{"ref": "rv/1", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/1/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "1. Rāja-vidyā: O Rei do Conhecimento", "purport": "śrī bhagavān uvāca\n\nidaṁ tu te guhyatamaṁ\n\npravakṣyāmy anasūyave\n\njñānaṁ vijñāna-sahitaṁ\n\nyaj jñātvā mokṣyase 'śubhāt\n\n\n\n\"O Senhor Supremo disse: Meu querido Arjuna, porque você nunca tem inveja de Mim, transmitir-lhe-ei esta sapiência mais secreta, conhecendo a qual você se libertará das misérias da existência material.\" (Bg. 9.1)\n\n\n\nAs palavras iniciais do Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* indicam que o Supremo Deus está falando. Aqui, Śrī Kṛṣṇa é referido como Bhagavān. Bhaga significa opulências, e vān significa aquele que as possui. Temos alguma concepção de Deus, mas, na literatura Védica, há descrições e definições precisas do que se entende por Deus, e o que se entende é descrito em uma só palavra: Bhagavān. O Bhagavān possui todas as opulências, a totalidade do conhecimento, da riqueza, do poder, da beleza, da fama e da renúncia. Quando encontramos alguém que possui essas opulências em plenitude, devemos saber que se trata de Deus. Há muitos homens ricos, sábios, famosos, belos e poderosos, mas nenhum homem pode reivindicar a posse de todas essas opulências. Apenas Kṛṣṇa reivindica possuí-las em sua totalidade.\n\n\n\nbhoktāraṁ yajña-tapasāṁ\n\nsarva-loka-maheśvaram\n\nsuhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ\n\njñātvā māṁ śāntim ṛcchati\n\n\n\n\"Os sábios, conhecendo-Me como o propósito último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, obtêm paz das dores das misérias materiais.\" (Bg. 5.29)\n\n\n\nAqui, Kṛṣṇa proclama que Ele é o desfrutador de todas as atividades e o proprietário de todos os planetas (sarva-loka-maheśvaram). Um indivíduo pode possuir uma grande extensão de terra e orgulhar-se de sua propriedade, mas Kṛṣṇa reivindica possuir todos os sistemas planetários. Kṛṣṇa também afirma ser o amigo de todas as entidades vivas (suhṛdaṁ sarva-bhūtānām). Quando uma pessoa compreende que Deus é o proprietário de tudo, o amigo de todos e o desfrutador de tudo, torna-se muito pacífica. Esta é a verdadeira fórmula da paz. Ninguém pode ter paz enquanto pensar: \"Eu sou o proprietário.\" Quem é capaz de reivindicar a propriedade? Há apenas algumas centenas de anos, os peles-vermelhas eram considerados os proprietários da América. Hoje, por nossa vez, reivindicamos essa propriedade, mas, em quatrocentos ou mil anos, talvez outra pessoa venha a reivindicar a mesma. A terra está aqui, e nós viemos aqui e falsamente nos proclamamos seus proprietários. Esta filosofia da falsa propriedade não está em conformidade com as injunções Védicas. O *Śrī Īśopaniṣad* afirma que \"tudo o que é animado ou inanimado dentro do universo é controlado e possuído pelo Senhor (īśāvāsyam idaṁ sarvam).\" A verdade dessa afirmação é factual, mas, sob a ilusão, pensamos que somos os proprietários. Na realidade, Deus possui tudo, e por isso Ele é chamado o mais rico.\n\n\n\nNaturalmente, há muitos homens que afirmam ser Deus. Na Índia, por exemplo, a qualquer momento não se tem dificuldade em encontrar pelo menos uma dúzia de pessoas que se proclamam Deus. Mas, se você lhes perguntar se são proprietárias de tudo, considerarão isso difícil de responder. Este é um critério pelo qual podemos compreender quem é Deus. Deus é o proprietário de tudo e, sendo assim, deve ser mais poderoso do que qualquer outro ou do que qualquer coisa. Quando Kṛṣṇa esteve pessoalmente presente nesta terra, ninguém pôde derrotá-Lo. Não há registro de que Ele jamais tenha perdido uma batalha. Ele pertencia a uma família kṣatriya (guerreira), e os kṣatriyas destinam-se a dar proteção aos fracos. Quanto à Sua opulência, Ele desposou 16.108 esposas. Cada esposa tinha seu próprio palácio separado, e Kṛṣṇa expandiu-Se 16.108 vezes a fim de desfrutar de todas elas. Isto pode parecer difícil de acreditar, mas está afirmado no *Śrīmad-Bhāgavatam*, e os grandes sábios da Índia reconhecem essa obra como escritura e reconhecem Kṛṣṇa como Deus.\n\n\n\nNo primeiro verso deste Nono Capítulo, pela palavra guhyatamam, Śrī Kṛṣṇa dá a entender que está transmitindo o conhecimento mais confidencial a Arjuna. Por que Ele proclama isto a Arjuna? É porque Arjuna é anasūyu — não invejoso. No mundo material, se alguém é maior do que nós, ficamos invejosos. Não somos invejosos apenas uns dos outros, mas também de Deus. Além disso, quando Kṛṣṇa diz: \"Eu sou o proprietário\", não acreditamos. Mas este não é o caso de Arjuna, que ouve Kṛṣṇa sem inveja. Arjuna não contesta Kṛṣṇa, mas concorda com tudo o que Ele diz. Esta é sua qualificação especial, e este é o modo de compreender o *Bhagavad-gītā*. Não é possível compreender o que é Deus por meio de nossas próprias especulações mentais; temos de ouvir, e temos de aceitar.\n\n\n\nComo Arjuna não é invejoso, Kṛṣṇa lhe fala este conhecimento especial. Não se trata apenas de conhecimento teórico, mas de conhecimento prático (vijñāna-sahitam). Qualquer conhecimento que recebamos do *Bhagavad-gītā* não deve ser tomado como sentimentalismo ou fanatismo. O conhecimento é tanto jñāna quanto vijñāna, sabedoria teórica e conhecimento científico. Se alguém se torna bem versado neste conhecimento, a liberação é certa. A vida neste mundo material é, por natureza, inauspiciosa e miserável. Mokṣa significa liberação, e a promessa é que, à força de compreender este conhecimento, alcançar-se-á a liberação de todas as misérias. É importante, então, compreender o que Kṛṣṇa diz sobre este conhecimento.\n\n\n\nrāja-vidyā rāja-guhyaṁ\n\npavitram idam uttamam\n\npratyakṣāvagamaṁ dharmyaṁ\n\nsu-sukhaṁ kartum avyayam\n\n\n\n\"Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro e, por dar percepção direta do eu mediante a compreensão, é a perfeição da religião. É eterno, e se realiza com alegria.\" (Bg. 9.2)\n\n\n\nSegundo o *Bhagavad-gītā*, o conhecimento supremo (rāja-vidyā rāja-guhyam) é a consciência de Kṛṣṇa, porque no *Bhagavad-gītā* descobrimos que o sintoma daquele que está verdadeiramente em conhecimento é o de ter-se rendido a Kṛṣṇa. Enquanto continuarmos a especular sobre Deus, sem nos rendermos, entende-se que não atingimos a perfeição do conhecimento. A perfeição do conhecimento é a seguinte:\n\n\n\nbahūnāṁ janmanām ante\n\njñānavān māṁ prapadyate\n\nvāsudevaḥ sarvam iti\n\nsa mahātmā sudurlabhaḥ\n\n\n\n\"Após muitos nascimentos e mortes, aquele que está verdadeiramente em conhecimento se rende a Mim, conhecendo-Me como a causa de todas as causas e tudo o que existe. Tal grande alma é muito rara.\" (Bg. 7.19)\n\n\n\nEnquanto não nos rendermos, não poderemos compreender Deus. A rendição a Deus pode levar muitos nascimentos, mas, se aceitarmos que Deus é grande, é possível render-se a Ele imediatamente. Geralmente, porém, esta não é a nossa posição no mundo material. Somos caracteristicamente invejosos e, em consequência, pensamos: \"Oh, por que deveria render-me a Deus? Sou independente. Trabalharei por conta própria.\" Por isso, a fim de retificar este equívoco, temos de trabalhar por muitos nascimentos. A este respeito, o nome de Kṛṣṇa é especialmente significativo. Kṛṣ significa \"repetição do nascimento\", e ṇa significa \"aquele que detém\". Nossa repetição do nascimento só pode ser detida por Deus. Ninguém pode deter sua repetição de nascimento e morte sem a misericórdia imotivada de Deus.\n\n\n\nO assunto do Nono Capítulo é a rāja-vidyā. Rāja significa \"rei\", e vidyā significa \"conhecimento\". Na vida comum, descobrimos que uma pessoa é rei numa matéria e outra é rei noutra. Este conhecimento, contudo, é soberano sobre todos os demais, e todos os outros conhecimentos lhe são subordinados ou relativos. A palavra rāja-guhyam indica que este conhecimento soberano é muito confidencial, e a palavra pavitram significa que é muito puro. Este conhecimento também é uttamam; ud significa \"transcender\", e tama significa \"escuridão\", e o conhecimento que ultrapassa este mundo e o conhecimento deste mundo chama-se uttamam. É o conhecimento da luz, do qual a escuridão foi apartada. Se a pessoa segue esta senda do conhecimento, compreenderá pessoalmente quanto progrediu no caminho da perfeição (pratyakṣāvagamaṁ dharmyam). Su-sukhaṁ kartum indica que este conhecimento é muito feliz e alegre de executar. E avyayam indica que este conhecimento é permanente. Podemos trabalhar neste mundo material em busca de educação ou de riquezas, mas estas coisas não são avyayam, pois, assim que este corpo termina, tudo o mais também termina. Com a morte, nossa educação, nossos diplomas avançados, nossos saldos bancários, nossa família — tudo — acaba. Tudo o que fazemos neste mundo material não é eterno. Este conhecimento, no entanto, não é assim.\n\n\n\nnehābhikrama-nāśo 'sti\n\npratyavāyo na vidyate\n\nsvalpam apy asya dharmasya\n\ntrāyate mahato bhayāt\n\n\n\n\"Neste empenho não há perda nem diminuição, e um pequeno avanço nesta senda pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo.\" (Bg. 2.40)\n\n\n\nO conhecimento em consciência de Kṛṣṇa é tão perfeito que, se a pessoa realiza trabalho em consciência de Kṛṣṇa e ainda assim não atinge a perfeição, em sua próxima vida retoma de onde parou. Em outras palavras, as ações realizadas em consciência de Kṛṣṇa são duráveis. Por outro lado, as conquistas materiais, por pertencerem ao corpo, são aniquiladas com a morte. O conhecimento que diz respeito a designações não perdura. Estou pensando que sou homem ou mulher, americano ou indiano, cristão ou hindu — estas são todas designações que dizem respeito ao corpo, e, quando o corpo termina, elas também terminam. Na verdade, somos espírito, e por isso nossas atividades espirituais nos acompanharão aonde quer que vamos.\n\n\n\nŚrī Kṛṣṇa indica que este rei do conhecimento também é realizado com alegria. Podemos perceber facilmente que as atividades em consciência de Kṛṣṇa se executam alegremente. Há canto e dança, comemos prasādam (alimento que foi oferecido a Kṛṣṇa) e discutimos o *Bhagavad-gītā*. Estes são os processos principais. Não há regras e regulamentos rigorosos pelos quais tenhamos de sentar-nos tão eretos por tanto tempo, ou fazer tantas ginásticas, ou controlar a respiração. Não, o processo realiza-se muito fácil e alegremente. Todos querem dançar, cantar, comer e ouvir a verdade. Este processo é verdadeiramente susukham — muito feliz.\n\n\n\nNo mundo material, há tantas gradações de educação. Algumas pessoas nunca terminam o ensino fundamental ou médio, ao passo que outras prosseguem e recebem uma educação universitária, um bacharelado, um mestrado, um doutorado, e assim por diante. Mas o que é esta rāja-vidyā, o rei da educação, o summum bonum do conhecimento? É esta consciência de Kṛṣṇa. O verdadeiro conhecimento consiste em compreender \"o que sou eu\". Enquanto não chegarmos ao ponto de compreender o que somos, não poderemos alcançar o verdadeiro conhecimento. Quando Sanātana Gosvāmī deixou seu cargo no governo e veio pela primeira vez a Caitanya Mahāprabhu, perguntou ao Senhor: \"Que é educação?\" Embora Sanātana Gosvāmī soubesse diversas línguas, incluindo o sânscrito, ainda assim indagou acerca da verdadeira educação. \"O povo em geral chama-me altamente educado\", disse Sanātana Gosvāmī ao Senhor, \"e sou tão tolo que de fato acredito nele.\"\n\n\n\nO Senhor respondeu: \"Por que não haverias de pensar que és bem educado? És um grande erudito em sânscrito e persa.\"\n\n\n\n\"Pode ser que sim\", disse Sanātana Gosvāmī, \"mas não sei o que sou.\" Em seguida, prosseguiu, dizendo ao Senhor: \"Não desejo sofrer, mas estas misérias materiais me são impostas. Não sei de onde vim nem para onde vou, e, contudo, as pessoas me chamam de educado. Quando me chamam de grande erudito, fico satisfeito, mas, na verdade, sou tão grande tolo que não sei o que sou.\" Sanātana Gosvāmī, na verdade, falava por todos nós, pois esta é a nossa presente situação. Podemos orgulhar-nos de nossa educação acadêmica, mas, se nos perguntarem o que somos, não somos capazes de dizer. Todos estão sob a concepção de que este corpo é o eu, mas aprendemos das fontes Védicas que não é assim. Somente após compreendermos que não somos estes corpos é que podemos ingressar no verdadeiro conhecimento e compreender o que de fato somos. Este, então, é o começo do conhecimento.\n\n\n\nA rāja-vidyā pode ser ainda definida não apenas como saber o que se é, mas como agir em conformidade com isso. Se não sabemos quem somos, como poderão nossas atividades ser apropriadas? Se nos equivocamos quanto à nossa identidade, também nos equivocaremos quanto às nossas atividades. Saber simplesmente que não somos estes corpos materiais não basta; temos de agir conforme a convicção de que somos espirituais. A ação baseada neste conhecimento — a atividade espiritual — é o trabalho em consciência de Kṛṣṇa. Este tipo de conhecimento pode não parecer tão facilmente atingível, mas é tornado muito fácil pela misericórdia de Kṛṣṇa e do Senhor Caitanya Mahāprabhu, que disponibilizaram este conhecimento facilmente através do processo de cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.\n\n\n\nCaitanya Mahāprabhu dividiu as entidades vivas em duas categorias principais: as que se movem e as que não se movem. Árvores, gramíneas, plantas, pedras etc. não se movem porque não têm consciência suficientemente desenvolvida. Sua consciência está presente, mas está coberta. Se um ser vivo não compreende sua posição, é semelhante a uma pedra, embora habite num corpo humano. As entidades vivas — pássaros, répteis, animais, insetos, seres humanos, semideuses etc. — somam mais de 8.000.000 de espécies, e, destas, um número muito reduzido são seres humanos. O Senhor Caitanya destaca, ademais, que, das 400.000 espécies de seres humanos, alguns são civilizados; e, das muitas pessoas civilizadas, há apenas algumas que são devotadas às escrituras.\n\n\n\nNos dias atuais, a maioria das pessoas afirma ser devota de alguma religião — cristã, hindu, muçulmana, budista etc. —, mas, de fato, não acreditam realmente nas escrituras. Aqueles que acreditam nas escrituras estão, em sua maior parte, apegados a atividades piedosas e filantrópicas. Acreditam que religião significa yajña (sacrifício), dāna (caridade) e tapas (penitência). Quem se ocupa em tapasya empreende voluntariamente regulações muito rígidas, como as que assumem os estudantes brahmacārī (celibatários) ou os sannyāsīs (de ordem renunciada). Caridade significa doar voluntariamente as próprias posses materiais. Na era atual não há sacrifício, mas, de literaturas históricas como o *Mahābhārata*, obtemos a informação de que os reis realizavam sacrifícios distribuindo rubis, ouro e prata. O yajña destinava-se principalmente aos reis, e a caridade, em escala muito menor, destinava-se aos chefes de família. Aqueles que de fato acreditavam nas escrituras geralmente adotavam alguns desses princípios. Em geral, porém, nesta era, as pessoas simplesmente dizem que pertencem a uma religião, mas, na verdade, nada fazem. Dentre milhões dessas pessoas, um número muito reduzido realmente realiza caridade, sacrifício e penitência. Caitanya Mahāprabhu destaca, ademais, que, dos milhões que realizam tais princípios religiosos por todo o universo, apenas uns poucos atingem o conhecimento perfeito e compreendem o que são.\n\n\n\nApenas saber \"eu não sou este corpo, mas alma espiritual\" não é suficiente. Temos de escapar deste enredamento da natureza material. Isto se chama mukti, liberação. Dentre muitos milhares de pessoas que se encontram em autoconhecimento quanto ao que e a quem são, talvez apenas uma ou duas estejam realmente liberadas. E, dentre muitos milhares que estão liberados, somente um ou dois talvez compreendam o que e quem é Kṛṣṇa. Portanto, compreender Kṛṣṇa não é tarefa assim tão fácil. Dessa forma, nesta era de Kali, era caracterizada pela ignorância e pelo caos, a liberação está fora do alcance de praticamente todos. A pessoa tem de atravessar toda a provação de tornar-se civilizada, depois religiosa, e, em seguida, tem de realizar caridades e sacrifícios e chegar à plataforma do conhecimento, depois ao estágio da liberação e, por fim, após a liberação, à compreensão do que é Kṛṣṇa. Este processo também está indicado no *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nbrahma-bhūtaḥ prasannātmā\n\nna śocati na kāṅkṣati\n\nsamaḥ sarveṣu bhūteṣu\n\nmad-bhaktiṁ labhate parām\n\n\n\n\"Aquele que assim se situa transcendentalmente percebe de imediato o Brahman Supremo. Ele nunca se lamenta nem deseja ter coisa alguma; é igualmente disposto para com toda entidade viva. Nesse estado, alcança o serviço devocional puro a Mim.\" (Bg. 18.54)\n\n\n\nEstes são os sinais da liberação. O primeiro sintoma daquele que está liberado é o de sentir-se muito feliz. Não é possível encontrá-lo cabisbaixo. Tampouco tem qualquer ansiedade. Nunca se aflige: \"Isto não tenho. Oh, devo conseguir isto. Oh, esta conta tenho de pagar. Tenho de ir aqui, ali.\" Aquele que está liberado não tem ansiedade alguma. Pode ser o homem mais pobre do mundo, mas não se lamenta nem se considera pobre. Por que haveria de considerar-se pobre? Quando pensamos que somos estes corpos materiais e que temos posses que os acompanham, então pensamos que somos pobres ou ricos, mas aquele que se libertou da concepção material da vida nada tem a ver com posses ou com a falta delas. \"Nada tenho a perder e nada a ganhar\", pensa ele. \"Estou completamente separado de tudo isso.\" Tampouco vê outra pessoa como rica ou pobre, educada ou ignorante, bela ou feia etc. Não vê quaisquer dualidades materiais, pois sua visão está completamente na plataforma espiritual, e vê que toda entidade viva é parte integrante de Kṛṣṇa. Assim, vendo todas as entidades em sua verdadeira identidade, ele procura levá-las de volta à consciência de Kṛṣṇa. Seu ponto de vista é o de que todos — seja brāhmaṇa ou śūdra, negro ou branco, hindu, cristão ou o que for — devem chegar à consciência de Kṛṣṇa. Quando a pessoa se situa dessa maneira, então: mad-bhaktiṁ labhate parām [Bg. 18.54] — torna-se elegível para tornar-se um devoto puro de Kṛṣṇa.\n\n\n\nEm termos práticos, este processo não é muito fácil nesta era de Kali. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, faz-se uma descrição das pessoas desta era. Diz-se que sua duração de vida é muito curta, que tendem a ser fleumáticas e lentas e a dormir demais e que, quando não dormem, estão ocupadas em ganhar dinheiro. Quando muito, têm apenas duas horas por dia para atividades espirituais; então, qual a esperança de compreensão espiritual? Também se afirma que, mesmo que alguém esteja ansioso por fazer progresso espiritual, há muitas pseudossociedades espirituais para tirar proveito dele. As pessoas também são caracterizadas, nesta era, como desventuradas. Têm enorme dificuldade em atender às demandas primárias da vida — comer, defender-se, acasalar-se e dormir —, necessidades que até os animais satisfazem. Mesmo que atendam a essas necessidades nesta era, as pessoas vivem sempre ansiosas por causa da guerra, ou defendendo-se de agressores, ou tendo elas mesmas de ir à guerra. Além disso, há sempre doenças perturbadoras e problemas econômicos em Kali-yuga. Por isso, o Senhor Śrī Kṛṣṇa considerou que, nesta era, é impossível para as pessoas chegarem ao estágio perfeito da liberação seguindo as regras e os regulamentos prescritos.\n\n\n\nAssim, por Sua misericórdia imotivada, Śrī Kṛṣṇa veio como o Senhor Caitanya Mahāprabhu e distribuiu os meios para a mais elevada perfeição da vida e o êxtase espiritual mediante o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Este processo de canto é o mais prático, e não depende de a pessoa estar liberada ou não, nem de sua condição ser propícia à vida espiritual ou não — quem quer que adote este processo torna-se imediatamente purificado. Por isso, é chamado pavitram (puro). Ademais, para aquele que adota este processo da consciência de Kṛṣṇa, as sementes das reações latentes de suas ações pecaminosas são todas anuladas. Assim como o fogo reduz a cinzas tudo o que nele colocamos, este processo reduz a cinzas todas as reações pecaminosas de nossas vidas passadas.\n\n\n\nDevemos compreender que nosso sofrimento se deve à nossa atividade pecaminosa, e a atividade pecaminosa se deve à nossa ignorância. Pecados, ou transgressões, são cometidos por aqueles que não sabem o que é o quê. Uma criança, por exemplo, ingenuamente porá a mão no fogo por ignorância. Assim, queima-se de imediato, pois o fogo é imparcial e não admite nenhuma consideração especial pela criança inocente. Simplesmente age como fogo. De modo semelhante, não sabemos como funciona este mundo material, quem é seu controlador, nem como ele é controlado, e, devido à nossa ignorância, agimos de modo tolo, mas a natureza é tão rigorosa que não nos permite escapar das reações às nossas ações. Quer cometamos um ato consciente, quer inconscientemente, as reações e os consequentes sofrimentos estão presentes. Contudo, mediante o conhecimento, podemos compreender qual é a situação real, quem é Deus e qual é a nossa relação com Ele.\n\n\n\nEste conhecimento, pelo qual podemos obter alívio do sofrimento, é possível na forma de vida humana, não na forma animal. Para nos dar conhecimento, para nos dar a direção apropriada, há escrituras redigidas em diversas línguas em todas as partes do mundo. O Senhor Caitanya Mahāprabhu apontou que as pessoas se esquecem, desde tempos imemoriais, de sua relação com o Senhor Supremo; por isso, Kṛṣṇa enviou tantos representantes para transmitir as escrituras ao homem. Devemos tirar proveito delas, especialmente do *Bhagavad-gītā*, que é a escritura primordial para o mundo moderno."}
{"ref": "rv/2", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/2/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "2. Conhecimento Além do Saṁsāra", "purport": "Kṛṣṇa afirma especificamente que este processo da consciência de Kṛṣṇa é susukham, muito agradável e fácil de praticar. De fato, o processo devocional é muito agradável; cantamos melodiosamente com instrumentos, e alguém ouvirá e também se juntará (śravaṇaṁ kīrtanam). É claro que a música deve estar em relação com o Senhor Supremo, em glorificação a Ele. Ouvir o *Bhagavad-gītā* também faz parte do serviço devocional e, além de ouvi-lo, a pessoa deve estar ávida por aplicá-lo em sua vida. A consciência de Kṛṣṇa é uma ciência e não deve ser aceita cegamente. Há nove processos de serviço devocional recomendados (ouvir, cantar, lembrar, adorar, orar, servir, ocupar-se como servo do Senhor, estabelecer relações amistosas com o Senhor e oferecer tudo ao Senhor). Todos são fáceis de praticar e devem ser realizados com alegria.\n\n\n\nÉ claro que, se alguém pensa que o *Bhagavad-gītā* e o mantra Hare Kṛṣṇa fazem parte do sistema hindu e, por causa disso, não quer aceitá-los, pode, não obstante, frequentar a igreja cristã e cantar lá. Não há diferença entre este processo e aquele; o ponto é que, qualquer que seja o processo seguido, a pessoa deve tornar-se consciente de Deus. Deus não é nem muçulmano, nem hindu, nem cristão — Ele é Deus. Tampouco devemos ser considerados hindus, muçulmanos ou cristãos. Estas são designações corporais. Somos todos espírito puro, parte integrante do Supremo. Deus é pavitram, puro, e também nós somos puros. De um jeito ou de outro, contudo, caímos neste oceano material e, à medida que as ondas se agitam, sofremos. Na verdade, nada temos a ver com as ondas agitadas das misérias materiais. Devemos simplesmente orar: \"Kṛṣṇa, por favor, recolhe-me.\" Assim que esquecemos Kṛṣṇa, o oceano da ilusão está ali, e ele de imediato nos captura. O canto de Hare Kṛṣṇa é o mais importante para escaparmos deste oceano. Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare é um som (śabda) que não é diferente de Kṛṣṇa. O som Kṛṣṇa e o Kṛṣṇa original são o mesmo. Quando cantamos Hare Kṛṣṇa e dançamos, Kṛṣṇa também está dançando conosco. Naturalmente, podemos dizer: \"Bem, eu não O vejo\", mas por que damos tanta ênfase ao ver? Por que não ao ouvir? Ver, saborear, cheirar, tocar e ouvir são todos instrumentos para a experiência e o conhecimento. Por que damos ênfase exclusiva ao ver? O devoto não deseja ver Kṛṣṇa; ele se satisfaz simplesmente ouvindo falar de Kṛṣṇa. Ver poderá com o tempo ocorrer, mas o ouvir não deve ser considerado menos importante. Há coisas que ouvimos, mas não vemos — o vento pode estar assoviando junto aos nossos ouvidos, e podemos ouvi-lo, mas não há possibilidade de ver o vento. Visto que ouvir não é uma experiência menos importante ou menos válida do que ver, podemos ouvir Kṛṣṇa e perceber Sua presença através do som. O próprio Śrī Kṛṣṇa diz: \"Não estou em Minha morada, nem no coração do yogī meditante, mas onde Meus devotos puros estão cantando.\" Podemos sentir a presença de Kṛṣṇa à medida que realmente progredimos.\n\n\n\nNão é que devamos simplesmente receber coisas de Kṛṣṇa e nada Lhe oferecer. Todos estão recebendo algo de Deus; então, por que não dar algo? Estamos recebendo de Kṛṣṇa tanta luz, tanto ar, tanto alimento, tanta água e assim por diante. A menos que esses recursos sejam fornecidos por Kṛṣṇa, ninguém pode viver. Será amor simplesmente continuar recebendo, recebendo e recebendo sem jamais oferecer algo em retribuição? Amor significa receber e também dar. Se simplesmente recebemos de alguém e nada lhe damos em retorno, isto não é amor — é exploração. Não é que devamos apenas continuar a comer sem jamais oferecer algo a Kṛṣṇa. No *Bhagavad-gītā*, Kṛṣṇa diz:\n\n\n\npatraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ\n\nyo me bhaktyā prayacchati\n\ntad ahaṁ bhakty-upahṛtam\n\naśnāmi prayatātmanaḥ\n\n\n\nyat karoṣi yad aśnāsi\n\nyaj juhoṣi dadāsi yat\n\nyat tapasyasi kaunteya\n\ntat kuruṣva mad arpaṇam\n\n\n\n\"Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, uma folha, uma flor, fruto ou água, Eu aceitarei. Ó filho de Kuntī, tudo o que fazes, tudo o que comes, tudo o que ofereces e dás, bem como todas as austeridades que executas, devem ser feitos como uma oferenda a Mim.\" (Bg. 9.26–27)\n\n\n\nAlém de dar e receber, na execução do serviço devocional a pessoa tem de submeter a Kṛṣṇa qualquer aflição ou problema confidencial que tenha. Deve dizer: \"Kṛṣṇa, estou sofrendo desta maneira. Caí neste oceano agitado da ilusão material. Por favor, recolhe-me. Compreendo agora que simplesmente fui posto aqui, como se atirado no Oceano Atlântico. Não posso, de modo algum, identificar-me com o Oceano Atlântico, mas estou sujeito à agitação do oceano. Na verdade, sou uma centelha espiritual, parte fragmentária de Ti.\" Para nossa desventura, tentamos identificar-nos com este oceano e cessar a sua agitação. Não devemos tentar deter a agitação. Não é possível. Em todo caso, a agitação prosseguirá, pois esta é a lei da natureza. Somente o tolo procura adaptar-se a este mundo; o verdadeiro problema é como sair dele. Aqueles que tentam adaptar-se e nunca se voltam para Kṛṣṇa estão continuamente sujeitos à transmigração no oceano de nascimento e morte.\n\n\n\naśraddadhānāḥ puruṣā\n\ndharmasyāsya parantapa\n\naprāpya māṁ nivartante\n\nmṛtyu-saṁsāra-vartmani\n\n\n\n\"Aqueles que não são fiéis no caminho do serviço devocional não podem alcançar-Me, ó conquistador dos inimigos, mas retornam ao nascimento e à morte neste mundo material.\" (Bg. 9.3)\n\n\n\nPor definição, religião é aquilo que nos liga a Deus. Se não é capaz de nos ligar a Deus, não é religião. Religião significa buscar Deus, compreender Deus e estabelecer uma relação com Deus. Isto é religião. Aqueles que se ocupam no serviço devocional estão agindo para Kṛṣṇa, ou Deus, e, visto que dessa maneira há conexão com Deus, a consciência de Kṛṣṇa é uma religião.\n\n\n\nNão é possível fabricar uma religião. Uma verdadeira religião deve provir de uma fonte autorizada, e essa fonte é ou Deus ou Seu representante. A religião tem sido chamada a lei de Deus. Não é possível a uma pessoa fabricar uma lei de Estado. A lei está posta, e é dada pelo Estado. Pode-se criar alguns regulamentos para a própria sociedade, mas essas leis devem ser sancionadas pela lei do Estado. De modo semelhante, se desejamos elaborar algum princípio de religião, ele deve ser sancionado pela autoridade Védica.\n\n\n\nO *Bhagavad-gītā* também é religião. Grandes autoridades como Rāmānujācārya, Madhvācārya, Viṣṇusvāmī, o Senhor Caitanya, Śaṅkarācārya e tantos outros aceitaram o *Bhagavad-gītā* como o supremo princípio da religião e Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Não há dúvida quanto a isso. No Ocidente também o *Bhagavad-gītā* é aceito como um grande livro de filosofia, e muitos grandes eruditos e filósofos no Ocidente o leram e o comentaram. Apesar da aceitação pelos eruditos e pelos ācāryas, há pessoas que não aceitam o *Bhagavad-gītā* e que não têm fé. Não o aceitam de modo algum como autoridade, pois pensam que se trata de algum exagero sentimental de um homem conhecido como Kṛṣṇa. Assim, Kṛṣṇa afirma no verso acima citado que aqueles que rejeitam o *Bhagavad-gītā* como autoridade não podem ter qualquer ligação com Ele e, por não terem relação com Ele, permanecem no ciclo de nascimento e morte. Aprāpya māṁ nivartante mṛtyu-saṁsāra-vartmani. Estar sujeito ao saṁsāra, o ciclo de nascimento e morte, não garante que se vá obter necessariamente uma facilidade semelhante para compreender o *Bhagavad-gītā* na próxima vida. Pode-se não nascer necessariamente outra vez como ser humano, ou na América, ou na Índia, ou mesmo neste planeta. Não há certeza; tudo depende de nosso trabalho. Na senda de nascimento e morte, nascemos, permanecemos por algum tempo, desfrutamos ou sofremos, depois novamente abandonamos este corpo e entramos no ventre de uma mãe, seja humana, seja animal, então preparamos outro corpo para sair e começar nosso trabalho de novo. Isto se chama mṛtyu-saṁsāra-vartmani. Se a pessoa quer evitar esta senda, deve adotar a consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nQuando se perguntou a Yudhiṣṭhira Mahārāja: \"Qual é a coisa mais maravilhosa do mundo?\", ele respondeu: \"A coisa mais maravilhosa é que, todos os dias, a cada instante, as pessoas estão morrendo, e, contudo, todos pensam que a morte não virá para eles.\" A cada minuto e a cada segundo experimentamos que entidades vivas estão indo para o templo da morte. Homens, insetos, animais, pássaros — todos vão. Por isso, este mundo é chamado mṛtyuloka — o planeta da morte. Todos os dias há obituários e, se nos dermos ao trabalho de ir ao cemitério ou ao terreno do crematório, podemos confirmá-los. Contudo, todos pensam: \"De um jeito ou de outro, eu viverei.\" Todos estão sujeitos à lei da morte, mas ninguém a leva a sério. Isto é ilusão. Pensando que viveremos para sempre, continuamos a fazer o que bem entendemos, sentindo que nunca seremos responsabilizados. Esta é uma vida muito arriscada, e é a parte mais densa da ilusão. Devemos tornar-nos muito sérios e compreender que a morte está esperando. Já ouvimos a expressão \"tão certo como a morte\". Isto significa que, neste mundo, a morte é a coisa mais certa; ninguém pode evitá-la. Quando a morte chegar, nossa filosofia inflada ou nossos diplomas avançados já não nos ajudarão. Nesse momento, nosso corpo robusto e forte e nossa inteligência — que de nada se importam — são vencidos. Nesse momento, a porção fragmentária (jīvātmā) entra sob o ditame da natureza material, e prakṛti (a natureza) nos dá o tipo de corpo para o qual estamos aptos. Se quisermos correr este risco, podemos evitar Kṛṣṇa; se não quisermos corrê-lo, Kṛṣṇa virá em nosso auxílio."}
{"ref": "rv/3", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/3/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "3. Conhecimento das Energias de Kṛṣṇa", "purport": "Pode-se observar, neste ponto, que o Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā* destina-se especialmente àqueles que já aceitaram Śrī Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, destina-se aos Seus devotos. Se alguém não aceita Śrī Kṛṣṇa como o Supremo, este Nono Capítulo aparecerá como algo diferente do que de fato é. Como se afirmou no início, o assunto do Nono Capítulo é o material mais confidencial em todo o *Bhagavad-gītā*. Se a pessoa não aceita Kṛṣṇa como o Supremo, pensará que o capítulo é um mero exagero. Este é especialmente o caso dos versos que tratam da relação de Kṛṣṇa com Sua criação.\n\n\n\nmayā tatam idaṁ sarvaṁ\n\njagad avyakta-mūrtinā\n\nmat-sthāni sarva-bhūtāni\n\nna cāhaṁ teṣv avasthitaḥ\n\n\n\n\"Por Mim, em Minha forma imanifesta, todo este universo é permeado. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.\" (Bg. 9.4)\n\n\n\nO mundo que vemos também é a energia de Kṛṣṇa, a Sua māyā. Aqui, mayā significa \"por Mim\", como quando alguém diz: \"Este trabalho foi feito por mim.\" Este \"por Mim\" não significa que Ele fez Seu trabalho e o terminou ou se aposentou. Se eu inicio uma grande fábrica e digo: \"Esta fábrica foi iniciada por mim\", em nenhum caso se deve concluir que estou perdido ou de algum modo ausente. Embora um fabricante possa referir-se a seus produtos como \"fabricados por mim\", isto não significa que ele tenha pessoalmente criado ou construído seu produto, mas que o produto foi produzido por sua energia. De modo semelhante, se Kṛṣṇa diz: \"Tudo o que vês no mundo foi criado por Mim\", não devemos supor que Ele não mais exista.\n\n\n\nNão é muito difícil ver Deus em toda parte da criação, pois Ele está presente em toda parte. Assim como, na fábrica da Ford, os trabalhadores veem o Sr. Ford em cada canto, aqueles que estão familiarizados com a ciência de Kṛṣṇa podem vê-Lo em cada átomo da criação. Tudo repousa em Kṛṣṇa (mat-sthāni sarva-bhūtāni), mas Kṛṣṇa não está ali (na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ). Kṛṣṇa e Sua energia não são diferentes, e, contudo, a energia não é Kṛṣṇa. O sol e a luz do sol não são diferentes, mas a luz do sol não é o sol. A luz do sol pode entrar por nossa janela e penetrar em nosso aposento, mas isto não quer dizer que o sol esteja em nosso aposento. O *Viṣṇu Purāṇa* afirma: parasya brāhmaṇaḥ śaktiḥ: parasya significa supremo, brāhmaṇaḥ significa Verdade Absoluta, e śaktiḥ significa energia. A energia do Absoluto Supremo é tudo, mas nessa energia Kṛṣṇa não pode ser encontrado.\n\n\n\nHá dois tipos de energia — material e espiritual. As jīvas, ou almas individuais, pertencem à energia superior de Kṛṣṇa, mas, por serem propensas a ser atraídas pela energia material, são chamadas energia marginal. Na verdade, porém, há apenas duas energias. Todos os sistemas planetários e universos repousam nas energias de Kṛṣṇa. Assim como todos os planetas do sistema solar repousam na luz do sol, tudo dentro da criação repousa na luz-de-Kṛṣṇa. Todas essas potências do Senhor dão prazer a um devoto, mas aquele que tem inveja de Kṛṣṇa as rejeita. Quando se é um não devoto, as afirmações de Kṛṣṇa parecem uma grande bravata, mas, quando se é devoto, pensa-se: \"Oh, meu Senhor é tão poderoso\", e a pessoa fica repleta de amor e adoração. Os não devotos pensam que, porque Kṛṣṇa diz: \"Eu sou Deus\", eles e todos os demais podem dizer o mesmo. Mas, se lhes pedem que mostrem sua forma universal, não conseguem fazê-lo. Esta é a diferença entre um pseudodeus e o verdadeiro Deus. Os passatempos de Kṛṣṇa não podem ser imitados. Kṛṣṇa desposou mais de 16.000 esposas e as manteve com primor em 16.000 palácios, mas um homem comum não consegue sequer manter uma esposa com primor. Não é que Kṛṣṇa apenas tenha falado tantas coisas maravilhosas; Ele também agiu maravilhosamente. Não devemos acreditar numa coisa que Kṛṣṇa diz ou faz e rejeitar outra; se há fé, deve ser fé plena.\n\n\n\nA este respeito, há uma história de Nārada Muni, a quem certa vez um brāhmaṇa perguntou: \"Oh, vais encontrar o Senhor? Por favor, perguntar-Lhe-ias quando obterei minha salvação?\"\n\n\n\n\"Está bem\", concordou Nārada. \"Eu Lhe perguntarei.\"\n\n\n\nEnquanto Nārada prosseguia, encontrou um sapateiro que estava sentado debaixo de uma árvore consertando sapatos, e o sapateiro, de modo semelhante, perguntou a Nārada: \"Oh, vais ver Deus? Por favor, indagar-Lhe-ias quando virá minha salvação?\"\n\n\n\nQuando Nārada Muni foi aos planetas Vaikuṇṭha, cumpriu o pedido de ambos e perguntou a Nārāyaṇa (Deus) sobre a salvação do brāhmaṇa e do sapateiro, e Nārāyaṇa respondeu: \"Depois de deixar este corpo, o sapateiro virá aqui a Mim.\"\n\n\n\n\"E o brāhmaṇa?\", perguntou Nārada.\n\n\n\n\"Ele terá de permanecer lá por muitos nascimentos. Não sei quando virá.\"\n\n\n\nNārada Muni ficou atônito e, por fim, disse: \"Não consigo compreender o mistério disto.\"\n\n\n\n\"Isto verás\", disse Nārāyaṇa. \"Quando te perguntarem o que estou fazendo em Minha morada, dize-lhes que estou enfiando o buraco de uma agulha com um elefante.\"\n\n\n\nQuando Nārada voltou à terra e se aproximou do brāhmaṇa, o brāhmaṇa disse: \"Oh, viste o Senhor? O que Ele estava fazendo?\"\n\n\n\n\"Ele estava enfiando um elefante pelo buraco de uma agulha\", respondeu Nārada.\n\n\n\n\"Não acredito em tal disparate\", replicou o brāhmaṇa. Nārada pôde imediatamente compreender que o homem não tinha fé e que era simplesmente um leitor de livros.\n\n\n\nNārada então saiu e foi até o sapateiro, que lhe perguntou: \"Oh, viste o Senhor? Dize-me, o que Ele estava fazendo?\"\n\n\n\n\"Ele estava enfiando um elefante pelo buraco de uma agulha\", respondeu Nārada.\n\n\n\nO sapateiro começou a chorar: \"Oh, meu Senhor é tão maravilhoso, Ele pode fazer qualquer coisa.\"\n\n\n\n\"Acreditas mesmo que o Senhor pode empurrar um elefante pelo buraco de uma agulha?\", perguntou Nārada.\n\n\"Por que não?\", disse o sapateiro. \"Naturalmente acredito.\"\n\n\n\n\"Como é assim?\"\n\n\n\n\"Podes ver que estou sentado debaixo desta figueira-de-bengala\", respondeu o sapateiro, \"e podes ver que tantos frutos caem todos os dias, e em cada semente há uma figueira-de-bengala como esta. Se, dentro de uma pequena semente, pode existir uma árvore tão grande como esta, é difícil aceitar que o Senhor esteja empurrando um elefante pelo buraco de uma agulha?\"\n\n\n\nAssim se chama fé. Não se trata de acreditar cegamente. Há razão por trás da crença. Se Kṛṣṇa pode pôr uma grande árvore dentro de tantas pequenas sementes, é tão espantoso assim que Ele mantenha todos os sistemas planetários flutuando no espaço por meio de Sua energia?\n\n\n\nEmbora os cientistas possam pensar que os planetas se mantêm no espaço apenas pela natureza, por trás da natureza há o Senhor Supremo. A natureza age sob Sua orientação. Como afirma Śrī Kṛṣṇa:\n\n\n\nmayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ\n\nsūyate sa-carācaram\n\nhetunānena kaunteya\n\njagad viparivartate\n\n\n\n\"Esta natureza material trabalha sob Minha direção, ó filho de Kuntī, e produz todos os seres móveis e imóveis. Por sua regência, esta manifestação é criada e aniquilada repetidamente.\" (Bg. 9.10)\n\n\n\nMayādhyakṣeṇa significa \"sob Minha supervisão\". A natureza material não pode agir de modo tão maravilhoso a menos que a mão do Senhor esteja por trás dela. Não podemos apresentar nenhum exemplo de coisas materiais que funcionem automaticamente. A matéria é inerte e, sem o toque espiritual, não há possibilidade de que aja. A matéria não pode agir de forma independente ou automática. As máquinas podem ser construídas de modo admirável, mas, a menos que um homem toque essa máquina, ela não funciona. E o que é esse homem? Ele é uma centelha espiritual. Sem o toque espiritual, nada pode mover-se; portanto, tudo repousa na energia impessoal de Kṛṣṇa. A energia de Kṛṣṇa é impessoal, mas Ele é uma pessoa. Com frequência ouvimos falar de pessoas que realizam ações maravilhosas e, contudo, apesar de seus feitos enérgicos, continuam sendo pessoas. Se isto é possível para os seres humanos, por que não seria possível para o Senhor Supremo? Somos todos pessoas, mas todos dependemos de Kṛṣṇa, a Pessoa Suprema.\n\n\n\nMuitas vezes vimos imagens de Atlas, um homem robusto que carrega um grande planeta sobre os ombros e se esforça arduamente para sustentá-lo. Podemos pensar que, por estar mantendo o universo, Kṛṣṇa se esforça sob seu peso como Atlas. Mas este não é o caso.\n\n\n\nna ca mat-sthāni bhūtāni\n\npaśya me yogam aiśvaram\n\nbhūta-bhṛn na ca bhūta-stho\n\nmamātmā bhūta-bhāvanaḥ\n\n\n\n\"E, contudo, tudo o que é criado não repousa em Mim. Contempla Minha opulência mística. Embora Eu seja o mantenedor de todas as entidades vivas e embora esteja em toda parte, ainda assim Meu Eu é a própria fonte da criação.\" (Bg. 9.5)\n\n\n\nEmbora todos os seres do universo repousem na energia de Kṛṣṇa, ainda assim não estão Nele. Kṛṣṇa mantém todas as entidades vivas, e Sua energia é onipenetrante; contudo, Ele está em outro lugar. Este é o inconcebível poder místico de Kṛṣṇa. Ele está em toda parte, contudo permanece distante de tudo. Podemos perceber Sua energia, mas não podemos vê-Lo, pois Ele não pode ser visto com olhos materiais. No entanto, quando desenvolvemos nossas qualidades espirituais, santificamos nossos sentidos de modo que, mesmo dentro dessa energia, possamos vê-Lo. A eletricidade, por exemplo, está em toda parte, e um eletricista é capaz de utilizá-la. De modo semelhante, a energia do Senhor Supremo está em toda parte, e, quando nos situamos transcendentalmente, podemos ver Deus face a face em toda parte. Essa espiritualização dos sentidos torna-se possível pelo serviço devocional e pelo amor a Deus. O Senhor é onipenetrante por todo o universo e está dentro da alma, do coração, da água, do ar — em toda parte. Assim, se fazemos uma imagem de Deus em qualquer coisa — argila, pedra, madeira ou o que seja —, ela não deve ser considerada apenas um boneco. Aquilo também é Deus. Se tivermos devoção suficiente, a imagem também nos falará. Deus está em toda parte de modo impessoal (mayā tatam idaṁ sarvam), mas, se fazemos Sua forma pessoal de qualquer coisa, ou se criamos uma imagem de Deus dentro de nós mesmos, Ele estará pessoalmente presente para nós. Nos śāstras, recomendam-se oito espécies de imagens, e qualquer espécie de imagem pode ser adorada, porque Deus está em toda parte. Pode-se protestar e perguntar: \"Por que Deus deve ser adorado em imagens, e não em Sua forma espiritual original?\" A resposta é que não podemos ver Deus de imediato em Sua forma espiritual. Com nossos olhos materiais, só podemos ver pedra, terra, madeira — algo tangível. Por isso, Kṛṣṇa vem como arcā-vigraha, uma forma convenientemente apresentada pelo Senhor Supremo para que possamos vê-Lo. O resultado é que, se nos concentramos na imagem e fazemos oferendas com amor e devoção, Kṛṣṇa responderá através da imagem.\n\n\n\nHá muitos casos disso. Na Índia, há um templo chamado Sākṣi-Gopāla (Kṛṣṇa é frequentemente chamado Gopāla). O Gopāla mūrti, ou estátua, esteve certa vez situado num templo em Vṛndāvana. Certa ocasião, dois brāhmaṇas, um velho e um jovem, foram visitar Vṛndāvana em peregrinação. Era uma longa viagem e, naqueles dias, não havia ferrovias, de modo que os viajantes passavam por muitas dificuldades. O velho ficou muito grato ao jovem por ajudá-lo na jornada e, ao chegar a Vṛndāvana, disse-lhe: \"Meu querido rapaz, prestaste-me tanto serviço, e fico muito grato. Gostaria muito de retribuir esse serviço e dar-te alguma recompensa.\"\n\n\n\n\"Meu querido senhor\", disse o jovem, \"és um homem idoso, tal como meu pai. É meu dever servir-te. Não exijo nenhuma recompensa.\"\n\n\n\n\"Não, sou-te grato e devo recompensar-te\", insistiu o velho. Em seguida, prometeu dar a mão de sua jovem filha em casamento ao jovem.\n\n\n\nO velho era homem muito rico, e o jovem, embora brāhmaṇa erudito, era muito pobre. Considerando isto, o jovem disse: \"Não prometas isso, pois tua família jamais concordará. Sou tão pobre, e tu és aristocrata, de modo que este casamento não se realizará. Não prometas dessa maneira diante da Deidade.\"\n\n\n\nA conversa acontecia no templo diante da Deidade de Gopāla Kṛṣṇa, e o jovem estava ansioso por não ofender a Deidade. Contudo, apesar das súplicas do jovem, o velho insistiu no casamento. Após permanecerem em Vṛndāvana por algum tempo, finalmente regressaram para casa, e o velho informou ao seu filho mais velho que sua jovem irmã se casaria com o pobre jovem brāhmaṇa. O filho mais velho ficou muito furioso. \"Oh, como escolheste aquele indigente como marido para minha irmã? Isto não pode ser.\"\n\n\n\nA esposa do velho também se dirigiu a ele e disse: \"Se casares nossa filha com aquele rapaz, cometerei suicídio.\"\n\n\n\nO velho ficou, assim, perplexo. Algum tempo depois, o jovem brāhmaṇa tornou-se muito ansioso. \"Ele prometeu casar sua filha comigo, e fez essa promessa diante da Deidade. Agora não vem cumpri-la.\" Dirigiu-se então ao velho para lembrá-lo de sua promessa.\n\n\n\n\"Prometeste diante do Senhor Kṛṣṇa\", disse o jovem, \"e não estás cumprindo essa promessa. Como pode ser?\"\n\n\n\nO velho ficou em silêncio. Começou a orar a Kṛṣṇa, pois estava perplexo. Não queria casar sua filha com o jovem e causar tamanho transtorno em sua família. Nesse meio-tempo, o filho mais velho saiu e começou a acusar o jovem brāhmaṇa. \"Saqueaste meu pai no lugar de peregrinação. Deste-lhe algum intoxicante e tomaste todo o seu dinheiro, e agora dizes que ele prometeu oferecer-te minha irmã mais nova. Patife!\"\n\n\n\nDessa maneira, houve muito alvoroço, e as pessoas começaram a aglomerar-se. O jovem pôde compreender que o velho ainda concordava, mas que a família lhe criava dificuldades. As pessoas começaram a reunir-se por causa do alvoroço que o filho mais velho fazia, e o jovem brāhmaṇa pôs-se a exclamar para elas que o velho fizera essa promessa diante das Deidades, mas que não podia cumpri-la porque a família se opunha. O filho mais velho, que era ateu, interrompeu de súbito o jovem e disse: \"Dizes que o Senhor era testemunha. Pois bem, se Ele vier e testemunhar esta promessa de meu pai, poderás ter minha irmã em casamento.\"\n\n\n\nO jovem respondeu: \"Sim, pedirei a Kṛṣṇa que venha como testemunha.\" Estava confiante de que Deus viria. Fez-se então um acordo diante de todos: a moça seria dada em casamento se Kṛṣṇa viesse de Vṛndāvana como testemunha da promessa do velho.\n\n\n\nO jovem brāhmaṇa regressou a Vṛndāvana e começou a orar a Gopāla Kṛṣṇa: \"Querido Senhor, deves vir comigo.\" Era um devoto tão firme que falava com Kṛṣṇa como se falaria com um amigo. Não pensava que o Gopāla fosse uma mera estátua ou imagem, mas O considerava o próprio Deus. De repente, a Deidade falou-lhe:\n\n\n\n\"Como pensas que posso ir contigo? Sou uma estátua. Não posso ir a parte alguma.\"\n\n\n\n\"Bem, se uma estátua pode falar, também pode caminhar\", respondeu o rapaz.\n\n\n\n\"Está bem, então\", disse a Deidade por fim. \"Irei contigo, mas com uma condição. Em nenhum caso deves olhar para trás a fim de Me ver. Eu te seguirei, e saberás que estou seguindo pelo tilintar dos guizos de Minhas pernas.\"\n\n\n\nO jovem concordou e, dessa maneira, deixaram Vṛndāvana para ir à outra cidade. Quando a viagem estava quase no fim, justamente quando estavam prestes a entrar em sua vila natal, o jovem já não conseguia ouvir o som dos guizos e começou a temer. \"Oh, onde está Kṛṣṇa?\" Incapaz de conter-se por mais tempo, olhou para trás. Viu a estátua imóvel. Por ter olhado para trás, ela não iria adiante. Imediatamente correu para a cidade e disse às pessoas que viessem ver Kṛṣṇa, que viera como testemunha. Todos ficaram atônitos por uma estátua tão grande ter vindo de tão longe e construíram um templo no local em honra à Deidade; e hoje as pessoas ainda adoram Sākṣi-Gopāla, o Senhor como testemunha.\n\n\n\nDevemos, portanto, concluir que, porque Deus está em toda parte, Ele também está em Sua estátua, na imagem feita Dele. Se Kṛṣṇa está em toda parte, como até os impersonalistas admitem, por que não estaria em Sua imagem? Que uma imagem ou estátua nos fale ou não depende do grau de nossa devoção. Mas, se optamos por ver a imagem meramente como um pedaço de madeira ou pedra, Kṛṣṇa sempre permanecerá madeira ou pedra para nós. Kṛṣṇa está em toda parte, mas, à medida que avançamos em consciência espiritual, podemos começar a vê-Lo como Ele é. Se colocamos uma carta numa caixa de correio, ela chegará a seu destino, porque a caixa de correio é autorizada. De modo semelhante, se adoramos uma imagem autorizada de Deus, nossa fé terá algum efeito. Se estivermos preparados para seguir as várias regras e regulamentos — isto é, se nos qualificarmos —, será possível ver Deus em qualquer lugar e em toda parte. Quando um devoto está presente, Kṛṣṇa, por Suas energias onipresentes, manifestar-Se-á em qualquer lugar e em toda parte; mas, quando Seu devoto não está ali, Ele não fará isto. Há muitos casos disso. Prahlāda Mahārāja viu Kṛṣṇa num pilar. Há muitos outros exemplos. Kṛṣṇa está ali; tudo o que se requer é nossa qualificação para vê-Lo.\n\n\n\nO próprio Kṛṣṇa dá um exemplo de Sua onipresença desta forma:\n\n\n\nyathākāśa sthito nityaṁ\n\nvāyuḥ sarvatra-go mahān\n\ntathā sarvāṇi bhūtāni\n\nmat-sthānīty upadhāraya\n\n\n\n\"Assim como o poderoso vento, que sopra em toda parte, sempre repousa no espaço etéreo, sabe que, da mesma maneira, todos os seres repousam em Mim.\" (Bg. 9.6)\n\n\n\nTodos sabem que o vento sopra no espaço, e na terra ele sopra em toda parte. Não há lugar onde não haja ar ou vento. Se desejamos expulsar o ar, temos de criar um vácuo artificialmente por meio de alguma máquina. Assim como o ar sopra em toda parte no espaço, da mesma forma tudo existe dentro de Kṛṣṇa. Sendo este o caso, quando a criação material se dissolve, para onde vai?\n\n\n\nsarva-bhūtāni kaunteya\n\nprakṛtiṁ yānti māmikām\n\nkalpa-kṣaye punas tāni\n\nkalpādau visṛjāmy aham\n\n\n\n\"Ó filho de Kuntī, ao final do milênio, toda manifestação material entra em Minha natureza, e no princípio de outro milênio, por Minha potência, Eu novamente crio.\" (Bg. 9.7)\n\n\n\nKṛṣṇa põe Sua natureza (prakṛti) em movimento, tal como se dá corda num relógio, e, quando a natureza se descarrega, ela é absorvida no Senhor. A criação espiritual, contudo, não é assim, pois é permanente. Na criação material, tudo é temporário. Assim como nossos corpos se desenvolvem graças à centelha espiritual que está dentro deles, toda a criação vem à existência, desenvolve-se e sai da existência graças ao espírito do Senhor que está dentro dela. Assim como nosso espírito está presente dentro do corpo, o Senhor está presente dentro do universo como Paramātmā. Devido à presença de Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, a criação material existe, assim como, devido à nossa presença, nossos corpos existem. Às vezes, Kṛṣṇa manifesta a criação material, e às vezes não. Em todos os casos, sua existência se deve à presença Dele."}
{"ref": "rv/4", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/4/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "4. Conhecimento por Meio dos Mahātmās, as Grandes Almas", "purport": "A presença de Kṛṣṇa em todos os aspectos da criação é percebida pelos mahātmās, as grandes almas, que estão sempre ocupados na adoração a Kṛṣṇa. Como o próprio Kṛṣṇa afirma, estas grandes almas estão familiarizadas com o conhecimento confidencial encontrado no Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā*, e sabem que Kṛṣṇa é a fonte de todas as coisas.\n\n\n\nmahātmānas tu māṁ pārtha\n\ndaivīṁ prakṛtim āśritāḥ\n\nbhajanty ananya-manaso\n\njñātvā bhūtādim avyayam\n\n\n\n\"Ó filho de Pṛthā, aqueles que não estão iludidos, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Ocupam-se plenamente em serviço devocional porque Me conhecem como a Suprema Personalidade de Deus, original e inexaurível.\" (Bg. 9.13)\n\n\n\nA grande alma sabe, sem dúvida, que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus e que Ele é a origem de todas as emanações. O *Vedānta-sūtra* afirma: athāto brahma jijñāsā — a vida humana destina-se a indagar sobre o Brahman. No presente, todos nós estamos ocupados em estudar coisas temporárias e pequenas. Brahman significa o maior, mas, em vez de nos preocuparmos com o maior, ficamos enredados na tentativa de solucionar os problemas animais de comer, dormir, defender-se e acasalar-se. Estes pequenos problemas resolvem-se automaticamente. Até os animais desfrutam do acasalamento, do sono, da alimentação e da defesa. As providências estão todas tomadas. Estas exigências do corpo não são, na verdade, problemas, mas nós as transformamos em problemas. O *Vedānta-sūtra* nos exorta a não nos preocuparmos com estes problemas, pois eles se satisfazem em qualquer forma de vida. Nosso problema é indagar sobre a fonte de todas estas manifestações. A forma de vida humana não se destina a lutar arduamente para solucionar os problemas materiais que até um porco, comedor de excremento, pode solucionar. O porco é considerado o mais baixo entre os animais e, contudo, tem facilidade para comer, para acasalar-se, para dormir e facilidades para defender-se. Mesmo que não nos esforcemos por estas coisas, nós as teremos. O homem destina-se, antes, a descobrir a fonte da qual todas estas coisas provêm. O *Vedānta-sūtra* afirma que o Brahman é aquilo do qual tudo emana (janmādy asya yataḥ [SB 1.1.1]). Filósofos, cientistas, yogīs, jñānīs e transcendentalistas estão todos tentando descobrir a fonte última de tudo. Esta fonte é dada no Brahma-saṁhitā, sarva-kāraṇa-kāraṇam: [Bs. 5.1] Kṛṣṇa é a causa de todas as causas.\n\n\n\nCompreendendo que Kṛṣṇa é a fonte primordial de tudo, como agem as grandes almas? O próprio Kṛṣṇa as caracteriza desta maneira:\n\n\n\nsatataṁ kīrtayanto māṁ\n\nyatantaś ca dṛḍha-vratāḥ\n\nnamasyantaś ca māṁ bhaktyā\n\nnitya-yuktā upāsate\n\n\n\n\"Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com grande determinação, prostrando-se diante de Mim, estas grandes almas perpetuamente Me adoram com devoção.\" (Bg. 9.14)\n\n\n\nEssa glorificação é este processo de bhakti-yoga, o canto de Hare Kṛṣṇa. As grandes almas, compreendendo a natureza de Deus, Sua descida e Sua missão, glorificam-No de tantas maneiras; mas há outros que não O aceitam. Kṛṣṇa também os menciona no Nono Capítulo:\n\n\n\navajānanti māṁ mūḍhā\n\nmānuṣīṁ tanum āśritam\n\nparaṁ bhāvam ajānanto\n\nmama bhūta-maheśvaram\n\n\n\n\"Os tolos zombam de Mim quando desço sob a forma humana. Não conhecem Minha natureza transcendental e Meu domínio supremo sobre tudo o que existe.\" (Bg. 9.11)\n\n\n\nOs mūḍhas, ou homens tolos, que são inferiores aos animais, zombam Dele. Qualquer pessoa que não acredita em Deus há de ser um louco ou tolo número um. Não há razão para não acreditar em Deus, e há toda razão para acreditar Nele. O homem pode dizer que não acredita em Deus, mas quem lhe dá o poder de dizer isto? Quando a morte chega, este poder de falar cessa — quem está, então, concedendo o poder da fala? Será que o poder da fala veio automaticamente da pedra? Assim que o poder da fala é retirado pela Autoridade Suprema, o corpo não é melhor que a pedra. O próprio poder da fala é prova de que há um Poder Supremo que nos dá tudo. A pessoa consciente de Kṛṣṇa sabe que tudo o que possui não está sob seu controle. Se não acreditamos em Deus, devemos acreditar em algum poder, além de nós, que nos controla a cada passo — chamemos esse poder de Deus, natureza ou o que quisermos. Há um poder controlador no universo, e nenhum homem são pode negá-lo.\n\n\n\nKṛṣṇa esteve presente nesta terra e apareceu tal como um ser humano, com poder sobrenatural. Naquela época, contudo, noventa e nove por cento das pessoas não conseguiram reconhecê-Lo como Deus. Não conseguiram reconhecê-Lo porque não tinham olhos para ver (paraṁ bhāvam ajānantaḥ). Como é possível reconhecer Deus? Ele pode ser reconhecido pelo poder sobrenatural, pela evidência das autoridades e pela evidência das escrituras. No que se refere a Kṛṣṇa, toda autoridade Védica O aceitou como Deus. Quando esteve presente na terra, as atividades que demonstrou foram sobre-humanas. Se a pessoa não acredita nisto, deve-se concluir que ela não acreditará em qualquer evidência que se apresente.\n\n\n\nÉ preciso ter também os olhos para ver Deus. Deus não pode ser visto pelos sentidos materiais; portanto, o processo de bhakti-yoga é o processo de purificar os sentidos para que sejamos capazes de compreender o que e quem é Deus. Temos o poder de ver, ouvir, tocar, saborear e assim por diante, mas, se esses sentidos estão embotados, não podemos compreender Deus. O processo da consciência de Kṛṣṇa é o processo de treinar estes sentidos por meio de princípios regulados, especificamente através do canto de Hare Kṛṣṇa.\n\n\n\nŚrī Kṛṣṇa caracteriza ainda os mūḍhas:\n\n\n\nmoghāśā mogha-karmāṇo\n\nmogha-jñānā vicetasaḥ\n\nrākṣasīm āsurīṁ caiva\n\nprakṛtiṁ mohinīṁ śritāḥ\n\n\n\n\"Aqueles que assim estão desorientados são atraídos por opiniões demoníacas e ateístas. Nessa condição iludida, suas esperanças de liberação, suas atividades fruitivas e seu cultivo do conhecimento são todos derrotados.\" (Bg. 9.12)\n\n\n\nA palavra moghāśā indica que as aspirações dos ateus serão frustradas. Os karmīs, ou trabalhadores fruitivos, sempre esperam algo melhor para gratificar seus sentidos. Não há limite para onde irão parar. Tentam aumentar seu saldo bancário e esperam ser felizes em certo ponto, mas esse ponto nunca chega, porque não conhecem o ponto último de saciedade. Aqueles que estão enamorados pelas atrações da energia ilusória não podem compreender o objetivo último da vida. A palavra mogha-karmāṇaḥ indica que estão trabalhando arduamente, mas que, no fim, só encontrarão frustração. A menos que estejamos estabelecidos em consciência de Kṛṣṇa, todas as nossas atividades serão frustradas ao final.\n\n\n\nEste não é o veredito de um homem comum, mas do próprio Śrī Kṛṣṇa. Se estamos buscando conhecimento, devemos realizar pesquisa para descobrir se acaso Kṛṣṇa não é Deus. Sem nenhum objetivo, qual é o sentido de milhares de anos de especulação? O Senhor Supremo é tão vasto que não se pode alcançá-Lo pela especulação mental. Se viajássemos à velocidade da mente e do vento por milhões de anos, não seria possível alcançar o Supremo pela especulação. Não há um único caso em que alguém tenha chegado à Suprema Verdade Absoluta por meio de sua própria especulação mental. Por isso, a palavra mogha-jñānāḥ indica que o processo do conhecimento mundano é desconcertante. Por meio de nosso próprio esforço, não é possível ver o sol depois que ele se põe. Temos de esperar até que o sol se revele de manhã, ao nascer do dia. Se não é possível, com nossos sentidos limitados, perceber uma coisa material como o sol, como será possível perceber o não material? Não podemos descobrir ou compreender Kṛṣṇa por nosso próprio esforço. Temos de nos qualificar por meio da consciência de Kṛṣṇa e esperar que Ele Se revele.\n\n\n\nteṣāṁ satata-yuktānāṁ\n\nbhajatāṁ prīti-pūrvakam\n\ndadāmi buddhi-yogaṁ taṁ\n\nyena mām upayānti te\n\n\n\n\"Àqueles que estão constantemente devotados e Me adoram com amor, dou a compreensão pela qual podem vir a Mim.\" (Bg. 10.10)\n\n\n\nKṛṣṇa está por dentro, mas, devido ao nosso condicionamento material, não O percebemos. Aqueles que são da natureza de demônios e de seres infernais (rākṣasīm āsurīm) pensam que esta vida material é tudo e que o propósito da vida humana é espremer da matéria o máximo de prazer possível. Tentam espremer, mas estão constantemente frustrados. Espremer a natureza material não é o processo para descobrir o verdadeiro prazer. Se estamos em busca do verdadeiro prazer, temos de adotar a consciência de Kṛṣṇa. Toda felicidade no mundo material tem começo e fim, mas a felicidade em Kṛṣṇa é ilimitada e não tem fim. Para obter esta felicidade, basta sacrificarmos um pouco de tempo e cantar Hare Kṛṣṇa. Em eras passadas, os grandes sábios e semideuses costumavam sacrificar a vida inteira para perceber o Supremo, e mesmo assim não alcançavam o êxito. Para esta era, Caitanya Mahāprabhu deu um processo fácil para a percepção de Deus. Tudo o que é necessário é a escuta cuidadosa. Temos de ouvir o *Bhagavad-gītā*, e temos de cantar os nomes de Kṛṣṇa e ouvi-los com cuidado. Não devemos ser convencidos, pensando falsamente que nosso conhecimento é grande ou que somos muito eruditos. Precisamos apenas tornar-nos um pouco gentis e submissos para ouvir as mensagens de Kṛṣṇa.\n\n\n\nAtualmente, este mundo é administrado pelos rākṣasas. Os rākṣasas são comedores de homens que devoram seus próprios filhos para a satisfação de seus sentidos. Hoje, grandes regimes foram criados para esmagar incontáveis pessoas em prol da satisfação dos sentidos dos rākṣasas, mas eles não percebem que seus sentidos jamais serão satisfeitos dessa maneira. Não obstante, os rākṣasas estão preparados para sacrificar tudo a fim de satisfazer seus desejos caprichosos. É muito difícil para eles compreenderem a verdadeira situação, porque estão demasiadamente enamorados pela civilização material. Quem, então, pode compreender? Aqueles que são mahātmās, cujos corações se tornaram magnificados, compreendem que \"tudo pertence a Deus, e eu também pertenço a Deus\".\n\n\n\nTais mahātmās não estão sob o controle da natureza material (mahātmānas tu māṁ pārtha daivīṁ prakṛtim āśritāḥ [Bg. 9.13]). Deus é grande, e o coração do mahātmā também se torna grande por servir o grande. Mahātmā não é um selo para um líder político. Não se pode ser carimbado como mahātmā por meio de votos. O critério para mahātmā é dado no *Bhagavad-gītā*: o mahātmā é aquele que se abrigou na energia superior do Senhor. É claro que todas as energias são Dele, e Ele não faz distinções entre energia espiritual e energia material; mas, para a alma condicionada, situada marginalmente entre a energia material e a energia espiritual, há uma distinção. Os mahātmās veem esta distinção e, assim, abrigam-se sob a energia espiritual (daivīṁ prakṛtim).\n\n\n\nServindo o grande, os mahātmās também se tornam grandes ao identificar-se com a energia superior: (ahaṁ brahmāsmi) \"Eu sou Brahman — espírito\". Não é que se tornem convencidos e pensem que são Deus. Antes, se a pessoa se torna Brahman, deve manifestar suas atividades em Brahman. O espírito é ativo, e tornar-se Brahman não é tornar-se inativo. O Brahman é espírito, e estes corpos materiais são ativos somente porque o Brahman está dentro deles. Se somos ativos apesar de nosso contato com a natureza material, deixamos de ser ativos quando nos purificamos da contaminação material e nos estabelecemos em nossa identidade própria como Brahman puro? Perceber \"Eu sou Brahman\" significa ocupar-se em atividade espiritual, pois somos espírito, e nossas atividades se manifestam mesmo quando estamos contaminados pela matéria. Tornar-se Brahman não significa tornar-se vazio, mas estabelecer-se na natureza superior, o que significa energia superior e atividades superiores. Tornar-se Brahman significa ocupar-se completamente em prestar serviço devocional ao Senhor. Assim, o mahātmā compreende que, se o serviço deve ser prestado, deve sê-lo a Kṛṣṇa e a ninguém mais. Há tanto tempo servimos nossos sentidos; agora devemos servir Kṛṣṇa.\n\n\n\nNão há possibilidade de cessar o serviço, pois fomos feitos para o serviço. Há alguém que não sirva? Se perguntarmos ao Presidente: \"A quem estás servindo?\", ele nos dirá que serve o país. Ninguém está desprovido de serviço. O serviço não podemos cessar, mas temos de redirecionar nosso serviço da ilusão para a realidade. Quando isto se faz, tornamo-nos mahātmā.\n\n\n\nEste processo de kīrtana (kīrtayantaḥ), sempre cantar as glórias do Senhor, é o início do mahātmā. Esse processo é simplificado pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu, que transmitiu à humanidade este canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Há nove diferentes processos de serviço devocional, dos quais śravaṇaṁ kīrtanam, ouvir e cantar, são os mais importantes. Kīrtanam significa, na verdade, \"descrever\". Podemos descrever com música, palavras, imagens etc. Śravaṇam anda de mãos dadas com kīrtanam, pois, a menos que ouçamos, não podemos descrever. Não precisamos de qualquer qualificação material para alcançar o Supremo. Tudo o que temos de fazer é ouvir de fontes autoritativas e repetir com exatidão o que ouvimos.\n\n\n\nAntigamente, os *Vedas* eram ouvidos pelo estudante a partir do mestre espiritual e, assim, os *Vedas* tornaram-se conhecidos como śruti, que significa \"aquilo que é ouvido\". No *Bhagavad-gītā*, por exemplo, vemos que Arjuna está ouvindo Kṛṣṇa no campo de batalha. Ele não está ocupado no estudo da filosofia Vedānta. Podemos ouvir da Autoridade Suprema em qualquer lugar, mesmo no campo de batalha. O conhecimento é recebido, não fabricado. Algumas pessoas pensam: \"Por que eu deveria ouvi-Lo? Posso pensar por mim mesmo. Posso fabricar algo novo.\" Este não é o processo Védico do conhecimento descendente. Pelo conhecimento ascendente, a pessoa tenta elevar-se por seu próprio esforço; mas, pelo conhecimento descendente, recebe-se o conhecimento de uma fonte superior. Na tradição Védica, o conhecimento é transmitido ao estudante pelo mestre espiritual, como no *Bhagavad-gītā* (evaṁ paramparā-prāptam imaṁ rājarṣayo viduḥ [Bg. 4.2]). A escuta submissa é tão poderosa que, simplesmente por ouvir de fontes autoritativas, podemos tornar-nos completamente perfeitos. Ao tornar-nos submissos, ficamos cientes de nossas próprias imperfeições. Enquanto estivermos condicionados, estaremos sujeitos a quatro espécies de imperfeições: estamos fadados a cometer enganos, a iludir-nos, a ter sentidos imperfeitos e a trapacear. Por isso, nossa tentativa de compreender a Verdade Absoluta por nossos sentidos defeituosos e por nossa experiência é fútil. Devemos ouvir de um representante de Kṛṣṇa que seja devoto de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa fez de Arjuna Seu representante porque Arjuna era Seu devoto: bhakto 'si me sakhā ceti. (Bg. 4.3)\n\n\n\nNinguém pode tornar-se representante de Deus sem ser devoto de Deus. Aquele que pensa \"Eu sou Deus\" não pode ser representante. Como somos parte integrante de Deus, nossas qualidades são as mesmas que as Dele; por isso, se estudarmos estas qualidades em nós mesmos, viremos a aprender algo de Deus. Isto não significa que compreendamos a quantidade de Deus. Este processo de autorrealização é uma maneira de compreender Deus, mas, de modo algum, podemos pregar: \"Eu sou Deus.\" Não podemos afirmar ser Deus sem podermos manifestar os poderes de Deus. No que se refere a Kṛṣṇa, Ele provou que era Deus ao manifestar tanto poder e ao revelar Sua forma universal a Arjuna. Kṛṣṇa mostrou esta forma imponente a fim de desencorajar as pessoas que pretendessem ser Deus. Não devemos ser enganados por alguém que afirma ser Deus; seguindo os passos de Arjuna, devemos pedir para ver a forma universal antes de aceitar alguém como Deus. Somente um tolo aceitaria outro tolo como Deus.\n\n\n\nNinguém pode ser igual a Deus, e ninguém pode estar acima Dele. Mesmo o Senhor Brahmā e o Senhor Śiva, os semideuses mais exaltados, são subservientes a Ele e Lhe prestam suas respeitosas reverências. Em vez de tentar tornar-se Deus por algum processo meditacional ou outro, faríamos melhor em ouvir submissamente sobre Deus e procurar compreendê-Lo, bem como nossa relação com Ele. O representante de Deus ou a encarnação de Deus nunca afirma ser Deus, mas o servo de Deus. Este é o sinal do representante genuíno.\n\n\n\nTudo o que aprendemos de Deus a partir de fontes autoritativas pode ser descrito, e isto nos ajudará a fazer progresso espiritual. Esta descrição chama-se kīrtana. Se tentamos repetir o que ouvimos, ficamos estabelecidos em conhecimento. Pelo processo de śravaṇaṁ kīrtanam, ouvir e cantar, podemos libertar-nos do condicionamento material e atingir o reino de Deus. Nesta era, é impossível praticar sacrifício, especulação ou yoga. Não há caminho aberto a nós senão o caminho de ouvir submissamente de fontes autoritativas. Esta é a maneira como os mahātmās receberam o conhecimento mais confidencial. É a maneira como Arjuna o recebeu de Kṛṣṇa, e é a maneira como devemos recebê-lo da sucessão discipular que tem início em Arjuna."}
{"ref": "rv/5", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/5/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "5. Paramparā: Conhecimento Através da Sucessão Discipular", "purport": "śrī bhagavān uvāca\n\nimaṁ vivasvate yogaṁ\n\nproktavān aham avyayam\n\nvivasvān manave prāha\n\nmanur ikṣvākave 'bravīt\n\n\n\n\"O Senhor Abençoado disse: Instruí esta ciência imperecível do yoga ao deus do sol, Vivasvān, e Vivasvān instruiu-a a Manu, o pai da humanidade, e Manu, por sua vez, instruiu-a a Ikṣvāku.\" (Bg. 4.1)\n\n\n\nMuitas eras atrás, Kṛṣṇa transmitiu o conhecimento divino do *Bhagavad-gītā* a Vivasvān, o deus do sol. Pelo que sabemos, o sol é um lugar muito quente, e não consideramos possível que alguém viva lá. Não é sequer possível aproximar-se muito do sol com estes corpos. Contudo, pelas literaturas Védicas podemos compreender que o sol é um planeta como este, mas que tudo lá é composto de fogo. Assim como este planeta é predominantemente composto de terra, há outros planetas que são predominantemente compostos de fogo, água e ar.\n\n\n\nAs entidades vivas nestes vários planetas adquirem corpos compostos de elementos de acordo com o elemento predominante no planeta; portanto, aqueles seres que vivem no sol têm corpos compostos de fogo. De todos os seres no sol, a personalidade principal é um deus chamado Vivasvān. Ele é conhecido como o deus do sol (sūrya-nārāyaṇa). Em todos os planetas, há personalidades principais, assim como, nos Estados Unidos, o chefe é o Presidente. Pela história chamada *Mahābhārata*, compreendemos que outrora havia apenas um rei neste planeta, chamado Mahārāja Bharata. Ele governou há cerca de 5.000 anos, e o planeta recebeu seu nome em homenagem a ele. Subsequentemente, a terra dividiu-se em tantos países diferentes. Dessa maneira, há geralmente um e, às vezes, muitos controladores dos vários planetas no universo.\n\n\n\nDeste primeiro verso do Quarto Capítulo aprendemos que, há milhões de anos, Śrī Kṛṣṇa transmitiu o conhecimento do karma-yoga ao deus do sol Vivasvān. Śrī Kṛṣṇa, que transmite os ensinamentos do *Bhagavad-gītā* a Arjuna, indica aqui que estes ensinamentos não são nada novos, mas foram enunciados há muitas eras num planeta diferente. Vivasvān, por sua vez, repetiu estes ensinamentos a seu filho, Manu. Por sua vez, Manu transmitiu o conhecimento a seu discípulo Ikṣvāku. Mahārāja Ikṣvāku foi um grande rei e antepassado do Senhor Rāmacandra. O ponto que aqui se enfatiza é que, se a pessoa quer aprender o *Bhagavad-gītā* e dele tirar proveito, há um processo para compreendê-lo, e esse processo é aqui descrito. Não é que Kṛṣṇa esteja falando o *Bhagavad-gītā* a Arjuna pela primeira vez. As autoridades Védicas estimam que o Senhor transmitiu estas instruções divinas a Vivasvān há cerca de 400 milhões de anos. Pelo *Mahābhārata*, compreendemos que o *Bhagavad-gītā* foi falado a Arjuna há cerca de 5.000 anos. Antes de Arjuna, os ensinamentos eram transmitidos pela sucessão discipular, mas, ao longo de tão grande período de tempo, eles se perderam.\n\n\n\nevaṁ paramparā-prāptam\n\nimaṁ rājarṣayo viduḥ\n\nsa kāleneha mahatā\n\nyogo naṣṭaḥ parantapa\n\n\n\nsa evāyaṁ mayā te 'dya\n\nyogaḥ proktaḥ purātanaḥ\n\nbhakto 'si me sakhā ceti\n\nrahasyaṁ hy etad uttamam\n\n[Bg. 4.3]\n\n\n\n\"Esta ciência suprema foi assim recebida através da cadeia da sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na desse modo. Mas, no curso do tempo, a sucessão foi rompida, e por isso a ciência tal como ela é parece ter-se perdido. Essa antiquíssima ciência da relação com o Supremo é hoje falada por Mim a ti, porque tu és Meu devoto e também Meu amigo; por isso podes compreender o mistério transcendental desta ciência.\" (Bg. 4.2–3)\n\n\n\nNo *Bhagavad-gītā*, delineiam-se vários sistemas de yoga — bhakti-yoga, karma-yoga, jñāna-yoga, haṭha-yoga — e por isso ele é aqui chamado de yoga. A palavra yoga significa \"ligar-se\", e a ideia é que, em yoga, ligamos nossa consciência a Deus. É um meio para reunir-nos com Deus ou restabelecer nossa relação com Ele. No curso do tempo, este yoga transmitido por Śrī Kṛṣṇa perdeu-se. Por que isto? Não havia sábios eruditos na época em que Śrī Kṛṣṇa falava a Arjuna? Não, havia muitos sábios presentes naquela ocasião. Por \"perdido\" quer-se dizer que o propósito do *Bhagavad-gītā* se perdeu. Os eruditos podem dar sua própria interpretação do *Bhagavad-gītā*, analisando-o segundo seus caprichos, mas isso não é o *Bhagavad-gītā*. Este é o ponto que Śrī Kṛṣṇa enfatiza, e um estudante do *Bhagavad-gītā* deve notá-lo. A pessoa pode ser um erudito muito bom do ponto de vista material, mas isto não a qualifica para comentar o *Bhagavad-gītā*. Para compreender o *Bhagavad-gītā*, temos de aceitar o princípio da sucessão discipular (paramparā). Devemos entrar no espírito do *Bhagavad-gītā* e não abordá-lo simplesmente do ponto de vista da erudição.\n\n\n\nDe todas as pessoas, por que Śrī Kṛṣṇa selecionou Arjuna como destinatário deste conhecimento? Arjuna não era de modo algum um grande erudito, nem era yogī, meditador ou homem santo. Era um guerreiro prestes a entrar em batalha. Havia muitos grandes sábios vivendo na época, e Śrī Kṛṣṇa poderia ter dado o *Bhagavad-gītā* a eles. A resposta é que, apesar de ser homem comum, Arjuna tinha uma grande qualificação: bhakto 'si me sakhā ceti — \"Tu és Meu devoto e Meu amigo.\" Esta era a qualificação excepcional de Arjuna, uma qualificação que os sábios não tinham. Arjuna sabia que Kṛṣṇa era a Suprema Personalidade de Deus e, por isso, rendeu-se a Ele, aceitando-O como seu mestre espiritual. A menos que se seja devoto do Senhor Kṛṣṇa, não se pode compreender o *Bhagavad-gītā*. Se a pessoa quer compreender o *Bhagavad-gītā*, não pode valer-se de outros métodos. Deve compreendê-lo conforme prescrito no próprio *Bhagavad-gītā*, compreendendo-o como Arjuna o compreendeu. Se desejamos compreender o *Bhagavad-gītā* de modo diferente, ou dar uma interpretação individual, isso pode ser uma exibição de nossa erudição, mas não é o *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nPela erudição, talvez sejamos capazes de fabricar alguma teoria do *Bhagavad-gītā*, assim como Mahātmā Gandhi fez quando interpretou o *Bhagavad-gītā* num esforço para sustentar sua teoria da não violência. Como é possível provar a não violência a partir do *Bhagavad-gītā*? O próprio tema do *Bhagavad-gītā* envolve a relutância de Arjuna em lutar e a indução de Kṛṣṇa para que ele matasse seus oponentes. De fato, Kṛṣṇa diz a Arjuna que a batalha já fora decidida pelo Supremo, que as pessoas reunidas no campo de batalha estavam predestinadas a jamais retornar. Era o programa de Kṛṣṇa que os guerreiros estivessem todos destinados a morrer, e Kṛṣṇa deu a Arjuna a oportunidade de receber o crédito por conquistá-los. Se a luta é proclamada uma necessidade no *Bhagavad-gītā*, como é possível provar a não violência a partir dele? Tais interpretações são tentativas de distorcer o *Bhagavad-gītā*. Assim que o *Gītā* é interpretado segundo o motivo de um indivíduo, o propósito se perde. Afirma-se que não podemos atingir a conclusão da literatura Védica pela força de nossa própria lógica ou de nosso raciocínio. Há muitas coisas que não se encaixam na jurisdição de nosso senso de lógica. No que se refere às escrituras, encontramos diferentes escrituras descrevendo a Verdade Absoluta de diferentes maneiras. Se analisarmos todas elas, haverá perplexidade. Há também muitos filósofos com diferentes opiniões, e estão sempre contradizendo uns aos outros. Se a verdade não pode ser compreendida pela leitura de várias escrituras, pelo raciocínio lógico ou pelas teorias filosóficas, então como pode ser alcançada? O fato é que a sabedoria da Verdade Absoluta é muito confidencial, mas, se seguirmos as autoridades, ela pode ser compreendida.\n\n\n\nNa Índia, há sucessões discipulares que vêm de Rāmānujācārya, Madhvācārya, Nimbārka, Viṣṇusvāmī e outros grandes sábios. As literaturas Védicas são compreendidas através dos mestres espirituais superiores. Arjuna compreendeu o *Bhagavad-gītā* de Kṛṣṇa, e, se desejamos compreendê-lo, temos de compreendê-lo a partir de Arjuna, não de qualquer outra fonte. Se temos algum conhecimento do *Bhagavad-gītā*, temos de ver como ele concorda com a compreensão de Arjuna. Se compreendemos o *Bhagavad-gītā* da mesma maneira que Arjuna o compreendeu, devemos saber que nossa compreensão é correta. Este deve ser o critério para o nosso estudo do *Bhagavad-gītā*. Se de fato queremos receber benefício do *Bhagavad-gītā*, temos de seguir este princípio. O *Bhagavad-gītā* não é um livro comum de conhecimento que possamos comprar no mercado, ler e meramente consultar um dicionário para compreender. Isto não é possível. Se fosse, Kṛṣṇa nunca teria dito a Arjuna que a ciência se perdera.\n\nNão é difícil compreender a necessidade de passar pela sucessão discipular para compreender o *Bhagavad-gītā*. Se desejamos ser advogados, engenheiros ou médicos, temos de receber conhecimento de advogados, engenheiros e médicos autorizados. Um novo advogado tem de tornar-se aprendiz de um advogado experiente, ou um jovem que estuda para ser médico tem de tornar-se interno e trabalhar com aqueles que já são profissionais licenciados. Nosso conhecimento de um assunto não pode ser aperfeiçoado a menos que o recebamos através de fontes autoritativas.\n\n\n\nHá dois processos para atingir o conhecimento — um é indutivo e o outro é dedutivo. O método dedutivo é considerado mais perfeito. Podemos tomar uma premissa tal como \"Todos os homens são mortais\", e ninguém precisa discutir como o homem é mortal. É geralmente aceito que este é o caso. A conclusão dedutiva é: \"O senhor Johnson é um homem; portanto, o senhor Johnson é mortal.\" Mas como se chega à premissa de que todos os homens são mortais? Os seguidores do método indutivo desejam chegar a esta premissa através de experimento e observações. Podemos, assim, estudar que este homem morreu e aquele homem morreu etc., e, depois de ver que tantos homens morreram, podemos concluir ou generalizar que todos os homens são mortais; mas há uma deficiência grave neste método indutivo, e é que nossa experiência é limitada. Talvez nunca tenhamos visto um homem que não seja mortal, mas estamos julgando isto com base em nossa experiência pessoal, que é finita. Nossos sentidos têm poder limitado, e há tantas deficiências em nosso estado condicional. O processo indutivo, em consequência, nem sempre é perfeito, ao passo que o processo dedutivo, a partir de uma fonte de conhecimento perfeito, é perfeito. O processo Védico é um processo desse tipo.\n\n\n\nEmbora a autoridade seja reconhecida, há muitas passagens no *Bhagavad-gītā* que parecem ser dogmáticas. Por exemplo, no Sétimo Capítulo, Śrī Kṛṣṇa diz:\n\n\n\nmattaḥ parataraṁ nānyat\n\nkiñcid asti dhanañjaya\n\nmayi sarvam idaṁ protaṁ\n\nsūtre maṇi-gaṇā iva\n\n\n\n\"Ó conquistador de riquezas (Arjuna), não há Verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, como pérolas enfiadas num fio.\" (Bg. 7.7)\n\n\n\nŚrī Kṛṣṇa está dizendo que não há autoridade maior do que Ele, e isto parece muito dogmático. Se eu dissesse: \"Não há ninguém maior do que eu\", as pessoas pensariam: \"Oh, Swāmījī é muito orgulhoso.\" Se um homem condicionado por tantas imperfeições diz que é o maior de todos, ele blasfema. Mas Kṛṣṇa pode dizer isto, pois podemos compreender pelas histórias que, mesmo enquanto esteve nesta terra, Ele era considerado a maior personalidade de Sua época. De fato, Ele era o maior em todos os campos de atividade.\n\n\n\nSegundo o sistema Védico, o conhecimento alcançado a partir da maior autoridade deve ser considerado perfeito. Segundo os *Vedas*, há três espécies de prova: pratyakṣa, anumāna e śabda. Uma é por percepção visual direta. Se uma pessoa está sentada diante de mim, posso vê-la sentada ali, e meu conhecimento de que ela está sentada ali é recebido através dos meus olhos. O segundo método, anumāna, é auditivo: podemos ouvir crianças brincando lá fora e, pelo ouvido, podemos conjecturar que estão lá. E o terceiro método é o método de tomar verdades de uma autoridade superior. Uma afirmação como \"O homem é mortal\" é aceita de autoridades superiores. Todos aceitam isto, mas ninguém experimentou que todos os homens são mortais. Por tradição, temos de aceitá-lo. Se alguém perguntar: \"Quem descobriu esta verdade primeiro? Foste tu quem a descobriu?\", é muito difícil responder. Tudo o que podemos dizer é que o conhecimento está descendo e que o aceitamos. Dos três métodos de adquirir conhecimento, os *Vedas* dizem que o terceiro método, o de receber conhecimento de autoridades superiores, é o mais perfeito. A percepção direta é sempre imperfeita, especialmente no estágio condicional da vida. Por percepção direta, podemos ver que o sol é como um disco, não maior que o prato no qual comemos. Pelos cientistas, contudo, viemos a compreender que o sol é muitos milhares de vezes maior do que a Terra. O que, então, devemos aceitar? Devemos aceitar a proclamação científica, a proclamação das autoridades, ou nossa própria experiência? Embora não possamos nós mesmos provar quão grande é o sol, aceitamos o veredito dos astrônomos. Dessa maneira, estamos aceitando as afirmações das autoridades em todos os campos de nossas atividades. Pelos jornais e pelo rádio, também compreendemos que tais e tais acontecimentos estão tendo lugar na China, na Índia e em outros lugares por todo o mundo. Não estamos experimentando estes acontecimentos diretamente, e não sabemos se de fato estão ocorrendo, mas aceitamos a autoridade dos jornais e do rádio. Não temos escolha senão acreditar em autoridades para obter conhecimento. E quando a autoridade é perfeita, nosso conhecimento é perfeito.\n\n\n\nSegundo as fontes Védicas, de todas as autoridades Kṛṣṇa é a maior e a mais perfeita (mattaḥ parataraṁ nānyat kiñcid asti dhanañjaya [Bg. 7.7]). Não somente Kṛṣṇa Se proclama a mais elevada autoridade, mas isto é também aceito por grandes sábios e eruditos do *Bhagavad-gītā*. Se não aceitamos Kṛṣṇa como autoridade e não tomamos Suas palavras tal como são, não podemos extrair benefício algum do *Bhagavad-gītā*. Não é dogmático; é um fato. Se estudarmos minuciosamente o que Kṛṣṇa diz, descobriremos que está certo. Mesmo eruditos como Śaṅkarācārya, que têm opiniões diferentes das da Personalidade de Deus, admitem que Kṛṣṇa é svayaṁ bhagavān — Kṛṣṇa é o Senhor Supremo.\n\n\n\nO conhecimento Védico não é uma descoberta recente. É todo conhecimento revelado antigo. Kṛṣṇa refere-Se a ele como purātanaḥ, que significa antigo. Kṛṣṇa diz que, milhões de anos antes, falou este yoga ao deus do sol, e não sabemos quantos milhões de anos antes disso Ele o falou a outra pessoa. Este conhecimento está sempre sendo repetido, assim como verão, outono, inverno e primavera se repetem a cada ano. Nosso acervo de conhecimento é muito pobre; sequer conhecemos a história deste planeta para além de 5.000 anos atrás, mas as literaturas Védicas nos dão histórias que se estendem por milhões de anos. Apenas porque não temos conhecimento do que aconteceu há 3.000 anos neste planeta, não podemos concluir que não havia história então. Naturalmente, pode-se contestar a validade histórica de Kṛṣṇa. Pode-se dizer que Kṛṣṇa, segundo o *Mahābhārata*, viveu há 5.000 anos e que, sendo este o caso, não há possibilidade de Ele ter falado o *Bhagavad-gītā* ao deus do sol tantos milhões de anos antes. Se eu dissesse que, há alguns milhões de anos, proferi um discurso no sol ao deus do sol, as pessoas diriam: \"Swāmījī está falando algum disparate.\" Mas este não é o caso com Kṛṣṇa, pois Ele é a Suprema Personalidade de Deus. Quer acreditemos que Kṛṣṇa falou o *Bhagavad-gītā* ao deus do sol, quer não, este fato está sendo aceito por Arjuna. Arjuna aceitou Kṛṣṇa como o Senhor Supremo e, por isso, sabia que era bastante possível que Kṛṣṇa houvesse falado a alguém milhões de anos antes. Embora Arjuna pessoalmente aceite as afirmações de Śrī Kṛṣṇa, a fim de esclarecer a situação para as pessoas que viessem depois dele, pergunta:\n\n\n\naparaṁ bhavato janma\n\nparaṁ janma vivasvataḥ\n\nkatham etad vijānīyāṁ\n\ntvam ādau proktavān iti\n\n\n\n\"O deus do sol Vivasvān é mais velho que Tu pelo nascimento. Como hei de compreender que, no princípio, Tu instruíste esta ciência a ele?\" (Bg. 4.4)\n\n\n\nNa verdade, esta é uma pergunta muito inteligente, e Kṛṣṇa a responde desta maneira:\n\n\n\nbahūni me vyatītāni\n\njanmāni tava cārjuna\n\ntāny ahaṁ veda sarvāṇi\n\nna tvaṁ vettha parantapa\n\n\n\n\"Muitos e muitos nascimentos passamos, tu e Eu. Posso lembrar-Me de todos eles, mas tu não podes, ó subjugador do inimigo!\" (Bg. 4.5)\n\n\n\nEmbora Kṛṣṇa seja Deus, Ele Se encarna muitas e muitas vezes. Arjuna, sendo uma entidade viva, também nasce muitas e muitas vezes. A diferença entre a Suprema Personalidade de Deus e uma entidade viva é, tāny ahaṁ veda sarvāṇi: Kṛṣṇa lembra-Se dos acontecimentos de Suas encarnações passadas, ao passo que a entidade viva não pode lembrar-se. Esta é uma das diferenças entre Deus e o homem. Deus é eterno, e nós também somos eternos, mas a diferença é que estamos sempre mudando de corpo. Na morte, esquecemos os acontecimentos de nossa vida; a morte significa esquecimento, é só isso. À noite, quando vamos dormir, esquecemos que somos marido de tal e tal esposa e pai de tais e tais filhos. Esquecemo-nos de nós mesmos no sono, mas, quando despertamos, lembramo-nos: \"Oh, sou fulano de tal, e devo fazer tal e tal coisa.\" É um fato que, em nossas vidas anteriores, tivemos outros corpos, com outras famílias, pais, mães e assim por diante, em outros países, mas esquecemos tudo isso. Podemos ter sido cães, gatos, homens ou deuses — o que quer que tenhamos sido, agora o esquecemos.\n\n\n\nApesar de todas essas mudanças, como entidades vivas, somos eternos. Assim como, em vidas anteriores, nos preparamos para este corpo, nesta vida estamos nos preparando para outro corpo. Obtemos nossos corpos segundo nosso karma, ou atividades. Aqueles que estão no modo da bondade são promovidos a planetas superiores, a um status superior de vida (Bg. 14.14). Aqueles que morrem no modo da paixão permanecem na terra, e aqueles que morrem no modo da ignorância podem cair nas espécies animais da vida ou podem ser transferidos a um planeta inferior (Bg. 14.15). Este é o processo que tem ocorrido, mas nós o esquecemos.\n\n\n\nCerta vez, Indra, o rei do céu, cometeu uma ofensa aos pés de seu mestre espiritual, e seu mestre espiritual o amaldiçoou a nascer como porco. Assim, o trono do reino celestial ficou vazio quando Indra veio à terra para tornar-se porco. Vendo a situação, Brahmā veio à terra e dirigiu-se ao porco: \"Meu querido senhor, tornaste-te um porco neste planeta terra. Vim libertar-te. Vem comigo de imediato.\" Mas o porco respondeu: \"Oh, não posso ir contigo. Tenho tantas responsabilidades — meus filhos, minha esposa e esta agradável sociedade de porcos.\" Embora Brahmā prometesse levá-lo de volta ao céu, Indra, sob a forma de porco, recusou. Isto se chama esquecimento. De modo semelhante, o Senhor Śrī Kṛṣṇa vem e nos diz: \"O que estás fazendo neste mundo material? Sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja [Bg. 18.66]. Vem a Mim, e Eu te darei toda proteção.\" Mas dizemos: \"Não acredito em Ti, Senhor. Tenho assuntos mais importantes aqui.\" Esta é a posição da alma condicionada — o esquecimento. Este esquecimento é rapidamente dissipado pela senda da sucessão discipular."}
{"ref": "rv/6", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/6/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "6. Conhecimento dos Aparecimentos e Atividades de Kṛṣṇa", "purport": "Há duas forças da natureza atuando em nós. Por uma, decidimos que, nesta vida, faremos avanço espiritual, mas, no momento seguinte, a outra força, māyā, ou energia ilusória, diz: \"Que é todo esse trabalho ao qual te submetes? Apenas desfruta esta vida e fica à vontade contigo mesmo.\" Esta tendência a cair no esquecimento é a diferença entre Deus e o homem. Arjuna é um companheiro e associado de Kṛṣṇa e, sempre que Kṛṣṇa aparece em qualquer planeta, Arjuna também nasce e aparece com Ele. Quando Kṛṣṇa falou o *Bhagavad-gītā* ao deus do sol, Arjuna também estava presente com Ele. Mas, sendo uma entidade viva finita, Arjuna não pôde lembrar-se. O esquecimento é a natureza da entidade viva. Não conseguimos sequer lembrar o que estávamos fazendo neste exato momento ontem ou há uma semana. Se não podemos lembrar-nos disto, como é possível lembrar-nos do que aconteceu em nossas vidas anteriores? Neste ponto, podemos perguntar como é que Kṛṣṇa pode lembrar-se e nós não, e a resposta é que Kṛṣṇa não muda Seu corpo.\n\n\n\najo 'pi sann avyayātmā\n\nbhūtānām īśvaro 'pi san\n\nprakṛtiṁ svām adhiṣṭhāya\n\nsambhavāmy ātma-māyayā\n\n\n\n\"Embora Eu seja não nascido e Meu corpo transcendental nunca se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todos os seres sencientes, ainda assim apareço em cada milênio em Minha forma transcendental original.\" (Bg. 4.6)\n\n\n\nA palavra ātma-māyayā significa que Kṛṣṇa desce tal como é. Ele não muda Seu corpo, mas nós, como almas condicionadas, mudamos os nossos, e, por causa disto, esquecemos. Kṛṣṇa conhece não somente o passado, o presente e o futuro de Suas atividades, mas também o passado, o presente e o futuro das atividades de todos.\n\n\n\nvedāhaṁ samatītāni\n\nvartamānāni cārjuna\n\nbhaviṣyāṇi ca bhūtāni\n\nmāṁ tu veda na kaścana\n\n\n\n\"Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, Eu sei tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está acontecendo no presente e tudo o que ainda está por vir. Também conheço todas as entidades vivas; mas a Mim ninguém conhece.\" (Bg. 7.26)\n\n\n\nNo *Śrīmad-Bhāgavatam* também encontramos que o Senhor Supremo é definido como aquele que sabe tudo. Este não é o caso nem mesmo das entidades vivas mais elevadas, como Brahmā e Śiva. Somente Viṣṇu ou Kṛṣṇa sabe tudo. Podemos também perguntar: se o Senhor não muda Seu corpo, por que vem como encarnação? Há muita divergência entre os filósofos quanto a esta pergunta. Alguns dizem que Kṛṣṇa assume um corpo material quando vem, mas este não é o caso. Se Ele assumisse um corpo material como o nosso, não poderia lembrar-Se, pois o esquecimento se deve ao corpo material. A conclusão verdadeira é que Ele não muda Seu corpo. Deus é chamado todo-poderoso e, no verso citado acima, Sua onipotência é explicada. Kṛṣṇa não tem nascimento e é eterno. De modo semelhante, a entidade viva não tem nascimento, e também é eterna. É somente o corpo com o qual a entidade viva se identifica que tem nascimento.\n\n\n\nNo início mesmo do *Bhagavad-gītā*, no Segundo Capítulo, Kṛṣṇa explica que aquilo que aceitamos como nascimento e morte se deve ao corpo, e que, assim que recobrarmos nosso corpo espiritual e sairmos da contaminação do nascimento e da morte, deveremos ser qualitativamente tão bons quanto Kṛṣṇa. Este é todo o processo da consciência de Kṛṣṇa — a revivificação de nosso corpo espiritual original sac-cid-ānanda. Esse corpo é eterno (sat), pleno de conhecimento (cit) e bem-aventurado (ānanda). Este corpo material não é nem sat, nem cit, nem ānanda. É perecível, ao passo que a pessoa que ocupa o corpo é imperecível. É também pleno de ignorância e, por ser ignorante e temporário, é pleno de miséria. Sentimos calor intenso ou frio intenso devido ao corpo material, mas, assim que revivificamos nosso corpo espiritual, tornamo-nos imunes às dualidades. Mesmo dentro dos corpos materiais, há yogīs que são impermeáveis a dualidades como o calor e o frio. À medida que começamos a fazer avanço espiritual no corpo material, começamos a assumir as qualidades de um corpo espiritual. Se pusermos ferro no fogo, ele se torna quente, depois fica em brasa e, finalmente, já não é ferro, mas fogo — tudo o que toca irrompe em chamas. À medida que avançamos em consciência de Kṛṣṇa, nosso corpo material será espiritualizado e não mais será afetado pela contaminação material.\n\n\n\nO nascimento de Kṛṣṇa, Seu aparecimento e Seu desaparecimento, são comparados ao aparecimento e desaparecimento do sol. De manhã, parece que o sol nasce do horizonte oriental, mas, na realidade, não é assim. O sol não está nascendo nem se pondo; está como está em sua posição. Todos os nasceres e poentes se devem à rotação da terra. De modo semelhante, nas literaturas Védicas há programações prescritas para o aparecimento e o desaparecimento de Śrī Kṛṣṇa. O nascer de Kṛṣṇa é tal como o do sol. O nascer e o pôr do sol estão ocorrendo a cada momento; em algum lugar do mundo, as pessoas estão testemunhando o nascer e o pôr do sol. Não é que, num ponto, Kṛṣṇa nasce e, em outro, Ele Se vai. Ele está sempre em algum lugar, mas parece vir e ir. Kṛṣṇa aparece e desaparece em muitos universos. Temos experiência apenas deste universo, mas, pelas literaturas Védicas, podemos compreender que este universo é apenas uma parte das infinitas manifestações do Senhor Supremo.\n\n\n\nEmbora Kṛṣṇa seja o Senhor Supremo e seja não nascido e imutável, Ele aparece em Sua natureza transcendental original. A palavra prakṛti significa \"natureza\". No Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā*, afirma-se que há muitos tipos de natureza. Estes têm sido categorizados em três tipos básicos. Há a natureza externa, a natureza interna e a natureza marginal. A natureza externa é a manifestação deste mundo material e, no Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā*, isto é descrito como aparā, ou natureza material. Quando Kṛṣṇa aparece, Ele aceita a natureza superior (prakṛtiṁ svām), não a natureza material inferior. Às vezes, o chefe de um Estado pode ir à casa da prisão a fim de inspecionar a prisão e ver os internos que ali estão, mas os prisioneiros estão em erro se pensarem: \"O chefe do Estado veio à prisão, portanto ele é prisioneiro como nós.\" Como se apontou antes, Śrī Kṛṣṇa afirma que os tolos zombam Dele quando Ele desce sob a forma humana (Bg. 9.11).\n\n\n\nKṛṣṇa, como o Senhor Supremo, pode vir aqui a qualquer momento, e não podemos objetar e dizer que Ele não pode vir. Ele é plenamente independente, e pode vir e desaparecer como Lhe apraz. Se o chefe de um Estado vai visitar uma prisão, não devemos supor que ele seja obrigado a fazê-lo. Kṛṣṇa vem com um propósito, e este é reclamar as almas condicionadas caídas. Não amamos Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa nos ama. Ele reivindica todos como Seus filhos.\n\n\n\nsarva-yoniṣu kaunteya\n\nmūrtayaḥ sambhavanti yāḥ\n\ntāsāṁ brahma mahad yonir\n\nahaṁ bīja-pradaḥ pitā\n\n\n\n\"Deve-se compreender que todas as espécies de vida, ó filho de Kuntī, são tornadas possíveis pelo nascimento nesta natureza material, e que Eu sou o Pai que dá a semente.\" (Bg. 14.4)\n\n\n\nO pai é sempre afetuoso para com o filho. O filho pode esquecer o pai, mas o pai nunca pode esquecer o filho. Kṛṣṇa vem ao universo material por Seu amor por nós, para libertar-nos das misérias do nascimento e da morte. Ele diz: \"Meus queridos filhos, por que estais apodrecendo neste mundo miserável? Vinde a Mim, e Eu vos darei toda proteção.\" Somos filhos do Supremo, e podemos desfrutar a vida de modo supremo, sem qualquer miséria e sem qualquer dúvida. Por isso, não devemos pensar que Kṛṣṇa vem aqui como nós, obrigado pelas leis da natureza. A palavra sânscrita avatāra significa literalmente \"aquele que desce\". Aquele que desce do universo espiritual para o universo material por sua própria vontade é chamado avatāra. Às vezes, Śrī Kṛṣṇa desce Ele mesmo, e às vezes envia Seu representante. As principais religiões do mundo — a cristã, a hindu, a budista e a muçulmana — acreditam em alguma autoridade ou personalidade suprema que desce do reino de Deus. Na religião cristã, Jesus Cristo afirmou ser o filho de Deus e vir do reino de Deus para reclamar as almas condicionadas. Como seguidores do *Bhagavad-gītā*, admitimos esta afirmação como verdadeira. Assim, basicamente, não há diferença de opinião. Nos detalhes, pode haver diferenças devido a diferenças de cultura, clima e povos, mas o princípio básico permanece o mesmo — isto é, que Deus ou Seus representantes vêm reclamar as almas condicionadas.\n\n\n\nyadā yadā hi dharmasya\n\nglānir bhavati bhārata\n\nabhyutthānam adharmasya\n\ntadātmānam sṛjāmy aham\n\n\n\n\"Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião — nessa ocasião Eu próprio desço.\" (Bg. 4.7)\n\n\n\nDeus é muito compassivo. Deseja ver cessarem nossas misérias, mas nós estamos tentando adaptar-nos a estas misérias. Como somos parte integrante do Senhor Supremo, não fomos feitos para estas misérias, mas, de um jeito ou de outro, nós as aceitamos voluntariamente. Há misérias provenientes do corpo e da mente, de outras entidades vivas e de catástrofes naturais. Estamos sofrendo, ou de todas essas três misérias, ou pelo menos de uma. Estamos sempre tentando dar solução a essas misérias, e esta tentativa constitui nossa luta pela existência. Essa solução não pode ser dada por nosso minúsculo cérebro. Pode ser dada apenas quando nos abrigamos no Senhor Supremo.\n\n\n\nPodemos tornar-nos felizes quando somos reinstaurados em nossa posição constitucional, e o *Bhagavad-gītā* destina-se a reinstaurar-nos nessa posição. Deus e Seu representante também vêm ajudar. Como se afirmou anteriormente, descem ao mundo material a partir da natureza superior e não estão sujeitos às leis do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Kṛṣṇa dá a Arjuna as seguintes razões para Sua descida ao mundo:\n\n\n\nparitrāṇāya sādhūnāṁ\n\nvināśāya ca duṣkṛtām\n\ndharma-saṁsthāpanārthāya\n\nsambhavāmi yuge yuge\n\n\n\n\"A fim de libertar os piedosos e aniquilar os ímpios, bem como restabelecer os princípios da religião, Eu Me apresento milênio após milênio.\" (Bg. 4.8)\n\n\n\nAqui Kṛṣṇa diz que Ele vem quando há um declínio no dharma. A palavra sânscrita dharma foi traduzida para o inglês como \"fé\", mas a fé veio a significar um sistema religioso que vai sob o nome de cristão, muçulmano, hindu, budista etc. A palavra dharma, porém, não tem o mesmo significado de fé. A fé de um indivíduo pode mudar de hindu para budista, para cristã, para muçulmana etc. As pessoas têm a capacidade de aceitar uma fé e rejeitar outra, mas o dharma não pode ser mudado. É da natureza de cada indivíduo prestar serviço, seja a si mesmo, seja à sua família, à sua comunidade, à sua nação ou à humanidade em geral. Esta prestação de serviço não pode, de modo algum, ser separada da entidade viva, e é isto que constitui o dharma de cada ser vivo. Sem prestar serviço, ninguém pode existir. O mundo prossegue porque todos estamos prestando e trocando serviço. Devemos esquecer se somos cristãos, muçulmanos ou hindus, e devemos compreender que somos entidades vivas cuja posição constitucional é prestar serviço à entidade viva suprema. Quando atingimos esse estágio de compreensão, estamos liberados.\n\n\n\nA liberação é a libertação das designações temporárias que adquirimos pela associação com a natureza material. A liberação nada mais é do que isto. Como temos corpos materiais, assumimos tantas designações; assim, chamamo-nos de homem, de pai, de americano, de cristão, de hindu etc. Estas designações devem ser abandonadas se desejamos, de algum modo, tornar-nos livres. Sob nenhuma circunstância somos amos. No presente, estamos servindo, mas servindo com designações. Somos servos de uma esposa, de uma família, de um emprego, de nossos próprios sentidos, de nossos filhos, e, se não temos filhos, tornamo-nos servos de nossos gatos ou cães. Em qualquer caso, devemos ter alguém, algo a servir. Se não temos esposa ou filho, temos de apanhar algum cão ou outro animal inferior a fim de servi-lo. Esta é nossa natureza. Somos compelidos a fazê-lo. Quando, finalmente, nos tornamos livres dessas designações e começamos a prestar serviço amoroso transcendental ao Senhor, atingimos nosso estado de perfeição. Estabelecemo-nos, então, em nosso verdadeiro dharma.\n\n\n\nAssim, Śrī Kṛṣṇa diz que aparece sempre que há uma discrepância no dharma das entidades vivas, ou seja, sempre que as entidades vivas cessam de prestar serviço ao Supremo. Em outras palavras, quando a entidade viva está demasiadamente ocupada em servir a seus sentidos, e há um excesso de indulgência em gratificação dos sentidos, o Senhor vem. Na Índia, por exemplo, quando as pessoas estavam excedendo-se na matança de animais, o Senhor Buda veio para estabelecer ahiṁsā, a não violência a todas as entidades vivas. De modo semelhante, no verso citado acima, Śrī Kṛṣṇa diz que vem a fim de proteger os sādhus (paritrāṇāya sādhūnām). Os sādhus caracterizam-se por sua tolerância para com todas as outras entidades vivas. Apesar de todos os inconvenientes e perigos, tentam dar verdadeiro conhecimento ao povo em geral. Um sādhu não é amigo de uma sociedade, comunidade ou país em particular, mas é amigo de todos — não somente dos seres humanos, mas também dos animais e das formas inferiores de vida. Em suma, o sādhu não é inimigo de ninguém e é amigo de todos. Em consequência, é sempre pacífico. Tais pessoas, que sacrificaram tudo pelo Senhor, são muito, muito queridas ao Senhor. Embora os sādhus não se importem se são insultados, Kṛṣṇa não tolera nenhum insulto a eles. Como se afirma no Nono Capítulo do *Bhagavad-gītā*, Kṛṣṇa é igual para com todos, mas é especialmente inclinado a Seus devotos:\n\n\n\nsamo 'haṁ sarva-bhūteṣu\n\nna me dveṣyo 'sti na priyaḥ\n\nye bhajanti tu māṁ bhaktyā\n\nmayi te teṣu cāpy aham\n\n\n\n\"Não invejo ninguém, nem sou parcial com ninguém. Sou igual para com todos. Mas quem quer que Me preste serviço com devoção é um amigo, está em Mim, e Eu também sou um amigo para ele.\" (Bg. 9.29)\n\n\n\nEmbora Kṛṣṇa seja neutro para com todos, àquele que está constantemente ocupado em consciência de Kṛṣṇa, que está espalhando a mensagem do *Bhagavad-gītā*, Ele dá proteção especial. É promessa de Śrī Kṛṣṇa que Seu devoto jamais perecerá: kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati (Bg. 9.31).\n\n\n\nNão somente Kṛṣṇa vem para proteger e salvar Seus devotos, mas também para destruir os ímpios (vināśāya ca duṣkṛtām). Kṛṣṇa queria estabelecer Arjuna e os cinco Pāṇḍavas, que eram os mais piedosos kṣatriyas e devotos, como governantes do mundo, e também queria aniquilar o partido ateísta de Duryodhana. E, como se mencionou antes, uma terceira razão para Sua vinda é estabelecer a verdadeira religião (dharma-saṁsthāpanārthāya). Desse modo, o propósito de Śrī Kṛṣṇa ao vir é triplo: Ele protege Seus devotos, aniquila os demoníacos e estabelece a verdadeira religião da entidade viva. Ele vem não apenas uma vez, mas muitas, muitas vezes (sambhavāmi yuge yuge), porque este mundo material é tal que, no curso do tempo, depois que se faz um ajuste, ele novamente se deteriorará.\n\n\n\nO mundo é concebido de tal modo que, mesmo que façamos um arranjo muito bom, ele gradualmente se deteriorará. Depois da Primeira Guerra Mundial, assinou-se um armistício, e houve um curto período de paz, mas a Segunda Guerra Mundial logo veio, e, agora que ela acabou, estão fazendo preparativos para a Terceira Guerra Mundial. Esta é a função do tempo (kāla) no mundo material. Construímos uma casa muito bonita e, após cinquenta anos, ela se deteriora, e, após cem anos, deteriora-se ainda mais. De modo semelhante, quando o corpo é jovem, as pessoas cuidam dele, sempre prodigalizando-lhe afeto e beijando-o, mas, quando envelhece, ninguém se importa com ele. Esta é a natureza do mundo material — mesmo que se faça um arranjo muito bom, no curso do tempo será vencido. Por isso, ajustes são periodicamente necessários, e, de era em era, o Senhor Supremo ou Seu representante vêm fazer ajustes na direção da civilização. Assim, Śrī Kṛṣṇa desce muitas vezes para estabelecer ou rejuvenescer muitas religiões diferentes."}
{"ref": "rv/7", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/7/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "7. Conhecimento como Fé no Guru e Rendição a Kṛṣṇa", "purport": "No Quarto Capítulo do *Bhagavad-gītā*, Śrī Kṛṣṇa conclui que, de todos os sacrifícios, o melhor é a aquisição do conhecimento.\n\n\n\nśreyān dravya-mayād yajñāj\n\njñāna-yajñaḥ parantapa\n\nsarvaṁ karmākhilaṁ pārtha\n\njñāne parisamāpyate\n\n\n\n\"Ó subjugador do inimigo, o sacrifício do conhecimento é maior do que o sacrifício das posses materiais. Ó filho de Pṛthā, afinal, o sacrifício do trabalho culmina em conhecimento transcendental.\" (Bg. 4.33)\n\n\n\nO conhecimento é o melhor sacrifício porque esta vida condicional se deve à ignorância. O propósito do sacrifício, da penitência, do yoga e da discussão filosófica é adquirir conhecimento. Há três estágios do conhecimento transcendental pelos quais se realiza o aspecto impessoal de Deus (percepção do Brahman), o aspecto localizado de Deus dentro do coração e dentro de cada átomo (percepção do Paramātmā, ou Superalma) e a percepção da Suprema Personalidade de Deus (percepção do Bhagavān). Mas o primeiro passo na aquisição do conhecimento é vir a compreender que \"Eu não sou este corpo. Sou alma espiritual, e meu objetivo de vida é sair deste enredamento material.\" O ponto é que qualquer sacrifício que façamos destina-se a permitir-nos chegar ao ponto do verdadeiro conhecimento. A perfeição mais elevada do conhecimento é dada no *Bhagavad-gītā* como a rendição a Kṛṣṇa (bahūnāṁ janmanām ante jñānavān māṁ prapadyate) (Bg. 7.19). O jñānavān, e não o tolo, rende-se a Kṛṣṇa, e este é o mais elevado estágio do conhecimento. De modo semelhante, ao final do *Bhagavad-gītā*, Śrī Kṛṣṇa aconselha Arjuna:\n\n\n\nsarva-dharmān parityajya\n\nmām ekaṁ śaraṇaṁ vraja\n\nahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo\n\nmokṣayiṣyāmi mā śucaḥ\n\n\n\n\"Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te libertarei de toda reação pecaminosa. Não temas.\" (Bg. 18.66)\n\n\n\nEsta é a parte mais confidencial do conhecimento. De todos os pontos de vista, se fizermos um estudo analítico das literaturas Védicas, descobriremos que o cume último do conhecimento é render-se a Kṛṣṇa. E que tipo de rendição se recomenda? A rendição em pleno conhecimento — quando a pessoa chega ao ponto de perfeição, deve compreender que Vāsudeva, Kṛṣṇa, é tudo. Isto é também confirmado no Brahma-saṁhitā:\n\n\n\nīśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ\n\nsac-cid-ānanda-vigrahaḥ\n\nanādir ādir govindaḥ\n\nsarva-kāraṇa-kāraṇam\n\n\n\n\"Kṛṣṇa, que é conhecido como Govinda, é o Supremo Deus. Tem um corpo eterno, bem-aventurado e espiritual. É a origem de tudo. Não tem outra origem, e é a causa primordial de todas as causas.\" (Brahma-saṁhitā 5.1)\n\n\n\nAs palavras sarva-kāraṇa indicam que Kṛṣṇa é a causa de todas as causas. Se buscarmos ver quem é o pai de nosso pai, e quem é o pai dele, e assim por diante para trás, se de algum modo fosse possível rastrear nossa ancestralidade no tempo, chegaríamos ao Pai Supremo, a Suprema Personalidade de Deus.\n\n\n\nNaturalmente, todos querem ver Deus imediatamente, mas só podemos ver Deus quando estamos qualificados e em conhecimento perfeito. Podemos ver Deus face a face, assim como estamos vendo uns aos outros, mas qualificação é necessária, e essa qualificação é a consciência de Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa começa com śravaṇam, ouvir sobre Kṛṣṇa através do *Bhagavad-gītā* e de outras literaturas Védicas, e kīrtanam, repetir o que ouvimos e glorificar Kṛṣṇa cantando Seus nomes. Cantando e ouvindo sobre Kṛṣṇa, podemos de fato associar-nos com Ele, pois Ele é absoluto e não diferente de Seus nomes, qualidades, formas e passatempos. À medida que nos associamos com Kṛṣṇa, Ele nos ajuda a compreendê-Lo e dissipa a escuridão da ignorância com a luz do conhecimento. Kṛṣṇa está sentado dentro de nossos corações, agindo como guru. Quando começamos a ouvir tópicos a Seu respeito, a poeira que se acumulou em nossas mentes devido a tantos anos de contaminação material gradualmente é limpa. Kṛṣṇa é amigo de todos, mas é amigo especial de Seus devotos. Assim que ficamos um pouco inclinados a Ele, Ele começa a dar instruções favoráveis de dentro de nossos corações, para que possamos fazer progresso gradualmente. Kṛṣṇa é o primeiro mestre espiritual e, quando ficamos mais interessados Nele, temos de ir a um sādhu, ou homem santo, que serve como mestre espiritual externamente. Isto é prescrito pelo próprio Śrī Kṛṣṇa no seguinte verso:\n\n\n\ntad viddhi praṇipātena\n\nparipraśnena sevayā\n\nupadekṣyanti te jñānaṁ\n\njñāninas tattva-darśinaḥ\n\n\n\n\"Simplesmente procura aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Indaga dele submissamente e presta-lhe serviço. A alma autorrealizada pode transmitir-te conhecimento porque ela viu a verdade.\" (Bg. 4.34)\n\n\n\nÉ necessário selecionar uma pessoa a quem possamos render-nos. Naturalmente, ninguém gosta de render-se a ninguém. Estamos inflados com qualquer conhecimento que tenhamos, e nossa atitude é: \"Oh, quem pode dar-me conhecimento?\" Algumas pessoas dizem que, para a percepção espiritual, não há necessidade de mestre espiritual, mas, no que se refere à literatura Védica, e no que se refere ao *Bhagavad-gītā*, ao *Śrīmad-Bhāgavatam* e aos *Upaniṣads*, há necessidade de mestre espiritual. Mesmo no mundo material, se a pessoa quer aprender a ser músico, tem de buscar um músico para ensiná-la, ou, se quer ser engenheiro, tem de ir a uma faculdade tecnológica e aprender com aqueles que conhecem a tecnologia. Tampouco alguém pode tornar-se médico simplesmente comprando um livro no mercado e lendo-o em casa. Tem de ser admitido numa faculdade de medicina e passar por treinamento sob a direção de médicos licenciados. Não é possível aprender qualquer matéria importante simplesmente comprando livros e lendo-os em casa. Alguém é necessário para nos mostrar como aplicar o conhecimento que está nos livros. No que se refere à ciência de Deus, o próprio Śrī *Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus*, aconselha-nos a ir a uma pessoa a quem possamos render-nos. Isto significa que temos de verificar se uma pessoa é capaz de dar instruções no *Bhagavad-gītā* e em outras literaturas de percepção de Deus. Não é que devamos buscar um mestre espiritual caprichosamente. Devemos ser muito sérios em encontrar uma pessoa que esteja de fato em conhecimento do assunto.\n\n\n\nNo início do *Bhagavad-gītā*, Arjuna estava conversando com Kṛṣṇa como um amigo, e Kṛṣṇa questionava como ele, como militar, poderia abandonar a luta. Mas, quando Arjuna viu que conversas amistosas não dariam solução a seus problemas, rendeu-se a Kṛṣṇa, dizendo, śiṣyas te 'haṁ śādhi māṁ tvāṁ prapannam: \"Agora sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me.\" (Bg. 2.7) Este é o processo. Não é que devamos render-nos cegamente, mas que sejamos capazes de indagar com inteligência.\n\n\n\nSem indagação, não podemos fazer progresso. Na escola, um estudante que faz perguntas ao professor geralmente é um estudante inteligente. É geralmente sinal de inteligência quando uma criança pequena indaga de seu pai: \"Oh, o que é isto? O que é aquilo?\" Podemos ter um mestre espiritual muito bom, mas, se não tivermos o poder de indagar, não podemos fazer progresso. Tampouco deve a indagação ser do tipo de um desafio. Não se deve pensar: \"Agora verei que tipo de mestre espiritual ele é. Vou desafiá-lo.\" Nossas indagações (paripraśnena) devem ser sobre o assunto do serviço (sevayā). Sem serviço, nossas indagações serão fúteis, mas, mesmo antes de fazer indagações, devemos ter alguma qualificação. Se vamos a uma loja para comprar algum ouro ou alguma joia e nada sabemos sobre joias ou ouro, é provável que sejamos trapaceados. Se vamos a um joalheiro e dizemos: \"Pode dar-me um diamante?\", ele compreenderá que se trata de um tolo. Poderá cobrar-nos qualquer preço por qualquer coisa. Esse tipo de busca não funcionará de modo algum. Primeiro, temos de tornar-nos um pouco inteligentes, pois, de outro modo, não é possível fazer progresso espiritual.\n\n\n\nA injunção inicial do *Vedānta-sūtra* é: athāto brahma jijñāsā. \"Agora é o momento de indagar sobre o Brahman.\" A palavra atha significa que aquele que é inteligente, que chegou ao ponto de perceber as frustrações básicas da vida material, é capaz de fazer indagações. No *Śrīmad-Bhāgavatam*, afirma-se que se deve indagar de um mestre espiritual sobre assuntos que estão \"além desta escuridão\". Este mundo material é, por natureza, escuro, e é artificialmente iluminado pelo fogo. Nossas indagações devem ser sobre os mundos transcendentais que jazem além deste universo. Se alguém deseja descobrir sobre estes mundos espirituais, deve buscar um mestre espiritual; de outro modo, não há sentido em buscar. Se quero estudar o *Bhagavad-gītā* ou o *Vedānta-sūtra* para fazer melhoria material, não é necessário encontrar um mestre espiritual. A pessoa deve primeiro querer indagar sobre o Brahman e, em seguida, buscar um mestre que tenha visão perfeita da Verdade Absoluta (jñāninas tattva-darśinaḥ). Kṛṣṇa é o supremo tattva, a Verdade Absoluta. No Sétimo Capítulo do *Bhagavad-gītā*, Śrī Kṛṣṇa afirma:\n\n\n\nmanuṣyāṇāṁ sahasreṣu\n\nkaścid yatati siddhaye\n\nyatatām api siddhānāṁ\n\nkaścin māṁ vetti tattvataḥ\n\n\n\n\"Dentre muitos milhares entre os homens, talvez um se esforce pela perfeição, e, dos que alcançaram a perfeição, dificilmente um Me conhece em verdade.\" (Bg. 7.3)\n\n\n\nAssim, dentre muitos espiritualistas perfeitos, talvez um homem saiba o que Kṛṣṇa é de fato. Como este verso indica, o assunto de Kṛṣṇa não é tão fácil, mas é muito difícil. Contudo, o *Bhagavad-gītā* também indica que é fácil.\n\n\n\nbhaktyā mām abhijānāti\n\nyāvān yaś cāsmi tattvataḥ\n\ntato māṁ tattvato jñātvā\n\nviśate tad-anantaram\n\n\n\n\"Pode-se compreender a Suprema Personalidade tal como Ela é somente através do serviço devocional. E quando se está em plena consciência do Senhor Supremo por meio dessa devoção, pode-se entrar no reino de Deus.\" (Bg. 18.55)\n\n\n\nSe aceitamos o processo do serviço devocional, podemos compreender Kṛṣṇa muito facilmente. Por meio dele, podemos compreender a ciência de Kṛṣṇa perfeitamente e tornar-nos elegíveis para entrar no reino espiritual. Se, como diz o *Bhagavad-gītā*, após muitos nascimentos temos por fim de render-nos a Kṛṣṇa, por que não render-nos a Ele imediatamente? Por que esperar por muitos e muitos nascimentos? Se a rendição é o fim da perfeição, por que não aceitar a perfeição imediatamente? Naturalmente, a resposta é que as pessoas geralmente são dúbias. A consciência de Kṛṣṇa pode ser alcançada em um segundo, ou pode não ser obtida nem mesmo após mil nascimentos e mortes. Se escolhermos, podemos tornar-nos imediatamente grandes almas, rendendo-nos a Kṛṣṇa, mas, porque temos dúvidas se Kṛṣṇa é realmente o Supremo, temos de levar tempo para dissipar essas dúvidas através do estudo das escrituras. Estudando o *Bhagavad-gītā* sob a orientação de um mestre espiritual genuíno, podemos remover essas dúvidas e fazer progresso definitivo.\n\n\n\nÉ o fogo do conhecimento que reduz a cinzas todas as dúvidas e atividades fruitivas. Śrī Kṛṣṇa dá a seguinte informação acerca dos resultados de indagar a verdade junto a alguém que de fato viu a verdade.\n\n\n\nyaj jñātvā na punar moham\n\nevaṁ yāsyasi pāṇḍava\n\nyena bhūtāny aśeṣāṇi\n\ndrakṣyasy ātmany atho mayi\n\n\n\napi ced asi pāpebhyaḥ\n\nsarvebhyaḥ pāpa-kṛttamaḥ\n\nsarvaṁ jñāna-plavenaiva\n\nvṛjinaṁ santariṣyasi\n\n\n\nyathaidhāṁsi samiddho 'gnir\n\nbhasmasāt kurute 'rjuna\n\njñānāgniḥ sarva-karmāṇi\n\nbhasmasāt kurute tathā\n\n\n\n\"E, quando assim houveres aprendido a verdade, saberás que todos os seres vivos são apenas partes de Mim — e que estão em Mim e são Meus. Mesmo que sejas considerado o mais pecaminoso de todos os pecadores, quando estiveres situado no barco do conhecimento transcendental, serás capaz de atravessar o oceano das misérias. Assim como um fogo ardente reduz a lenha a cinzas, ó Arjuna, assim também o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as reações às atividades materiais.\" (Bg. 4.35–37)\n\n\n\nO fogo do conhecimento é aceso pelo mestre espiritual e, quando arde em chamas, todas as reações às nossas obras se transformam em cinzas. As reações ao nosso trabalho, ou nosso karma, são a causa de nosso cativeiro. Há boas obras e más obras, e neste verso a palavra sarva-karmāṇi indica ambas. Para aquele que deseja libertar-se deste cativeiro material, as reações tanto das boas como das más obras são prejudiciais. Neste mundo material, apegamo-nos à realização de boas obras quando estamos situados no modo da bondade. Se estamos nos modos da paixão e da ignorância, contudo, praticamos más obras em paixão e ignorância. Mas, para aqueles que hão de tornar-se conscientes de Kṛṣṇa, não há necessidade nem de boa obra nem de má obra. Por meio da boa obra, podemos obter um bom nascimento numa família aristocrática ou abastada, e, por meio da má obra, podemos nascer até no reino animal ou em famílias humanas degradadas; mas, em qualquer caso, o nascimento significa cativeiro, e aquele que se esforça pela consciência de Kṛṣṇa esforça-se pela liberação do cativeiro da transmigração. Qual é a vantagem de nascer numa família abastada ou aristocrática se a pessoa não se livra de suas misérias materiais? Quer desfrutemos as reações da boa obra, quer soframos as reações da má, temos de assumir o corpo material e, com isso, passar pelas misérias materiais.\n\n\n\nAo nos ocuparmos no serviço transcendental de Kṛṣṇa, saímos de fato do ciclo de nascimento e morte. Mas, como o fogo do conhecimento não arde em nossas mentes, aceitamos a existência material como felicidade. Um cão ou um porco não consegue compreender que tipo de vida miserável está vivendo. Na verdade, ele pensa que está desfrutando a vida, e isto se chama o efeito encobridor ou ilusório da energia material. Na Bowery, há tantos beberrões deitados na rua, e todos eles pensam: \"Estamos desfrutando a vida.\" Mas aqueles que passam por eles pensam: \"Oh, como são miseráveis.\" Esta é a maneira da energia ilusória. Podemos estar em condição miserável, mas a aceitamos pensando que somos muito felizes. Isto se chama ignorância. Mas, quando a pessoa desperta para o conhecimento, pensa: \"Oh, não sou feliz. Quero liberdade, mas não há liberdade. Não quero morrer, mas há morte. Não quero envelhecer, mas há velhice. Não quero doenças, mas há doenças.\" Estes são os principais problemas da existência humana, mas nós os ignoramos e nos concentramos em solucionar problemas muito menores. Consideramos o desenvolvimento econômico a coisa mais importante, esquecendo-nos de quanto tempo viveremos aqui neste mundo material. Com desenvolvimento econômico ou sem ele, ao fim de sessenta ou cem anos, nossa vida estará terminada. Mesmo que acumulemos um milhão de dólares, teremos de deixar tudo para trás quando deixarmos este corpo. Precisamos compreender que, no mundo material, tudo o que estamos fazendo está sendo derrotado pela influência da natureza material.\n\n\n\nQueremos liberdade, e queremos viajar por todo o mundo e por todo o universo. De fato, este é o nosso direito como alma espiritual. No *Bhagavad-gītā*, a alma espiritual é chamada sarva-gataḥ, o que significa que tem a capacidade de ir aonde quiser. Nos Siddhalokas, há seres perfeitos, ou yogīs, que podem viajar aonde desejarem sem o auxílio de aeronaves ou de outros engenhos mecânicos. Uma vez liberados do condicionamento material, podemos tornar-nos muito poderosos. Na verdade, não temos ideia de quão poderosos somos como centelhas espirituais. Em vez disso, contentamo-nos muito em permanecer nesta terra e em enviar algumas naves espaciais, pensando que nos tornamos enormemente avançados na ciência material. Gastamos milhões e milhões de dólares construindo naves espaciais sem saber que possuímos a capacidade de viajar aonde quisermos gratuitamente.\n\n\n\nO ponto é que devemos cultivar nossas potências espirituais por meio do conhecimento. O conhecimento já está ali; simplesmente temos de aceitá-lo. Em eras passadas, as pessoas submetiam-se a tantas penitências e austeridades para adquirir conhecimento, mas, nesta era, tal processo não é possível, porque nossas vidas são muito curtas e estamos sempre perturbados. O processo para esta era é o processo da consciência de Kṛṣṇa, o canto de Hare Kṛṣṇa, que foi inaugurado por Śrī Caitanya Mahāprabhu. Se, por este processo, conseguirmos atear o fogo do conhecimento, todas as reações de nossas atividades serão reduzidas a cinzas, e seremos purificados.\n\n\n\nna hi jñānena sadṛśaṁ\n\npavitram iha vidyate\n\ntat svayaṁ yoga-saṁsiddhaḥ\n\nkālenātmani vin dati\n\n\n\n\"Neste mundo, não há nada tão sublime e puro quanto o conhecimento transcendental. Tal conhecimento é o fruto maduro de todo misticismo. E aquele que o alcançou desfruta o eu dentro de si próprio no devido tempo.\" (Bg. 4.38)\n\n\n\nQual é esse conhecimento sublime e puro? É o conhecimento de que somos parte integrante de Deus e de que devemos ajustar nossa consciência à Consciência Suprema. Este é o conhecimento mais puro no mundo material. Aqui, tudo está contaminado pelos modos da natureza material — bondade, paixão e ignorância. A bondade também é uma espécie de contaminação. Em bondade, a pessoa torna-se consciente de sua posição e dos assuntos transcendentais etc., mas seu defeito está em pensar: \"Agora compreendi tudo. Agora estou bem.\" Ela quer permanecer aqui. Em outras palavras, o homem no modo da bondade torna-se prisioneiro de primeira classe e, sentindo-se feliz na casa da prisão, quer ali permanecer. E que dizer daqueles que estão nos modos da paixão e da ignorância? O ponto é que temos de transcender mesmo a qualidade da bondade. A posição transcendental começa com a percepção ahaṁ brahmāsmi — \"Não sou esta matéria, mas espírito.\" Mas mesmo esta posição é instável. Mais é necessário.\n\n\n\nbrahma-bhūtaḥ prasannātmā\n\nna śocati na kāṅkṣati\n\nsamaḥ sarveṣu bhūteṣu\n\nmad-bhaktiṁ labhate parām\n\n\n\n\"Aquele que assim se situa transcendentalmente percebe de imediato o Brahman Supremo. Ele nunca se lamenta nem deseja ter coisa alguma; é igualmente disposto para com toda entidade viva. Nesse estado, alcança o serviço devocional puro a Mim.\" (Bg. 18.54)\n\n\n\nNo estágio brahma-bhūtaḥ, a pessoa já não se identifica com a matéria. O primeiro sintoma de alguém haver se estabelecido na plataforma brahma-bhūtaḥ é tornar-se jovial (prasannātmā). Nessa plataforma, não há nem lamentação nem anseio. Mas, ainda que nos elevemos a este estágio e não adotemos o serviço amoroso a Kṛṣṇa, há a possibilidade de cair novamente no redemoinho material. Podemos elevar-nos muito alto no céu, mas, se não temos abrigo lá, se não pousamos em algum planeta, novamente cairemos. Uma simples compreensão do estágio brahma-bhūtaḥ não nos ajudará, a menos que nos abriguemos aos pés de lótus de Kṛṣṇa. Tão logo nos ocupemos no serviço a Kṛṣṇa, deixa de haver qualquer possibilidade de cair novamente no mundo material.\n\n\n\nNossa natureza é tal que queremos alguma ocupação. Uma criança pode aprontar travessuras, mas não consegue abster-se delas a menos que receba alguma ocupação. Quando recebe alguns brinquedos, sua atenção se desvia e suas atividades travessas cessam. Somos como crianças travessas e, por isso, devemos ter ocupação espiritual. Simplesmente compreender que somos alma espiritual não nos ajudará. Compreendendo que somos espírito, temos de sustentar o espírito por meio da ocupação espiritual. Não é incomum na Índia um homem abandonar todas as ocupações materiais, deixar seu lar e sua família e tomar a ordem renunciada, sannyāsa, e, depois de meditar por algum tempo, começar a realizar trabalho filantrópico, abrindo hospitais ou ocupando-se em política. O negócio de construir hospitais é conduzido pelo governo; o dever de um sannyāsa é construir hospitais nos quais as pessoas possam de fato livrar-se de seus corpos materiais, e não remendá-los. Mas, por falta de conhecimento sobre o que é a verdadeira atividade espiritual, adotamos atividades materiais.\n\n\n\nAo nos tornarmos perfeitos em consciência de Kṛṣṇa, o conhecimento e a sabedoria são encontrados no devido tempo. Pode haver algum desânimo no início, mas a palavra kālena, que significa \"no devido tempo\", indica que, se simplesmente perseverarmos, seremos bem-sucedidos. A fé é necessária, como se afirma no verso seguinte.\n\n\n\nśraddhāvāḹ labhate jñānaṁ\n\ntat-paraḥ saṁyatendriyaḥ\n\njñānaṁ labdhvā parāṁ śāntim\n\nacireṇādhigacchati\n\n\n\n\"O homem fiel que está absorto no conhecimento transcendental e que subjuga seus sentidos alcança rapidamente a suprema paz espiritual.\" (Bg. 4.39)\n\n\n\nPara aqueles que são hesitantes e não têm fé, a consciência de Kṛṣṇa é muito difícil. Mesmo em nossos afazeres cotidianos, certa medida de fé é necessária. Quando compramos uma passagem, temos fé de que a companhia aérea nos levará ao nosso destino. Sem fé, não podemos sequer viver no mundo material, o que dizer então de fazer progresso espiritual. Onde devemos depositar nossa fé? Na autoridade. Não devemos reservar nossa passagem com uma companhia não autorizada. A fé deve estar em Kṛṣṇa, o orador do *Bhagavad-gītā*. Como nos tornamos fiéis? O controle dos sentidos (saṁyatendriyaḥ) é necessário. Estamos no mundo material porque queremos gratificar nossos sentidos. Se temos fé de que um médico pode curar-nos, e ele nos diz que não comamos tal e tal coisa, e nós a comemos assim mesmo, que espécie de fé temos? Se temos fé em nosso médico, seguiremos suas prescrições de cura. O ponto é que temos de seguir as instruções com fé. Então, a sabedoria virá. Quando atingimos o estágio da sabedoria, o resultado é parāṁ śāntim — a paz suprema. Kṛṣṇa indica que, quando se controlam os sentidos, a fé vem em futuro próximo (acireṇa). Tendo atingido esse estágio de fé em Kṛṣṇa, a pessoa sente que é o homem mais feliz do mundo. Esta é a nossa posição. Temos de aceitar a fórmula e executá-la com fé. Esta fé deve estar na autoridade suprema, e não num homem de terceira classe. Devemos buscar um mestre espiritual em quem possamos ter fé. Kṛṣṇa é a personalidade mais autorizada, mas qualquer um que seja consciente de Kṛṣṇa pode ser aceito, porque uma pessoa plenamente consciente de Kṛṣṇa é o representante genuíno de Kṛṣṇa. Tendo provado as palavras do representante de Kṛṣṇa, sentir-nos-emos satisfeitos, assim como nos sentimos satisfeitos ao comer uma refeição completa.\n\n\n\najñaś cāśraddadhānaś ca\n\nsaṁśayātmā vinaśyati\n\nnāyaṁ loko 'sti na paro\n\nna sukhaṁ saṁśayātmanaḥ\n\n\n\n\"Mas as pessoas ignorantes e sem fé que duvidam das escrituras reveladas não alcançam a consciência de Deus. Para a alma cheia de dúvidas, não há felicidade nem neste mundo nem no próximo.\" (Bg. 4.40)\n\n\n\nAqueles que hesitam em trilhar esta senda do conhecimento não têm chance alguma. A hesitação se deve à ignorância (ajñaś ca). Para aquele que hesita em adotar a consciência de Kṛṣṇa, nem mesmo este mundo material será feliz, e que dizer da próxima vida. O mundo material já é miserável, mas, se a pessoa não tem fé, será ainda mais miserável. Assim, para os que não têm fé, a situação é muito precária. Podemos depositar milhares de dólares num banco porque temos fé de que esse banco não fechará. Se temos fé em bancos e em companhias aéreas, por que não ter fé em Śrī Kṛṣṇa, que é reconhecido por tantas literaturas Védicas e por tantos sábios como a autoridade suprema? Nossa posição é seguir os passos de grandes autoridades como Śaṅkarācārya, Rāmānujācārya e Caitanya Mahāprabhu. Se mantivermos nossa fé executando nossos deveres e seguindo os passos deles, o êxito está garantido.\n\n\n\nComo afirmado anteriormente, devemos buscar alguém que tenha visto a Verdade Absoluta, render-nos a ele e servi-lo. Quando isto é feito, não há dúvida quanto à salvação espiritual da pessoa. Todos estão ansiosos por ver Deus, mas, em nosso atual estágio de vida, estamos condicionados e iludidos. Não temos ideia das coisas como elas realmente são. Embora sejamos Brahman e, por natureza, joviais, de algum modo caímos de nossa posição constitucional. Nossa natureza é sac-cid-ānanda, eterna, bem-aventurada e cheia de conhecimento; contudo, este corpo está destinado a morrer e, enquanto existe, está cheio de ignorância e de misérias. Os sentidos são imperfeitos, e não é possível atingir o conhecimento perfeito por meio deles. Por isso, afirma-se no *Bhagavad-gītā* que, se de fato queremos aprender o conhecimento transcendental, devemos aproximar-nos de alguém que tenha realmente visto a Verdade Absoluta (tad-viddhi praṇipātena [Bg. 4.34]). Tradicionalmente, os brāhmaṇas devem ser os mestres espirituais, mas, nesta era de Kali, é muito difícil encontrar um brāhmaṇa qualificado. Em consequência, é muito difícil encontrar um mestre espiritual qualificado. Por isso, Caitanya Mahāprabhu recomendou kibā vipra, kibā nyāsī, śūdra kene naya/yei kṛṣṇa-tattva-vettā, sei 'guru' haya: [Cc. Madhya 8.128] \"Quer se seja brāhmaṇa ou śūdra, sannyāsī ou chefe de família, não importa. Se conhece a ciência de Kṛṣṇa, é um mestre espiritual genuíno.\"\n\n\n\nO *Bhagavad-gītā* é a ciência de Kṛṣṇa e, se o estudarmos minuciosamente com todo o nosso raciocínio, senso e conhecimento filosófico, viremos a conhecer essa ciência. Não é que devamos submeter-nos cegamente. O mestre espiritual pode ser autorrealizado e estar situado na Verdade Absoluta; ainda assim, temos de questioná-lo a fim de compreender todos os pontos espirituais. Se alguém é capaz de responder factualmente às perguntas sobre a ciência de Kṛṣṇa, ele é o mestre espiritual, independentemente de onde tenha nascido ou do que seja — quer seja brāhmaṇa ou śūdra, ou americano, indiano ou o que for. Quando vamos a um médico, não lhe perguntamos se é hindu, cristão ou brāhmaṇa. Ele possui a qualificação de um homem da medicina, e simplesmente nos rendemos, dizendo: \"Doutor, trate-me. Estou sofrendo.\"\n\n\n\nKṛṣṇa é a meta última da ciência espiritual. Naturalmente, quando falamos de Kṛṣṇa, referimo-nos a Deus. Há muitos nomes para Deus por todo o mundo e por todo o universo, mas Kṛṣṇa é o nome supremo segundo o conhecimento Védico. Por isso, o Senhor Caitanya Mahāprabhu recomendou o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare como o meio supremo de percepção nesta era. Caitanya Mahāprabhu não fez distinção alguma quanto a casta ou posição social. De fato, a maioria de Seus principais discípulos era considerada caída na sociedade. Caitanya Mahāprabhu chegou a designar Haridāsa Ṭhākura, um maometano, como nāmācārya, ou preceptor dos santos nomes. De modo semelhante, Rūpa e Sanātana Gosvāmīs, dois dos principais discípulos do Senhor Caitanya, eram outrora conhecidos como Sākara Mallika e Dabira Khāsa, e estavam a serviço do governo maometano. Naqueles dias, os hindus eram tão estritos que, se um brāhmaṇa aceitasse serviço de um não hindu, era imediatamente expulso da sociedade hindu. Apesar disso, Rūpa e Sanātana Gosvāmīs foram constituídos as principais autoridades na ciência de Kṛṣṇa por Caitanya Mahāprabhu. Assim, não há impedimento contra ninguém; qualquer um pode tornar-se mestre espiritual, desde que conheça a ciência de Kṛṣṇa. Esta é a única qualificação, e esta ciência, em essência, está contida no *Bhagavad-gītā*. No presente momento, são necessários milhares de mestres espirituais para difundir esta grande ciência por todo o mundo.\n\n\n\nDevemos compreender que, quando Kṛṣṇa fala a Arjuna no *Bhagavad-gītā*, Ele fala não simplesmente a Arjuna sozinho, mas a toda a raça humana. O próprio Śrī Kṛṣṇa declara que, simplesmente por conhecer a ciência de Kṛṣṇa, Arjuna não estaria sujeito à ilusão (yaj jñātvā na punar moham). Se temos um navio muito bom, podemos atravessar facilmente o Oceano Atlântico. No presente, estamos no meio do oceano da ignorância, pois este mundo material tem sido comparado a um grande oceano de nesciência. Por isso, o Senhor Caitanya Mahāprabhu orou a Kṛṣṇa desta maneira:\n\n\n\nayi nanda-tanuja kiṅkaraṁ\n\npatitaṁ māṁ viṣame bhavāmbudhau\n\nkṛpayā tava pāda-paṅkaja-\n\nsthita-dhūlī-sadṛśaṁ vicintaya\n\n\n\n\"Ó filho de Mahārāja Nanda, sou Teu servo eterno e, embora seja assim, de uma forma ou de outra caí no oceano de nascimento e morte. Por favor, recolhe-me deste oceano de morte e fixa-me como um dos átomos a Teus pés de lótus.\" (Śikṣāṣṭaka 5)\n\n\n\nSe temos o barco do conhecimento perfeito, não há temor, pois podemos atravessar o oceano com muita facilidade. Mesmo que uma pessoa seja a mais pecaminosa, se receber o barco da ciência de Kṛṣṇa, poderá atravessar o oceano com muita facilidade. Como afirmado antes (Bg. 4.36), não importa o que fomos em nossas vidas passadas. Por estarmos em ignorância, podemos ter cometido tantas ações abomináveis. De fato, ninguém pode dizer que está livre de atividade pecaminosa. Mas, segundo o *Bhagavad-gītā*, isto não importa. Apenas por conhecer a ciência de Kṛṣṇa, a pessoa torna-se livre.\n\n\n\nÉ, portanto, absolutamente necessário que busquemos o conhecimento, e a perfeição do conhecimento é compreender Kṛṣṇa. Hoje há tantas teorias, e cada qual afirma conhecer a melhor maneira de viver; por isso, surgiram tantos \"ismos\". Destes, o comunismo tornou-se muito proeminente no mundo. Mas no *Śrīmad-Bhāgavatam* encontramos a semente do comunismo espiritual. Ali, Nārada Muni explica que, neste universo material — quer a pessoa esteja num sistema planetário inferior, médio ou superior, ou mesmo no espaço sideral — todos os recursos naturais são manifestados pelo Senhor Supremo. Devemos compreender que tudo o que existe neste mundo não foi produzido por nenhum ser humano, mas que tudo foi criado por Deus. Nenhum homem sensato pode negar isto. O *Śrī Īśopaniṣad* prescreve:\n\n\n\nīśāvāsyam idaṁ sarvaṁ\n\nyat kiñca jagatyāṁ jagat\n\ntena tyaktena bhuñjīthā\n\nmā gṛdhaḥ kasya svid dhanam\n\n\n\n\"Tudo o que é animado ou inanimado dentro do universo é controlado e possuído pelo Senhor. Portanto, deve-se aceitar apenas aquelas coisas necessárias para si mesmo, que estão reservadas como sua cota, e não se deve aceitar outras coisas, sabendo bem a quem pertencem.\" (*Śrī Īśopaniṣad*, Mantra 1)\n\n\n\nEm consequência, todas as entidades vivas, começando por Brahmā, o semideus mais elevado, até a mais ínfima formiga, têm o direito de usar os recursos naturais. Nārada Muni assinala que podemos usar esses recursos tanto quanto precisemos, mas que, se tomamos mais do que o necessário, tornamo-nos ladrões. Infelizmente, todos estão tentando conquistar e predominar. Os países disputam uma corrida até a Lua a fim de fincar ali suas bandeiras e reivindicar aquele planeta. Quando os europeus vieram à América, fincaram sua bandeira e a reivindicaram para sua nação. Esse fincar de bandeiras e esse acenar de bandeiras devem-se inteiramente à ignorância. Não paramos para pensar onde estamos fincando nossa bandeira. Não é nossa propriedade, mas de Deus. Saber isto é conhecimento, e pensar que é propriedade minha é ignorância. Temos o direito de utilizar, mas não de reivindicar ou açambarcar.\n\n\n\nSe atirarmos um saco de grãos na rua, os pombos podem vir e comer quatro ou cinco pequenos grãos e depois ir embora. Não tomarão mais do que conseguem comer e, tendo comido, seguem livremente seu caminho. Mas, se déssemos por colocar muitos sacos de farinha na calçada e convidássemos as pessoas a vir buscá-los, um homem tomaria dez ou vinte sacos, outro tomaria quinze ou trinta sacos, e assim por diante. Mas aqueles que não têm meios de carregar tanto não poderão levar mais do que um ou dois sacos. Assim, a distribuição será desigual. Isto é chamado avanço da civilização; carecemos até do conhecimento que os pombos, os cães e os gatos têm. Tudo pertence ao Senhor Supremo, e podemos aceitar tudo o que precisamos, mas não mais do que isso. Isto é conhecimento. Pela disposição do Senhor, o mundo está feito de tal modo que não há escassez de nada. Tudo é suficiente, contanto que saibamos como distribuí-lo. Contudo, a condição deplorável de hoje é que um toma mais do que precisa enquanto outro passa fome. Em consequência, as massas famintas estão se revoltando e perguntando: \"Por que devemos passar fome?\" Mas seus métodos são imperfeitos. A perfeição do comunismo espiritual encontra-se no conhecimento de que tudo pertence a Deus. Conhecendo a ciência de Kṛṣṇa, podemos facilmente transpor a ignorância da falsa propriedade.\n\n\n\nEstamos de fato sofrendo devido à nossa ignorância. No tribunal, a ignorância não é desculpa. Se dissermos ao juiz que não estamos cientes da lei, seremos punidos de qualquer maneira. Se alguém amassou ilegalmente tanta riqueza e ainda assim alega ignorância de sua transgressão, será punido mesmo assim. O mundo inteiro carece deste conhecimento e, por isso, são necessários milhares de professores da ciência de Kṛṣṇa. Há uma grande necessidade deste conhecimento agora. Não devemos pensar que, por Kṛṣṇa ter nascido na Índia, o conhecimento do *Bhagavad-gītā* seja sectário ou que Kṛṣṇa seja um Deus sectário. De fato, no Décimo Quarto Capítulo, Śrī Kṛṣṇa proclama ser Ele o pai de todos os seres, como assinalado anteriormente (Bg. 14.4).\n\n\n\nComo almas espirituais, somos parte integrante do Espírito Supremo, mas, devido ao nosso desejo de desfrutar este mundo material, fomos postos na natureza material. Contudo, em qualquer espécie de vida em que estejamos, Kṛṣṇa é o Pai. Assim, o *Bhagavad-gītā* não se destina a nenhum partido ou nação em particular, mas a todos no mundo inteiro — até mesmo aos animais. Agora que os filhos do Supremo cometem furto devido à ignorância, é dever daquele que está familiarizado com o *Bhagavad-gītā* difundir este conhecimento supremo a todos os seres. Dessa maneira, as pessoas poderão perceber sua verdadeira natureza espiritual e sua relação com o todo espiritual supremo."}
{"ref": "rv/8", "book": "rv", "lang": "pt", "url": "/pt/library/rv/8/", "verse_text": "", "devanagari": "", "synonyms": "", "translation": "8. Ação no Conhecimento de Kṛṣṇa", "purport": "na māṁ karmāṇi limpanti\n\nna me karma-phale spṛhā\n\niti māṁ yo 'bhijānāti\n\nkarmabhir na sa badhyate\n\n\n\n\"Não há trabalho que Me afete; nem aspiro pelos frutos da ação. Aquele que compreende esta verdade a Meu respeito também não fica enredado nas reações fruitivas do trabalho.\" (Bg. 4.14)\n\n\n\nO mundo inteiro está atado pelo karma. Todos sabemos da existência de micróbios ou germes, que existem aos milhões dentro da medida de um milímetro. No Brahma-saṁhitā, afirma-se que, começando pelo micróbio, chamado indragopa, até Indra, o rei dos planetas celestiais, todos estão atados pelo karma, a reação do trabalho. Todos nós temos de sofrer ou desfrutar as reações de nosso trabalho, sejam elas boas ou más. Enquanto tivermos de sofrer ou desfrutar essas reações, estaremos atados a estes corpos materiais.\n\n\n\nPela disposição da natureza, o corpo material é dado à entidade viva para seu sofrimento ou desfrute. Diferentes tipos de corpos são adquiridos para diferentes propósitos. O corpo de um tigre é feito para matar e comer carne crua. De modo semelhante, os porcos são feitos de tal maneira que podem comer excremento. E, como seres humanos, nossos dentes são feitos para comer vegetais e frutas. Todos estes corpos são feitos segundo o trabalho realizado pela entidade viva em vidas passadas. Nossos próximos corpos estão sendo preparados segundo o trabalho que estamos fazendo agora; mas, no verso anteriormente citado, Śrī Kṛṣṇa indica que aquele que conhece a natureza transcendental de Suas atividades torna-se livre das reações das atividades. Nossas atividades devem ser tais que não nos enredemos novamente neste mundo material. Isso torna-se possível se nos tornarmos conscientes de Kṛṣṇa estudando Kṛṣṇa, aprendendo a respeito da natureza transcendental de Suas atividades e compreendendo como Ele Se comporta neste mundo material e no mundo espiritual.\n\n\n\nQuando Kṛṣṇa vem a esta terra, não é como nós; Ele é totalmente transcendental. Nós desejamos os frutos de nossas atividades, mas Kṛṣṇa não deseja fruto algum, nem há quaisquer reações às Suas ações. Tampouco Ele tem qualquer desejo de atividade fruitiva (na me karma-phale spṛhā). Quando entramos num negócio, esperamos lucro e, com esse lucro, esperamos comprar coisas que tornarão nossa vida prazerosa. Sempre que as almas condicionadas fazem algo, há, por trás disso, desejo de desfrute. Mas Kṛṣṇa nada tem a desejar. Ele é a Suprema Personalidade de Deus, e é pleno em tudo. Quando Kṛṣṇa veio a esta terra, teve muitas namoradas e mais de 16.000 esposas, e algumas pessoas pensam que Ele era muito sensual. Mas este não era o fato.\n\n\n\nDevemos compreender o significado das relações com Kṛṣṇa. Neste mundo material, temos muitas relações, como pai, mãe, esposa ou marido. Qualquer relação que aqui encontremos é apenas um reflexo pervertido da relação que temos com o Senhor Supremo. Tudo o que encontramos neste mundo material nasce da Verdade Absoluta, mas aqui é refletido pervertidamente no tempo. Qualquer relação que tenhamos com Kṛṣṇa prossegue. Se temos uma relação de amizade, essa amizade é eterna e continua de vida em vida. No mundo material, uma amizade existe por alguns anos e depois se rompe; por isso, é chamada pervertida, temporária ou irreal. Se firmarmos nossa amizade com Kṛṣṇa, ela jamais se romperá. Se fizermos de Kṛṣṇa nosso amo, jamais seremos enganados. Se amarmos Kṛṣṇa como nosso filho, Ele jamais morrerá. Se amarmos Kṛṣṇa como nosso amado, Ele será o melhor de todos, e não haverá separação. Porque Kṛṣṇa é o Senhor Supremo, Ele é ilimitado e tem um número ilimitado de devotos. Alguns estão tentando amá-Lo como amado ou marido, e por isso Kṛṣṇa aceita este papel. De qualquer maneira que abordemos Kṛṣṇa, Ele nos aceitará, como Ele afirma no *Bhagavad-gītā*.\n\n\n\nye yathā māṁ prapadyante\n\ntāṁs tathaiva bhajāmy aham\n\nmama vartmānuvartante\n\nmanuṣyāḥ pārtha sarvaśaḥ\n\n\n\n\"A todos eles — conforme se rendem a Mim — Eu recompenso de acordo. Todos seguem Meu caminho em todos os aspectos, ó filho de Pṛthā.\" (Bg. 4.11)\n\n\n\nAs gopīs, ou namoradas vaqueirinhas de Kṛṣṇa, submeteram-se a tremendas penitências em suas vidas passadas para obter Kṛṣṇa como seu marido. De modo semelhante, no *Śrīmad-Bhāgavatam*, Śukadeva Gosvāmī diz que aqueles meninos que brincavam com Kṛṣṇa haviam se submetido a grandes penitências e austeridades em suas vidas passadas a fim de obter Kṛṣṇa como companheiro de brincadeiras. Assim, os companheiros de brincadeira, os associados e as esposas de Kṛṣṇa não são entidades vivas comuns. Como não temos ideia da consciência de Kṛṣṇa, tomamos Suas atividades por insignificâncias, mas, na verdade, elas são sublimes. Toda a perfeição de nossos desejos está ali; quaisquer desejos que tenhamos constitucionalmente serão perfeitamente satisfeitos quando estivermos em consciência de Kṛṣṇa.\n\n\n\nKṛṣṇa não precisava de amigo algum para brincar com Ele, nem desejava uma única esposa. Nós tomamos uma esposa porque temos algum desejo a satisfazer, mas Kṛṣṇa é completo em Si mesmo (pūrṇam). Um homem pobre pode desejar ter mil dólares no banco, mas um homem rico que possui milhões não tem tal desejo. Se Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, por que haveria de ter desejos? Antes, Ele satisfaz os desejos dos outros. O homem propõe, e Deus dispõe. Se Kṛṣṇa tivesse algum desejo, seria imperfeito, pois Lhe estaria faltando algo. Por isso, Ele diz que não tem desejo algum a satisfazer. Como Yogeśvara, ou como amo de todos os yogīs, tudo o que Ele deseja é imediatamente realizado. Não há possibilidade de desejo. Ele Se torna marido, amado ou amigo apenas para satisfazer os desejos de Seus devotos. Se aceitamos Kṛṣṇa como amigo, amo, filho ou amado, jamais nos frustraremos. Toda entidade viva tem uma relação específica com Kṛṣṇa, mas, no presente, esta relação está coberta. À medida que avançarmos em consciência de Kṛṣṇa, ela será revelada.\n\n\n\nEmbora o Senhor Supremo seja pleno e nada tenha a fazer, Ele trabalha a fim de dar o exemplo. Ele não está atado às Suas atividades no mundo material, e aquele que sabe disto também se torna livre das atividades reacionais.\n\n\n\nevaṁ jñātvā kṛtaṁ karma\n\npūrvair api mumukṣubhiḥ\n\nkuru karmaiva tasmāt tvaṁ\n\npūrvaiḥ pūrvataraṁ kṛtam\n\n\n\n\"Todas as almas liberadas dos tempos antigos agiram com esta compreensão e, assim, alcançaram a liberação. Portanto, à semelhança dos antigos, deves executar teu dever nesta consciência divina.\" (Bg. 4.15)\n\n\n\nO processo da consciência de Kṛṣṇa exige que sigamos os passos dos grandes ācāryas que alcançaram o êxito na vida espiritual. Se a pessoa age seguindo os exemplos dados pelos grandes ācāryas, sábios, devotos e reis iluminados que realizaram karma-yoga em suas vidas, também ela se tornará livre.\n\n\n\nNo campo de batalha de Kurukṣetra, Arjuna estava muito receoso de enredar-se em suas atividades ao engajar-se na guerra. Kṛṣṇa, portanto, garantiu-lhe que, se lutasse em prol Dele, não haveria possibilidade de enredamento.\n\n\n\nkiṁ karma kim akarmeti\n\nkavayo 'py atra mohitāḥ\n\ntat te karma pravakṣyāmi\n\nyaj jñātvā mokṣyase 'śubhāt\n\n\n\n\"Mesmo os inteligentes ficam confusos ao determinar o que é ação e o que é inação. Agora explicarei a ti o que é ação, conhecendo a qual serás liberado de todos os pecados.\" (Bg. 4.16)\n\n\n\nAs pessoas estão, de fato, confusas quanto ao que é trabalho (karma) e ao que não é trabalho (akarma). Kṛṣṇa indica aqui que mesmo grandes eruditos (kavayaḥ) ficam desnorteados quanto à natureza do trabalho. É necessário saber quais atividades são genuínas e quais não, quais são fidedignas e quais não, quais são proibidas e quais não. Se compreendemos o princípio do trabalho, podemos libertar-nos do cativeiro material. É, por conseguinte, necessário saber como conduzir o trabalho de modo que, quando deixarmos o corpo material, não sejamos mais forçados a tomar outro, mas estejamos livres para entrar no céu espiritual. O princípio do trabalho apropriado é claramente afirmado por Śrī Kṛṣṇa no último verso do Décimo Primeiro Capítulo:\n\n\n\nmat-karma-kṛn mat-paramo\n\nmad-bhaktaḥ saṅga-varjitaḥ\n\nnirvairaḥ sarva-bhūteṣu\n\nyaḥ sa mām eti pāṇḍava\n\n\n\n\"Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre da contaminação de atividades anteriores e da especulação mental, que é amigo de toda entidade viva, certamente vem a Mim.\" (Bg. 11.55)\n\n\n\nEste único verso é suficiente para compreender a essência do *Bhagavad-gītā*. Deve-se estar ocupado em \"Meu trabalho\". E qual é este trabalho? Ele é indicado na última instrução do *Bhagavad-gītā*, na qual Kṛṣṇa diz a Arjuna que se renda a Ele (Bg. 18.66).\n\n\n\nPelo exemplo de Arjuna, devemos aprender que devemos realizar somente o trabalho sancionado por Kṛṣṇa. Esta é a missão da vida humana, mas não a conhecemos. Por causa de nossa ignorância, ocupamo-nos em tanto trabalho que está ligado à concepção corporal ou material da vida. Kṛṣṇa queria que Arjuna lutasse e, embora Arjuna não quisesse lutar, ele lutou porque Kṛṣṇa o desejou. Temos de aprender a seguir este exemplo.\n\n\n\nNaturalmente, Kṛṣṇa estava presente para dizer a Arjuna qual era o seu trabalho, mas e quanto a nós? Śrī Kṛṣṇa dirigia pessoalmente Arjuna a agir de tal e tal maneira; mas, só porque Kṛṣṇa não está pessoalmente presente diante de nós, não devemos supor que não haja direção. De fato, há direção. No último capítulo do *Bhagavad-gītā* é dado o trabalho apropriado que devemos realizar.\n\n\n\nya idaṁ paramaṁ guhyaṁ\n\nmad-bhakteṣv abhidhāsyati\n\nbhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā\n\nmām evaiṣyaty asaṁśayaḥ\n\n\n\nna ca tasmān manuṣyeṣu\n\nkaścin me priya-kṛttamaḥ\n\nbhavitā na ca me tasmād\n\nanyaḥ priyataro bhuvi\n\n\n\n\"Para aquele que explica o segredo supremo aos devotos, o serviço devocional está garantido, e, ao final, ele voltará a Mim. Não há servo neste mundo mais querido para Mim do que ele, nem jamais haverá outro mais querido.\" (Bg. 18.68–69)\n\n\n\nÉ, portanto, incumbência nossa pregar o método do *Bhagavad-gītā* e tornar as pessoas conscientes de Kṛṣṇa. As pessoas estão de fato sofrendo por falta da consciência de Kṛṣṇa. Devemos todos ocupar-nos em difundir a ciência de Kṛṣṇa para o benefício do mundo inteiro. O Senhor Caitanya Mahāprabhu veio com esta missão de ensinar a consciência de Kṛṣṇa, e disse que, independentemente da posição da pessoa, se ela ensina a consciência de Kṛṣṇa, deve ser considerada um mestre espiritual. Tanto o *Bhagavad-gītā* quanto o *Śrīmad-Bhāgavatam* estão repletos de informações sobre como tornar-se consciente de Kṛṣṇa. O Senhor Caitanya Mahāprabhu selecionou esses dois livros e pediu que as pessoas em todos os cantos do mundo difundissem esta ciência de Kṛṣṇa em cada cidade e vila. O Senhor Caitanya Mahāprabhu era o próprio Kṛṣṇa, e devemos tomar isto como a indicação de Kṛṣṇa quanto ao nosso trabalho apropriado. Mas devemos ter o cuidado de apresentar o *Bhagavad-gītā* como ele é, sem interpretação ou motivação pessoal. Algumas pessoas apresentam interpretações do *Bhagavad-gītā*, mas devemos apresentar as palavras como são faladas por Śrī Kṛṣṇa.\n\n\n\nAquele que trabalha para Kṛṣṇa pode parecer estar trabalhando como qualquer outro no mundo material, mas este não é o caso. Arjuna pode ter lutado como um militar comum, mas, porque lutou em consciência de Kṛṣṇa, ficou livre do enredamento de suas atividades. Dessa maneira, seu trabalho, embora parecesse material, não era material de modo algum. Qualquer ação sancionada por Kṛṣṇa — independentemente do que seja — não tem reação. Lutar pode não ser coisa muito boa, mas, às vezes, como no caso da Batalha de Kurukṣetra, é uma necessidade absoluta. Por outro lado, podemos realizar trabalho que seja, na opinião do mundo, muito altruísta ou humanitário, e ainda assim estarmos atados à atividade material. Assim, não é a ação em si que é importante, mas a consciência na qual a ação é executada.\n\n\n\nkarmaṇo hy api boddhavyaṁ\n\nboddhavyaṁ ca vikarmaṇaḥ\n\nakarmaṇaś ca boddhavyaṁ\n\ngahanā karmaṇo gatiḥ\n\n\n\n\"As complexidades da ação são muito difíceis de compreender. Por isso, deve-se conhecer apropriadamente o que é ação, o que é ação proibida e o que é inação.\" (Bg. 4.17)\n\n\n\nA senda do karma é muito intrincada; por isso, devemos compreender as distinções entre karma, akarma e vikarma. Se simplesmente nos ocuparmos em consciência de Kṛṣṇa, tudo se torna claro. De outro modo, teremos de fazer distinções entre o que devemos fazer e o que não devemos fazer, a fim de não nos enredarmos. No curso ordinário da vida, sem o saber, quebramos alguma lei e temos de sofrer as consequências. De modo semelhante, as leis da natureza são muito estritas e rigorosas, e não aceitam desculpa. É lei da natureza que o fogo queima e, mesmo que uma criança o toque, será queimada, apesar de sua ignorância e inocência. Assim, temos de escolher nosso curso de ação com muito cuidado, para que as leis rigorosas da natureza não reajam de modo a atar-nos ao sofrimento. É, por isso, necessário compreender qual trabalho fazer e qual trabalho evitar.\n\n\n\nA palavra karma refere-se aos deveres prescritos. A palavra vikarma refere-se a atividades que são contrárias aos deveres prescritos da pessoa. E a palavra akarma refere-se a atividades que não têm reação alguma. Na execução de atividades akármicas, pode parecer haver algumas reações, mas, na realidade, não há. Quando trabalhamos sob a direção de Kṛṣṇa, este é de fato o caso — não há reações. Se tomamos para nós a iniciativa de matar alguém, ficamos sujeitos à pena capital pelo governo do estado. Nossas ações são então chamadas vikarma, pois são contrárias às ações prescritas. Se, contudo, o governo nos convoca para o exército, e nos engajamos em batalha e matamos alguém, não sofremos as reações, e isto se chama akarma. Num caso, agimos segundo nossos próprios caprichos; e, no outro, agimos sob a direção do governo. De modo semelhante, quando agimos sob a direção de Kṛṣṇa, nossas ações realizadas são chamadas akarma, pois esse tipo de atividade não tem reação.\n\n\n\nkarmaṇy akarma yaḥ paśyed\n\nakarmaṇi ca karma yaḥ\n\nsa buddhimān manuṣyeṣu\n\nsa yuktaḥ kṛtsna-karma-kṛt\n\n\n\n\"Aquele que vê inação na ação, e ação na inação, é inteligente entre os homens, e está na posição transcendental, embora ocupado em todos os tipos de atividades.\" (Bg. 4.18)\n\n\n\nAquele que pode de fato perceber que, apesar das atividades, não há reações kármicas — que compreende a natureza do akarma — vê realmente as coisas como elas são. A palavra akarmaṇi refere-se a quem está procurando evitar as reações do karma. Ao ajustar suas atividades à consciência de Kṛṣṇa, embora possa realizar todos os tipos de atividades, a pessoa permanece livre. No Campo de Batalha de Kurukṣetra, Arjuna empenhou-se em lutar, e os do lado de Duryodhana também se empenharam em lutar. Devemos compreender como é que Arjuna fica livre de reação, ao passo que Duryodhana não. Externamente, vemos que ambas as partes se ocupam em combater, mas devemos compreender que Arjuna não está atado às reações, porque luta sob a ordem de Kṛṣṇa. Assim, quando vemos alguém trabalhando em consciência de Kṛṣṇa, devemos compreender que seu trabalho não acarreta reação alguma. Quem consegue ver tal trabalho e compreendê-lo deve ser considerado muito inteligente (sa buddhimān). A técnica não está tanto em ver o que uma pessoa está fazendo, mas em compreender por que ela o faz.\n\n\n\nNa verdade, Arjuna estava empenhado em atividade muito desagradável no campo de batalha, mas, por estar em consciência de Kṛṣṇa, não sofreu reação alguma. Podemos realizar alguma ação que consideremos um trabalho muito bom, porém, se não a realizamos em consciência de Kṛṣṇa, temos de sofrer as reações. Do ponto de vista material, a decisão inicial de Arjuna de não lutar foi acertada, mas, do ponto de vista espiritual, não foi. Quando fazemos trabalho piedoso, obtemos certos resultados. Podemos nascer numa família muito boa, na família de um brāhmaṇa ou de um homem abastado; podemos tornar-nos muito ricos ou muito eruditos, ou podemos tornar-nos muito belos. Por outro lado, se fazemos trabalho ímpio, podemos ter de nascer numa família de classe baixa ou numa família animal, ou tornar-nos analfabetos ou tolos, ou muito feios. Ainda que nos ocupemos em trabalho muito piedoso e tenhamos um bom nascimento, continuaremos sujeitos às rigorosas leis de ação e reação. Nosso objetivo principal deve ser escapar das leis deste mundo material. Se não compreendermos isto, seremos atraídos por famílias aristocráticas, pela riqueza, por uma boa educação ou por um belo corpo. Devemos chegar a compreender que, apesar de dispormos de todas essas facilidades para a vida material, não estamos livres do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Para nos advertir disto, Śrī Kṛṣṇa nos previne no *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nābrahma-bhuvanāl lokāḥ\n\npunar āvartino 'rjuna\n\nmām upetya tu kaunteya\n\npunar janma na vidyate\n\n\n\n\"Desde o planeta mais elevado no mundo material até o mais baixo, todos são lugares de miséria onde ocorre o repetido nascimento e morte.\" (Bg. 8.16)\n\n\n\nMesmo em Brahmaloka, o planeta mais elevado no universo material, também está presente a repetição de nascimento e morte. Temos de ir ao planeta de Kṛṣṇa para nos libertarmos disto. Pode ser muito agradável ser um homem rico ou um homem belo, mas por quanto tempo permaneceremos assim? Não é essa a nossa vida permanente. Podemos permanecer eruditos, ricos e belos por cinquenta, sessenta ou, no máximo, cem anos, mas a vida verdadeira não dura cinquenta nem cem anos, nem mil anos, nem mesmo um milhão de anos. Somos eternos, e temos de alcançar nossa vida eterna. Todo o nosso problema é não a termos alcançado. Esse problema pode ser solucionado quando estamos conscientes de Kṛṣṇa.\n\n\n\nSe deixarmos este corpo material em consciência de Kṛṣṇa, não mais teremos de retornar ao mundo material. A questão é evitar por completo esta existência material. Não se trata de melhorar nossa condição no mundo material. Na prisão, um homem pode desejar melhorar sua condição para tornar-se prisioneiro de primeira classe, e o governo pode conceder-lhe status A, mas nenhum homem ajuizado se satisfará por tornar-se prisioneiro de classe A. Ele deve desejar sair inteiramente da prisão. No mundo material, alguns de nós somos prisioneiros de classe A, classe B ou classe C, mas, em todo caso, somos todos prisioneiros. O verdadeiro conhecimento não consiste simplesmente em obter um mestrado ou um doutorado, mas em compreender estes problemas fundamentais da existência.\n\n\n\nyasya sarve samārambhāḥ\n\nkāma-saṅkalpa-varjitāḥ\n\njñānāgni-dagdha-karmāṇaṁ\n\ntam āhuḥ paṇḍitaṁ budhaḥ\n\n\n\n\"Compreende-se que está em pleno conhecimento aquele cujos atos são todos desprovidos de desejo de gratificação dos sentidos. Os sábios dizem que ele é um trabalhador cuja ação fruitiva foi consumida pelo fogo do conhecimento perfeito.\" (Bg. 4.19)\n\n\n\nA palavra paṇḍitam significa erudito, e budhāḥ significa bem-versado. No Décimo Capítulo, encontramos também a palavra budhāḥ no verso budhā bhāva-samanvitāḥ (Bg. 10.8). Segundo o *Bhagavad-gītā*, alguém pode não ser um homem erudito apenas por ter recebido muita instrução de uma universidade. O *Bhagavad-gītā* diz que homem erudito é aquele capaz de ver tudo em nível igual.\n\n\n\nvidyā-vinaya-sampanne\n\nbrāhmaṇe gavi hastini\n\nśuni caiva śva-pāke ca\n\npaṇḍitāḥ sama-darśinaḥ\n\n\n\n\"O sábio humilde, em virtude do verdadeiro conhecimento, vê com visão igual um brāhmaṇa erudito e gentil, uma vaca, um elefante, um cão e um comedor de cães (pária).\" (Bg. 5.18)\n\n\n\nNa Índia, segundo a civilização Védica, um brāhmaṇa erudito é considerado o homem mais elevado na sociedade humana. O paṇḍita, que é erudito e gentil, vê tal brāhmaṇa no mesmo nível de um cão ou de um pária que come cães. Em outras palavras, não vê distinção entre o mais elevado e o mais baixo. Será que isto quer dizer que ser um brāhmaṇa erudito não é melhor do que ser um cão? Não, não é assim. Mas o paṇḍita os vê como iguais porque não vê a pele, e sim o espírito. Aquele que aprendeu a arte de ver a mesma alma espiritual dentro de cada ser vivo é considerado paṇḍita, pois, na realidade, cada ser vivo é uma centelha espiritual, parte integrante do completo todo espiritual. A centelha espiritual é a mesma em todos, mas está coberta por diferentes vestes. Um homem honrado pode apresentar-se com uma veste muito surrada, e nem por isso deve ser desonrado. No *Bhagavad-gītā*, estes corpos materiais são comparados a vestes usadas pela alma espiritual.\n\n\n\nvāsāṁsi jīrṇāni yathā vihāya\n\nnavāni gṛhṇāti naro parāṇi\n\ntathā śarīrāṇi vihāya jīrṇāny\n\nanyāni saṁyāti navāni dehī\n\n\n\n\"Assim como uma pessoa veste roupas novas, abandonando as velhas, de modo semelhante a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis.\" (Bg. 2.22)\n\n\n\nSempre que virmos qualquer entidade viva, devemos pensar: \"Aqui está uma alma espiritual.\" Quem quer que possa compreender tal visão espiritual da vida é paṇḍita. Cāṇakya Paṇḍita estabelece desta maneira o padrão para a educação, ou a qualificação para um paṇḍita: \"O homem erudito vê todas as mulheres, com exceção de sua esposa, como sua mãe; vê todas as posses materiais como lixo na rua, e olha para os sofrimentos dos outros como olharia para os seus próprios.\" O Senhor Buda ensinou que não devemos ferir nem mesmo os animais, por palavra ou ato. Esta é a qualificação para um paṇḍita, e este deve ser o padrão de vida. Compreende-se, portanto, que a pessoa deve ser considerada instruída de acordo com sua visão de vida e com sua atividade em conformidade com essa visão, e não por seus diplomas acadêmicos. Esta é a compreensão da palavra paṇḍita segundo o *Bhagavad-gītā*. De modo semelhante, a palavra budhāḥ refere-se especificamente a quem é bem-versado no estudo das escrituras. Os resultados de tal percepção e aprendizado escritural são assim descritos no *Bhagavad-gītā*:\n\n\n\nahaṁ sarvasya prabhavo\n\nmattaḥ sarvaṁ pravartate\n\niti matvā bhajante māṁ\n\nbudhā bhāva-samanvitāḥ\n\n\n\n\"Eu sou a fonte de todos os mundos espirituais e materiais. Tudo emana de Mim. Os sábios que sabem isto perfeitamente ocupam-se em Meu serviço devocional e Me adoram de todo o coração.\" (Bg. 10.8)\n\n\n\nA pessoa bem-versada, ou budhāḥ, é aquela que compreendeu que Kṛṣṇa é a origem de todas as emanações. Tudo o que vemos não é senão uma emanação de Kṛṣṇa. Por milhões e milhões de anos, a luz do sol emana do sol, e ainda assim o sol permanece como é. De modo semelhante, todas as energias materiais e espirituais provêm de Kṛṣṇa. Como resultado de saber isto, a pessoa torna-se devota de Kṛṣṇa.\n\n\n\nAssim, aquele que sabe que deve trabalhar em consciência de Kṛṣṇa, que não mais deseja desfrutar este mundo material, é de fato erudito. Todos trabalham no mundo material movidos pela luxúria (kāma), mas o homem sábio está livre dos ditames dessa luxúria (kāma-saṅkalpa-varjitāḥ). Como isto é possível? Jñānāgni-dagdha-karmāṇam: o fogo do conhecimento consome todas as reações das atividades pecaminosas. É o mais potente dos purificadores. Nossas vidas só têm sentido e direção na medida em que nos esforçamos por alcançar este conhecimento transcendental da consciência de Kṛṣṇa, a rāja-vidyā, que é o rei de todo conhecimento."}
