegada simplesmente a ouvir sobre o Senhor, e outra está apegada a cantar as glórias do nome, ambas alcançarão seu objetivo desejado no serviço devocional. No *Caitanya-caritāmṛta*, isso foi explicado. A pessoa pode executar um, dois, três ou todos os diferentes processos do serviço devocional e, no final último, ela alcançará o objetivo desejado de estabelecer-se em serviço devocional.\n\nHá exemplos concretos de como um devoto executou um destes serviços e alcançou a perfeição. O rei Parīkṣit alcançou o objetivo desejado da vida simplesmente por ouvir o *Śrīmad-Bhāgavatam*. Śukadeva Gosvāmī alcançou o objetivo desejado da vida simplesmente por recitar o *Śrīmad-Bhāgavatam*. Prahlāda Mahārāja obteve êxito em seu serviço devocional ao lembrar-se sempre do Senhor. Lakṣmī, a deusa da fortuna, obteve êxito ao ocupar-se em massagear os pés de lótus do Senhor. O rei Pṛthu obteve êxito ao adorar no templo. Akrūra obteve êxito ao oferecer orações. Hanumān obteve êxito ao prestar serviço pessoal ao Senhor Rāmacandra. Arjuna obteve êxito ao ser amigo de Kṛṣṇa. E Bali Mahārāja obteve êxito simplesmente ao oferecer todas as suas posses a Kṛṣṇa.\n\nHá também exemplos de devotos que executaram todos os diferentes itens juntos. No Nono Canto, 4º Capítulo, 15º, 16º e 17º versos, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, há uma afirmação sobre Mahārāja Ambarīṣa, que seguiu cada um dos processos devocionais. Nestes versos, Śukadeva Gosvāmī diz: \"O rei Ambarīṣa, antes de tudo, concentrou sua mente nos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa e, então, ocupou sua fala em descrever os passatempos e as atividades do Senhor. Ele ocupou suas mãos em lavar o templo do Senhor. Ele ocupou seus ouvidos em ouvir as glórias transcendentais do Senhor. Ele ocupou seus olhos em ver a bela Deidade no templo. Ele ocupou seu corpo em associar-se com os devotos puros do Senhor. [Quando a pessoa se associa com alguém, tem de sentar-se junto, comer junto etc. — e, dessa maneira, o contato de seu corpo com o corpo dele é inevitável. Ambarīṣa Mahārāja fazia sua associação apenas com devotos puros e não permitia que seu corpo fosse tocado por mais ninguém.] Ele ocupou suas narinas em sentir o aroma das flores e da *tulasī* oferecidas a Kṛṣṇa, e ocupou sua língua em saborear o Kṛṣṇa-*prasādam* [alimento preparado especificamente para ser oferecido ao Senhor, cujos restos são tomados pelos devotos]. Mahārāja Ambarīṣa era capaz de oferecer *prasādam* muito agradável a Kṛṣṇa porque era um rei e não tinha escassez de recursos. Ele costumava oferecer a Kṛṣṇa os pratos mais reais e, então, saboreava os restos como Kṛṣṇa-*prasādam*. Não havia escassez em seu estilo real, pois ele tinha um templo muito belo, no qual a Deidade do Senhor era decorada com custosa parafernália e recebia alimento de alta qualidade. Assim, tudo estava disponível, e sua ocupação estava sempre completamente em consciência de Kṛṣṇa.\"\n\nA ideia é que devemos seguir os passos dos grandes devotos. Se formos incapazes de executar todos os diferentes itens do serviço devocional, devemos tentar executar ao menos um deles, como exemplificado pelos *ācāryas* anteriores. Se estivermos ocupados na execução de todos os itens do serviço devocional, como o estava Mahārāja Ambarīṣa, então a perfeição do serviço devocional está garantida a partir de cada um destes itens. Com a primeira ocupação completa, a pessoa torna-se automaticamente desapegada da contaminação material, e a liberação torna-se a serva do devoto. Esta ideia é confirmada por Bilvamaṅgala Ṭhākura: Se a pessoa desenvolve devoção imaculada ao Senhor, a liberação seguirá o devoto como sua serva.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī diz que os princípios regulativos do serviço devocional são, por vezes, descritos pelas autoridades como a senda de servir o Senhor em opulência."}
{"ref": "nod/15", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/15/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "15. Serviço Devocional Espontâneo", "purport": "## Serviço Devocional Espontâneo\n\nOs exemplos de serviço devocional espontâneo podem ser vistos facilmente nos associados diretos de Kṛṣṇa em Vṛndāvana. As relações espontâneas dos residentes de Vṛndāvana em sua relação com Kṛṣṇa chamam-se *rāgānugā*. Estes seres não precisam aprender nada sobre o serviço devocional; eles já são perfeitos em todos os princípios regulativos e alcançaram o amoroso serviço espontâneo à Suprema Personalidade de Deus. Por exemplo, os vaqueirinhos que estão brincando com Kṛṣṇa não precisam aprender, por meio de austeridades, penitências ou prática ióguica, como brincar com Ele. Eles passaram por todas as provas dos princípios regulativos em suas vidas anteriores e, em consequência, estão agora elevados à posição de associação direta com Kṛṣṇa como Seus queridos amigos. Sua atitude espontânea chama-se *rāgānugā-bhakti*.\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī definiu o *rāgānugā-bhakti* como atração espontânea por algo enquanto se está completamente absorto em pensamentos sobre isso, com um intenso desejo de amor. O serviço devocional executado com tais sentimentos de amor espontâneo chama-se *rāgānugā-bhakti*. O serviço devocional sob o título de *rāgānugā* pode ser ainda dividido em duas categorias: uma categoria chama-se atração sensual, e a outra chama-se relacionamento.\n\nA este respeito, há uma afirmação de Nārada Muni a Yudhiṣṭhira no Sétimo Canto, 1º Capítulo, 29º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Ali, Nārada diz: \"Meu querido rei, há muitos devotos que primeiro se sentem atraídos pela Personalidade de Deus para fins de gratificação dos sentidos, por terem inveja dEle, por temê-Lo ou por desejarem associar-se afetuosamente com Ele. Por fim, estas atrações ficam livres de toda contaminação material e, gradualmente, o adorador desenvolve amor espiritual e alcança aquele objetivo último da vida que é desejado pelo devoto puro.\"\n\nAs *gopīs* podem ser consideradas exemplos de amor espontâneo na atração sensual. As *gopīs* são moças jovens, e Kṛṣṇa é um rapaz jovem. Superficialmente, parece que as *gopīs* são atraídas por Kṛṣṇa com base no sexo. De modo semelhante, o rei Kaṁsa era atraído por Kṛṣṇa devido ao temor. Kaṁsa estava sempre temeroso de Kṛṣṇa porque havia sido predito que o filho de sua irmã, Kṛṣṇa, o mataria. Śiśupāla também tinha sempre inveja de Kṛṣṇa. E os descendentes do rei Yadu, devido à sua relação familiar com Kṛṣṇa, estão sempre pensando nEle como um de seus membros. Todos estes diferentes tipos de devotos têm uma atração espontânea por Kṛṣṇa, em diferentes categorias, e alcançam o mesmo objetivo desejado da vida.\n\nA atração das *gopīs* por Kṛṣṇa e a afeição dos membros da dinastia Yadu são ambas aceitas como espontâneas, ou *rāgānugā*. A atração de Kaṁsa por Kṛṣṇa em temor e a atração de Śiśupāla em inveja não são aceitas como serviço devocional, contudo, porque suas atitudes não são favoráveis. O serviço devocional deve ser executado apenas em um estado de espírito favorável. Portanto, de acordo com Śrīla Rūpa Gosvāmī, tais atrações não são consideradas como estando em serviço devocional. Novamente, ele analisa a afeição dos Yadus. Se ela está na plataforma da amizade, então é amor espontâneo, mas, se está na plataforma dos princípios regulativos, então não é. E somente quando a afeição chega à plataforma do amor espontâneo é que ela é contada na categoria do serviço devocional puro.\n\nPode haver alguma dificuldade em compreender que tanto as *gopīs* quanto Kaṁsa alcançaram o mesmo objetivo, de modo que este ponto deve ser compreendido com clareza, porque as atitudes de Kaṁsa e de Śiśupāla eram diferentes da das *gopīs*. Embora, em todos estes casos, o foco esteja na Suprema Personalidade de Deus, e todos os devotos sejam elevados ao mundo espiritual, há ainda uma distinção entre estas duas classes de almas. No Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, diz-se que a verdade absoluta é una, e que Ela se manifesta como Brahman impessoal, Paramātmā (superalma) e Bhagavān (a Suprema Personalidade de Deus). Aqui há uma distinção espiritual. Embora Brahman, Paramātmā e Bhagavān sejam a mesma e única verdade absoluta, ainda assim devotos como Kaṁsa ou Śiśupāla puderam alcançar apenas a refulgência Brahman. Eles não puderam ter a percepção de Paramātmā ou de Bhagavān. Essa é a distinção.\n\nPode-se dar uma analogia com o globo solar e a luz do sol: permanecer na luz do sol não significa que se tenha ido ao globo solar. A temperatura do globo solar é diferente da temperatura da luz do sol. Quem passou através da luz do sol em aviões a jato ou em naves espaciais não foi necessariamente ao globo solar. Embora a luz do sol e o globo solar sejam, de fato, um só e o mesmo, ainda assim há uma distinção, pois um é a energia e o outro é a fonte energética. A verdade absoluta e Sua refulgência corpórea são, da mesma maneira, simultaneamente uma e diferente. Kaṁsa e Śiśupāla alcançaram a verdade absoluta, mas não lhes foi permitido entrar na morada de Goloka Vṛndāvana. Aos impersonalistas e aos inimigos do Senhor é permitido, por causa da atração por Deus, entrar em Seu reino, mas não lhes é permitido entrar nos planetas Vaikuṇṭha ou no planeta de Goloka Vṛndāvana do Senhor Supremo. Entrar no reino e entrar no palácio do rei não são a mesma coisa.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī está tentando aqui descrever as diferentes conquistas dos impersonalistas e dos personalistas. Geralmente, aqueles que são impersonalistas e hostis à Suprema Personalidade de Deus obtêm entrada apenas no Brahman impessoal, quando e se alcançam a perfeição espiritual. Os filósofos impersonalistas são, num sentido, como os inimigos do Senhor, porque tanto os inimigos declarados do Senhor quanto os impersonalistas têm permissão para entrar apenas na refulgência impessoal do *brahma-jyoti*. Assim, deve-se compreender que eles são de classificação semelhante. E, de fato, os impersonalistas são inimigos de Deus, porque não podem tolerar a incomparável opulência do Senhor. Eles tentam sempre colocar-se no mesmo nível do Senhor. Isso se deve à sua atitude invejosa. Śrī Caitanya Mahāprabhu proclamou que os impersonalistas são ofensores do Senhor. O Senhor é tão bondoso, contudo, que, embora sejam Seus inimigos, ainda lhes é permitido entrar no reino espiritual e permanecer no impessoal *brahma-jyoti*, a luz indiferenciada do absoluto.\n\nPor vezes, um impersonalista pode elevar-se gradualmente à concepção pessoal do Senhor. O *Bhagavad-gītā* confirma isto: \"Após muitos nascimentos e mortes, aquele que de fato está em conhecimento rende-se a Mim.\" Por tal rendição, um impersonalista pode ser elevado ao Vaikuṇṭha-loka (planeta espiritual), onde, como alma rendida, ele alcança traços corpóreos semelhantes aos do Senhor.\n\nNo *Brahmāṇḍa Purāṇa*, afirma-se: \"Aqueles que alcançaram a liberação da contaminação material, e aqueles que são demônios e são mortos pela Suprema Personalidade de Deus, ficam absortos na concepção Brahman da vida e residem no céu espiritual do *brahma-jyoti*.\" Esse céu espiritual está muito além do céu material, e confirma-se também no *Bhagavad-gītā* que, além deste céu material, há outro, eterno. Aos inimigos e aos impersonalistas pode ser permitido entrar nesta refulgência Brahman, mas os devotos de Kṛṣṇa são promovidos por todo o caminho até os planetas espirituais. Por terem os devotos puros desenvolvido seu amor espontâneo pela Suprema Personalidade de Deus, é-lhes permitido entrar nos planetas espirituais para desfrutar da bem-aventurança espiritual em associação com a Suprema Personalidade de Deus.\n\nNo Décimo Canto, 87º Capítulo, 19º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, os *Vedas* personificados dirigem-se ao Senhor desta maneira: \"Meu querido Senhor, os *yogīs* meditam em Teus aspectos localizados e, assim, alcançam a perfeição espiritual de fundir-se no impessoal *brahma-jyoti*. As pessoas que Te tratam como inimigo alcançam a mesma perfeição sem meditar. As *gopīs*, que são abraçadas por Teus braços serpentinos e que têm atitudes tão luxuriosas, também alcançam a mesma perfeição. E, no que nos concerne, sendo diferentes semideuses encarregados das diferentes partes do conhecimento Védico, estamos sempre seguindo os passos das *gopīs*. Assim, esperamos alcançar a mesma perfeição.\" Por \"a mesma perfeição\", devemos sempre lembrar o exemplo do sol e da luz do sol. Aqueles que são impersonalistas podem fundir-se no *brahma-jyoti*, semelhante à luz do sol, ao passo que aqueles que estão apaixonados pela Pessoa Suprema entram na morada suprema do Senhor, Goloka Vṛndāvana.\n\nA \"atitude luxuriosa\" das *gopīs* não se refere a qualquer tipo de indulgência sexual. Śrīla Rūpa Gosvāmī explica que este \"desejo luxurioso\" se refere à atitude particular do devoto em sua associação com Kṛṣṇa. Todo devoto, em sua etapa de perfeição, tem uma atração espontânea pelo Senhor. Esta atração às vezes é chamada de \"desejo luxurioso\" do devoto. A luxúria é o desejo excessivo do devoto de servir o Senhor em determinada qualidade. Tal desejo pode parecer um desejo de desfrutar do Senhor, mas, na verdade, o empenho é o de servir o Senhor naquela qualidade. Por exemplo, um devoto pode estar desejando associar-se com a Personalidade de Deus como Seu amigo vaqueiro. Ele desejará servir o Senhor, assistindo-O no controle das vacas no pasto. Isso pode parecer um desejo de desfrutar da companhia do Senhor, mas, na verdade, é amor espontâneo, servindo-O ao ajudar a cuidar das vacas transcendentais.\n\nEste desejo extremo de servir o Senhor manifesta-se na terra transcendental de Braja. E manifesta-se especificamente entre as *gopīs*. O amor das *gopīs* por Kṛṣṇa é tão elevado que, para nossa compreensão, ele às vezes é explicado como sendo \"desejo luxurioso\".\n\nO autor do *Śrī Caitanya-caritāmṛta*, Kavirāja Kṛṣṇadāsa, explicou a distinção entre o desejo luxurioso e a atitude de serviço nesta afirmação: \"O desejo luxurioso refere-se ao desejo de gratificar os próprios sentidos pessoais, e o desejo transcendental refere-se ao desejo de servir os sentidos do Senhor.\" No mundo material, não existe tal coisa como um amante que queira agradar os sentidos de sua amada. Na verdade, no mundo material, todos querem, principalmente, gratificar seus próprios sentidos pessoais. As *gopīs*, contudo, não queriam absolutamente nada além de gratificar os sentidos do Senhor, e não há exemplo disso no mundo material. Por isso, o amor extático das *gopīs* por Kṛṣṇa às vezes é descrito pelos estudiosos como sendo semelhante ao \"desejo luxurioso\" do mundo material, mas, na verdade, isso não deve ser tomado como um fato literal. É simplesmente uma maneira de tentar compreender a situação transcendental.\n\nOs grandes devotos, do nível de Uddhava, são amigos muito queridos do Senhor, e desejam seguir os passos das *gopīs*. Assim, o amor das *gopīs* por Kṛṣṇa certamente não é desejo luxurioso material. Caso contrário, como poderia Uddhava aspirar a seguir seus passos? Outro caso é o do próprio Senhor Caitanya. Após aceitar a ordem de vida *sannyāsa*, Ele era muito, muito estrito quanto a evitar a associação com mulheres, mas ainda assim ensinou que não há melhor método de adorar Kṛṣṇa do que aquele concebido pelas *gopīs*. Assim, o método das *gopīs* de adorar o Senhor, como se impelidas por desejo luxurioso, foi louvado muito elevadamente até mesmo por Śrī Caitanya Mahāprabhu. Este próprio fato significa que, embora a atração das *gopīs* por Kṛṣṇa pareça luxuriosa, ela não é, nem no mínimo, material. A menos que a pessoa esteja plenamente situada na posição transcendental, é muito difícil compreender a relação das *gopīs* com Kṛṣṇa. Mas, porque parece exatamente igual às relações comuns de rapazes e moças, ela às vezes é mal interpretada como sendo semelhante ao sexo comum deste mundo material. Infelizmente, as pessoas que não conseguem compreender a natureza transcendental dos casos de amor das *gopīs* e de Kṛṣṇa dão por certo que os casos de amor de Kṛṣṇa com as *gopīs* são transações mundanas e, por isso, às vezes se entregam a pintar quadros licenciosos em algum estilo modernista.\n\nPor outro lado, o desejo luxurioso de Kubjā é descrito pelos estudiosos eruditos como sendo \"quase desejo luxurioso\". Kubjā era uma mulher corcunda que também queria Kṛṣṇa com um grande amor extático. Mas seu desejo por Kṛṣṇa era quase mundano, e, assim, seu amor não pode ser comparado ao amor das *gopīs*. Sua afeição amorosa por Kṛṣṇa chama-se *kāma-prāyā*, ou quase como o amor das *gopīs* por Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/16", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/16/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "16. Variedades de Amor por Kṛṣṇa", "purport": "Na atitude dos habitantes de Vṛndāvana, tais como Nanda Mahārāj e mãe Yaśodā, encontra-se o conceito transcendental ideal de ser pai e mãe de Kṛṣṇa, a original Personalidade de Deus. De fato, ninguém pode tornar-se o pai ou a mãe de Kṛṣṇa; mas a posse de tais sentimentos transcendentais por parte de um devoto chama-se amor por Kṛṣṇa na relação paternal. Os Vṛṣṇis (os parentes de Kṛṣṇa em Dvārakā) também sentiam assim. Portanto, o amor espontâneo por Kṛṣṇa na relação paternal encontra-se tanto entre aqueles habitantes de Dvārakā que pertenciam à dinastia de Vṛṣṇi quanto entre os habitantes de Vṛndāvana.\n\n\n\nO amor espontâneo por Kṛṣṇa, tal como exibido pelos Vṛṣṇis e pelos habitantes de Vṛndāvana, existe eternamente neles. No estágio do serviço devocional em que se seguem os princípios reguladores, não há necessidade de discutir este amor, pois ele deve desenvolver-se por si mesmo em um estágio mais avançado.\n\n\n\nAs pessoas que desejam seguir os passos de tais devotos eternos do Senhor como os Vṛṣṇis e os habitantes de Vṛndāvana chamam-se devotos rāgānugā, o que significa que estão tentando alcançar a perfeição daqueles devotos. Esses devotos rāgānugā não seguem muito estritamente os princípios reguladores do serviço devocional, mas, por natureza espontânea, sentem-se atraídos por alguns dos devotos eternos, tais como Nanda ou Yaśodā, e tentam seguir seus passos espontaneamente. Há um desenvolvimento gradual da ambição de tornar-se como um devoto em particular, e esta atividade chama-se rāgānugā.\n\n\n\nDevemos sempre lembrar, contudo, que tal ânsia de seguir os passos dos habitantes de Braja (Vṛndāvana) não é possível a menos que a pessoa esteja livre da contaminação material. Ao seguir os princípios reguladores do serviço devocional, há um estágio que se chama anartha-nivṛtti, o que significa o desaparecimento de toda a contaminação material. Às vezes, observa-se que alguém está imitando tal amor devocional, mas, de fato, não está livre dos anarthas, ou hábitos indesejáveis. Tem-se visto que um suposto devoto se proclama um seguidor de Nanda, Yaśodā ou das gopīs, enquanto, ao mesmo tempo, sua abominável atração pela vida sexual mundana é visível. Tal manifestação de amor divino é mera imitação e não tem valor algum. Quando alguém está realmente atraído de modo espontâneo pelos princípios amorosos das gopīs, não se encontrará nenhum traço de contaminação mundana em seu caráter.\n\n\n\nPortanto, no início, todos devem seguir estritamente os princípios reguladores do serviço devocional, de acordo com as injunções das escrituras e do mestre espiritual. Somente após o estágio de liberação da contaminação material é que a pessoa pode realmente aspirar a seguir os passos dos devotos em Vṛndāvana.\n\n\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī afirma: \"Quando alguém está realmente liberado da contaminação material, pode sempre lembrar-se de um devoto eterno em Vṛndāvana a fim de amar Kṛṣṇa na mesma capacidade. E, ao desenvolver tal aptidão, viverá sempre em Vṛndāvana, mesmo dentro de sua mente.\" O significado é que, se for possível, a pessoa deve ir e estar fisicamente presente em Brajabhūmi, Vṛndāvana, e ocupar-se sempre no serviço ao Senhor, seguindo os devotos em Brajadhāma, o reino espiritual de Braja. Se não for possível, contudo, estar fisicamente presente em Vṛndāvana, pode-se meditar em qualquer lugar sobre viver naquela situação. Onde quer que esteja, a pessoa deve sempre pensar na vida em Brajadhāma e em seguir os passos de um devoto em particular no serviço ao Senhor.\n\n\n\nUm devoto que está realmente avançado em consciência de Kṛṣṇa, que está constantemente ocupado no serviço devocional, não deve manifestar-se mesmo que tenha alcançado a perfeição. A ideia é que ele deve sempre continuar a agir como um devoto neófito enquanto seu corpo material existir. As atividades no serviço devocional sob os princípios reguladores devem ser seguidas mesmo pelo devoto puro. Mas, quando ele compreende sua verdadeira posição em relação com o Senhor, pode, juntamente com a execução do serviço regulado, pensar dentro de si no Senhor, sob a orientação de um associado em particular do Senhor, e desenvolver seus sentimentos transcendentais seguindo aquele associado.\n\n\n\nA esse respeito, devemos ter cuidado com o suposto siddha-praṇai. O processo de siddha-praṇai é seguido por uma classe de homens que não são muito autorizados e que fabricaram sua própria maneira de serviço devocional. Eles imaginam que se tornaram associados do Senhor simplesmente por pensarem assim de si mesmos. Este comportamento externo não está de modo algum de acordo com os princípios reguladores. O suposto processo de siddha-praṇai é seguido pelos prakṛta-sahajiyās, uma pseudosseita de supostos vaiṣṇavas. Na opinião de Rūpa Gosvāmī, tais atividades são simplesmente perturbações ao modo padrão de serviço devocional.\n\n\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī afirma que os ācāryas eruditos recomendam que sigamos os princípios reguladores mesmo após o desenvolvimento do amor espontâneo por Kṛṣṇa. De acordo com os princípios reguladores, há nove atividades departamentais, como descrito acima, e a pessoa deve ocupar-se especificamente no tipo de serviço devocional para o qual tem uma aptidão natural. Por exemplo, uma pessoa pode ter um interesse particular em ouvir, outra pode ter um interesse particular em cantar, e outra pode ter um interesse particular em servir no templo. Portanto, estes, ou qualquer dos outros seis diferentes tipos de serviço devocional (lembrar, servir, orar, ocupar-se em algum serviço particular, estar em uma relação amistosa ou oferecer tudo o que se possui), devem ser executados com plena seriedade. Dessa maneira, todos devem agir de acordo com seu gosto particular.\n\n\n\n\nO serviço devocional que segue os passos das gopīs de Vṛndāvana ou das rainhas em Dvārakā chama-se serviço devocional em amor conjugal. Este serviço devocional em amor conjugal pode ser dividido em duas categorias. Uma é o amor conjugal indireto, e a outra, o direto. Em ambas estas categorias, a pessoa tem de seguir a gopī em particular que está ocupada em tal serviço em Goloka Vṛndāvana. Estar diretamente apegado à Suprema Personalidade de Deus em amor conjugal chama-se tecnicamente keli. Esta execução de keli significa unir-se diretamente à Suprema Personalidade de Deus. Há outros devotos que não desejam contato direto com a Pessoa Suprema, mas que saboreiam os relacionamentos amorosos conjugais do Senhor com as gopīs. Tais devotos desfrutam simplesmente ao ouvir sobre as atividades do Senhor com as gopīs.\n\n\n\nEste desenvolvimento do amor conjugal só pode ser possível com aqueles que já estão ocupados em seguir os princípios reguladores do serviço devocional, especificamente na adoração a Rādhā e Kṛṣṇa no templo. Tais devotos desenvolvem gradualmente um amor espontâneo pela Deidade e, ao ouvirem sobre as trocas amorosas do Senhor com as gopīs, sentem-se gradualmente atraídos por esses passatempos. Após esta atração espontânea tornar-se altamente desenvolvida, o devoto é situado em qualquer uma das categorias acima mencionadas.\n\n\n\nEste desenvolvimento de amor conjugal por Kṛṣṇa não se manifesta apenas nas mulheres. O corpo material nada tem a ver com os relacionamentos amorosos espirituais. Uma mulher pode desenvolver uma atitude de tornar-se amiga de Kṛṣṇa e, de modo semelhante, um homem pode desenvolver a feição de tornar-se uma gopī em Vṛndāvana. Como um devoto na forma de um homem pode desejar tornar-se uma gopī é afirmado no *Padma Purāṇa* da seguinte maneira: Em tempos idos, havia muitos sábios em Daṇḍakāraṇya. Daṇḍakāraṇya é o nome da floresta onde o Senhor Rāmacandra viveu após ser banido por Seu pai durante catorze anos. Naquela época, havia muitos sábios avançados que ficaram cativados pela beleza do Senhor Rāmacandra e que desejaram tornar-se mulheres a fim de abraçar o Senhor. Mais tarde, esses sábios apareceram em Goloka Vṛndāvana quando Kṛṣṇa ali adveio, e eles nasceram como gopīs, ou amigas de Kṛṣṇa. Dessa maneira, alcançaram a perfeição da vida espiritual.\n\n\n\nA história dos sábios de Daṇḍakāraṇya pode ser explicada da seguinte forma: Quando o Senhor Rāmacandra residia em Daṇḍakāraṇya, os sábios que ali estavam ocupados no serviço devocional ficaram atraídos por Sua beleza e imediatamente pensaram nas gopīs em Vṛndāvana, que desfrutavam de afeição amorosa conjugal com Kṛṣṇa. Neste exemplo, fica claro que os sábios de Daṇḍakāraṇya desejaram amor conjugal à maneira das gopīs, embora estivessem bem cientes do Senhor Supremo tanto como Kṛṣṇa quanto como o Senhor Rāmacandra. Eles sabiam que Rāmacandra era um rei ideal e não podia aceitar mais de uma esposa; mas o Senhor Kṛṣṇa, sendo a plena Personalidade de Deus, podia satisfazer os desejos de todos eles em Vṛndāvana. Esses sábios também concluíram que a forma do Senhor Kṛṣṇa é mais atraente do que a do Senhor Rāmacandra e, por isso, oraram para tornar-se gopīs em suas vidas futuras a fim de associar-se com Kṛṣṇa. O Senhor Rāmacandra permaneceu em silêncio, e Seu silêncio mostra que Ele aceitou as orações dos sábios. Assim, eles foram abençoados pelo Senhor Rāmacandra a ter associação com o Senhor Kṛṣṇa em suas vidas futuras. Como resultado desta bênção, todos nasceram como mulheres nos ventres das gopīs em Gokula e, como haviam desejado em suas vidas anteriores, desfrutaram da companhia do Senhor Kṛṣṇa, que estava presente naquela época em Gokula Vṛndāvana. A perfeição de sua forma humana de vida foi assim alcançada por gerarem um sentimento transcendental de partilhar amor conjugal com o Senhor Kṛṣṇa.\n\n\n\nO amor conjugal divide-se em duas classificações — a saber, amor conjugal como marido e esposa e amor conjugal como amante e amada. Aquele que desenvolve amor conjugal por Kṛṣṇa como esposa é promovido a Dvārakā, onde o devoto se torna a rainha do Senhor. Aqueles que desenvolvem amor conjugal por Kṛṣṇa como amante são promovidos a Goloka Vṛndāvana, para associar-se com as gopīs e desfrutar de relacionamentos amorosos com Kṛṣṇa ali. Devemos notar cuidadosamente, contudo, que este amor conjugal por Kṛṣṇa, seja como gopī seja como rainha, não se limita apenas às mulheres. Mesmo os homens podem desenvolver tais sentimentos, como evidenciaram os sábios de Daṇḍakāraṇya. Se alguém simplesmente deseja amor conjugal, mas não segue os passos das gopīs, é promovido à associação com o Senhor em Dvārakā.\n\n\n\nNo Mahā-kūrma Purāṇa, afirma-se: \"Grandes sábios que eram os filhos dos deuses do fogo seguiram rigidamente os princípios reguladores em seu desejo de ter amor conjugal por Kṛṣṇa. Como tal, em suas vidas seguintes puderam associar-se com o Senhor, a origem de toda a criação, que é conhecido como Vāsudeva, ou Kṛṣṇa. Cada um deles O obteve como seu marido.\"\n\n\n\n\nOs devotos que estão atraídos por Kṛṣṇa como pais ou como amigos devem seguir os passos de Nanda Mahārāj ou de Subala, respectivamente. Nanda Mahārāj é o pai adotivo de Kṛṣṇa, e, dentre todos os amigos de Kṛṣṇa, Subala é o mais íntimo em Brajabhūmi.\n\n\n\nNo desenvolvimento de tornar-se ou o pai ou o amigo do Senhor, há duas variedades. Um método é que a pessoa pode tentar tornar-se o pai do Senhor diretamente, e o outro é que a pessoa pode seguir Nanda Mahārāj e acalentar o ideal de ser o pai de Kṛṣṇa. Destes dois, a tentativa de tornar-se diretamente o pai de Kṛṣṇa não é recomendada. Tal desenvolvimento pode contaminar-se com a filosofia māyāvāda (impersonalista). Os māyāvādīs, ou monistas, pensam que eles próprios são Kṛṣṇa, e, se alguém pensa que ele próprio se tornou Nanda Mahārāj, então seu amor paternal contaminar-se-á com a filosofia māyāvāda. A maneira filosófica māyāvāda de pensar é ofensiva, e nenhum ofensor pode entrar no reino de Deus para associar-se com Kṛṣṇa.\n\n\n\nNo Skanda Purāṇa, há uma história de um homem idoso que residia em Hastināpur, capital do reino dos Pāṇḍus, que desejava Kṛṣṇa como seu amado filho. Este homem idoso foi instruído por Nārada a seguir os passos de Nanda Mahārāj, e assim alcançou o sucesso.\n\n\n\nHá uma afirmação nas orações Nārāyaṇa-vyūha-stava de que as pessoas que estão sempre ocupadas em pensar no Senhor como seu marido, amigo, pai ou benquerente são sempre adoráveis por todos. Este amor espontâneo por Kṛṣṇa só pode desenvolver-se pela misericórdia especial de Kṛṣṇa ou de Seu devoto puro. Este processo de serviço devocional é às vezes chamado de puṣṭi-mārga. Puṣṭi significa nutrir, e mārga significa senda. Tal desenvolvimento de sentimento nutre o serviço devocional ao mais elevado padrão. Por isso, chama-se a senda do nutrimento, ou puṣṭi-mārga. A Vallabha-sampradāya, que pertence à seita Viṣṇu-svāmī da religião vaiṣṇava, adora Kṛṣṇa neste puṣṭi-mārga. Geralmente, os devotos em Gujarat adoram Bāla-Kṛṣṇa, sob este título de puṣṭi-mārga."}
{"ref": "nod/17", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/17/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "17. Amor Extático", "purport": "## Amor Extático\n\nPelo processo de executar o serviço devocional regulado, a pessoa de fato se eleva à etapa transcendental, além dos modos materiais da natureza. Nesse momento, o coração da pessoa torna-se iluminado como o sol. O sol está muito acima dos sistemas planetários, e não há possibilidade de ser coberto por qualquer tipo de nuvem; de modo semelhante, quando um devoto é purificado como o sol, de seu coração puro há uma difusão de amor extático que é mais glorioso que a luz do sol. Somente nesse momento o apego a Kṛṣṇa é perfeito. Espontaneamente, o devoto torna-se ávido por servir o Senhor em seu amor extático. Nesta etapa, o devoto está na plataforma de *uttama adhikārī*, a devoção perfeita. Tal devoto não tem agitação proveniente das afeições materiais e está interessado apenas no serviço a Rādhā e Kṛṣṇa.\n\nPara esclarecer, nos capítulos anteriores, os sintomas do serviço devocional foram explicados juntamente com instruções sobre como eles podem ser executados com nossos sentidos atuais, elevando-se gradualmente à plataforma do êxtase do amor espontâneo. E os dois tipos de serviço devocional — a saber, o serviço devocional através dos princípios regulativos e o serviço devocional através do amor espontâneo — foram discutidos. Dentro da etapa dos princípios regulativos do serviço devocional, há duas divisões — a saber, a executiva e a efetiva. Esta porção efetiva do serviço devocional chama-se *bhāva*, ou êxtase. A este respeito, há uma afirmação nos *Tantras* de que o êxtase é o primeiro sintoma do amor puro pela Personalidade de Deus e de que, nesta etapa, às vezes se encontra a pessoa derramando lágrimas ou tremendo. Nem sempre estes sintomas se manifestam, mas ocasionalmente. Quando o rei Ambarīṣa foi posto em dificuldade por Durvāsā, ele começou a pensar nos pés de lótus do Senhor, e assim houve algumas mudanças em seu corpo, e lágrimas caíam de seus olhos. Estes sintomas são atividades do êxtase. Eles são visíveis no tremor do corpo e no derramar de lágrimas. Após o aparecimento exterior destes sintomas extáticos, eles permanecem dentro da mente, e a continuação do êxtase chama-se *samādhi*. Esta etapa de apreciação torna-se a causa de futuros intercâmbios de relações amorosas com Kṛṣṇa.\n\nA elevação a esta etapa de êxtase pode ser possível de duas maneiras. Uma maneira é a constante associação com devotos puros. A outra maneira é pela misericórdia especial de Kṛṣṇa, ou pela misericórdia de um devoto puro de Kṛṣṇa. A elevação à etapa extática da vida é geralmente alcançada através da associação com devotos puros, ao passo que a elevação a essa etapa pela misericórdia especial de Kṛṣṇa ou de Seu devoto é muito rara. O significado é que se deve executar o serviço devocional rigidamente na associação de devotos, de modo que haverá certeza de elevar-se a essa posição extática. Em casos especiais, é claro, há um favor especial de Kṛṣṇa e, embora devamos sempre esperar por isso, não devemos sentar-nos ociosamente e simplesmente aguardar a misericórdia especial de Kṛṣṇa; os deveres regulares devem ser cumpridos. É exatamente como quando, às vezes, observa-se que uma pessoa que nunca frequentou escola ou faculdade pode ser reconhecida como um grande erudito, ou um título honorário de grandes universidades pode ser-lhe oferecido. Mas isso não significa que a pessoa deva evitar a escola e esperar receber automaticamente um título honorário de alguma universidade. De modo semelhante, deve-se executar devotamente os princípios regulativos do serviço devocional e, ao mesmo tempo, esperar o favor de Kṛṣṇa ou o favor de Seu devoto.\n\nUm exemplo de elevação à etapa do amor extático por executar os princípios regulativos do serviço devocional é dado na história de vida de Nārada, que é descrita a Vyāsadeva no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Ali, Nārada conta sobre sua vida anterior e como ele se desenvolveu até a etapa do amor extático. Ele estava ocupado no serviço a grandes devotos e costumava ouvir suas conversas e canções. Por ter ele a oportunidade de ouvir estes passatempos e canções de Kṛṣṇa das bocas de devotos puros, tornou-se muito atraído dentro de seu coração. Por ter ficado tão ávido por ouvir estes tópicos, ele gradualmente desenvolveu dentro de si um amor extático por Kṛṣṇa. Este amor extático é anterior ao amor puro de Kṛṣṇa, porque, no verso seguinte, Nārada confirma que, pelo processo gradual de ouvir dos grandes sábios, ele desenvolveu amor a Deus. Nesse contexto, Nārada continua a dizer, no Primeiro Canto, 5º Capítulo, 28º verso, do *Bhāgavatam*: \"Primeiro, passei meus dias na associação dos grandes sábios durante a estação chuvosa do outono. Toda manhã e toda noite, eu os ouvia enquanto cantavam e entoavam o Hare Kṛṣṇa *mantra*, e assim, gradualmente, meu coração se purificou. Tão logo os ouvi com grande atenção, a influência dos modos da ignorância e da paixão materiais desapareceu, e fiquei firmemente fixo no serviço devocional ao Senhor.\"\n\nEstes são exemplos práticos de como a pessoa pode desenvolver-se até a etapa do amor extático simplesmente pela associação de devotos puros. É essencial, portanto, que a pessoa se associe constantemente com devotos puros que estejam ocupados, de manhã e de noite, em cantar o Hare Kṛṣṇa *mantra*. Dessa maneira, ela terá a oportunidade de purificar seu coração e desenvolver este extático amor puro por Kṛṣṇa.\n\nEsta afirmação também é confirmada no Terceiro Canto, 25º Capítulo, 22º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, onde o Senhor Kapila diz: \"Minha querida mãe, quando uma pessoa está de fato na associação de devotos puros, a sublime potência de Meu serviço devocional pode ser experimentada.\" Em outras palavras, quando um devoto puro fala, suas palavras agem sobre os corações da audiência. Qual é o segredo de ouvir e cantar? Um orador profissional não pode imprimir o êxtase transcendental dentro dos corações dos ouvintes. Contudo, quando uma alma realizada que está ocupada no serviço ao Senhor está falando, ela tem a potência de injetar vida espiritual dentro da audiência. A pessoa deve, portanto, buscar a associação de tais devotos puros e imaculados, e, por tal associação e serviço, um devoto neófito certamente desenvolverá apego, amor e devoção pela Suprema Personalidade de Deus.\n\nNo *Padma Purāṇa*, há a história de um devoto neófito que, a fim de elevar-se à plataforma extática, dançou a noite inteira para invocar a graça do Senhor sobre si.\n\nPor vezes, contudo, observa-se que, sem se submeter a qualquer processo devocional, a pessoa, de repente, desenvolve devoção pelo Senhor Kṛṣṇa. Este súbito desenvolvimento da atitude devocional em uma pessoa deve ser compreendido como uma misericórdia especial de Kṛṣṇa ou de Seu devoto. Este desenvolvimento aparentemente acidental de sentimentos extáticos, através da misericórdia imotivada de Kṛṣṇa, pode ser dividido em três grupos: simplesmente por falar, simplesmente por olhar e simplesmente por bons votos.\n\nNo *Nāradīya Purāṇa*, há uma afirmação sobre o desenvolvimento do amor extático simplesmente por falar. O Senhor Kṛṣṇa disse a Nārada: \"Ó melhor dos *brāhmaṇas*, desejo que possas desenvolver serviço devocional imaculado a Mim, o qual é pleno de bem-aventurança transcendental e de toda auspiciosidade.\"\n\nNo *Skanda Purāṇa*, há uma afirmação sobre desenvolver o amor extático por Kṛṣṇa simplesmente por olhar. Ali se afirma: \"Quando os habitantes da Província de Jaṅgala viram a Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, ficaram tão tomados de sentimento que não conseguiam retirar seu olhar dEle.\"\n\nNo que se refere aos votos sinceros, há uma afirmação no *Śuka-saṁhitā* onde Nārada diz a Śrīla Vyāsadeva: \"Tens um filho que é o maior devoto da Personalidade de Deus, e posso observar que, sem qualquer seguimento dos princípios regulativos do serviço devocional, ele já está enriquecido com muitos dos sintomas alcançados pela execução do serviço devocional após muitos e muitos nascimentos.\"\n\nQuanto ao amor extático por Kṛṣṇa, há uma afirmação no Sétimo Canto, 4º Capítulo, 26º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, na qual Nārada se dirige ao rei Yudhiṣṭhira: \"Meu querido rei, é muito difícil descrever o caráter de Prahlāda. Ele desenvolveu uma atração natural por Kṛṣṇa e, tudo o que eu possa explicar sobre seu caráter, será simplesmente um arranjo de palavras; seu caráter real é impossível de descrever.\" Isso significa que o próprio Nārada admitiu que o desenvolvimento natural do amor extático de Prahlāda se deveu à graça do Senhor Kṛṣṇa.\n\nEsta atração natural por Kṛṣṇa da parte de Prahlāda desenvolveu-se simplesmente pela misericórdia de Nārada. Quando Prahlāda Mahārāja estava dentro do ventre de sua mãe, ela estava sendo compassivamente instruída por Nārada acerca da ciência do serviço devocional e, ao mesmo tempo, Nārada estava desejando que a criança dentro do ventre também pudesse aproveitar as instruções. Porque Nārada, um devoto autorizado e grande associado da Personalidade de Deus, estava desejando auspiciosidade para Prahlāda Mahārāja, este desenvolveu todas as características de um devoto de elevado grau. Isso se chama atração natural. Ela é causada pela graça especial da Personalidade de Deus ou pela graça especial de um grande devoto como Nārada.\n\nHá uma afirmação no *Skanda Purāṇa* na qual Parvata Muni diz a Nārada: \"Meu querido Nārada, de todas as pessoas santas, és tão grande e glorioso que, simplesmente por teus bons votos, um caçador de baixo nascimento também se tornou um grande e elevado devoto do Senhor Kṛṣṇa.\"\n\nEste amor extático por Kṛṣṇa pode ser dividido em cinco divisões, que serão descritas por Śrī Rūpa Gosvāmī mais adiante."}
{"ref": "nod/18", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/18/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "18. O Caráter de Quem Está em Amor Extático", "purport": "Rūpa Gosvāmī descreve em seguida as características de uma pessoa que realmente desenvolveu seu amor extático por Kṛṣṇa. As características são as seguintes:\n\n\n\n1) Ela está sempre ansiosa por utilizar seu tempo no serviço devocional ao Senhor. Ela não gosta de ficar ociosa. Ela quer servir sempre, vinte e quatro horas por dia, sem desvio.\n\n\n\n2) Ela é sempre reservada e perseverante.\n\n\n\n3) Ela é sempre desapegada de toda atração material.\n\n\n\n4) Ela não anseia por nenhum respeito material em troca de suas atividades.\n\n\n\n5) Ela tem sempre certeza de que Kṛṣṇa lhe concederá Sua misericórdia.\n\n\n\n6) Ela está sempre muito ansiosa por servir o Senhor fielmente.\n\n\n\n7) Ela está muito apegada ao canto dos santos nomes do Senhor.\n\n\n\n8) Ela está sempre ansiosa por descrever as qualidades transcendentais do Senhor.\n\n\n\n9) Ela sente muito prazer em viver em um lugar onde os passatempos do Senhor são realizados, por exemplo, Mathurā, Vṛndāvana ou Dvārakā.\n\n\n\n\nUm devoto imaculado que desenvolveu amor extático por Kṛṣṇa está sempre ocupando suas palavras em recitar orações ao Senhor. Dentro da mente, ele está sempre pensando em Kṛṣṇa, e, com seu corpo, ou está oferecendo reverências ao prostrar-se diante da Deidade ou está ocupado em algum outro serviço. Durante essas atividades extáticas, ele às vezes derrama lágrimas. Dessa maneira, toda a sua vida está ocupada no serviço ao Senhor, sem um momento desperdiçado em qualquer outra ocupação.\n\n\n\n\nQuando uma pessoa permanece imperturbável mesmo na presença de várias causas de perturbação, ela se chama reservada e perseverante. Um exemplo desta perseverança e reserva encontra-se no comportamento do rei Parīkṣit, como descrito no Primeiro Canto, 19º Capítulo, 13º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*. O rei diz ali a todos os sábios presentes diante dele na hora de sua morte: \"Meus queridos brāhmaṇas, deveis sempre aceitar-me como vosso servo rendido. Vim à margem do Ganges apenas para devotar meu coração e minha alma aos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa. Por isso, por favor, abençoai-me, para que mãe Ganges também possa ficar satisfeita comigo. Que a maldição do filho do brāhmaṇa caia sobre mim — não me importo. Apenas peço que, no último momento de minha vida, todos vós gentilmente canteis o santo nome de Viṣṇu, para que eu possa compreender Suas qualidades transcendentais.\"\n\n\n\nEste exemplo do comportamento de Mahārāj Parīkṣit, seu permanecer paciente mesmo no último ponto de sua vida, sua imperturbável condição de mente, é um exemplo de reserva. Esta é uma das características de um devoto que desenvolveu amor extático por Kṛṣṇa.\n\n\n\n\nOs sentidos estão sempre desejando o gozo dos sentidos, mas, quando um devoto desenvolve amor transcendental por Kṛṣṇa, seus sentidos deixam de ser atraídos por desejos materiais. Este estado de mente chama-se desapego. Há um belo exemplo deste desapego em relação ao caráter do rei Bharata. No Quinto Canto, 14º Capítulo, 43º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, afirma-se: \"O imperador Bharata estava tão atraído pela beleza dos pés de lótus de Kṛṣṇa que, mesmo em sua vida jovem, abandonou todos os tipos de apego à família, aos filhos, aos amigos, ao reino, etc., como se fossem fezes intocáveis.\"\n\n\n\nO imperador Bharata é um exemplo típico de desapego. Ele tinha tudo o que era desfrutável no mundo material, mas abandonou isso. Isto significa que desapego não quer dizer manter-se artificialmente afastado e à parte dos engodos do apego. Mesmo na presença de tais engodos, se a pessoa pode permanecer não atraída pelos apegos materiais, isto se chama desapego. No início, é claro, um devoto neófito deve tentar manter-se à parte de todos os tipos de apegos sedutores, mas a verdadeira posição de um devoto maduro é que, mesmo na presença de todos os engodos, ele não está de modo algum atraído. Este é o verdadeiro critério do desapego.\n\n\n\n\nQuando um devoto, apesar de possuir todas as qualidades da realização pura, não tem orgulho de sua posição, isto se chama ausência de orgulho. No *Padma Purāṇa*, afirma-se que o rei Bhagīratha era o imperador acima de todos os outros reis, mas, mesmo assim, ele desenvolveu tamanho amor extático por Kṛṣṇa que se tornou um mendicante e saiu a mendigar até mesmo nos lares de seus inimigos políticos e de intocáveis. Ele era tão humilde que respeitosamente se prostrava diante deles.\n\n\n\nHá muitos casos semelhantes na história da Índia. Mesmo muito recentemente, há cerca de 200 anos ou menos, um grande proprietário de terras conhecido como Lalababu, um latifundiário de Calcutá, tornou-se um Vaiṣṇava e viveu em Vṛndāvana. Ele também mendigava de porta em porta, mesmo nos lares de seus inimigos políticos. Mendigar implica estar disposto a ser insultado pelas pessoas em cujo lar a pessoa chega. Isso é natural. Mas a pessoa tem de tolerar tais insultos por amor a Kṛṣṇa. O devoto de Kṛṣṇa pode aceitar qualquer posição no serviço a Kṛṣṇa.\n\n\n\n\nA forte convicção de que a pessoa certamente receberá o favor da Suprema Personalidade de Deus chama-se, em sânscrito, āśā-bandha. Āśā-bandha significa continuar a pensar: \"Porque estou tentando o melhor que posso para seguir os princípios rotineiros do serviço devocional, tenho certeza de que voltarei ao Supremo, de volta ao lar.\"\n\n\n\nA esse respeito, uma oração de Rūpa Gosvāmī é suficiente para exemplificar esta esperançosidade. Ele diz: \"Não tenho amor por Kṛṣṇa, nem pelas causas do desenvolvimento do amor por Kṛṣṇa — a saber, ouvir e cantar. E o processo de bhakti-yoga, pelo qual a pessoa está sempre pensando em Kṛṣṇa e fixando Seus pés de lótus no coração, também está faltando em mim. No que se refere ao conhecimento filosófico ou às obras piedosas, não vejo nenhuma oportunidade de executar tais atividades. Mas, acima de tudo, eu nem ao menos sou nascido de uma boa família. Portanto, devo simplesmente orar a Ti, Gopī-jana-vallabha [Kṛṣṇa, o mantenedor e amado das gopīs]. Apenas desejo e espero que, de uma maneira ou de outra, eu seja capaz de aproximar-me de Teus pés de lótus, e esta esperança está me causando dor, porque me considero bastante incompetente para aproximar-me daquele transcendental objetivo da vida.\" O significado é que, sob este título de āśā-bandha, a pessoa deve continuar a ter esperança contra toda esperança de que, de uma maneira ou de outra, será capaz de aproximar-se dos pés de lótus do Senhor Supremo.\n\n\n\n\nQuando a pessoa está suficientemente ansiosa por alcançar o sucesso no serviço devocional, essa ânsia chama-se samutkaṇṭhā. Isto significa completa ânsia. Na verdade, esta ânsia é o preço para alcançar o sucesso na consciência de Kṛṣṇa. Tudo tem algum valor, e a pessoa tem de pagar o valor antes de obtê-lo ou possuí-lo. Afirma-se na literatura Védica que, para comprar a coisa mais valiosa, a consciência de Kṛṣṇa, a pessoa tem de desenvolver uma intensa ânsia por alcançar o sucesso. Esta intensa ânsia é muito bem expressa por Bilvamaṅgala Ṭhākura em seu livro Kṛṣṇa-karṇāmṛta. Ele diz: \"Estou esperando ansiosamente para ver aquele menino de Vṛndāvana cuja beleza corporal está cativando o universo inteiro, cujos olhos estão sempre delimitados por sobrancelhas negras e expandidos como pétalas de lótus, que está sempre olhando ansiosamente para Seus devotos e que, por isso, move-se ligeiramente de um lado para o outro. Seus olhos estão sempre úmidos, Seus lábios têm a cor do cobre, e, através desses lábios, vem uma vibração sonora que torna a pessoa mais louca do que um elefante louco. Eu quero tanto vê-Lo em Vṛndāvana!\"\n\n\n\nNo mesmo Karṇāmṛta, há outra afirmação sobre o canto de Rādhārāṇī. Diz uma das associadas de Rādhārāṇī: \"Ó Senhor Govinda, a moça que é a filha do rei Vṛṣabhānu está agora derramando lágrimas, e está ansiosamente cantando Teu santo nome — Kṛṣṇa! Kṛṣṇa!\"\n\n\n\nEste apego ao canto das glórias do Senhor também é afirmado no Karṇāmṛta da seguinte forma: \"Que farei por Kṛṣṇa, que é mais agradável do que todas as concepções de prazer e que é mais travesso do que todos os meninos inquietos? A ideia das belas atividades de Kṛṣṇa está atraindo meu coração, e eu não sei o que posso fazer!\"\n\n\n\n\nNo livro Padyāvalī, de Rūpa Gosvāmī, há a seguinte afirmação sobre Vṛndāvana: \"Neste lugar, o filho de Mahārāj Nanda costumava viver com Seu pai, que era o rei de todos os vaqueiros. Neste lugar, o Senhor Kṛṣṇa quebrou a carroça na qual o demônio Śakaṭāsura estava oculto. Neste lugar, Dāmodara, que pode cortar o nó de nossa existência material, foi amarrado por Sua mãe Yaśodā.\"\n\n\n\nUm devoto puro do Senhor Kṛṣṇa reside no distrito de Mathurā ou de Vṛndāvana e visita todos os lugares onde os passatempos de Kṛṣṇa foram realizados. Nesses lugares sagrados, Kṛṣṇa exibiu Suas atividades de infância com os meninos vaqueiros e com mãe Yaśodā. O sistema de circundar todos esses lugares ainda está em uso entre os devotos do Senhor Kṛṣṇa, e aqueles que vêm a Mathurā e a Vṛndāvana sempre sentem prazer transcendental. Na verdade, se alguém vai a Vṛndāvana, sentirá imediatamente separação de Kṛṣṇa, que realizou tão belas atividades quando esteve presente ali.\n\n\n\nTal atração por lembrar-se das atividades de Kṛṣṇa é conhecida como apego por Kṛṣṇa. Há filósofos e místicos impersonalistas, contudo, que, por uma exibição de serviço devocional, querem em última análise fundir-se na existência do Senhor Supremo. Eles às vezes tentam imitar o sentimento de um devoto puro de visitar os lugares sagrados onde Kṛṣṇa teve Seus passatempos, mas simplesmente têm em vista a salvação e, por isso, suas atividades não podem ser consideradas apego.\n\n\n\nRūpa Gosvāmī afirma que o apego exibido pelos devotos puros por Kṛṣṇa não pode de modo algum ser aperfeiçoado no coração dos trabalhadores fruitivos (karmīs) ou dos especuladores mentais, porque tal apego em consciência de Kṛṣṇa pura é muito raro e não é possível de alcançar nem mesmo para muitas pessoas liberadas. Como se afirma no *Bhagavad-gītā*, a liberação da contaminação material é o estágio no qual o serviço devocional pode ser alcançado. Para uma pessoa que simplesmente quer ter a liberação e fundir-se no impessoal brahma-jyoti, não é possível adquirir apego por Kṛṣṇa. Este apego é guardado muito confidencialmente por Kṛṣṇa e só é concedido aos devotos puros. Mesmo os devotos comuns não podem ter tal apego puro por Kṛṣṇa. Portanto, como é possível que o sucesso seja alcançado por pessoas cujos corações estão contaminados pelas ações e reações de atividades fruitivas e que estão enredadas por vários tipos de especulação mental?\n\n\n\nHá muitos supostos devotos que artificialmente pensam nos passatempos de Kṛṣṇa, que são conhecidos como aṣṭa-kālīya-līlā. Às vezes, a pessoa pode imitar artificialmente estes, fingindo que Kṛṣṇa está falando com ela na forma de um menino, ou então pode fingir que Rādhārāṇī e Kṛṣṇa, ambos, vieram a ela e estão falando com ela. Tais características são às vezes exibidas pela classe de homens impersonalistas, e elas podem cativar algumas pessoas inocentes que não têm conhecimento na ciência do serviço devocional. Contudo, tão logo um devoto experiente vê todas essas caricaturas, ele pode avaliar imediatamente tal velhacaria. Se tal fingidor é às vezes visto possuindo apego imitativo por Kṛṣṇa, isto não será aceito como apego real. Pode-se dizer, contudo, que tal apego é como dar uma esperança futura ao fingidor, para que ele possa eventualmente elevar-se à verdadeira plataforma do serviço devocional puro.\n\n\n\nEste apego imitativo pode ser dividido em dois títulos — a saber, apego de sombra e apego parā (transcendental). Se alguém, sem passar pelos princípios reguladores do serviço devocional ou sem ser guiado por um mestre espiritual genuíno, mostra tal apego imitativo, isto se chama apego de sombra. Às vezes, observa-se que uma pessoa realmente apegada ao desfrute material ou à salvação tem a boa fortuna de associar-se com devotos puros enquanto eles estão ocupados em cantar o santo nome do Senhor. Pela boa graça do Senhor, a pessoa também pode cooperar e juntar-se ao canto. Nesse momento, simplesmente pela associação de tais devotos puros, os raios semelhantes aos da lua que provêm de seus corações refletem-se nela, e, pela influência dos devotos puros, ela pode mostrar alguma semelhança de apego causada pela curiosidade, mas isto é muito instável. E, se, pela manifestação de tal apego de sombra, a pessoa sente o desaparecimento de todas as dores materiais, então isto se chama apego parā.\n\n\n\n\nTal apego de sombra ou apego parā pode desenvolver-se ao associar-se com um devoto puro ou ao visitar lugares sagrados como Vṛndāvana ou Mathurā; ou, se um homem comum desenvolve tal apego por Kṛṣṇa e felizmente realiza atividades devocionais na associação de devotos puros, ele também pode elevar-se à plataforma do serviço devocional puro. A conclusão é que o apego transcendental é tão poderoso que, se tal apego é visto manifestado mesmo em algum homem comum, pela associação de um devoto puro ele pode levar a pessoa ao estágio de perfeição. Mas tal apego por Kṛṣṇa não pode ser invocado em uma pessoa sem que ela seja suficientemente abençoada pela associação de devotos puros.\n\n\n\nAssim como o apego pode ser invocado pela associação de devotos puros, também o apego pode ser extinto ao se cometerem ofensas aos pés de lótus de devotos puros. Para ser mais claro, pela associação de devotos puros o apego por Kṛṣṇa pode ser despertado, mas, se a pessoa comete ofensas aos pés de lótus de um devoto, seu apego de sombra ou apego parā pode ser extinto. Esta extinção é como a lua minguante, que gradualmente decresce e por fim se torna escuridão. A pessoa deve, portanto, ser muito cuidadosa ao associar-se com devotos puros, a fim de guardar-se de cometer uma ofensa a seus pés de lótus.\n\n\n\nO apego transcendental, seja de sombra seja parā, pode ser anulado por diferentes graus de ofensas aos pés de lótus de devotos puros. Se a ofensa é muito grave, então o apego da pessoa torna-se quase nulo, e, se a ofensa não é muito grave, o apego da pessoa pode tornar-se de segunda ou de terceira classe.\n\n\n\nSe alguém se apega aos princípios da salvação ou de fundir-se na existência do brahma-jyoti, seus êxtases gradualmente diminuem em apego de sombra e parā ou então se transformam nos princípios do ahaṅgrahopāsanā. Este ahaṅgrahopāsanā descreve uma entidade viva quando ela começa a realização espiritual ao identificar-se com o Senhor Supremo. Este estado de autorrealização é tecnicamente conhecido como monismo. O monista pensa-se uno com o Senhor Supremo. Assim, sem diferenciar entre si mesmo e o Senhor Supremo, é seu ponto de vista que, ao adorar a si mesmo, ele está adorando o todo supremo.\n\n\n\nÀs vezes, observa-se que um neófito está participando do canto e da dança muito entusiasticamente, mas dentro de si está sob a impressão de que se tornou uno com o todo supremo. Esta concepção de monismo é completamente diferente do serviço devocional transcendental puro. Se, contudo, observa-se que uma pessoa desenvolveu um elevado padrão de devoção sem ter passado nem mesmo pelos princípios reguladores, deve-se entender que seu status de serviço devocional foi alcançado em uma vida anterior. Por uma razão ou outra, ele foi temporariamente interrompido, muito provavelmente por cometer uma ofensa aos pés de lótus de um devoto. Agora, com uma boa segunda chance, ele começou novamente a desenvolver-se. A conclusão é que o progresso constante no serviço devocional só pode ser alcançado na associação de devotos puros.\n\n\n\nSe a pessoa pode avançar gradualmente seu status no serviço devocional, deve-se entender que isto se deve à misericórdia imotivada do próprio Kṛṣṇa. Se uma pessoa está completamente desapegada do desfrute material e desenvolveu devoção extática pura, mesmo que às vezes acidentalmente se descubra que ela não está vivendo de acordo com o padrão do serviço devocional, não se deve invejá-la. Confirma-se também no *Bhagavad-gītā* que um devoto que tem fé inabalável no Senhor e devoção a Ele, mesmo que às vezes se descubra que ele acidentalmente se desviou das características devocionais puras, ainda assim deve ser contado entre os puros. A fé inabalável no serviço devocional, no Senhor Kṛṣṇa e no mestre espiritual torna a pessoa altamente elevada nas atividades do serviço devocional.\n\n\n\nNo Nṛsiṁha Purāṇa, afirma-se: \"Se uma pessoa ocupou completamente sua mente, seu corpo e suas atividades no serviço ao Supremo Deus, e, externamente, descobre-se que ela está ocupada em algumas atividades abomináveis, essas atividades abomináveis certamente serão muito rapidamente subjugadas pela influência de sua firme força devocional.\" Dá-se o exemplo de que, na lua cheia, há algumas manchas que podem parecer marcas de bexiga. Mesmo assim, a iluminação espalhada pela lua cheia não pode ser obstruída. De modo semelhante, uma pequena falta em meio a volumes de serviço devocional não deve de modo algum ser contada como falta. O apego por Kṛṣṇa é bem-aventurança transcendental. Em meio a ilimitados volumes de bem-aventurança transcendental, uma mancha de algum defeito material não pode atuar de maneira alguma."}
{"ref": "nod/19", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/19/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "19. O Serviço Devocional em Amor a Deus", "purport": "Quando o desejo da pessoa de amar Kṛṣṇa em sua relação particular se intensifica, isso é conhecido como amor puro de Deus. No começo, um devoto ocupa-se nos princípios regulativos do serviço devocional por ordem de seu mestre espiritual. Quando, dessa forma, a pessoa fica completamente purificada de toda contaminação material, desenvolvem-se um apego e um gosto pelo serviço devocional. Este gosto e este apego, quando gradualmente intensificados no decorrer do tempo, tornam-se amor. A palavra \"amor\" só pode, de fato, ser aplicada em relação com a Personalidade de Deus. No mundo material, o amor não é absolutamente aplicável. O que se passa sob o nome de amor no mundo material nada mais é que luxúria. Há um abismo de diferença entre o amor e a luxúria, como a diferença entre o ouro e o ferro. No *Nārada-pañcarātra*, afirma-se claramente que, quando a luxúria é completamente transferida para o Supremo Deus e o conceito de parentesco é completamente repousado nEle, isso é aceito como amor puro de Deus por grandes autoridades como Bhīṣma, Prahlāda, Uddhava e Nārada.\n\nUma grande autoridade como Bhīṣma explicou que o amor a Deus significa abandonar completamente todo o suposto amor por qualquer outra pessoa. Segundo Bhīṣma, amor significa repousar a própria afeição completamente sobre uma pessoa, retirando todas as afinidades por qualquer outra pessoa. Este amor puro pode ser transferido para a Suprema Personalidade de Deus sob duas condições — em decorrência do êxtase e em decorrência da misericórdia imotivada da própria Suprema Personalidade de Deus.\n\nO amor extático a Deus pode ser potentemente invocado simplesmente por seguir as regras e regulações do serviço devocional, tal como são prescritas nas escrituras, sob a direção de um mestre espiritual genuíno. No Décimo Primeiro Canto, 2º Capítulo, 38º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, este amor extático, nascido da execução do serviço devocional regulativo, é explicado: \"Um devoto, no decorrer da execução dos princípios regulativos do serviço devocional, desenvolve sua consciência natural de Kṛṣṇa e, assim amolecido de coração, canta e dança como um louco. Enquanto realiza o canto do santo nome do Senhor, ele às vezes chora, às vezes fala desvairadamente, às vezes canta e às vezes — sem se importar com qualquer estranho — dança como um louco.\"\n\nNo *Padma Purāṇa*, há uma afirmação sobre o amor extático nascido da afeição espontânea. Candrakānti, uma célebre moça de rosto belo, observou rigidamente o celibato a fim de obter Kṛṣṇa como seu esposo. Ela sempre se ocupava em meditar na forma transcendental do Senhor e sempre cantava as glórias do Senhor. Ela não desejava aceitar nenhuma outra pessoa como seu esposo. Ela havia decidido firmemente que apenas o Senhor Kṛṣṇa seria seu esposo.\n\n## A Misericórdia Extraordinária do Senhor\n\nQuando se observa que um devoto está sempre associado com o Senhor em amor extático, deve-se compreender que tal posição é concedida pelo próprio Senhor, em decorrência de Sua imotivada e extraordinária misericórdia. Um exemplo de tal misericórdia extraordinária é dado no Décimo Primeiro Canto, 12º Capítulo, 6º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, no qual o Senhor Kṛṣṇa diz a Uddhava: \"As *gopīs* em Vṛndāvana não estudaram os *Vedas* para Me alcançar. Tampouco jamais estiveram em lugares santos de peregrinação. Tampouco executaram devotamente qualquer princípio regulativo. Tampouco se submeteram a qualquer tipo de austeridade. É simplesmente por Minha associação que elas alcançaram a mais elevada perfeição do serviço devocional.\"\n\nA partir do exemplo de Candrakānti, tal como se encontra no *Padma Purāṇa*, e a partir do exemplo das *gopīs*, tal como se encontra no *Śrīmad-Bhāgavatam*, parece que um devoto que sempre pensa em Kṛṣṇa e que sempre canta Suas glórias em amor extático, independentemente de sua condição, alcançará a mais elevada perfeição do imaculado amor devocional, devido à extraordinária misericórdia do Senhor Kṛṣṇa. Isso é confirmado no *Śrīmad-Bhāgavatam*: \"Se Hari, o Senhor Supremo, é adorado, venerado e amado por uma pessoa, deve-se compreender que a pessoa concluiu toda sorte de austeridades, penitências e processos semelhantes para a autorrealização. Por outro lado, se, após submeter-se a todos os tipos de austeridades, penitências e práticas de *yoga* místico, a pessoa não desenvolve tal amor por Hari, então todas as suas realizações devem ser consideradas um inútil desperdício de tempo. Se alguém vê sempre Kṛṣṇa por dentro e por fora, então deve-se compreender que ele superou todas as austeridades e penitências para a autorrealização. E se, após executar toda sorte de penitências e austeridades, a pessoa não consegue ver sempre Kṛṣṇa por dentro e por fora, então ela executou suas realizações inutilmente.\"\n\nA atração espontânea por Kṛṣṇa, que se diz dever-se à extraordinária misericórdia do Senhor, pode ser colocada sob dois títulos: um é a profunda veneração pela grandeza do Senhor, e o outro pode ser o fato de a pessoa ser automaticamente atraída por Kṛṣṇa sem qualquer consideração externa. No *Nārada-pañcarātra*, diz-se que, se, em razão da profunda veneração pela grandeza do Senhor Supremo, a pessoa alcança uma grande afeição e um amor constante por Ele, ela certamente tem a garantia de alcançar os quatro tipos de liberação vaiṣṇava — a saber, alcançar os mesmos traços corpóreos do Senhor, alcançar a mesma opulência do Senhor, habitar no planeta onde o Senhor reside e alcançar a associação eterna com o Senhor. A liberação vaiṣṇava é completamente diferente da liberação māyāvāda, que é simplesmente uma questão de fundir-se na refulgência do Senhor.\n\nNo *Nārada-pañcarātra*, o serviço devocional puro e imaculado é explicado como sendo desprovido de qualquer motivo de benefício pessoal. Se um devoto está continuamente apaixonado pelo Senhor Kṛṣṇa e sua mente está sempre fixa nEle, essa atitude devocional provará ser o único meio de atrair a atenção do Senhor. Em outras palavras, um vaiṣṇava que está incessantemente pensando na forma do Senhor Kṛṣṇa deve ser conhecido como um vaiṣṇava puro.\n\nGeralmente, um devoto que alcançou a misericórdia imotivada do Senhor em razão de seguir as estritas regras e regulações do serviço devocional torna-se atraído pela suprema grandeza do Senhor, pela transcendental beleza do Senhor e pela execução espontânea do serviço devocional. Para ser mais claro, por executar os princípios regulativos do serviço devocional, a pessoa pode apreciar plenamente a transcendental beleza do Senhor. Em todo caso, tais posições exaltadas só são possíveis pela extraordinária misericórdia do Senhor sobre o devoto.\n\n## Associação com Devotos Puros\n\nEmbora muitos diferentes processos para desenvolver o amor a Deus tenham sido explicados até aqui, Śrīla Rūpa Gosvāmī agora nos dá uma descrição geral de como a pessoa pode melhor alcançar tão elevada posição. O começo do amor extático a Deus é, basicamente, a fé. Há muitas sociedades e associações de devotos puros e, se alguém, com apenas um pouco de fé, começa a associar-se com tais sociedades, seu avanço ao serviço devocional puro é rápido. A influência de um devoto puro é tal que, se alguém vem associar-se com ele com um pouco de fé, obtém a oportunidade de ouvir sobre o Senhor a partir de escrituras autorizadas como o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam*. Assim, pela misericórdia do Senhor, que está situado no coração de todos, a pessoa gradualmente desenvolve sua fé nas descrições de tais escrituras autorizadas. Esta é a primeira etapa da associação com devotos puros. Na segunda etapa, depois de a pessoa tornar-se um pouco avançada e madura, ela automaticamente se oferece para seguir os princípios do serviço devocional sob a orientação do devoto puro e o aceita como mestre espiritual. Na etapa seguinte, sob a orientação do mestre espiritual, o devoto executa o serviço devocional regulativo e, como resultado de tais atividades, fica livre de todas as ocupações indesejadas. Quando ele se livra das ocupações indesejadas, sua fé torna-se firmemente fixa, e ele desenvolve um gosto transcendental pelo serviço devocional, depois apego, depois êxtases e, na última etapa, há o amor puro de Deus. Estas são as diferentes etapas do desenvolvimento do amor puro.\n\nSomente as pessoas mais afortunadas podem alcançar tal êxito na vida. Aqueles que são meros estudantes acadêmicos das escrituras Védicas não podem apreciar como tal desenvolvimento ocorre. No *Nārāyaṇa Pañcarātra*, portanto, o Senhor Śiva diz a Pārvatī: \"Minha querida deusa suprema, podes saber de mim que qualquer pessoa que desenvolveu o êxtase do amor pela Suprema Personalidade de Deus, e que está sempre imersa em bem-aventurança transcendental em razão deste amor, não consegue sequer perceber a aflição ou a felicidade material provenientes do corpo ou da mente.\"\n\nA afeição e as relações de amor são diferentes ramos da árvore original do amor que precede as muitas variedades de manifestações afetuosas, as quais não serão discutidas aqui. Estas diferentes manifestações foram descritas por Sanātana Gosvāmī em seu *Bhāgavatāmṛta*. Embora o tema de tais afeições e relações de amor seja muito confidencial, Sanātana Gosvāmī as descreveu muito explicitamente.\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī conclui, assim, a primeira divisão do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*, oferecendo seu tratado para o prazer transcendental de Sanātana Gosvāmī, que estabeleceu a transcendental beleza, e de Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī, Śrī Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī e Raghunāthadāsa Gosvāmī. Parece, por esta afirmação, que o grande Śrīla Jīva Gosvāmī ainda não estava ativo quando o *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* foi escrito."}
{"ref": "nod/20", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/20/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "20. O Doce Sabor Transcendental", "purport": "## Doçura Transcendental\n\nNesta segunda divisão do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* o autor oferece suas respeitosas reverências a \"Sanātana\". Este Sanātana pode ser interpretado quer como o próprio Śrī Kṛṣṇa, quer como Sanātana Gosvāmī, o irmão mais velho e mestre espiritual de Rūpa Gosvāmī. No caso em que se aceita que Sanātana significa Śrī Kṛṣṇa, as reverências são oferecidas a Kṛṣṇa porque Ele é naturalmente tão belo e porque Ele é o matador do demônio Agha. Se for interpretado como significando Sanātana Gosvāmī, então é porque ele é tão grandemente favorecido por Rūpa Gosvāmī, sendo sempre servido por ele, e porque ele é o aniquilador de todos os tipos de atividades pecaminosas. Nesta divisão do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* o autor deseja descrever os sintomas gerais da doçura transcendental (estado de espírito amoroso) do desempenho do serviço devocional.\n\nNesta divisão do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* há cinco tópicos gerais: 1) *vibhāva* — sintomas especiais de êxtase; 2) *anubhāva* — êxtase subsequente; 3) *sāttvika-bhāva* — êxtase constitucional; 4) *vyabhicārī-bhāva* — êxtase agressivo; e 5) *sthāyi-bhāva* — êxtase fervoroso.\n\nA palavra *rasa,* empregada no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* é entendida de modo diferente por diferentes pessoas, porque o equivalente exato em inglês é muito difícil de encontrar. Mas, como vimos nosso mestre espiritual traduzir esta palavra *rasa* por \"doçura\" (mellow), seguiremos suas pegadas e também traduziremos a palavra dessa maneira.\n\nO estado de espírito ou atitude amorosa específica saboreada na troca de amor com a Suprema Personalidade de Deus chama-se *rasa,* ou doçura. Os diferentes tipos de *rasa,* quando combinados entre si, ajudam a pessoa a saborear a doçura do serviço devocional no mais elevado grau de êxtase transcendental. Tal posição, embora inteiramente transcendental à nossa experiência, será explicada nesta seção na medida do possível, seguindo as pegadas de Śrīla Rūpa Gosvāmī.\n\nSem saborear algum tipo de doçura ou estado de espírito amoroso em suas atividades, ninguém pode continuar a executar tais atividades. De modo semelhante, na vida transcendental da consciência de Kṛṣṇa e do serviço devocional, deve haver alguma doçura ou sabor específico oriundo do serviço. Geralmente, esta doçura é experimentada ao cantar, ao ouvir, ao adorar no templo e ao ocupar-se no serviço ao Senhor. Assim, quando uma pessoa sente bem-aventurança transcendental, isso se chama \"saborear a doçura\". Para sermos mais claros, podemos compreender que os vários sentimentos de felicidade derivados do desempenho do serviço devocional podem ser denominados as \"doçuras\" do serviço devocional.\n\nEste saborear da doçura transcendental no desempenho do serviço devocional não pode ser experimentado por todas as classes de homens, porque este doce estado de espírito amoroso desenvolve-se apenas a partir das atividades da vida anterior da pessoa, ou pela associação com devotos imaculados. Como se explicou acima, a associação com devotos puros é o começo da fé no serviço devocional. Somente ao desenvolver tal fé na associação de um devoto puro, ou por ter executado, em sua vida anterior, atividades devocionais, é que a pessoa pode de fato saborear a doçura do serviço devocional. Em outras palavras, esta bem-aventurança transcendental não deve ser desfrutada por nenhum homem comum, a menos que ele seja tão extraordinariamente afortunado a ponto de estar na associação de devotos ou de estar dando continuidade às atividades devocionais de seu nascimento anterior.\n\nO processo gradual de desenvolvimento até a etapa do serviço devocional está explicado no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Primeiro Canto: \"O começo é ouvir acerca do Senhor Kṛṣṇa na associação de devotos que purificaram seus próprios corações pela associação. Ouvir acerca das atividades transcendentais do Senhor resultará em que a pessoa sinta sempre bem-aventurança transcendental.\" Também se explica no *Bhagavad-gītā* que, para aquele que realmente alcançou a plataforma espiritual, o primeiro sintoma visível será que ele está sempre alegre. Esta vida jubilosa é alcançada pela reação da pessoa à leitura do *Bhagavad-gītā* ou do *Śrīmad-Bhāgavatam,* ou então pela associação com pessoas que estão muito interessadas na vida espiritual da consciência de Kṛṣṇa — especificamente aquelas que tomaram a determinação de alcançar o favor de Govinda ao ocuparem-se em transcendental serviço amoroso a Seus pés de lótus. Sendo encorajada por tal sentimento, a pessoa que está constantemente ocupada em desempenhar os princípios regulativos do serviço devocional de tal maneira que agrade à Suprema Personalidade de Deus desenvolve dois princípios de força compulsiva, que se enquadram sob o título de *vibhāva.* Assim, ela desfruta bem-aventurança transcendental.\n\nHá várias origens ou causas para este amor compulsivo por Kṛṣṇa, tais como o próprio Kṛṣṇa, os devotos de Kṛṣṇa, o tocar de flauta de Kṛṣṇa etc. O efeito é, às vezes, amoroso e, às vezes, contido.\n\nHá oito sintomas transcendentais que se manifestam no corpo durante o êxtase, e todos eles só são possíveis por uma mistura das cinco divisões extáticas mencionadas acima. Sem alguma mistura destes cinco princípios extáticos, não se pode saborear a bem-aventurança transcendental. A causa ou base para saborear a doçura transcendental é exatamente o que queremos dizer por *vibhāva.* Este *vibhāva* divide-se em dois — a saber, básico e impetuoso. No *Agni Purāṇa,* a descrição de *vibhāva* é dada da seguinte forma: \"A base a partir da qual nasce o amor extático chama-se *vibhāva,* que se divide em dois — básico e impetuoso.\" Em outras palavras, há dois tipos de amor extático. O objeto do amor extático básico é Kṛṣṇa e Seu devoto. O Senhor Kṛṣṇa é o objeto do amor extático básico, e Seu devoto puro, um reservatório de tal amor, é o objeto do amor extático impetuoso. O amor extático impetuoso, então, é aquele amor que se desenvolve quando a pessoa vê um objeto que a faz lembrar de Kṛṣṇa.\n\nO Senhor Kṛṣṇa, que é o possuidor de inconcebíveis potências e qualidades de conhecimento e bem-aventurança transcendentais, é a causa básica do amor extático. O Senhor Kṛṣṇa também Se torna o reservatório (ímpeto) do amor extático por meio de Suas diferentes encarnações e expansões. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* há uma afirmação relacionada com o *brahma-vimohana-līlā,* que demonstra algo deste aspecto impetuoso do amor extático. Quando Brahmā foi iludido por Kṛṣṇa, que Se expandiu em tantos vaqueirinhos, bezerros e vacas, o irmão mais velho de Kṛṣṇa, Śrī Baladeva (uma expansão direta do próprio Kṛṣṇa), sentiu espanto e disse: \"Como é maravilhoso que Meu amor extático por Kṛṣṇa esteja novamente sendo atraído para tantos vaqueirinhos, bezerros e vacas!\" Ele ficou tomado de espanto ao pensar dessa maneira. Este é um dos exemplos em que o próprio Kṛṣṇa Se torna o objeto e reservatório do amor extático no aspecto impetuoso."}
{"ref": "nod/21", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/21/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "21. Qualidades de Śrī Kṛṣṇa", "purport": "Os aspectos pessoais podem dividir-se em dois: um aspecto está coberto, e o outro aspecto está manifesto. Quando Kṛṣṇa Se cobre com diferentes tipos de vestes, Seu aspecto pessoal fica coberto. Há um exemplo de Seu aspecto pessoal coberto no *Śrīmad-Bhāgavatam,* em conexão com Seu *Dvārakā līlā* (Sua residência em Dvārakā como rei dela). Às vezes, o Senhor Kṛṣṇa começava a brincar vestindo-Se como uma mulher. Ao ver esta forma, Uddhava disse: \"Como é maravilhoso que esta mulher esteja atraindo meu amor extático exatamente como o Senhor Kṛṣṇa o faz. Penso que ela deve ser Kṛṣṇa coberto pelas vestes de uma mulher!\"\n\nCerto devoto louvou os aspectos corporais de Kṛṣṇa quando viu o Senhor em Seu aspecto pessoal manifesto. Ele exclamou: \"Como é maravilhoso o aspecto pessoal do Senhor Kṛṣṇa! Como Seu pescoço é igual a um búzio! Seus olhos são tão belos, como se eles próprios estivessem se defrontando com a beleza de uma flor de lótus. Seu corpo é igual à árvore *tāmala,* muito enegrecido. Sua cabeça está protegida por um dossel de cabelos. Há as marcas de śrīvatsa em Seu peito, e Ele está segurando Seu búzio. Por tais belos aspectos corporais, o inimigo do demônio Madhu apareceu de modo tão agradável que pode conceder-me bem-aventurança transcendental simplesmente pelo fato de eu ver Suas qualidades transcendentais.\"\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī, após consultar várias escrituras, enumerou as qualidades transcendentais do Senhor da seguinte forma: 1) aspectos belos de todo o corpo; 2) marcado com todas as características auspiciosas; 3) extremamente agradável; 4) refulgente; 5) forte; 6) sempre jovem; 7) linguista maravilhoso; 8) veraz; 9) fala de modo agradável; 10) pode falar fluentemente todas as línguas; 11) altamente erudito; 12) altamente inteligente; 13) um gênio; 14) artístico; 15) extremamente hábil; 16) perito; 17) grato; 18) firmemente determinado; 19) perito juiz de tempo e circunstâncias; 20) vê e fala com base na autoridade dos *Vedas,* ou escrituras; 21) puro; 22) autocontrolado; 23) constante; 24) tolerante; 25) clemente; 26) grave; 27) autossatisfeito; 28) possuidor de equilíbrio; 29) magnânimo; 30) religioso; 31) heroico; 32) compassivo; 33) respeitoso; 34) gentil; 35) liberal; 36) recatado; 37) o protetor das almas rendidas; 38) feliz; 39) o benquerente dos devotos; 40) controlado pelo amor; 41) totalmente auspicioso; 42) o mais poderoso; 43) todo-famoso; 44) popular; 45) parcial para com os devotos; 46) muito atraente para todas as mulheres; 47) todo-adorável; 48) todo-opulento; 49) todo-honrado; 50) o controlador supremo. A Suprema Personalidade de Deus possui todas estas cinquenta qualidades transcendentais em plenitude tão profunda quanto o oceano. Em outras palavras, a extensão de Suas qualidades é inconcebível.\n\nComo partes integrantes do Senhor Supremo, as entidades vivas individuais também podem possuir todas estas qualidades em quantidades diminutas, contanto que se tornem devotas puras do Senhor. Em outras palavras, todas as qualidades transcendentais mencionadas acima podem estar presentes nos devotos em quantidade diminuta, ao passo que as qualidades em plenitude estão sempre presentes na Suprema Personalidade de Deus.\n\nAlém destas, há outras qualidades transcendentais que são descritas pelo Senhor Śiva a Pārvatī no *Padma Purāṇa,* e no Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* em conexão com uma conversa entre o semideus da Terra e o rei da religião, Yamarāja. Ali se diz: \"As pessoas que desejam tornar-se grandes personalidades devem estar adornadas com as seguintes qualidades: veracidade, limpeza, misericórdia, perseverança, renúncia, paz, simplicidade, controle dos sentidos, equilíbrio da mente, austeridade, igualdade, tolerância, placidez, erudição, conhecimento, opulência, cavalheirismo, influência, força, memória, independência, tato, brilho, paciência, capacidade de falar, gravidade, firmeza, fidelidade, fama, respeitabilidade e ausência de falso egoísmo.\" As pessoas que desejam tornar-se grandes almas não podem estar sem qualquer uma das qualidades acima, de modo que podemos saber com certeza que estas qualidades se encontram no Senhor Kṛṣṇa, a alma suprema.\n\nAlém de todas as cinquenta qualidades mencionadas acima, o Senhor Kṛṣṇa possui mais cinco, que às vezes se manifestam parcialmente nas pessoas do Senhor Brahmā ou do Senhor Śiva. Estas qualidades transcendentais são as seguintes: 51) imutável; 52) onisciente; 53) sempre fresco; 54) *sac-cid-ānanda* (possuidor de um corpo eterno e bem-aventurado); 55) possuidor de toda perfeição mística.\n\nKṛṣṇa também possui outras cinco qualidades, que se manifestam no corpo de Nārāyaṇa, e elas estão enumeradas da seguinte forma: 56) Ele tem potência inconcebível. 57) Incontáveis universos geram-se de Seu corpo. 58) Ele é a fonte original de todas as encarnações. 59) Ele é o outorgador da salvação aos inimigos que mata. 60) Ele é o atrator das almas liberadas. Todas estas qualidades transcendentais se manifestam maravilhosamente no aspecto pessoal do Senhor Kṛṣṇa.\n\nAlém destas sessenta qualidades transcendentais, Kṛṣṇa tem mais quatro, que não se manifestam nem mesmo na forma de Nārāyaṇa de Deus, sem falar dos semideuses ou das entidades vivas. Elas são as seguintes: 61) Ele é o realizador de maravilhosas variedades de passatempos (especialmente Seus passatempos infantis). 62) Ele pode atrair todas as entidades vivas por todos os universos ao tocar Sua flauta. 63) Ele é cercado por devotos dotados de maravilhoso amor a Deus. 64) Ele tem uma maravilhosa excelência de beleza que não pode ser rivalizada em parte alguma da criação.\n\nAcrescentando à lista estas quatro qualidades excepcionais de Kṛṣṇa, deve-se entender que o número total de qualidades de Kṛṣṇa é sessenta e quatro. Śrīla Rūpa Gosvāmī tentou apresentar evidências de várias escrituras acerca de todas as sessenta e quatro qualidades presentes na pessoa do Senhor Supremo.\n\n## 1. Belos Aspectos Corporais\n\nQualquer comparação das diferentes partes do corpo do Senhor com diferentes objetos materiais não pode, de fato, ser uma comparação completa. Às pessoas comuns, que não conseguem entender quão exaltados são os aspectos corporais do Senhor, simplesmente se dá uma oportunidade de compreender por meio de uma comparação material. Diz-se que o rosto de Kṛṣṇa é tão belo quanto a Lua, Suas coxas são poderosas, assim como as trombas dos elefantes, Seus braços são como dois pilares, Suas palmas se expandem como flores de lótus, Seu peito é como uma entrada, Seus quadris são covis, e o meio de Seu corpo é um terraço.\n\n## 2. Características Auspiciosas\n\nHá certas características de diferentes membros que são consideradas muito auspiciosas e que estão plenamente presentes no corpo do Senhor. A esse respeito, um amigo de Nanda Mahārāja, falando acerca dos auspiciosos sintomas corporais do Senhor Kṛṣṇa, disse: \"Meu querido rei dos vaqueiros, posso encontrar 32 sintomas auspiciosos no corpo de teu filho! Pergunto-me como este menino pode ter nascido numa família de vaqueiros.\" Geralmente, quando o Senhor Kṛṣṇa aparece, Ele o faz numa família de *kṣatriyas* (reis), como fez o Senhor Rāmacandra, e, às vezes, numa família de *brāhmaṇas.* Mas Kṛṣṇa aceitou o papel de filho de Mahārāja Nanda, apesar de Nanda pertencer à comunidade *vaiśya.* O ofício da comunidade *vaiśya* é o comércio, a mercancia e a proteção das vacas. Por isso, seu amigo, que talvez tivesse nascido numa família *brāhmaṇa,* expressou seu espanto de como uma criança tão exaltada poderia nascer numa família de *vaiśyas.* De qualquer modo, ele apontou os sinais auspiciosos no corpo de Kṛṣṇa ao pai adotivo do menino.\n\nEle continuou: \"Este menino tem um brilho avermelhado em sete lugares — Seus olhos, as pontas de Suas mãos, as pontas de Suas pernas, Seu palato, Seus lábios, Sua língua e Suas unhas. Um brilho avermelhado nestes sete lugares é considerado auspicioso. Três partes de Seu corpo são muito largas: Sua cintura, Sua fronte e Seu peito. Três partes de Seu corpo são curtas: Seu pescoço, Suas coxas e Seus órgãos genitais. Três partes de Seu corpo são muito profundas: Sua voz, Sua inteligência e Seu umbigo. Há elevação em cinco partes de Seu corpo: Seu nariz, Seus braços, Suas orelhas, Sua fronte e Suas coxas. Em cinco partes de Seu corpo há fineza: Sua pele, os cabelos de Sua cabeça e os das outras partes de Seu corpo, Seus dentes e as pontas de Seus dedos. O conjunto de todos estes aspectos corporais se manifesta apenas nos corpos de grandes personalidades.\"\n\nAs linhas do destino na palma também são consideradas sintomas corporais auspiciosos. A esse respeito, certa *gopī* idosa informou ao rei Nanda: \"Teu filho possui várias maravilhosas linhas do destino em Suas palmas. Há os sinais de flores de lótus e de rodas em Suas palmas, e, em Suas plantas, há os sinais de uma bandeira, de um raio, de um peixe, de uma vara para controlar elefantes e de uma flor de lótus. Por favor, observa quão auspiciosos são estes sinais!\"\n\n## 3. Agradável\n\nOs belos aspectos corporais que automaticamente atraem os olhos chamam-se *rucira* (agradável). Kṛṣṇa possui este atraente aspecto de *rucira* em Seus aspectos pessoais. No Terceiro Canto, segundo capítulo, décimo terceiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há uma afirmação acerca disto: \"A Suprema Personalidade de Deus, em Suas agradáveis vestes, apareceu na cena da arena sacrificial quando o rei Yudhiṣṭhira estava executando o sacrifício rāja-sūya. Todas as personalidades importantes de diferentes partes do universo haviam sido convidadas para a arena sacrificial, e todas elas, ao contemplarem Kṛṣṇa ali, consideraram que o Criador havia esgotado toda a Sua perícia artesanal na criação deste corpo específico de Kṛṣṇa.\"\n\nDiz-se que o corpo transcendental de Kṛṣṇa se assemelha à flor de lótus em oito partes — a saber, Seu rosto, Seus dois olhos, Suas duas mãos, Seu umbigo e Seus dois pés. As *gopīs* e os habitantes de Vṛndāvana costumavam ver o brilho de flores de lótus por toda parte, e mal podiam retirar os olhos de tal visão.\n\n## 4. Refulgente\n\nA refulgência que permeia o universo é considerada os raios da Suprema Personalidade de Deus. A morada suprema de Kṛṣṇa está sempre projetando a refulgência conhecida como *brahma-jyoti,* e essa refulgência está emanando de Seu corpo.\n\nO brilho da multidão de joias fixadas no peito do Senhor pode derrotar até mesmo o brilho do sol e, ainda assim, quando comparada com o brilho corporal do Senhor, aquela coroa de joias parece tão brilhante apenas quanto uma das estrelas do céu. Por conseguinte, a influência transcendental de Kṛṣṇa é tão grande que pode derrotar qualquer um. Quando Kṛṣṇa estava presente na arena sacrificial de Seu inimigo, o rei Kaṁsa, os lutadores presentes, embora apreciassem a maciez do corpo de Śrī Kṛṣṇa, mesmo assim ficaram amedrontados e perturbados ao pensarem em travar combate com Ele.\n\n## 5. Forte\n\nUma pessoa que tem extraordinária força corporal chama-se *balīyān.* Quando Kṛṣṇa matou Ariṣṭāsura, algumas das *gopīs* disseram: \"Minhas queridas amigas, vejam só como Kṛṣṇa matou Ariṣṭāsura! Embora ele fosse mais forte que uma montanha, Kṛṣṇa arrancou-o como se fosse um pedaço de algodão e arremessou-o para longe sem dificuldade alguma!\" Há outra passagem em que se diz: \"Ó meus queridos devotos do Senhor Kṛṣṇa, que a mão esquerda do Senhor Kṛṣṇa, que ergueu a colina de Govardhana como se fosse uma bola, vos salve de todos os perigos.\"\n\n## 6. Sempre Jovem\n\nKṛṣṇa é belo em Suas diferentes idades — a saber, Sua infância, Sua meninice e Sua juventude. Destas três, Sua juventude é o reservatório de todos os prazeres e é o momento em que as mais elevadas variedades de serviço devocional são aceitáveis. Nessa idade, Kṛṣṇa está pleno de todas as qualidades transcendentais e ocupado em Seus passatempos transcendentais. Por isso, os devotos aceitaram o começo de Sua juventude como o aspecto mais atraente no amor extático.\n\nNessa idade, Kṛṣṇa é descrito da seguinte forma: \"A força da juventude de Kṛṣṇa estava combinada com Seu belo sorriso, que derrotava até a beleza da Lua cheia. Ele estava sempre lindamente vestido, em beleza superando até Cupido, e estava sempre atraindo as mentes das *gopīs,* que assim sempre sentiam prazer.\"\n\n## 7. Linguista Maravilhoso\n\nRūpa Gosvāmī diz que uma pessoa que conhece as línguas de diferentes países, especialmente a língua sânscrita, que é falada nas cidades dos semideuses — bem como outras línguas mundanas, incluindo as dos animais — chama-se um linguista maravilhoso. Depreende-se desta afirmação que Kṛṣṇa também pode falar e entender as línguas dos animais. Uma anciã em Vṛndāvana, presente na época dos passatempos de Kṛṣṇa, certa vez afirmou com surpresa: \"Como é maravilhoso que Kṛṣṇa, que possui os corações de todas as jovens de Brajabhūmi, possa falar tão bem a língua de Brajabhūmi com as *gopīs,* enquanto em sânscrito fala com os semideuses, e na língua dos animais possa até falar com as vacas e os búfalos! De modo semelhante, na língua da província da Caxemira, e com os papagaios e outros pássaros, bem como nas línguas mais comuns, Kṛṣṇa é tão expressivo!\" Ela perguntou às *gopīs* como Kṛṣṇa havia se tornado tão perito em falar tantos diferentes tipos de línguas.\n\n## 8. Veraz\n\nUma pessoa cuja palavra de honra jamais é quebrada chama-se veraz. Kṛṣṇa certa vez prometeu a Kuntī, a mãe dos Pāṇḍavas, que traria de volta seus cinco filhos do campo de batalha de Kurukṣetra. Depois que a batalha terminou, quando todos os Pāṇḍavas haviam voltado para casa, Kuntī louvou Kṛṣṇa porque Sua promessa fora tão bem cumprida. Ela disse: \"Mesmo que a luz do sol um dia se torne fria e a luz da lua um dia se torne quente, ainda assim Tua promessa não falhará.\" De modo semelhante, quando Kṛṣṇa, junto com Bhīma e Arjuna, foi desafiar Jarāsandha, Ele declarou-lhe claramente que era o eterno Kṛṣṇa, presente junto com dois dos Pāṇḍavas. A história é que tanto Kṛṣṇa quanto os Pāṇḍavas — neste caso, Bhīma e Arjuna — eram *kṣatriyas* (reis guerreiros). Jarāsandha também era um *kṣatriya* e era muito caridoso para com os *brāhmaṇas.* Assim, Kṛṣṇa, que havia planejado lutar com Jarāsandha, foi até ele com Bhīma e Arjuna vestidos de *brāhmaṇas.* Jarāsandha, sendo muito caridoso para com os *brāhmaṇas,* perguntou-lhes o que desejavam, e eles expressaram seu desejo de lutar com ele. Então Kṛṣṇa, vestido como um *brāhmaṇa,* declarou ser o próprio Kṛṣṇa, o eterno inimigo do rei.\n\n## 9. Fala de Modo Agradável\n\nUma pessoa que pode falar docemente até com seu inimigo, apenas para apaziguá-lo, chama-se uma pessoa que fala de modo agradável. Kṛṣṇa falava de modo tão agradável que, após derrotar Seu inimigo, Kāliya, na água do Yamunā, Ele disse: \"Meu querido rei das serpentes, embora Eu te haja causado tanta dor, por favor, não fiques insatisfeito coMigo. É Meu dever proteger estas vacas, que são adoradas até pelos semideuses. Somente para salvá-las do perigo de tua presença é que fui obrigado a banir-te deste lugar.\"\n\nKāliya estava residindo dentro da água do Yamunā e, em consequência, a parte traseira daquele rio havia se envenenado. Assim, muitíssimas vacas que haviam bebido a água morreram. Por isso, Kṛṣṇa, embora tivesse apenas quatro ou cinco anos de idade, mergulhou-Se na água, castigou Kāliya muito severamente e, então, pediu-lhe que deixasse o lugar e fosse para outro local.\n\nKṛṣṇa disse, naquela ocasião, que as vacas são adoradas até pelos semideuses, e Ele praticamente demonstrou como proteger as vacas. Ao menos as pessoas que estão em consciência de Kṛṣṇa devem seguir Suas pegadas e dar toda proteção às vacas. As vacas são adoradas não apenas pelos semideuses. O próprio Kṛṣṇa adorou as vacas em várias ocasiões, especialmente nos dias de Gopāṣṭamī e Govardhana Pūjā.\n\n## 10. Fluente em Todas as Línguas\n\nUma pessoa que pode falar palavras significativas e com toda polidez e boas qualidades chama-se *vāvadūka,* ou fluente. Há uma bela afirmação no *Śrīmad-Bhāgavatam* a respeito do falar polido de Kṛṣṇa. Quando Kṛṣṇa polidamente pediu a Seu pai, Nanda Mahārāja, que interrompesse a oferenda ritualística de sacrifício ao deus da chuva, Indra, a esposa de um vaqueiro de uma das aldeias ficou cativada. Mais tarde, ela descreveu assim o falar de Kṛṣṇa a suas amigas: \"Kṛṣṇa estava falando a Seu pai de modo tão polido e gentil que era como se Ele estivesse derramando néctar nos ouvidos de todos os presentes ali. Após ouvir tais doces palavras de Kṛṣṇa, quem não será atraído por Ele?\"\n\nO falar de Kṛṣṇa, que contém todas as boas qualidades do universo, é descrito na seguinte afirmação de Uddhava: \"As palavras de Kṛṣṇa são tão atraentes que podem mudar imediatamente o coração até de Seu oponente. Suas palavras podem resolver imediatamente todas as questões e problemas do mundo. Embora Ele não fale por muito tempo, cada palavra de Sua boca contém volumes de significado. Estes discursos de Kṛṣṇa são muito agradáveis a meu coração.\"\n\n## 11. Altamente Erudito\n\nQuando uma pessoa é altamente educada e age estritamente segundo princípios morais, chama-se altamente erudita. Uma pessoa versada em diferentes departamentos do conhecimento chama-se educada e, por agir segundo princípios morais, chama-se moralmente firme. Juntos, estes dois fatores constituem a erudição.\n\nA educação que Kṛṣṇa recebeu de Sāndīpani Muni é descrita por Śrī Nārada Muni da seguinte forma: \"No princípio, o Senhor Brahmā e outros são como nuvens de água evaporada do grande oceano de Kṛṣṇa. Em outras palavras, Brahmā recebeu primeiro a educação Védica de Kṛṣṇa, assim como as nuvens recebem água do oceano. Essa educação ou instrução Védica que foi falada por Brahmā ao mundo foi então depositada sobre a montanha de Sāndīpani Muni. As instruções de Sāndīpani Muni a Kṛṣṇa são como um reservatório de água na montanha, que flui como um rio e vai novamente misturar-se com a fonte, o oceano de Kṛṣṇa.\" Para sermos mais claros, a ideia é que Kṛṣṇa, na verdade, não pode ser instruído por ninguém, assim como o oceano não recebe água de nenhuma outra fonte além de si mesmo. Apenas parece que os rios estão derramando água no oceano. Assim, está claro que Brahmā recebeu sua educação de Kṛṣṇa e, de Brahmā, por meio da sucessão discipular, esta instrução Védica foi distribuída. Sāndīpani Muni é comparado ao rio que flui novamente para baixo, para aquele mesmo oceano original de Kṛṣṇa.\n\nOs Siddhas, os habitantes de Siddha-loka (onde todos nascem com poderes místicos plenamente desenvolvidos), e os Cāraṇas, os habitantes de um planeta semelhante, oram a Kṛṣṇa da seguinte forma: \"Meu Senhor Govinda, a deusa da erudição, que está adornada com quatorze tipos de ornamentos educacionais, cuja inteligência é onipenetrante dentro dos quatro departamentos dos *Vedas,* cuja atenção está sempre nos livros de leis dados por grandes sábios como Manu, e que está vestida com seis tipos de conhecimento perito — a saber, evidência Védica, gramática, astrologia, retórica, vocabulário e lógica —, e cujos amigos constantes são os suplementos dos *Vedas* e dos *Purāṇas,* adornada com a conclusão final de toda a erudição, agora adquiriu uma oportunidade de sentar-se conTigo como uma colega de classe na escola, e ela está agora ocupada em Teu serviço.\"\n\nKṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, não requer educação alguma, mas Ele dá uma chance à deusa da erudição de servi-Lo. Sendo autossuficiente, Kṛṣṇa não requer o serviço de nenhuma entidade viva, embora tenha muitos devotos. É porque Kṛṣṇa é tão bondoso e misericordioso que Ele dá a oportunidade a todos de servi-Lo, como se Ele requeresse o serviço de Seus devotos.\n\nQuanto a Seus princípios morais, afirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam* que Kṛṣṇa está reinando sobre Vṛndāvana como a morte personificada para os ladrões, como bem-aventurança agradável para os piedosos, como o mais belo Cupido para as jovens e como a personalidade mais munificente para os homens pobres. Ele é tão refrescante quanto a Lua cheia para Seus amigos, e, para Seus oponentes, é o fogo aniquilador gerado do Senhor Śiva. Por conseguinte, Kṛṣṇa é o mais perfeito moralista em Suas tratativas recíprocas com diferentes tipos de pessoas. Quando Ele é a morte personificada para os ladrões, isso não significa que esteja sem princípios morais ou que seja cruel; Ele continua sendo bondoso, porque punir os ladrões com a morte é exibir a mais elevada qualidade dos princípios morais. No *Bhagavad-gītā,* também, Kṛṣṇa diz que lida com diferentes tipos de pessoas segundo o modo como elas lidam com Ele. As tratativas de Kṛṣṇa com os devotos e com os não-devotos, embora diferentes, são ambas igualmente boas. Porque Kṛṣṇa é todo-bom, Suas tratativas com todos são sempre boas.\n\n## 12. Altamente Inteligente\n\nUm homem chama-se inteligente se tem uma memória aguçada e fina discrição. No que diz respeito à memória de Kṛṣṇa, diz-se que, quando Ele estudava na escola de Sāndīpani Muni, em Avantīpura, demonstrou uma memória tão aguçada que, ao receber as instruções do mestre uma única vez, tornava-Se imediatamente perfeito em qualquer matéria. Na verdade, Seu ingresso na escola de Sāndīpani Muni teve por objetivo mostrar às pessoas do mundo que, por mais grandioso ou engenhoso que alguém seja, ele deve dirigir-se às autoridades superiores para receber educação geral. Por mais grandioso que alguém seja, deve aceitar um mestre ou mestre espiritual.\n\nA fina discrição de Kṛṣṇa foi exibida quando Ele lutava com o rei intocável que atacou a cidade de Mathurā. Segundo os ritos Védicos, aqueles que são intocáveis não devem ser tocados pelos reis *kṣatriyas,* nem mesmo para matá-los. Por isso, quando o rei intocável tomou a cidade de Mathurā, Kṛṣṇa não achou prudente matá-lo diretamente com Sua própria mão. Mesmo assim, o rei tinha de ser morto, e por isso Kṛṣṇa decidiu, com fina discrição, que deveria fugir do campo de batalha, de modo que o rei intocável O perseguisse. Ele poderia, então, conduzir o rei até a montanha onde Mucukunda jazia adormecido. Mucukunda havia recebido do Senhor Śiva a bênção de que, ao despertar de seu sono, quem quer que ele visse seria de imediato reduzido a cinzas. Por isso, Kṛṣṇa achou prudente conduzir o rei intocável àquela caverna, de modo que a presença do rei despertasse Mucukunda, e ele seria de imediato reduzido a cinzas.\n\n## 13. Gênio\n\nUma pessoa chama-se gênio quando pode refutar qualquer tipo de elemento opositor com argumentos cada vez mais novos. A esse respeito, há uma afirmação no *Padyāvalī* que contém a seguinte conversa entre Kṛṣṇa e Rādhā: Certa manhã, quando Kṛṣṇa veio até Rādhā, Rādhā Lhe perguntou: \"Meu querido Keśava, onde está Teu *vāsa* no momento?\" A palavra sânscrita *vāsa* tem três significados: um significado é residência, um significado é fragrância, e outro significado é veste.\n\nNa verdade, Rādhārāṇī perguntara a Kṛṣṇa: \"Onde está Tua veste?\" Mas Kṛṣṇa tomou o significado como residência e respondeu a Rādhārāṇī: \"Minha querida cativada, no presente momento Minha residência está em teus belos olhos.\"\n\nA isto Rādhārāṇī respondeu: \"Meu querido menino astuto, eu não Te perguntei acerca de Tua residência. Perguntei acerca de Tua veste.\"\n\nKṛṣṇa, então, tomou o significado de *vāsa* como fragrância e disse: \"Minha querida afortunada, acabo de assumir esta fragrância para poder associar-Me com teu corpo.\"\n\nŚrīmatī Rādhārāṇī novamente perguntou a Kṛṣṇa: \"Onde passaste Tua noite?\" A exata palavra sânscrita usada nesta conexão foi *yāminyāmuṣitaḥ. Yāminyām* significa à noite, e *uṣitaḥ* significa passar. Kṛṣṇa, contudo, dividiu a palavra *yāminyāmuṣitaḥ* em duas palavras separadas, a saber, *yāminyā* e *muṣitaḥ.* Ao dividir esta palavra em duas, ela passou a significar que Ele fora raptado por Yāminī, ou a noite. Por isso, Kṛṣṇa respondeu a Rādhārāṇī: \"Minha querida Rādhārāṇī, será possível que a noite possa raptar-Me?\" Dessa maneira, Ele respondia a todas as perguntas de Rādhārāṇī de modo tão astuto que alegrava esta mais querida das *gopīs.*\n\n## 14. Artístico\n\nAquele que pode falar e vestir-se de modo muito artístico chama-se *vidagdha.* Esta característica exemplar era visível na personalidade de Śrī Kṛṣṇa. Ela é assim mencionada por Rādhārāṇī: \"Minha querida amiga, vê só como Kṛṣṇa compôs tão bem Suas canções e como dança, fala palavras divertidas e toca Sua flauta, usando guirlandas tão belas. Ele Se vestiu de maneira tão encantadora, como se houvesse derrotado todos os tipos de jogadores no tabuleiro de xadrez. Ele vive maravilhosamente no mais elevado cume da perícia artística.\"\n\n## 15. Hábil\n\nUma pessoa que pode executar vários tipos de trabalho ao mesmo tempo chama-se hábil. A esse respeito, uma das *gopīs* disse: \"Minhas queridas amigas, vejam só as hábeis atividades de Śrī Kṛṣṇa! Ele compôs belas canções acerca dos vaqueirinhos e está agradando às vacas. Pelo movimento de Seus olhos, Ele está agradando às *gopīs* e, ao mesmo tempo, está lutando com demônios como Ariṣṭāsura e outros. Dessa maneira, Ele está convivendo com diferentes entidades vivas de diferentes formas, e está desfrutando plenamente da situação.\"\n\n## 16. Perito\n\nQualquer pessoa que possa executar rapidamente uma tarefa muito difícil chama-se perita. Acerca da perícia de Kṛṣṇa, há uma afirmação no Décimo Canto, quinquagésimo nono capítulo, décimo terceiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* em que Śukadeva Gosvāmī diz a Mahārāja Parīkṣit: \"Ó melhor dos Kurus, Śrī Kṛṣṇa cortou em pedaços todas as diferentes armas usadas por diferentes combatentes.\" Antigamente, a luta era feita lançando-se diferentes tipos de flechas. Um lado lançava uma certa flecha, e o outro lado tinha de derrotá-la, contra-atacando-a com outra flecha. Por exemplo, um lado podia lançar uma flecha que faria a água verter do céu e, para contra-atacar isso, o lado oposto tinha de lançar uma flecha que pudesse imediatamente transformar a água em nuvens. Assim, desta afirmação depreende-se que Kṛṣṇa era muito perito em contra-atacar as flechas do inimigo. De modo semelhante, na dança *rāsa,* cada uma das *gopīs* pediu que Kṛṣṇa Se tornasse individualmente seu par, e Kṛṣṇa imediatamente Se expandiu em tantos Kṛṣṇas para emparelhar-Se com cada uma das *gopīs.* O resultado foi que cada *gopī* encontrou Kṛṣṇa a seu lado.\n\n## 17. Grato\n\nQualquer pessoa que esteja consciente das atividades benéficas de seu amigo e jamais esqueça seu serviço chama-se grata. No *Mahābhārata,* Kṛṣṇa diz: \"Quando Eu estava longe de Draupadī, ela chorou com as palavras: 'Ei, Govinda!' Este chamado a Mim Me colocou em dívida com ela, e essa dívida está gradualmente aumentando em Meu coração!\" Esta afirmação de Kṛṣṇa dá evidência de como se pode agradar ao Senhor Supremo simplesmente dirigindo-se a Ele: \"Ei, Kṛṣṇa! Ei, Govinda!\"\n\nO *mahā-mantra* (*Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare*) também é simplesmente um dirigir-se ao Senhor e a Sua energia. Assim, a quem quer que esteja constantemente ocupado em dirigir-se ao Senhor e a Sua energia, podemos imaginar quão obrigado fica o Senhor Supremo. É impossível para o Senhor jamais esquecer tal devoto. Afirma-se claramente neste verso que qualquer pessoa que se dirija ao Senhor imediatamente atrai a atenção do Senhor, que sempre permanece obrigado a ela.\n\nOutro exemplo do sentimento de obrigação de Kṛṣṇa é mencionado em conexão com Suas tratativas com Jāmbavān. Quando o Senhor estava presente como o Senhor Rāmacandra, Jāmbavān, o grande rei dos macacos, prestou-Lhe serviço muito fiel. Quando o Senhor novamente apareceu como o Senhor Kṛṣṇa, Ele Se casou com a filha de Jāmbavān e prestou-lhe todo o respeito que geralmente se dá aos superiores. Qualquer pessoa honesta fica obrigada a seu amigo se algum serviço lhe foi prestado. Visto que Kṛṣṇa é a suprema personalidade honesta, como poderia Ele esquecer uma obrigação para com Seu servidor?\n\n## 18. Determinado\n\nQualquer pessoa que observe princípios regulativos e cumpra suas promessas por meio de atividade prática chama-se determinada. No que diz respeito à determinação do Senhor, há um exemplo em Suas tratativas no *Harivaṁśa.* Isto se dá em conexão com a luta do Senhor Kṛṣṇa contra o rei do céu, Indra, que foi à força privado da flor *pārijāta.* *Pārijāta* é um tipo de flor de lótus cultivada nos planetas celestiais. Certa vez, Satyabhāmā, uma das rainhas de Kṛṣṇa, desejou aquela flor de lótus, e Kṛṣṇa prometeu entregá-la; mas Indra recusou-se a abrir mão de sua flor *pārijāta.* Por isso, houve uma grande luta, com Kṛṣṇa e os Pāṇḍavas de um lado e todos os semideuses do outro. No fim, Kṛṣṇa derrotou a todos eles e tomou a flor *pārijāta,* que presenteou a Sua rainha. Assim, com referência a essa ocorrência, Kṛṣṇa disse a Nārada Muni: \"Meu querido grande sábio dos semideuses, agora podes declarar aos devotos em geral, e aos não-devotos em particular, que, neste assunto de tomar a flor *pārijāta,* todos os semideuses — os Gandharvas, os Nāgas, os demônios Rākṣasas, os Yakṣas, os Pannagas — tentaram derrotar-Me, mas nenhum pôde fazer-Me quebrar Minha promessa a Minha rainha.\"\n\nHá outra promessa de Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā,* segundo a qual Seu devoto jamais será vencido. Assim, um devoto sincero que esteja sempre ocupado no transcendental serviço amoroso ao Senhor deve saber com certeza que Kṛṣṇa jamais quebrará Sua promessa. Ele sempre protegerá Seus devotos em todas as circunstâncias.\n\nKṛṣṇa mostrou como cumpre Sua promessa ao entregar a flor *pārijāta* a Satyabhāmā, ao salvar Draupadī de ser insultada e ao livrar Arjuna dos ataques de todos os inimigos.\n\nA promessa de Kṛṣṇa de que Seus devotos jamais são vencidos também havia sido admitida anteriormente por Indra quando ele foi derrotado no *Govardhana-līlā.* Quando Kṛṣṇa impediu os aldeões de Braja (Vṛndāvana) de adorarem Indra, Indra ficou irado e, por isso, inundou Vṛndāvana com chuva contínua. Kṛṣṇa, contudo, protegeu todos os cidadãos e animais de Vṛndāvana ao erguer a colina de Govardhana, que serviu de guarda-chuva. Depois que o incidente terminou, Indra rendeu-se a Kṛṣṇa com muitas orações, nas quais admitiu: \"Ao ergueres a colina de Govardhana e proteger os cidadãos de Vṛndāvana, mantiveste Tua promessa de que Teus devotos jamais devem ser vencidos.\"\n\n## 19. Perito Juiz de Tempo e Circunstâncias\n\nKṛṣṇa era muito perito em lidar com as pessoas segundo as circunstâncias, o país, o tempo e a parafernália. Como Ele podia tirar proveito de determinado tempo, circunstância e pessoa é expresso por Ele mesmo enquanto falava com Uddhava acerca de Sua dança *rāsa* com as *gopīs.* Ele diz: \"O momento mais oportuno é a noite de Lua cheia no outono, como esta noite. O melhor lugar dentro do universo é Vṛndāvana, e as moças mais belas são as *gopīs.* Assim, Meu querido amigo Uddhava, penso que devo agora tirar proveito de todas estas circunstâncias e ocupar-Me na dança *rāsa.*\"\n\n## 20. Vidente pela Autoridade das Escrituras\n\nUma pessoa que age exatamente segundo os preceitos das escrituras chama-se *śāstra-cakṣus. Śāstra-cakṣus* significa aquele que vê através dos olhos das escrituras autorizadas. Na verdade, qualquer homem de conhecimento e experiência deve ver tudo através destes livros. Por exemplo, a olho nu, percebemos o globo solar simplesmente como alguma substância reluzente, mas, quando o vemos através de livros autorizados de ciência e de outra literatura, podemos compreender quão maior é o globo solar do que esta Terra e quão poderoso ele é. Assim, ver as coisas a olho nu não é, de fato, ver. Ver as coisas através dos livros autorizados ou dos mestres autorizados é a maneira correta de ver. Por isso, embora Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade de Deus e possa ver tudo o que é passado, presente e futuro, para ensinar as pessoas em geral Ele costumava sempre referir-se às escrituras. Por exemplo, no *Bhagavad-gītā,* embora Kṛṣṇa estivesse falando como a autoridade suprema, Ele mesmo assim mencionou e citou o *Vedānta-sūtra* como autoridade. Há uma afirmação no *Śrīmad-Bhāgavatam* em que uma pessoa diz, em tom de brincadeira, que Kṛṣṇa, o inimigo de Kaṁsa, é conhecido como o vidente através dos *śāstras.* Para estabelecer Sua autoridade, contudo, Ele está agora ocupado em ver as *gopīs,* pelo que as *gopīs* estão enlouquecendo.\n\n## 21. Puro\n\nHá dois tipos de pureza suprema. Quando se possui um tipo, é-se capaz de libertar uma pessoa pecaminosa. Quando se possui o outro tipo, não se faz nada que seja impuro. Uma pessoa que possui qualquer uma destas qualidades chama-se supremamente pura. Kṛṣṇa é ambos; Ele pode libertar todas as almas condicionadas pecaminosas e, ao mesmo tempo, jamais faz qualquer coisa pela qual possa ser contaminado.\n\nA esse respeito, Vidura, ao tentar desapegar seu irmão mais velho, Dhṛtarāṣṭra, de seus apegos familiares, disse: \"Meu querido irmão, fixa apenas tua mente nos pés de lótus de Kṛṣṇa, que é adorado com belos versos eruditos por grandes sábios e pessoas santas. Kṛṣṇa é o libertador supremo entre todos os outros libertadores. Sem dúvida há grandes semideuses como o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā, mas suas posições como libertadores dependem sempre da misericórdia de Kṛṣṇa.\" Por isso, Vidura aconselhou seu irmão mais velho, Dhṛtarāṣṭra, a concentrar a mente e adorar apenas Kṛṣṇa. Se a pessoa simplesmente canta o santo nome de Kṛṣṇa, este santo nome se erguerá dentro de seu coração como o poderoso sol e dissipará imediatamente toda a escuridão da ignorância. Vidura aconselhou Dhṛtarāṣṭra a, portanto, pensar sempre em Kṛṣṇa, de modo que os volumes de contaminações devidos a atividades pecaminosas fossem lavados imediatamente. No *Bhagavad-gītā,* também, Kṛṣṇa é tratado por Arjuna como *paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitram* [*Bg*.*10.12*] — o supremo puro. Há muitos outros exemplos que exibem a suprema pureza de Kṛṣṇa.\n\n## 22. Autocontrolado\n\nUma pessoa que pode controlar plenamente seus sentidos chama-se *vaśī,* ou autocontrolada. A esse respeito, afirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam:* \"Todas as 16.000 esposas de Kṛṣṇa eram tão primorosamente belas que seu sorriso e seu recato eram capazes de cativar as mentes de grandes semideuses como o Senhor Śiva. Mas, ainda assim, elas não podiam sequer agitar a mente de Kṛṣṇa, a despeito de seu atraente comportamento feminino.\" Cada uma das milhares de esposas de Kṛṣṇa pensava que Kṛṣṇa estava cativado por sua beleza feminina, mas não era esse o caso. Kṛṣṇa é, por conseguinte, o supremo controlador dos sentidos, e isso é admitido no *Bhagavad-gītā,* onde Ele é tratado por Hṛṣīkeśa — o mestre dos sentidos.\n\n## 23. Constante\n\nUma pessoa que continua a trabalhar até que sua meta desejada seja alcançada chama-se constante.\n\nHouve uma luta entre Kṛṣṇa e o rei Syamantaka, e Kṛṣṇa tinha de tomar uma joia valiosa do rei. O rei tentou esconder-se na floresta, mas Kṛṣṇa não Se desencorajou. Kṛṣṇa finalmente obteve a joia ao procurar o rei com grande constância.\n\n## 24. Tolerante\n\nUma pessoa que tolera todos os tipos de aflições, ainda que tais aflições pareçam insuportáveis, chama-se tolerante.\n\nQuando Kṛṣṇa residia na casa de Seu mestre espiritual, Ele não Se importava de aceitar todas as aflições ao prestar serviço a Seu *guru,* embora Seu corpo fosse muito macio e delicado. É dever do discípulo executar todos os serviços ao mestre espiritual, a despeito de todos os tipos de dificuldades. O discípulo que vive na residência do mestre espiritual tem de ir mendigar de porta em porta e trazer tudo de volta ao mestre espiritual. Quando o *prasādam* está sendo servido, supõe-se que o mestre espiritual chame cada um dos discípulos para vir comer. Se, por acaso, o mestre espiritual esquecer de chamar um discípulo para participar do *prasādam,* está prescrito nas escrituras que o estudante deve jejuar naquele dia em vez de aceitar alimento por iniciativa própria. Há muitas dessas restrições. Às vezes, também, Kṛṣṇa ia à floresta recolher lenha seca para combustível.\n\n## 25. Clemente\n\nUma pessoa que pode tolerar todos os tipos de ofensas da parte contrária é conhecida como clemente.\n\nA qualidade clemente do Senhor Kṛṣṇa é descrita no *Mahābhārata* em conexão com Sua proibição de matar Śiśupāla. O rei Śiśupāla era o monarca do reino de Cedi e, embora fosse primo de Kṛṣṇa, era sempre invejoso d'Ele. Sempre que se encontravam, Śiśupāla tentava insultar Kṛṣṇa e xingá-Lo tanto quanto possível. Na arena do sacrifício rāja-sūya de Mahārāja Yudhiṣṭhira, quando Śiśupāla começou a xingar o Senhor Kṛṣṇa, Kṛṣṇa não Se importou e permaneceu em silêncio. Algumas das pessoas na arena estavam dispostas a matar Śiśupāla, mas Kṛṣṇa as impediu. Ele era tão clemente. Diz-se que, quando há um som de trovão nas nuvens, o poderoso leão imediatamente responde com seu rugido troante. Mas o leão não se importa quando todos os tolos chacais começam a fazer seus sons menos importantes.\n\nŚrī Yāmunācārya louva o poder de clemência de Kṛṣṇa com a seguinte afirmação: \"Meu querido Senhor Rāmacandra, Tu és tão misericordioso que desculpaste o corvo por arranhar com suas garras os mamilos de Jānakī, simplesmente porque ele se prostrou diante de Ti.\" Certa vez, Indra, o rei do céu, assumiu a forma de um corvo e atacou Sītā (Jānakī), a esposa do Senhor Rāmacandra, golpeando-a no peito. Isto foi certamente um insulto à mãe universal, Sītā, e o Senhor Rāmacandra de imediato Se dispôs a matar o corvo. Mas, porque mais tarde o corvo se prostrou diante do Senhor, Ele desculpou sua ofensa. Śrī Yāmunācārya diz ainda em sua oração que o poder de clemência do Senhor Kṛṣṇa é ainda maior que o do Senhor Rāmacandra, porque Śiśupāla tinha sempre o hábito de insultar Kṛṣṇa — não apenas numa vida, mas continuamente ao longo de três vidas. Mesmo assim, Kṛṣṇa foi tão bondoso que concedeu a Śiśupāla a salvação de fundir-se em Sua existência. Disto podemos compreender que a meta do monista de fundir-se na refulgência do supremo não é um problema muito difícil. Pessoas como Śiśupāla, que são consistentemente inimigas de Kṛṣṇa, também podem obter esta liberação.\n\n## 26. Grave\n\nUma pessoa que não expressa sua mente a todos, ou cuja atividade mental e plano de ação são muito difíceis de entender, chama-se grave. Depois que o Senhor Śrī Kṛṣṇa fora ofendido por Brahmā, Brahmā orou a Ele para ser desculpado. Mas, apesar de oferecer belas orações a Kṛṣṇa, Brahmā não conseguia entender se Kṛṣṇa estava satisfeito ou ainda insatisfeito. Em outras palavras, Kṛṣṇa era tão grave que não levou as orações de Brahmā muito a sério. Outro exemplo da gravidade de Kṛṣṇa encontra-se em conexão com Seus relacionamentos amorosos com Rādhārāṇī. Kṛṣṇa era sempre muito silencioso acerca de Seus relacionamentos amorosos com Rādhārāṇī, a tal ponto que Baladeva, irmão mais velho e companheiro constante de Kṛṣṇa, não conseguia entender as transformações de Kṛṣṇa por causa de Sua gravidade.\n\n## 27. Autossatisfeito\n\nUma pessoa que está plenamente satisfeita em si mesma, sem ansiar por nada, e que não se agita nem mesmo na presença de séria causa de aflição, chama-se autossatisfeita.\n\nUm exemplo da autossatisfação de Kṛṣṇa foi exibido quando Ele, Arjuna e Bhīma foram desafiar Jarāsandha, o formidável rei de Magadha, e Kṛṣṇa deu todo o crédito a Bhīma pela morte de Jarāsandha. Disto podemos compreender que Kṛṣṇa jamais Se importa, de modo algum, com a fama, embora ninguém possa ser mais famoso.\n\nUm exemplo de Seu não ser perturbado foi mostrado quando Śiśupāla começou a xingá-Lo. Todos os reis e *brāhmaṇas* reunidos na arena sacrificial de Mahārāja Yudhiṣṭhira ficaram perturbados e de imediato quiseram satisfazer Kṛṣṇa, oferecendo belas orações. Mas todos esses reis e *brāhmaṇas* não conseguiram descobrir qualquer perturbação na pessoa de Kṛṣṇa.\n\n## 28. Possuidor de Equilíbrio\n\nUma pessoa que não é afetada por apego nem por inveja diz-se que possui equilíbrio.\n\nUm exemplo do equilíbrio de Kṛṣṇa é dado no Décimo Canto, décimo sexto capítulo, vigésimo nono verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* em conexão com Seu castigo a Kāliya, a serpente de cem cabeças. Enquanto Kāliya estava sendo severamente punido, todas as suas esposas apareceram diante do Senhor e oraram da seguinte forma: \"Meu querido Senhor, Tu desceste para punir todos os tipos de criaturas vivas demoníacas. Nosso esposo, este Kāliya, é uma criatura grandemente pecaminosa, e por isso Teu castigo para ele é bem apropriado. Sabemos que Teu castigo a Teus inimigos e Tuas tratativas com Teus filhos são ambos a mesma coisa. Sabemos que é pensando no bem-estar futuro desta condenada criatura que Tu o castigaste.\"\n\nEm outra oração, diz-se: \"Meu querido Senhor Kṛṣṇa, ó melhor de toda a dinastia Kuru, Tu és tão imparcial que, se até mesmo Teu inimigo for qualificado, Tu o recompensarás; e, se um de Teus filhos for um culpado, Tu o castigarás. Esta é Tua função, porque Tu és o autor supremo dos universos. Tu não tens parcialidade. Se alguém encontrar qualquer parcialidade em Tuas características, ele certamente está enganado.\"\n\n## 29. Magnânimo\n\nQualquer pessoa que seja muito caridosamente disposta chama-se magnânima.\n\nQuando Kṛṣṇa reinava sobre Dvārakā, Ele era tão magnânimo e caridosamente disposto que não havia limite para Sua caridade. De fato, tão grande era Sua caridade em Dvārakā que até mesmo o reino espiritual, com toda a sua opulência de *cintāmaṇi* (pedra de toque), árvores-dos-desejos e vacas *surabhi,* foi superado. No reino espiritual do Senhor Kṛṣṇa, chamado Goloka Vṛndāvana, há vacas *surabhi* que dão quantidades ilimitadas de leite. Há árvores-dos-desejos das quais qualquer um pode tomar todos os tipos de frutos, tantos quantos desejar. A terra é feita de pedra de toque, que, ao tocar o ferro, transforma-o em ouro. Em outras palavras, embora no reino espiritual, a morada de Kṛṣṇa, tudo seja maravilhosamente opulento, mesmo assim, quando Kṛṣṇa estava em Dvārakā, Sua caridade excedeu as opulências de Goloka Vṛndāvana. Onde quer que Kṛṣṇa esteja presente, a ilimitada opulência de Goloka Vṛndāvana está automaticamente presente.\n\nTambém se afirma que, enquanto o Senhor Kṛṣṇa vivia em Dvārakā, Ele Se expandiu em 16.108 formas, e cada uma dessas expansões residia num palácio com uma rainha. Kṛṣṇa não apenas vivia felizmente com Suas rainhas naqueles palácios, mas também dava em caridade, de cada palácio, um número total de 13.054 vacas completamente adornadas com belas roupas e ornamentos. De cada um dos 16.108 palácios de Kṛṣṇa, estas vacas estavam sendo dadas em caridade por Kṛṣṇa todos os dias. Ninguém pode estimar o valor de tão grande número de vacas dadas em caridade, mas esse era o sistema das atividades diárias de Kṛṣṇa enquanto Ele reinava em Dvārakā.\n\n## 30. Religioso\n\nUma pessoa que pratica pessoalmente os preceitos da religião como estão prescritos nos *śāstras,* e que também ensina aos outros os mesmos princípios, chama-se religiosa. Simplesmente professar um tipo de fé não é sinal de religiosidade. É preciso agir segundo os princípios religiosos e, por seu exemplo pessoal, ensinar aos outros. Tal pessoa deve ser entendida como religiosa.\n\nQuando Kṛṣṇa estava presente neste planeta, não havia irreligião. A esse respeito, Nārada Muni certa vez dirigiu-se a Kṛṣṇa em tom de brincadeira: \"Meu querido Senhor dos vaqueirinhos, Teus touros [os touros são a representação da religião], ao comerem a grama do pasto e ao moverem-se sobre suas quatro pernas, certamente comeram toda a grama da irreligião!\" Em outras palavras, pela graça de Kṛṣṇa, os princípios religiosos eram tão bem cuidados que dificilmente se podia encontrar qualquer atividade irreligiosa.\n\nDiz-se que, porque Kṛṣṇa estava constantemente executando vários tipos de sacrifícios e convidando os semideuses dos sistemas planetários superiores, os semideuses estavam quase sempre ausentes de suas consortes. Por isso, as esposas dos semideuses, lamentando a ausência de seus maridos, começaram a orar pelo aparecimento do Senhor Buddha, a nona encarnação de Kṛṣṇa na era de Kali. Em outras palavras, em vez de ficarem satisfeitas por o Senhor Kṛṣṇa ter vindo, elas começaram a orar pelo Senhor Buddha, que é a nona encarnação, porque o Senhor Buddha interrompeu as cerimônias ritualísticas e os sacrifícios recomendados nos *Vedas,* a fim de desencorajar a matança de animais. As esposas dos semideuses pensaram que, se o Senhor Buddha aparecesse, todos os tipos de sacrifícios seriam interrompidos e, assim, seus maridos não seriam convidados para tais cerimônias e, portanto, não se separariam delas.\n\nÀs vezes, pergunta-se: \"Por que os semideuses dos sistemas planetários superiores não vêm a este planeta Terra atualmente?\" A resposta clara é que, desde que o Senhor Buddha apareceu e começou a deprecar a execução de sacrifícios a fim de pôr fim à matança de animais neste planeta, o processo de oferecer sacrifícios foi interrompido, e os semideuses não se importam em vir mais para cá."}
{"ref": "nod/22", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/22/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "22. As Qualidades de Kṛṣṇa Explicadas Mais a Fundo", "purport": "## 31. Heroico\n\nUma pessoa que é muito entusiasta nas atividades militares e perita em lançar diferentes tipos de armas chama-se heroica.\n\nAcerca do heroísmo de Kṛṣṇa na luta, há a seguinte afirmação: \"Meu querido matador do inimigo, assim como o elefante, ao tomar banho no lago, destrói todos os caules de lótus dentro da água ao balançar sua tromba, da mesma forma, simplesmente ao mover Teus braços, que são comparados às trombas dos elefantes, mataste tantos inimigos semelhantes a lótus.\"\n\nAcerca da perícia de Kṛṣṇa em lançar armas, quando Jarāsandha e treze divisões de soldados atacaram o exército de Kṛṣṇa, eles foram incapazes de ferir sequer um soldado do lado de Kṛṣṇa. Isso se deveu ao perito treinamento militar de Kṛṣṇa. Isto é singular na história da arte militar.\n\n## 32. Compassivo\n\nUma pessoa que é incapaz de suportar a aflição alheia chama-se compassiva.\n\nA compaixão de Kṛṣṇa pelas pessoas aflitas foi exibida quando Ele libertou todos os reis aprisionados por Magadhendra. Enquanto morria, o avô Bhīṣma orou a Kṛṣṇa e descreveu-O como o sol que erradicava a escuridão. Os reis que estavam aprisionados por Magadhendra foram postos em celas escuras e, quando Kṛṣṇa apareceu ali, a escuridão imediatamente desapareceu, exatamente como se o sol houvesse nascido. Em outras palavras, embora Magadhendra fosse capaz de aprisionar tantos reis, ao aparecimento de Kṛṣṇa todos eles foram libertados. Kṛṣṇa fez isto por Sua sincera compaixão por eles.\n\nA compaixão de Kṛṣṇa também foi exibida quando o avô Bhīṣma jazia no leito de flechas que haviam sido disparadas através de seu corpo. Enquanto jazia nessa posição, Bhīṣma estava muito ansioso por ver Kṛṣṇa, e assim Kṛṣṇa apareceu ali. Ao ver a lamentável condição de Bhīṣma, Kṛṣṇa começou a falar com lágrimas nos olhos. Ele não apenas derramava lágrimas, mas também Se esqueceu de Si mesmo em Sua compaixão. Por isso, em vez de oferecerem reverências a Kṛṣṇa diretamente, os devotos oferecem reverências a Sua natureza compassiva. Na verdade, porque Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, é muito difícil aproximar-se d'Ele. Mas os devotos, tirando proveito de Sua natureza compassiva, que é representada por Rādhārāṇī, sempre oram a Rādhārāṇī pela compaixão de Kṛṣṇa.\n\n## 33. Respeitoso\n\nUma pessoa que mostra respeito adequado a um mestre espiritual, a um *brāhmaṇa* e a uma pessoa idosa deve ser entendida como respeitosa.\n\nQuando pessoas superiores se reuniam diante de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa, antes de tudo, oferecia respeito a Seu mestre espiritual, depois a Seu pai e, então, a Seu irmão mais velho, Balarāma. Dessa maneira, o Senhor Kṛṣṇa, o de olhos de lótus, era completamente feliz e puro de coração em todas as Suas tratativas.\n\n## 34. Gentil\n\nQualquer pessoa que não se torne impudente nem exiba uma natureza convencida chama-se gentil.\n\nO exemplo do comportamento gentil de Kṛṣṇa manifestou-se quando Ele estava chegando à arena do sacrifício rāja-sūya organizado por Mahārāja Yudhiṣṭhira, primo mais velho de Kṛṣṇa. Mahārāja Yudhiṣṭhira sabia que Kṛṣṇa era a Suprema Personalidade de Deus, e estava tentando descer de sua quadriga para receber Kṛṣṇa. Mas, antes que Yudhiṣṭhira pudesse descer, o Senhor Kṛṣṇa desceu de Sua própria quadriga e de imediato prostrou-Se aos pés do rei. Embora Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade de Deus, Ele jamais Se esquece de demonstrar a etiqueta social em Suas tratativas.\n\n## 35. Liberal\n\nQualquer pessoa que, por seu comportamento natural, seja muito branda chama-se liberal.\n\nUma afirmação de Uddhava, após o saque da joia Syamantaka, confirma que Kṛṣṇa é tão bondoso e favorável que, se um servidor for acusado até mesmo de grandes ofensas, Kṛṣṇa não leva isso em consideração. Ele simplesmente considera o serviço que é prestado por Seu devoto.\n\n## 36. Recatado\n\nUma pessoa que às vezes exibe humildade e timidez chama-se recatada.\n\nComo se descreve no *Lalita-mādhava,* o recato de Kṛṣṇa manifestou-se quando Ele ergueu a colina de Govardhana com o dedo mínimo de Sua mão esquerda. Todas as *gopīs* observavam o maravilhoso feito de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa também sorria ao ver as *gopīs.* Quando o olhar de Kṛṣṇa passou pelos seios das *gopīs,* Sua mão começou a tremer e, ao verem Sua mão tremer, todos os vaqueiros embaixo da colina ficaram um pouco perturbados. Então houve um tumultuoso som troante, e todos eles começaram a orar a Kṛṣṇa por segurança. Nessa ocasião, o Senhor Balarāma estava sorrindo, pensando que esses vaqueiros haviam sido amedrontados pelo tremor da colina de Govardhana. Mas, ao ver Balarāma sorrir, Kṛṣṇa pensou que Balarāma havia compreendido Sua mente ao observar os seios das *gopīs,* e Ele de imediato ficou tímido.\n\n## 37. Protetor das Almas Rendidas\n\nKṛṣṇa é o protetor de todas as almas rendidas.\n\nCerto inimigo de Kṛṣṇa animou-se com o pensamento de que não precisava temer Kṛṣṇa, porque, se ele simplesmente Se rendesse a Ele, Kṛṣṇa lhe daria toda proteção. Kṛṣṇa às vezes é comparado à Lua, que não hesita em distribuir seus suaves raios, mesmo sobre as casas dos *caṇḍālas* e dos intocáveis.\n\n## 38. Feliz\n\nQualquer pessoa que esteja sempre alegre e intocada por qualquer aflição chama-se feliz.\n\nNo que diz respeito ao desfrute de Kṛṣṇa, afirma-se que os ornamentos que adornavam os corpos de Kṛṣṇa e de Suas rainhas estavam além dos sonhos de Kubera, o tesoureiro do reino celestial. A constante dança diante das portas dos palácios de Kṛṣṇa não podia ser imaginada nem mesmo pelos semideuses no reino celestial. No reino celestial, Indra sempre vê a dança das cortesãs. Mas nem mesmo Indra podia imaginar quão belas eram as danças que se realizavam diante dos portões dos palácios de Kṛṣṇa. *Gaurī* significa mulher branca, e a esposa do Senhor Śiva chama-se Gaurī. As belas mulheres que residiam dentro dos palácios de Kṛṣṇa eram tão mais brancas que Gaurī que foram comparadas à luz da lua, e estavam constantemente visíveis a Kṛṣṇa. Por conseguinte, ninguém pode estar desfrutando mais que Kṛṣṇa. A concepção de desfrute é mulheres belas, ornamentos e riquezas. E todas estas coisas estavam fabulosamente presentes nos palácios de Kṛṣṇa, derrotando até mesmo a imaginação de Kubera, do Senhor Indra ou do Senhor Śiva.\n\nNem mesmo uma leve aflição pode tocar Kṛṣṇa. Certa vez, algumas das *gopīs* foram ao lugar onde os *brāhmaṇas* estavam executando sacrifícios e disseram: \"Queridas esposas dos *brāhmaṇas,* deveis saber que nem mesmo um leve cheiro de aflição pode tocar Kṛṣṇa. Ele não conhece perda, não conhece difamação, não tem medo, não tem ansiedade e não conhece calamidade. Ele está simplesmente rodeado pelas dançarinas de Braja e desfruta da companhia delas na dança *rāsa.*\"\n\n## 39. Benquerente de Seus Devotos\n\nDiz-se dos devotos de Kṛṣṇa que, se eles oferecem ao Senhor Viṣṇu, com devoção, até mesmo um pouco de água ou uma folha de *tulasī,* o Senhor Viṣṇu é tão bondoso que Se venderá a eles.\n\nO favoritismo de Kṛṣṇa para com Seus devotos foi exibido em Sua luta com Bhīṣma. Quando o avô Bhīṣma jazia à beira da morte no leito de flechas, Kṛṣṇa estava presente diante dele, e Bhīṣma estava lembrando como Kṛṣṇa havia sido bondoso com ele no campo de batalha. Kṛṣṇa havia prometido que, na Batalha de Kurukṣetra, Ele não tocaria sequer numa arma para ajudar qualquer dos lados; Ele permaneceria neutro. Embora Kṛṣṇa fosse o quadrigário de Arjuna, Ele havia prometido que não ajudaria Arjuna usando armas. Mas, certo dia, Bhīṣma, a fim de anular a promessa de Kṛṣṇa, exibiu seu espírito combativo de modo tão magnífico contra Arjuna que Kṛṣṇa Se viu obrigado a descer de Sua quadriga. Tomando uma roda de quadriga quebrada, Ele correu em direção ao avô Bhīṣma como um leão corre em direção a um elefante para matá-lo. O avô Bhīṣma lembrou-se desta cena, e mais tarde louvou Kṛṣṇa por Seu glorioso favoritismo para com Seu devoto, Arjuna, mesmo ao risco de quebrar Sua própria promessa.\n\n## 40. Controlado pelo Amor\n\nKṛṣṇa fica obrigado ao espírito amoroso do devoto, e não exatamente ao serviço prestado. Ninguém pode servir Kṛṣṇa completamente. Ele é tão completo e autossuficiente que não tem necessidade de serviço algum por parte do devoto. É a atitude de amor e afeto do devoto por Kṛṣṇa que O torna obrigado. Um belíssimo exemplo deste comportamento de obrigação manifestou-se quando Sudāmā Vipra foi ao palácio de Kṛṣṇa. Sudāmā Vipra havia sido um colega de classe de Kṛṣṇa e, devido à sua pobreza, foi induzido por sua esposa a ver Kṛṣṇa para pedir alguma ajuda. Quando Sudāmā Vipra chegou ao palácio de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa recebeu-o muito bem e, tanto Ele como Sua esposa, lavaram os pés de Sudāmā Vipra, mostrando respeito ao *brāhmaṇa.* Lembrando-Se de Seus relacionamentos amorosos com Sudāmā em sua infância, Kṛṣṇa começou a derramar lágrimas enquanto o recebia.\n\nOutro exemplo da obrigação de Kṛṣṇa para com Seu devoto é descrito no Décimo Canto, nono capítulo, décimo quarto verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* onde Śukadeva Gosvāmī diz ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, quando Mãe Yaśodā estava transpirando, cansada de tentar amarrar Kṛṣṇa com corda, Kṛṣṇa concordou em permitir que ela O amarrasse.\" Kṛṣṇa, quando criança, perturbava Sua mãe com Suas atividades travessas, e ela quis amarrá-Lo. Mãe Yaśodā trouxe alguma corda da casa e tentou atar a criança, mas não conseguia dar o nó por causa da insuficiência da corda. Ela amarrou várias cordas juntas, mas, quando terminava, ainda assim a corda era curta demais. Depois de algum tempo, ela se sentiu muito cansada e começou a transpirar. Nesse momento, Kṛṣṇa concordou em ser amarrado por Sua mãe. Em outras palavras, ninguém pode atar Kṛṣṇa por qualquer meio que não seja o amor. Ele é atado apenas por obrigação a Seus devotos, por causa do amor extático que eles têm por Ele.\n\n## 41. Totalmente Auspicioso\n\nUma pessoa que está sempre ocupada em atividades auspiciosas de bem-estar para todos é conhecida como totalmente auspiciosa.\n\nApós o desaparecimento do Senhor Kṛṣṇa deste planeta, Uddhava começou a lembrar-se das atividades do Senhor e disse: \"Kṛṣṇa satisfez todos os grandes sábios por Seus maravilhosos passatempos. Ele demoliu todas as atividades demoníacas da cruel ordem real, protegeu todos os homens piedosos e matou todos os cruéis combatentes no campo de batalha. Por conseguinte, Ele é totalmente auspicioso para todos os homens.\"\n\n## 42. O Mais Poderoso\n\nUma pessoa que sempre pode lançar seu inimigo em calamidades chama-se poderosa.\n\nQuando Kṛṣṇa estava presente neste planeta, assim como o poderoso sol expulsa toda a escuridão para que se refugie nas cavernas, Ele expulsou todos os Seus inimigos, que fugiram como corujas para refugiar-se fora de Sua vista.\n\n## 43. Todo-Famoso\n\nUma pessoa que se torna bem conhecida devido ao seu caráter imaculado chama-se famosa.\n\nAfirma-se que a difusão da fama de Kṛṣṇa é como a luz da lua, que transforma a escuridão em luz. Em outras palavras, se a consciência de Kṛṣṇa for pregada por todo o mundo, a escuridão da ignorância e a ansiedade da existência material se transformarão na alvura da pureza, da paz e da prosperidade.\n\nQuando o grande sábio Nārada estava cantando as glórias do Senhor, a linha azulada no pescoço do Senhor Śiva desapareceu. Ao ver isto, Gaurī, a esposa do Senhor Śiva, suspeitou que o Senhor Śiva fosse outra pessoa disfarçada de seu esposo e, por medo, de imediato deixou sua companhia. Ao ouvir o cantar do nome de Kṛṣṇa, o Senhor Balarāma viu que Sua veste havia se tornado branca, embora Ele estivesse geralmente acostumado a uma veste azulada. E as vaqueirinhas viram toda a água do rio Yamunā transformar-se em leite, de modo que começaram a batê-la em manteiga. Em outras palavras, pela divulgação da consciência de Kṛṣṇa, ou das glórias de Kṛṣṇa, tudo se tornou branco e puro.\n\n## 44. Popular\n\nQualquer pessoa que seja muito querida pelas pessoas em geral chama-se um homem popular.\n\nQuanto à popularidade de Kṛṣṇa, há uma afirmação no Primeiro Canto, décimo primeiro capítulo, oitavo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* que trata de Seu retorno para casa, da capital de Hastināpura. Enquanto Ele estivera ausente de Dvārakā, na Batalha de Kurukṣetra, todos os cidadãos de Dvārakā haviam ficado tristes. Então, quando Ele retornou, os cidadãos receberam-No com alegria e disseram: \"Querido Senhor, enquanto estiveste ausente da cidade, passamos nossos dias na escuridão da noite. Assim como na escuridão da noite cada momento parece ser uma longa duração de tempo, da mesma forma, enquanto estiveste ausente, cada momento nos pareceu milhões de anos. Tua separação é completamente insuportável para nós.\" Esta afirmação mostra quão popular Kṛṣṇa era por todo o país.\n\nUm incidente semelhante ocorreu quando Kṛṣṇa entrou na arena do sacrifício, organizado pelo rei Kaṁsa para Sua morte. Assim que Ele entrou no lugar, todos os sábios começaram a clamar: \"Jai! Jai! Jai!\" (que significa \"Vitória!\"). Kṛṣṇa era um menino naquela época, e todos os sábios Lhe ofereceram suas respeitosas bênçãos. Os semideuses que também estavam presentes começaram a oferecer belas orações a Kṛṣṇa. E as senhoras e as moças presentes expressaram sua alegria de todos os cantos da arena. Em outras palavras, não havia ninguém naquele lugar específico junto a quem Kṛṣṇa não fosse muito popular.\n\n## 45. Parcialidade para com os Devotos\n\nEmbora Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade de Deus e, por conseguinte, não seja parcial para com ninguém, afirma-se no *Bhagavad-gītā* que Ele tem especial atração por um devoto que adora Seu nome com amor e afeto. Quando Kṛṣṇa estava neste planeta, certo devoto expressou seu sentimento desta forma: \"Meu querido Senhor, se Tu não houvesses aparecido neste planeta, então os *asuras* [demônios] e os ateus certamente teriam causado devastação contra as atividades dos devotos. Não posso imaginar a magnitude de tal devastação impedida por Tua presença.\" Desde o começo de Seu aparecimento, Kṛṣṇa foi o maior inimigo de todas as pessoas demoníacas, embora a inimizade de Kṛṣṇa para com os demônios seja, na verdade, comparável à Sua amizade com os devotos. Isto ocorre porque qualquer demônio que seja morto por Kṛṣṇa recebe imediata salvação.\n\n## 46. Muito Atraente para Todas as Mulheres\n\nQualquer pessoa que tenha qualificações especiais torna-se imediatamente muito atraente para as mulheres.\n\nUm devoto fez a seguinte afirmação acerca das rainhas de Dvārakā: \"Como descreverei as glórias das rainhas de Dvārakā, que estavam pessoalmente ocupadas no serviço ao Senhor? O Senhor é tão grandioso que, simplesmente ao cantar Seu nome, todos os grandes sábios, como Nārada, podem desfrutar bem-aventurança transcendental. Então, o que se pode dizer daquelas rainhas que estavam a cada momento vendo o Senhor e servindo-O pessoalmente?\" Kṛṣṇa tinha 16.108 esposas em Dvārakā, e cada uma delas estava atraída por Kṛṣṇa exatamente como o ferro é atraído por um ímã. Há uma afirmação de um devoto: \"Meu querido Senhor, Tu és exatamente como um ímã, e todas as donzelas de Braja são exatamente como o ferro: em qualquer direção que Te movas, elas Te seguem, assim como o ferro é atraído pela força magnética.\"\n\n## 47. Todo-Adorável\n\nUma pessoa que é respeitada e adorada por todos os tipos de seres humanos e semideuses chama-se *sarvārādhya,* ou todo-adorável.\n\nKṛṣṇa é adorado não apenas por todas as entidades vivas, incluindo os grandes semideuses como o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā, mas também pelas expansões de Viṣṇu (formas de Deus), tais como Baladeva e Śeṣa. Baladeva é uma expansão direta de Kṛṣṇa, mas, ainda assim, Ele aceita Kṛṣṇa como adorável. Quando Kṛṣṇa apareceu na arena do sacrifício rāja-sūya organizado por Mahārāja Yudhiṣṭhira, para todos os presentes, incluindo grandes sábios e semideuses, Kṛṣṇa tornou-Se o cinosura, o centro de atração, e todos Lhe ofereceram seus respeitos.\n\n## 48. Todo-Opulento\n\nKṛṣṇa é pleno de todas as opulências — a saber, força, riqueza, fama, beleza, conhecimento e renúncia. Quando Kṛṣṇa estava presente em Dvārakā, Sua família, que é conhecida como a dinastia Yadu, consistia em 560 milhões de membros. E todos esses membros da família eram muito obedientes e fiéis a Kṛṣṇa. Havia mais de 900.000 grandes edifícios palacianos ali para abrigar todas as pessoas, e todos dentro deles respeitavam Kṛṣṇa como o mais adorável. Os devotos ficavam atônitos ao ver a opulência de Kṛṣṇa.\n\nIsto foi verificado por Bilvamaṅgala Ṭhākura quando, no *Kṛṣṇa-karṇāmṛta,* ele se dirigiu a Kṛṣṇa assim: \"Meu querido Senhor, o que posso dizer acerca da opulência de Tua Vṛndāvana? Simplesmente os ornamentos nas pernas das donzelas de Vṛndāvana são mais que *cintāmaṇi,* e suas vestes são tão boas quanto as celestiais flores *pārijāta.* E as vacas se assemelham exatamente às vacas *surabhi* na morada transcendental. Por conseguinte, Tua opulência é exatamente como um oceano que ninguém pode medir.\"\n\n## 49. Todo-Honrado\n\nUma pessoa que é a principal entre todas as pessoas importantes chama-se todo-honrada.\n\nQuando Kṛṣṇa vivia em Dvārakā, semideuses como o Senhor Śiva, o Senhor Brahmā, Indra, o rei do céu, e muitos outros costumavam vir visitá-Lo. O porteiro, que tinha de administrar a entrada de todos esses semideuses, num dia muito atarefado disse: \"Meu querido Senhor Brahmā e Senhor Śiva, por favor, sentai-vos neste banco e esperai. Meu querido Indra, por favor, abstém-te de recitar tuas orações. Isto está criando uma perturbação. Por favor, espera em silêncio. Meu querido Varuṇa, por favor, vai embora. E, meus queridos semideuses, não desperdiceis vosso tempo inutilmente. Kṛṣṇa está muito ocupado; Ele não pode ver-vos!\"\n\n## 50. Controlador Supremo\n\nHá dois tipos de controladores, ou senhores: aquele que é independente chama-se controlador, e aquele cujas ordens não podem ser negligenciadas por ninguém chama-se controlador.\n\nQuanto à completa independência e senhorio de Kṛṣṇa, o *Śrīmad-Bhāgavatam* diz que, embora Kāliya fosse um grande ofensor, Kṛṣṇa ainda assim o favoreceu ao marcar sua cabeça com Seus pés de lótus, ao passo que o Senhor Brahmā, embora houvesse orado a Kṛṣṇa com tantos versos maravilhosos, ainda assim não conseguiu atraí-Lo.\n\nEste tratamento contraditório por parte de Kṛṣṇa é justamente condizente com Sua posição, porque em toda a literatura Védica Ele é descrito como o completamente independente. No começo do *Śrīmad-Bhāgavatam,* o Senhor é descrito como *svarāṭ,* que significa completamente independente. Essa é a posição da suprema verdade absoluta. A verdade absoluta não é apenas senciente, mas também é completamente independente.\n\nQuanto a Suas ordens não serem negligenciadas por ninguém, no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Terceiro Canto, segundo capítulo, vigésimo primeiro verso, Uddhava diz a Vidura: \"O Senhor Kṛṣṇa é o mestre dos três modos da natureza material. Ele é o desfrutador de todas as opulências e, por conseguinte, não há ninguém igual a Ele nem maior que Ele.\" Todos os grandes reis e imperadores costumavam vir diante d'Ele, oferecer seus presentes e prestar reverências com seus elmos aos pés do Senhor. Certo devoto disse: \"Meu querido Kṛṣṇa, quando ordenas a Brahmā — 'Agora podes criar o universo' — e quando ordenas ao Senhor Śiva — 'Agora dissolve esta manifestação material' —, estás dessa maneira criando e dissolvendo Tu mesmo a criação material. Simplesmente por Tuas ordens e por Tua representação parcial de Viṣṇu, estás mantendo os universos. Dessa forma, ó Kṛṣṇa, ó inimigo de Kaṁsa, há tantos Brahmās e Śivas que estão simplesmente cumprindo Tuas ordens.\"\n\n## 51. Imutável\n\nKṛṣṇa não muda Sua posição constitucional, nem mesmo quando aparece neste mundo material. As entidades vivas comuns têm suas posições espirituais constitucionais cobertas. Elas aparecem em diferentes corpos e, sob os diferentes conceitos corporais da vida, agem. Mas Kṛṣṇa não muda Seu corpo. Ele aparece em Seu próprio corpo e, por conseguinte, não é afetado pelos modos da natureza material. No Primeiro Canto, décimo primeiro capítulo, vigésimo quarto verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* afirma-se que a prerrogativa especial do controlador supremo é que Ele não é absolutamente afetado pelos modos da natureza. O exemplo prático disso é que os devotos que estão sob a proteção do Senhor também não são afetados pela natureza material. Superar a influência da natureza material é muito difícil, mas os devotos ou as pessoas santas que estão sob a proteção do Senhor não são afetados. Então, que necessidade há de falar do próprio Senhor? Para sermos mais claros, embora o Senhor às vezes apareça neste mundo material, Ele nada tem a ver com os modos da natureza material, e age com plena independência em Sua posição transcendental. Esta é a qualidade especial do Senhor.\n\n## 52. Onisciente\n\nQualquer pessoa que possa compreender os sentimentos de todas as pessoas e os incidentes em todos os lugares em todos os momentos chama-se onisciente.\n\nUm belo exemplo da qualidade onisciente do Senhor é descrito no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Primeiro Canto, décimo quinto capítulo, décimo primeiro verso, em conexão com a visita de Durvāsā Muni à casa dos Pāṇḍavas na floresta. Seguindo um plano calculado, Duryodhana enviou Durvāsā Muni e seus dez mil discípulos para serem hóspedes dos Pāṇḍavas na floresta. Duryodhana providenciou para que Durvāsā e seus homens chegassem ao lugar dos Pāṇḍavas justamente quando a hora do almoço dos Pāṇḍavas houvesse terminado, de modo que os Pāṇḍavas fossem apanhados sem meios suficientes para alimentar tão grande número de hóspedes. Conhecendo o plano de Duryodhana, Kṛṣṇa veio até os Pāṇḍavas e perguntou a sua esposa Draupadī se havia algum resto de alimento que ela pudesse oferecer-Lhe. Draupadī ofereceu-Lhe um recipiente em que havia apenas um pequeno fragmento de alguma preparação de vegetais, e Kṛṣṇa de imediato o comeu. Naquele momento, todos os sábios que acompanhavam Durvāsā estavam tomando banho no rio e, quando Kṛṣṇa sentiu satisfação por comer a oferenda de Draupadī, eles também sentiram satisfação, e sua fome desapareceu. Visto que Durvāsā e seus homens foram incapazes de comer mais nada, eles foram embora sem entrar na casa dos Pāṇḍavas. Dessa maneira, os Pāṇḍavas foram salvos da ira de Durvāsā. Duryodhana os havia enviado porque sabia que os Pāṇḍavas não seriam capazes de receber tão grande número e, assim, Durvāsā ficaria irado, e os Pāṇḍavas seriam amaldiçoados. Mas Kṛṣṇa os salvou desta calamidade por Seu ardil e por Sua qualidade onisciente.\n\n## 53. Sempre Fresco\n\nKṛṣṇa é sempre lembrado, e Seu nome é sempre cantado por milhões de devotos, mas os devotos jamais ficam saturados. Em vez de ficarem desinteressados em pensar em Kṛṣṇa e em cantar Seu santo nome, os devotos recebem ímpeto cada vez mais novo para continuar o processo. Por conseguinte, Kṛṣṇa é sempre fresco. Não apenas o próprio Kṛṣṇa, mas também o conhecimento de Kṛṣṇa é sempre fresco. O *Bhagavad-gītā,* que foi transmitido há 5.000 anos, ainda está sendo lido repetidamente por muitíssimos homens, e ainda assim sempre se encontra nova luz nele. Por conseguinte, Kṛṣṇa e Seu nome, fama, qualidades — e tudo o que se relaciona com Ele — é sempre fresco.\n\nTodas as rainhas em Dvārakā eram deusas da fortuna. Diz-se no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Primeiro Canto, décimo primeiro capítulo, vigésimo nono verso, que as deusas da fortuna são muito volúveis e inquietas, de modo que ninguém pode cativá-las consistentemente. Assim, a sorte da pessoa sempre mudará em algum momento. Contudo, as deusas da fortuna não podiam deixar Kṛṣṇa sequer por um momento, quando estavam residindo com Ele em Dvārakā. Isto significa que a atração de Kṛṣṇa é sempre fresca. Nem mesmo as deusas da fortuna podem deixar Sua companhia.\n\nAcerca dos atraentes aspectos de Kṛṣṇa serem sempre frescos, há uma afirmação de Rādhārāṇī no *Lalita-mādhava,* em que Kṛṣṇa é comparado ao maior escultor, porque Ele é perito em cinzelar a castidade das mulheres. Em outras palavras, embora as mulheres castas possam seguir as regras e regulações dos princípios Védicos para tornarem-se sempre fiéis a seus maridos, Kṛṣṇa é capaz de quebrar sua castidade semelhante à pedra com o cinzel de Sua beleza. A maioria das amigas de Kṛṣṇa eram casadas, mas, como Kṛṣṇa era amigo delas antes de seus casamentos, elas não podiam esquecer Seus atraentes aspectos, que lhes eram sempre fascinantes, mesmo depois de seus casamentos.\n\n## 54. Sac-cid-ānanda-vigraha\n\nIsto significa que o corpo transcendental de Kṛṣṇa é eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. *Sat* significa sempre existente, para todo tempo e em todos os lugares; em outras palavras, onipenetrante em tempo e espaço. *Cit* significa pleno de conhecimento. Kṛṣṇa nada tem a aprender de ninguém. Ele é independentemente pleno de todo conhecimento. *Ānanda* significa o reservatório de todo prazer. Os impersonalistas procuram fundir-se na refulgência do Brahman de eternidade e conhecimento, mas a porção principal do prazer absoluto que há em Kṛṣṇa é evitada por eles. Pode-se desfrutar a transcendental bem-aventurança de fundir-se na refulgência do Brahman após libertar-se da contaminação da ilusão material, da falsa identificação, do apego, do desapego e da absorção material. Estas são as qualificações preliminares de uma pessoa que pode compreender o Brahman. Afirma-se no *Bhagavad-gītā* que é preciso tornar-se pleno de júbilo; isto não é exatamente júbilo, mas um senso de liberdade de todas as ansiedades. A liberdade de todas as ansiedades pode ser o primeiro princípio do júbilo, mas não é o júbilo verdadeiro. Aqueles que compreendem o eu, ou se tornam *brahma-bhūta,* estão apenas preparando-se para a plataforma do júbilo. Esse júbilo só pode ser de fato alcançado quando a pessoa entra em contato com Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa é tão completa que inclui o transcendental prazer derivado da compreensão impessoal, ou do Brahman. Mesmo o impersonalista se tornará atraído pela forma pessoal de Kṛṣṇa, conhecida como Śyāmasundara.\n\nConfirma-se pela afirmação da *Brahma-saṁhitā* que a refulgência do Brahman é o raio corporal de Kṛṣṇa; a refulgência do Brahman é simplesmente uma exibição da energia de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é a fonte da refulgência do Brahman, como Ele mesmo confirma no *Bhagavad-gītā.* Disto podemos concluir que o aspecto impessoal da verdade absoluta não é a meta última; Kṛṣṇa é a meta última da verdade absoluta.\n\nAs escolas *vaiṣṇavas,* por conseguinte, jamais tentam fundir-se na refulgência do Brahman em sua busca pela perfeição espiritual. Elas aceitam Kṛṣṇa como a meta última da autorrealização. Por isso, Kṛṣṇa é chamado parambrahman (o Brahman Supremo) ou parameśvara (o controlador supremo). Śrī Yāmunācārya orou da seguinte forma: \"Meu querido Senhor, sei que o gigantesco universo e o gigantesco espaço e tempo dentro do universo estão cobertos pelas dez camadas dos elementos materiais, cada camada dez vezes maior que a anterior. Os três modos materiais da natureza, o Garbhodakaśāyī Viṣṇu, o Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu e o Mahā-Viṣṇu e, além deles, o céu espiritual e seus planetas espirituais, conhecidos como Vaikuṇṭhas, e a refulgência do Brahman naquele céu espiritual — tudo isto, tomado em conjunto, não é mais que uma pequena exibição de Tua potência.\"\n\n## 55. Possuidor de Todas as Perfeições Místicas\n\nHá muitos padrões de perfeição. As mais elevadas perfeições materiais, obtidas pelos *yogīs* perfeitos, estão enumeradas em oito: tornar-se o menor dos pequenos, tornar-se o maior dos grandes etc. Todas estas perfeições materiais, bem como todas as perfeições espirituais, podem ser encontradas plenamente na personalidade de Kṛṣṇa.\n\n## 56. As Inconcebíveis Potências de Kṛṣṇa\n\nKṛṣṇa está presente em toda parte, não apenas dentro do universo, não apenas dentro dos corações de todas as entidades vivas, mas também dentro de cada átomo. Nas orações da rainha Kuntī, encontramos menção a esta inconcebível potência de Kṛṣṇa. Enquanto Kṛṣṇa falava com Kuntī, Ele simultaneamente entrou no ventre de Uttarā, que estava em perigo devido à arma atômica de Aśvatthāmā. Kṛṣṇa pode iludir até mesmo o Senhor Brahmā e o Senhor Śiva, e pode proteger todos os devotos rendidos da reação de atividades pecaminosas. Estes são alguns dos exemplos de Suas inconcebíveis potências.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī, por conseguinte, oferece suas reverências a Kṛṣṇa, dizendo: \"Kṛṣṇa, que está presente como um ser humano, tem como Sua mera sombra toda a natureza material. Ele Se expandiu em tantas vacas, bezerros e vaqueirinhos, e novamente Se manifestou em todos eles como o Nārāyaṇa de quatro braços. Ele ensinou autorrealização a milhões de Brahmās e, assim, é adorável não apenas pelos chefes de todos os universos, mas também por todos os demais. Por isso, que eu sempre O aceite como a Suprema Personalidade de Deus.\"\n\nQuando Indra foi derrotado por Kṛṣṇa no assunto de tomar a planta *pārijāta* do céu, Nārada encontrou-se com Indra e criticou-o: \"Ó Indra, grande rei do céu, Kṛṣṇa já derrotou o Senhor Brahmā e o Senhor Śiva. Então, o que se pode dizer de um semideus insignificante como tu?\" Nārada Muni, evidentemente, estava criticando Indra em tom de brincadeira, e Indra apreciou isso. Na afirmação de Nārada, confirma-se que Kṛṣṇa era capaz de iludir até mesmo o Senhor Brahmā e o Senhor Śiva, bem como Indra. Assim, não há possibilidade de questionar o poder de Kṛṣṇa de fazer o mesmo com entidades vivas inferiores.\n\nUma descrição do poder de Kṛṣṇa de minimizar os sofrimentos das reações pecaminosas é dada na *Brahma-saṁhitā* da seguinte forma: \"Começando do grande rei do céu e indo até a formiga, todos estão passando pelas reações de atos passados. Mas um devoto de Kṛṣṇa é aliviado de tais reações pela graça de Kṛṣṇa.\" Isto ficou claramente provado quando Kṛṣṇa foi ao lugar de Yamarāja, o senhor da morte, para reclamar os filhos mortos de Seu mestre. O mestre de Kṛṣṇa havia pedido a Kṛṣṇa que trouxesse de volta seus filhos mortos e, para fazê-lo, Kṛṣṇa foi ao lugar de Yamarāja reclamar aquelas almas, que haviam sido levadas para lá por Yamarāja e estavam sendo mantidas sob seu controle. Kṛṣṇa imediatamente ordenou a Yamarāja: \"Beneficia-te com Minha ordem e devolve-Me aquelas almas!\" O significado deste incidente é que mesmo uma pessoa que esteja sob os princípios regulativos das leis da natureza, e seja, portanto, punível por Yamarāja sob estas leis, pode receber completa imunidade pela graça de Kṛṣṇa.\n\nAs inconcebíveis potências de Kṛṣṇa foram descritas por Śukadeva Gosvāmī da seguinte forma: \"Kṛṣṇa está desconcertando minha inteligência porque, embora seja não-nascido, apareceu como o filho de Nanda Mahārāja. Ele é onipenetrante, mas, ainda assim, é mantido no colo de Yaśodā. Apesar de ser onipenetrante, tornou-Se limitado pelo amor de Yaśodā. Embora tenha inumeráveis formas, ainda assim Se move como um único Kṛṣṇa diante de Seu pai e de Sua mãe, Nanda e Yaśodā.\" Na *Brahma-saṁhitā,* também, diz-se que, embora Kṛṣṇa viva eternamente em Goloka Vṛndāvana, Sua morada transcendental, Ele está, ainda assim, presente em toda parte, mesmo dentro dos átomos.\n\n## 57. O Corpo de Kṛṣṇa Gera Inumeráveis Universos\n\nNo Décimo Canto, décimo quarto capítulo, décimo primeiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* o Senhor Brahmā diz: \"Meu querido Senhor, o ego falso, a inteligência, a mente, o céu, o ar, o fogo, a água e a terra são os ingredientes materiais deste universo, que pode ser comparado a um pote gigantesco. Nesse pote gigantesco, meu corpo é de medida insignificante e, embora um dos muitos universos seja criado por mim, inumeráveis universos estão vindo e indo dos poros de Teu corpo, exatamente como partículas atômicas são vistas cintilando à luz do sol. Penso que sou muito, muito insignificante diante de Ti, e por isso imploro Teu perdão. Por favor, sê misericordioso para comigo.\"\n\nSe a pessoa levar em conta apenas um universo, encontrará tantas combinações de coisas maravilhosas dentro dele, porque há inumeráveis planetas, inumeráveis residências e lugares dos semideuses. O comprimento e a largura do universo são de 400 milhões de milhas por 400 milhões de milhas, e ele está infestado de muitas regiões insondáveis conhecidas como pātālas, ou sistemas planetários descendentes. Embora Kṛṣṇa seja a origem de tudo isto, Ele sempre pode ser visto em Vṛndāvana, exibindo Suas inconcebíveis potências. Então, quem pode adorar adequadamente tal Senhor todo-poderoso, possuidor de tão inconcebível energia?\n\n## 58. A Fonte Original de Todas as Encarnações\n\nJayadeva Gosvāmī, em seu *Gīta-govinda,* cantou da seguinte forma: \"O Senhor salvou os *Vedas* em Sua forma de peixe, e suportou todo o universo sobre Suas costas na forma de tartaruga. Ele ergueu este planeta terrestre da água na forma de javali. Matou Hiraṇyakaśipu na forma de Nṛsiṁha. Enganou Mahārāja Bali na forma de Vāmana. Aniquilou todas as dinastias dos *kṣatriyas* na forma de Paraśurāma. Matou todos os demônios na forma do Senhor Rāma. Aceitou o grande arado na forma de Balarāma. Aniquilou todas as pessoas ateístas na forma de Kalki. E salvou todos os pobres animais na forma do Senhor Buddha.\"((Todas estas encarnações de Deus são descritas no Śrīmad-Bhāgavatam do autor, Volume I, Capítulo 3.)) Estas são algumas das descrições das encarnações que emanam de Kṛṣṇa, e do *Śrīmad-Bhāgavatam* depreende-se que inumeráveis encarnações estão sempre saindo do corpo de Kṛṣṇa, assim como as ondas no oceano. Ninguém pode sequer contar quantas ondas existem e, de modo semelhante, ninguém pode contar quantas encarnações estão saindo do corpo do Senhor.\n\n## 59. Kṛṣṇa Dá Salvação aos Inimigos que Mata\n\nOutro nome para salvação é *apavarga. Apavarga* é o oposto de *pavarga,* ou as várias condições miseráveis da existência material. A palavra *pavarga* consiste na combinação de cinco letras: *pa, pha, ba, bha* e *ma.* Estas letras são as primeiras letras das palavras para cinco condições diferentes, conforme descrito abaixo. A primeira letra, *pa,* vem da palavra *parābhava,* que significa \"derrota\". Nesta luta material pela existência, estamos simplesmente sofrendo derrota. Na verdade, temos de conquistar o nascimento, a morte, a doença e a velhice e, porque não há possibilidade de superar todas estas condições miseráveis, devido à ilusão de *māyā,* estamos simplesmente sofrendo *parābhava,* ou derrota. A letra seguinte, *pha,* é tomada da palavra *phenila. Phenila* é a espuma que se encontra na boca quando se está muito cansado (como se observa comumente nos cavalos). A letra *ba* vem da palavra *bandha,* ou cativeiro. *Bha* é tomada da palavra *bhīti,* ou medo. *Ma* é tomada da palavra *mṛti,* ou morte. Assim, a palavra *pavarga* significa nossa luta pela existência e nosso encontro com a derrota, a exaustão, o cativeiro, o medo e, por fim, a morte. *Apavarga* significa aquilo que pode anular todas estas condições materiais. Diz-se que Kṛṣṇa é o outorgador do *apavarga,* a senda da liberação.\n\nPara os impersonalistas e os inimigos de Kṛṣṇa, liberação significa fundir-se no supremo. Os demônios e os impersonalistas não se importam com Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa é tão bondoso que concede esta liberação até mesmo a Seus inimigos e aos impersonalistas. Há a seguinte afirmação a esse respeito: \"Ó Murāri [Kṛṣṇa]! Como é maravilhoso que, embora os demônios, que eram sempre invejosos dos semideuses, tenham fracassado em penetrar Tua falange militar, eles tenham penetrado a região de *mitra,* o globo solar.\" A palavra *mitra* é usada metaforicamente. *Mitra* significa o globo solar, e *mitra* também significa amigo. Os demônios que se opuseram a Kṛṣṇa como inimigos queriam penetrar Sua falange militar; mas, em vez de fazerem isso, morreram em batalha, e o resultado foi que penetraram o planeta de Mitra, ou o planeta solar. Em outras palavras, eles entraram na refulgência do Brahman. O exemplo do planeta solar é dado aqui porque o sol é sempre iluminador, como o céu espiritual, onde há inumeráveis e iluminadores planetas Vaikuṇṭha. Os inimigos de Kṛṣṇa foram mortos e, em vez de penetrarem a falange de Kṛṣṇa, entraram na atmosfera amistosa da refulgência espiritual. Essa é a misericórdia de Kṛṣṇa, e por isso Ele é conhecido como o libertador também de Seus inimigos.\n\n## 60. O Atrator das Almas Liberadas\n\nHá muitos exemplos de como Kṛṣṇa atraiu até mesmo grandes almas liberadas, como Śukadeva Gosvāmī e os Kumāras. A esse respeito, a seguinte afirmação foi dada pelos Kumāras: \"Como é maravilhoso que, embora estejamos completamente liberados, livres de desejo e situados na etapa de *paramahaṁsa,* ainda assim aspiramos a saborear os passatempos de Rādhā e Kṛṣṇa.\"\n\n## 61. Realizador de Atividades Maravilhosas\n\nNo *Bṛhad-Vāmana Purāṇa,* o Senhor diz: \"Embora Eu tenha muitos passatempos fascinantes, sempre que penso no *rāsa-līlā,* que executo com as *gopīs,* fico ansioso por tê-lo novamente.\"\n\nCerto devoto disse: \"Conheço Nārāyaṇa, o esposo da deusa da fortuna, e também conheço muitas outras encarnações do Senhor. Certamente todos os passatempos de tais encarnações são excitantes para minha mente, mas, ainda assim, os passatempos do *rāsa-līlā* executados pelo próprio Senhor Kṛṣṇa estão maravilhosamente aumentando meu prazer transcendental.\"\n\nNo Décimo Canto, trigésimo primeiro capítulo, décimo quinto verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* as *gopīs* lamentam: \"Meu querido Kṛṣṇa, durante o dia, quando sais para a floresta de Vṛndāvana com Tuas vacas, consideramos um momento como doze anos, e é muito difícil para nós passar o tempo. E, novamente, quando voltas ao fim do dia, ao vermos Teu belo rosto ficamos tão atraídas que somos incapazes de parar de olhar-Te constantemente. Nessas ocasiões, quando há o piscar ocasional de nossas pálpebras, condenamos o criador, o Senhor Brahmā, como um néscio, porque ele não sabe fazer olhos perfeitos!\" Em outras palavras, as *gopīs* ficavam perturbadas pelo piscar de seus olhos, porque, durante o momento em que seus olhos estavam fechados, elas não podiam ver Kṛṣṇa. Isto significa que o amor das *gopīs* por Kṛṣṇa era tão grande e extático que elas ficavam perturbadas até mesmo por Sua momentânea ausência. E, quando viam Kṛṣṇa, também ficavam perturbadas. Isto é um paradoxo.\n\nCerta *gopī,* expressando-se a Kṛṣṇa, diz: \"Quando Te encontramos à noite, consideramos a duração da noite muito pequena. E por que falar apenas desta noite? Mesmo que tivéssemos uma noite de Brahmā((64.300.000.000 de anos solares equivalem a doze horas, ou a uma noite de Brahmā.)), nós a consideraríamos um tempo muito curto!\" Temos uma ideia do dia de Brahmā a partir da seguinte afirmação do *Bhagavad-gītā* (8.17): \"Pelo cálculo humano, mil ciclos de *yugas,* tomados em conjunto, são um dia de Brahmā. E essa é também a duração de sua noite.\" As *gopīs* disseram que, mesmo que pudessem ter aquela duração de noite, ainda assim ela não seria suficiente para seu encontro com Kṛṣṇa.\n\n## 62. A Atraente Flauta de Kṛṣṇa\n\nNo Décimo Canto, trigésimo quinto capítulo, oitavo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* as *gopīs* dizem a Mãe Yaśodā: \"Quando teu filho toca Sua flauta, o Senhor Śiva, o Senhor Brahmā e Indra — embora supostamente sejam os maiores eruditos e personalidades — todos ficam desconcertados. Embora todos sejam personalidades muito grandiosas, ao ouvirem o som da flauta de Kṛṣṇa, eles humildemente se prostram e ficam graves ao estudarem o som vibrado.\"\n\nEm seu livro *Vidagdha-mādhava,* Śrī Rūpa Gosvāmī descreve assim a vibração da flauta de Kṛṣṇa: \"A vibração sonora criada pela flauta de Kṛṣṇa maravilhosamente fez o Senhor Śiva parar de tocar seu tambor *ḍiṇḍima,* e a mesma flauta fez grandes sábios, como os quatro Kumāras, ficarem perturbados em sua meditação. Ela fez o Senhor Brahmā, que estava sentado na flor de lótus para a função criativa, ficar atônito. E Anantadeva, que estava calmamente sustentando todos os planetas sobre Seu capelo, movia-se de um lado para o outro devido à transcendental vibração da flauta de Kṛṣṇa, que penetrou através da cobertura deste universo e alcançou o céu espiritual.\"\n\n## 63. Kṛṣṇa É Cercado por Devotos Amorosos\n\nQuando falamos de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa não está sozinho. Kṛṣṇa significa Seu nome, Suas qualidades, Sua fama, Seus amigos, Sua parafernália, Seu séquito — tudo isto está incluído. Quando falamos de um rei, deve-se entender que ele está cercado por ministros, secretários, comandantes militares e muitas outras pessoas. De modo semelhante, Kṛṣṇa não é impessoal. Em Seu Vṛndāvana *līlā,* especialmente, Ele está cercado pelas *gopīs,* pelos vaqueirinhos, por Seu pai, por Sua mãe e por todos os habitantes de Vṛndāvana.\n\n## 64. A Primorosa Beleza de Kṛṣṇa\n\nNo Terceiro Canto, segundo capítulo, décimo segundo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Uddhava diz a Vidura: \"Meu querido senhor, a forma de Kṛṣṇa era mais que maravilhosa quando Ele apareceu neste planeta e exibiu a potência de Sua energia interna. Sua maravilhosamente atraente forma esteve presente durante Seus passatempos neste planeta, e, por Sua potência interna, Ele exibiu Suas opulências, que são impressionantes para todos. Sua beleza pessoal era tão grande que não havia necessidade de Ele usar ornamentos em Seu corpo. De fato, em vez de os ornamentos embelezarem Kṛṣṇa, a beleza de Kṛṣṇa realçava os ornamentos.\"\n\nAcerca da atratividade da beleza corporal de Kṛṣṇa e da vibração sonora de Sua flauta, no Décimo Canto, vigésimo nono capítulo, trigésimo sétimo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* as *gopīs* dirigem-se a Kṛṣṇa da seguinte forma: \"Embora nossa atitude para conTigo se assemelhe a relacionamentos amorosos com um amante, não podemos deixar de espantar-nos com o fato de que nenhuma mulher pode manter sua castidade ao ouvir a vibração de Tua flauta. E não apenas as mulheres, mas até mesmo os homens de coração firme estão sujeitos a cair de sua posição ao som de Tua flauta. De fato, vimos que, em Vṛndāvana, até as vacas, os veados, os pássaros, as árvores — todos — ficaram encantados pela doce vibração de Tua flauta e pela fascinante beleza de Tua pessoa.\"\n\nNo *Lalita-mādhava,* de Rūpa Gosvāmī, diz-se: \"Certo dia, Kṛṣṇa veio a ver a sombra de Sua bela forma refletida no primeiro plano enjoado de joias. Ao ver este reflexo corporal, Ele expressou Seus sentimentos: 'Como é maravilhoso que Eu jamais tenha visto tal bela forma! Embora seja Minha própria forma, ainda assim, como Rādhārāṇī, estou tentando abraçar esta forma e desfrutar bem-aventurança celestial.'\" Esta afirmação mostra como Kṛṣṇa e Seu reflexo de sombra são uma só e a mesma coisa. Não há diferença entre Kṛṣṇa e Seu reflexo de sombra, nem entre Kṛṣṇa e Seu retrato. Essa é a posição transcendental de Kṛṣṇa.\n\nAs afirmações acima descrevem alguns dos maravilhosos reservatórios de prazer dentro de Kṛṣṇa, bem como as qualidades transcendentais de Sua personalidade. As qualidades transcendentais de Kṛṣṇa são comparadas ao oceano: ninguém pode estimar o comprimento e a largura do oceano. Mas, assim como se pode compreender o conteúdo do oceano simplesmente provando uma gota dele, da mesma forma estas afirmações nos darão alguma compreensão acerca da posição transcendental e das qualidades de Kṛṣṇa.\n\nNo Décimo Canto, décimo quarto capítulo, sétimo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* o Senhor Brahmā diz: \"Meu querido Senhor, as inconcebíveis qualidades, belezas e atividades que revelaste por Tua presença neste planeta não podem ser calculadas por qualquer medida material. Se alguém tentar sequer imaginar que 'Kṛṣṇa talvez seja assim', isso também é impossível. Pode chegar o dia em que o cientista material, após muitíssimos nascimentos ou após muitíssimos anos, seja capaz de estimar a constituição atômica de todo o mundo, ou seja capaz de contar os fragmentos atômicos que permeiam o céu, ou seja capaz até de dar uma estimativa de todos os átomos dentro do universo, mas, ainda assim, ele jamais será capaz de contar as qualidades transcendentais em Teu reservatório de bem-aventurança transcendental.\""}
{"ref": "nod/23", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/23/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "23. A Personalidade de Kṛṣṇa", "purport": "Śrīla Rūpa Gosvāmī afirma que, embora o Senhor Kṛṣṇa seja o reservatório de prazer ilimitado e o maior líder de todos, Ele ainda assim depende de Seus devotos de três maneiras. Conforme o estado emocional do devoto, a Suprema Personalidade de Deus é apreciada de três modos: como o mais perfeito, como muito perfeito e como perfeito. Quando Ele Se manifesta em plenitude, os grandes eruditos O apreciam como o mais perfeito. Quando Ele Se manifesta em graus menores, é chamado de muito perfeito. E quando Se manifesta ainda menos, é chamado de perfeito. Isso significa que Kṛṣṇa é apreciado segundo três graus de perfeição. Esses três graus de perfeição manifestam-se especialmente da seguinte forma: quando Ele Se encontra em Goloka Vṛndāvana, Suas qualidades transcendentais manifestam-se como o mais perfeito; quando Se encontra em Dvārakā, Ele manifesta Suas qualidades como muito perfeito; e quando Se encontra em Mathurā, manifesta Suas qualidades como perfeito.\n\nA personalidade de Kṛṣṇa é analisada como *dhīrodātta, dhīra-lalita, dhīra-praśānta* e *dhīroddhata.* Caso alguém pergunte como uma personalidade pode ser contemplada de quatro maneiras tão opostas, a resposta é que o Senhor é o reservatório de todas as qualidades e atividades transcendentais. Por isso, Seus diferentes aspectos podem ser analisados de acordo com a manifestação de Sua ilimitada variedade de passatempos, e, dessa forma, não há contradição alguma.\n\n## Dhīrodātta\n\nUm *dhīrodātta* é uma pessoa que, por natureza, é muito grave, gentil, indulgente, misericordiosa, determinada, humilde, altamente qualificada, cavalheiresca e corporalmente atraente.\n\nA esse respeito, é muito significativa a seguinte afirmação feita por Indra, o rei do céu: \"Meu querido Senhor, admito que cometi grandes ofensas contra Ti, mas não consigo exprimir meus sentimentos de arrependimento, pois fiquei desconcertado ao ver Teu extraordinário espírito cavalheiresco, Teu empenho em proteger Teus devotos, Tua determinação, Tua firmeza ao erguer a grande colina de Govardhana, Teus belos traços corporais e Tua característica assombrosa de ficares satisfeito simplesmente por aceitares as orações de Teus devotos e ofensores.\"\n\nA afirmação acima, feita pelo rei do céu, é uma corroboração exata de que Kṛṣṇa é *dhīrodātta.* Muitos eruditos concordaram em aceitar também o Senhor Rāmacandra como *dhīrodātta,* mas todas as qualidades do Senhor Rāmacandra estão igualmente incluídas no caráter do Senhor Kṛṣṇa.\n\n## Dhīra-lalita\n\nUma pessoa é chamada de *dhīra-lalita* se, por natureza, é muito divertida, está sempre em plena juventude, é perita em gracejos e está livre de todas as ansiedades. Tal personalidade *dhīra-lalita* costuma ser doméstica e muito submissa a sua amada. Esse traço *dhīra-lalita* na personalidade de Kṛṣṇa é descrito no *Śrīmad-Bhāgavatam,* onde Yajñapatnī, a esposa de um dos *brāhmaṇas* que realizavam sacrifícios em Vṛndāvana, diz a suas amigas: \"Certo dia, Śrīmatī Rādhārāṇī, acompanhada de Suas associadas, descansava em Seu jardim, e, nesse momento, o Senhor Śrī Kṛṣṇa chegou àquela reunião. Após sentar-se, Ele começou a narrar muito impudentemente Seus passatempos da noite anterior com Rādhārāṇī. Enquanto Ele falava dessa maneira, Rādhārāṇī ficou muito constrangida. Ela sentia vergonha e estava absorta em pensamentos, e Kṛṣṇa aproveitou a oportunidade para marcar os seios Dela com diferentes tipos de *tilaka.* Kṛṣṇa provou ser muito perito nessa arte.\" Dessa maneira, Kṛṣṇa, como *dhīra-lalita,* desfrutava de Suas inclinações juvenis na companhia das *gopīs.*\n\nEm geral, aqueles que são peritos em escrever dramas preferem chamar Cupido de o *dhīra-lalita* ideal, mas podemos encontrar de maneira mais perfeita, na personalidade de Kṛṣṇa, todas as características de *dhīra-lalita.*\n\n## Dhīra-praśānta\n\nUma pessoa que é muito pacífica, tolerante, ponderada e prestativa é chamada de *dhīra-praśānta.* Esse traço *dhīra-praśānta* de Kṛṣṇa manifestou-se em Suas relações com os Pāṇḍavas. Em virtude da fiel devoção dos Pāṇḍavas ao Senhor, Ele concordou em tornar-Se o quadrigário deles, seu conselheiro, seu amigo, seu mensageiro e, às vezes, seu guarda-costas. Eis um exemplo do resultado do serviço devocional prestado a Viṣṇu. Quando Kṛṣṇa falava a Mahārāja Yudhiṣṭhira sobre os princípios religiosos, Ele Se mostrava um grande erudito, mas, por ter aceitado a posição de primo mais jovem de Yudhiṣṭhira, falava em tom muito gentil, o que realçava Seus belos traços corporais. Os movimentos de Seus olhos e o modo de Seu discurso provaram que Ele era muitíssimo perito em transmitir instrução moral. Às vezes, Mahārāja Yudhiṣṭhira também é aceito pelos eruditos como *dhīra-praśānta.*\n\n## Dhīroddhata\n\nOs eruditos chamam de *dhīroddhata* a pessoa que é muito invejosa, orgulhosa, facilmente irritável, inquieta e presunçosa. Tais qualidades eram visíveis no caráter do Senhor Kṛṣṇa porque, ao escrever uma carta a Kālayavana, Kṛṣṇa dirigiu-se a ele como a um sapo pecaminoso. Em Sua carta, Kṛṣṇa aconselhou Kālayavana a ir imediatamente procurar algum poço escuro para sua residência, pois havia uma serpente negra chamada Kṛṣṇa que estava muito ansiosa por devorar todos esses sapos pecaminosos. Kṛṣṇa lembrou a Kālayavana que poderia reduzir todos os universos a cinzas simplesmente olhando para eles.\n\nA afirmação acima, feita por Kṛṣṇa, parece aparentemente ser de natureza invejosa, mas, de acordo com os diferentes passatempos, lugares e tempos, essa qualidade é aceita como uma grande característica. As qualidades *dhīroddhata* de Kṛṣṇa têm sido aceitas como grandiosas porque Kṛṣṇa as emprega apenas para proteger Seus devotos. Em outras palavras, mesmo traços indesejáveis podem ser usados no intercâmbio de serviço devocional.\n\nÀs vezes, Bhīma, o segundo irmão dos Pāṇḍavas, também é descrito como *dhīroddhata.*\n\nCerta vez, ao lutar contra um demônio que se apresentava sob a forma de um cervo, Kṛṣṇa o desafiou desta maneira: \"Apresentei-Me diante de ti como um grande elefante chamado Kṛṣṇa. Deves deixar o campo de batalha, aceitando a derrota, ou então a morte te aguarda.\" Esse espírito desafiador de Kṛṣṇa não contradiz Seu caráter sublime, pois, como o Ser Supremo, tudo é possível em Seu caráter.\n\nHá uma bela afirmação no *Kūrma Purāṇa* a respeito desses traços contraditórios da Suprema Personalidade de Deus. Afirma-se ali que a Pessoa Suprema não é nem muito gorda nem muito magra; Ele é sempre transcendental às qualidades materiais e, ainda assim, Seu brilho corporal é enegrecido. Seus olhos são avermelhados, Ele é todo-poderoso e está dotado de todas as diferentes espécies de opulências. Os traços contraditórios na pessoa de Kṛṣṇa não são nem um pouco surpreendentes: ninguém deve considerar as características de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, como sendo realmente contraditórias. A pessoa deve procurar compreender os traços de Kṛṣṇa a partir das autoridades e tentar compreender como essas características são empregadas pela suprema vontade do Senhor.\n\nNo *Mahā-varāha Purāṇa,* confirma-se que os corpos transcendentais da Suprema Personalidade de Deus e de Suas expansões existem todos eternamente. Tais corpos jamais são materiais; são inteiramente espirituais e plenos de conhecimento. São reservatórios de todas as qualidades transcendentais. No *Vaiṣṇava Tantra,* há uma afirmação de que a Personalidade de Deus e Seus corpos expandidos estão sempre livres dos dezoito tipos de contaminações materiais,((Os dezoito tipos de contaminações materiais mencionados acima são descritos no *Viṣṇu-yāmala Tantra da seguinte maneira:* ilusão, fadiga, cometimento de erros, rudeza, luxúria material, inquietação, orgulho, inveja, violência, desonra, exaustão, falsidade, ira, anseio, dependência, desejo de assenhorear-se do universo, ver dualidade e trapaça.)) [*Os dezoito tipos de contaminações materiais mencionados acima são descritos no Viṣṇu-yāmala Tantra* da seguinte maneira: *ilusão, fadiga, cometimento de erros, rudeza, luxúria material, inquietação, orgulho, inveja, violência, desonra, exaustão, falsidade, ira, anseio, dependência, desejo de assenhorear-se do universo, ver dualidade e trapaça.] porque tais corpos estão sempre plenos de conhecimento, bem-aventurança e eternidade.\n\nNo tocante a todas as afirmações acima mencionadas, compreende-se que o Mahā-Viṣṇu é a fonte de todas as encarnações no mundo material. Mas, em virtude de Sua maior e extraordinária opulência, podemos compreender que o filho de Nanda Mahārāja é a fonte também do Mahā-Viṣṇu. Isso é confirmado na *Brahma-saṁhitā,* onde se afirma: \"Permita-me oferecer minhas respeitosas reverências a Govinda, cuja representação parcial é o Mahā-Viṣṇu.\" A gigantesca forma do Mahā-Viṣṇu é a fonte de geração de inumeráveis universos. Inumeráveis universos saem de Sua respiração ao exalar, e os mesmos universos voltam a entrar com Sua respiração ao inalar. Esse Mahā-Viṣṇu é também uma porção plenária de uma porção de Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/24", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/24/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "24. Traços Adicionais de Śrī Kṛṣṇa", "purport": "Após descrever as diferentes opulências de Kṛṣṇa, Śrīla Rūpa Gosvāmī procura descrever ainda mais as belezas e qualidades transcendentais do Senhor como: adornado, desfrutador, agradável, confiável, firme e predominante. Ele é também descrito como alguém que se veste meticulosamente e como uma personalidade magnânima. Estas são geralmente consideradas as qualidades de grandes personalidades.\n\n\n\nDiz-se que uma pessoa é grandiosa se está adornada com as qualidades de ser muito misericordiosa para com os desafortunados, muito poderosa, superior, cavalheiresca, entusiástica, perita e veraz. Estes adornos manifestaram-se no caráter de Kṛṣṇa durante Sua Govardhana-līlā. Naquela ocasião, toda a extensão de terra em Vṛndāvana estava sendo perturbada pelas chuvas enviadas por Indra, como descrito acima em outra parte. A princípio, Kṛṣṇa pensou: \"Que Eu retalie contra esta vingança de Indra destruindo seu reino celestial\", mas, mais tarde, quando pensou na insignificância do rei dos céus, Kṛṣṇa mudou de ideia e sentiu-Se misericordioso para com Indra. Ninguém é capaz de tolerar a ira de Kṛṣṇa, de modo que, em vez de retaliar contra Indra, Ele simplesmente mostrou Sua compaixão por Seus amigos em Vṛndāvana ao erguer toda a Colina de Govardhan para protegê-los.\n\n\n\nQuando se vê que uma pessoa está sempre feliz e está acostumada a falar sorrindo, considera-se que ela está no modo do desfrute. Este traço foi encontrado em Kṛṣṇa quando Ele apareceu na arena de sacrifício do rei Kaṁsa. Descreve-se que o Kṛṣṇa de olhos de lótus entrou entre os lutadores sem ser indelicado com eles, lançou seu olhar sobre eles com determinação e pareceu-lhes exatamente como um elefante atacando algumas plantas. Mesmo enquanto falava com eles, Kṛṣṇa ainda sorria e, dessa maneira, permaneceu valorosamente sobre o estrado de luta.\n\n\n\nQuando as características de alguém são muito doces e desejáveis, sua personalidade é chamada de agradável. Um exemplo da natureza agradável de Kṛṣṇa é assim descrito no *Śrīmad-Bhāgavatam*: \"Certo dia, enquanto Kṛṣṇa aguardava a chegada de Śrīmatī Rādhārāṇī à margem do Yamunā, Ele começou a fazer uma guirlanda de flores kadamba. Nesse ínterim, Śrīmatī Rādhārāṇī apareceu ali e, naquele momento, Murāri [Kṛṣṇa], o inimigo de Mura, lançou Seu olhar sobre Rādhārāṇī muito docemente.\"\n\n\n\nQualquer pessoa que seja confiável em todas as circunstâncias é chamada de confiável. A esse respeito, Rūpa Gosvāmī diz que até mesmo os demônios confiavam na confiabilidade de Kṛṣṇa, porque estavam seguros de que Kṛṣṇa jamais os atacaria sem causa devida. Portanto, com fé e confiança, eles costumavam viver com suas portas escancaradas. E os semideuses, embora temerosos dos demônios, estavam confiantes da proteção de Kṛṣṇa. Por isso, mesmo em meio ao perigo, ocupavam-se em atividades recreativas. As pessoas que jamais haviam passado pelas cerimônias ritualísticas reformatórias dos *Vedas* estavam confiantes de que Kṛṣṇa aceitaria apenas fé e devoção e, assim, ocupavam-se em consciência de Kṛṣṇa e ficavam livres de todas as ansiedades. Em outras palavras, todos os tipos de homens, desde os semideuses até os incultos, podem confiar na misericórdia imotivada do Senhor Supremo.\n\n\n\nUma pessoa que não se perturba nem mesmo em uma situação de reveses é chamada de firme. Esta firmeza foi observada em Kṛṣṇa em conexão com a matança que Ele fez do demônio conhecido como Bāṇa. O demônio Bāṇa tinha muitos braços, e Kṛṣṇa foi cortando esses braços um após o outro. Este Bāṇa era um grande devoto do Senhor Śiva e da deusa Durgā. Assim, quando Bāṇa estava sendo morto, o Senhor Śiva e Durgā ficaram muito furiosos com Kṛṣṇa. Mas Kṛṣṇa não Se importou com eles.\n\n\n\nUma pessoa que pode afetar a mente de todos é chamada de predominante. No que se refere à predominância de Kṛṣṇa, no Décimo Canto, 43º Capítulo, 14º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Kṛṣṇa é descrito assim por Śukadeva Gosvāmī ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, Kṛṣṇa é um raio para os lutadores; para o homem comum, Ele é o mais belo ser humano; para as moças jovens, Ele é exatamente como Cupido; para os vaqueiros e vaqueiras, Ele é o parente mais íntimo; para os reis ímpios, Ele é o governante supremo; para Seus pais, Nanda e Yaśodā, Ele é apenas um bebê; para Kaṁsa, o rei de Bhoja, Ele é a morte personificada; para os obtusos e estúpidos, Ele é como uma pedra; para os yogīs, Ele é a Suprema Verdade Absoluta; e para os Vṛṣṇis, Ele é a Suprema Personalidade de Deus. Em tal posição predominante, Kṛṣṇa apareceu naquela arena junto com Seu irmão mais velho Balarāma.\" Quando Kṛṣṇa, o reservatório de todos os doces sabores, estava presente na arena de Kaṁsa, Ele apareceu de modo diferente para as diferentes pessoas que estavam relacionadas com Ele em diferentes doces sabores. Afirma-se no *Bhagavad-gītā* que Ele aparece a cada pessoa de acordo com a relação dela com Ele.\n\n\n\nÀs vezes, os eruditos descrevem \"predominante\" como significando uma pessoa intolerante de ser negligenciada. Esta peculiaridade em Kṛṣṇa tornou-se visível quando Kaṁsa estava insultando Mahārāj Nanda e Vasudeva ao pedir a assistência de Kṛṣṇa em matar Kaṁsa. Kṛṣṇa lançava Seu olhar sobre Kaṁsa com olhos ansiosos, exatamente como uma prostituta, e estava justamente preparando-Se para saltar sobre o rei.\n\n\n\nUma pessoa que é muito afeiçoada a vestir-se é chamada de lalita, ou alguém que se veste meticulosamente. Esta característica foi encontrada em Kṛṣṇa de duas maneiras: às vezes, Ele costumava adornar Śrīmatī Rādhārāṇī com várias marcas e, às vezes, quando Se preparava para matar demônios como Ariṣṭāsura, Ele tinha o cuidado de ajeitar Seu cinto muito bem.\n\n\n\nAs pessoas que podem entregar-se a qualquer um são chamadas de magnânimas. Ninguém poderia ser mais magnânimo do que Kṛṣṇa porque Ele está sempre preparado para entregar-Se completamente a Seu devoto. Mesmo a alguém que não é devoto, Kṛṣṇa, em Sua forma do Senhor Caitanya, está preparado para entregar-Se e conceder a salvação.\n\n\n\nEmbora Kṛṣṇa seja independente de todos, por Sua misericórdia imotivada Ele depende de Garga Ṛṣi para a instrução religiosa; para aprender a arte militar, Ele depende de Sātyaki; e para um bom conselho, Ele depende de Seu amigo Uddhava."}
{"ref": "nod/25", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/25/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "25. Os Devotos de Kṛṣṇa", "purport": "Uma pessoa que está sempre absorta em consciência de Kṛṣṇa é chamada de devoto de Kṛṣṇa. Śrīla Rūpa Gosvāmī diz que todas as qualidades transcendentais discutidas acima encontram-se também nos devotos de Kṛṣṇa. Os devotos de Kṛṣṇa podem ser classificados em dois grupos: aqueles que cultivam o serviço devocional a fim de entrar no reino transcendental, e aqueles que já se encontram na fase perfeita do serviço devocional.\n\nUma pessoa que alcançou a fase de atração por Kṛṣṇa e que não está livre do impasse material, mas que se qualificou para entrar no reino de Deus, é chamada de *sādhaka. Sādhaka* significa aquele que cultiva a devoção em consciência de Kṛṣṇa. A descrição de tal devoto encontra-se no Décimo Primeiro Canto, segundo capítulo, quadragésimo quinto verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam.* Diz-se ali que uma pessoa que tem fé e amor inabaláveis pela Personalidade de Deus, que mantém amizade com os devotos de Kṛṣṇa, que é muito misericordiosa para com os ignorantes, elevando-os ao padrão do serviço devocional, e que se desinteressa pelos não-devotos, é considerada situada na posição de cultivar o serviço devocional.\n\nQuando se encontra alguém derramando lágrimas ao ouvir falar dos passatempos do Senhor, deve-se compreender que o fogo ardente da existência material será extinto por tal rega. Quando há tremor do corpo e os pelos do corpo se arrepiam, deve-se compreender que o devoto se aproxima da perfeição. Um exemplo de *sādhaka* que cultiva o serviço devocional é Bilvamaṅgala Ṭhākura.\n\nQuando uma pessoa nunca se cansa de executar o serviço devocional e está sempre ocupada em atividades conscientes de Kṛṣṇa, saboreando constantemente as doçuras transcendentais em relação com Kṛṣṇa, esse devoto é chamado de perfeito. Essa fase perfeita pode ser alcançada de dois modos: a pessoa pode alcançar essa fase de perfeição pelo progresso gradual no serviço devocional, ou pode tornar-se perfeita pela misericórdia imotivada de Kṛṣṇa, ainda que não tenha executado todos os pormenores do serviço devocional. Há a seguinte bela afirmação no Terceiro Canto, décimo quinto capítulo, vigésimo quinto verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* que descreve um devoto que alcança a perfeição executando regularmente o serviço devocional: Uma pessoa que está livre do falso egotismo da existência material, ou um místico avançado, está apta a entrar no reino de Deus conhecido como Vaikuṇṭha. Tal místico fica tão jubiloso pela execução constante dos princípios reguladores do serviço devocional que, por isso, alcança o favor especial do Senhor Supremo. Yamarāja, o poderoso superintendente da morte, tem medo de aproximar-se de tal devoto; assim, podemos imaginar a potência do serviço devocional avançado, especialmente quando os devotos se sentam juntos e se ocupam em falar dos passatempos da Suprema Personalidade de Deus. Esses devotos expressam seus sentimentos de tal modo que automaticamente se derretem em êxtase, e muitos sintomas transcendentais manifestam-se em seus corpos. Todo aquele que deseje avançar no serviço devocional deve seguir os passos de tais devotos.\n\nPrahlāda Mahārāja disse que ninguém pode alcançar a fase perfeita do serviço devocional sem prostrar-se diante dos devotos elevados. Sábios eruditos como Mārkaṇḍeya Ṛṣi alcançaram a perfeição no serviço devocional simplesmente por executarem tais princípios reguladores de serviço.\n\nO fato de uma pessoa alcançar a perfeição no serviço devocional simplesmente pela misericórdia imotivada do Senhor é explicado no *Śrīmad-Bhāgavatam* em conexão com os *brāhmaṇas* e suas esposas que se ocupavam em realizar o *yajña,* ou sacrifício. Quando as esposas dos *brāhmaṇas* foram favorecidas pelo Senhor Kṛṣṇa e imediatamente alcançaram o êxtase do amor a Deus, seus maridos começaram a dizer: \"Que maravilha! Embora estas mulheres não tenham empreendido nenhuma prática reformatória, como aceitar o cordão sagrado, não tenham residido nos mosteiros do mestre espiritual, não tenham observado os rígidos princípios do celibato, não tenham se submetido a quaisquer austeridades, nem filosofado acerca da observância de todas as cerimônias ritualísticas — ainda assim, alcançaram o favor de Kṛṣṇa, que é almejado até por grandes místicos! Que maravilha que estas mulheres tenham alcançado tal perfeição, ao passo que nós, embora *brāhmaṇas* que realizamos todas as atividades reformatórias, não conseguimos alcançar esta fase avançada!\"\n\nHá uma afirmação semelhante feita por Nārada, dirigida a Śukadeva Gosvāmī: \"Meu querido Śukadeva Gosvāmī, tu nunca te deste ao trabalho de residir sob os cuidados de um mestre espiritual e, ainda assim, alcançaste um status tão elevado de conhecimento transcendental. Tu nunca te deste ao trabalho de submeter-te a severas austeridades e, mesmo assim, que maravilha é que estejas situado na mais perfeita fase do amor a Deus.\"\n\nŚukadeva Gosvāmī e as esposas dos *brāhmaṇas* que realizavam o *yajña* são exemplos vívidos de devotos que alcançaram a fase perfeita do serviço devocional pela graça da Suprema Personalidade de Deus.\n\n## Perfeição Eterna\n\nAs pessoas que alcançaram uma vida eterna e bem-aventurada exatamente no nível de Śrī Kṛṣṇa, e que são capazes de atrair o Senhor Kṛṣṇa por seu transcendental serviço amoroso, são chamadas de eternamente perfeitas. O nome técnico é *nitya-siddha.* Há duas classes de entidades vivas — a saber, *nitya-siddha* e *nitya-baddha.* A distinção é que os *nitya-siddhas* são eternamente conscientes de Kṛṣṇa, sem qualquer esquecimento, ao passo que os *nitya-baddhas,* ou almas eternamente condicionadas, esquecem-se de sua relação com Kṛṣṇa.\n\nA posição dos *nitya-siddhas* é explicada no *Padma Purāṇa,* em conexão com a narração da Suprema Personalidade de Deus e de Satyabhāmādevī. O Senhor diz a Satyabhāmā: \"Minha querida Satyabhāmādevī, desci a este planeta terrestre a pedido do Senhor Brahmā e de outros semideuses. Todos aqueles que nascem nesta família de Yadu são Meus associados eternos. Minha querida esposa, não deves considerar que Meus associados algum dia se separam de Mim; eles são Minhas expansões pessoais e, como tais, deves saber que são quase tão poderosos quanto Eu. Por causa de suas qualidades transcendentais, eles Me são muito, muito queridos, assim como Eu lhes sou muito, muito querido.\" Todo aquele que se torna exultante ao ouvir falar dos passatempos do Senhor Kṛṣṇa quando Ele esteve presente nesta Terra com Seus associados deve ser compreendido como *nitya-siddha,* eternamente perfeito.\n\nNo Décimo Canto, décimo quarto capítulo, trigésimo verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há esta afirmação: \"Quão afortunados são os venturosos habitantes de Vṛndāvana, tais como Nanda e os demais vaqueiros. A Suprema Personalidade de Deus, o Brahman supremo, tornou-Se de fato o íntimo amigo deles!\"\n\nHá uma afirmação semelhante no Décimo Canto, vigésimo sexto capítulo, décimo verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam.* Quando o Senhor Kṛṣṇa ergueu a colina de Govardhana, os vaqueiros, sob a proteção do Senhor Kṛṣṇa, ficaram tomados de assombro e foram a Nanda Mahārāja e indagaram-lhe: \"Meu querido Nanda Mahārāja, como é que somos tão intensamente apegados a Kṛṣṇa e Kṛṣṇa também é tão afetuosamente apegado a nós? Será que Ele é a Superalma de todos?\"\n\nTodos os habitantes de Vṛndāvana e Dvārakā — a saber, os vaqueiros e os membros da família Yadu — são devotos eternamente perfeitos do Senhor. Assim como o Senhor desce por Sua misericórdia imotivada a este planeta, da mesma forma, a fim de ajudar nos passatempos do Senhor, esses devotos também vêm para cá. Eles não são entidades vivas comuns nem almas condicionadas; são pessoas sempre liberadas, associadas da Personalidade de Deus. E, assim como o Senhor Kṛṣṇa Se comporta como um homem comum quando desce a este planeta, da mesma forma, os membros da dinastia Yadu e os habitantes de Vṛndāvana executam atividades exatamente como homens comuns. Mas eles não são homens comuns; são tão liberados quanto o próprio Senhor Kṛṣṇa.\n\nNo *Padma Purāṇa,* seção *Uttara-khaṇḍa,* afirma-se: \"Assim como o Senhor Rāmacandra desce juntamente com Lakṣmaṇa e Bharata, uma expansão de Saṅkarṣaṇa,((Uma descrição detalhada das maneiras pelas quais as várias expansões e encarnações de Deus se desenvolvem encontra-se na obra do autor *Os Ensinamentos do Senhor Caitanya* (Nova York: 1968), nos capítulos VI, VII e XIII.)) (*Uma descrição detalhada das maneiras pelas quais as várias expansões e encarnações de Deus se desenvolvem encontra-se na obra do autor *Os Ensinamentos do Senhor Caitanya* (Nova York: 1968), nos capítulos VI, VII e XIII.) da mesma forma, os membros da dinastia Yadu e os vaqueiros de Vṛndāvana também descem com o Senhor Kṛṣṇa a fim de participar dos passatempos transcendentais do Senhor. Quando o Senhor Supremo retorna a Sua morada eterna, Seus associados retornam com Ele a seus respectivos lugares. Como tais, esses vaiṣṇavas sempre liberados não estão sujeitos às leis materiais de nascimento e morte.\"\n\nComo o próprio Senhor afirma no *Bhagavad-gītā,* Seu nascimento, Seus feitos e Suas atividades são todos transcendentais. De modo semelhante, o nascimento, os feitos e as atividades dos associados do Senhor são também transcendentais. E, assim como é uma ofensa considerar-se Kṛṣṇa, da mesma forma é ofensivo considerar-se Yaśodā, Nanda ou qualquer outro associado do Senhor. Devemos sempre lembrar que eles são transcendentais; jamais são almas condicionadas.\n\nDescreve-se que Kṛṣṇa, o inimigo de Kaṁsa, tem sessenta e quatro qualidades transcendentais, e todas as almas sempre liberadas que acompanham o Senhor possuem, sem dúvida alguma, as primeiras cinquenta e cinco dessas qualidades. Tais devotos relacionam-se com a Suprema Personalidade de Deus em qualquer uma das cinco doçuras transcendentais — a saber, neutralidade, servidão, amizade, paternidade e amor conjugal. Essas relações com o Senhor são eternas e, portanto, os devotos *nitya-siddha* não precisam esforçar-se para alcançar a fase perfeita executando princípios devocionais reguladores. Eles são eternamente qualificados para servir Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/26", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/26/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "26. O Estímulo ao Amor Extático", "purport": "Algumas coisas que dão impulso ou estímulo ao amor extático por Kṛṣṇa são Suas qualidades transcendentais, Suas atividades incomuns, Suas feições sorridentes, Suas vestes, Suas guirlandas, Sua flauta, Seu chifre de búfalo, Seus sinos de tornozelo, Seu búzio, Suas pegadas, Seus lugares de passatempos (tais como Vṛndāvana), Sua planta favorita (tulasī), Seu devoto e as ocasiões periódicas para lembrar-se dEle. Uma dessas ocasiões para a lembrança é Ekādaśī, que vem duas vezes por mês no décimo primeiro dia da lua, tanto minguante quanto crescente. Nesse dia, todos os devotos permanecem em jejum a noite inteira e cantam continuamente as glórias do Senhor.\n\n\n\nNo que se refere às qualidades transcendentais de Kṛṣṇa, elas podem ser divididas em três grupos: qualidades pertencentes a Seu corpo transcendental, qualidades pertencentes a Sua fala transcendental e qualidades pertencentes a Sua mente transcendental.\n\n\n\nA idade de Kṛṣṇa, Suas feições corporais transcendentais, Sua beleza e Sua suavidade são qualidades pertencentes a Seu corpo. Não há diferença entre Kṛṣṇa e Seu corpo e, portanto, as feições transcendentais pertencentes a Seu corpo são as mesmas que o próprio Kṛṣṇa. Mas, porque estas qualidades estimulam o amor extático do devoto, elas foram analisadas como causas separadas desse amor. Estar atraído pelas qualidades de Kṛṣṇa significa estar atraído pelo próprio Kṛṣṇa, porque não há real distinção entre Kṛṣṇa e Suas qualidades. O nome de Kṛṣṇa é também Kṛṣṇa. A fama de Kṛṣṇa é também Kṛṣṇa. O séquito de Kṛṣṇa é também Kṛṣṇa. Kṛṣṇa e tudo o que está relacionado com Kṛṣṇa que dá estímulo ao amor por Kṛṣṇa são todos Kṛṣṇa, mas, para nossa compreensão, estes itens podem ser considerados separadamente.\n\n\n\nKṛṣṇa é o reservatório de todo o prazer transcendental. Portanto, os impulsos ao amor por Kṛṣṇa, embora aparentemente diferentes, não são de fato distintos do próprio Kṛṣṇa. Nos termos técnicos sânscritos, qualidades tais como o nome de Kṛṣṇa, a fama, etc., são aceitas tanto como reservatórios quanto como estímulo ao amor por Kṛṣṇa.\n\n\n\nA idade de Kṛṣṇa é considerada em três períodos: desde Seu dia de aparecimento até o fim de Seu sexto ano chama-se kaumāra; desde o início do sexto ano até o décimo ano chama-se paugaṇḍa; e do décimo ao décimo sexto ano chama-se kaiśora; após o início do décimo sexto ano, Kṛṣṇa é chamado de yauvana, ou jovem, e isto continua sem mudança.\n\n\n\nNo que se refere aos passatempos transcendentais de Kṛṣṇa, eles são na maioria executados durante os períodos kaumāra, paugaṇḍa e kaiśora. Seus afetuosos passatempos com Seus pais são executados durante Sua idade kaumāra. Sua amizade com os vaqueirinhos é exibida durante o período paugaṇḍa. E Sua amizade com as gopīs é exibida durante a idade de kaiśora. Os passatempos de Kṛṣṇa em Vṛndāvana terminam ao fim de Seu décimo quinto ano, e então Ele é transferido para Mathurā e Dvārakā, onde todos os outros passatempos são realizados.\n\n\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī nos dá uma descrição vívida de Kṛṣṇa como o reservatório de todos os prazeres em seu *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*. Eis algumas partes dessa descrição.\n\n\n\nA idade kaiśora de Kṛṣṇa pode ser dividida em três partes. No início de Sua idade kaiśora — isto é, no início de Seu décimo primeiro ano, o brilho de Seu corpo torna-se tão resplandecente que se torna um impulso para o amor extático. De modo semelhante, há bordas avermelhadas ao redor de Seus olhos e um surgimento de pelos macios em Seu corpo. Ao descrever este estágio inicial de Sua idade kaiśora, Kundalatā, uma das habitantes de Vṛndāvana, disse a sua amiga: \"Minha querida amiga, acabo de ver uma beleza extraordinária aparecendo na pessoa de Kṛṣṇa. Seu matiz corporal enegrecido parece exatamente como a joia indranīla. Há sinais avermelhados em Seus olhos, e pequenos pelos macios estão surgindo em Seu corpo. O aparecimento destes sintomas O tornou extraordinariamente belo.\"\n\n\n\nA esse respeito, no Décimo Canto, 21º Capítulo, 5º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Śukadeva Gosvāmī diz ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, tentarei descrever como as mentes das gopīs ficaram absortas em pensamentos de Kṛṣṇa. As gopīs meditavam em Kṛṣṇa vestindo-Se exatamente como um ator dançarino e entrando na floresta de Vṛndāvana, marcando o solo com Suas pegadas. Elas meditavam em Kṛṣṇa tendo um elmo com uma pena de pavão e usando brincos em Suas orelhas e vestes de cor amarelo-dourada cobertas de joias e pérolas. Elas também meditavam em Kṛṣṇa tocando Sua flauta e em todos os vaqueirinhos cantando as glórias do Senhor.\" Esta é a descrição da meditação que as gopīs costumavam realizar.\n\n\n\nÀs vezes, as gopīs pensavam em Suas unhas macias, em Suas sobrancelhas em movimento e em Seus dentes, que estavam da cor de cato por mastigar pan. Uma descrição foi dada por uma gopī a sua amiga: \"Minha querida amiga, vê só como o inimigo de Agha assumiu feições tão maravilhosas! Suas sobrancelhas são exatamente como as sobrancelhas de Cupido, e estão se movendo como se estivessem dançando. As pontas de Suas unhas são tão macias — é como se fossem folhas secas de bambu. Seus dentes são avermelhados e, assim, parece que Ele assumiu uma feição de ira. Sendo assim, onde está a possibilidade de uma moça jovem não ser atraída por feições tão belas e não ter medo de tornar-se uma vítima de tal beleza?\"\n\n\n\nAs feições atraentes de Kṛṣṇa são também descritas por Vṛndā, a gopī cujo nome foi dado a Vṛndāvana. Ela disse a Kṛṣṇa: \"Meu querido Mādhava, Teu recém-inventado sorriso cativou de tal modo os corações das gopīs que elas são simplesmente incapazes de expressar-se! Sendo assim, ficaram confusas e não falarão com os outros. Todas estas gopīs ficaram tão afetadas que é como se tivessem oferecido três aspersões de água sobre suas vidas. Em outras palavras, abandonaram toda esperança quanto a sua condição de vida.\" De acordo com o sistema indiano, quando uma pessoa está morta, há uma aspersão de água sobre o corpo. Assim, a afirmação de Vṛndā mostra que as gopīs ficaram tão encantadas pela beleza de Kṛṣṇa que, porque não podiam expressar suas mentes, haviam decidido cometer suicídio.\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa chegou à idade de treze a catorze anos, Seus dois braços e Seu peito assumiram uma beleza indizível, e toda a Sua forma tornou-se simplesmente encantadora. Quando Kṛṣṇa atingiu treze anos de idade, Seus dois braços desafiavam as trombas dos elefantes, Seu peito erguido tentava chegar a conversações de paz com as portas de joias, e Seus dois braços minimizavam o valor dos ferrolhos encontrados nas portas. Quem pode descrever a maravilhosa beleza destas feições de Kṛṣṇa? A beleza especial do corpo de Kṛṣṇa era Seu suave sorriso, Seus olhos inquietos e Suas canções que encantavam o mundo. Estas são as feições especiais desta idade.\n\n\n\nHá uma afirmação a esse respeito de que Kṛṣṇa, ao chegar a esta idade, manifestou feições corporais tão belas que Seus olhos inquietos tornaram-se os brinquedos de Cupido, e Seu suave sorriso assemelhava-se à recém-desabrochada flor de lótus. A vibração encantadora de Suas canções tornou-se um grande empecilho para as moças jovens, que deveriam permanecer castas e fiéis a seus maridos.\n\n\n\nNesta idade, Kṛṣṇa desfrutava do rāsa-līlā, exibindo Seu poder de gracejar com as vaqueiras e desfrutando da companhia delas nos arbustos dos jardins à margem do Yamunā.\n\n\n\nA esse respeito, há a seguinte afirmação: \"Por toda a extensão de terra conhecida como Vṛndāvana havia as pegadas de Kṛṣṇa e das gopīs, e em alguns lugares penas de pavão estavam espalhadas. Em alguns lugares havia belos leitos nos arbustos dos jardins de Vṛndāvana, e em alguns lugares havia montes de poeira devido à dança em grupo de Govinda e das gopīs.\" Estas são algumas das feições que se devem aos diferentes passatempos inventados por Śrī Kṛṣṇa no lugar conhecido como Vṛndāvana.\n\n\n\nHá a seguinte afirmação de uma gopī, descrevendo a feição atraente de Kṛṣṇa durante esta idade: \"Minha querida amiga, vê só como, de repente, no céu de Kṛṣṇa há um poderoso sol nascente e como este sol nascente está minimizando os raios da lua de nossa castidade. Nossa atração por Kṛṣṇa é tão intensa que está secando a flor de lótus de nosso discernimento, e estamos perdendo o juízo ao decidir se continuaremos como mulheres castas ou seremos vitimadas pela beleza de Kṛṣṇa. Minha querida amiga, penso que perdemos toda esperança de vida!\"\n\n\n\nNa idade kaiśora, começando do décimo primeiro ano e continuando até o fim do décimo quinto ano, os braços, as pernas e as coxas de Kṛṣṇa tornaram-se marcados com três linhas divisórias. Naquela ocasião, o peito de Kṛṣṇa desafiava uma colina de joias marakata. Seus braços desafiavam os pilares da joia indranīla, as três linhas de Sua cintura desafiavam as ondas do rio Yamunā, e Suas coxas desafiavam belas bananas. Uma gopī disse: \"Com todas estas requintadas feições de Seu corpo, Kṛṣṇa é demasiadamente extraordinário em beleza e, portanto, estou sempre pensando nEle para que me proteja, porque Ele é o matador de todos os demônios.\"\n\n\n\nA ideia expressa nesta afirmação é que as gopīs comparavam sua atração por Kṛṣṇa a um ataque de demônios; e, para contrariar sua atração pela beleza de Kṛṣṇa, elas também se voltavam esperançosamente para Kṛṣṇa, porque Ele é o matador de todos os tipos de demônios. Em outras palavras, elas ficavam perplexas, porque, de um lado, estavam atraídas pela beleza de Kṛṣṇa e, de outro, precisavam de Kṛṣṇa para afugentar o demônio de tal atração.\n\n\n\nEsta idade kaiśora pode ser traduzida como adolescência. Ao fim deste período, todas as gopīs disseram: \"Kṛṣṇa é o matador da atração de Cupido e, sendo assim, Ele perturba a paciência de todas as moças recém-casadas. As feições corporais de Kṛṣṇa tornaram-se tão requintadas — é como se todas elas manifestassem um senso artístico do mais elevado tipo. Seus olhos dançantes ofuscaram o brilho do dançarino mais perito e, assim, não há mais nenhuma comparação para a beleza de Kṛṣṇa.\" Os eruditos, portanto, descrevem as feições de Seu corpo nesse momento como nava-yauvana, juventude recém-inventada. Neste estágio das feições corporais de Kṛṣṇa, os casos de amor conjugal com as gopīs e passatempos semelhantes tornam-se muito proeminentes.\n\n\n\nHá seis feições dos casos de amor conjugal, chamadas de pacificação, provocar uma disputa, ir ao encontro do amado, sentar-se juntos, separação e amparo. O Senhor Kṛṣṇa expandiu um império destas seis feições, do qual Ele era o príncipe governante. Em algum lugar, Ele provocava disputas com as moças jovens; em algum lugar, Ele as arranhava com as unhas de papagaios; em algum lugar, Ele estava ocupado em ir visitar as gopīs; e em algum lugar, Ele negociava por meio dos amigos vaqueiros para abrigar-Se junto às gopīs.\n\n\n\nAlgumas das gopīs dirigiram-se a Ele desta maneira: \"Meu querido Kṛṣṇa, em razão de Tua idade adolescente, Tu acabaste de tornar-Te o mestre espiritual destas moças jovens, e estás ensinando-as a cochichar entre si. Estás ensinando-as a oferecer orações solenes, bem como treinando-as a enganar seus maridos e a juntar-se a Ti nos jardins à noite, sem se importarem com as instruções de seus superiores. Tu as entusiasmas com a vibração de Tua encantadora flauta; e, como seu mestre, estás ensinando-lhes todas as complexidades dos casos amorosos.\"\n\n\n\nDiz-se que, mesmo quando Kṛṣṇa era um menino de cinco anos, Ele manifestou tais energias juvenis, mas os eruditos não as explicam devido à ausência de idade apropriada. Kṛṣṇa era belo porque toda parte de Seu corpo estava perfeitamente arranjada sem defeito algum. Tais perfeitas feições corporais de Kṛṣṇa são descritas da seguinte forma: \"Meu querido inimigo de Kaṁsa, Teus olhos largos, Teu peito erguido, Teus dois braços semelhantes a pilares e a delgada porção central de Teu corpo são sempre encantadores para toda bela moça de olhos de lótus.\" Os ornamentos no corpo de Kṛṣṇa não estavam de fato realçando Sua beleza, mas justamente o contrário — os ornamentos eram embelezados por Kṛṣṇa.\n\n\n\nUma pessoa é chamada de suave quando não pode sequer suportar o toque da coisa mais macia. Descreve-se que toda parte do corpo de Kṛṣṇa era tão macia que, mesmo ao toque de folhas recém-brotadas, a cor da parte tocada de Sua pele mudaria. Nesta idade kaiśora, os esforços de Kṛṣṇa estavam sempre voltados a organizar a dança rāsa, bem como a matar os demônios na floresta de Vṛndāvana. Enquanto Kṛṣṇa estava ocupado em desfrute com os meninos e as moças dentro da floresta de Vṛndāvana, Kaṁsa costumava enviar seus associados para matá-Lo, e Kṛṣṇa mostrava Sua proeza ao matá-los.\n\n\n\nGeralmente, há quatro tipos de vestes no corpo de Kṛṣṇa: Sua camisa, Seu turbante, Seu cinto e Suas vestes de uso. Em Vṛndāvana, Ele costumava colocar vestes avermelhadas, com uma camisa dourada em Seu corpo e um turbante de cor alaranjada em Sua cabeça. Os diferentes tipos de cintos, combinados com Seu encantador sorriso, costumavam sempre aumentar a bem-aventurança transcendental de Seus associados. Esta veste de Kṛṣṇa é descrita como suntuosa. Assim como um elefante bebê é às vezes vestido com roupas coloridas, assim também a suntuosidade de Kṛṣṇa era manifestada pela decoração com tais roupas coloridas nas diferentes partes de Seu corpo.\n\n\n\nĀkalpa refere-se à textura do cabelo de Kṛṣṇa, a Seu corpo belamente vestido, ungido com polpa de sândalo e decorado com guirlandas de flores, a Seu tilaka e a Seu pan de mascar. Kṛṣṇa era decorado constantemente neste processo ākalpa. O cabelo de Kṛṣṇa era às vezes decorado com flores colocadas no meio de Sua cabeça, ou então chegando até Suas costas. Dessa maneira, Kṛṣṇa arrumava Seu cabelo de modo diferente em diferentes momentos. Quanto ao unguento em Seu corpo, a polpa de sândalo geralmente parecia ser branca e, quando misturada com o corante de açafrão, parecia ser amarela.\n\n\n\nKṛṣṇa costumava colocar uma guirlanda vaijayantī ao redor de Seu pescoço. Esta guirlanda vaijayantī é feita de pelo menos cinco flores de cores diferentes. O comprimento de tal guirlanda sempre tocava os joelhos ou os pés de Kṛṣṇa. Além desta guirlanda de flores, havia também outros tipos de guirlandas de flores — às vezes decorando Sua cabeça, às vezes pendendo ao redor de Seu pescoço e de Seu peito. Pinturas artísticas com polpa de sândalo e sândalo colorido também eram encontradas no corpo de Kṛṣṇa.\n\n\n\nUma gopī dirigiu-se a sua amiga e começou a louvar as feições corporais de Kṛṣṇa. Ela louvou Sua compleição enegrecida, a cor avermelhada do pan de mascar que realçava Sua beleza centenas de vezes, o cabelo encaracolado em Sua cabeça, os pontos vermelhos de kuṅkum em Seu corpo e o tilaka em Sua testa.\n\n\n\nSeu elmo, Seus brincos, Seu colar, Suas quatro vestes, as pulseiras em Sua cabeça, os anéis em Seus dedos, Seus sinos de tornozelo e Sua flauta — estas são as diferentes feições dos ornamentos de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, o inimigo de Agha, sempre parecia belo com Seu incomparável elmo, Seus brincos feitos de diamantes, Seu colar de pérolas, Suas pulseiras, Suas vestes bordadas e os belos anéis em Seus dedos.\n\n\n\nKṛṣṇa é às vezes chamado de vanamālī. Vana significa floresta, e mālī significa jardineiro, de modo que vanamālī refere-se àquele que utiliza extensivamente flores e guirlandas em diferentes partes de Seu corpo. Kṛṣṇa Se vestia assim não apenas em Vṛndāvana, mas também no campo de batalha de Kurukṣetra. Ao verem tal veste colorida e as guirlandas de diferentes flores, alguns grandes sábios oraram: \"O Senhor Kṛṣṇa estava indo ao campo de batalha de Kurukṣetra não para lutar, mas para agraciar todos os devotos com Sua presença.\"\n\n\n\nNo que se refere a Sua flauta, diz-se que a vibração deste maravilhoso instrumento era capaz de quebrar a meditação dos maiores sábios, e Kṛṣṇa estava, assim, desafiando Cupido ao anunciar Suas glórias transcendentais por todo o mundo.\n\n\n\nHá três tipos de flautas usadas por Kṛṣṇa. Uma chama-se veṇu, outra chama-se muralī, e a terceira chama-se vaṁśī. A veṇu é muito pequena, não mais que quinze centímetros de comprimento, com seis furos para assoviar. A muralī tem cerca de quarenta e cinco centímetros de comprimento, com um furo na extremidade e quatro furos no corpo da flauta. Este tipo de flauta produz um som muito encantador. A flauta vaṁśī tem cerca de trinta e oito centímetros de comprimento, com nove furos em seu corpo. Kṛṣṇa costumava tocar nestas três flautas ocasionalmente, quando eram necessárias. Kṛṣṇa tem uma vaṁśī mais longa, que se chama mahānanda, ou sanmohinī. Quando é ainda mais longa, chama-se ākarṣiṇī. Quando é ainda mais longa, chama-se ānandinī. A flauta ānandinī é muito agradável aos vaqueirinhos e é tecnicamente chamada de vaṁsulī. Estas flautas eram às vezes adornadas com joias. Às vezes, eram feitas de mármore e às vezes de bambu oco. Quando a flauta é feita de joias, chama-se sanmohinī. Quando feita de ouro, chama-se ākarṣiṇī.\n\n\n\nKṛṣṇa usava um chifre de búfalo como instrumento de toque. Este instrumento era sempre altamente polido e cercado de faixas de ouro, e no meio havia um furo. Em relação a estes instrumentos, há uma afirmação metafórica sobre uma gopī chamada Tārāvalī. Diz-se que Tārāvalī foi picada pela mais venenosa serpente da flauta de Kṛṣṇa. Então, a fim de neutralizar o efeito venenoso, ela bebeu o leite produzido pelo chifre de búfalo na mão de Kṛṣṇa. Mas, em vez de diminuir o efeito venenoso, ele o aumentou mil vezes. A gopī foi assim colocada na mais miserável condição envenenada.\n\n\n\nCerta gopī afirmou certa vez a sua amiga: \"Minha querida amiga, quando ouvi o som dos sinos de tornozelo de Śrī Kṛṣṇa, imediatamente comecei a sair de casa para vê-Lo. Mas, muito lamentavelmente, meus superiores estavam presentes bem diante de mim naquele momento, e eu não pude sair.\"\n\n\n\nO búzio de Kṛṣṇa é conhecido como Pāñcajanya. Este búzio Pāñcajanya é também mencionado no *Bhagavad-gītā*. Kṛṣṇa o fez soar antes da Batalha de Kurukṣetra. Diz-se que, quando o Senhor Kṛṣṇa sopra Seu búzio transcendental, as esposas dos demônios ficam sujeitas a abortos, e as esposas dos semideuses ficam abençoadas com toda a auspiciosidade. Dessa maneira, o som do búzio de Kṛṣṇa costumava vibrar e circular por todo o mundo.\n\n\n\nAfirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam* que, quando Akrūra, que conduziu Kṛṣṇa de Vṛndāvana a Mathurā, viu as pegadas de Kṛṣṇa na terra de Vṛndāvana, seu amor extático por Kṛṣṇa aumentou tanto que os pelos de seu corpo se arrepiaram. Seus olhos transbordaram de lágrimas e, em tal êxtase, ele saltou da quadriga e caiu no chão e começou a cantar: \"Quão maravilhoso é isto! Quão maravilhoso é isto!\"\n\n\n\nSentimentos semelhantes foram expressos pelas gopīs quando elas estavam indo à margem do Yamunā e viram as pegadas de Kṛṣṇa na poeira. Quando Kṛṣṇa caminhava sobre o solo de Vṛndāvana, as marcas de Sua sola (bandeira, raio, peixe, um bastão para controlar elefantes e flor de lótus) imprimiam-se sobre a poeira da terra. As gopīs ficavam dominadas simplesmente ao ver aquelas marcas no chão.\n\n\n\nUm devoto exclamou: \"Oh, eu ainda não visitei os maravilhosos lugares onde os passatempos do Senhor foram realizados. Mas, simplesmente por ouvir o nome de Mathurā, fiquei dominado de júbilo!\"\n\n\n\nO Senhor Kṛṣṇa é muito afeiçoado a folhas e botões de tulasī. Porque os botões de tulasī são geralmente oferecidos aos pés de lótus de Kṛṣṇa, um devoto certa vez orou aos botões de tulasī que lhe dessem alguma informação sobre os pés de lótus do Senhor. O devoto esperava que os botões de tulasī soubessem algo sobre as glórias dos pés de lótus do Senhor Śrī Kṛṣṇa.\n\n\n\nÀs vezes, a pessoa pode ficar dominada de júbilo ao ver um devoto do Senhor. Quando Dhruva Mahārāj viu dois associados de Nārāyaṇa aproximando-se dele, ele imediatamente se levantou por sincero respeito e devoção e permaneceu diante deles com as mãos postas; mas, em razão de seu amor extático, ele mal podia oferecer-lhes uma recepção apropriada.\n\n\n\nHá uma afirmação de uma gopī que se dirigiu a Subala, um amigo de Kṛṣṇa: \"Meu querido Subala, sei que Kṛṣṇa é teu amigo e que sempre desfrutas de sorrir e gracejar com Ele. Outro dia, vi vocês dois de pé juntos, e mantinhas tua mão sobre o ombro de Kṛṣṇa, e ambos sorriam jubilosamente. Quando vi vocês dois de pé daquela maneira à distância, meus olhos imediatamente transbordaram de lágrimas.\"\n\n\n\nHá muitas afirmações sobre os dias festivos em conexão com as diferentes atividades de Kṛṣṇa. Um desses dias festivos é Janmāṣṭamī, o dia do nascimento de Kṛṣṇa. Este dia de Janmāṣṭamī é o mais opulento dia de festival para os devotos, e ainda é observado com grande pompa em todo lar hindu na Índia. Às vezes, até mesmo os devotos de outros grupos religiosos aproveitam este dia auspicioso e desfrutam da realização da cerimônia de Janmāṣṭamī. O amor extático por Kṛṣṇa é também despertado nos dias de Ekādaśī, que são outros dias festivos em conexão com Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/27", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/27/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "27. Sintomas do Amor Extático", "purport": "Os sintomas corporais manifestados por um devoto ao expressar amor extático por Kṛṣṇa chamam-se anubhāva. Exemplos práticos de anubhāva são os seguintes: dançar, rolar pelo chão, cantar em voz muito alta, espreguiçar o corpo, chorar copiosamente, bocejar, respirar muito intensamente, ignorar a presença dos outros, salivar, rir como um louco, girar a cabeça e arrotar. Quando há um extraordinário excesso de amor extático, com todos esses sintomas corporais manifestados, a pessoa sente-se aliviada transcendentalmente.\n\n\n\nEsses sintomas dividem-se em duas partes: uma chama-se śīta, e a outra chama-se kṣepaṇa. Quando há o bocejar, isso se chama śīta, e quando há a dança, isso se chama kṣepaṇa.\n\n\n\n\nEnquanto observava a dança da rāsa realizada pelo Senhor Kṛṣṇa e pelas gopīs, o Senhor Śiva contemplou o belo rosto de Kṛṣṇa e imediatamente começou a dançar e a tocar seu pequeno tambor ḍiṇḍima. Enquanto o Senhor Śiva dançava em êxtase, seu filho mais velho, Gaṇeśa, juntou-se a ele.\n\n\n\n\nNo Terceiro Canto, 1º Capítulo, 31º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Vidura indaga de Uddhava: \"Meu querido amigo, está Akrūra em uma condição auspiciosa? Ele não é apenas um erudito instruído e isento de pecado, mas também um devoto do Senhor Kṛṣṇa. Ele tem tamanho amor extático por Kṛṣṇa que eu o vi rolando sobre as pegadas de Kṛṣṇa na poeira como se estivesse privado de todos os sentidos.\" De modo semelhante, uma gopī enviou uma mensagem a Kṛṣṇa de que Rādhārāṇī, por causa de Sua separação dEle e por causa de Seu encantamento com o aroma de Suas guirlandas de flores, rolava pelo chão, ferindo assim Seu corpo delicado.\n\n\n\n\nUma gopī informou a Kṛṣṇa que, quando Śrīmatī Rādhārāṇī cantava sobre as glórias dEle, Ela encantava todas as Suas amigas de tal maneira que elas se tornavam semelhantes a pedras e inertes. Ao mesmo tempo, as pedras próximas começavam a derreter-se em amor extático.\n\n\n\n\nQuando houve o espreguiçar do corpo de Nārada Muni ao cantar o mantra Hare Kṛṣṇa, ele cantou tão alto que se temeu que o Senhor Nṛsiṁha houvesse aparecido. Assim, todos os demônios começaram a fugir em diferentes direções. Também se diz que, às vezes, quando Nārada, o portador da vīṇā, lembra-se de seu Senhor Kṛṣṇa em grande êxtase, ele começa a espreguiçar o corpo tão vigorosamente que seu cordão sagrado se rompe.\n\n\n\n\nUma gopī certa vez disse a Kṛṣṇa: \"Meu querido filho de Nanda Mahārāj, pelo som de Tua flauta Śrīmatī Rādhārāṇī ficou repleta de lamentação e medo, e assim, com a voz trêmula, Ela chora como um pássaro kurobi.\n\n\n\nDescreve-se que, ao ouvir a vibração da flauta de Kṛṣṇa, o Senhor Śiva fica muito perplexo e começa a chorar tão alto pelo espaço que os demônios ficam subjugados e os devotos ficam dominados de júbilo.\n\n\n\n\nDiz-se que, quando a lua cheia se ergue, as pétalas do lótus se expandem. De modo semelhante, quando Kṛṣṇa costumava aparecer diante de Rādhārāṇī, o rosto dEla, que é comparado à flor de lótus, expandia-se com Seu bocejar.\n\n\n\n\nNo que se refere ao respirar intensamente, afirma-se: \"Lalitā [uma das gopīs] é exatamente como um pássaro cātakī, que somente bebe a água que cai diretamente da nuvem de chuva e não de nenhuma outra fonte.\" Nesta afirmação, Kṛṣṇa é comparado à nuvem escura, e Lalitā é comparada ao pássaro cātakī que busca somente a companhia de Kṛṣṇa. A metáfora prossegue, dizendo: \"Assim como um vento forte às vezes dispersa uma poderosa nuvem, assim também a forte respiração das narinas de Lalitā fez com que ela perdesse Kṛṣṇa, que havia desaparecido no momento em que ela se recobrou.\"\n\n\n\n\nNo que se refere a ignorar a presença dos outros, as esposas dos brāhmaṇas que realizavam sacrifícios em Vṛndāvana deixaram seus lares tão logo ouviram que Kṛṣṇa estava por perto. Elas deixaram seus lares sem se importar com seus instruídos maridos. Os maridos começaram a discutir isto entre si: \"Quão maravilhosa é a atração por Kṛṣṇa, que fez estas mulheres deixarem-nos sem nenhum cuidado!\" Esta é a influência de Kṛṣṇa. Qualquer pessoa que se torne atraída por Kṛṣṇa pode ser libertada do cativeiro do nascimento e da morte, que pode ser comparado aos lares trancados que foram negligenciados pelas esposas dos brāhmaṇas.\n\n\n\nNo Padyāvalī há uma afirmação de alguns devotos: \"Não nos importaremos com nenhum estranho. Se nos ridicularizarem, ainda assim não nos importaremos com eles. Simplesmente desfrutaremos do doce sabor transcendental de cantar Hare Kṛṣṇa, e assim rolaremos pelo chão e dançaremos extaticamente. Dessa maneira, desfrutaremos eternamente de bem-aventurança transcendental.\"\n\n\n\n\nComo exemplo do escorrer da saliva pela boca, afirma-se que, às vezes, quando Nārada Muni cantava o mantra Hare Kṛṣṇa, ele permanecia atônito por algum tempo, e a saliva escorria de sua boca.\n\n\n\n\nQuando um devoto ri muito alto como um louco, isso se dá devido a uma extraordinária agitação de amor extático dentro do coração. Tal riso desvairado é uma expressão da condição do coração, que tecnicamente se chama aṭṭa-hāsa. Quando um devoto é afetado por esta condição mental, seu amor expressa-se através dos lábios. Os sons do riso, vindo um após o outro, são comparados a flores que caem da trepadeira da devoção que cresce dentro do coração do devoto. No *Caitanya-caritāmṛta*, o serviço devocional ao Senhor também é comparado a uma trepadeira que se ergue até os pés de lótus de Kṛṣṇa em Goloka Vṛndāvana.\n\n\n\n\nUma gopī disse à sua amiga: \"Parece que o Senhor Kṛṣṇa, o inimigo do demônio Agha, soltou de Sua boca um redemoinho que está atuando sobre tua cabeça e gradualmente prossegue a fazer o mesmo às outras gopīs de olhos de lótus.\"\n\n\n\n\nÀs vezes, arrotar também se torna um sintoma de amor extático por Kṛṣṇa. Há evidência disto no discurso de Paurṇamāsī a uma chorosa companheira de Rādhārāṇī: \"Minha querida filha, não te preocupes pelo fato de Śrīmatī Rādhārāṇī estar arrotando. Estou prestes a oferecer uma medida corretiva para este sintoma. Não chores tão alto. Este arroto não se deve à indigestão; é um sinal de amor extático por Kṛṣṇa. Providenciarei para curar este sintoma de arroto imediatamente. Não te preocupes.\" Esta afirmação de Paurṇamāsī é evidência de que o amor extático por Kṛṣṇa às vezes se manifesta através do arroto.\n\n\n\nÀs vezes, o tremor de todo o corpo e a hemorragia de alguma parte do corpo também se manifestam em resposta ao amor extático por Kṛṣṇa, mas tais sintomas são muito raros e, por isso, Śrīla Rūpa Gosvāmī não discute mais sobre este ponto."}
{"ref": "nod/28", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/28/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "28. Outros Sintomas Extáticos", "purport": "Amor Extático Existencial por Kṛṣṇa\n\n\n\nQuando um devoto está sempre intensamente afetado pelo amor por Kṛṣṇa em uma relação direta com Ele — ou mesmo um pouco à parte dEle —, seu status chama-se amor extático existencial. Os sintomas originados de tal amor extático existencial dividem-se em três rubricas — a saber, úmido, queimado e ressequido.\n\n\n\nO amor extático existencial úmido despertado em conexão com Kṛṣṇa divide-se em dois: direto e indireto. Rādhārāṇī estava tecendo uma guirlanda de flores kunda e, ao ouvir a vibração da flauta de Kṛṣṇa, Ela imediatamente interrompeu Seu trabalho. Este é um exemplo de amor extático existencial umedecido direto. O amor extático existencial umedecido indireto é descrito na seguinte afirmação: Kṛṣṇa, que também é chamado de Puruṣottama, é para os olhos de mãe Yaśodā exatamente como a nuvem é para os olhos do pássaro cātakī. Quando Kṛṣṇa havia sido levado a Mathurā, mãe Yaśodā, estando muito ansiosa e irada, começou a repreender o rei de Mathurā.\n\n\n\nO amor extático existencial queimado divide-se em três, e um exemplo é o seguinte: Um dia, mãe Yaśodā estava sonhando que a gigantesca demônia Pūtanā jazia no pátio de sua casa, e ela imediatamente ficou ansiosa por procurar Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando há manifestações de sintomas extáticos no corpo de um não devoto, estes se chamam sintomas ressequidos de amor extático. Os não devotos são, na verdade, materialistas, mas, em contato com algum devoto puro, eles às vezes podem manifestar alguns sintomas de êxtase. Os eruditos devocionais chamam estes de sintomas ressequidos.\n\n\n\nHá oito sintomas de amor extático existencial: ficar atônito, transpirar, arrepiar-se dos pelos do corpo, embargar-se da voz, tremer do corpo, mudar de cores corporais, derramar lágrimas e devastar-se.\n\n\n\nA explicação científica destes oito sintomas é dada por Rūpa Gosvāmī da seguinte forma. Quando a força vital da vida está em contato com a terra, isso se chama ficar atônito. Quando a mesma força entra em contato com a água, há o derramamento de lágrimas. Quando a mesma força entra em contato com o fogo, há a transpiração. Quando a força entra em contato com o céu, há a completa devastação. E quando aquela força entra em contato com o ar, há o tremor, o embargar-se da voz e o arrepiar-se dos pelos do corpo.\n\n\n\nEsses sintomas às vezes se manifestam internamente e às vezes externamente. O devoto puro sempre sente tais expressões sintomáticas dentro de si, mas, por temor aos estranhos, geralmente não as manifesta externamente.\n\n\n\n\nO sintoma de ficar atônito é causado por tribulação extática, temor, espanto, lamentação e ira. Este sintoma é exibido por uma interrupção da fala, uma interrupção do movimento, uma sensação de vazio e um extremo sentimento de separação.\n\n\n\nQuando Uddhava descrevia os passatempos de Kṛṣṇa a Vidura, ele disse: \"Um dia as gopīs ficaram atônitas quando Kṛṣṇa, vestido como uma jardineira, entrou na estufa e as animou com brincadeiras e risadas. Então, quando Kṛṣṇa deixou a estufa, as gopīs olhavam para Kṛṣṇa tão extaticamente que era como se tanto suas mentes quanto seus olhos O estivessem seguindo.\" Esses sintomas indicam que, embora o afazer das gopīs não estivesse concluído, elas haviam ficado atônitas de amor extático.\n\n\n\nOutro exemplo de ficar atônito ocorreu quando Kṛṣṇa estava rodeado por vários lutadores na arena sacrificial de Kaṁsa. Sua mãe, Devakī, então ficou atônita, e seus olhos ressecaram-se ao ver Kṛṣṇa em meio aos lutadores.\n\n\n\nHá também um exemplo do espanto do Senhor Brahmā. Explica-se no Décimo Canto, 13º Capítulo, 51º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam* que, quando Brahmā compreendeu que aquele menino vaqueiro era a própria Suprema Personalidade de Deus, ele ficou atônito. Todas as suas atividades sensoriais cessaram ao ver novamente todos os meninos vaqueiros, juntamente com Kṛṣṇa. O Senhor Brahmā ficou tão atônito que parecia ser uma estátua dourada com quatro cabeças. Também, quando os residentes de Braja descobriram que Kṛṣṇa havia erguido a colina de Govardhana com Sua mão esquerda, eles ficaram atônitos.\n\n\n\nO espanto causado pela lamentação é exemplificado quando Kṛṣṇa entrava no ventre do demônio Bakāsura e todos os semideuses dos planetas superiores ficaram atônitos de lamentação. Um exemplo semelhante de ficar atônito foi visível em Arjuna quando ele viu que Aśvatthāmā tentava soltar seu brahmāstra contra Kṛṣṇa.\n\n\n\n\nUm exemplo de transpirar por causa do júbilo é descrito no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Uma gopī dirigiu-se a Rādhārāṇī da seguinte forma: \"Minha querida Rādhārāṇī, Tu repreendes a luz do sol desnecessariamente, mas posso compreender que Tu transpiras somente por Te tornares demasiado luxuriosa ao ver Kṛṣṇa.\"\n\n\n\nA transpiração causada pelo temor foi exibida por Raktak, um dos servos de Kṛṣṇa. Um dia Kṛṣṇa vestiu-Se exatamente como Abhimanyu, o marido de Rādhārāṇī. Abhimanyu não gostava da associação de Rādhārāṇī com Kṛṣṇa e, por isso, quando Raktak viu Kṛṣṇa vestido como Abhimanyu e assim confundiu Sua identidade, ele começou a repreendê-Lo fortemente. Tão logo Raktak finalmente compreendeu que era Kṛṣṇa vestido como Abhimanyu, ele começou a transpirar. Esta transpiração foi causada pelo temor.\n\n\n\nA transpiração devida à ira foi exibida por Garuḍa, a águia que é o portador de Viṣṇu. Certa vez, o rei celestial, Indra, enviava torrentes de chuva sobre Vṛndāvana. Garuḍa observava o incidente de cima das nuvens e, por causa de sua ira, começou a transpirar.\n\n\n\n\nO arrepiar-se dos pelos do corpo manifestou-se quando mãe Yaśodā encontrou dentro da boca de Kṛṣṇa todos os sistemas planetários universais. Ela havia pedido a Kṛṣṇa que abrisse bem a boca apenas para ver se Ele havia comido terra. Mas, quando Kṛṣṇa abriu a boca, ela viu não apenas a terra inteira, mas também muitos outros planetas dentro de Sua boca. Isto causou o arrepiar-se dos pelos de seu corpo.\n\n\n\nO arrepiar-se dos pelos do corpo resultante do júbilo é descrito no Décimo Canto, 30º Capítulo, 9º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam* em conexão com as gopīs ocupadas na dança da rāsa. Durante esta dança da rāsa, Kṛṣṇa desapareceu de repente com Rādhārāṇī, e as gopīs começaram a procurá-Lo. Naquele momento, elas se dirigiram à terra e começaram a dizer: \"Nosso querido planeta terrestre, quantas austeridades e penitências deves ter realizado para teres os pés de lótus de Kṛṣṇa sempre tocando tua superfície. Penso que deves estar muito jubilosa, porque as árvores e as plantas, que são exatamente como pelos em teu corpo, estão se arrepiando tão gloriosamente. Podemos perguntar quando obtiveste pela primeira vez estes sintomas? Estás desfrutando deste júbilo desde que foste tocada pela encarnação Vāmana ou desde que foste libertada pela encarnação Varāha?\"\n\n\n\nKṛṣṇa às vezes realizava lutas fingidas juntamente com os meninos vaqueiros. Quando Kṛṣṇa soprava Seu chifre nesta luta fingida, Śrīdāmā, que estava no lado adversário, sentia os pelos de seu corpo arrepiarem-se. De modo semelhante, quando Arjuna viu Kṛṣṇa em Sua gigantesca forma universal, houve o arrepiar-se dos pelos de seu corpo.\n\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa partia para Mathurā na quadriga conduzida por Akrūra, Yaśodā e todas as gopīs vieram tentar proibi-Lo de passar e bloquear Seu caminho. Naquele momento, Rādhārāṇī estava tão perturbada que, com a voz trêmula, Ela solicitou a mãe Yaśodā que, por favor, detivesse Akrūra.\n\n\n\nO embargar-se da voz resultante do assombro foi exibido por Brahmā. Diz-se no *Śrīmad-Bhāgavatam*, Décimo Canto, 13º Capítulo, 59º verso, que, após prostrar-se diante do Senhor Kṛṣṇa, quando Brahmā começou a erguer-se, ele orou ao Senhor com a voz trêmula.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 29º Capítulo, 27º verso, outro exemplo do embargar-se da voz foi exibido pelas gopīs quando elas vieram a Kṛṣṇa, desejando dançar com Ele. Kṛṣṇa pediu-lhes que voltassem para seus maridos e lares. As gopīs aparentemente ficaram muito iradas e começaram a falar com Kṛṣṇa com a voz trêmula.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 39º Capítulo, 48º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, uma voz trêmula devida ao júbilo foi exibida por Akrūra quando lhe foram mostrados todos os planetas Vaikuṇṭha repousando dentro do rio Yamunā. Quando Akrūra compreendeu que Kṛṣṇa era a Suprema Personalidade de Deus, ele curvou a cabeça aos pés de lótus de Kṛṣṇa e, de mãos postas, começou a orar com a voz trêmula. Há também exemplos do embargar-se da voz causado pelo temor.\n\n\n\nUm dos amigos de Kṛṣṇa O elogiou da seguinte forma: \"Meu querido amigo, Tua flauta foi dada a Teu servo, Patrī, e quando lhe pedi que a devolvesse ele começou a falar com a voz trêmula, e sua tez tornou-se amarela.\"\n\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa tentava capturar o demônio Śaṅkha, Rādhārāṇī começou a tremer de temor. Tremor semelhante do corpo foi exibido em Sahadeva, o irmão mais novo de Nakula. Quando Śiśupāla blasfemava veementemente contra o Senhor, Sahadeva começou a tremer de ira.\n\n\n\nO tremor do corpo também foi exibido por Rādhārāṇī por tribulação. Rādhārāṇī tremeu ao dizer a uma das gopīs: \"Não brinques com este menino decepcionante! Por favor, pede-Lhe que não Se aproxime de Mim, porque Ele é sempre a causa de toda a aflição para nós.\"\n\n\n\n\nÀs vezes, devido à grande mágoa causada pelas atitudes de Kṛṣṇa, o corpo muda de cor. As gopīs, por isso, dirigiram-se ao Senhor da seguinte forma: \"Meu querido Kṛṣṇa, devido à separação de Ti, todos os habitantes de Vṛndāvana mudaram de cor. E, por causa desta mudança de cor, até o grande sábio Nārada pensava em Vṛndāvana como uma ilha branca no oceano de leite.\"\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa e Balarāma estavam presentes na arena de Kaṁsa, o corpo de Kaṁsa mudou de cor. De modo semelhante, o rosto de Indra mudou de cor quando ele viu que Kṛṣṇa protegia todos os habitantes de Braja ao erguer a colina de Govardhana. Se a mudança de cor ocorre devido a excessivo júbilo, a tonalidade torna-se vermelha. Por ser tal mudança de cor tão rara, Śrīla Rūpa Gosvāmī não discute mais este ponto.\n\n\n\n\nPor júbilo, ira ou separação pode haver o verter de lágrimas dos olhos. Quando tais lágrimas são muito frias, devem-se ao júbilo, e quando se devem à ira as lágrimas tornam-se quentes. Em todos os casos há um severo movimento dos olhos, e os olhos geralmente ficam avermelhados. Há também uma sensação de comichão que faz com que o sofredor esfregue os olhos.\n\n\n\nQuando a Rukmiṇī de olhos de lótus, a primeira rainha de Kṛṣṇa em Dvārakā, vertia lágrimas de júbilo extático, ela não gostava das lágrimas. Há uma passagem no Hari-vaṁśa na qual Satyabhāmā começa a verter lágrimas por causa de sua grande afeição por Kṛṣṇa.\n\n\n\nUm exemplo de verter lágrimas por causa da ira foi exibido por Bhīma quando ele viu que Śiśupāla insultava Kṛṣṇa na arena sacrificial de rāja-sūya. Bhīma quis matar Śiśupāla imediatamente, mas, porque Kṛṣṇa não lhe ordenou que o fizesse, ele ficou taciturno de ira. Descreve-se que havia lágrimas quentes a cobrir seus olhos, assim como uma nuvem fina às vezes cobre a lua vespertina. À tardinha, quando a lua está ligeiramente coberta por uma nuvem fina, ela parece muito bela, e quando Bhīma vertia lágrimas por causa de sua ira, ele também parecia muito belo.\n\n\n\nNo Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Capítulo 68, verso 23, há um belo exemplo de Rukmiṇī vertendo lágrimas de lamentação. Quando Kṛṣṇa e Rukmiṇī conversavam, Rukmiṇī ficou amedrontada com a separação de Kṛṣṇa e, por isso, começou a arranhar a terra com suas unhas vermelhas, semelhantes a lótus. Porque ela vertia lágrimas, o unguento negro de seus olhos pingava, junto com as lágrimas, sobre seus seios, que estavam cobertos com pó de kuṅkum. Rukmiṇī estava tão magoada que sua voz ficou embargada.\n\n\n\n\nQuando uma pessoa fica confusa por felicidade e tribulação simultâneas e não sabe o que fazer, este estado de confusão chama-se pralaya, ou devastação. Nesta condição de pralaya, a pessoa às vezes cai ao chão, e todos os sintomas de amor extático se manifestam. Quando as gopīs procuravam por Kṛṣṇa e de repente Ele saiu dos arbustos e das trepadeiras, todas elas ficaram atônitas e quase inconscientes. Neste estado, as gopīs pareciam muito belas. Este é um exemplo de pralaya, ou devastação na felicidade.\n\n\n\nHá também casos de pralaya na aflição. Um desses exemplos é descrito no Décimo Canto, 39º Capítulo, 14º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam*, onde Śukadeva Gosvāmī diz ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, quando as gopīs sentiam falta de Kṛṣṇa, elas estavam tão absortas em meditação nEle que todos os seus sentidos deixaram de funcionar, e elas perderam todo o sentido corporal. Era como se tivessem ficado liberadas de todas as condições materiais.\"\n\n\n\nDentre os muitos sintomas extáticos do corpo, o sintoma de ficar atônito é especialmente significativo. Conforme o grau de ficar atônito, a força vital dentro do corpo fica agitada e, devido a tal estado, os demais sintomas extáticos amorosos às vezes se alteram. Estes transcendentais sintomas extáticos desenvolvem-se gradualmente e, no decurso de tal desenvolvimento, eles são às vezes chamados de enfumaçados, às vezes chamados de flamejantes e às vezes chamados de resplandecentes. Estes três graus são experimentados por muitos e muitos anos e estendem-se a diferentes partes do corpo. Diferentemente do derramamento de lágrimas e do embargar-se da voz, a condição de ficar atônito espalha-se por todo o corpo. O derramamento de lágrimas e o embargar-se da voz são simplesmente sintomas localizados.\n\n\n\nO derramamento de lágrimas, contudo, às vezes faz com que os olhos fiquem inchados e esbranquiçados, e às vezes as lentes dos olhos ficam focalizadas de maneira diferente. O embargar-se da voz pode às vezes causar engasgo na garganta e extrema ansiedade. Como os diferentes sintomas destas manifestações extáticas são localizados, eles são acompanhados por diferentes reações locais; por exemplo, quando a garganta fica engasgada por causa de uma voz trêmula, pode haver um som como \"ghra\". Tais sons embargam a voz e, com extrema ansiedade mental, podem manifestar-se de diferentes maneiras. Todos esses sintomas estão listados sob a condição existencial ressequida conhecida como enfumaçada, e eles são exibidos de diferentes maneiras.\n\n\n\nÀs vezes, ao participar de cerimônias que celebram os passatempos de Kṛṣṇa, ou na sociedade dos devotos, há o êxtase de dançar. Tais sentimentos chamam-se flamejantes.\n\n\n\nNenhum dos sintomas acima pode manifestar-se sem o princípio básico de um forte apego por Kṛṣṇa. Na condição enfumaçada de tais expressões extáticas, os sintomas poderiam, de outra maneira, ficar ocultos. Este tipo de sintoma foi experimentado pelo sacerdote Gargamuni, que realizava alguma cerimônia ritualística na casa de Nanda Mahārāj. Quando ele ouviu falar da morte do demônio Aghāsura por Kṛṣṇa, havia algumas lágrimas visíveis em seus olhos, sua garganta tremia e a transpiração cobria todo o seu corpo. Dessa maneira, o belo rosto do sacerdote Gargamuni assumiu uma bela condição.\n\n\n\nQuando vários desses sintomas extáticos são visíveis, a condição chama-se flamejante. Por exemplo, alguns dos amigos de Kṛṣṇa Lhe disseram: \"Meu querido amigo, tão logo ouvi o som de Tua flauta vindo de dentro da floresta, minhas mãos ficaram quase imóveis e meus olhos ficaram cheios de lágrimas. A tal ponto, de fato, que não pude reconhecer Tua pena de pavão. Minhas coxas ficaram quase completamente atônitas, de modo que não pude mover-me sequer um centímetro. Portanto, meu querido amigo, devo reconhecer a maravilhosa vibração de Tua transcendental flauta.\"\n\n\n\n\nDe modo semelhante, uma gopī disse a outra: \"Minha querida amiga, quando ouvi o som da flauta de Kṛṣṇa, tentei esconder-me da reação das vibrações. Mas ainda assim não pude conter o tremor de meu corpo, e por isso todas as minhas amigas em casa puderam detectar meu apego por Kṛṣṇa sem nenhuma dúvida.\"\n\n\n\nQuando os sintomas extáticos não podem ser contidos, e aparecem simultaneamente em quatro ou cinco categorias diferentes, este estágio do amor extático chama-se resplandecente. Cita-se o exemplo, a este respeito, de que, quando o sábio Nārada viu o Senhor Kṛṣṇa de pé diante dele, seu corpo ficou tão atônito que ele parou de tocar sua vīṇā. Por causa de sua voz embargada, ele não pôde oferecer nenhuma oração a Kṛṣṇa, e seus olhos ficaram cheios de lágrimas. Assim, a capacidade de Nārada de ver Kṛṣṇa também ficou obstruída.\n\n\n\nQuando sintomas semelhantes se manifestaram no corpo de Śrīmatī Rādhārāṇī, algumas de Suas amigas criticaram-nA: \"Querida amiga, Tu culpas o aroma das flores pelas lágrimas em Teus olhos. Tu repreendes o ar pelo arrepiar-se dos pelos de Teu corpo. E Tu amaldiçoas Tua caminhada pela floresta pelas Tuas coxas ficarem atônitas. Mas Tua voz trêmula revela que a causa é diferente: é apenas Teu apego por Kṛṣṇa!\"\n\n\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī observa que, quando vários sintomas se manifestam muito proeminentemente, a condição do devoto pode ser chamada de a mais brilhante. Por exemplo, um amigo de Kṛṣṇa dirigiu-se a Ele da seguinte forma: \"Meu querido Pītāmbara, devido à separação de Ti todos os residentes de Goloka Vṛndāvana estão transpirando. Eles lamentam com diferentes palavras, e seus olhos ficaram umedecidos de lágrimas. Na verdade, todos eles estão em grande confusão.\"\n\n\n\nHá um supremo sintoma de amor extático que se chama mahābhāva. Esta expressão de mahābhāva foi possível somente em Rādhārāṇī, mas, mais tarde, quando Śrī Kṛṣṇa Caitanya passou a sentir o modo de amor de Rādhārāṇī, Ele também expressou todos os sintomas de mahābhāva. Śrī Rūpa Gosvāmī diz, a este respeito, que, quando os sintomas do amor extático se tornam os mais brilhantes, esse estágio é aceito como mahābhāva.\n\n\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī analisa adicionalmente a expressão amorosa extática em quatro divisões que se chamam sāttvābhāsā.\n\n\n\nÀs vezes, impersonalistas que não estão de fato no serviço devocional também podem exibir tais sintomas de amor extático, mas isto não é aceito como êxtase verdadeiro. É apenas um reflexo. Por exemplo, às vezes em Vārāṇasī, uma cidade sagrada para os eruditos impersonalistas, pode-se ver um sannyāsī chorando ao ouvir as glórias do Senhor. Os impersonalistas também às vezes cantam o mantra Hare Kṛṣṇa e dançam, mas seu objetivo não é servir o Senhor. É tornar-se uno com o Senhor e fundir-se em Sua existência. Rūpa Gosvāmī, por isso, diz que, mesmo que as reações ao canto se manifestem no corpo do impersonalista, elas não devem ser consideradas sintomas de apego verdadeiro, mas apenas reflexos, exatamente como o sol refletido em um quarto escuro por meio de algum vidro polido. O canto de Hare Kṛṣṇa, contudo, é tão belo e transcendental que finalmente derreterá até os corações das pessoas que são impersonalistas. Rūpa Gosvāmī diz que os sintomas dos impersonalistas são simplesmente reflexos do amor extático, não a coisa real.\n\n\n\nÀs vezes, observa-se que, quando lógicos convictos, sem nenhum traço de serviço devocional e sem realmente compreender as transcendentais glórias do Senhor, sentam-se para ouvir as glórias do Senhor, eles parecem derreter-se e verter lágrimas. A este respeito, há uma afirmação de um devoto que se dirige ao Senhor da seguinte forma: \"Meu querido Mukunda, não consigo expressar adequadamente as glórias de Teus passatempos. Mesmo quando os não devotos ouvem falar de Teus gloriosos passatempos, eles ficam afetados e vertem lágrimas e começam a tremer.\" Tais não devotos não estão de fato derretidos; eles são de coração endurecido. Mas a influência das glórias do Senhor é tão grande que até os não devotos às vezes vertem lágrimas.\n\n\n\nÀs vezes, observa-se que um não devoto que praticamente não tem nenhum gosto por Kṛṣṇa e que não segue nenhuma regra ou regulação pode, pela prática, fazer uma exibição de sintomas devocionais, chegando até a chorar em uma assembleia de devotos. Este derramamento de lágrimas não é, contudo, de fato uma expressão amorosa extática. É feito simplesmente pela prática. Embora não haja necessidade de descrever estes reflexos de amor extático, Rūpa Gosvāmī dá alguns casos em que não há serviço devocional verdadeiro e tais expressões se manifestam."}
{"ref": "nod/29", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/29/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "29. Expressões de Amor por Kṛṣṇa", "purport": "Há alguns sintomas corporais que exprimem o avassalador amor extático. São contados em número de trinta e um, como se segue: desapontamento, lamentação, humildade, culpa, fadiga, embriaguez, orgulho, dúvida, apreensão, emoção intensa, loucura, esquecimento, doença, confusão, morte, preguiça, inércia, acanhamento, ocultação, recordação, contenciosidade, ansiedade, reflexão, perseverança, felicidade, ânsia, altivez, inveja, impudência, vertigem e vigilância.\n\n## Desapontamento\n\nQuando alguém é forçado a agir de uma maneira proibida, ou a abster-se de agir de uma maneira apropriada, fica arrependido e julga-se desonrado. Nesse momento, há uma sensação de desapontamento. Nessa espécie de desapontamento, a pessoa fica cheia de ansiedade, derrama lágrimas, muda de cor corporal, sente humildade e respira pesadamente.\n\nQuando Kṛṣṇa, ao castigar a serpente Kāliya, pareceu ter-Se afogado nas águas venenosas do Yamunā, Nanda Mahārāja dirigiu-se a Yaśodā-devī desta maneira: \"Minha querida esposa, Kṛṣṇa mergulhou nas profundezas da água e, por isso, já não há mais necessidade de manter nossos corpos, que estão tão repletos de atividades pecaminosas! Entremos nós também nas águas venenosas do Yamunā e compensemos as atividades pecaminosas de nossas vidas!\" Eis um exemplo de choque severo, em que o devoto fica grandemente desapontado.\n\nQuando Kṛṣṇa deixou Vṛndāvana, Subala, Seu amigo íntimo, decidiu partir também. Ao partir, Subala refletia que, sem Kṛṣṇa, já não havia prazer algum a ser encontrado em Vṛndāvana. Faz-se a analogia de que, assim como as abelhas se afastam de uma flor que não tem mel, da mesma forma Subala deixou Vṛndāvana quando constatou que ali já não havia nenhum prazer transcendental digno de ser saboreado.\n\nNo *Dāna-keli-kaumudī,* Śrīmatī Rādhārāṇī dirige-se a uma de Suas amigas desta maneira: \"Minha querida amiga, se não posso ouvir falar das gloriosas atividades de Kṛṣṇa, é melhor que Eu fique surda. E porque agora sou incapaz de vê-lO, seria bom para Mim ser uma mulher cega.\" Eis outro exemplo de desapontamento devido à separação de Kṛṣṇa.\n\nHá uma afirmação no *Hari-vaṁśa* em que Satyabhāmā, uma das rainhas de Kṛṣṇa em Dvārakā, diz a seu esposo: \"Meu querido Kṛṣṇa, desde que ouvi Nārada glorificar Rukmiṇī diante de Ti, posso compreender que não há necessidade alguma de falar a meu respeito!\" Eis um exemplo de desapontamento causado pela inveja. Rukmiṇī e Satyabhāmā eram co-esposas, e, porque Kṛṣṇa era esposo de ambas, naturalmente havia certa inveja feminina entre elas. Assim, quando Satyabhāmā ouviu as glórias de Rukmiṇī, ficou invejosa dela e, dessa forma, ficou desapontada.\n\nNo Décimo Canto, quinquagésimo primeiro capítulo, vigésimo nono verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há esta afirmação: \"Meu querido Kṛṣṇa, não posso dizer que sejam apenas as outras pessoas que estão implicadas na existência material, pois eu também estou muito enredado no conceito corporal da vida. Estou sempre demasiadamente ansioso por minha família, lar, esposa, riqueza, terra e reino. E, porque fiquei tão enlouquecido por esta atmosfera material, penso agora que minha vida foi simplesmente desperdiçada.\" Esta afirmação é um exemplo de desapontamento causado pela lamentação.\n\nSegundo Bharata Muni, esse desapontamento é inauspicioso. Mas há outros eruditos que aceitaram tal desapontamento como estando no estado de neutralidade e como sendo um preservativo do amor extático.\n\n## Lamentação\n\nQuando alguém não consegue alcançar o objetivo desejado da vida, quando alguém não encontra realização em sua ocupação atual, quando alguém se vê em condições adversas e quando alguém sente culpa — nesse momento, diz-se que a pessoa está num estado de lamentação.\n\nNessa condição de lamentação, a pessoa torna-se indagadora, reflexiva, lacrimosa, arrependida e de respiração pesada. Sua cor corporal muda, e sua boca fica seca.\n\nCerto devoto idoso de Kṛṣṇa dirigiu-se a Ele desta maneira: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó matador do demônio Agha, meu corpo está agora inválido devido à velhice. Não consigo falar com muita fluência, minha voz vacila, minha mente não é forte, e sou frequentemente atacado pelo esquecimento. Mas, meu querido Senhor, Tu és exatamente como o luar, e meu único pesar verdadeiro é que, por falta de qualquer gosto por Teu agradável fulgor, não avancei em consciência de Kṛṣṇa.\" Esta afirmação é um exemplo de lamentação por se ser incapaz de alcançar o objetivo desejado.\n\nCerto devoto disse: \"Esta noite eu sonhava que colhia várias flores do jardim, e pensava em fazer uma guirlanda para oferecer a Kṛṣṇa. Mas sou tão infeliz que, de repente, meu sonho terminou, e não pude alcançar o objetivo que desejava!\" Esta afirmação é um exemplo de lamentação resultante do não-cumprimento dos próprios deveres.\n\nQuando Nanda Mahārāja viu seu filho adotivo, Kṛṣṇa, em apuros na arena de sacrifício de Kaṁsa, ele disse: \"Quão infeliz sou por não ter mantido meu filho trancado dentro de um quarto. Infelizmente, eu O trouxe a Mathurā, e agora vejo que Ele está em apuros por causa deste elefante gigante chamado Kuvalaya. É como se a lua de Kṛṣṇa estivesse eclipsada pela sombra da Terra.\" Eis um exemplo de lamentação causada por condições adversas.\n\nNo Décimo Canto, décimo quarto capítulo, nono verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há uma afirmação de Brahmā: \"Meu querido Senhor, vê só a minha impudência! Tu és o ilimitado, a Personalidade de Deus original, a Superalma — e governas sobre as mais perfeitas energias ilusórias! E vê só a minha impudência! Quis suplantar-Te por meu próprio poder pessoal, e estava muito convencido com esse meu diminuto poder. Assim como uma simples faísca de um fogo não pode causar nenhum dano ao fogo, da mesma forma minha desconcertante potência foi completamente malsucedida em frustrar Tua superior potência ilusória. Portanto, considero-me o mais insignificante de todos e penso em mim mesmo como uma pessoa totalmente inútil.\" Esta afirmação de Brahmā é um exemplo de lamentação causada pelo cometimento de uma ofensa.\n\n## Humildade\n\nUma sensação de fraqueza causada por aflição, medo ou ofensividade é chamada de humildade. Em tal condição humilde, a pessoa torna-se loquaz, de coração pequeno, suja na mente, cheia de ansiedade e inativa.\n\nNo Décimo Canto, quinquagésimo primeiro capítulo, trigésimo nono verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há a seguinte afirmação do rei Mucukunda: \"Meu querido Senhor, por causa de meus maus feitos no passado, estou perpetuamente aflito. Sofro sempre com meus desejos, mas, mesmo assim, meus sentidos jamais ficam satisfeitos com os gozos materiais. De um modo ou de outro, encontro-me agora, por Tua graça, numa condição pacífica, pois me abriguei a Teus pés de lótus, que estão sempre livres de toda lamentação, medo e morte. Ó protetor supremo, ó alma suprema! Ó controlador supremo! Tem a bondade de conceder-me Tua proteção. Estou muito constrangido.\" Esta afirmação de Mucukunda é um exemplo de humildade resultante de uma condição severamente miserável da existência material.\n\nQuando Uttarā foi atacada pelo *brahmāstra* de Aśvatthāmā, ela ficou com medo de perder seu filho, Mahārāja Parīkṣit, que ainda estava dentro do ventre. Ela imediatamente rendeu-se a Kṛṣṇa e disse: \"Meu querido Senhor, tem a bondade de salvar meu filho! Não me importo se eu mesma tiver de ser morta pelo *brahmāstra* de Aśvatthāmā.\" Eis um exemplo de humildade causada pelo medo.\n\nNo Décimo Canto, décimo quarto capítulo, décimo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* o Senhor Brahmā diz: \"Ó infalível! Nasci no modo da paixão e, por isso, tenho-me orgulhado falsamente de ser o criador deste mundo material. Meu falso orgulho era como uma densa escuridão, e nessa escuridão eu ficara cego. Em minha cegueira, considerava-me um competidor de Ti, a Suprema Personalidade de Deus. Mas, meu querido Senhor, embora eu seja aceito como o criador deste universo, sou eternamente Teu servo. Portanto, tem a bondade de seres sempre compassivo para comigo e perdoa-me dessa maneira.\" Esta afirmação de Brahmā é outro exemplo de humildade resultante do cometimento de uma ofensa.\n\nÀs vezes, há humildade devido à timidez. Por exemplo, quando Kṛṣṇa roubou todas as roupas das *gopīs* enquanto elas se banhavam no rio, todas elas suplicaram a Kṛṣṇa que não cometesse essa injustiça contra elas. As *gopīs* dirigiram-se a Ele assim: \"Meu querido Kṛṣṇa, sabemos que Tu és o filho de Nanda Mahārāja e que és o mais amado de toda Vṛndāvana. E nós também Te amamos muitíssimo! Mas por que estás nos dando este aborrecimento? Tem a bondade de devolver nossas roupas. Vê só como estamos tremendo por causa do frio severo!\" Essa humildade devia-se à timidez delas por estarem nuas diante de Kṛṣṇa.\n\n## Culpa\n\nQuando uma pessoa se censura por ter cometido uma ação inapropriada, seu sentimento é chamado de culpa.\n\nCerto dia, Śrīmatī Rādhārāṇī batia coalhada para Kṛṣṇa. Naquele momento, as pulseiras enfeitadas de joias em Suas mãos giravam em círculos, e Ela também cantava o santo nome de Kṛṣṇa. De repente, Ela pensou: \"Estou cantando o santo nome de Kṛṣṇa, e Meus superiores — Minha sogra e Minha cunhada — podem Me ouvir!\" Com esse pensamento, Rādhārāṇī ficou muito ansiosa. Eis um exemplo de sentir-se culpada por causa da devoção a Kṛṣṇa.\n\nCerto dia, Śrīmatī Rādhārāṇī, de belos olhos, entrou na floresta para colher algumas flores e preparar uma guirlanda para Kṛṣṇa. Enquanto colhia as flores, Ela ficou com medo de que alguém pudesse vê-lA, e sentiu certa fadiga e fraqueza. Eis um exemplo de sentimentos de culpa causados pelo labor por Kṛṣṇa.\n\nHá uma afirmação no *Rasa-sudhākara* de que, após passar a noite com Kṛṣṇa, Rādhārāṇī ficou tão fraca que era incapaz de levantar-se da cama. Quando Kṛṣṇa tomou a mão Dela para ajudá-lA, Rādhārāṇī sentiu-Se culpada por ter passado a noite com Ele.\n\n## Fadiga\n\nA pessoa sente fadiga após caminhar uma longa distância, após dançar e após a atividade sexual. Nessa espécie de fadiga, há vertigem, transpiração, inatividade dos membros, bocejos e respiração muito pesada.\n\nCerto dia, Yaśodā perseguia Kṛṣṇa no pátio depois que Ele a ofendera. Após algum tempo, Yaśodā ficou muito fatigada e, por isso, transpirava, e seu cabelo preso ficou solto. Eis um exemplo de ficar fatigado por trabalhar demais.\n\nÀs vezes, todos os amigos vaqueiros de Kṛṣṇa, juntamente com Balarāma, dançavam juntos em alguma cerimônia. Nessas ocasiões, as guirlandas em Seus pescoços se moviam, e Eles começavam a transpirar. Todo o corpo Deles ficava molhado por causa de Sua dança extática. Eis um exemplo de fadiga causada pela dança.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, trigésimo terceiro capítulo, vigésimo verso, diz-se que, após desfrutarem de relações amorosas com Kṛṣṇa dançando, abraçando e beijando, as *gopīs* às vezes ficavam muito cansadas, e Kṛṣṇa, por Sua misericórdia e compaixão imotivadas, untava o rosto delas com Suas mãos de lótus. Eis um exemplo de fadiga causada pelo labor na dança da *rāsa.*\n\n## Embriaguez\n\nQuando alguém se torna arrogante com falso prestígio devido a beber substâncias inebriantes ou a ser luxurioso demais, a voz fica defeituosa, os olhos ficam inchados, e há sintomas de vermelhidão no corpo. Há uma afirmação no *Lalita-mādhava* de que o Senhor Baladeva, embriagado por beber quantidades excessivas de mel, certa vez começou a dirigir-se às formigas: \"Ó vós, reis das formigas! Por que estais vos escondendo nestes buracos?\" Ao mesmo tempo, Ele também Se dirigiu ao rei do céu: \"Ó rei Indra! Tu, brinquedo de Śacī! Por que estás rindo? Estou agora preparado para esmagar todo o universo, e sei que Kṛṣṇa não ficará irado coMigo.\"((Baladeva, ou Balarāma, é o irmão mais velho de Kṛṣṇa, uma expansão do próprio Deus e, portanto, deve ser considerado uma encarnação de Deus, como se explica no *Śrīmad-Bhāgavatam.*)) Então Ele Se dirigiu a Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, dize-Me imediatamente por que o mundo inteiro está tremendo e por que a lua se alongou! E ó vós, membros da dinastia Yadu, por que estais rindo de Mim? Por favor, devolvei-Me Meus licores feitos de mel da flor *kadamba*!\" Śrīla Rūpa Gosvāmī ora para que o Senhor Balarāma fique satisfeito com todos nós enquanto fala assim, exatamente como uma pessoa embriagada.\n\nNesse estado de embriaguez, Balarāma sentiu-Se cansado e deitou-Se para descansar. Em geral, as personalidades elevadas deitam-se quando se sentem embriagadas, ao passo que os medíocres riem e cantam durante a embriaguez, e os mais baixos usam linguagem vulgar e, às vezes, choram. Tal embriaguez manifesta-se de acordo com as diferentes idades e mentalidades. Śrīla Rūpa Gosvāmī não descreve mais nessa direção porque não há necessidade de tal discussão.\n\nHá outra descrição dos sintomas de embriaguez na pessoa de Śrī Rādhārāṇī depois que Ela viu Kṛṣṇa: às vezes Ela caminhava de um lado para outro, às vezes ria, às vezes cobria o rosto, às vezes falava sem sentido algum, e às vezes orava a Suas companheiras *gopīs.* Vendo esses sintomas em Rādhārāṇī, as *gopīs* começaram a conversar entre si: \"Vê só como Rādhārāṇī ficou embriagada simplesmente por ver Kṛṣṇa diante Dela!\" Eis um exemplo de amor extático em embriaguez.\n\n## Orgulho\n\nAs expressões de amor extático em orgulho podem ser o resultado de riqueza excessiva, beleza primorosa, uma residência de primeira classe, ou a obtenção do objetivo ideal da pessoa. Considera-se também orgulhoso aquele que não se importa com o desprezo dos outros.\n\nBilvamaṅgala Ṭhākura disse: \"Meu querido Kṛṣṇa, Tu estás Me deixando, escapando à força de Minhas garras. Mas Eu só ficarei impressionada com Tua força quando puderes sair à força do âmago de Meu coração.\" Eis um exemplo de sentir orgulho no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nCerta vez, durante a dança da *rāsa,* quando Rādhārāṇī deixou a arena e Kṛṣṇa foi procurá-lA, uma das queridas amigas de Rādhārāṇī dirigiu-se a Kṛṣṇa desta maneira: \"Meu querido Kṛṣṇa, Tu tens sido muito prestativo ao servir a forma de nossa Śrī Rādhārāṇī, e agora deixaste todas as outras *gopīs* para procurá-lA. Permite-me, por favor, indagar como queres que Ela Te trate.\" Eis um exemplo de sentir orgulho em razão da beleza primorosa.\n\nÀs vezes, Rādhārāṇī sentia orgulho dentro de Si e dizia: \"Embora os vaqueiros preparem belas guirlandas de flores para Kṛṣṇa, quando Eu Lhe apresento Minha guirlanda, Ele fica tomado de assombro e imediatamente a aceita e a coloca sobre Seu coração.\"\n\nDe modo semelhante, no Décimo Canto, segundo capítulo, vigésimo sétimo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* o Senhor Brahmā diz: \"Meu querido Madhusūdana, as pessoas que são devotos puros de Tua Onipotência sentem de fato Tua extática amizade e, como tais, jamais são vencidas pelos inimigos. Sabem que estão sempre protegidas por Ti e, assim, podem naturalmente passar por sobre as cabeças de seus inimigos sem nenhuma preocupação.\" Em outras palavras, aquele que se abrigou completamente sob os pés de lótus do Senhor está sempre orgulhoso de ser capaz de conquistar todos os inimigos.\n\nCerto tecelão de Mathurā dirigiu-se a Kṛṣṇa desta maneira: \"Meu querido rei de Vṛndāvana, fiquei tão orgulhoso de Tua misericórdia imotivada para comigo que nem mesmo dou valor à misericórdia do Senhor de Vaikuṇṭha, que é almejada por muitos grandes sábios em profunda meditação.\" Em outras palavras, embora os *yogīs* e grandes sábios se sentem em meditação no Senhor Viṣṇu, que reside em Vaikuṇṭha, um devoto de Kṛṣṇa é tão orgulhoso que não considera tal meditação muito valiosa. Esse sentimento de orgulho deve-se a se ter alcançado o objetivo mais elevado da vida — Kṛṣṇa.\n\n## Dúvida\n\nDepois que o Senhor Brahmā roubou todos os bezerros, vacas e vaqueirinhos de Kṛṣṇa, ele tentava ir embora. Mas, de repente, ficou em dúvida quanto a seus furtos e começou a vigiar todos os lados com seus oito olhos. O Senhor Brahmā tem quatro cabeças e, por isso, tem oito olhos. Eis um exemplo de amor extático em dúvida, causado pelo furto.\n\nDe modo semelhante, apenas para agradar Kṛṣṇa, Akrūra roubou a Syamantaka-*maṇi,* uma pedra que pode produzir quantidades ilimitadas de ouro, mas, mais tarde, ele se arrependeu de seu furto. Eis outro exemplo de amor extático por Kṛṣṇa em dúvida causada pelo furto.\n\nO rei do céu, Indra, foi aconselhado a render-se aos pés de lótus de Kṛṣṇa quando estava fazendo cair torrentes de chuva sobre a terra de Braja. Naquele momento, o rosto de Indra ficou muito escurecido por causa da dúvida.\n\n## Apreensão\n\nQuando uma pessoa se perturba em seu coração ao ver um relâmpago no céu, ao ver um animal feroz, ou ao ouvir um som tumultuoso, seu estado de espírito é chamado de apreensivo. Em tal estado de apreensão, a pessoa tenta abrigar-se em algo que lhe proporcione segurança. Pode haver arrepio dos pelos do corpo, tremor do corpo e, às vezes, o cometimento de erros. E, às vezes, o corpo pode ficar estupefato.\n\nNo *Padyāvalī,* há a seguinte afirmação: \"Minha querida amiga, a residência de Kṛṣṇa no círculo demoníaco de Mathurā, sob a supremacia do rei dos demônios, Kaṁsa, está me causando muita preocupação.\" Eis um exemplo de apreender algum perigo a Kṛṣṇa no amor extático por Ele.\n\nQuando Vṛṣāsura apareceu em Vṛndāvana sob a forma de um touro, todas as *gopīs* ficaram grandemente afetadas pelo medo. Estando perturbadas dessa maneira, elas começaram a abraçar as árvores *tāmala.* Eis um exemplo de temor causado por um animal feroz e da busca por abrigo enquanto se lembravam de Kṛṣṇa no amor extático. Ao ouvir os chacais uivando na floresta de Vṛndāvana, mãe Yaśodā às vezes ficava muito cuidadosa em manter Kṛṣṇa sob sua vigilância, temendo que Kṛṣṇa pudesse ser atacado por eles. Eis um exemplo de amor extático por Kṛṣṇa em temor causado por um som tumultuoso. Essa espécie de temor é um pouco diferente de se estar realmente com medo. Quando alguém tem medo de algo, ainda pode pensar no passado e no futuro. Mas, quando há essa espécie de apreensão extática, não há espaço para tal pensamento.\n\n## Emoção Intensa\n\nA emoção é causada por algo muito querido, por algo muito detestável, pelo fogo, por vento forte, por chuva forte, por algum distúrbio natural, pela visão de um grande elefante, ou pela visão de um inimigo. Quando há emoção causada por ver algo muito querido, a pessoa pode falar muito rapidamente e usar palavras gentis. Quando há emoção causada por ver algo detestável, a pessoa chora muito alto. Quando há emoção causada por ver o fogo, a pessoa tenta fugir. Também pode haver tremor do corpo, fechamento dos olhos e lágrimas nos olhos. Quando alguém fica emocionado por causa de um vento forte, tenta correr muito rapidamente e esfrega os olhos. Quando alguém fica emocionado por causa da chuva, pega um guarda-chuva, e há tensão em seu corpo. Quando há emoção devido a um distúrbio repentino, o rosto da pessoa fica descorado, ela fica tomada de assombro, e há tremor do corpo. Se há emoção por ver um elefante, a pessoa pode pular, demonstrar vários sinais de temor e, às vezes, pode ficar olhando para trás. Quando há emoção devido à presença de um inimigo, a pessoa procura uma arma fatal e tenta escapar.\n\nQuando Kṛṣṇa voltou da floresta de Vṛndāvana, mãe Yaśodā ficou tão emocionada por ver seu filho que leite começou a fluir de seus seios. Eis um exemplo de emoção causada por ver um objeto querido.\n\nNo Décimo Canto, vigésimo terceiro capítulo, décimo terceiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Śukadeva Gosvāmī informa o rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, as esposas dos *brāhmaṇas* costumavam ser muito apegadas à glorificação de Kṛṣṇa, e estavam sempre ansiosas por conseguir uma oportunidade de vê-lO. Por causa disso, quando ouviram que Kṛṣṇa estava por perto, ficaram muito ansiosas por vê-lO e imediatamente deixaram seus lares.\" Eis um exemplo de atividade emocional causada pela presença de alguém que é muito querido.\n\nQuando Pūtanā, a feiticeira demoníaca, foi abatida e morta por Kṛṣṇa, mãe Yaśodā ficou tomada de assombro e começou a chorar emocionalmente: \"Oh, o que é isto? O que é isto?\" Quando viu que seu querido bebê Kṛṣṇa brincava sobre o peito da morta mulher demoníaca, mãe Yaśodā, sem saber o que fazer, começou a andar de um lado para outro. Eis um exemplo de ficar emocionado em razão de ver algo medonho.\n\nQuando Kṛṣṇa arrancou as duas árvores *arjuna* e Yaśodā ouviu o som das árvores desabando, ela ficou tomada de emoção e simplesmente olhou para cima, demasiadamente desconcertada para saber o que mais fazer. Eis um exemplo de ficar emocionado por ouvir um som tumultuoso.\n\nQuando houve um incêndio florestal em Vṛndāvana, todos os vaqueiros se reuniram e apelaram desesperadamente a Kṛṣṇa por proteção. Eis um exemplo de emoção causada pelo fogo.\n\nO demônio redemoinho conhecido como Tṛṇāvarta certa vez levou Kṛṣṇa do chão e fê-lO girar pelo ar, juntamente com algumas árvores muito grandes. Naquele momento, mãe Yaśodā não conseguia ver seu filho, e ficou tão perturbada que começou a andar de um lado para outro. Eis um exemplo de emoção causada por vento severo.\n\nNo Décimo Canto, vigésimo quinto capítulo, décimo primeiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há uma descrição de Indra fazendo cair torrentes severas de chuva em Vṛndāvana. Todas as vacas e vaqueirinhos ficaram tão afligidos pelo vento e pelo frio que todos se reuniram para abrigar-se sob os pés de lótus de Kṛṣṇa. Eis um exemplo de emoção causada por chuva severa.\n\nHouve torrentes severas de granizo quando Kṛṣṇa permanecia na floresta de Vṛndāvana, e as pessoas mais velhas Lhe ordenaram: \"Kṛṣṇa, não Te movas agora! Até pessoas que são mais fortes e mais velhas do que Tu não conseguem mover-se, e Tu és apenas um menininho. Portanto, fica quieto, por favor!\" Eis um exemplo de emoção causada por forte granizo.\n\nQuando Kṛṣṇa castigava Kāliya nas águas venenosas do Yamunā, mãe Yaśodā começou a falar emocionada: \"Oh, vede como a terra parece estar tremendo! Parece haver um abalo terrestre, e no céu há lágrimas voando de um lado para outro! Meu querido filho entrou nas águas venenosas do Yamunā. Que farei agora?\" Eis um exemplo de emoção resultante de um distúrbio natural.\n\nNa arena de Kaṁsa, quando Kṛṣṇa foi atacado por grandes elefantes, todas as damas presentes começaram a dirigir-se a Ele desta maneira: \"Meu querido menino — deixa este lugar imediatamente! Deixa este lugar imediatamente! Não vês os grandes elefantes que vêm atacar-Te? Teu inocente olhar para eles está nos causando demasiada perturbação!\" Kṛṣṇa então disse a mãe Yaśodā: \"Minha querida mãe, não te perturbes com o aparecimento dos elefantes e dos cavalos que vêm tão impetuosamente e levantam poeira, causando cegueira a estas mulheres de olhos de lótus. Que venha diante de Mim até o demônio Keśī; meus braços ainda serão adequados para a vitória. Portanto, não te perturbes, por favor.\"\n\nNo *Lalita-mādhava,* uma amiga diz a mãe Yaśodā: \"Que maravilha é que, quando o demônio Śaṅkhacūḍa — vasto e forte como uma grande colina — atacou teu belo filho semelhante a Cupido, não havia ninguém presente em Vṛndāvana para ajudar. E, ainda assim, o demônio foi morto por teu pequeno filho. Parece dever-se ao resultado de severas penitências e austeridades em tuas vidas passadas que teu filho tenha sido salvo dessa maneira.\"\n\nNo mesmo *Lalita-mādhava,* há um relato de Kṛṣṇa raptando Rukmiṇī em sua cerimônia de casamento real. Naquele momento, todos os príncipes presentes começaram a conversar entre si, dizendo: \"Temos nossos elefantes, cavalos, quadrigas, arcos, flechas e espadas, então por que deveríamos ter medo de Kṛṣṇa? Ataquemo-lO! Ele não passa de um luxurioso vaqueirinho! Ele não pode levar a princesa dessa maneira! Ataquemo-lO todos!\" Eis um exemplo de emoção causada pela presença de inimigos.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī procura provar, pelos exemplos acima, que, na relação com Kṛṣṇa, não há questão de impersonalismo. Todas as atividades pessoais estão presentes na relação com Kṛṣṇa.\n\n## Loucura\n\nŚrīla Bilvamaṅgala Ṭhākura ora em seu livro da seguinte forma: \"Que Śrīmatī Rādhārāṇī purifique o mundo inteiro, pois Ela rendeu-Se completamente a Kṛṣṇa. Por causa de Seu amor extático por Ele, Ela às vezes agia exatamente como uma pessoa transtornada e tentava bater coalhada, embora não houvesse coalhada na panela. E, vendo isso, Kṛṣṇa ficou tão encantado por Rādhārāṇī que começou a ordenhar um touro em vez de uma vaca.\" Eis alguns dos exemplos de insanidade ou loucura em conexão com as relações amorosas de Rādhā e Kṛṣṇa. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* diz-se que, quando Kṛṣṇa entrou nas águas venenosas do Yamunā, Śrīmatī Yaśodā Devī ficou insana. Em vez de procurar ervas curativas, ela começou a falar com as árvores como se fossem encantadores de serpentes. Com as mãos postas, ela começou a prostrar-se diante das árvores, perguntando-lhes: \"Qual é a erva medicinal que pode impedir que Kṛṣṇa morra por causa desta água venenosa?\" Eis um exemplo de insanidade causada por algum grande perigo.\n\nComo um devoto pode estar num estado de insanidade por causa do amor extático é descrito no Décimo Canto, trigésimo capítulo, quarto verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* onde as *gopīs* procuravam Kṛṣṇa nas florestas de Vṛndāvana. As *gopīs* cantavam em voz alta as glórias de Kṛṣṇa e vagavam de uma floresta a outra em busca dEle. Elas sabiam que Kṛṣṇa não é localizado, mas onipenetrante. Ele está no céu, está na água, está no ar, e é a Superalma no coração de todos. Assim, as *gopīs* começaram a indagar a toda espécie de árvores e plantas sobre a Suprema Personalidade de Deus. Eis um exemplo de loucura extática por parte dos devotos.\n\nDe modo semelhante, há sintomas de doenças causados pelo amor extático. Essa condição é creditada pelos eruditos como *mahābhāva.* Essa condição altamente elevada é também chamada de *divyonmāda,* ou loucura transcendental.\n\n## Esquecimento\n\nQuando Kṛṣṇa estava ausente de Vṛndāvana e permanecia em Mathurā, Śrīmatī Rādhārāṇī Lhe enviou a notícia de que Sua mãe, a rainha de Braja, sentia tamanha separação dEle que havia espuma saindo de sua boca, como a espuma na praia do oceano. E, às vezes, ela erguia os braços como as ondas do oceano e, por causa de seus intensos sentimentos de separação, rolava no chão e produzia um tumultuoso som rugidor. E, às vezes, permanecia completamente em silêncio, como um mar calmo. Esses sintomas de separação de Kṛṣṇa são chamados de *apasmāra,* ou esquecimento. A pessoa esquece-se completamente de sua posição quando manifesta esses sintomas no amor extático.\n\nCerta vez, outra mensagem foi enviada a Kṛṣṇa, informando-O de que, depois que Ele matara Kaṁsa, um dos amigos demônios de Kaṁsa enlouquecera. Esse demônio espumava pela boca, agitava os braços e rolava no chão. Essa demonstração demoníaca está em relação com Kṛṣṇa num humor medonho. Essa doçura, ou sabor, é uma das relações indiretas com Kṛṣṇa. As primeiras cinco espécies de relações são chamadas de diretas, e as outras sete são chamadas de indiretas. De um modo ou de outro, o demônio deve ter tido alguma relação com Kṛṣṇa, pois esses sintomas se desenvolveram quando ele ouviu que Kṛṣṇa já matara Kaṁsa. Śrīla Rūpa Gosvāmī observa que há também excelência transcendental nessa espécie de sintoma.\n\n## Doença\n\nQuando Kṛṣṇa estava ausente de Vṛndāvana e permanecia em Mathurā, alguns de Seus amigos O informaram: \"Querido Kṛṣṇa, por causa de sua separação de Ti, os habitantes de Braja estão tão afligidos que parecem estar doentes. Seus corpos estão febris, e eles não conseguem mover-se apropriadamente. Estão simplesmente deitados no chão, respirando pesadamente.\"\n\nNo Décimo Canto, décimo segundo capítulo, quadragésimo primeiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Mahārāja Parīkṣit perguntou sobre o Senhor Ananta e, ao ouvir essa pergunta, Śukadeva Gosvāmī começou a mostrar sintomas de desfalecimento. Ainda assim, ele se conteve e respondeu à pergunta do rei Parīkṣit com voz branda. Essa condição de desfalecimento é descrita como um estado febril resultante do prazer extático.\n\nHá outra afirmação no *Śrīmad-Bhāgavatam* que fala das donzelas de Braja encontrando-se com Kṛṣṇa no sagrado lugar de Kurukṣetra, muitos anos após seus passatempos de infância. Quando se encontraram naquele sagrado lugar, todas as *gopīs* ficaram estupefatas com a ocorrência de um eclipse solar. Sua respiração, o piscar dos olhos e todas as atividades semelhantes cessaram, e elas ficaram diante de Kṛṣṇa exatamente como estátuas. Eis outro exemplo de uma condição doente resultante do exuberante prazer transcendental."}
{"ref": "nod/30", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/30/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "30. Outras Características do Amor Extático por Kṛṣṇa", "purport": "Há a seguinte afirmação no Haṁsadūta: \"Certo dia, quando Śrīmatī Rādhārāṇī sentia muita aflição por causa de Sua separação de Kṛṣṇa, Ela foi à margem do Yamunā com algumas de Suas amigas. Ali, Rādhārāṇī viu uma cabana onde Ela e Kṛṣṇa haviam experimentado muitos prazeres amorosos e, ao recordar-se daqueles incidentes, Ela imediatamente foi tomada de tontura. Esta tontura era muito visivelmente proeminente.\" Este é um exemplo de confusão causada pela separação.\n\n\n\nDe modo semelhante, há uma afirmação que descreve a confusão causada pelo temor. Estes sintomas foram exibidos por Arjuna quando ele viu a forma universal de Kṛṣṇa no campo de batalha de Kurukṣetra. Sua confusão era tão forte que seu arco e suas flechas caíram de sua mão, e ele não conseguia perceber nada com clareza.\n\n\n\nCerta vez, o demônio Bakāsura assumiu a forma de um pato muito grande e abriu sua boca a fim de engolir Kṛṣṇa e todos os meninos vaqueiros. Quando Kṛṣṇa estava entrando na boca do demônio, Balarāma e os outros meninos vaqueiros quase desmaiaram e pareciam não ter vida. Mesmo que sejam iludidos por alguma cena terrível ou por qualquer ocorrência acidental, os devotos nunca se esquecem de Kṛṣṇa. Mesmo no maior perigo, eles conseguem lembrar-se de Kṛṣṇa. Este é o benefício da consciência de Kṛṣṇa: mesmo na hora da morte, quando todas as funções do corpo se desarticulam, o devoto pode lembrar-se de Kṛṣṇa em sua consciência mais íntima, e isto o salva de cair na existência material. Dessa maneira, a consciência de Kṛṣṇa imediatamente leva a pessoa da plataforma material ao mundo espiritual.\n\n\n\nA esse respeito, há uma afirmação sobre pessoas que morreram em Mathurā: \"Estas pessoas tinham uma leve exaltação na respiração, seus olhos estavam bem abertos, as cores de seus corpos mudaram, e elas começaram a pronunciar o santo nome de Kṛṣṇa. Nesta condição, elas abandonaram seus corpos materiais.\" Estes sintomas são manifestações que precedem a morte.\n\n\n\nQuando, devido à autossatisfação ou à aversão pelo esforço excessivo, uma pessoa não cumpre seu dever apesar de ter energia para tal, ela é chamada de preguiçosa. Esta preguiça também se manifesta no amor extático por Kṛṣṇa. Por exemplo, quando alguns brāhmaṇas foram solicitados por Nanda Mahārāj a circundar a colina Govardhana, eles lhe disseram que estavam mais interessados em oferecer bênçãos do que em circundar a colina Govardhana. Este é um exemplo de preguiça causada pela autossatisfação.\n\n\n\nCerta vez, quando Kṛṣṇa, juntamente com Seus amigos vaqueiros, estava travando uma batalha simulada, Subala mostrou os sintomas de fadiga. Kṛṣṇa imediatamente disse a Seus outros amigos: \"Subala está se sentindo cansado demais de lutar de brincadeira comigo. Portanto, por favor, não o perturbem mais convidando-o a lutar.\" Este é um exemplo de preguiça causada pela aversão pelo esforço excessivo.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 21º Capítulo, 13º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, há uma apreciação por parte das gopīs da inércia das vacas em Vṛndāvana. As gopīs viram que as vacas estavam ouvindo as doces canções vibradas pela flauta de Kṛṣṇa e pareciam estar bebendo o néctar destes sons transcendentais. Os bezerros ficaram estupefatos, e esqueceram-se de beber o leite das tetas. Seus olhos pareciam estar abraçando Kṛṣṇa, e havia lágrimas em seus olhos. Este é um exemplo de inércia resultante de ouvir as vibrações transcendentais da flauta de Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando Lakṣmaṇā ficou perturbada ao ouvir palavras contra Kṛṣṇa, ela permaneceu inerte e não moveu as pálpebras. Este é outro exemplo de inércia causada por ouvir.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 71º Capítulo, 35º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, há um relato da perplexidade do rei Yudhiṣṭhira após ele ter trazido Kṛṣṇa para o seu lar com o maior respeito. O rei Yudhiṣṭhira ficou muito perplexo por causa de seu prazer transcendental de ter Kṛṣṇa presente em sua casa. De fato, ao receber Kṛṣṇa, o rei Yudhiṣṭhira esqueceu-se de si mesmo. Este é um exemplo de inércia resultante do êxtase de ver Kṛṣṇa.\n\n\n\nHá outro exemplo no Décimo Canto, 39º Capítulo, 34º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Quando Kṛṣṇa estava indo para Mathurā, todas as gopīs estavam de pé atrás de Kṛṣṇa e, ao verem a quadriga partir, ficaram ali estupefatas e não se moveram. Elas permaneceram assim até que a bandeira da quadriga e a poeira levantada por suas rodas se tornaram invisíveis.\n\n\n\nKṛṣṇa certa vez foi assim interpelado por Seu amigo: \"Meu querido Mukunda [Kṛṣṇa], por estarem separados de Ti, os meninos vaqueiros estão de pé como Deidades negligenciadas na casa de um brāhmaṇa profissional.\" Há uma classe de brāhmaṇas profissionais que se dedicam à adoração da Deidade como um meio de ganhar seu sustento. Os brāhmaṇas desta classe não estão muito interessados na Deidade; estão interessados principalmente no dinheiro que podem ganhar como homens santos. Assim, as Deidades adoradas por tais brāhmaṇas profissionais não são adequadamente decoradas, Suas vestes não são trocadas e Seus corpos não são limpos. Elas parecem sujas e não são muito atraentes. Na verdade, a adoração da Deidade deve ser feita com muito cuidado: as vestes devem ser trocadas diariamente e, na medida do possível, deve haver ornamentos. Tudo deve estar tão limpo que a Deidade seja atraente para todos os visitantes. Aqui se dá o exemplo das Deidades na casa de um brāhmaṇa profissional porque tais Deidades não são nada atraentes. Os amigos de Kṛṣṇa, na ausência de Kṛṣṇa, pareciam-se com tais Deidades negligenciadas.\n\n\n\nQuando Rādhārāṇī foi apresentada a Kṛṣṇa pela primeira vez, Ela se sentiu muito tímida. Uma de Suas amigas dirigiu-se a Ela desta maneira: \"Minha querida amiga, Tu já Te vendeste, juntamente com toda a Tua beleza, a Govinda. Agora Tu não deves ser tímida. Por favor, olha para Ele alegremente. Aquele que vendeu um elefante a outra pessoa não deve fazer uma disputa mesquinha sobre a venda do tridente que controla o elefante.\" Este tipo de timidez deve-se a uma nova apresentação no amor extático por Kṛṣṇa.\n\n\n\nO rei celestial Indra, ao ser derrotado em sua luta com Kṛṣṇa pela posse da flor pārijāta, ficou muito tímido por causa de sua derrota. Ele estava de pé diante de Kṛṣṇa, inclinando a cabeça, quando Kṛṣṇa disse: \"Está bem, Indra, podes levar esta flor pārijāta. Caso contrário, não conseguirás mostrar o rosto diante de tua esposa, Śacīdevī.\" A timidez de Indra deveu-se à derrota. Em outro exemplo, Kṛṣṇa começou a elogiar Uddhava por suas várias elevadas qualificações. Ao ser elogiado por Kṛṣṇa, Uddhava também inclinou a cabeça timidamente.\n\n\n\nNo Hari-vaṁśa, Satyabhāmā, sentindo-se desprezada pela elevada posição de Rukmiṇī, disse: \"Meu querido Kṛṣṇa, a Montanha Raivataka está sempre cheia de flores primaveris, mas, agora que me tornei persona non grata para Ti, de que me serve contemplá-las?\" Este é um exemplo de timidez resultante de ter sido derrotada.\n\n\n\nHá um sintoma de amor extático conhecido como dissimulação, ou a tentativa de ocultar a própria verdadeira condição mental mostrando externamente outra atitude. Neste estado de espírito, a pessoa tenta esconder sua mente olhando para diferentes direções, esforçando-se desnecessariamente por algo que é impossível, ou usando palavras que encobrem seus verdadeiros pensamentos. Segundo os ācāryas peritos no estudo das atividades psicológicas, estas tentativas de ocultar as próprias afeições verdadeiras são outra parte do sentimento extático por Kṛṣṇa.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 32º Capítulo, 14º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Śukadeva Gosvāmī afirma: \"Meu querido rei, as gopīs eram sempre belas e adornadas com sorrisos íntimos e trajes sedutores. Em seus movimentos, destinados a dar ímpeto aos sentimentos lascivos, elas às vezes pressionavam a mão de Kṛṣṇa em seus colos, e às vezes mantinham Seus pés de lótus sobre seus seios. Após fazerem isso, conversavam com Kṛṣṇa como se estivessem muito zangadas com Ele.\"\n\n\n\nHá outro exemplo desta dissimulação no amor extático. Quando Kṛṣṇa, o supremo brincalhão, plantou a árvore pārijāta no pátio de Satyabhāmā, Rukmiṇī, a filha do rei Vidarbha, ficou muito zangada, mas, devido a seu comportamento naturalmente gentil, não expressou nada. Ninguém conseguia compreender a verdadeira condição mental de Rukmiṇī. Este é um exemplo de dissimulação competitiva.\n\n\n\nHá outro exemplo no Primeiro Canto, 11º Capítulo, 28º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Após entrar em Dvārakā, Kṛṣṇa foi recebido de diferentes maneiras por diferentes membros de Sua família. Ao verem seu esposo a distância, as rainhas de Dvārakā imediatamente O abraçaram dentro de suas mentes e lentamente passaram os olhos sobre Ele. À medida que Kṛṣṇa se aproximava, elas empurravam seus filhos para a frente para abraçá-Lo. Outras tentavam, por timidez, não derramar lágrimas, mas mesmo assim não conseguiam impedir que as lágrimas deslizassem. Este é um exemplo de dissimulação causada pela timidez.\n\n\n\nEm outra ocasião, quando Śrīmatī Rādhārāṇī pensou que Kṛṣṇa estava envolvido com outra mulher, Ela se dirigiu à Sua amiga desta maneira: \"Minha querida amiga, tão logo penso em Kṛṣṇa, o menino vaqueiro, apegado a alguma outra mulher, sou tomada de temor e os pelos de Meu corpo se arrepiam. Devo ser muito cuidadosa para que Kṛṣṇa não Me veja em tais momentos.\" Este é um exemplo de dissimulação causada pela timidez e pelo comportamento diplomático.\n\n\n\nAfirmou-se: \"Embora Śrīmatī Rādhārāṇī tivesse desenvolvido uma profunda afeição amorosa por Kṛṣṇa, Ela escondeu Sua atitude no âmago de Seu coração, de modo que os outros não pudessem detectar Sua verdadeira condição.\" Este é um exemplo de dissimulação causada pela gentileza.\n\n\n\nCerta vez, quando Kṛṣṇa e Seus amigos vaqueiros desfrutavam de uma conversa amistosa, Kṛṣṇa começou a dirigir-se a Seus associados em linguagem informal. Naquele momento, o servo de Kṛṣṇa, Patrī, também desfrutava da conversa. Mas então, lembrando-se de sua posição de servidão, Patrī inclinou-se diante de seu amo e, com grande respeito e controle, conteve seu sorriso. Este sorriso contido é um exemplo de dissimulação causada por uma atitude respeitosa.\n\n\n\nHá muitos sintomas de amor extático causados por lembrar-se de Kṛṣṇa. Por exemplo, um amigo de Kṛṣṇa O informou: \"Meu querido Mukunda, logo após observar uma nuvem azulada no céu, a Rādhārāṇī de olhos de lótus imediatamente começou a lembrar-se de Ti. E simplesmente por observar esta nuvem, Ela ficou ávida por Tua associação.\" Este é um exemplo de lembrar-se de Kṛṣṇa em amor extático por ver algo que se assemelha a Ele. A tez corporal de Kṛṣṇa é muito semelhante à tonalidade azulada de uma nuvem; assim, simplesmente por observar uma nuvem azulada, Śrīmatī Rādhārāṇī lembrou-se dEle.\n\n\n\nUm devoto disse que, mesmo quando não estava muito atento, às vezes, aparentemente por loucura, lembrava-se dos pés de lótus de Kṛṣṇa dentro de seu coração. Este é um exemplo de lembrança resultante da prática constante. Em outras palavras, os devotos que estão constantemente pensando nos pés de lótus de Kṛṣṇa, mesmo que estejam momentaneamente desatentos, verão a figura do Senhor Kṛṣṇa surgindo dentro de seus corações.\n\n\n\nMadhumaṅgala era um amigo íntimo de Kṛṣṇa proveniente da comunidade brāhmaṇa. Os amigos de Kṛṣṇa eram, em sua maioria, meninos vaqueiros pertencentes à comunidade vaiśya, mas havia outros que pertenciam à comunidade brāhmaṇa. Na verdade, em Vṛndāvana, a comunidade vaiśya e a comunidade brāhmaṇa são consideradas proeminentes. Este Madhumaṅgala um dia dirigiu-se a Kṛṣṇa desta forma: \"Meu querido amigo, posso ver que não estás atento às penas de pavão que estão caindo no chão e, ao mesmo tempo, estás indiferente às guirlandas de flores que Te são oferecidas. Acho que posso adivinhar a razão de Tua distração quando vejo Teus dois olhos voarem até os olhos de Śrīmatī Rādhārāṇī, assim como zangões negros voam para as flores de lótus.\" Este é um exemplo de uma sugestão argumentativa no amor extático.\n\n\n\nCerta vez, enquanto Kṛṣṇa caminhava, uma das associadas de Rādhārāṇī disse-Lhe: \"Minha querida amiga, achas que esta personalidade que caminha é uma árvore tāmala? Se Ele é uma árvore tāmala, então como é possível que Ele caminhe e seja tão belo? Então, esta personalidade poderia ser uma nuvem. Mas, se Ele é uma nuvem, então onde está a bela lua em seu interior? Nestas circunstâncias, creio que se pode admitir que esta pessoa é a mesma encantadora Personalidade de Deus por cuja vibração da flauta os três mundos são cativados. Ele deve ser o mesmo Mukunda que está de pé diante da colina Govardhana.\" Este é outro exemplo de uma apresentação argumentativa do amor extático.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 29º Capítulo, 26º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, quando Kṛṣṇa pediu a todas as gopīs que voltassem para seus lares, elas não gostaram disso. Por causa de seu pesar com isso, elas suspiravam profundamente, e seus belos rostos pareciam estar definhando. Nesta condição, elas permaneceram, sem fazer nenhum som. Elas começaram a riscar linhas no chão com os dedos dos pés e, com suas lágrimas, lavaram o unguento negro de seus olhos sobre seus seios, que estavam cobertos com pó vermelho de kuṅkuma. Este é um exemplo de ansiedade no amor extático.\n\n\n\nUm dos amigos de Kṛṣṇa certa vez O informou: \"Meu querido matador do demônio Mura, Tua bondosa e gentil mãe está muito ansiosa porque Tu não voltaste para casa e, com grande dificuldade, ela passou a noite constantemente sentada na plataforma do corredor de Tua casa. É certamente surpreendente como pudeste esquecer-Te de Tua mãe enquanto estás em algum lugar ocupado em Tuas atividades lúdicas!\" Este é outro exemplo de profunda ansiedade no amor extático.\n\n\n\nQuando mãe Yaśodā esperava muito ansiosamente que Kṛṣṇa voltasse de Mathurā, Mahārāj Nanda lhe deu este consolo: \"Minha querida Yaśodā, por favor, não te preocupes. Por favor, seca teu belo rosto semelhante a um lótus. Não há necessidade de respirares tão acaloradamente. Irei imediatamente com Akrūra ao palácio de Kaṁsa e trarei teu filho de volta para ti.\" Aqui está um exemplo de ansiedade no amor extático causada pela posição embaraçosa de Kṛṣṇa.\n\n\n\nNa seção Vaiśākha-māhātmya do *Padma Purāṇa*, um devoto afirma que, embora em alguns dos dezoito *Purāṇas* o processo de glorificar o Senhor Viṣṇu não seja mencionado, e se ofereça a glorificação de algum semideus, tal glorificação deve continuar por milhões de anos. Pois, quando alguém estuda os *Purāṇas* muito escrupulosamente, pode ver que, em última análise, o Senhor Viṣṇu é a Suprema Personalidade de Deus. Este é um exemplo de amor extático desenvolvido a partir da reflexão.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 68º Capítulo, 30º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, há um relato de Rukmiṇīdevī escrevendo uma carta a Kṛṣṇa solicitando-Lhe que a raptasse antes de seu casamento com outra pessoa. Naquela ocasião, o apego específico de Rukmiṇī por Kṛṣṇa foi expresso por ela da seguinte forma: \"Meu querido Senhor Kṛṣṇa, Tuas glórias transcendentais são cantadas por grandes sábios que estão livres da contaminação material e, em troca de tal glorificação, és tão bondoso que Te distribuis livremente a tais devotos. Assim como a pessoa pode elevar-se simplesmente por Tua graça, da mesma forma, apenas por Tua determinação, ela pode ficar privada de todas as bênçãos sob a influência do tempo eterno. Portanto, escolhi Tua Senhoria como meu esposo, deixando de lado personalidades como Brahmā e Indra — para não mencionar outros.\" Rukmiṇī intensificou seu amor por Kṛṣṇa simplesmente por pensar nEle. Este é um exemplo de reflexão no amor extático.\n\n\n\nQuando uma pessoa está plenamente satisfeita por ter alcançado o conhecimento, por ter transcendido toda a aflição ou por ter atingido o objetivo desejado de sua vida no transcendental serviço devocional a Deus — nesse momento, seu estado de constância, ou mente firme, chama-se dhṛti. Neste estágio, a pessoa não fica perturbada por nenhuma quantidade de perda, nem nada lhe parece estar por alcançar.\n\n\n\nSegundo a opinião de Bhartṛhari, o erudito sábio, quando uma pessoa é elevada a este estado de constância, ela pensa assim: \"Não desejo ser um servo do governo em alto posto. Ficarei satisfeito ainda que tenha de comer comida obtida mendigando. Preferirei permanecer nu, sem vestes apropriadas. Preferirei deitar-me no chão sem nenhum colchão. E, apesar de todas estas desvantagens, recusarei servir a quem quer que seja, nem mesmo ao governo.\" Em outras palavras, quando a pessoa está em amor extático com a Personalidade de Deus, ela pode suportar qualquer tipo de desvantagem calculada sob o conceito material da vida.\n\n\n\nNanda Mahārāj, o pai de Kṛṣṇa, costumava pensar: \"Em minha pastagem, a deusa da fortuna está pessoalmente presente, e possuo mais de um milhão de vacas que vagueiam de um lado para o outro. E, acima de tudo, tenho um filho como Kṛṣṇa, que é um trabalhador tão poderoso e maravilhoso. Portanto, embora eu seja um chefe de família, sinto-me tão satisfeito!\" Este é um exemplo de constância mental resultante da ausência de toda aflição.\n\n\n\nEm outro exemplo, um devoto diz: \"Estou sempre nadando no oceano nectáreo dos passatempos da Personalidade de Deus e, como tal, não tenho mais atração por rituais religiosos, desenvolvimento econômico, gratificação dos sentidos, ou mesmo a salvação última de fundir-se na existência do Brahman.\" Este é um exemplo da constância da mente devida a alcançar a melhor coisa do mundo. A melhor coisa do mundo é a absorção na consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nDescreve-se no *Viṣṇu Purāṇa* que, quando Akrūra veio levar Kṛṣṇa e Balarāma para Mathurā, apenas por ver Seus rostos ele ficou tão alegre que por todo o seu corpo havia sintomas de amor extático. Este estado chama-se felicidade.\n\n\n\nAfirma-se no Décimo Canto, 33º Capítulo, 12º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*: \"Ao ver que o braço de Kṛṣṇa estava colocado sobre seu ombro, uma das gopīs ocupadas na dança da rāsa ficou tão extaticamente feliz que beijou Kṛṣṇa em Sua face.\" Este é um exemplo de sentir felicidade por alcançar um objetivo desejado.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 71º Capítulo, 29º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, diz-se: \"Quando Kṛṣṇa veio pela primeira vez de Seu reino, Dvārakā, a Indraprastha, as jovens mulheres da cidade ficaram tão ávidas por vê-Lo que, mesmo à noite, quando estavam deitadas com seus esposos, não conseguiam conter sua ânsia. Embora não estivessem adequadamente vestidas e embora seus cabelos estivessem soltos e houvesse muitos afazeres domésticos a realizar, elas ainda assim abandonaram tudo e imediatamente foram para a rua ver Kṛṣṇa.\" Este é um exemplo de ânsia do amor extático.\n\n\n\nEm seu livro Stavāvalī, Śrī Rūpa Gosvāmī orou pela misericórdia de Rādhārāṇī, que ficou tão cativada pelas vibrações da flauta de Kṛṣṇa que imediatamente pediu informações sobre Seu paradeiro aos residentes da floresta de Vṛndāvana. Ao ver Kṛṣṇa pela primeira vez, Ela ficou repleta de tanto amor extático e prazer que começou a coçar Suas orelhas. As donzelas de Braja e Rādhārāṇī eram muito peritas em falar astuciosamente, de modo que, tão logo viam Kṛṣṇa, começavam suas conversas; e Kṛṣṇa, fingindo ir buscar algumas flores para elas, imediatamente deixou aquele lugar e entrou em uma caverna na montanha. Este é outro exemplo de ávidas trocas amorosas por parte tanto das gopīs quanto de Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa estava lutando com a serpente Kāliya, dançando sobre suas cabeças, Kāliya mordeu Kṛṣṇa na perna. Naquele momento, Garuḍa ficou enfurecido e começou a murmurar: \"Kṛṣṇa é tão poderoso que, simplesmente por Sua voz estrondosa, as esposas de Kāliya tiveram abortos. Porque meu Senhor foi insultado por esta serpente, desejo devorá-la imediatamente, mas não posso fazê-lo na presença de meu Senhor, porque Ele pode ficar zangado comigo.\" Este é um exemplo de ânsia de agir no amor extático como resultado de uma desonra a Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando Śiśupāla objetou à adoração de Kṛṣṇa na arena do rāja-sūya, num sacrifício organizado por Mahārāj Yudhiṣṭhira, Nakula, o irmão mais novo de Arjuna, disse: \"Uma pessoa que não pode tolerar a adoração de Kṛṣṇa é meu inimigo e possui uma natureza demoníaca. Portanto, desejo golpear com meu pé esquerdo sua larga cabeça, apenas para puni-lo mais fortemente do que o cetro de Yamarāja!\" Então Nakula começou a lamentar-se assim: \"Oh, toda a auspiciosidade ao Senhor Kṛṣṇa! Fico tão surpreso de ver que os condenados descendentes da dinastia Kuru, que tão ilegalmente ocuparam o trono do reino Kuru, estejam ao mesmo tempo criticando Kṛṣṇa com artifícios diplomáticos. Oh, isto é intolerável!\" Este é outro exemplo de ânsia causada por uma desonra a Kṛṣṇa.\n\n\n\nNo Vidagdha-mādhava, Kuṭilā, uma cunhada de Rādhārāṇī, começou a criticar Kṛṣṇa desta maneira: \"Kṛṣṇa, Tu estás de pé aqui, e Rādhārāṇī, que acaba de se casar com meu irmão, também está de pé aqui. Agora conheço muito bem ambos, então por que eu não deveria estar muito ansiosa por proteger minha cunhada de Teus olhos dançantes?\" Este é um exemplo de palavras desonrosas usadas para criticar Kṛṣṇa indiretamente.\n\n\n\nDe modo semelhante, algumas das gopīs certa vez começaram a dirigir-se a Kṛṣṇa com estas palavras desonrosas: \"Meu querido Kṛṣṇa, Tu és um ladrão de primeira classe. Portanto, por favor, deixa este lugar imediatamente. Sabemos que amas Candrāvalī mais do que a nós, mas não adianta elogiá-la em nossa presença! Por favor, não contamines o nome de Rādhārāṇī neste lugar!\" Este é outro exemplo de palavras desonrosas lançadas contra Kṛṣṇa no amor extático.\n\n\n\nHá outra afirmação no Décimo Canto, 31º Capítulo, 16º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Quando todas as gopīs saíram de seus lares para encontrar Kṛṣṇa na floresta de Vṛndāvana, Kṛṣṇa recusou-se a aceitá-las e pediu-lhes que voltassem para casa, dando-lhes alguma instrução moral. Naquele momento, as gopīs começaram a falar da seguinte forma: \"Meu querido Kṛṣṇa, há aflição extrema em estar fora de Tua presença, e há felicidade extrema simplesmente em ver-Te. Portanto, abandonamos todas os nossos esposos, parentes, irmãos e amigos, e simplesmente viemos a Ti, cativadas pelo som de Tua flauta transcendental. Ó infalível, é melhor que saibas qual é a razão de nossa vinda aqui. Em palavras claras, estamos aqui simplesmente porque fomos cativadas pelo doce som de Tua flauta. Somos todas belas moças, e Tu és tão tolo que estás rejeitando nossa associação. Não conhecemos ninguém, além de Ti mesmo, que perderia esta oportunidade de associar-se com jovens moças na calada da noite!\" Este é outro exemplo de insultos indiretos usados contra Kṛṣṇa no amor extático.\n\n\n\nNo Padyāvalī, uma das amigas de Rādhārāṇī certa vez dirigiu-se a Ela assim: \"Minha querida amiga, por favor, não fiques muito convencida por Kṛṣṇa ter decorado Tua testa com Sua própria mão. Pode ser que Kṛṣṇa ainda esteja atraído por alguma outra bela moça. Vejo que a decoração em Tua testa está muito bem feita, e assim parece que Kṛṣṇa não estava muito perturbado ao pintá-la. Caso contrário, Ele não poderia ter pintado linhas tão exatas!\" Este é um exemplo de desonra indireta causada pela boa fortuna de Rādhā.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 30º Capítulo, 26º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, há a seguinte afirmação: \"Quando as gopīs procuravam Kṛṣṇa e Rādhā após a dança da rāsa, elas começaram a falar entre si assim: 'Vimos as pegadas de Kṛṣṇa e Rādhā no solo de Vṛndāvana, e elas nos causam grande dor, porque Kṛṣṇa é tudo para nós. Mas aquela moça é tão astuta que O levou embora sozinha e está desfrutando de Seus beijos sem compartilhá-Lo conosco!' \" Este é outro exemplo de lançar palavras desonrosas contra Kṛṣṇa e Rādhā, amuando-se diante da boa fortuna de Śrīmatī Rādhārāṇī.\n\n\n\nÀs vezes, quando os meninos vaqueiros costumavam brincar nas florestas de Vṛndāvana, Kṛṣṇa brincava de um lado, e Balarāma brincava do outro. Havia competição e batalha simulada entre os dois grupos e, quando o grupo de Kṛṣṇa era derrotado por Balarāma, os meninos diziam: \"Se o grupo de Balarāma permanecer vitorioso, então quem no mundo pode ser mais fraco do que nós mesmos?\" Este é um exemplo de inveja no amor extático.\n\n\n\nNo Décimo Canto, 52º Capítulo, 33º verso, do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Rukmiṇī dirige uma carta a Kṛṣṇa da seguinte forma: \"Meu querido invencível Kṛṣṇa, meu dia de casamento está marcado para amanhã. Peço que venhas à cidade de Vidarbha sem Te anunciares. Então, faze com que Teus soldados e comandantes subitamente cerquem e derrotem toda a força do rei de Magadha e, adotando assim os métodos dos demônios, por favor, rapta-me e desposa-me.\"\n\n\n\nSegundo o sistema Védico, há oito tipos de casamento, dentre os quais um se chama rākṣasa-vivāha. O rākṣasa-vivāha refere-se a raptar uma moça e desposá-la à força, e é considerado um método demoníaco. Quando Rukmiṇī estava prestes a se casar com Śiśupāla por escolha de seu irmão mais velho, ela escreveu a carta acima a Kṛṣṇa, solicitando-Lhe que a raptasse. Este é um exemplo de impudência no amor extático por Kṛṣṇa.\n\n\n\nUma das gopīs disse: \"Que a doce flauta de Kṛṣṇa seja arrastada pelas ondas do Yamunā e caia no oceano! O doce som dessa flauta é tão impudente que nos faz perder toda a compostura diante de nossos superiores.\"\n\n\n\nToda noite, ao pôr do sol, Kṛṣṇa costumava voltar da pastagem onde apascentava as vacas. Às vezes, quando mãe Yaśodā não conseguia ouvir a doce vibração de Sua flauta, ela ficava muito ansiosa e, por causa disso, sentia tontura. Assim, a tontura causada pela ansiedade no amor extático por Kṛṣṇa também é possível.\n\n\n\nQuando Yaśodā amarrou Kṛṣṇa certa vez, ela começou a pensar: \"O corpo de Kṛṣṇa é tão macio e delicado, como pude amarrá-Lo com uma corda?\" Pensando isto, seu cérebro ficou perplexo, e ela sentiu tontura.\n\n\n\nAs gopīs foram aconselhadas por seus superiores a trancar as portas à noite, mas elas eram tão despreocupadas que não cumpriam esta ordem muito rigidamente. Às vezes, por pensarem em Kṛṣṇa, ficavam tão confiantes de estarem fora de todo perigo que se deitavam à noite nos pátios de suas casas. Este é um exemplo de tontura no amor extático devida à afeição natural por Kṛṣṇa.\n\n\n\nPode-se questionar por que os devotos de Kṛṣṇa seriam atacados por tontura, que costuma ser considerada um sinal do modo da ignorância. Para responder a esta pergunta, Śrī Jīva Gosvāmī disse que os devotos do Senhor Kṛṣṇa são sempre transcendentais a todos os modos da natureza material; quando sentem tontura ou adormecem, não se considera que estejam dormindo sob os modos da natureza, mas se aceita que estão num transe de serviço devocional. Há uma afirmação autorizada no Garuḍa Purāṇa sobre os yogīs místicos que estão sob o abrigo direto da Suprema Personalidade de Deus: \"Em todos os três estágios de sua consciência — a saber, vigília, sonho e sono profundo — os devotos estão absortos no pensamento da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, em sua completa absorção no pensamento de Kṛṣṇa, eles não dormem.\"\n\n\n\nUm devoto certa vez afirmou: \"Já conquistei o modo da ignorância, e agora estou na plataforma do conhecimento transcendental. Portanto, ocupar-me-ei somente em buscar a Suprema Personalidade de Deus.\" Este é um exemplo de vigilância no amor extático. A vigilância transcendental é possível quando a condição ilusória é completamente superada. Nesse estágio, ao entrar em contato com qualquer reação dos elementos materiais, tais como som, cheiro, tato ou paladar, o devoto percebe a presença transcendental da Suprema Personalidade de Deus. Nesta condição, os sintomas extáticos (isto é, o arrepiar dos pelos do corpo, o revirar dos globos oculares e o despertar do sono) são persistentemente visíveis.\n\n\n\nQuando Śrīmatī Rādhārāṇī viu Kṛṣṇa pela primeira vez, Ela subitamente tomou consciência de toda a felicidade transcendental, e as funções de Seus diferentes membros ficaram estupefatas. Quando Lalitā, Sua companheira constante, sussurrou em Seu ouvido o santo nome de Kṛṣṇa, Rādhārāṇī imediatamente abriu bem os olhos. Este é um exemplo de vigilância causada por ouvir o som do nome de Kṛṣṇa.\n\n\n\nUm dia, num humor de brincadeira, Kṛṣṇa informou Rādhārāṇī: \"Minha querida Rādhārāṇī, vou abandonar Tua companhia.\" Ao dizer isto, Ele imediatamente desapareceu e, por causa disto, Rādhārāṇī ficou tão aflita que a tonalidade de Seu corpo mudou, e Ela imediatamente caiu no solo de Vṛndāvana. Ela praticamente havia parado de respirar, mas, quando sentiu o aroma das flores no chão, Ela despertou em êxtase e levantou-se. Este é um exemplo de vigilância transcendental causada pelo olfato.\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa estava tocando o corpo de uma gopī, a gopī começou a dirigir-se à sua companheira assim: \"Minha querida amiga, de quem é esta mão que está tocando meu corpo? Eu havia ficado muito amedrontada após ver a floresta escurecida na margem do Yamunā, mas subitamente o toque desta mão me salvou de ataques histéricos.\" Este é um exemplo de vigilância causada pelo tato.\n\n\n\nUma das gopīs informou Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, quando Tu desapareceste da arena da dança da rāsa, nossa amiga mais querida, Rādhārāṇī, imediatamente caiu no chão e perdeu a consciência. Mas, depois disto, quando lhe ofereci alguns dos restos de Tua noz de bétel mastigada, Ela imediatamente recobrou a consciência com sintomas de júbilo em Seu corpo.\" Este é um exemplo de vigilância causada pelo paladar.\n\n\n\nCerta noite, Śrīmatī Rādhārāṇī estava falando num sonho. \"Meu querido Kṛṣṇa\", disse Ela, \"por favor, não preguez mais peças em Mim! Por favor, para! E, por favor, também não toques em Minhas vestes. Caso contrário, informarei às pessoas mais velhas, e revelarei todo o Teu comportamento travesso.\" Enquanto Ela falava assim num sonho, despertou subitamente e viu alguns de Seus superiores de pé diante de Si. Assim, Rādhārāṇī ficou envergonhada e inclinou a cabeça. Este é um exemplo de vigilância após despertar do sono.\n\n\n\nHá outro exemplo disto. Um mensageiro de Kṛṣṇa veio até Śrīmatī Rādhārāṇī enquanto Ela dormia, e Rādhārāṇī imediatamente despertou. De modo semelhante, quando Kṛṣṇa começou a soprar Sua flauta à noite, todas as gopīs, as belas filhas dos vaqueiros, imediatamente se levantaram de seu sono. Há uma comparação muito bela feita a esse respeito: \"A flor de lótus às vezes é cercada por cisnes brancos, e às vezes é cercada por vespas negras que estão coletando seu mel. Quando há um trovão no céu, os cisnes vão embora, mas as vespas negras permanecem para desfrutar das flores de lótus.\" A condição adormecida das gopīs é comparada aos cisnes brancos, e o som da flauta de Kṛṣṇa é comparado a uma vespa negra. Quando a flauta de Kṛṣṇa soou, os cisnes brancos, que representam a condição adormecida das gopīs, foram imediatamente vencidos, e o som de vespa negra da flauta começou a desfrutar da flor de lótus da beleza das gopīs."}
{"ref": "nod/31", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/31/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "31. Sintomas Adicionais", "purport": "## Sintomas Adicionais\n\nTodos os trinta e um sintomas de amor extático mencionados acima são chamados de *vyabhicārī,* ou perturbadores. Todos esses sintomas referem-se a condições aparentemente perturbadas, mas, mesmo em tais condições perturbadas, há agudo amor extático por Kṛṣṇa. Esses sintomas, contudo, podem ser divididos em três grupos: primeira classe, segunda classe e terceira. Há muitos sintomas perturbadores no amor extático, tais como inveja, ansiedade, orgulho, ciúme, conclusão, covardia, perdão, impaciência, anseio, arrependimento, dúvida e impudência. Esses estão incluídos nas trinta e uma condições do amor extático. Śrīla Rūpa Gosvāmī analisou muito bem as diferentes espécies de sintomas perturbadores e, embora seja muito difícil encontrar os equivalentes exatos em inglês para muitas das palavras sânscritas aqui usadas, sua análise será agora apresentada.\n\nQuando alguém se torna malicioso ao ver o progresso da vida de outrem, seu estado de espírito é geralmente chamado de inveja. Quando alguém se assusta ao ver um raio no céu, esse temor traz consigo a ansiedade. Portanto, temor e ansiedade podem ser tomados como um só. Quando alguém quer esconder sua mentalidade real, isso é chamado de *avahittha,* ou ocultação. Quando uma pessoa quer exibir superioridade, isso é chamado de orgulho. Ambos podem ser classificados sob a pretensão. Numa atitude pretensiosa, encontram-se tanto *avahittha* quanto orgulho. Quando alguém não consegue tolerar uma ofensa cometida por outrem, isso é chamado de *amarṣa,* e, quando alguém não consegue tolerar a opulência de outrem, isso é chamado de ciúme. Ciúme e *amarṣa* são ambos causados pela intolerância. Quando alguém é capaz de estabelecer o sentido correto de uma palavra, isso pode ser chamado de conclusividade. E, antes de tal determinação conclusiva do sentido, deve haver reflexão ponderada. Por isso, o ato de considerar está presente durante o estabelecimento de uma conclusão. Quando alguém se apresenta como ignorante, isso é chamado de humildade, e, quando há ausência de entusiasmo, isso é chamado de covardia. Por isso, na humildade, há também covardia. Quando a mente está firme, isso é chamado de perseverança, e, quando alguém consegue tolerar as ofensas dos outros, isso também é chamado de perseverança. Portanto, perdão e perseverança podem ser sinônimos. Quando alguém está ansioso pela passagem do tempo, isso é chamado de impaciência, e, quando alguém vê algo maravilhoso, diz-se que fica tomado de assombro. A impaciência pode ser causada por se ficar tomado de assombro, e, assim, impaciência e ficar tomado de assombro podem ser sinônimos. Quando a ansiedade está em seu estágio latente, isso é chamado de anseio. Portanto, ansiedade e anseio também podem ser sinônimos. Quando alguém se torna arrependido de alguma ofensa, seu sentimento é chamado de acanhamento. Dessa maneira, acanhamento e arrependimento podem ser sinônimos. A dúvida é um dos aspectos do argumento. Após exibir impudência, a pessoa fica inquieta. Por isso, inquietação e impudência podem ser sinônimos.\n\nQuando todos esses sintomas estão incluídos no amor extático, são chamados de *añcārī,* ou sintomas extáticos continuamente existentes. Todos esses sintomas são transcendentais, e exibem-se de diferentes maneiras, agindo e interagindo sob diferentes condições. Eles são como a reciprocidade de amor entre o amante e a amada.\n\nQuando uma pessoa está invejosa ou difamada, pode haver uma mudança na cor do corpo. Isso pode ser classificado como *vibhāva,* ou subêxtase. Às vezes, ilusão, desfalecimento e forte ansiedade são também considerados *vibhāva.* Quando há muitos desses sintomas, eles podem simplesmente ser agrupados sob o amor extático.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī diz que susto, sono, fadiga, preguiça e a loucura da embriaguez são às vezes agrupados sob os sintomas contínuos do amor extático, e devem-se a uma forte atração.\n\nFalso argumento, determinação, firmeza, recordação, alegria, ignorância, humildade e inconsciência são também diferentes sintomas do amor extático. A dependência também é agrupada sob o amor extático, e esta pode ser dividida em dependência superior e dependência inferior. As diferenciações diretas entre dependência superior e inferior são determinadas por Rūpa Gosvāmī e serão apresentadas em seu devido tempo.\n\nCerto devoto exclamou: \"Oh, não posso ver o distrito de Mathurā! Embora, simplesmente por ouvir o nome de Mathurā, os pelos de meu corpo se arrepiem, não posso ver o lugar. Então, de que servem meus olhos?\" Esta afirmação revela uma forte ansiedade de ver o distrito de Mathurā, resultante de um forte apego a Kṛṣṇa. Há outro exemplo desse forte apego por Kṛṣṇa, expresso por Bhīma quando ele começou a murmurar: \"Meus braços são exatamente como raios, mas, apesar destes braços, não pude esmagar Śiśupāla enquanto ele blasfemava contra Kṛṣṇa. Portanto, de que servem estes braços fortes?\" Neste exemplo, Bhīma ficou irado, e, sendo influenciado por tal ira, seu desespero tornou-se uma causa de forte apego a Kṛṣṇa. Este exemplo pode ser descrito como forte apego por Kṛṣṇa em ira.\n\nQuando Arjuna testemunhou a forma universal de Kṛṣṇa, cujos resplandecentes dentes estavam praticamente devorando a própria existência do universo, a boca de Arjuna ficou seca. Naquele momento, Arjuna esqueceu-se de si mesmo e não conseguia compreender que era Arjuna, o amigo de Kṛṣṇa, embora estivesse sempre dependente da misericórdia de Kṛṣṇa. Este incidente é um exemplo de dependência inferior.\n\nÀs vezes, atividades medonhas também sustentam o forte amor extático por Kṛṣṇa. Esse estado de espírito é chamado de temor extático sob ilusão. No Décimo Canto, vigésimo terceiro capítulo, trigésimo segundo verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há a seguinte afirmação dos *brāhmaṇas* que realizavam sacrifícios: \"Todos nós nascemos em três condições vantajosas: estamos em elevadas famílias *brāhmaṇas,* recebemos cerimonialmente o cordão sagrado, e também fomos devidamente iniciados por um mestre espiritual. Mas, ai de nós, apesar de todas estas vantagens, estamos condenados. Até mesmo nossa observância de *brahmacarya* [celibato] está condenada.\" Os *brāhmaṇas* começaram, assim, a condenar suas próprias atividades. Eles perceberam que, apesar de serem tão elevados por nascimento, educação e cultura, ainda estavam sob o encanto da energia ilusória. Eles também admitiram que mesmo grandes *yogīs* que não são devotos do Senhor estão cobertos pela influência da energia material. Essa espécie de desespero sentido pelos *brāhmaṇas* que realizavam cerimônias ritualísticas não mostra praticamente nenhum apego por Kṛṣṇa. Há outro desespero, contudo, que mostra apego por Kṛṣṇa. Quando o demônio touro atacou as donzelas de Braja, elas começaram a clamar: \"Meu querido Kṛṣṇa — salva-nos, por favor! Estamos agora perdidas!\" Eis um desespero com apego por Kṛṣṇa.\n\nQuando o demônio Keśī foi assassinado por Kṛṣṇa, Kaṁsa ficou desesperado. Ele disse: \"Keśīdaitya era tão querido para mim quanto minha própria vida, mas ele foi morto por algum vaqueirinho que é rude, sem instrução e ignorante quanto à luta. Embora eu tenha derrotado o rei do céu sem dificuldade, ainda assim não conheço o valor da vida.\" Porque esse desespero tem um leve toque de atração por Kṛṣṇa, é considerado um reflexo de amor extático em desespero.\n\nCerta vez, Kaṁsa repreendeu Akrūra, dizendo: \"És tão tolo que estás aceitando a Suprema Personalidade de Deus como um vaqueirinho, simplesmente porque Ele derrotou alguma inofensiva serpente d'água! O menino pode ter erguido um seixo chamado colina de Govardhana, mas o que é mais surpreendente do que isso é tua afirmação de que este menino é a Personalidade de Deus!\" Eis um exemplo de um elemento maliciosamente opositor, causado pelo desespero no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nCerto devoto tentou consolar uma árvore *kadamba* quando esta lamentava porque Kṛṣṇa não havia tocado nem mesmo sua sombra. O devoto disse: \"Minha querida árvore *kadamba,* não te preocupes. Logo após derrotar a serpente Kāliya no rio Yamunā, Kṛṣṇa virá e satisfará teu desejo.\" Eis um exemplo de desespero inapropriado no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nGaruḍa, a águia, o transportador de Viṣṇu, certa vez disse: \"Quem pode ser mais puro do que eu? Onde há uma segunda ave como eu, tão hábil e competente? Kṛṣṇa pode não gostar de mim; Ele pode não desejar juntar-se a meu partido, mas, ainda assim, Ele tem de tirar proveito de minhas asas!\" Eis um exemplo de desespero no estado de espírito neutro do amor extático.\n\nOs sintomas do amor extático são às vezes agrupados sob quatro categorias — a saber, geração, conjunção, agregação e satisfação.\n\nKṛṣṇa certa vez disse a Rādhārāṇī: \"Minha querida amiga, quando tentaste encontrar-Te coMigo a sós pela manhã, Tua amiga Mekhalā permaneceu faminta de inveja. Vê só para ela!\" Quando Kṛṣṇa brincava com Rādhārāṇī dessa maneira, Rādhārāṇī moveu Suas belas sobrancelhas com irritação. Rūpa Gosvāmī ora para que todos sejam abençoados por esse movimento das sobrancelhas de Śrīmatī Rādhārāṇī. Eis um exemplo da geração de malícia no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nCerta noite, depois que o demônio Pūtanā fora morto, o bebê Kṛṣṇa pôde ser visto brincando sobre o peito dela. Ao ver isso, Yaśodā ficou estupefata por algum tempo. Eis um exemplo de uma conjunção de vários sintomas de amor extático. A conjunção pode ser auspiciosa ou inauspiciosa. Que o demônio Pūtanā tivesse sido morto era auspicioso, mas que Kṛṣṇa brincasse sobre o peito dela na calada da noite, sem ninguém para ajudá-lO em caso de problema, era inauspicioso. Yaśodā ficou presa entre a auspiciosidade e a inauspiciosidade.\n\nLogo depois que Kṛṣṇa aprendera a andar, Ele entrava e saía de casa muito frequentemente. Yaśodā ficou surpresa e disse: \"Esta criança é demasiadamente inquieta e não pode ser controlada! Ela está incessantemente perambulando pela vizinhança de Gokula [Vṛndāvana], e depois está voltando para dentro de casa. Vejo que a criança é muito destemida, mas, apesar de Seu destemor, estou ficando cada vez mais com medo de que Ela caia em algum perigo.\" Eis novamente um exemplo da conjunção de dois elementos opostos: a criança era muito destemida, mas, ao mesmo tempo, Yaśodā ficava temerosa de algum perigo. Aqui o perigo é a causa, e os sentimentos de Yaśodā estão em conjunção de dois sintomas opostos. Em outras palavras, Yaśodā sentia tanto felicidade quanto dúvida, ou crescente medo.\n\nQuando Devakī, a mãe de Kṛṣṇa, viu seu filho muito jubiloso na presença dos lutadores na arena de Kaṁsa, dois tipos de lágrimas deslizavam simultaneamente por suas faces: às vezes suas lágrimas eram quentes, e às vezes eram frias. Eis um exemplo de uma conjunção de júbilo e lamentação devida a diferentes causas do amor extático.\n\nCerta vez, quando Śrīmatī Rādhārāṇī estava parada na margem do rio Yamunā, na floresta de Vṛndāvana, Ela foi atacada por Kṛṣṇa, que era mais forte do que Ela. Embora externamente Ela expressasse um estado de espírito perturbado por esse incidente, dentro de Si estava sorrindo e sentindo grande satisfação. Externamente, Ela moveu Suas sobrancelhas e fez um espetáculo de rejeitar Kṛṣṇa. Nesse estado de espírito, Rādhārāṇī parecia muito bela, e Śrīla Rūpa Gosvāmī glorificou Sua beleza. Eis um exemplo de exibir sentimentos variados no amor extático, embora a causa seja apenas uma — Kṛṣṇa.\n\nÀs vezes, havia grandes festivais na casa de Nanda Mahārāja, e todos os habitantes de Vṛndāvana se reuniam para esses festivais. Durante um desses festivais, viu-se Śrīmatī Rādhārāṇī usando um colar de ouro que Lhe fora dado por Kṛṣṇa. Isso foi imediatamente notado tanto por mãe Yaśodā quanto pela mãe de Rādhārāṇī, pois o colar era comprido demais para o pescoço de Rādhārāṇī. Ao mesmo tempo, Rādhārāṇī podia ver Kṛṣṇa por perto, bem como Seu próprio esposo, Abhimanyu. Assim, todas essas coisas combinaram-se para fazer Rādhārāṇī sentir muita vergonha e, com o rosto enrugado, Ela começou a parecer muito bela. Neste caso, houve uma combinação de acanhamento, ira, júbilo e lamentação. Eis um exemplo de um agregado de sintomas de amor extático.\n\nKaṁsa certa vez disse: \"Que mal este menino pode fazer-me? Ele não tem poder.\" No momento seguinte, Kaṁsa foi informado de que todos os seus amigos haviam sido mortos pelo menino. Então Kaṁsa começou a pensar, perplexo: \"Devo ir imediatamente e render-me a Ele? Mas como pode um grande guerreiro fazer isso?\" No momento seguinte, ele pensou: \"Por que eu deveria ter medo *dEle*? Ainda há tantos lutadores de prontidão para apoiar-me.\" Mas, no momento seguinte, começou a ponderar: \"O menino certamente não é comum, pois ergueu a colina de Govardhana com Sua mão esquerda. Então, o que posso fazer a esse respeito? Deixa-me ir a Vṛndāvana e infligir dores a todos os residentes de lá. Mas, ainda assim, não posso nem mesmo sair, pois meu coração está tremendo de medo deste menino!\" Essa condição da mente de Kaṁsa revela um exemplo de orgulho, lamentação, humildade, determinação, recordação, dúvida, ira e medo. Na verdade, oito diferentes sintomas compunham a condição mental de Kaṁsa. Eis outro exemplo de um agregado de sintomas no desesperado amor extático.\n\nCerto devoto chefe de família disse certa vez: \"Meu Senhor, sou tão miserável que estes dois olhos jamais desejam ver a gloriosa cidade de Mathurā. Por isso, meus olhos estão de fato condenados. Sou bem instruído, mas minha instrução simplesmente foi usada no serviço ao governo. Não considerei o formidável tempo, mais forte do que qualquer outra coisa, que cria e aniquila tudo. A quem deixarei toda a minha riqueza e fortuna? Estou ficando cada vez mais velho. Que farei? Devo executar o serviço devocional daqui de casa? Isso não posso fazer, pois minha mente está sendo atraída pela transcendental terra de Vṛndāvana.\"\n\nEis um exemplo de desespero, orgulho, dúvida, paciência, lamentação, determinação e ânsia — uma agregação de sete diferentes sintomas no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nHá um provérbio em sânscrito que diz: \"O desapontamento dá origem à maior satisfação.\" Em outras palavras, quando o sentimento ou a ambição de alguém se torna grande demais e não é satisfeito senão após uma tribulação aparentemente desesperadora, isso é tomado como a maior satisfação. Certa vez, os vaqueirinhos em Vṛndāvana procuravam Kṛṣṇa em vão por muito tempo e, por essa razão, seus rostos enegreceram, e suas tezes pareciam desbotadas. Justamente então, eles puderam ouvir na colina uma fraca vibração da flauta de Kṛṣṇa. Imediatamente, todos eles ficaram muito alegres. Eis um exemplo de satisfação em meio ao desapontamento.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī diz que, embora não tenha conhecimento perito acerca dos sons, dos significados e das doçuras dos sintomas do amor extático, ele procurou dar alguns exemplos de diferentes variedades de amor por Kṛṣṇa. Ele afirma ainda que os trinta e um sintomas perturbadores do amor extático, somados a nove outros sintomas, todos juntos equivalem a quarenta sintomas primários do amor extático. Esses sintomas criam transformações das atividades corporais, bem como movimentos dos sentidos. Todos eles podem ser aceitos como diferentes sentimentos do coração. Às vezes, alguns dos sentimentos são bastante naturais. Às vezes, alguns dos sentimentos são apenas aparições temporárias. Aqueles sintomas que são muito naturais permanecem sempre, tanto dentro quanto fora do devoto.\n\nAssim como se pode detectar a cor do corante em que um pano foi mergulhado simplesmente olhando para o pano, da mesma forma, simplesmente por compreender os diferentes sinais dessas características sintomáticas, pode-se compreender a posição real. Em outras palavras, o apego por Kṛṣṇa é um só; não obstante, porque existem diferentes espécies de devotos, tal apego manifesta-se em muitas variedades. Assim como um tecido tingido de vermelho parece vermelho, da mesma forma a aparição temporária de certo tipo de sentimento pode ser detectada ou observada pelo sintoma extático específico. De fato, todos os diferentes humores e doçuras dos devotos possuem vários sentimentos específicos dentro da mente. E, de acordo com essas diferenças, os sintomas do amor extático aparecem em diferentes formas e graus. Se o coração de alguém é altamente elevado, grave e magnânimo, ou se o coração de alguém é rude e tosco, diferentes sintomas de amor extático aparecerão, influenciados pela condição do coração. Na verdade, as pessoas geralmente não conseguem compreender tais diferentes qualidades de mentalidade, mas, quando o coração de alguém é muito brando ou gentil, esses sintomas tornam-se muito facilmente visíveis, e pode-se compreender muito claramente. O coração de alguém que é altamente elevado e grave é comparado ao ouro. Se o coração de alguém é muito brando e gentil, seu coração é comparado a um chumaço de algodão. Quando há uma sensação extática dentro da mente, o coração de ouro, ou coração grave, não fica agitado, mas o coração brando imediatamente fica agitado.\n\nPara oferecer outro exemplo, um coração grave e magnânimo é comparado a uma grande cidade, e um coração brando, a uma cabana insignificante. Pode haver muitas luzes, ou mesmo grandes elefantes, na grande cidade, mas ninguém lhes dará atenção particular. Mas, quando tais luzes ou elefantes são vistos perto de uma pequena cabana, todos podem distintamente apontá-los.\n\nA dureza do coração é comparada a um raio, ao ouro e à goma-laca. O raio é muito forte e jamais se torna brando. De modo semelhante, os corações daqueles que se ocupam em severas austeridades e penitências não se tornam abrandados muito facilmente. O coração de ouro derrete-se a alta temperatura, como no amor extático. E o coração de goma-laca derrete-se muito facilmente a uma leve temperatura.\n\nA brandura do coração é comparada ao mel, à manteiga e ao néctar. E a condição da mente é comparada à luz do sol. Assim como o mel e a manteiga se derretem mesmo a uma leve luz do sol, da mesma forma as pessoas de coração brando derretem-se facilmente. O néctar, contudo, é por natureza sempre líquido. E os corações daqueles que estão em puro amor extático por Kṛṣṇa são por natureza sempre liquefeitos, exatamente como o néctar.\n\nUm devoto puro de Kṛṣṇa está sempre especificamente qualificado com qualificações nectáreas e, às vezes, com as qualificações de manteiga e mel. No conjunto, todas as diferentes condições do coração mencionadas acima podem ser derretidas sob certas circunstâncias, assim como um duro diamante às vezes é derretido por uma combinação de certos produtos químicos. No *Dāna-keli-kaumudī,* afirma-se: \"Quando o amor se desenvolve no coração de um devoto, ele não pode conter a transformação de seus sentimentos. É exatamente como ao nascer da lua, quando a maré vazante do oceano não pode ser contida: imediatamente deve haver movimento de altas ondas.\" Embora, em seu estado natural, o oceano seja sempre muito grave e insondável, quando a lua nasce, nada pode conter a agitação do oceano. De modo semelhante, aqueles que são devotos puros não podem, em hipótese alguma, conter os movimentos de seus sentimentos interiores."}
{"ref": "nod/32", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/32/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "32. Sintomas de Êxtase Contínuo", "purport": "O êxtase contínuo do amor pode permanecer como um rei poderoso, subjugando todas as manifestações temporárias do amor, bem como quaisquer elementos opostos de ira. Ele pode ser exibido direta ou indiretamente e, assim, o amor extático pode ser descrito como direto ou indireto. Esses sintomas do amor extático só são possíveis quando a pessoa está plenamente situada numa posição transcendental. O amor extático direto pode ser dividido em dois grupos — a saber, egoísta e altruísta.\n\n\n\nQuando sintomas não contraditórios do amor extático se manifestam distintamente, quaisquer sintomas contraditórios criam uma sensação de abominação. O amor extático contraditório chama-se egoísta. Aquele amor extático que pode ajustar todos os sintomas contraditórios ou não contraditórios chama-se amor altruísta direto. Esses sintomas altruístas podem novamente ser divididos em cinco grupos: neutralidade, servidão, fraternidade, paternidade e amor conjugal. Tal amor extático assume um modo particular em contato com diferentes objetos de amor.\n\n\n\nA neutralidade pode subdividir-se ainda mais em geral, transparente e pacífica. Uma atração por Kṛṣṇa por parte das pessoas em geral ou por parte das crianças não pode assumir nenhuma posição específica ou satisfatória. Ela pode manifestar-se às vezes no tremor do corpo e na mudança da cor dos olhos (para vermelho, branco, etc.), embora não haja sintoma de nenhuma afeição particular.\n\n\n\nUm homem idoso foi informado por um jovem: \"Olha só como esta criança — de apenas três anos de idade — está tão jubilosa! Simplesmente por ver Kṛṣṇa, ela está correndo tão velozmente, fazendo um som tumultuoso. Olha só!\" Este é um exemplo de amor extático neutro no coração de uma criança, sem nenhuma subdivisão específica. Devido aos diferentes tipos de atração por Kṛṣṇa, há diferentes variedades de devotos. Seus sintomas manifestam-se transparentemente, tal como as joias.\n\n\n\nDiz-se que um grande devoto brāhmaṇa às vezes se dirigia à Suprema Personalidade de Deus como amo, e, às vezes, brincava com o Senhor, usando diferentes tipos de palavras familiares; às vezes, ele protegia o Senhor com uma afeição filial, e, às vezes, clamava ao Senhor, dirigindo-se ao Senhor como seu amado; e, às vezes, meditava no Senhor como a superalma. Isto significa que o brāhmaṇa expressava seus sintomas amorosos extáticos de diferentes maneiras em diferentes momentos. Mas, em cada caso, por causa do amor extático, o brāhmaṇa imergia-se no oceano da felicidade e situava-se em amor puro. Assim, ele era um meio transparente, como uma joia que mostra a realidade em cores variadas de acordo com sua própria natureza.\n\n\n\nQuando o grande sábio Nārada estava glorificando os passatempos do Senhor com sua vīṇā, os quatro Kumāras, encabeçados por Sanaka, embora imersos na concepção impessoal do Brahman, tremiam todos. Outro devoto certa vez exclamou: \"Embora eu possa alcançar a liberação simplesmente por servir os devotos, minha mente ainda está muito ansiosa por ver a Suprema Personalidade de Deus, cuja tonalidade corporal é tal como uma nuvem escura.\" Quando um devoto está tão ansioso por contatar a Suprema Personalidade de Deus, isso também pode ser aceito como um sintoma de amor neutro.\n\n\n\nGeralmente, um devoto do Senhor Kṛṣṇa pode ser colocado em um de três grupos. Um grupo consiste naqueles que são completamente dependentes da afeição misericordiosa da Suprema Personalidade de Deus; outro grupo consiste nos devotos que se relacionam com Kṛṣṇa em termos amistosos; e o terceiro grupo consiste naqueles que se relacionam com Kṛṣṇa como Seu superior, com afeição paternal. Estas três classes de devotos desenvolvem gradualmente diferentes relacionamentos de doce sabor transcendental com a Personalidade de Deus. Quando a atração por Kṛṣṇa se baseia em apenas uma disposição particular, isso se chama kevala, ou estado puro. Quem está neste estado puro de serviço devocional desenvolve gradualmente o desejo de seguir os passos de um associado eterno de Kṛṣṇa, por exemplo, de seguir os passos de Rasāla, o assistente pessoal de Kṛṣṇa em Goloka Vṛndāvana, ou de seguir os amigos de Kṛṣṇa, como Śrīdāmā e Sudāmā, ou de seguir Nanda e Yaśodā, devotos na paternidade. O amor extático por Kṛṣṇa nunca se manifesta diretamente com o próprio Kṛṣṇa. O devoto tem de seguir os passos dos associados eternos de Kṛṣṇa em Goloka Vṛndāvana.\n\n\n\nQuando os doces sabores transcendentais em relacionamento com Kṛṣṇa se misturam (por exemplo, quando os relacionamentos com Kṛṣṇa em amizade, em servitude e em amor paternal se misturam), o resultado se chama doce sabor ou sabor misto. Tais sabores transcendentais mistos manifestam-se em devotos como Uddhava, Bhīma e Mukharā, a assistente pessoal de mãe Yaśodā. Embora os doces sabores devocionais às vezes sejam encontrados em misturas, sempre se encontra um doce sabor particular como fator proeminente e constante. Esse doce sabor proeminente deve ser aceito como o principal relacionamento do devoto com Kṛṣṇa. Por exemplo, Uddhava está em relacionamento com Kṛṣṇa como amigo, mas, no caráter de Uddhava, um traço de servidão a Kṛṣṇa também é visível. Tal amizade chama-se amizade em reverência. A amizade tipificada por Śrīdāmā e Sudāmā, contudo, é o critério da amizade sem nenhum matiz de reverência.\n\n\n\n\n\nOs devotos que sempre pensam em Kṛṣṇa como um superior estão em amor extático subordinado. Para tal devoto, o conceito de inferioridade ao Senhor é muito proeminente, e ele raramente se interessa por qualquer outro tipo de doce sabor amoroso transcendental com o Senhor.\n\n\n\nNo Mukunda-mālā-stotra, compilado pelo rei Kulaśekhara, uma das orações diz: \"Meu querido Senhor, Tu és o libertador das entidades vivas da condição infernal da vida materialista, mas isso não me importa. Quer eu seja elevado à plataforma celestial, quer permaneça neste planeta terreno, quer seja despachado para algum planeta infernal, isso não me importa em absoluto. Minha única oração é que, no momento de minha morte, eu possa simplesmente lembrar-me de Teus dois belos pés, que são tal como flores de lótus a frutificar durante a estação do outono.\"\n\n\n\n\n\nNo que se refere à amizade, aqueles devotos de alto grau que são quase como Kṛṣṇa são considerados grandes autoridades nos modos das relações amistosas com a Suprema Personalidade de Deus. Nessa plataforma amistosa, há diferentes tipos de conversas de riso e de brincadeira. Um exemplo de tal relacionamento amistoso com Kṛṣṇa é descrito no *Śrīmad-Bhāgavatam* quando Kṛṣṇa certa vez estava pensando: \"Hoje, enquanto estava ocupado em cuidar das vacas no pasto de Vṛndāvana, fui colher algumas flores em um belo jardim. Naquele momento, Meus amigos, os vaqueirinhos, ficaram infelizes mesmo por tolerar uma separação de dois minutos de Mim. E, quando Me encontraram, houve uma competição entre nós sobre quem tocaria o outro primeiro com as flores que tínhamos em mãos.\"\n\n\n\nUm amigo criticou Kṛṣṇa assim: \"Meu querido Dāmodara, embora tenhas sido derrotado por Śrīdāmā e tenhas ficado suficientemente diminuído em força, por uma falsa demonstração de força encobriste de algum modo Tua vergonhosa condição de derrota.\"\n\n\n\n\n\nQuando mãe Yaśodā ouviu que as vacas de Kṛṣṇa estavam sendo levadas à força pelos fortes servos de Kaṁsa e que os tenros vaqueirinhos estavam tentando proteger suas vacas, ela começou a pensar: \"Como posso proteger estes pobres meninos da invasão dos servos de Kaṁsa?\" Este é um exemplo de uma atitude superior em um devoto.\n\n\n\nTão logo mãe Yaśodā encontrou seu filho Kṛṣṇa voltando do pasto, ela imediatamente começou a acariciá-Lo, tocando seus dedos nas faces do Senhor."}
{"ref": "nod/33", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/33/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "33. Afeição Conjugal", "purport": "Acima mesmo da disposição do amor entre Kṛṣṇa e Seus pais está o relacionamento do amor conjugal. Este se exibe entre o Senhor e as jovens gopīs de diferentes maneiras — lançando olhares, movendo as sobrancelhas, falando palavras muito doces e trocando sorrisos.\n\n\n\nHá uma afirmação no Govinda-vilāsa neste sentido: \"Śrīmatī Rādhārāṇī estava procurando Kṛṣṇa muito ansiosamente e quase decepcionada.\" Quando há tal expressão indireta de amor conjugal, há sorriso, assombro, entusiasmo, lamentação, ira, pavor e, às vezes, horror. Estas sete trocas de amor conjugal formam outro estado do amor extático.\n\n\n\nEm um relacionamento direto de amor conjugal, há riso, assombro, galhardia, lamentação, ira e pavor, mas não há horror. Essas expressões são consideradas os grandes reservatórios de prazer. Quando esses sete tipos de trocas amorosas extáticas se manifestam, atingem o status de firmeza, pelo qual o gosto do amor conjugal se expande.\n\n\n\n\n\nDepois de ter roubado algum coalho dos potes de duas gopīs, Kṛṣṇa disse a uma de Suas amigas gopīs: \"Minha querida e bela amiga, posso jurar que não roubei nem mesmo uma gota de coalho de teu pote! Mas, ainda assim, tua amiga, Rādhārāṇī, está muito desavergonhadamente cheirando o aroma de Minha boca. Por favor, proíbe-A desta política manhosa de aproximar Seu rosto do Meu.\" Quando Kṛṣṇa estava falando dessa maneira, as amigas de Rādhārāṇī não puderam conter o riso. Este é um exemplo de êxtase no amor conjugal.\n\n\n\n\n\nCerta vez, Brahmā estava observando todas as vacas e os vaqueirinhos vestidos com roupas amarelas e decorados com joias valiosas. Os meninos estavam expandindo seus quatro braços e estavam sendo adorados por muitas centenas de outros Brahmās. Todos os vaqueirinhos começaram a expressar sua alegria por estarem com Kṛṣṇa, o supremo Brahman. Naquele momento, Brahmā mostrou seu assombro, exclamando: \"O que estou vendo aqui?\" Este é um exemplo de assombro no amor extático.\n\n\n\n\n\nNa margem do Yamunā, certa vez, houve o som crepitante de folhas secas, risadinhas dos vaqueirinhos e um trovejar do céu. Śrīdāmā estava apertando seu cinto para lutar com Kṛṣṇa, o conquistador do demônio Agha. Este é um exemplo de galhardia no amor extático.\n\n\n\n\n\nNo Décimo Canto, 7º Capítulo, 22º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam*, há uma descrição de Kṛṣṇa sendo levado pelo demônio redemoinho Tṛṇāvarta. Quando Kṛṣṇa estava assim sendo carregado para o céu, todas as gopīs começaram a chorar em voz alta. Elas se aproximaram de mãe Yaśodā, declarando que não conseguiam encontrar o filho de Nanda. Ele havia sido levado por um redemoinho. Este é um exemplo de lamentação no amor extático.\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa estava lutando com Kāliya, mãe Yaśodā exclamou: \"Kṛṣṇa está agora aprisionado dentro dos capelos da serpente Kāliya, e, mesmo assim, não fui despedaçada em pedaços! Portanto, devo admitir quão maravilhoso é o poder preservador deste corpo material!\" Este é outro exemplo de lamentação no amor extático.\n\n\n\n\n\nQuando Kuṭilā, a irmã de Abhimanyu, viu Kṛṣṇa usando um colar, ela pôde compreender que o ornamento enjoiado Lhe fora dado por Rādhārāṇī. Ela, portanto, ficou absorta em ira e começou a mover suas sobrancelhas, expressando sua ira no amor extático.\n\n\n\n\n\nHá uma afirmação de Yāmunācārya neste sentido: \"Desde que comecei a desfrutar destas trocas transcendentais de amor, que são sempre mais e mais novas, sempre que me lembro do prazer da vida sexual passada, meus lábios se contorcem e desejo cuspir sobre a ideia.\" Este é um exemplo de amor extático em horror.\n\n\n\n\n\nUm devoto idoso disse: \"Meu querido Senhor, quando estamos longe de Ti, ficamos tão ansiosos por ver-Te novamente, e há grande aflição em nossas vidas. Mas, então, quando de fato Te vemos, surge imediatamente o medo da separação. Sob tais circunstâncias, tanto quando Te vemos quanto quando não Te vemos, somos submetidos a diferentes tipos de tribulação.\" Este é um exemplo de uma mistura contraditória de amor extático por Kṛṣṇa. Tal amor extático é palatável, e os críticos peritos compararam tal amor extático a uma mistura de coalho, açúcar-cande e um pouco de pimenta-preta. O sabor combinado é muito palatável."}
{"ref": "nod/34", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/34/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "34. O *Néctar da Devoção*", "purport": "O tipo particular de sentimento amoroso extático que se desenvolve no coração de um devoto particular é considerado *vibhāva.* E as manifestações resultantes — tais como o movimento das sobrancelhas, o medo, o assombro e o sorriso, já explicadas anteriormente — chamam-se *anubhāva.* As diferentes causas que desenvolvem o *anubhāva* e o *vibhāva* chamam-se êxtase constante, ou *sañcāri-bhāva.*\n\nSempre que há recitação de poesia ou uma encenação dramática sobre os diversos passatempos de Kṛṣṇa, a audiência desenvolve diferentes espécies de amoroso serviço transcendental ao Senhor. Ela desfruta de diferentes tipos de *vibhāva, anubhāva* e *sañcāri-bhāva.*\n\nNinguém, enquanto permanece na plataforma material, deve discutir estas diferentes descrições de *bhāva* e *anubhāva* citando diversas afirmações de obras transcendentais. Tais manifestações são exibições da potência transcendental de prazer do Senhor. Deve-se simplesmente tentar compreender que, na plataforma espiritual, há muitas variedades de amor recíproco. Tais trocas amorosas jamais devem ser consideradas materiais. No *Mahābhārata Udyama-parva* adverte-se que aquilo que é inconcebível não deve ser submetido a argumentos. Na verdade, as transações do mundo espiritual são inconcebíveis para nós em nosso atual estado de vida. Grandes almas liberadas, como Rūpa Gosvāmī e outros, tentaram dar-nos alguns indícios das atividades transcendentais no mundo espiritual, mas, no conjunto, essas transações permanecerão inconcebíveis para nós no presente momento. Compreender as trocas do amoroso serviço transcendental a Kṛṣṇa só é possível quando a pessoa está, de fato, em contato com a potência de prazer do Senhor Supremo.\n\nA esse respeito, Śrī Rūpa Gosvāmī dá o exemplo das nuvens no céu: as nuvens no céu surgem do oceano e, quando se transformam novamente em água e caem ao solo, deslizam de volta ao oceano. De modo semelhante, a potência de prazer de Kṛṣṇa é comparada ao oceano. O devoto puro é a nuvem que possui o prazer e, quando se enche de amoroso serviço transcendental, pode então conceder sua misericórdia como um aguaceiro de chuva — e a potência de prazer retorna ao oceano de Kṛṣṇa.\n\n## Atração Direta e Indireta por Kṛṣṇa\n\nO prazer transcendental derivado do serviço devocional pode dividir-se em dois grupos: serviço devocional direto e serviço devocional indireto. O serviço devocional direto divide-se em cinco humores ou sabores transcendentais, e o serviço devocional indireto divide-se em sete humores transcendentais. Os serviços devocionais diretos são os seguintes: neutralidade, servidão, fraternidade, paternidade e amor conjugal. O serviço devocional indireto divide-se em riso, compaixão, ira, cavalheirismo, pavor, assombro e horror. O serviço devocional, portanto, pode dividir-se em doze tipos, cada um dos quais tem uma cor diferente. As cores são branco, multicolorido, alaranjado, vermelho, verde-claro, cinza, amarelo, esbranquiçado, esfumaçado, rosa, preto e nublado. Os doze diferentes tipos de humores transcendentais são controlados por diferentes encarnações de Deus, tais como Kapila, Mādhava, Upendra, Nṛsiṁha, Nandanandana, Balarāma, Kūrma, Kalki, Rāghava, Bhārgava, Varāha e Matsya.\n\nSustentação, manifestação, expansão, reflexão e lamentação são os cinco sintomas visíveis nas trocas de amor extático. O teste do serviço devocional pode, por conseguinte, fazer-se em termos desses cinco sintomas. No serviço devocional de neutralidade há sustentação; há expansão no serviço devocional cavalheiresco; há reflexão no serviço devocional compassivo; no serviço devocional irado há lamentação, e assim por diante.\n\nUma condição aparentemente lastimável no serviço devocional pode parecer angustiante ao estudante inexperiente, mas os sentimentos do devoto nessa condição lastimável são considerados extáticos pelos devotos peritos. Por exemplo, o tema do *Rāmāyaṇa* às vezes é considerado lastimável e angustiante para o coração, mas, na verdade, esse não é o caso. O *Rāmāyaṇa* narra como o Senhor Rāma foi enviado à floresta por Seu pai justo quando estava prestes a ser entronizado. Após a partida do Senhor Rāma, Mahārāj Daśaratha, Seu pai, morreu. Na floresta, Sua esposa, Sītādevī, foi raptada por Rāvaṇa, e houve uma grande guerra. Quando Sītādevī foi finalmente libertada das garras de Rāvaṇa, toda a família e o reino de Rāvaṇa, e o próprio Rāvaṇa, foram aniquilados. Quando Sītādevī voltou para casa, foi provada pelo fogo e, alguns dias depois, foi novamente banida para a floresta. Todos esses assuntos do *Rāmāyaṇa* parecem muito lastimáveis e podem parecer muito angustiantes para o recitador, mas, na verdade, não é assim. Caso contrário, por que Hanumān, o grande devoto do Senhor Rāmacandra, leria diariamente sobre as atividades do Senhor Rāmacandra, conforme descritas no próprio *Rāmāyaṇa*? O fato é que, em qualquer um dos doze humores transcendentais do serviço devocional acima mencionados, tudo é transcendentalmente prazeroso.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī lamenta, a esse respeito, pelas pessoas que estão no fogo da falsa renúncia, no hábito árido da especulação, e que negligenciam o serviço devocional. As pessoas apegadas às cerimônias ritualísticas recomendadas nos *Vedas* e ao Brahman impessoal não conseguem saborear o prazer transcendental do serviço devocional. Por isso, Śrī Rūpa Gosvāmī aconselha que os devotos que já saborearam o néctar da devoção sejam muito cuidadosos em proteger o serviço devocional de tais especuladores áridos, elevacionistas ritualísticos formais e salvacionistas impersonalistas. Os devotos devem proteger sua valiosa joia do amor espiritual das garras de ladrões e assaltantes. Em outras palavras, um devoto puro não deve descrever o serviço devocional e seus diferentes aspectos analíticos aos especuladores áridos e falsos renunciantes.\n\nAqueles que não são devotos jamais podem alcançar os benefícios do serviço devocional. Para eles, o tema do serviço devocional é sempre muito difícil de compreender. Somente as pessoas que dedicaram suas vidas aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus podem saborear o verdadeiro néctar da devoção.\n\nQuando alguém transcende o estado do amor extático e, dessa maneira, situa-se na mais elevada plataforma da bondade pura, compreende-se que limpou o coração de toda contaminação material. Nessa fase pura da vida, pode-se saborear este néctar, e essa capacidade de saborear chama-se tecnicamente *rasa,* ou disposição transcendental."}
{"ref": "nod/35", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/35/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "35. Amor Neutro por Deus", "purport": "## Amor Neutro por Deus\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī oferece suas respeitosas orações à eterna Suprema Personalidade de Deus, que é sempre tão belo e a quem os devotos puros estão sempre dedicados em amoroso serviço transcendental. Esta terceira divisão do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* descreve os cinco tipos primários de serviço devocional — a saber, neutralidade, servidão, fraternidade, paternidade e amor conjugal. Esses cinco itens serão explicados aqui muito minuciosamente, e por isso foram figurativamente descritos como as cinco ondas no lado ocidental deste oceano de néctar da devoção.\n\nQuando alguém é, de fato, capaz de manter a posição transcendental, sua fase chama-se neutralidade no serviço devocional. Alguns grandes sábios alcançaram essa posição neutra praticando austeridade, penitência e meditação para controlar os sentidos. Tais sábios geralmente são chamados de *yogīs* místicos, e na maioria dos casos têm inclinação a apreciar o prazer espiritual do aspecto impessoal da verdade absoluta. Eles praticamente desconhecem o prazer transcendental derivado do contato pessoal com a Suprema Divindade.\n\nNa verdade, o prazer transcendental derivado da associação com a Pessoa Suprema é muito maior do que o prazer derivado da compreensão do Brahman impessoal, em virtude do encontro direto com a forma eterna do Senhor. Os impersonalistas não derivam diretamente o prazer transcendental da associação com o Senhor ao ouvir sobre Seus passatempos. Sendo assim, os impersonalistas não conseguem derivar nenhum prazer transcendental saboroso dos tópicos do *Bhagavad-gītā,* no qual o Senhor fala pessoalmente com Arjuna. O princípio básico de sua atitude impessoal não lhes permite o prazer transcendental saboreado por um devoto cujo princípio básico de compreensão é a Pessoa Suprema. O comentário impersonalista sobre o *Bhagavad-gītā* é, por conseguinte, desastroso, pois, sem compreender o prazer transcendental do *Gītā,* o impersonalista quer interpretá-lo a seu próprio modo. Contudo, se um impersonalista conseguir entrar em contato com um devoto puro, sua posição transcendental pode mudar para uma elevação maior. Por isso, recomenda-se aos grandes sábios que adorem a forma do Senhor a fim de alcançar esse mais elevado prazer transcendental.\n\nSem adorar o *arcā-vigraha,* a forma ou Deidade do Senhor, não se pode compreender obras como o *Bhagavad-gītā* e o *Śrīmad-Bhāgavatam.* Para aqueles grandes sábios situados na posição de neutralidade transcendental, o começo deve ser abrigar-se no Senhor Viṣṇu, a forma eterna de quatro braços da Suprema Personalidade de Deus. Aconselha-se, portanto, aos *yogīs* místicos que meditem na forma do Senhor Viṣṇu, conforme recomendado por Kapila Muni no sistema de *sāṅkhya yoga.* Infelizmente, muitos *yogīs* místicos tentam meditar em algo vazio e, como se afirma no *Gītā,* o resultado é que eles simplesmente passam por dificuldades e não alcançam nenhum resultado tangível.\n\nQuando algumas grandes pessoas santas, que se haviam submetido a penitências e austeridades, viram a forma transcendental de quatro braços de Viṣṇu, começaram a comentar o seguinte: \"Esta forma de quatro braços do Senhor, manifestada numa cor azulada, é o reservatório de todo prazer e o centro de nossa força vital. Na verdade, ao vermos esta forma eterna de Viṣṇu, nós, juntamente com muitos outros *paramahaṁsas,* ficamos imediatamente cativados pela beleza do Senhor.\" Esta apreciação do Senhor Viṣṇu pelas pessoas santas é um exemplo de situação no *śānta-rasa,* ou a fase neutra do serviço devocional. No começo, aqueles que aspiram à salvação tentam sair do enredamento material executando dolorosas austeridades e penitências, e finalmente chegam ao status impessoal da compreensão espiritual. Nesta fase brahma-bhūta*[*SB 4.30.20] ]] de liberação do enredamento material, os sintomas, conforme explicados no *Bhagavad-gītā,* são que a pessoa se torna jubilosa, além de qualquer anseio ou lamentação, e adquire uma visão universal. Quando o devoto está situado no *śānta-rasa,* ou fase neutra do serviço devocional, ele aprecia a forma Viṣṇu do Senhor.\n\nNa verdade, toda a cultura Védica visa a compreender o Senhor Viṣṇu. No *Ṛg Veda,* um *mantra* diz que toda pessoa santa avançada está sempre aspirando a fixar-se em meditação nos pés de lótus de Viṣṇu.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* diz-se que os tolos não sabem que Viṣṇu é a meta última da vida. Segundo a conclusão de todas as escrituras Védicas autorizadas, quando uma pessoa chega à fase de apreciar Viṣṇu, está no começo do serviço devocional. Se a pessoa cultivar o serviço devocional cada vez mais, sob orientação adequada, outros aspectos do serviço devocional gradualmente se manifestarão. Nesta fase de *śānta-rasa,* pode-se ver o Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, o libertador até mesmo dos demônios. O Senhor é apreciado por tais aspirantes a devotos como a eterna forma transcendental, o principal de todas as almas autorrealizadas, a superalma, o supremo Brahman, completamente apaziguado, completamente controlado e puro, misericordioso para com os devotos e intocado por qualquer condição material. Esta apreciação do Senhor Viṣṇu com temor e veneração pelos santos deve ser entendida como o sinal de que eles estão situados no *śānta-rasa,* ou fase neutra do serviço devocional.\n\nEsta fase de *śānta-rasa* só pode ser alcançada pelos impersonalistas quando estes estão em associação com devotos puros. De outra forma, não é possível. Após a compreensão do Brahman, quando uma alma liberada entra em contato com um devoto puro do Senhor Kṛṣṇa e aceita submissamente os ensinamentos do Senhor Kṛṣṇa sem má interpretação, ela se situa nesta fase neutra do serviço devocional. O melhor exemplo de pessoas santas situadas no *śānta-rasa* são Sanaka, Sanātana, Sananda e Sanat-kumāra, os irmãos Kumāras. Estas quatro pessoas santas (conhecidas como Catuḥsana) eram filhos do Senhor Brahmā. Após seu nascimento, quando foram ordenadas por seu pai a tornarem-se chefes de família e aumentar a sociedade humana, recusaram a ordem. Disseram que já haviam decidido não se enredar com a vida familiar; preferiam viver como santos *brahmacārīs* para sua própria perfeição. Assim, estes grandes santos vêm vivendo há milhões de anos, mas ainda assim parecem meros meninos de quatro ou cinco anos de idade. Suas tezes são muito claras, há uma refulgência em seus corpos e eles sempre viajam nus. Estas quatro pessoas santas quase sempre permanecem juntas.\n\nEm uma das orações dos irmãos Kumāras, faz-se a seguinte declaração: \"Ó Senhor Mukunda [Kṛṣṇa, o outorgador da liberação], somente enquanto a pessoa não chegar a ver Tua eterna forma de bem-aventurança e conhecimento, que se assemelha a uma árvore *tāmala* recém-crescida, com um matiz azulado — somente por tanto tempo pode o aspecto impessoal da verdade absoluta, conhecido como *Brahman,* ser muito agradável a uma pessoa santa.\"\n\nAs qualificações de uma pessoa santa são descritas no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* da seguinte maneira: Uma pessoa santa é aquela que compreende plenamente que, simplesmente por executar o serviço devocional, pode ficar segura de sua liberação. Ela está sempre situada nos princípios reguladores da vida devocional e, ao mesmo tempo, aspira a libertar-se do enredamento material.\n\nUma pessoa santa pensa assim: \"Quando serei capaz de viver sozinho nas cavernas das montanhas? Quando estarei vestido simplesmente com roupas íntimas? Quando ficarei satisfeito comendo simplesmente um pouco de frutas e verduras? Quando me será possível pensar sempre nos pés de lótus de Mukunda, que é a fonte da refulgência Brahman? Quando, em tal condição espiritual de vida, compreenderei plenamente que meus dias e noites são momentos insignificantes no tempo eterno?\"\n\nOs devotos e as pessoas autorrealizadas que estão ocupadas em pregar as glórias do Senhor mantêm sempre, dentro de seus corações, um amor extático pelo Senhor. Assim, beneficiam-se dos raios da lua extática, e são chamadas de pessoas santas.\n\nO impulso de uma pessoa santa é ocupar-se no estudo dos *Vedas,* especialmente as porções Upaniṣádicas, viver sempre num lugar onde não haja perturbação das pessoas comuns, pensar sempre na forma eterna de Kṛṣṇa, estar pronta a considerar e compreender a verdade absoluta, ser sempre proeminente em exibir conhecimento, ver o Senhor Supremo em Sua forma universal (*viśva-rūpa*), associar-se sempre com devotos eruditos e discutir a conclusão dos *Vedas* com pessoas igualmente elevadas. Todas essas qualificações de uma pessoa santa servem para elevá-la ao status de *śānta-rasa.*\n\nNo *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* afirma-se que todos os que assistiram à piedosa reunião realizada pelo Senhor Brahmā para o estudo da literatura Védica, como os *Upaniṣads,* ficaram dominados por amor extático por Kṛṣṇa, o principal da dinastia Yadu. Na verdade, o resultado de estudar os *Upaniṣads* é compreender a Suprema Personalidade de Deus. A negação da existência material é apenas um dos temas dos *Upaniṣads.* O tema seguinte diz respeito a situar-se na compreensão impessoal. E então, depois de penetrar através do Brahman impessoal, quando a pessoa chega à plataforma de associar-se com a Suprema Personalidade de Deus, ela alcança a meta última do estudo dos *Upaniṣads.*\n\nAqueles que estão situados na plataforma de *śānta-rasa* obtêm seu ímpeto para o avanço no serviço devocional ao cheirar a *tulasī* oferecida aos pés de lótus do Senhor, ao ouvir o som de Seu búzio, ao ver um lugar santificado em alguma montanha ou colina, ao observar uma floresta como as de Vṛndāvana, ao ir a um lugar de peregrinação, ao visitar o curso do rio Ganges, ao serem vitoriosos sobre as imposições das exigências corporais (a saber, comer, dormir, acasalar-se e defender-se), ao compreenderem a devastação do tempo eterno e ao associarem-se constantemente com devotos ocupados em consciência de Kṛṣṇa. Todos esses diferentes itens são favoráveis para elevar as pessoas santas situadas no *śānta-rasa* à fase avançada do serviço devocional.\n\nNo Terceiro Canto, 15º Capítulo, 43º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* há uma afirmação das quatro pessoas santas conhecidas como Catuḥsana, encabeçadas por Sanaka-kumāra. Eles foram visitar o Senhor de Vaikuṇṭha-loka no céu espiritual e, quando se prostraram diante do Senhor, o aroma da *tulasī,* misturado com açafrão, entrou em suas narinas e imediatamente atraiu suas mentes. Embora estas quatro pessoas santas estivessem sempre absortas no pensamento do Brahman impessoal, pela associação com o Senhor e por cheirarem as folhas de *tulasī,* os pelos de seus corpos imediatamente se arrepiaram. Isso mostra que mesmo uma pessoa situada na compreensão do Brahman, se for posta em associação com devotos no serviço devocional puro, imediatamente se sentirá atraída pelo aspecto pessoal do Senhor.\n\nHá certos sintomas dos grandes sábios situados no serviço devocional de *śānta-rasa,* e esses sintomas exibem-se da seguinte forma: eles concentram a visão na ponta do nariz e comportam-se exatamente como um *avadhūta. Avadhūta* significa um místico altamente elevado que não se importa com quaisquer convenções sociais, religiosas ou Védicas. Outro sintoma é que tais pessoas são muito cuidadosas ao avançar quando proferem discursos. Quando falam, juntam o indicador e o polegar. (Isto chama-se a posição *jñāna-mudrā.*) Elas não são contrárias aos ateístas, nem têm inclinação particular pelos devotos. Tais pessoas dão ênfase à liberação e ao desapego do modo de vida materialista. São sempre neutras e não têm afeição por nada material nem se identificam erroneamente com coisa alguma material. São sempre graves, mas plenamente absortas em pensamentos sobre a Suprema Personalidade de Deus. Estes traços incomuns desenvolvem-se nos devotos situados no *śānta-rasa.*\n\nQuanto à concentração da visão na ponta do nariz, há uma afirmação no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* feita por um devoto que observou isto sendo executado por um *yogī.* Ele comentou: \"Este grande sábio está concentrando sua visão na ponta do nariz, e disto parece que ele já compreendeu a forma eterna do Senhor dentro de si mesmo.\"\n\nÀs vezes, um devoto no *śānta-rasa* boceja, estica os membros, instrui sobre o serviço devocional, oferece respeitosas reverências à forma do Senhor, oferece belas orações ao Senhor e tem o desejo de prestar serviço direto com seu corpo. Estes são alguns dos sintomas comuns do devoto situado em neutralidade. Um devoto, após observar o bocejar de outro devoto, dirigiu-se a ele assim: \"Meu querido místico, penso que dentro de teu coração há algum amor devocional extático que te faz bocejar.\" Às vezes constata-se que um devoto no *śānta-rasa* cai ao chão, os pelos de seu corpo se arrepiam e ele treme por inteiro. Dessa maneira, diferentes sintomas de transe extático exibem-se automaticamente em tais devotos.\n\nNo *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* diz-se que, quando o Senhor Kṛṣṇa estava soprando Seu búzio conhecido como Pāñcajanya, muitos grandes sábios que viviam nas cavernas das montanhas reagiram imediatamente, sendo despertados de seu transe de meditação. Eles imediatamente viram que os pelos de seus corpos estavam arrepiados. Às vezes, os devotos no *śānta-rasa* tornam-se atônitos, pacíficos, jubilosos, ponderados, reflexivos, ansiosos, hábeis e argumentativos. Estes sintomas indicam êxtase contínuo, ou emoção estabelecida.\n\nCerta vez, um grande sábio realizado lamentava que o Senhor Supremo Kṛṣṇa estivesse vivendo em Dvārakā, mas que ele era incapaz de aproveitar a oportunidade de vê-Lo. Após pensar nisso, o sábio imediatamente ficou atônito. Pensava que estava simplesmente desperdiçando seu tempo. Em outras palavras, o sábio lamentava porque a Suprema Personalidade de Deus estava pessoalmente presente, e ele ainda assim não podia aproveitar isso por causa de sua meditação.\n\nQuando um místico é transcendental a todo tipo de invenção mental e está situado no Brahman, seu estado chama-se transe além da influência da concepção material da vida. Nessa fase, quando se ouve falar dos passatempos transcendentais do Senhor, pode haver arrepio no corpo.\n\nQuando um devoto realizado no Brahman, que chegou à fase de transe constante, entra em contato com a forma eterna de Kṛṣṇa, seu prazer transcendental aumenta milhões de vezes. Certa vez, um grande sábio perguntou a outro: \"Meu querido amigo, achas que, após eu aperfeiçoar a execução óctupla do *yoga,* serei capaz de ver a forma eterna da Suprema Personalidade de Deus?\" Esta pergunta do sábio é um exemplo de inquisitividade num devoto situado na fase neutra do serviço devocional.\n\nQuando o Senhor Kṛṣṇa, junto com Seu irmão mais velho Balarāma e Sua irmã Subhadrā, foi a Kurukṣetra numa quadriga por ocasião de um eclipse solar, muitos *yogīs* místicos também foram. Quando esses *yogīs* místicos viram o Senhor Kṛṣṇa e Balarāma, exclamaram que, agora que haviam visto a excelente refulgência corpórea do Senhor, quase haviam esquecido o prazer derivado da compreensão do Brahman impessoal. A esse respeito, um dos místicos aproximou-se de Kṛṣṇa e disse: \"Meu querido Senhor, Tu estás sempre repleto de bem-aventurança transcendental, superando todas as outras posições espirituais. E assim, simplesmente por ver-Te de um lugar distante, cheguei à conclusão de que não há necessidade de eu estar situado na bem-aventurança transcendental do Brahman impessoal.\"\n\nQuando um grande místico foi certa vez despertado de seu transe meditativo ao ouvir a vibração do búzio Pāñcajanya de Kṛṣṇa, o místico ficou dominado. Tanto, de fato, que começou a bater a cabeça no chão e, com os olhos cheios de lágrimas de amor extático, violou todas as regras e regulações de suas execuções de *yoga.* Assim, de imediato, negligenciou o processo de compreensão do Brahman.\n\nBilvamaṅgala Ṭhākura, em seu livro *Kṛṣṇa-karṇāmṛta,* diz: \"Deixai que os impersonalistas se ocupem no processo de compreensão transcendental adorando o Brahman impessoal. Embora eu também tenha sido iniciado naquela senda de compreensão do Brahman, agora fui desencaminhado por um menino travesso — alguém que é muito astuto, que é muito apegado às *gopīs* e que me fez Sua criada. De modo que agora esqueci o processo de compreensão do Brahman.\"\n\nBilvamaṅgala Ṭhākura foi primeiro iniciado espiritualmente na compreensão impessoal da verdade absoluta, mas depois, por sua associação com Kṛṣṇa em Vṛndāvana, tornou-se um devoto experiente. O mesmo aconteceu com Śukadeva Gosvāmī, que também se reformou pela graça do Senhor e adotou a senda do serviço devocional, abandonando o caminho da compreensão impessoal.\n\nO abandono, por Śukadeva Gosvāmī e Bilvamaṅgala Ṭhākura, da concepção impessoal da verdade absoluta e sua adoção do serviço devocional são os melhores exemplos de devotos situados no estado neutro. Segundo algumas autoridades, esta condição não pode ser aceita como um dos humores transcendentais, ou *rasas,* mas Śrīla Rūpa Gosvāmī diz que, mesmo que não se aceite como um humor transcendental, deve-se ainda assim aceitá-la como a posição inicial do serviço devocional. Contudo, se a pessoa não for elevada ainda mais à plataforma de serviço efetivo ao Senhor, não se considera que ela esteja na plataforma da doçura transcendental. A esse respeito, no Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* o Senhor Kṛṣṇa instrui pessoalmente Uddhava assim: \"O estado de estar estabelecido em Minha forma pessoal chama-se *śānta-rasa,* e, sem estar situado nesta posição, ninguém pode avançar para o efetivo serviço devocional puro.\" Em outras palavras, ninguém pode situar-se no aspecto pessoal da Suprema Personalidade de Deus sem estar situado ao menos no *śānta-rasa.*"}
{"ref": "nod/36", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/36/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "36. Afeição Transcendental (Servidão)", "purport": "## Afeição Transcendental (Servidão)\n\nA doçura transcendental da afeição foi aceita por autoridades como Śrīdhara Svāmī como uma fase perfeita de devoção. Está logo acima do humor de neutralidade e é um requisito para o desenvolvimento do humor de servir. Em obras como o *Nāma-kaumudī,* este estado de existência é aceito como afeição contínua por Kṛṣṇa, ou atração por Ele. Autoridades como Śukadeva consideram esta fase de afeição como pertencente à fase neutra, mas, em todo caso, esta afeição é saboreada pelos devotos em diferentes gostos transcendentais e, por isso, o nome geral para este estado é afeição, ou afeição pura por Kṛṣṇa.\n\nOs devotos ocupados em servidão estão apegados a Kṛṣṇa na afeição de reverência. Alguns dos habitantes de Gokula (Vṛndāvana tal como manifesta na Terra) estão apegados a Kṛṣṇa nesta plataforma de afeição em reverência. Os habitantes de Vṛndāvana costumavam dizer: \"Kṛṣṇa está sempre manifesto diante de nós com uma tez semelhante a uma nuvem escura. Ele segura Sua maravilhosa flauta em Suas mãos de lótus. Está vestido com sedas amarelas e adornado com uma pena de pavão na cabeça. Quando Kṛṣṇa caminha perto da colina de Govardhan com estes traços pessoais, todos os habitantes dos planetas celestiais, bem como os habitantes desta Terra, sentem bem-aventurança transcendental e consideram-se os servos eternos do Senhor.\" Às vezes, o devoto enche-se do mesmo temor e reverência ao ver um quadro de Viṣṇu, que está vestido como Kṛṣṇa e que tem uma tez semelhante. A única diferença é que Viṣṇu tem quatro mãos, nas quais segura o búzio, o disco, a maça e a flor de lótus. O Senhor Viṣṇu está sempre decorado com muitas joias valiosas, tais como a pedra *candrakānta* e a pedra *sūryakānta.*\n\nNo *Lalita-mādhava,* de Rūpa Gosvāmī, há a seguinte afirmação de Dāruka, um dos servos de Kṛṣṇa: \"Certamente o Senhor Viṣṇu é muito belo, com Seu colar de joias *kaustubha,* Suas quatro mãos segurando o búzio, o disco, a maça e a flor de lótus, e Suas deslumbrantes e belas joias. Ele também é muito belo em Sua posição eterna, montado sobre o ombro de Garuḍa. Mas agora o mesmo Senhor Viṣṇu está presente como o inimigo de Kaṁsa, e, por Seu traço pessoal, estou esquecendo por completo a opulência de Vaikuṇṭha.\"\n\nOutro devoto disse certa vez: \"Esta Suprema Personalidade de Deus, de cujos poros corpóreos vêm milhões de universos, surgindo permanentemente, que é o oceano de misericórdia, que é o dono de energias inconcebíveis, que está sempre dotado de todas as perfeições, que é a origem de todas as encarnações, que é a atração para todas as pessoas liberadas — esta mesmíssima Suprema Personalidade de Deus é o controlador supremo e o supremamente adorável, onisciente, plenamente determinado, plenamente opulento, o emblema do perdão, o protetor das almas rendidas, generoso, fiel à Sua promessa, perito, todo-auspicioso, poderoso, religioso, um estrito seguidor da escritura, o amigo dos devotos, magnânimo, influente, grato, reputado, respeitável, repleto de toda força e submisso ao amor puro. Por certo, Ele é o único refúgio dos devotos que são atraídos a Ele pela afeição de servidão.\"\n\nOs devotos do Senhor em servidão dividem-se em quatro classes: servos designados (tais como o Senhor Brahmā e o Senhor Śiva, que são designados para controlar os modos materiais de paixão e ignorância), devotos em servidão que são protegidos pelo Senhor, devotos que são sempre associados, e devotos que simplesmente seguem os passos do Senhor.\n\nNuma conversa entre Jāmbavatī, uma das esposas de Kṛṣṇa, e Kālindī, sua amiga, Jāmbavatī perguntou: \"Quem é esta personalidade que circum-ambula nosso Kṛṣṇa?\"\\\\\nKālindī respondeu: \"Ele é Ambikeya, o superintendente de todos os assuntos universais.\"\\\\\nEntão Jāmbavatī perguntou: \"Quem é esta personalidade que treme à vista de Kṛṣṇa?\"\\\\\nKālindī respondeu: \"Ele é o Senhor Śiva.\"\\\\\nEntão Jāmbavatī perguntou: \"Quem é a pessoa que oferece orações?\"\\\\\nKālindī respondeu: \"Ele é o Senhor Brahmā.\"\\\\\nJāmbavatī perguntou então: \"Quem é aquela pessoa que caiu ao chão e está oferecendo respeito a Kṛṣṇa?\"\\\\\nKālindī respondeu: \"Ele é Indra, o rei dos céus.\"\\\\\nJāmbavatī perguntou em seguida: \"Quem é esta pessoa que veio com os semideuses e está rindo com eles?\"\\\\\nKālindī respondeu: \"Ele é meu irmão mais velho, Yamarāja, o superintendente da morte.\"\n\nEsta conversa oferece uma descrição de todos os semideuses, incluindo Yamarāja, que estão ocupados em serviços designados pelo Senhor. Eles são chamados de *adhikṛta-devatā,* ou semideuses designados para tipos particulares de serviço departamental.\n\nUm residente de Vṛndāvana disse certa vez ao Senhor Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó prazer de Vṛndāvana! Por temer esta existência material, abrigamo-nos em Ti, pois podes proteger-nos completamente! Estamos bem cientes de Tua grandeza. Sendo assim, abandonamos nosso desejo de liberação e nos abrigamos por completo sob Teus pés de lótus. Visto que ouvimos sobre Teu sempre crescente amor transcendental, ocupamo-nos voluntariamente em Teu serviço transcendental.\" Esta afirmação é de um devoto que está sob a proteção e o abrigo do Senhor Kṛṣṇa.\n\nAo ser castigado pelos constantes coices de Kṛṣṇa em sua cabeça, Kāliya, a serpente negra do Yamunā, recobrou os sentidos e admitiu: \"Meu querido Senhor, fui tão ofensivo para conTigo, mas, ainda assim, és tão bondoso que marcaste minha cabeça com a impressão de Teus pés de lótus.\" Este é também um exemplo de alguém abrigar-se sob os pés de lótus de Kṛṣṇa.\n\nNo *Aparādha-bhañjana,* um devoto puro exprime seus sentimentos: \"Meu querido Senhor, envergonho-me de admitir diante de Ti que cumpri as ordens de meus amos chamados luxúria, ira, avareza, ilusão e inveja. Às vezes cumpri suas ordens da maneira mais abominável. No entanto, apesar de eu servi-los tão fielmente, eles nem estão satisfeitos, nem são bondosos o bastante para dar-me alívio de seu serviço. Nem mesmo se envergonham de aceitar dessa forma o serviço de mim. Meu querido Senhor, ó cabeça da dinastia Yadu, agora recobrei os sentidos e estou abrigando-me em Teus pés de lótus. Por favor, ocupa-me em Teu serviço.\" Este é outro exemplo de render-se e abrigar-se nos pés de lótus de Kṛṣṇa.\n\nHá muitos exemplos, nos diversos escritos Védicos, de pessoas que aspiravam à liberação por meio do conhecimento especulativo, mas abandonaram este processo para abrigar-se por completo sob os pés de lótus de Kṛṣṇa. Exemplos de tais pessoas são os *brāhmaṇas* encabeçados por Śaunaka na floresta de Naimiṣāraṇya.((Estes são os brāhmaṇas a quem o *Śrīmad-Bhāgavatam* foi falado por Sūta Gosvāmī, conforme descrito no *Śrīmad-Bhāgavatam* do autor, Volume I, Capítulo 1.)) Eruditos versados aceitam-nos como devotos dotados de completa sabedoria. Há uma afirmação no *Hari-bhakti-sudhodaya* na qual estes grandes *brāhmaṇas* e sábios, encabeçados por Śaunaka Ṛṣi, disseram a Sūta Gosvāmī: \"Meu querido e grande alma, vê só quão maravilhoso é isto! Embora, como seres humanos, estejamos contaminados com tantas máculas da existência material, simplesmente por conversarmos contigo sobre a Suprema Personalidade de Deus, estamos agora gradualmente abandonando nosso desejo de liberação.\"\n\nNo *Padyāvalī,* um devoto diz: \"As pessoas que estão apegadas ao conhecimento especulativo em busca da autorrealização, que decidiram que a verdade suprema está além da meditação e que, desse modo, situaram-se no modo da bondade — deixai que executem pacificamente sua ocupação. Quanto a nós, estamos simplesmente apegados à Suprema Personalidade de Deus, que é por natureza tão agradável, que possui uma tez semelhante a uma nuvem escura, que está vestido com roupas amarelas e que tem belos olhos semelhantes ao lótus. Desejamos apenas meditar nEle.\"\n\nAqueles que, desde o próprio começo de sua autorrealização, estão apegados ao serviço devocional chamam-se *sevāniṣṭha. Sevāniṣṭha* significa simplesmente apegado ao serviço devocional. Os melhores exemplos de tais devotos são o Senhor Śiva, o rei Indra, o rei Bahulāśva, o rei Ikṣvāku, Śrutadeva e Puṇḍarīka. Um devoto diz: \"Meu querido Senhor, Tuas qualidades transcendentais atraem até mesmo as almas liberadas e as conduzem à assembleia de devotos, onde Tuas glórias são constantemente cantadas. Mesmo grandes sábios, acostumados a viver em lugares solitários, também são atraídos pelas canções de Tua glória. E, observando todas as Tuas qualidades transcendentais, também me senti atraído e decidi dedicar minha vida a Teu amoroso serviço.\"\n\nNa cidade de Dvārakā, os seguintes devotos são conhecidos como associados próximos de Kṛṣṇa: Uddhava, Dāruka, Sātyaki, Śrutadeva, Śatrājit, Nanda, Upananda e Bhadra. Todas estas personalidades permanecem com o Senhor como Seus secretários, mas, ainda assim, às vezes ocupam-se em Seu serviço pessoal. Entre a dinastia Kuru, Bhīṣma, Mahārāj Parīkṣit e Vidura também são conhecidos como associados próximos do Senhor Kṛṣṇa. Diz-se: \"Todos os associados do Senhor Kṛṣṇa têm traços corpóreos lustrosos, e seus olhos são exatamente como flores de lótus. Eles têm poder suficiente para derrotar a força dos semideuses, e o traço específico de suas pessoas é que estão sempre decorados com ornamentos valiosos.\"\n\nQuando Kṛṣṇa estava na capital Indraprastha, alguém dirigiu-se a Ele assim: \"Meu querido Senhor, Teus associados pessoais, encabeçados por Uddhava, estão sempre aguardando Tua ordem, postados no portão de entrada de Dvārakā. Em sua maioria, eles olham com lágrimas nos olhos e, no entusiasmo de seu serviço, não temem sequer o fogo devastador gerado pelo Senhor Śiva. Eles são almas simplesmente rendidas a Teus pés de lótus.\"\n\nDentre os muitos associados próximos do Senhor Kṛṣṇa, Uddhava é considerado o melhor. Eis uma descrição dele: \"Seu corpo é escuro como a cor do rio Yamunā, e é igualmente fresco. Ele está sempre decorado com guirlandas de flores primeiro usadas pelo Senhor Kṛṣṇa, e está vestido com roupas de seda amarela. Seus dois braços são exatamente como as travessas de uma porta, seus olhos são exatamente como flores de lótus, e ele é o devoto mais importante entre todos os associados. Ofereçamos, portanto, nossas respeitosas reverências aos pés de lótus de Uddhava.\"\n\nUddhava descreveu as qualidades transcendentais de Śrī Kṛṣṇa da seguinte maneira: \"O Senhor Śrī Kṛṣṇa, que é nosso amo e Deidade adorável, que é o controlador do Senhor Śiva e do Senhor Brahmā, o controlador de todo o universo também, aceita as ordens controladoras de Ugrasena, Seu avô. Ele é o proprietário de milhões de universos, mas, ainda assim, implorou um pouco de terra ao oceano. E, embora seja exatamente como um oceano de sabedoria, ainda assim Ele às vezes me consulta. Ele é tão grande e magnânimo, e, no entanto, ocupa-Se em Suas diferentes atividades exatamente como uma pessoa comum.\"\n\nAqueles que estão constantemente ocupados no serviço pessoal do Senhor chamam-se *anugas,* ou seguidores. Exemplos de tais seguidores são Sucandra, Maṇḍana, Stamba e Sutamba. Todos eles são habitantes da cidade de Dvārakā, e estão vestidos e ornamentados como os outros associados. Os serviços específicos confiados aos *anugas* são variados. Maṇḍana sempre porta o guarda-sol sobre a cabeça do Senhor Kṛṣṇa. Sucandra está ocupado em abanar com o feixe branco de pelos *cāmara,* e Sutamba está ocupado em fornecer nozes de bétel. Todos eles são grandes devotos, e estão sempre atarefados no amoroso serviço transcendental do Senhor.\n\nAssim como há *anugas* em Dvārakā, também há muitos *anugas* em Vṛndāvana. Os nomes dos *anugas* em Vṛndāvana são os seguintes: Raktaka, Patraka, Patrī, Madhukaṇṭha, Madhuvrata, Rasāla, Suvilāsa, Premakanda, Marandaka, Ānanda, Candrahāsa, Payoda, Bakula, Rasada e Śārada.\n\nAs descrições dos traços corpóreos dos *anugas* em Vṛndāvana são dadas na seguinte afirmação: \"Ofereçamos nossas respeitosas reverências aos constantes associados do filho de Mahārāj Nanda. Eles sempre permanecem em Vṛndāvana, e seus corpos estão decorados com guirlandas de pérolas e com braceletes e pulseiras de ouro. Suas cores são como as abelhas pretas e a lua dourada, e estão vestidos justamente para combinar com seus particulares e especiais traços corpóreos. Seus deveres específicos podem ser compreendidos por uma afirmação de mãe Yaśodā, que disse: 'Bakula, por favor, limpa a roupa amarelada de Kṛṣṇa. Vārida, perfuma a água do banho com a essência de *aguru.* E Rasāla, prepara as nozes de bétel. Todos vós podeis ver que Kṛṣṇa se aproxima. Há poeira lá no alto, e as vacas podem ser vistas muito distintamente.'\"\n\nDentre todos os *anugas,* Raktaka é considerado o principal. A descrição de seus traços corpóreos é a seguinte: \"Ele usa roupa amarela, e sua cor corpórea é exatamente como a grama recém-crescida. Ele é muito perito em cantar e está sempre ocupado no serviço do filho de Mahārāj Nanda. Tornemo-nos todos os seguidores de Raktaka ao oferecer amoroso serviço transcendental a Kṛṣṇa!\" Um exemplo do apego sentido por Raktaka para com o Senhor Kṛṣṇa pode ser compreendido por sua afirmação a Rasada: \"Apenas escuta-me! Por favor, coloca-me de modo que eu possa estar sempre ocupado no serviço do Senhor Kṛṣṇa, que agora se tornou famoso como o erguedor da colina de Govardhan.\"\n\nOs devotos de Kṛṣṇa ocupados em Seu serviço pessoal são sempre muito cautelosos, pois sabem que tornar-se servidor pessoal do Senhor Kṛṣṇa não é coisa comum. Uma pessoa que oferece respeito até às formigas ocupadas no serviço do Senhor torna-se eternamente feliz, de modo que o que dizer de alguém que oferece a Kṛṣṇa serviço direto? Raktaka disse certa vez consigo mesmo: \"Kṛṣṇa não só é meu Senhor adorável e servível, mas também as amigas de Kṛṣṇa, as *gopīs,* são igualmente adoráveis e servíveis por mim. E não só as *gopīs,* mas qualquer um que esteja ocupado no serviço ao Senhor também é adorável e servível por mim. Sei que devo ser muito cauteloso para não me orgulhar demais por ser um dos servidores e devotos do Senhor.\" Por esta afirmação, pode-se compreender que os devotos puros, aqueles que, de fato, estão ocupados no serviço do Senhor, são sempre muito cautelosos e jamais se orgulham demasiadamente de seu serviço.\n\nEsta mentalidade do servidor direto de Kṛṣṇa chama-se *dhurya.* Segundo os peritos estudos analíticos dos associados diretos do Senhor, Śrīla Rūpa Gosvāmī dividiu estes em três classes — a saber, *dhurya, dhīra* e *vīra.* Raktaka está classificado entre os *dhurya,* ou aqueles que estão sempre apegados a servir as mais amadas *gopīs.*\n\nUm associado *dhīra* de Kṛṣṇa é o filho da ama de Satyabhāmā. Satyabhāmā é uma das rainhas do Senhor Kṛṣṇa em Dvārakā e, quando ela se casou com Kṛṣṇa, permitiu-se que o filho de sua ama fosse com ela, pois eles haviam vivido juntos desde a infância como irmão e irmã. Assim, este cavalheiro, o filho da ama de Satyabhāmā, costumava viver com Kṛṣṇa como Seu cunhado e, às vezes, como cunhado, costumava fazer brincadeiras com Kṛṣṇa. Certa vez, dirigiu-se a Kṛṣṇa desta maneira: \"Meu querido Kṛṣṇa, nunca tentei conquistar o favor da deusa da fortuna, que é casada conTigo, mas, ainda assim, sou tão afortunado que sou considerado um dos membros de Tua casa, o irmão de Satyabhāmā.\"\n\nEsta mesma pessoa exprimiu certa vez seu orgulho, declarando: \"O Senhor Baladeva pode ser um grande inimigo de Pralambāsura, mas eu não tenho nada com que me preocupar a respeito dEle. E, quanto a Pradyumna, não tenho nada a receber dele, pois ele é apenas um menino. Portanto, não espero nada de mais ninguém. Espero apenas o olhar favorável de Kṛṣṇa sobre mim, e por isso nem sequer temo a Satyabhāmā, que é tão querida a Kṛṣṇa.\"\n\nNo Quarto Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 20º Capítulo, 25º verso, o rei Pṛthu dirige-se ao Senhor, dizendo: \"Meu querido Senhor, pode acontecer que a deusa da fortuna fique insatisfeita com meu trabalho, ou eu posso até ter algum desentendimento com ela, mas isso não me incomodará, pois tenho plena confiança em Ti. Tu és sempre imotivadamente misericordioso para com Teus servos, e consideras muito avançado até mesmo seu serviço servil. De modo que tenho confiança de que aceitarás meu humilde serviço, embora ele não seja digno de ser reconhecido. Meu querido Senhor, Tu és autossuficiente. Podes fazer qualquer coisa que desejes sem a ajuda de mais ninguém. De maneira que, mesmo que a deusa da fortuna não esteja satisfeita comigo, sei que sempre aceitarás meu serviço, de todo modo.\"\n\nOs devotos apegados ao amoroso serviço transcendental do Senhor podem ser descritos quer como almas rendidas, quer como almas avançadas no conhecimento devocional, quer como almas completamente ocupadas no amoroso serviço transcendental. Tais devotos chamam-se, respectivamente, neófito, perfeito e eternamente perfeito."}
{"ref": "nod/37", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/37/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "37. Ímpetos para o Serviço a Kṛṣṇa", "purport": "## Ímpetos para o Serviço a Kṛṣṇa\n\nA misericórdia imotivada de Kṛṣṇa, a poeira de Seus pés de lótus, Seu *prasādam* e a associação com Seus devotos são alguns dos ímpetos para a ocupação de um devoto no amoroso serviço transcendental ao Senhor.\n\nKṛṣṇa exibiu Sua misericórdia imotivada quando esteve presente na partida do avô Bhīṣma. Durante a Batalha de Kurukṣetra, Bhīṣmadeva, o avô de Arjuna, jazia num leito de flechas antes de partir deste mundo mortal. Quando o Senhor Kṛṣṇa, Mahārāj Yudhiṣṭhira e os outros Pāṇḍavas aproximaram-se de Bhīṣmadeva, ele ficou muito grato ao Senhor Kṛṣṇa e dirigiu-se ao comandante militar *brāhmaṇa* Kṛpācārya assim: \"Meu querido Kṛpācārya, vê só a maravilhosa misericórdia imotivada do Senhor Kṛṣṇa! Sou o mais infeliz dos homens. Não tenho qualificação alguma. Eu me opunha ao mais íntimo amigo de Kṛṣṇa, Arjuna — até tentei *matá-lo!* Tenho tantas desqualificações e, no entanto, o Senhor é ainda tão bondoso que veio ver-me no último momento de minha vida. Ele é adorável por todos os grandes sábios, mas, ainda assim, é tão misericordioso que veio ver uma pessoa abominável como eu.\"\n\nÀs vezes, a vibração da flauta do Senhor Kṛṣṇa, Seu toque de trombeta, Seu sorriso, Suas pegadas no chão, a fragrância transcendental de Seu corpo e o aparecimento de uma nova nuvem no céu também se tornam ímpetos para o amor extático por Ele.\n\nNo *Vidagdha-mādhava,* há a seguinte afirmação: \"Quando Kṛṣṇa estava tocando Sua flauta, Baladeva, muito ansiosamente, declarou: 'Vê só como, após ouvir o som transcendental da flauta de Kṛṣṇa, Indra, o rei dos céus, chora em seu reino celestial! E, de suas lágrimas que caem ao chão, Vṛndāvana parece ter-se tornado uma residência celestial para os semideuses.'\"\n\nO amor extático por Kṛṣṇa, que se conhece como *anubhāva,* é sintomatizado pelos seguintes sinais: a pessoa ocupa-se exclusivamente no serviço do Senhor, atenta a cumprir fielmente as ordens do Senhor; torna-se imperturbável e não invejosa em pleno amoroso serviço transcendental ao Senhor; e faz amizade com os devotos do Senhor que estão situados em fiel serviço a Ele. Todos esses sintomas chamam-se *anubhāva,* amor extático.\n\nO primeiro sintoma de *anubhāva,* ou ocupação num tipo particular de serviço, é exemplificado por Dāruka, um servo de Kṛṣṇa que costumava abanar Kṛṣṇa com um *cāmara,* um feixe de pelos. Quando estava ocupado em tal serviço, enchia-se de amor extático, e os sintomas do amor extático manifestavam-se em seu corpo. Mas Dāruka era tão sério quanto a seu serviço que reprimia todas essas manifestações de amor extático e as considerava obstáculos à sua ocupação. Não se importava muito com essas manifestações, embora elas se desenvolvessem automaticamente.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, 86º Capítulo, 27º verso, há uma afirmação de como Śrutadeva, um *brāhmaṇa* da região chamada Mithilā, no norte da Índia, ficava tão dominado de alegria assim que via Kṛṣṇa que, imediatamente após prostrar-se aos pés de lótus do Senhor, levantava-se e começava a dançar, erguendo os dois braços acima da cabeça.\n\nUm dos devotos do Senhor Kṛṣṇa dirigiu-se certa vez a Ele desta maneira: \"Meu querido Senhor, embora não sejas um dançarino profissional, com Tua dança nos assombraste tanto que podemos compreender que és pessoalmente o mestre de toda dança. Certamente deves ter aprendido esta arte da dança diretamente da deusa do amor.\" Quando um devoto dança em amor extático, há manifestações de sintomas que se chamam *sāttvika. Sāttvika* significa que eles provêm da plataforma transcendental. Não são sintomas de emoções materiais; provêm da própria alma.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, 85º Capítulo, 30º verso, Śukadeva Gosvāmī diz a Mahārāj Parīkṣit que, após render tudo aos pés de lótus de Vāmanadeva, Bali Mahārāj imediatamente agarrou os pés de lótus do Senhor e os pressionou contra o coração. Estando dominado de alegria, manifestou todos os sintomas de amor extático, com lágrimas nos olhos e uma voz trêmula.\n\nEm tais expressões de amor extático, há muitos outros sintomas subsidiários, tais como júbilo, fenecimento, silêncio, decepção, melancolia, reverência, ponderação, lembrança, dúvida, confiança, avidez, indiferença, inquietação, impudência, timidez, inércia, ilusão, loucura, horror, contemplação, sonho, doença e sinais de morte. Quando um devoto encontra Kṛṣṇa, há sintomas de júbilo, orgulho e perseverança e, quando ele sente grande separação de Kṛṣṇa, os sintomas de horror, doença e os sinais de morte tornam-se proeminentes.\n\nAfirma-se no Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 11º Capítulo, 4º verso, que, quando o Senhor Kṛṣṇa voltou do campo de batalha de Kurukṣetra a Seu lar em Dvārakā, todos os residentes de Dvārakā começaram a conversar com Ele, como uma criança conversa amorosamente com o pai após o regresso deste de países estrangeiros. Este é um exemplo de júbilo.\n\nQuando Bahulāśva, o rei de Mithilā, viu Kṛṣṇa em seu palácio, decidiu oferecer-Lhe seus respeitos prostrando-se diante dEle ao menos cem vezes, mas ficou tão dominado por sentimentos de amor que, após prostrar-se apenas uma vez, esqueceu sua posição e não conseguiu levantar-se novamente.\n\nNo *Skanda Purāṇa,* um devoto diz ao Senhor Kṛṣṇa: \"Meu querido Senhor, assim como o sol evapora toda a água do solo com seu calor escaldante, assim também meu estado mental ressecou o brilho de meu rosto e de meu corpo, devido à separação de Ti.\" Este é um exemplo de fenecimento no amor extático.\n\nUma expressão de decepção foi feita por Indra, o rei dos céus. Quando viu o deus do sol, Indra disse-lhe: \"Meu querido deus do sol, teu brilho solar é muito glorioso porque alcança os pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa, o amo da dinastia Yadu. Tenho milhares de olhos, mas eles se provaram inúteis, pois nem por um instante são capazes de ver os pés de lótus do Senhor.\"\n\nA devoção reverencial pelo Senhor gradualmente aumenta e transforma-se em amor extático, depois em afeição e, em seguida, em apego. No Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 38º Capítulo, 5º verso, Akrūra diz: \"Visto que vou ver o Senhor Kṛṣṇa hoje, todos os sintomas de inauspiciosidade já foram mortos. Minha vida agora é exitosa, pois serei capaz de oferecer meus respeitos aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus!\"\n\nOutro devoto, em afeição reverencial extática, disse certa vez: \"Quando virá aquele dia glorioso de minha vida em que me será possível ir à margem do Yamunā e ver o Senhor Śrī Kṛṣṇa brincando ali como um menino vaqueiro?\"\n\nQuando não há diminuição deste amor extático e quando ele está livre de todo tipo de dúvida, essa fase chama-se amor constante por Kṛṣṇa. Nesta fase, todas as expressões de infelicidade por parte do devoto chamam-se *anubhāva,* ou sintomas amorosos extáticos.\n\nO sintoma de afeição extática com reverência sentido por Bali Mahārāj exprimiu-se da seguinte forma: \"Meu querido Senhor, simultaneamente Tu me puniste e me mostraste Tua misericórdia imotivada. Minha conclusão é que, uma vez que me abriguei em Teus pés de lótus, jamais serei perturbado em qualquer condição de vida. Quer me dês a oportunidade de desfrutar de todas as perfeições yóguicas, quer me coloques na mais abominável condição de vida infernal, jamais serei perturbado.\"\n\nO próprio Kṛṣṇa, após ver Bali Mahārāj, disse a Uddhava: \"Meu querido amigo, como posso exprimir as gloriosas características de Bali Mahārāj, o filho de Virocana? Embora o rei dos *suras* [semideuses] tenha sido amaldiçoado por este filho de Virocana, e embora Eu o tenha enganado em Minha encarnação como Vāmana, tomando-lhe seus domínios por todo o universo, e embora Eu ainda o tenha criticado por não cumprir sua promessa, acabo de vê-lo em seu reino, e ele, com sentimento, exprimiu seu *amor* por Mim.\"((Bali foi um rei dos demônios que travou guerra contra os semideuses e quase conquistou o universo. Quando os semideuses oraram pedindo ajuda, o Senhor apareceu como Vāmanadeva, um *brāhmaṇa* anão, e pediu a Bali três passos de terra. Bali concordou, e Vāmana cobriu todos os mundos com Seus dois primeiros passos. Então Ele exigiu saber onde haveria de pôr Seu terceiro passo. Bali ofereceu a própria cabeça sob o pé do Senhor e assim tornou-se um *mahājana,* ou grande devoto.))\n\nQuando tal sentimento de amor se intensifica, chama-se afeição. Nessa fase afetuosa, ninguém pode suportar a separação de Kṛṣṇa nem por um instante.\n\nUm devoto disse a Dāruka, o servo de Kṛṣṇa: \"Meu querido Dāruka, quando ficas como madeira por causa de tua separação de Kṛṣṇa, isso não é tão maravilhoso. Sempre que *qualquer* devoto vê Kṛṣṇa, seus olhos se enchem de água, e, na separação, qualquer devoto como tu ficaria atônito, postado exatamente como um boneco de madeira. Isso não é coisa muito maravilhosa.\"\n\nHá uma afirmação sobre os sintomas de amor de Uddhava. Quando ele viu o Senhor Kṛṣṇa, seus olhos se encheram de lágrimas e criaram um rio que fluía em direção ao mar de Kṛṣṇa para oferecer tributo, assim como uma esposa oferece tributo ao marido. Quando seu corpo se eriçou de arrepios, ele pareceu como a flor *kadamba* e, quando começou a oferecer orações, pareceu completamente distinto de todos os outros devotos.\n\nQuando a afeição é sintomatizada por felicidade e aflição diretas, isso chama-se atração. Em tal estado de amor extático atraído, a pessoa pode enfrentar com calma todo tipo de desvantagens. Mesmo correndo o risco de morte, tal devoto jamais fica privado do amoroso serviço transcendental do Senhor. Um glorioso exemplo deste amor extático foi exibido pelo rei Parīkṣit quando estava à beira da morte. Embora estivesse privado de todo o seu reino, que se estendia por todo o mundo, e embora não estivesse aceitando sequer uma gota de água nos sete dias que lhe restavam, porque estava ocupado em ouvir os passatempos transcendentais do Senhor da boca de Śukadeva Gosvāmī, ele não estava nem um pouco aflito. Pelo contrário, sentia direta alegria extática transcendental na associação com Śukadeva Gosvāmī.\n\nUm devoto exprimiu com confiança esta opinião: \"Se uma gota da misericórdia do Senhor Kṛṣṇa puder ser concedida a mim, então sentir-me-ei completamente despreocupado, mesmo em meio a um fogo ou a um oceano. Mas, se eu ficar privado de Sua misericórdia imotivada, então, ainda que me tornasse o rei de Dvārakā, eu seria simplesmente um objeto para alfinetadas.\"\n\nDevotos como Mahārāj Parīkṣit e Uddhava estão todos situados em atração extática com base na afeição e, nesse estado de afeição, manifesta-se um sentimento de amizade. Quando Uddhava ficou livre de toda contaminação material, viu o Senhor, e sua garganta ficou embargada, e ele não conseguiu falar. Somente pelos movimentos de suas sobrancelhas, abraçava o Senhor. Tal amor extático foi dividido pelos grandes eruditos em dois grupos — adição e subtração. Se um devoto não está diretamente associado com o Senhor, isso chama-se subtração. Neste estado de amor, a pessoa está constantemente fixa com a mente nos pés de lótus do Senhor. Um devoto neste estado fica muito ávido por conhecer as qualidades transcendentais do Senhor. A ocupação mais importante de tal devoto é alcançar a associação com o Senhor.\n\nNo *Nṛsiṁha Purāṇa,* há uma afirmação sobre o rei Ikṣvāku que ilustra este estado de amor extático. Por causa de sua grande afeição por Kṛṣṇa, o rei Ikṣvāku ficou muito apegado à nuvem escura, ao cervo preto, aos olhos pretos do cervo e à flor de lótus, que sempre se compara aos olhos do Senhor. No Décimo Canto, 38º Capítulo, 9º verso do *Bhāgavatam,* Akrūra pensa: \"Visto que o Senhor agora apareceu para diminuir o grande fardo do mundo e está agora visível aos olhos de todos em Seu pessoal corpo transcendental, quando O virmos diante de nós, não será esta a perfeição última de nossos olhos?\" Em outras palavras, Akrūra percebeu que a perfeição dos olhos cumpre-se quando a pessoa é capaz de ver o Senhor Kṛṣṇa. Portanto, quando o Senhor Kṛṣṇa estava visível na Terra por aparecimento direto, todos os que O viram certamente alcançaram a perfeição da visão.\n\nNo *Kṛṣṇa-karṇāmṛta,* escrito por Bilvamaṅgala Ṭhākura, há esta expressão de avidez no amor extático: \"Que miséria é esta, meu querido Kṛṣṇa, ó amigo dos desesperançados! Ó misericordioso Senhor, como posso passar estes dias ingratos sem ver-Te?\" Um sentimento semelhante foi exprimido por Uddhava quando escreveu uma carta a Kṛṣṇa e disse: \"Meu querido Supremo Rei de Braja, Tu és a visão de néctar para os olhos e, sem ver Teus pés de lótus e a refulgência de Teu corpo, minha mente está sempre melancólica. Não consigo perceber paz alguma em circunstância alguma. Além disso, sinto a separação de cada instante como se fosse a duração de muitos e muitos longos anos.\"\n\nNo *Kṛṣṇa-karṇāmṛta,* diz-se também: \"Meu querido Senhor, Tu és o oceano de misericórdia. Com meus braços postos sobre a cabeça, prosto-me diante de Ti com toda humildade e sinceridade. Estou orando a Ti, meu Senhor. Terias o prazer de simplesmente borrifar um pouco da água de Teu olhar sobre mim? Isso seria uma grande satisfação.\"\n\nUm devoto do Senhor Kṛṣṇa disse: \"Quando até mesmo Śaśiśekhara [o Senhor Śiva] é incapaz de ver-Te, que possibilidade há para mim, que sou inferior a um verme comum? Cometi apenas más ações. Sei que não estou de modo algum apto a oferecer minhas orações a Ti, mas, porque és conhecido como Dīnabandhu, o amigo dos caídos, humildemente oro para que tenhas a bondade de purificar-me com os raios de Teu olhar transcendental. Se eu for completamente banhado por Teu misericordioso olhar, então poderei ser salvo. Portanto, meu Senhor, peço-Te que tenhas a bondade de conceder-me Teu misericordioso olhar.\""}
{"ref": "nod/38", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/38/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "38. Indiferença e Separação", "purport": "## Indiferença e Separação\n\nO grande devoto Uddhava escreveu certa vez uma carta a Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, acabo de concluir o estudo de todo tipo de livros filosóficos e versos Védicos sobre a meta da vida, e por isso tenho agora uma pequena reputação por meus estudos. Mas, ainda assim, apesar de minha reputação, meu conhecimento é condenado, pois, embora desfrutando da refulgência do conhecimento Védico, não consegui apreciar a refulgência que emana das unhas dos dedos de Teus pés. Portanto, quanto mais cedo meu orgulho e meu conhecimento Védico forem destruídos, tanto melhor será!\" Este é um exemplo de indiferença.\n\nOutro devoto exprimiu-se muito ansiosamente desta forma: \"Minha mente é muito vacilante, de modo que não consigo concentrá-la em Teus pés de lótus. E, vendo esta ineficiência em mim mesmo, fico envergonhado, e a noite toda sou incapaz de dormir, pois estou exasperado por minha grande incapacidade.\"\n\nNo *Kṛṣṇa-karṇāmṛta,* Bilvamaṅgala Ṭhākura explicou sua inquietação da seguinte forma: \"Meu querido Senhor, Tua travessura na infância é a coisa mais maravilhosa nos três mundos. E Tu mesmo sabes o que é esta travessura. Sendo assim, podes muito facilmente compreender minha mente vacilante. Isto é sabido por Ti e por mim. Portanto, anseio simplesmente por saber como posso fixar minha mente em Teus pés de lótus.\"\n\nOutro devoto exprimiu sua impudência ao dizer: \"Meu querido Senhor, sem considerar minha posição reles, devo confessar a Ti que meus olhos são exatamente como vespas pretas, que desejam pairar em Teus pés de lótus.\"\n\nNo Sétimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 4º Capítulo, 27º verso, o grande sábio Nārada informa Mahārāj Yudhiṣṭhira sobre Prahlāda Mahārāj, que foi um devoto desde o próprio começo de sua vida. A prova da devoção natural de Prahlāda é que, mesmo quando era uma pequena criança, não brincava com seus companheiros de brincadeira, mas estava sempre ávido por pregar as glórias do Senhor. Em vez de unir-se às suas habilidosas façanhas acrobáticas, ele permanecia como uma criança inativa, pois estava sempre em transe, meditando em Kṛṣṇa. Sendo assim, não havia possibilidade de ele ser tocado pelo mundo externo.\n\nA afirmação seguinte é sobre um devoto *brāhmaṇa*: \"Este *brāhmaṇa* é muito perito em todo tipo de atividades, mas não sei por que ele está olhando para cima sem mover os olhos. Parece que seu corpo está fixo, imóvel, exatamente como o de um boneco. Nesta condição, posso supor que ele foi cativado pela beleza transcendental daquele perito flautista, Śrī Kṛṣṇa, e, estando apegado a Ele, está simplesmente fitando a nuvem escura, lembrando-se do matiz corpóreo de Śrī Kṛṣṇa.\" Este é um exemplo de como um devoto pode tornar-se inerte devido ao amor extático.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Sétimo Canto, 4º Capítulo, 30º verso, Prahlāda Mahārāj diz que, mesmo em sua infância, quando proclamava em voz alta as glórias do Senhor, costumava dançar exatamente como um louco desavergonhado. E, às vezes, estando plenamente absorto em pensamentos sobre os passatempos do Senhor, costumava imitar tais passatempos. Este é um exemplo de um devoto ser quase como um louco. De modo semelhante, diz-se que o grande sábio Nārada estava tão extaticamente apaixonado por Kṛṣṇa que, às vezes, dançava nu, e, às vezes, todo o seu corpo ficava atônito. Às vezes, ria muito alto; às vezes, chorava muito alto; às vezes, permanecia em silêncio; e, às vezes, parecia estar sofrendo de alguma doença, embora não tivesse doença alguma. Este é outro exemplo de tornar-se como um louco no êxtase da devoção.\n\nNo *Hari-bhakti-sudhodaya,* afirma-se que, quando Prahlāda Mahārāj se julgava inapto para aproximar-se da Suprema Personalidade de Deus, ele imergia em grande aflição, num oceano de infelicidade. Sendo assim, costumava derramar lágrimas e deitar-se no chão como se inconsciente.\n\nOs alunos de um grande devoto conversaram certa vez entre si desta maneira: \"Meus queridos irmãos espirituais, nosso mestre espiritual, após ver os pés de lótus do Senhor, lançou-se no fogo da lamentação, e, por causa deste fogo, a água de sua vida quase se ressecou. Derramemos agora o néctar do santo nome através de seus ouvidos, e, ao fazermos isso, o cisne de sua vida talvez novamente mostre sinais de vida.\"\n\nQuando o Senhor Kṛṣṇa foi à cidade de Śoṇitapura para lutar com Bāṇa, o filho de Bali, e cortar-lhe todas as mãos, Uddhava, estando separado de Kṛṣṇa e pensando em Sua luta, ficou quase completamente atônito a ponto da inconsciência.\n\nQuando um devoto está plenamente apaixonado pela Suprema Personalidade de Deus, podem manifestar-se os seguintes sintomas devido aos seus sentimentos de separação do Senhor: condição febril do corpo, fenecimento do corpo, falta de sono, não-apego, inércia, aparência de doente, loucura, inconsciência e, às vezes, morte.\n\nQuanto à condição febril do corpo, Uddhava disse certa vez a Nārada: \"Meu querido e grande sábio, a flor de lótus, que é amiga do sol, pode ser para nós uma causa de aflição; e o fogo no oceano pode causar-nos certa sensação de queimação; e Indīvara, o amigo de um demônio, pode afligir-nos de várias maneiras — não nos importamos. Mas o fator mais lamentável é que todos eles nos lembram de Kṛṣṇa, e isto nos dá demasiada aflição!\" Este é um exemplo da condição febril que se deve a estar separado de Kṛṣṇa.\n\nAlguns dos devotos que foram ver Kṛṣṇa em Dvārakā e foram detidos à porta disseram: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó amigo dos Pāṇḍus, assim como o cisne adora mergulhar na água entre as flores de lírio e morreria se fosse tirado da água, assim também desejamos apenas estar conTigo. Nossos membros estão encolhendo e fenecendo, porque foste levado para longe de nós.\"\n\nO rei de Bahulā, embora muito confortavelmente situado em seu palácio, começou a achar as noites muito longas e angustiantes por causa de sua separação de Kṛṣṇa.\n\nO rei Yudhiṣṭhira disse certa vez: \"Kṛṣṇa, o condutor da quadriga de Arjuna, é o único parente que tenho dentro dos três mundos. Por isso, minha mente está enlouquecendo dia e noite com a separação de Seus pés de lótus, e não sei como situar-me ou aonde irei para alcançar alguma estabilidade da mente.\" Este é outro exemplo de falta de sono.\n\nAlguns dos amigos vaqueiros de Kṛṣṇa disseram: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó inimigo do demônio Mura, pensa só em Teu servo pessoal Raktaka. Simplesmente porque viu uma pena de pavão, ele está agora fechando os olhos e já não dá atenção a pastorear as vacas. Em vez disso, deixou-as num pasto distante e nem sequer se incomodou em usar seu cajado para controlá-las.\" Este é um exemplo de desequilíbrio mental devido à separação de Kṛṣṇa.\n\nQuando o Senhor Kṛṣṇa foi à capital do rei Yudhiṣṭhira, Uddhava ficou tão afligido pelo fogo da separação de Śrī Kṛṣṇa que o suor de seu corpo inflamado e as lágrimas de seus olhos jorravam dele e, dessa maneira, ele ficou completamente atônito.\n\nQuando Śrī Kṛṣṇa deixou a cidade de Dvārakā para buscar a joia Syamantaka, demorou a regressar para casa. Uddhava ficou tão afligido que os sintomas de doença manifestaram-se em seu corpo. Na verdade, por causa de seu excessivo amor extático por Kṛṣṇa, Uddhava ficou conhecido em Dvārakā como louco. Para sua grande fortuna, naquele dia a reputação de Uddhava como sujeito louco ficou firmemente estabelecida. A loucura de Uddhava praticamente se comprovou quando ele foi à colina Raivataka para observar minuciosamente as congestionadas nuvens negras. Em sua condição perturbada, começou a orar a essas nuvens, e exprimiu seu júbilo prostrando-se diante delas.\n\nUddhava informou Kṛṣṇa: \"Meu querido líder da dinastia Yadu, Teus servos em Vṛndāvana não conseguem dormir à noite pensando em Ti, de modo que agora estão todos deitados na margem do Yamunā, quase paralisados. E parece que estão quase mortos, pois sua respiração é muito lenta.\" Este é um exemplo de tornar-se inconsciente devido à separação de Kṛṣṇa.\n\nKṛṣṇa foi certa vez informado: \"Tu és a vida e a alma de todos os habitantes de Vṛndāvana. De modo que, porque deixaste Vṛndāvana, todos os servidores de Teus pés de lótus ali estão sofrendo. É como se os lagos cheios de flores de lótus tivessem secado pelo calor escaldante da separação de Ti.\" No exemplo aqui dado, os habitantes de Vṛndāvana são comparados a lagos cheios de flores de lótus e, por causa do calor escaldante da separação de Kṛṣṇa, os lagos — juntamente com as flores de lótus de suas vidas — estão sendo queimados. E os cisnes nos lagos, que se comparam à vitalidade dos habitantes de Vṛndāvana, já não desejam viver naquele lago. Em outras palavras, por causa do calor escaldante, os cisnes estão deixando os lagos. Esta metáfora se emprega para descrever a condição dos devotos separados de Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/39", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/39/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "39. Maneiras de Encontrar Kṛṣṇa", "purport": "## Maneiras de Encontrar Kṛṣṇa\n\nQuando Kṛṣṇa e Seus devotos se encontram, o encontro chama-se tecnicamente *yoga,* ou ligar-se ao Senhor. Tais encontros entre Kṛṣṇa e Seus devotos podem dividir-se em três classes — a saber, perfeição, satisfação e estabilidade. Quando o devoto se encontra com Kṛṣṇa com grande avidez, esse estado de encontro chama-se perfeição.\n\nNo *Kṛṣṇa-karṇāmṛta,* Bilvamaṅgala Ṭhākura descreve como Kṛṣṇa encontra Seu devoto — com a pena de pavão na cabeça, com joias *marakata* no peito, e com Seu sorriso sempre encantador, Seus olhos inquietos e Seu corpo deveras delicado.\n\nNo Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 38º Capítulo, 31º verso, Śukadeva Gosvāmī diz ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, assim que Akrūra, o condutor da quadriga, viu o Senhor Kṛṣṇa e Seu irmão mais velho Balarāma em Vṛndāvana, imediatamente desceu da quadriga e, estando grandemente afligido pela afeição pelo Senhor transcendental, prostrou-se a Seus pés de lótus para oferecer respeitosas reverências.\" Estes são alguns dos exemplos de encontros perfeitos com Kṛṣṇa.\n\nQuando um devoto encontra Kṛṣṇa após longa separação, isso chama-se satisfação. No Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 11º Capítulo, 9º verso, afirma-se que, quando o Senhor Kṛṣṇa regressou à Sua capital, Dvārakā, os habitantes começaram a dizer: \"Meu querido Senhor, se permaneceres em países estrangeiros por tanto tempo, certamente ficaremos privados de ver Teu rosto sorridente! Ao observar Teu rosto, nós, Teus eternos servidores, ficamos grandemente satisfeitos. Todas as ansiedades de nossa existência são imediatamente mitigadas. Se não pudermos ver-Te, porque estás longamente ausente de Dvārakā, então nos será impossível continuar a viver.\" Este é um exemplo de satisfação ao encontrar Kṛṣṇa após longa separação.\n\nO servo pessoal de Kṛṣṇa, Dāruka, ao ver Kṛṣṇa à porta de Dvārakā, esqueceu-se de oferecer-Lhe respeitos com as mãos postas.\n\nQuando um devoto está finalmente situado em associação com Kṛṣṇa, sua posição chama-se estabilidade no serviço devocional. Esta posição estável no serviço devocional é explicada no livro conhecido como *Haṁsadūta.* Descreve-se ali como Akrūra, que era considerado pelas *gopīs* o terror personificado, conversava com Kṛṣṇa sobre as atividades da dinastia Kuru. Uma posição estável semelhante era ocupada por Uddhava, o discípulo de Bṛhaspati. Ele sempre massageava os pés de lótus de Kṛṣṇa enquanto se ajoelhava no chão diante dEle.\n\nQuando um devoto está ocupado no serviço do Senhor, isso chama-se a obtenção do *yoga.* O equivalente em português da palavra \"*yoga*\" é \"ligar-se\". Assim, a efetiva ligação com Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, começa quando o devoto Lhe presta serviço. Os devotos situados no *rasa* transcendental de servidão prestam seu serviço particular sempre que há oportunidade. Às vezes, sentam-se diante de Kṛṣṇa para receber ordens. Algumas pessoas relutam em aceitar este nível de serviço devocional como verdadeiro *bhakti-yoga,* e, em alguns dos *Purāṇas* também, esta servidão no serviço devocional a Kṛṣṇa não é aceita como o verdadeiro sistema de *bhakti-yoga.* Mas no *Śrīmad-Bhāgavatam* indicou-se claramente que a relação de servidor com Kṛṣṇa é o verdadeiro começo da realização do *yoga.*\n\nNo Décimo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 3º Capítulo, 33º verso, afirma-se que, quando os devotos estão ocupados no cumprimento do *bhakti-yoga,* às vezes choram por pensarem em Kṛṣṇa, às vezes riem, às vezes ficam jubilosos e, às vezes, falam de maneiras muito incomuns. Às vezes dançam, às vezes cantam, às vezes estão de fato ocupados no serviço do Senhor e, às vezes, sentam-se silenciosamente como se absortos em transe.\n\nDe modo semelhante, no Sétimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Capítulo 28, Prahlāda Mahārāj diz a seus amigos: \"Meus queridos amigos, assim que os devotos puros do Senhor Kṛṣṇa ouvem falar dos passatempos transcendentais do Senhor, que é o eterno reservatório de passatempos, ou ouvem falar de Suas qualidades transcendentais, ficam dominados de júbilo. Sintomas extáticos manifestam-se em seus corpos. Eles derramam lágrimas, falam de maneira vacilante, glorificam o Senhor em voz alta e cantam e dançam em êxtase. Estes êxtases estão sempre presentes, mas, às vezes, ultrapassam todos os limites, e os sintomas tornam-se manifestos a todos.\"\n\nNo processo de render-se à Suprema Personalidade de Deus, há seis itens: aceitar tudo o que é favorável ao serviço devocional, rejeitar tudo o que é desfavorável ao serviço devocional, crer que Kṛṣṇa sempre dará proteção, identificar-se com os devotos de Kṛṣṇa, sentir-se sempre incapaz sem a ajuda de Kṛṣṇa e julgar-se sempre inferior a Kṛṣṇa, ainda que se possa ter plena capacidade de realizar algo por conta própria. Quando a pessoa está substancialmente convencida de que está sempre protegida por Kṛṣṇa em todas as circunstâncias, esse sentimento chama-se devoção reverencial. A devoção reverencial executa-se em relação com a Suprema Personalidade de Deus e com Seus outros devotos protegidos.\n\nQuando Kṛṣṇa residia em Dvārakā, alguns dos membros mais velhos da família Yadu ocasionalmente Lhe apresentavam algum assunto importante. Em tal ocasião, Kṛṣṇa dava cuidadosa atenção a esses assuntos. E, se algum tema humorístico fosse mencionado, Kṛṣṇa respondia imediatamente com o rosto sorridente. Às vezes, quando Kṛṣṇa executava Seus deveres na assembleia conhecida como Sudharmā, pedia aos membros mais velhos um bom conselho. Por tais atividades, Ele Se manifesta como o supremo mestre espiritual, o supremo chefe executivo, a inteligência superior, o supremo poder, protetor e mantenedor."}
{"ref": "nod/40", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/40/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "40. Devoção Reverencial de Filhos e Outros Subordinados", "purport": "## A Devoção Reverencial dos Filhos e Outros Subordinados\n\nA verdadeira devoção reverencial é demonstrada pelas pessoas que se consideram subordinadas a Kṛṣṇa e pelas pessoas que se consideram filhos de Kṛṣṇa. Os melhores exemplos dessa subordinação são Sāraṇa, Gada e Subhadrā. Todos eles eram membros da dinastia Yadu, e sempre costumavam considerar-se protegidos por Kṛṣṇa. De modo semelhante, os filhos de Kṛṣṇa, tais como Pradyumna, Cārudeṣṇa e Sāmba, sentiam o mesmo. Kṛṣṇa tinha muitos filhos em Dvārakā. Ele gerou dez filhos com cada uma de Suas 16.108 rainhas, e todos esses filhos, encabeçados por Pradyumna, Cārudeṣṇa e Sāmba, costumavam considerar-se sempre protegidos por Kṛṣṇa. Quando os filhos de Kṛṣṇa jantavam com Ele, às vezes abriam a boca para que Kṛṣṇa os alimentasse. Por vezes, quando Kṛṣṇa acariciava um de Seus filhos, o filho se sentava no colo de Kṛṣṇa, e, enquanto Kṛṣṇa abençoava a cabeça do filho cheirando-a, os demais derramavam lágrimas, pensando em quantas atividades piedosas ele deveria ter realizado em sua vida anterior. Dentre os muitos filhos de Kṛṣṇa, Pradyumna, filho da principal rainha de Kṛṣṇa, Rukmiṇī, é considerado o líder. Os traços corporais de Pradyumna assemelham-se exatamente aos de Kṛṣṇa. Os devotos puros de Kṛṣṇa glorificam Pradyumna porque ele tem tanta fortuna: tal pai, tal filho.\n\nHá, no *Hari-vaṁśa,* uma descrição das atividades de Pradyumna quando raptou Prabhāvatī. Pradyumna dirigiu-se a Prabhāvatī naquela ocasião e disse: \"Minha querida Prabhāvatī, olha apenas para o chefe de nossa família, Śrī Kṛṣṇa: Ele é o próprio Viṣṇu, o supremo condutor de Garuḍa, e é nosso amo supremo. Por nos termos tornado tão orgulhosos e confiantes de Sua proteção, às vezes nem sequer nos importamos em lutar com Tripurāri [o Senhor Śiva].\"\n\nHá duas espécies de devotos ocupados no serviço devocional com temor e veneração, e os servidores na morada de Dvārakā sempre adoram Kṛṣṇa como a mais respeitável e reverenciada Personalidade de Deus. Eles estão cativados por Kṛṣṇa por causa de Suas superexcelentes opulências. Os membros que sempre se consideravam protegidos por Kṛṣṇa podiam prontamente converter sua convicção em demonstração prática, pois às vezes se via que os filhos de Kṛṣṇa agiam de modo muito ilícito em vários lugares. Não obstante, recebiam plena proteção de Kṛṣṇa e Balarāma.\n\nAté mesmo Balarāma, o irmão mais velho de Kṛṣṇa, às vezes oferecia respeito a Ele sem o saber. Certa vez, quando Kṛṣṇa veio diante do Senhor Balarāma, Kṛṣṇa estava ansioso por oferecer Seus respeitos a Seu irmão mais velho, mas, naquele momento, a maça de Balarāma se abaixou sobre os pés de lótus de Kṛṣṇa. Em outras palavras, a maça na mão de Balarāma ofereceu seus próprios respeitos a Kṛṣṇa. Esses sentimentos de subordinação, conforme explicado acima, manifestam-se às vezes como *anubhāva.*\n\nQuando os semideuses dos planetas celestiais vieram a Śrī Kṛṣṇa, todos os filhos de Kṛṣṇa os seguiram, e o Senhor Brahmā aspergiu sobre eles a água de seu *kamaṇḍalu.* Quando os semideuses vieram diante de Kṛṣṇa, em vez de se sentarem em cadeiras douradas, os filhos sentaram-se no chão, que estava coberto com pele de veado.\n\nÀs vezes, o comportamento dos filhos de Kṛṣṇa parece semelhante ao comportamento de Seus servos pessoais. Por exemplo, os filhos costumavam oferecer suas reverências, eram silenciosos, submissos e gentis, e estavam sempre prontos a executar as ordens de Kṛṣṇa, mesmo a risco da própria vida. Quando presentes diante de Kṛṣṇa, prostravam-se no chão. Eram muito silenciosos e firmes, e costumavam conter a tosse e o riso diante do Senhor. Além disso, jamais discutiam os passatempos de Kṛṣṇa de amor conjugal. Em outras palavras, os devotos ocupados no serviço devocional reverencial não devem discutir os amores conjugais de Kṛṣṇa. Ninguém deve reivindicar sua relação eterna com Kṛṣṇa a menos que esteja liberado. No estado condicionado de vida, os devotos têm de executar os deveres prescritos, conforme recomendado nos códigos do serviço devocional. Quando a pessoa está madura no serviço devocional e é uma alma realizada, pode conhecer sua própria relação eterna com Kṛṣṇa. Não se deve tentar artificialmente estabelecer alguma relação. Na etapa prematura, às vezes se vê que uma pessoa luxuriosa e condicionada tentará artificialmente estabelecer alguma relação com Kṛṣṇa em amor conjugal. O resultado disso é que a pessoa se torna *prakṛta-sahajiyā,* ou alguém que toma tudo de modo muito barato. Embora tais pessoas possam estar muito ansiosas por estabelecer uma relação com Kṛṣṇa em amor conjugal, sua vida condicionada no mundo material continua sendo a mais abominável. Uma pessoa que de fato estabeleceu sua relação com Kṛṣṇa já não pode agir no plano material, e seu caráter pessoal não pode ser criticado.\n\nQuando Cupido veio, em certa ocasião, visitar o Senhor Kṛṣṇa, certo devoto dirigiu-se a ele desta maneira: \"Meu querido Cupido, por teres tido a fortuna de pousar teu olhar sobre os pés de lótus de Kṛṣṇa, as gotas de transpiração em teu corpo congelaram-se e assemelham-se a frutos *kaṇṭaki* [uma espécie de pequeno fruto encontrado em arbustos espinhosos].\" Esses são sinais de êxtase e veneração à Suprema Personalidade de Deus. Quando os príncipes da dinastia Yadu ouviram a vibração do búzio Pāñcajanya de Kṛṣṇa, os pelos de seus corpos imediatamente se arrepiaram em júbilo extático. Naquele momento, parecia que todos os pelos dos corpos dos príncipes dançavam em êxtase.\n\nAlém do júbilo, há às vezes sintomas de desapontamento. Pradyumna certa vez dirigiu-se a Sāmba com estas palavras: \"Meu querido Sāmba, és uma personalidade tão glorificada! Vi que certa vez, quando brincavas no chão, teu corpo ficou coberto de poeira; ainda assim, nosso pai, o Senhor Kṛṣṇa, tomou-te em Seu colo. Mas eu tenho tão pouca fortuna que nunca pude obter tal amor de nosso pai!\" Esta declaração é um exemplo de desapontamento no amor.\n\nConsiderar Kṛṣṇa o superior de alguém chama-se sentimento reverencial, e quando, além disso, um devoto sente que Kṛṣṇa é seu protetor, seu amor transcendental por Kṛṣṇa aumenta, e seus sentimentos combinados chamam-se devoção reverencial. Quando essa firme devoção reverencial aumenta ainda mais, chama-se amor a Deus em devoção reverencial. A atração e a afeição são dois sintomas proeminentes desta etapa. Nesta atitude devocional reverencial, Pradyumna jamais falava com seu pai em voz alta. De fato, ele nunca sequer abria os lábios da boca, nem jamais mostrava o rosto repleto de lágrimas. Ele sempre olhava apenas para os pés de lótus de seu pai.\n\nHá outro exemplo de amor firme e fixo por Kṛṣṇa no caso de Arjuna informá-lO da morte do filho de Arjuna, Abhimanyu, que era também sobrinho de Kṛṣṇa. Abhimanyu era filho de Subhadrā, irmã mais nova de Kṛṣṇa. Ele foi morto na Batalha de Kurukṣetra pelos esforços combinados de todos os comandantes do exército do rei Duryodhana — a saber, Karṇa, Aśvatthāmā, Jayadratha, Bhīṣma, Kṛpācārya e Droṇācārya. A fim de assegurar a Kṛṣṇa que não houve mudança de amor da parte de Subhadrā, Arjuna informou-lhe: \"Embora Abhimanyu tenha sido morto quase em Tua presença, o amor de Subhadrā por Ti não está nem um pouco agitado, nem mudou sequer levemente sua cor original.\"\n\nA afeição que Kṛṣṇa tem por Seus devotos foi expressa por Ele próprio quando pediu a Pradyumna que não se sentisse tão acanhado diante dEle. Ele dirigiu-se a Pradyumna desta maneira: \"Meu querido menino, abandona apenas teu complexo de inferioridade e não baixes o pescoço. Apenas fala comigo em voz clara e não derrames lágrimas. Podes olhar diretamente para Mim e podes pôr tuas mãos sobre Meu corpo sem nenhuma hesitação. Não há necessidade de demonstrar tanta reverência diante de teu pai.\"\n\nO apego de Pradyumna por Kṛṣṇa sempre se manifestava por sua ação. Sempre que seu pai lhe ordenava executar algo, ele executava imediatamente a ordem, tomando a tarefa como nectárea, ainda que pudesse ter sido veneno. De modo semelhante, sempre que descobria algo desaprovado por seu pai, rejeitava-o imediatamente como veneno, ainda que pudesse ter sido nectáreo.\n\nO apego de Pradyumna em ansiedade por Kṛṣṇa expressou-se quando ele disse a sua esposa Rati: \"O inimigo, Śambara, já está morto. Agora estou muito ansioso por ver meu pai, que é meu mestre espiritual e que sempre carrega o búzio conhecido como Pāñcajanya.\" Pradyumna sentiu grande separação de Kṛṣṇa quando Ele esteve ausente de Dvārakā, no campo de batalha de Kurukṣetra. Ele disse: \"Desde que meu pai deixou Dvārakā, não sinto muito prazer em praticar a luta, nem me interesso por nenhuma espécie de passatempos esportivos. E que necessidade há de falar dessas coisas? Não desejo sequer permanecer em Dvārakā na ausência de meu pai.\"\n\nQuando Pradyumna voltou para casa após matar o Śambarāsura, e assim que viu seu pai, Kṛṣṇa, diante de si, ficou tão extremamente contente que ele próprio não conseguia compreender sua alegria naquela ocasião. Este é um exemplo de êxito na separação. Uma satisfação semelhante observou-se quando Kṛṣṇa retornou do campo de batalha de Kurukṣetra para Seu lar em Dvārakā. Todos os Seus filhos ficaram tão contentes que, por êxtase, cometeram repetidamente muitos erros. Esses erros eram sinal de completa satisfação.\n\nTodos os dias, Pradyumna contemplava os pés de lótus de Kṛṣṇa com lágrimas nos olhos. Esses sinais de devoção reverencial da parte de Pradyumna podem ser descritos da mesma forma que foram descritos no caso de outros devotos."}
{"ref": "nod/41", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/41/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "41. Devoção Fraternal", "purport": "## A Devoção Fraternal\n\nQuando um devoto está permanentemente situado no serviço devocional e, por diferentes sintomas de êxtase, desenvolveu e amadureceu uma doçura ou sabor fraternal em sua relação com a Personalidade de Deus, seu sentimento chama-se amor fraternal a Deus.\n\nO ímpeto para tal amor fraternal a Deus é o próprio Deus. Quando a pessoa está liberada e descobre sua relação eterna com o Senhor Supremo, o próprio Senhor torna-se o ímpeto para aumentar o amor fraternal. Os companheiros eternos do Senhor em Vṛndāvana descreveram isso da seguinte maneira: \"O Senhor, Hari, cujo matiz corporal é como a joia *indranīla,* cujo sorriso é tão belo quanto a flor *kunda,* cuja roupa de seda é tão amarela quanto a folhagem dourada do outono, cujo peito é embelezado com guirlandas de flores e que está sempre tocando Sua flauta — este inimigo do demônio Agha está sempre atraindo nossos corações ao vagar por Vṛndāvana.\"\n\nHá declarações semelhantes de amor fraternal expressas fora da jurisdição de Vṛndāvana. Quando os filhos de Pāṇḍu, encabeçados por Mahārāj Yudhiṣṭhira, viram Kṛṣṇa em Sua forma de quatro braços no campo de batalha de Kurukṣetra, segurando Seu búzio, disco, maça e flor de lótus, esqueceram-se completamente de si mesmos e ficaram imersos no oceano de felicidade nectárea. Isso mostra como os filhos de Pāṇḍu — o rei Yudhiṣṭhira, Bhīma, Arjuna, Nakula e Sahadeva — estavam todos tomados de amor fraternal por Kṛṣṇa.\n\nÀs vezes, os diferentes nomes, formas, parafernália e qualidades transcendentais provocam o amor fraternal. Por exemplo, a bela roupa de Kṛṣṇa, os sinais totalmente auspiciosos em Seu corpo, Seu corpo fortemente constituído, Seu conhecimento de diferentes línguas, Seus eruditos ensinamentos no *Bhagavad-gītā,* Sua incomum genialidade em todos os campos de atividade, Sua exibição de conhecimento perito, Sua misericórdia, Seu cavalheirismo, Seu comportamento como amante conjugal, Sua inteligência, Seu perdão, Sua atração por toda espécie de homens, Sua opulência e Sua felicidade — tudo provoca o amor fraternal.\n\nO ímpeto ao amor fraternal ao se ver os companheiros de Kṛṣṇa em Vṛndāvana também é muito natural, pois seus traços corporais pessoais, suas qualidades e sua roupa são todos iguais aos de Kṛṣṇa. Esses companheiros estão sempre felizes em seu serviço a Kṛṣṇa, e geralmente são conhecidos como *vayasyas,* ou amigos da mesma idade. Os *vayasyas* têm plena confiança na proteção de Kṛṣṇa. Os devotos às vezes oram: \"Ofereçamos nossas respeitosas reverências aos *vayasyas* de Kṛṣṇa, que estão firmemente convencidos da amizade e proteção de Kṛṣṇa e cuja devoção a Kṛṣṇa é sempre fixa. Eles são destemidos e, em nível de igualdade com Kṛṣṇa, executam seu transcendental serviço devocional amoroso.\" Tais *vayasyas* eternos também são encontrados além da jurisdição de Vṛndāvana, em lugares como Dvārakā e Hastināpura. Exceto Vṛndāvana, todos os lugares dos passatempos de Kṛṣṇa chamam-se *puras* (cidades). Mathurā e Hastināpura, a capital dos Kurus, são ambas *puras.* Personalidades como Arjuna, Bhīma, Draupadī e Śrīdāmā Brāhmaṇa contam-se entre os devotos fraternais de Kṛṣṇa nas *puras.*\n\nA maneira como os filhos de Pāṇḍu, os Pāṇḍavas, desfrutam da associação de Kṛṣṇa é descrita da seguinte forma: \"Quando Śrī Kṛṣṇa chegou a Indraprastha, a capital dos Kurus, Mahārāj Yudhiṣṭhira imediatamente saiu para cheirar o aroma da cabeça de Kṛṣṇa.\" É costume Védico que os superiores cheirem as cabeças de seus subordinados quando estes oferecem respeito ao superior tocando-lhe os pés. De modo semelhante, Arjuna e Bhīma abraçaram Kṛṣṇa com grande júbilo, e os dois irmãos mais novos, a saber, Nakula e Sahadeva, tocaram os pés de lótus de Kṛṣṇa com lágrimas nos olhos e ofereceram seus respeitos. Dessa maneira, todos os cinco irmãos Pāṇḍavas desfrutaram da amizade fraternal de Kṛṣṇa em doçura transcendental. Dos cinco Pāṇḍavas, Arjuna é o mais intimamente ligado a Kṛṣṇa. Ele tem em sua mão um belo arco chamado Gāṇḍīva. Suas coxas são comparadas às trombas dos elefantes, e seus olhos estão sempre avermelhados. Quando Kṛṣṇa e Arjuna estão juntos em uma quadriga, tornam-se belezas celestiais, agradáveis aos olhos de todos. Diz-se que certa vez Arjuna estava deitado em seu leito, com a cabeça sobre o colo de Kṛṣṇa, conversando e brincando com Kṛṣṇa em grande descontração, desfrutando da companhia de Kṛṣṇa com sorrisos e grande satisfação.\n\nNo que se refere aos *vayasyas* (amigos) em Vṛndāvana, eles ficam grandemente angustiados quando não podem ver Kṛṣṇa nem por um momento.\n\nHá a seguinte oração de um devoto pelos *vayasyas* em Vṛndāvana: \"Todas as glórias aos *vayasyas* de Kṛṣṇa, que são iguais a Kṛṣṇa em idade, qualidades, passatempos, roupas e beleza. Eles estão acostumados a tocar suas flautas feitas de folhas de palmeira, e todos têm cornetas de chifre de búfalo ornamentadas, como as de Kṛṣṇa, com joias como a *indranīla* e com ouro e coral. Eles estão sempre jubilosos como Kṛṣṇa. Que esses gloriosos companheiros de Kṛṣṇa sempre nos protejam!\"\n\nOs *vayasyas* em Vṛndāvana mantêm com Kṛṣṇa uma amizade tão íntima que, às vezes, consideram-se tão bons quanto Kṛṣṇa. Eis um exemplo desse sentimento amistoso: quando Kṛṣṇa erguia a colina Govardhana com Sua mão esquerda, os *vayasyas* disseram: \"Meu querido amigo, estás de pé há sete dias e sete noites sem nenhum descanso. Isso é muito penoso para nós, pois vemos que empreendeste uma tarefa severamente trabalhosa. Pensamos, portanto, que não precisas continuar de pé dessa maneira, segurando a colina. Podes simplesmente transferi-la para a mão de Sudāmā. Estamos muito aflitos de Te ver nesta posição. Se achas que Sudāmā não é capaz de sustentar a colina Govardhana, então, ao menos, deverias trocar de mão. Em vez de sustentá-la com Tua mão esquerda, transfere-a, por favor, para Tua mão direita, para que possamos massagear Tua mão esquerda.\" Este é um exemplo de intimidade, mostrando o quanto os *vayasyas* se consideravam iguais a Kṛṣṇa.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, 12º Capítulo, 10º verso, Śukadeva Gosvāmī diz ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus para o erudito transcendentalista, é a felicidade suprema para o impersonalista, é a suprema Deidade adorável para o devoto, e é igual a um menino comum para quem está sob o feitiço de *māyā.* E imagina apenas — estes vaqueirinhos estão agora brincando com a Pessoa Suprema como se estivessem em nível de igualdade! Por isso, qualquer um pode compreender que esses meninos devem ter acumulado montes de resultados de atividades piedosas para que lhes fosse possível associar-se com a Suprema Personalidade de Deus em uma amizade tão íntima.\"\n\nHá uma descrição do sentimento de Kṛṣṇa por Seus *vayasyas* em Vṛndāvana. Ele certa vez disse a Balarāma: \"Meu querido irmão, quando Meus companheiros estavam sendo devorados pelo Aghāsura, lágrimas quentes verteram de Meus olhos. E, à medida que elas lavavam Minhas faces, Meu querido irmão mais velho, por ao menos um momento Eu Me perdi completamente.\"\n\nDentro de Gokula, os *vayasyas* de Kṛṣṇa geralmente se dividem em quatro grupos: 1) bem-querentes, 2) amigos, 3) amigos confidenciais e 4) amigos íntimos. Os amigos bem-querentes de Kṛṣṇa são um pouco mais velhos que Kṛṣṇa e têm certa afeição paternal por Ele. Por serem mais velhos que Kṛṣṇa, sempre tentam protegê-lO de qualquer dano. Sendo assim, às vezes portam armas para poderem castigar quaisquer pessoas malfeitoras que desejem fazer mal a Kṛṣṇa. Entre os amigos bem-querentes contam-se Subhadra,((Não confundir com a irmã de Kṛṣṇa, de mesmo nome.)) Maṇḍalībhadra, Bhadravardhana, Gobhaṭa, Yakṣa, Indrabhaṭa, Bhadrāṅga, Vīrabhadra, Mahāguṇa, Vijaya e Balabhadra. Eles são mais velhos que Kṛṣṇa e estão sempre pensando em Seu bem-estar.\n\nUm dos amigos mais velhos disse: \"Meu querido Maṇḍalībhadra, por que estás brandindo uma espada reluzente como se corresses em direção a Ariṣṭāsura para matá-lo? Meu querido Baladeva, por que carregas desnecessariamente esse arado pesado? Meu querido Vijaya, não te agites desnecessariamente. Meu querido Bhadravardhana, não há necessidade de fazer esses gestos ameaçadores. Se todos olhardes mais de perto, vereis que é apenas uma nuvem de trovão sobre a colina Govardhana; não é o Ariṣṭāsura sob a forma de um touro, como imaginastes.\" Esses amigos mais velhos e bem-querentes de Kṛṣṇa haviam imaginado que uma grande nuvem fosse o Ariṣṭāsura, surgindo sob a forma de um enorme touro. Em meio à sua agitação, um deles constatou que se tratava, de fato, apenas de uma nuvem sobre a colina Govardhana. Por isso, informou aos outros que não se dessem o trabalho de se preocupar com Kṛṣṇa, pois não havia perigo iminente da parte de Ariṣṭāsura.\n\nEntre os amigos bem-querentes, Maṇḍalībhadra e Balabhadra são os principais. Maṇḍalībhadra é descrito da seguinte forma: sua tez é amarelada, e sua roupa é muito atraente. Ele sempre carrega um bastão de várias cores. Usa uma pena de pavão na cabeça e sempre tem aparência muito bela. A atitude de Maṇḍalībhadra revela-se nesta declaração: \"Meus queridos amigos, nosso amado Kṛṣṇa está agora muito cansado de trabalhar com as vacas nas pastagens e de viajar por todas as florestas. Posso ver que Ele está muito fatigado. Deixai-me massagear silenciosamente Sua cabeça enquanto Ele descansa em Sua casa. E tu, Subala — massageia apenas Suas coxas.\"\n\nUm devoto descreveu a beleza pessoal de Baladeva da seguinte forma: \"Deixai-me abrigar-me nos pés de lótus de Balarāma, cuja beleza é realçada pelos brincos que tocam Suas faces. Seu rosto é decorado com *tilaka* feito de *kastūrī* (almíscar), e Seu amplo peito é decorado com uma guirlanda de *guñja* (pequenos búzios). Sua tez é tão branca quanto uma nuvem de outono, Ele usa vestes de cor azul, e Sua voz é muito grave. Seus braços são muito longos, tocando Suas coxas, e Ele demonstrou Sua grande força ao matar o demônio Pralamba. Deixai-me abrigar-me neste cavalheiresco Balarāma.\"((Balarāma e Baladeva são nomes diferentes para a mesma expansão de Kṛṣṇa. Ele é o irmão mais velho de Kṛṣṇa.))\n\nA afeição de Baladeva por Kṛṣṇa ilustra-se nesta declaração a Subala: \"Meu querido amigo, informa, por favor, a Kṛṣṇa que não vá hoje ao lago de Kāliya. Hoje é Seu aniversário e, por isso, desejo ir, junto com mãe Yaśodā, banhá-lO. Dize-lhe que Ele não deve deixar a casa hoje.\" Isso mostra como Balarāma, o irmão mais velho de Kṛṣṇa, cuidava de Kṛṣṇa com amor paternal, dentro do âmbito da afeição fraternal.\n\nOs amigos que eram mais jovens que Kṛṣṇa, que estavam sempre apegados a Ele e que Lhe prestavam toda espécie de serviço, chamam-se amigos comuns, ou, simplesmente, amigos. Tais amigos comuns chamam-se *sakhās,* e os nomes de alguns *sakhās* são Viśāla, Vṛṣabha, Ojasvi, Devaprastha, Varūthapa, Maranda, Kusumāpīḍa, Maṇibandha e Karandhama. Todos esses amigos *sakhās* de Kṛṣṇa buscavam apenas servi-lO. Às vezes, alguns deles se levantavam cedo, de manhã, e iam imediatamente à casa de Kṛṣṇa, esperando à porta para ver Kṛṣṇa e acompanhá-lO às pastagens. Nesse meio-tempo, Kṛṣṇa estava sendo vestido por mãe Yaśodā e, quando ela via um menino de pé à porta, chamava-o: \"Bem, Viśāla, por que estás aí de pé? Vem cá!\" Assim, com a permissão de mãe Yaśodā, ele imediatamente entrava na casa. E, enquanto mãe Yaśodā vestia Kṛṣṇa, ele tentava ajudar a colocar os guizos de tornozelo de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa, brincando, batia nele com Sua flauta. Então, mãe Yaśodā chamava: \"Kṛṣṇa, que é isso? Por que estás provocando Teu amigo?\" E Kṛṣṇa ria, e o amigo também ria. Essas são algumas das atividades dos *sakhās* de Kṛṣṇa. Às vezes, os *sakhās* cuidavam das vacas que iam de um lado para o outro. Eles diziam a Kṛṣṇa: \"Tuas vacas estavam indo daqui para lá\", e Kṛṣṇa lhes agradecia.\n\nÀs vezes, quando Kṛṣṇa e Seus *sakhās* iam às pastagens, Kaṁsa enviava um demônio para matar Kṛṣṇa. Portanto, quase todos os dias havia uma luta com algum tipo diferente de demônio. Depois de lutar com um demônio, Kṛṣṇa sentia-se fatigado, os cabelos de Sua cabeça ficavam desarrumados, e os *sakhās* imediatamente vinham e tentavam aliviá-lO de diferentes maneiras. Alguns amigos diziam: \"Meu querido Viśāla, toma, por favor, este leque de folhas de lótus e abana Kṛṣṇa para que Ele possa sentir certo conforto. Varūthapa, escova apenas os cabelos desarrumados na cabeça de Kṛṣṇa que caíram sobre Seu rosto. Vṛṣabha, não fales desnecessariamente! Massageia imediatamente o corpo de Kṛṣṇa. Seus braços ficaram cansados de lutar e debater-se com aquele demônio. Oh, vede apenas como nosso amigo Kṛṣṇa ficou cansado!\" Esses são alguns exemplos do tratamento dado a Kṛṣṇa pelos *sakhās.*\n\nUm dos *sakhās,* conhecido como Devaprastha, é descrito da seguinte forma: ele é muito forte, um erudito ágil, e é muito perito em jogar bola. Usa roupa branca e amarra seu cabelo num feixe com uma corda. Sempre que há uma luta entre Kṛṣṇa e os demônios, Devaprastha é o primeiro a ajudar, e luta como um elefante.\n\nUma das *gopīs* certa vez disse a sua amiga: \"Minha querida e bela amiga, quando Kṛṣṇa, o filho de Mahārāj Nanda, descansava dentro da caverna de uma colina, mantinha Sua cabeça sobre os braços de Śrīdāmā e punha Sua mão esquerda sobre o peito de Dāmā. Aproveitando essa oportunidade, Devaprastha, por sua forte afeição por Kṛṣṇa, começou imediatamente a massagear-Lhe as pernas.\" Tais são as atividades dos amigos de Kṛṣṇa nas pastagens.\n\nOs amigos mais confidenciais chamam-se *priya-sakhās* e têm quase a idade de Kṛṣṇa. Por causa de sua amizade muito confidencial, seu comportamento baseia-se apenas na pura amizade. O comportamento de outros amigos baseia-se no amor paternal ou na servidão, mas o princípio básico dos amigos confidenciais é simplesmente a amizade em nível de igualdade. Alguns amigos confidenciais são os seguintes: Śrīdāmā, Sudāmā, Dāmā, Vasudāmā, Kiṅkiṇi, Stokakṛṣṇa, Aṁśu, Bhadrasena, Vilāsina, Puṇḍarīka, Viṭaṅka e Kalaviṅka. Por suas várias atividades em diferentes passatempos, todos esses amigos costumavam proporcionar prazer transcendental a Kṛṣṇa.\n\nO comportamento desses amigos confidenciais é descrito por uma amiga de Rādhārāṇī, que disse a Rādhārāṇī: \"Minha querida e graciosa Rādhārāṇī, Teu amigo íntimo, Kṛṣṇa, também é servido por Seus íntimos amigos meninos. Alguns deles fazem brincadeiras com Ele em vozes suaves e O agradam muito com isso.\" Por exemplo, Kṛṣṇa tinha um amigo *brāhmaṇa* cujo nome era Madhumaṅgala. Esse menino fazia brincadeiras representando o papel de um *brāhmaṇa* guloso. Sempre que os amigos comiam, ele comia mais que todos os demais, especialmente *lāḍḍus,* dos quais era muito apreciador. Então, depois de comer mais *lāḍḍus* que qualquer outro, Madhumaṅgala ainda não ficava satisfeito e dizia a Kṛṣṇa: \"Se me deres mais um *lāḍḍu,* então ficarei contente em dar-Te minhas bênçãos, para que Tua amiga Rādhārāṇī fique muito satisfeita contigo.\" Supõe-se que os *brāhmaṇas* deem bênçãos aos *vaiśyas* (casta agrícola e mercantil), e Kṛṣṇa apresentava-se como o filho de Mahārāj Nanda, um *vaiśya;* assim, o menino *brāhmaṇa* estava certo em dar bênçãos a Kṛṣṇa. Dessa forma, Kṛṣṇa ficava muito satisfeito com as bênçãos de Seu amigo e fornecia-lhe cada vez mais *lāḍḍus.*\n\nÀs vezes, um amigo confidencial vinha diante de Kṛṣṇa e O abraçava com grande afeição e amor. Outro amigo, então, aproximava-se por trás e cobria os olhos de Kṛṣṇa com as mãos. Kṛṣṇa sempre Se sentia muito feliz com tais tratos com Seus amigos confidenciais.\n\nDentre todos esses amigos confidenciais, Śrīdāmā é considerado o principal. Śrīdāmā costumava vestir uma roupa de cor amarela. Carregava um chifre de búfalo, e seu turbante era de cor avermelhada, cor de cobre. Sua tez corporal era escura, e em torno de seu pescoço havia uma bela guirlanda. Ele sempre desafiava Kṛṣṇa em amizade brincalhona. Oremos a Śrīdāmā para que conceda sua misericórdia a nós!\n\nÀs vezes, Śrīdāmā costumava dirigir-se a Kṛṣṇa: \"Oh, és tão cruel que nos deixaste sozinhos na margem do Yamunā, e todos nós ficamos enlouquecidos por não Te ver lá! Agora é nossa grande fortuna poder ver-Te aqui. Se queres apaziguar-nos, deves abraçar cada um de nós com Teus braços. Mas crê em mim, meu querido amigo, um momento de ausência de Ti causa grande estrago, não só para nós, mas também para as vacas. Tudo fica em desordem, e nós enlouquecemos por Ti.\"\n\nHá outros amigos que são ainda mais confidenciais. Eles se chamam *priya-narmā,* ou amigos íntimos. Entre os amigos *priya-narmā* contam-se Subala, Arjuna, Gandharva, Vasanta e Ujjvala. Houve uma conversa entre as amigas de Rādhārāṇī, as *gopīs,* sobre esses amigos mais íntimos. Uma *gopī* dirigiu-se a Rādhārāṇī assim: \"Minha querida Kṛśāṅgī [delicada], vê apenas como Subala está sussurrando Tua mensagem ao ouvido de Kṛṣṇa, como ele está entregando silenciosamente a carta confidencial de Śyāmā-dāsī na mão de Kṛṣṇa, como ele está entregando à boca de Kṛṣṇa as nozes de bétel preparadas por Pālikā, e como ele está decorando Kṛṣṇa com a guirlanda preparada por Tārakā. Sabias, minha querida amiga, que todos esses íntimos amigos de Kṛṣṇa estão sempre ocupados em Seu serviço dessa maneira?\" Dentre os muitos íntimos *priya-narmās,* Subala e Ujjvala são considerados os mais proeminentes.\n\nO corpo de Subala é descrito da seguinte forma. Sua tez é como ouro derretido. Ele é muitíssimo querido por Kṛṣṇa. Tem sempre uma guirlanda em torno do pescoço e usa roupa amarela. Seus olhos são como pétalas de flor de lótus, e ele é tão inteligente que, por suas conversas e por suas instruções morais, todos os outros amigos sentem o mais elevado prazer. Ofereçamos todos nossas respeitosas reverências a Subala, o amigo de Kṛṣṇa!\n\nO grau de intimidade compartilhado por Kṛṣṇa e Subala pode ser compreendido pelo fato de que as conversas entre eles eram tão confidenciais que ninguém mais conseguia entender o que diziam.\n\nA descrição de Ujjvala, outro amigo íntimo, é dada da seguinte forma. Ujjvala sempre usa alguma veste de cor alaranjada, e os movimentos de seus olhos são sempre muito inquietos. Ele gosta de decorar-se com toda espécie de flores, seu matiz corporal é quase como o de Kṛṣṇa, e em seu pescoço há sempre um colar de pérolas. Ele é sempre muito querido por Kṛṣṇa. Adoremos todos Ujjvala, o mais íntimo amigo de Kṛṣṇa!\n\nAcerca do serviço confidencial de Ujjvala, encontra-se esta declaração, dirigida por Rādhārāṇī a uma de Suas amigas: \"Minha querida amiga, é-Me impossível manter Meu prestígio! Eu queria evitar falar mais com Kṛṣṇa — mas vê apenas! Lá está outra vez Seu amigo, Ujjvala, vindo a Mim com seu trabalho de persuasão. Suas súplicas são tão poderosas que é muito difícil para uma *gopī* resistir a seu amor por Kṛṣṇa, ainda que ela possa ser muito acanhada, devotada a seus deveres familiares e fidelíssima a seu esposo.\"\n\nA seguir, há uma declaração de Ujjvala, mostrando sua natureza jubilosa: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó matador de Aghāsura, estendeste Teus amores a tal ponto que podes ser comparado ao grande oceano, que não tem limites. Ao mesmo tempo, as jovens do mundo, que estão todas em busca do amante perfeito, tornaram-se como rios que correm para este oceano. Sendo assim, todos esses rios de jovens podem tentar desviar seus cursos para algum outro lugar, mas, no fim, devem vir a Ti.\"\n\nEntre os grupos de diferentes amigos de Kṛṣṇa, alguns são bem conhecidos de várias escrituras, e alguns são bem conhecidos pela tradição popular. Há três divisões entre os amigos de Kṛṣṇa: alguns estão eternamente em amizade com Kṛṣṇa, alguns são semideuses elevados, e alguns são devotos aperfeiçoados. Em todos esses grupos, há alguns que por natureza estão fixos no serviço a Kṛṣṇa e estão sempre ocupados em dar conselho; alguns deles são muito afeitos a brincadeiras e naturalmente fazem Kṛṣṇa sorrir com suas palavras; alguns deles são por natureza muito simples e, por sua simplicidade, agradam ao Senhor Kṛṣṇa; alguns deles criam situações maravilhosas por suas atividades, aparentemente contra Kṛṣṇa; alguns deles são muito falantes, sempre argumentando com Kṛṣṇa e criando uma atmosfera de debate; e alguns deles são muito gentis e dão prazer a Kṛṣṇa com suas doces palavras. Todos esses amigos são muito íntimos de Kṛṣṇa, e demonstram perícia em suas diferentes atividades, sendo seu objetivo sempre agradar a Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/42", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/42/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "42. Relacionamentos Amorosos Fraternais", "purport": "## Os Amores Fraternais\n\nA idade de Kṛṣṇa, Sua beleza, Sua corneta, Sua flauta, Seu búzio e Sua atitude agradável — tudo provoca o amor em amizade por Ele. Suas excepcionais habilidades de brincadeira, exibidas às vezes ao fingir ser um príncipe real, ou mesmo a Suprema Personalidade de Deus, também dão ímpeto aos devotos para que desenvolvam amor por Kṛṣṇa em amizade.\n\nEruditos versados dividiram a idade de Kṛṣṇa em três períodos: a idade até os cinco anos chama-se *kaumāra,* a idade do sexto ao décimo ano chama-se *paugaṇḍa,* e a idade do décimo primeiro ao décimo quinto ano chama-se *kaiśora.* Enquanto Kṛṣṇa passa Seus dias como vaqueirinho, Ele está nas idades *kaumāra* e *paugaṇḍa.* Na idade *kaiśora,* quando Kṛṣṇa apareceu em Gokula, agiu como vaqueirinho e, então, quando tinha dezesseis anos, foi a Mathurā matar Kaṁsa.\n\nA idade *kaumāra* é justamente adequada para reciprocar o amor de uma criança com mãe Yaśodā. No Décimo Canto, 13º Capítulo, 9º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Śukadeva Gosvāmī diz ao rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, embora o Senhor Kṛṣṇa seja o supremo desfrutador e o beneficiário de toda espécie de cerimônias sacrificiais, Ele ainda costumava comer com Seus amigos vaqueirinhos. Isso porque, naquele tempo, aceitou os passatempos de um menino comum, mantendo Sua flauta sob o braço e Sua corneta do lado direito em Seu cinto, juntamente com Sua vara. Em Sua mão esquerda, segurava um bocado de pasta de arroz com iogurte, e em Seus dedos havia *pīlu,* o rei dos frutos. Quando assim Se sentava entre Seus amigos, parecia que Ele era o verticilo de uma flor de lótus e que os amigos que O rodeavam eram as pétalas. Enquanto eles assim desfrutavam de brincadeiras entre si, os habitantes do céu ficavam tomados de assombro e apenas fitavam a cena.\"\n\nA idade *paugaṇḍa* de Kṛṣṇa pode ser dividida ainda em três períodos — a saber, o início, o meio e o fim. No início da idade *paugaṇḍa,* há um lustro avermelhado muito belo em Seus lábios, Seu abdome é muito fino, e em Seu pescoço há círculos como os de um búzio. Às vezes, alguns visitantes de fora retornavam a Vṛndāvana para ver Kṛṣṇa e, ao vê-lO novamente, exclamavam: \"Meu querido Mukunda, Tua beleza está aumentando aos poucos, tal como a folha de uma figueira-de-bengala! Meu querido senhor de olhos de lótus, Teu pescoço está manifestando aos poucos círculos como os do búzio. E, sob o luar reluzente, Teus dentes e Tuas faces competem com as joias *padmarāga* em seu belo arranjo. Estou certo de que Teu belo desenvolvimento corporal está agora dando muito prazer a Teus amigos.\"\n\nNessa idade, Kṛṣṇa era enguirlandado com várias espécies de flores. Ele costumava vestir uma roupa de seda, tingida com várias espécies de corantes. Tais belas decorações são consideradas cosméticos para Kṛṣṇa. Kṛṣṇa usava essa roupa quando ia à floresta cuidar das vacas. Às vezes, lutava ali com Seus diferentes amigos, e às vezes todos dançavam juntos na floresta. Essas são algumas das atividades específicas da idade *paugaṇḍa.*\n\nOs amigos vaqueirinhos de Kṛṣṇa eram tão felizes em Sua companhia que expressavam dentro de si seus sentimentos transcendentais assim: \"Meu querido Kṛṣṇa, estás sempre ocupado em cuidar das vacas, que estão espalhadas por toda a bela Vṛndāvana. Tens uma bela guirlanda, um pequeno búzio, uma pena de pavão em Teu turbante, um tecido de seda de cor amarela, decorações de flores *karṇikāra* em Tuas orelhas e uma guirlanda de flores *mallīkā* em Teu peito. Tendo aparência tão bela, quando finges, tal como um ator, estar lutando conosco, dás-nos ilimitada bem-aventurança transcendental.\"\n\nQuando Kṛṣṇa está mais crescido, na idade média de *paugaṇḍa,* Suas unhas tornam-se finamente aguçadas, e Suas faces rechonchudas tornam-se lustrosas e redondas. Nos dois lados de Sua cintura, acima de Seu cinto, há três linhas distintas de pele dobrada, chamadas *tribali.*\n\nOs amigos vaqueirinhos de Kṛṣṇa sentiam-se muito orgulhosos de sua associação com Ele. Naquela época, a ponta de Seu nariz derrotava a beleza das flores de gergelim, o lustro de Suas faces derrotava o brilho das pérolas, e os dois lados de Seu corpo eram primorosamente belos. Nessa idade, Kṛṣṇa usava uma roupa de seda que cintilava como o relâmpago, Sua cabeça era decorada com um turbante de seda coberto de renda de ouro, e em Sua mão Ele carregava uma vara de cerca de cento e quarenta centímetros.((Os passatempos específicos desse período ocorreram na floresta conhecida como Bhāṇḍīravana. Esta Bhāṇḍīravana, juntamente com outras onze *vanas,* ou florestas, ainda existe na região de Vṛndāvana, e os devotos que circum-ambulam toda a área de Vṛndāvana podem conhecer a beleza dessas florestas ainda hoje.)) Vendo essa primorosamente bela roupa de Kṛṣṇa, certo devoto dirigiu-se a seu amigo desta maneira: \"Meu querido amigo, olha apenas para Kṛṣṇa! Vê como Ele carrega em Sua mão uma vara que está atada, de cima a baixo, com anéis de ouro, como Seu turbante de renda dourada mostra um lustro tão belo, e como Sua roupa dá a Seus amigos o mais elevado prazer transcendental!\"\n\nNo fim da idade *paugaṇḍa* de Kṛṣṇa, os cabelos de Kṛṣṇa às vezes pendem até Seus quadris, e às vezes ficam desarrumados. Nessa idade, Seus dois ombros tornam-se mais altos e mais largos, e Seu rosto está sempre decorado com marcas de *tilaka.* Quando Seus belos cabelos se espalham sobre Seus ombros, parecem ser uma deusa da fortuna abraçando-O, e esse abraço é altamente saboreado por Seus amigos. Subala certa vez dirigiu-se a Ele desta maneira: \"Meu querido Keśava, Teu turbante redondo, a flor de lótus em Tua mão, as marcas verticais de *tilaka* em Tua testa, Teu almíscar perfumado com *kuṅkum* e todos os Teus belos traços corporais estão me derrotando hoje, embora eu seja geralmente mais forte que Tu ou que qualquer um de nossos amigos. Sendo assim, não sei como esses traços de Teu corpo poderiam deixar de derrotar o orgulho de todas as jovens de Vṛndāvana. Quando eu sou tão derrotado por esta beleza, que possibilidade há para aquelas que são por natureza muito simples e flexíveis?\"\n\nNessa idade, Kṛṣṇa Se comprazia em sussurrar aos ouvidos de Seus amigos, e o tema de Suas conversas era a beleza das *gopīs,* que justamente se demoravam diante deles. Subala certa vez dirigiu-se a Kṛṣṇa assim: \"Meu querido Kṛṣṇa, és muito astuto. Podes compreender os pensamentos dos outros; por isso, estou sussurrando em Teu ouvido que todas estas cinco *gopīs,* que são as mais belas, foram atraídas por Tua roupa. E creio que Cupido lhes confiou a responsabilidade de conquistar-Te.\" Em outras palavras, a beleza das *gopīs* era capaz de conquistar Kṛṣṇa, embora Kṛṣṇa seja o conquistador de todos os universos.\n\nOs sintomas da idade *kaiśora* já foram descritos, e é nessa idade que os devotos geralmente mais apreciam Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, com Rādhārāṇī, é adorado como *Kiśora-kiśorī.* Kṛṣṇa não avança em Sua idade, de modo que, embora seja a personalidade mais antiga e tenha inumeráveis formas diferentes, Sua forma original é sempre juvenil. Nos quadros de Kṛṣṇa no campo de batalha de Kurukṣetra, podemos ver que Ele é juvenil, embora, naquela época, fosse velho o bastante para ter filhos, netos e bisnetos. Os amigos vaqueirinhos de Kṛṣṇa certa vez disseram: \"Meu querido Kṛṣṇa, não precisas decorar Teu corpo com tantos ornamentos. Teus traços transcendentais são, em si, tão belos que não requerem nenhuma ornamentação.\" Nessa idade, sempre que Kṛṣṇa começa a vibrar Sua flauta de manhã cedo, todos os Seus amigos imediatamente se levantam da cama apenas para acompanhá-lO ao ir para as pastagens. Um dos amigos certa vez disse: \"Meus queridos amigos vaqueiros, o som da flauta de Kṛṣṇa, vindo do alto da colina Govardhana, está nos dizendo que não precisamos ir procurá-lO na margem do Yamunā.\"\n\nPārvatī, a esposa do Senhor Śiva, disse a seu marido: \"Meu querido Pañcamukha [de cinco faces], olha apenas para os Pāṇḍavas! Depois de ouvir o som do búzio de Kṛṣṇa, conhecido como Pāñcajanya, eles recobraram sua força e são como leões.\"\n\nNessa idade, Kṛṣṇa certa vez Se vestiu exatamente como Rādhārāṇī, apenas para criar diversão entre Seus amigos. Ele pôs brincos de ouro; e, por ser escuro, untou a polpa de *kuṅkum* por todo o corpo a fim de tornar-Se tão claro quanto Ela. Ao ver essa roupa, o amigo de Kṛṣṇa, Subala, ficou muito assombrado.\n\nKṛṣṇa às vezes brincava com Seus amigos íntimos lutando com os braços, às vezes jogando bola, às vezes jogando xadrez, às vezes carregando uns aos outros nos ombros, e às vezes exibindo sua perícia em girar troncos. E os amigos vaqueiros costumavam agradar a Kṛṣṇa sentando-se juntos com Ele em divãs ou balanços, deitando-se juntos em seus leitos, brincando juntos e nadando na piscina. Todas essas atividades chamam-se *anubhāva.* Sempre que todos os amigos se reuniam na companhia de Kṛṣṇa, imediatamente se ocupavam em todas essas atividades, especialmente em dançar juntos. Quanto à sua luta, um amigo certa vez perguntou a Kṛṣṇa: \"Meu querido amigo, ó matador do demônio Agha, andas muito orgulhosamente entre Teus amigos tentando exibir Teus braços como muito fortes. Será que estás invejoso de mim? Sei que não podes derrotar-me na luta, e sei também que ficaste sentado, ocioso, por muito tempo, porque estavas desesperançado de derrotar-me.\"\n\nTodos os amigos eram muito audaciosos e enfrentavam qualquer dificuldade, pois estavam confiantes de que Kṛṣṇa os ajudaria a serem vitoriosos em todas as aventuras. Eles costumavam sentar-se juntos e aconselhar-se uns aos outros sobre o que fazer, às vezes induzindo uns aos outros a se ocuparem em obras de bem-estar. Às vezes, ofereciam nozes de bétel uns aos outros, decoravam os rostos uns dos outros com *tilaka* ou untavam a polpa de *candana* nos corpos uns dos outros. Às vezes, por divertimento, decoravam os rostos de maneiras estranhas. Outra ocupação dos amigos era que cada um deles queria derrotar Kṛṣṇa. Às vezes, arrebatavam Suas roupas ou arrancavam as flores de Suas mãos. Às vezes, um tentava induzir outro a decorar-lhe o corpo e, fracassando nisso, estavam sempre prontos a lutar, desafiando uns aos outros para o combate na luta. Essas eram algumas das atividades gerais de Kṛṣṇa e Seus amigos.\n\nOutro importante passatempo dos amigos de Kṛṣṇa era que eles serviam como mensageiros de ida e volta para as *gopīs;* apresentavam as *gopīs* a Kṛṣṇa e faziam persuasão em favor de Kṛṣṇa. Quando as *gopīs* estavam em desacordo com Kṛṣṇa, esses amigos apoiavam o lado de Kṛṣṇa em Sua presença — mas, quando Kṛṣṇa não estava presente, apoiavam o lado das *gopīs.* Dessa maneira, às vezes apoiando um lado, às vezes o outro, conversavam muito em particular, sussurrando bastante nos ouvidos, embora nada do assunto fosse muito sério.\n\nOs servos de Kṛṣṇa às vezes se ocupavam em colher flores, decorar Seu corpo com valiosos ornamentos e enfeites, dançar diante dEle, cantar, ajudá-lO a pastorear as vacas, massagear Seu corpo, preparar guirlandas de flores e, por vezes, abanar Seu corpo. Esses eram alguns dos principais deveres dos servos de Kṛṣṇa. Os amigos e os servos de Kṛṣṇa combinavam-se em servi-lO, e todas as suas atividades são conhecidas como *anubhāva.*\n\nQuando Kṛṣṇa saiu do Yamunā após castigar o Kāliyanāga, Śrīdāmā quis abraçá-lO primeiro, mas não conseguiu erguer os braços por causa de seu grande sentimento de respeito.\n\nQuando Kṛṣṇa tocava Sua flauta, a vibração parecia justamente o rugir das nuvens no céu durante a constelação de Svāti. Segundo o cálculo astronômico Védico, se houver chuva durante a constelação da estrela Svāti, qualquer chuva que caia no mar produzirá pérolas, e a chuva que cair sobre uma serpente produzirá joias. De modo semelhante, quando a flauta de Kṛṣṇa rugia como uma nuvem de trovão sob a constelação de Svāti, a transpiração resultante no corpo de Śrīdāmā parecia justamente pérolas.\n\nQuando Kṛṣṇa e Subala se abraçavam, Śrīmatī Rādhārāṇī ficava um pouco invejosa e, ocultando Seu temperamento exaltado, disse: \"Meu querido Subala, és muito afortunado, pois mesmo na presença de superiores tu e Kṛṣṇa não hesitais em pôr os braços sobre os ombros um do outro. Penso que se deve admitir que, em tuas vidas anteriores, tiveste êxito em muitas espécies de austeridades.\" A ideia é que, embora Rādhārāṇī estivesse acostumada a pôr Seus braços sobre os ombros de Kṛṣṇa, não Lhe era possível fazer tal coisa na presença de Seus superiores, ao passo que Subala podia fazê-lo livremente. Por isso, Rādhārāṇī louvou a boa fortuna dele.\n\nQuando Kṛṣṇa entrou no lago de Kāliya, Seus amigos íntimos ficaram tão perturbados que suas cores corporais se desbotaram, e todos eles produziram horríveis sons gorgolejantes. Naquele momento, todos eles caíram no chão como se estivessem inconscientes. De modo semelhante, quando houve um incêndio na floresta, todos os amigos de Kṛṣṇa negligenciaram sua própria proteção e cercaram Kṛṣṇa por todos os lados para protegê-lO das chamas. Esse comportamento dos amigos para com Kṛṣṇa é descrito pelos poetas ponderados como *vyabhicārī.* No amor extático *vyabhicārī* por Kṛṣṇa, há às vezes loucura, destreza, medo, preguiça, júbilo, orgulho, vertigem, meditação, doença, esquecimento e humildade. Esses são alguns dos sintomas comuns na etapa do amor extático *vyabhicārī* por Kṛṣṇa.\n\nQuando há tratos entre Kṛṣṇa e Seus amigos que estão completamente isentos de quaisquer sentimentos de respeito, e todos tratam uns aos outros em nível de igualdade, tal amor extático em amizade chama-se *sthāyī.* Quando a pessoa está situada nesta relação amistosa confidencial com Kṛṣṇa, mostra sintomas de amor como atração, afeição, afinidade e apego. Um exemplo de *sthāyī* manifestou-se quando Arjuna((Este Arjuna, que vive em Vṛndāvana, é diferente do amigo de mesmo nome a quem o Bhagavad-gītā foi falado.)) disse a Akrūra: \"Meu querido filho de Gāndinī, pergunta, por favor, a Kṛṣṇa quando eu poderei abraçá-lO em meus braços.\"\n\nQuando há pleno conhecimento da superioridade de Kṛṣṇa e, ainda assim, nos tratos com Ele em termos amistosos a respeitosidade está completamente ausente, essa etapa chama-se afeição. Há um exemplo brilhante dessa afeição. Quando os semideuses, encabeçados pelo Senhor Śiva, ofereciam respeitosas orações a Kṛṣṇa, descrevendo as gloriosas opulências do Senhor, Arjuna((Este Arjuna, que vive em Vṛndāvana, é diferente do amigo de mesmo nome a quem o Bhagavad-gītā foi falado.)) ficou diante dEle com a mão sobre Seus ombros e espanou a poeira de Sua pena de pavão.\n\nQuando os Pāṇḍavas foram banidos por Duryodhana e forçados a viver incógnitos na floresta, ninguém conseguia descobrir onde estavam. Naquela época, o grande sábio Nārada encontrou-se com o Senhor Kṛṣṇa e disse: \"Meu querido Mukunda, embora sejas a Suprema Personalidade de Deus, a pessoa todo-poderosa, por fazerem amizade contigo os Pāṇḍavas foram privados de seu legítimo direito ao reino do mundo — e, ademais, estão agora vivendo na floresta, incógnitos. Às vezes, têm de trabalhar como operários comuns na casa de outra pessoa. Esses sintomas parecem muito inauspiciosos materialmente, mas a beleza está em que os Pāṇḍavas não perderam sua fé e seu amor por Ti, apesar de todas essas tribulações. De fato, eles estão sempre pensando em Ti e cantando Teu nome em amizade extática.\"\n\nOutro exemplo de aguda afeição por Kṛṣṇa é dado no Décimo Canto, 15º Capítulo, 15º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam.* Na pastagem, Kṛṣṇa sentiu-Se um pouco cansado e quis descansar, de modo que Se deitou no chão. Naquele momento, muitos vaqueirinhos se reuniram ali e, com grande afeição, começaram a cantar canções adequadas, para que Kṛṣṇa descansasse muito bem.\n\nHá um belo exemplo da amizade entre Kṛṣṇa e Arjuna no campo de batalha de Kurukṣetra. Quando a luta prosseguia, Aśvatthāmā, o filho de Droṇācārya, atacou Kṛṣṇa sem cerimônia, embora, segundo as regras de cavalheirismo então vigentes, o condutor da quadriga de alguém jamais devesse ser atacado pelo inimigo. Mas Aśvatthāmā comportou-se de modo hediondo de tantas maneiras que não hesitou em atacar o corpo de Kṛṣṇa, embora Kṛṣṇa estivesse agindo apenas como quadrigário de Arjuna. Quando Arjuna viu que Aśvatthāmā estava disparando várias espécies de flechas para ferir Kṛṣṇa, ele imediatamente Se postou diante de Kṛṣṇa para interceptar todas elas. Naquele momento, embora Arjuna estivesse sendo ferido por aquelas flechas, sentiu um amor extático por Kṛṣṇa, e as flechas pareceram-lhe chuvas de flores.\n\nHá outro exemplo de amor extático por Kṛṣṇa em amizade: certa vez, quando um vaqueirinho chamado Vṛṣabha estava colhendo flores na floresta para preparar uma guirlanda a ser oferecida a Kṛṣṇa, o sol chegou ao zênite e, embora o brilho do sol fosse escaldante, Vṛṣabha o sentiu como o luar. Esse é o modo de prestar transcendental serviço amoroso ao Senhor: quando os devotos são postos em grandes dificuldades — mesmo como os Pāṇḍavas, conforme descrito acima —, sentem todas as suas condições miseráveis como grandes facilidades para servir ao Senhor.\n\nOutro exemplo da amizade de Arjuna com Kṛṣṇa é descrito por Nārada, que lembrou a Kṛṣṇa: \"Quando Arjuna estava aprendendo a arte de disparar flechas, não pôde ver-Te por tantos dias. Mas, quando ali chegaste, ele interrompeu todas as suas atividades e imediatamente Te abraçou.\" Isso significa que, embora Arjuna estivesse ocupado em aprender a arte militar, não se esquecera de Kṛṣṇa por um momento e, assim que houve oportunidade de ver Kṛṣṇa, abraçou-O imediatamente.\n\nUm servo de Kṛṣṇa chamado Patrī certa vez dirigiu-se a Ele desta maneira: \"Meu querido Senhor, protegeste os vaqueirinhos da fome do demônio Aghāsura, e protegeste-os dos efeitos venenosos da serpente Kāliya. E também os salvaste do feroz incêndio da floresta. Mas eu estou sofrendo com Tua separação, que é mais severa que a fome de Aghāsura, o veneno do lago Kāliya e o ardor do incêndio da floresta. Então, por que não me protegerias das pontadas da separação?\" Outro amigo certa vez disse a Kṛṣṇa: \"Meu querido inimigo de Kaṁsa, desde que nos deixaste, o calor da separação tornou-se extraordinário. E esse calor é sentido de modo ainda mais severo quando compreendemos que, em Bhāṇḍīravana, és refrescado pelas ondas do refrescante rio conhecido como Bhānūtanayā [Rādhārāṇī].\" O significado é que, quando Kṛṣṇa Se ocupava com Rādhārāṇī, os vaqueirinhos encabeçados por Subala sentiam grande separação, e isso lhes era insuportável.\n\nOutro amigo dirigiu-se a Kṛṣṇa assim: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó matador de Aghāsura, quando deixaste Vṛndāvana para matar o rei Kaṁsa em Mathurā, todos os vaqueirinhos ficaram privados de seus quatro *bhūtas* [os elementos terra, água, fogo e espaço]. E o quinto *bhūta,* o ar, fluía muito rapidamente por suas narinas.\" Quando Kṛṣṇa foi a Mathurā matar o rei Kaṁsa, todos os vaqueirinhos ficaram tão afligidos pela separação que quase morreram. Quando uma pessoa está morta, diz-se que ela abandonou os cinco elementos, conhecidos como *bhūtas,* pois o corpo torna a misturar-se com os cinco elementos dos quais foi preparado. Neste caso, embora os quatro elementos terra, água, fogo e éter já se houvessem ido, o elemento restante, o ar, ainda estava muito proeminente e soprava furiosamente por suas narinas. Em outras palavras, depois que Kṛṣṇa deixou Vṛndāvana, eles estavam sempre ansiosos sobre o que aconteceria em Sua luta com o rei Kaṁsa.\n\nOutro amigo certa vez informou a Kṛṣṇa: \"Quando um de Teus amigos sentia muita separação de Ti, havia lágrimas cobrindo seus olhos de lótus, e assim os zangões negros do sono ficaram desencorajados de entrar em seus olhos e deixaram aquele lugar.\" Quando há uma flor de lótus, os zangões negros voam para dentro dela a fim de colher mel. Os olhos do amigo de Kṛṣṇa são comparados à flor de lótus, e, por estarem cheios de lágrimas, os zangões negros do sono não conseguiam colher mel de seus olhos de lótus e, portanto, deixaram o lugar. Em outras palavras, por estar demasiadamente afligido, seus olhos estavam cheios de lágrimas, e ele não conseguia dormir. Este é um exemplo de permanecer acordado à noite por causa da separação de Kṛṣṇa.\n\nUm exemplo de desamparo é descrito na seguinte declaração: \"Por causa da partida de Kṛṣṇa de Vṛndāvana para Mathurā, os queridíssimos vaqueirinhos de Kṛṣṇa sentiram-se mentalmente o mais leves possível. Eram como fragmentos de algodão, mais leves que o ar, e todos flutuavam no ar sem nenhum abrigo.\" Em outras palavras, as mentes dos vaqueirinhos ficaram quase vazias por causa da separação de Kṛṣṇa, e são comparados a fragmentos de algodão flutuando no ar sem nenhum abrigo. Um exemplo de impaciência também foi mostrado pelos vaqueirinhos quando Kṛṣṇa foi a Mathurā. Por causa do pesar da separação, todos esses meninos se esqueceram de cuidar de suas vacas e tentaram esquecer todas as melodiosas canções que costumavam cantar nas pastagens. Por fim, já não tinham desejo de viver, estando separados de Kṛṣṇa.\n\nUm exemplo de imobilidade foi descrito por um amigo de Kṛṣṇa, que O informou em Mathurā de que todos os vaqueirinhos haviam se tornado iguais a árvores sem folhas nos topos das colinas. Pareciam quase nus, magros e frágeis, e não traziam nenhum fruto ou flor. Ele informou a Kṛṣṇa que todos os vaqueirinhos que residiam em Vṛndāvana estavam tão imóveis quanto as árvores nos topos das colinas. Às vezes, sentiam-se adoecidos por sua separação de Kṛṣṇa e, estando tão grandemente desapontados, vagavam sem rumo pelas margens do Yamunā.\n\nHá também um exemplo de loucura causada pela separação de Kṛṣṇa. Quando Kṛṣṇa estava ausente de Vṛndāvana, todos os vaqueirinhos ficaram desnorteados e, tendo abandonado toda espécie de atividades, pareciam loucos e esqueciam-se de todas as suas ocupações regulares. Às vezes, estavam deitados no chão, às vezes rolando na poeira, às vezes rindo e às vezes correndo muito velozmente. Todos esses sintomas davam-lhes a aparência de loucos. Um amigo de Kṛṣṇa O criticou, dizendo: \"Meu querido Senhor, tornaste-Te o rei de Mathurā depois de matar Kaṁsa, e isso é uma notícia muito boa para nós. Mas, em Vṛndāvana, todos os habitantes ficaram cegos de tanto chorar continuamente por Tua ausência. Eles estão repletos apenas de ansiedades e não estão de modo algum animados por Te haveres tornado o rei de Mathurā.\"\n\nÀs vezes, havia também sinais de morte causados pela separação de Kṛṣṇa. Certa vez, disseram a Kṛṣṇa: \"Meu querido inimigo de Kaṁsa, por causa de sua separação de Ti, os vaqueirinhos estão sofrendo demasiadamente e estão agora deitados nos vales, respirando apenas levemente. A fim de solidarizar-se com a lamentável condição dos meninos, até mesmo os amigos da floresta, os veados, estão derramando lágrimas.\"\n\nNo capítulo *Mathurā-khaṇḍa* do *Skanda Purāṇa,* há uma descrição de Kṛṣṇa e Balarāma, rodeados por todos os vaqueirinhos, sempre ocupados em cuidar das vacas e dos bezerros. Quando Kṛṣṇa Se encontrou com Arjuna na oficina de um oleiro, na cidade de Drupadanagara, por causa da similaridade de seus traços corporais, eles travaram íntima amizade. Esta é uma instância de amizade causada pela atração de corpos semelhantes.\n\nNo Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 71º Capítulo, 25º verso, afirma-se que, quando Kṛṣṇa chegou à cidade de Indraprastha, Bhīma ficou tão tomado de alegria que, com lágrimas nos olhos e o rosto sorridente, abraçou imediatamente seu primo materno. Seguindo-o estavam seus irmãos mais novos, Nakula e Sahadeva, juntamente com Arjuna, e todos ficaram tão tomados de emoção ao ver Kṛṣṇa que, com plena satisfação, abraçaram o Senhor, que é conhecido como Acyuta (o infalível). Há uma declaração semelhante sobre os vaqueirinhos de Vṛndāvana. Quando Kṛṣṇa estava no campo de batalha de Kurukṣetra, todos os vaqueirinhos vieram vê-lO, usando brincos cravejados de joias em suas orelhas. Ficando tão grandemente contentes, estenderam os braços e abraçaram Kṛṣṇa como seu velho amigo. Essas são instâncias de plena satisfação em amizade com Kṛṣṇa.\n\nNo Décimo Canto, 12º Capítulo, 11º verso do *Śrīmad-Bhāgavatam,* afirma-se que, mesmo depois de se submeterem a severas penitências e austeridades e de executarem os princípios iogues, os grandes místicos *yogīs* dificilmente conseguem habilitar-se a alcançar a poeira dos pés de lótus de Kṛṣṇa, mas a mesma Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, está facilmente disponível à visão dos habitantes de Vṛndāvana. Isso significa que não há comparação com a grande fortuna desses devotos. A relação amistosa dos vaqueirinhos com Kṛṣṇa é um tipo particular de êxtase espiritual quase semelhante ao êxtase do amor conjugal. É muito difícil explicar este êxtase dos amores entre os vaqueirinhos e Kṛṣṇa. Grandes devotos peritos, como Rūpa Gosvāmī e outros, expressam seu assombro perante os inconcebíveis sentimentos que há em Kṛṣṇa e em Seus amigos vaqueirinhos.\n\nEste tipo particular de amor extático compartilhado entre Kṛṣṇa e Seus amigos confidenciais desenvolve-se ainda mais em amor paternal e, a partir daí, pode desenvolver-se em amor conjugal, a mais exaltada doçura ou sabor do amor extático entre o Senhor Kṛṣṇa e Seus devotos."}
{"ref": "nod/43", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/43/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "43. Paternidade", "purport": "## A Paternidade\n\nQuando o amor extático se desenvolve na relação de paternidade e se estabelece de modo estável, essa relação chama-se *vātsalya-rasa.* A manifestação desse padrão de serviço devocional, o *vātsalya-rasa,* pode ser encontrada nos tratos de Kṛṣṇa com Seus devotos que se apresentam como personalidades superiores, tais como pai, mãe, professor, etc.\n\nEruditos versados descreveram os impulsos do amor paternal por Kṛṣṇa, existentes nas personalidades de mais idade que se relacionam com Ele, da seguinte maneira: \"A Suprema Personalidade de Deus, cuja compleição corporal é exatamente como a de uma flor de lótus azulada recém-desabrochada, cujo corpo é delicadíssimo e cujos olhos de lótus estão rodeados de cabelos esparsos, tão negros quanto as abelhas, caminhava pelas ruas de Vṛndāvana quando mãe Yaśodā, a amada esposa de Nanda Mahārāj, O viu. Imediatamente, o leite começou a fluir de seus seios, encharcando-lhe o corpo.\" Algumas provocações específicas do amor paternal por Kṛṣṇa estão enumeradas como Sua tonalidade corporal escura, que é muito atraente e agradável de se ver, Seus traços corporais inteiramente auspiciosos, Sua brandura, Suas doces palavras, Sua simplicidade, Sua timidez, Sua humildade, Sua constante disposição de oferecer respeito aos mais velhos e Sua caridade. Todas essas qualidades são consideradas provocações extáticas do amor paternal.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Oito, verso 35, Śukadeva Gosvāmī afirma que mãe Yaśodā aceitou o Senhor Kṛṣṇa como seu filho, embora Ele seja aceito nos *Vedas* como o Rei dos céus, nos *Upaniṣads* como o Brahman impessoal e na filosofia como o varão supremo. Os *yogīs* O aceitam como a Superalma, e os devotos, como a Suprema Personalidade de Deus. Certa vez, mãe Yaśodā dirigiu-se a uma de suas amigas da seguinte forma: \"Nanda Mahārāj, o líder dos vaqueiros, adorou o Senhor Viṣṇu junto comigo, e, como resultado dessa adoração, Kṛṣṇa foi salvo das garras de Pūtanā e de outros demônios. As árvores gêmeas *arjuna,* é claro, foram quebradas por causa de um vento forte, e, embora parecesse que Kṛṣṇa ergueu a colina Govardhana junto com Balarāma, penso que Nanda Mahārāj é que de fato sustentou a montanha. De que outra maneira teria sido possível que um menininho erguesse uma colina tão grande?\" Este é outro exemplo de êxtase no amor paternal. Esse tipo de amor paternal gera-se no devoto a partir de sua convicção amorosa de que ele próprio é superior a Kṛṣṇa e de que, sem ser cuidado por tal devoto, Kṛṣṇa não poderia de modo algum viver. Um devoto, portanto, orou aos pais do Senhor Kṛṣṇa da seguinte maneira: \"Que eu me abrigue nos devotos parentais de mais idade do Senhor Kṛṣṇa. Eles estão sempre ansiosos por servir a Kṛṣṇa e mantê-Lo, e são sempre tão bondosos com Ele. Ofereçamos nossas respeitosas reverências a eles por serem tão bondosos com a Suprema Personalidade de Deus, que é o pai de todo o universo!\"\n\nHá uma oração semelhante feita por um *brāhmaṇa* que diz: \"Que outros adorem os *Vedas* e os *Upaniṣads,* e que outros adorem o *Mahābhārata,* se têm medo da existência material e desejam libertar-se dessa condição. Mas, no que me diz respeito, desejo apenas adorar Mahārāj Nanda, porque a suprema e absoluta Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, engatinha em seu pátio como seu próprio filho.\"\n\nSegue-se uma lista de personalidades respeitáveis que desfrutam de afeição paternal por Kṛṣṇa: 1) mãe Yaśodā, a Rainha de Braja; 2) Mahārāj Nanda, o Rei de Braja; 3) mãe Rohiṇī, a mãe de Balarāma; 4) todas as *gopīs* de mais idade cujos filhos foram levados pelo Senhor Brahmā; 5) Devakī, a esposa de Vasudeva; 6) as outras quinze esposas de Vasudeva; 7) Kuntī, a mãe de Arjuna; 8) Vasudeva, o verdadeiro pai de Kṛṣṇa; e 9) Sāndīpani Muni, o professor de Kṛṣṇa. Todos esses são considerados respeitáveis personalidades de mais idade, com amor paternal por Kṛṣṇa. Essa lista está em ordem de importância superior, e, assim, podemos ver que mãe Yaśodā e Mahārāj Nanda são considerados os supremos dentre todas as personalidades de mais idade.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Nove, verso 2, Śukadeva Gosvāmī faz a Mahārāj Parīkṣit uma descrição da forma e da beleza de mãe Yaśodā. Ele diz: \"Meu querido rei, os largos quadris de mãe Yaśodā estavam envoltos em roupas de seda e de linho, e seus seios transbordavam de leite por causa de sua afeição. Quando ela batia a manteiga e segurava a corda com firmeza, as pulseiras em suas mãos e os brincos em suas orelhas balançavam, e, do belo enfeite em seus cabelos, as flores afrouxavam e caíam. Devido a seu esforço excessivo, havia gotas de transpiração em seu rosto.\"\n\nHá outra descrição de mãe Yaśodā na oração de um devoto: \"Que me seja dada proteção por mãe Yaśodā, cujos cabelos cacheados estão atados com fio, cujos cabelos são belíssimos com o vermilhão colocado na repartição e cuja estrutura corporal desdenha de todos os seus ornamentos. Seus olhos estão sempre ocupados em ver o rosto de Kṛṣṇa, de modo que estão sempre cheios de lágrimas. Ela tem uma compleição como a da flor de lótus azulada, cuja beleza é realçada por vestir-se com muitas roupas coloridas. Que seu olhar misericordioso recaia sobre todos nós, para que sejamos protegidos das garras de *māyā* e progridamos suavemente em nosso serviço devocional!\"\n\nHá a seguinte descrição da afeição de mãe Yaśodā por Kṛṣṇa: Após levantar-se cedo de manhã, mãe Yaśodā primeiramente oferecia o leite de seu seio a Kṛṣṇa e, depois, começava a cantar vários *mantras* para a proteção dEle. Em seguida, ela decorava muito bem a testa dEle e atava-Lhe os braços com talismãs protetores. Por todas essas atividades, compreende-se com certeza que ela é o emblema de toda a afeição maternal por Kṛṣṇa.\n\nA descrição dos traços corporais de Nanda Mahārāj é a seguinte. Os cabelos de sua cabeça em geral são pretos, mas alguns deles são grisalhos. Suas roupas são de cor esverdeada, como as folhas recém-brotadas de uma figueira-de-bengala. Seu ventre é gordo, sua compleição é exatamente como a da lua cheia, e ele tem um belo bigode. Quando Kṛṣṇa era um bebê, certo dia Ele caminhava no pátio, agarrando o dedo de Seu pai, e, como não conseguia caminhar com firmeza, parecia estar quase caindo. Enquanto Nanda Mahārāj dava proteção a Seu filho transcendental dessa maneira, de repente surgiram gotas de lágrimas em seus olhos, e ele ficou dominado de alegria. Ofereçamos todos nós nossas respeitosas reverências aos pés de lótus do Rei Nanda!\n\nA idade da infância, a roupa infantil, os movimentos da criança, as doces palavras pronunciadas pela criança, o lindo sorrir e as várias formas de brincadeira infantil são considerados provocações para o aumento do amor paternal por Kṛṣṇa. As idades da infância de Kṛṣṇa dividem-se em três períodos: o começo da idade *kaumāra,* o meio da idade *kaumāra* e o fim da idade *kaumāra.* Durante o começo e o meio da idade *kaumāra,* as coxas de Kṛṣṇa são gordas, e a parte interna de Seus olhos é esbranquiçada. Há sinais de dentes despontando, e Ele é muito brando e gentil. Ele é descrito da seguinte forma: \"Quando Kṛṣṇa tinha apenas três ou quatro dentes despontando de Suas gengivas, Suas coxas eram gordas, Seu corpo era muitíssimo baixo, e Ele começou a realçar o amor paternal de Nanda Mahārāj e de mãe Yaśodā com as atividades de Seu corpinho infantil. Ora dava passos com Suas perninhas repetidas vezes, ora chorava, ora sorria, ora chupava o polegar e ora deitava-Se de costas. Estas são algumas das diferentes atividades da criança Kṛṣṇa. Quando Kṛṣṇa estava deitado de costas, ora chupando os dedinhos dos pés, ora atirando as perninhas para cima, ora chorando e ora sorrindo, mãe Yaśodā, vendo seu filho em tais passatempos, não dava nenhum sinal de querer contê-Lo, mas, em vez disso, começava a observar seu filho com ardor, deleitando-se com esses passatempos infantis.\" No começo da idade *kaumāra* de Kṛṣṇa, havia unhas de tigres engastadas num colar de ouro em torno de Seu pescoço. Havia *tilaka* protetor em Sua testa, rímel preto ao redor de Seus olhos e fio de seda em torno de Sua cintura. Estas são as descrições da roupa de Kṛṣṇa no começo da idade *kaumāra.*\n\nQuando Nanda Mahārāj viu a beleza da criança Kṛṣṇa, com unhas de tigre em Seu peito, uma compleição como a da árvore *tāmala* recém-brotada, *tilaka* belamente decorado feito com urina de vaca, enfeites nos braços de belo fio de seda e roupas de seda atadas em torno de Sua cintura — quando Nanda Mahārāj viu seu filho assim, nunca ficou saciado com a beleza da criança.\n\nNo meio da idade *kaumāra,* a parte superior dos cabelos de Kṛṣṇa cai ao redor de Seus olhos. Ora Ele está coberto com pano na parte inferior de Seu corpo, e ora está completamente nu. Ora tenta caminhar, dando passo a passo, e ora fala muito docemente, numa linguagem entrecortada. Estes eram alguns dos sintomas de Sua idade *kaumāra* média. Ele é descrito assim quando mãe Yaśodā certa vez O viu em Sua idade *kaumāra* média: Seus cabelos esparsos tocavam Suas sobrancelhas, e Seus olhos estavam inquietos, mas Ele não conseguia exprimir Seus sentimentos com palavras apropriadas; mesmo assim, quando Ele falava, era tão lindo e doce de ouvir. Quando mãe Yaśodā olhava para Suas pequenas orelhas e O via nu, tentando correr muito depressa com Suas perninhas, ela se imergia no oceano de néctar. Os ornamentos de Kṛṣṇa nessa idade são uma pérola pendurada no septo de Seu nariz, manteiga em Suas palmas semelhantes ao lótus e alguns guizos pequenos pendurados em Sua cintura. Afirma-se que, quando mãe Yaśodā viu que a criança se movia, fazendo soar os guizos de Sua cintura, sorrindo para ela com uma pérola entre as narinas e com manteiga nas mãos, ela ficou maravilhosamente satisfeita ao ver seu filhinho daquela maneira.\n\nEnquanto Kṛṣṇa estava no meio de Sua idade *kaumāra,* Sua cintura tornou-se mais fina, Seu peito tornou-se mais largo, e Sua cabeça estava decorada com Seus cabelos cacheados, que se assemelhavam à queda das asas de um corvo. Esses maravilhosos traços do corpo de Kṛṣṇa nunca deixavam de assombrar mãe Yaśodā. No fim de Sua idade *kaumāra,* Kṛṣṇa carregava um pequeno bastão na mão, Suas roupas eram um pouco mais compridas, e Ele tinha um nó em torno de Sua cintura, que se assemelhava ao capelo de uma serpente. Com essa roupa, Ele costumava cuidar dos bezerros perto de casa, e às vezes brincava com os vaqueirinhos mais ou menos da mesma idade. Ele tinha uma flauta esguia e uma corneta de chifre de búfalo, e às vezes tocava uma flauta feita das folhas das árvores. Estes são alguns dos sintomas do fim da idade *kaumāra* de Kṛṣṇa.\n\nQuando Kṛṣṇa estava um pouco crescido e cuidava dos pequenos bezerros, ia frequentemente para perto da floresta. E, quando demorava um pouco a voltar para casa, Nanda Mahārāj imediatamente subia ao *candraśālikā* (um pequeno barracão construído no telhado para se obter uma visão panorâmica de todos os lados) e ficava à Sua espera. Preocupado com a chegada tardia de seu filhinho, Nanda Mahārāj permanecia no *candraśālikā* até poder indicar a sua esposa que Kṛṣṇa, rodeado de Seus pequenos amigos vaqueiros, estava voltando com os bezerros. Nanda Mahārāj apontava a pena de pavão na cabeça de seu filho e informava a sua amada esposa de como a criança lhe agradava os olhos.\n\nMãe Yaśodā então se dirigia a Nanda Mahārāj: \"Veja meu querido filho, cujos olhos são brancos, que tem um turbante na cabeça, um manto no corpo e guizos nas pernas, que tilintam muito docemente em Seus pés. Ele se aproxima, junto com Seus bezerros *surabhi,* e veja só como Ele perambula sobre a sagrada terra de Vṛndāvana!\"\n\nDe modo semelhante, Mahārāj Nanda se dirigia a sua esposa: \"Minha querida Yaśodā, olhe só para seu rebento, Kṛṣṇa! Veja Seu brilho corporal escuro, Seus olhos tingidos de cor vermelha, Seu peito largo e Seu belo colar dourado! Como Ele parece maravilhoso e como aumenta cada vez mais minha bem-aventurança transcendental!\"\n\nQuando Kṛṣṇa, o amado filho de Nanda Mahārāj, entra em Sua idade *kaiśora,* embora Ele se torne mais belo, Seus pais ainda O consideram como estando na idade *paugaṇḍa* — muito embora Ele tenha entre dez e quinze anos de idade. Quando Kṛṣṇa está em Sua idade *paugaṇḍa,* alguns de Seus servos também O aceitam como estando na idade *kaiśora.* Quando Kṛṣṇa realiza Seus passatempos infantis, Sua prática geral é quebrar os potes de leite e de iogurte, jogar o iogurte no pátio e roubar a nata do leite. Às vezes Ele quebra o batedor, e às vezes Ele joga manteiga no fogo. Dessa maneira, Ele aumenta o prazer transcendental de Sua mãe Yaśodā.\n\nNesse sentido, mãe Yaśodā certa vez disse a Mukharā, sua criada: \"Veja só Kṛṣṇa, olhando furtivamente para todos os lados e avançando lentamente por entre os arbustos. Parece que Ele vem apenas para roubar a manteiga. Não se exponha, senão Ele pode compreender que estamos olhando para Ele. Quero deleitar-me com a visão de Suas sobrancelhas movendo-se dessa maneira astuta, e quero ver Seus olhos temerosos e Seu belo rosto.\"\n\nAo deleitar-se com a atitude de Kṛṣṇa de roubar manteiga muito furtivamente, mãe Yaśodā experimentava o êxtase do amor maternal cheirando-Lhe a cabeça, às vezes acariciando-Lhe o corpo com a mão, às vezes oferecendo bênçãos, às vezes dando-Lhe ordens, às vezes fitando-O, às vezes mantendo-O e às vezes dando-Lhe boas instruções para que não Se tornasse um ladrão. Tais atividades estão no amor extático maternal. Um ponto importante a observar nesse sentido é que a propensão infantil de roubar está presente até mesmo na Suprema Personalidade de Deus, e, portanto, essa propensão não é artificial. Contudo, na relação espiritual não há nenhuma deficiência nessa propensão de roubar, como há no mundo material.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Treze, verso 39, Śukadeva Gosvāmī diz ao Rei Parīkṣit: \"Meu querido rei, assim que as *gopīs* de mais idade viram seus filhos chegando, houve um sinal inexprimível de amor paternal, e todas elas ficaram absortas em afeição. A princípio, elas planejavam castigar seus filhos por roubarem manteiga, mas, assim que os filhos vieram diante de seus olhos, perderam toda a sua atitude irritada e ficaram dominadas de afeição. Começaram a abraçar seus filhos e a cheirar-lhes a cabeça. Ao fazerem isso, ficaram quase enlouquecidas de amor por seus filhos.\" Em seus passatempos da infância, todos esses vaqueirinhos juntavam-se a Kṛṣṇa para roubar manteiga. Mas, em vez de ficar irritada, mãe Yaśodā ficava molhada do leite que fluía de seus seios. Por sua afeição por Kṛṣṇa, ela começava a cheirar-Lhe a cabeça repetidamente.\n\nAs atividades gerais de todas as mães dos vaqueirinhos eram beijá-los, abraçá-los, chamá-los por seus nomes e, às vezes, castigá-los suavemente por seus hábitos de roubo. Estas manifestações de amor paternal chamam-se êxtase *sāttvika,* no qual se tornam visíveis em plenitude manifestações de oito tipos de sintomas extáticos. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Treze, verso 19, Śukadeva Gosvāmī diz ao Rei Parīkṣit: \"Todas as mães dos vaqueirinhos estavam iludidas pela influência encobridora da potência *yoga-māyā* da Personalidade de Deus, e, assim que ouviram o tocar de flauta de seus meninos, imediatamente se levantaram e mentalmente abraçaram seus filhos, que haviam sido criados pela potência interna direta de Kṛṣṇa. Aceitando-os como seus filhos nascidos delas próprias, ergueram-nos em seus braços e começaram a abraçá-los, repousando os corpos das crianças sobre os seus próprios. As emoções criadas por esse incidente eram mais doces do que o néctar transformado num saboroso intoxicante, e o leite que fluía de seus seios era imediatamente bebido pelas crianças.\"\n\nNo *Lalita-mādhava,* compilado por Rūpa Gosvāmī, dirige-se a Kṛṣṇa da seguinte forma: \"Meu querido Kṛṣṇa, quando estás ocupado em pastorear os animais, a poeira causada pelos cascos dos bezerros e das vacas cobre Teu belo rosto e Teu *tilaka* artístico, e Tu pareces muito empoeirado. Mas, quando voltas para casa, o leite que flui dos seios de Tua mãe lava a poeira que cobre Teu rosto, e parece que Tu és purificado por esse leite. É exatamente como quando a Deidade é lavada durante a realização da cerimônia *abhiṣeka.*\" É costume nos templos das Deidades que, se tiver havido algumas atividades impuras, a Deidade tenha de ser lavada com leite. Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e Ele foi lavado pelo leite do seio de mãe Yaśodā, o que O purificou da poeira que O cobria.\n\nÀs vezes há exemplos de mãe Yaśodā ficar atônita em êxtase. Isso se manifestou quando ela viu seu filho erguer a colina Govardhana. Quando Kṛṣṇa estava de pé, erguendo a colina, mãe Yaśodā hesitou em abraçá-Lo e ficou atônita. A posição perigosa que Kṛṣṇa havia assumido ao erguer a colina trouxe lágrimas a seus olhos. E, com os olhos cheios de lágrimas, ela não conseguia mais ver Kṛṣṇa, e, como sua garganta estava sufocada de ansiedade, nem sequer conseguia instruir Kṛṣṇa quanto ao que Ele deveria fazer naquela posição. Este é um sintoma de ficar atônita no amor extático.\n\nMãe Yaśodā às vezes desfrutava de êxtase transcendental em felicidade quando seu filho era salvo de uma situação perigosa, tal como ser atacado por Pūtanā ou por algum outro demônio. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Dezessete, verso 15, Śukadeva Gosvāmī diz que mãe Yaśodā sentiu-se muitíssimo afortunada quando reaveu seu filho perdido. Imediatamente, colocou-O em seu colo e começou a abraçá-Lo repetidas vezes. Enquanto abraçava seu filho repetidamente, torrentes de lágrimas caíam de seus olhos, e ela era incapaz de exprimir sua alegria transcendental. Afirma-se no *Vidagdha-mādhava* de Śrīla Rūpa Gosvāmī: \"Meu querido Kṛṣṇa, o toque de Tua mãe é tão agradável e refrescante que supera a capacidade refrescante da polpa do sândalo e do luar brilhante misturado com a polpa da raiz *uśīra.*\" (*Uśīra* é uma espécie de raiz que, quando embebida em água, tem um efeito muitíssimo refrescante. É especialmente usada no calor escaldante do sol.)\n\nO amor paternal de mãe Yaśodā por Kṛṣṇa aumenta de modo estável, e seu amor e êxtase às vezes são descritos como afeição intensa e às vezes como apego avassalador. Um exemplo de apego por Kṛṣṇa com afeição avassaladora é dado no *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Seis, verso 27, onde Śukadeva Gosvāmī se dirige a Mahārāj Parīkṣit desta maneira: \"Meu querido rei, quando o magnânimo Nanda Mahārāj voltou de uma viagem, começou a cheirar a cabeça de seu filho e ficou imerso no êxtase do amor paternal.\" Há uma afirmação semelhante em relação a mãe Yaśodā, quando ela estava ansiosa demais por ouvir o som da flauta de Kṛṣṇa, esperando que Ele voltasse do pasto. Como pensava que estava ficando muito tarde, sua ansiedade por ouvir o som da flauta de Kṛṣṇa duplicou-se, e o leite começou a fluir de seu seio. Naquela condição, ela ora entrava em casa, ora saía de casa. Olhava constantemente para ver se Govinda estava voltando pela estrada. Quando muitos grandiosos sábios ofereciam orações ao Senhor Kṛṣṇa, glorificando Suas atividades, a Rainha de Gokula, mãe Yaśodā, entrou no campo de batalha de Kurukṣetra, molhando a parte inferior de seu *sari* com o leite que fluía de seu seio. Essa entrada de mãe Yaśodā em Kurukṣetra não ocorreu durante a Batalha de Kurukṣetra. Em outras ocasiões, Kṛṣṇa ia a Kurukṣetra de Seu lar paterno (Dvārakā) durante o eclipse solar, e, nessas ocasiões, os residentes de Vṛndāvana também iam vê-Lo lá.\n\nQuando Kṛṣṇa chegou a Kurukṣetra em peregrinação, todas as pessoas ali reunidas começaram a dizer que Kṛṣṇa, o filho de Devakī, havia chegado. Naquele momento, Devakī, exatamente como uma mãe afetuosa, começou a acariciar o rosto de Kṛṣṇa. E, novamente, quando as pessoas exclamaram que Kṛṣṇa, o filho de Vasudeva, havia chegado, tanto o Rei Nanda quanto mãe Yaśodā ficaram dominados de afeição e expressaram seu grande prazer.\n\nQuando mãe Yaśodā, a Rainha de Gokula, ia ver seu filho Kṛṣṇa em Kurukṣetra, uma de suas amigas começou a dirigir-se a ela assim: \"Minha querida rainha, o leite que flui de tua montanha-seio já embranqueceu o rio Ganges, e as lágrimas de teus olhos, misturadas com rímel preto, já enegreceram a cor do Yamunā. E, como estás de pé bem entre os dois rios, penso que não há necessidade de tua ansiedade por ver o rosto de teu filho. Tua afeição paternal já foi manifestada a Ele por esses dois rios!\"\n\nA mesma amiga de mãe Yaśodā dirigiu-se a Kṛṣṇa da seguinte forma: \"Meu querido Mukunda, se mãe Yaśodā, a Rainha de Gokula, for forçada a ficar de pé sobre o fogo, mas lhe for permitido ver Teu rosto de lótus, então esse fogo lhe parecerá como as Montanhas Himalaias: repletas de gelo. Da mesma forma, se lhe for permitido permanecer no oceano de néctar, mas não lhe for permitido ver o rosto de lótus de Tua Graça, então até mesmo esse oceano de néctar lhe parecerá um oceano de veneno de arsênico.\" Que a ansiedade de mãe Yaśodā de Braja, sempre esperando ver o rosto de lótus de Kṛṣṇa, seja glorificada por todo o universo!\n\nUma afirmação semelhante foi feita por Kuntīdevī a Akrūra: \"Meu querido irmão Akrūra, meu sobrinho Mukunda está há muito tempo ausente de nós. Terias a bondade de dizer-Lhe que Sua tia Kuntī está sentada entre os inimigos e gostaria de saber quando poderá ver Seu rosto de lótus novamente?\"\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Quarenta e Seis, verso 2, há esta afirmação: \"Quando Uddhava estava presente em Vṛndāvana e narrava as atividades de Kṛṣṇa em Dvārakā, mãe Yaśodā, ao ouvir essa narração, começou a verter leite de seus seios e a derramar lágrimas de seus olhos.\" Outro incidente que demonstra o amor extremo de Yaśodā por Kṛṣṇa ocorreu quando Kṛṣṇa foi a Mathurā, o reino de Kaṁsa. Em separação de Kṛṣṇa, mãe Yaśodā olhava para os utensílios de maquiagem de Kṛṣṇa e caiu no chão quase inconsciente, com um grande estrondo. Quando ela rolava pelo chão, havia muitos arranhões em seu corpo, e, naquela condição lastimável, começou a chorar: \"Ó meu querido filho! Meu querido filho!\" E batia em seus seios com as duas mãos. Essa atividade de mãe Yaśodā é explicada por devotos peritos como amor extático em separação. Às vezes há muitos outros sintomas, tais como grande ansiedade, lamentação, frustração, ficar atônita, humildade, inquietação, loucura e ilusão.\n\nNo que diz respeito às ansiedades de mãe Yaśodā, quando Kṛṣṇa estava fora de casa, no pasto, um devoto certa vez lhe disse: \"Yaśodā, penso que teus movimentos ficaram mais lentos, e vejo que estás cheia de ansiedades. Teus dois olhos parecem estar sem nenhum movimento, e sinto em tua respiração uma espécie de calor que está levando o leite de teu seio ao ponto de ebulição. Todas essas condições provam que, por causa da separação de teu filho, tens uma forte dor de cabeça.\" Estes são alguns dos sintomas da ansiedade de mãe Yaśodā por Kṛṣṇa.\n\nQuando Akrūra estava presente em Vṛndāvana e narrava as atividades de Kṛṣṇa em Dvārakā, mãe Yaśodā foi informada de que Kṛṣṇa havia desposado tantas rainhas e estava muito ocupado lá em Seus afazeres domésticos. Ao ouvir isso, mãe Yaśodā lamentou-se de quão infeliz era por não ter conseguido casar seu filho logo após Ele passar de Sua idade *kaiśora,* de modo que não pôde receber nem seu filho nem sua nora em seu lar. Ela exclamou: \"Meu querido Akrūra, estás simplesmente atirando raios sobre minha cabeça!\" Estes são sinais de lamentação por parte de mãe Yaśodā em separação de Kṛṣṇa.\n\nDe modo semelhante, mãe Yaśodā sentiu frustração quando pensou: \"Embora eu tenha milhões de vacas, o leite dessas vacas não pôde satisfazer Kṛṣṇa. Portanto, que recaia uma maldição sobre esse leite! E eu também sou condenada, pois, embora seja tão opulenta em prosperidade material, agora sou incapaz de cheirar a cabeça de meu filho e de alimentá-Lo com o leite de meu seio, como costumava fazer quando Ele estava aqui em Vṛndāvana.\" Este é um sinal de frustração por parte de mãe Yaśodā em separação de Kṛṣṇa.\n\nUm amigo de Kṛṣṇa dirigiu-se a Ele assim: \"Meu querido Senhor de olhos de lótus, quando vivias em Gokula, sempre carregavas um bastão em Tua mão. Esse bastão agora jaz inerte no lar de mãe Yaśodā, e, sempre que ela o vê, fica imóvel exatamente como o bastão.\" Este é o sinal de ficar atônita em separação de Kṛṣṇa. Em separação de Kṛṣṇa, mãe Yaśodā tornou-se tão humilde que orou ao criador do universo, o Senhor Brahmā, com lágrimas nos olhos: \"Meu querido criador, não terias a bondade de trazer de volta a mim meu querido filho Kṛṣṇa, para que eu possa vê-Lo ao menos por um momento?\" Às vezes, em inquietação como uma louca, mãe Yaśodā costumava acusar Nanda Mahārāj: \"O que estás fazendo no palácio? Homem sem-vergonha! Por que as pessoas te chamam de Rei de Braja? É muito espantoso que, mesmo estando separado de teu querido filho Kṛṣṇa, ainda estejas vivendo em Vṛndāvana como um pai de coração duro!\"\n\nAlguém informou Kṛṣṇa sobre a loucura de mãe Yaśodā com as seguintes palavras: \"Em sua loucura, mãe Yaśodā dirigiu-se às árvores *kadamba* e perguntou-lhes: 'Onde está meu filho?' De modo semelhante, dirigiu-se aos pássaros e aos zangões e perguntou-lhes se Kṛṣṇa havia passado diante deles, e perguntou se eles podiam dizer algo a Teu respeito. Dessa maneira, mãe Yaśodā, em ilusão, perguntava a todos a Teu respeito, e tem perambulado por toda Vṛndāvana.\" Esta é a loucura em separação de Kṛṣṇa.\n\nQuando Nanda Mahārāj foi acusado por mãe Yaśodā de ser \"de coração duro\", ele respondeu: \"Minha querida Yaśodā, por que estás ficando tão agitada? Tem a bondade de olhar com mais atenção. Veja só, teu filho Kṛṣṇa está de pé diante de ti! Não te tornes uma louca dessa maneira. Por favor, mantém meu lar em paz.\" E Kṛṣṇa foi informado por algum amigo de que Seu pai Nanda também estava em ilusão dessa maneira, em separação dEle.\n\nQuando todas as esposas de Vasudeva estavam presentes na arena de Kaṁsa, viram os traços corporais mais agradáveis de Kṛṣṇa e, imediatamente, por afeição paternal, o leite começou a fluir de seus seios, e as partes inferiores de seus *saris* ficaram molhadas. Este sintoma de amor extático é um exemplo do resultado da satisfação de um desejo.\n\nNo Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* Capítulo Onze, verso 25, afirma-se: \"Quando Kṛṣṇa entrou em Dvārakā após terminar a Batalha de Kurukṣetra, primeiramente viu Sua mãe e todas as Suas diversas madrastas e ofereceu Suas respeitosas reverências a seus pés. As mães imediatamente colocaram Kṛṣṇa em seus colos, e, por causa de sua afeição paternal, havia leite fluindo de seus seios. Assim, o leite de seus seios, misturado com a água das lágrimas, tornou-se a primeira oferenda a Kṛṣṇa.\" Este é um dos exemplos de ficar satisfeita após uma grande separação.\n\nHá uma afirmação semelhante no *Lalita-mādhava:* \"Como é maravilhoso que Yaśodā, a esposa do Rei Nanda, por sua afeição paternal por Kṛṣṇa, misturasse suas lágrimas e o leite de seus seios e, assim, banhasse seu querido filho Kṛṣṇa.\" No *Vidagdha-mādhava,* um devoto dirige-se ao Senhor Kṛṣṇa da seguinte maneira: \"Meu querido Mukunda, logo após ver Teu rosto repleto do sabor da flor de lótus, e sendo atraída pelo luar de Teu rosto, mãe Yaśodā ficou tão regozijada em sua afeição que, imediatamente, dos mamilos de seus seios semelhantes a cântaros, o leite começou a fluir.\" Ela estava, assim, constantemente ocupada em suprir leite a Kṛṣṇa, após molhar o pano que cobria o jarro.\n\nEstes são alguns dos sinais de amor paternal por Kṛṣṇa por parte de Sua mãe, de Seu pai e das pessoas de mais idade. Os sintomas de amor extático na afeição paternal expressam-se quando Kṛṣṇa é aceito como o filho. Essas emoções transcendentais constantes por Kṛṣṇa chamam-se êxtase estável no amor paternal.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī afirma aqui que, segundo alguns eruditos versados, os três tipos de doçura transcendental até aqui descritos — a saber, a servidão, a fraternidade e a afeição paternal — às vezes se misturam. Por exemplo, os sentimentos fraternais de Balarāma misturam-se com a servidão e a afeição paternal. De modo semelhante, a atração do Rei Yudhiṣṭhira por Kṛṣṇa também se mistura com a afeição paternal e a servidão. Da mesma forma, a doçura transcendental de Ugrasena, o avô de Kṛṣṇa, mistura-se com a servidão e a afeição paternal. A afeição de todas as *gopīs* de mais idade em Vṛndāvana é uma mistura de amor paternal, servidão e fraternidade. A afeição dos filhos de Mādrī, Nakula e Sahadeva, bem como a afeição do sábio Nārada, é uma mistura de amizade e servidão. A afeição do Senhor Śiva, de Garuḍa e de Uddhava é uma mistura de servidão e fraternidade."}
{"ref": "nod/44", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/44/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "44. Serviço Devocional em Amor Conjugal", "purport": "## O Serviço Devocional no Amor Conjugal\n\nA atração de um devoto puro por Kṛṣṇa no amor conjugal chama-se serviço devocional no amor conjugal. Embora tais sentimentos conjugais não sejam de modo algum materiais, há certa semelhança entre esse amor espiritual e as atividades materiais. Por isso, as pessoas que se interessam apenas pelas atividades materiais são incapazes de compreender esse amor conjugal espiritual, e essas reciprocidades devocionais parecem-lhes muito misteriosas. Rūpa Gosvāmī, portanto, descreve o amor conjugal muito brevemente.\n\nOs impulsos do amor conjugal são Kṛṣṇa e Suas consortes muito queridas, tais como Rādhārāṇī e Suas companheiras imediatas. O Senhor Kṛṣṇa não tem rival: ninguém é igual a Ele, e ninguém é maior do que Ele. Sua beleza também não tem rival, e, como Ele excede a todos os demais nos passatempos do amor conjugal, Ele é o objeto original de todo o amor conjugal.\n\nNo *Gīta-govinda* de Jayadeva Gosvāmī, uma *gopī* diz a sua amiga: \"Kṛṣṇa é o reservatório de todo o prazer dentro deste universo. Seu corpo é tão suave quanto a flor de lótus. E Seu comportamento livre com as *gopīs,* que parece exatamente a atração de um rapaz por uma jovem, é um tema de amor conjugal transcendental.\" Um devoto puro segue os passos das *gopīs* e adora as *gopīs* da seguinte forma: \"Que eu ofereça minhas respeitosas reverências a todas as jovens vaqueirinhas, cujos traços corporais são tão atraentes. Simplesmente por seus belos e atraentes traços, elas estão adorando a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa.\" Dentre todas as jovens *gopīs,* Śrīmatī Rādhārāṇī é a mais proeminente.\n\nA beleza de Śrīmatī Rādhārāṇī é descrita da seguinte forma: \"Seus olhos derrotam os traços atraentes dos olhos do pássaro *cakorī.* Quando alguém vê o rosto de Rādhārāṇī, imediatamente odeia a beleza da lua. Sua compleição corporal derrota a beleza do ouro. Assim, contemplemos todos nós a beleza transcendental de Śrīmatī Rādhārāṇī.\" A atração de Kṛṣṇa por Rādhārāṇī é descrita pelo próprio Kṛṣṇa assim: \"Quando crio algumas frases de brincadeira a fim de desfrutar da beleza de Rādhārāṇī, Rādhārāṇī ouve essas palavras de brincadeira com grande atenção; mas, por Seus traços corporais e por palavras de réplica, Ela Me ignora. E Eu até mesmo possuo prazer ilimitado por Ela Me ignorar, pois Ela Se torna tão bela que aumenta cem vezes Meu prazer.\" Uma afirmação semelhante pode ser encontrada no *Gīta-govinda,* onde se diz que, quando o inimigo de Kaṁsa, Śrī Kṛṣṇa, abraça Śrīmatī Rādhārāṇī, imediatamente Se enreda numa condição amorosa e abandona a companhia de todas as outras *gopīs.*\n\nNo *Padyāvalī* de Rūpa Gosvāmī, afirma-se que, quando as *gopīs* ouvem o som da flauta de Kṛṣṇa, imediatamente esquecem todas as repreensões oferecidas pelos membros mais velhos de suas famílias, a sua difamação e o comportamento severo de seus maridos. Seu único pensamento é sair em busca de Kṛṣṇa. Quando as *gopīs* se encontram com Kṛṣṇa, a exibição de suas trocas de olhares, bem como seu comportamento de brincadeira e riso, chama-se *anubhāva,* ou subêxtase no amor conjugal.\n\nNo *Lalita-mādhava,* Rūpa Gosvāmī explica que os movimentos das sobrancelhas de Kṛṣṇa são exatamente como o Yamunā, e o sorriso de Rādhārāṇī é exatamente como o luar. Quando o Yamunā e o luar entram em contato na margem do rio, a água tem um sabor exatamente como o do néctar, e bebê-la dá grande satisfação. É tão refrescante quanto pilhas de neve. De modo semelhante, no *Padyāvalī,* uma companheira constante de Rādhārāṇī diz: \"Minha querida Rādhārāṇī de rosto de lua, todo o Teu corpo parece estar muito contente, contudo há sinais de lágrimas em Teus olhos. Tua fala está vacilante, e Teu peito também está arfando. Por todos esses sinais, posso compreender que deves ter ouvido o soprar da flauta de Kṛṣṇa, e, em consequência disso, Teu coração está agora se derretendo.\"\n\nNo mesmo *Padyāvalī,* há a seguinte descrição, que é tomada como sinal de frustração no amor conjugal. Śrīmatī Rādhārāṇī disse: \"Querido senhor Cupido, por favor, não Me excites atirando tuas flechas em Meu corpo. Querido senhor Ar, por favor, não Me despertes com a fragrância das flores. Estou agora privada da atitude amorosa de Kṛṣṇa, de modo que, nessas circunstâncias, de que serve Eu sustentar este corpo inútil? Não há necessidade de tal corpo por parte de nenhuma entidade viva.\" Este é um sinal de frustração no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nDe modo semelhante, no *Dāna-keli-kaumudī,* Śrīmatī Rādhārāṇī, apontando para Kṛṣṇa, diz: \"Este astuto menino da floresta tem a beleza de uma flor de lótus azulada, e pode atrair todas as jovens do universo. Agora, após Me dar a provar Seu corpo transcendental, Ele Me entusiasmou, e isso é mais do que posso tolerar. Sinto-Me agora como uma elefanta que foi entusiasmada por um elefante!\" Este é um exemplo de júbilo no amor extático por Kṛṣṇa.\n\nO êxtase estável do amor conjugal é a causa original do gozo corporal. No *Padyāvalī,* essa causa original da união é descrita quando Rādhārāṇī diz a uma de Suas companheiras constantes: \"Minha querida amiga, quem é este menino cujas pálpebras, dançando constantemente, aumentaram a beleza de Seu rosto e atraíram Meu desejo de amor conjugal? Suas orelhas estão decoradas com os botões das flores *aśoka,* e Ele Se vestiu com roupas amarelas. Pelo som de Sua flauta, este menino já Me deixou impaciente.\"\n\nO amor conjugal de Rādhā-Kṛṣṇa nunca é perturbado por nenhuma consideração pessoal. A natureza imperturbável do amor conjugal entre Rādhā e Kṛṣṇa é descrita assim: \"A pouca distância de Kṛṣṇa estava mãe Yaśodā, e Kṛṣṇa estava rodeado de todos os Seus amigos. Diante de Seus olhos estava Candrāvalī e, ao mesmo tempo, sobre um bloco de pedra em frente à entrada de Braja, estava de pé o demônio conhecido como Vṛṣāsura. Mas, mesmo em tais circunstâncias, quando Kṛṣṇa viu Rādhārāṇī de pé logo atrás de um arbusto de muitas trepadeiras, imediatamente Suas belas sobrancelhas moveram-se exatamente como um relâmpago em direção a Ela.\"\n\nOutro exemplo é descrito da seguinte forma: \"De um lado do pátio jazia o corpo morto de Śaṅkhāsura, rodeado de muitos chacais. De outro lado, estavam muitos *brāhmaṇas* eruditos, todos autocontrolados. Eles ofereciam belas orações, que eram tão suavizantes quanto a brisa fresca no verão. Diante de Kṛṣṇa, o Senhor Baladeva estava de pé, causando um efeito refrescante. Mas, mesmo em meio a todas essas diferentes circunstâncias de efeitos suavizantes e perturbadores, a flor de lótus do amor conjugal extático que Kṛṣṇa sentia por Rādhārāṇī não pôde fenecer.\" Esse amor de Kṛṣṇa por Rādhārāṇī é frequentemente comparado a um lótus em flor: a única diferença é que o amor de Kṛṣṇa permanece sempre mais e mais belo.\n\nO amor conjugal divide-se em duas porções: *vipralambha,* ou amor conjugal em separação, e *sambhoga,* ou amor conjugal em contato direto. *Vipralambha,* a separação, tem três subdivisões, conhecidas como 1) *pūrva-rāga,* ou atração preliminar; 2) *māna,* ou aparente ira; e 3) *pravāsa,* ou separação pela distância.\n\nQuando o amante e a amada têm um nítido sentimento de não se encontrarem mutuamente, essa fase chama-se *pūrva-rāga,* ou atração preliminar. No *Padyāvalī,* Rādhārāṇī disse a Sua companheira: \"Minha querida amiga, Eu estava justamente indo para a margem do Yamunā, e, de repente, um menino belíssimo cuja compleição é como a de uma nuvem azul-escura tornou-Se visível diante de Meus olhos. Ele Me lançou um olhar de um modo que Eu não consigo descrever. Mas, desde que isso ocorreu, lamento não poder mais ocupar Minha mente nos deveres de Meus afazeres domésticos.\" Este é um exemplo de atração preliminar por Kṛṣṇa. No *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Cinquenta e Três, verso 2, Kṛṣṇa disse ao *brāhmaṇa* mensageiro que veio de Rukmiṇī: \"Meu querido *brāhmaṇa,* assim como Rukmiṇī, não consigo dormir à noite, e Minha mente está sempre fixa nela. Sei que seu irmão Rukmī está contra Mim e que, devido à persuasão dele, Meu casamento com ela foi cancelado.\" Este é outro exemplo de atração preliminar.\n\nNo que diz respeito a *māna,* ou ira, há o seguinte incidente descrito no *Gīta-govinda:* \"Quando Śrīmatī Rādhārāṇī viu Kṛṣṇa Se divertindo na companhia de várias outras *gopīs,* Ela ficou um pouco ciumenta, pois Seu prestígio especial estava sendo ofuscado. Por isso, Ela imediatamente abandonou a cena e abrigou-Se num belo arbusto florido onde zumbiam os zangões pretos. Então, escondendo-Se atrás das trepadeiras, começou a expressar Sua tristeza a uma de Suas consortes.\" Este é um exemplo de uma aparente desavença.\n\nUm exemplo de *pravāsa,* ou estar sem contato por viver num lugar distante, é dado no *Padyāvalī* da seguinte forma: \"Desde o auspicioso dia em que Kṛṣṇa partiu para Mathurā, Śrīmatī Rādhārāṇī tem pressionado Sua cabeça contra uma de Suas mãos e derramado lágrimas constantemente. Seu rosto está sempre molhado agora, de modo que não há possibilidade de Ela dormir sequer por um momento.\" Quando o rosto fica molhado, a tendência ao sono é imediatamente removida. Assim, como Rādhārāṇī estava sempre chorando por Kṛṣṇa em razão de Sua separação, não havia possibilidade de Ela conseguir dormir um pouco. No *Prahlāda-saṁhitā,* Uddhava diz: \"A Suprema Personalidade de Deus, Govinda, tomado de pânico por ser trespassado pelas flechas de Cupido, está sempre pensando em vós [as *gopīs],* e nem sequer aceita Seu almoço regular. Tampouco está obtendo qualquer descanso apropriado.\"\n\nQuando o amante e a amada se reúnem e desfrutam um do outro por contato direto, essa fase chama-se *sambhoga.* Há uma afirmação no *Padyāvalī* como segue: \"Kṛṣṇa abraçou Śrīmatī Rādhārāṇī de maneira tão perita que parecia estar celebrando a cerimônia de dança dos pavões.\"\n\nŚrī Rūpa Gosvāmī assim termina a quinta onda de seu Oceano do Néctar da Devoção. Ele oferece suas respeitosas reverências à Suprema Personalidade de Deus, que apareceu como Gopāla, a forma eterna do Senhor."}
{"ref": "nod/45", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/45/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "45. Êxtase de Riso", "purport": "## O Êxtase do Riso\n\nNa quarta divisão do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* Śrīla Rūpa Gosvāmī descreveu sete tipos de êxtases indiretos do serviço devocional — conhecidos como riso, assombro, cavalheirismo, compaixão, ira, pavor e horror. Nesta porção, Śrīla Rūpa Gosvāmī descreve ainda mais esses êxtases de sentimentos devocionais, sendo alguns compatíveis e outros incompatíveis entre si. Quando um tipo de serviço devocional extático se sobrepõe a outro de maneira conflitante, esse estado de coisas chama-se *rasābhāsa,* ou uma apresentação pervertida de doçuras.\n\nEruditos versados e peritos dizem que o riso é encontrado geralmente entre os jovens ou na combinação de pessoas idosas com crianças pequenas. Esse riso amoroso e extático às vezes também é encontrado em pessoas de natureza muito grave. Certa vez, um velho mendicante aproximou-se da porta da casa de mãe Yaśodā, e Kṛṣṇa disse a Yaśodā: \"Minha querida mãe, não desejo ir perto desse magricela vilão. Se Eu for até lá, ele poderia colocar-Me em sua sacola de esmolas e levar-Me para longe de ti!\" Dessa maneira, a maravilhosa criança, Kṛṣṇa, começou a olhar para Sua mãe, enquanto o mendicante, que estava de pé na porta, tentou esconder seu rosto sorridente, embora não conseguisse fazê-lo. Ele imediatamente exprimiu seu sorriso. Neste exemplo, o próprio Kṛṣṇa é o objeto dos assuntos do riso.\n\nCerta vez, um dos amigos de Kṛṣṇa informou-O: \"Meu querido Kṛṣṇa, se abrires Tua boca, então eu Te darei um belo confeito de açúcar misturado com iogurte.\" Kṛṣṇa imediatamente abriu a boca, mas, em vez de Lhe dar o confeito de açúcar com iogurte, o amigo deixou cair uma flor em Sua boca. Após provar essa flor, Kṛṣṇa torceu a boca de modo desfigurado e, ao verem isso, todos os Seus amigos que ali estavam começaram a rir muito alto.\n\nCerta vez, um quiromante veio à casa de Nanda Mahārāj, e Nanda Mahārāj lhe perguntou: \"Meu querido sábio, terias a bondade de examinar a mão de meu filho, Kṛṣṇa? Dize-me quantos anos Ele viverá e se Ele se tornará o dono de milhares de vacas.\" Ao ouvir isso, o quiromante começou a sorrir, e Nanda Mahārāj lhe perguntou: \"Meu querido senhor, por que estás rindo e por que estás cobrindo teu rosto?\"\n\nEm tal êxtase de amor no riso, Kṛṣṇa ou os assuntos referentes a Kṛṣṇa são a causa do riso. Em tal serviço devocional do riso, há sintomas de júbilo, preguiça, sentimentos ocultos e outros elementos semelhantes, aparentemente perturbadores.\n\nSegundo o cálculo de Śrīla Rūpa Gosvāmī, o riso no amor extático pode dividir-se em seis divisões. Essas divisões, segundo diferentes graus de sorriso, chamam-se, na língua sânscrita, *smita, hasita, vihasita, avahasita, apahasita* e *atihasita.* Essas seis classes de sorriso podem classificar-se como maiores e menores. A divisão maior inclui o sorriso *smita, hasita* e *vihasita,* e a divisão menor inclui o sorriso *avahasita, apahasita* e *atihasita.*\n\nQuando alguém está sorrindo, mas seus dentes não estão visíveis, pode-se marcar distintamente uma mudança definida nos olhos e nas bochechas. Isso se chama sorriso *smita.* Certa vez, quando Kṛṣṇa estava roubando iogurte, Jaratī, a governanta da casa, pôde detectar Suas atividades e, por isso, vinha muito apressadamente para apanhá-Lo. Naquele momento, Kṛṣṇa ficou com muito medo de Jaratī e foi até Seu irmão mais velho, Baladeva. Ele disse: \"Meu querido irmão, eu roubei iogurte! Veja só — Jaratī vem apressadamente para Me apanhar!\" Quando Kṛṣṇa procurava assim o abrigo de Baladeva por estar sendo perseguido por Jaratī, todos os grandes sábios nos planetas celestiais começaram a sorrir. Esse sorriso chama-se sorriso *smita.*\n\nO sorriso em que os dentes ficam ligeiramente visíveis chama-se sorriso *hasita.* Certo dia, Abhimanyu, o suposto marido de Rādhārāṇī, estava voltando para casa e, naquele momento, não pôde ver que Kṛṣṇa estava ali em sua casa. Kṛṣṇa imediatamente mudou de roupa para parecer exatamente como Abhimanyu e aproximou-se da mãe de Abhimanyu, Jaṭilā, dirigindo-se a ela assim: \"Minha querida mãe, eu sou teu verdadeiro filho Abhimanyu, mas veja só — Kṛṣṇa, vestido como eu, está vindo diante de ti!\" Jaṭilā, a mãe de Abhimanyu, imediatamente acreditou que Kṛṣṇa era seu próprio filho e, assim, ficou muito irritada com seu verdadeiro filho que vinha para casa. Ela começou a enxotar seu verdadeiro filho, que gritava: \"Mãe! Mãe! O que estás fazendo?\" Vendo esse incidente, todas as amigas de Rādhārāṇī que ali estavam presentes começaram a sorrir, e uma parte de seus dentes ficou visível. Este é um exemplo de sorriso *hasita.*\n\nQuando os dentes ficam distintamente visíveis num sorriso, isso se chama *vihasita.* Certo dia, quando Kṛṣṇa estava ocupado em roubar manteiga e iogurte na casa de Jaṭilā, Ele garantiu a Seus amigos: \"Meus queridos amigos, sei que esta velha senhora está agora dormindo muito profundamente, pois está respirando muito fundo. Roubemos silenciosamente a manteiga e o iogurte, sem causar qualquer perturbação.\" Mas a velha senhora, Jaṭilā, não estava dormindo; assim, ela não pôde conter o sorriso, e seus dentes imediatamente ficaram distintamente visíveis. Este é um exemplo de sorriso *vihasita.*\n\nNum estado de sorriso, quando o nariz fica inflado e os olhos se franzem, o sorriso chama-se *avahasita.* Certa vez, de manhã cedo, quando Kṛṣṇa voltava para casa após realizar Sua dança *rāsa,* mãe Yaśodā olhou para o rosto de Kṛṣṇa e dirigiu-se a Ele assim: \"Meu querido filho, por que Teus olhos parecem que foram untados com alguns óxidos? Vestiste-Te com as roupas azuis de Baladeva?\" Quando mãe Yaśodā se dirigia a Kṛṣṇa dessa maneira, uma amiga que estava por perto começou a sorrir com o nariz inflado e os olhos franzidos. Este é um exemplo de sorriso *avahasita.* A *gopī* sabia que Kṛṣṇa estivera desfrutando da dança *rāsa* e que mãe Yaśodā não conseguia detectar as atividades de seu filho nem compreender como Ele havia ficado coberto com a maquiagem das *gopīs.* Seu sorriso era do tipo *avahasita.*\n\nQuando às lágrimas dos olhos se acrescenta o sorriso e os ombros tremem, o sorriso chama-se *apahasita.* Quando a criança Kṛṣṇa dançava em resposta ao canto da velha criada Jaratī, Nārada ficou assombrado. A Suprema Personalidade de Deus, que controla todos os movimentos de grandes semideuses como Brahmā e outros, estava agora dançando às indicações de uma velha criada. Vendo essa diversão, Nārada também começou a dançar, e seus ombros tremeram, e seus olhos se moveram. Devido a seu sorriso, seus dentes também ficaram visíveis e, em razão da refulgência ofuscante de seus dentes, as nuvens nos céus tornaram-se prateadas.\n\nQuando uma pessoa sorridente bate palmas e salta no ar, a expressão de sorriso muda para *atihasita,* ou riso avassalador. Um exemplo de *atihasita* manifestou-se no seguinte incidente: Kṛṣṇa certa vez dirigiu-se a Jaratī assim: \"Minha querida boa mulher, a pele de teu rosto está agora frouxa, de modo que teu rosto se assemelha exatamente ao de um macaco. Por isso, o Rei dos macacos, Balīmukha, escolheu-te como sua digna esposa.\" Enquanto Kṛṣṇa provocava Jaratī dessa maneira, ela respondeu que certamente estava ciente do fato de que o Rei dos macacos tentava desposá-la, mas que ela já havia se abrigado em Kṛṣṇa, o matador de muitos poderosos demônios, e que, por isso, já havia decidido casar-se com Kṛṣṇa em vez do Rei dos macacos. Ao ouvir essa réplica sarcástica da tagarela Jaratī, todas as vaqueirinhas ali presentes começaram a rir muito alto e a bater palmas. Esse riso, acompanhado das palmas, chama-se *atihasita.*\n\nÀs vezes há comentários sarcásticos indiretos que também criam circunstâncias de *atihasita.* Um exemplo de tal comentário foi feito por uma das vaqueirinhas a Kuṭilā, a filha de Jaṭilā e irmã de Abhimanyu, o suposto marido de Rādhārāṇī. Indiretamente, Kuṭilā foi insultada com a seguinte afirmação: \"Minha querida Kuṭilā, filha de Jaṭilā, teus seios são tão compridos quanto vagens — simplesmente secos e compridos. Teu nariz é tão deslumbrante que desafia a beleza dos narizes das rãs. E teus olhos são mais belos do que os olhos dos cães. Teus lábios desafiam as brasas flamejantes do fogo, e teu abdômen é tão belo quanto um grande tambor. Por isso, minha querida e bela Kuṭilā, tu és a mais bela de todas as vaqueirinhas de Vṛndāvana e, em razão de tua extraordinária beleza, penso que deves estar além da atração do doce soprar da flauta de Kṛṣṇa!\""}
{"ref": "nod/46", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/46/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "46. Espanto e Cavalheirismo", "purport": "O êxtase de espanto no serviço devocional é percebido de duas maneiras: diretamente, pela experiência dos próprios olhos, e indiretamente, ao se ouvir dos outros.\n\n\n\nQuando Nārada veio ver as atividades do Senhor em Dvārakā e viu que Kṛṣṇa estava presente em cada palácio no mesmo corpo e estava ocupado em diferentes atividades, ele ficou tomado de assombro. Esse é um dos exemplos de espanto no serviço devocional por percepção direta. Uma das amigas de Mãe Yaśodā diz: \"Yaśodā, veja só a diversão! De um lado, está teu filho que está sempre cativado por sugar o leite de teu seio e, de outro lado, está a grande Colina Govardhana, que pode obstruir a passagem das nuvens. Mas, ainda assim, veja como é maravilhoso que essa grande Colina Govardhana esteja repousando sobre o dedo da mão esquerda de teu filho, exatamente como se fosse um brinquedo. Isso não é muito misterioso?\" Essa declaração é outro exemplo de espanto no serviço devocional por percepção direta.\n\n\n\nUma ocorrência de espanto no serviço devocional por percepção indireta deu-se quando Mahārāj Parīkṣit ouviu de Śukadeva Gosvāmī sobre Kṛṣṇa matando Narakāsura, que estava lutando contra Kṛṣṇa com onze divisões de soldados akṣauhiṇī. Cada divisão de soldados akṣauhiṇī continha vários milhares de elefantes, vários milhares de cavalos e quadrigas, e várias centenas de milhares de soldados de infantaria. Narakāsura possuía onze tais divisões, e todas elas lançavam flechas em Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa matou-as todas, simplesmente lançando três flechas de Seu lado. Quando Mahārāj Parīkṣit ouviu sobre essa maravilhosa vitória, ele imediatamente enxugou as lágrimas dos olhos e ficou tomado de alegria. Esse exemplo é uma ocorrência de espanto no serviço devocional por percepção indireta, mediante recepção auditiva.\n\n\n\nHá outro exemplo de espanto indireto. Tentando testar Kṛṣṇa para ver se Ele era realmente a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Brahmā roubou-Lhe todos os meninos vaqueiros e vacas. Mas, após alguns segundos, ele viu que Kṛṣṇa ainda estava presente com todas as vacas, bezerros e meninos vaqueiros, exatamente da mesma maneira que antes. Quando o Senhor Brahmā descreveu esse incidente a seus associados no planeta Satya-loka, todos eles ficaram espantados. Brahmā disse-lhes que, após levar embora todos os meninos, ele viu Kṛṣṇa novamente brincando com os mesmos meninos da mesma forma. Sua tez corpórea era enegrecida, quase como a de Kṛṣṇa, e todos eles tinham quatro braços. Os mesmos bezerros e vacas ainda estavam presentes ali, da mesma forma original. Mesmo enquanto descrevia esse incidente, Brahmā ficou quase tomado. \"E a coisa mais espantosa\", acrescentou ele, \"foi que muitos outros Brahmās de muitos universos diferentes também tinham vindo ali para adorar Kṛṣṇa e Seus associados.\"\n\n\n\nDe modo semelhante, quando houve um incêndio florestal em Bhāṇḍīravana, Kṛṣṇa instruiu Seus amigos a fechar os olhos com firmeza, e todos eles fizeram isso. Então, quando Kṛṣṇa havia extinguido o fogo, os meninos vaqueiros abriram os olhos e viram que haviam sido aliviados do perigo e que suas vacas e bezerros estavam todos a salvo. Eles começaram a perceber a maravilha da situação simplesmente conjecturando como Kṛṣṇa os havia salvado. Esse é outro exemplo de percepção indireta causando espanto no serviço devocional.\n\n\n\nAs atividades de uma pessoa, mesmo que não sejam muito extraordinárias, criam uma impressão de maravilha no coração e na mente dos amigos dessa pessoa. Mas mesmo atividades muito maravilhosas realizadas por uma pessoa que não seja amiga não criarão impressão alguma. É por causa do amor que as atividades maravilhosas de alguém criam uma impressão na mente.\n\n\n\nQuando, em razão do amor e do serviço devocional pelo Senhor, há especial e valoroso entusiasmo, as atividades resultantes chamam-se cavalheirescas. Essas atividades cavalheirescas podem se manifestar nos atos de luta simulada, em dar em caridade, em mostrar misericórdia e em executar princípios religiosos. Ao realizar atividades cavalheirescas em luta, chama-se yuddha-vīra. Por atividades caritativas, chama-se dāna-vīra. Por mostrar misericórdia extraordinária, chama-se dayā-vīra. E quando se é munificente em executar rituais religiosos, chama-se dharma-vīra. Em todas essas diferentes atividades cavalheirescas, Kṛṣṇa é o objeto.\n\n\n\nQuando um amigo deseja satisfazer Kṛṣṇa realizando alguma atividade cavalheiresca, o amigo torna-se o desafiante, e o próprio Kṛṣṇa torna-se o oponente; ou então Kṛṣṇa pode assistir à luta, e por Seu desejo outro amigo torna-se o oponente. Um amigo certa vez desafiou Kṛṣṇa assim: \"Meu querido Mādhava, Tu estás muito inquieto porque pensas que ninguém pode Te derrotar. Mas se Tu não fugires daqui, então te mostrarei como posso Te derrotar. E meus amigos ficarão muito satisfeitos em ver isso!\"\n\n\n\nKṛṣṇa e Śrīdāmā eram amigos muito íntimos, mas Śrīdāmā, por raiva com Kṛṣṇa, O desafiou. Quando ambos começaram a lutar, todos os amigos na margem do Yamunā desfrutaram da maravilhosa luta dos dois amigos. Eles prepararam algumas flechas para a luta simulada, e Kṛṣṇa começou a lançar Suas flechas em Śrīdāmā. Śrīdāmā começou a bloquear essas flechas girando seu bastão, e pelas atividades cavalheirescas de Śrīdāmā, Kṛṣṇa ficou muito satisfeito. Tal luta simulada geralmente ocorre entre pessoas cavalheirescas e cria maravilhosa excitação para todos os espectadores.\n\n\n\nHá uma declaração no Hari-vaṁśa de que, às vezes, Arjuna e Kṛṣṇa lutavam na presença de Kuntī, e Arjuna era derrotado por Kṛṣṇa.\n\n\n\nEm tal luta cavalheiresca entre amigos, há, às vezes, jactância, autocomplacência, orgulho, poder, tomada de armas, desafio e atitude de oponente. Todos esses sintomas tornam-se estímulos para o serviço devocional cavalheiresco.\n\n\n\nUm amigo desafiou Kṛṣṇa assim: \"Meu querido amigo Dāmodara, Tu és perito apenas em comer. Tu derrotaste Subala somente porque ele é fraco e adotaste meios trapaceiros. Não Te anuncies como um grande lutador por tal ação. Tu Te anunciaste como uma serpente, e eu sou o pavão que agora Te derrotará.\" O pavão é o mais hábil inimigo da serpente.\n\n\n\nEm tal luta entre amigos, quando a autopromoção se torna pessoal, eruditos dizem que é subêxtase. Quando há um rugido de desafio, certos tipos de movimentos de luta, entusiasmo, ausência de armas e garantia dada a testemunhas amedrontadas — todas essas atividades cavalheirescas chamam-se subêxtase.\n\n\n\nUm amigo dirigiu-se a Kṛṣṇa desta maneira: \"Meu querido Madhusūdana, Tu conheces minha força, mas estás encorajando Bhadrasena, e não a mim, a desafiar o poderoso Baladeva. Por essa ação, estás simplesmente me insultando, pois meus braços são tão fortes quanto as trancas do portão!\"\n\n\n\nUm devoto disse certa vez: \"Meu querido Senhor Kṛṣṇa, que Teu desafiante, Śrīdāmā, torne-se glorioso por suas atividades cavalheirescas, tais como vibrar como uma nuvem de trovão e rugir como um leão. Que todas as glórias vão para as atividades cavalheirescas de Śrīdāmā!\" Atividades cavalheirescas em matéria de luta, caridade, misericórdia e execução de rituais religiosos chamam-se constitucionais; ao passo que expressões de orgulho, emoções, resistência, gentileza, determinação, júbilo, entusiasmo, ciúme e lembrança chamam-se não constitucionais. Quando Stokakṛṣṇa, um dos muitos amigos de Kṛṣṇa, estava lutando com Ele, seu pai o repreendeu por lutar com Kṛṣṇa, que era a vida e a alma de todos os residentes de Vṛndāvana. Ao ouvir essas repreensões, Stokakṛṣṇa parou sua luta. Mas Kṛṣṇa continuou a desafiá-lo, e assim, a fim de aceitar o desafio, Stokakṛṣṇa pegou seu bastão e começou a exibir sua destreza girando-o.\n\n\n\nCerta vez, Śrīdāmā desafiou Bhadrasena e disse-lhe: \"Meu querido amigo, ainda não precisas ter medo de mim. Primeiro de tudo, derrotarei nosso irmão Balarāma, depois espancarei Kṛṣṇa, e então virei até ti.\" Bhadrasena, por isso, deixou o partido de Balarāma e juntou-se a Kṛṣṇa, e agitou seus amigos tanto quanto a Colina Mandara havia agitado o oceano inteiro. Por seus sons retumbantes, ensurdeceu todos os seus amigos, e entusiasmou Kṛṣṇa com suas atividades cavalheirescas.\n\n\n\nCerta vez, Kṛṣṇa desafiou todos os Seus amigos e disse: \"Meus queridos amigos, vede só — Eu estou saltando com grande proeza cavalheiresca. Por favor, não fujam.\" Ao ouvir essas palavras de desafio, um amigo chamado Varūthapa contradesafiou o Senhor e lutou contra Ele.\n\n\n\nUm dos amigos certa vez observou: \"Sudāmā está tentando o melhor que pode para ver Dāmodara derrotado, e penso que, se nosso poderoso Subala se juntar a ele, eles formarão uma combinação muito bela, como uma valiosa joia adornada com ouro.\"\n\n\n\nNessas atividades cavalheirescas, apenas os amigos de Kṛṣṇa podem ser os oponentes. Os inimigos de Kṛṣṇa nunca podem, de fato, ser Seus oponentes. Por essa razão, esse desafio pelos amigos de Kṛṣṇa chama-se serviço devocional em atividades cavalheirescas.\n\n\n\nDāna-vīra, ou cavalheirismo em dar caridade, pode ser dividido em duas partes: munificência e renúncia. Uma pessoa que pode sacrificar tudo pela satisfação de Kṛṣṇa chama-se munificente. Quando uma pessoa deseja fazer um sacrifício por causa de ver Kṛṣṇa, Kṛṣṇa é chamado o estímulo da atividade munificente. Quando Kṛṣṇa adveio como o filho de Nanda Mahārāj, em clara consciência Nanda Mahārāj desejou toda auspiciosidade para seu filho e, assim, começou a dar em caridade valiosas vacas a todos os brāhmaṇas. Os brāhmaṇas ficaram tão satisfeitos com essa ação caritativa que se sentiram obrigados a dizer que a caridade de Nanda Mahārāj havia superado a caridade de reis passados, tais como Mahārāj Pṛthu e Nṛga.\n\n\n\nQuando uma pessoa conhece completamente as glórias do Senhor e está preparada para sacrificar tudo pelo Senhor, ela é chamada sampradānaka, ou aquele que dá tudo em caridade por amor a Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando Mahārāj Yudhiṣṭhira foi com Kṛṣṇa à arena do sacrifício rāja-sūya, em sua imaginação ele começou a ungir o corpo de Kṛṣṇa com polpa de sândalo, decorou-O com uma guirlanda pendente até Seus joelhos, começou a dar-Lhe roupas todas bordadas com ouro, deu-Lhe ornamentos todos adornados com valiosas joias, e deu-Lhe muitos elefantes, quadrigas e cavalos completamente decorados. Ele desejou ainda dar a Kṛṣṇa em caridade seu reino, sua família e também sua própria pessoa. Após tanto desejar, quando não havia nada de fato para dar em caridade, Mahārāj Yudhiṣṭhira ficou muito perturbado e ansioso.\n\n\n\nDe modo semelhante, Mahārāj Bali certa vez disse a seu sacerdote, Śukrācārya: \"Meu querido sábio, és plenamente perito em conhecimento dos *Vedas* e, como tal, adoras a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, mediante rituais Védicos. No que se refere a este anão brāhmaṇa [a encarnação Vāmanadeva], se Ele é o Senhor Viṣṇu, um simples brāhmaṇa, ou mesmo meu inimigo, decidi dar-Lhe em caridade toda a terra que Ele pediu.\" Mahārāj Bali foi tão afortunado que o Senhor estendeu diante dele Sua mão, que estava avermelhada por tocar o seio da deusa da fortuna, que está sempre untada com pó vermelho de kuṅkum. Em outras palavras, embora a Personalidade de Deus seja tão grande que a deusa da fortuna esteja sempre sob Seu comando para desfrute, Ele ainda assim estendeu Suas mãos para receber caridade de Mahārāj Bali.\n\n\n\nUma pessoa que quer dar tudo em caridade a Kṛṣṇa, mas não quer nada em troca, é considerada o verdadeiro renunciante. Assim, um devoto se recusará a aceitar qualquer tipo de liberação, mesmo que ela seja oferecida pelo Senhor. O verdadeiro amor por Kṛṣṇa torna-se manifesto quando Kṛṣṇa se torna o receptor da caridade e o devoto se torna o doador.\n\n\n\nNo Hari-bhakti-sudhadaya, há outro exemplo, apresentado por Mahārāj Dhruva. Ele diz ali: \"Meu querido Senhor, pratiquei austeridades e penitências porque desejava receber algo de Ti, mas em troca Tu me permitiste ver-Te, que nunca és visível nem mesmo aos grandes sábios e pessoas santas. Eu estive buscando alguns pedaços de vidro quebrado, mas, em vez disso, encontrei a joia mais valiosa. Por isso, estou plenamente satisfeito, meu Senhor. Não desejo pedir mais nada a Tua Senhoria.\"\n\n\n\nUma declaração semelhante encontra-se no Terceiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, Capítulo 15, verso 48. Os quatro sábios encabeçados por Sanaka Muni dirigiram-se ao Senhor da seguinte maneira: \"Querida Suprema Personalidade de Deus, Tua reputação é muito atraente e livre de toda contaminação material. Por isso, és digno de ser glorificado e és de fato o reservatório de todos os lugares de peregrinação. As pessoas auspiciosas que são afortunadas o bastante para ocupar-se em glorificar Teus atributos e que de fato sabem qual é Tua posição transcendental não se importam nem mesmo em aceitar a liberação oferecida por Ti. Porque estão tão transcendentalmente enriquecidas, não se importam em aceitar nem mesmo o posto de Indra, o rei celestial. Elas sabem que o posto de rei do céu também é amedrontador, ao passo que para aqueles que estão ocupados em glorificar Tuas qualidades transcendentais há apenas alegria e liberdade de todo o perigo. Sendo assim, por que pessoas com esse conhecimento se sentiriam atraídas por um posto no reino celestial?\"\n\n\n\nUm devoto descreveu seus sentimentos sobre a caridade exibida pelo rei Mayūradhvaja: \"Eu vacilo até mesmo em falar das atividades de Mahārāj Mayūradhvaja, a quem ofereço minhas respeitosas reverências.\" Mayūradhvaja era muito inteligente, e pôde entender por que Kṛṣṇa veio até ele uma vez, no traje de um brāhmaṇa. Kṛṣṇa exigiu dele metade de seu corpo, para ser serrada por sua esposa e filho, e o rei Mayūradhvaja concordou com essa proposta. Por causa de seu intenso sentimento de serviço devocional, o rei Mayūradhvaja estava sempre pensando em Kṛṣṇa, e quando ele compreendeu que Kṛṣṇa havia vindo no traje de um brāhmaṇa, ele não hesitou em separar-se de metade de seu corpo. Esse sacrifício de Mahārāj Mayūradhvaja por causa de Kṛṣṇa é único no mundo, e devemos oferecer-lhe nossas todo-respeitosas reverências. Ele tinha pleno conhecimento da Suprema Personalidade de Deus no traje de um brāhmaṇa, e é conhecido como o perfeito dāna-vīra, ou renunciante.\n\n\n\nQualquer pessoa que esteja sempre pronta a satisfazer Kṛṣṇa e que seja sempre destra na execução do serviço devocional chama-se dharma-vīra, ou cavalheiresco na execução de rituais religiosos. Só os devotos avançados que executam representações ritualísticas religiosas podem alcançar esse estágio de dharma-vīra. Os dharma-vīras são produzidos depois de passar pelas escrituras autoritativas, de seguir princípios morais, de serem fiéis e tolerantes e de controlarem os sentidos. As pessoas que executam rituais religiosos para a satisfação de Kṛṣṇa são estáveis no serviço devocional, ao passo que as pessoas que executam rituais religiosos sem a intenção de agradar a Kṛṣṇa são chamadas apenas de piedosas.\n\n\n\nO melhor exemplo de um dharma-vīra é Mahārāj Yudhiṣṭhira. Um devoto certa vez disse a Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, ó matador de todos os demônios, Mahārāj Yudhiṣṭhira, o filho mais velho de Mahārāj Pāṇḍu, realizou todos os tipos de sacrifícios apenas para Te agradar. Ele sempre convidou o rei celestial, Indra, para participar dos yajñas [sacrifícios]. Porque o rei Indra ficava assim ausente tantas vezes de Śacīdevī, ela teve de passar muito de seu tempo definhando pela ausência de Indra, com as faces sobre as mãos.\"\n\n\n\nA realização de diferentes yajñas para os semideuses é considerada adoração aos membros do Senhor Supremo. Os semideuses são considerados diferentes partes do corpo universal do Senhor e, por isso, o propósito último em adorá-los é agradar ao Senhor pela adoração parcial de Seus diferentes membros. Mahārāj Yudhiṣṭhira não tinha tal desejo material; ele executou todos os sacrifícios sob a direção de Kṛṣṇa, e não para tirar deles qualquer vantagem pessoal. Ele apenas desejava agradar a Kṛṣṇa e, por isso, era chamado o melhor dos devotos. Ele estava sempre imerso no oceano do serviço amoroso."}
{"ref": "nod/47", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/47/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "47. Compaixão e Ira", "purport": "## A Compaixão\n\nQuando o êxtase do serviço devocional produz algum tipo de lamentação em relação a Kṛṣṇa, isso se chama serviço devocional em compaixão. O impulso desse serviço devocional é a qualidade, a forma e as atividades transcendentais de Kṛṣṇa. Nesse êxtase do serviço devocional, há às vezes sintomas como pesar, respiração ofegante, choro, cair no chão e bater no próprio peito. Às vezes, sintomas como preguiça, frustração, difamação, humildade, ansiedade, mau humor, ardor, inquietação, loucura, morte, esquecimento, doença e ilusão também são visíveis. Quando, no coração de um devoto, há a expectativa de algum infortúnio para Kṛṣṇa, isso se chama serviço devocional em desolação. Tal desolação é outro sintoma desse serviço devocional em compaixão.\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam,* Décimo Canto, Capítulo Dezesseis, verso 13, há a seguinte descrição. Quando Kṛṣṇa castigava o Kāliyanāga no Yamunā, a grande serpente enroscou seus anéis por todo o corpo de Kṛṣṇa e, ao verem Kṛṣṇa nessa situação, todos os Seus queridos amigos vaqueiros ficaram grandemente perturbados. Por desolação, aflição e temor, ficaram confusos e começaram a cair no chão. Como os vaqueirinhos estavam sob a ilusão de que Kṛṣṇa pudesse estar em algum infortúnio, seus sintomas não são de modo algum assombrosos; eles haviam dedicado sua amizade, suas posses, seus desejos e seus próprios eus a Kṛṣṇa.\n\nQuando Kṛṣṇa entrou no rio Yamunā, que havia ficado muito venenoso por causa da presença de Kāliya, mãe Yaśodā temeu todo tipo de infortúnio e respirava ardentemente. As lágrimas de seus olhos encharcavam suas roupas, e ela estava quase desfalecendo.\n\nDe modo semelhante, quando o demônio Śaṅkhāsura atacava as rainhas de Kṛṣṇa uma após outra, o Senhor Baladeva ficava cada vez mais azulado.\n\nNo *Haṁsadūta,* descreve-se o seguinte incidente: As *gopīs* pediram a Haṁsadūta que procurasse as marcas dos pés de lótus de Kṛṣṇa e que as aceitasse, assim como o Senhor Brahmā as havia aceitado em seu elmo, depois de ter roubado todos os vaqueirinhos de Kṛṣṇa. Lamentando seu desafio a Kṛṣṇa, o Senhor Brahmā havia se prostrado diante do Senhor, e seu elmo ficou marcado com as pegadas de Kṛṣṇa. As *gopīs* lembraram a Haṁsadūta que, às vezes, até mesmo o grande sábio Nārada fica muito extático ao ver essas pegadas, e que, às vezes, grandes sábios liberados também aspiram a vê-las. \"Por isso, deves buscar com muito entusiasmo encontrar as pegadas de Kṛṣṇa\", instaram elas. Este é outro exemplo de serviço devocional em compaixão.\n\nHá um exemplo em que Sahadeva, o irmão mais novo de Nakula, ficou grandemente exultante ao ver o brilho refulgente das pegadas de Kṛṣṇa. Ele começou a chorar e a exclamar: \"Mãe Mādrī! Onde estás agora? Pai Pāṇḍu! Onde estás agora? Lamento muito que não estejais aqui para ver estas pegadas de Kṛṣṇa!\" Este é outro exemplo de serviço devocional em compaixão.\n\nEm tal serviço devocional em compaixão, há às vezes sintomas de sorriso, mas nunca há qualquer aflição ou lamentação. O princípio básico dessa compaixão é sempre o amor extático. A apreensão de algum infortúnio para Kṛṣṇa ou para Suas amadas rainhas, conforme manifestada por Baladeva e Yudhiṣṭhira, foi explicada acima. Essa apreensão não se deve exatamente à ignorância deles quanto às inconcebíveis potências de Kṛṣṇa, mas ao seu intenso amor por Ele. Esse tipo de apreensão de algum infortúnio para Kṛṣṇa primeiramente se manifesta como objeto de lamentação, mas gradualmente se desenvolve em tão compassivo êxtase amoroso que se transforma em outro canal e proporciona prazer transcendental.\n\n## A Ira\n\nNo serviço amoroso extático a Kṛṣṇa na ira, Kṛṣṇa é sempre o objeto. No *Vidagdha-mādhava,* Segundo Canto, verso 53, Lalitā-gopī expressou sua ira, que foi causada por Kṛṣṇa, quando se dirigiu a Śrīmatī Rādhārāṇī assim: \"Minha querida amiga, meus desejos íntimos foram poluídos. Por isso, irei ao reino de Yamarāja. Mas lamento ver que Kṛṣṇa ainda não abandonou Seu sorriso por enganar-Te. Não sei como pudeste depositar todas as Tuas propensões amorosas nesse luxurioso rapaz da vizinhança dos vaqueiros.\"\n\nApós ver Kṛṣṇa, Jaratī às vezes dizia: \"Ó Tu, ladrão das propriedades das jovens! Posso ver distintamente a roupa que cobre minha nora sobre Tua pessoa.\" Então ela chorava muito alto, dirigindo-se a todos os residentes de Vṛndāvana para informá-los de que esse filho do Rei Nanda estava ateando fogo à vida doméstica de sua nora.\n\nAmor extático semelhante por Kṛṣṇa na ira foi expresso por Rohiṇī-devī quando ela ouviu o estrondo das duas árvores *arjuna* que caíam, às quais Kṛṣṇa havia sido amarrado. Toda a vizinhança seguiu imediatamente em direção ao local onde o acidente ocorreu, e Rohiṇī-devī aproveitou a oportunidade para repreender mãe Yaśodā da seguinte forma: \"Tu podes ser muito perita em dar lições a teu filho amarrando-O com corda, mas não olhas para ver se teu filho está num lugar perigoso? As árvores estão caindo no chão, e Ele está simplesmente vagueando por ali!\" Essa expressão da ira de Rohiṇī-devī para com Yaśodā é um exemplo de amor extático na ira causada por Kṛṣṇa.\n\nCerta vez, enquanto Kṛṣṇa estava no pasto com Seus vaqueirinhos, Seus amigos pediram-Lhe que fosse à floresta Tālavana, onde residia Gardabhāsura, um demônio perturbador na forma de um asno. Os amigos de Kṛṣṇa queriam comer o fruto das árvores da floresta, mas não podiam ir por medo do demônio. Assim, pediram a Kṛṣṇa que fosse até lá e matasse Gardabhāsura. Depois que Kṛṣṇa fez isso, todos voltaram para casa, e seu relato das atividades do dia perturbou mãe Yaśodā, pois Kṛṣṇa havia sido enviado sozinho a tamanho perigo na floresta Tālavana. Assim, ela olhou para os meninos com ira.\n\nHá outro exemplo de ira por parte de uma amiga de Rādhārāṇī. Quando Rādhārāṇī estava insatisfeita com o comportamento de Kṛṣṇa e havia parado de falar com Ele, Kṛṣṇa ficou muito pesaroso pela grande insatisfação de Rādhārāṇī e, para implorar perdão, prostrou-Se a Seus pés de lótus. Mas, mesmo depois disso, Rādhārāṇī não ficou satisfeita, e Ela não falava com Kṛṣṇa. Naquele momento, uma de Suas amigas castigou-A com as seguintes palavras: \"Minha querida amiga, Tu estás permitindo que sejas agitada pela vara da insatisfação, então o que posso dizer-Te? O único conselho que posso dar-Te é que seria melhor abandonares esta cena imediatamente, pois Teu mau comportamento está me causando dor demais. Não suporto ver Teu comportamento, pois, embora a pena de pavão de Kṛṣṇa tenha tocado Teus pés, Tu ainda pareces estar de rosto vermelho.\"\n\nAs atitudes acima, de insatisfação e ira no serviço devocional, chamam-se *īrṣyu.*\n\nQuando Uddhava estava partindo de Vṛndāvana, algumas das *gopīs* de mais idade repreenderam-no da seguinte forma: \"Ó filho de Gāndinī, tua crueldade está difamando a dinastia do Rei Yadu. Estás levando Kṛṣṇa embora, mantendo-nos em tão lastimável condição sem Ele. Agora, mesmo antes de partires, o ar vital de todas as *gopīs* praticamente desapareceu.\"\n\nQuando Kṛṣṇa foi insultado por Śiśupāla na assembleia do *yajña* rāja-sūya convocado por Mahārāj Yudhiṣṭhira, houve um grande tumulto entre os Pāṇḍavas e os Kurus, envolvendo o avô Bhīṣma. Naquele momento, Nakula disse com grande ira: \"Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e as unhas dos dedos de Seus pés são embelezadas pela luz que emana dos elmos enjoiados das autoridades dos *Vedas.* Se Ele for ridicularizado por quem quer que seja, declaro aqui, como um Pāṇḍava, que chutarei o elmo desse alguém com meu pé esquerdo, e o golpearei com minhas flechas, que são tão boas quanto o *Yamadaṇḍa,* o cetro de Yamarāja!\" Este é um exemplo de amor extático por Kṛṣṇa na ira.\n\nEm tal estado de ira transcendental, às vezes se manifestam comentários sarcásticos, olhares desfavoráveis e palavras insultuosas. Às vezes há outros sintomas, como esfregar as duas mãos, ranger os dentes, cerrar os lábios, mover as sobrancelhas, coçar os braços, abaixar a cabeça, respirar rapidamente, proferir palavras fortes, acenar com a cabeça, exibir amarelidão no canto dos olhos e exibir lábios trêmulos. Às vezes os olhos ficam vermelhos, e às vezes empalidecem. E há, às vezes, castigo e silêncio. Todos esses sintomas de ira podem dividir-se em duas partes: constitucionais e não constitucionais, ou sintomas permanentes e temporários. Às vezes, grande emoção, confusão, orgulho, frustração, ilusão, impotência, ciúme, destreza, negligência e sinais de árduo labor também se manifestam como sintomas não constitucionais.\n\nEm todos esses humores do amor extático, o sentimento de ira é aceito como o fator estável.\n\nQuando Jarāsandha atacou iradamente a cidade de Mathurā, ele olhou para Kṛṣṇa com olhares sarcásticos. Naquele momento, Baladeva pegou Sua arma de arado e fitou Jarāsandha com olhos coloridos.\n\nHá uma afirmação no *Vidagdha-mādhava* na qual Śrīmatī Rādhārāṇī, num estado de ira, dirigiu-se a Sua mãe, Paurṇamāsī, depois que esta havia acusado Rādhārāṇī de ir até Kṛṣṇa. \"Minha querida mãe\", declarou Rādhā, \"o que posso dizer-te? Kṛṣṇa é tão cruel que muitas vezes Me ataca na rua e, se Eu quero gritar bem alto, este menino com uma pena de pavão na cabeça imediatamente cobre Meu rosto, de modo que não posso gritar. E, se Eu quero ir embora da cena porque tenho medo dEle, Ele imediatamente estende Seus braços para bloquear Meu caminho. Se, lastimosamente, Eu Me prostro a Seus pés, então este inimigo do demônio Madhu, num estado de ira, morde Meu rosto! Mãe, tenta apenas compreender Minha situação, e não fiques desnecessariamente irritada coMigo. Em vez disso, por favor, dize-Me como posso salvar-Me desses terríveis ataques de Kṛṣṇa!\"\n\nÀs vezes, entre personalidades contemporâneas, há sinais de êxtase na ira por causa do amor por Kṛṣṇa. Um exemplo de tal ira foi manifestado na disputa entre Jaṭilā e Mukharā. Jaṭilā era a sogra de Rādhārāṇī, e Mukharā era Sua bisavó. Ambas falavam sobre a desnecessária perseguição de Kṛṣṇa a Rādhārāṇī quando Ela caminhava na rua. Jaṭilā disse: \"Tu, Mukharā de rosto cruel! Ao ouvir tuas palavras, sinto meu coração como se estivesse ardendo num fogo!\" E Mukharā respondeu: \"Tu, pecaminosa Jaṭilā, ao ouvir tuas palavras, há uma dor latejante em minha cabeça! Não podes dar nenhuma prova de que Kṛṣṇa atacou Rādhārāṇī, a filha de minha neta Kīrtidā.\"\n\nCerta vez, quando Rādhārāṇī estava tirando o colar que Lhe fora dado por Kṛṣṇa, Jaṭilā, sua sogra, disse a uma amiga: \"Minha querida amiga, veja só o belo colar que Kṛṣṇa presenteou a Rādhārāṇī. Ela agora o segura, mas ainda assim quer dizer-nos que não tem nenhuma ligação com Kṛṣṇa. As atividades dessa moça desonraram toda a nossa família!\"\n\nO ciúme natural de Kṛṣṇa por parte de pessoas como Śiśupāla não pode ser aceito como amor extático na ira com Kṛṣṇa."}
{"ref": "nod/48", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/48/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "48. Temor e Horror", "purport": "No amor extático a Kṛṣṇa em temor, há duas causas de medo: ou o próprio Kṛṣṇa, ou alguma situação temível para Kṛṣṇa. Quando um devoto sente que cometeu uma ofensa aos pés de lótus de Kṛṣṇa, naquele momento o próprio Kṛṣṇa torna-se o objetivo do amor extático temeroso. E, quando, por amor extático, amigos e benquerentes de Kṛṣṇa receiam algum perigo para Ele, essa situação torna-se o objeto de seu temor.\n\n\n\nQuando Ṛkṣarāj estava lutando diante de Kṛṣṇa e subitamente percebeu que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa dirigiu-se a ele assim: \"Meu querido Ṛkṣarāj, por que teu rosto está tão seco? Por favor, não te sintas ameaçado por Mim. Não há necessidade de teu coração tremer assim. Por favor, acalma-te. Não tenho ira para contigo. Podes, contudo, ficar tão irado quanto quiseras coMigo — para expandir teu serviço ao lutar coMigo e para aumentar Minha disposição esportiva.\" Nesta situação temível no amor extático a Kṛṣṇa, o próprio Kṛṣṇa é o objeto do temor.\n\n\n\nHá outro exemplo de situação temível com Kṛṣṇa como objeto, a saber: depois de ter sido suficientemente castigada pela criança Kṛṣṇa no rio Yamunā, a serpente Kāliya começou a dirigir-se ao Senhor: \"Ó matador do demônio Mura, adquiri muitos poderes místicos por meio de minha austeridade e penitências, mas, diante de Ti, não sou nada, sou o mais insignificante. Por isso, por favor, sê bondoso com uma pobre alma como eu e não fiques irado comigo. Eu não conhecia Tua verdadeira posição e, por ignorância, cometi ofensas tão horríveis. Por favor, salva-me. Sou a mais infeliz e tola das criaturas. Por favor, sê misericordioso comigo.\" Este é outro exemplo do êxtase do temor no serviço devocional.\n\n\n\nQuando o demônio Keśī causava perturbação em Vṛndāvana ao assumir um grande corpo de cavalo, tão enorme que podia saltar por cima das árvores, mãe Yaśodā disse a seu esposo, Nanda Mahārāj: \"Nosso filho é muito irrequieto, de modo que faríamos melhor em mantê-Lo trancado dentro de casa. Tenho estado muito preocupada com as recentes perturbações do demônio Keśī, que vem assumindo a forma de um cavalo gigante.\" Quando se soube que o demônio estava entrando em Gokula numa disposição irada, mãe Yaśodā ficou tão ansiosa por proteger seu filho que seu rosto secou e havia lágrimas em seus olhos. Estes são alguns dos sinais do êxtase do temor no serviço devocional, causado por ver e ouvir algo que é perigoso para Kṛṣṇa.\n\n\n\nDepois que a bruxa Pūtanā fora morta, algumas amigas de mãe Yaśodā perguntaram-lhe sobre o incidente. Mãe Yaśodā imediatamente pediu a suas amigas: \"Por favor, parem! Por favor, parem! Não tragam à tona o incidente de Pūtanā. Fico aflita só de lembrar deste incidente. A bruxa Pūtanā veio devorar meu filho, e ela me enganou para que eu a deixasse tomar a criança em seu colo. Depois disso, ela morreu e produziu um som tumultuoso com seu corpo gigantesco.\"\n\n\n\nNo êxtase do serviço devocional em temor, os sintomas inconstitucionais são o ressecamento da boca, a exuberância, o olhar para trás, o esconder-se, o desconcerto, a busca pelo objeto amado em perigo e o chorar bem alto. Alguns outros sintomas inconstitucionais são a ilusão, o esquecimento e a expectativa de perigo. Em todas essas circunstâncias, o temor extático é o fator constante. Tal temor é causado ou pelas ofensas cometidas ou por circunstâncias temíveis. As ofensas podem ser cometidas de variadas maneiras, e o temor é sentido pela pessoa que cometeu a ofensa. Quando o temor é causado por um objeto pavoroso, esse objeto pavoroso geralmente é uma pessoa que é temível em suas feições, em sua natureza e em sua influência. Um exemplo de um objeto que causou temor extático é a bruxa Pūtanā. O temor pode ser causado por personagens demoníacos malévolos, como o rei Kaṁsa, e pode ser causado por grandes e poderosos semideuses, como Indra ou Śaṅkara.\n\n\n\nDemônios como Kaṁsa temiam Kṛṣṇa, mas seus sentimentos não podem ser descritos como temor extático no serviço devocional.\n\n\n\n\n\nCompreende-se, a partir de fontes autorizadas, que um apego por Kṛṣṇa decorrente de sentimentos de repugnância apresenta às vezes um êxtase horripilante no serviço devocional. A pessoa que experimenta tal amor extático por Kṛṣṇa está quase sempre no estágio neutro do serviço devocional, ou śānta-rasa. Encontra-se uma descrição do amor extático causado pelo horror na seguinte afirmação: \"Esta pessoa antigamente interessava-se unicamente em assuntos de luxúria e gratificação dos sentidos, e havia aperfeiçoado a maior habilidade em explorar mulheres para satisfazer seus desejos lascivos. Mas, agora, quão maravilhoso é que este mesmo homem esteja cantando os nomes de Kṛṣṇa com lágrimas nos olhos e que, tão logo veja o rosto de uma mulher, imediatamente sinta repugnância. Pela indicação de seu rosto, eu pensaria que agora ele detesta a vida sexual.\"\n\n\n\nNeste doce sabor do serviço devocional em horror, os sintomas subextáticos são cuspir ao considerar a própria vida passada, contorcer o rosto, cobrir o nariz e lavar as mãos. Há também o tremor do corpo, a torção forçada do corpo e a transpiração. Outros sintomas que podem estar presentes são a vergonha, a exaustão, a loucura, a ilusão, a frustração, a humildade, a autocomiseração, a inquietação, a ânsia e o estarrecimento do corpo.\n\n\n\nQuando um devoto, lamentando suas abomináveis atividades passadas, exibe sintomas especiais em seu corpo, seu sentimento chama-se êxtase no serviço devocional em horror. Isto é causado pelo despertar de sua consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA esse respeito, há a seguinte afirmação: \"Como pode uma pessoa sentir prazer no desfrute da vida sexual neste corpo, que é um saco de pele e ossos, cheio de sangue, coberto de pele e carne e que produz muco e maus odores?\" Esta percepção só é possível para alguém que esteja desperto à consciência de Kṛṣṇa e que se tenha tornado plenamente ciente da natureza abominável deste corpo material.\n\n\n\nUma afortunada criança no ventre de sua mãe orou a Kṛṣṇa da seguinte forma: \"Ó inimigo de Kaṁsa, estou sofrendo tanto por causa deste corpo material. Agora estou aprisionado numa mistura de sangue, urina e fezes líquidas, dentro do ventre de minha mãe. Por estar vivendo em tal condição, sofro grandes agonias. Por isso, ó divino oceano de misericórdia, por favor, sê bondoso comigo. Não tenho capacidade de ocupar-me em Teu amoroso serviço devocional, mas, por favor, salva-me!\" Há uma afirmação semelhante feita por uma pessoa caída na condição infernal da vida. Ela dirigiu-se ao Senhor Supremo assim: \"Meu querido Senhor, Yamarāja colocou-me numa situação que é cheia de odores imundos e repugnantes. Há tantos insetos e vermes, cercados pelas fezes deixadas por diferentes tipos de pessoas doentes. E, após visualizar esta cena horrível, meus olhos ficaram inflamados, e estou ficando quase cego. Por isso, oro, ó meu Senhor, ó libertador das condições infernais da vida. Caí neste inferno, mas tentarei lembrar-me sempre de Teu santo nome e, dessa maneira, tentarei manter unidos meu corpo e minha alma.\" Este é outro exemplo de amor extático a Kṛṣṇa numa situação abominável.\n\n\n\nDeve-se compreender que qualquer pessoa que esteja constantemente ocupada em cantar os santos nomes do Senhor — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare / Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare — alcançou uma afeição transcendental por Kṛṣṇa e, como tal, em qualquer condição de vida, permanece satisfeita simplesmente por lembrar-se do nome do Senhor com plena afeição e amor extático.\n\n\n\nEm conclusão, pode-se afirmar que o amor extático a Kṛṣṇa em horror aparece durante o desenvolvimento da neutralidade dormente em afeição desenvolvida."}
{"ref": "nod/49", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/49/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "49. A Mistura dos Rasas", "purport": "## A Mistura dos Rasas\n\nComo já se descreveu, há doze diferentes tipos de *rasas,* ou relações extáticas que se compartilham com Kṛṣṇa. Cinco desses *rasas* são diretos, e estão enumerados como neutralidade, servidão, amor fraternal, amor paternal e amor conjugal. Sete dos *rasas* são indiretos, e estão enumerados como humor, assombro, cavalheirismo, compaixão, ira, pavor e horror. Os cinco *rasas* diretos manifestam-se eternamente no mundo de Vaikuṇṭha, o reino espiritual, ao passo que os sete *rasas* indiretos manifestam-se e desmanifestam-se eternamente em Gokula Vṛndāvana, onde Kṛṣṇa exibe Seus passatempos transcendentais no mundo material.\n\nMuito frequentemente, além do *rasa* habitual de cada um, encontra-se a presença de algum outro *rasa,* e a mistura desses humores amorosos às vezes é compatível, ou saborosa, e às vezes é incompatível, ou insípida. Segue-se uma análise científica da compatibilidade e da incompatibilidade das misturas desses vários *rasas,* ou estados de espírito amorosos.\n\nQuando, no *rasa* do amor neutro (*śānta-rasa*), encontram-se traços de horror ou assombro, o resultado é compatível. Quando, com esse amor neutro, há manifestações de amor conjugal, cavalheirismo, ira ou pavor, o resultado é incompatível.\n\nQuando, no êxtase de um humor de serviço, há manifestações de pavor, amor neutro ou cavalheirismo (tais como *dharma-vīra* e *dāna-vīra*), o resultado é compatível. O êxtase do serviço devocional no cavalheirismo (*yuddha-vīra*) e na ira é produzido diretamente pelo próprio Kṛṣṇa.\n\nCom o êxtase do amor fraternal, uma mistura de amor conjugal, riso ou cavalheirismo é altamente compatível. Com esse mesmo amor fraternal, uma mistura de pavor ou amor paternal é totalmente incompatível.\n\nEmbora haja abismos de diferenças entre eles, com o êxtase da afeição paternal, uma mistura de riso, compaixão ou pavor é compatível.\n\nCom o êxtase do amor paternal, uma mistura de amor conjugal, cavalheirismo ou ira é incompatível.\n\nCom o êxtase da devoção no amor conjugal, uma mistura de riso ou fraternidade é compatível.\n\nSegundo certas opiniões de peritos, no êxtase do amor conjugal, os sentimentos de cavalheirismo conhecidos como *yuddha-vīra* e *dharma-vīra* são as únicas adições compatíveis. De acordo com esse ponto de vista, exceto por esses dois humores, todas as outras manifestações são tomadas como incompatíveis com o amor conjugal.\n\nCom o êxtase do riso devocional, uma mistura de pavor, amor conjugal ou amor paternal é compatível, ao passo que uma mistura de compaixão ou horror é incompatível.\n\nCom o êxtase da devoção no assombro, uma mistura de cavalheirismo ou amor neutro é compatível; ao passo que uma mistura de ira ou pavor é sempre incompatível.\n\nCom o êxtase do cavalheirismo devocional, uma mistura de assombro, riso ou servidão é compatível, enquanto uma mistura de pavor ou amor conjugal é incompatível. Segundo algumas opiniões de peritos, o êxtase do amor neutro é sempre compatível com o serviço devocional no cavalheirismo.\n\nCom o êxtase da compaixão no serviço devocional, uma mistura de ira ou amor paternal é compatível; enquanto uma mistura de riso, amor conjugal ou assombro é sempre incompatível.\n\nCom o êxtase da ira no serviço devocional, uma mistura de compaixão ou cavalheirismo é compatível, ao passo que uma mistura de riso, união conjugal ou pavor é completamente incompatível.\n\nCom o êxtase do pavor no serviço devocional, uma mistura de horror ou compaixão é compatível.\n\nCom o êxtase do cavalheirismo no serviço devocional, uma mistura de união conjugal, riso ou ira é sempre incompatível.\n\nNo êxtase do horror no serviço devocional, os sentimentos de amor neutro, riso ou servidão são compatíveis, ao passo que os sentimentos de união conjugal e fraternidade são incompatíveis.\n\nA análise acima é uma amostra do estudo do *rasābhāsa,* ou mistura incompatível de *rasas.* Essa ciência transcendental do *rasābhāsa* pode explicar minuciosamente os humores no amor extático que são compatíveis e incompatíveis entre si. Quando o Senhor Caitanya Mahāprabhu residia em Jagannātha Purī, muitos poetas e devotos costumavam vir até Ele e oferecer seus diferentes tipos de poesia, mas a regra era que o secretário do Senhor Caitanya, Svarūpa Dāmodara, primeiro examinava todos esses escritos com escrutínio e, então, se constatava que não havia incompatibilidades nos *rasas,* ou doçuras transcendentais, permitia que o poeta se aproximasse do Senhor Caitanya e recitasse sua poesia.\n\nO tema da incompatibilidade é muito importante, e aqueles que são devotos puros sempre esperam encontrar perfeita compatibilidade nas descrições das diferentes relações com a Personalidade de Deus. O estudo da compatibilidade e da incompatibilidade às vezes se torna muito complexo, e uma indicação de por que isso é assim apresenta-se da seguinte forma: Quando um amigo se encontra com outro amigo, a doçura produzida desse encontro é geralmente tomada como muito saborosa. Mas, na verdade, em tais encontros entre dois amigos, há tantos sentimentos envolvidos que é difícil determinar quando esses sentimentos estão de fato se tornando compatíveis e quando estão se tornando incompatíveis.\n\nEruditos literários peritos analisaram os *rasas* que são compatíveis entre si contrastando os vários *rasas* de uma determinada mistura sob os nomes \"todo\" e \"parte\". Segundo esse método, o sentimento proeminente chama-se \"todo\", e o sentimento subordinado chama-se \"parte\".\n\nA afirmação a seguir elucida o tema da parte e do todo: \"Todas as entidades vivas são exatamente como faíscas do fogo supremo e, como tais, não sei se eu, uma minúscula faísca, serei capaz de ocupar-me no transcendental serviço amoroso desse fogo supremo, o Senhor Kṛṣṇa.\" Nessa afirmação, os sentimentos de amor neutro são tomados como o todo, ao passo que o desejo de servir o Senhor é tomado como a parte. Na verdade, na refulgência Brahman não há possibilidade de reciprocidade de êxtase amoroso entre o Senhor e o devoto.\n\nHá outra citação, de um devoto que se lamenta da seguinte forma: \"Ai de mim, ainda estou tentando saborear diferentes estados de prazer a partir deste corpo, que é simplesmente alguma pele cobrindo muco, sêmen e sangue. Nesse estado de consciência, sou tão condenado que não consigo saborear o êxtase transcendental de lembrar-me da Suprema Personalidade de Deus.\" Nessa afirmação há dois humores amorosos extáticos, a saber, a neutralidade e o horror. A neutralidade é tomada aqui como o todo, ao passo que o êxtase do horror é a parte.\n\nHá uma afirmação semelhante de um devoto, como segue: \"Começarei agora meu serviço de abanar a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, que está sentado num trono dourado. Ele é o supremo Parambrahma em Sua eterna forma transcendental de compleição escura como uma nuvem. Agora abandonarei minha afeição por meu corpo material, que nada mais é do que um amontoado de carne e sangue.\" Também aqui há uma combinação de servidão e horror, em que o êxtase da servidão é tomado como o todo, e o êxtase do horror é tomado como a parte.\n\nHá outra afirmação, como segue: \"Quando me verei livre do modo da ignorância? E, assim purificado, quando alcançarei a fase de servir Kṛṣṇa eternamente? Somente então serei capaz de adorá-Lo, sempre observando Seus olhos de lótus e Seu belo rosto.\" Nessa afirmação, o todo é o êxtase da neutralidade, e a parte é a servidão.\n\nHá outra afirmação, como segue: \"Por favor, olhe para este devoto do Senhor que está dançando simplesmente por lembrar-se dos pés de lótus de Kṛṣṇa. Apenas por observar sua dança, perderás todo o interesse até mesmo pelas mulheres mais belas!\" Nessa afirmação, o todo está na neutralidade, e a parte está no horror.\n\nUm devoto disse ousadamente: \"Meu querido Senhor, agora estou desviando meu rosto de qualquer pensamento de associação com jovens. No que diz respeito à compreensão do Brahman, perdi todo o interesse, pois estou completamente absorto em pensar em Vós. E, estando tão bem-aventuradamente absorto, perdi todos os outros desejos, até mesmo o desejo por poderes místicos. Agora minha mente está atraída apenas pela adoração de Vossos pés de lótus.\" Nessa afirmação, o todo é o êxtase da neutralidade, e a parte é o cavalheirismo.\n\nEm outra afirmação, dirige-se a Subala assim: \"Meu querido Subala, as donzelas de Vṛndāvana que tiveram a oportunidade de desfrutar dos beijos de Kṛṣṇa devem ser as principais de todas as mulheres afortunadas do mundo.\" Neste exemplo, o êxtase do serviço devocional fraternal é o todo, e o êxtase do amor conjugal é a parte.\n\nA afirmação a seguir foi feita por Kṛṣṇa às *gopīs:* \"Minhas queridas encantadas, não Me fiteis com olhos desejosos dessa maneira. Ficai satisfeitas e voltai para vossos lares em Vṛndāvana. Não há necessidade de vossa presença aqui.\" Enquanto Kṛṣṇa brincava dessa maneira com as donzelas de Braja, que, com grande esperança, haviam vindo desfrutar da dança *rāsa* com Ele, Subala também estava na cena, e começou a olhar para Kṛṣṇa com olhos arregalados e risonhos. O sentimento de Subala continha uma mistura de fraternidade e riso no serviço devocional. A fraternidade é considerada aqui como o todo, e o riso é considerado como a parte.\n\nO exemplo a seguir contém uma mistura de fraternidade extática e riso, tomados respectivamente como o todo e a parte. Quando Kṛṣṇa viu que Subala, com a roupa de Rādhārāṇī, estava silenciosamente escondido sob a sombra de uma bela árvore *aśoka* na margem do Yamunā, imediatamente levantou-Se de Seu assento, surpreso. Ao ver Kṛṣṇa, Subala tentou esconder seu riso cobrindo as bochechas.\n\nHá também um exemplo de uma mistura de amor paternal e compaixão no serviço devocional. Quando mãe Yaśodā pensava que seu filho caminhava pela floresta sem nenhum guarda-chuva ou sapatos, ficava grandemente perturbada ao pensar em quanta dificuldade Kṛṣṇa devia estar sentindo. Neste exemplo, o todo é o amor paternal, e a parte é a compaixão.\n\nHá o seguinte exemplo de uma mistura de amor paternal e riso. Uma amiga de mãe Yaśodā lhe disse: \"Minha querida Yaśodā, teu filho roubou muito astutamente um pedaço de manteiga de minha casa. E, para fazer-me culpar meu próprio filho pela travessura dEle, Ele lambuzou um pouco da manteiga no rosto de meu filho enquanto ele dormia!\" Ao ouvir isso, mãe Yaśodā moveu suas sobrancelhas arqueadas. Ela só pôde olhar para sua amiga com um rosto sorridente. Que mãe Yaśodā abençoe a todos com essa atitude sorridente. Neste exemplo, o todo é o amor paternal, e a parte é o riso.\n\nHá um exemplo de uma mistura de vários humores com o serviço devocional, como segue. Quando Kṛṣṇa erguia a colina Govardhana com Sua mão esquerda, Seus cabelos espalharam-se por todos os Seus ombros, e Ele parecia estar transpirando. Quando mãe Yaśodā viu essa cena, começou a tremer. Então, enquanto fitava a cena com os olhos arregalados, viu Kṛṣṇa começar a exibir variedades de caretas faciais. Mãe Yaśodā então ficou muito feliz e começou a sorrir. E, novamente, quando pensou que Kṛṣṇa erguia a colina por um tempo tão extremamente longo, suas roupas ficaram encharcadas de transpiração. Que mãe Yaśodā Brajeśvarī proteja todo o universo com sua infinita misericórdia! Neste exemplo, o todo é o amor paternal, e a parte é o pavor, o assombro, o riso, a compaixão, etc.\n\nHá um exemplo de uma mistura de amor conjugal e afeição fraternal quando Śrīmatī Rādhārāṇī disse: \"Minhas queridas amigas, vede só como Kṛṣṇa está repousando Sua mão sobre o ombro de Subala, que está vestido exatamente como uma jovem! Penso que Ele deve estar Me enviando alguma mensagem por intermédio de Subala.\" O significado é que os superiores de Rādhārāṇī não gostam que Kṛṣṇa ou Seus amigos vaqueiros se associem com Ela; por isso, esses amigos às vezes se vestem com roupas femininas para poderem dar a Rādhārāṇī uma mensagem de Kṛṣṇa. Neste exemplo, o todo é o amor conjugal, e a parte é a fraternidade.\n\nSegue-se um exemplo de uma mistura de amor conjugal e riso no serviço devocional. Kṛṣṇa, com a roupa de uma jovem, disse a Rādhārāṇī: \"Oh, Tu, moça de coração duro! Não sabes que sou Tua irmã? Por que és incapaz de reconhecer-Me? Sê misericordiosa coMigo e, por favor, captura Meus ombros e abraça-Me com amor!\" Enquanto Kṛṣṇa estava vestido exatamente como Rādhārāṇī, Ele proferia essas belas palavras, e Śrīmatī Rādhārāṇī pôde compreender Seu propósito. Mas, como Ela estava diante de muitos de Seus superiores, simplesmente sorriu e não disse nada. Neste exemplo, o êxtase do amor conjugal é tomado como o todo, e o êxtase do riso é tomado como a parte.\n\nO que se segue ilustra uma mistura de vários sentimentos. Quando uma das amigas consortes de Candrāvalī viu que Kṛṣṇa Se preparava para lutar com o demônio Vṛṣāsura, ela começou a pensar: \"Como Kṛṣṇa é maravilhoso! Sua mente está cativada pelas sobrancelhas de Candrāvalī num espírito sorridente, Seus braços semelhantes a serpentes estão sobre o ombro de Seu amigo e, ao mesmo tempo, Ele ruge como um leão para encorajar Vṛṣāsura a lutar com Ele!\" Este é um exemplo de amor conjugal, fraternidade e cavalheirismo. O amor conjugal é tomado aqui como o todo, e a fraternidade e o cavalheirismo são tomados como as partes.\n\nQuando Kubjā agarrou a roupa amarela de Kṛṣṇa porque estava sentindo um impulso sexual quase luxurioso, Kṛṣṇa simplesmente abaixou a cabeça com as bochechas brilhando diante das muitas pessoas que ali estavam de pé e rindo. Este é um exemplo de uma mistura de amor conjugal extático e riso. O riso é tomado como o todo, e o amor conjugal é tomado como a parte.\n\nViśāla, um vaqueirinho que tentava lutar com Bhadrasena, foi interpelado por outro vaqueirinho da seguinte forma: \"Por que estás tentando mostrar teu espírito cavalheiresco diante de mim? Antes disso, tu até tentaste lutar com Śrīdāmā, mas deves saber que Śrīdāmā nem sequer se importa em lutar com centenas de Balarāmas. Então, por que estás agindo com tanto entusiasmo, quando, na verdade, não tens importância alguma?\" Este é um exemplo de uma mistura de fraternidade devocional e cavalheirismo. O cavalheirismo é tomado como o todo, e a fraternidade é tomada como a parte.\n\nŚiśupāla estava habituado a chamar Kṛṣṇa por nomes ofensivos e, com seus insultos, irritava os filhos de Pāṇḍu mais do que irritava Kṛṣṇa. Os Pāṇḍavas, portanto, equiparam-se com todo tipo de armas para matar Śiśupāla. Seus sentimentos eram uma mistura de ira extática e fraternidade, sendo a ira tomada como o todo, e a fraternidade como a parte.\n\nCerta vez, Kṛṣṇa observava Śrīdāmā usar muito peritamente seu bastão para lutar com Balarāma, que era um perito lutador de maça e que até havia matado o demônio Pralambāsura com Sua maça. Quando Kṛṣṇa viu Balarāma finalmente derrotado por Śrīdāmā, que usava apenas um pequeno bastão, Kṛṣṇa encheu-Se de prazer e começou a olhar para Śrīdāmā com grande assombro. Neste exemplo, há uma mistura de assombro, fraternidade e cavalheirismo no serviço devocional. A fraternidade e o cavalheirismo são considerados como as partes, e o assombro é considerado como o todo.\n\nAnalistas peritos desses vários tipos de doçuras instruem-nos que, quando diferentes doçuras se sobrepõem umas às outras, a doçura que é o todo, ou o humor proeminente, chama-se êxtase permanente. Confirma-se no *Viṣṇu-dharmottara* que, quando há muitas doçuras de êxtase devocional misturadas, a proeminente, ou o todo, chama-se êxtase estável do serviço devocional. Embora a doçura subordinada possa manifestar-se por certo tempo, ao fim ela se fundirá no todo proeminente. Por isso, chama-se êxtase não constitucional do serviço devocional.\n\nHá uma boa analogia nesse sentido, que mostra a relação entre a parte e o todo. O Senhor Vāmanadeva é, na verdade, a Suprema Personalidade de Deus, mas pareceu ter \"nascido\" como um dos irmãos de Indra. Embora Vāmanadeva às vezes seja tomado como um semideus de menor importância, Ele é, na verdade, o mantenedor de Indra, o Rei dos semideuses. Assim, embora às vezes Vāmanadeva seja considerado um semideus subordinado, Sua posição real é a do supremo todo, a fonte de todo o sistema de semideuses. Da mesma forma, um *rasa* que é, na verdade, proeminente pode às vezes parecer manifestar-se de modo subordinado, embora sua posição real seja a de sentimento amoroso principal, ou proeminente, de um devoto.\n\nQuando um êxtase não constitucional do serviço devocional se manifesta proeminentemente em determinado momento, ainda assim é aceito como a parte. Se não se manifesta muito proeminentemente, aparece apenas de leve e rapidamente se funde de novo no todo. Em tais momentos de leve aparição, não se lhe dá nenhuma consideração; assim como, quando alguém come alguns pratos saborosos, se também comer uma pequena folha de capim, não a saboreará nem se importará em distinguir como é seu sabor."}
{"ref": "nod/50", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/50/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "50. Análise Adicional das Doçuras Misturadas", "purport": "## Análise Adicional dos Rasas Misturados\n\nComo já se descreveu, se certos tipos de doçuras se misturam e há a união de doçuras opostas, então a situação é chamada incompatível. Quando alguém come arroz-doce e nele se mistura algo salgado ou azedo, a mistura não é muito saborosa, e é chamada incompatível.\n\nUm exemplo de incompatibilidade é a seguinte afirmação de um impersonalista que se lamentava em voz alta: \"Estive apegado simplesmente ao aspecto impessoal do Brahman, e passei meus dias inutilmente na prática do transe. Não dispensei a devida atenção a Śrī Kṛṣṇa, que é a origem do Brahman impessoal e que é o reservatório de todos os prazeres transcendentais.\" Nesta afirmação há traços de neutralidade e de amor conjugal, e o humor resultante é incompatível.\n\nÀs vezes se observa, em lugares como Vṛndāvana, que uma pessoa com uma leve atitude devocional de amor neutro por Kṛṣṇa pode tentar imediata e artificialmente alcançar a plataforma do amor conjugal. Mas, devido à incompatibilidade entre neutralidade e amor conjugal, observa-se que tal pessoa cai do critério do serviço devocional.\n\nA incompatibilidade foi expressa por um grande devoto na plataforma da neutralidade quando, sarcasticamente, orou: \"Estou muito ansioso por ver Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, que é muitos milhões de vezes mais afetuoso do que os pitṛs (antepassados) em Pitṛ-loka, e que é sempre adorado pelos grandes semideuses e sábios. No entanto, surpreende-me um pouco que, embora Kṛṣṇa seja o esposo da deusa da fortuna, Seu corpo esteja frequentemente marcado pelos arranhões das unhas de moças comuns da sociedade!\" Eis um exemplo de incompatibilidade devida a uma mistura de neutralidade e elevado amor conjugal.\n\nHá a seguinte afirmação de uma *gopī:* \"Meu querido Kṛṣṇa, a primeira coisa que deves fazer é simplesmente abraçar-me com Teus braços fortes. Então, meu querido amigo, primeiro inalarei o aroma de Tua cabeça, e depois desfrutarei conTigo.\" Este é um exemplo de incompatibilidade em que o amor conjugal é o todo e a servidão é a parte.\n\nCerto devoto disse: \"Meu querido Kṛṣṇa, como posso dirigir-me a Ti como meu filho, quando és chamado pelos grandes vedantistas de verdade absoluta e pelos vaiṣṇavas que seguem os princípios do *Nārada-pañcarātra* de Suprema Personalidade de Deus? És a mesma Pessoa Suprema; portanto, como poderia minha língua ser tão extraordinariamente ousada a ponto de dirigir-se a Ti como a um filho comum?\" Nesta afirmação há uma mistura de neutralidade e amor parental, e o resultado é incompatível.\n\nOutro devoto disse: \"Minha querida amiga, minha beleza juvenil é tão passageira como o relâmpago no céu; portanto, não tem importância que eu possua traços corporais atraentes. Nunca encontrei Kṛṣṇa, de modo que te peço, por favor, providencia para que eu O encontre imediatamente.\" Nesta afirmação há a incompatibilidade de uma doçura neutra misturada com amor conjugal.\n\nUma mulher cheia de desejo, em Kailāsa, certa vez disse a Kṛṣṇa: \"Meu querido Kṛṣṇa, que tenhas longa vida!\" Então, após dizer isso, abraçou Kṛṣṇa. Este é um exemplo de incompatibilidade resultante de uma mistura de amor parental e amor conjugal.\n\nO propósito da análise acima é mostrar que, na mistura de várias doçuras, ou reciprocidades de amor extático entre Kṛṣṇa e os devotos, se o resultado não for puro, haverá incompatibilidade. Segundo a opinião de devotos eminentes como Rūpa Gosvāmī, tão logo haja sentimentos contraditórios, o resultado é incompatível.\n\nCerta vez, uma devota comum dirigiu-se a Kṛṣṇa: \"Meu querido menino, sei que meu corpo é apenas uma composição de carne e sangue e jamais poderia ser desfrutável para Ti. Mas, ainda assim, fiquei tão atraída por Tua beleza que desejo que me aceites como Tua amada conjugal.\" Nesta afirmação há incompatibilidade causada por uma mistura de horror e amor conjugal no serviço devocional.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī adverte os devotos a não cometerem tais incompatibilidades em seus escritos ou em suas relações. A presença de tais sentimentos contraditórios chama-se *rasābhāsa.* Quando há *rasābhāsa* em algum livro de consciência de Kṛṣṇa, nenhum erudito ou devoto o aceitará.\n\nNo *Vidagdha-mādhava,* segundo ato, verso 29, Paurṇamāsī diz a Nāndīmukhī: \"Vê só como é maravilhoso! Grandes sábios meditam em Kṛṣṇa depois de se libertarem de todas as transações materiais, e com grande dificuldade tentam situar Kṛṣṇa em seus corações. Em oposição a isto, esta jovem está tentando retirar a mente de Kṛṣṇa para aplicá-la nas atividades materiais de gratificação dos sentidos. Que coisa lamentável é esta menina estar tentando expulsar de seu coração o mesmo Kṛṣṇa que é buscado pelos grandes sábios mediante severas austeridades e perseverança!\" Embora nesta afirmação haja doçuras contraditórias de devoção extática, o resultado não é incompatível, porque o amor conjugal é tão elevado que vence todas as demais variedades de doçuras. Śrīla Jīva Gosvāmī comenta, a este respeito, que tal estado de espírito amoroso não é possível para todos. Só é possível no caso das *gopīs* de Vṛndāvana. Há muitos outros exemplos de doçuras contraditórias em que não há a experiência pervertida de *rasābhāsa.*\n\nCerta vez, algum semideus menor dos planetas celestiais observou: \"Kṛṣṇa, cujas palavras jocosas foram outrora fonte de tanto riso para os habitantes de Braja, foi agora atacado pelo rei das serpentes, Kāliya, e tornou-se o objeto da avassaladora lamentação de todos!\" Neste exemplo há uma mistura de riso e compaixão, mas não há incompatibilidade, porque, por ambos esses *rasas,* a afeição amorosa por Kṛṣṇa se intensifica.\n\nCerta vez, disseram a Śrīmatī Rādhārāṇī que, embora Ela houvesse cessado todas as atividades, ainda era a suprema fonte de inspiração para todas as espécies de serviço devocional. A afirmação diz: \"Minha querida Rādhārāṇī, em separação de Kṛṣṇa estás agora tão imóvel quanto a mais bela árvore, cuja graciosidade não é obstruída por qualquer cobertura de folhas. Teu estado de ânimo tranquilo faz com que pareças completamente imersa na compreensão do Brahman!\" Neste exemplo há uma mistura de amor conjugal e amor neutro, mas o amor conjugal superou tudo. Na verdade, a compreensão do Brahman é apenas uma existência atrofiada. Há a seguinte afirmação do próprio Kṛṣṇa: \"Śrīmatī Rādhārāṇī tornou-se a paz personificada para Mim. Por causa dEla, agora fico sem dormir. Fito constantemente, sem piscar os olhos, e estou sempre em estado meditativo. Por causa dEla, fiz até mesmo do interior da caverna de uma montanha o Meu lar!\" Este é um exemplo de amor conjugal misturado com amor neutro, mas não há incompatibilidade.\n\nSegue-se uma conversa que consiste em perguntas feitas a Rambhā, uma célebre mulher de grande beleza, e em suas respostas correspondentes. Perguntaram a Rambhā: \"Minha querida Rambhā, quem és tu?\" Ela respondeu: \"Sou a paz personificada.\" Pergunta: \"Então por que estás no céu?\" Resposta: \"Estou no céu para experimentar a suprema verdade absoluta.\" Pergunta: \"Então por que estás fitando?\" Resposta: \"Apenas para contemplar a suprema beleza da verdade absoluta.\" Pergunta: \"Então por que pareces estar perturbada de espírito?\" Resposta: \"Porque Cupido está agindo.\" No exemplo acima também não há representação pervertida de doçuras, porque, no conjunto, o êxtase do amor conjugal excedeu a posição neutra do serviço devocional.\n\nNo Décimo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam,* 60.º Capítulo, 44.º verso, Rukmiṇīdevī disse: \"Meu querido esposo, uma mulher que não tem gosto pelo prazer transcendental disponível em Teu contato pessoal há de inclinar-se a aceitar como esposo alguém que externamente é uma combinação de bigodes, barba, pelos do corpo, unhas e algum cabelo na cabeça. E dentro dele há músculos, ossos, sangue, vermes intestinais, fezes, muco, bile e coisas semelhantes. Na verdade, tal esposo é apenas um cadáver, mas, por não ser atraída por Tua forma transcendental, a mulher terá de aceitar esta combinação de fezes e urina como seu esposo.\" Esta afirmação, que enumera os ingredientes de um corpo material, não é uma doçura pervertida na compreensão transcendental, porque mostra a correta discriminação entre matéria e espírito.\n\nNo *Vidagdha-mādhava,* segundo ato, 42.º verso, Kṛṣṇa diz a Seu amigo: \"Meu querido amigo, que coisa maravilhosa é que, desde que vi os belos olhos de lótus de Śrīmatī Rādhārāṇī, desenvolvi a tendência de cuspir na lua e na flor de lótus!\" Este é um exemplo de amor conjugal misturado com horror, mas não há incompatibilidade.\n\nSegue-se uma afirmação que descreve diferentes doçuras do serviço devocional: \"Embora Kṛṣṇa fosse invencível ante qualquer inimigo, os vaqueirinhos de Vṛndāvana quase enegreceram de assombro ao ver Suas maravilhosas vestes reais e Seus feitos de combate no campo de batalha de Kurukṣetra.\" Nesta afirmação, embora haja uma mistura de atividades cavalheirescas e assombro no serviço devocional, não há reflexo pervertido de doçuras.\n\nUma habitante de Mathurā pediu a seu pai que trancasse as portas e então fosse com ela à escola de Sāndīpani Muni à procura de Kṛṣṇa. Ela queixou-se de que Kṛṣṇa lhe havia completamente roubado a mente. Neste incidente há uma mistura de amor conjugal e amor parental, mas não há incompatibilidade.\n\nUm *brahmānandī* (impersonalista) expressou seu desejo da seguinte forma: \"Quando poderei ver aquela suprema e absoluta Personalidade de Deus, que é bem-aventurança e conhecimento eternos, e cujo peito ficou besuntado de pó vermelho de *kuṅkum* pelo contato com o seio de Rukmiṇī?\" Aqui há uma mistura de amor conjugal e neutralidade. Embora isto seja uma contradição de doçuras, não há incompatibilidade, porque mesmo um *brahmānandī* se sentirá atraído por Kṛṣṇa.\n\nNanda Mahārāja disse a sua esposa: \"Minha querida Yaśodā, embora teu filho, Kṛṣṇa, seja tão delicado e suave como a flor *mallīkā,* Ele foi matar o demônio Keśī, que é tão forte como a montanha. Por isso fiquei um pouco perturbado. Mas não importa, que toda a auspiciosidade seja com meu filho! Erguerei esta mão, que é tão forte como um pilar, e matarei o demônio Keśī, apenas para dar aos habitantes de Brajamaṇḍala a liberdade de todas as ansiedades!\" Nesta afirmação há dois tipos de doçuras: cavalheirismo e pavor. Ambos, contudo, aperfeiçoam a posição do amor parental; portanto, não há incompatibilidade.\n\nNo *Lalita-mādhava* de Śrīla Rūpa Gosvāmī se afirma: \"Após a chegada de Kṛṣṇa à arena de Kaṁsa, o sacerdote de Kaṁsa olhou para Kṛṣṇa com uma expressão de desprezo. A arena inteira encheu-se de pavor, da parte de Kaṁsa e de seu sacerdote, e de expressões inquietas de prazer nas faces dos amigos de Kṛṣṇa. Os rivais invejosos sentiram frustração. Os grandes sábios meditaram. Havia lágrimas quentes nos olhos de Devakī e de outras senhoras maternais, e os pelos eriçaram-se nos corpos dos guerreiros peritos. Havia assombro nos corações de semideuses como Indra. Os servos dançavam, e os olhos inquietos de todas as jovens lançavam olhares ao redor.\" Nesta afirmação há uma descrição de uma combinação de diferentes doçuras, mas não há incompatibilidade.\n\nUma afirmação semelhante, livre de incompatibilidade, encontra-se no *Lalita-mādhava,* na qual o autor abençoa todos os leitores do livro da seguinte maneira: \"Embora a Suprema Personalidade de Deus seja capaz de erguer uma montanha com um dedo da Sua mão esquerda, Ele é sempre humilde e manso. Ele é sempre muito bondoso para com Seus amorosos devotos. Ele frustrou a tentativa de vingança de Indra ao recusar-lhe o sacrifício de Indra-yajña. Ele é a causa de todo o prazer para todas as jovens. Que Ele seja sempre compassivo para com todos vós!\""}
{"ref": "nod/51", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/51/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "51. A Expressão Pervertida das Doçuras", "purport": "## Expressão Pervertida das Doçuras\n\nO *rasābhāsa,* ou misturas incompatíveis de doçuras, pode ser classificado em *uparasa* (expressão falsa), *anurasa* (imitação) e *aparasa* (doçuras pervertidas ou mal representadas).\n\nHá a seguinte afirmação de um impersonalista que acabara de ver Kṛṣṇa: \"Quando uma pessoa se livra por completo de toda a contaminação da existência material, ela saboreia a bem-aventurança transcendental de estar estabelecida no transe. Mas, tão logo Te vi, a original Personalidade de Deus, experimentei a mesma bem-aventurança.\" Este reflexo pervertido de doçuras chama-se *śānta-uparasa,* ou um reflexo pervertido de impersonalismo e personalismo misturados.\n\nHá outra afirmação, a saber: \"Para onde quer que eu olhe, vejo simplesmente Tua personalidade. Por isso sei que és a imaculada refulgência do Brahman, a suprema causa de todas as causas. Penso que não há nada além de Ti nesta manifestação cósmica.\" Este é outro exemplo de *uparasa,* ou um reflexo pervertido de impersonalismo e personalismo.\n\nQuando Madhumaṅgala, um amigo íntimo de Kṛṣṇa, estava dançando diante de Kṛṣṇa de modo jocoso, ninguém lhe prestava atenção, e ele disse, em tom de brincadeira: \"Meu querido Senhor, por favor, sê misericordioso comigo. Estou orando por Tua misericórdia.\" Este é um exemplo de *uparasa* em afeição fraternal e neutralidade.\n\nCerta vez, Kaṁsa dirigiu-se a sua irmã Devakī da seguinte maneira: \"Minha querida irmã, tendo visto teu querido filho Kṛṣṇa, penso que Ele é tão forte que pode matar até lutadores fortes como as montanhas. Portanto, não terei mais ansiedades a Seu respeito, ainda que Ele se envolva em um combate terrível.\" Este é um exemplo de *uparasa* num reflexo pervertido de amor parental.\n\nNo *Lalita-mādhava,* Śrīla Rūpa Gosvāmī diz: \"As esposas dos *brāhmaṇas yájñicos* eram todas jovens, e sentiam-se atraídas por Kṛṣṇa da mesma forma que as *gopīs* de Vṛndāvana. Devido a essa atração, distribuíam alimento a Kṛṣṇa.\" Aqui as duas doçuras devocionais são o amor conjugal e o amor parental, e o resultado chama-se *upa-rasa* em amor conjugal.\n\nUma das amigas de Śrīmatī Rādhārāṇī Lhe disse: \"Minha querida amiga Gāndharvikā [Rādhārāṇī], Tu eras a moça mais casta de nossa aldeia, mas agora Te dividiste e és parcialmente casta e parcialmente não casta. Tudo isso se deve à influência de Cupido sobre Ti, depois que viste Kṛṣṇa e ouviste o som de Sua flauta.\" Este é outro exemplo de *uparasa* causado por interesses divididos em amor conjugal.\n\nSegundo alguns eruditos peritos, os sentimentos entre amante e amada criam reflexos pervertidos de doçuras de muitas maneiras.\n\n\"As *gopīs* purificaram-se pelo olhar de Kṛṣṇa, e, por isso, a influência de Cupido é nitidamente visível em seus corpos.\" Embora, no sentido material, o olhar de um rapaz sobre uma moça seja uma espécie de poluição, quando Kṛṣṇa lançou Seu olhar transcendental sobre as *gopīs,* elas se purificaram. Em outras palavras, porque Kṛṣṇa é a verdade absoluta, qualquer ação Sua é transcendentalmente pura.\n\nApós Kṛṣṇa castigar a Kāliyanāga no rio Yamunā, dançando sobre suas cabeças, as esposas de Kāliyanāga dirigiram-se a Kṛṣṇa: \"Meu querido vaqueirinho, somos todas apenas jovens esposas de Kāliyanāga; então, por que agitas nossas mentes ao soar Tua flauta?\" As esposas de Kāliya estavam lisonjeando Kṛṣṇa para que Ele poupasse o esposo delas. Por isso, este é um exemplo de *uparasa,* ou imitação.\n\nCerto devoto disse: \"Meu querido Govinda, eis aqui um belo arbusto florido em Kailāsa. Sou uma jovem, e Tu és um jovem rapaz poético. Depois disto, que mais posso dizer? Considera Tu mesmo.\" Este é um exemplo de *uparasa,* causado por impudência em amor conjugal.\n\nQuando Nārada Muni passava por Vṛndāvana, chegou à floresta de Bhāṇḍīravana e viu, numa das árvores, o famoso casal de papagaios que sempre acompanha o Senhor Kṛṣṇa. O casal imitava alguma discussão que ouvira acerca da filosofia *Vedānta,* e assim, aparentemente, argumentavam sobre vários pontos filosóficos. Ao ver isto, Nārada Muni ficou tomado de admiração e começou a fitar sem mover as pálpebras. Este é um exemplo de *anurasa,* ou imitação.\n\nQuando Kṛṣṇa fugia do campo de batalha, de um lugar distante Jarāsandha O observava com olhos inquietos e sentia-se muito orgulhoso. Assim envaidecido com sua conquista, ele ria repetidamente. Este é um exemplo de *aparasa.*\n\nTudo o que está relacionado com Kṛṣṇa chama-se amor devocional extático, embora possa manifestar-se de diferentes maneiras: às vezes em ordem correta e às vezes como um reflexo pervertido. Segundo a opinião de todos os devotos peritos, qualquer coisa que desperte o amor extático por Kṛṣṇa deve ser tomada como um estímulo para a doçura transcendental.\n\n## Palavras Finais\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī conclui dizendo que o Bhakti-rasāmṛta-sindhu é muito difícil de ser compreendido pelos homens comuns; ainda assim, ele espera que o Senhor Kṛṣṇa, a eterna Suprema Personalidade de Deus, fique satisfeito com sua apresentação deste livro.\n\nPor cálculo aproximado, estima-se que Śrīla Rūpa Gosvāmī terminou o *Śrī Bhakti-rasāmṛta-sindhu* em Gokula Vṛndāvana no ano de 1552. Enquanto presente fisicamente, Śrīla Rūpa Gosvāmī vivia em diferentes partes de Vṛndāvana, e sua sede ficava no templo de Rādhā-Dāmodara, na atual cidade de Vṛndāvana. O local do *bhajana* de Rūpa Gosvāmī, a execução do serviço devocional, ainda é comemorado. Há duas estruturas distintas, semelhantes a túmulos, no templo de Rādhā-Dāmodara; uma estrutura é chamada de seu local de *bhajana,* e na outra está sepultado seu corpo. Atrás deste mesmo túmulo tenho o meu local de *bhajana,* mas, desde 1965, estou ausente. O local, contudo, é cuidado por meus discípulos. Pela vontade de Kṛṣṇa, resido agora no templo de Los Angeles da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna. Este significado é concluído hoje, 30 de junho de 1969."}
{"ref": "nod/0a", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/0a/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Prefácio", "purport": "*O Néctar da Devoção* é um estudo resumido do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* que foi escrito em sânscrito por Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda. Ele era o principal dos seis Gosvāmīs, que eram os discípulos diretos do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Quando conheceu o Senhor Caitanya pela primeira vez, Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda ocupava o cargo de ministro no governo maometano de Bengala. Ele e seu irmão Sanātana eram então chamados de Sākara Mallik e Dabir Khās, respectivamente, e ocupavam postos de responsabilidade como ministros do Nawab Hussain Shah. Naquela época, há quinhentos anos, a sociedade hindu era muito rígida, e, se um membro da casta *brāhmaṇa* aceitasse o serviço de um governante maometano, era de imediato rejeitado da sociedade *brāhmaṇa.* Essa era a posição dos dois irmãos, Dabir Khās e Sākara Mallik. Eles pertenciam à elevada comunidade *sārasvata-brāhmaṇa,* mas foram banidos por terem aceitado postos ministeriais no governo de Hussain Shah. É pela graça do Senhor Caitanya que Ele aceitou essas duas personalidades excelsas como Seus discípulos e as elevou à posição de *gosvāmīs,* a mais alta posição da cultura bramânica. De modo semelhante, o Senhor Caitanya aceitou Haridāsa Ṭhākura como Seu discípulo, embora este houvesse nascido em uma família maometana, e mais tarde fez dele o *ācārya* do cantar do santo nome do Senhor: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.\n\nO princípio do Senhor Caitanya é universal. Quem quer que conheça a ciência de Kṛṣṇa e se ocupe no serviço do Senhor é aceito como estando em posição mais elevada do que uma pessoa nascida na família de um *brāhmaṇa.* Esse é o princípio original aceito por toda a literatura Védica, especialmente pelo *Bhagavad-gītā* e pelo *Śrīmad-Bhāgavatam.* O princípio do movimento do Senhor Caitanya de educar e elevar todos ao excelso posto de um *gosvāmī* é ensinado em *O Néctar da Devoção.*\n\nO Senhor Caitanya conheceu os dois irmãos, Dabir Khās e Sākara Mallik, numa aldeia conhecida como Rāmakeli, no distrito de Maldah, e, depois desse encontro, os irmãos decidiram aposentar-se do serviço governamental e unir-se ao Senhor Caitanya. Sākara Mallik, que mais tarde se tornaria Rūpa Gosvāmī, aposentou-se de seu posto e recolheu todo o dinheiro que havia acumulado durante seu serviço. Descreve-se no *Caitanya-caritāmṛta* que suas economias acumuladas em moedas de ouro equivaliam a milhões de dólares e enchiam um grande barco. Ele dividiu o dinheiro de maneira muito exemplar, que deveria ser seguida pelos devotos em particular e pela humanidade em geral. Cinquenta por cento de sua riqueza acumulada foram distribuídos às pessoas conscientes de Kṛṣṇa, a saber, os *brāhmaṇas* e os vaiṣṇavas; vinte e cinco por cento foram distribuídos aos parentes; e vinte e cinco por cento foram reservados para gastos de emergência e dificuldades pessoais. Mais tarde, quando Dabir Khās também propôs aposentar-se, o Nawab ficou muito agitado e o lançou na prisão. Mas Sākara Mallik, que mais tarde se tornaria Śrīla Sanātana Gosvāmī, valeu-se do dinheiro pessoal de seu irmão, que havia sido depositado com um banqueiro da aldeia, e escapou da prisão de Hussain Shah. Dessa maneira, ambos os irmãos uniram-se ao Senhor Caitanya Mahāprabhu.\n\nRūpa Gosvāmī conheceu o Senhor Caitanya pela primeira vez em Prayāg (Allahabad, Índia), e, no *ghat* de banho Daśāśvamedha daquela cidade sagrada, o Senhor o instruiu continuamente por dez dias. O Senhor instruiu Rūpa Gosvāmī particularmente sobre a ciência da consciência de Kṛṣṇa. Esses ensinamentos do Senhor Caitanya a Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda são narrados em nosso livro *Os Ensinamentos do Senhor Caitanya.*\n\nMais tarde, Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda elaborou os ensinamentos do Senhor com profundo conhecimento das escrituras reveladas e referências autorizadas de várias obras da literatura Védica. Śrīla Śrīnivāsa Ācārya descreve em suas orações aos seis Gosvāmīs que todos eles eram eruditos altamente versados, não somente em sânscrito, mas também em idiomas estrangeiros como o persa e o árabe. Eles estudaram com muito escrúpulo todas as escrituras Védicas a fim de estabelecer o culto de Caitanya Mahāprabhu sobre os princípios autorizados do conhecimento Védico. O presente movimento da consciência de Kṛṣṇa baseia-se também na autoridade de Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda. Por isso, somos geralmente conhecidos como *rūpānugas,* ou seguidores dos passos de Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda. Foi apenas para a nossa orientação que Śrīla Rūpa Gosvāmī preparou seu livro *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* que agora se apresenta sob a forma de *O Néctar da Devoção.* As pessoas ocupadas no movimento da consciência de Kṛṣṇa podem valer-se desta grande obra e situar-se de modo muito sólido em consciência de Kṛṣṇa.\n\n*Bhakti* significa serviço devocional. Todo serviço tem algum aspecto atrativo que impele o servidor progressivamente adiante e adiante. Cada um de nós, dentro deste mundo, está perpetuamente ocupado em algum tipo de serviço, e o impulso para tal serviço é o prazer que dele extraímos. Movido pela afeição por sua esposa e seus filhos, o pai de família trabalha dia e noite. O filantropo trabalha da mesma forma por amor à família maior, e o nacionalista pela causa de seu país e de seus compatriotas. Aquela força que impele o filantropo, o chefe de família e o nacionalista chama-se *rasa,* ou uma espécie de doçura (relação) cujo sabor é muito doce. *Bhakti-rasa* é uma doçura diferente do *rasa* comum desfrutado pelos trabalhadores mundanos. Os trabalhadores mundanos labutam arduamente dia e noite a fim de saborear certo tipo de *rasa,* que se entende como gratificação dos sentidos. O sabor ou o gosto do *rasa* mundano não perdura por muito tempo e, por isso, os trabalhadores mundanos estão sempre propensos a mudar sua posição de gozo. O homem de negócios não se satisfaz por trabalhar a semana inteira; por isso, desejando uma mudança para o fim de semana, vai a algum lugar onde tenta esquecer suas atividades comerciais. Então, depois de passar o fim de semana em esquecimento, novamente muda de posição e retoma suas verdadeiras atividades comerciais. Ocupação material significa aceitar determinado status por algum tempo e depois mudá-lo. Essa posição de mudar para a frente e para trás é tecnicamente conhecida como *bhoga-tyāga,* que significa uma posição de gozo dos sentidos e renúncia em alternância. A entidade viva não pode permanecer estavelmente nem no gozo dos sentidos nem na renúncia. A mudança prossegue perpetuamente, e não podemos ser felizes em nenhum dos dois estados, em virtude de nossa eterna posição constitucional. A gratificação dos sentidos não perdura por muito tempo e, por isso, chama-se *capala-sukha,* ou felicidade efêmera. Por exemplo, um pai de família comum que trabalha muito arduamente dia e noite e tem êxito em proporcionar confortos aos membros de sua família saboreia com isso uma espécie de doçura, mas todo o seu progresso de felicidade material termina imediatamente junto com seu corpo, assim que sua vida chega ao fim. Por isso, a morte é tomada como o representante de Deus para a classe ateísta de homens. O devoto percebe a presença de Deus por meio do serviço devocional, ao passo que o ateu percebe a presença de Deus sob a forma da morte. Na morte, tudo termina, e a pessoa tem de começar um novo capítulo de vida numa nova situação, talvez mais elevada ou mais baixa que a anterior. Em qualquer campo de atividade — político, social, nacional ou internacional —, o resultado de nossas ações terminará com o fim da vida. Isso é certo.\n\n*Bhakti-rasa,* contudo, a doçura saboreada no serviço transcendental e amoroso ao Senhor, não termina com o fim da vida. Continua perpetuamente e, por isso, chama-se *amṛta,* aquilo que não morre, mas existe eternamente. Isso é confirmado em toda a literatura Védica. O *Bhagavad-gītā* diz que um pequeno avanço em *bhakti-rasa* pode salvar o devoto do maior dos perigos, o de perder a oportunidade da vida humana. Os *rasas* derivados de nossos sentimentos na vida social, na vida familiar ou na vida familiar mais ampla do altruísmo, da filantropia, do nacionalismo, do socialismo, do comunismo, etc., não garantem que a próxima vida será como ser humano. Preparamos nossa próxima vida por meio de nossas verdadeiras atividades na vida presente. À entidade viva é oferecido determinado tipo de corpo como resultado de sua ação no corpo atual. Essas atividades são levadas em conta por uma autoridade superior conhecida como *daiva,* ou a autoridade de Deus. Esse *daiva* é explicado no *Bhagavad-gītā* como a causa primordial de tudo, e, no *Śrīmad-Bhāgavatam,* afirma-se que o homem recebe seu próximo corpo por *daiva-netreṇa,* o que significa pela supervisão da autoridade do Supremo. Num sentido comum, *daiva* é explicado como destino. A supervisão de *daiva* nos dá um corpo selecionado dentre 8.400.000 formas; a escolha não depende de nossa seleção, mas nos é concedida de acordo com nosso destino. Se nosso corpo atual está ocupado nas atividades da consciência de Kṛṣṇa, então fica garantido que teremos pelo menos um corpo humano em nossa próxima vida. Um ser humano ocupado em consciência de Kṛṣṇa, mesmo que seja incapaz de completar o curso de *bhakti-yoga,* nasce na divisão superior da sociedade humana, de modo que pode automaticamente fazer avançar mais sua evolução em consciência de Kṛṣṇa. Portanto, todas as atividades genuínas em consciência de Kṛṣṇa são *amṛta,* ou permanentes. Este é o tema de *O Néctar da Devoção.*\n\nEssa ocupação eterna em *bhakti-rasa* pode ser compreendida por um estudante sério ao estudar *O Néctar da Devoção.* A adoção de *bhakti-rasa,* ou consciência de Kṛṣṇa, levará a pessoa de imediato a uma vida auspiciosa, livre de ansiedades, e a abençoará com a existência transcendental, minimizando assim o valor da liberação. *Bhakti-rasa,* por si só, é suficiente para produzir uma sensação de liberação, porque atrai a atenção do Senhor Supremo, Kṛṣṇa. Em geral, os devotos neófitos estão ansiosos por ver Kṛṣṇa, ou Deus, mas Deus não pode ser visto nem conhecido por nossos atuais sentidos materialmente embotados. O processo de serviço devocional, tal como se recomenda em *O Néctar da Devoção,* elevará a pessoa gradualmente da condição material de vida ao status espiritual, no qual o devoto se purifica de todas as designações. Os sentidos podem então ficar livres de contaminação, por estarem constantemente em contato com *bhakti-rasa.* Quando os sentidos purificados são empregados no serviço ao Senhor, a pessoa se situa na vida de *bhakti-rasa,* e qualquer ação realizada para a satisfação de Kṛṣṇa nesse estágio transcendental de vida em *bhakti-rasa* pode ser saboreada perpetuamente. Quando alguém está assim ocupado em serviço devocional, todas as variedades de *rasas,* ou doçuras, transformam-se em eternidade. No início, a pessoa é treinada de acordo com os princípios de regulação, sob a orientação do *ācārya,* ou mestre espiritual, e gradualmente, à medida que é elevada, o serviço devocional torna-se um anseio automático e espontâneo de servir a Kṛṣṇa. Há doze espécies de *rasas,* como se explicará neste livro, e, ao renovarmos nossa relação com Kṛṣṇa em cinco *rasas* primários, podemos viver eternamente em pleno conhecimento e bem-aventurança.\n\nO princípio básico da condição viva é que temos uma propensão geral a amar alguém. Ninguém pode viver sem amar outra pessoa. Essa propensão está presente em todo ser vivo. Mesmo um animal como o tigre tem essa propensão a amar, ao menos em estágio adormecido, e ela certamente está presente nos seres humanos. O ponto que falta, contudo, é onde repousar nosso amor, de modo que todos possam tornar-se felizes. No momento atual, a sociedade humana ensina a pessoa a amar seu país, sua família ou a si mesma, mas não há informação alguma sobre onde repousar a propensão amorosa, de modo que todos possam tornar-se felizes. Esse ponto que falta é Kṛṣṇa, e *O Néctar da Devoção* nos ensina a estimular nosso amor original por Kṛṣṇa e a situar-nos naquela posição em que podemos desfrutar nossa vida de bem-aventurança.\n\nNo estágio primário, a criança ama seus pais, depois seus irmãos e irmãs, e, à medida que cresce dia a dia, começa a amar sua família, sociedade, comunidade, país, nação ou mesmo toda a sociedade humana. Mas a propensão amorosa não fica satisfeita nem mesmo ao amar toda a sociedade humana; essa propensão amorosa permanece imperfeitamente realizada até que saibamos quem é o supremo amado. Nosso amor só pode ficar plenamente satisfeito quando repousa em Kṛṣṇa. Este tema é a essência e a substância de *O Néctar da Devoção,* que nos ensina a amar Kṛṣṇa em cinco diferentes doçuras transcendentais.\n\nNossa propensão amorosa se expande tal como se expande uma vibração de luz ou de ar, mas não sabemos onde ela termina. *O Néctar da Devoção* nos ensina a ciência de amar perfeitamente cada uma das entidades vivas pelo método fácil de amar Kṛṣṇa. Fracassamos em criar paz e harmonia na sociedade humana, mesmo com tentativas tão grandiosas como as Nações Unidas, porque não conhecemos o método correto. O método é muito simples, mas é preciso compreendê-lo com a cabeça serena. *O Néctar da Devoção* ensina a todos os homens como executar o método simples e natural de amar Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus. Se aprendermos a amar Kṛṣṇa, então será muito fácil amar imediata e simultaneamente todo ser vivo. É como derramar água na raiz de uma árvore ou fornecer alimento ao próprio estômago. O método de derramar água na raiz de uma árvore ou de fornecer alimentos ao estômago é universalmente científico e prático, como cada um de nós já experimentou. Todos sabem bem que, quando comemos algo, ou seja, quando pomos alimentos no estômago, a energia criada por tal ação é imediatamente distribuída por todo o corpo. De modo semelhante, quando derramamos água na raiz, a energia assim criada é imediatamente distribuída por toda a árvore, mesmo a maior delas. Não é possível regar a árvore parte por parte, nem é possível alimentar as diferentes partes do corpo separadamente. *O Néctar da Devoção* nos ensinará a acionar o único interruptor que iluminará imediatamente tudo, em toda parte. Aquele que não conhece este método está perdendo o sentido da vida.\n\nNo que se refere às necessidades materiais, a civilização humana, no momento atual, está muito avançada em viver confortavelmente, mas, ainda assim, não somos felizes, porque estamos perdendo o ponto essencial. Os confortos materiais da vida, por si sós, não são suficientes para nos tornar felizes. O exemplo vívido é a América: a nação mais rica do mundo, dispondo de todas as facilidades para o conforto material, está produzindo uma classe de homens completamente confusos e frustrados na vida. Apelo, por meio destas palavras, a tais homens confusos, para que aprendam a arte do serviço devocional conforme orientado em *O Néctar da Devoção,* e tenho certeza de que o fogo da existência material que arde dentro de seus corações será imediatamente extinto. A causa fundamental de nossa insatisfação é que nossa propensão amorosa adormecida não foi realizada, apesar de nosso grande avanço no modo de vida materialista. *O Néctar da Devoção* nos dará indicações práticas de como podemos viver neste mundo material perfeitamente ocupados em serviço devocional e, assim, satisfazer todos os nossos desejos nesta vida e na próxima. *O Néctar da Devoção* não se apresenta para condenar nenhum modo de vida materialista, mas a tentativa é dar informação aos religiosos, aos filósofos e às pessoas em geral sobre como amar Kṛṣṇa. A pessoa pode viver sem desconforto material, mas, ao mesmo tempo, deve aprender a arte de amar Kṛṣṇa. No momento atual, estamos inventando tantíssimas maneiras de utilizar nossa propensão a amar, mas, de fato, estamos perdendo o verdadeiro ponto, Kṛṣṇa. Estamos regando todas as partes da árvore, mas esquecendo a raiz da árvore. Estamos tentando manter nosso corpo em forma por todos os meios, mas negligenciamos fornecer alimentos ao estômago. Perder Kṛṣṇa significa perder também o próprio eu. A verdadeira autorrealização e a compreensão de Kṛṣṇa acontecem juntas, simultaneamente. Por exemplo, ver a si mesmo de manhã significa ver também o nascer do sol; sem ver a luz do sol, ninguém pode ver a si mesmo. De modo semelhante, a menos que a pessoa tenha compreendido Kṛṣṇa, não há possibilidade de autorrealização.\n\n*O Néctar da Devoção* apresenta-se especificamente para pessoas que agora estão ocupadas no movimento da consciência de Kṛṣṇa. Peço permissão para oferecer meus sinceros agradecimentos a todos os meus amigos e discípulos que estão me ajudando a impulsionar o movimento da consciência de Kṛṣṇa nos países ocidentais, e peço permissão para reconhecer, com gratidão, a contribuição feita por meu amado discípulo Śrīmad Jayānanda Brahmacārī. Meus agradecimentos são devidos também aos diretores da ISKCON Press, que tiveram tanto cuidado em publicar esta grande obra. Hare Kṛṣṇa.\n\nA.C. Bhaktivedanta Swami\n\n13 de abril de 1970\nSede da ISKCON \n3764 Watseka Ave. \nLos Angeles, Califórnia"}
{"ref": "nod/0b", "book": "nod", "lang": "pt", "url": "/pt/library/nod/0b/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Introdução", "purport": "Invocação de auspiciosidade: O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas, o reservatório de todos os *rasas,* ou relações, que se denominam neutralidade (adoração passiva), servidão, amizade, paternidade, amor conjugal, comédia, compaixão, temor, cavalheirismo, horror, assombro e devastação. Ele é a forma supremamente atrativa e, por meio de Seus aspectos atrativos universais e transcendentais, cativou todas as *gopīs,* encabeçadas por Tārakā, Pālikā, Śyāmā, Lalitā e, em última instância, Śrīmatī Rādhārāṇī. Que a graça de Sua Senhoria esteja sobre nós, para que não haja nenhum obstáculo na execução deste dever de escrever *O Néctar da Devoção,* impelido por Sua Divina Graça Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Prabhupāda.\n\nDeixai-me oferecer minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda e de Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Prabhupāda, por cuja inspiração estive ocupado em compilar este estudo resumido do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu.* Esta é a sublime ciência do serviço devocional, tal como exposta por Śrī Caitanya Mahāprabhu, que apareceu há 500 anos em Bengala Ocidental, na Índia, para propagar o movimento da consciência de Kṛṣṇa.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī começa seu grandioso livro oferecendo suas respeitosas reverências a Śrī Sanātana Gosvāmī, que é seu irmão mais velho e mestre espiritual, e ora para que o *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* lhe seja muito agradável. Ora ainda para que, residindo nesse oceano de néctar, possa sempre sentir prazer transcendental no serviço a Rādhā e Kṛṣṇa.\n\nOfereçamos nossas respeitosas reverências a todos os grandes devotos e *ācāryas* (mestres santos), que são comparados a tubarões no grande oceano de néctar e que não se importam com os diversos rios da liberação. Os impersonalistas têm grande afeição por fundir-se no Supremo, assim como os rios que descem e se fundem no oceano. O oceano pode ser comparado à liberação, e os rios, a todos os diferentes caminhos da liberação. Os impersonalistas habitam na água dos rios, que com o tempo vem a misturar-se com o oceano. Não têm, contudo, conhecimento de que dentro do oceano, assim como dentro do rio, há inumeráveis entidades vivas aquáticas. Os tubarões que habitam no oceano não se importam com os rios que nele deslizam para baixo. Os devotos vivem eternamente no oceano do serviço devocional, e não se importam com os rios. Em outras palavras, aqueles que são devotos puros sempre permanecem no oceano do transcendental serviço amoroso ao Senhor e nada têm a ver com os outros processos, que se comparam aos rios que só gradualmente chegam ao oceano.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī ora a seu mestre espiritual, Śrīla Sanātana Gosvāmī, pela proteção do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu*—O Oceano do Puro Néctar do Serviço Devocional—contra os lógicos argumentadores que desnecessariamente se intrometem na ciência do serviço ao Senhor. Ele compara seus argumentos e sua lógica a erupções vulcânicas em meio ao oceano. Em meio ao oceano, tais erupções vulcânicas podem causar muito pouco dano e, de modo semelhante, aqueles que são contra o serviço devocional ao Senhor e que apresentam muitas teses filosóficas sobre a última realização transcendental não podem perturbar este grande oceano do serviço devocional.\n\nO autor do *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* Śrīla Rūpa Gosvāmī, submete muito humildemente que está apenas tentando espalhar a consciência de Kṛṣṇa por todo o mundo, embora humildemente considere-se inapto para esta obra. Esta deve ser a atitude de todos os pregadores do movimento da consciência de Kṛṣṇa, seguindo os passos de Śrīla Rūpa Gosvāmī. Jamais devemos pensar em nós mesmos como grandes pregadores, mas sempre considerar que somos simplesmente instrumentos dos *ācāryas* anteriores e que, simplesmente seguindo seus passos, talvez sejamos capazes de fazer algo em benefício da humanidade sofredora.\n\nO *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* divide-se em quatro partes, assim como o oceano às vezes se divide em quatro partes, e há diferentes seções dentro de cada uma dessas quatro divisões. Originalmente, no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* o oceano divide-se, como o oceano de água, em leste, oeste, norte e sul, ao passo que as subseções dentro dessas diferentes divisões denominam-se ondas. Assim como no oceano há sempre diferentes ondas, seja no lado leste, no lado oeste, no lado norte ou no lado sul, de modo semelhante o *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* tem diferentes ondas. Na primeira parte há quatro ondas, sendo a primeira uma descrição geral do serviço devocional. A segunda diz respeito aos princípios reguladores para a execução do serviço devocional, e a terceira onda, ao serviço devocional em êxtase. Na quarta está a meta última, o amor a Deus. Estas serão explicitamente descritas, juntamente com seus diferentes sintomas.\n\nAs descrições autorizadas do *bhakti,* ou serviço devocional, seguindo os passos dos *ācāryas* anteriores, podem ser resumidas na seguinte declaração de Śrīla Rūpa Gosvāmī: \"O serviço devocional de primeira classe reconhece-se pela tendência de uma pessoa a ocupar-se plenamente em consciência de Kṛṣṇa, servindo o Senhor de modo favorável.\" O significado é que também se pode estar em consciência de Kṛṣṇa de modo desfavorável, mas isso não pode ser contado como serviço devocional puro. O serviço devocional puro deve estar livre do desejo de qualquer benefício material ou de gratificação dos sentidos, pois esses desejos cultivam-se mediante atividades fruitivas e especulação filosófica. Em geral, as pessoas ocupam-se em diferentes atividades para obter algum lucro material, ao passo que a maioria dos filósofos ocupa-se em propor a realização transcendental por meio de volumes de malabarismo verbal e especulação. O serviço devocional puro deve estar sempre livre de tais atividades fruitivas e especulações filosóficas. É preciso aprender a consciência de Kṛṣṇa, ou serviço devocional puro, com as autoridades, mediante o serviço amoroso espontâneo.\n\nEste serviço devocional é uma espécie de cultivo. Não é simplesmente inação para pessoas que gostam de ser inativas ou de dedicar seu tempo à meditação silenciosa. Há muitos métodos diferentes para as pessoas que desejam isso, mas o cultivo da consciência de Kṛṣṇa é diferente. A palavra específica usada por Śrīla Rūpa Gosvāmī a este respeito é *anuśīlana,* ou cultivo seguindo os mestres predecessores (*ācāryas*). Assim que dizemos \"cultivo\", devemos referir-nos a atividade. Sem atividade, a consciência sozinha não pode ajudar-nos. Todas as atividades podem dividir-se em duas classes: uma classe pode ser para alcançar uma determinada meta, e a outra pode ser para evitar alguma circunstância desfavorável. Em sânscrito, essas atividades denominam-se *pravṛtti* e *nivṛtti*—ação positiva e negativa. Há muitos exemplos de ação negativa. Por exemplo, uma pessoa doente tem de ser cautelosa e tomar remédio a fim de evitar alguma enfermidade desfavorável.\n\nAqueles que cultivam a vida espiritual e executam o serviço devocional estão sempre ocupados em atividade. Tal atividade pode ser realizada com o corpo ou com a mente. Pensar, sentir e querer são todas atividades da mente, e, quando queremos fazer algo, a atividade vem a manifestar-se por meio dos sentidos grosseiros do corpo. Assim, em nossas atividades mentais, devemos sempre tentar pensar em Kṛṣṇa e tentar planejar como agradá-lO, seguindo os passos dos grandes *ācāryas* e do mestre espiritual pessoal. Há atividades do corpo, atividades dos diferentes sentidos e atividades da fala. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa ocupa suas palavras em pregar as glórias do Senhor. Isso se chama *kīrtana.* E, com a mente, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa sempre pensa nas atividades do Senhor—como Ele falando no Campo de Batalha de Kurukṣetra ou ocupando-Se em Seus vários passatempos em Vṛndāvana com Seus devotos. Dessa maneira, pode-se sempre pensar nas atividades e passatempos do Senhor. Esta é a cultura mental da consciência de Kṛṣṇa.\n\nDe modo semelhante, podemos oferecer muitos serviços com nossas atividades corpóreas. Mas todas essas atividades devem estar em relação com Kṛṣṇa. Essa relação se estabelece conectando-se a pessoa ao mestre espiritual genuíno, que é o representante direto de Kṛṣṇa na sucessão discipular. Portanto, a execução de atividades conscientes de Kṛṣṇa com o corpo deve ser dirigida pelo mestre espiritual e, então, realizada com fé. A conexão com o mestre espiritual chama-se iniciação. Desde a data da iniciação pelo mestre espiritual, estabelece-se a conexão entre Kṛṣṇa e a pessoa que cultiva a consciência de Kṛṣṇa. Sem a iniciação por um mestre espiritual genuíno, a verdadeira conexão com a consciência de Kṛṣṇa jamais se realiza.\n\nEste cultivo da consciência de Kṛṣṇa não é material. O Senhor possui, em geral, três energias—a saber, a energia externa, a energia interna e a energia marginal. As entidades vivas chamam-se energia marginal, e a manifestação cósmica material é a ação da energia externa, ou material. Há, então, o mundo espiritual, que é uma manifestação da energia interna. As entidades vivas, que se chamam energia marginal, realizam atividades materiais quando agem sob a inferior energia externa. E, quando se ocupam em atividades sob a energia espiritual interna, suas atividades chamam-se conscientes de Kṛṣṇa. Isso significa que aqueles que são grandes almas, ou grandes devotos, não agem sob o feitiço da energia material, mas, em vez disso, agem sob a proteção da energia espiritual. Quaisquer atividades realizadas no serviço devocional, ou em consciência de Kṛṣṇa, estão diretamente sob o controle da energia espiritual. Em outras palavras, a energia é uma espécie de força, e essa força pode ser espiritualizada pela misericórdia tanto do mestre espiritual genuíno quanto de Kṛṣṇa.\n\nNo *Caitanya-caritāmṛta,* de Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī, o Senhor Caitanya afirma que é uma pessoa afortunada aquela que entra em contato com um mestre espiritual genuíno pela graça de Kṛṣṇa. Aquele que é sério a respeito da vida espiritual recebe de Kṛṣṇa a inteligência para entrar em contato com um mestre espiritual genuíno e, então, pela graça do mestre espiritual, torna-se avançado em consciência de Kṛṣṇa. Dessa maneira, toda a jurisdição da consciência de Kṛṣṇa está diretamente sob a energia espiritual—Kṛṣṇa e o mestre espiritual. Isso nada tem a ver com o mundo material. Quando falamos de Kṛṣṇa, referimo-nos à Suprema Personalidade de Deus, juntamente com Suas muitas expansões. Ele Se expande por meio de Suas porções plenárias, de Suas porções diferenciadas e de Suas diferentes energias. Kṛṣṇa, em outras palavras, significa tudo e inclui tudo. Em geral, porém, devemos compreender que Kṛṣṇa significa Kṛṣṇa e Suas expansões pessoais. Kṛṣṇa expande-Se como Baladeva, Saṅkarṣaṇa, Vāsudeva, Aniruddha, Pradyumna, Rāma, Nṛsiṁha e Varāha, bem como muitas outras encarnações e inumeráveis expansões de Viṣṇu. Estas são descritas no *Śrīmad-Bhāgavatam* como sendo tão numerosas quanto as incontáveis ondas. Assim, Kṛṣṇa inclui todas essas expansões, bem como Seus devotos puros. Na *Brahma-saṁhitā,* afirma-se que as expansões de Kṛṣṇa são todas completas em eternidade, bem-aventurança e cognição.\n\nServiço devocional significa executar atividades conscientes de Kṛṣṇa que sejam favoráveis ao prazer transcendental do Supremo Senhor Kṛṣṇa, e quaisquer atividades que não sejam favoráveis ao favor transcendental do Senhor não podem ser aceitas como serviço devocional. Por exemplo, grandes demônios como Rāvaṇa, Kaṁsa e Hiraṇyakaśipu pensavam sempre em Kṛṣṇa, mas pensavam nEle como seu inimigo. Esse tipo de pensamento não pode ser aceito como *bhakti,* ou consciência de Kṛṣṇa.\n\nOs impersonalistas às vezes compreendem mal o serviço devocional, de modo a separar Kṛṣṇa de Sua parafernália e de Seus passatempos. Por exemplo, o *Bhagavad-gītā* é falado no campo de batalha de Kurukṣetra, e os impersonalistas dizem que, embora Kṛṣṇa seja de interesse, o campo de batalha de Kurukṣetra não o é. Os devotos, contudo, também sabem que o campo de batalha de Kurukṣetra em si nada tem a ver com seus afazeres, mas, além disso, sabem que \"Kṛṣṇa\" não significa apenas Kṛṣṇa sozinho. Ele está sempre com Seus associados e com Sua parafernália. Por exemplo, se alguém diz: \"Dai algo para comer ao homem com as armas\", o ato de comer é feito pelo homem, e não pelas armas. De modo semelhante, em consciência de Kṛṣṇa, um devoto pode interessar-se pela parafernália e pelos locais—como o campo de batalha de Kurukṣetra—que estão associados a Kṛṣṇa, mas ele não se preocupa simplesmente com um campo de batalha qualquer. Ele se preocupa com Kṛṣṇa—Sua fala, Suas instruções, etc. É porque Kṛṣṇa está ali que o campo de batalha é tão importante.\n\nEsta é a compreensão resumida do que é a consciência de Kṛṣṇa. Sem essa compreensão, é certo que se compreenderá mal por que os devotos se interessam pelo campo de batalha de Kurukṣetra. Aquele que se interessa por Kṛṣṇa passa a interessar-se por Seus diferentes passatempos e atividades.\n\nA definição de um devoto puro, tal como dada por Rūpa Gosvāmī no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu,* pode ser resumida assim: seu serviço é favorável e está sempre em relação com Kṛṣṇa. A fim de manter a pureza de tais atividades conscientes de Kṛṣṇa, é preciso estar livre de todos os desejos materiais e de toda especulação filosófica. Qualquer desejo, exceto o do serviço ao Senhor, chama-se desejo material. E especulação filosófica refere-se ao tipo de especulação que, em última instância, chega a uma conclusão de niilismo ou impersonalismo. Essa conclusão é inútil para uma pessoa consciente de Kṛṣṇa. Apenas raramente, pela especulação filosófica, pode-se chegar à conclusão de adorar Vāsudeva, Kṛṣṇa. Isso é confirmado no próprio *Bhagavad-gītā.* O fim último da especulação filosófica, então, deve ser Kṛṣṇa, com a compreensão de que Kṛṣṇa é tudo, a causa de todas as causas, e de que, portanto, deve-se render-se a Ele. Se essa meta última é alcançada, então o avanço filosófico é favorável; mas, se a conclusão da especulação filosófica for o niilismo ou o impersonalismo, isso não é *bhakti.*\n\n*Karma,* ou atividades fruitivas, às vezes são compreendidas como atividades ritualísticas. Há muitas pessoas que se sentem muito atraídas pelas atividades ritualísticas descritas nos *Vedas.* Mas, se alguém se atrai simplesmente por atividades ritualísticas sem compreender Kṛṣṇa, suas atividades são desfavoráveis à consciência de Kṛṣṇa. Na verdade, a consciência de Kṛṣṇa pode basear-se simplesmente em ouvir, cantar, lembrar, etc. Descritos no *Śrīmad-Bhāgavatam* há nove diferentes processos, além dos quais tudo o que se faz é desfavorável à consciência de Kṛṣṇa. Assim, deve-se sempre estar de guarda contra as quedas.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī também mencionou, nesta definição de *bhakti,* a palavra *jñāna-karmādi.* Este *karmādi* (trabalho fruitivo) consiste em atividades incapazes de ajudar alguém a alcançar o serviço devocional puro. Muitas formas da assim chamada renúncia também não são favoráveis ao serviço devocional consciente de Kṛṣṇa.\n\nŚrīla Rūpa Gosvāmī também citou uma definição do *Nārada-pañcarātra,* a saber: \"É preciso estar livre de todas as designações materiais e deve-se estar limpo de toda contaminação material por meio da consciência de Kṛṣṇa. A pessoa deve ser restituída à sua identidade pura, na qual ocupa seus sentidos no serviço ao proprietário dos sentidos.\" Portanto, quando nossos sentidos se ocupam para o verdadeiro proprietário dos sentidos, isso se chama serviço devocional. Em nosso estado condicionado, nossos sentidos se ocupam em servir a estas exigências corpóreas. Quando esses mesmos sentidos se ocupam em executar a ordem de Kṛṣṇa, isso se chama *bhakti.*\n\nEnquanto alguém se identifica como pertencente a determinada família, determinada sociedade ou determinada pessoa, diz-se que está coberto de designações. Quando a pessoa tem plena consciência de que não pertence a nenhuma família, sociedade ou país, mas está eternamente relacionada com Kṛṣṇa, então percebe que sua energia deve ser empregada não nos interesses da assim chamada família, sociedade ou país, mas nos interesses de Kṛṣṇa. Esta é a pureza de propósito e a plataforma do serviço devocional puro em consciência de Kṛṣṇa."}
