{"ref": "pop/1", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/1/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "1. O yoga como ação", "purport": "No Sexto e no Oitavo Capítulos do *Bhagavad-gītā*, o Senhor Śrī *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, explica que o sistema óctuplo de yoga é um meio de controlar a mente e os sentidos. Esse método, contudo, é muito difícil de praticar para as pessoas, sobretudo nesta era de Kali, uma era caracterizada pela ignorância e pelo caos.\n\n\n\nEmbora esse sistema óctuplo de yoga seja particularmente recomendado no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, o Senhor enfatiza que o processo do karma-yoga, a ação em consciência de Kṛṣṇa, é superior. Neste mundo, todos agem para sustentar a própria família, e todos trabalham com vistas a algum interesse próprio, ou seja, à gratificação pessoal dos sentidos, quer concentrada, quer estendida. Mas agir com perfeição é agir em consciência de Kṛṣṇa, e isso significa agir desapegado dos frutos do trabalho.\n\n\n\nÉ nosso dever agir em consciência de Kṛṣṇa, pois somos, por constituição, partes integrantes do Supremo. As partes do corpo trabalham para a satisfação do corpo inteiro, não para a satisfação das partes individuais. A meta é a satisfação do todo completo. De modo semelhante, a entidade viva deve agir para a satisfação do todo supremo, a Suprema Personalidade de Deus, e não para sua própria satisfação pessoal. Aquele que consegue fazê-lo é o sannyāsī perfeito e o yogī perfeito. No primeiro verso do Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, o capítulo que trata do sāṅkhya-yoga, Bhagavān Śrī Kṛṣṇa afirma:\n\n\n\nanāśritaḥ karma-phalaṁ\n\nkāryaṁ karma karoti yaḥ\n\nsa sannyāsī ca yogī ca\n\nna niragnir na cākriyaḥ\n\n\n\n«Aquele que não está apegado aos frutos de seu trabalho e que trabalha conforme sua obrigação encontra-se na ordem de vida renunciada, e é o verdadeiro místico, e não aquele que não acende fogo nem realiza trabalho algum».\n\n\n\nPor vezes, os sannyāsīs (renunciantes) pensam, equivocadamente, que se libertaram de todos os compromissos materiais e que, por isso, já não precisam realizar os agni-hotra yajñas, ou sacrifícios de fogo. Trata-se de um equívoco. Certos yajñas (sacrifícios) devem ser realizados por todos, com vistas à purificação. Como dos sannyāsīs não se exige tradicionalmente que realizem yajñas, eles às vezes julgam que podem alcançar a liberação ao deixarem de realizar os yajñas ritualísticos; mas, na verdade, a menos que se alcance a plataforma da consciência de Kṛṣṇa, não há possibilidade de liberação. Aqueles sannyāsīs que deixam de realizar yajñas, de fato, agem por interesse próprio, pois sua meta é fundir-se com o Brahman impessoal. Essa é a meta última dos impersonalistas (Māyāvādīs), que têm uma exigência fundamental: tornar-se um com o Ser supremo impessoal. Os devotos não têm tais exigências. Estão simplesmente satisfeitos em servir Kṛṣṇa para a satisfação de Kṛṣṇa. Nada querem em troca. Eis a característica da devoção pura.\n\n\n\nFoi o Senhor Caitanya Mahāprabhu quem exprimiu essa atitude devocional de modo tão conciso:\n\n\n\nna dhanaṁ na janaṁ na sundarīṁ\n\nkavitāṁ vā jagad-īśa kāmaye\n\nmama janmani janmanīśvare\n\nbhavatād bhaktir ahaitukī tvayi\n\n\n\n«Ó Senhor Todo-Poderoso, não tenho desejo algum de acumular riqueza, nem de desfrutar de mulheres belas. Tampouco quero qualquer número de seguidores. O que quero é apenas a misericórdia sem causa de Teu serviço devocional em minha vida, nascimento após nascimento». (Śikṣāṣṭaka 4) Em essência, este é o sistema do bhakti-yoga. Há muitos exemplos da atitude devocional pura. Certa vez, o Senhor Nṛsiṁhadeva disse a Prahlāda Mahārāja: «Meu querido menino, sofreste tanto por Mim. Seja lá o que desejares, pede-Me». Por ser um devoto puro, Prahlāda Mahārāja recusou-se a pedir o que quer que fosse. Disse: «Meu querido Senhor, não estou realizando negócios mercantis Contigo. Não aceitarei remuneração alguma por meu serviço». Eis a atitude devocional pura.\n\n\n\nOs yogīs e os jñānīs exigem tornar-se um com o Supremo porque têm a amarga experiência de sofrer as aflições materiais. Querem fundir-se com o Senhor porque sofrem na separação. Um devoto puro, contudo, não passa por isso. Embora separado do Senhor, desfruta plenamente do serviço ao Senhor na separação. O desejo de fundir-se com o Brahman impessoal, ou de unir-se a Deus, é certamente maior do que qualquer desejo material, mas não está isento de interesse próprio. Igualmente, o yogī místico que pratica o sistema de yoga com os olhos semicerrados, cessando todas as atividades materiais, deseja alguma satisfação para si próprio. Tais yogīs cobiçam o poder material, e essa é a concepção que têm da perfeição do yoga. Na verdade, isso não é a perfeição do yoga, e sim um processo materialista.\n\n\n\nSe a pessoa pratica os princípios reguladores do yoga, pode alcançar oito tipos de perfeição. Pode tornar-se mais leve que um floco de algodão. Pode tornar-se mais pesado que uma grande pedra. Pode obter de imediato o que quer que deseje. Por vezes, pode até criar um planeta. Embora raros, tais yogīs poderosos realmente existem. Viśvāmitra Yogī quis gerar um homem a partir de uma palmeira. Pensava: «Por que um homem há de viver tantos meses dentro do ventre de sua mãe? Por que não pode ser produzido tal como um fruto?». Pensando assim, Viśvāmitra Yogī produziu homens como cocos. Às vezes, os yogīs são tão poderosos que conseguem realizar tais feitos, mas todos esses são poderes materiais. Por fim, tais yogīs acabam vencidos, pois não podem reter esses poderes materiais indefinidamente. Os bhakti-yogīs não se interessam por tais poderes.\n\n\n\nO bhakti-yogī, agindo em consciência de Kṛṣṇa, trabalha para a satisfação do todo, sem interesse próprio. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não deseja a satisfação de si própria. Pelo contrário, seu critério de êxito é a satisfação de Kṛṣṇa; por conseguinte, é considerada o sannyāsī perfeito e o yogī perfeito.\n\n\n\nUm devoto puro sequer deseja a salvação. Os salvacionistas querem ser salvos do renascimento, e os voidistas, por sua vez, também querem pôr fim a toda a vida material. Caitanya Mahāprabhu, no entanto, suplicou unicamente o serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa, nascimento após nascimento; em outras palavras, Caitanya Mahāprabhu estava disposto a suportar as misérias materiais em um corpo após outro. Qual era, então, o desejo de Caitanya Mahāprabhu? Queria ocupar-se no serviço a Deus, e nada mais, pois nisso consiste a verdadeira perfeição do yoga.\n\n\n\nQuer no céu espiritual, quer no céu material, a alma espiritual individual é, por constituição, a mesma. Diz-se que ela é a décima milésima parte da ponta de um fio de cabelo. Isso significa que nossa posição é a de uma partícula diminuta. Mas o espírito pode expandir-se. Assim como desenvolvemos um corpo material no mundo material, desenvolvemos um corpo espiritual no mundo espiritual. No mundo material, a expansão se dá em contato com a matéria. No mundo espiritual, essa expansão é espiritual.\n\n\n\nNa verdade, a primeira lição do *Bhagavad-gītā* é esta: «Sou alma espiritual. Sou diferente deste corpo». Sou uma força viva, mas este corpo material não é uma força viva. É matéria inerte, e só se ativa porque a força espiritual está presente. No mundo espiritual, tudo é força viva; não há matéria morta. Ali, o corpo é inteiramente espiritual. Pode-se comparar a alma espiritual ao óleo, e o corpo, à água. Quando o óleo está na água, há uma distinção, e essa distinção sempre permanece. No céu espiritual, não há que se falar em óleo colocado na água. Ali, tudo é espírito.\n\n\n\nOs impersonalistas não querem desenvolver um corpo. Desejam simplesmente permanecer como partículas espirituais, e essa é a ideia que têm de felicidade. Mas nós, os bhakti-yogīs (Vaiṣṇavas), queremos servir Kṛṣṇa, e, para isso, precisamos de mãos, pernas e todas as demais partes do corpo. De fato, recebemos esses corpos a fim de servir Kṛṣṇa. Assim como desenvolvemos um corpo material no ventre de nossa mãe, podemos desenvolver, de modo semelhante, um corpo espiritual no mundo espiritual.\n\n\n\nO corpo espiritual desenvolve-se mediante a prática da consciência de Kṛṣṇa. Este corpo material é espiritualizado por este processo do bhakti-yoga. Se colocarmos um ferro no fogo, o ferro se aquece a tal ponto que também se torna ígneo. Quando está em brasa, adquire todas as qualidades do fogo. Se tocarmos algo com esse ferro, ele agirá como fogo. De modo semelhante, embora este corpo seja material, pode espiritualizar-se mediante a consciência de Kṛṣṇa e agir como espírito. Embora o cobre seja apenas um metal, assim que entra em contato com a eletricidade, eletrifica-se, e, se a pessoa o tocar, levará um choque elétrico.\n\n\n\nTão logo o corpo se espiritualiza, a atividade material cessa. Atividade material significa agir para a gratificação dos sentidos. À medida que a pessoa se espiritualiza, as exigências materiais minguam até reduzirem-se a nada. Como isso é possível? Para que um ferro aja como fogo, deve permanecer constantemente em contato com o fogo. Para que o corpo material se espiritualize, é preciso permanecer constantemente em consciência de Kṛṣṇa. Quando este corpo material se ocupa plenamente em atividades espirituais, torna-se espiritual.\n\n\n\nSegundo o sistema Védico, o corpo de uma personalidade elevada, um sannyāsī, não é cremado, mas enterrado, pois se considera que o corpo de um sannyāsī é espiritual, por ter deixado de ocupar-se em atividades materiais. Se todos neste mundo se ocupassem plenamente em consciência de Kṛṣṇa e deixassem de trabalhar para a gratificação dos sentidos, o mundo inteiro se tornaria espiritual no mesmo instante. Por isso, é necessário aprender a trabalhar para a satisfação de Kṛṣṇa. Isso requer um pouco de tempo para ser compreendido. Se algo é usado para a satisfação de Kṛṣṇa, é espiritual. Visto que usamos microfones, máquinas de escrever etc. para falar e escrever sobre Kṛṣṇa, esses objetos se espiritualizam. Qual é a diferença entre o prasāda e a comida comum? Algumas pessoas dirão: «Que prasāda é esse? Estamos comendo a mesma comida. Por que o chamam de prasāda?». É prasāda porque foi oferecido para a satisfação de Kṛṣṇa e, dessa forma, espiritualizou-se.\n\n\n\nEm um sentido mais elevado, a matéria não existe de modo algum. Tudo é espiritual. Visto que Kṛṣṇa é espiritual e a matéria é uma das energias de Kṛṣṇa, a matéria também é espiritual. Kṛṣṇa é inteiramente espiritual, e o espírito provém do espírito. Contudo, como as entidades vivas fazem mau uso dessa energia — isto é, usam-na para algo diferente dos propósitos de Kṛṣṇa —, ela se materializa, e por isso a chamamos de matéria. O propósito deste movimento da consciência de Kṛṣṇa é reespiritualizar essa energia. Nosso propósito é reespiritualizar o mundo inteiro, social e politicamente. Decerto, isso talvez não seja possível, mas é o nosso ideal. Ao menos, se cada um de nós, individualmente, adotar esse processo de reespiritualização, nossa vida se tornará perfeita.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā* (9.22), Kṛṣṇa diz que provê para Seus devotos, dando-lhes aquilo de que carecem e preservando aquilo que têm. As pessoas gostam muito de dizer que Deus ajuda quem se ajuda, mas não compreendem que ajudar-se a si mesmo significa colocar-se sob a proteção de Kṛṣṇa. Se alguém pensa: «Ah, posso ajudar-me. Posso proteger-me», está pensando de modo tolo. Enquanto meu dedo estiver ligado ao meu corpo, ele é útil, e posso gastar milhares de dólares para preservá-lo. Mas, se esse dedo for cortado, torna-se inútil e é jogado fora. De modo semelhante, somos partes integrantes de Kṛṣṇa, e ajudar-nos a nós mesmos significa colocar-nos em nossa posição apropriada, como partes integrantes Dele. Caso contrário, prestamo-nos apenas a ser descartados. O dedo só consegue ajudar-se quando situado de modo apropriado na mão e trabalhando em prol do corpo inteiro. Se o dedo pensa: «Vou separar-me deste corpo e simplesmente ajudar a mim mesmo», esse dedo será descartado e morrerá. Tão logo pensemos: «Viverei independentemente de Kṛṣṇa», essa é a nossa morte espiritual, e tão logo nos ocupemos no serviço de Kṛṣṇa, como Suas partes integrantes, essa é a nossa vida espiritual. Portanto, ajudar a si mesmo significa conhecer a própria posição real e agir de acordo com ela. Não é possível ajudar a si mesmo sem conhecer a própria posição.\n\n\n\nServir significa agir, pois, quando servimos alguém, estamos agindo. Quando servimos Kṛṣṇa, estamos pregando a consciência de Kṛṣṇa, ou cozinhando, ou limpando o templo, ou distribuindo livros sobre Kṛṣṇa, ou escrevendo sobre Ele, ou comprando alimentos para oferecer-Lhe. Há tantas maneiras de servir. Ajudar Kṛṣṇa significa agir por Ele, não sentar-se em um único lugar e meditar artificialmente. Consciência de Kṛṣṇa significa atividade. Seja lá quais forem os recursos de que dispomos, devem ser utilizados para Kṛṣṇa. Esse é o processo do bhakti-yoga. Kṛṣṇa nos deu uma mente, e devemos utilizá-la para pensar em Kṛṣṇa. Recebemos estas mãos, e devemos usá-las para lavar o templo ou cozinhar para Kṛṣṇa. Recebemos estas pernas, e devemos usá-las para ir ao templo de Kṛṣṇa. Recebemos um nariz, e devemos usá-lo para sentir o perfume das flores que foram oferecidas a Kṛṣṇa. Mediante o processo do bhakti-yoga, ocupamos todos esses sentidos no serviço de Kṛṣṇa, e, dessa maneira, os sentidos se espiritualizam.\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā*, Arjuna recusava-se a agir, e Kṛṣṇa o inspirava a ocupar-se em atividade. O *Bhagavad-gītā* inteiro é uma inspiração para trabalhar, para ocupar-se em consciência de Kṛṣṇa, para agir em nome de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa nunca diz a Arjuna: «Meu querido amigo Arjuna, não te preocupes com esta guerra. Simplesmente senta-te e medita em Mim». Essa não é a mensagem do *Bhagavad-gītā*. Não devemos abster-nos de toda atividade, mas apenas daquelas atividades que impedem nossa consciência de Kṛṣṇa. Meditação significa cessar toda atividade absurda. Aqueles que estão avançados em consciência de Kṛṣṇa trabalham constantemente para Kṛṣṇa.\n\n\n\nÉ somente ao filho mau que a mãe diz que se sente e nada faça. Se uma criança nada sabe fazer além de incomodar a mãe, esta lhe diz: «Meu querido filho, senta-te aqui e fica quieto». Mas, se a criança consegue trabalhar com esmero, a mãe diz: «Meu querido filho, poderias ajudar-me a fazer isto? Poderias ir ali e fazer aquilo?». Ficar quieto em um único lugar é apenas para aqueles que não sabem trabalhar com sensatez. Enquanto a criança fica sentada em um lugar, não causa transtornos. Ficar quieto significa negar o que é absurdo; não é atividade positiva. Na negação não há vida. As atividades positivas constituem a vida, e a atividade positiva é a mensagem do *Bhagavad-gītā*. A vida espiritual não é «Não faças isto». A vida espiritual é «Faze isto!». Para agir corretamente, há certas coisas que a pessoa deve saber não fazer; por isso, certas atividades são proibidas. Todo o *Bhagavad-gītā*, contudo, é «faze». Kṛṣṇa diz: «Luta por Mim». No início do *Bhagavad-gītā*, quando Arjuna disse a Kṛṣṇa: «Não lutarei», Śrī Kṛṣṇa disse:\n\n\n\nkutas tvā kaśmalam idaṁ\n\nviṣame samupasthitam\n\nanārya-juṣṭam asvargyaṁ\n\nakīrti-karam arjuna\n\n\n\n«Meu querido Arjuna, de onde te vieram essas impurezas? Não são de modo algum próprias de um homem que conhece os valores progressivos da vida. Não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia». (Bg. 2.2) Kṛṣṇa diz diretamente a Arjuna que ele está falando como um não Āryan, isto é, como alguém que não conhece os valores espirituais da vida. Assim sendo, consciência de Kṛṣṇa não significa ficar sentado em ociosidade.\n\n\n\nO próprio Kṛṣṇa não fica sentado em ociosidade. Todos os Seus passatempos estão repletos de atividade. Quando formos ao mundo espiritual, veremos que Kṛṣṇa está sempre ocupado em dançar, comer e desfrutar. Ele não se senta para meditar. Há algum relato das gopīs meditando? Acaso Caitanya Mahāprabhu sentou-se para meditar? Não; Ele estava sempre dançando e cantando Hare Kṛṣṇa. A alma espiritual é naturalmente ativa. Como poderíamos ficar sentados em silêncio, sem fazer nada? Não é possível. Por isso, depois que Śrī Kṛṣṇa expôs o sistema de sāṅkhya-yoga no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, Arjuna declarou com franqueza:\n\n\n\nyo 'yaṁ yogas tvayā proktaḥ\n\nsāmyena madhusūdana\n\netasyāhaṁ na paśyāmi\n\ncañcalatvāt sthitiṁ sthirām\n\n\n\n«Ó Madhusūdana [Kṛṣṇa], o sistema de yoga que resumiste afigura-se-me impraticável e insuportável, pois a mente é inquieta e instável». (Bg. 6.33) Embora Arjuna fosse muito elevado e fosse o amigo íntimo de Kṛṣṇa, recusou-se de imediato a adotar esse sistema de sāṅkhya-yoga. Em essência, disse: «Isso não me é possível». Como poderia ter sido possível? Arjuna era um guerreiro, um chefe de família, e queria um reino. Que tempo tinha ele para meditação? Recusou taxativamente praticar esse tipo de yoga meditativo, dizendo que a mente é tão difícil de controlar quanto o vento (Bg. 6.34). Isso é um fato. Não é possível controlar a mente artificialmente; por conseguinte, devemos ocupar a mente em consciência de Kṛṣṇa. Então ela fica controlada. Se Arjuna achou esse processo mais difícil do que controlar o vento, que dizer de nós? Afinal, Arjuna não era um homem comum. Conversava pessoalmente com o Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa, e proclamou que a mente é como um grande vento. Como podemos controlar o vento? Só podemos controlar a mente fixando-a nos pés de lótus de Kṛṣṇa. Essa é a perfeição da meditação.\n\n\n\nNinguém deseja, de fato, sentar-se para meditar. E por que deveríamos? Fomos feitos para a atividade positiva, para a recreação, para o prazer. Em consciência de Kṛṣṇa, nossa recreação é dançar e cantar, e, quando nos cansamos, tomamos prasāda. Acaso é difícil dançar? Acaso é difícil cantar? Não cobramos nada para dançar no templo. Se a pessoa vai a um salão de baile, tem de pagar a entrada, mas nós não cobramos. É natural desfrutar de música, dança e alimentos saborosos. Essas são as nossas recreações, e este é o nosso método de meditação. De modo que esse sistema de yoga não é nada trabalhoso. É simplesmente recreação, susukham. Afirma-se no Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* (9.2) que este yoga é susukham — muito ditoso. «É eterno, e se pratica com alegria». É natural, automático e espontâneo. É a nossa verdadeira vida no mundo espiritual.\n\n\n\nEm Vaikuṇṭha, o mundo espiritual, não há ansiedade. Vaikuṇṭha significa «ausência de ansiedade», e, em Vaikuṇṭha, as almas liberadas estão sempre dançando, cantando e tomando prasāda. Não há fábricas, nem trabalho árduo, nem instituições técnicas. Não há necessidade dessas coisas artificiais. No *Vedānta-sūtra* afirma-se: ānandamayo 'bhyāsāt: Deus é ānandamaya, pleno de bem-aventurança e prazer. Visto que somos partes integrantes de Deus, também possuímos essas mesmas qualidades. Assim, a meta do nosso processo de yoga é unir-nos ao supremo ānandamaya, Śrī Kṛṣṇa, juntar-nos à Sua festa de dança. Só então seremos realmente felizes.\n\n\n\nNesta Terra, tentamos ser felizes artificialmente e, por conseguinte, ficamos frustrados. Uma vez que nos situemos em consciência de Kṛṣṇa, reviveremos nossa posição original e nos tornaremos simplesmente jubilosos. Visto que nossa verdadeira natureza é ānandamaya, bem-aventurada, estamos sempre à procura de felicidade. Nas cidades, somos inundados de anúncios. Restaurantes, bares, clubes noturnos e salões de baile estão sempre anunciando: «Venham, aqui há ānanda. Aqui há prazer». Isso porque todos buscam ānanda, prazer. Nossa sociedade para a consciência de Kṛṣṇa também anuncia: «Aqui há ānanda», mas o nosso padrão de prazer é muito diferente. Em todo caso, a meta — o prazer — é a mesma.\n\n\n\nA maioria das pessoas anda à caça de prazer na grosseira plataforma material. As mais avançadas buscam prazer na especulação, na filosofia, na poesia ou na arte. O bhakti-yogī, todavia, busca o prazer na plataforma transcendental, e essa é sua única ocupação. Por que as pessoas trabalham tão arduamente o dia inteiro? Pensam: «Esta noite, hei de desfrutar. Esta noite, encontrar-me-ei com esta moça ou com minha esposa». Assim, as pessoas se dão a tanto trabalho para obter um pouco de prazer. O prazer é a meta última, mas, infelizmente, sob a ilusão, as pessoas não sabem onde se há de encontrar o verdadeiro prazer. O verdadeiro prazer existe eternamente na forma transcendental de Kṛṣṇa.\n\n\n\nTalvez já tenhais visto imagens de Kṛṣṇa, e, se assim for, tereis notado que Kṛṣṇa está sempre jovial. Se vos unirdes à Sua companhia, também vos tornareis joviais. Já vistes alguma vez imagens de Kṛṣṇa operando uma máquina? Já vistes alguma vez imagens de Kṛṣṇa fumando? Não; por natureza, Ele é pleno de prazer, e, se vos desabrochardes desse modo, também encontrareis prazer. O prazer não pode ser encontrado artificialmente.\n\n\n\nānanda-cinmaya-rasa-pratibhāvitābhis\n\ntābhir ya eva nija-rūpatayā kalābhiḥ\n\ngoloka eva nivasaty akhilātma-bhūto\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n«Adoro Govinda, o Senhor primordial, que reside em Sua própria morada, Goloka, com Rādhā, que se assemelha à Sua própria figura espiritual, a personificação da potência extática dotada das sessenta e quatro atividades artísticas, em companhia de Suas confidentes (sakhīs), personificações das extensões de Sua forma corpórea, permeada e vitalizada por Seu sempre bem-aventurado rasa espiritual». (Brahma-saṁhitā 5.37)\n\n\n\nA palavra rasa significa «gosto» ou «sabor». Desfrutamos dos doces ou dos caramelos por causa de seu sabor. Todos procuram desfrutar de algum sabor, e queremos desfrutar do sexo porque nele há algum sabor. Esse é o chamado ādi, o sabor original. Os sabores materiais são distintos, porque se experimentam e logo se esgotam. Os sabores materiais duram apenas alguns minutos. A pessoa pode pegar um caramelo, prová-lo e dizer: «Ah, está muito bom», mas precisa provar outro para prosseguir no desfrute. O sabor material não é ilimitado, mas o sabor verdadeiro não tem fim. O sabor espiritual não pode ser esquecido; vai sempre aumentando. Ānandāmbudhi-vardhanam. Caitanya Mahāprabhu diz: «Este sabor está sempre aumentando». O sabor espiritual é como o oceano, no sentido de que é muito vasto. O oceano Pacífico está sempre agitado, mas não aumenta. Por ordem de Deus, o oceano não se estende além de seu limite, e, se o fizesse, haveria uma catástrofe. O Senhor Caitanya Mahāprabhu diz que há outro oceano, um oceano de bem-aventurança transcendental, um oceano que está sempre aumentando. Ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ/ sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam. Ao cantar Hare Kṛṣṇa, nossa potência de prazer aumenta cada vez mais.\n\n\n\nAquele que realizou Śrī Kṛṣṇa vive sempre em Vṛndāvana, Vaikuṇṭha. Embora um devoto possa parecer estar vivendo em algum lugar distante de Vṛndāvana, ele vive sempre em Vṛndāvana, pois sabe que Kṛṣṇa está presente em toda parte, mesmo dentro do átomo. O Senhor Supremo é maior que o maior e menor que o menor. Uma vez que estejamos plenamente realizados e estabelecidos na consciência de Kṛṣṇa, nunca perderemos Kṛṣṇa de vista, e nossa bem-aventurança estará sempre aumentando. Este é o verdadeiro sistema de yoga, o bhakti-yoga, tal como o expôs o próprio Senhor Śrī Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*."}
{"ref": "pop/2", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/2/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "2. O domínio da mente e dos sentidos", "purport": "yaṁ sannyāsam iti prāhur\n\nyogaṁ taṁ viddhi pāṇḍava\n\nna hy asannyasta-saṅkalpo\n\nyogī bhavati kaścana\n\n\n\n«Aquilo que se chama renúncia é o mesmo que yoga, ou seja, vincular-se ao Supremo, pois ninguém pode tornar-se yogī a menos que renuncie ao desejo de gratificação dos sentidos». (Bg. 6.2)\n\n\n\nEste é o verdadeiro propósito da prática do yoga. A palavra yoga significa «unir». Embora por natureza sejamos partes integrantes do Supremo, em nosso estado condicionado agora nos encontramos separados. Por causa dessa separação, somos relutantes em compreender Deus e em falar de nossa relação com Ele, e até nos inclinamos a julgar que tal discussão seja uma perda de tempo. Em uma igreja ou em um templo de consciência de Kṛṣṇa, falamos de Deus, mas as pessoas em geral não se interessam muito. Julgam que é uma perda de tempo, uma espécie de recreação em nome do avanço espiritual, e creem que esse tempo poderia ser mais bem empregado em ganhar dinheiro ou em divertir-se em um clube noturno ou em um restaurante.\n\n\n\nPor conseguinte, é devido ao gozo dos sentidos que não nos sentimos atraídos por Deus, e por isso se diz que aqueles que são viciados no gozo dos sentidos não podem tornar-se yogīs, isto é, não são aptos a participar do sistema de yoga. Ninguém pode avançar em nenhum sistema de yoga se se entrega à gratificação dos sentidos e depois se senta para tentar meditar. Isso é apenas um embuste colossal. Tal atividade contraditória carece de sentido. Antes de tudo, yoga significa controlar os sentidos: yama-niyama. Há oito etapas de yoga: yama, niyama, āsana, dhyāna, dhāraṇā, prāṇāyāma, pratyāhāra e samādhi.\n\n\n\nNeste Sexto Capítulo, no qual o Senhor fala do sistema de sāṅkhya-yoga, Ele afirma desde o princípio que ninguém pode tornar-se yogī a menos que renuncie ao desejo de gratificação dos sentidos. De modo que, se a pessoa satisfaz os próprios sentidos, não pode ser aceita como yogī. O yoga exige estrito celibato. No sistema de yoga, não há vida sexual. Se a pessoa se entrega ao sexo, não pode ser yogī. Muitos supostos yogīs vêm da Índia aos Estados Unidos e dizem: «Sim, podes fazer o que bem quiseres. Podes ter toda a vida sexual que quiseres. Apenas medita. Eu te darei um mantra, e tu me darás algum dinheiro». Tudo isso é um disparate. Segundo as declarações autorizadas de Śrī Kṛṣṇa, ninguém pode tornar-se yogī a menos que renuncie ao desejo de gratificação dos sentidos. Isso se afirma explicitamente como a primeira condição para a prática do yoga.\n\n\n\nārurukṣor muner yogaṁ\n\nkarma kāraṇam ucyate\n\nyogārūḍhasya tasyaiva\n\nśamaḥ kāraṇam ucyate\n\n\n\n«Para aquele que é neófito no sistema óctuplo de yoga, diz-se que o trabalho é o meio; e para aquele que já alcançou o yoga, diz-se que a cessação de todas as atividades materiais é o meio». (Bg. 6.3) Segundo este verso, há aqueles que tentam alcançar a etapa de perfeição e aqueles que já a alcançaram. Enquanto a pessoa não estiver situada na plataforma de perfeição, deve ocupar-se em muitos trabalhos. No Ocidente, há muitas sociedades de yoga que tentam praticar o sistema de āsana, e por isso se exercitam em sentar-se em diferentes posturas. Isso pode ajudar, mas é apenas um processo pelo qual se pode alcançar a verdadeira plataforma. O verdadeiro sistema de yoga, em sua etapa de perfeição, é muito diferente dessas ginásticas corporais.\n\n\n\nÉ importante compreender, contudo, que, desde o princípio, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa encontra-se situada na plataforma da meditação, pois está sempre pensando em Kṛṣṇa. Por estar constantemente ocupada no serviço de Kṛṣṇa, considera-se que ela cessou todas as atividades materiais.\n\n\n\nyadā hi nendriyārtheṣu\n\nna karmasv anuṣajjate\n\nsarva-saṅkalpa-san nyāsī\n\nyogārūḍhas tadocyate\n\n\n\n«Diz-se que uma pessoa alcançou o yoga quando, tendo renunciado a todos os desejos materiais, não age para a gratificação dos sentidos nem se ocupa em atividades fruitivas». (Bg. 6.4)\n\n\n\nEsta é, de fato, a etapa de perfeição do yoga, e diz-se que aquele que a alcançou alcançou o yoga. Isso significa que ele se conectou, uniu ou vinculou ao todo supremo. Se uma peça se desconecta de uma máquina, não cumpre função alguma, mas, tão logo se acopla apropriadamente à máquina, funciona devidamente e desempenha suas diversas funções. Esse é o significado do yoga: unir-se ao todo supremo, servir em conjunção com a máquina total. Atualmente, estamos desconectados, e nossas atividades fruitivas materiais não passam de uma perda de tempo. Aquele que se ocupa em tal atividade é descrito no *Bhagavad-gītā* como mūḍha, isto é, um canalha. Embora alguém ganhe milhares de dólares por dia e seja um empresário importante, é descrito no *Bhagavad-gītā* como mūḍha, canalha, pois está simplesmente desperdiçando seu tempo em comer, dormir, defender-se e acasalar-se.\n\n\n\nAs pessoas não se detêm a considerar que, na verdade, trabalham muito arduamente para nada. Aquele que ganha milhões de dólares não pode, de fato, comer muito mais do que um homem que ganha dez dólares. Um homem que ganha milhões de dólares não pode acasalar-se com milhões de mulheres. Isso não está em seu poder. Sua capacidade de acasalamento é a mesma de quem ganha dez dólares, assim como sua capacidade de comer é a mesma. Em outras palavras, nosso poder de desfrute é limitado. A pessoa deveria, portanto, pensar: «Meu desfrute é o mesmo do homem que ganha dez dólares por dia. Então, por que estou trabalhando tão arduamente para ganhar milhões de dólares? Por que estou desperdiçando minha energia? Eu deveria empregar meu tempo e minha energia em compreender Deus. Esse é o propósito da vida». Se a pessoa não tem problemas econômicos, tem tempo suficiente para compreender a consciência de Kṛṣṇa. Se desperdiça esse tempo precioso, é chamada de mūḍha, um canalha ou um asno.\n\n\n\nSegundo o verso anterior, diz-se que uma pessoa alcançou o yoga quando renunciou a todos os desejos materiais. Uma vez que estejamos perfeitamente situados no yoga, ficamos satisfeitos. Já não experimentamos desejos materiais. Já não agimos para a gratificação dos sentidos nem nos ocupamos em atividade fruitiva. Quando falamos de «atividade fruitiva», referimo-nos a atividades realizadas com o propósito da gratificação dos sentidos. Isto é, ganhamos dinheiro a fim de gratificar nossos sentidos. Se a pessoa é virtuosa, ocupa-se em atividades piedosas: doa dinheiro a obras de caridade, abre hospitais, escolas etc. Embora estas sejam, decerto, atividades virtuosas, em última análise destinam-se à gratificação dos sentidos. Como assim? Se eu doar a uma instituição de ensino, por exemplo, receberei boas facilidades educacionais e me tornarei altamente instruído em minha próxima vida. Sendo assim instruído, alcançarei uma boa posição e adquirirei uma boa soma de dinheiro. E como, então, utilizarei esse dinheiro? Para a gratificação dos sentidos. Assim, essas atividades virtuosas e fruitivas formam uma espécie de ciclo.\n\n\n\nOuvimos com frequência a expressão «um padrão de vida melhor», mas o que isso significa? Diz-se que o padrão de vida nos Estados Unidos é superior ao da Índia, mas, em ambos os países, há comer, dormir, defender-se e acasalar-se. Decerto, nos Estados Unidos, a qualidade da comida pode ser melhor, mas o processo de comer está presente. Um padrão de vida superior não significa uma realização espiritual superior. Significa apenas comer, dormir, acasalar-se e defender-se melhor. Isso se chama atividade fruitiva, e baseia-se na gratificação dos sentidos.\n\n\n\nO yoga nada tem a ver com a gratificação dos sentidos nem com a atividade fruitiva. Yoga significa conectar-se com o Supremo. Dhruva Mahārāja submeteu-se a austeridades severas a fim de ver Deus, e, quando finalmente O viu, disse: svāmin kṛtārtho 'smi varaṁ na yāce: «Meu querido Senhor, estou agora plenamente satisfeito. Não peço nada mais. Não desejo de Ti benção alguma a mais». Por que Dhruva Mahārāja não pediu bênçãos? O que é uma «benção»? Em geral, benção significa receber um grande reino, uma bela esposa, alimentos saborosos e assim por diante; mas, quando a pessoa está realmente conectada com Deus, não deseja tais «bênçãos». Sente-se plenamente satisfeita. Svāmin kṛtārtho 'smi varaṁ na yāce.\n\n\n\nNa verdade, Dhruva Mahārāja inicialmente buscou Deus a fim de obter o reino de seu pai. A mãe de Dhruva Mahārāja fora rejeitada pelo pai dele, e sua madrasta ressentia-se de que ele se sentasse no colo do pai. De fato, ela o proibiu de sentar-se no colo do pai, porque Dhruva Mahārāja não nascera de seu ventre. Embora tivesse apenas cinco anos, Dhruva Mahārāja era um kṣatriya, e tomou isso como um grande insulto. Indo até sua própria mãe, disse: «Mãe, minha madrasta insultou-me, proibindo-me de sentar no colo de meu pai». Dhruva Mahārāja, então, pôs-se a chorar, e sua mãe disse: «Meu querido menino, que posso fazer? Teu pai ama tua madrasta mais do que me ama. Nada posso fazer». Dhruva Mahārāja, então, disse: «Mas eu quero o reino de meu pai. Dize-me como posso obtê-lo». «Meu querido menino», disse sua mãe, «se Kṛṣṇa, Deus, te abençoar, poderás obtê-lo». «Onde está Deus?», perguntou Dhruva Mahārāja. «Ah, diz-se que Deus está na floresta», respondeu sua mãe. «Os grandes sábios vão à floresta em busca de Deus».\n\n\n\nAo ouvir isso, Dhruva Mahārāja foi diretamente à floresta e começou a realizar penitências severas. Por fim, viu Deus, e, quando O viu, já não desejou o reino de seu pai. Em vez disso, disse: «Meu querido Senhor, eu andava em busca de algumas pedrinhas, mas, em lugar delas, encontrei joias valiosas. Já não me importa o reino de meu pai. Agora estou plenamente satisfeito». Quando a pessoa está realmente conectada com Deus, sente-se totalmente satisfeita. Sua satisfação é infinitamente maior do que o suposto desfrute neste mundo material. Essa é a satisfação que resulta da realização de Deus, e essa é a perfeição do yoga.\n\n\n\nQuando uma pessoa se ocupa plenamente no transcendental serviço amoroso ao Senhor, sente-se contente em si mesma e, por conseguinte, já não se ocupa na gratificação dos sentidos nem em atividades fruitivas. De outro modo, é forçoso ocupar-se na gratificação dos sentidos, pois não se pode viver sem ocupação. É impossível cessar toda atividade. Como se afirmou antes, é nossa natureza, como entidades vivas, agir. Diz-se: «Mente ociosa, oficina do diabo». Se não tivermos uma ocupação em consciência de Kṛṣṇa, ocupar-nos-emos na gratificação dos sentidos ou em atividade fruitiva. Se uma criança não recebe instrução nem educação, ela se estraga. Se a pessoa não pratica o sistema de yoga, se não tenta controlar os sentidos pelo processo do yoga, ocupará os sentidos em sua própria gratificação. Quando se está gratificando os sentidos, não há que se falar em praticar yoga.\n\n\n\nSem consciência de Kṛṣṇa, é forçoso buscar sempre atividades egocêntricas, ou de egoísmo estendido. Mas uma pessoa consciente de Kṛṣṇa pode fazer tudo para a satisfação de Kṛṣṇa e, dessa forma, permanecer perfeitamente desapegada da gratificação dos sentidos. Aquele que não realizou Kṛṣṇa deve tentar, mecanicamente, escapar dos desejos materiais antes de poder elevar-se ao degrau mais alto da escada do yoga.\n\n\n\nPode-se comparar o sistema de yoga a uma escada de degraus. Um yogī pode estar situado no quinto degrau, outro yogī no quinquagésimo, e ainda outro no quingentésimo. O propósito, é claro, é alcançar o topo. Embora a escada inteira possa ser chamada de sistema de yoga, aquele que está no quinto degrau não é igual àquele que se acha mais acima. No *Bhagavad-gītā*, Śrī Kṛṣṇa delineia diversos sistemas de yoga: karma-yoga, jñāna-yoga, dhyāna-yoga e bhakti-yoga. Todos esses sistemas estão conectados a Deus, Kṛṣṇa, assim como a escada inteira está conectada ao andar mais alto. Isso não quer dizer que todos os que praticam o sistema de yoga se encontrem situados no andar mais alto; somente aquele que está em plena consciência de Kṛṣṇa se acha assim situado. Os demais se encontram em diferentes degraus da escada yóguica.\n\n\n\nuddhared ātmanātmānaṁ\n\nnātmānam avasādayet\n\nātmaiva hy ātmano bandhur\n\nātmaiva ripur ātmanaḥ\n\n\n\n«O homem deve elevar-se por meio de sua própria mente, e não degradar-se. A mente é a amiga da alma condicionada, e também sua inimiga». (Bg. 6.5) A palavra ātmā denota corpo, mente e alma, conforme as diferentes circunstâncias. No sistema de yoga, a mente e a alma condicionada são especialmente importantes. Visto que a mente é o ponto central da prática do yoga, ātmā aqui se refere à mente. O propósito do sistema de yoga é controlar a mente e afastá-la do apego aos objetos dos sentidos. Enfatiza-se aqui que a mente deve ser de tal modo treinada que possa livrar a alma condicionada do atoleiro da nesciência.\n\n\n\nNo sistema de aṣṭāṅga-yoga, esses oito yogas — dhyāna, dhāraṇā etc. — destinam-se a controlar a mente. Śrī Kṛṣṇa afirma explicitamente que o homem deve utilizar sua mente para elevar-se. A menos que se possa controlar a mente, não há que se falar em elevação. O corpo é como uma quadriga, e a mente é o condutor. Se disseres a teu condutor: «Por favor, leva-me ao templo de Kṛṣṇa», o condutor te levará para lá; mas, se lhe disseres: «Por favor, leva-me àquela loja de bebidas», irás para lá. É tarefa do condutor levar-te aonde quer que desejes. Se puderes controlar o condutor, ele te levará aonde deves ir; mas, caso contrário, acabará levando-te aonde ele bem quiser. Se não tens controle sobre teu condutor, teu condutor é teu inimigo; mas, se ele age conforme tuas ordens, é teu amigo.\n\nO sistema de yoga destina-se a controlar a mente de tal maneira que ela aja como nossa amiga. Por vezes, a mente age como amiga e, por vezes, como inimiga. Como somos partes integrantes do Supremo, que possui independência infinita, temos uma independência diminuta, ou finita. É a mente que controla essa independência e, por conseguinte, ela tanto pode levar-nos ao templo de Kṛṣṇa quanto a algum clube noturno.\n\n\n\nO propósito deste movimento de consciência de Kṛṣṇa é fixar a mente em Kṛṣṇa. Quando a mente está assim fixa, não pode senão agir como nossa amiga. Não tem margem para agir de outro modo. Tão logo Kṛṣṇa Se assenta na mente, há luz, assim como, quando o sol está no céu, a escuridão se desvanece. Kṛṣṇa é como o sol, e, quando Ele está presente, não há lugar para a escuridão. Se mantivermos Kṛṣṇa em nossa mente, a escuridão de māyā jamais poderá penetrar. Manter a mente fixa em Kṛṣṇa é a perfeição do yoga. Se a mente está firmemente fixa no Supremo, não permitirá que nenhuma insensatez entre, e não haverá queda. Se a mente é forte, o condutor é forte, e podemos ir aonde quer que desejemos. Todo o sistema de yoga tem por finalidade fortalecer a mente, torná-la incapaz de desviar-se do Supremo.\n\n\n\nSa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ. Deve-se fixar a mente em Kṛṣṇa, tal como o fez Ambarīṣa Mahārāja quando teve uma contenda com um grande aṣṭāṅga-yogī chamado Durvāsā Muni. Visto que Ambarīṣa Mahārāja era chefe de família, era um homem de negócios. Isso significa que tinha de levar em conta libras, xelins e pences, ou dólares e centavos. Além de ser chefe de família, Mahārāja Ambarīṣa era também um grande rei e devoto. Durvāsā Muni era um grande yogī que, por acaso, sentia muita inveja de Mahārāja Ambarīṣa. Durvāsā Muni pensava: «Eu sou um grande yogī e posso viajar pelo espaço. Este homem é um rei comum e não possui tais poderes yóguicos. Ainda assim, as pessoas lhe prestam mais honras. Por que será? Vou lhe dar uma boa lição». Durvāsā Muni passou, então, a buscar uma disputa com Mahārāja Ambarīṣa, mas, como o rei estava sempre pensando em Kṛṣṇa, conseguiu derrotar esse grande yogī. Em consequência, Nārāyaṇa orientou Durvāsā Muni a refugiar-se aos pés de Mahārāja Ambarīṣa. Durvāsā Muni era um yogī tão perfeito que, no transcurso de um ano, podia percorrer todo o universo material e também penetrar no universo espiritual. De fato, foi diretamente à morada de Deus, Vaikuṇṭha, e viu a própria Personalidade de Deus. Não obstante, Durvāsā Muni era tão fraco que teve de retornar à Terra e prostrar-se aos pés de Mahārāja Ambarīṣa. Mahārāja Ambarīṣa era um rei comum, mas sua grande qualidade era que estava sempre pensando em Kṛṣṇa. Assim, sua mente estava sempre controlada, e ele se achava situado no mais alto nível de perfeição do yoga. Nós também podemos controlar a mente com grande facilidade, mantendo-a fixa nos pés de lótus de Kṛṣṇa, dentro de nós. Simplesmente por pensar em Kṛṣṇa, tornamo-nos conquistadores vitoriosos, os mais elevados yogīs.\n\n\n\nYoga indriya-saṁyamaḥ. O sistema de yoga destina-se a controlar os sentidos e, como a mente se acha acima dos sentidos, se pudermos controlar a mente, nossos sentidos ficarão automaticamente controlados. A língua pode querer comer algo impróprio, mas, se a mente é forte, pode dizer: «Não. Não podes comer isto. Só podes comer kṛṣṇa-prasāda». Dessa maneira, a língua, assim como todos os demais sentidos, pode ser controlada pela mente. Indriyāṇi parāṇy āhur indriyebhyaḥ paraṁ manaḥ [Bg. 3.42]. O corpo material compõe-se dos sentidos e, em consequência, as atividades do corpo são atividades sensoriais. Contudo, acima dos sentidos está a mente; acima da mente, a inteligência; e acima da inteligência, a alma espiritual. Se a pessoa se situa na plataforma espiritual, sua inteligência, sua mente e seus sentidos espiritualizam-se por completo. O propósito deste processo de consciência de Kṛṣṇa é tornar efetiva a espiritualização dos sentidos, da mente e da inteligência. A alma espiritual é superior a tudo, mas, por estar adormecida, outorgou uma procuração à mente volúvel. No entanto, quando a alma desperta, torna-se novamente a senhora, e a mente servil não pode mais agir de modo impróprio. Uma vez que despertamos na consciência de Kṛṣṇa, a inteligência, a mente e os sentidos não podem agir de forma insensata. Devem agir conforme os ditames da alma espiritual. Isso é espiritualização e purificação. Hṛṣīkeṇa hṛṣīkeśa-sevanaṁ bhaktir ucyate [Cc. Madhya 19.170]. Devemos servir o senhor dos sentidos com os sentidos. O Senhor Supremo chama-Se Hṛṣīkeśa, o que significa que Ele é o controlador original dos sentidos, assim como um rei é o controlador original de todas as atividades de um Estado, e os cidadãos são os controladores secundários.\n\n\n\nBhakti significa agir espiritualmente em concordância com os desejos de Hṛṣīkeśa. Como podemos agir? Visto que devemos agir com nossos sentidos, é preciso espiritualizá-los para que possamos agir corretamente. Como já se afirmou, sentar-se em meditação silenciosa significa deter a atividade indesejável, mas agir em consciência de Kṛṣṇa é transcendental. A cessação da ação insensata não é, em si mesma, a perfeição. Devemos agir perfeitamente. A menos que treinemos nossos sentidos para agir em concordância com Hṛṣīkeśa, o senhor dos sentidos, eles voltarão a ocupar-se em atividades indesejáveis, e cairemos. Por isso devemos ocupar os sentidos em ação para Kṛṣṇa e, dessa forma, permanecer firmemente fixos na consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nNa existência material, a pessoa está sujeita à influência da mente e dos sentidos. De fato, a alma pura está enredada no mundo material devido ao ego da mente, que deseja assenhorear-se da natureza material. Assim sendo, a mente deve ser treinada de modo que não se deixe atrair pelo brilho da natureza material, e dessa maneira a alma condicionada poderá salvar-se. Não devemos degradar-nos pela atração aos objetos dos sentidos. Quanto mais a pessoa se sente atraída pelos objetos dos sentidos, mais se enreda na existência material. A melhor maneira de desenredar-se é manter a mente sempre ocupada na consciência de Kṛṣṇa. A palavra hi, no verso 5 do Capítulo Seis (*Bhagavad-gītā*), emprega-se para enfatizar este ponto — a saber, que é preciso fazê-lo. Também se diz:\n\n\n\nmana eva manuṣyāṇāṁ\n\nkāraṇaṁ bandha-mokṣayoḥ\n\nbandhāya viṣayāsaṅgo\n\nmuktyai nirviṣayaṁ manaḥ\n\n\n\n«Para o homem, a mente é a causa do cativeiro e a mente é a causa da liberação. A mente absorta nos objetos dos sentidos é a causa do cativeiro, e a mente desapegada dos objetos dos sentidos é a causa da liberação». (*Viṣṇu Purāṇa* 6.7.28) A mente que está sempre ocupada na consciência de Kṛṣṇa é a causa da liberação suprema. Quando a mente está assim ocupada na consciência de Kṛṣṇa, não há possibilidade de que se ocupe na consciência de māyā. Na consciência de Kṛṣṇa, permanecemos sob a luz do sol, e não há possibilidade de que a escuridão nos obscureça.\n\n\n\nVisto que temos liberdade, ou livre-arbítrio, podemos permanecer num quarto escuro ou sair à plena luz do dia. A escolha é nossa. A escuridão pode ser erradicada pela luz, mas a luz não pode ser coberta pela escuridão. Se estamos num quarto escuro e alguém traz uma lamparina, a escuridão se desvanece. Mas não podemos levar a escuridão para a luz do sol. Isso não é possível. A escuridão simplesmente se esvairá. Kṛṣṇa sūrya-sama māyā haya andhakāra. Kṛṣṇa é como a luz do sol, e māyā é como a escuridão. Então, como pode a escuridão existir sob a luz do sol? Se nos mantivermos sempre sob a luz do sol, a escuridão não poderá agir sobre nós. Esta é toda a filosofia da consciência de Kṛṣṇa: ocupar-se sempre em atividades conscientes de Kṛṣṇa, e māyā se dissipará, assim como a escuridão se dissipa quando há luz. Isso se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.7.4):\n\n\n\nbhakti-yogena manasi\n\nsamyak praṇihite 'male\n\napaśyat puruṣaṁ pūrṇaṁ\n\nmāyāṁ ca tad-apāśrayam\n\n\n\n«Quando o sábio Vyāsadeva, sob a instrução de seu mestre espiritual, Nārada, fixou a mente, ocupando-a perfeitamente ao vinculá-la em serviço devocional (bhakti-yoga) sem nenhum traço de materialismo, Vyāsadeva viu a Absoluta Personalidade de Deus, juntamente com Sua energia externa, que se achava sob pleno controle».\n\n\n\nA palavra manasi refere-se à mente. Quando alguém é iluminado em bhakti-yoga, a mente fica completamente livre de toda contaminação (samyak praṇihite 'male). Quando Vyāsa viu a Suprema Personalidade de Deus, viu māyā em segundo plano (māyāṁ ca tad-apāśrayam). Sempre que há luz, há também a possibilidade de que a escuridão esteja presente. Isto é, a escuridão é o outro lado da luz, ou a escuridão se acha sob o abrigo da luz, assim como, se eu ergo minha mão na direção da luz, a parte superior de minha mão ficará iluminada e a parte inferior ficará na sombra. Em outras palavras, um lado é luz e o outro é escuridão. Quando Vyāsadeva viu Kṛṣṇa, o Senhor Supremo, também viu māyā, a escuridão, sob Seu abrigo.\n\n\n\nE que é essa māyā? Isso se explica no verso seguinte do *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.7.5):\n\n\n\nyayā sammohito jīva\n\nātmānaṁ tri-guṇātmakam\n\nparo 'pi manute 'narthaṁ\n\ntat-kṛtaṁ cābhipadyate\n\n\n\n«Devido à energia externa, a entidade viva, embora transcendental aos três modos da natureza material, considera-se um produto material e, desse modo, sofre as reações das misérias materiais». Assim, a energia ilusória cobriu temporariamente as almas condicionadas. E quem são essas almas condicionadas? Embora finitas, as almas espirituais condicionadas estão tão cheias de luz quanto Kṛṣṇa. O problema é que a alma condicionada se identifica com este mundo material. Isso se chama ilusão, falsa identificação com a matéria. Embora a alma espiritual individual seja transcendental, ela se ocupa em atividades impróprias sob o ditame de māyā, e isso provoca seu condicionamento, ou falsa identificação. Isto se explica com muitos detalhes no Sétimo Capítulo do Primeiro Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*.\n\n\n\nEm conclusão, nossa verdadeira posição é a de centelhas espirituais, cheias de luz. Agora estamos temporariamente cobertos por essa energia ilusória, māyā, que nos dita. Ao agir sob a influência de māyā, enredamo-nos cada vez mais na energia material. O sistema de yoga tem por propósito desenredar-nos, e a perfeição do yoga é a consciência de Kṛṣṇa. Dessa forma, a consciência de Kṛṣṇa é o meio mais eficaz pelo qual podemos desenredar-nos da influência da energia material."}
{"ref": "pop/3", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/3/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "3. Aprender a ver a Deus", "purport": "bandhur ātmātmanas tasya\n\nyenātmaivātmanā jitaḥ\n\nanātmanas tu śatrutve\n\nvartetātmaiva śatru-vat\n\n\n\n«Para aquele que conquistou a mente, a mente é a melhor das amigas; mas, para quem não logrou fazê-lo, sua própria mente será a maior inimiga». (Bg. 6.6)\n\n\n\nO propósito do sistema de yoga é fazer da mente uma amiga, em vez de uma inimiga. No contato material, a mente acha-se numa espécie de estado de embriaguez. Como se afirma no *Caitanya-caritāmṛta* (Madhya 20.117):\n\n\n\nkṛṣṇa bhuli' sei jīva-anādi-bahirmukha\n\nataeva māyā tāre deya saṁsāra-duḥkha\n\n\n\n«Ao esquecer Kṛṣṇa, a entidade viva foi atraída pelo aspecto externo do Senhor desde tempos imemoriais. Por isso a energia ilusória (māyā) inflige-lhe todo tipo de sofrimento em sua existência material». A entidade viva é constitucionalmente alma espiritual, parte integrante do Senhor Supremo. Tão logo a mente se contamina, a entidade viva, por possuir um pouco de independência, rebela-se. Nesse estado, a mente dita: «Por que haveria eu de servir Kṛṣṇa? Eu sou Deus». Assim, a pessoa labora sob uma falsa impressão, e sua vida se arruína. Tentamos conquistar muitas coisas — inclusive impérios —, mas, se não conseguimos conquistar a mente, somos uns fracassados, ainda que tenhamos conquistado um império. Mesmo sendo imperadores, teremos dentro de nós nosso maior inimigo: nossa própria mente.\n\n\n\njitātmanaḥ praśāntasya\n\nparamātmā samāhitaḥ\n\nśītoṣṇa-sukha-duḥkheṣu\n\ntathā mānāpamānayoḥ\n\n\n\n«Para aquele que conquistou a mente, a Superalma já foi alcançada, pois ele atingiu a tranquilidade. Para tal pessoa, a felicidade e a aflição, o calor e o frio, a honra e a desonra são todos iguais». (Bg. 6.7)\n\n\n\nNa verdade, cada entidade viva está destinada a acatar os ditames da Suprema Personalidade de Deus, que Se encontra no coração de todos como Paramātmā. Quando a mente se deixa desviar pela energia ilusória externa, a pessoa se enreda em atividades materiais. Assim sendo, tão logo a mente é controlada mediante um dos sistemas de yoga, considera-se que a pessoa já chegou ao destino. É preciso acatar um ditame superior. Quando a mente se fixa na natureza superior, não tem outra alternativa senão seguir os ditames do Supremo. A mente deve admitir algum ditame superior e segui-lo. Quando a mente é controlada, a pessoa segue automaticamente os ditames do Paramātmā, ou Superalma. Visto que esta posição transcendental se alcança de imediato por quem se acha em consciência de Kṛṣṇa, o devoto do Senhor não é afetado pelas dualidades da existência material — aflição e felicidade, frio e calor etc. Este estado denomina-se samādhi, ou absorção no Supremo.\n\n\n\njñāna-vijñāna-tṛptātmā\n\nkūṭa-stho vijitendriyaḥ\n\nyukta ity ucyate yogī\n\nsama-loṣṭrāśma-kāñcanaḥ\n\n\n\n«Diz-se que uma pessoa está estabelecida na autorrealização e é chamada yogī [ou místico] quando se acha plenamente satisfeita em virtude do conhecimento e da percepção adquiridos. Tal pessoa acha-se na transcendência e tem domínio de si mesma. Vê tudo — sejam seixos, pedras ou ouro — da mesma maneira». (Bg. 6.8)\n\n\n\nO conhecimento livresco, sem a percepção da Verdade Suprema, é inútil. Isto se afirma da seguinte maneira:\n\n\n\nataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi\n\nna bhaved grāhyam indriyaiḥ\n\nsevonmukhe hi jihvādau\n\nsvayam eva sphuraty adaḥ\n\n[BRS. 1.2.234]\n\n\n\n«Ninguém pode compreender a natureza transcendental do nome, da forma, da qualidade e dos passatempos de Śrī Kṛṣṇa por meio de seus sentidos materialmente contaminados. Somente quando a pessoa se satura espiritualmente mediante o serviço transcendental ao Senhor é que o nome, a forma, a qualidade e os passatempos transcendentais do Senhor se lhe revelam». (*Padma Purāṇa*)\n\n\n\nHá homens nos modos da bondade, da paixão e da ignorância e, para resgatar todas essas almas condicionadas, existem dezoito *Purāṇas*. Seis *Purāṇas* destinam-se àqueles que se acham no modo da bondade, seis àqueles que estão no modo da paixão e seis àqueles que se encontram no modo da ignorância. O *Padma Purāṇa* foi escrito para aqueles que se acham no modo da bondade. Como há muitos tipos diferentes de homens, existem muitos rituais Védicos diferentes. Nas literaturas Védicas, encontram-se descrições de rituais e cerimônias nos quais se pode sacrificar uma cabra na presença da deusa Kālī. Isso se descreve no Mārkaṇḍeya Purāṇa, mas esse Purāṇa destina-se à instrução daqueles que se acham no modo da ignorância.\n\n\n\nÉ muito difícil que alguém abandone seus apegos de uma só vez. Se a pessoa é viciada em comer carne e, de repente, lhe dizem que não deve comê-la, ela não conseguirá fazê-lo. Se está apegada a beber bebidas alcoólicas e, de repente, lhe dizem que o álcool não presta, ela não consegue aceitar esse conselho. Por isso, nos *Purāṇas* encontramos certas instruções que, em essência, dizem: «Muito bem, se queres comer carne, simplesmente adora a deusa Kālī e sacrifica-lhe uma cabra. Só então poderás comer carne. Não podes comer carne pelo simples fato de comprá-la no açougue. Não, deve haver sacrifício ou restrição». Para sacrificar uma cabra à deusa Kālī, é preciso fazer os preparativos para uma data determinada e utilizar certa parafernália. Esse tipo de pūjā, ou adoração, permite-se na noite de lua nova, o que significa uma vez por mês. Há também certos mantras que devem ser cantados quando a cabra é sacrificada. Diz-se à cabra: «Tua vida está sendo sacrificada diante da deusa Kālī; serás, portanto, imediatamente promovida à forma humana». Geralmente, para alcançar a forma humana, uma entidade viva tem de passar por muitas espécies de vida na escala evolutiva, mas, se uma cabra é sacrificada à deusa Kālī, ela é imediatamente promovida à forma humana. O mantra diz também: «Tens o direito de matar este homem que te sacrifica». A palavra māṁsa indica que, em seu próximo nascimento, a cabra comerá a carne do homem que a sacrifica neste momento. Isso, por si só, deveria fazer com que o comedor de cabra caísse em si. Ele deveria considerar: «Por que estou comendo esta carne? Por que estou fazendo isto? Terei de pagar com minha própria carne em outra vida». A ideia, como um todo, é desencorajar a pessoa de comer carne.\n\n\n\nAssim, dado que há diferentes tipos de homens, existem dezoito *Purāṇas* para guiá-los. As literaturas Védicas destinam-se a resgatar todos os homens, não apenas alguns. Não é que aqueles que comem carne ou que bebem álcool sejam rejeitados. Um médico aceita todos os pacientes e prescreve diferentes medicamentos conforme a doença. Não é que ele dê o mesmo medicamento para todas as doenças, nem que trate uma só doença. Não, ele oferece um tipo específico de medicamento a quem quer que se apresente, e o paciente recebe um tratamento gradual. No entanto, os *Purāṇas* sátvicos, como o *Padma Purāṇa*, destinam-se àqueles que se acham no modo da bondade, àqueles que são imediatamente capazes de adorar a Suprema Personalidade de Deus.\n\n\n\nNo Brahma-saṁhitā, afirma-se: īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ [Bs. 5.1]: «O controlador supremo é Kṛṣṇa, que possui um corpo espiritual, eterno e bem-aventurado». Este é o pronunciamento Védico, e por isso aceitamos Śrī Kṛṣṇa como o Senhor Supremo. Aqueles que se acham nos modos da paixão e da ignorância tentam imaginar a forma de Deus e, quando ficam confusos, dizem: «Ah, não há um Deus pessoal. Deus é impessoal, ou vazio». Isso é apenas o resultado da frustração. Na verdade, Deus tem Sua forma. E por que não? Segundo o *Vedānta-sūtra*, janmādy asya yataḥ: [SB 1.1.1] «A Suprema Verdade Absoluta é Aquele de quem tudo emana». É fácil ver que temos diferentes tipos de corpos, diferentes tipos de formas. Devemos considerar de onde provêm essas formas. Onde se originaram essas formas? Temos de usar um pouco de bom senso. Se Deus não é uma pessoa, como podem Seus filhos ser pessoas? Se teu pai é apenas um vazio, se não é uma pessoa, como podes tu ser uma pessoa? Se teu pai não tem forma, como podes tu ter forma? Isto não é muito difícil; é apenas uma questão de bom senso. Infelizmente, como as pessoas estão frustradas, tentam imaginar alguma forma, ou concluem que, visto que esta forma material é temporária e penosa, Deus há de carecer de forma. De fato, visto que todas as formas deste mundo material hão de perecer, Deus, necessariamente, há de carecer de forma.\n\n\n\nO Brahma-saṁhitā afirma especificamente que essa concepção é um erro. Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ [Bs. 5.1]. Deus tem forma, mas Sua forma é sac-cid-ānanda-vigraha. Sat significa «eterno», cit significa «conhecimento» e ānanda significa «prazer». Deus tem forma, mas Sua forma é eterna e está cheia de conhecimento e prazer. Não podemos comparar Sua forma com a nossa. Nossa forma não é eterna, nem está cheia de prazer, nem cheia de conhecimento; por isso a forma de Deus é diferente.\n\n\n\nTão logo falamos de forma, pensamos que a forma deve ser como a nossa e, em consequência, concluímos que o Deus eterno, onisciente e completamente bem-aventurado há de carecer de forma. Isso não é conhecimento, mas o resultado de uma especulação imperfeita. Segundo o *Padma Purāṇa*, ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyaiḥ: [BRS. 1.2.234] «Não se pode compreender a forma, o nome, a qualidade nem a parafernália de Deus com os sentidos materiais». Visto que nossos sentidos são imperfeitos, não podemos especular acerca Daquele que é supremamente perfeito. Isso não é possível.\n\n\n\nEntão, como é possível compreendê-Lo? Sevonmukhe hi jihvādau. Ao treinar e purificar nossos sentidos, podemos chegar a compreender e a ver Deus. Atualmente, tentamos compreender Deus com sentidos impuros e imperfeitos. É como alguém com cataratas tentando ver. Pelo simples fato de ter cataratas, a pessoa não deve concluir que não há nada a ser visto. De modo semelhante, no presente não podemos conceber a forma de Deus, mas, uma vez removidas nossas cataratas, poderemos ver. Segundo o Brahma-saṁhitā, premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti: [Bs. 5.38] «Os devotos cujos olhos estão ungidos com o bálsamo do amor a Deus podem ver Deus dentro de seu coração vinte e quatro horas por dia». O que se requer é a purificação dos sentidos; então poderemos compreender o nome, a forma, as qualidades e os passatempos de Deus. Então seremos capazes de ver Deus em toda parte e em tudo.\n\n\n\nEstes assuntos são analisados a fundo nas literaturas Védicas. Por exemplo, diz-se que, embora Deus não tenha mãos nem pernas, Ele pode aceitar tudo o que Lhe oferecermos (apāṇi-pādo javano gṛhītā). Também se afirma que, embora Deus não tenha olhos nem ouvidos, Ele pode ver e ouvir tudo. Estas são contradições aparentes, mas se destinam a ensinar-nos uma lição importante. Quando falamos de ver, pensamos na visão material. Devido à nossa concepção material, pensamos que os olhos de Deus hão de ser como os nossos. Por isso, a fim de remover essas concepções materiais, as literaturas Védicas dizem que Deus não tem mãos, pernas, olhos, ouvidos etc. Deus tem olhos, mas Sua visão é infinita. Ele pode ver na escuridão e pode ver em toda parte ao mesmo tempo; assim, Seus olhos são diferentes. De modo semelhante, Deus tem ouvidos e pode ouvir. Ele pode estar em Seu reino, a milhões e milhões de quilômetros de distância, mas pode ouvir-nos sussurrar, porque Ele está sentado dentro de nós. Não podemos evitar que Deus nos veja, nos ouça ou nos toque.\n\n\n\npatraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ\n\nyo me bhaktyā prayacchati\n\ntad ahaṁ bhakty-upahṛtam\n\naśnāmi prayatātmanaḥ\n\n\n\n«Se alguém Me oferece, com amor e devoção, uma folha, uma flor, frutas ou água, Eu a aceitarei». (Bg. 9.26) Se Deus não tivesse sentidos, como poderia aceitar e comer as oferendas que Lhe são apresentadas? Conforme o ritual, oferecemos alimentos a Kṛṣṇa diariamente, e podemos ver que o sabor desses alimentos muda de imediato. Este é um exemplo prático. Deus come, mas, por ser pleno, não come como nós. Se eu te ofereço um prato de comida, tu o comerás, e ele se acabará. Deus não tem fome, mas come e, ao mesmo tempo, deixa o alimento tal como está, e assim ele se transforma em prasāda, Sua misericórdia. Pūrṇasya pūrṇam ādāya pūrṇam evāvaśiṣyate. Deus é pleno e, no entanto, aceita todo o alimento que Lhe oferecemos. Ainda assim, o alimento permanece tal como está. Ele pode comer com Seus olhos. Como se afirma no Brahma-saṁhitā, aṅgāni yasya sakalendriya-vṛttimanti: «Cada sentido do corpo do Senhor possui todas as potências dos demais sentidos». Embora nós possamos ver com os olhos, não podemos comer com eles. Os sentidos de Deus, contudo, por serem infinitos, são diferentes. Simplesmente por olhar para o alimento que Lhe é oferecido, Ele o come.\n\n\n\nIsso talvez não seja compreendido no presente; por conseguinte, o *Padma Purāṇa* declara que, quando alguém se satura espiritualmente ao prestar serviço transcendental ao Senhor, o nome, a forma, as qualidades e os passatempos transcendentais do Senhor se lhe revelam. Não podemos compreender Deus por nosso próprio esforço, mas, por misericórdia, Deus Se revela a nós. Se é noite e queremos ver o sol, teremos de esperar que o sol apareça pela manhã. Não se pode sair com uma grande tocha e dizer: «Vinde, eu vos mostrarei a luz do sol». Pela manhã, quando o sol nasce por sua própria vontade, podemos vê-lo. Dado que nossos sentidos são imperfeitos, não podemos ver Deus por nosso próprio esforço. Devemos purificar nossos sentidos e aguardar o momento em que Deus Se compraza em revelar-Se a nós. Esse é o processo. Não podemos desafiar Deus. Não podemos dizer: «Ó meu querido Deus, meu querido Kṛṣṇa, por favor, vem. Quero ver-Te». Não, Deus não é nosso provedor de pedidos. Ele não é nosso servo. Quando Ele Se comprouver, nós O veremos; por isso esta consciência de Kṛṣṇa é um processo pelo qual podemos comprazer Deus para que Ele Se revele a nós.\n\n\n\nComo as pessoas não conseguem ver Deus, aceitam prontamente qualquer um que diga: «Eu sou Deus». Como as pessoas não têm concepção de Deus, estão ávidas por aceitar qualquer canalha que apareça e se proclame Deus. As pessoas gostam de dizer: «Estou em busca da verdade», mas, para buscar a verdade, devemos saber o que é a verdade. De outro modo, como podemos buscá-la? Se queremos comprar ouro, devemos ao menos saber, teoricamente, o que é o ouro; do contrário, seremos enganados. Em consequência, por não terem concepção da verdade nem de Deus, as pessoas são enganadas por tantos canalhas que dizem: «Eu sou Deus». Numa sociedade de canalhas, um canalha aceita outro canalha como Deus, e tudo isso é resultado da canalhice. Mas nada disso tem que ver com Deus. A pessoa deve qualificar-se para ver e compreender Deus, e esse processo de qualificação denomina-se consciência de Kṛṣṇa. Sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ: ao ocupar-nos no serviço de Deus, qualificamo-nos para ver Deus. De outra forma, não é possível. Podemos ser grandes cientistas ou eruditos, mas nossa erudição mundana não nos ajudará a ver Deus.\n\n\n\nEste *Bhagavad-gītā* é a ciência da consciência de Kṛṣṇa e, para compreender Kṛṣṇa, devemos ter a fortuna de associar-nos com uma pessoa que se ache em consciência de Kṛṣṇa pura. Não podemos compreender o *Bhagavad-gītā* simplesmente por adquirir um mestrado, um doutorado ou o que quer que seja. O *Bhagavad-gītā* é uma ciência transcendental, e requerem-se sentidos diferentes para que possa ser compreendido. Nossos sentidos devem ser purificados mediante a prestação de serviço, não mediante a aquisição de títulos acadêmicos. Há muitos doutores, muitos eruditos, que não conseguem compreender Kṛṣṇa. Por isso Kṛṣṇa aparece no mundo material. Embora Ele seja não nascido (ajo 'pi sann avyayātmā), Ele vem revelar-Se a nós.\n\n\n\nAssim, Kṛṣṇa é compreendido pela graça de Kṛṣṇa, ou pela graça de uma pessoa consciente de Kṛṣṇa que tenha compreendido Kṛṣṇa pela graça de Kṛṣṇa. Não podemos compreendê-Lo mediante o conhecimento acadêmico. Só podemos compreender Kṛṣṇa adquirindo a graça de Kṛṣṇa. Uma vez que adquirimos Sua graça, podemos vê-Lo, falar com Ele — fazer tudo o que desejarmos. Não é que Kṛṣṇa seja um vazio. Ele é uma pessoa, a Pessoa Suprema, e podemos ter uma relação com Ele. Essa é a injunção Védica. Nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām: «Todos nós somos pessoas eternas, e Deus é a pessoa eterna suprema». Todos nós somos eternos, e Deus é o eterno supremo. Atualmente, por estarmos enjaulados dentro destes corpos, experimentamos nascimento e morte, mas, na verdade, estamos além do nascimento e da morte. Somos almas espirituais eternas, mas, conforme nosso trabalho e nossos desejos, transmigramos de um corpo a outro. Isso se explica no Segundo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (2.20):\n\n\n\nna jāyate mriyate vā kadācin\n\nnāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ\n\najo nityaḥ śāśvato 'yaṁ purāṇo\n\nna hanyate hanyamāne śarīre\n\n\n\n«Para a alma, jamais há nascimento ou morte. Tampouco, tendo existido uma vez, ela deixa jamais de existir. É não nascida, eterna, sempre existente, imorredoura e primordial. Não é morta quando se mata o corpo».\n\n\n\nAssim como Deus é eterno, nós também somos eternos e, quando estabelecemos nossa relação eterna com o supremo, completo e eterno, percebemos nossa eternidade. Nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām. Deus é a entidade viva suprema entre todas as entidades vivas, o eterno supremo entre todos os eternos. Mediante a consciência de Kṛṣṇa, mediante a purificação dos sentidos, este conhecimento será percebido, e chegaremos a ver Deus.\n\n\n\nUma pessoa consciente de Kṛṣṇa possui conhecimento percebido, pela graça de Kṛṣṇa, porque se sente satisfeita com o serviço devocional puro. Mediante o conhecimento percebido, a pessoa torna-se perfeita. Pelo conhecimento transcendental, a pessoa pode permanecer firme em suas convicções, mas, mediante o mero conhecimento acadêmico, ela pode ser facilmente iludida e confundida por contradições aparentes. É a alma realizada que verdadeiramente tem domínio de si mesma, porque se entregou a Kṛṣṇa. Ela é transcendental porque nada tem que ver com a erudição mundana. Para ela, a erudição mundana e a especulação mental, que podem parecer ouro a outros, não têm maior valor que seixos ou pedras.\n\n\n\nMesmo que alguém seja analfabeto, pode perceber Deus simplesmente por ocupar-se em serviço amoroso transcendental e submisso. Deus não está sujeito a nenhuma condição material. Ele é espírito supremo, e o processo de percebê-Lo está também além das considerações materiais. Assim sendo, alguém pode ser um erudito muito instruído e, ainda assim, não conseguir compreender Deus. Não se deve pensar que, por ser muito pobre, não se pode perceber Deus; tampouco se deve pensar que se pode perceber Deus apenas por ser muito rico. Deus pode ser compreendido por uma pessoa sem instrução e mal compreendido por uma pessoa com grande instrução. A compreensão de Deus, assim como o próprio Deus, é incondicional (apratihata).\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.2.6), afirma-se:\n\n\n\nsa vai puṁsāṁ paro dharmo\n\nyato bhaktir adhokṣaje\n\nahaituky apratihatā\n\nyayātmā suprasīdati\n\n\n\n«A ocupação suprema (dharma) para toda a humanidade é aquela mediante a qual os homens podem alcançar o amoroso serviço devocional ao Senhor transcendente. Tal serviço devocional deve ser desprovido de motivação e ininterrupto, a fim de satisfazer plenamente o ser». Cultivar o amor a Deus: essa é a definição de religião de primeira classe. Assim como há três guṇas, ou três qualidades, no mundo material, há diversas religiões, cada qual situada num dos três modos. Contudo, não nos interessa analisar essas concepções religiosas. Para nós, o propósito da religião é compreender Deus e aprender a amar Deus. Esse é o verdadeiro propósito de todo sistema religioso de primeira classe. Se uma religião não ensina o amor a Deus, é inútil. A pessoa pode seguir seus princípios religiosos com o máximo cuidado, mas, se não possui amor a Deus, sua religião é nula e sem efeito. Segundo o *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.2.6), a verdadeira religião deve ser ahaitukī e apratihatā: sem motivação egoísta e sem impedimento. Ao praticar uma religião assim, tornar-nos-emos felizes em todos os aspectos.\n\n\n\nSa vai puṁsāṁ paro dharmo yato bhaktir adhokṣaje. Outro nome de Deus é adhokṣaja, que significa «aquele que não pode ser visto mediante tentativas materialistas». Isso quer dizer que Deus frustra todas as nossas tentativas de vê-Lo materialmente. A palavra akṣaja refere-se ao conhecimento experimental, e adhaḥ significa «inalcançável». Assim, não se pode chegar a Deus mediante o conhecimento experimental. Temos de aprender a contatá-Lo de maneira diferente: mediante a escuta submissa e a prestação de amoroso serviço transcendental.\n\n\n\nA verdadeira religião ensina o amor a Deus sem causa. Ela não diz: «Amo Deus porque Ele me provê belos objetos para a gratificação dos meus sentidos». Isso não é amor. Deus é grande, Deus é nosso pai eterno, e é nosso dever amá-Lo. Não se trata de barganha nem de intercâmbio. Não devemos pensar: «Ah, Deus me dá o pão de cada dia; portanto, amo Deus». Deus dá o pão de cada dia até mesmo aos gatos e aos cães. Visto que Ele é o pai de todos, provê o alimento a todos. Assim, amar Deus pelo pão de cada dia não é amor. O amor é sem razão. Mesmo que Deus não nos provesse nosso pão de cada dia, deveríamos amá-Lo. Esse é o verdadeiro amor. Como disse Caitanya Mahāprabhu: āśliṣya vā pāda-ratāṁ pinaṣṭu mām adarśanān marma-hatāṁ karotu vā: «Não conheço ninguém senão Kṛṣṇa como meu Senhor, e Ele continuará a sê-lo, mesmo que me trate rudemente em Seu abraço ou me parta o coração ao não Se apresentar diante de mim. Ele é completamente livre para fazer tudo e qualquer coisa, pois é sempre meu Senhor adorável, incondicionalmente». Esse é o sentimento de quem se acha estabelecido no amor puro a Deus. Quando alcançarmos essa etapa de amor a Deus, descobriremos que tudo está cheio de prazer; Deus está cheio de prazer, e nós também estamos cheios de prazer.\n\n\n\nsuhṛn-mitrāry-udāsīna-\n\nmadhyastha-dveṣya-bandhuṣu\n\nsādhuṣv api ca pāpeṣu\n\nsama-buddhir viśiṣyate\n\n\n\n«Diz-se que uma pessoa está ainda mais avançada quando considera a todos por igual — o benquerente honesto, os amigos e os inimigos, o invejoso, o piedoso, o pecador e aqueles que são indiferentes e imparciais — com equanimidade». (Bg. 6.9) Este é um sinal de verdadeiro avanço espiritual. Neste mundo material, consideramos as pessoas amigas e inimigas com base na plataforma corporal, isto é, com base na gratificação dos sentidos. Se alguém gratifica nossos sentidos, é nosso amigo, e, se não, é nosso inimigo. No entanto, uma vez que tenhamos percebido Deus, ou a Verdade Absoluta, não existem tais considerações materiais.\n\n\n\nNeste mundo material, todas as almas condicionadas estão sob ilusão. Um médico trata todos os pacientes e, embora um paciente esteja delirando e insulte o médico, este não se recusa a tratá-lo. Ele continua a administrar o medicamento necessário. Como disse o Senhor Jesus Cristo, devemos odiar o pecado, não o pecador. Essa é uma afirmação muito acertada, porque o pecador está sob ilusão. Ele está louco. Se o odiamos, como podemos libertá-lo? Por isso, aqueles que são devotos avançados, que são verdadeiros servos de Deus, não odeiam ninguém. Quando o Senhor Jesus Cristo estava sendo crucificado, disse: «Meu Deus, perdoa-os. Eles não sabem o que fazem». Essa é a atitude apropriada de um devoto avançado. Ele compreende que as almas condicionadas não podem ser odiadas, porque enlouqueceram devido a seu modo materialista de pensar. Neste movimento de consciência de Kṛṣṇa, não se trata de odiar ninguém. Todos são bem-vindos a vir cantar Hare Kṛṣṇa, tomar kṛṣṇa-prasāda, ouvir a filosofia do *Bhagavad-gītā* e tentar retificar a vida material e condicionada. Este é o programa essencial da consciência de Kṛṣṇa. Por isso o Senhor Caitanya Mahāprabhu disse:\n\n\n\nyāre dekha, tāre kaha 'kṛṣṇa'-upadeśa\n\nāmāra ājñāya guru hañā tāra' ei deśa\n\n\n\n«Instrui a todos a seguir as ordens do Senhor Śrī Kṛṣṇa, tal como são dadas no *Bhagavad-gītā* e no *Śrīmad-Bhāgavatam*. Dessa maneira, torna-te mestre espiritual e tenta liberar todos nesta terra». (Cc. Madhya 7.128)\n\n\n\nyogi yuñjīta satatam\n\nātmānaṁ rahasi sthitaḥ\n\nekākī yata-cittātmā\n\nnirāśīr aparigrahaḥ\n\n\n\n«Um transcendentalista deve sempre tentar concentrar a mente no Ser Supremo; deve viver sozinho num lugar isolado e deve sempre controlar cuidadosamente a mente. Deve estar livre de desejos e de sentimentos de posse». (Bg. 6.10)\n\n\n\nNeste capítulo, no qual o Senhor ensina os princípios do sistema de yoga, Ele aqui assinala que um transcendentalista deve sempre tentar concentrar a mente no Ser Supremo. «O Ser Supremo» refere-se a Kṛṣṇa, o Senhor Supremo. Como se explicou antes (nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām), Deus é o eterno supremo, a entidade viva suprema, o Ser Supremo. O propósito de todo o sistema de yoga é concentrar a mente neste Ser Supremo. Nós não somos o Ser Supremo. Isso deve ser compreendido. O Ser Supremo é Deus. Isto é dvaita-vāda, dualidade. Dualidade significa que Deus é diferente de mim. Ele é supremo, e eu sou subordinado. Ele é grande, e eu sou pequeno. Ele é infinito, e eu sou infinitesimal. Esta é a relação entre nós e Deus, tal como devemos compreendê-la. Visto que somos infinitesimais, devemos concentrar nossa mente no infinito Ser Supremo. Para fazê-lo, devemos viver sozinhos, e «viver sozinho» significa que não devemos viver com aqueles que não são conscientes de Kṛṣṇa. O ideal é que se viva num lugar isolado, como uma floresta ou uma selva, mas, nesta era, um lugar tão isolado é muito difícil de encontrar. Por conseguinte, «lugar isolado» refere-se àquele lugar onde se ensina a consciência de Deus.\n\n\n\nO transcendentalista também deve controlar cuidadosamente a mente, e isto significa fixar a mente no Ser Supremo, ou Kṛṣṇa. Como se explicou antes, Kṛṣṇa é como o sol e, se a mente se fixa Nele, não há possibilidade de escuridão. Se Kṛṣṇa está sempre em nossa mente, māyā, ou a ilusão, jamais poderá penetrar. Este é o processo de concentração.\n\n\n\nO transcendentalista também deve estar livre de desejos e de sentimentos de posse. As pessoas estão materialmente doentes porque desejam coisas e querem possuí-las. Desejamos aquilo que não temos e lamentamos aquilo que perdemos. Brahma-bhūtaḥ prasannātmā [Bg. 18.54]. Aquele que é realmente consciente de Deus não deseja posses materiais. Tem um só desejo: servir Kṛṣṇa. Não é possível abandonar o desejo, mas é possível purificar nossos desejos. É próprio da natureza da entidade viva ter algum desejo, mas, no estado condicionado, o desejo está contaminado. Condicionada, a pessoa pensa: «Desejo satisfazer meus sentidos mediante posses materiais». O desejo purificado é o desejo de Kṛṣṇa, e, se desejarmos Kṛṣṇa, os desejos de posses materiais se desvanecerão automaticamente.\n\n\n\nśucau deśe pratiṣṭhāpya\n\nsthiram āsanam ātmanaḥ\n\nnāty-ucchritaṁ nāti-nīcaṁ\n\ncailājina-kuśottaram\n\n\n\ntatraikāgraṁ manaḥ kṛtvā\n\nyata-cittendriya-kriyaḥ\n\nupaviśyāsane yuñjyād\n\nyogam ātma-viśuddhaye\n\n\n\n«Para praticar yoga, deve-se ir a um lugar isolado e estender capim kuśa no chão, cobrindo-o em seguida com uma pele de cervo e um pano macio. O assento não deve ser nem muito alto nem muito baixo e deve estar situado num lugar sagrado. O yogī deve, então, sentar-se sobre ele com muita firmeza e praticar yoga, controlando a mente e os sentidos, purificando o coração e fixando a mente num único ponto». (Bg. 6.11–12) Nestes versos, enfatiza-se como e onde a pessoa deve sentar-se. Nos Estados Unidos e em outros países ocidentais, há muitas supostas sociedades de yoga, mas elas não praticam yoga conforme estas prescrições. «Um lugar sagrado» refere-se a um lugar de peregrinação. Na Índia, os yogīs, os transcendentalistas ou devotos saem de seus lares e residem em lugares sagrados, como Prayāga, Mathurā, Vṛndāvana, Hṛṣīkeśa e Hardwar, e, em solidão, praticam yoga onde fluem os rios sagrados, como o Yamunā e o Ganges. Então, como isso é possível nesta era? Quantas pessoas estão preparadas para encontrar um lugar tão sagrado? Para ganhar o sustento, a pessoa tem de viver numa cidade congestionada. Não há possibilidade de encontrar um lugar sagrado, mas, para a prática do yoga, esse é o primeiro requisito.\n\n\n\nPor conseguinte, neste sistema de bhakti-yoga, o templo é considerado o lugar sagrado. O templo é nirguṇa, transcendental. Segundo os *Vedas*, uma cidade está no modo da paixão, e uma floresta está no modo da bondade. O templo, todavia, é transcendental. Se vives numa cidade ou vilarejo, vives num lugar onde a paixão predomina, e, se queres escapar disso, podes ir a uma floresta, um lugar de bondade. O templo de Deus, contudo, está acima da paixão e da bondade; assim, o templo de Kṛṣṇa é o único lugar isolado para esta era. Nesta era, não é possível retirar-se a uma floresta; tampouco é útil fazer espetáculo de praticar yoga em supostas sociedades de yoga e, ao mesmo tempo, ocupar-se em insensatezes.\n\n\n\nPor isso, no Bṛhan-nāradīya Purāṇa diz-se que, em Kali-yuga, quando as pessoas geralmente têm vida curta, são lentas na realização espiritual e estão sempre perturbadas por diversas ansiedades, o melhor meio de realização espiritual é cantar os santos nomes do Senhor.\n\n\n\nharer nāma harer nāma\n\nharer nāmaiva kevalam\n\nkalau nāsty eva nāsty eva\n\nnāsty eva gatir anyathā\n\n[Adi 17.21]\n\n\n\n«Nesta era de disputa e hipocrisia, o único meio de libertação é cantar o santo nome do Senhor. Não há outro caminho. Não há outro caminho. Não há outro caminho».\n\n\n\nEsta é a solução, o grandioso presente de Caitanya Mahāprabhu. Nesta era, as demais práticas de yoga não são viáveis, mas esta prática é tão simples e universal que até uma criança pode adotá-la."}
{"ref": "pop/4", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/4/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "4. Moderação no Yoga", "purport": "Neste Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, dá-se ênfase ao sistema de sāṅkhya-yoga, que é o sistema meditativo de aṣṭāṅga-yoga. O jñāna-yoga enfatiza o processo filosófico de análise pelo qual determinamos o que é Brahman e o que não é Brahman. Esse processo é conhecido como o processo neti neti, ou \"nem isto, nem aquilo\". No princípio do *Vedānta-sūtra*, afirma-se: janmādy asya yataḥ: [SB 1.1.1] \"O Brahman Supremo, a Verdade Absoluta, é Aquele de quem tudo emana\". Trata-se de uma indicação, e a partir dela devemos tentar compreender a natureza do Brahman Supremo, de quem tudo emana. A natureza dessa Verdade Absoluta é explicada em detalhe no *Śrīmad-Bhāgavatam*.\n\n\n\nNo primeiro verso do *Śrīmad-Bhāgavatam*, afirma-se:\n\n\n\noṁ namo bhagavate vāsudevāya\n\njanmādy asya yato 'nvayād itarataś cārtheṣv abhijñaḥ svarāṭ\n\ntene brahma hṛdā ya ādi-kavaye muhyanti yat sūrayaḥ\n\ntejo-vāri-mṛdāṁ yathā vinimayo yatra tri-sargo 'mṛṣā\n\ndhāmnā svena sadā nirasta-kuhakaṁ satyaṁ paraṁ dhīmahi\n\n\n\n\"Ó meu Senhor, Śrī Kṛṣṇa, filho de Vasudeva, ó onipenetrante Personalidade de Deus, ofereço-Lhe minhas respeitosas reverências. Medito no Senhor Śrī Kṛṣṇa porque Ele é a Verdade Absoluta e a causa primordial de todas as causas da criação, manutenção e destruição dos universos manifestados. Ele é direta e indiretamente consciente de todas as manifestações, e é independente porque não há outra causa além Dele. É somente Ele quem primeiro transmitiu o conhecimento Védico ao coração de Brahmājī, o ser vivo original. Por Ele, até mesmo os grandes sábios e semideuses são lançados na ilusão, assim como a pessoa se confunde com as representações ilusórias de água vista no fogo, ou de terra vista na água. Somente graças a Ele os universos materiais, manifestados temporariamente pelas reações dos três modos da natureza, parecem reais, embora sejam irreais. Por isso, medito Nele, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, que existe eternamente na morada transcendental, a qual está para sempre livre das representações ilusórias do mundo material. Medito Nele, pois Ele é a Verdade Absoluta\".\n\n\n\nAssim, desde o início mesmo do *Śrīmad-Bhāgavatam*, proclama-se que a Verdade Absoluta é cognoscente. Ele não está morto nem é vazio. E qual é a natureza de Sua cognição? Anvayād itarataś cārtheṣu: \"Ele é direta e indiretamente cognoscente de todas as manifestações\". Em grau limitado, toda e qualquer entidade viva é cognoscente, mas não somos completamente cognoscentes. Posso afirmar: \"Esta é minha cabeça\", mas, se alguém me perguntar: \"Você sabe quantos fios de cabelo tem na cabeça?\", não conseguirei responder. Naturalmente, esse tipo de conhecimento não é transcendental, mas no *Śrīmad-Bhāgavatam* se afirma que a Suprema Verdade Absoluta sabe tudo, direta e indiretamente. Posso saber que estou comendo, mas desconheço os detalhes do processo digestivo — como exatamente meu corpo assimila os alimentos, como o sangue corre por minhas veias etc. Estou consciente de que meu corpo funciona, mas não sei como esses processos operam de maneira perfeita e todos a um só tempo. Isso ocorre porque meu conhecimento é limitado.\n\n\n\nPor definição, Deus é Aquele que sabe tudo. Ele sabe o que se passa em cada canto de Sua criação; por isso, desde o início mesmo, o *Śrīmad-Bhāgavatam* explica que a Verdade Suprema de quem tudo emana é supremamente cognoscente (abhijñaḥ). Alguém poderia perguntar: \"Se a Verdade Absoluta é tão poderosa, sábia e cognoscente, Ela há de ter adquirido esse conhecimento de algum ser semelhante\". Não é esse o caso. Se Ele adquirisse Seu conhecimento de outrem, não seria Deus. Svarāṭ. Ele é independente, e Seu conhecimento existe automaticamente.\n\n\n\nO *Śrīmad-Bhāgavatam* é a combinação suprema dos sistemas de jñāna-yoga e bhakti-yoga, pois analisa em detalhe a natureza desse Ser Supremo de quem tudo emana. Mediante o sistema de jñāna-yoga, a pessoa tenta compreender a natureza da Verdade Absoluta de maneira filosófica. No sistema de bhakti-yoga, o alvo é o mesmo. A metodologia, contudo, é algo diferente. Enquanto o jñānī tenta concentrar a mente filosoficamente no Supremo, o bhakta simplesmente se ocupa no serviço do Senhor Supremo, e o Senhor Se revela. O método do jñāna chama-se processo ascendente, e o método do bhakti chama-se processo descendente. Se nos encontramos na escuridão da noite, podemos tentar alcançar a luz do sol ascendendo num foguete poderoso. Segundo o processo descendente, porém, simplesmente esperamos o nascer do sol, e então compreendemos de imediato.\n\n\n\nMediante o processo ascendente, tentamos chegar ao Supremo por nosso próprio esforço, através do processo de indução. Por indução, podemos tentar descobrir se o homem é mortal estudando milhares de homens, buscando ver se são mortais ou imortais. Isso, evidentemente, levará muitíssimo tempo. Se, porém, eu aceito de uma autoridade superior o fato de que todos os homens são mortais, meu conhecimento é completo e imediato. Assim, afirma-se no *Śrīmad-Bhāgavatam* (10.14.29): \"Meu querido Senhor, a pessoa que recebeu um pouco de Seu favor pode compreendê-Lo muito rapidamente. Mas aqueles que tentam compreendê-Lo pelo processo ascendente podem continuar especulando por milhões de anos e ainda assim jamais compreendê-Lo\".\n\n\n\nPela especulação mental, é mais provável que a pessoa apenas chegue a um ponto de frustração e confusão e conclua: \"Oh, Deus é zero\". Mas, se Deus é zero, como tantas cifras emanam Dele? Como diz o Vedānta (janmādy asya yataḥ [SB 1.1.1]): \"Tudo se gera a partir do Supremo\". Por conseguinte, o Supremo não pode ser zero. Temos de estudar como tantas formas, tantas entidades vivas infinitas, são geradas a partir do Supremo. Isso também se explica no *Vedānta-sūtra*, que é o estudo do conhecimento último. A palavra veda significa \"conhecimento\", e anta significa \"último\". O conhecimento último é o conhecimento do Senhor Supremo.\n\n\n\nEntão, como é possível compreender a forma de Kṛṣṇa? Se se afirma que Deus não tem olhos, membros nem sentidos como os nossos, como havemos de compreender Seus sentidos transcendentais, Sua forma transcendental? Isso não é possível pela especulação mental. Simplesmente temos de servi-Lo, e então Ele Se revelará a nós. Como o próprio Kṛṣṇa afirma no Décimo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (10.11):\n\n\n\nteṣām evānukampārtham\n\naham ajñāna-jaṁ tamaḥ\n\nnāśayāmy ātma-bhāva-stho\n\njñāna-dīpena bhāsvatā\n\n\n\n\"Por compaixão por eles, Eu, que habito em seus corações, destruo com a refulgente lâmpada do conhecimento a escuridão nascida da ignorância\". Kṛṣṇa está dentro de nós, e quando O buscamos sinceramente pelo processo devocional, Ele Se revelará.\n\n\n\nNovamente, como se afirma no Décimo Oitavo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (18.55):\n\n\n\nbhaktyā mām abhijānāti\n\nyāvān yaś cāsmi tattvataḥ\n\ntato māṁ tattvato jñātvā\n\nviśate tad-anantaram\n\n\n\n\"Pode-se compreender a Suprema Personalidade tal como Ela é unicamente mediante o serviço devocional. E quando, por tal devoção, a pessoa se encontra em plena consciência do Senhor Supremo, pode entrar no reino de Deus\". Assim, Deus há de ser compreendido por este processo de bhakti-yoga, que é o processo de śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ [SB 7.5.23] — ouvir e cantar acerca de Viṣṇu. Este é o princípio do processo de bhakti-yoga. Se apenas ouvirmos com sinceridade e submissão, compreenderemos. Kṛṣṇa Se revelará. Śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam arcanaṁ vandanaṁ dāsyam. Há nove processos diferentes no sistema de bhakti-yoga. Mediante vandanam, oferecemos orações, e isso também é bhakti. Śravaṇam é ouvir sobre Kṛṣṇa a partir do *Bhagavad-gītā*, do *Śrīmad-Bhāgavatam* e de outros śāstras. Kīrtanam é cantar Suas glórias, cantar o mantra Hare Kṛṣṇa. Este é o princípio do processo de bhakti-yoga. Śravaṇam kīrtanaṁ viṣṇoḥ [SB 7.5.23]. Tudo é Viṣṇu, e a meditação recai em Viṣṇu. Não é possível haver bhakti sem Viṣṇu. Kṛṣṇa é a forma original de Viṣṇu (kṛṣṇas tu bhagavān svayam: \"Kṛṣṇa é a forma original da Suprema Personalidade de Deus\"). Se apenas seguirmos este processo de bhakti-yoga, deveremos ser capazes de compreender o Supremo, e todas as dúvidas se dissiparão.\n\n\n\nO processo de aṣṭāṅga-yoga é descrito com muita especificidade no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (6.13–14):\n\n\n\nsamaṁ kāya-śiro-grīvam-\n\ndhārayann acalaṁ sthiraḥ\n\nsamprekṣya nāsikāgraṁ svaṁ\n\ndiśaś cānavalokayan\n\n\n\npraśāntātmā vigata-bhīr\n\nbrahmacāri-vrate sthitaḥ\n\nmanaḥ saṁyamya mac-citto\n\nyukta āsīta mat-paraḥ\n\n\n\n\"Deve-se manter o corpo, o pescoço e a cabeça eretos em linha reta e fixar o olhar firmemente na ponta do nariz. Assim, com a mente serena e subjugada, livre de temor e completamente liberta da vida sexual, deve-se meditar em Mim dentro do coração e fazer de Mim a meta última da vida\". Yoga não significa ir a alguma aula, pagar algum dinheiro, dedicar-se à ginástica e depois voltar para casa para beber, fumar e ocupar-se em sexo. Tal yoga é praticado por sociedades de trapaceiros e de trapaceados. O sistema autorizado de yoga é aqui descrito pela autoridade suprema, o próprio Śrī Kṛṣṇa. Há porventura yogī melhor que *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*? Antes de tudo, é preciso ir sozinho a um lugar sagrado e sentar-se em linha reta, mantendo o corpo, o pescoço e a cabeça eretos, e fixar o olhar firmemente na ponta do nariz. Por quê? Este é um método para ajudar a concentrar a mente. Isso é tudo. O verdadeiro propósito do yoga, contudo, é manter-se sempre consciente de que o Senhor Kṛṣṇa está dentro de si.\n\n\n\nUm dos perigos de sentar-se em meditação e olhar fixamente para a ponta do nariz é a pessoa adormecer. Tenho visto muitos supostos meditadores sentados desse modo e roncando. Tão logo a pessoa fecha os olhos, é natural sentir sonolência; por isso recomenda-se que os olhos fiquem entreabertos. Assim, diz-se que se deve olhar para a ponta do nariz. Com a visão assim concentrada, a mente deve estar subjugada e serena. Na Índia, o yogī muitas vezes vai à selva para praticar tal meditação em solidão. Mas, na selva, o yogī pode pensar: \"Talvez venha algum tigre ou alguma serpente. O que é esse ruído?\". Dessa maneira, sua mente pode agitar-se; por isso afirma-se especialmente que o yogī deve estar \"livre de temor\". Recomenda-se especialmente uma pele de cervo como yoga-āsana, pois ela contém uma propriedade química que repele as serpentes; assim, o yogī não será perturbado por elas. Seja como for — serpentes, tigres ou leões —, só se pode estar verdadeiramente livre de temor quando se está estabelecido em consciência de Kṛṣṇa. Devido à memória pervertida, a alma condicionada é naturalmente temerosa. O temor advém de esquecer a relação eterna que se tem com Kṛṣṇa. Segundo o *Śrīmad-Bhāgavatam* (11.2.37): bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syād īśād apetasya viparyayo 'smṛtiḥ. A consciência de Kṛṣṇa fornece a única base verdadeira para a ausência de temor; por conseguinte, a prática perfeita do yoga não é possível para quem não é consciente de Kṛṣṇa.\n\n\n\nO yogī também deve estar \"completamente liberto da vida sexual\". Se a pessoa se entrega ao sexo, não consegue concentrar-se; por isso recomenda-se o brahmacarya, o celibato completo, para tornar a mente firme. Ao praticar o celibato, cultiva-se a determinação. Um exemplo moderno de tal determinação é o de Mahatma Gandhi, que estava decidido a resistir ao poderoso império britânico por meio da não-violência. Naquela época, a Índia dependia dos britânicos, e o povo não tinha armas. Os britânicos, por serem mais poderosos, facilmente debelavam qualquer revolução violenta que o povo tentasse. Por isso, Gandhi recorreu à não-violência, à não-cooperação. \"Não lutarei contra os britânicos\", declarou ele, \"e, ainda que reajam com violência, permanecerei não violento. Dessa forma, o mundo simpatizará conosco\". Tal política exigia grande dose de determinação, e a determinação de Gandhi era muito firme porque ele era um brahmacārī. Embora tivesse filhos e esposa, renunciou ao sexo aos trinta e seis anos. Foi essa renúncia sexual que lhe permitiu ser tão determinado a ponto de conseguir dirigir seu país e expulsar os britânicos da Índia.\n\n\n\nAssim, abster-se do sexo permite à pessoa ser muito determinada e poderosa. Não é necessário fazer mais nada. Este é um segredo de que as pessoas não se dão conta. Se você quiser realizar algo com determinação, há de abster-se do sexo. Independentemente do processo — seja haṭha-yoga, bhakti-yoga, jñāna-yoga ou qualquer outro —, a gratificação sexual não é permitida. O sexo só é permitido aos chefes de família que desejam gerar bons filhos e criá-los em consciência de Kṛṣṇa. O sexo não se destina ao gozo dos sentidos, embora o prazer esteja aí por natureza. Se não houvesse algum prazer, por que alguém haveria de assumir a responsabilidade de gerar filhos? Esse é o segredo do dom da natureza, mas não devemos tirar proveito dele. Estes são os segredos da vida. Ao tirar proveito e nos entregarmos à vida sexual, estamos simplesmente desperdiçando nosso tempo. Se alguém lhe diz que você pode entregar-se ao sexo quanto quiser e, ao mesmo tempo, tornar-se um yogī, está enganando você. Se algum suposto guru lhe diz que lhe dê dinheiro em troca de algum mantra e que você pode prosseguir entregando-se a toda espécie de disparates, está apenas enganando você. Como queremos algo sublime e, ainda assim, queremo-lo barato, colocamo-nos em posição de sermos enganados. Isso significa que, na verdade, queremos ser enganados. Se queremos algo valioso, devemos pagar por ele. Não podemos esperar entrar numa joalheria e exigir a joia mais valiosa por meros dez centavos. Não, devemos pagar caríssimo. De modo semelhante, se queremos a perfeição no yoga, devemos pagar abstendo-nos do sexo. A perfeição no yoga não é algo pueril, e o *Bhagavad-gītā* nos instrui que, se tentarmos transformar o yoga em algo pueril, seremos enganados. Há muitos trapaceiros à nossa espera, dispostos a tomar nosso dinheiro, sem nada nos dar, e depois ir embora. Mas, segundo a declaração autorizada de Śrī Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*, deve-se estar \"completamente liberto da vida sexual\". Estando livre do sexo, deve-se \"meditar em Mim dentro do coração e fazer de Mim a meta última da vida\". Esta é a verdadeira meditação.\n\n\n\nKṛṣṇa não recomenda a meditação no vazio. Ele afirma especificamente: \"Medita em Mim\". O viṣṇu-mūrti está situado no coração da pessoa, e a meditação Nele é o objeto do yoga. Este é o sistema de sāṅkhya-yoga, tal como foi praticado primeiramente pelo Senhor Kapiladeva, uma encarnação de Deus. Sentando-se ereto, fixando o olhar firmemente na ponta do nariz, subjugando a mente e abstendo-se do sexo, a pessoa pode ser capaz de concentrar a mente no viṣṇu-mūrti situado dentro do coração. Quando nos referimos à forma de Viṣṇu, ou viṣṇu-mūrti, referimo-nos a Śrī Kṛṣṇa.\n\n\n\nNeste movimento da consciência de Kṛṣṇa, estamos meditando diretamente em Śrī Kṛṣṇa. Este é um processo de meditação prática. Os membros deste movimento concentram suas mentes em Kṛṣṇa, independentemente de sua ocupação particular. A pessoa pode estar trabalhando no jardim e cavando a terra, mas está pensando: \"Estou cultivando belas rosas para oferecer a Kṛṣṇa\". A pessoa pode estar cozinhando na cozinha, mas está sempre pensando: \"Estou preparando alimentos saborosos para oferecer a Kṛṣṇa\". De modo semelhante, cantar e dançar no templo são formas de meditar em Kṛṣṇa. Assim, os rapazes e moças desta Sociedade para a Consciência de Kṛṣṇa são yogīs perfeitos, pois meditam em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia. Estamos ensinando o sistema perfeito de yoga, não conforme nossos caprichos pessoais, mas conforme a autoridade do *Bhagavad-gītā*. Nada é inventado nem fabricado. Os versos do *Bhagavad-gītā* estão aí, à vista de todos. As atividades dos bhakti-yogīs neste movimento são moldadas de tal modo que os praticantes não conseguem deixar de pensar em Kṛṣṇa a todo momento. \"Medita em Mim dentro do coração e faze de Mim a meta última da vida\", diz Śrī Kṛṣṇa. Este é o sistema perfeito de yoga, e quem o pratica prepara-se para ser transferido a Kṛṣṇaloka.\n\n\n\nyuñjann evaṁ sadātmānaṁ\n\nyogī niyata-mānasaḥ\n\nśāntiṁ nirvāṇa-paramāṁ\n\nmat-saṁsthām adhigacchati\n\n\n\n\"Assim, praticando constante controle do corpo, da mente e das atividades, o transcendentalista místico alcança o reino de Deus [ou a morada de Kṛṣṇa] mediante a cessação da existência material\". (Bg. 6.15)\n\n\n\nAfirma-se em sânscrito neste verso, śāntiṁ nirvāṇa-paramām; isto é, alcança-se a paz mediante nirvāṇa-paramām, ou a cessação das atividades materiais. Nirvāṇa não se refere ao vazio, mas a pôr fim às atividades materialistas. Enquanto não se lhes puser fim, não há possibilidade de paz. Quando Hiraṇyakaśipu perguntou a seu filho de cinco anos, Prahlāda Mahārāja: \"Meu querido filho, qual é a melhor coisa que você aprendeu até agora?\", Prahlāda respondeu de imediato, tat sādhu manye 'sura-varya dehināṁ sadā samudvigna-dhiyām asad-grahāt [SB 7.5.5]: \"Meu querido pai, ó maior dos demônios, as pessoas materialistas estão sempre cheias de ansiedade porque aceitaram como real aquilo que não é permanente\". A palavra asad-grahāt é importante, pois indica que os materialistas estão sempre ávidos por capturar ou possuir algo que não é permanente. A história nos oferece muitos exemplos. O senhor Kennedy era um homem muito rico que desejava tornar-se presidente, e gastou enorme quantia de dinheiro para alcançar essa posição elevada. No entanto, embora tivesse uma boa esposa, filhos e a presidência, tudo se acabou num segundo. No mundo material, as pessoas estão sempre tentando capturar algo que não é permanente. Infelizmente, as pessoas não caem em si nem percebem: \"Eu sou permanente. Sou alma espiritual. Por que estou ávido por algo que não é permanente?\".\n\n\n\nEstamos sempre ocupados em adquirir confortos para este corpo, sem considerar que hoje, amanhã ou daqui a cem anos este corpo terá chegado ao fim. No que toca ao verdadeiro \"eu\": \"Sou alma espiritual. Não tenho nascimento. Não tenho morte. Qual é, então, minha função adequada?\". Quando agimos na plataforma material, ocupamo-nos em funções corporais; por isso Prahlāda Mahārāja diz que as pessoas estão ansiosas porque todas as suas atividades têm por alvo capturar e possuir algo não permanente. Todas as entidades vivas — homens, bestas, aves ou o que sejam — estão sempre cheias de ansiedade, e esta é a doença material. Se estamos sempre cheios de ansiedade, como podemos alcançar a paz? As pessoas podem viver numa casa muito bonita, mas à frente colocam placas que dizem: \"Cuidado com o cão\" ou \"Proibida a entrada\". Isso significa que, embora vivam confortavelmente, têm a ansiedade de que alguém venha importuná-las. Sentado num escritório e ganhando um ótimo salário, o homem está sempre pensando: \"Ah, tomara que eu não perca esta posição\". A nação norte-americana é muito rica, mas, por causa disso, tem de manter uma enorme força de defesa. Quem, então, está livre de ansiedade? A conclusão é que, se queremos paz sem ansiedade, devemos chegar à consciência de Kṛṣṇa. Não há alternativa.\n\n\n\nA fim de alcançar a paz, devemos meditar em Kṛṣṇa, e, ao meditar em Kṛṣṇa, podemos controlar o corpo. A primeira parte do corpo a controlar é a língua, e a parte seguinte são os genitais. Quando estes são controlados, tudo é controlado. A língua é controlada cantando e comendo kṛṣṇa-prasāda. Tão logo a língua é controlada, o estômago é controlado, e, em seguida, controlam-se os genitais. Na verdade, controlar o corpo e a mente é um processo muito simples. Quando a mente está fixa em Kṛṣṇa e não tem outra ocupação, controla-se automaticamente. As atividades devem estar sempre centradas em trabalhar para Kṛṣṇa — jardinagem, datilografia, culinária, limpeza, o que for. Ao ocupar o corpo, a mente e as atividades no serviço de Kṛṣṇa, alcança-se o nirvāṇa supremo, que reside em Kṛṣṇa. Tudo está em Kṛṣṇa; por isso não podemos encontrar paz fora das atividades em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA meta última do yoga é, assim, explicada com toda clareza. O yoga não se destina a obter qualquer espécie de facilidade material; destina-se a possibilitar a cessação de toda a existência material. Enquanto necessitarmos de algumas facilidades materiais, nós as obteremos. Mas essas facilidades não resolverão os problemas da vida. Tenho viajado pelo mundo inteiro, e é minha opinião que os rapazes e moças norte-americanos têm as melhores facilidades materiais, mas isso significa que alcançaram a paz? Pode alguém dizer: \"Sim, tenho paz completa\"? Se assim é, por que os jovens norte-americanos estão tão frustrados e confusos?\n\n\n\nEnquanto praticarmos yoga a fim de obter alguma facilidade material, não haverá possibilidade de paz. O yoga só deve ser praticado para se compreender Kṛṣṇa. O yoga destina-se ao restabelecimento da relação perdida que temos com Kṛṣṇa. Em geral, a pessoa se filia a uma sociedade de yoga para melhorar a saúde, para reduzir a gordura. As pessoas das nações ricas comem mais, engordam e depois pagam preços exorbitantes a supostos instrutores de yoga a fim de emagrecer. As pessoas tentam emagrecer com toda essa ginástica artificial; não compreendem que, se apenas comessem verduras, frutas e cereais, jamais engordariam. As pessoas engordam porque comem vorazmente, porque comem carne. As pessoas que comem vorazmente padecem de diabetes, sobrepeso, ataques cardíacos etc., e as que comem insuficientemente padecem de tuberculose. Por isso, exige-se moderação, e moderação no comer significa que comemos apenas o necessário para manter o corpo e a alma juntos. Se comermos mais do que precisamos, ou menos, adoeceremos. Tudo isso se explica nos versos seguintes:\n\n\n\nnāty-aśnatas tu yogo 'sti\n\nna caikāntam anaśnataḥ\n\nna cāti-svapna-śīlasya\n\njāgrato naiva cārjuna\n\n\n\n\"Não há possibilidade de a pessoa tornar-se um yogī, ó Arjuna, se come demais ou come muito pouco, dorme demais ou não dorme o suficiente\". (Bg. 6.16)\n\n\n\nyuktāhāra-vihārasya\n\nyukta-ceṣṭasya karmasu\n\nyukta-svapnāvabodhasya\n\nyogo bhavati duḥkha-hā\n\n\n\n\"Aquele que é moderado em seus hábitos de comer, dormir, trabalhar e recrear-se pode mitigar todos os sofrimentos materiais praticando o sistema de yoga\". (Bg. 6.17) Não se trata de termos de passar fome. O corpo deve manter-se apto para qualquer prática; por isso é necessário comer e, segundo nosso programa, comemos apenas kṛṣṇa-prasāda. Se você consegue comer confortavelmente cinco quilos de alimento por dia, então coma-os, mas, se tentar comer cinco quilos por cobiça ou avareza, sofrerá.\n\n\n\nAssim, na prática da consciência de Kṛṣṇa, todas essas atividades estão presentes, mas estão espiritualizadas. A cessação da existência material não significa entrar no \"vazio\", que não passa de um mito. Não há vazio em parte alguma da criação do Senhor. Eu não sou vazio, mas alma espiritual. Se eu fosse vazio, como ocorreria o desenvolvimento do meu corpo? Onde está esse \"vazio\"? Se semeamos uma semente no solo, ela cresce até tornar-se uma planta ou uma grande árvore. O pai injeta uma semente no ventre da mãe, e o corpo cresce como uma árvore. Onde há vazio? No Décimo Quarto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (14.4), Śrī Kṛṣṇa afirma:\n\n\n\nsarva-yoniṣu kaunteya\n\nmūrtayaḥ sambhavanti yāḥ\n\ntāsāṁ brahma mahad yonir\n\nahaṁ bīja-pradaḥ pitā\n\n\n\n\"Deve-se compreender que todas as espécies de vida, ó filho de Kuntī, tornam-se possíveis pelo nascimento nesta natureza material, e que Eu sou o pai que dá a semente\". A semente é originalmente dada por Kṛṣṇa, depositada no ventre da natureza material, e assim se geram muitas entidades vivas. Como alguém pode argumentar contra este processo? Se a semente da existência é vazia, como se desenvolveu este corpo?\n\n\n\nNirvāṇa, na verdade, significa não aceitar outro corpo material. Não se trata de tentarmos tornar vazio este corpo. Nirvāṇa significa tornar vazio o corpo miserável, material e condicionado — isto é, converter o corpo material num corpo espiritual. Isso significa entrar no reino de Deus, que se descreve no Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (15.6):\n\n\n\nna tad bhāsayate sūryo\n\nsa śaśāṅko na pāvakaḥ\n\nyad gatvā na nivartante\n\ntad dhāma paramaṁ mama\n\n\n\n\"Essa morada Minha não é iluminada pelo sol ou pela lua, nem pela eletricidade. Quem a alcança jamais regressa a este mundo material\".\n\n\n\nLogo, não há vazio em parte alguma da criação do Senhor. Todos os planetas do céu espiritual são autoluminosos, como o sol. O reino de Deus está em toda parte, mas o céu espiritual e seus planetas são todos paraṁ dhāma, ou moradas superiores. Como se afirmou, a luz do sol, a luz da lua ou a eletricidade não são necessárias no param-dhāma. Não podemos encontrar tal morada dentro deste universo. Por mais longe que viajemos em nossas naves espaciais, não encontraremos nenhum lugar onde não haja luz solar. A luz do sol é tão extensa que permeia o universo. Por conseguinte, essa morada na qual não há luz solar, luz lunar nem eletricidade está além deste céu material. Além desta natureza material, há uma natureza espiritual. Na verdade, nada sabemos desta natureza material; nem sequer sabemos como ela se formou originalmente. Como, então, podemos saber algo sobre a natureza espiritual que está além? Temos de aprender com Kṛṣṇa, que vive lá; do contrário, permanecemos na ignorância.\n\n\n\nNeste *Bhagavad-gītā*, dá-se informação sobre o céu espiritual. Como podemos saber algo sobre aquilo que não conseguimos alcançar? Nossos sentidos são tão imperfeitos; como podemos obter conhecimento? Temos apenas de ouvir e aceitar. Como jamais saberemos quem é nosso pai, a menos que aceitemos a palavra de nossa mãe? Nossa mãe diz: \"Este é teu pai\", e temos de aceitá-lo. Não podemos determinar quem é nosso pai fazendo indagações aqui e ali ou tentando experimentar. Este conhecimento está além de nossos meios. De modo semelhante, se queremos aprender sobre o céu espiritual, o reino de Deus, temos de ouvir da autoridade, a mãe *Vedas*. Os *Vedas* são chamados veda-mātā, ou mãe *Vedas*, porque o conhecimento neles transmitido é como o conhecimento recebido da mãe. Temos de acreditar a fim de adquirir conhecimento. Não há possibilidade de adquirir este conhecimento transcendental experimentando com nossos sentidos imperfeitos.\n\n\n\nUm yogī consumado, perfeito na compreensão do Senhor Kṛṣṇa, como aqui se afirma claramente (śāntiṁ nirvāṇa-paramāṁ mat-saṁsthām adhigacchati) pelo próprio Senhor, pode alcançar a paz verdadeira e, por fim, chegar à morada suprema do Senhor. Essa morada é conhecida como Kṛṣṇaloka, ou Goloka Vṛndāvana. No Brahma-saṁhitā, afirma-se claramente (goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ [Bs. 5.37]) que o Senhor, embora resida sempre em Sua morada chamada Goloka, é também o Brahman onipenetrante e o Paramātmā localizado, em virtude de Suas energias espirituais superiores. Ninguém pode alcançar o céu espiritual nem entrar na morada eterna do Senhor (Vaikuṇṭha, Goloka Vṛndāvana) sem compreender devidamente Kṛṣṇa e Sua expansão plenária Viṣṇu. E, segundo o Brahma-saṁhitā, é necessário aprender com nossa mãe autorizada, a veda-mātā. O Brahma-saṁhitā afirma que o Senhor Supremo vive não apenas em Sua morada, Goloka Vṛndāvana, mas em toda parte: goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ [Bs. 5.37]. Ele é como o sol, que está a milhões de quilômetros de distância e, ainda assim, está presente dentro desta sala.\n\n\n\nEm conclusão, a pessoa que trabalha em consciência de Kṛṣṇa é o yogī perfeito, pois sua mente está sempre absorta nas atividades de Kṛṣṇa. Sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ. Nos *Vedas*, também aprendemos, tam eva viditvāti mṛtyum eti: \"Pode-se superar o caminho do nascimento e da morte unicamente compreendendo a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa\". Assim, a perfeição do yoga é a conquista da liberdade da existência material, e não algum malabarismo mágico ou proeza ginástica para iludir pessoas inocentes.\n\n\n\nNeste sistema de yoga, exige-se moderação; por isso se afirma que não devemos comer demais nem muito pouco, dormir demais nem muito pouco, nem trabalhar demais nem muito pouco. Todas essas atividades estão presentes porque temos de executar o sistema de yoga com este corpo material. Em outras palavras, temos de tirar o melhor proveito de um mau negócio. O corpo material é um mau negócio no sentido de que é a fonte de todas as misérias. A alma espiritual não experimenta miséria, e a condição normal da entidade viva é sua vida espiritual saudável. A miséria e a doença ocorrem devido à contaminação material, à enfermidade, à infecção. Logo, em certo sentido, a existência material é uma condição doentia da alma. E qual é essa doença? A resposta não é um grande mistério. A doença é este corpo. Este corpo, na verdade, não foi feito para mim. Pode ser \"meu\" corpo, mas é um sintoma de minha condição doentia. De todo modo, eu não deveria identificar-me com este corpo mais do que me identifico com minhas roupas. Neste mundo, estamos todos trajados de maneiras diferentes. Estamos trajados como homens vermelhos, homens morenos, homens brancos, homens negros, homens amarelos etc., ou como indianos, norte-americanos, hindus, muçulmanos, cristãos etc. Todas essas designações não são sintomáticas de nossa posição real, mas de nossa condição doentia. O sistema de yoga destina-se a curar esta doença reconectando-nos com o Supremo.\n\n\n\nEstamos destinados a estar conectados com o Supremo, assim como nossa mão está destinada a estar conectada ao nosso corpo. Somos partes integrantes do Supremo, assim como a mão é parte integrante do corpo. Quando a mão é separada do corpo, não tem valor algum, mas, quando está unida ao corpo, é inestimável. De modo semelhante, nesta condição material, estamos desconectados de Deus. Na verdade, a palavra \"desconectados\" não é precisa, pois a conexão está sempre presente. Deus está sempre suprindo todas as nossas necessidades. Visto que nada pode existir sem Kṛṣṇa, não podemos estar desconectados Dele. Antes, é melhor dizer que esquecemos que estamos conectados a Kṛṣṇa. Por causa desse esquecimento, entramos no departamento criminal do universo. O governo continua cuidando de seus criminosos, mas eles estão legalmente desconectados do estado civil. Nossa desconexão é o resultado de nos ocuparmos em tantas atividades absurdas em vez de utilizarmos nossos sentidos no desempenho de nossos deveres em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nEm vez de pensar: \"Sou o servo eterno de Deus, ou Kṛṣṇa\", estamos pensando: \"Sou o servo de minha sociedade, de meu país, de meu marido, de minha esposa, de meu cão ou do que for\". Isso se chama esquecimento. Como isso veio a acontecer? Todas essas concepções errôneas surgiram devido a este corpo. Por ter nascido nos Estados Unidos, penso que sou norte-americano. Cada sociedade ensina seus cidadãos a pensar dessa maneira. Por estar pensando que sou norte-americano, o governo dos Estados Unidos pode dizer-me: \"Venha e lute. Dê sua vida por seu país\". Tudo isso se deve à concepção corporal; por isso, a pessoa inteligente deve saber que sofre misérias devido a seu corpo e que não deve agir de tal modo que continue aprisionada dentro de um corpo material nascimento após nascimento. Segundo o *Padma Purāṇa*, há 8.400.000 espécies de vida, e todas não passam de diferentes formas de contaminação — quer se tenha um corpo norte-americano, um corpo indiano, um corpo de cão, um corpo de porco ou o que seja. Por conseguinte, a primeira instrução no yoga é: \"Eu não sou este corpo\".\n\n\n\nAlcançar a liberação da contaminação do corpo material é o primeiro ensinamento do *Bhagavad-gītā*. No Segundo Capítulo, depois que Arjuna disse a Śrī Kṛṣṇa: \"Não lutarei\", o Senhor disse: \"Enquanto profere palavras eruditas, você se lamenta por aquilo que não é digno de pesar. Os sábios não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos\". (Bg. 2.11) Em outras palavras, Arjuna estava pensando na plataforma corporal. Ele queria abandonar o campo de batalha porque não desejava lutar contra seus parentes. Todas as suas concepções estavam dentro da atmosfera corporal; por isso, depois que Arjuna aceitou Śrī Kṛṣṇa como seu mestre espiritual, o Senhor o repreendeu de imediato, assim como um mestre repreende seu discípulo a fim de ensiná-lo. Em essência, Śrī Kṛṣṇa disse a Arjuna: \"Você está falando muito sabiamente, como se soubesse muitas coisas, mas, na verdade, está dizendo tolices, porque está falando a partir da posição corporal\". De modo semelhante, pessoas em todo o mundo apresentam-se como muito avançadas em educação, ciência, filosofia, política etc., mas sua posição está na plataforma corporal.\n\n\n\nUm abutre pode elevar-se muito alto no céu — sete ou oito milhas — e é maravilhoso vê-lo voar dessa maneira. Ele também tem olhos poderosos, pois consegue avistar uma carcaça a grande distância. No entanto, qual é o objeto de todas essas grandes qualificações? Um corpo morto, uma carcaça putrefata. Sua perfeição consiste apenas em descobrir um pedaço de carne morta e comê-lo. Isso é tudo. De modo semelhante, podemos ter uma educação muito elevada, mas qual é nosso objetivo? A gratificação dos sentidos, o gozo deste corpo material. Podemos elevar-nos muito alto com nossas naves espaciais, mas qual é o propósito? A gratificação dos sentidos, isso é tudo. Isso significa que todo o empenho e toda essa educação elevada estão meramente na plataforma animal.\n\n\n\nPor conseguinte, antes de tudo, devemos saber que nossa miserável condição material se deve a este corpo. Ao mesmo tempo, devemos saber que este corpo não é permanente. Embora eu me identifique com meu corpo, minha família, minha sociedade, meu país e tantas outras coisas, quanto tempo esses objetos existirão? Não são permanentes. Asat é uma palavra que significa que deixarão de existir. Asann api kleśada āsa dehaḥ: [SB 5.5.4] \"O corpo é simplesmente problemático e impermanente\".\n\n\n\nMuitas pessoas vêm a nós dizendo: \"Swāmījī, minha situação é muito problemática\", mas, tão logo lhes sugerimos o remédio, não o aceitam. Isso significa que as pessoas querem fabricar seu próprio remédio. Por que vamos a um médico se queremos tratar a nós mesmos? As pessoas querem aceitar apenas o que consideram agradável.\n\n\n\nEmbora estejamos sugerindo que este corpo é inútil e é uma forma de contaminação, não estamos recomendando que se abuse dele. Podemos usar um automóvel para que nos leve ao trabalho, mas isso não significa que não devamos cuidar dele. Devemos cuidar do automóvel para que nos transporte de um lado a outro, mas não devemos apegar-nos tanto a ele a ponto de poli-lo todos os dias. Devemos utilizar este corpo material para executar a consciência de Kṛṣṇa e, com esse fim, devemos mantê-lo apto e saudável, mas não devemos apegar-nos demais a ele. Isso se chama yukta-vairāgya. O corpo não deve ser negligenciado. Devemos banhar-nos regularmente, comer regularmente, dormir regularmente, a fim de manter a mente e o corpo saudáveis. Algumas pessoas dizem que o corpo deve ser renunciado e que devemos tomar drogas e abandonar-nos à intoxicação, mas isso não é um processo de yoga. Kṛṣṇa nos deu alimentos saborosos — frutas, cereais, verduras e leite — e podemos preparar centenas e milhares de preparações saborosas e oferecê-las ao Senhor. Nosso processo é comer kṛṣṇa-prasāda e satisfazer a língua desse modo. Mas não devemos ser gulosos e comer dúzias de samosās, doces e rasagullās. Não. Devemos comer e dormir apenas o suficiente para manter o corpo apto, e nada mais. Afirma-se:\n\n\n\nyuktāhāra-vihārasya\n\nyukta-ceṣṭasya karmasu\n\nyukta-svapnāvabodhasya\n\nyogo bhavati duḥkha-hā\n\n\n\n\"Aquele que é moderado em seus hábitos de comer, dormir, trabalhar e recrear-se pode mitigar todos os sofrimentos materiais praticando o sistema de yoga\". (Bg. 6.17)\n\n\n\nEmbora devamos minimizar nosso comer e dormir, não devemos tentá-lo demasiado rapidamente, sob o risco de adoecermos. Como as pessoas estão acostumadas a comer vorazmente, há prescrições para o jejum. Podemos reduzir nosso dormir e comer, mas devemos manter-nos com boa saúde para fins espirituais. Não devemos tentar reduzir o comer e o dormir demasiado rápida ou artificialmente; quando avançarmos, naturalmente não sentiremos dor devido à redução desses processos corporais naturais. A esse respeito, Raghunātha dāsa Gosvāmī oferece um bom exemplo. Embora fosse filho de um homem muito rico, Raghunātha dāsa deixou seu lar para unir-se ao Senhor Caitanya Mahāprabhu. Por ser o único filho, Raghunātha dāsa era muito amado por seu pai. Ao compreender que seu filho havia ido a Jagannātha Purī unir-se ao Senhor Caitanya, o pai enviou quatro servos com dinheiro para atendê-lo. A princípio, Raghunātha aceitou o dinheiro, pensando: \"Oh, visto que meu pai enviou todo este dinheiro, vou aceitá-lo e convidar todos os sannyāsīs para um banquete\".\n\n\n\nDepois de algum tempo, contudo, os banquetes chegaram ao fim. Então, o Senhor Caitanya Mahāprabhu perguntou a Seu secretário, Svarūpa Dāmodara: \"Ultimamente, não recebo nenhum convite de Raghunātha. O que aconteceu?\".\n\n\n\n\"Isso ocorre porque Raghunātha deixou de aceitar o dinheiro de seu pai\".\n\n\n\n\"Oh, isso é muito bom\", disse Caitanya Mahāprabhu.\n\n\n\n\"Raghunātha estava pensando: 'Embora eu tenha renunciado a tudo, ainda estou desfrutando do dinheiro de meu pai. Isso é hipócrita'. Por isso, ele disse aos servos que voltassem para casa e recusou o dinheiro\".\n\n\n\n\"E como ele está vivendo?\", perguntou Caitanya Mahāprabhu.\n\n\n\n\"Oh, ele fica de pé nos degraus do templo de Jagannātha e, quando os sacerdotes passam por ele a caminho de casa, oferecem-lhe algum prasāda. Desse modo, ele se satisfaz\".\n\n\n\n\"Isso é muito bom\", comentou Caitanya Mahāprabhu.\n\n\n\nIndo regularmente ao templo de Jagannātha, o Senhor Caitanya Mahāprabhu costumava ver Raghunātha de pé nos degraus. Depois de alguns dias, contudo, deixou de vê-lo ali. Por isso, o Senhor comentou a Seu secretário: \"Já não vejo Raghunātha de pé nos degraus do templo\".\n\n\n\n\"Ele abandonou isso\", explicou Svarūpa Dāmodara. \"Ele estava pensando: 'Oh, estou aqui de pé como uma prostituta, à espera de que alguém venha e me dê alimento. Não. Não gosto disso de modo algum' \".\n\n\n\n\"Isso é muito bom\", disse Caitanya Mahāprabhu, \"mas como ele está comendo?\".\n\n\n\n\"Todos os dias ele recolhe um pouco de arroz rejeitado da cozinha e come isso\".\n\n\n\nPara encorajar Raghunātha, Caitanya Mahāprabhu visitou-o certo dia. \"Raghunātha\", disse o Senhor, \"ouvi dizer que você está comendo alimento muito saboroso. Por que não Me convida?\".\n\n\n\nRaghunātha não respondeu, mas o Senhor rapidamente encontrou o lugar onde ele guardava o arroz, e imediatamente tomou um pouco e começou a comê-lo.\n\n\n\n\"Querido Senhor\", implorou Raghunātha, \"por favor, não coma isto. Não é apropriado para o Senhor\".\n\n\n\n\"Oh, não? Por que você diz que não é apropriado para Mim? É prasāda do Senhor Jagannātha!\".\n\n\n\nO Senhor Caitanya Mahāprabhu encenou este passatempo apenas para desencorajar Raghunātha de pensar: \"Estou comendo este miserável arroz rejeitado\". Mediante o encorajamento do Senhor, Raghunātha dāsa Gosvāmī reduziu sua quantidade diária de alimento até que, por fim, comia apenas uma porção de manteiga a cada dois dias. E todos os dias também se prostrava centenas de vezes e cantava constantemente os santos nomes. Saṅkhyā-pūrvaka-nāma-gāna-natibhiḥ kālāvasānī-kṛtau.\n\n\n\nEmbora este seja um exemplo excelente de minimizar todas as necessidades materiais, não devemos tentar imitá-lo. Não é possível a um homem comum imitar Raghunātha dāsa Gosvāmī, que foi um dos seis Gosvāmīs, um associado altamente elevado do próprio Senhor Caitanya Mahāprabhu. Cada um dos seis Gosvāmīs exibiu um exemplo único de como se pode avançar em consciência de Kṛṣṇa, mas não é nosso dever imitá-los. Devemos apenas tentar seguir, na medida do possível, seus passos. Se tentarmos de imediato tornar-nos como Raghunātha dāsa Gosvāmī, imitando-o, com certeza fracassaremos, e todo o progresso que tivermos feito será derrotado. Por isso, o Senhor diz (Bg. 6.16) que não há possibilidade de a pessoa tornar-se um yogī se come demais ou muito pouco.\n\n\n\nA mesma moderação aplica-se ao sono. Atualmente, posso estar dormindo dez horas por dia, mas, se consigo manter-me apto dormindo cinco horas, por que dormir dez? No que toca ao corpo, há quatro exigências: comer, dormir, acasalar-se e defender-se. O problema da civilização moderna é que ela está tentando aumentar essas exigências, mas, ao contrário, elas deveriam ser diminuídas. Comamos o que precisarmos e durmamos quando precisarmos, e nossa saúde será excelente. Não há motivo para imitação artificial.\n\n\n\nE qual é o resultado obtido por aquele que é moderado em seus hábitos?\n\n\n\nyadā viniyataṁ cittam\n\nātmany evāvatiṣṭhate\n\nnispṛhaḥ sarva-kāmebhyo\n\nyukta ity ucyate tadā\n\n\n\n\"Quando o yogī, pela prática do yoga, disciplina suas atividades mentais e se situa na Transcendência — desprovido de todo desejo material —, diz-se que ele alcançou o yoga\". (Bg. 6.18)\n\n\n\nA perfeição do yoga significa manter a mente num estado de equilíbrio. Materialmente falando, isso é impossível. Depois de ler um romance mundano uma vez, você não desejará lê-lo de novo, mas pode ler o *Bhagavad-gītā* quatro vezes por dia e ainda assim não se cansar dele. Você pode cantar o nome de alguém por meia hora, ou cantar uma canção mundana três ou quatro vezes, mas em pouco tempo isso se torna tedioso. Hare Kṛṣṇa, contudo, pode ser cantado dia e noite, e a pessoa jamais se cansará disso. Por isso, é somente mediante a vibração transcendental que a mente pode ser mantida num estado de equilíbrio. Quando as atividades mentais da pessoa estão assim estabilizadas, diz-se que ela alcançou o yoga.\n\n\n\nA etapa perfeita do yoga foi exibida pelo rei Ambarīṣa, que utilizou todos os seus sentidos no serviço do Senhor. Como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* (9.4.18–20):\n\n\n\nsa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayor\n\nvacāṁsi vaikuṇṭha-guṇānuvarṇane\n\nkarau harer mandira-mārjanādiṣu\n\nśrutiṁ cakārācyuta-sat-kathodaye\n\n\n\nmukunda-liṅgālaya-darśane dṛśau\n\ntad-bhṛtya-gātra-sparśe 'ṅga-saṅgamam\n\nghrāṇaṁ ca tat-pāda-saroja-saurabhe\n\nśrīmat-tulasyā rasanaṁ tad-arpite\n\n\n\npādau hareḥ kṣetra-padānusarpaṇe\n\nśiro hṛṣīkeśa-padābhivandane\n\nkāmaṁ ca dāsye na tu kāma-kāmyayā\n\nyathottamaśloka-janāśrayā ratiḥ\n\n\n\n\"O rei Ambarīṣa, antes de tudo, ocupou a mente nos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa; depois, uma após outra, ocupou suas palavras em descrever as qualidades transcendentais do Senhor, suas mãos em limpar o templo do Senhor, seus ouvidos em ouvir as atividades do Senhor, seus olhos em ver as formas transcendentais do Senhor, seu corpo em tocar os corpos dos devotos, seu olfato em cheirar as fragrâncias das flores de lótus oferecidas ao Senhor, sua língua em saborear a folha de tulasī oferecida no templo do Senhor, sua cabeça em oferecer reverências ao Senhor e seus desejos em executar a missão do Senhor. Todas essas atividades transcendentais são bastante condizentes com um devoto puro\".\n\n\n\nEsta é, portanto, a perfeição do yoga, desprovida de todo desejo material. Se todos os nossos desejos são para Kṛṣṇa, não há espaço para o desejo material. Todo desejo material se encerra automaticamente. Não temos de tentar concentrar-nos artificialmente. Toda a perfeição se encontra na consciência de Kṛṣṇa, porque ela está na plataforma espiritual. Por estar na plataforma espiritual, este yoga supremo é eterno, bem-aventurado e pleno de conhecimento. Por isso, não há receios nem impedimentos materiais."}
{"ref": "pop/5", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/5/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "5. Determinação e firmeza no yoga", "purport": "yathā dīpo nivāta-stho\n\nneṅgate sopamā smṛtā\n\nyogino yata-cittasya\n\nyuñjato yogam ātmanaḥ\n\n\n\n«Assim como uma lamparina em um lugar sem vento não vacila, do mesmo modo o transcendentalista, cuja mente está controlada, permanece sempre firme em sua meditação sobre o Ser transcendente». (Bg. 6.19)\n\n\n\nSe a mente está absorta na consciência de Kṛṣṇa, permanecerá tão firme quanto a chama de uma vela situada num aposento onde não há vento. Por isso se diz que a pessoa verdadeiramente consciente de Kṛṣṇa, sempre absorta na transcendência, em constante e imperturbável meditação sobre seu Senhor adorável, é tão firme quanto uma lamparina ou uma vela em lugar sem vento. Assim como a chama não se agita, a mente não se agita, e essa firmeza é a perfeição do yoga.\n\n\n\nO estado daquele que assim se acha firmemente situado na meditação sobre o Ser transcendente, ou o Senhor Supremo, é descrito por Śrī Kṛṣṇa nos seguintes versos do *Bhagavad-gītā* (6.20–23):\n\n\n\nyatroparamate cittaṁ\n\nniruddhaṁ yoga-sevayā\n\nyatra caivātmanātmānaṁ\n\npaśyann ātmani tuṣyati\n\n\n\nsukham ātyantikaṁ yat tad\n\nbuddhi-grāhyam atīndriyam\n\nvetti yatra na caivāyaṁ\n\nsthitaś calati tattvataḥ\n\n\n\nyaṁ labdhvā cāparaṁ lābhaṁ\n\nmanyate nādhikaṁ tataḥ\n\nyasmin sthito na duḥkhena\n\nguruṇāpi vicālyate\n\n\n\ntaṁ vidyād duḥkha-saṁyoga-\n\nviyogaṁ yoga-saṁjñitam\n\n\n\n«A etapa de perfeição denomina-se transe, ou samādhi, quando a mente, mediante a prática do yoga, fica completamente refreada das atividades mentais materiais. Isso se caracteriza pela capacidade de ver o Ser com a mente pura e de deleitar-se e regozijar-se no Ser. Nesse estado de júbilo, a pessoa situa-se em ilimitada felicidade transcendental e desfruta de si mesma através dos sentidos transcendentais. Assim estabelecida, nunca se aparta da verdade e, ao alcançá-la, considera que não há ganho maior. Situada em tal posição, jamais se abala, nem mesmo em meio à maior das dificuldades. Esta é, de fato, a verdadeira liberdade de todas as misérias que surgem do contato material».\n\n\n\nSamādhi não significa tornar-se vazio nem fundir-se no vazio. Isso é impossível. Kleśo 'dhikataras teṣām avyaktāsakta-cetasām [Bg. 12.5]. Alguns yogīs dizem que se deve pôr fim a todas as atividades e tornar-se imóvel, mas como isto seria possível? Por natureza, a entidade viva é um espírito que se move e age. «Imóvel» significa pôr fim ao movimento material e fixar-se na consciência de Kṛṣṇa. Em tal estado, a pessoa já não é perturbada pelas propensões materiais. À medida que a pessoa se torna materialmente imóvel, seus movimentos na consciência de Kṛṣṇa aumentam. À medida que se torna ativa na consciência de Kṛṣṇa, torna-se automaticamente imóvel no que diz respeito às atividades materiais.\n\n\n\nTenho utilizado com frequência o exemplo de uma criança inquieta. Visto ser impossível tornar imóvel tal criança, é necessário dar-lhe alguns brinquedos ou algumas imagens para olhar. Dessa maneira, ela ficará ocupada, ou imóvel no sentido de que não cometerá alguma travessura. Mas, se realmente se deseja torná-la imóvel, é preciso dar-lhe alguma ocupação na consciência de Kṛṣṇa. Então não haverá margem para atividades travessas, devido à compreensão na consciência de Kṛṣṇa. Para ocupar-se na consciência de Kṛṣṇa, deve-se primeiro compreender: «Sou de Kṛṣṇa. Não sou esta matéria. Não pertenço a esta nação nem a esta sociedade. Não pertenço a este patife nem àquele. Sou simplesmente de Kṛṣṇa». Isto é estar imóvel; isto é conhecimento pleno, compreender nossa verdadeira posição como parte integrante de Kṛṣṇa. Como se afirma no Décimo Quinto Capítulo (Bg. 15.7), mamaivāṁśo jīva-loke: «As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas partes fragmentárias eternas». Tão logo compreendemos isto, cessamos de imediato nossas atividades materiais, e é isto o que significa estar imóvel. Neste estado, vê-se o Ser com a mente pura e deleita-se e regozija-se no Ser. «Mente pura» significa compreender: «Pertenço a Kṛṣṇa». No momento presente, a mente está contaminada porque estamos pensando: «Pertenço a isto; pertenço àquilo». A mente é pura quando compreende: «Pertenço a Kṛṣṇa».\n\n\n\nRegozijar-se no Ser significa regozijar-se com Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é a Superalma, ou o Superser. Eu sou a alma individual, ou o ser individual. O Superser e o ser desfrutam juntos. O desfrute não pode ser solitário; é preciso que sejam dois. Que experiência temos do desfrute solitário? O desfrute solitário não é possível. Desfrute significa dois: Kṛṣṇa, que é a Superalma, e a alma individual.\n\n\n\nQuem está convencido de que «sou parte integrante de Kṛṣṇa» não se perturba nem mesmo em meio às maiores dificuldades, pois sabe que Kṛṣṇa lhe concederá proteção. Isso é rendição. Para alcançar esta posição, deve-se fazer o melhor esforço, empregar a inteligência e crer em Kṛṣṇa. Bālasya neha śaraṇaṁ pitarau nṛsiṁha (Bhāg. 7.9.19). Se Kṛṣṇa não nos protege, nada pode salvar-nos. Se Kṛṣṇa nos negligencia, não há remédio, e quaisquer medidas que tomemos para tentar proteger-nos acabarão por fracassar. Pode haver muitos médicos peritos tratando um homem enfermo, mas isso não garante que ele viverá. Se Kṛṣṇa assim o desejar, a pessoa morrerá apesar dos melhores médicos e medicamentos. Por outro lado, se Kṛṣṇa nos protege, sobreviveremos mesmo sem tratamento médico algum. Quando alguém se rende plenamente a Kṛṣṇa, torna-se feliz, sabendo que, seja qual for a situação, Kṛṣṇa o protegerá. É como a criança que se rendeu plenamente a seus pais, confiante de que eles estão ali para protegê-la. Como afirma Yāmunācārya em seu Stotra-ratna (43), kadāham aikāntika-nitya-kiṅkaraḥ praharṣayiṣyāmi sanātha jīvitam: «Ó Senhor, quando me ocuparei como Teu servo permanente e eterno e sempre sentirei júbilo por ter um amo tão perfeito?». Se sabemos que há alguém muito poderoso, que é nosso patrono e salvador, acaso não somos felizes? Mas, se tentamos agir por conta própria e por nosso próprio risco, como podemos ser felizes? Felicidade significa estar em consciência de Kṛṣṇa, estar convencido de que «Kṛṣṇa me concederá proteção» e ser fiel a Kṛṣṇa. De outra maneira, não é possível ser feliz.\n\n\n\nNaturalmente, Kṛṣṇa concede proteção a todas as entidades vivas, mesmo em sua condição rebelde (eko bahūnāṁ yo vidadhāti kāmān). Sem a proteção de Kṛṣṇa, não podemos viver nem por um segundo. Quando admitimos e reconhecemos a bondade de Kṛṣṇa, tornamo-nos felizes. Kṛṣṇa nos protege a cada instante, mas não nos damos conta disso, porque assumimos a vida por nossa conta e risco. Kṛṣṇa nos concede certa medida de liberdade, dizendo: «Muito bem, faze o que quiseres. Na medida do possível, dar-te-ei proteção». Contudo, quando a entidade viva se rende plenamente a Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Se encarrega por completo e lhe concede proteção especial. Se um filho cresce e não se importa com seu pai e age livremente, o que pode fazer seu pai? Só pode dizer: «Faze o que quiseres». Mas, quando um filho se coloca inteiramente sob a proteção de seu pai, recebe maior cuidado. Como Kṛṣṇa declara no Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* (9.29):\n\n\n\nsamo 'haṁ sarva-bhūteṣu\n\nna me dveṣyo 'sti na priyaḥ\n\nye bhajanti tu māṁ bhaktyā\n\nmayi te teṣu cāpy aham\n\n\n\n«Não invejo ninguém, nem sou parcial com ninguém. Sou igual para com todos. Mas todo aquele que Me presta serviço com devoção é um amigo, está em Mim, e Eu também sou amigo dele».\n\n\n\nComo poderia Kṛṣṇa invejar alguém? Todos são filhos de Kṛṣṇa. De igual modo, como poderia Kṛṣṇa ser inimigo de alguém? Visto que todas as entidades vivas são filhos de Kṛṣṇa, Ele é amigo de todos. Infelizmente, não estamos aproveitando Sua amizade, e essa é a nossa doença. Uma vez que reconheçamos Kṛṣṇa como nosso pai e amigo eterno, poderemos compreender que Ele sempre nos protege e, dessa forma, podemos ser felizes.\n\n\n\nsa niścayena yoktavyo\n\nyogo 'nirviṇṇa-cetasā\n\nsaṅkalpa-prabhavān kāmāṁs\n\ntyaktvā sarvān aśeṣataḥ\n\nmanasaivendriya-grāmaṁ\n\nviniyamya samantataḥ\n\n\n\n«Deve-se praticar o yoga com determinação inabalável e fé, abandonar, sem exceção, todos os desejos materiais nascidos do ego falso e, assim, controlar todos os sentidos por todos os lados mediante a mente». (Bg. 6.24)\n\n\n\nComo se afirmou antes, esta determinação só pode ser alcançada por quem não se entrega ao sexo. O celibato fortalece a determinação; por isso, desde o início, Kṛṣṇa afirma que o yogī não se entrega ao sexo. Se alguém se entrega ao sexo, sua determinação será vacilante. Por conseguinte, a vida sexual deve ser controlada de acordo com as regras e regulamentos que governam o gṛhastha-āśrama, ou o sexo deve ser abandonado por completo. Na verdade, deve ser abandonado por completo, mas, se isto não for possível, deve ser controlado. Então surgirá a determinação, pois, afinal de contas, a determinação é um assunto corporal. Determinação significa continuar a praticar a consciência de Kṛṣṇa com paciência e perseverança. Se a pessoa não obtém de imediato os resultados desejados, não deve pensar: «Ah, o que é esta consciência de Kṛṣṇa? Vou abandoná-la». Não, devemos ter determinação e fé nas palavras de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA esse respeito, há um exemplo mundano. Quando uma jovem se casa, anseia de imediato por um filho. Ela pensa: «Agora estou casada. Devo ter um filho imediatamente». Mas como isto seria possível? A jovem deve ter paciência, tornar-se uma esposa fiel, servir a seu esposo e deixar que seu amor cresça. Com o tempo, por estar casada, é certo que terá um filho. De modo semelhante, quando estamos em consciência de Kṛṣṇa, nossa perfeição está garantida, mas devemos ter paciência e determinação. Devemos pensar: «Devo cumprir meus deveres e não devo ser impaciente». A impaciência deve-se à perda da determinação, e a perda da determinação deve-se ao sexo excessivo.\n\n\n\nO yogī deve ser determinado e deve prosseguir pacientemente na consciência de Kṛṣṇa sem desviar-se. Deve-se estar seguro do êxito ao final e seguir esta senda com grande perseverança, sem desanimar caso haja alguma demora no alcance do êxito. O êxito é certo para o praticante rigoroso. A respeito do bhakti-yoga, Rūpa Gosvāmī diz:\n\n\n\nutsāhān niścayād dhairyāt\n\ntat-tat-karma-pravartanāt\n\nsaṅga-tyāgāt sato vṛtteḥ\n\nṣaḍbhir bhaktiḥ prasidhyati\n\n\n\n«O processo do bhakti-yoga pode ser executado com êxito por meio de entusiasmo de todo o coração, perseverança e determinação, seguindo os deveres prescritos na associação dos devotos e ocupando-se por completo em atividades de bondade». (Upadeśāmṛta 3)\n\n\n\nQuanto à determinação, deve-se seguir o exemplo da pardoca que perdeu seus ovos nas ondas do oceano. Uma pardoca pôs seus ovos na margem do oceano, mas o grande oceano levou os ovos com suas ondas. A pardoca ficou muito aflita e pediu ao oceano que lhe devolvesse os ovos. O oceano sequer considerou seu apelo. Assim, a pardoca decidiu secar o oceano. Pôs-se a retirar a água com seu pequeno bico, e todos riam dela por sua determinação impossível. A notícia de sua atividade espalhou-se e, quando por fim Garuḍa, a gigantesca ave que transporta o Senhor Viṣṇu, ouviu falar dela, compadeceu-se de sua pequena irmã ave e veio vê-la. Garuḍa ficou muito satisfeito com a determinação da pequena pardoca e prometeu ajudá-la. Assim, Garuḍa ordenou de imediato ao oceano que devolvesse os ovos, sob pena de ele próprio assumir o trabalho da pardoca. O oceano assustou-se com isso e devolveu os ovos. Dessa maneira, a pardoca tornou-se feliz pela graça de Garuḍa.\n\n\n\nDe modo semelhante, a prática do yoga, especialmente do bhakti-yoga em consciência de Kṛṣṇa, pode parecer uma tarefa muito difícil. Mas, se alguém segue os princípios com grande determinação, o Senhor certamente o ajudará, pois Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmos.\n\n\n\nśanaiḥ śanair uparamed\n\nbuddhyā dhṛti-gṛhītayā\n\nātma-saṁsthaṁ manaḥ kṛtvā\n\nna kiñcid api cintayet\n\n\n\n«Gradualmente, passo a passo, com plena convicção, deve-se situar em transe por meio da inteligência, fixando-se assim a mente unicamente no Ser, sem pensar em mais nada». (Bg. 6.25)\n\n\n\nNós somos o ser, e Kṛṣṇa também é o Ser. Quando há luz solar, podemos ver o sol e ver-nos também a nós mesmos. Contudo, quando há densa escuridão, às vezes nem sequer podemos ver nosso próprio corpo. Embora o corpo esteja ali, a escuridão é tão densa que não posso ver a mim mesmo. Mas, quando há luz solar, posso ver a mim mesmo e também ao sol. De modo semelhante, ver o ser significa, antes de tudo, ver o Ser Supremo, Kṛṣṇa. Na Kaṭha Upaniṣad, afirma-se: nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām: «O Ser Supremo é o principal eterno de todos os eternos, e Ele é a principal entidade viva de todas as entidades vivas». Consciência de Kṛṣṇa significa fixar a mente em Kṛṣṇa, e, quando a mente assim se fixa, fixa-se no todo completo. Se cuidamos do estômago e o suprimos de alimento nutritivo, todos os membros do corpo são nutridos, e gozamos de boa saúde. De igual modo, se regamos a raiz de uma árvore, todos os ramos, folhas, flores e galhinhos são automaticamente cuidados. Ao prestarmos serviço a Kṛṣṇa, prestamos automaticamente o melhor serviço a todos os demais.\n\n\n\nComo se afirmou antes, a pessoa consciente de Kṛṣṇa não fica sentada sem fazer nada. Ela sabe que a consciência de Kṛṣṇa é uma filosofia tão importante que deve ser distribuída. Por isso, os membros desta sociedade de consciência de Kṛṣṇa não ficam simplesmente sentados no templo, mas saem em grupos de saṅkīrtana, pregando e distribuindo esta filosofia suprema. Essa é a missão de Śrī Kṛṣṇa Caitanya Mahāprabhu e de Seus discípulos. Outros yogīs podem contentar-se com a própria elevação e sentar-se em lugares isolados, praticando yoga. Para eles, o yoga não passa de um assunto pessoal. Um devoto, contudo, não se satisfaz apenas em elevar o próprio ser.\n\n\n\nvāñchā-kalpatarubhyaś ca\n\nkṛpā-sindhubhya eva ca\n\npatitānāṁ pāvanebhyo\n\nvaiṣṇavebhyo namo namaḥ\n\n\n\n«Ofereço minhas respeitosas reverências a todos os devotos Vaiṣṇavas do Senhor, que podem satisfazer os desejos de todos, assim como as árvores-dos-desejos, e que estão repletos de compaixão pelas almas caídas». O devoto manifesta grande compaixão pelas almas condicionadas. A palavra kṛpā significa «misericórdia», e sindhu significa «oceano». O devoto é um oceano de misericórdia, e naturalmente deseja distribuir essa misericórdia. O Senhor Jesus Cristo, por exemplo, era consciente de Deus, consciente de Kṛṣṇa, mas não se contentou em guardar este conhecimento para si mesmo. Tivesse ele continuado a viver sozinho em consciência de Deus, não teria padecido a crucificação. Mas não. Sendo um devoto e naturalmente compassivo, quis também cuidar dos demais, tornando-os conscientes de Deus. Embora lhe tivessem proibido pregar a consciência de Deus, ele continuou a fazê-lo ao risco da própria vida. Esta é a natureza de um devoto.\n\n\n\nPor isso se afirma no *Bhagavad-gītā* (18.68–69) que o devoto que prega é o mais querido pelo Senhor.\n\n\n\nya idaṁ paramaṁ guhyaṁ\n\nmad-bhakteṣv abhidhāsyati\n\nbhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā\n\nmām evaiṣyaty asaṁśayaḥ\n\n\n\n«Para aquele que explica o segredo supremo aos devotos, o serviço devocional está garantido e, ao final, ele voltará a Mim».\n\n\n\nna ca tasmān manuṣyeṣu\n\nkaścin me priya-kṛttamaḥ\n\nbhavitā na ca me tasmād\n\nanyaḥ priyataro bhuvi\n\n\n\n«Não há servo neste mundo mais querido para Mim do que ele, nem jamais haverá outro mais querido». Por isso, os devotos saem a pregar e, ao fazê-lo, às vezes se deparam com elementos de oposição. Ora são derrotados, ora desapontados, ora capazes de convencer, ora incapazes. Não é que todo devoto esteja bem equipado para pregar. Assim como há diferentes tipos de pessoas, há três classes de devotos. Na terceira classe estão aqueles que não têm fé. Se se ocupam no serviço devocional oficialmente, com algum propósito ulterior, não podem alcançar a etapa mais elevada de perfeição. Muito provavelmente, cairão após algum tempo. Podem ocupar-se, mas, por não terem convicção e fé completas, é-lhes muito difícil continuar na consciência de Kṛṣṇa. Temos experiência prática, no desempenho de nossa atividade missionária, de que algumas pessoas vêm e se dedicam à consciência de Kṛṣṇa com algum motivo oculto e, tão logo se acham um pouco bem situadas economicamente, abandonam este processo e retomam seus velhos hábitos. É somente pela fé que se pode avançar na consciência de Kṛṣṇa. No que diz respeito ao desenvolvimento da fé, aquele que está bem versado nas literaturas do serviço devocional e alcançou a etapa de fé firme denomina-se pessoa de primeira classe na consciência de Kṛṣṇa. E na segunda classe estão aqueles que não são muito avançados na compreensão das escrituras devocionais, mas que automaticamente têm fé firme em que kṛṣṇa-bhakti, ou o serviço a Kṛṣṇa, é o melhor caminho, e por isso, de boa fé, adotaram-no. São, assim, superiores à terceira classe, que não possui nem conhecimento perfeito das escrituras nem boa fé, mas que, por associação e simplicidade, procura seguir. A pessoa de terceira classe na consciência de Kṛṣṇa pode cair, mas, quando alguém está na segunda ou na primeira classe, não cai. Quem está na primeira classe certamente progredirá e alcançará o resultado ao final. Quanto à pessoa de terceira classe na consciência de Kṛṣṇa, embora tenha fé na convicção de que o serviço devocional a Kṛṣṇa é muito bom, não tem conhecimento de Kṛṣṇa por meio de escrituras como o *Śrīmad-Bhāgavatam* e o *Bhagavad-gītā*. Por vezes, essas pessoas de terceira classe na consciência de Kṛṣṇa têm certa tendência ao karma-yoga e ao jñāna-yoga, e por vezes se perturbam; mas, tão logo a infecção do karma-yoga ou do jñāna-yoga é vencida, tornam-se pessoas de segunda ou de primeira classe na consciência de Kṛṣṇa. A fé em Kṛṣṇa também se divide em três etapas e está descrita no *Śrīmad-Bhāgavatam*. O apego de primeira classe, o apego de segunda classe e o apego de terceira classe igualmente se explicam no *Śrīmad-Bhāgavatam*, no Décimo Primeiro Canto.\n\n\n\nSeja qual for a situação em que alguém se encontre, deve ter a determinação de sair a pregar a consciência de Kṛṣṇa. Ao menos esse esforço deve existir, e quem assim tenta pregar presta o melhor serviço ao Senhor. Apesar da oposição, deve-se procurar elevar as pessoas ao mais alto padrão de autorrealização. Quem realmente viu a verdade, quem se encontra no transe da autorrealização, não pode ficar sentado sem fazer nada. Deve sair. Rāmānujācārya, por exemplo, declarou publicamente o mantra Hare Kṛṣṇa. Não o distribuiu em segredo em troca de alguma taxa. Recentemente, um yogī indiano veio aos Estados Unidos para dar certo «mantra privado». Mas, se um mantra tem algum poder, por que haveria de ser privado? Se um mantra é poderoso, por que não deveria ser declarado publicamente, para que todos possam beneficiar-se dele? Estamos dizendo que este mahā-mantra Hare Kṛṣṇa pode salvar a todos, e por isso o estamos distribuindo publicamente, de forma gratuita. Mas, nesta era, as pessoas são tão néscias que não estão dispostas a aceitá-lo. Pelo contrário, anseiam por algum mantra secreto e por isso pagam a algum «yogī» trinta e cinco dólares ou o que seja por algum «mantra privado». Isto se deve a que as pessoas querem ser enganadas. Mas os devotos pregam sem cobrar, declarando nas ruas, nos parques e por toda parte: «Aqui! Aqui está o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa! Vinde, tomai-o!». Porém, sob o feitiço de māyā, a ilusão, as pessoas pensam: «Ah, isto não é bom». Mas, se cobras algo e ludibrias e enganas as pessoas, elas te seguirão.\n\n\n\nA esse respeito, há um verso em hindi que afirma que Kali-yuga é uma era tão abominável que, se a pessoa diz a verdade, virão e a espancarão. Mas, se ela engana, vangloria-se e mente, as pessoas ficarão deslumbradas, gostarão disso e aceitarão. Se eu disser: «Sou Deus», as pessoas dirão: «Ah, aqui está Swāmījī! Aqui está Deus!». Nesta era, as pessoas não têm capacidade intelectual suficiente para indagar: «Como te tornaste Deus? Quais são os sintomas de Deus? Tens todos esses sintomas?». Como as pessoas não fazem tais indagações, são enganadas. Por isso, é necessário estar fixo na consciência do Ser. A menos que se conheça e se compreenda o verdadeiro ser e o Superser, a pessoa será enganada. O verdadeiro yoga significa compreender este processo de autorrealização.\n\n\n\nyato yato niścalati\n\nmanaś cañcalam asthiram\n\ntatas tato niyamyaitad\n\nātmany eva vaśaṁ nayet\n\n\n\n«De tudo aquilo e de onde quer que a mente divague, devido a sua natureza vacilante e instável, deve-se com certeza retirá-la e trazê-la de volta sob o controle do Ser». (Bg. 6.26) Este é o verdadeiro processo yóguico. Se estás procurando concentrar tua mente em Kṛṣṇa, e a mente se desvia — vagando para algum cinema ou para onde quer que seja —, deves retirá-la, pensando: «Lá não, por favor. Aqui». Isto é yoga: não permitir que a mente se afaste de Kṛṣṇa.\n\n\n\nExige-se um treinamento muito intenso para manter a mente fixa em Kṛṣṇa enquanto se está sentado num lugar. Esse é, sem dúvida, um trabalho árduo. Se alguém não está bem treinado e tenta imitar este processo, certamente ficará confuso. Em vez disso, devemos sempre ocupar-nos na consciência de Kṛṣṇa, harmonizando com Kṛṣṇa tudo o que fazemos. Nossas atividades habituais devem ser moldadas de tal modo que se realizem em prol de Kṛṣṇa. Dessa forma, a mente permanecerá fixa em Kṛṣṇa. Como se afirmou antes, não devemos tentar sentar-nos e fitar a ponta de nosso nariz. No momento atual, as tentativas de ocupar-se nesse tipo de yoga são artificiais. Pelo contrário, o método recomendado é cantar em voz alta e ouvir Hare Kṛṣṇa. Então, ainda que a mente se desvie, será obrigada a concentrar-se na vibração sonora «Kṛṣṇa». Não é necessário retirar a mente de tudo; ela se retirará automaticamente, pois estará concentrada na vibração sonora. Se ouvimos passar um automóvel, nossa atenção se desvia automaticamente. De modo semelhante, se cantamos constantemente Hare Kṛṣṇa, nossa mente se fixará automaticamente em Kṛṣṇa, embora estejamos acostumados a pensar em tantas outras coisas.\n\n\n\nA natureza da mente é vacilante e instável. Mas um yogī autorrealizado deve controlar a mente; não deve ser a mente a controlá-lo. No momento presente, é a mente que nos controla (go-dāsa). A mente nos diz: «Por favor, por que não olhas para aquela moça bonita?», e assim olhamos. Diz: «Por que não bebes essa bebida tão boa?», e respondemos: «Sim». Diz: «Por que não fumas este cigarro?». «Sim», dizemos. «Por que não vais a este restaurante saborear comida tão deliciosa? Por que não fazes isto? Por que não fazes aquilo?». Dessa maneira, a mente dita, e nós obedecemos. A vida material significa ser controlado pelos sentidos, ou pela mente, que é o centro de todos os sentidos. Ser controlado pela mente significa ser controlado pelos sentidos, pois os sentidos são os auxiliares da mente. A mente, como senhora, dita: «Vai ver aquilo», e os olhos, seguindo as instruções da mente, olham para o objeto dos sentidos. A mente nos diz para irmos a certo lugar, e as pernas, sob as instruções da mente, levam-nos até lá. Assim, estar sob a direção da mente significa cair sob o controle dos sentidos. Se conseguirmos controlar a mente, não estaremos sob o controle dos sentidos. Quem está sob o controle dos sentidos é conhecido como go-dāsa. A palavra go significa «sentidos», e dāsa significa «servo». Quem é senhor dos sentidos chama-se gosvāmī, pois svāmī significa «senhor». Por isso, quem ostenta o título de gosvāmī é aquele que dominou os sentidos. Enquanto a pessoa for serva dos sentidos, não pode chamar-se gosvāmī nem svāmī. A menos que se dominem os sentidos, a aceitação do título de svāmī ou gosvāmī não passa de uma forma de engano. Foi Rūpa Gosvāmī quem assim definiu o significado da palavra gosvāmī. Originalmente, Sanātana Gosvāmī e Rūpa Gosvāmī não eram gosvāmīs, mas ministros do governo. Foi somente quando se tornaram discípulos do Senhor Caitanya Mahāprabhu que se tornaram gosvāmīs. Assim, gosvāmī não é um título hereditário, mas uma qualificação. A pessoa qualifica-se desse modo sob a direção de um mestre espiritual genuíno. Somente quando se alcança a perfeição no controle dos sentidos é que se pode chamar gosvāmī e tornar-se, por sua vez, mestre espiritual. A menos que se possam dominar os sentidos, a pessoa será simplesmente um mestre espiritual falso.\n\n\n\nIsto é explicado por Rūpa Gosvāmī em seu Upadeśāmṛta (1):\n\n\n\nvāco vegaṁ manasaḥ krodha-vegaṁ\n\njihvā-vegam udaropastha-vegam\n\netān vegān yo viṣaheta dhīraḥ\n\nsarvām apīmāṁ pṛthivīṁ sa śiṣyāt\n\n\n\n«A pessoa sóbria que pode tolerar o impulso de falar, as exigências da mente, as ações da ira e os impulsos da língua, do ventre e dos genitais está qualificada para fazer discípulos no mundo inteiro». Neste verso, Rūpa Gosvāmī menciona seis «impulsos» (vegam). Esse impulso é uma espécie de ímpeto. Por exemplo, quando a natureza chama, temos de ir ao banheiro, e não podemos conter esse impulso. Assim, tal impulso chama-se vegam, uma espécie de pressão. Segundo Rūpa Gosvāmī, há seis vegams. Vāco vegam é o impulso de falar desnecessariamente. Esse é um tipo de pressão da língua. Em seguida, há krodha-vegam, o impulso de irritar-se. Quando somos impelidos à ira, não conseguimos conter-nos, e às vezes os homens se enfurecem a tal ponto que cometem assassinato. De modo semelhante, a mente pressiona, dita: «Deves ir lá imediatamente», e nós vamos de imediato aonde nos é dito. A palavra jihvā-vegam refere-se ao impulso da língua de saborear alimentos agradáveis. Udara-vegam refere-se aos impulsos do ventre. Embora o ventre esteja cheio, ele ainda quer mais comida, e isso é uma espécie de impulso do ventre. E, quando cedemos aos impulsos da língua e do ventre, os impulsos dos genitais tornam-se muito fortes, e o sexo passa a ser exigido. Se a pessoa não controla sua mente ou sua língua, como poderá controlar seus genitais? Dessa maneira, há tantos impulsos, a tal ponto que o corpo é uma espécie de máquina de impulsos. Por isso, Rūpa Gosvāmī nos diz que a pessoa só pode tornar-se mestre espiritual quando é capaz de controlar todos esses impulsos.\n\n\n\nEtān vegān yo viṣaheta dhīraḥ sarvām apīmāṁ pṛthivīṁ sa śiṣyāt: «Aquele que pode controlar os impulsos e permanecer firme pode fazer discípulos no mundo inteiro». A palavra dhīra significa «firme, sóbrio». Só quem é um dhīra está qualificado para fazer discípulos. Tudo isso depende do treinamento da pessoa. De fato, yoga significa treinar a mente e os sentidos para que se fixem no Ser. Isto não é possível meditando apenas quinze minutos por dia e depois saindo a fazer o que os sentidos ditem. Como poderiam os problemas da vida ser resolvidos tão a baixo preço? Se queremos algo precioso, devemos pagar por isso. Pela graça do Senhor Caitanya, este pagamento foi tornado muito fácil: basta cantar Hare Kṛṣṇa. Mediante nosso canto, este sistema de controle, este sistema de yoga, aperfeiçoa-se. Ihā haite sarva siddhi haibe tomāra. Assim nos abençoou o Senhor Caitanya. Simplesmente cantando Hare Kṛṣṇa, alcançaremos a perfeição da autorrealização. Nesta era de Kali-yuga, quando as pessoas estão tão caídas, outros processos não terão êxito. Este é o único processo, e é fácil, sublime, eficaz e prático. Por meio dele, podemos realizar-nos.\n\n\n\nSegundo Kṛṣṇa, no Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* (9.2), este processo é o mais sublime.\n\n\n\nrāja-vidyā rāja-guhyaṁ\n\npavitram idam uttamam\n\npratyakṣāvagamaṁ dharmyaṁ\n\nsu-sukhaṁ kartum avyayam\n\n\n\n«Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro e, por proporcionar percepção direta do ser mediante a realização, é a perfeição da religião. É imperecível e se executa com júbilo».\n\n\n\nDepois de comer, a pessoa pode compreender que sua fome foi saciada; de igual modo, seguindo os princípios da consciência de Kṛṣṇa, pode compreender que avançou na autorrealização."}
{"ref": "pop/6", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/6/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "6. Percepção da Superalma", "purport": "praśānta-manasaṁ hy enaṁ\n\nyoginaṁ sukham uttamam\n\nupaiti śānta-rajasaṁ\n\nbrahma-bhūtam akalmaṣam\n\n\n\n«O yogī cuja mente está fixa em Mim alcança verdadeiramente a mais elevada felicidade. Em virtude de sua identidade com o Brahman, ele se liberta; sua mente está em paz, suas paixões se aquietam e ele se acha livre de pecado». (Bg. 6.27)\n\n\n\nyuñjann evaṁ sadātmānaṁ\n\nyogī vigata-kalmaṣaḥ\n\nsukhena brahma-saṁsparśam\n\natyantaṁ sukham aśnute\n\n\n\n«Firme no Ser, livre de toda contaminação material, o yogī alcança a mais elevada etapa de perfeição da felicidade, em contato com a Consciência Suprema». (Bg. 6.28)\n\n\n\nEis aqui, portanto, a perfeição: «O yogī cuja mente está fixa em Mim». Visto que é Kṛṣṇa quem fala, o «Mim» refere-se a Kṛṣṇa. Se eu estou falando e digo: «Dai-me um copo d'água», não pretendo que a água seja fornecida a outra pessoa. Devemos, pois, compreender com clareza que, uma vez que o *Bhagavad-gītā* está sendo falado por Śrī Kṛṣṇa, quando Ele diz «a Mim», refere-se a Kṛṣṇa. Infelizmente, há muitos comentadores que se desviam dessas instruções claras. Não sei por quê; seus motivos são, sem dúvida, nefastos.\n\n\n\nsarva-bhūta-stham ātmānaṁ\n\nsarva-bhūtāni cātmani\n\nīkṣate yoga-yuktātmā\n\nsarvatra sama-darśanaḥ\n\n\n\n«O verdadeiro yogī Me observa em todos os seres e também vê todos os seres em Mim. De fato, o homem autorrealizado Me vê em toda parte». (Bg. 6.29) Sarva-bhūta-stham ātmānam: «O verdadeiro yogī Me observa em todos os seres». Como isto é possível? Algumas pessoas dizem que todos os seres são Kṛṣṇa e que, portanto, não há sentido em adorar Kṛṣṇa separadamente. Em consequência, tais pessoas dedicam-se a atividades humanitárias, alegando que tal trabalho é melhor. Dizem: «Por que se deveria adorar Kṛṣṇa? Kṛṣṇa diz que se deve ver Kṛṣṇa em todos os seres. Sirvamos, então, daridra-nārāyaṇa, o homem da rua». Tais intérpretes equivocados não conhecem as técnicas apropriadas, que devem ser aprendidas sob a orientação de um mestre espiritual genuíno.\n\n\n\nO verdadeiro yogī, como se explicou antes, é o devoto de Kṛṣṇa, e o devoto mais avançado sai a pregar a consciência de Kṛṣṇa. Por quê? Porque vê Kṛṣṇa em todos os seres. Como assim? Porque vê que todos os seres são partes integrantes de Kṛṣṇa. Também compreende que, visto que estes seres se esqueceram de Kṛṣṇa, é seu dever despertá-los para a consciência de Kṛṣṇa. Por vezes, os missionários saem a educar pessoas primitivas e sem instrução simplesmente porque veem que são seres humanos e que, por isso, merecem ser educadas, a fim de compreenderem o valor da vida. Isso se deve à compaixão do missionário. O devoto move-se por motivação semelhante. Ele compreende que todos deveriam saber-se partes integrantes de Kṛṣṇa. O devoto compreende que as pessoas sofrem devido a seu esquecimento de Kṛṣṇa.\n\n\n\nDesse modo, o devoto vê Kṛṣṇa em tudo. Ele não se encontra sob a ilusão de que tudo se converteu em Kṛṣṇa. Pelo contrário, vê cada entidade viva como filho de Deus. Se eu digo que este menino é o filho do senhor Johnson, acaso quero dizer que este menino é o próprio senhor Johnson? Posso ver o senhor Johnson neste menino, por ser ele seu filho, mas a distinção permanece. Se vejo cada entidade viva como filho de Kṛṣṇa, vejo Kṛṣṇa em cada ser. Isto não deveria ser difícil de compreender. Não se trata de uma associação nem de uma visão, mas de um fato.\n\n\n\nQuando um devoto vê um gato ou um cachorro, vê Kṛṣṇa nele. Ele sabe que um gato, por exemplo, é uma entidade viva e que, devido a seus atos passados, recebeu o corpo de um gato. Isto se deve a seu esquecimento. O devoto ajuda o gato dando-lhe um pouco de kṛṣṇa-prasāda, para que algum dia o gato chegue à consciência de Kṛṣṇa. Isso é ver Kṛṣṇa no gato. O devoto não pensa: «Ah, aqui está Kṛṣṇa! Deixa-me abraçar este gato e servi-lo como a Deus». Semelhante pensamento é um disparate. Se a pessoa vê um tigre, não diz: «Ah, aqui está Kṛṣṇa! Vem, por favor, devora-me». O devoto não abraça todos os seres como se fossem Kṛṣṇa, mas compadece-se de cada entidade viva, pois vê todos os seres como partes integrantes de Kṛṣṇa. Dessa maneira, «o verdadeiro yogī Me observa em todos os seres». Esta é a visão real.\n\n\n\nTudo o que se faz em consciência de Kṛṣṇa, com ou sem conhecimento disso, terá o seu efeito. As crianças que se prostram, ou que tentam vibrar os nomes de Kṛṣṇa, ou que batem palmas durante o kīrtana estão, na verdade, acumulando muito em sua conta bancária de consciência de Kṛṣṇa. O fogo age, quer a pessoa seja criança, quer seja adulto. Se uma criança toca o fogo, o fogo a queimará. O fogo não diz: «Ah, não vou queimá-la! É uma criança e não sabe». Não, o fogo sempre agirá como fogo. De igual modo, Kṛṣṇa é o espírito supremo e, se uma criança participa da consciência de Kṛṣṇa, será afetada. Kṛṣṇa agirá, quer a criança saiba, quer não saiba. A toda entidade viva se deve dar a oportunidade de participar da consciência de Kṛṣṇa, pois Kṛṣṇa está ali e agirá. Daí que se convidem todos a vir e a tomar prasāda, pois este prasāda algum dia surtirá efeito.\n\nDevemos ter o cuidado de não cometer o erro de pensar que todos são Kṛṣṇa; ao contrário, devemos ver Kṛṣṇa em todos. Kṛṣṇa é onipenetrante. Por que se haveria de vê-Lo apenas nos seres humanos? Como se afirma no Brahma-saṁhitā, Ele também está presente dentro do átomo: aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham. [Bs 5.35] A palavra paramāṇu significa \"átomo\", e devemos compreender que Kṛṣṇa está presente dentro de cada átomo. \"Um verdadeiro yogī Me observa em todos os seres e também vê todos os seres em Mim\". Como vê o yogī todos os seres \"em Mim\"? Isso é possível porque o verdadeiro yogī sabe que tudo o que vemos é Kṛṣṇa. Estamos sentados neste piso ou neste tapete, mas, na verdade, estamos sentados sobre Kṛṣṇa. Devemos saber que isto é um fato. De que maneira é este tapete Kṛṣṇa? É Kṛṣṇa porque é feito da energia de Kṛṣṇa. O Senhor Supremo possui diversas energias, das quais há três divisões principais: energia material, energia espiritual e energia marginal. Parāsya śaktir vividhaiva śrūyate. Nós, as entidades vivas, somos a energia marginal; o mundo material é a energia material, e o mundo espiritual é a energia espiritual. Somos energia marginal no sentido de que podemos situar-nos espiritual ou materialmente. Não há uma terceira alternativa; ou nos tornamos materialistas, ou nos tornamos espiritualistas.\n\n\n\nEnquanto estivermos no mundo material, estaremos assentados sobre a energia material e, em consequência, situados em Kṛṣṇa, pois a energia de Kṛṣṇa não está separada de Kṛṣṇa. Uma chama contém tanto calor quanto luz, duas energias. Nem o calor nem a luz estão separados da chama; por isso, em certo sentido, o calor é fogo e a luz é fogo, mas podem distinguir-se. De modo semelhante, esta energia material também é Kṛṣṇa, e, embora pensemos que estamos sentados neste piso, na verdade estamos sentados sobre Kṛṣṇa. Por isso se afirma: \"O homem autorrealizado Me vê em toda parte\". Ver Kṛṣṇa em toda parte significa ver cada entidade viva, assim como tudo o mais, em relação com Kṛṣṇa. No Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (7.8), o Senhor Kṛṣṇa diz a Arjuna como Ele pode ser visto em diversas manifestações.\n\n\n\nraso 'ham apsu kaunteya\n\nprabhāsmi śaśi-sūryayoḥ\n\npraṇavaḥ sarva-vedeṣu\n\nśabdaḥ khe pauruṣaṁ nṛṣu\n\n\n\n\"Ó filho de Kuntī [Arjuna], Eu sou o sabor da água, a luz do sol e da lua, a sílaba oṁ nos mantras Védicos; sou o som no éter e a capacidade no homem\".\n\n\n\nTodos os seres vivos bebem água, e dela necessitam as aves, as feras e os homens. Não se utiliza apenas para beber, mas também para lavar-se e para cultivar plantas. Um soldado no campo de batalha pode compreender quão importante é a água. Quando lutam, os soldados ficam com sede e, se não têm água, morrem. Uma vez que a pessoa tenha aprendido a filosofia do *Bhagavad-gītā*, sempre que beber água verá Kṛṣṇa. E em que dia deixamos nós de beber água? Esta é a senda da consciência de Kṛṣṇa. \"Eu sou a luz do sol e da lua\". Assim, seja de dia, seja de noite, vemos ou a luz do sol ou a luz da lua. Como, então, poderíamos esquecer-nos de Kṛṣṇa? Esta, pois, é a senda do yoga perfeito. Temos de ver Kṛṣṇa em toda parte e a todo momento.\n\n\n\nyo māṁ paśyati sarvatra\n\nsarvaṁ ca mayi paśyati\n\ntasyāhaṁ na praṇaśyāmi\n\nsa ca me na praṇaśyati\n\n\n\n\"Para aquele que Me vê em toda parte e vê tudo em Mim, Eu nunca estou perdido, nem ele jamais está perdido para Mim\". (Bg. 6.30) Isto é sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ: [Bg. 8.6] lembrar-se sempre de Kṛṣṇa. Se nos exercitarmos em viver dessa maneira, nunca perderemos Kṛṣṇa nem estaremos perdidos para Kṛṣṇa, e no momento da morte, por conseguinte, é certo que iremos a Kṛṣṇa. Se não estamos perdidos para Kṛṣṇa, aonde poderíamos ir senão a Kṛṣṇa? No Nono Capítulo, Kṛṣṇa diz a Arjuna: kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati (Bg. 9.31): \"Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto nunca perece\".\n\n\n\nSimplesmente não percas Kṛṣṇa de vista. Essa é a perfeição da vida. Podemos esquecer tudo o mais, mas nunca devemos esquecer-nos de Kṛṣṇa. Se conseguirmos lembrar-nos de Kṛṣṇa, somos os mais ricos dos homens, ainda que as pessoas nos vejam como muito pobres. Embora Rūpa Gosvāmī e Sanātana Gosvāmī fossem eruditos instruídos e ministros muito opulentos, adotaram a vida humilde dos mendicantes. Em seu Śrī Sad-gosvāmy-aṣṭaka (verso 4), Śrīnivāsa Ācārya descreve assim os seis Gosvāmīs:\n\n\n\ntyaktvā tūrṇam aśeṣa-maṇḍala-pati-śreṇīṁ sadā tuccha vat\n\nbhūtvā dīna-gaṇeśakau karuṇayā kaupīna-kanthāśritau\n\ngopī-bhāva-rasāmṛtābdhi-laharī-kallola-magnau muhur\n\nvande rūpa-sanātanau raghu-yugau śrī-jīva-gopālakau\n\n\n\n\"Ofereço minhas respeitosas reverências aos seis Gosvāmīs — Śrī Rūpa Gosvāmī, Śrī Sanātana Gosvāmī, Śrī Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, Śrī Raghunātha dāsa Gosvāmī, Śrī Jīva Gosvāmī e Śrī Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī —, que descartaram toda associação aristocrática como algo insignificante. Para liberar as pobres almas condicionadas, aceitaram tangas e tornaram-se mendicantes, mas estavam sempre submersos no extático oceano do amor das gopīs por Kṛṣṇa, e banhavam-se repetidamente nas ondas desse oceano\".\n\n\n\nAs palavras kaupīna-kanthāśritau indicam que os Gosvāmīs vestiam apenas roupa íntima e uma tanga, e nada mais. Em outras palavras, aceitaram a forma de vida mais pobre, como mendicantes. Em geral, quem está habituado a viver segundo um padrão elevado não pode rebaixá-lo de imediato. Se um homem rico aceita uma condição tão pobre, não consegue viver, mas os Gosvāmīs viveram muito felizes. Como isso foi possível? Gopī-bhāva-rasāmṛtābdhi-laharī-kallola-magnau muhur/ vande rūpa-sanātanau raghu-yugau śrī-jīva-gopālakau. Na verdade, eram ricos, pois mergulhavam constantemente no oceano dos assuntos amorosos das gopīs. Se a pessoa simplesmente pensar no amor das gopīs por Kṛṣṇa, não se perde. Há muitas maneiras de não perder Kṛṣṇa de vista. Se não perdermos Kṛṣṇa de vista, então não estaremos perdidos.\n\n\n\nUma pessoa em consciência de Kṛṣṇa certamente vê o Senhor Kṛṣṇa em toda parte e vê tudo em Kṛṣṇa. Tal pessoa pode parecer ver todas as manifestações separadas da natureza material, mas, em cada caso, está consciente de Kṛṣṇa, sabendo que tudo é a manifestação da energia de Kṛṣṇa. Nada pode existir sem Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa é o Senhor de tudo — este é o princípio básico da consciência de Kṛṣṇa. Como sabe o devoto que tudo é a manifestação da energia de Kṛṣṇa? Em primeiro lugar, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa é um filósofo. Se vê uma árvore, pensa: \"O que é esta árvore?\". Vê então que a árvore tem um corpo material — assim como ele tem um corpo material — e que a árvore é também uma entidade viva, mas que, em virtude de seus maus atos passados, obteve um corpo tão abominável que sequer consegue mover-se. O corpo da árvore é material, energia material, e o devoto automaticamente se pergunta: \"Energia de quem? Energia de Kṛṣṇa. Portanto, a árvore está conectada a Kṛṣṇa. Por ser uma entidade viva, a árvore é parte integrante de Kṛṣṇa\". Dessa maneira, a pessoa consciente de Kṛṣṇa não vê a árvore, mas vê Kṛṣṇa presente. Isso é consciência de Kṛṣṇa: não vês a árvore; vês Kṛṣṇa. Essa é a perfeição do yoga, e isso é também samādhi.\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é o desenvolvimento do amor por Kṛṣṇa — uma posição transcendental até mesmo à liberação material. Por que a pessoa consciente de Kṛṣṇa presta tanta atenção à árvore? Porque tem amor por Kṛṣṇa. Se amas teu filho e teu filho está ausente, pensas nele quando vês seus sapatos. Pensas: \"Ah, este é o sapato do meu querido filho!\". Não é que ames o sapato, mas o filho. O sapato, contudo, evoca esse amor. De modo semelhante, tão logo vemos a energia de Kṛṣṇa manifestada em uma entidade viva, amamos essa entidade porque amamos Kṛṣṇa. Por conseguinte, se amamos Kṛṣṇa, o amor universal fica contemplado. Do contrário, o \"amor universal\" é um disparate, pois não é possível amar a todos sem amar Kṛṣṇa. Se amamos Kṛṣṇa, o amor universal está automaticamente presente. Sem ser consciente de Kṛṣṇa, a pessoa pode dizer: \"Aqui está meu irmão americano, e aqui está meu irmão indiano. Comamos agora esta vaca\". Tal pessoa talvez veja outros seres humanos como irmãos, mas vê a vaca como alimento. É isto o amor universal? Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, porém, pensa: \"Ah, aqui há uma vaca! Aqui há um cachorro! São partes integrantes de Kṛṣṇa, mas, de uma forma ou de outra, adquiriram corpos diferentes. Isso não significa que não sejam meus irmãos. Como poderia eu matar e comer meus irmãos?\". Esse é o verdadeiro amor universal — enraizado no amor por Kṛṣṇa. Sem essa consciência de Kṛṣṇa, não há possibilidade de amor algum.\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é a etapa além da autorrealização, na qual o devoto se torna uno com Kṛṣṇa no sentido de que Kṛṣṇa passa a ser tudo para o devoto, e o devoto se enche de amor por Kṛṣṇa. Existe então uma relação íntima entre o Senhor e o devoto. Nessa etapa, a entidade viva alcança sua imortalidade. Tampouco a Personalidade de Deus jamais sai da vista do devoto. Fundir-se em Kṛṣṇa é aniquilação espiritual. O devoto não corre tal risco. Afirma-se no Brahma-saṁhitā (5.38):\n\n\n\npremāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena\n\nsantaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti\n\nyaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n\"Adoro o Senhor primordial, Govinda, a quem sempre vê o devoto cujos olhos estão ungidos com a polpa do amor. Ele é visto em Sua forma eterna de Śyāmasundara, situado no coração do devoto\". Aquele que desenvolveu tal amor por Kṛṣṇa vê Śyāmasundara, Kartāmeśāna, sempre dentro de seu coração. Nesta etapa, o Senhor Kṛṣṇa nunca desaparece da vista do devoto, nem o devoto jamais perde de vista o Senhor. No caso de um yogī que vê o Senhor como Paramātmā dentro do coração, aplica-se o mesmo. Tal yogī converte-se em devoto puro e não consegue suportar viver nem um momento sem ver o Senhor dentro de si mesmo.\n\n\n\nEste é o verdadeiro processo pelo qual podemos ver Deus. Deus não é nosso provedor de pedidos. Não podemos exigir: \"Vem e mostra-Te\". Não; primeiro temos de qualificar-nos. Então poderemos ver Deus a todo momento e em toda parte.\n\n\n\nsarva-bhūta-sthitaṁ yo māṁ\n\nbhajaty ekatvam āsthitaḥ\n\nsarvathā vartamāno 'pi\n\nsa yogī mayi vartate\n\n\n\n\"O yogī que sabe que Eu e a Superalma dentro de todas as criaturas somos um só Me adora e permanece sempre em Mim, em todas as circunstâncias\". (Bg. 6.31)\n\n\n\nUm yogī que pratica a meditação na Superalma vê dentro de si mesmo a porção plenária de Kṛṣṇa como Viṣṇu — com quatro mãos, segurando um búzio, uma roda, uma maça e uma flor de lótus. Esta manifestação de Viṣṇu, que é o objeto de concentração do yogī, é a porção plenária de Kṛṣṇa. Como se afirma no Brahma-saṁhitā (5.48):\n\n\n\nyasyaika-niśvasita-kālam athāvalambya\n\njīvanti loma-vilajā jagad-aṇḍa-nāthāḥ\n\nviṣṇur mahān sa iha yasya kalā-viśeṣo\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n\"Os Brahmās e demais senhores dos mundos mundanos surgem dos poros de Mahā-Viṣṇu e permanecem vivos durante a duração de uma única exalação Sua. Adoro o Senhor primordial, Govinda, pois Mahā-Viṣṇu é uma porção de Sua porção plenária\". As palavras govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi ** (\"Adoro Govinda, o Senhor primordial\") são de suma importância. A palavra ādi significa \"original\", e puruṣam significa \"o Senhor como o varão original, o desfrutador original\". E quem é este Govinda, cuja porção plenária é o Mahā-Viṣṇu? E qual é a função do Mahā-Viṣṇu?\n\n\n\nEm cada universo há uma entidade viva primária e original, conhecida como Brahmā. A vida de Brahmā é a vida do universo, e essa vida existe apenas durante um período de respiração (exalação e inalação) do Mahā-Viṣṇu. O Mahā-Viṣṇu jaz sobre o Oceano Causal e, quando exala, milhões de universos emanam de Seu corpo como bolhas e depois se desenvolvem. Quando o Mahā-Viṣṇu inala, esses milhões de universos retornam a Ele, e isso se denomina o processo de aniquilação. Essa é, em essência, a posição destes universos materiais: saem do corpo do Mahā-Viṣṇu e depois retornam novamente. No Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* (9.7) também se indica que estes universos materiais se manifestam em determinado período e depois são aniquilados.\n\n\n\nsarva-bhūtāni kaunteya\n\nprakṛtiṁ yānti māmikām\n\nkalpa-kṣaye punas tāni\n\nkalpādau visṛjāmy aham\n\n\n\n\"Ó filho de Kuntī, ao final do milênio, toda manifestação material entra em Minha natureza e, no princípio de outro milênio, por Minha potência, volto a criar\". A criação, a manutenção e a aniquilação desta manifestação cósmica material dependem por completo da vontade suprema da Personalidade de Deus. \"Ao final do milênio\" significa à morte de Brahmā. Brahmā vive cem anos, e um único dia seu calcula-se em 4.300.000.000 de nossos anos terrestres. Sua noite tem a mesma duração. Seu mês consta de trinta desses dias e noites, e seu ano, de doze meses. Após cem desses anos, quando Brahmā morre, ocorre a devastação ou aniquilação; isto significa que a energia manifestada pelo Senhor Supremo é novamente recolhida Nele mesmo. Ou seja, o Mahā-Viṣṇu inala. Depois, novamente, quando há necessidade de manifestar o mundo cósmico, isso se faz por Sua vontade: \"Embora Eu seja um só, hei de tornar-Me muitos\". Este é o aforismo Védico. Ele Se expande nesta energia material, e toda a manifestação cósmica ocorre de novo.\n\n\n\nVisto que a criação e a aniquilação completas dos universos materiais dependem da exalação e da inalação do Mahā-Viṣṇu, dificilmente podemos imaginar a magnitude desse Mahā-Viṣṇu. E, no entanto, diz-se aqui que este Mahā-Viṣṇu não é senão uma porção plenária da porção plenária de Kṛṣṇa, que é o Govinda original. O Mahā-Viṣṇu entra em cada universo como Garbhodakaśāyī Viṣṇu, e Garbhodakaśāyī Viṣṇu expande-se ainda como Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, e é esta forma de Viṣṇu que entra no coração de cada entidade viva. Dessa maneira, Viṣṇu manifesta-se ao longo de toda a criação. Assim, os yogīs concentram suas mentes na forma de Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu dentro do coração. Como se afirma no último capítulo do *Bhagavad-gītā* (18.61):\n\n\n\nīśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ\n\nhṛd-deśe 'rjuna tiṣṭhati\n\nbhrāmayan sarva-bhūtāni\n\nyantrārūḍhāni māyayā\n\n\n\n\"O Senhor Supremo está situado no coração de todos, ó Arjuna, e dirige as andanças de todas as entidades vivas, que estão sentadas como em uma máquina feita da energia material\".\n\n\n\nDesse modo, segundo o processo yóguico, o yogī descobre onde Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu Se encontra sentado dentro do coração e, ao encontrar essa forma ali, concentra-se Nele. O yogī deve saber que este Viṣṇu não é diferente de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, nesta forma de Superalma, está situado no coração de todos. Ademais, não há diferença entre as inumeráveis Superalmas presentes nos inumeráveis corações das entidades vivas. Por exemplo, há um único sol no céu, mas esse sol pode refletir-se em milhões de baldes de água. Ou então, pode-se perguntar a milhões e trilhões de pessoas: \"Onde está o sol?\", e cada uma dirá: \"Sobre minha cabeça\". O sol é um só, mas reflete-se inúmeras vezes. Segundo os *Vedas*, as entidades vivas são inumeráveis; não há possibilidade de contá-las. Assim como o sol pode refletir-se em incontáveis baldes de água, Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, pode viver no coração de cada um. É esta forma que constitui a porção plenária de Kṛṣṇa, e é nesta forma que o yogī se concentra.\n\n\n\nAquele que se ocupa em consciência de Kṛṣṇa já é um yogī perfeito. De fato, não há diferença entre um devoto consciente de Kṛṣṇa sempre ocupado no transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa e um yogī perfeito ocupado na meditação na Superalma. Não há diferença entre um yogī em samādhi (em transe, meditando na forma de Viṣṇu) e uma pessoa consciente de Kṛṣṇa ocupada em diferentes atividades. O devoto — embora se ocupe em diversas atividades enquanto está na existência material — permanece sempre situado em Kṛṣṇa. Isso se confirma no *Bhakti-rasāmṛta-sindhu* de Śrīla Rūpa Gosvāmī: nikhilāsv apy avasthāsu/ jīvan-muktaḥ sa ucyate. Um devoto do Senhor, sempre agindo em consciência de Kṛṣṇa, está automaticamente liberado. Isso também se confirma no Décimo Quarto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (14.26):\n\n\n\nmāṁ ca yo 'vyabhicāreṇa\n\nbhakti-yogena sevate\n\nsa guṇān samatītyaitān\n\nbrahma-bhūyāya kalpate\n\n\n\n\"Aquele que se ocupa em pleno serviço devocional, que não decai em circunstância alguma, transcende de imediato os modos da natureza material e chega assim ao nível do Brahman\".\n\n\n\nDesse modo, o devoto ocupado em serviço devocional imaculado já transcendeu os modos materiais da natureza. Estar situado na plataforma do Brahman significa estar liberado. Há três plataformas: a corporal, ou sensorial; a mental; e a espiritual. A plataforma espiritual chama-se plataforma do Brahman, e liberação significa estar situado nessa plataforma. Como almas condicionadas, atualmente estamos situados na plataforma corporal, ou sensorial. Aqueles que estão um pouco avançados — especuladores, filósofos — situam-se na plataforma mental. Acima desta encontra-se a plataforma da liberação, da realização do Brahman.\n\n\n\nQue o devoto, sempre agindo em consciência de Kṛṣṇa, esteja automaticamente situado na plataforma liberada do Brahman confirma-se também no Nārada-pañcarātra:\n\n\n\ndik-kālādy-anavacchinne\n\nkṛṣṇe ceto vidhāya ca\n\ntan-mayo bhavati kṣipraṁ\n\njīvo brahmaṇi yojayet\n\n\n\n\"Ao concentrar a atenção na forma transcendental de Kṛṣṇa, que é onipenetrante e está além do tempo e do espaço, a pessoa absorve-se em pensar em Kṛṣṇa e alcança então o feliz estado da associação transcendental com Ele\".\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é a etapa mais elevada de transe na prática do yoga. A própria compreensão de que Kṛṣṇa está presente como Paramātmā no coração de todos torna o yogī impecável. Os *Vedas* confirmam esta inconcebível potência do Senhor da seguinte forma:\n\n\n\neko 'pi san bahudhā yo 'vabhāti\n\naiśvaryād rūpaṁ ekaṁ ca sūrya vad bahudheyate\n\n\n\n\"Viṣṇu é um só e, ainda assim, certamente é onipenetrante. Por Sua inconcebível potência, apesar de Sua forma única, está presente em toda parte. Como o sol, aparece em muitos lugares ao mesmo tempo\".\n\n\n\nātmaupamyena sarvatra\n\nsamaṁ paśyati yo 'rjuna\n\nsukhaṁ vā yadi vā duḥkhaṁ\n\nsa yogī paramo mataḥ\n\n\n\n\"É um yogī perfeito aquele que, por comparação consigo mesmo, vê a verdadeira igualdade de todos os seres, tanto em sua felicidade quanto em sua aflição, ó Arjuna!\" (Bg. 6.32) Esta é a verdadeira visão universal. Não é que Deus esteja sentado em meu coração e não no coração de um cachorro, gato ou vaca. Sarva-bhūtānām significa que Ele está sentado nos corações de todas as entidades vivas, no coração humano e no coração da formiga. A única diferença é que gatos e cachorros não conseguem compreendê-lo. Um ser humano, se tentar seguir o sistema de sāṅkhya-yoga ou de bhakti-yoga, é capaz de compreender, e esta é a prerrogativa da vida humana. Se perdermos esta oportunidade, sofreremos uma grande perda, pois passamos pelo processo evolutivo e atravessamos mais de oito milhões de espécies de vida a fim de obter esta forma humana. Devemos, portanto, estar conscientes disto e ter o cuidado de não perder esta oportunidade. Temos um bom corpo, a forma humana, e temos inteligência e civilização. Não devemos viver como animais e lutar arduamente pela existência, mas devemos utilizar nosso tempo pensando pacificamente e compreendendo nossa relação com o Senhor Supremo. Esta é a instrução do *Bhagavad-gītā*: não percas esta oportunidade; utiliza-a corretamente."}
{"ref": "pop/7", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/7/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "7. O yoga para a era moderna", "purport": "arjuna uvāca\n\nyo 'yaṁ yogas tvayā proktaḥ\n\nsāmyena madhusūdana\n\netasyāhaṁ na paśyāmi\n\ncañcalatvāt sthitiṁ sthirām\n\n\n\n\"Arjuna disse: Ó Madhusūdana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e insuportável, pois a mente é inquieta e instável\". (Bg. 6.33)\n\n\n\nEsta é a prova crucial do óctuplo sistema de aṣṭāṅga-yoga aqui exposto pelo Senhor Śrī Kṛṣṇa. Já se explicou que a pessoa deve sentar-se de certa maneira e concentrar a mente na forma de Viṣṇu sentado dentro do coração. Segundo o sistema de aṣṭāṅga-yoga, primeiro há que controlar os sentidos, seguir todas as regras e regulações, praticar a postura sentada e o processo de respiração, concentrar a mente na forma de Viṣṇu dentro do coração e, então, absorver-se nessa forma. Há oito processos neste sistema de aṣṭāṅga-yoga, mas aqui Arjuna diz, com toda a franqueza, que este sistema de aṣṭāṅga-yoga é muito difícil. Em verdade, diz que ele \"parece-me impraticável e insuportável\".\n\n\n\nNa verdade, o sistema de aṣṭāṅga-yoga não é impraticável, pois, se o fosse, o Senhor Kṛṣṇa não Se teria dado tanto trabalho para descrevê-lo. Não é impraticável, mas o parece. O que pode ser impraticável para um homem pode ser praticável para outro. Arjuna é representativo do homem comum, no sentido de que não é um mendicante, nem um sannyāsī, nem um erudito. Está no campo de batalha lutando por seu reino, e neste sentido é um homem ordinário ocupado em uma atividade mundana. Preocupa-se em ganhar o sustento, manter sua família, e assim por diante. Arjuna tem muitos problemas, assim como o homem comum, e, em geral, este sistema de aṣṭāṅga-yoga é impraticável para o homem ordinário e comum. Esse é o ponto que se quer destacar. É praticável para quem já renunciou por completo a tudo e pode sentar-se em um lugar isolado e sagrado na encosta de uma montanha ou em uma caverna. Mas quem pode fazer isso nesta era? Embora Arjuna fosse um grande guerreiro, membro da família real e uma pessoa muito avançada, ele proclama que este sistema de yoga é impraticável. E o que somos nós em comparação com Arjuna? Se tentarmos este sistema, o fracasso é certo.\n\n\n\nPor conseguinte, este sistema de misticismo descrito pelo Senhor Kṛṣṇa a Arjuna, que começa com as palavras śucau deśe e termina com yogī paramaḥ, é aqui rejeitado por Arjuna por um sentimento de incapacidade. Como se disse antes, não é possível para um homem ordinário abandonar o lar e ir a um lugar isolado nas montanhas ou nas selvas para praticar yoga nesta era de Kali. A era presente caracteriza-se por uma luta encarniçada por uma vida de curta duração. À medida que Kali-yuga avança, nossa duração de vida torna-se cada vez mais curta. Nossos antepassados viviam cem anos ou mais, mas agora as pessoas morrem aos sessenta ou setenta anos. Gradualmente, a duração da vida diminuirá ainda mais. A memória, a misericórdia e outras boas qualidades também diminuirão nesta era.\n\n\n\nEm Kali-yuga, as pessoas não levam a sério a autorrealização nem mesmo por meios simples e práticos, e que dizer deste difícil sistema de yoga, que regula o modo de vida, a maneira de sentar-se, a seleção do lugar e o desapego da mente das ocupações materiais. Como homem prático, Arjuna considerou impossível seguir este sistema de yoga, embora estivesse favoravelmente dotado em muitos aspectos. Não estava disposto a tornar-se um pseudo-yogī e a praticar algumas façanhas ginásticas. Não era um impostor, mas um soldado e um homem de família. Por isso, admitiu com franqueza que, para ele, este sistema de yoga seria uma perda de tempo. Arjuna pertencia à família real e era muito elevado quanto a numerosas qualidades; era um grande guerreiro, tinha grande longevidade e, acima de tudo, era o mais íntimo amigo do Senhor *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*. Há cinco mil anos, quando Arjuna vivia, a duração da vida era muito longa. Naquele tempo, as pessoas costumavam viver até mil anos. Na presente era de Kali-yuga, a duração da vida limita-se a cem anos; em Dvāpara-yuga, a duração da vida era de mil anos; em Tretā-yuga, a duração da vida era de dez mil anos; e em Satya-yuga, a duração da vida era de cem mil anos. Assim, à medida que as yugas degeneram, a duração da vida diminui. Embora Arjuna vivesse em uma época em que se podia viver e praticar meditação por mil anos, ainda assim considerou este sistema impossível.\n\n\n\nHá cinco mil anos, Arjuna dispunha de facilidades muito melhores do que as que temos agora e, no entanto, recusou-se a aceitar este sistema de yoga. De fato, não encontramos na história nenhum registro de que ele o tenha praticado em momento algum. Por conseguinte, este sistema deve ser considerado, de modo geral, impossível nesta era de Kali. Naturalmente, pode ser possível para alguns poucos e raros homens, mas para as pessoas em geral é uma proposta impossível. Se assim era há cinco mil anos, que dizer dos dias de hoje? Aqueles que imitam este sistema de yoga em diferentes supostas escolas e sociedades, embora complacentes, certamente estão perdendo seu tempo. Ignoram por completo a meta desejada.\n\n\n\nVisto que este sistema de aṣṭāṅga-yoga é considerado impossível, recomenda-se o sistema de bhakti-yoga para todos. Sem treinamento ou educação, a pessoa pode participar automaticamente do bhakti-yoga. Até mesmo uma criança pequena pode bater palmas no kīrtana. Por isso, o Senhor Caitanya Mahāprabhu proclamou o bhakti-yoga como o único sistema prático para esta era.\n\n\n\nharer nāma harer nāma\n\nharer nāmaiva kevalam\n\nkalau nāsty eva nāsty eva\n\nnāsty eva gatir anyathā\n\n[Adi 17.21]\n\n\n\n\"Nesta era de querelas e hipocrisia, o único meio de libertação é cantar o santo nome do Senhor. Não há outra via. Não há outra via. Não há outra via\". Cantar é muito simples, e sentir-se-ão os resultados de imediato. Pratyakṣāvagamaṁ dharmyam. Se tentarmos praticar outros sistemas de yoga, permaneceremos na escuridão; não saberemos se estamos ou não progredindo. No bhakti-yoga, a pessoa pode compreender: \"Sim, agora estou progredindo\". Este é o único sistema de yoga pelo qual se pode alcançar rapidamente a autorrealização e a libertação nesta vida. Não é preciso esperar outra vida.\n\n\n\ncañcalaṁ hi manaḥ kṛṣṇa\n\npramāthi balavad dṛḍham\n\ntasyāhaṁ nigrahaṁ manye\n\nvāyor iva suduṣkaram\n\n\n\n\"Pois a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, ó Kṛṣṇa, e subjugá-la parece-me mais difícil do que controlar o vento\". (Bg. 6.34) Ao cantar Hare Kṛṣṇa, captura-se a mente de imediato. Bastando pronunciar o nome Kṛṣṇa e ouvi-lo, a mente fixa-se automaticamente em Kṛṣṇa. Isto significa que o sistema de yoga se alcança de imediato. Todo o sistema de yoga tem por meta a concentração na forma de Viṣṇu, e Kṛṣṇa é a personalidade original a partir da qual se expandem todas estas formas de Viṣṇu. Kṛṣṇa é como a vela original a partir da qual se acendem todas as demais velas. Acesa uma vela, pode-se acender qualquer número de velas, e não há dúvida de que cada vela é tão poderosa quanto a vela original. Não obstante, há que reconhecer a vela original como a original. De modo semelhante, de Kṛṣṇa expandem-se milhões de formas de Viṣṇu, e cada forma de Viṣṇu é tão boa quanto Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa permanece o original. Assim, aquele que concentra sua mente no Senhor Śrī Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus original, alcança de imediato a perfeição do yoga.\n\n\n\nśrī-bhagavān uvāca\n\nasaṁśayaṁ mahā-bāho\n\nmano durnigrahaṁ calam\n\nabhyāsena tu kaunteya\n\nvairāgyeṇa ca gṛhyate\n\n\n\n\"O Senhor Abençoado disse: Ó filho de Kuntī de poderosos braços, é indubitavelmente muito difícil refrear a mente inquieta, mas isso é possível mediante a prática constante e o desapego\". (Bg. 6.35) Kṛṣṇa não diz que não seja difícil. Antes, admite que é difícil, mas possível mediante a prática constante. Prática constante significa ocuparmo-nos em algumas atividades que nos lembrem Kṛṣṇa. Nesta Sociedade para a Consciência de Kṛṣṇa, temos, por isso, muitas atividades: kīrtana, atividades do templo, prasāda, publicações, e assim por diante. Todos se ocupam em alguma atividade com Kṛṣṇa no centro. Dessa forma, quer alguém esteja datilografando para Kṛṣṇa, cozinhando para Kṛṣṇa, cantando para Kṛṣṇa ou distribuindo literatura para Kṛṣṇa, ele se encontra no sistema de yoga, e também em Kṛṣṇa. Ocupamo-nos em atividades como na vida material, mas estas atividades estão moldadas de tal maneira que se conectam diretamente a Kṛṣṇa. Assim, por meio de cada atividade, a consciência de Kṛṣṇa é possível, e a perfeição no yoga vem automaticamente.\n\n\n\nasaṁyatātmanā yogo\n\nduṣprāpa iti me matiḥ\n\nvaśyātmanā tu yatatā\n\nśakyo 'vāptum upāyataḥ\n\n\n\n\"Para aquele cuja mente é desenfreada, a autorrealização é uma tarefa difícil. Mas aquele cuja mente está controlada e que se esforça pelos meios corretos tem o êxito assegurado. Essa é a Minha opinião\". (Bg. 6.36) A Suprema Personalidade de Deus declara que quem não aceita o tratamento adequado para desapegar a mente das ocupações materiais dificilmente pode alcançar o êxito na autorrealização. Tentar praticar yoga enquanto se ocupa a mente no desfrute material é como tentar acender um fogo enquanto se lhe joga água. De modo semelhante, a prática de yoga sem controle mental é uma perda de tempo. Posso sentar-me a meditar e fixar minha mente em Kṛṣṇa, e isso é muito louvável, mas há muitas sociedades de yoga que ensinam seus alunos a concentrar-se no vazio ou em alguma cor. Ou seja, não recomendam a concentração na forma de Viṣṇu. Tentar concentrar a mente no impessoal ou no vazio é muito difícil e problemático. Śrī Kṛṣṇa o afirma no Décimo Segundo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (12.5):\n\n\n\nkleśo 'dhikataras teṣām\n\navyaktāsakta-cetasām\n\navyaktā hi gatir duḥkhaṁ\n\ndehavadbhir avāpyate\n\n\n\n\"Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto não manifestado e impessoal do Supremo, o avanço é muito problemático. Progredir nessa disciplina é sempre difícil para os que estão corporificados\".\n\n\n\nNo templo, o devoto tenta concentrar-se na forma de Kṛṣṇa. Concentrar-se no nada, no vazio, é muito difícil e, naturalmente, a mente fica muito vacilante. Por isso, em vez de concentrar-se no vazio, a mente busca outra coisa. A mente deve estar ocupada pensando em algo e, se não está pensando em Kṛṣṇa, deve estar pensando em māyā. Por conseguinte, a pseudomeditação no vazio impessoal é simplesmente uma perda de tempo. Tal exibição de prática de yoga pode ser materialmente lucrativa, mas é inútil no que diz respeito à realização espiritual. Posso abrir uma aula de meditação yóguica e cobrar dinheiro das pessoas para que se sentem e pressionem o nariz desta ou daquela maneira, mas, se meus alunos não alcançarem a verdadeira meta da prática de yoga, terão perdido seu tempo e seu dinheiro, e eu os terei enganado.\n\n\n\nPor isso, a pessoa tem de concentrar a mente firme e constantemente na forma de Viṣṇu, e isso se denomina samādhi. Na consciência de Kṛṣṇa, a mente é controlada ao ocupá-la constantemente no transcendental serviço amoroso ao Senhor. A menos que esteja ocupado em consciência de Kṛṣṇa, ninguém pode controlar a mente de maneira estável. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa alcança facilmente o resultado da prática de yoga sem esforço à parte, mas um praticante de yoga não pode alcançar o êxito sem tornar-se consciente de Kṛṣṇa."}
{"ref": "pop/8", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/8/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "8. Fracasso e êxito no yoga", "purport": "Evidentemente, esta vida não é eterna. A perfeição do yoga consiste em alcançar uma vida bem-aventurada, eterna e plena de conhecimento. Todos os sistemas de yoga devem ser praticados com essa meta em mente. Não se frequentam aulas de yoga para reduzir gordura ou para manter o corpo apto para a gratificação dos sentidos. Essa não é a meta do yoga, mas as pessoas são ensinadas dessa maneira porque querem ser enganadas. Na verdade, se a pessoa segue qualquer programa de exercícios, seu corpo se manterá em forma. Há muitos sistemas de exercício corporal — levantamento de pesos e outros esportes — que ajudam a manter o corpo em forma, reduzir a gordura e auxiliar o sistema digestivo. Por conseguinte, não há necessidade de praticar yoga para esses propósitos. O verdadeiro propósito de praticar yoga é compreender que eu não sou este corpo. Eu quero felicidade eterna, conhecimento completo e vida eterna; esse é o fim último do verdadeiro sistema de yoga.\n\n\n\nA meta do yoga é transcendental, além tanto do corpo quanto da mente. A autorrealização busca-se por três métodos: (1) o caminho do conhecimento (jñāna); (2) o caminho do sistema óctuplo; ou (3) o caminho do bhakti-yoga. Em cada um desses processos, há que compreender a posição constitucional da entidade viva, sua relação com Deus e as atividades mediante as quais ela pode restabelecer o vínculo perdido e atingir a etapa mais elevada de perfeição na consciência de Kṛṣṇa. Seguindo qualquer dos três métodos acima mencionados, é certo que se alcançará a meta suprema cedo ou tarde. Isso foi afirmado pelo Senhor no Segundo Capítulo: mesmo um pequeno esforço na senda transcendental oferece uma grande esperança de libertação.\n\n\n\nDesses três métodos, o caminho do bhakti-yoga é especialmente adequado para esta era, pois é o método mais direto de compreensão de Deus. Para ter dupla certeza, Arjuna pede ao Senhor Kṛṣṇa que confirme Sua declaração anterior. A pessoa pode aceitar sinceramente o caminho da autorrealização, mas o processo de cultivo do conhecimento (jñāna) e a prática do sistema óctuplo de yoga são, em geral, muito difíceis para esta era. Assim sendo, apesar do esforço constante, pode-se fracassar por muitas razões. Em primeiro lugar, talvez a pessoa não esteja seguindo de fato o processo, as regras e os regulamentos. Trilhar a senda transcendental equivale, mais ou menos, a declarar guerra à energia ilusória. Quando aceitamos qualquer processo de autorrealização, estamos, na verdade, declarando guerra a māyā, a ilusão, e māyā, com toda a certeza, colocará muitas dificuldades diante de nós. Há, portanto, uma possibilidade de fracasso, mas a pessoa precisa tornar-se muito firme. Sempre que alguém tenta escapar das garras da energia ilusória, ela tenta derrotar o praticante mediante diversos atrativos. A alma condicionada já está seduzida pelos modos da energia material, e há toda a possibilidade de ser seduzida de novo, mesmo enquanto executa disciplinas transcendentais. Isso se denomina yogāc calita-mānasaḥ: desvio da senda transcendental. Arjuna está curioso por conhecer os resultados de desviar-se do caminho da autorrealização.\n\n\n\nComo se afirma no *Bhagavad-gītā* (6.37), citado acima, yogāt significa \"da prática do yoga\", calita significa \"desvio\" e mānasaḥ significa \"mente\". De modo que há toda a possibilidade de a mente desviar-se da prática do yoga. Todos nós temos alguma experiência de tentar concentrar-nos lendo um livro, e nossa mente fica tão perturbada que não nos permite concentrar-nos no livro.\n\n\n\nNa verdade, Arjuna formula uma pergunta muito importante, pois a pessoa está sujeita ao fracasso em todos os tipos de yoga — seja o sistema óctuplo de yoga, seja o jñāna-yoga da filosofia especulativa, seja o bhakti-yoga do serviço devocional. O fracasso é possível em qualquer dessas sendas, e os resultados do fracasso são claramente explicados pelo próprio Śrī Kṛṣṇa no diálogo seguinte com Arjuna (Bg. 6.38–44). Arjuna, dando continuidade à sua indagação, pergunta:\n\n\n\nkaccin nobhaya-vibhraṣṭaś\n\nchinnābhram iva naśyati\n\napratiṣṭho mahā-bāho\n\nvimūḍho brahmaṇaḥ pathi\n\n\n\n\"Ó Kṛṣṇa de braços poderosos, acaso tal homem, desviado da senda da Transcendência, não perece como uma nuvem rasgada, sem posição em esfera alguma?\"\n\n\n\netan me saṁśayaṁ kṛṣṇa\n\nchettum arhasy aśeṣataḥ\n\ntvad-anyaḥ saṁśayasyāsya\n\nchettā na hy upapadyate\n\n\n\n\"Esta é minha dúvida, ó Kṛṣṇa, e Te peço que a dissipes por completo. Afora Ti mesmo, não há ninguém que possa destruir esta dúvida.\"\n\n\n\nśrī-bhagavān uvāca\n\npārtha naiveha nāmutra\n\nvināśas tasya vidyate\n\nna hi kalyāṇa-kṛt kaścid\n\ndurgatiṁ tāta gacchati\n\n\n\n\"O Senhor Abençoado disse: Filho de Pṛthā, um transcendentalista ocupado em atividades auspiciosas não encontra destruição nem neste mundo nem no mundo espiritual; aquele que faz o bem, amigo Meu, jamais é vencido pelo mal.\"\n\n\n\nprāpya puṇya-kṛtāṁ lokān\n\nuṣitvā śāśvatīḥ samāḥ\n\nśucīnāṁ śrīmatāṁ gehe\n\nyoga-bhraṣṭo 'bhijāyate\n\n[Bg. 6.41]\n\n\n\n\"O yogī malsucedido, após muitos e muitos anos de desfrute nos planetas das entidades vivas piedosas, nasce numa família de pessoas retas ou numa família de rica aristocracia.\"\n\n\n\natha vā yoginām eva\n\nkule bhavati dhīmatām\n\netad dhi durlabhataraṁ\n\nloke janma yad īdṛśam\n\n[Bg. 6.42]\n\n\n\n\"Ou nasce numa família de transcendentalistas, que certamente são grandes em sabedoria. Em verdade, semelhante nascimento é raro neste mundo.\"\n\n\n\ntatra taṁ buddhi-saṁyogaṁ\n\nlabhate paurva-dehikam\n\nyatate ca tato bhūyaḥ\n\nsaṁsiddhau kuru-nandana\n\n[Bg. 6.43]\n\n\n\n\"Ao tomar tal nascimento, ele revive a consciência divina de sua vida anterior e tenta progredir ainda mais a fim de alcançar o êxito completo, ó filho de Kuru.\"\n\n\n\npūrvābhyāsena tenaiva\n\nhriyate hy avaśo 'pi saḥ\n\njijñāsur api yogasya\n\nśabda-brahmātivartate\n\n\n\n\"Em virtude da consciência divina de sua vida anterior, ele se sente atraído automaticamente pelos princípios yóguicos — mesmo sem buscá-los. Tal transcendentalista inquisitivo, que aspira ao yoga, situa-se sempre acima dos princípios ritualísticos das escrituras.\"\n\n\n\nA purificação da consciência é o propósito deste movimento da consciência de Kṛṣṇa. No presente, estamos preparando esta consciência divina, pois nossa consciência nos acompanha no momento da morte. A consciência é levada do corpo da mesma forma como o ar transporta o aroma de uma flor. Quando morremos, este corpo material composto de cinco elementos — terra, água, ar, fogo e éter — decompõe-se, e os materiais grosseiros retornam aos elementos. Ou, como diz a Bíblia cristã: \"Pó és e ao pó retornarás.\" Em algumas sociedades, o corpo é queimado; em outras, é enterrado; e em outras, é atirado aos animais. Na Índia, os hindus queimam o corpo, e assim ele se transforma em cinzas. A cinza é simplesmente outra forma de terra. Os cristãos enterram o corpo e, depois de algum tempo na sepultura, ele acaba por converter-se em pó, que novamente, tal como a cinza, é outra forma de terra. Há ainda outras sociedades — como a comunidade parse na Índia — que nem queimam nem enterram o corpo, mas o atiram aos abutres, e os abutres vêm imediatamente comê-lo, e então o corpo acaba por transformar-se em excremento. De maneira que, em qualquer caso, este belo corpo, que ensaboamos e tratamos com tanto esmero, acabará por converter-se em excremento, cinzas ou pó.\n\n\n\nNo momento da morte, os elementos mais sutis (mente, inteligência e ego), que, combinados, se denominam consciência, transportam a diminuta partícula de alma espiritual a outro corpo, para sofrer ou desfrutar conforme as ações de cada um. Nossa consciência é moldada por nossas ações. Se nos associamos ao excremento, nossa consciência, que é como o ar, transportará o aroma do excremento e, assim, no momento da morte, nos transportará a um corpo indesejável. Ou, se a consciência passa sobre rosas, transporta o aroma das rosas, e desse modo somos transportados a um corpo no qual podemos desfrutar os resultados de nossas ações prévias. Se nos treinamos para agir em consciência de Kṛṣṇa, nossa consciência nos levará a Kṛṣṇa. Diferentes tipos de corpo desenvolvem-se conforme a consciência; por isso, se treinamos nossa consciência segundo os princípios yóguicos, atingiremos um corpo no qual poderemos praticar yoga. Teremos bons pais e a oportunidade de praticar o sistema de yoga, e automaticamente seremos capazes de reviver a consciência de Kṛṣṇa praticada em nosso corpo anterior. Por isso, afirma-se neste último verso: \"Em virtude da consciência divina de sua vida anterior, ele se sente atraído automaticamente pelos princípios yóguicos — mesmo sem buscá-los.\" Logo, nosso dever presente é cultivar a consciência divina. Se queremos vida divina, elevação espiritual e vida eterna, bem-aventurada e plena de conhecimento — em outras palavras, se queremos voltar ao lar, voltar ao Supremo —, temos de treinar-nos na consciência divina, ou consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nIsso pode ser alcançado facilmente por meio da associação (saṅgāt sañjāyate kāmaḥ). Mediante a associação divina, nossa consciência torna-se divina, e mediante a associação demoníaca, nossa consciência torna-se demoníaca. Dessa forma, nossa consciência precisa ser treinada para tornar-se divina por meio da associação apropriada com aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa. Esse é o dever de quem possui esta forma humana, uma forma que nos dá a oportunidade de fazer nossa próxima vida completamente divina. Para atingir esse fim, devemos procurar entrar em contato com aqueles que estão desenvolvendo a consciência divina.\n\n\n\nprayatnād yatamānas tu\n\nyogī saṁśuddha-kilbiṣaḥ\n\naneka-janma-saṁsiddhas\n\ntato yāti parāṁ gatim\n\n\n\n\"Mas quando o yogī se empenha com esforço sincero em progredir ainda mais, sendo purificado de todas as contaminações, então, por fim, após muitos e muitos nascimentos de prática, ele alcança a meta suprema.\" (Bg. 6.45) Como se indica neste verso, progredir é uma questão de prática. Quando uma criança nasce, não sabe fumar nem beber, mas, pela associação, torna-se um beberrão ou um fumante. A associação é o fator mais importante. Saṅgāt sañjāyate kāmaḥ. Por exemplo, há muitas associações comerciais, e, ao tornar-se membro de certas associações, os negócios da pessoa prosperam. Em qualquer empreendimento, a associação é muito importante. Para o desenvolvimento da consciência divina, estabelecemos a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, na qual se ensinam os métodos para atingir a consciência divina. Nesta sociedade, convidamos a todos a virem cantar Hare Kṛṣṇa. Esse processo não é difícil, e até as crianças podem participar. Não se exigem qualificações prévias; não se necessita de um título de mestrado nem de doutorado. Nosso convite a todos é que se unam a esta associação e se tornem conscientes de Kṛṣṇa.\n\n\n\nO Senhor Supremo, Deus, é puro, e Seu reino também é puro. Se alguém quer entrar em Seu reino, também precisa ser puro. Isso é muito natural; se queremos entrar numa determinada sociedade, precisamos satisfazer certos requisitos. Se queremos voltar ao lar, voltar ao Supremo, há um requisito que precisamos satisfazer: não devemos estar materialmente contaminados. E qual é essa contaminação? A gratificação irrestrita dos sentidos. Se conseguirmos libertar-nos da contaminação material da gratificação dos sentidos, tornar-nos-emos aptos a entrar no reino de Deus. Esse processo de libertar-nos, de purificar-nos dessa contaminação, denomina-se sistema de yoga. Como se disse antes, yoga não significa sentar-se por quinze minutos, meditar e depois prosseguir com a gratificação dos sentidos. Para curar uma determinada doença, precisamos seguir as prescrições de um médico. Neste Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, recomenda-se o processo de yoga, e temos de seguir os métodos prescritos a fim de libertar-nos da contaminação material. Se conseguirmos fazê-lo, poderemos ligar-nos, ou conectar-nos, com o Supremo.\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa é um método para conectar-se diretamente com o Supremo. Este é o dom especial do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Esse método não só é direto e imediato como também é prático. Embora muitas pessoas que ingressam nesta Sociedade não possuam qualificações, tornaram-se altamente avançadas em consciência de Kṛṣṇa simplesmente por entrarem em contato com a Sociedade. Nesta era, a vida é muito curta, e um processo de yoga que leve muito tempo não ajudará a população em geral. Em Kali-yuga, as pessoas são todas tão desafortunadas, e a associação é muito ruim. Por conseguinte, recomenda-se este processo de contatar diretamente o Supremo: hari-nāma. Kṛṣṇa está presente sob a forma de Seu nome transcendental, e podemos contatá-Lo imediatamente ao ouvir Seu nome. Simplesmente por ouvir o nome Kṛṣṇa, libertamo-nos de imediato da contaminação material.\n\n\n\nComo se afirma no Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (7.28):\n\n\n\nyeṣāṁ tv anta-gataṁ pāpaṁ\n\njanānāṁ puṇya-karmaṇām\n\nte dvandva-moha-nirmuktā\n\nbhajante māṁ dṛḍha-vratāḥ\n\n\n\n\"As pessoas que agiram piedosamente em vidas anteriores e nesta vida, cujas ações pecaminosas estão completamente erradicadas e que estão livres da dualidade da ilusão, ocupam-se em Meu serviço com determinação.\" Recalca-se aqui que a pessoa deve estar completamente fixa em consciência de Kṛṣṇa, livre de dualidade, e deve executar somente atividades piedosas. Como a mente é vacilante, as dualidades sempre virão. A pessoa está sempre a indagar-se: \"Devo tornar-me consciente de Kṛṣṇa, ou devo ocupar-me em outra consciência?\" Esses problemas estão sempre presentes, mas se alguém é avançado em virtude de atividades piedosas executadas numa vida anterior, sua consciência estará firmemente fixa, e ele resolverá: \"Serei consciente de Kṛṣṇa.\"\n\n\n\nQue tenhamos agido piedosamente nesta vida ou numa vida anterior realmente não importa. Este canto de Hare Kṛṣṇa é tão potente que, mediante ele, seremos purificados de imediato. Devemos ter a determinação, contudo, de não nos envolvermos em novas atividades ímpias. Por isso, para aqueles que desejam ser iniciados nesta Sociedade para a Consciência de Krishna, há quatro princípios: nada de sexo ilícito, nada de intoxicação, nada de comer carne e nada de jogos de azar. Não dizemos \"nada de sexo\". Mas dizemos, sim: \"nada de sexo ilícito\". Se queres sexo, casa-te e tem filhos conscientes de Kṛṣṇa. \"Nada de intoxicação\" significa nem mesmo tomar chá ou café — sem falar de outros intoxicantes. E não há jogos de azar nem consumo de carne (inclusive peixe e ovos). Simplesmente seguindo estas quatro regras e regulamentos básicos, a pessoa torna-se imediatamente livre de contaminação. Nenhum esforço adicional é necessário. Tão logo alguém se une a este movimento da consciência de Kṛṣṇa e segue estas regras e regulamentos, a contaminação material é removida de imediato, mas a pessoa precisa ter cuidado para não se contaminar de novo. Por isso, estas regras e regulamentos devem ser seguidos com esmero.\n\n\n\nA contaminação material começa com esses quatro maus hábitos, e se conseguirmos contê-los, não haverá possibilidade de contaminação. Assim, tão logo adotamos a consciência de Kṛṣṇa, ficamos livres. Todavia, não devemos pensar que, por a consciência de Kṛṣṇa nos tornar livres, podemos voltar a entregar-nos a esses quatro maus hábitos e libertar-nos cantando. Isso é trapacear, e isso não será permitido. Uma vez que estamos livres, não devemos permitir que nos contaminemos de novo. Ninguém deve pensar: \"Hei de beber ou ter sexo ilícito e depois cantar e tornar-me livre.\" Segundo alguns processos religiosos, diz-se que a pessoa pode cometer toda sorte de pecados e depois ir à igreja, confessar-se a um sacerdote e ficar livre de todo pecado. Por isso, as pessoas pecam e se confessam, e pecam e se confessam, repetidamente. Mas esse não é o processo da consciência de Kṛṣṇa. Se ficaste livre, muito bem, mas não tornes a fazê-lo. Afinal, qual é o propósito da confissão? Se confessas: \"Cometi estas atividades pecaminosas\", por que haverias de cometê-las de novo? Se um ladrão confessa que andou furtando carteiras, fica livre de seu pecado em virtude da confissão, mas isso significa que ele deve sair de novo a furtar carteiras? Isso requer um pouco de inteligência. Ninguém deve pensar que, por se tornar livre ao confessar-se, deva continuar a cometer atividades pecaminosas, confessar-se de novo e tornar-se livre outra vez. Esse não é o propósito da confissão.\n\n\n\nDevemos compreender, portanto, que, se nos entregamos sem restrição a atividades pecaminosas, ficamos contaminados. Devemos ser cuidadosos em ter relações sexuais apenas de acordo com as regras e regulamentos, em comer somente alimentos que tenham sido prescritos e devidamente oferecidos, em defender — como Kṛṣṇa aconselhou Arjuna — pela causa justa. Dessa maneira, podemos evitar a contaminação e purificar nossa vida. Se conseguirmos continuar vivendo uma vida pura até o momento da morte, com toda a certeza seremos transferidos para o reino de Deus. Quando alguém está plenamente em consciência de Kṛṣṇa, não retorna a este mundo material ao abandonar o corpo. Isto se afirma no Quarto Capítulo (Bg. 4.9):\n\n\n\njanma karma ca me divyam\n\nevaṁ yo vetti tattvataḥ\n\ntyaktvā dehaṁ punar janma\n\nnaiti mām eti so 'rjuna\n\n\n\n\"Aquele que conhece a natureza transcendental de Meu aparecimento e de Minhas atividades não volta a nascer neste mundo material ao deixar o corpo, mas alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.\"\n\n\n\nO yogī malsucedido retorna a uma boa família, ou a uma família reta, rica ou aristocrática, mas se alguém está situado em perfeita consciência de Kṛṣṇa, não retorna novamente. Ele atinge Goloka Vṛndāvana, no céu espiritual eterno. Devemos estar decididos a não voltar nunca mais a este mundo material, pois, mesmo que obtenhamos um bom nascimento numa família rica ou aristocrática, podemos degradar-nos de novo ao empregar indevidamente nossa boa oportunidade. Por que correr esse risco? É melhor completar o processo da consciência de Kṛṣṇa nesta vida. É muito simples e nada difícil. Só temos de continuar pensando em Kṛṣṇa; então teremos a garantia de que nosso próximo nascimento será no céu espiritual, em Goloka Vṛndāvana, no reino de Deus.\n\n\n\ntapasvibhyo 'dhiko yogī\n\njñānibhyo 'pi mato 'dhikaḥ\n\nkarmibhyaś cādhiko yogī\n\ntasmād yogī bhavārjuna\n\n\n\n\"Um yogī é maior que o asceta, maior que o empirista e maior que o trabalhador fruitivo. Portanto, ó Arjuna, em todas as circunstâncias, sê um yogī.\" (Bg. 6.46) Há diferentes gradações de vida dentro deste mundo material, mas, se alguém vive segundo o princípio yóguico, especialmente os princípios do bhakti-yoga, está vivendo a vida mais perfeita possível. Por isso, Kṛṣṇa diz a Arjuna: \"Meu querido amigo Arjuna, em todas as circunstâncias sê um yogī e permanece um yogī.\"\n\n\n\nyoginām api sarveṣāṁ\n\nmad-gatenāntarātmanā\n\nśraddhāvān bhajate yo māṁ\n\nsa me yuktatamo mataḥ\n\n\n\n\"E de todos os yogīs, aquele que sempre habita em Mim com grande fé, adorando-Me em transcendental serviço amoroso, está unido a Mim em yoga da maneira mais íntima e é o mais elevado de todos.\" (Bg. 6.47) Afirma-se aqui claramente que há muitos tipos de yogīs — aṣṭāṅga-yogīs, haṭha-yogīs, jñāna-yogīs, karma-yogīs e bhakti-yogīs — e que, de todos os yogīs, \"aquele que sempre habita em Mim\" é dito ser o maior de todos. \"Em Mim\" significa em Kṛṣṇa; isto é, o maior yogī é aquele que está sempre em consciência de Kṛṣṇa. Tal yogī \"habita em Mim com grande fé, adorando-Me em transcendental serviço amoroso, está unido a Mim em yoga da maneira mais íntima e é o mais elevado de todos\". Esta é a instrução primordial deste Sexto Capítulo sobre o sāṅkhya-yoga: se alguém quer atingir a plataforma mais elevada do yoga, precisa permanecer em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nEm sânscrito, a palavra bhajate, com sua raiz bhaj (bhaj-dhātu), significa \"prestar serviço\". Mas quem presta serviço a Kṛṣṇa, a menos que seja um devoto de Kṛṣṇa? Nesta Sociedade da consciência de Kṛṣṇa, os devotos prestam serviço sem remuneração, por amor a Kṛṣṇa. Poderiam prestar serviço em outro lugar e receber centenas de dólares por mês, mas o serviço prestado aqui é serviço amoroso (bhaj), baseado no amor a Deus. Os devotos prestam serviço de muitas maneiras — jardinagem, datilografia, cozinha, limpeza etc. Todas as atividades estão relacionadas com Kṛṣṇa e, por isso, a consciência de Kṛṣṇa prevalece vinte e quatro horas por dia. Esse é o mais elevado tipo de yoga. Isso é \"adorar-Me em transcendental serviço amoroso\". Como se disse antes, a perfeição do yoga consiste em manter a consciência em contato com Viṣṇu, ou Kṛṣṇa, o Senhor Supremo. Não estamos simplesmente alardeando que até uma criança pode ser o mais elevado yogī apenas por participar da consciência de Kṛṣṇa; não, este é o veredito da escritura autorizada — o *Bhagavad-gītā*. Estas palavras não são criação nossa, mas são declaradas especificamente pelo próprio Senhor Śrī *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*.\n\n\n\nNa verdade, adoração e serviço são algo diferentes. A adoração implica algum motivo. Adoro um amigo ou um homem importante porque, se conseguir agradar a essa pessoa, talvez eu obtenha algum benefício. Aqueles que adoram os semideuses adoram com algum propósito ulterior, e isso é condenado no Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (7.20):\n\n\n\nkāmais tais tair hṛta-jñānāḥ\n\nprapadyante 'nya-devatāḥ\n\ntaṁ taṁ niyamam āsthāya\n\nprakṛtyā niyatāḥ svayā\n\n\n\n\"Aqueles cujas mentes estão distorcidas pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e seguem as regras e regulamentos específicos de adoração de acordo com suas próprias naturezas.\" Aqueles que estão desconcertados pela luxúria adoram os semideuses com um motivo; por isso, quando falamos de adoração, algum motivo está implícito. O serviço, contudo, é diferente, pois no serviço não há motivo. O serviço é prestado por amor, tal como uma mãe presta serviço a seu filho unicamente por amor. Todos podem negligenciar essa criança, mas a mãe não pode, porque o amor está presente. Bhaj-dhātu é semelhante, no sentido de que não há questão de motivo, mas o serviço é prestado por amor puro. Essa é a perfeição da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nEsta é também a recomendação do *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.2.6):\n\n\n\nsa vai puṁsāṁ paro dharmo\n\nyato bhaktir adhokṣaje\n\nahaituky apratihatā\n\nyayātmā suprasīdati\n\n\n\n\"A ocupação suprema [dharma] para toda a humanidade é aquela pela qual os homens podem atingir o amoroso serviço devocional ao Senhor transcendente. Tal serviço devocional deve ser imotivado e ininterrupto para satisfazer plenamente o eu.\" Yato bhaktir adhokṣaje. A palavra bhakti provém da mesma raiz que bhaj. A prova de uma religião de primeira classe é se estamos ou não desenvolvendo nosso amor por Deus. Se praticamos religião com algum motivo ulterior, na esperança de satisfazer nossas necessidades materiais, nossa religião não é de primeira classe, mas de terceira. Deve-se compreender que a religião de primeira classe é aquela pela qual podemos desenvolver nosso amor a Deus. Ahaituky apratihatā. Esta religião perfeita deve ser executada sem motivo ulterior nem impedimento. Esse é o sistema de yoga recomendado no *Śrīmad-Bhāgavatam* e neste Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā*. Esse é o sistema da consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nA consciência de Kṛṣṇa não é praticada com algum motivo em mente. Os devotos não servem Kṛṣṇa para que Ele lhes forneça isto ou aquilo. Para um devoto não há escassez. Ninguém deve pensar que, ao tornar-se consciente de Kṛṣṇa, fica pobre. Não. Se Kṛṣṇa está presente, tudo está presente, porque Kṛṣṇa é tudo. Mas isso não significa que devamos tentar negociar com Kṛṣṇa, exigindo: \"Kṛṣṇa, dá-me isto. Dá-me aquilo.\" Kṛṣṇa sabe melhor que nós, e conhece nossos motivos. Uma criança não faz exigências a seus pais, dizendo: \"Querido pai, dá-me isto. Dá-me aquilo.\" Visto que o pai conhece as necessidades de seu filho, não há necessidade de a criança pedir. De modo semelhante, não é uma ideia muito boa pedir a Deus que nos dê isto ou aquilo. Por que deveríamos pedir? Se Deus é onisciente e onipotente, Ele conhece nossos anseios, nossas necessidades, e pode supri-los. Isto se confirma nos *Vedas*. Eko bahūnāṁ yo vidadhāti kāmān: \"O Deus único e todo-poderoso supre todas as necessidades de milhões e trilhões de entidades vivas.\" Por conseguinte, não devemos exigir nada de Deus, pois nossas exigências já estão satisfeitas. Os suprimentos já estão ali. Devemos simplesmente procurar amar a Deus. Até os gatos e cães recebem o que necessitam sem ir à igreja nem peticionar a Deus. Se um gato ou cão recebe o que necessita sem fazer exigências, por que não haveria o devoto de receber o que necessita? Logo, não devemos exigir nada de Deus, mas simplesmente procurar amá-Lo. Então tudo se cumprirá, e teremos atingido a plataforma mais elevada do yoga.\n\n\n\nPodemos de fato observar como as diversas partes do corpo servem ao corpo. Se tenho uma coceira, os dedos imediatamente coçam. Se quero ver algo, os olhos imediatamente olham. Se quero ir a algum lugar, as pernas imediatamente me levam. Assim como recebo serviço das diferentes partes de meu corpo, Deus recebe serviço de todas as partes de Sua criação. Deus não se destina a servir. Se os membros do corpo servem ao corpo inteiro, as partes do corpo recebem energia automaticamente. De modo semelhante, se servimos Kṛṣṇa, recebemos automaticamente todas as necessidades, toda a energia.\n\n\n\nO *Śrīmad-Bhāgavatam* confirma que todos nós somos partes integrantes do Supremo. Se uma parte do corpo não pode prestar serviço regularmente, causa dor ao corpo, e se uma pessoa não presta serviço ao Senhor Supremo, está simplesmente causando dor e transtorno ao Senhor Supremo. Por isso, tal pessoa tem de sofrer, assim como um criminoso tem de sofrer quando não se atém às leis do Estado. Tal criminoso pode pensar: \"Sou um homem muito bom\", mas, por estar violando as leis do Estado, está causando transtorno ao governo e, em consequência, o governo o lança na prisão. Quando as entidades vivas causam transtorno ao Senhor Supremo, o Senhor vem, reúne-as e as coloca neste mundo material. Em essência, Ele diz: \"Vivei aqui. Estais todos perturbando a criação; logo, sois criminosos e tendes de viver neste mundo material.\" Sthānād bhraṣṭāḥ patanty adhaḥ: \"A pessoa cai de sua posição constitucional.\" Se um dedo está doente, tem de ser amputado, para que não contamine o corpo inteiro. Tendo-nos rebelado contra os princípios da consciência de Deus, fomos separados de nossa posição original. Caímos. A fim de recobrar nossa posição original, precisamos retomar a prestação de serviço ao Senhor Supremo. Essa é a cura perfeita. De outro modo, continuaremos a sofrer dor, e Deus sofrerá dor por nossa causa. Se sou pai e meu filho não é bom, eu sofro, e meu filho também sofre. De maneira semelhante, todos nós somos filhos de Deus, e, quando causamos dor a Deus, também somos pungidos. O melhor caminho é reviver nossa consciência de Kṛṣṇa original e ocupar-nos no serviço ao Senhor. Essa é nossa vida natural, e isso é possível no céu espiritual, Goloka Vṛndāvana.\n\n\n\nA palavra avajānanti significa, na verdade, \"negligenciar\". Isto quer dizer pensar: \"O que é Deus? Eu sou Deus. Por que deveria servir a Deus?\" É exatamente como um criminoso que pensa: \"O que é este governo? Posso cuidar de meus próprios assuntos. Não me importo com o governo.\" Isto se chama avajānanti. Podemos falar dessa maneira, mas o departamento de polícia está aí para punir-nos. De modo semelhante, a natureza material está aqui para punir-nos com os três tipos de misérias. Essas misérias destinam-se a esses patifes que avajānanti, que não se importam com Deus ou que tomam o significado de Deus de modo barato, dizendo: \"Eu sou Deus. Tu és Deus.\"\n\n\n\nAssim, o progresso geral do yoga é gradual. Primeiro a pessoa pratica karma-yoga, que se refere à atividade fruitiva comum. As atividades comuns incluem atividades pecaminosas, mas o karma-yoga exclui tais atividades. O karma-yoga refere-se somente às boas atividades piedosas, ou àquelas ações que são prescritas. Após executar karma-yoga, a pessoa chega à plataforma do jñāna-yoga, o conhecimento. Da plataforma do conhecimento, ela atinge o aṣṭāṅga-yoga, o sistema óctuplo de yoga — dhyāna, dhāraṇā, prāṇāyāma, āsana etc. — e, do aṣṭāṅga-yoga, à medida que se concentra em Viṣṇu, chega ao ponto do bhakti-yoga. O bhakti-yoga é a etapa de perfeição, e se alguém pratica a consciência de Kṛṣṇa, atinge essa etapa desde o próprio início. Esse é o caminho direto.\n\n\n\nSe alguém pratica jñāna-yoga e pensa que atingiu o objetivo último, está enganado. Tem de progredir ainda mais. Se estamos numa escada e temos de chegar ao andar mais alto, que é o centésimo, enganamo-nos se pensamos que chegamos quando estamos no trigésimo andar. Como se disse antes, todo o sistema de yoga pode ser comparado a uma escada, que nos conecta ou nos vincula a Deus. A fim de atingir o objetivo último, a Suprema Personalidade de Deus, precisamos ir à plataforma mais elevada, e essa é o bhakti-yoga.\n\n\n\nMas por que subir todos esses degraus se temos a oportunidade de tomar um elevador? Por meio de um elevador, podemos chegar ao topo numa questão de segundos. O bhakti-yoga é esse elevador, o processo direto pelo qual podemos chegar ao topo numa questão de segundos. Podemos ir passo a passo, seguindo todos os demais sistemas de yoga, ou podemos ir diretamente. Visto que, nesta era de Kali-yuga, as pessoas têm vidas curtas e estão sempre perturbadas e ansiosas, o Senhor Caitanya Mahāprabhu, por Sua misericórdia sem causa, deu-nos o elevador pelo qual podemos chegar imediatamente à plataforma do bhakti-yoga. Esse meio direto é o canto de Hare Kṛṣṇa, e esse é o dom especial do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Por isso, Rūpa Gosvāmī oferece respeitos ao Senhor Caitanya Mahāprabhu: namo mahā-vadānyāya kṛṣṇa-prema-pradāya te: [Madhya 19.53] \"Oh, Tu és a mais munificente das encarnações, pois estás dando diretamente amor por Kṛṣṇa. Para atingir o amor puro por Kṛṣṇa, a pessoa tem de passar por tantas etapas de yoga, mas Tu estás dando esse amor diretamente. Logo, Tu és o mais munificente.\"\n\n\n\nComo se afirma no Décimo Oitavo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (18.55):\n\n\n\nbhaktyā mām abhijānāti\n\nyāvān yaś cāsmi tattvataḥ\n\ntato māṁ tattvato jñātvā\n\nviśate tad-anantaram\n\n\n\n\"é unicamente pelo serviço devocional que se pode compreender a Suprema Personalidade tal como Ele é. E quando alguém está em plena consciência do Senhor Supremo mediante tal devoção, pode entrar no reino de Deus.\" Nos demais sistemas de yoga, deve haver uma mistura de bhakti, mas o bhakti-yoga é devoção pura. É serviço sem motivo. Em geral, as pessoas oram com algum motivo em mente, mas devemos orar apenas por mais ocupação no serviço devocional. O Senhor Caitanya Mahāprabhu nos ensinou que, quando oramos, não devemos orar por nada material. No início, citamos a oração perfeita do Senhor Caitanya Mahāprabhu:\n\n\n\nna dhanaṁ na janaṁ na sundarīṁ\n\nkavitāṁ vā jagad-īśa kāmaye\n\nmama janmani janmanīśvare\n\nbhavatād bhaktir ahaitukī tvayi\n\n\n\n\"Ó Senhor Todo-Poderoso, não tenho desejo de acumular riqueza, nem de desfrutar de belas mulheres. Tampouco quero qualquer número de seguidores. O que desejo apenas é a misericórdia sem causa de Teu serviço devocional em minha vida, nascimento após nascimento.\" (Śikṣāṣṭaka 4) Neste verso, Caitanya Mahāprabhu dirige-se ao Senhor Supremo como Jagadīśa. Jagat significa \"universo\", e īśa significa \"controlador\". O Senhor Supremo é o controlador do universo, e isso pode ser compreendido por qualquer pessoa; por isso, Caitanya Mahāprabhu dirige-se ao Senhor Supremo como Jagadīśa, em vez de Kṛṣṇa ou Rāma. No mundo material, encontramos muitos controladores, de modo que é lógico que haja um controlador do universo inteiro. Caitanya Mahāprabhu não ora por riqueza, seguidores ou belas mulheres, pois esses são pedidos materiais. Em geral, as pessoas querem ser grandes líderes dentro deste mundo material. Alguém tenta tornar-se um homem muito rico, como Ford ou Rockefeller, ou outro tenta tornar-se presidente ou algum grande líder a quem muitos milhares de pessoas hão de seguir. Estas são todas exigências materiais: \"Dá-me dinheiro. Dá-me seguidores. Dá-me uma boa esposa.\" O Senhor Caitanya Mahāprabhu recusa-se a fazer tais pedidos materialistas. Ele diz francamente: \"Não quero nada dessas coisas.\" Diz até mesmo mama janmani janmanīśvare. Ou seja, Ele nem sequer pede a liberação. Assim como os materialistas têm suas exigências, os yogīs exigem a liberação. Mas Caitanya Mahāprabhu não quer nada dessa natureza. Então, por que Ele é um devoto? Por que está adorando Kṛṣṇa? \"Simplesmente quero ocupar-me em Teu serviço, nascimento após nascimento.\" Ele nem mesmo ora pelo fim do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Não há exigências de espécie alguma, pois esta é a plataforma mais elevada, a etapa do bhakti-yoga.\n\n\n\nCantar Hare Kṛṣṇa é também pedir ao Senhor: \"Por favor, ocupa-me em Teu serviço.\" Este é o mantra ensinado pelo próprio Caitanya Mahāprabhu. Hare refere-se à energia do Senhor, e Kṛṣṇa e Rāma são nomes do próprio Senhor. Quando cantamos Hare Kṛṣṇa, estamos pedindo a Kṛṣṇa que, por favor, nos ocupe em Seu serviço. Isto porque toda a nossa enfermidade material se deve a havermos esquecido de servir a Deus. Na ilusão, pensamos: \"Eu sou Deus. Que outro Deus há a quem eu tenha de servir? Eu mesmo sou Deus.\" Em última análise, essa é a única enfermidade, a última cilada da ilusão. Primeiro, a pessoa tenta ser primeiro-ministro, presidente, Rockefeller, Ford, isto e aquilo, e quando fracassa, ou alcança tal posto e continua infeliz, quer tornar-se Deus. Isso é como tornar-se um presidente ainda mais elevado. Quando compreendo que a presidência não me proporciona bem-aventurança e conhecimento eternos, exijo a presidência mais elevada. Exijo tornar-me Deus. Em qualquer caso, a exigência está aí, e essa exigência é nossa enfermidade. Na ilusão, estamos exigindo ser os mais elevados, mas o processo do bhakti-yoga é justamente o oposto. Queremos tornar-nos servos, servos dos servos do Senhor. Não há questão de exigir tornar-se o Senhor; queremos apenas servir. Isso é tudo.\n\n\n\nNossa natureza original está enraizada no serviço, e querer servir é a prova crucial para o devoto. Talvez não nos demos conta, mas neste mundo material também estamos servindo. Se queremos tornar-nos presidente, temos de fazer tantas promessas aos eleitores. Em outras palavras, o presidente tem de dizer: \"Darei ao povo o meu serviço.\" A menos que prometa servir seu país, não há possibilidade de tornar-se presidente. Assim, mesmo que alguém seja o mais exaltado líder, sua posição é prestar serviço. Isso é muito difícil de compreender para as pessoas. Apesar de tornar-se o mais alto executivo do país, a pessoa tem de prestar serviço ao povo. Se esse serviço não é prestado, é provável que seja usurpado, demitido ou assassinado. No mundo material, o serviço é muito perigoso. Se há uma pequena deficiência no serviço de alguém, ele é demitido de imediato. Quando o povo não gostou do serviço que o presidente Nixon estava prestando, obrigou-o a renunciar. Algumas pessoas discordaram do presidente Kennedy, e ele foi assassinado. De modo semelhante, na Índia, Gandhi também foi assassinado porque algumas pessoas não gostaram da forma como ele prestava serviço. Esta é sempre a posição no mundo material; por isso, a pessoa deve ser suficientemente inteligente para decidir cessar de prestar serviço por motivos materiais. Devemos prestar serviço ao Senhor Supremo, e essa prestação de serviço é nossa perfeição.\n\nFormamos esta Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna a fim de ensinar às pessoas aquilo que elas esqueceram. Neste mundo material, esquecemos o serviço de Rādhā-Kṛṣṇa; por isso nos tornamos servos de māyā, dos sentidos. Por conseguinte, nesta Sociedade dizemos: «Vocês estão servindo a seus sentidos. Agora, simplesmente dirijam seu serviço a Rādhā e Kṛṣṇa, e serão felizes. É preciso prestar serviço — seja a māyā [a ilusão], aos sentidos, seja a Śrī Śrī Rādhā-Kṛṣṇa».\n\n\n\nNeste mundo, todos servem aos sentidos, mas as pessoas não estão satisfeitas. Ninguém pode satisfazer-se, porque os sentidos exigem sempre maior gratificação, e isto significa que constantemente temos de servi-los. Em qualquer caso, nossa posição de servos permanece a mesma. A questão é se queremos ser felizes em nosso serviço. É o veredito do *Bhagavad-gītā* e das demais escrituras Védicas que jamais seremos felizes tentando servir a nossos sentidos, pois eles são apenas fontes de miséria. Por isso o Senhor Caitanya Mahāprabhu ora para situar-se no serviço de Kṛṣṇa. Ele ora ainda:\n\n\n\nayi nanda-tanuja kiṅkaraṁ\n\npatitaṁ māṁ viṣame bhavāmbudhau\n\nkṛpayā tava pāda-paṅkaja-\n\nsthita-dhūlī-sadṛśaṁ vicintaya\n\n\n\n«Ó filho de Mahārāja Nanda [Kṛṣṇa], sou Teu servo eterno, mas, de uma forma ou de outra, caí no oceano do nascimento e da morte. Por favor, retira-me deste oceano de morte e coloca-me como um dos átomos a Teus pés de lótus». (Śikṣāṣṭaka 5) Esta é outra maneira de pedir a Kṛṣṇa que nos ocupe em Seu serviço.\n\n\n\nO amoroso serviço devocional só pode ser prestado à forma pessoal de Kṛṣṇa, Śyāmasundara. Os impersonalistas dão ênfase à virāṭ-rūpa, a forma universal exibida no Capítulo Onze do *Bhagavad-gītā*, mas ali se declara (11.21) que os semideuses têm grande temor desta forma, e Arjuna diz:\n\n\n\nadṛṣṭa-pūrvaṁ hṛṣito 'smi dṛṣṭvā\n\nbhayena ca pravyathitaṁ mano me\n\ntad eva me darśaya deva rūpaṁ\n\nprasīda deveśa jagan-nivāsa\n\n\n\n«Após contemplar esta forma universal, que jamais vira antes, sinto-me alegre, mas, ao mesmo tempo, minha mente está perturbada pelo temor. Por isso, rogo-Te que me concedas Tua graça e reveles novamente Tua forma como a Personalidade de Deus [Kṛṣṇa, ou Śyāmasundara], ó Senhor dos senhores, ó morada do universo». (Bg. 11.45) Não há possibilidade de amar a virāṭ-rūpa. Se Kṛṣṇa surgir diante de você na forma virāṭ-rūpa, você ficará tão tomado de temor que esquecerá seu amor. Portanto, não esteja ansioso, como os impersonalistas, por ver a forma virāṭ-rūpa; simplesmente preste amoroso serviço a Śyāmasundara, Kṛṣṇa.\n\n\n\nVimos mais ou menos Kṛṣṇa como o viśva-rūpa em tempo de guerra, em Calcutá, em 1942. Soava uma sirene, corríamos para um abrigo e os bombardeios começavam. Dessa maneira, estávamos vendo aquela viśva-rūpa, e eu pensava: «Naturalmente, isto também é apenas outra forma de Kṛṣṇa. Mas não é uma forma muito amável». O devoto quer amar Kṛṣṇa em Sua forma original, e essa viśva-rūpa não é Sua forma original. Por ser onipotente, Kṛṣṇa pode aparecer em qualquer forma, mas Sua forma amável é a de Kṛṣṇa, Śyāmasundara. Embora um homem possa ser um oficial de polícia, quando está em casa é um pai amado por seu filho. Mas, se chega em casa disparando seu revólver, o filho ficará tão assustado que esquecerá que se trata de seu pai amado. Naturalmente, a criança ama seu pai quando este está em casa como pai e, de modo semelhante, amamos Kṛṣṇa tal como Ele é em Sua morada eterna, na forma de Śyāmasundara.\n\n\n\nA viśva-rūpa foi mostrada a Arjuna para advertir aqueles canalhas que afirmam: «Eu sou Deus». Arjuna pediu para ver a viśva-rūpa de modo que, no futuro, tivéssemos algum critério com o qual pôr à prova os canalhas que afirmam ser Deus. Em outras palavras, se alguém disser: «Eu sou Deus», podemos simplesmente responder: «Se você é Deus, por favor, mostre-me sua viśva-rūpa». E podemos ter a certeza de que tais canalhas não são capazes de exibir esta forma.\n\n\n\nNaturalmente, Arjuna oferecia todo o respeito à forma viśva-rūpa. Essa é uma qualidade natural do devoto. O devoto respeita até mesmo Durgā, Māyā, porque Māyā é a energia de Kṛṣṇa. Se respeitamos Kṛṣṇa, respeitamos a todos, mesmo a uma formiga. Por isso Brahmā ora:\n\n\n\nsṛṣṭi-sthiti-pralaya-sādhana-śaktir ekā\n\nchāyeva yasya bhuvanāni bibharti durgā\n\nicchānurūpam api yasya ca ceṣṭate sā\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n«A potência externa, Māyā, que é da natureza da sombra da potência cit [espiritual], é adorada por todas as pessoas como Durgā, o agente que cria, preserva e destrói este mundo mundano. Adoro o Senhor primordial, Govinda, segundo cuja vontade Durgā se conduz». (Brahma-saṁhitā 5.44) Assim, quando oramos a Kṛṣṇa, oramos imediatamente a Durgā, pois Durgā é Sua energia. E quando oramos a Durgā, na verdade estamos orando a Kṛṣṇa, porque ela atua sob a direção de Kṛṣṇa. Quando o devoto vê as atividades de Māyā, vê Kṛṣṇa imediatamente, pensando: «Ah, Māyā está agindo tão bem sob a direção de Kṛṣṇa!». Quando alguém oferece respeito a um policial, na verdade está oferecendo respeito ao governo. Durgā, a energia material, é tão poderosa que pode criar, aniquilar e manter, mas em todos os casos atua sob as direções de Kṛṣṇa.\n\n\n\nMediante a bhakti, devoção pura a Kṛṣṇa, podemos abandonar a associação de Māyā e ser promovidos à associação eterna de Kṛṣṇa. Alguns dos gopas, os amigos de Kṛṣṇa, são associados eternos, e outros são promovidos a essa posição eterna. Se apenas os associados eternos de Kṛṣṇa puderem brincar com Ele e os demais não, qual é, então, o sentido de tornar-se consciente de Kṛṣṇa? Nós também podemos tornar-nos associados eternos de Kṛṣṇa por meio de atos piedosos executados ao longo de muitas e muitas vidas. Na verdade, na Vṛndāvana manifesta neste mundo material, os associados de Kṛṣṇa são principalmente entidades vivas condicionadas que foram promovidas à etapa perfeita da consciência de Kṛṣṇa. Promovidas dessa forma, primeiramente se lhes permite ver Kṛṣṇa no planeta onde os passatempos de Kṛṣṇa estão sendo encenados. Depois disso, são promovidas à transcendental Goloka Vṛndāvana, no céu espiritual. Por isso se afirma no Bhāgavata (10.12.11), kṛta-puṇya-puñjāḥ.\n\n\n\nBhakti-yoga significa conectarmo-nos com Kṛṣṇa, Deus, e tornarmo-nos Seus associados eternos. O bhakti-yoga não pode ser aplicado a nenhum outro objetivo; por isso, no budismo, por exemplo, não há bhakti-yoga, porque eles não reconhecem o Senhor Supremo como o objetivo supremo da existência. Os cristãos, todavia, praticam bhakti-yoga quando adoram Jesus Cristo, pois o aceitam como o filho de Deus e, portanto, aceitam Deus. A menos que se aceite Deus, não há possibilidade de bhakti-yoga. O cristianismo, assim sendo, é também uma forma de vaiṣṇavismo, porque Deus é reconhecido. Não obstante, há diferentes etapas de realização de Deus. O cristianismo, em essência, diz: «Deus é grande», e essa é uma afirmação muito boa, mas a verdadeira grandeza de Deus pode compreender-se a partir do *Bhagavad-gītā* e do *Śrīmad-Bhāgavatam*. Aceitar a grandeza de Deus é o início da bhakti. O bhakti-yoga também existe entre os muçulmanos, porque Deus é o alvo na religião muçulmana. Contudo, onde não há reconhecimento de um Deus pessoal — em outras palavras, onde só há impersonalismo —, não há possibilidade de bhakti-yoga. O bhakti-yoga deve incluir três elementos: o servidor, o servido e o serviço. Alguém deve estar presente para aceitar o serviço, e alguém deve estar presente para prestá-lo. O meio é o próprio processo de serviço, o bhakti-yoga. Ora, se não há ninguém para aceitar esse serviço, como pode haver bhakti-yoga? Por isso, se uma filosofia ou religião não aceita Deus como a Pessoa Suprema, não há possibilidade de aplicar-se o bhakti-yoga.\n\n\n\nNo processo do bhakti-yoga, o papel do mestre espiritual é o mais importante e essencial. Embora o mestre espiritual sempre retorne até que seus devotos alcancem a realização de Deus, não se deve tentar tirar proveito disso. Não devemos perturbar nosso mestre espiritual, mas completar o processo do bhakti-yoga nesta vida. O discípulo deve ser sério em seu serviço ao mestre espiritual, e, se for inteligente, o devoto deve pensar: «Por que haveria eu de agir de tal maneira que meu mestre espiritual tivesse de se incomodar para resgatar-me outra vez? Que eu realize Kṛṣṇa nesta vida». Essa é a maneira correta de pensar. Não devemos pensar: «Ah, tenho certeza de que meu mestre espiritual virá e me salvará. Portanto, farei o que bem entender». Se temos alguma afeição por nosso mestre espiritual, devemos completar o processo nesta vida, de modo que ele não tenha de retornar para resgatar-nos.\n\n\n\nA esse respeito, há o exemplo de Bilvamaṅgala Ṭhākura, que, em sua vida anterior, foi elevado quase a prema-bhakti, a mais alta plataforma do serviço devocional. Contudo, como sempre existe a possibilidade de uma queda, de uma forma ou de outra ele caiu. Em sua vida seguinte, nasceu numa família muito rica de brāhmaṇas, de acordo com o princípio enunciado no Sexto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (6.41): śucīnāṁ śrīmatāṁ gehe. Infelizmente, como acontece com frequência com os rapazes ricos, tornou-se um caçador de prostitutas. No entanto, diz-se que seu mestre espiritual o instruiu por intermédio de sua prostituta, dizendo: «Ah, você está tão apegado a esta mera carne e ossos. Se estivesse assim apegado a Kṛṣṇa, quanto bem poderia alcançar!». Imediatamente Bilvamaṅgala Ṭhākura retomou seu serviço devocional.\n\n\n\nEmbora o mestre espiritual assuma a responsabilidade por seu discípulo, não devemos tirar proveito disso. Antes, devemos esforçar-nos por contentar o mestre espiritual (yasya prasādād bhagavat-prasādaḥ). Não devemos colocar nosso mestre espiritual numa posição tal que ele tenha de resgatar-nos de uma casa de prostituição. Mas, ainda que tenha de fazê-lo, ele o fará, porque assume essa responsabilidade ao aceitar seu discípulo.\n\n\n\nO processo do bhakti-yoga deve ser completado nesta vida, porque nesta vida temos todos os instrumentos necessários para tornar-nos plenamente conscientes de Kṛṣṇa. Temos mṛdaṅgas, címbalos e a língua com que cantar Hare Kṛṣṇa. Mesmo que não tenhamos mṛdaṅgas e címbalos, temos a língua. Ninguém precisa comprar uma língua. Temos também os ouvidos com que ouvir o som que a língua vibra. Por isso, trazemos conosco todos os instrumentos de que necessitamos — uma língua e ouvidos. Basta cantar Hare Kṛṣṇa e usar os ouvidos para ouvir essa vibração, e toda a perfeição estará ali. Não precisamos tornar-nos cientistas ou filósofos altamente eruditos. Basta cantar e ouvir.\n\n\n\nAssim, temos tudo completo. Pūrṇam adaḥ pūrṇam idam [*Īśopaniṣad*, Invocação]: tudo o que Deus cria é completo. Este conjunto que é a terra, por exemplo, é completo. Há água suficiente nos oceanos, e o sol atua para evaporar essa água, convertê-la em nuvens e fazer chover sobre a terra, a fim de produzir as plantas. E das montanhas descem rios puros que fornecem água durante todo o ano. Se quisermos evaporar algumas centenas de galões de água, temos de fazer muitos preparativos, mas a criação é tão completa que milhões de toneladas de água são extraídas do oceano, convertidas em nuvens e depois pulverizadas por toda a terra e reservadas nos picos das montanhas, de modo que haja água disponível para a produção de grãos e legumes. Dessa forma, a criação é completa porque provém do completo e, de modo semelhante, também nossos corpos são completos para a realização espiritual. A máquina completa já está conosco. Basta utilizá-la para vibrar o som transcendental (śabda) de Hare Kṛṣṇa, e alcançaremos completa liberação de todos os sofrimentos materiais."}
{"ref": "pop/9", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/9/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "9. O destino após a morte", "purport": "sarva-dvārāṇi saṁyamya\n\nmano hṛdi nirudhya ca\n\nmūrdhny ādhāyātmanaḥ prāṇam\n\nāsthito yoga-dhāraṇām\n\n\n\n«A situação yóguica é a de desapego de todos os afazeres sensuais. Fechando todas as portas dos sentidos e fixando a mente no coração e o ar vital no topo da cabeça, a pessoa estabelece-se no yoga». (Bg. 8.12)\n\n\n\nUma das traduções da palavra yoga é «mais» — isto é, justamente o oposto de menos. No momento presente, devido à nossa consciência materialmente contaminada, somos menos Deus. Quando acrescentamos Deus às nossas vidas, quando nos conectamos com Ele, a vida se aperfeiçoa. Este processo tem de ser concluído no momento da morte; por isso, enquanto estivermos vivos, temos de praticar a aproximação desse ponto de perfeição, de modo que, no momento da morte, ao abandonarmos este corpo material, possamos realizar o Supremo.\n\n\n\nprayāṇa-kāle manasācalena\n\nbhaktyā yukto yoga-balena caiva\n\nbhruvor madhye prāṇam āveśya samyak\n\nsa taṁ paraṁ puruṣam upaiti divyam\n\n\n\n«Aquele que, no momento da morte, fixa seu ar vital entre as sobrancelhas e, em plena devoção, se ocupa em lembrar-se do Senhor Supremo, certamente alcançará a Suprema Personalidade de Deus». (Bg. 8.10) As palavras prayāṇa-kāle significam «no momento da morte». A vida é uma espécie de preparação para o exame final, que é a morte. Se passamos nesse exame, somos transferidos para o mundo espiritual. Segundo um provérbio bengali muito comum: «Tudo o que você fizer rumo à perfeição será posto à prova no momento de sua morte».\n\n\n\nEste processo pelo qual o yogī fecha as portas dos sentidos chama-se tecnicamente pratyāhāra, que significa «justamente o oposto». Atualmente, nossos sentidos estão ocupados em ver a beleza mundana. «Justamente o oposto» significa retrair os sentidos dessa beleza e ver a beleza interior. O ouvir se concentra no som oṁkāra que está dentro. De modo semelhante, todos os demais sentidos são retraídos da atividade externa. A mente, então, concentra-se no viṣṇu-mūrti dentro do coração (manaḥ hṛdi nirudhya). A palavra nirudhya significa «confinar» a mente dentro do coração. Quando o yogī assim retraiu seus sentidos e concentrou a mente, transfere o ar vital para o topo da cabeça e decide para onde deve ir. Há inumeráveis planetas e, além desses planetas, está o mundo espiritual. Os yogīs obtêm informação acerca desses planetas a partir das escrituras Védicas, assim como, antes de vir aos Estados Unidos, eu obtive informação sobre este país a partir de livros. Visto que todos os planetas superiores do mundo espiritual estão descritos nas escrituras Védicas, o yogī sabe tudo e pode transferir-se para qualquer planeta que queira. Ele não necessita de uma nave espacial material.\n\n\n\nOs cientistas têm tentado, durante muitos anos, chegar a outros planetas com naves espaciais, mas não é esse o processo. Talvez, por esse meio, um ou dois homens possam chegar a um planeta, mas esse não é o processo geral. Não é possível para todos. Em geral, quem quer transferir-se a um planeta superior pratica este sistema de jñāna-yoga. Não o sistema de bhakti-yoga. O sistema de bhakti-yoga não se emprega para alcançar nenhum planeta material.\n\n\n\nOs devotos de Kṛṣṇa não se interessam por nenhum planeta dentro deste universo material, pois sabem que em todos os planetas existem as quatro misérias básicas — nascimento, velhice, doença e morte. Nos planetas superiores, a duração da vida pode ser muito maior do que nesta terra, mas a morte, em última análise, ali está. Por isso, aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa não se interessam pela vida material, mas pela vida espiritual, o que significa alívio dessas quatro misérias. Aqueles que são inteligentes não tentam elevar-se a nenhum planeta dentro deste mundo material. Para alcançar um planeta superior, é preciso preparar um tipo particular de corpo que capacite a pessoa a viver nesse planeta. Não podemos alcançar esses planetas por meios artificiais e materialistas, porque um corpo adequado é necessário para viver lá. Podemos permanecer dentro da água apenas por pouco tempo, mas os peixes vivem ali toda a sua vida. Por outro lado, o peixe não possui um corpo adequado para viver na terra. De modo semelhante, para entrar num planeta superior, é preciso preparar um corpo adequado.\n\n\n\nNos planetas superiores, seis de nossos meses equivalem a um dia deles, e os habitantes desses planetas vivem dez mil anos. Tudo isto está descrito nas escrituras Védicas. Embora a duração da vida nesses planetas seja muito longa, há morte em última análise. Após dez mil anos, vinte mil anos ou milhões de anos — não importa —, a morte, em última análise, ali está.\n\n\n\nContudo, no princípio mesmo do *Bhagavad-gītā*, aprendemos que não estamos sujeitos à morte.\n\n\n\nna jāyate mriyate vā kadācin\n\nnāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ\n\najo nityaḥ śāśvato 'yaṁ purāṇo\n\nna hanyate hanyamāne śarīre\n\n\n\n«Para a alma, nunca há nascimento nem morte. Tampouco, tendo existido uma vez, deixa ela jamais de existir. É não nascida, eterna, sempre existente, imorredoura e primordial. Não é morta quando se mata o corpo». (Bg. 2.20) Kṛṣṇa nos instrui, assim, que somos alma espiritual e eternos; portanto, por que haveríamos de sujeitar-nos ao nascimento e à morte? Quem utiliza sua inteligência pode compreender isto. Quem está situado na consciência de Kṛṣṇa não se interessa pela promoção a nenhum planeta onde exista a morte; antes, sendo promovido ao céu espiritual, recebe um corpo igual ao de Deus. Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ [Bs. 5.1]. O corpo de Deus é sac-cid-ānanda — eterno, pleno de conhecimento e pleno de prazer. Por isso Kṛṣṇa é chamado o reservatório de todo prazer. Se, ao abandonarmos este corpo, nos transferimos para o mundo espiritual — para o planeta de Kṛṣṇa ou para qualquer outro planeta espiritual —, alcançamos um corpo semelhante, pleno de sac-cid-ānanda.\n\n\n\nA alma espiritual é uma partícula diminutíssima dentro do corpo. Não pode ser vista como o corpo externo, mas é ela que sustenta o corpo externo. O objetivo do sistema ṣaṭ-cakra é localizar a alma na parte mais alta da cabeça. Dali, quem é perfeito em dhyāna-yoga pode transferir-se para um planeta superior à vontade. Essa é a perfeição deste tipo de yoga. O dhyāna-yogī assemelha-se um tanto a um viajante que pensa: «Ah, deixe-me ver como é a lua; depois, transferir-me-ei aos planetas superiores». Ele vai daqui para ali pelo universo, assim como, na terra, os viajantes vão de Nova York à Califórnia ou ao Canadá. Mas a pessoa consciente de Kṛṣṇa não se interessa por tais viagens interplanetárias dentro do universo material. Sua meta é o serviço a Kṛṣṇa e a transferência para o céu espiritual.\n\n\n\noṁ ity ekākṣaraṁ brahma\n\nvyāharan mām anusmaran\n\nyaḥ prayāti tyajan dehaṁ\n\nsa yāti paramāṁ gatim\n\n\n\n«Após situar-se nesta prática de yoga e vibrar a sagrada sílaba oṁ, a suprema combinação de letras, se a pessoa pensar na Suprema Personalidade de Deus e abandonar seu corpo, certamente alcançará os planetas espirituais». (Bg. 8.13) Oṁ, ou oṁkāra, é a forma concisa, ou forma impessoal, da vibração transcendental. O dhyāna-yogī deve vibrar oṁ enquanto se lembra de Kṛṣṇa, ou Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus. O som impessoal de Kṛṣṇa é oṁ, mas o som Hare Kṛṣṇa contém oṁ. Seja como for, todo o sistema de yoga visa à concentração em Viṣṇu. Os impersonalistas podem imaginar uma forma de Viṣṇu, mas os personalistas não imaginam; eles realmente veem a forma do Senhor Supremo. Quer se imagine, quer se veja de fato, é preciso concentrar a mente na forma de Viṣṇu. Aqui, a palavra mām significa «ao Senhor Supremo, Viṣṇu». Se a pessoa conseguir lembrar-se de Viṣṇu ao abandonar este corpo, poderá entrar no reino espiritual.\n\n\n\nQuem é inteligente pensa naturalmente: «Sou permanente e eterno. Por que haveria de interessar-me por coisas que não são permanentes?». Na verdade, ninguém quer uma existência temporária. Se estamos morando num apartamento e o senhorio nos pede que o desocupemos, temos de fazê-lo, quer queiramos sair, quer não. Contudo, se nos mudamos para um apartamento melhor, não ficamos tristes. É de nossa natureza, porém, querer permanecer onde quer que vivamos. Isso se deve a que somos permanentes e queremos uma residência permanente. Nossa inclinação é a de permanecer. Por isso, não queremos morrer. Não queremos as misérias do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Estas são misérias externas infligidas pela natureza material, e atacam-nos como uma espécie de febre. Para livrarmo-nos delas, temos de tomar certas precauções. Para nos desvencilharmos dessas misérias, é necessário desvencilharmo-nos do corpo material, porque essas misérias são inerentes à existência material.\n\n\n\nAssim, vibrando oṁ e abandonando o corpo material com o pensamento fixo no Senhor Supremo, o yogī é transferido para o mundo espiritual. Aqueles que não são personalistas, contudo, não podem entrar no planeta espiritual do Senhor Śrī Kṛṣṇa. Permanecem fora, na refulgência brahmajyoti. Assim como a luz do sol não é diferente do globo solar, a refulgência brahmajyoti do Senhor Supremo não é diferente do Senhor Supremo. Os impersonalistas são colocados nesse brahmajyoti como partículas diminutas. Somos todos centelhas espirituais, e o brahmajyoti está repleto dessas centelhas espirituais. Dessa maneira, os impersonalistas fundem-se na existência espiritual; contudo, a individualidade é conservada, porque a alma espiritual é constitucionalmente um indivíduo. Como os impersonalistas não desejam uma forma pessoal, são colocados e mantidos no brahmajyoti impessoal. Ali existem do mesmo modo que os átomos existem dentro da luz do sol. A centelha espiritual individual permanece dentro do brahmajyoti como se fosse homogênea.\n\n\n\nComo entidades vivas, todos nós queremos desfrute. Não queremos meramente a existência. Somos constitucionalmente sac-cid-ānanda — eternos (sat), plenos de conhecimento (cit) e plenos de bem-aventurança (ānanda). Aqueles que entram no brahmajyoti impessoal não podem permanecer ali eternamente com o conhecimento de que «agora estou fundido. Agora sou uno com o Brahman». Embora haja eternidade e conhecimento, falta a bem-aventurança (ānanda). Quem é capaz de permanecer sozinho num quarto, ano após ano, lendo algum livro e tentando desfrutar de si mesmo? Não podemos permanecer sozinhos para sempre. Com o tempo, deixaremos esse quarto e buscaremos alguma associação. É de nossa natureza querer algum convívio com outros. Os impersonalistas, insatisfeitos com a solidão de sua posição na refulgência impessoal do Senhor, retornam, por isso, novamente a este mundo material. Isto se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* (10.2.32):\n\n\n\nye 'nye 'ravindākṣa vimukta-māninas\n\ntvayy asta-bhāvād a viśuddha-buddhayaḥ\n\nāruhya kṛcchreṇa paraṁ padaṁ tataḥ\n\npatanty adho 'nādṛta-yuṣmad-aṅghrayaḥ\n\n\n\n«Ó Senhor de olhos de lótus, embora os não devotos que aceitam austeridades e penitências severas para alcançar a posição mais elevada possam julgar-se liberados, sua inteligência é impura. Caem de sua posição de superioridade imaginada porque não têm consideração por Teus pés de lótus».\n\n\n\nOs impersonalistas são como astronautas em busca de um planeta. Se não conseguem repousar em algum planeta, têm de retornar à terra. Afirma-se aqui no *Śrīmad-Bhāgavatam* (anādṛta-yuṣmad-aṅghrayaḥ) que o impersonalista deve retornar ao mundo material porque negligenciou servir ao Senhor Supremo com amor e devoção. Enquanto estivermos nesta terra, devemos praticar amar e servir Kṛṣṇa, o Senhor Supremo; então poderemos entrar em Seu planeta espiritual. Se não formos treinados dessa maneira, podemos entrar no brahmajyoti como impersonalistas, mas há todo o risco de cairmos novamente na existência material. Por solidão, buscaremos alguma associação e, em consequência, retornaremos ao mundo material. O que realmente queremos é a associação eterna do Senhor Supremo. Esta é nossa posição constitucional de eternidade, conhecimento e prazer. Se estamos sozinhos, se não nos associamos com o Senhor Supremo, falta esse prazer. Por falta de prazer, sentimo-nos desconfortáveis. Por falta de prazer, aceitaremos qualquer tipo de associação, qualquer tipo de prazer. Assim sendo, por uma espécie de desespero, diremos: «Muito bem, então deixe-me ter prazer material novamente». Esse é o risco que os impersonalistas correm.\n\n\n\nNo mundo material, o prazer mais elevado encontra-se no sexo. Esse não passa de um reflexo pervertido do prazer experimentado com Kṛṣṇa no mundo espiritual. A menos que haja sexo presente no mundo espiritual, ele não pode refletir-se aqui. Contudo, devemos compreender que aqui o reflexo é pervertido. A vida real está ali, em Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é pleno de prazer e, se nos treinarmos para servi-Lo em consciência de Kṛṣṇa, será possível, no momento da morte, transferirmo-nos para o mundo espiritual, entrar em Kṛṣṇaloka, o planeta de Kṛṣṇa, e desfrutar em companhia de Kṛṣṇa, o reservatório de todo prazer.\n\n\n\nO planeta de Kṛṣṇa é descrito no Brahma-saṁhitā (5.29) desta maneira:\n\n\n\ncintāmaṇi-prakara-sadmasu kalpa-vṛkṣa-\n\nlakṣāvṛteṣu surabhīr abhipālayantam\n\nlakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānaṁ\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n«Adoro Govinda, o Senhor primordial, o primeiro progenitor, que cuida das vacas surabhi, as quais satisfazem todos os desejos, que está rodeado por milhões de árvores dos desejos (que realizam os anseios) e por moradas construídas com gemas espirituais, e que é sempre servido com grande reverência e afeição por centenas e milhares de deusas da fortuna». Dessa maneira se descreve Kṛṣṇaloka. Ali as casas são feitas de pedra de toque (cintāmaṇi). Se uma pequena partícula de pedra de toque toca uma barra de ferro, essa barra transforma-se imediatamente em ouro. Naturalmente, neste mundo material não temos experiência de tal coisa como a pedra de toque, mas, segundo o Brahma-saṁhitā, todas as moradas de Kṛṣṇaloka são feitas de pedra de toque. De modo semelhante, as árvores de lá chamam-se árvores dos desejos (kalpa-vṛkṣa), porque delas se pode obter tudo o que se desejar. Aqui, só podemos obter mangas de uma mangueira, mas em Kṛṣṇaloka podemos obter de qualquer árvore tudo o que desejarmos, porque as árvores são kalpa-vṛkṣa. Esta é apenas uma descrição parcial de Kṛṣṇaloka, a morada eterna de Kṛṣṇa no céu espiritual.\n\n\n\nA conclusão, portanto, é não tentar elevarmo-nos a nenhum planeta material, pois as mesmas condições miseráveis de nascimento, velhice, doença e morte existem em todos eles. Os cientistas estão muito orgulhosos de seu «avanço científico», mas não conseguiram conter a velhice, a doença e a morte. Podem fabricar algo para acelerar a morte, mas nada que possa detê-la. Isso não está em seu poder.\n\n\n\nAqueles que são inteligentes interessam-se por pôr fim ao nascimento, à velhice, à doença e à morte e por entrar numa vida espiritual plena de eternidade, bem-aventurança e conhecimento. O bhakti-yogī sabe que tal vida é possível mediante a prática da consciência de Kṛṣṇa e a lembrança de Kṛṣṇa no momento da morte.\n\n\n\nananya-cetāḥ satatam\n\nyo māṁ smarati nityaśaḥ\n\ntasyāhaṁ sulabhaḥ pārtha\n\nnitya-yuktasya yoginaḥ\n\n\n\n«Para aquele que se lembra de Mim sem desvio, sou fácil de obter, ó filho de Pṛthā, devido a sua constante ocupação no serviço devocional». (Bg. 8.14) Neste verso, a palavra nitya-yukta significa «continuamente em transe». Tal pessoa, que pensa continuamente em Kṛṣṇa e está sempre ocupada na consciência de Kṛṣṇa, é o yogī mais elevado. Sua atenção não se desvia para o jñāna-yoga, o dhyāna-yoga ou qualquer outro sistema. Para ela, só há um sistema: Kṛṣṇa. Ananya-cetāḥ significa «sem desvio». O devoto consciente de Kṛṣṇa não se perturba com nada, porque sua mente está sempre concentrada em Kṛṣṇa. A palavra satatam significa que ele pensa em Kṛṣṇa em todos os lugares e em todos os momentos. Quando Kṛṣṇa desceu a esta terra, apareceu em Vṛndāvana. Embora atualmente eu esteja vivendo nos Estados Unidos, minha residência está em Vṛndāvana, porque estou sempre pensando em Kṛṣṇa. Ainda que eu esteja num apartamento em Nova York, minha consciência está ali, e isto equivale a estar ali.\n\n\n\nConsciência de Kṛṣṇa significa viver sempre com Kṛṣṇa em Seu planeta espiritual. Por termos consciência de Kṛṣṇa, já estamos vivendo com Ele. Apenas temos de esperar até abandonar este corpo material para ir até lá. Para aquele que se lembra de Kṛṣṇa sem desvio, Ele é fácil de obter. Tasyāhaṁ sulabhaḥ pārtha: «Eu Me torno muito acessível para eles». Para aquele que adota a consciência de Kṛṣṇa, o mais valioso torna-se muito fácil de obter. Como a pessoa se ocupa em bhakti-yoga, Kṛṣṇa torna-Se facilmente disponível. Por que haveríamos de esforçar-nos tanto para alcançar Kṛṣṇa, quando o próprio Kṛṣṇa diz: «Sou fácil de obter»? Basta cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare vinte e quatro horas por dia. Não há regra nem regulamento rígido. Podemos cantar na rua ou no metrô, em casa ou no escritório. Não há nem despesa nem imposto.\n\n\n\nNa verdade, Kṛṣṇa, por ser onipotente, é inconquistável, mas se diz que Ele não só é obtido, como também conquistado, mediante o serviço devocional puro. Como se disse antes, geralmente é muito difícil realizar a Suprema Personalidade de Deus; por isso um de Seus nomes é Ajita, que significa «Aquele a quem ninguém pode conquistar». No *Śrīmad-Bhāgavatam* (10.14.3), o Senhor Brahmā ora a Ajita:\n\n\n\njñāne prayāsam udapāsya namanta eva\n\njīvanti san-mukharitāṁ bhavadīya-vārtām\n\nsthāne sthitāḥ śruti-gatāṁ tanu-vāṅ-manobhir\n\nye prāyaśo 'jita jito 'py asi tais tri-lokyām\n\n\n\n«Ó meu querido Senhor Ajita, aqueles devotos que rejeitaram as concepções impessoais da Verdade Absoluta e que, por isso, abandonaram a discussão de verdades filosóficas empíricas devem ouvir, dos lábios de devotos autorrealizados, sobre Teu santo nome, forma, passatempos e qualidades. Devem seguir por completo os princípios do serviço devocional e permanecer livres do sexo ilícito, do jogo, da intoxicação e do abate de animais. Rendendo-se plenamente com o corpo, as palavras e a mente, podem viver em qualquer āśrama ou condição social. Em verdade, és conquistado por tais pessoas, embora sejas sempre inconquistável».\n\n\n\nNeste verso, as palavras jñāne prayāsam referem-se a teosofistas e filósofos que tentam, ano após ano e vida após vida, compreender Deus, ou a Verdade Absoluta. Suas tentativas são como as do sapo no poço que tenta compreender a vastidão dos oceanos Atlântico e Pacífico. Até nossas tentativas de medir o espaço sideral são fúteis, que dirá a tentativa de medir Deus. Tais tentativas estão fadadas ao fracasso; por isso o *Śrīmad-Bhāgavatam* recomenda que abandonemos todas as tentativas de medir o Supremo. É completamente inútil tentar compreender Deus por meio de nosso conhecimento limitado, e o homem inteligente compreende isto. Devemos tornar-nos submissos e tentar compreender que nossa posição é a de um segmento muito insignificante nesta criação. As palavras namanta eva indicam que devemos apenas tornar-nos submissos para compreender o Supremo a partir de uma fonte confiável. E qual é essa fonte? San-mukharitām: dos lábios das almas realizadas. Arjuna está compreendendo Deus diretamente dos lábios de Kṛṣṇa, e temos de compreender Deus por intermédio dos lábios de Arjuna ou de seu representante genuíno. Só podemos compreender a natureza transcendental de Deus a partir de uma fonte confiável. Essa fonte pode ser indiana, europeia, americana, japonesa, hindu, muçulmana ou qualquer outra. As circunstâncias não são importantes. Apenas temos de tentar compreender ouvindo e, em seguida, tentar pôr o processo em prática em nossa vida cotidiana. Tornando-nos submissos, ouvindo da fonte correta e tentando aplicar os ensinamentos em nossa vida cotidiana, podemos tornar-nos conquistadores do Supremo. Para quem assim age, o Senhor Kṛṣṇa torna-Se facilmente acessível. Comumente, a realização de Deus é muito difícil, mas é muito fácil para aquele que ouve submissamente (śruti-gatām).\n\n\n\nHá dois processos pelos quais podemos adquirir conhecimento: um é o processo ascendente (āroha-panthā), e o outro é o processo descendente (avaroha-panthā). Pelo processo ascendente, a pessoa tenta compreender Deus por seus próprios esforços — filosofando, meditando ou especulando. Segundo o processo descendente, adquire-se conhecimento simplesmente ouvindo de uma autoridade, do mestre espiritual genuíno e das escrituras. No que se refere ao processo ascendente, afirma-se no Brahma-saṁhitā (5.34):\n\n\n\npanthās tu koṭi-śata-vatsara-sampragamyo\n\nvāyor athāpi manaso muni-puṅgavānām\n\nso 'py asti yat-prapada-sīmny a vicintya-tattve\n\ngovindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi\n\n\n\n«Adoro Govinda, o Senhor primordial, somente a ponta dos dedos de cujos pés de lótus é alcançada pelos yogīs e jñānīs, que viajam por bilhões de anos à velocidade do vento ou da mente». Todos nós podemos compreender quão grande é a velocidade da mente. Embora sentado na cidade de Nova York, posso pensar imediatamente na Índia, que está a milhares e milhares de quilômetros de distância. Afirma-se aqui que, mesmo que a pessoa viaje a essa velocidade por bilhões de anos, Kṛṣṇa ainda permanecerá inconcebível. A palavra muni-puṅgavānām refere-se a um grande pensador, não a um homem comum. Mesmo que tal grande pensador viaje por milhões de anos à velocidade da mente, ainda achará a Pessoa Suprema incognoscível. Contudo, para quem adota sem desvio esta senda da consciência de Kṛṣṇa, Kṛṣṇa é fácil de obter. Por quê? Nitya-yuktasya yoginaḥ: «Porque tal pessoa está constantemente ocupada em Meu serviço devocional, e Eu não posso esquecê-la». Assim, este é o processo. Basta tornarmo-nos submissos para atrair a atenção de Deus. Meu Guru Mahārāja costumava dizer: «Não tente ver Deus, mas trabalhe de tal maneira que Deus veja você. Deus cuidará de você. Você não tem de tentar vê-Lo».\n\n\n\nEsta deve ser nossa atitude. Não devemos pensar: «Quero ver Deus. Ó Deus, por favor, venha e coloque-se diante de mim. Seja como meu servo». Mas, visto que Deus não é servo de ninguém, temos de conquistá-Lo com nosso amor e serviço. Todos sabemos quão difícil é ver o rei ou o presidente de um país. É praticamente impossível para um homem comum obter uma audiência com pessoa tão importante, que dirá fazer essa pessoa importante vir e colocar-se diante dele. No entanto, as pessoas exigem que a Suprema Personalidade de Deus venha e Se coloque diante delas. É de nossa natureza ansiar por Kṛṣṇa, porque Ele é a pessoa mais atraente, mais bela, mais opulenta, mais poderosa, mais erudita e mais famosa do universo. Todos anseiam por essas qualidades, e Kṛṣṇa é o reservatório de todas elas, e as possui em plenitude. Kṛṣṇa é o reservatório de tudo (raso vai saḥ); por isso, quando ansiamos por beleza, poder, conhecimento ou fama, basta dirigirmos nossa atenção a Kṛṣṇa. Então obteremos automaticamente tudo o que nosso coração desejar."}
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Por que não conseguem resolver esses problemas importantes que estão sempre nos fazendo sofrer? Evidentemente, não têm poder para fazê-lo.\n\n\n\nMas, neste verso, Śrī Kṛṣṇa dá a solução: mām upetya punar janma [Bg. 8.15]. Isto é: «Se a pessoa alcança Minha plataforma, não retorna novamente a este lugar de miséria». Infelizmente, no modo da ignorância, as pessoas não conseguem compreender que estão numa situação miserável. Os animais não conseguem compreender suas situações miseráveis porque não possuem a razão. O homem possui a razão, pela qual pode compreender isto, mas, nesta era, as pessoas estão usando seu poder de raciocínio para gratificar suas propensões animais. A razão deveria ser usada para libertar-nos desta condição miserável. Contudo, se nos ocuparmos em consciência de Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, sem desvio, iremos a Kṛṣṇa e não renasceremos neste mundo miserável. Mahātmānaḥ saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ: aquelas grandes almas que alcançaram a perfeição mais elevada, a consciência de Kṛṣṇa, estão para sempre livres da miséria. Neste verso, a palavra mahātmā refere-se ao homem consciente de Kṛṣṇa elegível a entrar na morada de Kṛṣṇa. A palavra mahātmā não se refere a um líder político como Mahatma Gandhi, mas a uma grande alma, um devoto puro de Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa diz que o mahātmā entra em Sua morada, refere-Se a Seu reino transcendental, Goloka Vṛndāvana. A Vṛndāvana de onde vim chama-se Bhauma Vṛndāvana, o que significa que é a mesma Vṛndāvana descida a esta terra. Assim como Kṛṣṇa desceu a esta terra por intermédio de Sua própria potência interna, de modo semelhante Seu dhāma, Sua morada, também desce. Em outras palavras, quando Kṛṣṇa desce a esta terra, Ele Se manifesta naquela terra específica, Vṛndāvana, e por isso essa terra também é sagrada. Afora isso, Kṛṣṇa tem Sua própria morada no céu espiritual, e ela se chama Goloka Vṛndāvana.\n\n\n\nO mahātmā prepara-se nesta vida para entrar nessa morada transcendental. A forma humana de vida pode utilizar a natureza para o seu melhor proveito. Os animais não podem. Essas facilidades devem ser empregadas no esforço de tornar-se um mahātmā e de pôr fim ao nascimento neste mundo material, que se caracteriza pelas três misérias. As três misérias são aquelas que pertencem à mente ou ao corpo, as perturbações naturais e as misérias causadas por outras entidades vivas. Qualquer que seja nossa posição neste mundo material, sempre há algum tipo de miséria sendo infligida sobre nós. Śrī Kṛṣṇa diz francamente que não é possível evitar a miséria neste mundo material, pois este mundo destina-se à miséria. A menos que as misérias estejam presentes, não podemos chegar à consciência de Kṛṣṇa. A miséria serve como um ímpeto para ajudar a elevar-nos à consciência de Kṛṣṇa. A pessoa inteligente compreende que, embora não queira a miséria, as misérias estão sendo infligidas sobre ela à força. Ninguém quer a miséria, mas a pessoa deve ser suficientemente inteligente para perguntar: «Por que essas misérias estão sendo impostas sobre mim?». Infelizmente, na civilização moderna, as pessoas tentam pôr as misérias de lado, pensando: «Ah, por que sofrer? Deixe-me encobrir minhas misérias com alguma intoxicação». Contudo, as misérias da vida não podem ser resolvidas pela intoxicação artificial. Tão logo a intoxicação se acaba, a pessoa retorna ao mesmo ponto. As misérias da existência material só podem ser resolvidas pela consciência de Kṛṣṇa. Se permanecermos sempre em consciência de Kṛṣṇa, seremos transferidos para o planeta de Kṛṣṇa ao abandonar este corpo material. Isso se chama a perfeição mais elevada.\n\n\n\nAs pessoas podem perguntar: «Bem, você diz que entrar no planeta de Kṛṣṇa constitui a perfeição mais elevada, mas nós estamos interessados em ir à lua. Não é este um tipo de perfeição?». Ora, o desejo de entrar nos planetas superiores está sempre presente na mente humana. De fato, outro nome da entidade viva é sarva-gata, que significa que ela quer viajar por toda parte. Essa é a natureza da entidade viva. Os americanos que têm dinheiro vão com frequência à Índia, à Europa ou a algum outro país, porque não gostam de estagnar num só lugar. Essa é nossa natureza, e por isso nos interessamos em ir à lua ou aonde quer que seja. Mas, segundo Kṛṣṇa, mesmo que alcancemos os planetas superiores, ainda estamos sujeitos às misérias materiais.\n\n\n\nābrahma-bhuvanāl lokāḥ\n\npunar āvartino 'rjuna\n\nmām upetya tu kaunteya\n\npunar janma na vidyate\n\n\n\n«Desde o planeta mais elevado do mundo material até o mais baixo, todos são lugares de miséria onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas aquele que alcança Minha morada, ó filho de Kuntī, jamais nasce novamente». (Bg. 8.16)\n\n\n\nO universo divide-se em quatorze sistemas planetários (caturdaśa-bhuvana) — sete inferiores e sete superiores. A terra está situada no meio. Neste verso, Śrī Kṛṣṇa diz, ābrahma-bhuvanāl lokāḥ: mesmo que a pessoa entre no planeta mais elevado, Brahmaloka, ainda há nascimento e morte. As palavras punar āvartinaḥ significam «retornar novamente», ou «repetição de nascimento e morte». Mudamos de corpo assim como mudamos de roupa, deixando um corpo e entrando em outro. Todos os planetas estão repletos de entidades vivas. Não devemos pensar que apenas a terra é habitada. Há entidades vivas nos planetas superiores e nos inferiores também. Por nossa experiência, podemos ver que nenhum lugar na terra está vazio de entidades vivas. Se cavamos a terra, encontramos alguns vermes, e se entramos na água encontramos muitos seres aquáticos. O ar está repleto de pássaros e, se analisarmos o espaço sideral, encontraremos muitas entidades vivas. É ilógico concluir que não há entidades vivas nos outros planetas. Pelo contrário, eles estão repletos de entidades vivas.\n\n\n\nEm qualquer caso, Kṛṣṇa diz que, do planeta mais elevado ao mais baixo, há repetição de nascimento e morte. Mas, mais uma vez, como no verso anterior, Ele diz, mām upetya: «Se você alcança Meu planeta, não precisa retornar a este miserável mundo material». Para frisar este ponto, Śrī Kṛṣṇa repete que, ao alcançar Goloka Vṛndāvana, Sua morada eterna, a pessoa fica liberada do ciclo de nascimento e morte e alcança a vida eterna. É dever da vida humana compreender esses problemas e alcançar uma vida bem-aventurada e eterna, plena de conhecimento. Infelizmente, as pessoas desta era esqueceram o objetivo da vida. Por quê? Durāśayā ye bahir-artha-māninaḥ (Bhāg. 7.5.31). As pessoas foram apanhadas pelo brilho material — pelos arranha-céus, pelas grandes fábricas e pelas atividades políticas. As pessoas não param para considerar que, por maior que seja o arranha-céu, não lhes será permitido viver ali indefinidamente. Não devemos, portanto, desperdiçar nossa energia construindo grandes cidades, mas devemos empregá-la em elevarmo-nos à consciência de Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa não é uma fórmula religiosa ou alguma recreação espiritual, mas o fator mais importante de nossa vida.\n\n\n\nAs pessoas interessam-se por alcançar os planetas superiores porque ali o desfrute é mil vezes maior e a duração da vida, muito mais longa.\n\n\n\nsahasra-yuga-paryantam\n\nahar yad brahmaṇo viduḥ\n\nrātriṁ yuga-sahasrāntāṁ\n\nte 'ho-rātra-vido janāḥ\n\n(Bg. 8.17)\n\n\n\nA duração do universo material é limitada. Ele se manifesta em ciclos de kalpas. Um kalpa é um dia de Brahmā, e um dia de Brahmā consiste em mil ciclos de quatro yugas, ou eras: Satya, Tretā, Dvāpara e Kali. O ciclo de Satya caracteriza-se pela virtude, pela sabedoria e pela religião, praticamente não havendo ignorância nem vício, e essa yuga dura 1.728.000 anos. Na Tretā-yuga, introduz-se o vício, e essa yuga dura 1.296.000 anos. Na Dvāpara-yuga, há um declínio ainda maior na virtude e na religião, aumentando o vício, e essa yuga dura 564.000 anos. E, finalmente, na Kali-yuga (a yuga que temos vivenciado ao longo dos últimos 5.000 anos), há abundância de contenda, ignorância, irreligião e vício, sendo a verdadeira virtude praticamente inexistente, e essa yuga dura 432.000 anos. Na Kali-yuga, o vício aumenta a tal ponto que, no término da yuga, o próprio Senhor Supremo aparece como o Kalki-avatāra, vence os demônios, salva Seus devotos e dá início a outra Satya-yuga. Então o processo é posto novamente em movimento. Essas quatro yugas, girando mil vezes, compõem um dia de Brahmā, o deus criador, e o mesmo número compõe uma noite. Brahmā vive cem de tais «anos» e depois morre. Esses «cem anos», pelos cálculos terrestres, totalizam 311 trilhões e 40 milhões de anos terrestres. Por esses cálculos, a vida de Brahmā parece fantástica e interminável, mas, do ponto de vista da eternidade, é tão breve quanto um relâmpago. No Oceano Causal, há inumeráveis Brahmās que surgem e desaparecem como bolhas no Atlântico. Brahmā e sua criação são todos parte do universo material e, por isso, estão em fluxo constante.\n\n\n\nNo universo material, nem mesmo Brahmā está livre do processo de nascimento, velhice, doença e morte. Brahmā, contudo, está diretamente ocupado no serviço do Senhor Supremo, na administração deste universo; por isso ele alcança de imediato a liberação. Os sannyāsīs elevados são promovidos ao planeta específico de Brahmā, Brahmaloka, que é o planeta mais elevado do universo material e que sobrevive a todos os planetas celestiais dos estratos superiores do sistema planetário, mas, no devido tempo, Brahmā e todos os habitantes de Brahmaloka ficam sujeitos à morte, conforme a lei da natureza material. Assim, mesmo que vivamos milhões e trilhões de anos, temos de morrer. A morte não pode ser evitada. Por todo o universo, o processo de criação e aniquilação está acontecendo, como se descreve no próximo verso:\n\n\n\navyaktād vyaktayaḥ sarvāḥ\n\nprabhavanty ahar-āgame\n\nrātry-āgame pralīyante\n\ntatraivāvyakta-saṁjñake\n\n\n\n«Quando o dia de Brahmā se manifesta, esta multidão de entidades vivas passa a existir, e, à chegada da noite de Brahmā, todas são aniquiladas». (Bg. 8.18)\n\n\n\nA menos que vamos ao céu espiritual, não há como escapar deste processo de nascimento e morte, criação e aniquilação. Quando os dias de Brahmā terminam, todos esses sistemas planetários são cobertos pela água e, quando Brahmā se ergue novamente, a criação tem lugar. A palavra ahar significa «durante o dia», que corresponde a doze horas da vida de Brahmā. Durante esse tempo, esta manifestação material — todos esses planetas — é vista, mas, quando vem a noite, todos se fundem na água. Isto é, são aniquilados. As palavras rātry-āgame significam «à queda da noite». Durante esse tempo, todos esses planetas ficam invisíveis porque estão inundados de água. Esse fluxo é a natureza do mundo material.\n\n\n\nbhūta-grāmaḥ sa evāyaṁ\n\nbhūtvā bhūtvā pralīyate\n\nrātry-āgame 'vaśaḥ pārtha\n\nprabhavaty ahar-āgame\n\n\n\n«Repetidas vezes o dia chega, e esta hoste de seres entra em atividade; e novamente a noite cai, ó Pārtha, e eles são desamparadamente dissolvidos». (Bg. 8.19) Embora não desejemos a devastação, ela é inevitável. À noite, tudo é inundado e, quando o dia surge, gradualmente as águas desaparecem. Por exemplo, neste único planeta, a superfície está coberta de água em três quartos. Gradualmente, a terra está emergindo, e chegará o dia em que não haverá mais água, mas apenas terra. Esse é o processo da natureza.\n\n'vyakto 'vyaktāt sanātanaḥ\n\nyaḥ sa sarveṣu bhūteṣu\n\nnaśyatsu na vinaśyati\n\n\n\n«Contudo, há outra natureza, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e não manifesta. É suprema e nunca é aniquilada. Quando tudo neste mundo é aniquilado, essa parte permanece como é». (Bg. 8.20)\n\n\n\nNão podemos calcular o comprimento e a largura deste universo. Há milhões e milhões de universos como este dentro deste mundo material, e acima deste mundo material está o céu espiritual, onde todos os planetas são eternos. A vida nesses planetas também é eterna. Esta manifestação material compreende apenas um quarto da criação inteira. Ekāṁśena sthito jagat. Ekāṁśena significa «um quarto». Três quartos da criação estão além deste céu material, que é coberto como uma bola. Essa cobertura estende-se por milhões e milhões de quilômetros, e somente depois de penetrar tal cobertura é que se pode entrar no céu espiritual. Esse é o céu aberto, o céu eterno. Afirma-se neste verso, paras tasmāt tu bhāvo 'nyaḥ: [Bg. 8.20] «Contudo, há outra natureza». A palavra bhāva significa outra «natureza». Temos experiência somente desta natureza material, mas, pelo *Bhagavad-gītā*, compreendemos que existe uma natureza espiritual que é transcendental e eterna. Na verdade, pertencemos a essa natureza espiritual, porque somos espírito; atualmente, porém, estamos cobertos por este corpo material e, por conseguinte, somos uma combinação do material com o espiritual. Assim como podemos compreender que somos uma combinação de ambas as naturezas, devemos compreender também que existe um mundo espiritual além deste universo material. A natureza espiritual é chamada superior, e a material, inferior, porque sem o espírito a matéria não pode mover-se.\n\n\n\nIsto não se pode compreender pelo conhecimento experimental. Podemos contemplar milhões e milhões de estrelas através de telescópios, mas não podemos aproximar-nos daquilo que estamos vendo. De modo semelhante, nossos sentidos são tão insuficientes que não conseguimos aproximar-nos de uma compreensão da natureza espiritual. Sendo incapazes, não devemos tentar compreender Deus e Seu reino pelo conhecimento experimental. Antes, temos de compreender ouvindo o *Bhagavad-gītā*. Não há outra maneira. Se desejamos saber quem é nosso pai, basta acreditarmos em nossa mãe. Não temos outro modo de saber senão por ela. De modo semelhante, a fim de compreender quem é Deus e qual é Sua natureza, temos de aceitar a informação dada no *Bhagavad-gītā*. Não há possibilidade de experimentação. Uma vez que avancemos na consciência de Kṛṣṇa, perceberemos Deus e Sua natureza. Podemos chegar a compreender: «Sim, há Deus e um reino espiritual, e tenho de ir para lá. De fato, devo preparar-me para ir para lá».\n\n\n\nA palavra vyakta significa «manifesto». Este universo material que estamos vendo (ou parcialmente vendo) diante de nós é manifesto. Pelo menos à noite podemos ver que as estrelas estão cintilando e que há inúmeros planetas. Mas, além desta vyakta, há outra natureza, chamada avyakta, que é não manifesta. Essa é a natureza espiritual, que é sanātana, eterna. Esta natureza material tem princípio e fim, mas aquela natureza espiritual não tem princípio nem fim. Este céu material está dentro da cobertura do mahat-tattva, a matéria. Esta matéria é como uma nuvem. Quando há tempestade, parece que o céu inteiro está coberto de nuvens, mas, na verdade, apenas uma parte insignificante do céu está coberta. Como somos muito diminutos, se apenas algumas centenas de quilômetros estão cobertos, parece que o céu inteiro está coberto. Tão logo um vento sopra e dispersa as nuvens, podemos ver o céu novamente. Assim como as nuvens, esta cobertura do mahat-tattva tem princípio e fim. De modo semelhante, o corpo material, por ser uma parte da natureza material, tem princípio e fim. O corpo nasce, cresce, permanece por algum tempo, deixa alguns subprodutos, definha e, então, desaparece. Toda manifestação material que vemos passa por essas seis transformações básicas. O que quer que exista dentro da natureza material será, em última análise, vencido. Mas aqui Kṛṣṇa nos diz que, além desta natureza material perecível e semelhante a uma nuvem, há uma natureza superior, que é sanātana, eterna. Yaḥ sa sarveṣu bhūteṣu naśyatsu na vinaśyati. Quando esta manifestação material é aniquilada, aquele céu espiritual permanece. Isto se chama avyakto 'vyaktāt.\n\n\n\nNo Segundo Canto do *Śrīmad-Bhāgavatam*, encontramos uma descrição do céu espiritual e das pessoas que ali vivem. Sua natureza e suas características também são discutidas. Por esse Segundo Canto, compreendemos que há aviões espirituais no céu espiritual e que as entidades vivas de lá — que são todas liberadas — viajam como o relâmpago nesses aviões por todo o céu espiritual. Este mundo material é simplesmente uma imitação; tudo o que vemos aqui é apenas uma sombra do que existe lá. O mundo material é como um cinema, no qual vemos somente uma imitação ou uma sombra da coisa real que existe. Este mundo material é apenas uma sombra. Como se afirma no *Śrīmad-Bhāgavatam* (1.1.1), yatra tri-sargo 'mṛṣā: «Este mundo material ilusório é uma combinação de matéria». Nas vitrines das lojas, vemos com frequência manequins, mas nenhum homem sensato pensa que esses manequins sejam reais. Ele pode ver que são imitações. De modo semelhante, tudo o que vemos aqui pode ser belo, assim como um manequim pode ser belo, mas é apenas uma imitação da beleza real encontrada no mundo espiritual. Como diz Śrīdhara Svāmī, yat satyatayā mithya-sargo 'pi satyavat pratiyate: o mundo espiritual é real, e esta manifestação material irreal apenas parece ser real. Devemos compreender que a realidade jamais será vencida e que, em essência, realidade significa eternidade. Por isso, o prazer material, que é temporário, não é verdadeiro; o prazer real existe em Kṛṣṇa. Em consequência, aqueles que buscam a realidade não participam deste prazer sombrio.\n\n\n\nAssim, quando tudo no mundo material é aniquilado, aquela natureza espiritual permanece eternamente, e é o propósito da vida humana alcançar esse céu espiritual. Infelizmente, as pessoas não estão conscientes da realidade do céu espiritual. Segundo o *Śrīmad-Bhāgavatam* (7.5.31), na te viduḥ svārtha-gatiṁ hi viṣṇum: as pessoas não conhecem seu próprio interesse. Não sabem que a vida humana se destina a compreender a realidade espiritual e a preparar-se para ser transferida para essa realidade. Ninguém pode permanecer aqui neste mundo material. Toda a literatura Védica nos instrui desse modo. Tamasi mā jyotir gama: «Não permaneças nesta escuridão. Vai para a luz». Segundo o Décimo Quinto Capítulo do *Bhagavad-gītā* (15.6):\n\n\n\nna tad bhāsayate sūryo\n\nna śaśāṅko na pāvakaḥ\n\nyad gatvā na nivartante\n\ntad dhāma paramaṁ mama\n\n\n\n«Essa morada Minha não é iluminada pelo sol nem pela lua, nem pela eletricidade. Quem a alcança jamais retorna a este mundo material». Este mundo material é escuro por natureza, e nós o iluminamos artificialmente com luz elétrica, fogo e assim por diante. Em todo caso, sua natureza é escura, mas a natureza espiritual é plena de luz. Quando o sol está presente, não há escuridão; de modo semelhante, cada planeta do céu espiritual é autoluminoso. Por isso, não há escuridão, nem há necessidade de sol, lua ou eletricidade. A palavra sūryo significa «sol», śaśāṅko significa «lua» e pāvakaḥ significa «fogo» ou «eletricidade». Logo, estes não são necessários no céu espiritual para a iluminação. E, novamente, Kṛṣṇa diz aqui, yad gatvā na nivartante tad dhāma paramaṁ mama: «Essa é Minha morada suprema, e quem a alcança jamais retorna a este mundo material». Isto se afirma ao longo de todo o *Bhagavad-gītā*. Mais uma vez, neste Oitavo Capítulo (Bg. 8.21):\n\n\n\navyakto 'kṣara ity uktas\n\ntam āhuḥ paramāṁ gatim\n\nyaṁ prāpya na nivartante\n\ntad dhāma paramaṁ mama\n\n\n\n«Essa morada suprema é chamada não manifesta e infalível, e é o destino supremo. Quando alguém vai para lá, jamais retorna. Essa é Minha morada suprema». Novamente, emprega-se a palavra avyakta, que significa «não manifesto». A palavra akṣara significa «aquilo que nunca é aniquilado» ou «aquilo que é infalível». Isto significa que, por ser eterna, a morada suprema não está sujeita às seis transformações mencionadas anteriormente.\n\n\n\nComo atualmente estamos cobertos por uma vestimenta de sentidos materiais, não podemos ver o mundo espiritual, e a natureza espiritual nos é inconcebível. Contudo, podemos sentir que algo espiritual está presente. Mesmo um homem completamente ignorante da natureza espiritual pode, de algum modo, sentir sua presença. Basta que analise seu corpo em silêncio: «O que sou eu? Sou este dedo? Sou este corpo? Sou este cabelo? Não, não sou isto nem aquilo. Sou algo diferente deste corpo. Sou algo além deste corpo. O que é isso? Isso é o espiritual». Dessa maneira, podemos sentir ou perceber a presença da espiritualidade dentro desta matéria. Podemos sentir a ausência do espírito quando um corpo está morto. Se testemunhamos alguém morrendo, podemos sentir que algo está deixando o corpo. Embora não tenhamos olhos para vê-lo, esse algo é o espírito. Sua presença no corpo é explicada logo no princípio do *Bhagavad-gītā* (2.17):\n\n\n\navināśi tu tad viddhi\n\nyena sarvam idaṁ tatam\n\nvināśam avyayasyāsya\n\nna kaścit kartum arhati\n\n\n\n«Sabe que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível».\n\n\n\nA existência espiritual é eterna, ao passo que o corpo não o é. Diz-se que a atmosfera espiritual é avyakta, não manifesta. Como, então, pode ela manifestar-se para nós? Tornar manifesto o não manifesto é este próprio processo da consciência de Kṛṣṇa. Segundo o *Padma Purāṇa*:\n\n\n\nataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi\n\nna bhaved grāhyam indriyaiḥ\n\nsevonmukhe hi jihvādau\n\nsvayam eva sphuraty adaḥ\n\n[BRS. 1.2.234]\n\n\n\n«Ninguém pode compreender Kṛṣṇa como Ele é por meio dos obtusos sentidos materiais. Mas Ele Se revela aos devotos, satisfeito com eles por seu amoroso serviço transcendental a Ele». Neste verso, a palavra indriyaiḥ significa «os sentidos». Temos cinco sentidos para reunir conhecimento (olhos, ouvidos, nariz, língua e pele) e cinco sentidos para o trabalho (voz, mãos, pernas, genitais e ânus). Esses dez sentidos estão sob o controle da mente. Afirma-se neste verso que, com esses obtusos sentidos materiais, não podemos compreender o nome, a forma e demais aspectos de Kṛṣṇa. Por quê? Kṛṣṇa é completamente espiritual, e Ele também é absoluto. Por conseguinte, Seu nome, Sua forma, Suas qualidades e Sua parafernália também são espirituais. Devido ao condicionamento material, ou cativeiro material, não podemos atualmente compreender o que é espiritual, mas essa ignorância pode ser removida cantando-se Hare Kṛṣṇa. Se um homem está dormindo, pode ser despertado pela vibração sonora. Pode-se chamá-lo: «Vem, é hora de levantar!». Embora a pessoa esteja inconsciente, a audição é tão preeminente que mesmo um homem adormecido pode ser despertado pela vibração sonora. De modo semelhante, dominada por este condicionamento material, nossa consciência espiritual está atualmente adormecida, mas pode ser revivida por esta vibração transcendental de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Como se disse antes, Hare refere-se à energia do Senhor, e Kṛṣṇa e Rāma referem-se ao próprio Senhor. Portanto, quando cantamos Hare Kṛṣṇa, estamos orando: «Ó Senhor, ó energia do Senhor, por favor, aceita-me». Não temos outra oração além de «Por favor, aceita-me». O Senhor Caitanya Mahāprabhu nos ensinou que devemos simplesmente chorar e orar para que o Senhor nos aceite. Como orou o próprio Caitanya Mahāprabhu:\n\n\n\nayi nanda-tanuja kiṅkaraṁ\n\npatitaṁ māṁ viṣame bhavāmbudhau\n\nkṛpayā tava pāda-paṅkaja-\n\nsthita-dhūlī-sadṛśaṁ vicintaya\n\n\n\n«Ó Kṛṣṇa, filho de Nanda, de uma maneira ou de outra caí neste oceano de nesciência e ignorância. Por favor, recolhe-me e coloca-me como um dos átomos a Teus pés de lótus». Se um homem caiu no oceano, sua única esperança de sobrevivência é que alguém venha recolhê-lo. Basta que seja erguido uma polegada acima da água para sentir alívio imediato. De modo semelhante, tão logo adotamos a consciência de Kṛṣṇa, somos erguidos e sentimos alívio imediato.\n\n\n\nNão podemos duvidar de que o transcendental esteja ali. O *Bhagavad-gītā* está sendo falado pela própria Suprema Personalidade de Deus; portanto, não devemos duvidar de Sua palavra. O único problema é sentir e compreender o que Ele nos diz. Essa compreensão deve ser desenvolvida gradualmente, e esse conhecimento será revelado pelo canto de Hare Kṛṣṇa. Por este processo simples, podemos chegar a compreender o reino espiritual, o próprio eu, o mundo material, Deus, a natureza de nosso condicionamento, a liberação do cativeiro material e tudo o mais. Isto se chama ceto-darpaṇa-mārjanam [Cc. Antya 20.12], limpar o espelho empoeirado da mente impura.\n\n\n\nSeja qual for o caso, devemos ter fé na palavra de Kṛṣṇa. Quando compramos uma passagem na Pan American ou na Air India, temos fé de que essa companhia nos levará ao nosso destino. A fé surge porque a companhia é autorizada. Nossa fé não deve ser cega; por isso, devemos aceitar aquilo que é reconhecido. O *Bhagavad-gītā* é reconhecido como escritura autorizada na Índia há milhares de anos, e mesmo fora da Índia há muitos eruditos, religiosos e filósofos que aceitaram o *Bhagavad-gītā* como obra autoritativa. Diz-se que até mesmo um grande cientista como Albert Einstein lia o *Bhagavad-gītā* regularmente. Assim sendo, não devemos duvidar da autenticidade do *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nPortanto, quando o Senhor Kṛṣṇa diz que existe uma morada suprema e que podemos ir para lá, devemos ter fé de que tal morada existe. Muitos filósofos pensam que a morada espiritual é impessoal ou vazia. Os impersonalistas, como os śaṅkaritas e os budistas, geralmente falam do vazio ou da vacuidade, mas o *Bhagavad-gītā* não nos desaponta dessa maneira. A filosofia do vacuísmo simplesmente criou o ateísmo, porque é da natureza da entidade viva desejar desfrute. Tão logo ela pensa que seu futuro é vazio, tentará desfrutar da variegação desta vida material. Desse modo, o impersonalismo conduz a discussões filosóficas de poltrona e ao apego ao desfrute material. Podemos ter prazer em especular, mas nenhum benefício espiritual real pode derivar de tal especulação.\n\n\n\nBhaktiḥ pareśānubhavo viraktir anyatra ca (Bhāg. 11.2.42). Uma vez que tenhamos desenvolvido o espírito devocional, ficaremos imediatamente desapegados de todo tipo de desfrute material. Tão logo um homem faminto come, sente satisfação imediata e diz: «Não, não quero mais. Estou satisfeito». Essa satisfação é uma característica do homem consciente de Kṛṣṇa.\n\n\n\nbrahma-bhūtaḥ prasannātmā\n\nna śocati na kāṅkṣati\n\nsamaḥ sarveṣu bhūteṣu\n\nmad-bhaktiṁ labhate parām\n\n\n\n«Aquele que está assim transcendentalmente situado percebe de imediato o Brahman Supremo. Jamais lamenta nem deseja ter nada; mostra-se igualmente disposto para com toda entidade viva. Nesse estado, alcança o serviço devocional puro a Mim». (Bg. 18.54)\n\n\n\nTão logo a pessoa se realiza espiritualmente, sente plena satisfação e já não anseia pelo desfrute material vacilante. Como se afirma no Segundo Capítulo do *Bhagavad-gītā* (2.59):\n\n\n\nviṣayā vinivartante\n\nnirāhārasya dehinaḥ\n\nrasa-varjaṁ raso 'py asya\n\nparaṁ dṛṣṭvā nivartate\n\n\n\n«A alma corporificada pode ser impedida do gozo dos sentidos, embora o gosto pelos objetos dos sentidos permaneça. Mas, ao experimentar um gosto superior, cessam tais ocupações, e ela se fixa em consciência». Um médico pode dizer a um homem doente: «Não comas isto. Não comas aquilo. Não tenhas relações sexuais. Não. Não». Dessa maneira, o homem doente é forçado a aceitar tantos «não», mas, por dentro, está pensando: «Ah, se eu pudesse ao menos obter essas coisas, seria feliz». Os desejos permanecem por dentro. Contudo, quando alguém está estabelecido na consciência de Kṛṣṇa, é tão forte por dentro que não experimenta o desejo. Embora não seja impotente, não deseja relações sexuais. Pode casar-se três vezes e, ainda assim, permanecer desapegado. Paraṁ dṛṣṭvā nivartate. Quando algo superior é adquirido, naturalmente se abandonam todas as coisas inferiores. Aquilo que é superior é a Suprema Personalidade de Deus, e o ateísmo e o impersonalismo não podem dar-nos isto. Ele só é alcançado pela devoção pura.\n\n\n\npuruṣaḥ sa paraḥ pārtha\n\nbhaktyā labhyas tv ananyayā\n\nyasyāntaḥ-sthāni bhūtāni\n\nyena sarvam idaṁ tatam\n\n\n\n«A Suprema Personalidade de Deus, que é maior que todos, é alcançada pela devoção pura. Embora esteja presente em Sua morada, é onipenetrante, e tudo está situado Nele». (Bg. 8.22) As palavras puruṣaḥ sa paraḥ indicam a pessoa suprema, que é maior que todos os demais. Este não é um vazio que fala, mas uma pessoa que possui todas as características da personalidade em plenitude. Assim como estamos falando face a face, quando alcançarmos a morada suprema, poderemos falar com Deus face a face. Podemos brincar com Ele, comer com Ele e tudo o mais. Este estado não é adquirido pela especulação mental, mas pelo amoroso serviço transcendental (bhaktyā labhyaḥ). As palavras tv ananyayā indicam que esta bhakti deve ser sem adulteração. Deve ser pura.\n\n\n\nEmbora a Personalidade Suprema seja uma pessoa e esteja presente em Sua morada no céu espiritual, é tão difundida que tudo está dentro Dela. Está tanto dentro quanto fora. Embora Deus esteja em toda parte, Ele ainda tem Seu reino, Sua morada. O sol pode penetrar o universo com sua luz solar e, contudo, o próprio sol é uma entidade separada.\n\n\n\nEm Sua morada suprema, o Senhor Supremo não tem rival. Onde quer que estejamos, encontramos uma personalidade predominante. Nos Estados Unidos, a personalidade predominante é o Presidente. Contudo, quando chegar a próxima eleição, o Presidente terá inúmeros rivais; no céu espiritual, porém, o Senhor Supremo não tem rival. Aqueles que querem tornar-se rivais são colocados neste mundo material, sob as condições da natureza material. No céu espiritual não há rivalidade, e todos os seus habitantes são almas liberadas. Pelo *Śrīmad-Bhāgavatam* recebemos a informação de que suas características corporais se assemelham às dos deuses. Em alguns dos planetas espirituais, Deus manifesta uma forma de dois braços e, em outros, manifesta uma forma de quatro braços. As entidades vivas desses planetas têm características correspondentes, e não se pode distinguir quem é Deus e quem não é. Isto se chama liberação sārūpya-mukti, na qual se têm as mesmas características do Senhor. Há cinco tipos de liberação: sāyujya, sārūpya, sālokya, sārṣṭi e sāmīpya. Sāyujya-mukti significa fundir-se na refulgência impessoal de Deus, o brahmajyoti. Já discutimos isto e concluímos que a tentativa de fundir-se e perder a individualidade não é desejável e é muito arriscada. Sārūpya-mukti significa alcançar um corpo exatamente como o de Deus. Sālokya-mukti significa viver no mesmo planeta com Deus. Sārṣṭi-mukti significa ter a opulência de Deus. Por exemplo, Deus é muito poderoso, e podemos tornar-nos poderosos como Ele. Isso se chama sārṣṭi. Sāmīpya-mukti significa permanecer sempre com Deus como um de Seus associados. Arjuna, por exemplo, está sempre com Kṛṣṇa como Seu amigo, e isto se chama sāmīpya-mukti. Podemos alcançar qualquer um destes cinco tipos de liberação, mas, dentre esses cinco, sāyujya-mukti, a fusão no brahmajyoti, é rejeitado pela filosofia vaiṣṇava. Segundo a filosofia vaiṣṇava, adoramos Deus como Ele é e mantemos nossa identidade separada eternamente a fim de servi-Lo. Segundo a filosofia māyāvāda, o impersonalismo, tenta-se perder a identidade individual e fundir-se na existência do Supremo. Isso, contudo, é uma política suicida e não é recomendado por Kṛṣṇa no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nIsto também foi rejeitado pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu, que advogou a adoração na separação. Como se disse antes, o devoto puro nem sequer deseja a liberação; pede simplesmente para permanecer devoto de Kṛṣṇa nascimento após nascimento. Esta é a oração do Senhor Caitanya Mahāprabhu, e as palavras «nascimento após nascimento» indicam que não há liberação. Isto significa que o devoto não se importa se está liberado ou não. Quer apenas ocupar-se na consciência de Kṛṣṇa, servir o Senhor Supremo. Querer sempre ocupar-se no amoroso serviço transcendental de Deus é o sintoma da devoção pura. Naturalmente, onde quer que esteja, o devoto permanece no reino espiritual, ainda que esteja no corpo material. De sua parte, ele não exige nenhum dos cinco tipos de liberação, nem nada para sua superioridade ou seu conforto pessoal. Mas, para associar-se com Deus nos planetas espirituais, é preciso tornar-se Seu devoto puro.\n\n\n\nPara aqueles que não são devotos puros, o Senhor Kṛṣṇa explica em que momentos se deve deixar o corpo a fim de alcançar a liberação.\n\n\n\nyatra kāle tv anāvṛttim\n\nāvṛttiṁ caiva yoginaḥ\n\nprayātā yānti taṁ kālaṁ\n\nvakṣyāmi bharatarṣabha\n\n\n\n«Ó melhor dos Bhāratas, agora te explicarei os diferentes momentos nos quais, ao partir deste mundo, a pessoa volta ou não volta». (Bg. 8.23) Na Índia, ao contrário do Ocidente, é comum que os astrólogos façam cálculos minuciosos da situação astronômica no momento do nascimento de alguém. De fato, o horóscopo de uma pessoa é lido não somente quando ela nasce, mas também quando morre, a fim de determinar qual será sua situação na próxima vida. Tudo isso pode ser determinado pelo cálculo astrológico. Neste verso, o Senhor Kṛṣṇa aceita esses princípios astrológicos, confirmando que, se alguém deixar seu corpo em um momento específico, poderá alcançar a liberação. Se morrer em um momento, poderá ser liberado; se morrer em outro momento, poderá ter de regressar ao mundo material. É tudo uma questão de «sorte», mas essa sorte, de um modo ou de outro, é o que se tem. Para o devoto, contudo, não há questão de sorte. Qualquer que seja a situação astrológica, o devoto em consciência de Kṛṣṇa tem a liberação garantida. Para os demais, há a possibilidade de que, se deixarem o corpo em um momento específico, alcancem a liberação e entrem no reino espiritual, ou de que renasçam.\n\n\n\nagnir jyotir ahaḥ śuklaḥ\n\nṣaṇ-māsā uttarāyaṇam\n\ntatra prayātā gacchanti\n\nbrahma brahma-vido janāḥ\n\n\n\n«Aqueles que conhecem o Brahman Supremo partem do mundo durante a influência do deus ardente, na luz, em um momento auspicioso, durante a quinzena da lua e nos seis meses em que o sol viaja para o norte». (Bg. 8.24) Como todos nós sabemos, os movimentos do sol são distintos: durante seis meses ele está ao norte do equador, e durante seis meses está ao sul. Segundo os cálculos Védicos, o sol também está em movimento, e pelo *Śrīmad-Bhāgavatam* somos informados de que ele está situado no centro do universo. Assim como todos os planetas estão em movimento, o sol também se move a uma velocidade calculada em dezesseis mil milhas por segundo. Se uma pessoa morre quando o sol está no hemisfério norte, pode alcançar a liberação. Esse não é apenas o veredito do *Bhagavad-gītā*, mas também de outras escrituras.\n\n\n\ndhūmo rātris tathā kṛṣṇaḥ\n\nṣaṇ-māsā dakṣiṇāyanam\n\ntatra cāndramasaṁ jyotir\n\nyogī prāpya nivartate\n\n\n\n«O místico que parte deste mundo durante a fumaça, a noite, a quinzena sem lua ou nos seis meses em que o sol passa para o sul, ou que alcança o planeta lua, novamente volta». (Bg. 8.25) Ninguém pode dizer quando vai morrer e, nesse sentido, o momento da morte é acidental. Contudo, para um devoto em consciência de Kṛṣṇa, não há questão de «acidentes».\n\n\n\nśukla-kṛṣṇe gatī hy ete\n\njagataḥ śāśvate mate\n\nekayā yāty anāvṛttim\n\nanyayāvartate punaḥ\n\n\n\n«Segundo os *Vedas*, há dois modos de partir deste mundo — um na luz e outro na escuridão. Quando se parte na luz, não se volta; mas, quando se parte na escuridão, retorna-se». (Bg. 8.26) A mesma descrição da partida e do retorno é citada por Ācārya Baladeva Vidyābhūṣaṇa do Chāndogya Upaniṣad. Dessa maneira, aqueles que são trabalhadores fruitivos e especuladores filosóficos vêm indo e voltando constantemente desde tempos imemoriais. Na verdade, não alcançam a salvação última, pois não se rendem a Kṛṣṇa.\n\n\n\nnaite sṛtī pārtha jānan\n\nyogī muhyati kaścana\n\ntasmāt sarveṣu kāleṣu\n\nyoga-yukto bhavārjuna\n\n\n\n«Os devotos que conhecem esses dois caminhos, ó Arjuna, jamais se confundem. Por isso, fica sempre fixo em devoção». (Bg. 8.27) Aqui o Senhor confirma que não há «sorte» para quem pratica bhakti-yoga. Seu destino é certo. Quer ele morra quando o sol está no hemisfério norte, quer no hemisfério sul, isso não tem importância. Como já afirmamos, se alguém pensa em Kṛṣṇa no momento da morte, será imediatamente transferido para a morada de Kṛṣṇa. Por isso, Kṛṣṇa diz a Arjuna que permaneça sempre em consciência de Kṛṣṇa. Isto é possível através do canto de Hare Kṛṣṇa. Visto que Kṛṣṇa e Seu reino espiritual não são diferentes, sendo absolutos, Kṛṣṇa e Sua vibração sonora são o mesmo. Simplesmente vibrando o nome de Kṛṣṇa, podemos desfrutar da associação de Kṛṣṇa. Se vamos andando pela rua cantando Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa também vai conosco. Se andamos pela rua e olhamos para o céu, podemos ver que o sol ou a lua nos acompanha. Lembro-me de que, cerca de cinquenta anos atrás, quando eu era chefe de família, meu segundo filho, que tinha cerca de quatro anos na época, andava comigo pela rua e, de repente, perguntou-me: «Pai, por que a lua vai conosco?».\n\n\n\nSe um objeto material como a lua tem o poder de acompanhar-nos, podemos certamente compreender que o Senhor Supremo, que é todo-poderoso, pode permanecer sempre conosco. Sendo onipotente, Ele pode sempre fazer-nos companhia, contanto que também estejamos qualificados a fazer-Lhe companhia. Os devotos puros estão sempre imersos no pensamento de Kṛṣṇa e sempre se lembram de que Kṛṣṇa está com eles. O Senhor Caitanya Mahāprabhu confirmou a natureza absoluta de Kṛṣṇa em Seu Śikṣāṣṭaka (verso 2):\n\n\n\nnāmnām akāri bahudhā nija-sarva-śaktis\n\ntatrārpitā niyamitaḥ smaraṇe na kālaḥ\n\netādṛśī tava kṛpā bhagavan mamāpi\n\ndurdaivam īdṛśam ihājani nānurāgaḥ\n\n\n\n«Meu Senhor, ó Suprema Personalidade de Deus, em Teu santo nome há toda boa fortuna para a entidade viva, e por isso tens muitos nomes, como Kṛṣṇa e Govinda, pelos quais Te expandes. Investiste todas as Tuas potências nesses nomes, e não há regras rígidas para lembrar-se deles. Meu querido Senhor, embora derrames tal misericórdia sobre as almas caídas e condicionadas, ensinando-lhes liberalmente Teus santos nomes, sou tão infeliz que cometo ofensas ao cantar o santo nome, e por isso não alcanço apego pelo cantar».\n\n\n\nPodemos fazer o esforço de gastar grande quantia de dinheiro e tentar construir ou estabelecer um templo para Kṛṣṇa, mas, se assim o fizermos, devemos observar muitas regras e regulamentos e cuidar adequadamente da administração do templo. Aqui, porém, se confirma que, simplesmente cantando, qualquer homem pode ter o benefício de manter companhia com Kṛṣṇa. Assim como Arjuna obtém benefício por estar na mesma quadriga com o Senhor Śrī Kṛṣṇa, também nós podemos beneficiar-nos por nos associarmos com Kṛṣṇa através do canto de Seus santos nomes — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Este mahā-mantra não é uma invenção pessoal minha, mas é autorizado pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu, que é considerado não apenas uma autoridade, mas a encarnação do próprio Senhor Śrī Kṛṣṇa. Foi o Senhor Caitanya Mahāprabhu quem disse: «Ó Senhor, és tão bondoso com as pessoas deste mundo material que Te expandes em Teu santo nome para que possam associar-se Contigo».\n\n\n\nEmbora o mahā-mantra esteja na língua sânscrita e muitas pessoas não conheçam seu significado, ele é ainda tão atrativo que as pessoas participam quando ele é cantado publicamente. Ao cantar o mahā-mantra, estamos completamente seguros, mesmo nesta posição tão perigosa. Devemos estar sempre cientes de que, neste mundo material, estamos sempre em uma posição perigosa. O *Śrīmad-Bhāgavatam* confirma: padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām. Neste mundo, há perigo a cada passo. Os devotos do Senhor, contudo, não se destinam a permanecer neste lugar miserável e perigoso. Por isso, devemos cuidar de avançar na consciência de Kṛṣṇa enquanto estivermos nesta forma humana. Então, nossa felicidade estará assegurada."}
{"ref": "pop/0a", "book": "pop", "lang": "pt", "url": "/pt/library/pop/0a/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "Introdução", "purport": "Quando vemos um livro com um título como *O Caminho da Perfeição*, talvez reajamos com certo ceticismo comum: \"Ah, mais um livro que pretende dar todas as respostas. Mais um esquema de iluminação do tipo faça-você-mesmo.\" E, decerto, parece que tal ceticismo se justifica nos dias de hoje. Nosso desejo natural de significado último, felicidade, iluminação, liberação e salvação tornou-se a mercadoria mais explorada do século XX, criando aquilo que um teólogo contemporâneo qualificou de desastrosa \"sedução do espírito\". Essa sedução é, de fato, o mais trágico tipo de exploração. E a infeliz consequência dessa exploração é uma espécie de cinismo mortificante que desencoraja a nossa busca pela autorrealização e por um meio de alcançá-la.\n\nO leitor contemporâneo e reflexivo, cansado dos muitos livros especulativos e simplistas que abarrotam as prateleiras das livrarias, oferecendo fórmulas instantâneas de salvação psicológica ou espiritual, encontrará em *O Caminho da Perfeição* um alívio bem-vindo. Aqui se achará uma explicação clara e instigante da filosofia e da prática do mais antigo sistema de desenvolvimento espiritual da humanidade — o *yoga*.\n\nOra, a palavra *yoga* talvez evoque a imagem de algum faquir esquelético contorcido como um precel humano, ou talvez de uma sala repleta de matronas corpulentas em colãs pretos esforçando-se por ficar de cabeça para baixo na esperança de melhorar a saúde, perder peso ou aumentar a potência sexual. Não é isso que entendemos por *yoga*. Aqui nos referimos a uma antiga filosofia e a um sistema de meditação que foram praticados por milhões ao longo das eras. O que, em tempos modernos, ficou reduzido a uma técnica comercialmente explorada de agilidade corporal e pseudomeditação foi outrora uma forma abrangente e facilmente aplicável de autorrealização.\n\n*O Caminho da Perfeição* consiste numa histórica série de palestras — desenvolvimentos de um comentário publicado anteriormente — proferidas por Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupāda (1896-1977) sobre o maior clássico espiritual da Índia, o *Bhagavad-gītā*. Nessas absorventes palestras, Śrīla Prabhupāda explora profundamente a filosofia do *yoga* tal como se explica no Sexto e no Oitavo Capítulos do *Gītā*, mostrando com clareza como esses ensinamentos atemporais se aplicam à humanidade do século XX. As palestras de Śrīla Prabhupāda investigam questões relativas à natureza da consciência, às técnicas de meditação, ao karma, à morte, à reencarnação e até ao êxtase espiritual.\n\nO *Bhagavad-gītā*, descrito por um psicólogo contemporâneo como \"uma notável sessão psicoterapêutica\", apresenta-se a nós sob a forma de um extraordinário diálogo entre o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, e Seu discípulo guerreiro, Arjuna. Perplexo e confuso quanto à sua identidade e ao seu propósito, Arjuna recorre a Kṛṣṇa, que revela \"o caminho da perfeição\" a Seu capaz discípulo. A essência dos ensinamentos do Senhor Kṛṣṇa é que a pessoa deve tornar-se um *yogī*, isto é, alguém cuja vida se centra na prática do *yoga*. E o que é o *yoga*? A palavra sânscrita *yoga* significa literalmente \"união\" e refere-se à união, em amor, entre a consciência individual e a Consciência Suprema, entre o eu e o Supereu, entre a alma e Deus. O *yoga* é, de fato, \"o caminho da perfeição\", pois visa a essa mais elevada das conquistas humanas.\n\nNo *Bhagavad-gītā*, descobrimos descritas quatro variedades básicas de *yoga*. O *karma-yoga* refere-se ao processo pelo qual a pessoa realiza seu trabalho para Deus, sem o desejo egoísta de ganho pessoal. O *jñāna-yoga* é o processo de elevação à consciência espiritual mediante o cultivo do conhecimento filosófico. O sistema de *aṣṭāṅga-yoga*, do qual a moderna \"*haṭha-yoga*\" é uma versão diluída, é uma prática meditativa e mecânica destinada a controlar a mente e os sentidos e a concentrar a atenção no Supremo. Esses três sistemas de *yoga* culminam no *bhakti-yoga*, o *yoga* do amor devocional, altruísta e extático a Deus, Kṛṣṇa. O próprio Senhor Kṛṣṇa afirma, no último verso do Sexto Capítulo: \"De todos os *yogīs*, aquele que sempre se refugia em Mim com grande fé, adorando-Me em transcendental serviço amoroso, está unido a Mim em *yoga* da maneira mais íntima e é o mais elevado de todos.\"\n\nEm *O Caminho da Perfeição*, Śrīla Prabhupāda oferece um brilhante resumo dos métodos do *bhakti-yoga*, revelando a aplicabilidade universal dessa forma de *yoga*, simples mas plenamente abrangente. Ele mostra como até aqueles que se acham enredados na complexidade e no caos da vida materialista moderna podem dar início a uma prática descomplicada que purifica a mente e põe a pessoa em contato com a Consciência Suprema.\n\nEsta foi, talvez, a maior contribuição de Śrīla Prabhupāda para a nossa era. Śrīla Prabhupāda era um reconhecido mestre erudito da antiga cultura espiritual da Índia e de seu fundamento linguístico, o sânscrito. Mas não era um mero erudito de textos, nem um filósofo ou teólogo ocupado em fabricar noções filosóficas ou teológicas interessantes. Era um verdadeiro gênio espiritual que conseguiu dar vida à essência da universal sabedoria espiritual da Índia sob uma forma fácil de o homem do século XX compreender e praticar. Foi esse gênio singular que inspirou o falecido primeiro-ministro da Índia, Sri Lal Bahadur Shastri, a declarar abertamente que os escritos de Śrīla Prabhupāda \"são uma significativa contribuição para a salvação da humanidade\". A qualidade transformadora dos escritos de Śrīla Prabhupāda foi também apreciada pelo sociólogo Elwin H. Powell, que comentou a respeito da consagrada edição do *Bhagavad-gītā* feita por Śrīla Prabhupāda: \"Este misticismo transcendental do Oriente está agora a lançar raízes nas 'contraculturas' do Ocidente, proporcionando a muitos uma saída do ermo de uma civilização em desintegração.... Se a verdade é aquilo que funciona, deve haver uma espécie de verdade no *Bhagavad-gītā Como Ele É*, pois aqueles que seguem seus ensinamentos manifestam uma jubilosa serenidade em geral ausente nas vidas desoladas e estridentes das pessoas contemporâneas.\"\n\n—Os Editores"}
